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14a edição | 1o Semestre 2018

SIM,

É POSSÍVEL

As respostas para as demandas sociais estão nas gerações Y e Z. Com novos processos mentais, aliados à descentralização da tecnologia, os migrantes e nativos digitais podem mesmo transformar o mundo


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TRANSFORMAR O MUNDO?

É

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POSSÍVEL Fibra de coco e resíduos petrolíferos não possuem nada em comum, aparentemente. Assim como tecnologia de ponta e cegos. A forma como as novas gerações pensam e a descentralização da tecnologia têm permitido que elas percebam, nos problemas sociais que as cercam, o desafio para transformar o mundo e empreender de forma inovadora Por Michele Bravos

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Em uma realidade polarizada e fragmentada, inovação e demandas sociais se entrelaçam, beneficiando-se de uma época em que o acesso à tecnologia não está concentrado em governos ou grandes corporações. Apontadas pelas novas gerações, as respostas para problemas socioambientais e humanos estão, assim, em ideias pouco conservadoras e encharcadas por conceitos como sustentabilidade e igualdade. Há menos de 30 anos, a tecnologia de ponta não estava na palma das mãos da população como está hoje. Considera-se que o primeiro smartphone da história surgiu em 1994. Era um aparelho ainda bem maior, mas já com funções inteligentes, diferente de seus antecessores. Nem de longe, contudo, estamos falando de algo parecido com os smartphones de 2018: finos, leves, com reconhecimento facial! Essa evolução aponta para algo essencial na percepção de ideias inovadoras, tendo a tecnologia como solução para demandas sociais. De acordo com Naira Libermann, coordenadora do Idear – Laboratório Interdisciplinar de Empreendedorismo e Inovação da PUCRS, falar de tecnologia não se resume ao desempenho de máquinas, mas das possibilidades que surgem a partir da interação com pessoas. "A tecnologia deve


NOVA SOLIDARIEDADE,

COMO FUNCIONA O BE MY EYES? Quando uma pessoa cega ou de baixa visão está na cozinha, por exemplo, e precisa encontrar um utensílio específico, mas está com dificuldade em achá-lo, ela pode entrar no aplicativo Be My Eyes e solicitar que um voluntário on-line lhe ajude. feita, então, uma chamada de vídeo pelo app, conectando a pessoa que necessita de ajuda com aquela que poderá prestar auxílio. A pessoa vidente vê, pelo vídeo, a cozinha – no caso do exemplo – e dá orientações quanto à localização do objeto procurado.

Ter nascido em uma era digital também influencia na prática da solidariedade. É com a mesma rapidez de suas mentes que os migrantes e nativos digitais pensam nas soluções e resolvem problemas sociais. São jovens mais ativos. Alecson Marcon, coordenador de Pastoral, do Colégio Marista Medianeira, de Erechim (RS)

© Ilustração: Freepik

ser vista como a capacidade para transformar capital intelectual. Buscar essa transformação de forma descentralizada e integrada entre governos, indústrias, universidades e sociedade é o que aponta para respostas de problemas sociais", afirma Naira. Ela ainda lembra que processos criativos sem validações práticas dificilmente se tornam respostas inovadoras. "Para ser uma inovação é preciso ter ação", diz. Para James Marins, presidente do Instituto Legado de Empreendedorismo Social e cocriador e professor do Programa de Pós-Graduação em Empreendedorismo e Negócios Sociais da FAE Business School, em Curitiba (PR), a descentralização da tecnologia tem uma capacidade transformadora exponencial. Como exemplo, ele cita o aplicativo escandinavo Be My Eyes, que consiste em conectar pessoas cegas ou de baixa visão com pessoas videntes, para que funções simples do dia a dia, como encontrar um utensílio na cozinha, sejam realizadas de forma mais simples e rápida. O aplicativo conta com mais de 600 mil voluntários videntes e mais de 45 mil usuários cegos ou de baixa visão. “Qual governo ou corporação isoladamente conseguiria mobilizar uma rede desse porte?”, indaga Marins.

NOVA ECONOMIA A crescente no acesso à tecnologia por parte da população mundial, combinada com os novos processos mentais das últimas gerações, impulsiona a solidariedade e a economia para uma direção diferente daquela com a qual estivemos acostumados até o momento. Os novos processos mentais impactam na forma como essas gerações se relacionam com as demandas sociais, como percebe o coordenador de Pastoral Alecson Marcon, do Colégio Marista Medianeira, de Erechim (RS). Segundo Marcon, “ter nascido em uma era digital também influencia na prática da solidariedade. É com a mesma rapidez de suas mentes que os migrantes e nativos digitais pensam nas soluções e resolvem problemas sociais. São jovens mais ativos.”

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o coordenador de Pastoral, esse comportamento dos jovens estimula as gerações passadas a se atualizem e se movimentarem na mesma direção. É o que ele observa nas relações da comunidade escolar: “O convívio entre as gerações é essencial para que pessoas de mais idade também inovem.” As gerações passadas, afinal, também pertencem ao presente. Ao se romper com discursos que negativam a tecnologia – em especial, uma de suas expressões: a internet – há muito a ser compartilhado e aprendido com as novas gerações também. “Essas novas gerações são menos materialistas que as anteriores. Os jovens não querem mais carros, mas meios de transporte eficientes. Daí o sucesso do Uber, por exemplo. Ainda que um jovem possa comprar um carro, ele pode não o fazer, por esse não ser mais um valor que se conecta com o seu estilo de vida”, afirma Marins.

TRANSFORMADORES SOCIAIS Tanto os migrantes digitais (nascidos entre o final da década de 1980 e o ano de 1995, também chamados geração Y) quanto os nativos digitais (nascidos entre 1996 e 2010, também conhecidos como geração Z) possuem consciência crítica sobre as desigualdades sociais em que a humanidade está inserida, o que evidencia a falência dos modelos que vêm sendo seguidos – e que necessitam ser modificados. Com muita criatividade e uma compreensão de solidariedade ativa, os projetos a seguir têm sido a resposta para algumas demandas da sociedade. Para saber mais sobre as diferenças geracionais, confira o artigo: "Conversadores, migrantes e nativos: as gerações e a internet" no site: bit.ly/2svmIVY

cada vez mais as empresas têm entendido a necessidade de se ter um propósito maior do que a obtenção de lucro, trabalhando para solucionar problemas socioambientais. Naira Libermann, coordenadora do Idear – Laboratório Interdisciplinar de Empreendedorismo e Inovação da PUCRS Ainda que a tecnologia de comunicação seja uma das mais conhecidas, há outras formas de tecnologia, como a nanotecnologia, a biotecnologia, a microtecnologia etc.

© Ilustração: Freepik

Conforme Marins, vive-se uma nova solidariedade, uma solidariedade planetária, que compreende as pessoas e o meio ambiente, como parte de um todo. O assistencialismo perde força nesse novo modelo mental, enquanto a responsabilidade pessoal em prol de uma transformação coletiva ganha espaço. “Buscar a transformação de um problema social é um novo passo que temos em relação à solidariedade”, aponta. Novos modelos econômicos também passam a ser acolhidos nesse cenário. Segundo Naira, “cada vez mais as empresas têm entendido a necessidade de se ter um propósito maior do que a obtenção de lucro, trabalhando para solucionar problemas socioambientais. São as “Empresas B”, que buscam respostas para como alcançar um bem mundial, fazendo o bem". Na lógica da descentralização, Marins afirma que as pessoas, diante de uma demanda social, passam a se perceber como parte da solução, e não apenas do problema. Esse é o caso dos fundadores dos projetos que compõem esta matéria, os quais também são considerados empreendedores sociais. “É dessa forma que se confere outra dimensão à tecnologia. Hoje, entende-se que a tecnologia é uma ferramenta utilizada por ser humanos para seres humanos, que necessita ser perpassada por valores humanos”, diz Marins. Essa linguagem é mais facilmente compreendida pelas gerações dos migrantes e nativos digitais, como percebe Marcon. Por isso, partem delas muitas das propostas inovadoras, usando a tecnologia para responder às demandas sociais. Sendo assim, é imprescindível o convívio entre diferentes faixas etárias. Para


JUNO RADIO

© Foto: Divulgação

A cada temporada de veraneio, seis toneladas de coco verde são acumuladas apenas na cidade de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo. Os restos que ficam nas encostas se tornam um propício criadouro para o mosquito da dengue, que transmite também o vírus zika e a chikungunya. Foi diante desse problema socioambiental e de saúde pública que Nubia Marques idealizou o projeto SorBio, em parceria com Aline Faustino Soares, desenvolvedora do projeto, e a mentora Patrícia Carbonari Pantojo. “Descobri, com pesquisas, que existia uma semelhança entre a fibra de coco verde e a turfa, que é um musgo encontrado apenas em regiões montanhosas do norte europeu. Aqui, no Brasil, a turfa é utilizada para agricultura em sua versão líquida e, em sua versão sólida, é utilizada na absorção do petróleo em caso de acidentes marítimos com vazamento. Fiz alguns testes e, já no primeiro, veio a surpresa: o SorBio consegue ser melhor do que a turfa na absorção do petróleo. Assim, surgiu esse projeto”, conta Nubia. Atualmente, o projeto encontra-se em fase de protótipo e está em busca de investidor-anjo ou patrocinador.

Onde a internet ainda não é uma realidade, as ondas de rádio podem trazer soluções. Um grupo de jovens de Curitiba (PR) desenvolveu uma solução que visa aprimorar a identificação de focos de incêndio para postos florestais em regiões que não possuem internet ou telefone. “O protótipo desenvolvido pelos jovens, chamado Juno Radio, recebe o sinal da Nasa do foco de incêndio e o transforma em ondas de rádio AM, com maior alcance. Assim, outro Juno Radio, ao receber esse sinal, notificará os responsáveis pela reserva florestal, informando a localização dos possíveis focos de incêndio da região”, descreve Arlete Scheleider, cofundadora do projeto Waas. A criação da solução veio durante a participação de uma competição promovida pela Nasa, em um evento chamado Nasa Space Apps Challenge, em Curitiba. A equipe do Juno Radio, integrada por dois participantes da Waas, foi a vencedora. A Waas, cuja sigla é We Are All Smart, em português: Somos Todos Inteligentes, trabalha com a premissa de preparar jovens para um futuro tecnológico. Ao perceber a existência de um déficit na educação – em especial pública – nessa temática, a Waas surge para mostrar aos jovens que, além de serem consumidores de tecnologia, eles podem ser produtores de tecnologia. “Os jovens são convidados a elaborarem respostas para problemas reais que eles identificam na escola ou na comunidade”, esclarece Arlete, que trabalha em parceria com Rennan Felipe Alves de Chaves, também idealizador e atual diretor-executivo, e Adão Lima, responsável pela comunicação visual do projeto.

© Fotos: Divulgação

SORBIO

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© Foto: Divulgação

P.A.R

Junto com aquela tempestade sempre vem uma preocupação com os aparelhos eletrônicos. Com informações empresariais e da própria vida pessoal armazenadas em equipamentos, a queima de um produto não ocasiona apenas um prejuízo físico e financeiro. Perder dados gera incômodo, dificulta processos e pode até significar uma perda de segurança, como afirma os fundadores do Protetor Autônomo de Rede (PAR). Foi pensando em uma solução para esse problema que os engenheiros Fernando Kiszewski e Paulo Weiss e o estudante de Graduação em Engenharia da Computação da PUCRS Gabriel Costa desenvolveram um sistema de proteção elétrica inteligente e proativo com viés de identificar mudanças climáticas e reagir a elas. "O protetor autônomo é similar a uma tomada, mas inteligente, ou seja, o sistema do qual essa peça faz parte tem autonomia para analisar uma situação – como uma mudança climática que pode ocasionar uma tempestade – e tomar uma decisão antecipada de proteção", diz Paulo Weiss.

© Fotos: Maria Eduarda Petek

MUDANDO REALIDADES COM CRIATIVIDADE

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Desenvolver um produto pode ser mais desafiador se atrelado a uma causa social. Na PUCRS, os estudantes de Design são convidados a criar algo que traga um benefício real para a sociedade. Em 2017, foram desenvolvidos papertoys para a ala de Pediatria do Hospital São Lucas. Os brinquedos são planejados para serem impressos em folhas A4 ou A3, permitindo que as crianças os pintem, recortem e montem. A ideia é que os brinquedos acompanhem as crianças no tratamento, amenizando os incômodos de estarem em um hospital. Os estudantes de Design também foram desafiados a criar produtos com materiais reciclados para serem incluídos na linha de produção de grupos de complementação de renda atendidos pela Associação de Voluntariado e da Solidariedade (Avesol). Era preciso utilizar apenas itens doados à ONG, como tecidos, lona, madeira e papel. Um dos projetos apresentados foi o Aflor, dos estudantes Henrique Nunes Lopes, de 19 anos, e Julia Canton, de 18, que elaboraram seus produtos feitos de lona com o conceito de transformação da natureza e diminuição de resíduos, tendo como referência a flor de lótus e as borboletas.


O projeto Médico de Bolso, dos estudantes Guilherme Heller Bier, Gabriel Marques Trzaskos e Bernardo Calcagnotto Appel, do Ensino Médio do Colégio Marista Pio XII, evidencia os primeiros passos de uma geração que busca soluções ao perceber problemas cotidianos. A ideia dos jovens consiste em um aplicativo com foco em análise prática de sintomas (como dores de cabeça, tontura, pressão baixa), auxiliando a população no entendimento e possíveis soluções para o que está ocorrendo em seu organismo. Com informações coletadas a partir de pesquisas com profissionais da área da medicina, o Médico de Bolso traz maior precisão em informações e tratamentos caseiros para patologias, sem a finalidade de substituir um médico. Orientados pelo professor de Tecnologias Educacionais, Eduardo Davi Wilhelm, o projeto foi premiado na 10a PioTeC – Mostra de Projetos de Tecnologias e Ciências realizada no Colégio em 2017, rendendo aos estudantes o passaporte para a Febrace (a maior feira pré-universitária de ciências e engenharias em abrangência e visibilidade).

© Foto: Acervo do Colégio Marista Pio XII

MÉDICO DE BOLSO

OLHANDO PARA A FRENTE

© Ilustração: Freepik

Para Naira, a inovação e a tecnologia ainda precisam caminhar para superar egos. "Se conseguirmos trabalhar em rede, iremos inovar mais. Precisamos criar projetos integrados, com recursos integrados. Isso quer dizer que agora é tempo de olharmos juntos para um mesmo território e cada um na sua área de conhecimento contribuir com soluções. Isso nos faz ganhar sinergia, tempo, dinheiro e maturidade. Dessa forma, viveremos a inovação para demandas sociais de forma global.

É dessa forma que se confere outra dimensão à tecnologia. Hoje, entende-se que a tecnologia é uma ferramenta utilizada por ser humanos para seres humanos, que necessita ser perpassada por valores humanos. James Marins, professor do Programa de Pós-Graduação em Empreendedorismo e Negócios Sociais da FAE Business School, em Curitiba

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Em Família Marista | Reportagem de capa  

14ªEd | 1º semestre 2018

Em Família Marista | Reportagem de capa  

14ªEd | 1º semestre 2018

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