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Promessa Eterna IMPRISONED BY A VOW

Annie West

Assinado e selado... Para sempre! Um casamento arranjado por seu padrasto é a única chance que Leila tem de conquistar sua liberdade. Mas em vez de se tornar uma mulher livre, ela é feita prisioneira de uma paixão avassaladora por seu enigmático marido. O bilionário australiano Joss Carmody conhece as regras do jogo: ele a mimará com diamantes e, em troca, usará as terras dela para expandir seus negócios. Esse é o único interesse de Joss. No entanto, ele não incluíra em seus planos a possibilidade de se sentir atraído por Leila. E uma noite que deveria ser apenas para satisfazer o desejo de ambos, acaba por uni-los além dos termos do contrato...

Digitalização: Simone R. Revisão: Bruna Cardoso


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Querida leitora, As heroínas desta edição de Jessica lutam para se livrar de figuras paternas opressoras. Em Perdão & paixão, a família de Siena perdeu toda sua fortuna, e agora ela precisa trabalhar com garçonete para se sustentar. Essa é a oportunidade perfeita para Andreas fazer Siena pagar pela humilhação que sofreu anos atrás. Dizem que a vingança é um prato para ser servido frio, mas Andreas acha que ele deve ser servido na cama! Para se livrar do domínio de seu padrasto cruel em Promessa eterna, Leila se casa com Joss, que vê a união como uma transação de negócios. Não demora a Leila se ver presa de novo, mas agora por uma paixão avassaladora. Joss, por sua vez, logo percebe que ela é muito mais que uma esposa troféu. Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books Tradução: Eugênio Barros HARLEQUIN 2013 PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: FORGIVEN BUT NOT FORGOTTEN? Copyright © 2013 by Abby Green Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance Título original: IMPRISONED BY A VOW Copyright © 2013 by Annie West Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance Projeto gráfico e arte-final de capa: Núcleo i designers associados Editoração Eletrônica: ABREU'S SYSTEM Impressão: RR DONNELLEY www.rrdonnelley.com.br Distribuição para bancas de jornal e revistas de todo o Brasil: FC Comercial Distribuidora S.A. Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4° andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Um — Casar-me com um estranho?! — Não pareça tão surpresa, garota. Não pode esperar que eu a sustente para sempre. Leila reprimiu a resposta de que os bolsos do padrasto estavam cheios por causa do casamento com sua mãe. Aprendera com os anos que desafiá-lo não valia a reação selvagem que se seguia. Não era hora de ele saber que não tinha destruído o espírito dela apesar dos esforços. — Vai se casar com o homem que eu escolher e ponto final. — É claro, padrasto, eu entendo. — Ela ouvira os empregados fofocando que Gamil estava de olho em outra noiva. Não ia querer uma enteada inconveniente, uma lembrança da ex- mulher. — É generoso em organizar isso, quando tem tantos negócios para resolver. Gamil baixou as sobrancelhas e estreitou os olhos como se detectasse o sarcasmo escondido na expressão calma. Leila tinha se acostumado a esconder emoções: tristeza, medo, tédio e, principalmente, raiva; que nesse momento queimava dentro dela, mas ela não demonstrou. Não era o momento. Seria em breve! Ocorreu a ela que um casamento arranjado com um estrangeiro que a levaria para longe era a chance pela qual estivera rezando. Suas tentativas anteriores de fugir haviam sido derrotadas e ela recebera restrições ainda mais severas. Mas o que Gamil poderia fazer quando já estivesse casada? Era sua chance de liberdade. A emoção correu por sua espinha, e ela precisou se esforçar para manter o rosto inexpressivo. Deste ponto de vista, casar-se com um desconhecido em uma fria transação de negócios era uma oportunidade do céu. — Não é apropriado que ele a veja assim. — Gamil acenou para os braços e pernas nuas dela, os sapatos de saltos altos e o delicado vestido de seda enviado de Paris. Mesmo sem um espelho, Leila sabia que sua aparência estava ótima. Tinha sido banhada e depilada. Seu cabelo e suas unhas, tratados pelos melhores especialistas. Uma virgem sacrificada em favor da ambição de Gamil, polida e enfeitada para a aprovação de um estranho! Leila mergulhou numa onda de indignação. Havia aprendido há muito tempo que a vida não era justa. E se esse esquema absurdo significasse uma chance de escapar e viver sua própria vida... — Mas é o que ele espera. Ele pode ter o melhor de tudo, especialmente mulheres. Típico de Gamil enxergar mulheres como mercadorias. Ele era totalmente misógino. Pior, era patologicamente controlador, deleitando-se com seu poder. Os olhos frios a encararam e a pele de Leila se arrepiou com o ódio. Um dia estaria livre desse bruto. Até lá faria o possível para sobreviver. — Não faça nada para desapontá-lo. Escutou? — Não farei. 3


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — E cuidado com a língua! Não faça seus comentários impertinentes. Fique em silêncio até que alguém lhe faça uma pergunta direta. GAMIL NÃO precisava ter se preocupado. Leila não falou quando Joss Carmody entrou na sala de estar. Sua respiração falhou enquanto enquadrava o rosto severo. Suas feições fortes não eram esculpidas, mas brutas com ângulos bronzeados e pontiagudos, linhas rígidas e sulcos profundos. O cabelo negro apesar de penteado para trás encaracolava no pescoço, e ela teve a impressão de que havia sido domado apenas temporariamente. Até que encontrou os olhos do homem e percebeu que ele poderia ter tudo menos falta de controle. Ele a examinou com a perspicácia de um banqueiro analisando relatórios financeiros. Os olhos de Joss Carmody eram azul-escuros. Quando a olhavam ela sentia uma curiosa sensação de aperto no peito. Sua pulsação acelerou enquanto ela ficou ali, hipnotizada. Certamente não era isso que esperava. Logo em seguida ele se virou para discutir negócios com Gamil. Petróleo é claro. O que mais faria um magnata australiano atravessar o mundo? Ou considerar casamento com ela? A terra que herdaria no casamento continha as últimas e maiores reservas de petróleo não explorado... Uma propriedade única que Gamil usava para aumentar seu prestígio. Ela observou Joss Carmody se sentar segurando uma xícara de café forte e dominando a sala sem esforço. Certamente mesmo os magnatas se interessavam mais por suas potenciais noivas do que isso! Era surpreendente que a indiferença do homem a irritasse. Depois de anos sob o regime brutal do padrasto, não devia se incomodar. Deveria estar agradecida por ele não demonstrar interesse. Ela não agüentaria se ele a olhasse como Gamil olhava para sua mãe... Com possessividade exagerada. Joss Carmody não a enxergou. Apenas uma porção de terra árida rica em petróleo. Estaria a salvo com ele. Joss SE virou para a mulher silenciosa à sua frente. O olhar verde-acinzentado dela o havia surpreendido. Ele sentiu inteligência, curiosidade e possivelmente uma ponta de desaprovação. Ficou intrigado. Agora olhava acanhada para a xícara de café em suas mãos. Ela era uma mistura da simplicidade do meio leste com a sofisticação do oeste. Do coque simples e escuro aos saltos altos que restringiam seu andar a um balanço delicado, ela era a pessoa certa. Classe. Ela tinha bastante. Ele não precisava ver o opulento pingente de pérola negra nem o enorme bracelete combinando para saber que estava acostumada ao luxo. Ela os usava com uma indiferença que apenas os nascidos numa vida de privilégios podiam alcançar. Por um átimo de segundo uma ponta de inveja o atingiu. Ele reprimiu a inveja, como fazia com qualquer emoção indesejada, e a avaliou. 4


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Ela parecia adequada. A posse dos enormes campos de petróleo a tornava bastante adequada. Fora a única razão pela qual ele considerara o casamento: para colocar as mãos no que seria a chave para seu próximo empreendimento. Além disso, ela tinha conexões e conhecimento bastante úteis. — Gostaria de conhecer melhor sua filha — disse Joss. — Sozinho. Houve algo no olhar de Gamil. Medo ou especulação? Joss ponderou. Certamente o velho não estava com medo de que ele avançasse em Leila. Como se Joss não tivesse mulheres suficientes para satisfazer qualquer vontade sua! — Esteve muito quieta. Não se interessa pelos campos de petróleo? — Não havia muito a acrescentar — disse ela com olhos frios e um inglês perfeito. — Você e meu padrasto estavam envolvidos com seus planos. — Você desaprova? Ela deu de ombros e ele observou intrigado enquanto a seda escorregava, moldando a bela figura feminina. A noiva escolhida tinha curvas nos lugares certos apesar da fragilidade de seus pulsos e garganta. Ela era parte necessária do acordo, mas ele não esperava sentir mais do que uma leve curiosidade a respeito dela. Sua sensação masculina no baixo- ventre o surpreendeu. Ele não esperava uma beldade. Pelo menos estar com ela ocasionalmente não seria um fardo. — Os campos serão desenvolvidos. — A voz baixa dela tinha um tom rouco que deixou a pele dele cheia de expectativa. — Você tem os recursos, e meu padrasto mantém interesse nos negócios da família. Em outras palavras, ela não ocupava sua mente com detalhes sórdidos como de onde vinha o dinheiro. Por que não estava surpreso? Conhecera muitas como ela: privilegiadas, mimadas e ansiosas para viver do trabalho duro de outra pessoa. — Não trabalha nas indústrias? Não se interessa pelos seus bens? Um brilho iluminou os olhos dela. Suas narinas se abriram e a boca se curvou em outro meio-sorriso enquanto ela se inclinava para colocar a xícara na mesa. Joss teve a impressão de algo se movendo como uma correnteza debaixo daquela expressão calma. Algo que tornava o ar pesado. — Meu padrasto cuida de tudo. — Contudo, alguma coisa não se encaixava, talvez a maneira como ela apertava os lábios um pouco demais. Então a impressão passou, deixando Joss ponderando sobre seus devaneios. Imaginação hiperativa não era seu estilo. Estava acostumado a lidar com homens tão rudes quanto ele. A vida nas minas o deixara sem jeito para lidar com mulheres delicadas exceto por motivos básicos. Sua virilha enrijeceu quando imaginou sua futura noiva perdendo o ar superior e ficando quente e ansiosa sob seu toque. Sentiu satisfação até que se lembrou de que não era isso que ele queria com a negociação. Ela o distraíra. — Espera que seu marido cuide dos negócios enquanto aproveita os frutos do trabalho dele? Ela lançou um olhar para a porta. — Perdoe-me. Talvez tenha tirado conclusões precipitadas. Pensei que me quisesse como uma parceira silenciosa enquanto cuida dos negócios. — O olhar dela pareceu inocente. — Aceitaria minha interferência? Pela primeira vez em mais de uma década ele se sentiu mal interpretado. Foi 5


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West uma ilusão, certamente. Estava no comando do esquema, incluindo os arranjos do casamento. Não queria a intromissão amadora dela. Já era ruim demais ter que agüentar as idéias desinformadas do padrasto até fechar o negócio. — Se tiver experiência na área, gostaria de ouvir. — As palavras foram simples formalidade. Joss trabalhava sozinho. Só havia espaço para um comandante em seu império. — Claro que suas conexões com figuras importantes da região serão importantes. — Claro. — A falta de expressão nos olhos dela deixou claro que ela já perdera o interesse. — Pena que não tenho experiência em petroquímica. — E no que tem experiência? Ela olhou para a porta. Se não fosse a serenidade dela, ele poderia acreditar que ela estivesse com medo de dizer a coisa errada. — Duvido que se igualem às suas. Estou mais voltada para o lado doméstico. — Como, por exemplo, compras? — Esse desejo de sondar a serenidade dela o surpreendeu. Por que precisava entendê-la? Para dar-lhe o rótulo de “herdeira egocêntrica”? Porque ela seria sua esposa. Depois de 32 anos, ele finalmente teria uma esposa, mesmo que para satisfazer seus interesses comerciais. Casamento ia contra suas inclinações. Sua vida era um conto preventivo sobre os perigos inerentes a ele. Mas as forças comerciais decidiram por ele. Ela era um bem comercial. — Como adivinhou que adoro fazer compras? — O brilho dos olhos dela e a energia pairando entre eles diziam que algo mais se passava naquela cabeça. — Só não quero que pense que procuro alguém para me domesticar. Ela riu deliciosamente, enviando uma sensação que enrijeceu a pele e atingiu os órgãos dele. Ele se empertigou, mas ela já tinha fechado os lábios. Domesticar Joss Carmody! Quem, em sã consciência, aceitaria esse desafio? Ele era um homem grande e rústico com determinação de aço. Teria que ser alguém tolamente intoxicada pela aura de poder e pelo toque de sexualidade masculina. Alguém estúpida o bastante para achar que ele realmente se importaria. Ela podia perceber que ele não era como Gamil. Contudo, diante dos olhos friamente calculistas da autoconfiança formidável e do ego monumental, Leila enxergava algumas semelhanças. Joss Carmody não tinha um lado gentil. — Não se preocupe — disse Leila horrorizada que a surpresa tivesse provocado uma reação genuína. — Nem pensei nisso. — Tem certeza? — Ele fez cara de descrença. Leila supôs que ele se visse como um prêmio matrimonial. Com sua aparência e riqueza obscena, as mulheres deviam se jogar aos seus pés. Porém, certamente ela não era a única a enxergar a realidade: um homem contido, perigoso e definitivamente não domesticável. — Por mais surpreendente que pareça, tenho certeza. — Para seu espanto Leila sentiu a provocação em seu próprio tom de voz. A expressão dele dizia que também ouvira. Depois de anos contendo as palavras, como podia ter se sabotado agora? Onde estava sua compostura conseguida com tanta dificuldade? Mesmo Gamil não conseguia mais provocar uma explosão. Era vital satisfazer as expectativas 6


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West do australiano se quisesse que o casamento acontecesse. — Então, o que imaginou Leila? — disse como se saboreasse o nome. Os pelos de seu braço e nuca se arrepiaram. Nenhum homem havia pronunciado seu nome assim: um desafio e um convite ao mesmo tempo. Sua garganta esquentou ao perceber que entrara em águas perigosas. Ele não a ameaçava como Gamil, mas ela sentia o perigo no convite provocante. Não o perigo do castigo físico, mas algo mais pérfido. Sua falta de experiência com homens não estava ajudando. Ela piscou. Gamil com certeza estava escutando escondido pronto para puni-la. A risada fora um erro, ela percebeu, pela surpresa de Joss. Mesmo assim não se arrependia. Ele merecia ficar chocado mesmo se o padrasto a fizesse pagar mais tarde. — Pensei que estivesse interessado na minha herança, não na minha pessoa. — Ela manteve o tom calmo para não revelar a importância da resposta. — Não procuro uma herdeira e não quero brincar de família feliz. Pelo menos não esperava intimidade. Ficou aliviada. Estivera se perguntando se quando chegasse o momento seria capaz de se vender a uma relação íntima para poder escapar. Imaginou também a logística do desaparecimento tão logo se casassem para evitar ceder fisicamente a um homem que não queria. Agora parecia que não precisaria. Eram apenas negócios. Ele ganharia as reservas de petróleo e Gamil ganharia dinheiro e status. Ela deveria estar emocionada com a oferta de casamento de Joss Carmody; embora, pensando bem, não tivesse havido oferta alguma. Foi um acordo entre homens poderosos. Reprimiu a indignação instintiva como um luxo que não podia ter. — Não quero uma esposa que faça exigências. — Claro que não. — Ela não conseguia imaginá-lo aceitando laços emocionais. E também não queria nenhum. — Diga-me, Leila — a voz profunda fez a pele dela estremecer —, por que quer se casar comigo? Seu cérebro congelou enquanto observava os lábios esculpidos pronunciarem seu nome, sentindo novamente o tremor. Então respirou fundo com o cérebro funcionando a todo vapor considerando as possibilidades. Diga o que ele espera ouvir e feche o negócio. — Pelo que você pode me dar. — O aceno quase imperceptível confirmou que ela estava no caminho certo. — Para ver o mundo e viver a vida de esposa de um bilionário. Bakhara é meu lar, mas é muito limitante. Casada com você minha vida mudará para sempre. Os olhos escuros chegaram tão perto que ela viu o momento exato da tomada da decisão. Os olhos brilharam em aprovação. Joss Carmody sabia o que queria. Uma esposa que não tumultuasse sua vida. Que se casaria com ele por causa da riqueza e do prestígio. Que fosse às compras e se divertisse enquanto ele tratava de fazer mais dinheiro. Era movido a dinheiro. Nada mais. O que faria se percebesse que significava apenas uma coisa para ela? Fuga. 7


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Ele está atrasado! — Gamil andava pelo jardim cuidadosamente cultivado pelos ancestrais de Leila, uma viçosa cama verde em uma terra quente e quase sem chuvas. — O que disse a ele? Deve ter sido você. Tudo estava arranjado. Não havia razões para recuar a menos que pusesse dúvidas em sua cabeça. Ela não reagiu, pois conhecia as conseqüências. — Você ouviu tudo que falamos. Até demais. — A ousadia de ter rido da autoconfiança de Joss Carmody lhe custara semanas de castigo a pão e água. Felizmente as porções cresceram nas últimas semanas para que não estivesse tão fraca na hora do “sim”. — Verdade — disse Gamil irado. — Ouvi você fazendo jogo de palavras! Obviamente foi o bastante para fazê-lo pensar melhor. Como vou manter a cabeça erguida se for descartada pelo homem? Pense na minha reputação, minha perspectiva no tribunal! Tenho planos... Ele andou até o outro lado do jardim resmungando. As mãos se fechavam como se prontas para esganar alguém Seu padrasto raramente recorria à violência física, preferindo métodos mais sutis. Mas ela não tinha ilusões de estar a salvo se ele ficasse realmente irritado. Leila pressionou as mãos. Desejou que Joss Carmody irrompesse através das portas ornamentais do jardim. O medo atacou seu estômago. Gamil estava certo? O australiano tinha realmente desistido? Que seria de seus planos de fuga e da carreira que sempre quisera? Não! Não podia pensar assim Ainda havia tempo, embora ele estivesse 90 minutos atrasado e os convidados já tivessem sido introduzidos no salão. O calor encheu o pátio. Leila enrijeceu a espinha, cansada contra a compulsão de admitir derrota. Quantos anos mais agüentaria? Esse último período de confinamento quase a despedaçou. Gamil havia despedaçado sua mãe, destruindo seu otimismo vibrante e seu amor pela vida. Leila havia assistido à mudança de uma beldade charmosa e extrovertida interessada em tudo e todos. Em poucos anos fora transformada de anfitriã da sociedade para a brilhante carreira diplomática de seu primeiro marido para um espectro oprimido e apagado. Ela perdera a vontade de viver muito antes de a doença levá-la. Leila levantou a cabeça para sentir o sol nas faces. Não sabia quando teria chance de senti-lo de novo. Apesar da fina renda de seda, das belas decorações de hena em suas mãos, do peso das jóias tradicionais no pescoço e orelhas, Leila não era uma princesa mimada, mas uma prisioneira. Se Joss não aparecesse essa poderia ser sua última oportunidade de estar livre até que completasse 25 anos, o que aconteceria em 16 meses. — O que está fazendo aqui fora neste calor? — A voz profunda invadiu os pensamentos dela e atingiu seu plexo solar. Ele veio! Ela abriu os olhos. Diante da visão da figura imponente, das mandíbulas poderosas e dos olhos penetrantes, Leila se viu sorrindo de alívio. Seu primeiro sorriso genuíno em anos. A sensação de músculos esticando até doer era estranha em seu mundo de emoções contidas. Joss parou atingido novamente pela curiosa combinação de fragilidade e compostura. O toque de aço nas formas delicadas. Ela parecia mais magra, as 8


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West mandíbulas mais pronunciadas e o pulso muito estreito. Os olhos se abriram as pupilas dilatadas em tons de cinza. Depois, tons aveludados de verde começaram a surgir, tornando aquele olhar encantador. Ela sorriu. Não o sorriso contido de um mês atrás, mas um sorriso largo que fez algo se mexer no estômago dele. Seduzido, ele absorveu a visão, o calor da aprovação sincera, o prazer que o levou a se aproximar. O forte perfume de rosas encheu suas narinas e bloqueou suas sensações. Não combinava com ela. Mas então essa mulher coberta de refinamentos do casamento tradicional de sua terra parecia tão diferente daquela cuja contenda verbal o intrigara há um mês. — Estava esperando por você. — Não havia rancor em sua voz, mas o olhar era de quem esperava uma explicação. Um jorro de calor esquentou a pele dele. Culpa? Gamil não ousou repreendê-lo sabendo que Joss vivia sob suas próprias regras. Não estava nem aí se suas prioridades não fossem iguais às de ninguém Para ele os negócios vinham primeiro. Sempre. Os telefonemas urgentes que recebera pela manhã necessitavam de medidas imediatas, enquanto o casamento poderia ser atrasado. Todavia, ao ver os olhos desapontados de Leila, Joss teve a desconfortável e incomum sensação de causar decepção. Trouxe lembranças de sua infância, quando nada que fizesse atingia as expectativas. O pai, muito rígido, queria um clone de si mesmo: totalmente implacável. A mãe... Só de pensar nela já suava frio. Espantou as memórias tristes. — Esperou aqui fora? Não podia ter esperado lá dentro? Você parece... — ele chegou mais perto, notando o suor na testa e acima dos lábios — não estar bem O sorriso dela esmoreceu e o olhar baixou. O calor no estômago dele acalmou instantaneamente. — Meu padrasto organizou a cerimônia para acontecer aqui. — Ela apontou para o elegante dossel de seda. Joss desviou o olhar. Havia vasos de rosas muito perfumadas, mobília ornamentada, guirlandas de flores, tapetes ricamente tecidos à mão e tecidos finos decorados com lantejoulas. — Ele claramente não está familiarizado com a idéia de que menos é mais — murmurou Joss. Uma risada reprimida chamou a atenção dele, mas Leila já estava se virando para responder a um comando brusco do padrasto. Debaixo da seda fluida de seu vestido ela enrijeceu. Andou vagarosamente como se relutasse. Joss observou a interação deles. Um decisivo e exigente, o outro estranhamente quieto. Seus pelos se arrepiaram. Ele atravessou o jardim para se juntar à sua noiva. Por razões que não entedia, seu prazer na ação bem-sucedida daquele dia esmoreceu. Estava irritado. O casamento estava no fim. A cerimônia foi curta, os presentes, abundantes, e o banquete, enorme, embora Leila não tivesse conseguido comer muito. Depois de comer tão pouco por tanto tempo ficava enjoada só com o cheiro de comida, e a sala girava se ela se movesse rápido demais. Precisou de forças para reprimir a animação. Em breve estaria longe da casa do padrasto para sempre. Seria a esposa de um homem que não iria tirar 9


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West vantagem dela. Ele a levaria dali interessado apenas nos campos de petróleo que ela herdara. Eles negociariam um acordo adequado... Casas separadas e depois, finalmente, um divórcio discreto. Ele teria a terra e ela estaria livre para... — Leila. — A voz profunda a envolveu. Ele ofereceu-lhe uma taça pesada. Ela bebeu obediente, reprimindo a tosse por causa da forte bebida tradicional: uma mistura feita para elevar a consciência física e aumentar a potência sexual. Joss levantou a taça e bebeu. A multidão ovacionou a aprovação. Quando olhou para ela novamente, seu olhar estava diferente. A pele de Leila se aqueceu. Foi como se ele a acariciasse com os olhos, nas bochechas, na garganta e, por fim, nos lábios. Algo brilhou nos olhos dele. Especulação. Ela se recostou agarrando os braços da cadeira enquanto era tomada por uma profunda ansiedade. — Você é uma bela noiva, Leila. — As palavras eram banais, mas o calor no olhar dele era verdadeiro. — Obrigada. Você é um noivo muito atraente. — Ela nunca vira um homem de terno tão elegante e com aquele toque de poder predatório. Joss sorriu. Um momento depois, o som da gargalhada dele preencheu o espaço entre eles. — Grande elogio! Obrigado, minha esposa. Ela não soube se foi o som inesperado da risada dele ou o carinho aveludado do olhar, mas Leila sentiu uma repentina torrente de emoção. De repente o casamento não parecia tão simples. Ela passara muito tempo choramingando sobre a fuga, focada em ultrapassar a cerimônia. Agora ocorreu a ela que talvez ele tivesse outras idéias sobre o que aconteceria depois da festa. Leila estremeceu. Pela primeira vez, percebeu que Joss Carmody poderia ser perigoso de uma maneira que ela nunca havia considerado.

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Capítulo Dois — Houve uma mudança de planos — disse Joss enquanto a limusine avançava. — Vamos direto para o aeroporto. Preciso estar em Londres. Ele se virou para sua noiva surpreso ao encontrar a atenção dela fixa na parte de trás da cabeça do motorista. Ela não tomou conhecimento dos convidados que vieram se despedir. Nem mesmo acenou para o padrasto ao atravessarem os portões. Com o lenço com fios de ouro escondendo o rosto dela, Joss via apenas uma parte do nariz reto e elegante. — Leila? — Ele se inclinou — Ouviu o que eu disse? As mãos dela estavam entrelaçadas sobre o colo. O que foi agora? Ele não tinha tempo para jogos femininos. Já tinha perdido uma tarde inteira brincando de noivo atencioso. — Leila, olhe para mim. O comando fez à mágica e ela se virou instantaneamente. Seus olhos estavam acinzentados, arregalados e sem foco. Sua pele estava pálida. Ele ficou impaciente. Qual era o problema? Algo com que teria que lidar sem dúvida, quando tudo que queria era voltar aos negócios. Ele deveria saber que o casamento complicaria seus planos. Adquirir uma esposa ia contra todos os instintos, embora os benefícios comerciais tivessem pesado mais do que os pontos negativos. Todavia, junto com a impaciência veio uma ponta de preocupação. — O que foi Leila? Está se sentindo mal? — Não — disse ela roucamente, como se sua boca estivesse seca demais. — Nunca fico doente. — Seus lábios sombrearam um sorriso. Joss ficou em silêncio. Algo definitivamente estava errado. Pensou que desde que não o afetasse não importava. Não era dono de sua esposa. Mas ficou curioso. E reconheceu um desejo verdadeiro de confortar o que ele achava que fosse dor por trás das belas feições pálidas. — Gostaria que parássemos o carro? — Depois do longo casamento, ele não acreditava que estava oferecendo mais atraso. — Poderíamos voltar para casa e... — Não! — A voz dela ficou estridente e seu rosto, animado finalmente. — Não — repetiu ela, mais calmamente. — Não é necessário. Foi sua imaginação ou havia súplica na voz dela? — Como quiser. — Ele se inclinou e abriu a geladeira da limusine. Ignorando a garrafa de champanhe que algum empregado romântico colocara ali, Joss pegou uma garrafa de água. Abriu e entregou a ela. Ela pegou, mas não bebeu. Será que estava esperando um copo de cristal? Não ficaria surpreso, considerando a vida mimada que ela levava. — Beba — ordenou. — A menos que prefira que eu chame um médico. Ela ergueu a garrafa e tomou um gole. A cor retornou instantaneamente às suas bochechas. Pensando bem, ele não se lembrava de vê-la bebendo nada na festa, exceto quando oferecera a taça a ela. E também mal havia tocado em sua 11


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West comida. — Você precisa comer. — Ele pegou os salgadinhos. — Não, por favor. — Ela balançou a cabeça. — Não estou com fome. Água está ótimo. Os olhos de Joss se estreitaram diante do ângulo pontudo da mandíbula saltada quando ela inclinou a cabeça. — Sinto-me bem melhor agora. — Desta vez ela quase o convenceu. Sua voz estava mais firme e seu olhar, direto. — O que estava dizendo sobre mudança de planos? — Não ficaremos em Bakhara — respondeu ele. — Preciso estar em Londres esta noite. Ele poderia ir sozinho. Mas acabara de adquirir uma anfitriã de procedência impecável, trato social e postura que seria um bem valioso em suas novas negociações. Pretendia fazer uso dela. Além do mais, ele não via razões para sabotar a ficção de que fossem um casal. Deixar sua esposa na noite de núpcias seria notícia inconveniente de primeira página. Se ela tivesse que ser útil, seria ao seu lado. — Londres? Isso é maravilhoso! O sorriso incandescente de Leila o atingiu. Não a curvatura educada de lábios que oferecera antes, mas um brilhante e largo sorriso. O mesmo que havia dirigido a ele quando chegara ao casamento. O impacto do sorriso fez seu pulso acelerar. Ela era bonita. Estonteante. Como não tinha percebido? Havia achado que ela era elegante. Agora a simples exuberância dela balançava seus sentidos. Com as faces coradas, os lábios entreabertos de prazer e os olhos dançando, ela seduzia de uma maneira que nenhuma supermodelo sexy poderia fazer. Uma sensação desconhecida apareceu em seu peito e Joss ficou surpreso ao perceber que eram seus pulmões lutando para bombear oxigênio. Talvez o que quer que incomodasse Leila o incomodasse também. Sua reação a ela era sem precedentes. — Estou feliz que esteja animada com uma viagem a Londres. Joss nunca fora dominado pela atração por uma mulher. Ele era assim Um desperdício emocional, uma senhorita o acusara às lágrimas, quando ele destruíra as esperanças de viverem felizes para sempre. Ele desejava as mulheres. Gostava do prazer que elas proporcionavam Mas nunca mexiam com ele. Quanto às emoções... Fora curado delas na juventude. Tendo crescido em uma família disfuncional e aprendido cedo o poder destrutivo do tal de “amor”, Joss jamais quisera algo parecido novamente. Nada de emoções ou envolvimentos nem dependentes. Seu estômago virava só de pensar em filhos e uma esposa dependente. Apenas um negócio como esse, baseado em simples aquisições financeiras e sem expectativas emocionais, poderia tê-lo convencido a se casar. Joss era um solitário de coração. — Já esteve em Londres? — Ele deveria saber mais sobre a mulher que seria sua anfitriã. Ela assentiu sem perder o sorriso. 12


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Nasci lá. Depois nos mudamos para Washington quando meu pai assumiu outro cargo diplomático, depois Paris e Cairo, com pequenos períodos em Bakhara. Voltamos para Londres quando eu tinha 12 anos. — E você gostou? Deve ter amigos para rever! O sorriso dela desbotou e ela afastou o olhar. Ocorreu a Joss que ela mantivera os olhos fixos nele durante toda a conversa. Sentiu uma estranha... Falta deles, agora que os desviara. Ela deu de ombros. — Talvez. — Então está ansiosa pelas compras? — Não, eu... — Ela se virou para olhar para ele, mas desta vez os cílios cobriam os olhos. Será que percebia como aquele olhar era sexy? — Bem, claro que as compras fazem parte da experiência londrina. — Ela sorriu, mas desta vez não causou o mesmo impacto. Ótimo. Aquela reação anterior foi uma aberração. Não tinha intenção nenhuma de sentir nada pela esposa além de satisfação pelos benefícios que ela trazia para o seu balanço financeiro: recursos a serem explorados e conexões pessoais na região. — Posso ver que vai se divertir em Londres. — Ele imaginara se não teria que encarar uma súplica para permanecerem em Bakhara depois do casamento. Ficou feliz por ela ser razoável. Funcionariam bem juntos. — O avião estará pronto para decolar assim que chegarmos ao aeroporto. — Mas... — ofegou ela. — Meu passaporte! Não posso... — Pode, sim. Seu passaporte está no avião. — Mesmo? Não teve problemas em pegá-lo de... Da casa? — Meus empregados pegaram. Acredito que não houve dificuldades. — Joss podia jurar que ela ficara chocada. — Algum problema? — Problema? Claro que não. Eu só... — Ela balançou a cabeça. — Está tudo perfeitamente bem, obrigada. Quanto tempo até chegarmos ao avião? Joss se recostou intrigado pelas emoções que vira no rosto da esposa. Ele a classificara como uma mulher sofisticada e mimada que não dava valor para viagens e privilégios. Foi uma surpresa encontrar mais em Leila do que ele esperava. Se tivesse inclinações, quase ficaria tentado a descobrir mais. Quase. Ele tinha outras prioridades. — Estamos chegando. As palavras foram música para os ouvidos de Leila. Escapar, não apenas do padrasto, mas de Bakhara, parecia bom demais para ser verdade. Apesar de amar sua terra, não se sentiria a salvo de Gamil até que estivesse a um continente de distância. Ela achava que teria que ficar no país por mais algumas semanas e que, de algum modo, Gamil convenceria Joss a deixá-la para trás quando partisse. As poucas vezes que conseguira escapar não tinha ido muito longe. Os empregados de Gamil a encontravam e arrastavam de volta e a cada tentativa os castigos ficavam mais severos. O dinheiro e o poder legal de Gamil como seu guardião o colocavam no controle até que ela se casasse ou completasse 25 anos. Ele restringira suas viagens, educação, amizades e seu dinheiro. Mesmo estando casada ela temia que ele encontrasse uma maneira de 13


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West impedir sua fuga. Mas agora... Liberdade! Podia sentir o gosto doce e cheio de promessas. A emoção quase encobria o estranho desconforto que sentia. Já fazia mais de 12 meses que não saía de casa. O espasmo nos músculos do estômago, o pânico que agarrou sua garganta e fez seu coração acelerar quando ela deixou a casa vieram do nada. Não conseguira nem mesmo se despedir dos convidados tamanha sua concentração em superar a tensão. Como se estivesse com medo de alcançar a liberdade. Ridículo! Durante anos não fizera nada a não ser planejar a escapada. Foi apenas a grande quantidade de comida depois de comer tão pouco que virou seu estômago. Os aromas do banquete e o barulho das conversas depois de tanto tempo em silêncio a deixaram tonta. Ou talvez fosse a animação de estar tão perto da fuga. Medo de que, na última hora, algo desse errado. Ela sabia muito bem como Gamil gostava de brincar com suas vítimas... Apresentar a ilusão da liberdade e depois arrancá-la de volta. Ela observara isso acontecer com sua mãe. Leila prometera não deixá-lo levar a melhor. Ela estremeceu com a lembrança. — Está com frio? — Nem um pouco. Nada impediria que ela embarcasse naquele avião. Aquele seria o primeiro dia de sua nova vida longe do homem que transformara sua vida e a de sua mãe num inferno. Em breve colocaria seus planos em ação. Firmar-se com o dinheiro que ganhara no casamento e retomar seus estudos. Construiria uma nova vida sem ter que pedir permissão a ninguém A alegria a invadiu. Era real. Joss já havia obtido seu passaporte. A limusine atravessou um portão e em instantes encostou ao lado de um jato lustroso. Empregados esperavam para embarcá-los. — Pronta? — O rumor profundo da voz do marido atingiu a espinha de Leila e fez sua pele tinir. Mas ela lembrou a si mesma de que era seu marido apenas no papel. O instrumento para sua fuga. — Pronta. — Abriu a porta do carro ansiosamente antes de o chofer alcançá-la. O ar quente e desértico encheu o carro. Ela agradeceu ao motorista, encarou a tripulação alinhada na base da escada e agarrou a porta do carro, quando seus joelhos fraquejaram abruptamente. O mundo girou. O céu era infinito em direção ao horizonte distante. Tão imenso e tão vazio como se tivesse o poder de sugá-la. A dor bateu em suas têmporas. Seu coração disparou. Ouvia o som do sangue pulsando. Um terror arrastado se agarrou nela. Ela sabia que seria pressionada pela sensação até que o espaço infinito a engolisse. Leila não conseguia respirar. Todavia, lutou para permanecer em pé. Ouviu o chofer dizer algo e Joss veio ao seu encontro. Ele parecia estar atrás de um vidro. Tudo estava distante exceto o calor, o peso do ar a empurrando e a forte batida de seu coração enquanto o pânico se apoderava dela e seu estômago se contorcia. Adrenalina surgiu quando ela lutou contra o impulso de voltar para o carro, para dentro do casulo de segurança que acenava para ela tentadoramente. 14


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Não ia fazer isso. Não voltaria de jeito nenhum Todavia, foi tudo que pôde fazer para manter os pés no chão. — Leila! — Desta vez ela ouviu Joss, Havia preocupação no tom brusco. — O que foi? Ela respirou fundo e com um esforço furioso endireitou os ombros. Levantou o queixo, engolindo com dificuldade. O olhar de Joss a fez se lembrar de que era forte. Sobrevivera por anos com o padrasto perigosamente controlador. Passara pela farsa do casamento que fora só uma transação comercial, sem amor. Certamente podia andar até o avião. A idéia de ser levada de volta para a capital, talvez para seu antigo lar à mercê do padrasto, foi uma ducha de água gelada. — Desculpe — disse com a voz estranha. — Minhas pernas estão duras por ficar muito tempo sentada. — Tentou sorrir. — Ficarei bem em um minuto. — Pelo menos sua voz não estava tão oscilante. Joss disse algo aos seus funcionários, que saíram de vista. Leila respirou de novo. Esse medo era irracional. Teria que ultrapassá-lo. Tentou caminhar ainda segurando a porta do carro. Suas pernas estavam tremendo. Deu um segundo passo em direção ao avião. Só 20 passos até a porta. Ela conseguiria. Esforçou-se para soltar a porta do carro e com toda sua força caminhou para o avião. De repente foi levantada por braços fortes e aninhada contra um corpo sólido cheirando a sabonete cítrico e aroma de pele masculina. Um fio de calor atravessou seu corpo gelado. Ela sentiu a tranqüilizante batida do coração de Joss. Naquele momento seu protesto instintivo desapareceu. Não importava que odiasse a idéia de precisar de ajuda. Ou que Joss só fizera aquilo porque não podia deixar a esposa caída na pista. Pela primeira vez desde a morte da mãe, Leila conheceu o conforto de ser abraçada. O choque ajudou a acalmar seu coração acelerado. — Relaxe — disse Joss, como se lidar com uma mulher desmaiada não o perturbasse. Talvez estivesse acostumado com mulheres caindo aos seus pés. — Levarei você para um lugar calmo. — Posso andar. Quero embarcar no avião! — Ela levantou a cabeça e se viu olhando de perto para a mandíbula sólida e o lábio cheio. Olhos azul-escuros a fixavam, cheios de especulação. As sobrancelhas se arquearam como se ele registrasse o desespero dela. A ansiedade ainda dançava como uma droga em sua corrente sanguínea, mas ela encarou o exame minucioso com toda dignidade que conseguiu administrar. — Por favor, Joss. — Foi a primeira vez que ela disse o nome dele, e o fez com uma facilidade que a surpreendeu. — Ficarei bem quando embarcarmos. Ele hesitou e os nervos de Leila ficaram a ponto de se romper. Ela observou a fronte dele se vincar enquanto a examinava detalhadamente. — Muito bem. Vamos para o avião. Leila inspirou para encher os pulmões. — Obrigada. — Ela fechou os olhos para tentar acalmar a respiração, desejando que a pulsação desacelerasse. Então o sentiu se mover, mas não abriu os olhos. Era o bastante sentir os músculos a envolvendo e a sensação de 15


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West segurança infiltrando seu corpo rígido. Não se deixou questionar por que se sentia segura nos braços de um estranho. — Desculpe — sussurrou ela. — Não costumo ter... — O quê? O que havia de errado com ela? — Normalmente posso andar e conversar ao mesmo tempo. — Um acesso de riso balançou o cabelo de sua testa. — Sem dúvida. Não esqueça que já vi você atuando como anfitriã, lidando com um marido desconhecido na frente de centenas de convidados mantendo a postura sem pestanejar. Os olhos de Leila se abriram diante do tom de humor perverso na voz aveludada. Ficou... Assustada. Ela achava que Joss Carmody fosse carrancudo demais para o humor. Focado demais para a simpatia, especialmente por uma esposa que não queria. Tivera certeza de que, quando ele olhava para ela, só enxergava uma extensão de terra pronta para o desenvolvimento. — Foi uma comemoração pequena para os padrões de Bakhara — murmurou ela concentrando-se no rosto dele em vez de no céu vasto enquanto ele subia as escadas. Gamil ficara furioso querendo mostrar sua riqueza e seu genro importante para a nata da sociedade. Havia se superado na ostentação. Claro que ela se sentira mal. Só pode ter sido a comida pesada. Leila sentiu o dar de ombros dele. Estranho como não se importava com a estranha sensação de estar tão perto dele. — Eu precisava viajar. Não poderia festejar por um dia inteiro. — Claro! Poucas pessoas insistem nessas tradições hoje em dia. Ela inspirou profundamente e observou o luxuoso avião particular. Já se sentia melhor. Talvez, depois de passar anos trancada, ela tivesse perdido a habilidade de lidar com o calor de Bakhara. A explicação foi sua tábua de salvação. — Posso ficar em pé agora. Obrigada. Estou bem. Joss a olhou de sua altura superior analisando seu rosto como se penetrasse em seus segredos. Sua expressão não dava dicas de seus pensamentos. Mas ele era um multibilionário que se fizera sozinho. Perito na arte de esconder seus pensamentos. Leila sentiu certo desconforto. O que ele via quando a observava? Um bem financeiro ou outra coisa? Ela colocou a mão no peito dele tentando pôr alguma distância entre eles. Não funcionou, deixando-a ciente de sua força inexorável. Presa nos braços dele ela de repente não se sentiu tão protegida quanto vulnerável. Sentiu-se desconfortável. O olhar dele caiu para a boca dela e seus lábios arderam como se tivesse comido pimenta. — Joss! Eu disse que posso ficar em pé. — De repente ficou imperativo que ele a soltasse. Sentira-se tonta antes, mas isso era diferente. Era algo que ela não queria explorar. Algo a ver com ele. Ele a colocou no chão devagar. Felizmente a força havia voltado para suas pernas. Era ela novamente, capaz de andar com a espinha ereta e as pernas firmes até o assento que a 16


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West comissária indicara. — Gostaria de um pouco de água, por favor. Tem alguma coisa para enjôo? — Claro senhora. Leila poderia se convencer de que sentira enjôo de movimento, por ser sua primeira viagem de carro em anos. Ou efeito do calor. Observou Joss se sentar do outro lado da cabine. Ele não desviou o olhar enquanto ela tomava o remédio. O olhar a deixou desconfortável. Não era como o de Gamil. Joss parecia despi-la. Certamente ele não podia sentir o entusiasmo e a ansiedade que ela lutava para esconder! Ocultar o que sentia fora uma questão de sobrevivência ao regime cruel de Gamil. Encostou a cabeça e fechou os olhos. O barulho dos motores a tranqüilizou. Quando, finalmente, sentiu o avião decolar, abriu os olhos e viu Joss debruçado sobre uma pilha de papéis fazendo anotações. Sentiu profundo alívio. Ele a havia esquecido; a curiosidade fora temporária. Quando chegassem a Londres se esqueceria completamente dela. Ela se virou para ver Bakhara sendo deixada para trás e foi tomada de alegria. Sua nova vida acabara de começar.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Três — POSSO VER que está à vontade. Joss entrou na cozinha. A visão de sua esposa pondo água para ferver fez o imenso local parecer quase aconchegante. Era o último lugar que esperava encontrá-la. Considerando o grande número de empregados no seu velho lar, ele a imaginara convocando a estafe para servi-la. Leila se virou e Joss sentiu o impacto do olhar dela como um toque. Intrigante. No dia anterior achara que a sensação fosse de curiosidade e, talvez, um pouco de preocupação. — Você me surpreendeu — disse ela com voz rouca, que fez a barriga dele ronronar. — Não esperava vê-lo aqui. Joss deu de ombros. — Faço meu próprio café ocasionalmente. — Tinha passado bastante tempo em acomodações rústicas para saber se virar na cozinha. Ele podia alimentar um batalhão de mineiros famintos se fosse necessário. Naturalmente não com as iguarias que uma princesa da sociedade como Leila comia. — Eu quis dizer que não o esperava vê-lo no apartamento. — Quando ele arqueou a sobrancelha, ela acrescentou: — Não a essa hora do dia. À tarde nem começou. — E magnatas nunca tiram folga? — Ele observou o olhar dela desviar-se para longe antes de voltar para o dele. A conexão criou uma sensação elétrica. Joss ignorou. Era bom em ignorar coisas que não faziam parte de seus planos. — Sei que você se fez por esforço próprio. Não pode ter chegado onde está sem trabalhar longas horas. Então, ela estivera interessada o suficiente para descobrir aquilo. — Está certa. Minhas horas de trabalho são infindáveis. Ele não se preocupou em explicar que gostava de expandir seu império. Que se deleitava nos desafios dos negócios. Negócios davam-lhe total satisfação e um propósito que nada mais podia dar. Havia sempre uma nova meta, inevitavelmente mais dura, mais satisfatória, do que a última. Por isso a mudança para novos territórios com esse acordo com Bakhara e sua recente aquisição de mineração na África. — Trabalharei esta noite, farei uma conferência em vídeo com a Austrália e parto amanhã para lidar com uma crise. No ínterim, é hora de conversarmos. — Boa idéia. — Leila assentiu, mas seus ombros pareciam tensos. Por que estava tensa? Por causa dele? Ou estaria doente outra vez? Ele cerrou o cenho. Na noite anterior, chegando à Inglaterra, ela quase não se mexera quando aterrissaram abatida, aparentemente, pela medicação que tomara. Ele tivera que carregá-la para o carro e depois novamente para o apartamento. 18


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Ele incumbira sua eficiente governanta de levá-la para a cama. Depois passara um par de horas na sua academia de ginástica particular e no escritório antes de retirar-se, já no raiar da aurora. Todavia, em vez de dormir instantaneamente, Joss permanecera acordado ponderando o enigma que era sua esposa. Não houvera engano quanto à sua fragilidade quando ele a carregara nos braços para o avião. Sentira a saliência dos ossos de seus quadris e o contorno das costelas. Aquilo trouxera lembranças há tempo enterradas. De Joanna aos 15 anos... Toda pele e osso por causa das exigências egoístas de seus pais. Pais que nunca deram a mínima importância para qualquer um de seus filhos, exceto como armas em suas brigas vingativas um contra o outro. Segurando Leila, sentindo os tremores que evidenciavam a fraqueza que ela se esforçava em esconder, Joss fora atingido por uma sensação de proteção que não tinha desde que tinha 10 anos, querendo salvar a irmã mais velha definhando diante de seus olhos. Mas Leila não era Joanna. Leila não era uma adolescente ferida. Ela era adulta. Sadia o suficiente para vender-se por uma vida de riqueza. Não era problema dele se ela exagerara na dieta de pré-casamento. Mesmo assim ele se viu checando: — Está melhor hoje? — Muito melhor, obrigada. Os preparativos para o casamento devem ter me cansado mais do que devia. — A água ferveu. — Gostaria de alguma coisa? Estou fazendo chá de camomila. — Ela ofereceu um daqueles pequenos sorrisos educados. A anfitriã perfeita. — Prefiro café. — Ele caminhou para a porta para chamar a governanta. — O que posso preparar para você, Sr. Camordy? — Café e um sanduíche. Minha mulher tomará chá de camomila e... — Nada mais, obrigada. Não estou com fome. Joss avaliou o vestido severo de seda bege largo no corpo dela. Ela perdera peso desde que se conheceram. Na ocasião ela era delgada, mas com curvas nos lugares certos. Agora, mesmo a linha do seu queixo estava muito pronunciada. Os olhos dele estreitaram-se. Não era somente o peso perdido que o perturbava. Ela parecia... Pálida. Ele não era especialista em moda, mas o vestido era completamente errado, muito mais apropriado para uma mulher mais velha. Pelo menos as pernas eram tão deleitáveis quanto ele se recordava. No primeiro encontro ele se deliciara com suas pernas sexies e boca viçosa em contraponto com sua conduta quase afetada. Ela era uma combinação fascinante de intelecto, beleza e frieza — ou seria para um homem que se permitisse ficar fascinado. Joss não tinha a intenção de romper um sólido acordo comercial com um relacionamento íntimo. Ele separava seus negócios da vida particular, embora intimidade física provavelmente fizesse parte do lado comercial de sua vida: sexo para prazer mútuo mais presentes caros e hotéis de luxo que providenciava para qualquer mulher que escolhesse para aquecer sua cama. — Sr. Carmody? Joss viu a governanta examiná-lo curiosamente. 19


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Deixo por sua conta, Sra. Draycott. Apenas traga algo que desperte o apetite de minha esposa. O olhar de Leila foi penetrante e provocou uma mínima excitação no seu baixo-ventre. — Claro senhor. — Estaremos na pequena sala de visitas. Leila segurou seu olhar sem pestanejar. Então, sem uma palavra, cruzou a cozinha, cabeça erguida principescamente, seu andar chamando a atenção para o meneio dos quadris. Mas Joss manteve seu olhar no rosto dela, tentando ler o que jazia atrás da calma tranqüilidade. Porque havia alguma coisa. A sensação que percorria a espinha dele quando seu olhar se conectava com o dela provava aquilo. Ele quase podia ouvir o que ela estava dizendo. Quase, mas infelizmente não muito. Ela parou abruptamente no corredor. O perfume leve e fresco dela invadiu suas narinas. Sentiu novamente como na pista do aeroporto no dia anterior: tensão pairando no ar como se ela gerasse algum poder invisível que magnetizava sua pele. O que havia em Leila que o hipnotizava? — Qual é a pequena sala de visitas? Você tem tantas. — À direita. Terceira porta. Seguindo-a, Joss permitiu que seu olhar catalogasse cada meneio do corpo dela. Sua esposa não ostentava um andar pomposo. Todavia, a cada passo vagaroso que ela dava, a seda do vestido sobre o traseiro e em volta das pernas gritava “mulher” de um modo que tinha toda sua atenção. Estaria sua esposa enviando um convite? A possibilidade o intrigava. Todavia, recordando o olhar frio dela na cozinha, não parecia provável. Além do mais, era um casamento de conveniência. Ela seria uma excelente anfitriã social e suas conexões seriam preciosas. Leila, por sua vez, conseguiria prestígio e um estilo de vida ainda mais luxuoso. Um acordo vitorioso. Somente um bobo o estragaria pelo bem do sexo. Com uma esposa ele não poderia cancelar todas as chamadas ou protestos silenciosos de devoção com um presente de despedida caro. Nem pretendia encarar uma esposa mal-humorada reclamando de desprezo ao oferecerem um jantar importante. Sexo poderia levantar as expectativas dela de uma família algum dia — ele deixara claro que filhos não estavam na sua agenda. A pele dele esfriou. O acordo permaneceria simples. Impessoal. Todavia, Joss não afastou o olhar de Leila quando ela entrou na sala de visitas. Ele desconfiava que obtivera mais do que barganhara nesse casamento de conveniência. Leila Escolheu uma cadeira funda. O couro macio a envolveu e a sensação de desassossego que sentira desde que Joss chegara diminuiu um pouco. Não se sentia pronta para lidar com ele, quando havia tanta coisa na sua mente. Caminhando desorientada num apartamento que era inteiro luxo minimalista, ela sentiu uma onda de alívio vendo-se sozinha. Ninguém 20


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West compartilhara a imensa cama com ela, e o guarda-roupa era destituído de roupas de Joss. Todavia, ela mal teve tempo para agradecer por ele manter sua palavra e sua distância. Rapidamente seus pensamentos tinham voltado para o medo sufocante que sentira na pista do aeroporto. Algo que ela nunca experimentara antes. Quando pisara na pista a vastidão do ar livre fora devastadora para ela. Teria algo a ver com a repentina mudança depois de ser forçosamente mantida confinada por longos períodos? Só esperava que tivesse sido algo único. Não tinha nenhuma intenção de deixar o passado ditar seu futuro. — Seu quarto é confortável? — Joss sentou-se esticando as longas pernas com a segurança de um homem supremamente à vontade com uma vida glamorosa. O lugar gritava riqueza desde a vista espetacular do Tamisa até os objetos de arte e mobília de designer que impressionavam mais do que acolhiam Era difícil ler a expressão dele, mas ela apostava que fosse de satisfação. — Muito confortável. Obrigada. — Leila crescera com luxo e riqueza, mas nada como aquele lugar. E nos últimos anos ela levara uma existência espartana até seu padrasto fazer de tudo para impressionar Joss Carmody. Mesmo o toque de seda contra sua pele era um deleite sensual desconhecido. Quanto a usar saltos... Ela escolhera saltos altos finos hoje, esperando acostumar-se à sensação de caminhar com pernas de pau. Pretendia aproveitar todas as oportunidades de romper com o passado. — Mora aqui há muito tempo? — perguntou ela. — Comprei a cobertura alguns anos atrás, mas não fico muito aqui. Tendo a mudar para onde os negócios me levam. Bom para ela. Preferia estar sozinha para decifrar sua nova vida. — Por quanto tempo ficará aqui? — Nós ficaremos aqui por pelo menos um mês. Não havia engano na sutil ênfase do pronome “nós”. O coração dela vacilou. — Nós? — É claro. Acabamos de nos casar, afinal de contas. Leila pôs de lado o pânico da idéia de compartilhar o mesmo tão espaçoso local com Joss Carmody. Apesar do acordo de levarem vidas separadas, ela se arrepiava a idéia de estar perto dele até mesmo por um curto tempo. Ele era poderoso, auto-suficiente e acostumado a fazer tudo do seu jeito, características que a faziam lembrar-se ferozmente de Gamil. Todavia, entendia que Joss não queria anunciar ao mundo que o casamento era somente no papel. Sem dúvida a separação seria arranjada discretamente mais tarde. Ela usaria o tempo para investigar suas opções estudantis e encontrar o lar perfeito. Ansiava por uma casa com um jardim, mas talvez um apartamento fosse mais prático até se firmar. Mas um mês inteiro aqui? Certamente não seria necessário. Quando tivesse seu dinheiro... — Leila? — Ela o encontrou fitando-a. — Qual o problema? Não gosta de coberturas? — Ao contrário, é muito agradável. — Agradável? Já ouvi esta cobertura ser chamada de muitas coisas, exceto 21


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West agradável. — Desculpe se o ofendi. O apartamento é espetacular. — Aqui está, senhor. Senhora. — A Sra. Draycott entrou com uma bandeja cheia de comida. — Há sanduíches e... — ela atirou um olhar sorridente para Leila —... Docinhos de nozes em calda e bolos aromatizados com água-de-rosa. Pensei que pudesse apreciar uma pequena lembrança de casa, senhora. — Obrigada. Muita gentileza sua. Leila aceitou um prato cheio de iguarias e sorriu para a governanta quando ela deixou a sala. — Estes são bons — disse Joss depois de comer dois docinhos. — Você gosta de doces? — Leila pôs seu prato sobre uma mesinha e pegou sua xícara de chá. — Sua mãe o mimava com doces quando criança? — Embora tivessem uma cozinheira, Leila recordava que os assados ocasionais da mãe eram os melhores do mundo. — Não. Minha mãe não sujava as mãos com algo tão mundano quanto cozinhar. — Entendo. — O tom dele não encorajou nenhum comentário posterior. — Duvido. — A voz de Joss era fria, mas o arco de suas sobrancelhas mostrava emoções. — Minha mãe abominava qualquer coisa que pudesse interferir na sua figura feminina ou mãos delicadas. E acreditava que o mundo girava em torno dela. Não tinha inclinação alguma para tarefas domésticas. Para isso serviam as outras pessoas. Leila franziu o cenho diante da mordaz afirmação. Ela afastou o olhar, desconfortável com a repentina emoção surgindo por baixo da compostura dele. Eles eram estranhos e ela preferia que permanecessem assim. A empatia que sentiu diante do que pareceu uma vida doméstica desconfortável não era algo que queria perseguir. Instintivamente sabia que ele não lhe agradeceria por isso. Leila procurou uma resposta. — Sua mãe deve estar impressionada com tudo isso. — O gesto abrangeu a cobertura no exclusivo edifício. Aparentemente Joss não tinha tempo ou inclinação para nada tão doméstico quanto mobiliar seu lar. Era como se tivesse sido decorado por um muito chique e talentoso designer que queria fazer uma afirmação ousada em vez de um lar. — Minha mãe não está viva. — O olhar dele era sombrio. — Não tenho família. — Sinto muito. — A ausência de parentes no casamento não a alertou? — O tom de voz foi abrupto e Leila praguejou por não notar. — E também não quero uma família. Não tenho interesse em continuar o nome da família. E não vejo sentido em colocar mais crianças num mundo que não pode alimentar as que já temos. Ele olhou para o prato dela, ainda cheio das delicadas iguarias cuidadosamente preparadas. O estômago de Leila se contorcia diante de toda aquela nauseante doçura. Depois de suas recentes rações magras, ela não tinha esperança de comer aquela rica comida. Tinha que ser a razão por se sentir indisposta no dia anterior, tentando digerir o elaborado banquete sob o olhar observador de Gamil. Mas, sem querer revelar a Joss a verdadeira razão de sua falta de apetite, 22


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West não havia nada que ela pudesse fazer a não ser comer. Joss podia não ter sido feito no mesmo molde que Gamil, mas ela não arriscaria. Ele era poderoso e autoritário. Ela aprendera às suas custas que homens dominadores não podiam ser confiáveis. Não havia maneira de confiar a Joss a história da brutalidade de Gamil e sua própria fragilidade contra ele. Quem sabia se ele não usaria aquilo contra ela? Além do mais, a lembrança a enchia de vergonha. A lógica dizia-lhe que fizera o possível para se opor ao abuso de Gamil, mas parte dela gritava de desgosto pelo fato de ter sido vítima. Relutantemente ela pegou um minúsculo bolo. Inalando o forte aroma de mel, ela sentiu uma onda de náusea e hesitou. — Sei que a Sra. Draycott fez o máximo de esforço para fazer algo especial para você. Leila sentiu o peso do exame minucioso de Joss quando mordeu o docinho. Lembranças agridoces atingiram-na na primeira mordida. De um tempo que não dava valor para a felicidade. Sua mãe rindo na cozinha parisiense com o enorme avental enrolado duas vezes em volta do corpo delgado. O pai alegre estalando um beijo nos lábios de sua esposa. — Delicioso — murmurou Leila, e arriscou outra mordida. Logo as lembranças foram substituídas pelo enjôo. Seu estômago contorceuse numa mistura doentia de desgosto e fome não satisfeita. Ela levantou-se. — Desculpe-me, preciso... — O banheiro? — O tom de voz de Joss era raivoso e ela girou a cabeça para vê-lo fazendo uma careta. — Para se livrar de qualquer traço de comida em seu organismo? Leila sacudiu a cabeça, atônita. — Estou me sentindo um pouco indisposta. Eu... — Está provocando a indisposição. — Não! Não tenho essa intenção em absoluto. — Ela estava cansada de ter pessoas pondo palavras na sua boca. — Diga-me, Leila. É bulimia ou anorexia? Joss estava determinado a decifrar o enigma agora. Sua frágil paciência para princesas mimadas estava esgotada. Não adiantava dizer a si mesmo que Leila não era preocupação dele. Não podia ignorar a situação. — Nada disso! — Ela sentiu-se chocada. — Não há nada errado com meus hábitos alimentares. Ele examinou-a vagarosamente, satisfeito de ver que a palidez doentia diminuíra substituída por cor forte nas faces e fogo nos olhos. Joss percebeu que sua esposa ficava bonita quando provocada. — Então por que nunca a vi consumir mais do que uma mordida? Por que se sente mal depois de comer? Ele chegou mais perto. O suficiente para sentir o perfume fresco dela. Ela não se curvava a um confronto. A pele dele tinia enquanto ela o examinava. Algo parecido com desejo pulsava forte dentro dele. Se ele soubesse que Leila podia ser tão... Animada, podia ter pensado duas vezes sobre o casamento. Ele queria uma anfitriã reservada e elegante, não uma mulher irascível. Mas um calor ascendente no seu baixo-ventre desmentia aquele 23


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West pensamento. — Você sempre tira conclusões precipitadas? — Você sempre evita perguntas para as quais não tem respostas? Ele sempre gostara de paixão numa mulher... Na cama, não emocionalmente. Leila era sua esposa. Ele não iria levá-la para cama. Não iria arriscar cenas emocionais com a mulher que acabara de atar a ele. — Não tenho comido refeições substanciais ultimamente. A comida da festa estava designada a impressionar, mas não era do meu gosto. — Está fazendo regime? Seu pai não a alertou sobre ficar abaixo do peso? — A boca dele afinou-se diante da idiotice. Ela não valorizava a saúde? — Padrasto. — Instantaneamente ela apertou os lábios, como se lamentando a correção. — E não, ele não se preocupava com minha dieta. — E agora? Não pode dizer que os bolos e docinhos não são de seu gosto. Vi a aparência de seu rosto quando deu a primeira mordida. Ela fechara os olhos como se tomada por uma alegria. A visão aqueceu um espiral de antecipação masculina no seu baixo-ventre. Leila deu de ombros. — Estava delicioso, mas, como disse, minha dieta tem sido muito simples... Muito... Restrita. Joss engoliu a repreensão. Sabia que ela escondia alguma coisa. Mas seu choque diante da acusação dele parecia genuíno. — E agora? Você ainda se sente mal? Ela inclinou a cabeça, arregalando os olhos. — Você sabe... — Ela pausou, como se considerando algo. — Não me sinto mal. — Ela pareceu genuinamente satisfeita. — Ótimo. Precisa recuperar seu apetite. — Preciso? Ele assentiu. Ele percebeu que levaria algum tempo para descobrir o que afligia Leila. — Vou viajar a negócios, mas quando eu retornar e começarmos a receber você não poderá correr para o banheiro a cada refeição. Receber? Ela ficou chocada. Desde quando um casal levando vidas separadas recebia convidados? Leila afundou na cadeira, entorpecida. — Que quer dizer com “receber”? — Você será anfitriã quando tivermos convidados. — Ele deu de ombros. — Muitos negócios são fechados socialmente. Uma das razões que a considerei uma noiva adequada é seu pedigree: filha de diplomatas, criada nos melhores círculos com ligações a muitas famílias poderosas com as quais farei negócios. — Ele sentou-se de volta, visivelmente satisfeito. — Você é uma anfitriã nata. — Verdade. — A palavra emergiu entre dentes cerrados. Sua pele eriçou-se enquanto fúria tomou conta dela. Ele parecia tão convencido em considerá-la adequada como esposa. E queria que ela fosse sua anfitriã? Como se ela lhe devesse alguma coisa! Ele viera a ela, querendo sua herança. — Isto não estava no acordo — disse ela. — Não estava? — Não. — Leila se recusou a ser intimidada. — Você não mencionou 24


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West entretenimento. — Você acha que o simples fato de nos casarmos lhe dá o direito de ser mantida no estilo que está acostumada? — disse ele. — Olha quem fala. Casou comigo pela terra rica em óleo de meu pai. — Como ele ousava fazê-la parecer mercenária? — Exato. — O sorriso dele era mordaz. — E adquiri uma anfitriã para ajudar a realizar meus objetivos. No momento isto envolve receber bem a sociedade européia e do Oriente Médio. Você é a anfitriã perfeita. Anfitriã perfeita! Leila pressionou os lábios antes que dissesse um impropério. — Temo que eu tenha outros planos. Ela estava salva agora, longe de Bakhara. Breve teria seus próprios fundos e, num país como a Inglaterra, Joss não podia impor sua vontade como seu padrasto fazia. — Outros planos? Como pode ter outros planos, quando acabamos de casar? Ele suspirou. Não era por isso que ele evitara casamento? A contradição das mulheres? Casar e depois dizer que tinha outros planos! Se ela pensava em manipulá-lo como a mãe dele fizera com todo mundo, tinha muito que aprender. — Você disse que era um casamento no papel. Deixou claro que viveríamos vidas separadas. Ele não estava acostumado a uma mulher tentar descartá-lo. Ele sempre terminava os relacionamentos. — Então viveremos. Exceto quando aparecermos juntos em funções sociais importantes. — Ele conhecia os interesses dela nos seus dividendos. Ela venderase sem qualquer pretensão de conexão emocional. Fora o fator principal na sua decisão de casar-se com ela. — Não se preocupe, não interferirei na sua vida particular contanto que seja discreta. — Ele sorriu seguro do conhecimento da cláusula de punição por gravidez no acordo pré- nupcial, que significava que ela não tentaria insinuar o bebê de outro homem a ele. — Mas, às vezes, vou necessitar de seus serviços de anfitriã. — E se eu recusar? — A voz dela era fria. — Recusar? — A idéia de qualquer pessoa recusando algo a Joss era tão recente que levou um momento para a raiva passar. — Não seja absurda. Por que recusaria? — Não é meu estilo. Pretendo viver minha própria vida de agora em diante. Joss fitou-a com olhar penetrante. — Acho que não, querida esposa. — As palavras foram ameaçadoras. — Lembre- se do acordo pré-nupcial que assinou. Você já concordou com isso. Não tem escolha.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Quatro Leila sentiu um aperto no peito. Ele não estava brincando. Que tipo de homem especificava tal detalhe em um contrato? Mas, olhando nos olhos furiosos, Leila percebia que Joss Carmody era o tipo de homem que cuidava dos mínimos detalhes, especialmente nos negócios. E esse casamento era um negócio. Leila se agarrou a isso como um salva-vidas. Podia lidar com negócios. Jogos emocionais é que eram difíceis de encarar. — Você leu o acordo? Leila apertou as mãos suadas. Ela quisera ler, mas o padrasto cobrira as páginas e ela só conseguira ver a parte em que tinha que assinar. Ficara muito nervosa, mas forçara a si mesma a assinar para que pudesse fugir. — Leila? — A voz severa de Joss exigia uma resposta imediata. Teria ela escapado de um tirano para cair no domínio de outro? Seu coração saltou diante da possibilidade. — Devo ter perdido essa parte. O orgulho exigia que ela disfarçasse a verdade. Recusava-se a visitar o passado, especialmente diante do homem que a via como ferramenta para atingir seus objetivos. Seu padrasto havia explorado cada fraqueza sua. Leila não tinha nenhuma intenção de revelar fraqueza alguma para qualquer homem novamente. Especialmente seu marido. Era perigoso demais. Ela o encarou e foi um luxo de ousadia não desviar o olhar, como havia treinado com Gamil. Mesmo algo tão pequeno a fazia se sentir forte e intrépida. A que ponto o padrasto desgastara sua vida! Leila estava determinada a começar do zero. Agora que estava livre, ou quase, não deixaria outro homem importuná-la novamente. — Concentrou-se nas recompensas financeiras, naturalmente. — Joss assentiu. Nem mesmo soou sarcástico. Acreditava realmente que ela só se importava com dinheiro. — Não faz bom juízo das mulheres, não é? Ele pareceu surpreso. — Trato as pessoas como as considero, homem ou mulher. O que significava que não tinha muito respeito por ninguém. Com que espécie de homem havia se casado? Conhecia sua reputação implacável nos negócios... Algo que Gamil respeitava. Mas assumira que Joss tivesse um lado mais terno, não com ela, mas com alguém. Ela afastou a lembrança da maneira como ele tratara sua fraqueza no dia anterior. Com uma solidariedade que acalmara seu medo. Fizera isso apenas porque tinha que estar em Londres. Fora tola em confundir necessidade com atenção. Tudo que aprendia sobre ele confirmava que era um homem que ela preferia não conhecer melhor. — Então o contrato especifica minhas tarefas como anfitriã. Algo mais? — 26


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Ela se orgulhou do tom frio que escondia os nervos galopantes. — Que mais estava incluído naqueles papéis? — Pedirei para trazerem uma cópia. — Ele olhou no relógio de alto preço como se tivesse assuntos mais importantes. Droga! Isso era importante. — Por favor. — Ela cruzou as pernas e se recostou indiferente apesar da tensão nos músculos. Escondeu instintivamente o quanto estava desesperada por detalhes. Ele a examinou das pernas até o rosto. A pele dela tiniu enquanto sentia o olhar como uma carícia. Levantou a cabeça desafiadoramente, fingindo não sentir nada. O olhar obscuro dele faiscou. A nuca de Leila se arrepiou como se estivesse confrontando perigo. Joss estava acostumado a dar cartas, e não respostas. Estranho como a chama de alerta nos olhos dele a estimulava. Como se apreciasse sua habilidade de provocá-lo. Depois de anos fingindo subserviência, era maravilhoso exercitar sua independência. Alisou o pingente de pérola de sua mãe, projetando um ar de interesse casual. — O que mais deixei escapar? Ele estava completamente focado nela e aparentemente na enorme pérola em sua mão. Apressadamente ela soltou o pingente, sentindo-o cair entre seus seios. Joss fixou o olhar no ponto que o pingente caiu e a respiração de Leila sibilou em resposta enquanto o calor invadia seu peito. Não estava acostumada a ser olhada dessa forma. — Você deveria ler o documento. — O tom sugeria que ela não fosse entender o acordo. Ficou irritada pela paralisação que o olhar dele causava. — Lerei. — Leila deu um sorriso meloso — Mas enquanto isso...? Ele soltou a respiração tensa... Indicando que não estava totalmente no controle. O sorriso dela se alargou. Ela detestava a idéia de que ele pudesse dispensá-la como se fosse uma aquisição comercial. — Concordou em ser minha anfitriã, mas não se preocupe. O trabalho não será pesado. Haverá bastante tempo para... — Ele acenou, como se não tivesse certeza do que as pessoas normais faziam com seu tempo livre. — Compras? — Ela continuou sorrindo. A necessidade de controle de seu padrasto tinha suprimido seu direito de tomar mesmo as menores decisões. Agora se casara com um homem que pensava que ela só queria gastar seu dinheiro. Não ocorrera a ele que ela poderia querer uma carreira. — Exatamente. Além disso, há penalidades caso se envolva em escândalos. Penalidades para divórcio ou gravidez... — Para quê? — gritou ela incrédula. — Você ouviu. Especifiquei um casamento sem filhos. — Eu me lembro. — Como poderia esquecer? Tinha gostado da idéia de ele não esperar que ela dormisse com ele. — Certamente são necessárias duas pessoas para... — Podem ser necessárias duas pessoas, mas não serei uma delas. — As palavras foram lançadas como tiros. Finalmente ela entendeu. Ele estava falando 27


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West de filhos com outros homens, outros amantes. — Se engravidar, não venha chorar por apoio. Perderá qualquer benefício que este casamento lhe proporciona. — O tom foi glacial. Cada centímetro dele revelava um homem desprovido de calor humano. — Não pareça tão chocada. Tenho certeza de que é sensata o bastante para não engravidar. A aversão era inconfundível. À idéia de um filho? Ou à idéia de ele mesmo engravidá-la? Não podia ser à possibilidade de sua esposa fazer sexo com outro homem Joss disse que ela poderia fazer o que quisesse contanto que fosse discreta. Ele basicamente a convidara a dormir com outros desde que não ficasse grávida. Leila havia experimentado degradação nas mãos do padrasto, mas Joss ia mais fundo. Conseguira ferir uma parte dela que Gamil jamais tocara. A dor a atingiu e todos os seus nervos ficaram tensos de desgosto. Não deveria se sentir ferida. Sabia que Joss tinha uma opinião ruim sobre ela. Todavia, a suposição casual sobre sua moral doeu como a última gota. — Não se preocupe. Não vou engravidar. — Quando ela finalmente tivesse filhos, seria com um homem que amasse, e não com um homem aficionado por contratos e lucros. O sorriso forçado dela estava rígido, mas os olhos estreitos de Joss diziam que parecia real. Ela aproveitou para retrucar. — Não tenho intenção de dormir com homem nenhum, especialmente você. — Ah — murmurou ele numa voz rouca que arrepiou a pele de sua nuca. — Nunca durmo com uma mulher. Meu interesse nelas é bem mais ativo que isso. Sempre durmo sozinho. Ele deu um sorriso de pura satisfação que enviou um sinal de alerta a ela. Apesar da atitude presunçosa, aquele sorriso era perigoso. O fogo tomou conta das faces de Leila enquanto ele a varria com o olhar. A estranha sensação quase a fez encarar novamente o pânico doente que havia experimentado no aeroporto no dia anterior. O instinto a avisava de que o alerta desconhecido a colocava à mercê de Joss. Leila não podia deixar isso acontecer. Não ficaria à mercê de nenhum homem outra vez. Ela mudou de posição, propositadamente cruzando novamente as pernas e projetando um ar de segurança. Levantou o pingente, tranqüilizada pela solidez macia e pelo fato de ter sido de sua mãe. Gamil havia mantido essa e o resto das jóias de sua mãe trancadas, entregando-a com relutância para que pudesse convencer Joss de que era uma noiva adequada. — Excelente. — Ela pausou para se certificar de que tinha toda a atenção de Joss. — É tranqüilizante saber que não espera intimidade. — Leila baixou a voz. — Apenas se certifique de manter seus relacionamentos em outro lugar. Encontros acidentais com suas parceiras seriam muito cansativos. Joss arregalou os olhos levemente e, para surpresa dela, soltou uma risada convidativa. O divertimento dava uma luz jovial e acessível às feições dele, mas ela não se sentiu inclinada a compartilhar dessa alegria. — Touché. Falando como uma verdadeira esposa. — Vou melhorar da próxima vez — disse, irritada por ser o motivo do humor dele. — Você não quer uma esposa de verdade. — Claro que não. 28


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West A risada morreu nos lábios de Joss. Por um instante, apreciando a réplica mordaz dela, ele quase se esqueceu da necessidade da distância entre eles. Aproximar-se de sua esposa complicaria as coisas desnecessariamente. Ele preferia loiras curvilíneas. Não morenas subnutridas de língua afiada. Todavia, o calor dançava em sua barriga enquanto ele observava seus olhos lançarem fogo cor de esmeralda. O pingente subia a cada respiração dela, atraindo o olhar dele para aquele corpo modesto que mal podia suportar os seios altos e firmes. Ainda bem que ela não fizera tanta dieta a ponto de emagrecêlos. Aqueles seios haviam sido pressionados contra o corpo dele quando a carregara, lembrando que sua esposa era toda feminina. — E se eu recusar ser sua anfitriã? — A pergunta o emboscou enquanto ele se perdia nos pensamentos de como os seios de Leila ficariam sem a seda bege. — Por que recusaria? — Ele se sentou um pouco mais para frente, intrigado mesmo sem querer estar. Por que ela continuava falando sobre esse detalhe tão pequeno? A maioria das mulheres adoraria ajudá-lo a dar festas exclusivas ou acompanhá-lo a eventos tão importantes. Leila deu de ombros e brincou com sua pulseira, emanando um ar de indiferença que quase o enganou, até que ele viu a outra mão dela com o punho apertado. Ficou curioso. — É a única coisa que quero de você. — Além da terra que assegurara. — Se não honrar nosso acordo, eu o cancelarei. Você retornará a Bakhara imediatamente. A respiração dela falhou. Olhou para ele com olhos tempestivos cheios de emoção. Então houve um ruído e ela desviou os olhos. Pérolas negras se espalharam em volta dos pés dela. Mesmo assim Leila permaneceu sentada como se estivesse congelada, uma das mãos em punho e a outra segurando o fecho da pulseira quebrada tão forte que tremia. — Leila? — Joss quase foi até ela, mas percebeu o que estava fazendo e desistiu. Ela não percebeu; seu olhar estava fixo no chão. — Leila, o que foi? Droga! Ela o enfurecia. Num minuto estava atrevida e desafiadora e no minuto seguinte... Ele não podia ter certeza, mas a palavra “vulnerável” veio a sua mente. Ela era tão vulnerável quanto um navio navegando pela vida, visto sua atitude casual em ler documentos importantes. Estava acostumada com o padrasto querido tomando conta dela. Leila havia crescido com todas as vantagens da riqueza. Gamil dissera que ela até mesmo terminara seus estudos particularmente, em vez de freqüentar as aulas com a gentalha. — Não conheço minha própria força. — Ela gesticulou para as pérolas rolando no piso de madeira polido. Deu um sorriso que, desta vez, não foi convincente. Para seu espanto, Joss percebeu que o tom rouco revelava estresse. Não era um jogo, no final das contas. Mas o que era então? Ela se moveu como se fosse ajoelhar para pegar as pérolas. — Não quer voltar para sua casa? 29


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Ela enrijeceu instantaneamente. Deu de ombros, mas não o encarou. — Já vivi em muitos lugares. Bakhara não é necessariamente meu lar. Pensou ela que ele não notara a evasiva? Lembrou a si mesmo de que as opiniões pessoais de Leila não importavam, contanto que cumprisse o acordo. Ele tinha assuntos mais importantes para resolver. Mas se viu insistindo. — Não me respondeu Leila. Por que não quer voltar para Bakhara? Ela levantou os ombros, as mãos apertadas. Então respirou fundo, abriu as mãos e segurou os braços da cadeira, encostando-se como se estivesse calma. Parecia um exemplo de indiferença relaxada. Quase. Joss podia interpretar pessoas. Em Leila encontrava um desafio, uma mulher que escondia mais do que revelava. Mas viu tensão em cada linha de suas formas delgadas. — Vivi anos ali. É hora de mudar. Estou acostumada a me mudar com freqüência. Ela gesticulou com o braço pelo ar e ele percebeu uma marca, uma linha azulada circulando o braço magro. A volta dupla de enormes pérolas a havia disfarçado nessa manhã, e no dia anterior uma fortuna em braceletes de ouro escondera o local. A decoração de hena nas mãos e pulsos obscurecia, mas o lado de dentro do pulso estava definitivamente marcado, e não com hena. Era uma contusão. A tensão tomou conta dele junto com uma dúvida doentia. Lembrou-se da maneira como ela olhava por cima dos ombros no dia em que se conheceram, como se preocupada que alguém estivesse escutando. Ele estivera tão intencionado em fechar o acordo que não se preocupara em considerar o significado daquilo. Agora se preocupava, e as possibilidades esburacavam seu estômago. Culpa, uma emoção da qual mal se lembrava, veio à tona. Teria ela sido forçada a se casar? LEILA Cambaleou pela descoberta de que estava sem saída. O horror a invadiu. Gamil se gabava de roubar o dinheiro que os pais tinham deixado para ela, dizendo que estava investindo. Em seus esquemas e sua autopromoção! Sem seu dinheiro, Leila se apoiara no subsídio que receberia com o casamento para sustentar sua independência. Só que o subsídio estava atado a ela viver com Joss! A menos que quisesse ser enviada de volta ao padrasto. Ela estremeceu enquanto seus sonhos se despedaçavam aos seus pés. Faria qualquer coisa para evitar voltar. Joss se levantou. A violência do movimento a fez se encolher, até que conquistou a reação treinada pelos anos com Gamil e forçou seus músculos a relaxarem Joss não se aproximou, mas foi até a janela. Ela o observou fascinada pela energia do caminhar. Ele deveria estar conquistando montanhas ou andando sobre o convés de uma plataforma de petróleo. Era dinâmico e forte. Mesmo as roupas formais não escondiam a largura dos ombros ou o poder das coxas. Joss tinha um ar potente masculino e objetivo que ela nunca vira em 30


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West nenhum homem. Ou tinha ficado reclusa tempo demais? O simples magnetismo dele atraía seu olhar e causava sensações estranhas. Ela se lembrou dele a carregando. Quão maravilhosamente segura se sentira pela primeira vez em anos. Tivera que lembrar a si mesma de que a segurança vinha da independência, não de um peito sólido e braços fortes. — Diga-me. — Ele se virou abruptamente. — Foi forçada a esse casamento? Os olhos de Leila se arregalaram — Responda! — A voz estava tensa, a postura, rígida. Então, como se percebesse que havia dado um comando, o tom acalmou. — Leila? Atônita, ela balançou a cabeça. — Se importaria se eu tivesse sido? — Ele quisera o casamento, e Joss Carmody conseguia o que queria. Seu consentimento era mera formalidade. Isso ainda a irritava. Estava farta de ser manipulada. — Então é verdade? — Leila viu que ele pareceu balançado. Arrasado era a expressão mais adequada. Estava em choque. — Não. — Mesmo irritada, Leila não conseguiu mentir. — Não é verdade. Joss deu alguns passos em direção a ela e parou para esfregar a nuca. Pela primeira vez desde que se conheceram ele pareceu incerto. — Pode me contar se seu padrasto a forçou a se casar. — Ele pareceu solidário apesar de grosseiro. — O que o faz pensar que fui forçada? — Leila imaginou o que poderia ter dito para que ele pensasse assim. Determinada a deixar o passado para trás e com habilidade em esconder seus pensamentos, ela não podia acreditar que tivesse revelado o domínio de Gamil sobre ela. Joss pegou a mão dela com dedos firmes e quentes. Pequenos fios de calor correram por suas veias. Leila jamais conhecera nada como a sensação do toque dele. Ela puxou a mão, mas em vez de soltar ele a virou para cima. No lado de dentro de seu braço viu as marcas incriminadoras dos dedos de Gamil. Gamil raramente a tocava. Mas sua raiva atingira o auge pelo que considerara insolência de Leila. Ele a havia segurado enquanto cuspia sua fúria. Tremendo, ela afastou a lembrança, focando no presente. Em seu pulso. Na maneira como as mãos bronzeadas de Joss seguravam as suas tão gentilmente. A visão fez com que ela sorrisse. Há quanto tempo não sentia gentileza? Logo pensou que pudesse ser uma artimanha. O padrasto era mestre em jogos mentais: esperando pelo momento exato em que ela estaria mais vulnerável para lançar vingança. Estaria Joss a ludibriando a baixar suas defesas? Joss não era Gamil. Mas como poderia ter certeza? Não queria testar. — Leila? — A voz era suave. Vagarosamente ela levantou a cabeça. Os olhos escuros permaneciam indecifráveis, todavia o olhar enviava tremor quente através dela. — Gamil ficou agitado com alguma coisa e me segurou apertado demais. — Orgulho e necessidade de manter suas fraquezas escondidas a preveniram de revelar o que Gamil tinha feito. A última coisa que precisava era que seu marido soubesse que podia ser intimidada por palavras, mesmo tendo assegurado a si mesma de que ali na Inglaterra nem o marido teria o poder que o padrasto tivera sobre ela. 31


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Ele a machucava sempre? — A voz de Joss estava suave. Os dedos apertavam, mas não com força, e sim com apoio. Parecia real. Ficou confusa, o desejo de confiar se misturando com precaução. — Foi à única vez que ele me machucou. Não é o estilo dele. — Foi incapaz de desfazer o contato apesar de achar que deveria. O único toque amigável que conhecera desde a morte da mãe foi o de Joss. Só se afastando conseguiria evitar implorar para que ele a abraçasse como fizera no dia anterior. O pensamento a horrorizou. Ele baixava suas defesas fácil demais. — Não fui forçada a me casar. — Leila continuou olhando para suas mãos. — Eu concordei. Estranho como as palavras soavam diferente com a mão envolta pela dele. Estava tão ciente do aroma da pele dele, da respiração e da enorme presença. Reagiria assim a qualquer homem? — Tem certeza? — É verdade. Eu quis casar com você. — Como poderia recusar? Qualquer coisa seria melhor que a vida que levava. — Fico feliz em ouvir isso. Joss levantou a mão dela. O olhar dela encontrou as profundezas azuis. Para sua surpresa, ele acariciou a pele feminina com os lábios. Leila arregalou os olhos. Nunca havia sido beijada antes. Gostou da sensação. Imaginou como seria um beijo na boca. O beijo em seu pulso causou sensações que ela não conhecia. Sua boca secou e seus mamilos endureceram. Joss Carmody era perigoso. Apenas um toque, um fio de gentileza, e ela ficou completamente fora de si.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Cinco Inferno! O que dera nele? Joss estava fora há quase duas semanas para checar um incêndio em uma plataforma de petróleo no mar do Timor. Dias lidando com crises e pouco sono. Todavia, seus pensamentos vagavam para Leila. Sua esposa. O gosto da pele macia, a promessa de prazer nos lábios entreabertos. Desde quando uma mulher causava tamanha destruição? Ela era um bem comercial, nada mais. Adquirida em um acordo que proporcionara o desafio de novos empreendimentos... Encontrar petróleo e desenvolver o local perfeito para uma instalação de energia alternativa. O próprio Sheik de Bakhara estava interessado. Leila era um meio para alcançar um fim. Então, por que invadia seus pensamentos? Teria o casamento sido um erro de julgamento? Joss não errava em seus julgamentos. Mensurava cada situação, determinava o que precisava ser feito e seguia o curso. Efetivamente e sem emoções. Mas esse casamento de conveniência não era tão conveniente quanto ele pensava. Leila o distraía de seus objetivos. Por que a curiosidade de saber mais sobre ela? Ela evocava instintos protetores que não experimentava desde que Joanna sucumbira a uma doença que ninguém fora capaz de impedir. Joss disse a si mesmo que era por isso que Leila atraíra seu interesse. Ele tinha medo que o mesmo acontecesse com ela. Mas era mais que isso. Com suas anormalidades tentadoras, arrogância contraditória e vulnerabilidade, Leila perturbava seu equilíbrio. Disse a si mesmo que alguém tão centrada como ela não podia ser anoréxica, mas ela definitivamente estava magra demais. Ela era irritada, mas reservada. Esperta, mas não se incomodara em ler o acordo. Acima de tudo era misteriosa. Talvez fosse isso. Ele não gostava de não saber o que estava acontecendo. Quando a compreendesse, poderia tirá-la do pensamento. Esperava que em breve! Estava de volta a Londres há apenas algumas horas, no apartamento só tivera tempo de tomar um banho, e já estava ansioso para encontrá-la. Joss arrancou a gravata, irritado pela expectativa de vê-la. Colocou outra. Torceu a boca. Sua mãe aprovaria. Sabia tudo sobre aparência. Aprendera a escolher uma roupa formal ainda na infância. Por outro lado, seu pai o havia ensinado a enxergar além da superfície. Aprender a fraqueza dos homens... E explorá-la. Joss sorriu para seu reflexo no espelho. Preferia falar de negócios em uma sala de reuniões do que em uma festa social, mas precisava. Leila estava esperando na sala de estar. A visão dela o fez parar. — O que está vestindo? — A descrença transformou a pergunta em acusação. Ela se virou vagarosamente. Ele conseguiu notar a rigidez de sua espinha e a 33


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West delicadeza da estrutura delgada. Pelo menos não parecia tão subnutrida agora. O alívio relaxou os músculos dele. Disse a si mesmo que era impessoal. Precisava que ela estivesse saudável o bastante para estar ao seu lado quando necessário. Por isso havia instruído a Sra. Draycott a se certificar de que Leila se alimentasse em sua ausência. — Certamente é uma pergunta retórica. A menos que algo tenha acontecido com seus olhos. A cor nas faces dela e o lampejo de raiva nos olhos quase o distraíram da catástrofe das roupas que vestia. Elas indicavam que atrás do ar superior se escondia uma mulher com fogo e paixão, cheia de todo tipo de pensamentos inapropriados. Aquilo o irritava mais do que as roupas que escolhera para a primeira aparição deles em público. Será que queria fazer dele motivo de piada? — Preferia um problema na visão. — Ele balançou a cabeça, em desgosto — O que a possuiu? Quero uma esposa glamorosa, não uma mendiga. Leila ergueu o queixo em um movimento que ele agora sabia ser característico. Mostrava o longo e delicado pescoço e fazia com que ele quisesse testar se a pele era tão fina quanto parecia. — É de uma loja exclusiva. Duvido que mendigas a freqüentem. — Não importa de onde é. — Joss examinou o modelo que escondia os dotes naturais dela. — O azul-marinho não lhe cai bem e está largo demais. Tire. Agora! LEILA FICOU horrorizada por um momento. Certamente ele não queria que ela se despisse para ele, certo? Tardiamente, a lógica apareceu e ela respirou. O fogo nos olhos de Joss fazia com que ela imaginasse coisas estúpidas. Como se ele quisesse vê-la nua! Ela ignorou o minúsculo toque de decepção. A verdade é que ela estava completamente desequilibrada. Tudo porque temia o momento que teria que sair do apartamento. Todos os dias ela tentara sair de casa, até que uma onda de pânico a engolia e fazia sua cabeça girar e seu estômago se contorcer. Precisava se controlar para sua própria sanidade! Recusava-se a ser prisioneira desse belo apartamento como fora de Gamil por tanto tempo. Não era consolo perceber que a maneira como ele a olhava criava o medo. Estava determinada a vencê-lo. Mas não queria que Joss testemunhasse sua luta. — Quer que eu me troque? — Entendeu rapidamente. — As palavras tinham um ar de superioridade. — Algo com cor. Que atraia olhares. Leila duvidava que tivesse algo do gênero em seu vasto closet. Jamais opinara sobre as roupas trazidas em seu enxoval. Seu único envolvimento fora deixar que tirassem suas medidas. Mas fora inútil, pois o encarregado de seu novo guarda-roupa escolhera tudo grande demais. Obviamente a obsessão de Gamil em contrapor sua suposta falha de caráter influenciara as escolhas. — Seria ótimo se fosse logo. Leila levantou a cabeça para encontrar Joss de braços cruzados, parecendo à pintura da impaciência masculina. O fato de que estava lindo não ajudava. 34


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Os pelos da nuca dela se arrepiaram. Ela não era sua empregada para receber ordens. Passara tempo demais dançando a música de seu padrasto para fazê-lo de novo. — Você é tão convincente quando pede com jeito, Joss. — Disse o nome friamente, pondo a mão no quadril para mostrar segurança. — Aposto que as mulheres fazem fila para ter um gostinho desse charme. Ele não se moveu; todavia, de repente, pareceu maior que nunca. Ela se recusava a ser intimidada. A fúria dele instigava seu desafio. Leila havia crescido no meio de homens em roupas formais. Era filha de um diplomata. Mas nenhum deles causava o impacto de Joss. Alfaiataria perfeita complementava o que ela achava que fosse um corpo igualmente perfeito. Mas era o poder potente, o senso de masculinidade contida, que havia chamado sua atenção no momento em que ele entrara na sala. Isso e a raiva. Estranho que não a amedrontasse como a fúria de Gamil fazia. Comparando, havia algo quase tranquilizadoramente saudável no calor da expressão do marido. Seria por isso que ela apreciava provocá-lo? — Vou me trocar. — Ela se virou para a porta, aterrorizada pela idéia. Entretanto, apreciou o balanço que os saltos altos proporcionavam. Fazia com que se sentisse feminina e... Poderosa. Algo que não sentia há muito tempo. Sentiu calor. Deveria ser impossível, todavia estava certa de que era por conta do impacto dos olhos dele. Ela sentiu o olhar dele como um toque. O balanço de seus quadris se intensificou um pouco. Ela virou a cabeça. — Formal? — Sim. Quero que fique espetacular. Leila quase tropeçou. Não tinha esperança de ficar espetacular. Mesmo com sua melhor roupa. Levara horas apenas para acertar na maquiagem. Há anos não usava nada, e não fora nada útil tentar repetir o trabalho do maquiador do casamento. Entretanto, ela não queria que Joss enxergasse suas dúvidas. — Serei breve. Leila examinou as roupas que o padrasto mandara fazer. Fora alguns vestidos casuais e uma calça preta que milagrosamente servira como uma luva, o resto era um desastre. Bege, marinho, verde-oliva e um mostarda que a deixava amarelada. As piores cores para ela. Não havia nada espetacular. Com um movimento fluido, baixou o zíper do vestido e o pendurou. Com as mãos nos quadris, ficou parada esperando por inspiração. Nada. — Não consegue decidir? A voz arrastada vinda da porta a fez se virar com o coração batendo na garganta. — Não pode entrar aqui. — Procurou freneticamente algo para se enrolar, mas não havia nada por perto. Levantou as mãos para se cobrir, até ver o maneio zombeteiro da sobrancelha e perceber o brilho nos olhos dele. O calor invadiu sua pele. Sua boca secou e ela teve certeza de que o rubor cobria seu corpo todo. Todavia, forçou as mãos para baixo. O instinto dizia que revelar seus nervos por estar seminua daria a Joss uma 35


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West arma para usar contra ela mais tarde. Era assim que homens dominadores operavam. Ele já vira mais que isso na praia, disse a si mesma. A calcinha e o sutiã cor de creme eram conservadores e ela usava meia-calça e saltos altos. Todavia, se sentia vulnerável. Se era por mostrar tanto depois de anos coberta ou pelo fato de ser Joss que a observava, ela não queria investigar. Despreocupação estava além dela. — Não posso entrar? — Ele balançou a cabeça — Mas estou aqui. — Ele deu um passo à frente. Sua presença encheu o quarto, sugando todo o ar e substituindo- o por eletricidade estática. O perfume sutil dele a envolveu. Os olhos dele não se afastaram. Com certeza ela estava imaginando o fogo dentro deles. Finalmente ele se virou para as roupas nos cabides. Examinou os primeiros trajes. — Diga que não escolheu isto. — A descrença estava em cada palavra. — Não escolhi. — Então quem foi? — Meu padrasto. É complicado. Joss pausou, depois começou a examinar os cabides novamente. Claramente não tinha nenhum interesse no motivo do guarda-roupa sóbrio dela. Só se importava com sua aparência como uma companheira adequada. Ela tinha uma função precisa em sua vida e só isso importava. Deveria sentir alívio ao lembrar-se disso, mas estava agitada demais. — E esta? — Ele pegou uma calça de tecido fluido preto. — Serve? — Sim, mas você disse formal. Esta não... — Nesse ponto concordarei com qualquer coisa vagamente aceitável. — Ele atirou a calça para ela, já se virando para a enorme cômoda com gavetas. Leila abriu a boca para protestar contra a invasão de privacidade, mas ele já abrira e fechara uma gaveta de roupas íntimas e estava prestes a abrir outra. A mão dele mergulhou em seda. Perturbada enquanto ele investigava as camisolas, Leila imaginou a sensação das mãos dele sobre sua pele. Ela deu um passo atrás, horrorizada e um tanto amedrontada pelas estranhas sensações que a bombardeavam. Seu pulso acelerou demais e havia uma sensação curiosa na parte debaixo de seu corpo enquanto ela o observava mexer em suas coisas. — E isto? — Ele mostrou um corpete verde-água. — O que tem isso? — O cérebro dela estava devagar demais. — Que tal usar isso com a calça preta? Ela pegou o corpete. A seda era tão fina que seria como vestir apenas uma insinuação de roupa. Será que queria se vestir assim estando com Joss... Um homem cujo olhar já evocava as mais estranhas reações? Não tinha escolha. Além do mais, durante todo o dia ficara preocupada com o desafio de simplesmente sair de casa. O que vestiria era insignificante comparado com isso. — Vou experimentar. — Ela pausou, vendo que ele não se movia. — Quando você sair. — Espero você na sala.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West JOSS PAROU de frente para a vista da cidade. Mas não prestou atenção nela. Era Leila que enxergava em sua mente. Corajosa e insolente com seu ar desafiador e língua ferina. Repreendendo-o em sua própria casa! Enfurecendo-o como ninguém que ele lembrava fora capaz. Leila quase nua vestindo roupas íntimas surpreendentemente decorosas e um rubor de corpo inteiro que a fazia parecer uma virgem inocente, mesmo usando saltos sexies e meias ainda mais sexies acentuando a linha delgada de suas pernas. Ele balançou a cabeça tentando banir a visão. Como poderia achá-la sexy quando preferia mulheres voluptuosas? Na verdade, ela não estava tão esquálida quanto no dia do casamento. Graças a Deus por isso! De acordo com a Sra. Draycott, Leila comera regularmente, portanto esperançosamente a dieta era coisa do passado. Na verdade ele achara a forma magra dela com curvas suaves e seios firmes surpreendentemente excitantes. Imaginou como aqueles seios se encaixariam em suas mãos. O cabelo seria tão macio quanto ele imaginava? Longo o bastante para talvez enterrar o rosto nele. Não teve problema algum em calcular a sensação das longas pernas enlaçadas em sua cintura. O sangue pulsou forte em sua virilha enquanto se lembrava dela seminua e desejável encarando-o desafiadoramente. Será que percebia que ele sempre aceitava um desafio? Ele entrou na sala e alcançou uma garrafa para se servir de um uísque. Pausou. Raramente bebia. Observara seu pai, um empresário calculista com os escrúpulos de um peixe, usar o álcool para amolecer oponentes mais fracos. Eles perdiam o controle. Joss era absolutamente controlado. Disciplina e determinação o haviam trazido para onde estava hoje. Desde quando recorria ao álcool quando seus sentimentos o dominavam? Desde quando experimentara sentimentos? Afastou as mãos quando a premonição de perigo bateu forte em seu peito. Todavia, reforçar sua força de vontade não preveniu o conhecimento que preenchia seu cérebro. Que a visão de Leila, desafiadora e desejável, havia acendido uma chama de desejo dentro dele. Ele gostaria de ignorar seus planos de expandir conhecimentos no baile de caridade para apreciar uma luta verbal com sua noiva. Ou explorar a fina textura da pele dela. Experimentaria os lábios suculentos e se entregaria ao prazer. O tipo de prazer que a lógica decretava que deveria ser proibido entre eles. Leila era loquaz. Não tinha as formas curvilíneas que ele preferia. Tinha olhos provocadores e sombreados de segredos que o intrigavam como se ele fosse um jovem inexperiente desejando sensualmente sua primeira mulher. Joss se exasperou. Por razões que não compreendia, sua noiva de conveniência decepcionava sua existência tão bem organizada. — Estou pronta. Joss se virou e desejou ter tomado aquele drinque. A calça preta acentuava a figura feminina agarrando os quadris e as coxas. O corpete combinava com os olhos dela, tornando-os ainda maiores. A seda era fina e se movia a cada respiração, dançando convidativamente sobre as curvas dos seios. 37


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West A barriga dele roncou quando atravessou a sala para ficar na frente dela. Ela arregalou os olhos, mas não se mexeu. Ele gostava que ela o enfrentasse. Ou talvez ela não tivesse noção do que estava na mente dele. Ele queria tocá-la. Possuir o que, afinal de contas, era seu, comprado pelo casamento. O pensamento atraente e insidioso enviou luzes de alerta à sua mente. — Bem melhor — murmurou ele disfarçando o esforço que fazia para soar casual. — Combina com você. — É simples demais, considerando que você está usando um smoking. Não estamos combinando. Joss balançou a cabeça. — Longe disso. Mas, já que mencionou o coque não combina com o novo visual. Solte-o. Enquanto falava, uma faísca de expectativa se acendeu. Ela arregalou os olhos por um momento, depois deu de ombros e soltou o cabelo, que se desenrolou como uma cortina brilhante. Não era liso como havia imaginado, mas ondulado, uma espuma suave castanha caindo até o meio das costas. A luxúria atacou os órgãos dele. Em seda fina com nada por baixo e o cabelo solto sutilmente desalinhado ela parecia como se tivesse acabado de sair da cama. Seu baixo-ventre enrijeceu e ele lutou contra a vontade de puxá-la para si, determinado a vencer essa fraqueza. — Muito melhor — disse, entre cordas vocais engasgadas. — Vamos. ELE NÃO a tocou, mas Leila estava ciente da mão dele em suas costas para conduzi-la ao saguão. O coração dela ainda estava acelerado por causa da cena no quarto. A presença dele e o olhar encarando seu corpo seminu haviam roubado sua respiração e a transformado em uma idiota incoerente. Agarrou seu casaco antes que ele pudesse ajudá-la. Poderia ser considerada uma covarde, mas ela preferia não encontrar os olhos dele ou sentir seu toque. Precisava de toda sua força de vontade para o obstáculo que viria. O momento que temera e para o qual se preparara durante todo o dia. Quando encararia o medo que a tinha impedido de sair e explorar a cidade. O elevador chegou rápido demais. Leila deu um passo em direção a ele e parou; os sapatos rangendo em protesto no chão de mármore. — Leila? — Ele se afastou para ela passar. Ela deu outro passo, mas parou no limiar da porta com o coração batendo sem controle. Seria a idéia de sair do apartamento ou a visão do espaço confinado que a deixava ansiosa? Leila havia passado muito tempo trancada em um espaço não muito maior que aquele. Mesmo hoje, depois de semanas tentando, ela não conseguira ficar no elevador tempo suficiente para chegar ao saguão. Uma risada desafinada escapou de seus lábios. Havia se orgulhado de Gamil não ter conseguido quebrar sua vontade e de ter permanecido forte. Agora desenvolvera medo de lugares abertos e fechados 38


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West também? Era absurdo. Aterrorizante. Ficou furiosa. Com Gamil por provocar isso e consigo mesma por sucumbir. Com Joss por estar testemunhando. — Esqueceu alguma coisa? Leila olhou para cima projetando o queixo. Engoliu uma obstrução em sua garganta. Talvez, se ficasse concentrada em Joss... — Leila? — O tom era de impaciência. Num impulso de determinação, ultrapassou o limiar, seu corpo resfriando instintivamente como se tivesse entrado em um freezer. Sentiu Joss entrar atrás dela com a mão em sua cintura. Se concentrasse na sensação da palma da mão dele, talvez pudesse deixar o medo de lado. O ruído sinistro da porta se fechando quase parou seu coração. Ela se virou com a mão levantada para apertar o botão de abrir a porta. Sua mão atingiu um peito rígido e uma lapela macia. Dedos tesos envolveram os seus, pressionando sua mão contra a batida do coração de Joss. — O que foi Leila? Ela balançou a cabeça e tentou afastá-lo para alcançar os controles antes que o pânico a dominasse. Ele não se moveu. — Mudei de idéia. Não quero sair. — Estava desesperada. O elevador apertado já era ruim demais, mas então viu o vasto espaço que era a cidade de Londres... Enorme e tão aterrorizante quanto o deserto. Leila tentou um passo para o lado, mas Joss agarrou sua mão. — É tarde demais para isso. — Não me importo... Ele levantou o queixo dela e a encarou. Ela empurrou o peito dele, tentando fazê-lo abrir a porta enquanto o elevador descia. — Deixe-me sair! — O terror transformou as palavras num comando gelado. Ela viu a onda de fúria e a expressão perplexa. — Você é realmente uma peça de arte — brincou ele. — Será um jogo para se vingar por eu ter feito você se trocar? Seu padrasto pode ter deixado você brincar de princesa mimada, mas está comigo agora, doçura. — Ele sorriu. — Não deixarei que me faça de bobo. São minhas regras agora. Então a cabeça dele bloqueou a luz.

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Capítulo Seis A boca de Joss se fechou sobre a dela precisa, furiosa e mortalmente experiente. O braço em volta de sua cintura apertou. A mão dele em seu rosto a mantinha imóvel. Não que houvesse para onde escapar. Um pequeno soluço de frustração e desespero se formou em sua garganta. Apesar de toda força da qual se vangloriava, ela não tinha armas para lutar contra esse novo desafio. Como poderia lutar contra uma fraqueza que estava dentro de sua cabeça? A boca de Joss se movia habilidosamente contra a dela. Calor, escuridão, perigo. Ela não sabia se sentia esse gosto nos lábios ou se ele estava no ar que tentava freneticamente levar aos seus pulmões. A fragrância única e intrinsecamente masculina invadiu suas narinas. A boca dele se moveu novamente, mas desta vez foi diferente. Sua língua adentrou a boca feminina conquistando, exigindo sem perdão. Leila estremeceu quando uma corrente de sensações desconhecidas a invadiu. Não havia lugar para inexperiência. Nem para o medo correndo em sua espinha. Exceto que uma pequena parte dela respondia à exigência dele. Seus seios formigaram, o tremor desceu pelo corpo por causa das sensações evocadas pela língua de Joss. A boca dele pressionava como um desafio contra a sua. Seus olhos se fecharam em uma escuridão receptiva. Os dedos dele escorregaram para o cabelo dela. Então, de algum modo, Leila retribuiu o beijo voraz e desajeitadamente enquanto o medo se transformava em apetite. Ela queria tanto viver. Experimentar. Ser livre. Durante anos fora frustrada pelo padrasto, e agora, no limiar da liberdade, pelo medo e um marido que não a deixaria em paz. Nervosa, Leila agarrou as lapelas de cetim. Esticou-se levando o beijo a ele, investigando ousadamente a boca quente e aveludada. Pressionando-se contra ele com necessidade urgente de sensações, de confirmação, de prazer. Ela não sabia ao certo. Ele tinha gosto de mistério. Perigosamente viciante. A minúscula parte de seu cérebro que ainda funcionava registrava que era esse o gosto de um homem A estrutura rígida de Joss contra a sua era mais excitante do que qualquer coisa que ela jamais conhecera. Exceto a maneira como suas línguas se entrelaçavam. Ondas de sensação derretida se misturavam com sua corrente sanguínea. Lampejos de fogo a invadiam. Ela queria mais. Mais do calor sedutor. Da poderosa emoção em deliciosa contrapartida ao poder masculino. Apesar da intensidade do beijo, ela sentiu Joss se contendo. Ele estava rígido e imóvel, exceto pela boca e a mão que acariciava sua cabeça afastando o 40


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West medo e a raiva. Todavia, não ajudava a diminuir a tensão que se formava. Um tipo diferente de tensão. Suas mãos escorregaram para o peito dele. Seus dedos acariciaram a nuca masculina. Leila ouviu um gemido de necessidade e satisfação e não soube se vinha dele ou dela. Ela simplesmente queria mais daquela magia. Com os braços em volta dos ombros dele, ela esticou o corpo. Tremores quentes de satisfação a invadiram Seus seios tocavam levemente o poderoso peito de Joss, deixando seus mamilos endurecidos. Poderia ele senti-los? A idéia a excitava insuportavelmente. Ele enfiou a mão por baixo do casaco dela. Dedos longos acariciaram seu corpo, subindo e roçando a lateral de seus seios em um movimento proposital e provocador que enviou um impulso de resposta. Leila cedeu, agarrando o grosso cabelo de Joss e esperando pelo próximo toque. Dessa vez foi mais pesado, passando pela lateral dos seios antes de escorregar para a cintura. Ela gemeu segurando a cabeça de Joss ferozmente enquanto derramava sua necessidade em um beijo vagaroso e delicioso apesar da urgência que crescia dentro dela. Uma pulsação bateu entre suas pernas. As mãos dele envolveram sua cintura e escorregaram espalmadas para seu traseiro. Com um impulso ele a trouxe mais para perto e mais alto até que ficasse pressionada à extensão dele. Ela se moldou ao peito largo e à longa saliência excitada que mesmo uma mulher inexperiente como Leila poderia reconhecer. Ela ofegou diante da necessidade ostensiva de Joss. Um calor atingiu a parte de baixo de seu corpo enquanto ela cedia à tentação e se esfregava nele. Ele se sentiu glorioso. O beijo ficou suntuoso, carregado de promessas. O êxtase deu sinais. Algo vibrou no peito dela. Um zumbido penetrou a nuvem banhada de êxtase. Havia silêncio, a não ser pelos corações batendo em uníssono e pela respiração quente de Joss em sua boca... E o zunido baixo. Então ele subiu as mãos para os braços dela e afastou a boca. Ela ofegou, respirando com dificuldade. Perceberia ele que ela corria o risco de se desmontar aos seus pés? Por isso a segurava tão forte? Tonta, ela registrou o cabelo desalinhado dele e a mancha de batom no canto da boca. Ela queria sentir o gosto daquela boca novamente. Até que levantou os olhos e viu o brilho nos dele. Pelo menos teve a presença de espírito de recuar para longe do exame minucioso. Agarrou o corrimão do elevador para se segurar, já que suas pernas estavam bambas. Ela piscou, tomando ciência que haviam chegado ao térreo sem que ela percebesse. Joss pegou seu telefone e Leila ficou surpresa. Nem mesmo havia conectado o zumbido com nada tão simples quanto um telefone. Uma estranha sensação de vazio a engoliu. Seus lábios pulsavam formigando em conseqüência do beijo punitivo. 41


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Punitivo não. Não depois do primeiro momento. Emocionante. Excitante. Destruidor de almas. Quando ele se virou para falar ao telefone, ela concentrou-se em respirar fundo tentando acalmar sua pulsação galopante. Sentia como se estivesse pulando de um precipício para dentro de um mundo que não reconhecia. Apenas quando o silêncio encheu seus ouvidos, ela percebeu que fechara os olhos, tentando reunir as reminiscências de seu controle. Juntando forças, Leila abriu os olhos. Uma camisa branca a encarava. Um smoking desabotoado. Uma gravata- borboleta meio desfeita. Ela se forçou a olhar para os olhos azul-escuros que queimavam sua alma. Ficou tensa enquanto lutava pela força para lidar com ele. Ergueu as sobrancelhas quando seu cérebro fornecia as palavras que estava evitando. Seu marido. Ele era seu marido e a tinha beijado como se não houvesse amanhã! Como se nada importasse a não ser o desejo que os engolia. De onde viera aquilo? E, mais importante, será que agora ele esperaria... — Você primeiro. Leila franziu o cenho, então viu que ele segurava a porta aberta. Automaticamente ela deu um passo à frente, tomando cuidado para não esbarrar nele para não ser atingida novamente por aquele choque de calor e necessidade. Apenas bem mais tarde percebeu que havia encarado o subsolo cavernoso do estacionamento e depois as ruas abertas de Londres sem nenhum tremor de medo. Estivera tão em choque por sua reação ao beijo de Joss Carmody, tão ciente da respiração e da enorme presença dele e de seu poder de sedução, que não houve espaço para mais nada. Leila se destacava da multidão como um diamante raro em meio às imitações. Joss percebera isso no início... Sua classe inata. Não era uma classe como a de sua mãe esnobe, neta de um conde. Classe no sentido de qualidade inconfundível. Mesmo não estando vestida para os padrões do evento, Leila brilhava. Joss teve que forçar o olhar para longe dos tentadores bicos dos seios nus por baixo da seda fina. Saber exatamente que ela não estava vestida de acordo fez da noite uma provação. Ele não teve tempo de se preocupar com as convenções sociais, pois seu cérebro estava ocupado lembrando-se da sensação dela em seus braços. E imaginando qual seria a sensação dela nua sob ele. Sua pele esquentou e enrijeceu de excitação. Não era para acontecer isso. Não com ela. Joss não estava interessado em um relacionamento com mulher alguma que durasse mais do que uma noite. Não iria destruir seus planos de usar Leila para promover seus interesses sociais por causa de sexo. Ela iria querer mais... De seu tempo ou atenção ou, Deus o ajudasse, suas emoções. Já acontecera antes. As mulheres sempre queriam mais dele sem entender que ele não tinha nada mais a oferecer. E ele não se casara com elas. Quanto aumentaria as expectativas de Leila se ele sucumbisse à sedução da satisfação carnal? Ele bufou de desgosto e tentou se concentrar em Leila, que encantava Boris 42


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Tevchenko, um importante investidor com interesses em Bakhara. Mas o interesse de Joss caiu sobre os lábios carnudos dela, agora dobrados para cima em um sorriso. Joss o reconheceu como o sorriso educado que ela usava com tanta facilidade. Não tão encantador quanto o sorriso aberto que oferecera a ele quando a carregara para o avião, mas o bastante para fascinar qualquer homem. Boris estava fascinado. Joss se preocupou com a aparição de descontentamento. Leila tinha o russo nas mãos. Não era isso que ele queria? Todavia, Joss ficou irritado, ciente do interesse que Leila despertara, detestando os olhares famintos em direção a ela. Nunca se sentira possessivo com uma mulher. Nunca tinha sido casado. Tinha que ser isso. Joss enlaçou o braço de Leila. O susto dela foi natural, já que não o tinha visto se aproximar. Mas o modo como ela se enrijeceu, como se repelisse mais intimidades, o deixou com raiva. Era seu marido e ela teria que se acostumar com o toque dele em público. — Então, Boris, está interessado em meus planos para a instalação em Bakhara? O homem deu de ombros e olhou de volta para Leila. — Possivelmente. Embora, nesse momento, sua adorável esposa me interesse mais. A risada dela foi leve e musical. Foi à segunda vez que Joss a ouviu, e o som o aprisionou. — Boris, obrigada pelo elogio, mas você é um empresário astuto. Como poderia não se interessar pela última reserva de petróleo não explorada do Oriente Médio? — Verdade. Como? — A voz grave fez Joss se virar para ver Asad Murat se juntando a eles. Excelente. Baseado em Londres, Murat era um dos homens com que Joss viera encontrar e uma das razões pela qual Leila seria valiosa, por causa das conexões de sua família com ele. Sem dúvida foi por isso que Murat se aproximou, depois de se esquivar anteriormente. Tudo estava se encaixando perfeitamente. Comparecer ao evento tinha valido a pena, afinal de contas. — Tevchenko. Carmody. — O recém-chegado acenou a cabeça para os homens antes de lançar um olhar para Leila, mas para surpresa de Joss não a cumprimentou. Leila permaneceu rígida ao seu lado. Joss se irritou por senti-la tensa. Ela claramente desdenhava de seu toque. Como podia desaprovar sua mão no braço dela depois de ter se enroscado nele uma hora atrás? Ela se entregara a ele. Teriam feito sexo contra a parede do elevador se não fosse o telefonema. Sua virilha endureceu desconfortavelmente. Não estava pensando com a cabeça quando beijara Leila. Não sabia que uma esposa traria complicações? Murat se virou para Joss. — Não está preocupado em se estender demais com essa nova aquisição? Já teve problemas com plataformas de petróleo e inquietação com aquela mina 43


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West de ouro africana. Problemas com trabalhadores? Leila tomou um gole de água com gás e olhou casualmente para o salão como se a visão do amigo íntimo de Gamil não tivesse afundado seu coração. Estava controlada agora. Quando Asad Murat a olhou como se ela fosse um inseto, teve vontade de atirar seu drinque na cara dele. Ficou orgulhosa de ter mantido a pose. Não importava que Murat tivesse aprovado e encorajado os maus-tratos de Gamil. Eram farinha do mesmo saco. Ele odiou ser ignorado por ela. Leila não tinha intenção de falar com o marido sobre o passado. Queria acreditar que Joss não era como Gamil. Ele estava acostumado a conseguir o que queria, mas ela não vira uma veia sádica. Todavia, não queria testar. Revelar como havia sido dominada seria revelar uma fraqueza. Seu marido era bastante perigoso. O beijo que ele lhe dera no elevador provava isso. A maneira como a fizera se sentir. Não podia acreditar que tivesse se atirado em seus braços. Nem mesmo gostava dele! Um tremor surgiu entre suas pernas com a lembrança. Como se respondesse aos seus pensamentos, Joss a segurou mais forte. Seu corpo traidor queria se derreter. A lembrança do beijo e a visão de Asad Murat a impediram. Sentiu repulsa. Se esse era o tipo de homem com quem Joss se associava, ela precisava ficar alerta. — Vou chamar a Sra. Carmody, senhor. — Ela está em casa? — Oh, sim, senhor. — A governanta pausou. — Ela está sempre em casa. Joss ia fazer outra pergunta, mas desistiu. Não era da sua conta o que Leila fazia com seu tempo livre, contanto que fosse discreta e funcionasse como a anfitriã que ele precisava. No entanto, a idéia de Leila sendo discreta com outro homem o irritasse. Talvez porque todos os homens na recepção da noite anterior salivassem por ela. Afrouxou a gravata enquanto esperava que a esposa viesse ao telefone. Esposa. Passara a noite tentando não pensar nela como esposa — que, de acordo com os costumes, deveria ter passado a noite com ele. Ele a queria mais do que se lembrava de querer qualquer mulher. — Joss? — A voz rouca atingiu seu baixo-ventre. — Leila. Estou feliz em encontrá-la. — Sim. Por quê? — Joss sentiu uma ponta de curiosidade ciumenta. — Tenho planos para essa noite. Achei melhor avisá-la. — Ele pausou em silêncio. O que esperava? Que ela conversasse? Estivera calada na volta para casa na noite passada, distante. Se não estivesse preocupado com seus negócios, teria ficado irritado com a abstração. Ela nem mesmo olhara para ele. — Jantaremos esta noite com alguns sócios e, se tudo correr bem, continuarei a discussão no apartamento. Pensei que precisasse de aviso para se preparar. — Para fazer o papel da esposa do magnata? — Teria ele ouvido um sopro de divertimento? — Bem, não pode vestir nada do seu guarda-roupa. Quero que pareça 44


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West sofisticada. — Ele pausou. Gostaria de saber o que ela estava pensando. — Presumo que saiba como. — Eu disse que não escolhi aquelas roupas. — Seria raiva na voz dela? — Todavia, não comprou nada novo. — Porque não tenho dinheiro. — O quê? — Você ouviu Joss. Estive esperando pelo primeiro dos pagamentos que deveria me fazer. — Estive ocupado. Que importância tinha uma semana? Ele tinha assuntos mais importantes do que a mesada dela. — Não poderia ter usado seu próprio dinheiro? — Estaria ela tentando fazê-lo sentir-se culpado? — De acordo com o contrato, esse dinheiro é meu. Ganhei quando me casei com você, lembra? Ele enrijeceu. Ela o fez se sentir como um indesejável que precisava pagar alguém para se casar com ele. Irônico que a mulher que escolhera para casar o enxergasse como um fardo necessário. — Do que esta rindo? — Ela pareceu desconfiada. — Nada. Mas não entendo por que não foi às compras. Tem Londres inteira à sua disposição. — Já disse. — Desta vez, a voz soou baixa. — Não tenho dinheiro. — Como isso é possível? — Herdei terra, não dinheiro. E agora você possui a terra, lembra? — E o dinheiro que já tinha? Certamente havia o bastante para um novo guarda-roupa. — O padrasto era rico e ela era herdeira de uma família tradicional de Bakhara. — Leila? — Acha mesmo que me vestiria como na noite passada se tivesse escolha? Ela não estava brincando. Inferno! Como era possível? A imagem que fazia dela se quebrou. Será que queria se envolver com o passado de Leila? Já gastara tempo demais tentando decifrá-la. Já tinha perdido sua concentração esta manhã por causa dela. — Deveria ter me dito. — Não estava aqui para ouvir. E não gosto da idéia de explicar tal situação para uma secretária. — Cuidarei disso imediatamente. — Joss sentiu uma ponta de culpa. Deveria ter dado o número de seu celular a ela. — Alguém entrará em contato em breve para dar informações sobre como acessar sua nova conta. Ele não daria motivos para ela alegar que ele não cumprira sua parte no contrato. Mas não podia mais evitar. Era hora de satisfazer sua curiosidade sobre ela.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Sete Leila caminhou pela sala tomando cuidado para não amassar seu novo vestido, que se ajustava de um modo bastante sensual. Sofisticada, Joss havia exigido. Chique. E ainda teve a petulância de perguntar se ela conseguiria! Seu tom a havia recordado novamente de seu lugar nesse mundo: simples vitrine para os esquemas dele. Orgulhosa, Leila se concentrou em parecer espetacular. Ela se recusava a ser desprezada ou receber ordens de outro homem arrogante. Mostrara a Joss que era uma mulher que podia pensar; que tinha sentimentos e exigia respeito. Mordeu os lábios e girou nos saltos finos com o coração afundando. Sentiase uma fraude. Como convencê-lo de que era digna de respeito quando não tivera coragem para sair do apartamento? A única vez que saíra fora na noite passada, com ele, quando as emoções que ele provocara eclipsaram todo o resto. Hoje havia tentado novamente sozinha e fora dominada pela náusea. Leila cravou as unhas em sua própria mão odiando que, mesmo agora, Gamil tivesse poder sobre ela. Não havia dúvidas de que ser aprisionada por ele houvesse provocado essa... Fraqueza. Mesmo esse lindo vestido novo fora cortesia de um comprador pessoal que trouxera uma seleção de trajes até ela. Joss cumprira sua palavra. Ela tinha seu próprio dinheiro 30 minutos depois do telefonema. O primeiro dinheiro que possuía em anos! Sentiu uma ponta de animação. Dinheiro significava um nível de independência que lhe havia sido negado há muito tempo. Era de esperar que ela tivesse esbanjado com alguns extras além das roupas de que precisava. Leila observou as almofadas coloridas reavivando a mobília. E os vasos de flores, todos pedidos pelo telefone ou internet. E havia dinheiro suficiente para começar um pé-de-meia. Um dia encontraria um modo de se livrar do contrato. Então estaria verdadeiramente livre. — Leila! Está pronta? — As palavras adentraram seus pensamentos e a fizeram enrijecer. Joss estava à porta emanando pura masculinidade. Sua respiração falhou. Ele parecia mais vivaz do que qualquer homem que já vira. Ela o encarou com relutância e baixou sem querer o olhar para a boca firme e esculpida. Engoliu em seco, lembrando- se do gosto daqueles lábios e da sensação de ser abraçada. — Olá, Joss, como está? — A voz soou baixa, quando ela queria parecer impassível. Por um momento ele pareceu não registrar as palavras. Então adentrou a sala. — Bem, obrigado. E você? — Bem. — Seu sorriso foi superficial. Dissera a si mesma que o estresse da noite passada havia danificado suas percepções. Que o havia imaginado mais 46


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West atraente e perturbador do que realmente era. Estava errada. Apenas com um olhar seu corpo se animou de um modo que ela não conhecia até aquele beijo... Não. Não tinha condições de pensar sobre aquilo. O brilho nos olhos dele enrijeceu sua pele. Para um homem que a via apenas como um bem comercial, seu olhar era incrivelmente intenso. — Sofisticado o bastante para você? — perguntou ela, finalmente apontando para o vestido de seda verde água que amara à primeira vista. Nenhuma resposta. A segurança dela despedaçou. Teria se enganado? Gamil havia removido os espelhos da casa. Talvez ela tivesse perdido o discernimento. Irritada com a dúvida, Leila lembrou a si mesma de que a opinião de Joss não importava. Gostava do vestido e pronto. Levantou o queixo e girou no lugar exageradamente devagar. O pingente de sua mãe balançou suavemente em suas costas reveladas pelo decote em “V” profundo. Havia decidido usar o pingente para trás como um desafio, irritada com a exigência de Joss ao telefone. Queria chamar atenção. Agora que ele estava com os olhos fixos nela, já não tinha tanta certeza. Seus músculos ficaram tensos quando ele se aproximou. — Perfeito — murmurou ele. — Você está linda. Verdade? Ficou admirada por sentir deleite. Seu pai havia dito que era bonita, mas desde sua morte nenhum homem havia elogiado sua aparência. Agora via admiração nos olhos de Joss. Depois de anos sendo repreendida e denegrida, um elogio foi um choque. Fez maravilhas para seu ego machucado. Ao mesmo tempo, como a ternura depois do abuso, ameaçava sua compostura. — Obrigada — disse quando encontrou sua voz. — Você também. A boca de Joss se levantou em um dos lados, enfatizando a curva sexy de sua boca e queixo. — Vamos? — disse ela, alcançando sua bolsa. — Depois de você. — Soube que recebeu um visitante — disse ele um pouco depois. Ela deu de ombros, sentindo a fina seda sibilando em sua volta a cada passo e o peso do pingente entre seus ombros nus. — Contratei um comprador pessoal. — Ah! Entendi que houve outro homem há alguns dias. Leila parou congelada. Mesmo encarando a frustração diária por seu novo medo de sair, acreditara que estava livre. Pensou ter deixado os espiões e a repressão para trás. Ela olhou para Joss furiosa. — Seus empregados estão me espionando? — Claro que não. — Então como sabe sobre meus visitantes? Pelo que pareceu uma eternidade, Joss parou, observando-a tão minuciosamente que percebeu o rubor de ódio e a pulsação batendo em sua garganta. 47


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — A Sra. Draycott estava preocupada — disse ele gentilmente. — Ela disse que você pareceu triste depois que ele partiu. Soltando o ar preso nos pulmões, a ira de Leila se dissipou, desequilibrando-a. Não estava costumada a ninguém se preocupando com ela. — Quem era ele? — Incrivelmente, ela registrou preocupação na voz de Joss. Atingiu-a com mais força até do que a admiração dele. Ficou tentada a dizer que não era da conta dele. Mas para quê? — Um advogado que consultei sobre o contrato pré-nupcial. E quanto a ficar aborrecida... — Ela deu de ombros. — Fiquei apenas preocupada. Preocupação sobre como ela pagara por conselho legal foi apenas um fardo a mais. Não tivera dificuldade alguma em conseguir uma consulta particular... Advogados estavam acostumados a atender clientes ricos em domicílio. — Entendo. — Todavia, Joss continuou com o cenho franzido como se quisesse saber mais. O que havia para saber? O contrato era preciso. Ela o cumpriria ou voltaria para Bakhara e os maus-tratos de Gamil. Reprimiu um dar de ombros estoicamente. Faria qualquer coisa para não encarar aquilo. — A Sra. Draycott também disse que você não saiu de casa. Leila endureceu, mas continuou andando. — Ela disse? — Sim — Ele estava tão perto que ela podia jurar sentir a respiração dele em sua nuca. — Fiquei bastante ocupada preparando o casamento. Precisava descansar. — Ficará doente se não tomar um pouco de ar e se exercitar. — Ainda teme que eu seja anoréxica? — Ela cerrou os dentes. — Ou já sabe que meu apetite tem aumentado? Silêncio. Ela estava certa. Ele realmente a estava investigando. Sem dúvida queria ter certeza de que sua nova esposa troféu estivesse em forma para suas tarefas. Entrou no hall furiosamente. Seus saltos batiam forte no piso de mármore. Fim da liberdade! Era prisioneira de Joss, embora sua cela fosse suntuosa. A idéia pesou em seu coração. Encontraria uma maneira de se livrar. — Se quer saber — disse ela —, tenho usado a piscina interna para me exercitar. Depois do confinamento, as braçadas quase a mataram no começo, mas ela se recusava a desistir. Com o apetite de volta e o sono em dia, ela começava a adquirir força. — Peço desculpas — murmurou ele. — Eu estava... Preocupado. — Leila pausou, notando um tom que não reconhecia na voz dele. Algo que acalmava sua raiva. Ele apertou o botão para chamar o elevador. Imediatamente um frio congelante tomou conta da barriga dela. Sua boca secou. A porta se abriu fazendo o barulho de uma cobra venenosa. Leila encarou o espelho no fundo do elevador e entrou antes que pudesse mudar de idéia. Tentou se concentrar no reflexo de seu lindo vestido. E no fato de que, em seguida, teria que encarar as ruas da cidade. A cada respiração seu pulso acelerava. — Leila? — Joss manteve a porta aberta. Ela quis gritar para que ele a 48


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West fechasse e acabasse logo com isso. — Sim? — Sua voz ecoou fracamente. — Você está bem? — Ótima — disse, com um fraco sorriso. E encravou as unhas na bolsa delicada. — Não parece. — Ele parecia ler seus pensamentos. Tremores correram pela espinha dela e a tensão piorava a cada movimento. Seus músculos doíam pela força de lutar contra o impulso de correr de volta para o apartamento. Precisou de todos os recursos para lutar contra o medo. Mesmo assim ele continuou parado ali, prolongando a agonia. Para a surpresa dele, Leila avançou, agarrou seu braço e o puxou para dentro. Sua outra mão atingiu os controles, fechando a porta. Ele viu suor brotando na testa e nos lábios superiores dela. Ela estava pálida. O elevador se movimentou. Leila apertou forte o braço de Joss e olhou fixamente para sua camisa. — Leila? — A concentração absoluta dela o enervava. O que estava acontecendo? — Sim? — Olhe para mim. — Ela não se moveu. — Leila! — Diante do tom agudo, ela levantou a cabeça. O coração dele saltou com o choque. As pupilas dela estavam tão dilatadas que seus olhos pareciam pretos, apenas com um pequeno círculo do verde cristalino na borda. Joss pegou a mão dela, sentindo-a tremer. Ela estava com medo! Era extraordinário, inexplicável, mas era verdade. Ele tocou as faces dela. Estavam frias e úmidas. Ele tentou se convencer de que havia outra explicação, mas nenhuma fazia sentido. Seu cérebro se deu conta. Teria sido medo ontem? Quando ele achara que a mudança repentina de opinião fosse um joguinho de mulher mimada? E também no dia em que desmaiara a caminho do avião? E na noite passada, voltando para casa, quando ela se sentara imóvel no canto do banco traseiro da limusine? Ele pensara que ela estivesse perdida em devaneios. E se ela tivesse congelada de medo? De repente o comentário da Sra. Draycott sobre Leila não sair de casa fez um horrível sentido. Joss queria rejeitar a suspeita, mas não conseguiu. Tudo se encaixava perfeitamente. Como não percebera antes? Porque tinha coisas mais importantes na cabeça do que sua noiva. Uma facada de culpa o atingiu. Ele, de todas as pessoas, sabia o que acontecia aos fracos quando ninguém tinha tempo de notar e responder aos seus medos. Não tinha dito a si mesmo que Joanna ainda estaria viva se alguém tivesse se interessado realmente por ela? No entanto, Leila não era fraca. Mesmo desmaiada em seus braços tinha sido inflexível em continuar a viagem. A mulher que acabara de repreendê-lo por xeretar em sua vida particular não era fraca. 49


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Ele olhou dentro dos olhos desfocados lembrando-se de como ela o havia empurrado para dentro do elevador e apertado o botão para o subsolo. Ela podia estar com medo, mas não estava fugindo. Encarava o medo de peito aberto. O estômago de Joss se contraiu pela coragem confrontante dela. — Fale comigo, Leila. — O que quer que eu diga? — disse, com dificuldade. Não podia acreditar que essa era a mulher que momentos atrás atirava comentários ferinos para ele. — Diga do que está com medo. — Ele fazia uma boa idéia, mas precisava ouvir dela. — Não estou com medo de nada. — No entanto, suas palavras estavam arrastadas e seus olhos, desfocados. Ela tremia. Era sua imaginação que estivesse esfriando a cada momento? Fazia uma vida que ele não se preocupava com ninguém, exceto da maneira impessoal que um empresário se responsabilizava por seus funcionários. Isso não era impessoal. Parecia temerosamente real. O abraço de Joss se firmou quando ele se lembrou do beijo na última vez que usaram o elevador. Pelo menos ela não ficara congelada de terror. Estivera vibrando de paixão quente. — Beije-me, Leila. — A voz dele estava rouca quando se curvou para encontrar os lábios dela. Ela pulou para trás cambaleando e ele a segurou gentilmente. Era para o bem dela, assegurou a si mesmo. — Não. — Mas a voz dela não tinha força. Onde estavam as respostas atravessadas? Mais do que tudo, isso o convenceu de que não estava imaginando coisas. Joss entrelaçou os dedos pelo cabelo perfeitamente atado dela e o soltou. O fato de ela não tê-lo impedido o deixou mais alarmado. Ele massageou sua cabeça e roçou os lábios nos dela, que permaneceu imóvel. Recuou, sentindo a maciez do lábio e o ar quente do suspiro que escapou. Sentiu um frio na barriga como se reagisse ao mais erótico toque. O poder dele o surpreendeu. Mesmo assim ela não se moveu. Ele se inclinou para cobrir a boca dela escorregando a língua pelos lábios suculentos. Lembrou a si mesmo de que não se tratava de sexo. Tratava-se de... O quê? Salvá-la do medo? Não era toda a verdade. O interesse dele era pessoal. A boca dela se moveu contra a dele, que foi tomado por sensações. Alívio ou prazer? Joss não analisou. Trouxe-a mais para perto com a mão pressionada contra suas costas. A pele dela esquentou com o toque. A sensação dos lábios dela acomodando os seus e se abrindo para a investida de sua língua era deliciosamente provocativa. Ela tinha gosto de desejo e promessa doce. Ele ouviu o elevador soar e as portas se abrirem. Joss continuou imóvel, abraçando-a como se para prolongar o prazer quase inocente da reação dela. Não havia nada inocente no apetite urgente que o fazia querer arrastá-la de volta para o apartamento e para cama. Fogo atingiu a virilha de Joss. 50


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West O toque das mãos dela aumentava a sensação carnal. Queria aqueles dedos gentis em seu corpo nu. Será que ela o arranharia no momento do êxtase? Poderia apostar que ela fosse tão ardente na cama quanto era quando brigava com ele. Joss estremeceu de pura luxúria ao imaginar Leila nua debaixo dele, os seios atrevidos enchendo suas mãos e os gemidos roucos em seu ouvido enquanto ele os levava ao topo do prazer. Ele apertou forte e de repente Leila não estava mais respondendo ao beijo. Com um puxão ela se libertou. Desacreditado, Joss observou o peito dela subindo e descendo rapidamente com fascinação entorpecida. — Não me olhe assim! Ele levantou a cabeça. O olhar dela fazia parecer que também tivera dificuldade em se livrar da força erótica daquele beijo. Seu cabelo estava bagunçado e sua pele agora estava corada. A boca já estava sem batom e os lábios, inchados. Joss enfiou as mãos nos bolsos para não agarrá-la novamente. — Não estou disponível para seu prazer. — Os olhos dela se estreitaram. O desafio vibrava por todo seu corpo. Alguém deveria avisá-la de que ele aceitava qualquer desafio. Só havia uma maneira de lidar com eles: encarar e vencer. Sempre. Era tudo que Joss podia fazer para demonstrar como seu ultraje era fútil. Ela havia correspondido ao beijo. Não havia engano quanto ao tremor de prazer. — Você me ouviu? — Ouvi Leila. — Mesmo pronunciar seu nome era uma experiência sensual. Ele olhou para a pulsação na base do pescoço dela. Teria sua pele o mesmo gosto de seus lábios? De repente ficou ávido para descobrir. Ele não precisava da expressão indignada de Leila para alertá-lo de que estava em terreno perigoso. Estivera em um território duvidoso à semana toda ao passar horas ponderando sobre sua intrigante esposa em vez de se concentrar no trabalho. Mas nem isso o deteve. Sucesso dependia de fazer planos e os adaptar para necessidades emergenciais. Ele sorriu. O que sentia por Leila era certamente uma necessidade emergencial. Teria ele se enganado ao exigir que o casamento fosse apenas no papel? Seria tão errado misturar um pouco de prazer com negócios, afinal? — Pare de olhar para mim como se quisesse... — Comer você? — Joss não conseguiu impedir o sorriso. Leila arregalou os olhos e abriu a boca. Estaria genuinamente chocada? A idéia o intrigava e excitava. De repente descobriu que estava cansado de mulheres com tanta experiência e que só se importavam com dinheiro. Leila jamais seria enfadonha ou previsível. Mesmo agora comprimia os lábios como se quisesse puni-lo. Ele adoraria vêla tentando. — Não prenda o cabelo. — Ela já o estava torcendo atrás da cabeça. Apreciava as longas madeixas em volta dos ombros dela. Na noite anterior tinha encontrado várias desculpas para chegar mais perto e sentir a maciez e a fragrância delas. 51


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Não com esse vestido — disse ela balançando a cabeça. Ela se virou, apresentando uma visão de suas costas macias. O vestido era bastante decente, cobrindo os seios, braços e boa parte das pernas. No entanto, algo sobre o decote profundo fazia seu corpo tinir com apetite renovado. Sua. Leila era sua. O pensamento sovina tomou conta de seu cérebro. Até que a viu enrijecer diante da porta aberta para o imenso estacionamento. Ela encolheu os ombros e respirou fundo. O cérebro dele funcionou com atraso e ele se lembrou do fato de que ela não saíra de casa exceto na noite anterior, quando ele não havia lhe dado opções. Ele queria saber mais para entender. Mas não era o momento. Joss se aproximou, enlaçou o braço dela e segurou forte, notando que ela parecia estar com medo que ele a soltasse. Sentiu um senso de proteção avassalador. — Por aqui. — Ele deu um passo, mas Leila ficou presa no chão. Recusava-se a ir com ele? Estaria assim tão amedrontada? — Posso andar sozinha. — Ela relaxou o aperto, convidando-o a soltá-la. — Não precisa bancar o marido apaixonado. — Ela tentou parecer calma, mas não havia engano quanto ao brilho de orgulho em seus olhos. Tanto trabalho para ocultar sua ansiedade! Estava fingindo estar calma delatada pelos pequenos tremores que ele via correndo em seu corpo. Ele gostava que ela fosse uma lutadora recusando-se a se entregar. Identificava-se com isso. Obstinação fora a qualidade que o ajudara a sobreviver aos pais egoístas e seguir em frente. — Só estou praticando para nossos convidados. — Ele deu de ombros. — Não estou acostumado a ser parte de um casal. Preciso aprender direito. Era mentira. Poucas coisas pareciam tão certas quanto abraçar Leila. — Muito bem. — Ela respirou e Joss lutou para manter o olhar no rosto dela. — Pode pegar no meu braço, mas vamos esclarecer: não gosto de ser manipulada. Ela não o olhou nos olhos. Não tão corajosa, afinal. Estaria com medo do que veria nos olhos dele ou nos seus? — Se quer beijos — disse ela, em voz baixa -, encontre outra pessoa que os ofereça. — Não está interessada? — Ele lançou o desafio. — Por que estaria? Beijei você ontem por curiosidade. Não significa que quero repetir. — Não? — Poderia até ser verdade. Na outra noite fora mais que curiosidade. Mas daria uma chance. Tinha visto seu medo e com certeza não queria vê-la daquele jeito de novo. — Não. — Agarrando a mão dele, Leila saiu do elevador concentrando-se no carro que os esperava. — Afinal, não estava no contrato, não é?

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Capítulo Oito — Sempre ouvi dizer que você tinha tanta sorte quanto era esperto. Agora sei que é verdade. Joss olhou para o russo ao lado dele e arqueou as sobrancelhas. — Verdade? — Tevchenko era um dos homens mais ricos da Europa. Joss escolhera o apartamento londrino, embora caro e perfeitamente localizado, por conveniência. Não receberia elogios de um homem que possuía palácios imperiais. — Verdade. — Uma gargalhada de aprovação irrompeu do peito do outro homem. — Sua esposa. — Ele acenou em direção à larga sala de estar. — Ela é uma joia. Um raro achado. Joss sentiu uma ponta de ciúmes e gelou. Ciúmes? Impossível. Vagarosamente ele voltou-se. Sabia exatamente onde encontrar Leila. A noite toda estivera ciente dela. Leila entendera, sem ser solicitada, que deveria tomar conta das esposas enquanto Joss fixava-se nos negócios. Ela fizera seu trabalho brilhantemente, permitindo-o que seguisse com suas discussões. Era uma anfitriã nata. Encantava mesmo o mais difícil. O segredo, ele descobrira, era seu calor genuíno. Ela demonstrava interesse em todo mundo. Com a exceção de seu marido. Não mostrava nenhum interesse em Joss, mantendo-o à distância a semana toda desde aqueles beijos. Era frustrante. A agenda pesada dele e o modo reticente dela significavam que ele não estava mais perto de descobrir os segredos que ela escondia tão bem. Os olhos de Joss a avaliaram Essa noite ela estava vestida modestamente. Sem costas nuas para distraí-lo. Todavia, no vestido justo água-marinha, ela parecia uma sereia. Usava seu cabelo num coque elegante, acentuando suas feições impecáveis. Só de olhá-la causava um grande prazer. Ao lado dela as esposas troféus com seus vestidos colados e pele bronzeada pareciam pomposas e baratas, embora suas jóias provavelmente valessem uma fortuna. Em contraste, Leila usava um simples pingente que atraía os olhares masculinos para a curva deleitável de seus seios maduros. Joss franziu o cenho percebendo que era o mesmo pingente que ela usara cada vez que eles saíam. Não usava nada mais do que aquilo? — Você não concorda? — disse o russo no seu ouvido. — Pensei que estivesse ciente das qualidades especiais de sua esposa. Certamente Boris não era tão grosseiro para avaliar o corpo dela tão ostensivamente. Joss apertou os punhos furiosamente. — Ela deixa todo mundo à vontade. — Tevchenko acenou para as mulheres no outro lado da sala. — Mesmo aquelas duas gatas que estavam rosnando uma para outra há pouco. — Ele suspirou. — Com uma mulher como esta ao meu 53


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West lado... — Ele deu de ombros e sorriu. — Você é um homem de sorte. Ele pousou sua mão no ombro de Joss, que relaxou. Ele exagerara. — Sei disso. — Quem imaginaria que Leila eclipsaria suas expectativas? Ela era um espólio valioso, na verdade, mesmo apesar da luxúria inconveniente que inspirava. E do modo como o distraía. E do modo aborrecido que ela o estava evitando depois daquele gosto de paixão avassaladora. Estava mortificado por ter estabelecido um casamento apenas no papel. Ele queria mais do que um boa-noite educado e uma porta fechada. Seu sangue aqueceu, recordando como ela o dispensara. As sombras nos olhos dela o tinham convencido a não pressioná-la mais. Mas breve. Antecipação mexeu com sua barriga. Enquanto Joss observava Leila, o recém-chegado, Asad Murat, juntou-se a ela. O cenho de Joss franziu. A postura falava de uma tensão repentina, embora ele jurasse que ela não movera um músculo. Ele voltou-se para o russo. — Você me dá licença? — Claro. Se eu tivesse casado com uma mulher como aquela, eu a manteria perto também. Joss dirigiu-se ao fundo da sala com curiosidade aguçada. Leila estava de pé, copo na mão, cabeça inclinada em direção ao convidado como se ávida em ouvir todas as palavras dele. Todavia, algum sentido sobrenatural avisava que algo estava errado. — Estou interrompendo? — perguntou ele. Murat deu um passo atrás. Joss percebeu então como o par estava próximo. Leila voltou-se suavemente, seu sorriso perfeito. Somente o brilho penetrante nos olhos dela confirmava que Joss vira certo. Alguma coisa acontecia. Ele enlaçou o braço dela, que se manteve ereta, a pulsação disparada. — Em absoluto. — A dicção clara como cristal de Leila lembrou-lhe do tom de voz dela quando discutia com ele: educado, calmo e com um toque ácido. — Estávamos apenas discutindo a importância da disciplina. — Disciplina? — Joss franziu o cenho. — Autodisciplina? Leila sacudiu a cabeça. — A falta dela na sociedade moderna. Joss olhou de um para o outro, imaginando o que teria interrompido. Leila estava tão tensa que era de admirar que seu sorriso não desmontasse. — Por exemplo? Quando ela não disse nada, Murat tomou à dianteira. — A sociedade está cheia de benfeitores sociais irrealistas queixando-se sobre os fracos. Eles não entendem que os fortes na sociedade precisam tomar a liderança, dar o exemplo. — Ele pausou. — Como nós. — Nós? — Joss tinha aprendido o suficiente sobre Murat para perceber que tinham pouco em comum exceto riqueza e interesses em mineração. — Líderes. Homens de mente forte. Que não têm medo de defender o que é certo. Ao lado dele, Leila mexeu-se. — Sinto muito — murmurou Joss —, mas terá que ser mais específico. 54


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Um homem precisa governar seu lar razoavelmente, mas com mão de ferro. — O outro homem lançou um olhar para Leila. — E no comércio também. Veja seus problemas com trabalhadores na África. — Ele expôs sua teoria sobre como lidar com aquilo. Com cada sentença ele se confirmava totalmente destituído de qualquer consciência social e de humanidade. — Tática interessante. — Joss interrompeu. — Mas não minha. Você lerá no noticiário amanhã que a greve acabou. As condições na mina sob o proprietário anterior eram arcaicas e brutais. De agora em diante muitos trabalhadores locais serão contratados, depois de uma revista total de saúde e segurança. Haverá novos equipamentos e treinamento apropriados para todos. Joss pausou, deixando suas palavras terminarem — Eu também ofereci um esquema de incentivo de lucro compartilhado em adição aos planos de melhorar acesso à água potável e educação de aldeias locais. — Você está louco? E seus lucros? Joss olhou para o rosto chocado do outro homem e percebeu que havia se enganado ao pensar que pudesse fazer negócio com ele. Se fosse por ele ser apenas insensível, não tinha problema. Ele mesmo havia sido rotulado assim inúmeras vezes. Mas explorar trabalhadores como verdadeiros escravos como Murat sugerira? O cara o deixava doente. — Condições decentes e respeito pelos trabalhadores aumentam a produtividade. — Ele deu um sorriso que mostrou os dentes. — Somente os agressores não conseguem respeitar os direitos dos outros. Murat sentiu-se ofendido e foi embora. — Você pensa assim? — perguntou Leila. — Claro que penso. Ele deu má fama à mineração. Um dia haverá um grande desastre em uma de suas minas... Um desastre evitável. Sei que ele é amigo da sua família, mas há um limite... — Ele não é meu amigo! Passei os últimos cinco minutos cerrando os dentes para não mandá-lo embora. Pensei que ele fosse importante para seus planos. — Ninguém é indispensável, Leila. Não quero fazer negócios com ele, afinal. — Era uma decisão que ele vinha considerando a semana inteira. Esta noite fora a última gota. Joss entrelaçou seus dedos nos dela, sentindo a tensão. — O que ele disse para você? — As ondas de raiva que o invadiram enquanto ouvia o outro homem inundaram-no. — Nada importante. — Ela afastou o olhar e ele sabia que ela mentia. — Leila. O que foi que ele disse? Se o bastardo a houvesse insultado... — Nada que valha a pena repetir. Realmente. Aquilo era verdade? Sobre seus planos para a mina? — Sim. O acordo acaba de ser feito hoje. Isso importa? Gravemente ela assentiu. — Importa. A curva baixa dos lábios dela era mínima, quase um sorriso, mas o aqueceu como o sol no deserto. HORAS DEPOIS Leila afastou-se enquanto Joss fechava a porta para o último convidado. Cansaço tomou conta dos ombros dela. Fora uma noite estressante. Ela 55


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West adorava conhecer novas pessoas, mas estava totalmente sem prática. A noite toda imaginara se não cometeria uma gafe revelando o pouco que sabia sobre o que acontecera no mundo nestes últimos anos, quando tinha ficado trancada. Depois havia Murat. Leila esfregou as mãos pelos braços nus, lembrando o calor selvagem nos olhos dele enquanto a assediara. — Estou cansada — disse ela. — Vou para a cama agora. Boa noite. Ela estava na entrada da ala dos quartos, quando a voz dele a alcançou. — Não ainda, Leila. Precisamos conversar. Voltando-se, ela viu a expressão teimosa dele. E não gostou de Joss chegando tão perto. Ele a fazia sentir coisas que não deveria sentir, especialmente por um homem que a mantinha puramente para negócios. Mesmo um homem que provara não ser nada igual à Gamil ou seu amigo íntimo Murat. Seu coração encheu-se de prazer quando se lembrou de Joss durante a noite chamando Murat de agressivo. Como deliberadamente o excluíra de um acordo de bilhões de dólares. Joss, ela percebeu, nunca se comportaria brutalmente como seu padrasto. A despeito de seu espetacular poder, ele não era um agressor. Ele preocupara-se com a saúde dela. Instruíra sua governanta para fornecer suas refeições favoritas. Tratava-a com respeito na frente dos outros. E quando estavam sozinhos... Calor apoderava-se dela. Mesmo quando brigavam ou beijavam-se, ele não tentava forçá-la. Era um homem que ela podia respeitar e talvez até gostar. Enfraquecia sua resolução de manter distância e a fazia imaginar sobre aquele luminoso lampejo de paixão. Nunca experimentara nada igual. Ela tinha tanto para pensar a respeito. Precisava ficar sozinha. — Desculpe. Estou exausta. Podemos conversar amanhã. Ela quase chegara ao seu quarto, quando dedos longos seguraram seus cotovelos. Leila se recusou a pensar nos arrepios que aquele aperto quente causava. O cheiro sutil de Joss trouxe de volta aqueles momentos impetuosos no elevador, quando ele a levara para os portões do paraíso com seus beijos. Ela corou violentamente quando o encarou. — Não acabamos nossa conversa. Ela arqueou as sobrancelhas. — Disse-lhe que estou cansada. Podemos conversar amanhã cedo. Seu coração bateu forte. Seu peito ficou apertado enquanto ela segurou a respiração, querendo que ele a liberasse. Disse para si mesma que ele a deixava desconfortável. Todavia, não era desconforto pulsando em seu corpo. — De que você está com medo, Leila? Diga-me. — A voz dele atingia profundamente seus nervos tensos. Como podia a voz de um homem ser como um toque de veludo? Seus mamilos endureceram como se de frio. Todavia, era calor que sentia. — Não estou amedrontada. — Não? Nem mesmo de nosso convidado Murat? — Dele? Ele é um homem horrível, mas não estou com medo dele. — Oh, houve um momento, quando eles se encontraram novamente, que trouxera de volta uma vibração dolorosa por tudo que seu padrasto fizera. Mas essa noite ela 56


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West sentira somente repugnância. Joss olhou para ela. Por que era tão persistente? Fora ele quem insistira que levassem vidas separadas. — Se não Murat, então de que está se escondendo? — Não estou me escondendo. Sua imaginação está muito fértil. — Mesmo enquanto disse aquilo, Leila sabia que era uma mentira. Ela ansiava pelo santuário de sua suíte, longe do olhar penetrante de Joss. Não entendia as emoções antagônicas que ele evocava. Seu interesse a irritava, contudo a excitava. Ela puxou sua mão, mas ele segurou-a facilmente. — Se não está se escondendo e não está com medo, então não se importará de caminhar comigo no jardim do telhado. A pele de Leila congelou. — Há uma vista maravilhosa do Tamisa e o cheiro de florescência no ar da noite é mágico. Ao ar livre podemos respirar ar fresco. — Ele pausou. — Acho que não esteve lá ainda. Permita-me lhe mostrar. Há uma maravilhosa sensação de espaço e abertura. Leila tentou evitar entrar em pânico. Espaço e abertura... Ela estremeceu lembrando-se daquele dia no aeroporto. Mesmo para sair com Joss na segurança da limusine precisara de cada gota de coragem que possuía. E a distração dos beijos dele. Seu coração saltou nervoso. Ele estava esperando e havia algo nos olhos dele que diziam que ele entendia seu medo. Teria adivinhado? Como? Droga de homem! Por que não podia deixá-la em paz? — Se é tão importante para você — disse finalmente, com voz rouca pela repentina secura na garganta —, então me mostre seu jardim no telhado. — Ela voltou-se, determinada a terminar com aquilo tão rapidamente quanto possível. Certamente poderia agüentar um minuto ou dois. Certamente! — Por aqui. — Joss empurrou uma porta e conduziu-a as janelas do chão ao teto. Além delas Leila viu uma fileira de vasos, uma pérgula e uma pequena cascata caindo sobre uma piscina. Sua pulsação acelerou-se quando olhou para o céu aberto que parecia refletir as luzes da cidade. Ela imaginou ficar ali, sob o peso daquela vastidão, e tropeçou no tapete grosso. Joss a segurou e abriu uma das portas de vidro. Leila prendeu a respiração, seus olhos fixados no movimento. Ar frio da noite fez sua pele arrepiar- se. O som mudo de uma ambulância na distância ecoou nos seus ouvidos, misturando-se com o fluir de sua própria respiração. Cerrando os dentes, Leila afastou-se de Joss e deu um cuidadoso passo em direção à abertura. — Mulher obstinada! — As palavras foram um gemido nos ouvidos dela enquanto o braço de Joss envolveu sua cintura, puxando-a para mais perto. — O que você quer de mim, Joss? — Ela não podia esconder a súplica na voz. — Eu disse que não estou com medo. — Não? — Mesmo na semi escuridão, ela discerniu o brilho dos olhos naquele rosto carrancudo. — Você está apavorada, Leila. 57


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Ela determinou-se a não revelar suas fraquezas. — Do que eu estaria com medo? — Disto. — Os lábios dele tomaram os dela. Desta vez algo faminto e desesperado se ergueu para encontrá-lo. Algum instinto animal vindo de seu medo e sua raiva e do desejo que estivera crescendo desde que Joss levara a taça do casamento aos seus lábios, reivindicando-a como sua esposa. Desde que ele a tomara nos braços e obliterara sua inquietação com a realidade de seu toque terno. Leila derreteu-se, seusjoelhos enfraqueceram quando ela agarrou os ombros dele. — Não estou com medo — sussurrou ela. Era verdade. Ele era poderoso e forte. Mas ela sabia, bem no fundo, que era um homem diferente do que ela aprendera a ter medo. — Você não deveria sentir medo. — Joss ergueu-a até que seus corpos ficassem perfeitamente alinhados e tirou sua boca da dela, então pulverizando seu pescoço com beijos quentes. — Você me faz querer perder o controle. Leila o sentiu quente. Almejou o calor do corpo dele contra o dela como se sua vida dependesse daquilo. Ele baixou a cabeça, beijando a linha do colar dela entre os seios. Desejo imensurável chocou-a. Não era Joss perdendo o controle, era ela! Deveria odiar aquilo. Temer aquilo. Certamente perder o controle era o deixar dominá-la como ela jurara nunca deixar. Todavia, era glorioso. Joss baixou sua cabeça e lambeu o contorno de seu decote até o pendente de pérola. Ele fez aquilo novamente, desta vez seguindo a ponta de seu corpete sobre os seios. Leila ofegou enquanto deleite derrubou as barreiras que erguera entre eles. — Você está totalmente no controle — murmurou ela, sua voz um protesto rouco. Ela não tinha experiência para tomar a iniciativa. Tudo que tinha era instinto para guiá-la e a inegável habilidade de Joss. Ela engoliu em seco observando a língua dele girar novamente sobre seu seio, sentindo uma faísca de prazer onde quer que ele tocasse. Jamais conhecera nada tão erótico. — Gostaria de me ver perdendo o controle? — Outra carícia da língua, desta vez através da fina seda de seu vestido até encontrar o mamilo e mordê-lo gentilmente através do tecido. Leila enterrou os dedos no cabelo dele e seu corpo inteiro saltou. Seus olhos se arregalaram chocados e um gemido baixo escapou de seus lábios. Nenhuma hesitação. Queria o toque de Joss. Precisava dele. Sua respiração sibilou entre seus dentes cerrados enquanto percebia que estava prestes a se entregar para um homem que conhecia há apenas algumas semanas. Corajosamente ela lutou para se recompor. — Não está no nosso acordo — ofegou ela. — O acordo que vá para o inferno! — Uma mão grande acariciou-lhe o seio e ela cedeu no abraço dele. Ele a ergueu e afastou-a da porta. Um colchão macio a aparou quando ele esmagou-a debaixo dele. 58


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Por um momento sentiu algo como pânico enquanto estava presa pela força superior dele. Então ele recuou. Acariciou o cabelo dela com uma das mãos enquanto a outra traçava seus lábios tão ternamente que ela precisou reprimir um suspiro. Ele não a estava forçando. Estava seduzindo-a. — Podemos mudar o acordo, Leila. — Os lábios dele contra seus ouvidos a fizeram arquear com a carícia desconhecida. — Quero você, Leila. Você me quer. Simples assim. — Como sabe que quero você? — Ela colocou a mão no peito dele e empurrou até que ele levantasse a cabeça. As sombras escuras enfatizavam a força e a arrogância das feições dele. Seus olhos brilhavam ao examiná-la como se antecipando o ato de possuir seu corpo. Leila engoliu em seco com ansiedade. Então olhou para a boca rígida dele e viu o que parecia dor. Percebeu o esforço que ele fazia para se segurar. — Não quer? — As palavras eram duras, mas o toque dos dedos dele em seu rosto era gentil. Leila estremeceu diante da ternura devastadora. — Não há nada errado com o desejo, Leila. Simples necessidade física. — Ele acariciou sua boca e algo se desatou dentro dela. Por que não aceitar? Aproveitar? A voz baixa era deliciosamente convincente. — Não vai desaparecer não importa o quanto queira esconder. Não até que o satisfaçamos. — O toque dele era delicioso. Leila maravilhou-se com o peso quente que a segurava. Era isso que estava fazendo? Escondendo-se? Leila tentou organizar seus pensamentos, mas o perfume da pele masculina tornava a lógica impossível. — Aproveite enquanto durar. Então siga em frente. Seguir em frente. Ela ofegou diante das palavras. Ele estava certo. Ela queria seguir em frente. Seus planos para o futuro dependiam de se livrar de Joss e se firmar sozinha. Como poderia colocá-los em prática com tanto desejo em jogo? Ela percebeu que com toda sua experiência ele entendia essa... Conflagração de necessidades muito melhor do que ela. Talvez sua inexperiência a tivesse atrapalhado. Nunca havia beijado um homem. Era de esperar que seus hormônios tivessem despertado. O simples toque de um dedo dele a incendiava. Essa necessidade a assombraria até que cedesse? Como poderia se concentrar no futuro enquanto lutava contra esse desejo? Um gostinho de paixão. Por que não? Só para satisfazer o apetite voraz. Então seguiria em frente. Parecia fácil demais, mas ao mesmo tempo inevitável. Tentadoramente ela escorregou a mão para o cabelo dele e puxou sua cabeça para ela.

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Capítulo Nove O QUE fizera para merecer Leila na sua cama Joss não sabia. Sabia apenas que ela era diferente. Aquela coisa entre eles era diferente... Mais intenso do que qualquer coisa que ele já experimentara. Era forte e desconhecido. Ele sentia uma paixão tão potente que apertava sua garganta enquanto tirava o vestido dela para revelar a mulher que assombrara seus pensamentos. Sua esposa. Seria por isso que parecia tão profundo? Alguma reminiscência de instinto masculino primitivo de possuir sua mulher era isso que tornava o corpo sedutor dela tão fascinante? Sua esposa. Sua mulher. Joss sacudiu a cabeça. Não queria ser dono dela, apenas possuí-la tempo suficiente para encontrar o prazer mútuo que provocara por semanas. Não tinha interesse algum numa relação duradoura. Quanto ao tremor nas mãos quando abriu sua camisa quase a rasgando... Avidez. Nada mais. Seu olhar varreu o corpo dela, nu exceto pelos inocentes sutiã e calcinha. Estivera errado em pensar que ela fosse anoréxica. Delgada, sim, delicada num modo que escondia força nos lugares certos. Seu coração bateu forte. — Solte seu cabelo — disse enquanto se livrava do paletó e da camisa ao mesmo tempo. Imaginou como seria quando Leila o acariciasse? O olhar dele pousou na boca provocante. Imaginou os lábios dela sobre sua carne e seu corpo contraiu-se pela expectativa. Ela colocou o colar sobre o criado-mudo, lembrando a ele da necessidade de pegar o preservativo. — Apenas por um momento, doçura. — Ele curvou-se para beijar o estômago dela. O gosto dela era viciante e seu cheiro de sândalo e raio de sol fez seu sangue correr acelerado. Ele girou a língua no umbigo dela, mordiscando a barriga no alto de sua calcinha. Não conseguiu resistir tocá-la através do tecido frágil. Ela estava quente e molhada, arqueando-se contra a palma da mão dele com gratificante urgência. — Breve — prometeu ele, plantando um beijo onde sua mão estivera e sentindo-a tremer em resposta. Joss atrapalhou-se com o resto de suas roupas e o preservativo. Quando se virou, o cabelo dela estava espalhado em volta dos ombros, como uma cortina voluptuosa de cetim. Os olhos dela estavam imensos à luz do luar. A trepidação teria sido gratificante se ele não estivesse tão dolorosamente excitado. Quase não pôde tirar-lhe a calcinha e o sutiã sem rasgá-los. Então ela estava nua debaixo dele. — Você é mais bonita do que eu podia imaginar. — Ele não reconheceu sua voz rouca. Leila o puxou para cima de sua pele macia. 60


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Os sentidos dele se agitaram. Cada ofego criava fricção que aguçava a tensão e, quando ela deslizou suas mãos sobre o corpo dele... — Sim, assim — gemeu ele, sua voz um sussurro gutural. — Toque-me. Ela o estava levando para o céu. Não, para o purgatório com aquelas longas carícias. Com dedos que moldavam e exploravam. Joss moveu o corpo para o lado, tomando a oportunidade de abrir-lhe mais as pernas e afundar-se entre elas. As mãos dela paralisaram. Ele pegou uma delas e a colocou em volta de sua rigidez. Teria ouvido um ofego? Sua audição estava prejudicada pela forte batida de seu coração. Os dedos dela apertaram em volta dele e sua respiração queimou nos pulmões. A sensação era quase demais para suportar. E, quando ela escorregou os dedos para cima, seu olhar brilhou. Ele a segurou e depois a guiou para baixo. Cerrou os dentes contra a necessidade de explodir diante do toque. Cedo demais. — Mais tarde — sussurrou — afastando e beijando a palma da mão dela. Ela estremeceu lembrando-o o quanto estava receptiva, o que o fez se concentrar em dar prazer a ela em vez de a si mesmo. Nesse ritmo seu prazer viria em um instante. — Diga do que gosta Leila. Inclinando-se, ele acariciou gentilmente o mamilo com a boca, observandoo enrijecer para ele. — Diga — exigiu ele. Ela enterrou os dedos no cabelo dele apertando como se quisesse que ele continuasse. — Sim. Isso. Gosto disso. — E isso? — Ele passou a língua pelo outro seio e esperou. — Sim! — Ela se moveu debaixo dele e tentou trazer a cabeça de volta ao seio. — Diga Leila. Os olhos dela brilharam na escuridão. — Beije-me aí. Por favor, Joss. Ele a recompensou com um beijo e depois abriu a boca para sugar mais forte, maravilhando-se enquanto ela se torcia debaixo dele. Ele acariciou a garganta, a pele rígida das costelas e a maciez dos quadris dela, com as palavras de Leila soando como música em seus ouvidos. — Sim. Assim. Por favor! Cada carícia provocava um suspiro, uma onda de prazer e um carinho em resposta. Quando Joss atingiu a barriga dela, nunca estivera tão excitado. Mergulhou a mão na parte de baixo das curvas femininas e ela arqueou contra ele. O jogo podia esperar. O controle de Joss estava no fim. Abrindo as pernas dela, ele agarrou o traseiro, inclinando à pélvis. — Sim? — perguntou, para se certificar. — Sim — O sussurro dela foi um convite ao paraíso. Segundos depois, Joss fez o que estivera desejando há tempo: uma investida profunda e rígida que o levou ao centro dela. A pele dele tiniu e seus cílios baixaram para que ele se concentrasse no 61


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West inacreditável prazer que o assaltava. Na escuridão, ele sentiu calor trazendo-o para baixo. Os dedos de Leila em seus ombros eram uma reafirmação aguda de prazer tão maravilhosa que beirava a dor. Seria assim para ela também? Com um profundo suspiro ele abriu os olhos. Ela mordia o lábio inferior. Tinha os olhos fechados e o cenho cerrado. Um recurso para concentrar-se no prazer ou, ocorreu a ele, impedir um grito de dor? Joss arqueou uma sobrancelha. — Leila? Ela não o ouviu; estava perdida no seu mundo. Aquilo ele podia entender. Novamente ele se moveu e a tensão no rosto dela diminuiu. Ele tinha o ritmo agora, gentil no início, observando os olhos dela abrirem para ver seu deleite. A cada movimento a tensão aumentava entre eles. Mesmo assim ele se moveu vagarosamente, tentando não ser apressado. Leila o agarrou fortemente e ofegou como se o ataque violento de prazer a pegasse de surpresa. E estremeceu enquanto o êxtase a consumia. Ele deixou a represa de controle romper e jorrou dentro dela com um rugido de arrebatamento enquanto a escuridão colidia com o calor e o prazer inacreditável. Quando Joss recuperou seus sentidos, estava esparramado sobre ela. — Leila? — Hmm? — Ela estava escondida debaixo dele com lânguida saciedade. Joss sorriu, esquecendo seu momento de dúvida. — Nada. — Ele roçou a nuca dela, deixando sua mão rumar pelo cabelo. O baixo-ventre dele aqueceu-se novamente e Joss gelou. Já? Então ele sorriu. Leila o mataria com seu corpo tentador se não tivesse cuidado, mas o que fazer? Cuidadosamente ele se afastou e saiu da cama, puxando o lençol para cobri-la. Caminhou para o banheiro e acendeu a luz, satisfeito por antecipação ao pensar em juntar-se à Leila novamente. Então retirou o preservativo e viu uma mancha de sangue. Sua satisfação desapareceu num átimo de segundo. Franzindo o cenho, ele recordou o modo como ela mordera o lábio, como se para conter um grito. Repentinamente transar com sua esposa não era tão simples quanto ele pensara. A SAÍDA de Joss despertou Leila de seu estado de sonho. Seu corpo ainda vibrava com os ecos de prazer. Ela pensou que soubesse, ou imaginara, mas nada a preparara para a realidade de fazer amor com Joss Carmody. Seria sempre assim? Aquele prazer tão profundo? Recordando fragmentos de fofocas, ela duvidava. Só podia ficar grata por Joss ter permitido que fosse bom para ela... Maravilhoso. Ele fora generoso de um modo que ela imaginou que nem todos os homens fossem. Outro ponto a favor dele. Leila sorriu sobre o travesseiro que tinha cheiro de Joss e algo desconhecido. Sexo? Seu sorriso morreu quando a realidade introduziu-se. Fora sexo entre eles e 62


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West ela sabia o que ele esperava de sua parceira de cama. Sem laços. Relacionamentos curtos. Sacudiu a cabeça. Ele não a queria pendurada nele somente porque haviam feito sexo. Ele falara em saciar aquela luxúria e seguir em frente. Não era o que ela queria também? A hesitação de momento horrorizou-a por não estar pronta para desistir da alegria que encontrara nos braços de Joss. Não somente o prazer, mas o sentido de unidade. Ela estivera tão sozinha tanto tempo. Aquele sentimento de incrível proximidade com Joss tinha uma fascinação que agitava seu coração ávido. Bálsamo para a alma depois da aridez que fora sua vida. Mas tivera seu gosto de prazer. Não imploraria por mais. Joss ficaria espantado se imaginasse o quanto a união deles, aquele compartilhamento de alegria e ternura, significara para ela. A porta do banheiro abriu e Joss entrou no quarto. A respiração de Leila obstruiu-se à vista dele, alto, sólido e movendo-se com graça. Ela engoliu em seco e disse para si mesma que era certo devorá-lo com os olhos. Seria a última vez que o veria assim. Seu coração dividiu-se diante da percepção. Ele caminhou em direção à cama, mas em vez de recolher suas roupas ficou de pé, com as mãos nos quadris, olhando para ela. Ela sentiu-se corar e ficou feliz pelo lençol cobrindo-a. — Boa noite, Joss. — Boa noite? — disse estreitando os olhos. Ela deixou o olhar cair para os pelos dos músculos do sólido peitoral, preferindo não encontrar o olhar dele. — Você disse que não dorme com mulheres. — Ela engoliu em seco, digerindo o fato de que era agora uma das mulheres de Joss. — Portanto, boa noite. Ela sorriu e deitou, como se dissesse boa-noite a um amante todas as noites e deitasse nua entre os lençóis, ignorando o modo como cada movimento provocava sua carne com lembranças do toque dele. Ele não se moveu. Ela cerrou o cenho, finalmente encontrando os olhos masculinos. Ele a examinou como se nunca a tivesse visto. — O que foi? Ele sacudiu a cabeça. — Nada. Mas... Você está bem? Ele saberia? Imaginara ele que ela fora totalmente inocente, nem mesmo adepta a beijar? Suas faces coraram diante da idéia dele comparando-a a outras mulheres. — Nunca estive melhor. — Ela pausou e percebeu que era verdade. Sentiase maravilhosa. — Estou pronta para dormir. Boa noite. — Determinada, fechou os olhos e tentou baixar a respiração como se exausta. — Tem certeza? — Pela primeira vez desde que se conheceram, Joss parecia tentador. Então ela havia parecido tão obviamente inexperiente! Leila encolheuse. — Realmente. Não quero mais falar. Boa noite. Silêncio. Nenhum som dele se afastando. — Há somente uma complicação. — A voz dele era uma carícia. — Você 63


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West está na minha cama. Ela ficou horrorizada quando percebeu o engano. Não notara. Fora totalmente tomada pela paixão. Leila agarrou os lençóis com dedos tensos. Agora teria que deixar o santuário da cama e encontrar suas roupas sob o escrutínio de Joss. Ele podia não ficar constrangido de sua nudez, mas ela não estava acostumada a mostrar-se a ninguém. Então mordeu o lábio reconhecendo que há pouco se despira alegremente para Joss. Mas aquilo fora no calor da paixão. Mas, antes que ela pudesse sair, Joss agarrou o lençol e subiu na cama. Instantaneamente, Leila se afastou. — O que você está fazendo? — Juntando-me a você. — Ele deitou a cabeça no travesseiro onde ela deitara. — Mas... Você não dorme com.. — Pensei que não quisesse conversar. Mas se preferir... — Ele ergueu-se sobre os cotovelos. — Não! — Ela se recusava a participar de uma autópsia do que tinham feito. — Então durma. — A voz dele soou como uma nota gentil. Se ela não tomasse cuidado, poderia ficar acostumada à ternura dele. Ficar ali ou enfrentar o ar livre? Leila disse a si mesma que tinha coragem para ir embora, nua como no dia que nascera. Depois do que suportara no passado, alguns momentos de desconforto não significam nada. Mas ela queria ficar. Tolice talvez, mas não estava pronta para afastar-se dele ainda. Silenciosamente ela rolou na cama para longe dele, puxando o lençol para cima. Por longo tempo permaneceu tensa, sem se mover. Joss não disse nada e finalmente ela começou a relaxar. Então um braço deslizou em volta da cintura nua dela e a puxou. — O quê você está... — Calada. — Ele aconchegou-a na curva de seu corpo, sua carne quente acalmando-a. As coxas peludas dele roçavam as pernas dela e seu peito poderoso cresceu e caiu contra as costas dela. Seu sangue entrou em ebulição, um jato de consciência de que estavam próximo o suficiente para... — Acho que não é uma boa idéia. — Ela tentou se afastar, mas o braço em sua cintura a impediu. Quando ele falou, seus lábios estavam no cabelo dela, sua respiração aquecendo sua orelha. — Simplesmente relaxe, Leila. Não se preocupe, não espero repetir a dose esta noite. Uma rigidez agitada atrás dela dizia uma história diferente. A declaração contrária não a tranqüilizou. Por que não a queria novamente? Tinha sido tão insatisfatório? Teria sido um erro sucumbir a seus sentimentos por Joss? Leila tinha uma horrível sensação de que a teoria de Joss cedendo à luxúria para saciá-la era falha. Ela sentia que tinha libertado um gênio faminto e que seria impossível recolocá-lo na garrafa. — Relaxe, Leila. Durma. 64


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Desde que ela e sua mãe passaram a viver com Gamil, Leila tinha passado a ter sono leve, sempre alerta às sutis mudanças no ar que podiam ser o arauto de uma das extremas mudanças de temperamento do padrasto. Ela sabia que estava alerta demais para dormir. Levaria horas. Todavia, aquele pensamento foi à última coisa que ela lembrou-se antes de cair num profundo e refrescante sono.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Dez Joss inseriu a chave que dava acesso ao seu elevador privativo e esperou impacientemente. Deixara o escritório depois de uma reunião e cancelara seus compromissos para que pudesse voltar logo ao apartamento. A imagem de Leila dormindo na sua cama fez com que gemesse de prazer. Havia diminuído suas horas de trabalho por ela. Vigoroso e saudável, ele tivera sua quota de mulheres. Mas nada o preparara para a intensidade do prazer que sentira com Leila. Não entendia a razão... O corpo flexível e sexy, a voz rouca, o véu rico do cabelo longo que a deixava misteriosamente sexy e inocente ao mesmo tempo. Sua centelha combativa que o instigava a provocá-la. O fato de que, mesmo ávida pelo toque dele, ele tivera que trabalhar duro para convencê-la a fazer sexo. O olhar maravilhado nos olhos dela ao atingir o clímax. O fato de ter sido seu primeiro amante. A luxúria irrompeu em chamas com o pensamento. Nunca considerara a virgindade de uma mulher até agora. Mas o abandono despreocupado de Leila em doá-la a ele, a mera beleza de observá-la despertar pela primeira vez ao seu toque, roubou-lhe a respiração. Ele queria mais. Passara a noite toda excitado, determinado a conter-se quando ela estava, sem dúvida, machucada e tensa. Joss esperara que ela acordasse essa manhã, ávido por tentá-la gentilmente ao prazer. Para seu pesar ela dormira profundamente enquanto ele tomava uma ducha, barbeava-se e hesitava sobre o que vestir até que não teve mais desculpa para demorar. Ele festejara o fato de que o ato de amor a houvesse nocauteado completamente. Todavia, alternara entre o desejo de puxar os lençóis e a preocupação que sentia. Preocupação. Ele não se preocupava. Era... Pessoal demais. Todavia, e admitir aquilo o preocupou, passava cada vez mais tempo pensando em Leila. Não simplesmente como sua anfitriã ou parceira no sexo. Mas como pessoa. Ele afrouxou sua gravata. Joss não se envolvia com mulheres. Passara uma vida inteira afastando-se de laços emocionais e era impossível que começasse agora. Não era emoção. Era simples desejo. Prazer. Um barulho despertou-o dos devaneios e percebeu que estivera olhando para a porta do elevador aberta. Entrou e apertou o botão para a cobertura. Sua imagem no espelho era austera. Joss não ficou surpreso. Tirou sua gravata e abriu os botões superiores da camisa. Mesmo depois de anos usando terno ele preferia trabalhar de jeans, com as mangas arregaçadas. Mas não estava trabalhando agora. Viera para casa para ficar com Leila. Mudara seus hábitos de trabalho por causa dela. 66


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Joss esperou que a raiva surgisse. Nada, nem mesmo aborrecimento. Em vez de inconveniência, sentia prazer. Na noite anterior eles se divertiram no apartamento em vez de num restaurante exclusivo por causa de sua desconfiança de que Leila tinha problemas em sair. Se alguém dissesse três meses atrás que ele alteraria seus planos por qualquer mulher, Joss não teria acreditado. Mas a noite passada fora um incomparável sucesso. Leila, com seu calor e charme natural, tinha sido parte vital disso. O elevador abriu e ele caminhou pelo saguão e pela sala de estar principal. Ele parou. A sala parecia... Diferente. O designer ultramoderno que ele contratara havia favorecido o cinza e o preto. Agora a sala parecia mais quente do que ele recordava. Mais receptiva. Seu olhar captou um vaso baixo de florescências vibrantes, almofadas cor de laranja e ferrugem que suavizavam as linhas lisas do sofá de couro. Havia um tapete que ele mal notara antes, um rodopio de cores que aqueciam o mobiliário mais escuro. Uma pequena escultura de bronze art-decô jazia sobre uma mesa ocasional. No braço de uma poltrona ele viu um livro virado para baixo. Levantou-o. Uma biografia política recente. Sob o livro havia um jornal aberto numa secção de programas universitários e, debaixo, uma revista de jardinagem Rapidamente Joss os devolveu, sentindo como se tivesse se intrometendo na privacidade de Leila. Ele examinou a sala conscientizando-se do que estava diferente. Tinha vida. Como um lar. Foi pego entre horror e algo como saudades. Nunca tivera um lar. Como adulto, ele estava em constante movimento, por isso não criara raízes. Quando criança... Sua boca murchou. Os lugares que morara na infância não tiveram nada da receptividade que sentiu ali, agora. Joss olhou em volta, dizendo para si mesmo que alguma ornamentação não fazia a diferença. Era uma ilusão. Ele foi à procura de sua esposa. Sua cama tinha sido feita... Lisa e imaculada como se ele não houvesse experimentado a mais climática noite de prazer ali horas antes. Ele conteve a decepção. Não esperara realmente encontrar Leila ali, esperando por ele. Um movimento do lado de fora chamou sua atenção e ele foi até a porta de vidro que dava para o jardim do telhado. Sua pulsação acelerou quando ele a viu na sombra da pérgula. Ela usava um jeans colante, uma camisa vermelho-escarlate e seu cabelo estava solto até a cintura. As mãos de Joss estremeceram quando recordou a sensação daquele cabelo nos seus dedos. À luz do sol eles brilhavam com cor de mogno. Ele foi ao encontro dela. Leila levantou-se, a cabeça levemente inclinada, aparentemente segurando uma cadeira. Ele apressou o passo. Era a primeira vez que ele a encontrava do lado de fora por sua própria escolha. — Leila? — Joss. — Ela empertigou-se, mas não se voltou. — O que está fazendo? — Ele franziu o cenho. Estivera errado então sobre ela não querer deixar o apartamento? 67


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Ela riu. — Pegando um pouco de ar fresco. Ele diminuiu o espaço entre eles. A tensão irradiava dela. — Quanto tempo está aqui? — Nove minutos. Nove. Não dez. Um nove preciso. Ele olhou por sobre o ombro dela e percebeu que ela estava olhando para seu relógio. Contando o tempo? As mãos dela estavam pálidas. O coração dele bateu forte. O sol estava ameno, mas ela tremia. Inferno! Ele estivera certo. Uma onda turbulenta de raiva e ansiedade encheu sua barriga. — Venha. Vamos para dentro. — Ele aproximou-se dela, curvando-se para erguê-la nos braços. — Não! — Ela voltou-se com olhos duros. — Por que você sempre pensa que eu preciso ser carregada? Posso andar. Antes que ele pudesse impedi-la, ela caminhou, passando por ele. Moveu-se como um autômato, mas caminhou. Mesmo quando tentou segurá-la, o instinto interveio e ele deixou cair à mão. Ela não precisava dele para carregá-la. Mesmo se ele quisesse. Não obstante ele a seguiu, até que ela passou pela porta. Ela parou depois de alguns passos dentro de casa, ofegando profundamente. — Vai me contar sobre isso? — perguntou ele. Não importava com que freqüência dissesse para si mesmo que tinham um acordo comercial. Leila mexia com seus instintos protetores dormentes desde Joanna. A necessidade de protegê-la era tão forte que zombava de tudo que ele sabia sobre si mesmo. — Não há nada a contar. Então seria esse o jogo. Mulher teimosa e independente! — Por que não me contou que era virgem? — Por que contaria? Para que baixasse suas expectativas devidamente? Joss não pôde evitar uma gargalhada. — Qual é a graça? Joss sacudiu a cabeça e pegou-lhe a mão. Ela tentou retirá-la, mas ele segurou-a facilmente. — Prevenir-me, você quer dizer, preparar-me para a mais potente experiência sexual que já tive? — Não precisa fingir. — Você verdadeiramente não tem idéia? O que compartilhamos Leila... Foi... — Ele procurou por palavras... — Espetacular. Memorável. Por isso estivera preocupado a manhã toda. Ele acariciou o braço dela e viu seus olhos dilatarem. Bom Ela também sentiu a energia entre eles. O rosto dela corou. — Sim, você é muito bom. — Não, Leila, nós somos bons juntos. Ambos. A química é... Explosiva. — Ele pausou. — Só gostaria de ter sabido que era sua primeira vez. Teria feito melhor para você. Ela corou e afastou o olhar. — Não havia necessidade. Eu... Senti prazer do jeito que foi feito. Joss engoliu a risada diante da declaração suavizada. Ele a observara atingir o clímax e vira a admiração nos olhos dela. “Prazer” dificilmente expressava o 68


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West que compartilharam. Mas daria a ela liberdade de expressão, já que era tão inexperiente. — Que bom — murmurou ele acariciando o rosto tão macio dela. Seu sangue acelerou. — Será melhor ainda na próxima vez. — Próxima vez? — A voz dela foi instável. — Você disse que tiraríamos isso dos nossos planos. Aproveitar e seguir em frente. Joss chegou à conclusão de que Leila era incrivelmente ingênua sobre o que acontecia entre um homem e uma mulher. Ficou ansioso para ensiná-la. Passou a mão em volta da cintura dela, puxando-a para que sentisse sua excitação. O rosto dela ficou surpreso e com um fugaz instante de prazer furtivo. Oh, sim, ele iria gostar daquilo totalmente. — Então seguiremos em frente. — Ele baixou sua boca para o pescoço dela, inalando o cheiro de sândalo e doçura. — Depois que nos satisfizermos. — Ele plantou um beijo debaixo da orelha dela e festejou a reação trêmula. Ela levantou as mãos para o peito dele e o coração dele bateu forte. — Mas levará algum tempo para alcançar esse ponto. — Entendo. — Até que alcancemos esse ponto sugiro que aproveitemos. — Mas sem envolvimento? Joss cerrou o cenho. Ela pedira que fosse sem envolvimento? Era uma reviravolta. Era usualmente ele quem insistia por independência, enquanto as mulheres queriam mais. Por alguma razão aquilo o aborreceu. — É claro. Prazer simples e mútuo. — Afinal de contas, ele não conhecia outro modo. Leila Deitou sob a forma massiva. Sua respiração veio em ofegos desesperados, e ela sabia, com absoluta certeza, que sexo complicara o relacionamento. Mas não podia lamentar. O peito dela contraiu-se numa onda de emoção enquanto apalpava as costas dele e sentia seus gemidos de aprovação reverberarem através dela. Jamais conhecera prazer tão maravilhoso. Estavam juntos, eram um e, não importava o quanto tentasse negar, os sentimentos que evocava eram profundos. Paz. Prazer. Confiança. Seria assim com outro homem? Era isso que qualquer mulher sentia com seu primeiro amante ou havia algo especial em Joss? Sem palavras, com o dom da paixão, ele entrou fundo dentro dela para trazer à tona emoções que ela reprimira. Nas últimas semanas Joss deixara de ser um obstáculo para sua nova vida, tornando-se vital para ela. Aquilo a amedrontava. Não tinha condições de precisar de ninguém, especialmente não do homem que a escolhera para benefícios comerciais. — Volto num momento — murmurou ele e dirigiu-se para o banheiro. Leila suspirou, dizendo para si mesma que era um alívio sentir-se sozinha. Todavia, seus braços ficaram vazios sem ele. Ficou aborrecida. Fora pega pelo glamour de receber a atenção de Joss Carmody e o assalto de seu ato de amor. Estremeceu e puxou o lençol até o queixo. Ele a fazia sentir-se como se fosse à única mulher que importava no mundo. 69


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West A cama balançou quando ele deitou, alcançando-a. Leila empertigou-se. Deveria se afastar em vez de sucumbir ao toque dele. Mas seu corpo tinha outras idéias. Já estava aninhando-se a ele. — Você vai me contar agora? — Contar o quê? A mão dele acariciava seus seios. — Sobre o jardim. Por que estava contando o tempo? — Você disse que não haveria laços. — Leila lutou para injetar força na voz. — Não tenho que responder perguntas. — Não, não tem, mas estou... — ele pausou por tanto tempo que ela imaginou se ele continuaria — preocupado com você. Novamente aquela sensação diante da idéia de que alguém se importava. Que Joss se importava. Levara tão pouco tempo para arrancar a fraqueza que ela esforçara-se tanto para esconder? Uma fraqueza revelada era uma fraqueza a ser explorada. Aprendera com Gamil. — Não há necessidade de ficar preocupado. Estou bem — Isto não responde minha pergunta. Leila afastou o peito dele, tentando levantar. O braço dele a envolveu segurando-a mais próximo. Ela tentou não gostar da sensação do peito nu e quente dele debaixo de seu queixo. — Por que tenho que contar algo? Você nunca diz nada sobre você mesmo. A curiosidade dela sobre o homem com quem casara crescia diariamente. Em vez de um magnata mandão, Joss provara ser não somente inteligente, mas afável, sexy e simpático. Inicialmente ele a enraivecera com suas exigências e a assunção de que ela morria de fome deliberadamente. Mas nas últimas semanas passara a gostar da companhia dele. Embora fosse uma esposa troféu, ele, de alguma maneira, fazia com que ela se sentisse mais, como se ele se importasse com seu bem-estar e suas opiniões. — Tudo bem, então. Responda uma pergunta minha e responderei uma das suas. — Ele tocou os seios dela e ela tremeu. — Diga-me por que você desgosta tanto de Murat. A pergunta pegou-a de surpresa. Ela esperara que ele perguntasse sobre seu medo de sair. — E depois você responderá minha pergunta? — Juro. — A mão dele continuava a acariciar provocativamente o mamilo. Leila agarrou-lhe a mão e colocou-a sobre sua cintura. — Desgosto de Murat porque ele me recorda meu padrasto. Eles são... Iguais. Ela estava ofegando forte e rápido. Antes que ele pudesse perguntar, Leila falou novamente: — Por que quer um acordo comercial em vez de um casamento de verdade? Uma mulher para exibir, não uma verdadeira. E nada de filhos, nada de família? — Ficara intrigada desde que percebera que Joss não era o magnata frio que imaginara. — A maioria das pessoas quer amor, laços, filhos. — Leila pausou, percebendo de repente o quanto tinha perguntado. Sem dúvida ele evitaria responder. — Lembre-me de pensar duas vezes antes de negociar com você novamente. — A voz profunda dele era de admiração e humor. 70


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Não me contará? — Ela passou o dedo sobre o peito dele, observando o mamilo endurecer. Ele segurou a mão dela. — Eu fui totalmente aberta, não fui? — Como você pode querer algo que nunca conheceu ou viu? — disse ele finalmente. — Sei que há pessoas que juram que suas vidas familiares são maravilhosas, mas desconfio que exageram Não sou idiota para me colocar numa situação em que uma mulher tem o poder de me fazer de bobo quando eu descobrir que somos errados um para o outro. — Ele deu de ombros. — Não que isso aconteceria. Nunca fiquei tentado a considerar uma relação duradoura. Leila digeriu aquilo. — Tem medo de confiar? — Não medo. Apenas dúvida. — Por que não confia nas mulheres? — Ele não era misógino. A atitude a surpreendia. — Porque vi como as famílias podem ser destruidoras, especialmente para crianças. — A voz dele era severa e ela pressionou seus lábios no peito dele num gesto de empatia. O que quer que acontecera na infância dele o tinha amedrontado. — Não precisa sentir pena de mim, Leila. — Todavia, ele acariciou a nuca dela como se para mantê-la perto. — Eu sei. — Ele era bastante capaz de tomar conta de si mesmo. Todavia, mesmo ela, depois do tratamento brutal de Gamil, tinha esperança de confiar sua felicidade a um homem um dia. Tinha o exemplo de seus pais e nem mesmo os últimos anos tinham extinguido sua crença no poder do amor. — Sinto muito que sua infância foi dura — murmurou ela. — A sua não foi? Ela sacudiu a cabeça. — Oh, não. A minha foi irradiante, cheia de risadas e uma porção de amor. Meus pais adoravam um ao outro e me faziam sentir especial todos os dias. — Ela nunca imaginara contar a Joss aquilo tudo, mas as palavras saíram facilmente. — Fui uma criança de sorte. — Você foi. Minha primeira lembrança é de minha mãe gritando e o som de porcelana estilhaçada. — Ela era violenta? — Somente com coisas quebráveis. — O tom foi sardônico. — Minha mãe se fazia entender com o máximo de drama quando não conseguia o que queria. Quando suas expectativas excediam sua renda e sua vaidade, o que era freqüente. Meu pai, por outro lado, especializou-se em desaprovação. Ele acabava com qualquer pessoa com poucas palavras. Um impetuoso, o outro frio, ambos focados neles mesmos. Jamais deveriam ter tido um filho, muito menos dois. — Você tem um irmão? — Tinha. Uma irmã. Joanna morreu quando eu tinha 10 anos. — Sinto muito, Joss. Acidente? — Para alguém que não quer falar sobre si mesma, você faz uma porção de perguntas. Era verdade. A profundeza de sua curiosidade a surpreendeu. — Desculpe-me — disse ela novamente. — Tudo bem, Leila. Não fique tão preocupada. É passado. Ela sacudiu a cabeça. 71


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Algumas coisas ficam. O sorriso dele esvaeceu-se e ele a puxou para mais perto. — Tem razão. Nunca me esquecerei de Joanna e o que ela passou. Nossos pais fizeram da vida dela um inferno. Seis meses na Inglaterra com minha mãe aprendendo regras de sociedade, depois seis na Austrália, repreendida severamente por ser delicada demais em vez de atlética e acadêmica. Eles lutavam suas batalhas usando-a como arma. Nunca pensaram sobre o que ela precisava. Leila notou que ele falava da irmã, não do impacto que a disputa de seus pais tinha sobre ele. — Quando ela tinha 13 anos, ficou deprimida. Aos 14 era fortemente anoréxica. Agora fazia sentido... Suas acusações sobre a magreza dela. Ele não fora apenas grosseiro,estava verdadeiramente preocupado. — Então por isso... — Parecia possível — disse ele. — Vi isso antes. — O que aconteceu a ela? — A garganta de Leila secou. — Ela fugiu aos 15 anos e nunca mais a vi. Quando minha mãe contou que ela morrera de sua doença, tentou me fazer acreditar que foi porque Joanna só se preocupava consigo mesma em vez de cuidar da mãe como qualquer filha. — Que ultrajante. Que coisa para dizer a um garotinho sofredor. — Esta era minha mãe, muito generosa. — Ele deu de ombros. — Vi muitas famílias disfuncionais para querer outra. Sou sozinho e gosto de ser. Nunca trarei um filho a este mundo para sofrer porque seus pais odeiam um ao outro como os meus. Mesmo em lados opostos do mundo eles lutavam suas batalhas através de nós. A última coisa que quero são filhos. Os genes de minha família não são algo que eu queira perpetuar. Agora os termos do acordo pré- nupcial faziam sentido. Sem casamento de verdade. Uma penalidade para gravidez. Joss usava a lei para mantê-lo afastado de qualquer chance de uma família. Ela sentiu solidariedade. Ele provavelmente se considerava contido. Ela achou trágico. — Não quero empatia. É desperdício. Não contei a você para que sentisse pena de mim, mas para que entendesse. Falo sério sobre envolvimento emocional em longo prazo. Mas há algo mais que você pode me dar. — Ele acariciou o seio dela com propósito desta vez. Beliscou seu mamilo e ela ofegou de prazer. Involuntariamente o corpo dela curvou-se no dele. O sorriso de Joss era voraz e luxurioso. — É isso que quero Leila. Sexo. Simples prazer físico. Pode me dar? Os olhos dele brilharam e ela sentiu uma onda de desejo. A paixão que haviam liberado era primitiva e incontida. Todavia, não a impedia de ver as sombras nos olhos dele, a dor enterrada fundo. Seu coração apertou-se por tudo que ele suportara. Portanto, quando ele pegou um preservativo, ela não fez objeção. Ele inseriu-se entre suas coxas, chupando forte seus seios, e ela entregou-se ao seu desejo. Ele tocou-a entre as pernas, constatando sua prontidão, e ela arqueou na sua mão, ávida por dar a ele o esquecimento que desejava. Quando, momentos mais tarde, ele investiu rijo e certeiro, Leila entregou-se totalmente. E, quando ele estremeceu diversas vezes pelo clímax atingido, seu grito rouco ecoando, Leila puxou-o para si, aninhando-o com toda ternura que possuía. 72


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Capítulo Onze Depois daquela Joss não fez mais perguntas. Desde que revelara seu passado cheio de problemas, ele evitara assuntos pessoais. Exceto pelo sexo ardente todas as noites e manhãs. E agora voltava para casa para almoçar. No primeiro dia ele chegara quando Leila estava terminando de dar voltas na piscina. Ela ainda corava ao pensar no que tinham feito no largo sofá perto da água. Estivera totalmente entregue ao redemoinho que crescia diariamente. Sentiu uma ponta de ansiedade. Não era a maneira de livrar-se de sua fraqueza física por Joss. Em vez disso voltou-se mais para ele, apreciando as noites, quando, em vez de trabalhar ou sair, Joss juntava-se a ela para ouvir música ou assistir a um DVD. Intimidade não era apenas contato físico, mas preciosa paz compartilhada. Estava surpresa por ter encontrado a paz com seu marido. O fato de ele não mais pressioná-la por informação a fez imaginar se deveria confiar a verdade a ele. Ele devia ter imaginado alguma coisa. Apesar de não dizer nada, todas as vezes que saíam ele a abraçava no elevador e beijava até a ansiedade desaparecer. Na limusine Joss a distraía com conversa ou com seu toque saqueador. Agora ela quase ansiava por sair de casa. Não se preocupava em sair do carro desgrenhada. Joss declarara que a preferia parecendo provocante e quente a arrumada e fria. Talvez ele estivesse apenas alimentando seu ego. Diferente de Gamil, que tinha como missão destruí-la, Joss a fazia sentir-se bem. Valorizava sua contribuição aos seus esquemas comerciais. E, quando estavam sozinhos e nus, seus elogios sempre a enchiam de deleite. Ele a fazia sentir-se sexy e forte. Teria ele alguma idéia do quanto significava? Leila deu um olhar para Joss. Cada dia ela esperava descobrir que o glamour que a atraíra havia desaparecido. Mas ele parecia ainda mais carismático e poderosamente masculino. Como se em sintonia com os pensamentos dela, Joss acariciou seu braço. Instantaneamente ela sorriu seus olhos brilhando com um apetite que ela sabia que nenhuma refeição poderia saciar. O sorriso dele alargou-se. Certamente estava pensando em sexo. Todavia, não precisara levá-la para almoçar todos os dias se queria apenas sexo. Ela estava tão ávida pelo toque dele que daria o que ele quisesse no momento em que entrasse no apartamento. E também não estava ali pelos contatos sociais. Estavam sentados num canto tranqüilo e exclusivo. Leila colocou os talheres sobre a mesa, revendo as semanas passadas. As saídas tinham ficado mais freqüentes. Seus nervos ficaram tensos na primeira vez, quando a cidade parecera vasta e ameaçadora. Joss nunca lhe dera tempo para se preocupar ou recusar, 73


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West simplesmente aparecendo e anunciando que iriam almoçar. Ele a matinha perto, distraindo-a com conversa e carícias. Espantou-se ao digerir detalhes que não tomara tempo para considerar antes. Seu progresso em se aventurar para fora não era todo devido a Joss. Ela se esforçava todos os dias, começando com alguns minutos no jardim do telhado, depois saindo para a rua. Mas com Joss o medo quase desapareceu. — Leila? O que foi? — O brilho de luxúria nos olhos dele obscureceu, sendo substituído por preocupação. Foi quando ela soube. Joss não tinha necessidade de sair com ela. Podia trazer os melhores cozinheiros para cozinhar para ele. Fez isso por ela. A cabeça de Leila girou. — Você me trouxe para almoçar fora todos os dias esta semana. Joss viu os olhos verde-cinza tornarem-se misteriosamente enfumaçados e desejou novamente poder decifrar sua esposa melhor. Sempre sentira que ela escondia muita coisa. Não deveria importar. Todavia, sentia necessidade de saber. — Você não se diverte? — Ele franziu o cenho. Ele divertia-se com uma mulher tão fascinante. — Claro. — Ela fez um gesto abrupto. — Mas você está prejudicando seu trabalho. Você até mesmo chega a casa cedo. Casa. Lá estava a palavra, novamente infiltrando-se no seu subconsciente quando estava com Leila. Joss franziu o cenho e tomou um gole de vinho. Apreciava Leila, mas chegara ao limite. Não precisava dela. — Está com medo de que eu deixe minhas responsabilidades? Ele tentou se convencer de que ela estava preocupada com seus lucros, mas não funcionou. Leila não parecia mais como uma cavadora de ouro. — Sei o que está fazendo, Joss. — O que estou fazendo? Passar tempo com minha mulher não é crime. Todavia, ele blefou. No fundo sentia certo constrangimento pelo prazer que tinha na companhia dela. Nunca gostara tanto de uma mulher. Era uma novidade que ele preferia não examinar. Melhor aceitar e aproveitar o inesperado bônus que o casamento trouxera. — Não está fazendo isso só porque quer. Joss engoliu a verdade traiçoeira de que sua escolha de estar com ela era totalmente egoísta. Saber que em breve ela estaria nos braços dele era puro prazer. — Você sabe, não sabe? Algo na voz dela tirou-o de seu devaneio. Leila parecia... Derrotada. Ele pegou suas mãos. Instantaneamente um frisson de energia elétrica irrompeu sob sua pele. — De que você está falando? Ela ameaçou sorrir e afastou o olhar. — Que fico... Nervosa em sair. — Ela falou baixo, como se não quisesse que ele ouvisse. 74


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Os dedos de Joss entrelaçaram os dela. — Imaginei. No início foi difícil acreditar... Que uma mulher tão atrevida e forte pudesse abrigar tal medo, mas ficou muito evidente. — Você não fez perguntas. Ele deu de ombros. É claro que queria saber. Mas, depois de revisitar seu próprio passado problemático, seu desejo em forçá-la a contar diminuiu. O orgulho desesperado dela pareceu precioso. Quem era ele para destruí-lo? Ele pesou suas palavras. — Estou interessado, é claro. — Por que não quer uma esposa defeituosa? Ele acariciou a mão dela, como se seu toque pudesse confortar. Logo ele, que não tinha habilidade em cuidar de ninguém — Acredito que deva uma explicação. Ela pareceu como se encarasse um esquadrão de fogo. Um homem melhor a asseguraria de que não precisava conhecer os segredos dela. Mas Joss nunca pensara em si como um homem melhor em nada a não ser obter o que queria. Leila olhou para as mãos dele cobrindo as dela. — Aconteceu no primeiro dia do casamento. — Não antes? — Seu estômago doeu. Ela não queria dizer que o casamento causara o medo! Mas ela já estava sacudindo a cabeça. — Nunca antes. Quando o carro foi embora da casa, fiquei nauseada como se tivesse comido algo desagradável. Quando chegamos à pista do avião... — Ela sacudiu a cabeça. — Nunca havia sentido algo como aquilo. Era como se o peso do céu me esmagasse, tirando o ar dos meus pulmões. — Os seios dela erguiam-se e caíam enquanto a respiração tornou-se agitada. — Tudo aquilo parecia tão imenso, tão sem limite, tão amedrontador. Joss a enlaçou. Ela sentou-se ereta. Nem mesmo parecia registrar o toque dele, e Joss imaginou se devia ter desviado aquela discussão. Mas egoisticamente ele esperou pelo esclarecimento. Quando ela continuou, estava ofegante; não parecia a mulher orgulhosa que ele conhecia. — Eu pensei que fosse forte. Mesmo lutando uma batalha que não poderia vencer, nunca desisti. Mas quando a ameaça vem de dentro... — Ela engoliu em seco. — Estes últimos anos, mesmo nos piores dias, recusei admitir derrota. Mas aquilo... Pensei que iria morrer. — Não deixaria. — As palavras simplesmente emergiram, mas eram verdadeiras. Os lábios dela formaram um sorriso desnivelado que mostrou dor. — Você me distraiu o suficiente para me impedir de ceder a isso. Obrigada. — Por quê? Sabe o que a levou a isso? — Eu... — A língua dela umedeceu os lábios enquanto ela observou a vista de Londres alvoroçada. — Desconfio que seja porque não estava acostumada a sair. Joss esperou. A pressão de silêncio expectante arrancaria a verdade mais do que qualquer encorajamento... — Minha vida antes disso não era... Normal. 75


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Joss observou a pele dela ficar apertada sobre as feições finamente moldadas e lutou contra a vontade de perguntar. Ela disse que começara no dia do casamento, embora falasse sobre os últimos anos como se tivessem sido uma batalha. Ele tinha uma terrível premonição na boca do estômago que não iria gostar do que ouviria. — Nunca pensou sobre a razão pela qual me casei com você? Ele deu de ombros, prestes a dizer que achara que era por riqueza e posição... O que as mulheres sempre queriam. Mas, desde que conhecera Leila, aprendera que nem riqueza nem posição faziam parte da lista de desejos dela. Por que ele não se importara em descobrir? Por que ele não queria pesquisar tão profundamente? — Eu teria me casado com qualquer um se significasse escapar. Não importa o quão desagradável fosse. Leila o achava desagradável? Ela tinha um modo fino de mostrar isso. Todavia, o tremor na voz dela extinguiu a raiva instantânea de Joss. — Conte-me. Ela o encarou por tanto tempo que ele imaginou se ela falaria novamente. — Minha mãe era uma mulher bonita e cheia de vida. O tipo de mulher que chamava atenção sem esforço. Não ficou surpreso. Sua filha era igual. Leila tinha uma qualidade especial, uma combinação de beleza, charme e espírito que a destacava. — Depois que meu pai morreu Gamil a cortejou. Ele era charmoso e devotado. Finalmente minha mãe concordou em casar-se com ele. Não foi amor como no casamento com meu pai, mas ele parecia um homem bom e ela queria que eu tivesse outra pessoa em quem confiar. Leila mordeu o lábio tão forte que Joss temeu que saísse sangue. Ela continuou falando: — Acontece que Gamil não era o marido modelo que ela pensara. O que ele considerava amor era realmente obsessão. Uma vez casados, ele ficou cada vez mais possessivo e controlador, precisando saber aonde ela ia, quem ela via. Era um ciumento patológico. Olhos da cor de uma nuvem de tempestade encontraram os dele. — Ele chamou-a de prostituta. Acusou-a de ser infiel e criar-me para ser o mesmo... Fraca, corrupta e licenciosa. Minha mãe não era nada disso! — Claro que não. — Se fosse Leila não o haveria encantado com seu espírito e honestidade. A lembrança da noite que ela entregara sua virgindade ainda tirava o ar dos seus pulmões. A pele de Joss tiniu diante da idéia de ela estar à mercê de tal homem Ele não questionou a história dela. Sua mulher era reservada, mas não era mentirosa. — Gamil era perturbado. Estou certa de que para qualquer um fora de casa ele parecia normal, mas dentro de casa ele era diferente. As restrições apertaram-se uma a uma. Primeiro a internet parou de funcionar. Problema com a conexão, disse ele, mas ele a cancelou. Depois o telefone. Havia limitações de onde nós íamos. Os empregados de minha mãe foram demitidos por vários pretextos e substituídos pelos dele... Espiões. Pessoas que lhe contariam o que ele queria ouvir. — Ela deu um suspiro profundo. — Quando minha mãe sucumbiu ao câncer, ele havia quebrado seu espírito e sua vontade de viver. — Você ficou sozinha com ele, então? — Exceto pelos empregados dele, sim. 76


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Ele a feriu? — Joss lembrou-se da contusão no pulso dela. Se tivesse sabido disso antes... — Não fisicamente. — Todavia, ela esfregou sua mão distraidamente sobre o braço. — Ele tinha outras maneiras. — Novamente Leila olhou em direção às janelas do chão ao teto do restaurante e sua expressão fez a barriga dele apertar-se. — Gamil manteve-me prisioneira depois que mamãe morreu. Eu começara um curso na universidade, mas adiei-o quando ela ficou doente. Ele informou à universidade que eu não retornaria. — Por que você o deixou agir assim? — A descrença dele era total. Leila sempre se defendera. Ela riu. Ele não gostou do som triste. — Em Bakhara um guardião tem controle completo sobre sua filha, ou enteada: onde ela mora aonde ela vai, quem ela vê. Até que ela complete 25 anos. — Ou até que se case. — Era uma suposição, mas explicava o casamento com um estranho, quando não precisava nem de riqueza nem posição social. O que ela deveria ter sofrido! O pensamento de Leila tão desesperada e sem defesa deixou-o doente de raiva. Como ele desejava que Gamil estivesse ali agora. — Sempre soube que você era esperto. Algo cortou sua barriga como uma lâmina afiada. Horror à história dela? Lamento que ela viera a ele por desespero? Culpa por se casar com ela sem importar-se em descobrir por quê? Que espécie de homem era ele, que aceitara sem questionar que qualquer mulher o quisesse? Mas ele sentiu orgulho, prazer e gratidão por ela ser dele... Por agora. — Você não podia fugir? — Tentei. Diversas vezes, mas não fui longe. A lei estava do lado dele e eu não tinha dinheiro algum. Não podia pedir ajuda aos meus amigos. Seriam os primeiros lugares que ele procuraria. Ele até mesmo chamou a polícia... Dizendo que eu fora seqüestrada! — Então ele a manteve na casa. — Não era de admirar que ela se considerasse prisioneira. Ele vira a casa. Era velha e decadente, e ele não podia imaginar ser trancado lá. — Por quanto tempo? Ela deu de ombros. — Dois anos, mais ou menos. — Dois anos. — Ele ficou chocado. — Certamente... — Ele sacudiu a cabeça, incrédulo de que aquilo fosse possível nos dias de hoje. — Eu sei. Deveria ter encontrado um modo de fugir para sempre, mas cada vez ficava mais difícil, e a punição, mais dura. — Pensei que ele não a ferisse! — Ele resistiu à vontade de abraçá-la. Ela estava rígida como se houvesse um sinal de “Não me Toque” junto a ela. — Não violência física, mas um a um ele removeu o que chamava de meus privilégios. Não havia telefone nem internet. Eu não podia sair e não havia visitantes, nem mesmo os poucos membros de família distante. Finalmente cancelou os jornais e removeu os livros. Nós tínhamos uma biblioteca com alguns livros centenários, colecionados por minha família. Ele desapareceu com eles de 77


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West um dia para o outro. Após a morte de minha mãe, ele mudou todos os empregados, mesmo a cozinheira que estava conosco há anos. Sem espelhos... — Sem espelhos? — Dizia que os espelhos encorajavam vaidade e licenciosidade. Eu lhe disse que ele era perturbado. As jóias de minha mãe desapareceram. Ele só me devolveu as pérolas para impressionar você e conservou o dinheiro que deveria ter sido meu. Joss engoliu em seco. Lembrou-se de como ela usara aquele pingente diversas vezes. Ela arrebentara o bracelete de pérolas no dia em que ele ameaçara retorná-la a Bakhara se ela recusasse o acordo. Sentiu sua espinha gelar quando recordou as pérolas espalhando-se pelo chão. Por que não contara a ele? Mas sabia a resposta. Depois de anos de abuso, por que confiaria num estranho que negociara com seu padrasto pavoroso? Joss reviu sua ação da perspectiva de Leila e seu orgulho estremeceu. Teria ela pensado que ele era tão odioso quanto Gamil? Ele ficou enjoado, rejeitando a comparação com todas as células de seu corpo. Qualquer que tivesse sido sua primeira impressão, Leila confiava nele agora. Confiara nele quando lhe entregara sua virgindade. A confiança e força dela o faziam humilde. — Depois da minha última fuga fui confinada a pão e água num quarto de despejo. Foi o que mais me amedrontou. — Por isso estava tão magra no casamento? Você passou fome? — Shh. — Leila olhou em volta do restaurante, mas estavam sentados longe dos demais clientes. Os empregados mantinham distância, respeitando o pedido de Joss de privacidade. — Leila... Conte-me. — Não totalmente. — O tom dela era amargo. — Tinha que estar bem o suficiente para casar. Gamil é ambicioso e quer alavancar sua posição usando seu status. — Fiz o jogo dele. — Não importava que o acordo tivesse dado a Joss tudo que ele quisera. Ele sentiu-se sujo, sabendo que ajudara os esquemas de Gamil. — Não importa. Por sua causa eu escapei. — A que preço? Casada com um homem que ela nunca quisera. Aterrorizada para escapar. — Não olhe assim — sussurrou ela. — Você amedrontará os garçons. Ele olhou nos olhos brilhantes dela e imaginou como ela suportara sem desistir. — Conte sobre o quarto onde foi mantida. — Ele tinha que saber tudo. Ela piscou, mas não afastou o olhar. — Era pequeno. Tamanho suficiente para deitar. Tinha uma janela alta que deixava a luz entrar, mas não tinha vista. Um pouco maior do que o elevador para o seu apartamento. Ele estivera certo sobre o terror dela, mas nunca imaginara algo como aquilo. — Não é de admirar que você não quisesse sair. — Patético, não é? No dia em que deixei a casa em Bakhara, de repente soube como o mundo era grande e perigoso. Como eu estava segura dentro de casa. Segura! — Ela sacudiu a cabeça. 78


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Se não fosse engraçado, seria trágico. Joss nunca sentira uma conexão, uma consciência da vulnerabilidade de outra pessoa desde Joanna. Todavia, aquilo era diferente. Era mais do que piedade e medo. Havia admiração e muito mais... Emoções que ele não podia nominar. — Você é uma mulher notável, Leila. Ela o olhou atônita. — Esquisita você quer dizer. — Eu teria ficado louco em semanas. — Era verdade. — Você é uma sobrevivente, Leila. Devia orgulhar-se. Que coragem ela precisara para sobreviver? Ir embora e abraçar uma nova vida com um homem que ela não conhecia? Joss quis envolvê-la nos braços e não soltá-la. Assegurar-se de que ela estava segura onde ele a queria... Com ele. Mas esforçou-se para afrouxar o abraço. Ela já tivera coerção o suficiente. — E agora, Leila? O que você quer agora que está longe disso tudo? Ele esperou que ela dissesse que retomaria seus estudos ou iria atrás do dinheiro que Gamil lhe roubara. Obviamente iria querer vingança sobre o padrasto. Quem não iria? Todavia, a tensão que ele sentia na barriga não tinha nada a ver com aquelas coisas. Sabia, agora que a verdade surgira que Leila podia exigir uma libertação do casamento. Não estava pronto para deixá-la ir embora. Seu corpo todo se empertigou de rejeição. Ela inclinou a cabeça, seu repentino sorriso roubando-lhe a respiração. — Já que perguntou... — Ela pausou e seu coração despencou. — Quero aprender a dirigir.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Doze — Embreagem. — A instrução foi desnecessária. Leila já tinha seu pé sobre a embreagem, arranhando as marchas levemente ao trocá-las. Joss observou sua língua lambendo o lábio inferior, seu cenho franzido pela concentração, e sentiu vontade de parar o carro e fazer amor com ela ali a despeito dos assentos envolventes, a alavanca do câmbio e o espaço restrito no carro esporte. Ele adorava que ensinar uma mulher a dirigir o excitasse. Costumava desprezar a idéia. Sua conexão com as mulheres que passavam por sua vida era passageira e baseada somente em prazer. Todavia, aquilo era prazer também Estar com Leila, observá-la adquirir confiança a cada volta das rodas na estrada deserta. Compartilhar sua excitação pelo que devia ser um fascinante gosto de liberdade depois dos horrores que suportara. Joss não teria perdido isso por nada. A idéia de outro homem compartilhando aquele momento formou um buraco em sua barriga. Não queria pensar nela com ninguém mais. Queria-a com ele. Não apenas para sexo, nem habilidades sociais e conexões. Ele coçou o queixo, intrigado pelo fato. Ela o agradecera profusamente quando ele oferecera ensiná-la na propriedade rural de um amigo. Como se ele concedesse um favor precioso. Ele se sentiu uma fraude. Não era nada trazê-la ali. Era ele que se beneficiava do sorriso radiante dela. Que tinha o prazer de observar a excitação e confiança dela crescer. Que colheria a recompensa mais tarde. — Desculpe. — Ela fez uma careta quando arranhou a marcha outra vez. — Eu não devia estar dirigindo uma coisa tão cara. — É apenas um carro, Leila. Pode ser consertado ou substituído como qualquer outro. — O ego dele nunca fora exaltado por possuir veículos símbolos de status. Usava veículos escolhidos por confiabilidade. Aquele modelo top de linha era puramente para dar vazão ao seu amor por velocidade. — Suponho que devia ter esperado e organizado alguma coisa mais tranqüila para você. — Teria sido egoisticamente ávido por agradá-la? Leila sacudiu a cabeça, e mechas cor de mogno tocaram sua camisa quando ela manobrou numa curva e a brisa soprou seu cabelo. O cheiro de raios de sol e flores exóticas invadiu suas narinas. — Não! Amo este carro. Adoro a maneira que ele responde ao meu toque, com tanto poder. — A risada rouca dela atingiu seu sistema sanguíneo. Joss pensou na maneira que Leila respondia ao toque dele... Com ávida paixão e inocente generosidade que desvirtuava o trauma que vivera. Ela era indomável e resiliente. Jamais conhecera uma mulher assim. Ocorreu a ele que sua necessidade de tomar conta dela estava longe da preocupação fraternal que sentira por Joanna. Pobre Joanna, que não tivera os recursos para lutar contra as pressões que encarara. Mas Leila, a despeito dos ataques de pânico que parecia estar vencendo, tinha uma força interior que 80


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West brilhava. Ele apenas lhe dera a chance de ser ela mesma. A resistência dela significava que ficaria bem quando a hora chegasse. Ela não precisava dele. Ela não ficaria pegajosa como tantas ficaram. Joss franziu o cenho, desconcertado que aquele conhecimento não trouxera satisfação. LEILA Olhou para o salgueiro. A luz do sol infiltrava-se. A água soava num riacho perto do local do piquenique deles. Ela observou Joss desembrulhar um cesto grande e soube que ele escolhera aquele local especialmente. Não só por sua beleza, mas por ele misturar o lado de fora com um senso de recinto fechado... Perfeito para uma mulher que até recentemente sofrera ataques de pânico deixando o apartamento. A solidariedade dele era prática... Ele simplesmente fazia coisas para ela sem confusão. Coisas maravilhosas, como afastar com beijos a ansiedade dela num elevador, mesmo num edifício desconhecido com estranhos presentes. Os dedos dos pés dela dobravam pensando naquele beijo. Depois, ela se sentiu desorientada pelo que tinha sido apenas uma carícia gentil. Ela engoliu um coágulo de emoção. — Leila? Você está bem? — Como pode perguntar? — Ela sorriu. Suas mãos ainda tremiam do esforço de controlar aquela fera maravilhosamente sexy que era o carro. — Eu me senti voando. — Você nem saiu da quarta marcha. Leila deu de ombros. Passara tanto tempo atrás de muros altos. Controlar aquele veículo poderoso era atordoadamente libertador. Como o fato de Joss confiar nela em dirigir o carro. — Mas eu o dirigi. O sorriso dele esvaeceu-se. Ele assentiu, encarando-a com intensidade. — Dirigiu Leila. — Ele voltou-se para o cesto. — É melhor organizarmos lições apropriadas para que não fique dependente de eu achar tempo para ensiná-la. Leila reprimiu um protesto instantâneo. Queria que Joss a ensinasse. Não porque se sentisse segura com ele... Mas porque o dia fora especial, tão especial que ela queria repetir diversas vezes a aula. O pensamento estancou o protesto dela. Era irracional esperar que ele fizesse isso regularmente. Ele dirigia uma multinacional. Tinha reuniões agendadas para meses. Todavia, Joss fizera parecer natural ensiná-la a dirigir seu carro top de linha e depois fazer um piquenique numa propriedade particular. Assim como fazia parecer normal eles passarem tanto tempo juntos, não somente em festividades de caridade e jantares de negócios. Eles passavam noites tranqüilas lendo ou assistindo a filmes e almoçando em restaurantes soberbos que de algum modo ficavam fora do radar dos paparazzi. Leila ficara acostumada a estar com Joss, relaxando com ele, apreciando sua companhia. Estaria muito dependente dele? Claro que não. Se aprendera uma coisa era independência. Não se apoiava em ninguém a não ser nela mesma. — O que foi? — Joss olhou para cima para vê-la observando. — Não pode 81


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West ter comida no meu rosto... Não comemos ainda. Ele passou a mão sobre seu queixo bronzeado e Leila recordou-se de beijar aquele queixo na luz da aurora. Da barba por fazer provocando seus lábios. Do cheiro de homem excitado e da textura de pele sedosa quente sobre músculos rijos. Um prazer pungente tomou conta dela. — Nada. — Por que ela tinha que parecer ofegante? — Só estava pensando. — Leila piscou e viu o olhar dele ficar consciente. Instantaneamente mergulhou naquele lugar poderoso onde nada importava exceto estar com Joss. Por que ele a afetava daquele jeito? Ele a assegurara de que seguiriam seus caminhos separados quando saciassem seus desejos um pelo outro. Mas o desejo ficou mais forte. Semanas se passaram e ela não estava mais perto de perseguir seus objetivos. Nem mesmo escolhera um curso para matricular-se. Lembrava-se de querer ser diplomata, mas agora a urgência por aquela profissão desvanecera. Ela mudara feliz em compartilhar a vida de Joss, interessada nas pequenas coisas que ele revelava sobre seu negócio. Imaginara até desempenhar um papel gerenciando a terra que herdara, a despeito de sua falta de experiência. Estaria em perigo de desistir dos seus objetivos somente pelo prazer de estar com Joss? Ou seus objetivos tinham mudado? Tinham seus planos deixado de ser leais com seu pai? O que ela realmente queria? A expressão dele dizia que ele perdera interesse na comida. Joss a observava como se procurando um sinal. Leila absorveu a visão; solidamente musculoso e marcantemente masculino. Ela decifrou desejo naqueles olhos negros pecaminosos e força naquelas mãos másculas. Recordou-se da ternura dele quando a beijara, sua generosidade quando lhe dera rédea livre com seu carro caro. Expectativa veio quando Joss levantou-se e caiu de joelhos onde ela estava sentada, tocando seu cabelo. Ela amava o toque dele massageando sua cabeça. Prazer espalhou-se por todas as zonas erógenas. — Comeremos mais tarde — murmurou ele. Leila olhou-o nos olhos e sua alma tremeu diante da profundeza do que sentia. Ele era... Ele era... Ela não conseguiu pôr em palavras. Em vez disso, acariciou-lhe o queixo, sentiu um tremor de resposta e pressionou seus lábios nos dele. Doce prazer liberado. Ela viveria para o momento e pensaria no futuro mais tarde. — VOCÊ Ficará bem — murmurou Joss. — São todos conhecidos. Não foi o que ele disse, mas o modo como a voz roçou a pele nua do pescoço, que enviou uma onda de deleite através dela. — E você está linda. — Ele acariciou seu pulso, roçando o bracelete de opalina e diamante que lhe dera. Entre seus seios estava pendurado o pingente de opalina verde com toques de vermelho. Era magnífico, próprio de uma rainha, e Joss dera a ela, dizendo que o fazia lembrar-se do fogo nos olhos dela quando 82


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West discutiam. E quando faziam amor. Ele a fazia sentir-se preciosa. Ela alisou a seda pesada do seu vestido de grife. — Sei o que está fazendo, Joss. Está tentando me distrair. Embora a Embaixada Bakhari em Londres houvesse sido território familiar uma vez, uma vida inteira havia passado desde então. O suntuoso hall de recepção em mosaico e mármore com seus lustres de cristal estava longe em suas lembranças. Estava tão nervosa quanto uma criança brincando de vestir-se como adulta, convocada para uma recepção para conhecer o novo sheik e sua noiva. A última vez em que estivera em território Bakhari fora no dia de seu casamento. Antes disso passara anos sob a tirania de um homem que pelas leis Bakhari tivera o poder sobre ela. Seu amor por sua terra natal estava ferido por más lembranças. — E estou conseguindo? — A boca de Joss curvou-se num sorriso que dizia que ele planejava alguma coisa deliciosamente maldosa para mais tarde. Seu coração sacudiu. Ela deixou-se cair nas profundezas gloriosas dos olhos dele. Como podia resistir? Ele a fazia sentir que a vida era um segredo para o qual só ele sabia a resposta, e que oferecia isso a ela. A noite passou numa obscuridade. O prazer de falar sua língua nativa misturou-se com alegria agridoce quando reviu conhecidos afastados por anos de isolamento nas mãos de Gamil. Ele roubara sua liberdade e autoconfiança, mas também os amigos da família que tinham pensado que ela escolhera se afastar. Encontrar pessoas que conheciam seus pais trouxera alegria. — Leila. — A voz de Joss cortou seus pensamentos. — É nossa vez. Eles encaminharam-se para o santuário íntimo onde o sheik e sua esposa recebiam os convidados. Sheik Zahir de Bakhara era uma figura dominante, alto e com ombros largos em roupas tradicionais. Somente o brilho pesado de ouro de seu anel e a intrincada bainha para espada de seu cinto revelavam sua austeridade. Aquele rosto — astuto orgulhoso e determinado — não precisava de adorno. Ele parecia ter saído direto do deserto para a recepção. Sua esposa grávida e linda em violeta-escuro sorriu calorosamente e assentiu para Leila. Ela colocou a mão no braço do marido e instantaneamente as feições dele suavizaram enquanto inclinava a cabeça. Leila sentiu uma pontada sob as costelas. Seria por causa da visão daquele homem poderoso tão harmonizado à sua esposa? Por causa da ternura nos olhos da rainha Soraya quando olhava para o marido? Era uma impressão de momento, todavia uma conexão poderosa entre eles atingiu Leila com o impacto de um campo de força. Sentiu saudade. De amor e permanência. Dos sonhos de quando era pequena e compartilhava o calor do amor dos pais. Do que sentira quando enxergara, além do seu casamento de conveniência, o homem debaixo do empresário perspicaz. Joss era terno e paciente. Forte o suficiente para não ser ameaçado pela força de caráter dela. Ele se importava. Como seria carregar o filho de Joss, como a rainha Soraya carregava o do sheik? O olhar do sheik voltou-se para ela. Ela leu curiosidade e alguma coisa que a 83


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West fez ansiosa. Agarrou a mão de Joss. Era bobagem ter medo. Seu casamento a salvara da influência de Gamil. Ela estava salva e livre. Nada podia feri-la. — Joss, é um prazer vê-lo. — O sheik estendeu um braço e Leila observou perplexa, quando eles se cumprimentaram Joss conhecia o sheik? Nunca mencionara. — Vossa Alteza. — Joss conduziu-a para frente e apresentou-a. Para alívio dela o casal real era amigável, a despeito do olhar penetrante do sheik. Logo eles estavam discutindo a recente melhoria dos edifícios da embaixada e planos para renovar a embaixada em Paris. Dali a rainha espichou a discussão para Paris, sua cidade favorita. Leila compartilhou lembranças da cidade. Quando o embaixador mandou a assembléia ficar quieta, Leila estava divertindo-se. Só quando inspecionou a multidão silenciosa viu um rosto familiar... Gamil. O sangue esvaeceu-se de seu rosto de imediato. Ela ofegou fortemente e teve que se esforçar para manter a compostura. Por que ele estava em Londres? Leila não pôde evitar um tremor de ódio e medo ao vê-lo. Joss apertou o braço dela acariciando o pulso com o polegar. O olhar dele estava fixo no fundo da sala também. Sentindo a força dele, Leila percebeu que podia encarar o que quer que surgisse em seguida. Ela não estava mais sozinha. Dos discursos de abertura Leila pouco ouviu. Seu padrasto estava observando o sheik com uma excitação que fez o estômago dela afundar em antecipação. Houve uma pausa, depois uma agitação através da multidão, e Leila percebeu o sheik falar sobre a aposentadoria do embaixador e seu sucessor. Gamil empertigou-se, sua mão alisando a manga num gesto familiar que revelava sua excitação nervosa. Leila sentiu bílis na garganta. Gamil destruíra sua mãe e tentara destruí-la. Como ela podia ouvir em silêncio a notícia de que ele estava sendo elevado àquela posição de prestígio? O sheik falou novamente e foi aplaudido. Todos os olhos voltaram-se para um homem distinto no outro lado do sheik: um diplomata de carreira e amigo do pai de Leila. Leila aplaudiu a notícia da promoção dele a embaixador, mas sua atenção voltou-se para Gamil, cujos olhos estavam chocados e cujo queixo ergueu- se de emoção suprimida. — Como somos amigos aqui — continuou o sheik —, também gostaria de ter a oportunidade de reconhecer um dos nossos. Ele gesticulou através da sala para Gamil, dirigindo-se a ele pelo nome inteiro. Leila empertigou-se. Que honra real estava ele prestes a receber? O sorriso de Gamil era de satisfação. — Chegou ao meu conhecimento à notícia de que, devido a assuntos familiares pessoais... Nosso consultor Gamil será forçado a afastar-se da vida pública. — Ele pausou. — Permanentemente. Atônita, Leila observou quando Gamil abriu a boca como se procurando 84


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West coragem para protestar contra o anúncio real. Mas a expressão do sheik não deixava dúvida de que aquele era um decreto real. Um decreto de exílio das posições que Gamil esquematizara para serem suas. A coloração no rosto de Gamil deixou Leila perceber que ele não sabia nada daquilo. Esperara promoção e, em vez disso, recebera o equivalente a um banimento. Seu coração bateu quando ela percebeu as implicações. Poder era a razão de ser de Gamil, e havia sido tirado dele. Publicamente. Irrevogavelmente. A palavra do sheik era lei... Não haveria negociação. — E no mesmo assunto... — O sheik fez um gesto para Joss, de pé perto dele. O que estava acontecendo? Leila olhou de um para o outro, sua mente girando. — Obrigado, Sua Alteza. Senhoras e Senhores. Ele pausou e deu um olhar para Leila. Os olhos dele estavam brilhantes com algo que ela não podia nominar. Joss voltou para a recepção. — Em vista das notícias de Sua Alteza, e considerando o interesse geral na minha empresa de Bakhara, tenho um anúncio a fazer. Como Gamil está se aposentando, sua posição na diretoria da minha empresa será habilmente tomada por sua enteada, minha esposa, Leila Carmody. Leila arregalou os olhos quando Joss voltou-se. Ela viu satisfação e um brilho de triunfo no olhar dele. Aplausos irromperam. Confusa, ela pegou olhares de aprovação nos rostos familiares. — Mas... Não tenho experiência — sussurrou ela. — Tenho fé em você, Leila. — A sinceridade na voz de Joss acalmou a tensão. — Só mais um desafio. — O sorriso dele lembrou-a que ele estivera ao seu lado durante muitos desafios recentes. Estaria ao lado dela agora? Certamente levá-la para sua diretoria não era ação de um homem que planejava dizer “adeus” em breve. Teria ele mudado sua opinião sobre não querer um relacionamento permanente? Ela quase não teve tempo para digerir a idéia, quando o sheik falou: — Estou satisfeito em ver outra mulher capaz contribuindo para nosso futuro econômico. — Obrigada, Vossa Alteza — disse ela corando. Ela não tinha idéia de por que ele a considerava capaz. Ela não tinha tino para negócios. Viu o sheik e Joss trocando um olhar e de repente compreendeu que era coisa de Joss. Não somente a posição na empresa, mas o que acontecera a Gamil. Ela ofegou. Joss tinha feito aquilo para ela. — Parabéns. — A rainha Soraya apertou-lhe a mão. — Significa que podemos aprimorar nossas habilidades. Tenho interesse nesta empresa agora. Leila devolveu-lhe o sorriso. Ela virou o centro de um tropel de congratulações. Todo o tempo Joss ficou ao seu lado. Estava feliz pela presença dele, dominada pelo que acontecera. Era exatamente o que ela queria para desenvolver a terra da família. Gamil aproximou-se, seu rosto estampando mau humor. — Lidarei com isto — murmurou Joss. — Não. Eu lidarei. — Ela encararia a batalha sozinha. O resto da sala desapareceu quando ela caminhou em direção ao homem que fizera sua vida um inferno. O homem cuja crueldade transformara seu mundo 85


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West numa prisão. Não sentiu nada. Gamil era uma sombra da figura cheia de empáfia que fora. Ela sentiu-se pronta para enfrentar o mundo. Gamil abriu a boca; então, depois de um olhar abrasador, voltou-se e caminhou em direção à saída. Ainda assim Leila não sentiu nada. Até se virar e ver Joss observando. O calor do olhar dele era uma carícia de boas-vindas. De volta ao lar. O conhecimento que pairara no limite de sua consciência por semanas a atingiu. Foi tão momentâneo que o brilho dos lustres mergulhou na obscuridade, depois voltou à focalização mais aguda, cada detalhe mais vívido do que antes. Leila ofegou fortemente. Não era de admirar que Gamil não tivesse mais poder sobre ela agora. Ela tinha tudo que queria. Ela tinha Joss.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Treze Leila acariciou os contornos úmidos do peito de Joss, deleitando-se depois de terem feito amor. Ele mal atravessara a porta depois de uma manhã de reuniões e ela já estava nos braços dele, depois na sua cama. Ela esticou-se, arqueando a espinha enquanto a mão dele deslizava pelas suas costas, depois subia para entrelaçar seu cabelo. Ela adorava o modo como ele a tocava... Aquelas mãos poderosas e gentis como se ela fosse preciosa e quebradiça. Quase tanto quanto adorava as vezes que a paixão eclipsava gentileza, quando ele a tomava com urgência parecendo que suas almas eram uma só. — Nós não almoçamos. — Hmm. — Ela tinha tanta coisa na mente que comida não importava. A excitação surgiu quando ela se inclinou sobre ele para beijar seu pescoço. A manhã inteira havia alternado entre deleite e agitação. Mas depois do amor terno de Joss disse a si mesma que não havia necessidade de ficar nervosa. Tudo ficaria certo. Mais, seria perfeito. Podia se ver envelhecendo ao lado desse homem. Carregando seus filhos. — Do que você está rindo? — Uma mulher não pode ficar feliz em ver seu marido? — Ela deslizou seus dedos pelo torso dele e através das costelas, ao ponto sensível que sempre o fazia tremer. Inevitavelmente ele pegou sua mão. — Quão feliz? O suficiente para atrasar o almoço um pouco mais? Ela sorriu. — Eu posso ser persuadida. Seu coração estava tão cheio de alegria que ela não conseguia guardar para si mesma por mais tempo. Pressionou outro beijo na pele dele, inalando o aroma. Lembrar-se de tudo que ele fizera para ela, como ele se importava com ela, deu coragem de admitir a verdade. Ela não queria mais segredos entre eles. — Eu o amo, Joss. — De repente tímida, ela não encontrou os olhos dele, mas esperou com o coração batendo por antecipação. O peito dele ergueu-se quando ele respirou forte. Os dedos dele apertaramse em volta dos dela. — O que causou isso? Leila franziu o cenho. Ele não parecia satisfeito. Sua voz tinha um tom áspero que ela não ouvira há séculos. — O que quer dizer? — Hipnotizada, ela observou o peito dele subir outra vez enquanto parte do seu cérebro gritava que não era isso que ele esperara. Longe de ficar encantado, Joss pareceu suspeitamente irritado. Tinha aquela voz de aviso estado certa, afinal de contas? Leila colocou a idéia de lado. Conhecia Joss. Ele não era o homem frio, emocionalmente isolado que uma vez ela pensara que ele fosse. Ela levantou a cabeça. Ele estava olhando para o teto, a testa franzida em uma careta feroz. — O que a conduziu a essa declaração de amor? — Ele manteve o olhar no teto enquanto Leila examinava as feições tensas dele. 87


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West A boca dele estava apertada. Alegria transformou-se em conscientização. Onde estava o homem que segundos atrás queimara de desejo segurando-a contra o coração? Ele era real. Ela não imaginara as mudanças em Joss desde o casamento. Elas tinham sido profundas. O suficiente para fazê-la arriscar a revelar suas próprias esperanças frágeis. — Percebi como me sinto ao seu respeito. — Tarde demais para voltar atrás. Ela estava comprometida agora. — Quando percebeu? Na noite passada, quando lhe dei um lugar no conselho da empresa? Leila arqueou a sobrancelha. Ele parecia... Quase sarcástico. — Faz algum tempo. — Nem por sua vida ela admitiria que ele estivesse certo. — Você não tem que fazer isso. Não espero mais de você. — Fazer o quê? — Fingir sentir mais. Sei que está grata sobre Gamil, mas não é necessário. — Grata. — A palavra caiu como uma pedra na água tranqüila. — Você pensa que estou agradecida? — Não está? — Finalmente ele se virou para olhar para ela, fazendo seu sangue tinir. Aquele fora o dia mais feliz de sua vida e, de repente, inexplicavelmente, tudo estava saindo completamente errado. Ela sabia sobre as cicatrizes emocionais dele, mas disse a si mesma que elas começavam a sarar. Certamente um homem tão afetivo e generoso como Joss merecia amor. Ela ficou com medo. JOSS OLHOU nos olhos enfumaçados e sentiu uma ponta de perda tão grande que lhe tirou a respiração. Tudo tinha sido tão bom... Bom demais percebeu ele agora. Ele devia ter sabido que não duraria. Não tivera ele momentos de premonição naqueles meses? Momentos de prazer tão deliciosos que sabia que deviam ser passageiros? Porque estavam todos atados à Leila. Porque felicidade centrada em outra pessoa era um erro. Porque todo mundo partia eventualmente. Ou traía. Ou usava você até que o tivesse devorado como ácido comendo pele, machucando até não haver nada para sentir. Ele voltou a olhar para o teto. Seu estômago torceu num nó que fazia a bílis queimar sua garganta. Nada tranqüilizava. Não agora. Era tarde demais. Ele fingiu que não era perigoso. Que eles podiam continuar como estavam. Deveria ter adivinhado. Eu o amo, Joss. Mesmo agora ele sentiu uma vontade desesperada de se agarrar às palavras de Leila. Esquecer tudo que aprendera sobre amor e aproveitar a chance de a miragem ser verdadeira desta vez. Inferno! Ele não quisera acreditar tão fortemente desde que tinha 10 anos. Desde que Joanna fugira e o deixara, a despeito de seu suposto amor por ele. 88


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Desde que ele falhara com ela e provara a si mesmo que não valia à pena. Eu o amo, Joss. Com que freqüência sua mãe havia dito aquilo? Usado as palavras para atar seus filhos a ela, somente para rejeitá-los quando se comportavam como garotos normais em vez de extensões do ego dela? Eu o amo, Joss. Quantas vezes as mulheres tinham exprimido com sorriso amarelado aquelas palavras, esperando por mais riquezas materiais que ele podia dar? Eu o amo, Joss. Elas eram um mau presságio à felicidade que ele e Leila tinham compartilhado. Ele sentiu náusea diante da noção de que ela podia ter deliberadamente feito uma armadilha para ele com aquela fórmula supostamente mágica. Pior ainda era a desconfiança de que Leila sentisse mesmo aquilo. Que tivesse ficado emocionalmente envolvida numa ilusão. Que acreditava que ele fosse capaz de retornar... Amor. Joss pôs a mão no ombro dela e moveu-a para o lado para sentar-se na beira da cama. Aspirou grandes golfadas de ar, mas não conseguiu encher os pulmões. — Joss. Diga alguma coisa! A boca dele torceu-se. O que havia para dizer? A mão dela fechou-se sobre o ombro dele, apertando. Como se soubesse que o havia perdido? Droga! Ele não estava pronto para terminar. Não ainda. Egoisticamente, ele queria que o prazer durasse. Prazer sem complicações. Joss deixou a cama e ficou de pé encarando as janelas. — Nós dissemos que era sem envolvimento. Recorda-se? — As coisas mudaram. — Ela parecia confusa. Joss passou a mão pelo cabelo, dizendo para si mesmo que não era real. Não podia ser amor. Ele não inspirara tal afeição. Ela dissera o que pensara que ele queria ouvir. — Você não me deve nada. Na noite passada... — A mão dele acenou no ar. — A noite passada foi para estabelecer as coisas certas, isto é tudo. Não precisa se sentir... Obrigada. Por longos segundos ela não disse nada. — Estou agradecida pelo que você fez com Gamil — disse ela finalmente. — Mas não é por isso que eu o amo. As palavras dela o seduziram Palavras que ele uma vez desejara, mas finalmente aprendera a desprezar. Joss girou para encará-la, bloqueando a emoção que surgiu espontaneamente diante daquelas palavras letais. Ele não mais era um garoto ingênuo. Ele não era vulnerável. — Não... Diga isso. Eu lhe disse que não é necessário. Ela puxou o lençol cobrindo os seios e ele sabia que era tarde demais. O estrago estava feito. Não havia retorno. Dentro dele um grunhido de perda surgiu, um bramido mudo de raiva diante da ingenuidade dela em acabar com o que tinham Tinha sido glorioso, espetacular. Viciante. Ele percebeu a mágoa e sabia que ela nunca o perdoaria pelo que ele teve que fazer. Mesmo assim, queria egoisticamente ganhar mais tempo. Não estava pronto 89


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West para liberá-la. Tinha que tentar fazê-la ver. — ESTÁ BEM Leila. Sei que não teve a intenção. Leila olhou para o homem que amava, imaginando a mudança nele. O rosto dele estava rígido e pálido debaixo do bronzeado, e ele se recusou a encontrar o olhar dela. Por que não olharia para ela? — Eu tive a intenção. — As palavras saltaram e ela reconheceu a expressão dele agora... Raiva. Tão feroz que fez desaparecer a terna alegria que ela acalentara a manhã toda. Era como observar o médico transformar-se no monstro, vendo a expressão de Joss fechar-se em linhas duras de desaprovação. — Não tenha Leila. — Seria desespero na voz dele? Leila inclinou-se para frente, procurando por sinais do homem que fizera amor com ela apaixonadamente tão pouco tempo atrás. — Vai se arrepender mais tarde. Já estava arrependida. Estivera tão certa dos sentimentos de Joss. Mas, longe de retribuir o que ela sentia, ele agia como se ela tivesse feito alguma coisa terrível. — Vamos continuar como antes — disse ele, caminhando pelo quarto. A nudez dele somente reforçava sua aura de força formidável. — Podemos esquecer sobre isso. — Ele agitou a mão displicentemente como se o anúncio dela não significasse nada. — Não quero esquecer. — Não podia ele ver quão vital aquilo era para ambos? Ele pareceu... Selvagem. Desesperado. Furioso. — É o único jeito. Leila apertou o lençol mais forte contra os seios. A despeito do controle da temperatura do quarto, ela tremia de frio. — O que quer dizer com isso? — Tínhamos um acordo, lembra-se? — Se você quer dizer a regra de sem sexo, não vi você se queixando em quebrá-la. — Ela ficou indignada. — Claro que não. Aquilo foi acordo mútuo. Estou falando sobre relacionamento sem vínculos. Sem confusões emocionais. — Antes que a solidariedade aparecesse, ele continuou: — Você está rompendo nosso acordo. Acordo? Joss estava preocupado com um acordo? E quanto ao fato de ela ter se apaixonado por ele? O fato de ela desnudar seus sentimentos e ser rejeitada? Não tinha ele idéia do quanto ela estava ferida agora? — Você não me ama? — A voz dela era frágil. Mas ele ouviu. Ela sabia disso pelo modo como ele se empertigou. — Não costumo amar. Deixei bem claro desde o início. Ela sentiu uma dor terrível. Ele parecia frio como gelo. Não o homem carinhoso e generoso pelo qual se apaixonara. Teria ele sido uma ilusão? Ela ouvira a dor dele quando falara da família e da necessidade de estar 90


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West sozinho. Mas tudo que ele fizera, a ternura que demonstrara, convencera-a a ter esperança. — Tínhamos um acordo. — Ele ficou de pé, de braços cruzados. — Eu lhe dou dinheiro e você atua como minha anfitriã. Além disso... Sexo para prazer mútuo, isto é tudo. Quero esquecer esta manhã e continuar como estávamos. Leila não podia acreditar no que estava ouvindo. Tirou as pernas da cama, mas não ficou de pé. Tinha uma horrível sensação de que suas pernas não a sustentariam — Você está feliz por convivermos na mesma casa, fazermos sexo, é claro... Contanto que não haja emoções conturbadas como amor. — Sua voz tremeu na última palavra, ecoando a dor no seu coração. Ele arqueou a sobrancelha. — Não pareça surpreendida. Concordamos com isso. — Ele chegou mais perto com expressão severa. — Faremos isso do meu modo, é pegar ou largar. Este é o acordo... Sempre foi. Acordo! Ele tinha a temeridade de falar em acordos depois do que tinham compartilhado? Olhando para o rosto inflexível de Joss, sua careta feroz e olhos intrigados, ela lembrou-se de repente de Gamil. De como ele exigira e ordenara... Sempre impondo sua vontade, nunca considerando ninguém mais. Podia ela ter sido tão enganada sobre Joss? Agora ele estava cada vez mais dominador e irracional como seu padrasto... O epítome de tudo que ela aprendera a detestar. Ela não podia acreditar. Agora chegara a hora de ele mostrar seu verdadeiro “eu”. Teria ela deixado o amor cegá-la para o egoísmo dele? Teria a paixão torcido seu julgamento tão fortemente? Ela era inexperiente sobre homens e luxúria... Teria ela confundido a situação? Não! Certamente não. Desesperadamente ela procurou algum sinal do Joss que havia conhecido no homem com olhos de aço na frente dela. Apenas um sinal de abrandamento. Ficou totalmente decepcionada quando ele olhou de volta mostrando nenhuma ternura ou compreensão. Uma coisa estava clara. Não havia suavidade nele, somente exigências egoístas e desaprovação. Ele não a amava. De repente Leila se sentiu muito mais velha. Mesmo respirar exigia mais esforço do que ela podia conseguir. Seria assim que sua própria mãe se sentira quando percebera que Gamil a ludibriara? Tudo em Leila rebelava-se diante da idéia. Não Joss! Mas o homem diante dela permanecia sólido e acusador. — Você não quer uma esposa. Quer uma mulher que compartilhará seu corpo e não pedirá nada a não ser dinheiro. Você quer uma prostituta. Joss atirou a cabeça para trás como se ela o tivesse esbofeteado, mas não se moveu. — Eu lhe disse no início, Leila. Nunca quis uma esposa de verdade. Sem emoções, sem filhos, sem complicações. Leila cambaleou quando a clareza dura e fria das palavras dele atingiu profundamente seu coração já ferido. 91


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Como tinha ela imaginado que ele se importaria? Tinha sido conveniente para ele ajudá-la a superar seu medo de sair. Havia feito dela uma companhia mais útil. Quanto ao que ele fizera para Gamil, talvez não fosse por causa dela, afinal de contas. Talvez fosse mais fácil ter uma esposa inexperiente na diretoria do que seu padrasto esperto. Nenhum homem que realmente se importasse a trataria daquele jeito. Leila não conseguia ver sentido naquele pesadelo. Uma coisa permanecia constante... A arrogância esculpida no rosto de Joss enquanto ele esperava pela resposta. — Sem emoções, sem filhos, sem complicações. — Ela repetiu as palavras dele com um meio-sorriso que não continha humor. — Que pena Joss. É tarde demais. — Só porque você disse... Leila ergueu a mão imperiosamente. — Esqueça isso. Há outras complicações. Descobri esta manhã... Estamos esperando um bebê. A cor desapareceu do rosto de Joss, deixando-o doentiamente pálido. — Você está mentindo. Ela deslizou a mão protetoramente sobre o estômago. — Não minto Joss. Como ela encontrara sua voz não sabia dizer. Ele abriu a boca, mas nenhum som emergiu. Sua pulsação e sua fronte batiam sem controle e seu pescoço e ombros ficaram tensos. Leila esperou. Esperou porque mesmo agora ela não podia acreditar que tudo pudesse terminar daquela maneira. Esperou que Joss a erguesse nos braços e pedisse desculpas. Que dissesse que a amava. Que estava estático diante da novidade. Ela esperaria uma vida inteira, percebeu finalmente. Porque fora enganada por ele. Confundira generosidade casual com carinho verdadeiro. Sexo por paixão e amor verdadeiros. — Não se preocupe em perguntar — disse ela entre os dentes cerrados — Mãe e bebê estão saudáveis. Com um olhar final para o homem que tomara seu coração e depois o estraçalhara, ela deixou o quarto. Quando Leila saiu de seu quarto, horas mais tarde, percebeu que Joss fizera suas malas e partira. Negociações urgentes além-mar, disse a governanta. — Quando ele deve voltar? — Leila não sabia se ficava aliviada que não precisasse encará-lo ou furiosa porque ele partira. Eles tinham coisas a acertar. — Sinto muito, senhora. — A Sra. Draycott desviou o olhar. — Tive a impressão... Isto é... — Ela limpou as mãos na saia. — Acredito que ele ficará longe por um bom tempo. Não falou em retornar. Mesmo depois de horas digerindo os acontecimentos, não podia acreditar no fim de tudo que ela tanto estimava. Da crença no homem que amava. Do sonho de construir uma vida juntos, criando e educando os filhos que teriam. Ela entendeu que um pouco da reação de Joss fora produto do estado de choque. Convencera a si mesma de que, quando ele pensasse devidamente, não seria tão inflexível. Não importava os problemas que tivera com sua família, ele não poderia jogar fora o que eles tinham. 92


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Parecia que ele podia. Ele fora embora sem um olhar para trás. Sem um murmúrio de arrependimento ou desculpa. Leila disse a si mesma que não se importava. Ela e seu filho ficariam melhor sozinhos do que com um homem como aquele. Mesmo assim ela fez um esforço sobre-humano para ignorar o tremor de dor que a atingiu e caminhou cuidadosamente de volta para o quarto. Tinha planos para fazer.

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Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West

Capítulo Catorze Joss desligou o motor e olhou para a casa na rua quieta. Sólida e confortável. Talvez o reflexo da luz do sol no vidro das largas janelas ou o calor dos tijolos desse aquela ilusão. Talvez as chaminés ornamentais ou os botões de rosa em volta da porta. Não importava quão ilógico, aqueles tijolos causavam algo muito sentimental. O lugar parecia um lar. Quente e receptivo tal como ele nunca conhecera. A espécie de lar em que podia imaginar Leila vivendo. Leila e o filho deles. Ele segurou a respiração. Não tinha o direito de estar ali. Desistira desse direito quando voltara às costas ao amor de Leila. A dor no peito era aguda. Não ficou surpreso que Leila tivesse optado pelo conforto em vez de um apartamento moderno. Ele recordara suas revistas de jardinagem e como ela mencionara sua infância e a importância de um lar. Aquele seria um lar verdadeiro. Não porque era charmoso e sólido, mas porque Leila o deixaria assim. Com seu calor, determinação e otimismo. Que direito tinha ele de entrar sem pedir licença? Era o santuário dela. Ela merecia depois do que passara. Joss olhou novamente. Desta vez as rosas em volta da porta pareciam sentinelas espinhosas, afastando visitantes indesejáveis. O próprio calor da velha casa era uma lembrança de por que ele não tinha lugar ali. Ele somente trouxera sofrimento. Então pegou o grosso maço de papéis sobre o assento do passageiro. Abrir a porta do carro e caminhar através da estrada foi à coisa mais difícil que ele jamais fizera. Leila CANTAROLAVA ajoelhada junto ao canteiro. Por isso não ouviu nada. Uma sombra bloqueou o sol. Ela olhou para cima para vê-lo caminhando em direção a ela. Tremeu inteira de emoção. Não era ele. Nunca seria ele. Não tinha aprendido, depois de dois meses de silêncio? Ela deixara o apartamento de Joss, a vida dele e não ouvira mais nenhuma palavra dele. — Posso ajudar? — Ela olhou para cima, pernas longas cobertas de jeans desbotado sobre uma barriga chata, jaqueta casual e camisa branca, ombros largos e queixo duro feito aço. Seu coração deu um grande salto. Ela lutou para manter o equilíbrio. — Leila! — Ele esticou uma mão em direção a ela, depois gelou como se recordando que não tinha o direito de tocá-la. Ela arregalou os olhos ao observá-lo. Estava espetacular como sempre... Talvez mais; as roupas casuais caiam-lhe bem. No sol da primavera ele parecia tudo que ela secretamente sonhara por tanto tempo. A percepção sugou sua energia. Levantou-se para encará-lo. 94


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Você está bem? — Ele a olhou de cima a baixo. Teria imaginado que o olhar demorara sobre sua barriga? Inconscientemente deslizou a mão, protegendo seu bebê. — Joss. — O tom de voz dela foi neutro. — O que está fazendo aqui? A boca dele ficou firme, como se não gostasse de ser desafiado. Leila tirou suas luvas de trabalhar na terra e deixou-as cair sobre os pés. Ele tinha que encontrá-la em roupas de jardinagem? Ela quisera se jamais o visse novamente, parecer fria e sofisticada, calmamente não impressionada pela presença dele. — Você parece bem. Ela abriu a boca para responder, depois fechou os lábios. Recusava-se a expressar cumprimentos educados. Olhando mais de perto ele parecia cansado, com olheiras e com as bochechas mais magras. Obviamente devotar-se ao império de negócios era desgastante. Quando ela não disse nada, os olhos dele pareceram ler seus pensamentos. — Não vai me convidar para entrar? — Ele fez um gesto em direção a casa. Ela a comprara com os fundos que ganhara ao assinar o precioso acordo. Aquela casa era seu santuário e sua esperança para o futuro. — Não. — A veemência dela o surpreendeu. Mas ela não o queria no seu território. Seria muito difícil erradicar lembranças de Joss, uma vez que o permitisse entrar na sua casa. — Não é necessário. Podemos conversar aqui. — Ela dobrou os braços. Ela notou-o ofegar fortemente. — Como vai, Leila? Era a última coisa que ela esperara ouvir. A voz dele continha aquela gravidade perigosa, pois assinalava profunda emoção. Ela apertou os dedos contra o braço. Quem estava enganando? Pensara que conhecera Joss, mas estivera errada. Tão errada que seria engraçado se não fosse trágico. — Estou bem. — Ela não perguntou como ele estava. Disse a si mesma que era porque não se importava, mas temeu que fosse porque se importava demais. Não confiava nele, não gostava dele, mas ainda havia resíduos de seus sentimentos. Por isso precisava se livrar dele. — E o bebê? Ela sentiu raiva por ele ter tido o desplante de perguntar. Ansiara que ele reconhecesse o filho, embora soubesse que era inútil. Ela abriu a boca para zombar que não era da conta dele, mas parou. — O bebê está bem. — As palavras escaparam — Esperava que fosse tudo um engano? Ou que talvez eu tivesse abortado e você não tivesse que preocupar-se com complicações? É isso? A reação dele certamente foi genuína. Ficou envergonhada por ter sido dura demais. — Desculpe — sussurrou horrorizada. A onda de emoção baixou abruptamente, deixando-a trêmula. — Leila? — Desta vez, quando o mundo girou, ele a segurou com firmeza. — Você precisa sentar-se. Olhos da cor do crepúsculo trancaram-se com os dela e ela sentiu algo mudar no seu peito. Calor. Do toque dele, de sua preocupação. 95


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Que tola! Não havia nada entre eles, nunca houvera. Todavia, ela ainda ansiava... — Por aqui. — O tom de voz dele e seu toque eram gentis o suficiente para acalmar os nervos estraçalhados dela. Ela o deixou conduzi-la para uma cadeira no jardim. — Desculpe. — Ela sentia-se como uma velha esgotada pelos anos. — Foi desnecessário. — Eu mereci — disse ele. A cabeça de Leila saltou e ela encontrou o olhar dele. Teria ouvido direito? — Mas, acredite — continuou ele —, não quero nada mais do que sucesso para você e o bebê. Quero somente o bem para ambos. Ela quase acreditou que ele realmente se importasse. O coração dela estalou. — Por que está aqui, Joss? Ele ofegou como se prestes a dizer algo momentâneo... Todavia, as palavras não vieram. Ela notou que ele apertava os punhos. Se ela não o conhecesse melhor, pensaria que estava nervoso. — Por causa disso? — Ela fez um gesto para o grande envelope na outra mão dele. Não quisera tomar conhecimento, imaginando que contivesse documentos de divórcio. Ela desejou que pudesse ser blasé sobre terminar o que era simplesmente um contrato legal. Mas não era filha dos pais dela por nada. Acreditava no amor e família. Desejava-os. Desejava Joss com um fervor silencioso que desafiava a lógica. Exceto que o Joss que ela desejava era uma invenção de sua imaginação, um homem que inventara baseado em alguma bondade e uma porção total de magnetismo sexual. Ele não era real. Aquele conhecimento dera-lhe força para pegar o envelope que ele esmagava no seu punho. — É para mim? — Finalmente ele abriu a mão. Sua pulsação acelerou quando ela pegou o envelope e sentiu um arrepio de frio percorrer sua espinha. Ela suprimiu uma lamúria. Aquilo estava tão longe do que sonhara. Mas lidaria com aquilo. Seria forte e encararia, como encarara tudo o mais. — Você quer que eu mande de volta quando assinar? Joss piscou e cerrou o cenho. — Eles são seus. Material de leitura para a reunião do conselho que está chegando. Reunião do conselho? Joss viera para dar-lhe papéis para uma reunião? Seu coração batia fora de ritmo. Nada sobre aquele encontro fazia sentido, muito menos Joss, que parecia tão abatido quanto ela se sentia. — Joss? Afinal, por que está aqui? Sua estafe podia ter mandado os papéis. Os olhos dele queimaram-se nos dela. Ela sentiu o impacto. Ele somente precisou olhar para ela e ela quis acreditar... — Tinha que vê-la. Precisava me certificar de que você estava bem. — Por quê? Você não quer complicações, lembra-se? As palavras dela continham mais cansaço do que amargura. Fora amarga por tempo demais. Agora sentiu remorso e dor. E aquela emoção que não fora 96


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West capaz de destruir. Ela afastou o olhar. Precisava ficar sozinha. Precisava nunca vê-lo novamente. Leila piscou quando ele caiu de joelhos diante dela. Mãos grandes a agarraram. Ela tentou recuar, mas ele segurou firme. E, era horrível admitir, mas parte dela deleitou-se com o toque dele. Seria a última vez que ele a segurava. — Porque você estava muito ferida. Porque, quando finalmente me conscientizei de minha postura e de meu medo, percebi como fui cruel. — Eu lhe disse. Estou bem — Todavia, não conseguiu força para liberar suas mãos. Ela mordeu o lábio, detestando sua fraqueza. Vagarosamente ela sacudiu a cabeça. — Não, você não está. E a culpa é minha. Ele assentiu para o envelope e sentou-se ao lado dela. — Os papéis eram uma desculpa. Precisava me desculpar. Fui um completo idiota. Mereço seu ódio, mas tinha que ver se havia alguma coisa que eu pudesse fazer para deixar as coisas mais fáceis. — Mais fáceis? O aperto dele intensificou-se. — Você... Importou-se comigo, Leila. Atirei isso na sua cara. — Ele sacudiu a cabeça. — Não deveria descontar meus medos sobre você. Sei que não posso consertar as coisas, mas queria pedir desculpas e... — Que medos? Não entendo. — Joss era poderoso e determinado. O indivíduo mais forte que ela conhecia. — Joss? A boca dele torceu-se no que podia passar por um sorriso se ela não tivesse visto a agonia nos olhos dele. O coração de Leila bateu forte em empatia. Ela estava bem livre do homem que a ferira tão devastadoramente. — Eu estava assustado, Leila. Petrificado. Ainda estou. Por isso voltei. — Não fale por enigmas. — Ela tentou libertar suas mãos imaginando se era algum esquema para lográ-la. Mas por quê? Joss liberou suas mãos, mas plantou a outra sobre seu próprio peito. Seu coração batia no mesmo ritmo feroz que o dela. — Eu disse que não lido com emoções. Não posso lidar com emoções. Leila abriu a boca para discordar, mas a expressão desolada dele a impediu. — Nunca tive amor. — Ele olhava por cima do ombro dela agora. Para longe. — Isto não é desculpa apenas uma explicação. Todas as vezes que alguém me disse que me amava, fui ferido, até que decidi nunca ser ferido novamente. Meus pais clamavam me amar, mas apenas se importavam com seus egos. Amor era uma arma de chantagem, usando-nos a jogar seus jogos sórdidos para vencer um ao outro. Minha vida inteira, quando alguém clamava me amar, era pensando no que poderiam conseguir. Mesmo minha irmã... — Ele suspirou fundo. — Eu a amei, mas não pude protegê-la, e quando ela partiu soube que ela não se importara o suficiente para ficar. A mão de Leila moveu-se convulsivamente contra ele, que fez uma careta. — Eu sei. Fui tão egoísta quanto meus pais, acreditando nisso. Mas bem no fundo eu realmente sabia que não fui talhado para o amor. Não inspiro sentimentos profundos em ninguém. E quando os anos passaram percebi que não 97


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West era capaz de amar ninguém também. — Joss, isso é um absurdo. — Ela soubera que ele fora estragado pelo seu passado, mas acreditar que não era capaz de amar?! — É verdade. Fiquei acostumado a usar as pessoas e ser usado... A vida foi uma série de trocas. Sexo por algumas bugigangas e um pouco de diversão. O mais perto que cheguei a amar como adulto foi quando uma mulher proclamou que me amava na esperança de que eu a estabelecesse financeiramente. — Isto é horrível! Ele deu de ombros. — Era o que eu esperava. Até você aparecer. Com você senti... Coisas que nunca experimentara. Quando você disse que me amava, desesperadamente queria que fosse verdade. Mas não ousei acreditar. — Ele sacudiu a cabeça. — Era mais fácil acreditar que você estava enganada ou mentindo. — Oh, Joss. — Não estou atrás de empatia. Só preciso explicar por que voltei e me desculpar. — Você já se desculpou. Ele pareceu surpreso. — Não o suficiente. — Não, não foi. — Misturada com a empatia dela estava raiva. Raiva que um homem tão inteligente os houvesse feito passar por isso porque não podia compreender algo tão maravilhosamente simples como amor. — Você fala como se houvesse um muro em volta de você, impedindo-o de amar. Tudo que tem a fazer é confiar nos seus sentimentos. Ele hesitou. — Vejo agora que é possível... Na teoria. Depois que você foi embora... — a voz dele aprofundou-se —... Não pude trabalhar. Nada segurava minha atenção. Eu queria... Não podia ter o que queria, portanto encontrei algo mais para ocupar meu tempo. Rastreei os movimentos de minha irmã. Pensei que encontrar o túmulo dela pudesse ajudar a pôr meu passado atrás de mim. Leila quis perguntar o que ele queria, mas ele continuou. — Finalmente encontrei. — Ele ficou emocionado. — Ela não morreu aos 15 anos como me contaram, ela simplesmente desapareceu. Imagino que contaram que ela morreu para me tranqüilizar. — Ele esfregou o queixo. — Então contratei detetives. — Você a encontrou? — O coração de Leila estava na boca. — Encontrei. Ela está viva em Yorkshire com seu marido fazendeiro e três filhos. — E ela nunca o procurou? O sorriso dele morreu. — Aparentemente ela tentou uma vez, alguns anos depois que foi embora. Estava vivendo nas ruas e nossa mãe disse que ela não podia voltar para nossas vidas. — Isto é horrível. — Eu lhe avisei... Minha mãe era horrível. — Ele pegou sua mão e ela deu boas-vindas ao toque dele... Tão familiar. — Mas ela morreu e Joanna... Está mais feliz do que eu jamais recordei. E é prova viva de que eu estava errado. Que nossa família pode encontrar amor. Os olhos dele brilharam ferozmente. 98


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West — Você achou que fosse uma maldição de família? — Achei provável, levando em consideração minhas experiências. — Joss Carmody, para um homem inteligente, algumas vezes você pode ser totalmente idiota! Ele assentiu e puxou-a mais para perto. — Sei disso. Fui um bobo de todas as maneiras. Pior, fui um covarde. Queria seu amor, mas estava com muito medo de que ficasse ferido. O coração de Leila pulou. — O que está dizendo, Joss? — Eu... Apaixonei-me por você, Leila. Sei que é tarde demais, que destruí seus sentimentos, mas tinha que dizer. Estarei aqui sempre que precisarem de mim. Você ou o bebê. O mundo parou quando ela leu a emoção no rosto dele. Esperança ergueuse, um botão trêmulo e frágil. Teria ela coragem para agarrar aquele botão? Podia ser verdade? Queria muito acreditar. — Quando se apaixonou Joss? — Não sei. Aos poucos. Quando me beijou no elevador naquela primeira vez. Quando você me enfrentava. Quando descobri como foi corajosa com Gamil. Leila sacudiu a cabeça. — Não fui corajosa. Eu... — O dedo indicador dele interrompeu suas palavras. — Quando você dirigiu minha Ferrari e conseguiu não batê-la. — Você é um homem e tanto! Ele deu de ombros e seu sorriso fez o coração dela acelerar. — Então me processe. E, naquele momento, o sorriso desapareceu. — Você merece saber, Leila. Tive que me desculpar e dizer como me senti. — E isso é tudo? Ele pareceu genuinamente perplexo. Vagarosamente a raiva dela desapareceu. Convenceu-se de que ele realmente era completamente inexperiente no que dizia respeito a amor. Cabia a ela educá-lo. Leila levantou. — Por mais que eu goste de tê-lo de joelhos pedindo desculpas, prefiro um homem que se levante. Ele então se levantou potentemente masculino, intrigado e levemente desafiador. — Quero um homem que acredite em mim quando eu digo que estou apaixonada e não pense que isso mudará apenas por causa de um malentendido. Que entenda que meu amor não é negociável. — Entendo. — A voz profunda dele a fez tremer. — Preciso de um homem cujo amor seja assim também Não um amante apenas nos bons momentos. Quero um homem que estará comigo e meu filho para sempre. — É um grande pedido. — A voz dele estava sóbria, seu rosto, severo. Ela ergueu o queixo. — Meu filho merece um pai que o amará sempre. 99


Jessica 213.2 – Promessa Eterna – Annie West Ele passou as pontas dos dedos no queixo dela e depois pela garganta, até que seus sentidos ficassem desordenados. Ela estremeceu. — Oh — ofegou ela. O calor nos olhos de Joss não precisava de interpretação. Leila sentiu uma excitação receptiva no fundo de seu ventre. Ele baixou a cabeça em direção a ela, mas interrompeu o beijo. Esperança, medo e profunda excitação fundiram-se dentro dela. — Você pode me perdoar por feri-la tão terrivelmente? — Posso. — Afinal de contas, o homem pelo qual ela se apaixonara não era uma miragem. — Ficará como minha esposa, o amor da minha vida, sempre? As palavras falharam quando a emoção a inundou. — Pode confiar que a amarei e honrarei e serei sempre verdadeiro? Pode me ajudar a ser a espécie de pai que sempre quis? — Você será um pai maravilhoso. — O pensamento da paciência dele, sua ternura e encorajamento fez o coração dela inchar. — Isso significa que pode fazer tudo isso? — Acho que posso. — Você acha? — Posso ser persuadida. — Verdade? — Ele a abraçou. — Pretendo não deixá-la ir até que diga “sim”. Leila queria ficar ali para sempre nos braços dele. — Lá se vai à humildade. Ele sorriu. — Não combina comigo. Pensei que quisesse um homem que se posicionasse. Leila sorriu, aliviada por ver seu Joss de volta. — É sério, Leila. Tem certeza? Não é só por causa do bebê? Apoiarei nosso filho com ou sem você. — Estou absolutamente certa, Sr. Carmody. Somos um pacote fechado. É pegar ou largar. — Oh, aceitarei isso, Sra. Carmody. Acredite. O beijo dele foi rápido e possessivo e acabou logo, mas Leila não se queixou porque ele subiu os degraus da casa e abriu com os ombros a porta da frente. Tinham chegado a casa.

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Promessa eterna annie west  
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