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Blue Echohawk   não   sabe   quem   é.   Ela   não   sabe   seu   nome   verdadeiro   ou  quando   nasceu.   Abandonada   aos   dois   anos   de   idade   foi   criada   por   um  vagabundo,   ela   não   frequentou   a   escola   até   que   tivesse   dez   anos   de   idade.   Aos  dezenove   anos,   quando   a   maioria   das   pessoas   de   sua   idade   está   frequentando   a  faculdade  ou  seguindo  em  frente  com  a  vida,  ela  está  apenas  no  último  ano  do   ensino   médio.   Sem   mãe,   nem   pai,   nem   fé,   nem   futuro,   Blue   Echohawk   é  uma   aluna   diCícil,   para   dizer   o   mínimo.   Resistente,   dura   e   abertamente   sexy,  ela   é   o   oposto   completo   do   jovem   professor   britânico   que   decide   que   está  pronto  para  o  desaCio,  e  coloca  a  encrenqueira  sob  sua  asa.  Esta  é  a  história  de  um   joão-­‐ninguém   que   se   torna   alguém.   É   a   história   de   uma   amizade  improvável,   onde   promove   a   esperança   de   cura   e   a   redenção   se   torna   amor.  Mas   a   queda   no   amor   pode   ser   diCícil   quando   você   não   sabe   quem   você   é.  Apaixonar-­‐se   por   pessoas   que   sabem   exatamente   quem   são,   é   o   que   torna impossível  de  se  retribuir.


Prólogo Agosto 1993 O calor era sufocante, e a menina estava jogada no banco de trás. Seu rosto estava corado e o cobertor que ela estava deitada em cima tinha se amontoado, deixando sua bochecha ficar contra o assento de plástico. Ela dormia aparentemente despreocupada. Ela era muito resistente para uma garota pequena. Não chorou muito, não se queixou. Sua mãe abriu toda a janela, que não que ajudou muito, mas o sol estava se pondo e já não batia contra o carro. A escuridão foi um alívio, mesmo que ainda fosse mais de 38 graus lá fora, mas ele tornava menos visível. O ar-condicionado funcionava bem, desde que o carro estivesse em movimento, mas elas estavam paradas em um pedaço de sombra insignificante observando a caminhonete por duas horas, esperando o homem sair. A mulher atrás do volante mordia suas unhas pensando se deveria ou não desistir. O que ela diria a ele? Mas ela precisava de ajuda. O dinheiro que ela tinha tirado de sua mãe não tinha durado muito tempo. Os pais de Ethan tinham dado $2.000, mas com o combustível, motéis e comida, acabou mais rápido do que ela teria acreditado. Então, ela tinha feito algumas coisas ao longo do caminho das quais não se orgulhava, mas pensava que fez o que tinha que fazer. Ela tinha uma criança agora. Ela tinha que cuidar dela, mesmo que isso significasse sexo por dinheiro ou favores. Ou drogas, uma pequena voz sussurrou dentro de sua cabeça. Ela empurrou o pensamento longe, sabendo que não ia durar muito tempo. Ela precisava de outra dose. Ela havia chegado tão longe. Ela não podia acreditar que tinha terminado aqui, não tão longe de casa. Há poucas horas. E ela atravessou até o outro lado do país e voltou com nada para mostrar. De repente, ele estava lá, andando de volta para a caminhonete. Ele tirou as chaves do bolso e tentou abrir a porta do passageiro. Ele foi recebido por um cão cinza e preto desalinhado que estava dormindo embaixo do veículo esperando, como ela, para que o homem retornasse a sua caminhonete. O cachorro circulou as pernas do homem quando ele


mexeu na maçaneta de um lado para o outro. Ela ouviu o homem amaldiçoando baixinho. — Coisa maldita. Vou ter que substituir a maçaneta. O homem conseguiu abrir a porta do passageiro e o cão pulou para o banco, seguro do seu lugar no mundo. O homem fechou a porta atrás do cão e mexeu a maçaneta mais uma vez. O homem não a viu olhando para ele. Apenas caminhou ao redor na frente de sua caminhonete, subiu ao volante e acelerou, saindo do espaço de estacionamento que ele tinha ocupado durante as últimas horas. Seus olhos deslizaram por cima dela enquanto ele roncava passando sem parar, não hesitando. Isso não foi apenas típico? Nem mesmo um segundo olhar. Nem mesmo um segundo pensamento. A raiva brotou dentro dela, que estava cansada de ser olhada por cima, ignorada, rejeitada. Ela ligou o seu carro e começou a segui-lo, mantendo-se longe o suficiente para que ele não ficasse desconfiado. Mas por que iria? Ele nem sabia que ela existia. Isso a fazia invisível, não é? Ela iria segui-lo durante toda a noite se fosse preciso.

05 de agosto de 1993 A chamada veio antes das quatro horas da tarde, e o policial Moody não estava com disposição para isso. Seu turno estava prestes a terminar, mas ele disse que iria responder a esse chamado e entrou no estacionamento do Stowaway{1}. Se o nome era um indicador, apenas os passageiros clandestinos iriam ficar no motel imundo. Porta-malas de um carro velho de um viajante com a cabeça cutucando para fora da tampa sibilou no calor da tarde. Oficial Moody vivia em Reno todos os seus 28 anos, e ele sabia tão bem quanto qualquer um que querer descanso e uma boa noite de sono não era à razão para as pessoas frequentarem o Stowaway. Ele ouviu o barulho de uma ambulância. Obviamente, o funcionário da recepção tinha feito mais de uma chamada. Ele tinha a barriga doendo durante toda à tarde. Droga de burritos{2}. Ele havia os devorado alegremente ao meio-dia, carregado com queijo, guaca mole, carne de porco desfiada, creme de leite, e pimentões


verdes, mas ele estava pagando por isso agora. Realmente precisava ir para casa. Desesperadamente esperava que o funcionário da recepção estivesse errado sobre o hóspede em um quarto no andar de cima e ele poderia encerrar as coisas rapidamente e terminar o dia. Mas o funcionário da recepção não estava errado. A mulher estava morta. Sem erros. Era agosto, e ela provavelmente tinha sido fechada no quarto 246 por 48 horas. Agosto em Reno, Nevada estava quente e seco. E o corpo fedia. Os burritos ameaçaram o oficial Moody, sem tocar em nada, fez uma retirada apressada, dizendo aos paramédicos que eles não seriam necessários, correndo pelas escadas. Seu supervisor teria sua cabeça se ele os deixasse pisar em todo o cenário. Ele fechou a porta do quarto 246 atrás dele e disse a recepcionista curiosa que a polícia estaria por todo o local e que precisam de sua ajuda. Então chamou seu supervisor. — Martinez? Temos uma mulher, obviamente morta. Eu já assegurei a cena. Os paramédicos foram barrados. Solicito assistência. Uma hora depois, o técnico da cena do crime estava tirando fotos, a polícia apurando a área, questionando todos os hóspedes, todas as empresas nas proximidades, todos os funcionários. Detetive Andy Martinez, supervisor oficial de Moody, tinha requisitado a câmera de vigilância. Milagre dos milagres, realmente havia uma no Stowaway. O legista foi chamado e estava a caminho. Quando questionada, a funcionária da recepção alegou que o quarto não havia sido alugado porque o ar condicionado estava quebrado. Ninguém tinha entrado dentro ou saído do quarto por mais de dois dias. Um técnico foi agendado, mas reparar o ar condicionado não era uma grande prioridade. Ninguém sabia como a mulher tinha ficado no quarto do hotel, mas ela definitivamente não tinha assinado e usado um cartão de crédito para pagar por sua estadia. E não tinha nenhuma identificação com ela. Infelizmente, para a investigação, a mulher foi morta por dois dias ou mais, e o hotel não atraia estadias longas. O Stowaway ficava localizado ao lado da rodovia, nos arredores da cidade e quem poderia ter visto ou ouvido qualquer coisa na noite em que ela morreu, já não estava no motel. Quando o Oficial Moody finalmente chegou em casa às oito horas da noite, ele não se sentia melhor do que antes, e ainda não tinham feito uma identificação da mulher encontrada morta somente com a roupa no corpo


para orientar a investigação. Moody tinha um mau pressentimento sobre a coisa toda, e achava que não tinha nada a ver com os burritos.

06 de agosto de 1993 — Teve sorte de fazer uma identificação? — O Oficial Moody não foi capaz de tirar a mulher de sua cabeça. Incomodou-o a noite toda. Não era o caso dele. Patrulheiros não dirigem investigações. Mas Martinez era o seu supervisor e estava disposto a compartilhar, principalmente quando o caso parecia estar chegando a um fim rápido. — O legista tirou impressões dela — Detetive Martinez respondeu. — Ah, sim? Alguma coisa? — Sim. Ela tem alguns antecedentes, principalmente relacionados com drogas. Tenho um nome, um endereço antigo. Acabou de fazer 19 anos. 3 de agosto foi o aniversário dela, na verdade — Detetive Martinez fez uma careta. — Você quer dizer que ela morreu no seu aniversário? — Isso é o que o legista diz. — Overdose de drogas? — Oficial Moody não sabia se iria conseguir uma resposta. Detetive Martinez poderia ficar calado. — Isso é o que nós pensamos. Mas quando o médico legista virou a parte de trás de sua cabeça estava esmagada. — Ah, inferno — Oficial Moody gemeu. Agora eles estavam procurando por um assassino, também. — Não sabemos se foi à droga ou o ferimento na cabeça que acabou com ela, mas alguém tentou fazer o trabalho. Parecia que ela tinha tomado um pouco de tudo, já que tinha uma parafernália na cena do crime. Ela provavelmente tinha porcaria suficiente para uma equipe de líder de torcida — Martinez foi sincero. — Equipe de líder de torcida? — Moody riu um pouco.


— Sim. Ela era uma líder de torcida em uma pequena escola no sul de Utah. Está no relatório policial. Ela aparentemente compartilhou alguns ecstasy com suas companheiras de equipe e foi presa acusada de posse. A única razão por não estar presa era porque ela era menor de idade e foi seu primeiro delito. E estava compartilhando, não vendendo. Nós falamos o básico com as autoridades locais de lá. Eles vão avisar a família. — Você conseguiu algo com a fita de vigilância? — Sim. Tão simples quanto pode ser. Temos a sua caminhada da recepção a meia-noite e subindo pela janela da recepção, na área do escritório. A recepcionista afirma que ela geralmente tranca tudo até quando tem que se afastar da mesa, mas ela teve dor de estômago e correu para o banheiro sem trancas as coisas — O Oficial Moody pensou brevemente na sua luta com os burritos enquanto Martinez continuava. — A câmera mostra a menina mexendo em volta e pegando uma chave. Eles ainda usam as chaves de verdade, sabe. Eles não usam cartões-chave no Stowaway. A recepcionista diz que a chave foi removida e reservada por causa dos problemas do ar condicionado. Havia uma ordem de serviço com a chave. A menina não era boba. Ela pegou a chave sabendo que provavelmente poderia descansar no quarto para a noite e ninguém saberia. E isso não é tudo. A câmera mostra o seu carro chegando ao motel com ela e sair uma hora mais tarde com um homem ao volante. Despachamos um alerta do carro. — Isso é ótimo. Parece que você tem praticamente finalizado, então — Moody suspirou aliviado. — Sim. Parece que vamos ser capazes de encerrar em breve — Detetive Martinez concordou.

7 de agosto de 1993 — Tudo bem. Ouça — Detetive Martinez levantou as mãos e acenou para que todos ficassem em silêncio esta manhã. — Temos notícias por parte das autoridades no sul de Utah que a mulher encontrada morta no Stowaway na última sexta-feira, 5 de agosto, foi relatado que tem uma filha


de dois anos de idade. Você tem uma descrição e uma foto da mulher na sua frente. Neste momento, não tivemos nenhuma indicação de que uma criança estava com ela nas horas que antecederam a sua morte. Não havia nenhum sinal de uma criança no vídeo de vigilância, nem qualquer sinal de que a criança já tinha estado no quarto do motel. A família da falecida não viram a mulher ou a criança em mais de um ano, por isso não temos como saber em que ponto a mulher e seu filho se separaram. — A mídia foi contatada. Também notificamos aos órgãos competentes, bem como inseridas essas informações no NCIS{3}. Precisamos começar a examinar a área novamente com o folheto. Vamos pegar a imagem dessa mulher o mais rápido que pudermos. Veja se alguém se lembra de ver essa mulher e se ela tinha uma criança com ela. Não temos fotos atuais da criança, mas a avó deu-nos uma descrição básica. Acreditam que a criança tenha o cabelo escuro e olhos azuis. Etnia: Nativo Americano, embora acreditem que o pai da criança seja branco, o que pode explicar os olhos azuis. A mãe foi morta há cinco dias, e todos nós sabemos como passageira a clientela no Motel é. Perdemos um tempo precioso e precisamos trabalhar rápido. Vamos lá pessoal.


Capítulo Um Atrevida Setembro 2010 O sinal tocou há dez minutos, mas eu não estava muito preocupada na verdade, na realidade eu não me importava, então por que iria me preocupar? De qualquer maneira, o primeiro dia de aula era inútil. A maioria dos professores não marca atrasos no primeiro dia ou grita com você na frente da classe. Era o último período do dia, e minha mente já havia deixado o prédio e fugido para fora no deserto e para as montanhas em busca de formas e silhuetas. Podia sentir a madeira sob minhas mãos. Relutantemente, forcei minha mente de volta para o meu corpo e endireitei os ombros para que pudesse fazer uma boa impressão quando entrei na sala de aula, que normalmente era o meu objetivo. Em parte, porque eu gostava da atenção, mas principalmente porque eu sabia que se as pessoas fossem intimidadas por mim, elas me deixariam em paz. Os professores me deixavam sozinha, meninas excessivamente amigáveis que queriam ser BFF me deixavam sozinha, mas os caras geralmente estavam ao meu dispor, quando queria um deles. Eu joguei os meus cabelos pretos longos para trás quando entrei na sala. Meus olhos estavam maquiados e meu jeans estava tão apertado que sentar era altamente desconfortável, embora eu tivesse aperfeiçoado a arte de me abaixar sem que me aperte... Demais. Estralei meus chicletes e levantei uma sobrancelha com desdém quando procurei um lugar vazio. Todos os olhos se viraram para mim enquanto eu passava pelo corredor central, e parei no banco bem da frente, exatamente no centro. Droga. Atrasar tinha o seu lado negativo. Levei meu tempo tirando minha jaqueta e largando minha bolsa no chão. Eu não tinha sequer olhado na direção do novo professor, cuja voz se silenciou para observar minha chegada. Algumas pessoas riram da minha exposição indiferente, e eu atirei um sorriso venenoso na direção geral do riso. Ele parou. Finalmente, deslizei


para o meu lugar e levantei os olhos para a frente da sala de aula, suspirando profundamente e alto. — Continue — Falei, mexendo no meu cabelo. “Sr. Wilson”, estava escrito na lousa em letras maiúsculas. Meus olhos se encontraram com os dele. Ele estava olhando para mim com a testa franzida e um ligeiro sorriso. O cabelo escuro precisando de um corte enrolava-se acima das orelhas e caía sobre a testa. Parecia que ele tinha tentado domá-lo deixando-o respeitável, mas o grande amontoado de cabelo no alto da cabeça, obviamente, se rebelado em algum momento durante o seu primeiro dia no colégio de Boulder. Levantei minhas sobrancelhas com espanto e me esforcei para não bufar alto. Ele parecia um aluno. Na verdade, se ele não tivesse uma gravata atada às pressas sobre uma camisa azul com uma calça cáqui, eu teria pensado que ele era meio que um auxiliar de professor. — Olá — Disse ele educadamente. Ele tinha um sotaque britânico. O que um cara com um sotaque britânico veio fazer na cidade de Boulder, Nevada? Seu tom de voz era quente e amigável, e parecia despreocupado pelo meu desrespeito proposital. Então ele olhou para o papel que estava em um suporte de partitura à sua direita. — Você deve ser Blue Echohawk... — Sua voz sumiu um pouco e sua expressão era de surpresa. O nome costumava confundir as pessoas. Meus cabelos são escuros, e meus olhos muito azuis. Eu realmente não me parecia uma índia. — E você deve ser o Sr. Wilson — Retruquei. O riso saiu. O Sr. Wilson sorriu. — Sou. Como eu estava dizendo a seus colegas de classe, você pode me chamar de Wilson. Exceto quando está atrasada ou é desrespeitosa, nesse caso eu apreciaria o senhor — Completou suavemente. — Bem, nesse caso, acho que seria melhor ficar com o Sr. Wilson então. Porque costumo me atrasar, e estou sempre desrespeitando — Sorri de volta docemente. Sr. Wilson deu de ombros. — Vamos ver — Ele olhou para mim por um segundo. Seus olhos cinzentos o fizeram parecer um pouco triste, como um daqueles cães com o olhar líquido e a expressão longa. Ele não me parecia um barril de risadas. Suspirei de novo. Sabia que não queria estar nessa


classe. A história era o meu assunto menos favorito, História Europeia parecia quase tão ruim quanto se poderia conseguir. — A literatura é o meu assunto favorito — Os olhos do Sr. Wilson deixaram meu rosto quando ele lançou uma introdução da aula. Ele disse a palavra literatura com apenas três sílabas. Lite-ra-tura. Mexi-me em uma posição confortável na maior parte e olhei irritada para o jovem professor. — Você pode se perguntar, então, por que estou ensinando história. Eu achava que ninguém se importava o suficiente para perguntar, mas estávamos todos um pouco fascinados com seu sotaque. Ele continuou. — Remove as duas primeiras letras da história da palavra. Agora o que é que escreve? — História — Alguém ansioso pra caralho soltou atrás de mim. — Exatamente — Sr. Wilson assentiu sabiamente. — E isso é o que a história é. Uma história. É a história de alguém. Quando menino, descobri que eu seria muito melhor lendo um livro do que ouvindo uma palestra. Literatura faz história ganhar vida. É talvez a descrição mais precisa da história, especialmente a literatura que foi escrita no período retratado na história. Meu trabalho este ano é lhes apresentar história que abra sua mente para um mundo mais amplo - uma história colorida - e ajudar você a ver as conexões com sua própria vida. Prometo não ser muito chato se vocês prometerem tentar ouvir e aprender. — Quantos anos você tem? — A voz de uma menina ecoou animadamente. — Você fala como Harry Potter — Um cara resmungou da parte de trás da sala. Houve alguns risos, e as orelhas do Sr. Wilson ficaram vermelhas, onde elas apareciam por baixo do cabelo enrolado ao redor delas. Ele ignorou a pergunta e o comentário, e começou a distribuir folhas de papel. Houve alguns gemidos. Papel significava trabalho. — Olhem a folha na sua frente — Sr. Wilson instruiu, quando terminou a distribuição das folhas. Ele caminhou até a frente da sala de aula e encostou-se à lousa, cruzando os braços. Ele nos olhou por alguns segundos, para garantir que estávamos todos com ele. — Está em branco. Nada foi escrito na página. É uma folha limpa. Mais ou menos como o resto


de sua vida. Em branco, desconhecida, não escrita. Mas todos têm uma história, não é? Alguns alunos balançaram a cabeça concordando. Olhei para o relógio. Meia hora até que eu pudesse tirar esse jeans. — Vocês todos têm uma história. Foi escrita até este ponto, neste exato momento quero saber dessa história. Quero conhecer a história de VOCÊS. Quero que vocês saibam disso. Para o resto do tempo da aula quero que vocês me contem suas histórias, não se preocupem em ser perfeita, não me importo com as palavras ou frases com erros ortográficos Esse não é o meu propósito. Só quero um relato honesto - tudo que vocês estão dispostos a divulgar. Vou recolher no final da aula. As cadeiras rasparam, zíperes foram puxados se abrindo em busca de canetas, e as queixas foram resmungadas enquanto eu olhava para o papel. Corri meus dedos para baixo, imaginando que eu podia sentir as linhas que corriam em listras azuis horizontais. A sensação do papel me acalmava, e eu pensei que era um desperdício preenchê-lo com rabiscos e marcas. Coloquei minha cabeça para baixo sobre a mesa, em cima do papel, e fechei os olhos, respirando fundo. O papel cheirava limpo, com apenas um toque de serragem. Deixei minha mente permanecer na fragrância, imaginando que o papel embaixo da minha bochecha era uma das minhas esculturas, imaginando que estava esfregando as mãos ao longo das curvas e sulcos que tinha lixado, camada sobre camada, descobrindo a beleza debaixo da casca. Seria uma pena estragar isso. Assim como era uma vergonha arruinar uma perfeita folha de papel. Sentei e olhei para a página intocada na minha frente. Não queria contar a minha história. Jimmy disse que realmente entendia que você tinha de conhecer sua história. Mas ele tinha falado sobre um pássaro no momento. Jimmy amava aves. Se a marcenaria era o seu dom, observação de aves era o seu hobby. Ele tinha binóculos, e costumava caminhar para um ponto alto, onde podia observar e documentar o que via. Ele dizia que as aves eram mensageiras e que se você as olhasse bem de perto, poderia distinguir todos os tipos de coisas. Mudança dos ventos, tempestades se aproximando, o cair das temperaturas. Poderia até mesmo prever se havia perigo por perto.


Quando eu era pequena, era difícil ficar quieta. Na verdade, ainda é. Observar é difícil para mim, por isso, Jimmy começou a me deixar para trás quando eu tinha idade suficiente para permanecer no acampamento sozinha. Era muito mais receptiva a escultura em madeira porque isso era mais físico. Deveria ter sete ou oito anos na primeira vez que vi Jimmy muito animado sobre um observar aves. Estávamos no sul de Utah, e me lembro de onde estávamos, porque Jimmy comentou sobre isso. — O que ele está fazendo por estas bandas? — Ele estava maravilhado, com os olhos fixos em um pinheiro insignificante. Eu tinha seguido o seu olhar para um pequeno pássaro preto empoleirado em um galho fino na metade da parte de cima de uma árvore. Jimmy pegou seu binóculo e eu ainda fiquei vendo o passarinho. Não via nada de especial nisso. Era apenas um pássaro. Suas penas eram pretas sólidas sem flashes de cores para chamar a atenção ou marcas brilhantes para admirar. — Sim, tudo bem esse é um Eurasian Blackbird. Não há melros nativos da América do Norte. Não como esse cara. Ele é, na verdade, um melro — Jimmy se virou, com a voz em sussurro quando olhou através de seus binóculos. — Ele fez um longo caminho de casa, ou então escapou de algum lugar. Sussurrei também, não querendo assustá-lo, e Jimmy achou que era especial. — Onde é que melros geralmente vivem? — Europa, Ásia, Norte da África — Jimmy murmurou observando o pássaro de bico laranja. — Você pode encontrá-los na Austrália e Nova Zelândia também. — Como você sabe que é ele? — Porque as fêmeas não têm as penas pretas brilhantes. Elas não são tão bonitas. Os pequenos olhos amarelos olharam para baixo, para nós, plenamente consciente de que estávamos assistindo. Sem aviso, o pássaro voou para longe. Jimmy o observou ir, e seguiu através do binóculo, até que ele estava além da sua visão.


— Suas asas eram tão negras quanto seu cabelo — Jimmy comentou se virando da direção do pássaro que tinha animado a nossa manhã. — Talvez seja isso que você é... Um pequeno melro longe de casa. Olhei para nosso acampamento que estava nas árvores. — Nós não estamos muito longe de casa, Jimmy — Eu disse confusa. A casa era onde qualquer lugar que Jimmy estava. — Os melros não são considerados má sorte como corvos, gralhas e outras aves que são pretas. Mas não desistem dos seus segredos facilmente. Eles querem que nós o compreendamos. Temos que conquistar sua sabedoria. — Como é que vamos conquistá-lo? — Enruguei meu nariz para ele, perplexa. — Temos que aprender a sua história. — Mas ele é um pássaro. Como podemos aprender a história dele? Ele não pode falar — Eu era literal da forma que todas as crianças são. Eu teria realmente gostado se o melro pudesse me contar sua história. Gostaria de mantê-lo como animal de estimação, então ele poderia me contar histórias durante todo o dia. Eu implorava pelas histórias de Jimmy. — Primeiro você tem que realmente querer saber — Jimmy olhou para mim. — Então você tem que observar. Você tem que ouvir. E depois de um tempo, você vai conhecê-lo. Você vai começar a entendê-lo. E ele vai dizerlhe a sua história. Peguei um lápis e girei em torno de meus dedos, escrevi: Era uma Vez na parte superior da minha folha, apenas para dar uma de convencida. Sorri para a linha. Como se a minha história fosse um conto de fadas. Meu sorriso desapareceu. Era uma vez... Havia uma pequena melra — Escrevi. Olhei para a página.... Empurrada para fora do ninho, não desejada. Imagens vieram na minha cabeça. Longos cabelos escuros. Uma boca tensa. Isso era tudo que eu conseguia me lembrar de minha mãe. Troquei a boca tensa por um sorriso no rosto suavemente. Um rosto completamente diferente. O rosto de Jimmy. Aquele rosto trouxe uma pontada de dor. Mudei a minha visão interior para as suas mãos. Mãos morenas movendo o formão através da viga pesada. Rebarbas de madeira estavam empilhadas


no chão a seus pés onde eu estava sentada, observando-as cair. As rebarbas caíam ao redor da minha cabeça, e eu fechei meus olhos e imaginei que eram pequenos duendes que vinham brincar comigo. Estas eram às coisas que eu gostava de me lembrar. A lembrança da primeira vez que ele segurou minha pequena mão e me ajudou a tirar a casca pesada de um toco antigo apareceu em minha mente como um amigo bem-vindo. Ele estava falando em voz baixa sobre a imagem abaixo da superfície. Enquanto ouvia a lembrança de sua voz, deixei minha mente viajar de volta através do deserto e para as montanhas, lembrando a garra retorcida de algaroba{4} que eu tinha encontrado no dia anterior. Ela era tão pesada que tive que arrastá-la para a minha caminhonete e içá-la um lado de cada vez, para a carroceria. Meus dedos coçaram para descascar a pele carbonizada e ver o que estava por baixo. Tive um pressentimento sobre isso. A figura estava se formando na minha cabeça. Bati meus pés e enrolei os dedos contra o papel, sonhando com o que eu poderia criar. O sinal tocou. O nível de ruído na sala aumentou como se um interruptor tivesse sido ligado e eu voltei do meu devaneio e olhei para a minha página. Minha história patética esperando por embelezamento. — Entreguem suas folhas e, por favor, verifiquem se o nome está no cabeçalho! Não posso dar crédito para a sua história, se não sei que é sua! A sala estava vazia em cerca de dez segundos. Sr. Wilson lutou para alinhar a pilha de papéis que foi empurrada em suas mãos quando os estudantes exuberantemente desocuparam sua sala de aula, ansiosos para outras coisas. O primeiro dia de aula terminou oficialmente. Ele me observou ainda sentada e limpou a garganta um pouco. — Senhorita... Um... Echohawk? Eu estava distraída e estendi a mão para o meu papel. Amassei em uma bola e joguei no lixo debaixo do quadro branco. Não chegou a cair dentro da lixeira, mas não o recuperei. Em vez disso, peguei minha bolsa e a jaqueta, que era completamente desnecessária no calor de 40 graus que me esperava do lado de fora da escola. Não olhei para o meu novo professor quando caminhei para o fundo da sala e joguei minha bolsa por cima do meu ombro. — Mais tarde, Wilson — Falei e nem mesmo virei a cabeça.


Manny estava me esperando na minha caminhonete quando cheguei ao estacionamento dos estudantes, e vê-lo ali me fez gemer. Manuel Jorge Rivas- Olivares, também conhecido como Manny, vivia em meu complexo de apartamentos. Ele e sua irmã tinham me adotado. Eles eram como gatos vadios que ficavam perto da sua porta e miavam por dias a fio, até que você finalmente desistia e os alimentava. E quando você finalmente os alimentasse, tudo estava acabado. Eles eram oficialmente seus gatos. Assim foi com Manny e Graciela. Eles andavam sempre por perto até que finalmente tive pena deles. Agora eles achavam que pertenciam a mim, e eu não sabia como fazê-los ir embora. Manny tinha dezesseis anos e Graciela tinha quatorze. Ambos eram magros e de traços finos, e eram incrivelmente doces e irritantes como os gatos. Havia um ônibus que ia para o complexo, e eu tinha certeza que a mãe de Manny sabia de tudo e até mesmo ajudou a conseguir para que Manny e Graciela pudessem usá-lo. Realmente pensei que este ano seria diferente agora que Graciela estava na nona série e estaria no ônibus do ensino médio também. Mas não. Manny estava me esperando com um grande sorriso e uma braçada de livros. — Ei, Blue! Como foi seu primeiro dia? Grande ano, chica{5}! Aposto que você vai ser a rainha do baile deste ano. A menina mais bonita da escola deve ser a rainha do baile, e você é definitivamente a garota mais bonita! — Muito doce, muito chato. Manny falava a mil por hora com um leve sotaque latino-americano e apenas uma sugestão de uma língua presa, que poderia ter sido o sotaque, mas era mais provável ser apenas Manny. — Ei, Manny. O que aconteceu com o ônibus? O sorriso de Manny escorregou um pouco e me senti mal por perguntar. Ele acenou com as mãos para a minha pergunta e deu de ombros. — Eu sei, eu sei. Disse para Glória que iria pegar o ônibus, e tenho certeza que Graciela pegou... Mas queria ir para casa com você no primeiro dia. Você viu o novo professor de história? Tive aula no primeiro período, e posso dizer que ele vai ser o melhor professor que eu já tive... E o mais bonito também!


Manny tinha começado recentemente a chamar sua mãe de Gloria. Eu não tinha certeza do que se tratava, também considerei dizer que ele poderia querer reconsiderar em chamar o Sr. Wilson de bonito, presumi que era de quem ele estava falando. Eu não achava que havia dois professores de história. — Eu amei seu sotaque. Eu quase não ouvi nada do que ele disse todo o tempo! — Manny deslizou delicadamente no lado do passageiro, quando eu abri a minha caminhonete. Eu me preocupava com o garoto. Ele era mais feminino do que eu. — O que ele está fazendo em Boulder? Ivy e Gabby tem certeza de que ele é, tipo, o MI-6 {6}ou algo assim — Manny teve dezenas de namoradas. Na verdade, todas as meninas o amavam porque ele era muito inofensivo e divertido, o que me fez pensar novamente o por que dele não andar de ônibus. Não era como se ele não tivesse amigos. — O que diabos é MI-6? — resmungo, tentando manobrar através do esmagamento de veículos que saiam da escola, pisei nos freios quando alguém me cortou e depois ele ergueu o dedo do meio para fora da janela, como se fosse eu que tivesse entrado na frente dele. Manny esticou o braço e bateu na buzina. — Manny! Pare! Estou dirigindo, ok? — Ordenei, batendo em sua mão. Ele nem sequer tirou. — Você não sabe o que é MI-6? Maldito James Bond? Chica, você precisa sair mais! — O que alguém do MI -6 estaria fazendo na escola em Boulder? — Eu ri. — Sei lá, mas ele é britânico, é gostoso e é jovem — Manny pontuou com seus dedos graciosos. — O que mais poderia ser? — Você realmente acha que ele é gostoso? — Questionei. — Oh, definitivamente. Numa espécie de bibliotecário muito travesso. — Oh, doente, Manny. Isso só funciona quando é bibliotecária. — Tudo bem, professor impertinente então. Ele tem olhos sexy e cachos desleixados, e os antebraços são muito bem desenvolvidos. Ele é um gostoso disfarçado. Totalmente MI-6. Você tem que trabalhar esta noite? —


Manny pulou para um novo assunto, tendo claramente comprovado que o novo Sr. Wilson deveria ser um espião. — É segunda-feira. Segunda significa trabalho, Manny — Sabia que ele estava pescando para opor-se. — Pare de alimentar os gatinhos — Me lembrei com firmeza. — Eu poderia me certificar de ir por algumas quesadillas{7} de Bev agora, sou um mexicano faminto — Manny colocou sotaque na palavra. Ele só se referia a sua etnia quando falava sobre comida. — Espero que Glória tenha se lembrado de ir às compras antes de sair para o trabalho. Caso contrário, eu e minha irmãzinha estaremos comendo Ramen{8} novamente — Manny suspirou tristemente. A irmãzinha era um exagero, mas eu me vi amolecendo. Manny era o homem da casa, e isso significava prover à Graciela, o que fazia com gosto, mesmo significando me pedir para proporcionar. Eu trabalhava no Bev's Cafe várias noites por semana, e sem exceção, trazia para casa o jantar para Manny e Graciela pelo menos uma vez por semana. — Tudo bem, vou levar para você e Gracie algumas quesadillas. Mas esta é a última vez Manny, descontam no meu salário — Repreendi. Manny sorriu brilhantemente para mim e bateu palmas como Oprah faz quando está animada. — Eu verei se o meu tio tem mais algaroba para você — Manny prometeu, e eu balancei a cabeça e estendi a mão para um aperto de mãos. — Fechado. Sal, o tio de Manny trabalhava com uma equipe de serviço florestal. Eles frequentemente roçavam e limpavam o matagal impedindo que a algaroba invadissem as fazendas de propriedade do governo. A última vez que Sal veio, eu tive madeira suficiente por dois meses. Eu babava com o pensamento. — É claro que isso significa que você vai ficar me devendo, chica — Manny sugeriu inocentemente. — Jantares por pelo menos um mês, as segundas-feiras, ok? Sorri com as suas habilidades de negociação. Ele já me devia dois meses de segundas-feiras. Mas nós dois sabíamos que eu concordaria. Eu sempre


concordava.


Capítulo Dois Casca de ovo Outubro 2010 Talvez tenham sido as histórias que me atraiu. Cada dia era uma nova história. E, muitas vezes, as histórias eram sobre mulheres na história, ou contada pelo ponto de vista delas. Talvez fosse apenas óbvio o amor que Sr. Wilson tinha pelo assunto que ensinava. Talvez fosse simplesmente seu sotaque legal e sua juventude. Todo o corpo estudantil tentava imitá-lo. Meninas se aglomeraram ao redor dele, e os meninos o observavam fascinados, como se um Rock star tivesse descido em nosso meio. Ele era o assunto da escola instantaneamente amado, porque era uma novidade - e uma novidade muito atraente, se você gostasse do cabelo um pouco indisciplinado, olhos cinzentos e sotaque britânico, eu dizia a mim mesma que não gostava. Ele definitivamente não era o meu tipo. Ainda assim, eu me vi olhando para a frente durante a minha última aula do dia com impaciência, e era, provavelmente, mais contraditório do que teria sido de outra forma, simplesmente porque eu estava intrigada com o seu fascínio. Sr. Wilson tinha passado um mês inteiro com os gregos antigos. Tínhamos discutido batalhas épicas, pensadores profundos, arquitetura e arte, mas hoje Wilson estava detalhando os diferentes deuses e que cada um representava. Era realmente muito fascinante, eu tinha que admitir, mas incrivelmente irrelevante, me ofereci esta observação, é claro. — Esta não é exatamente a história — Eu apontei. — Os mitos podem não ser um fato histórico, mas há o fato de que os gregos acreditavam neles — Wilson respondeu pacientemente. — Você tem que entender que os deuses gregos são uma parte intrínseca da mitologia grega. Nossa introdução aos antigos deuses gregos pode ser rastreada todo o caminho de volta aos escritos de Homero na Ilíada e na Odisseia. Muitos estudiosos acreditam que os mitos foram, na verdade, influenciados pela cultura micênica que existia na Grécia entre 1700 e 1100 AC. Há também evidências de que o início da mitologia grega pode ser rastreado até as


antigas culturas do Oriente Médio da Mesopotâmia e Anatólia, por causa das semelhanças entre a mitologia desses meios de culturas antigas do Oriente Médio e os gregos antigos. Todos olharam para ele. O que ele tinha dito era tão claro como lama. Ele parecia tomar nota das nossas expressões. — Hein? — Os gregos tinham um deus para explicar tudo — Wilson não estava prestes a ser desencorajado, e aprofundou em seu argumento. — O nascer do sol, o pôr do sol, suas tragédias e seus triunfos eram todos ligados à existência desses deuses. De muitas maneiras, seus deuses trouxeram sentido a um mundo sem sentido. O estranho formato de uma rocha poderia ser considerado um Deus disfarçado de pedra, ou uma árvore extraordinariamente grande, poderia ser um deus disfarçado também. E aquela árvore seria adorada por medo de que o Deus iria retaliar. Havia deuses em toda parte, e tudo poderia ser usado como prova de sua existência. Guerras foram iniciadas em nomes dos deuses, oráculos foram consultados e seus conselhos atendidos, mesmo sendo prejudiciais, estranhos ou bizarros. Até mesmo os ventos da tempestade foram personificados. Eles foram pensados para serem harpias - mulheres aladas que arrebatavam as coisas, assim como o vento, para nunca mais ser visto novamente. Tempestade, ventos e o tempo que vinha com eles foram atribuídos a essas criaturas aladas. — Eu pensei que uma harpia era apenas uma palavra antiquada para bruxa — Um garoto cheio de espinhas chamado Bart respondeu. Eu estava pensando a mesma coisa, mas estava feliz por alguém ter decidido falar. — Nas primeiras versões do mito grego, harpias eram descritas como criaturas com lindos cabelos, como lindas mulheres com asas. Isso mudou ao longo do tempo, e na mitologia romana elas foram descritas como bestas com rostos horríveis, com garras e até bicos. Mulheres pássaros, horríveis e desagradáveis. Essa imagem tem persistido ao longo do tempo. Dante descreveu o sétimo inferno em seu Inferno como um lugar onde harpias viviam na floresta e atormentavam os que foram enviados para lá — Wilson começou a recitar o poema, aparentemente, a partir da memória. Das Harpias o bando aqui pousava. Que expeliram de Strófade os Troianos,


Vaticinando o mal, que os aguardava. Asas têm largas, colo e rosto humanos, Garras nos pés, plumoso e ventre enorme, Soam na selva os uivos seus insanos. — Vejo que você tem um lindo poema memorizado — Eu disse sarcasticamente, embora estivesse perplexa na maior parte. Wilson caiu na gargalhada, com o rosto sério transformado pela ação. Eu até esbocei um sorriso. Pelo menos o cara poderia rir de si mesmo. Uau! Falar sobre um NERD. Quem citava Dante à vontade? E com aquele sotaque britânico conservador eu tinha certeza que ele ia dizer: — É elementar, senhorita Echohawk — Cada vez que eu fizesse uma pergunta. Ele ainda estava sorrindo quando ele continuou. — Para responder à sua pergunta, senhorita Echohawk, o que acreditamos afeta o nosso mundo de uma maneira muito real. O que nós acreditamos afeta nossas escolhas, nossas ações, e posteriormente, as nossas vidas. Os gregos acreditavam em seus deuses, e esta crença afetaram todo o resto. A história é escrita de acordo com o que os homens acreditam se é ou não é verdade. Como o escritor de sua própria história, o que você acredita influencia os caminhos que toma. Você acredita em algo que pode ser um mito? Eu não estou falando sobre as crenças religiosas por si só. Estou falando de coisas que você disse a si mesma, ou coisas que lhe disseram por tanto tempo que você acabou assumindo que são verdadeiras. Sr. Wilson se virou e pegou uma pilha de papéis. Ele começou a passálos enquanto falava. — Eu quero que você pense sobre isso. E se o que você acredita de si mesma ou como se sua vida é simplesmente um mito que está prendendoa? Sr. Wilson colocou uma folha amassada de papel na minha mesa e seguiu em frente sem comentários, era minha história pessoal. A história que eu tinha jogado em direção a lata de lixo no primeiro dia de aula. Havia sido pressionada e alisada, mas continha os sinais de ter sido descartada,


nunca mais seria a mesma. Nenhuma quantidade de prensagem e alisamento iria disfarçar o fato de que tinha sido resgatada do lixo. Era uma vez... Havia uma pequena melra, empurrada do ninho. Indesejada. Adicionei uma palavra. Descartada, li isso para mim mesma. Era uma vez... Havia uma pequena melra, empurrada do ninho. Indesejada. Descartada. Assim como lixo. E nenhuma quantidade de fingimento de que eu não era lixo, me faria outra coisa. Garotas como eu mereciam as suas reputações. Eu cultivava a minha. Acho que eu poderia culpar a minha educação, mas não estava em mim, inventar desculpas para me eximir. Eu gostava de meninas e meninos como eu. Ou pelo menos eles gostavam do meu jeito. Acho que eu estaria mentindo se dissesse que gostavam de mim, isso eu guardava para mim mesma. Eles não conheciam essa garota. Mas isso é parte do fascínio. Cultivei minha aparência, também. Eu tinha o cabelo sexy, e sempre usava minhas calças jeans muito apertadas e minhas camisas confortáveis e minha maquiagem nos olhos forte. E quando estava sendo beijada ou tocada, me sentia poderosa e querida. Sabia do que algumas pessoas me chamavam, sabia dos sussurros por trás das mãos. Sabia o que os meninos falavam de mim. Diziam que eu era uma vadia. Fingir que não estava acreditando seria uma mentira. Um mito, como os gregos com seus deuses tolos. Jimmy tinha me chamado de pássaro azul. Era um apelido. Mas eu não tinha qualquer semelhança com um pássaro azul... Doce, brilhante, feliz. Eu era mais como uma harpia moderna. A mulher-pássaro. Um monstro equipada com garras tortas e afiadas. Mexeu comigo, e eu poderia carregálo para o submundo, punir e atormentá-lo infinitamente. Talvez não fosse minha culpa que eu era desse jeito. Cheryl me levou quando eu tinha uns onze anos, e não tinha muita prática com criança. Seu estilo de vida não era propício para a maternidade. Ela era ausente a maior parte do tempo, mas ela era boa. Quando eu era mais jovem, ela se certificava que eu comia e que tivesse minha própria cama. Morávamos em um apartamento de dois quartos em um complexo na periferia da cidade de Boulder, 20 minutos das luzes brilhantes de Las Vegas. Cheryl era uma dealer{9} no Golden Goblet Hotel Cassino em Las


Vegas, e ela passava os dias dormindo e as noites cercado por jogadores e fumaça de cigarro, o que lhe convinha muito bem. Ela geralmente tinha um namorado. Quanto mais velha ficava, mais decadente sua escolha entre os homens se tornou. Quanto mais velha eu ficava, mais interessados em mim se tornavam. Isso deixava a relação tensa. Sabia que assim que me formasse estaria sozinha, porque o dinheiro para o meus cuidados tinha parado aos dezoito anos, e eu tinha feito dezenove em agosto. Era apenas uma questão de tempo. Quando a aula acabou, amassei meu papel e joguei de volta no lixo, onde pertencia. Sr. Wilson me viu fazer isso, mas não me importei. Tanto Manny e Graciela estavam sentados atrás na parte de trás da minha caminhonete conversando com grupo de amigas de Manny quando cheguei ao estacionamento. Eu simplesmente suspirei. Primeiro Manny, agora Graciela. Estava me tornando a motorista. Eles estavam todos rindo e conversando, e minha cabeça imediatamente começou a doer. Uma das meninas chamou por um punhado de rapazes que se reuniam em volta de um vintage Camaro amarelo. — Brandon! Quem você vai levar ao baile? Eu ainda preciso de um encontro, sabe! As meninas ao seu redor riram, e Brandon olhou para ver quem estava propondo a ele. Brandon era o irmão mais novo de um cara que eu saia de vez em quando. Mason era musculoso e moreno, Brandon era magro e loiro, mas ambos eram muito bonitos. Mason tinha se formado três anos antes, e Brandon estava no último ano, como eu. Eu era mais velha que todos os caras da minha idade, embora pudesse reconhecer boa aparência, ficava entediada com eles com muita facilidade e não fazia disso um segredo. Que era provavelmente por isso que eu NÃO seria coroada Rainha do Baile, apesar de grandes esperanças das maquinações de Manny. — Desculpe Sasha. Convidei Brooke semana passada. Nós definitivamente precisamos sair algum dia — Brandon sorriu, e eu me lembrei de como atraente Mason era quando estava sendo gentil. Talvez fosse hora de ligar para Mason. Fazia um tempo. — Esse carro é seriamente quente, Brandon — Manny gritou, sua voz elevou acima dos seus amigos.


— Uh, obrigado, cara — Brandon fez uma careta, e seus amigos desviaram sem jeito. Estremeci por Brandon e Manny. — Manny, Gracie, vamos embora — Abri a porta da minha caminhonete, esperando os vadios da parte traseira se dispersassem quando eu a ligasse. Eu vi pelo espelho retrovisor quando todos os amigos de Manny deram-lhe abraços e fizeram prometer enviar mensagens. Gracie parecia paralisada por Brandon e seus amigos, e quando todos dispersaram, ela ainda estava olhando fixamente. Manny puxou-a, fazendoa sair do seu devaneio, e os dois pularam no meu lado. Graciela tinha um olhar confuso em seu rosto, mas Manny estava fazendo beicinho. — Eu acho que Brandon não gosta de mim — Ele meditou, olhando para mim, esperando que eu respondesse. — Brandon é muito gostoso — Graciela suspirou. Amaldiçoei ironicamente. Maravilhoso. Brandon é muuuuito velho para Graciela, e eu não estava falando apenas da idade. Graciela era pequena e bonita, mas era imatura, tanto física como emocionalmente. E ela era do tipo que vivia no seu mundo. Uma coisa boa era que ela tinha Manny. Caso contrário, ela poderia apenas passear em um agradável nevoeiro. Tanto Manny como Graciela não se abalaram com a minha linguagem, continuando como se não estivessem me ouvindo. — Na verdade — Manny bufou. — Eu acho que nenhum dos amigos de Brandon gosta de mim, também. E eu sou tão bom! — Manny parecia genuinamente confuso. — Você acha que Brandon gosta de mim, Manny? — Gracie ponderou sonhadora. Manny e eu ignoramos. Decidi que talvez fosse hora de dar um pequeno conselho a Manny. — Eu acho que talvez os caras estejam confusos em como tratá-lo, Manny. Você é um cara, mas sai exclusivamente com as meninas, você usa base nas unhas e delineador, e você carrega uma bolsa... — É apenas uma bolsa de flanela! — Tudo bem! Quantos caras carregam bolsas com cores do arco-íris? — É apenas uma bolsa colorida!


— Tudo bem. Tudo bem. Esqueça a bolsa. Você comenta abertamente sobre o quão gostoso é este ou aquele cara... Incluindo Wilson, e na próxima respiração você está flertando com a líder de torcida. Você é gay? Você é hetero? O quê? Manny parecia atordoado, então olhou para mim com a boca aberta. — Eu sou Manny! — Manny falou de volta, cruzando os braços. — Isso é o que eu sou. Eu sou Manny! Não sei por que não posso elogiar um cara bonito e uma menina bonita! Todo mundo precisa de um reforço positivo, Blue. Não faria mal lhe dar um pouco de vez em quando! Bati minha cabeça contra o volante, frustrada pela minha incapacidade óbvia de me comunicar, me perguntando se talvez ele fosse o único na escola que não tinha medo de ser ele mesmo. Talvez o resto de nós que precisasse nos descobrir. — Você está certo, Manny. E acredite em mim, não mudaria um fio de cabelo na cabeça. Eu só estava tentando explicar por que algumas pessoas podem ter dificuldade para se relacionar. — Você quer dizer por que algumas pessoas podem ter dificuldade em aceitar — Manny amuou, olhando para fora da janela. — Sim. Isso também — Suspirei e comecei a subir na minha caminhonete. Manny me perdoou cerca de dez segundos depois que subi e tagarelou o resto do caminho para casa. Manny não podia ficar com raiva, a não ser, é claro, se alguém mexesse com Graciela. Então toda a razão o deixava, e sua mãe brincava que ele se tornava uma fúria chihuahua. Só vi isso acontecer algumas vezes, mas foi o suficiente para me fazer nunca mais querer ver um chihuahua. Aparentemente, desde que eu iria apenas apontar seus defeitos, fui imediatamente perdoada e de volta em suas boas graças com apenas um grunhido. Quando cheguei em casa, o calor dentro do apartamento me fez sentir nas profundezas do inferno. Não cheirava muito bem, cigarros velhos e cerveja derramada misturadas com 32 graus de calor de outubro não era uma combinação agradável. A porta do quarto de Cheryl estava fechada. Gostaria de saber como conseguia dormir no calor e suspirei quando esvaziei os cinzeiros e limpei a cerveja derramada sobre a mesa de café.


Cheryl, obviamente tinha companhia. Um jeans masculino estava em uma pilha amassada, um sutiã e camisa preta de trabalho de Cheryl estavam jogados ao lado deles. Bom. Quanto mais cedo eu saísse de lá, melhor. Tirei meu jeans e coloquei um short e um top e puxei meu cabelo em um rabo de cavalo desleixado. Enfiando meus pés em chinelos, deixei o apartamento dez minutos depois de eu ter chegado. Aluguei uma sala de depósito atrás do complexo por 50 dólares por mês. Tinha energia e luminosidade, e era a minha pequena oficina. Tinha duas mesas de trabalho, formado a partir de cavaletes e longas folhas de madeira compensada. Eu tinha um grande dremel{10}, vários tamanhos de martelos e talhadeiras, limas e amoladores, e um ventilador oscilante que movia o ar quente e a serragem em círculos preguiçosos. Projetos em vários estágios estavam em uma pilha de descarte para peças concluídas sinuosas, arte reluzente decorada dentro do espaço. Eu tinha encontrado um galho grosso, retorcido de Mesquite{11} em minhas viagens no dia anterior, e estava ansiosa para ver como era sob as camadas da casca espinhosa que eu ainda tinha que retirar. A maioria das pessoas que trabalhavam com madeira gostava de usar madeiras macias, porque elas eram fáceis de esculpir e talhar, fáceis de moldar em sua própria criação. Ninguém esculpia com mesquite, algaroba ou zimbro12. A madeira era muito dura. Os fazendeiros no oeste consideravam mesquite uma erva daninha. Você não poderia usar uma faca afiada para moldá-la, isso era certo. Eu tive que usar um grande cinzel e um martelo para retirar a casca. Quando a madeira era desnudada, eu costumava passar uma grande parte do tempo apenas olhando para ela antes de fazer alguma coisa. Tinha aprendido isso com Jimmy. Jimmy Echohawk foi um homem calmo, tranquilo, a ponto de não falar por dias seguidos. Era incrível que eu tinha todas as habilidades de linguagem quando vim morar com Cheryl. Obrigada, PBS{12}. Quando eu tinha dois anos de idade, minha mãe - pelo menos nós presumimos que era ela - me deixou no banco da frente de sua caminhonete e foi embora. Não me lembro de quase nada da minha mãe, somente de cabelos escuros e um cobertor azul. Jimmy era um índio Pawnee e tinha muito pouco que pudesse chamar de seu. Ele tinha uma velha caminhonete e um trailer de acampamento que puxava atrás dele e era onde vivíamos. Nunca ficávamos em um lugar por muito tempo, e nunca tínhamos companhia, exceto um ao


outro. Ele dizia que tinha famĂ­lia em uma reserva em Oklahoma, mas nunca conheci nenhum deles. Ele me ensinou a esculpir, e sua habilidade me salvou, tanto financeira quanto emocionalmente. Perdia-me nisso agora, trabalhando atĂŠ as primeiras horas da manhĂŁ, quando eu sabia que Cheryl teria ido para o trabalho, juntamente com o seu homem misterioso e o apartamento estaria vazio.


Capítulo Três Azul Celeste — Quando Júlio César atravessou o Rubicão, ele sabia o que significava — Sr. Wilson estava olhando para todos nós melancolicamente, como se Júlio César fosse seu caseiro e ele tivesse acabado de cruzar o cubo mágico ontem. Eu suspirei e joguei meu cabelo para trás, curvando ainda mais no meu lugar. — Foi considerado traição trazer um exército permanente na Itália. Os senadores de Roma foram intimidados pelo poder de César e sua popularidade. Eles queriam controlá-lo, ver se era bom, se ele estava ganhando batalhas para Roma, conquistando as tribos celtas e germânicas, mas não queriam que ele se tornasse muito rico ou muito popular, e isso era exatamente o que estava acontecendo. Adicione a isso às próprias ambições políticas de Júlio César, e você tem uma receita para o desastre... Ou pelo menos, a guerra civil. Sr. Wilson andou pelo corredor, e eu notei com surpresa que ele parecia ter a atenção dos meus colegas. Eles estavam observando atentamente, esperando o que ele iria dizer em seguida. Ele não usou notas, leu um livro ou manual. Ele só falou como se estivesse relatando os destaques de um filme ótimo. — César tinha alguns amigos em lugares altos. Ele bisbilhotava, sussurrava nos ouvidos de alguns e descaradamente tentou influenciar o Senado. Mas o Senado não queria fazer parte disso. Disseram para César desmantelar o exército e renunciar o seu cargo, ou corria o risco de se tornar um “inimigo do Estado”. Nós usamos o mesmo termo hoje no governo dos EUA. Basicamente, significa que o governo considera culpado de crimes contra o seu país. Considerando as pessoas que vendem segredos nacionais, espionagem para outro país, esse tipo de coisa, “inimigos do Estado”. Bem 007 sem o glamour ou as acrobacias incríveis ou as competentes Bond girls.


Encontrei-me sorrindo como o resto da classe, e fiquei maravilhada que tinha esquecido por um momento que eu não gostava do Sr. Wilson. — Além disso, você pode imaginar o que esse rótulo faria para alguém? Alguns argumentam que tal rótulo é usado como uma ferramenta política uma ferramenta para reprimir ou intimidar. Você acusa alguém de ser um traidor de seu país, um “inimigo do Estado” e a vida dela acaba. É como acusar alguém de ser um molestador de crianças. Não foi diferente na Roma Antiga. Portanto, temos Júlio César, ambicioso, irritado que está sendo dito para ele que não pode liderar mais o seu exército, e basicamente, ser ameaçado com rótulos feios e traição. — Resumindo, ele traz seu exército às margens do Rubicão, que não existe hoje, então ninguém sabe realmente se ele foi apenas um pequeno córrego ou um rio substancial, e ele fica ali, pensando. Ele diz a seus homens. “Nós ainda podemos recuar. Não é tarde demais, mas assim que passarmos essa ponte, teremos que lutar”. — Você disse que ele era rico, certo? Por que ele não pegou o dinheiro e foi embora, para o inferno com o Senado, fugiu com o exército, conquistou as pessoas, qualquer coisa. Eles não gostavam dele, tudo bem. Qual foi o ponto? O que ele tinha que provar? — Me encontrei fazendo a pergunta antes mesmo que percebesse que estava dizendo as palavras em voz alta. Senti o calor do constrangimento viajando até minhas bochechas. Eu nunca perguntava em sala de aula. O Sr. Wilson não agiu como se estivesse surpreso por eu estar participando, e respondeu imediatamente. — Ele era rico, e era poderoso. Ele poderia ter se retirado para a Gália, vivido coberto de luxo e ser alimentado por uvas o resto de sua vida — Todo mundo riu. Eu fiz uma cara feia. Sr. Wilson parou em frente a minha mesa e olhou para mim interrogativamente. — Por que você acha que ele levou seu exército para Roma, Blue? — Porque ele era um maldito exibicionista e queria ser rei — Respondi de imediato, tentando imitar o sotaque. A classe explodiu em gargalhadas, mais uma vez. — E porque ele não gostava de ser usado ou controlado — Terminei mais calmamente, sem o sotaque. — Eu acho que você está certa em ambas as respostas — Sr. Wilson afastou-se, incluindo o resto da turma na conversa. — Acaba que Júlio


César pegou um trompete e correu para a ponte. Ele parecia uma explosão de trombeta, e gritou... Citando: “Vamos onde os presságios dos deuses e os crimes de nossos inimigos nos chamar! A sorte está lançada”. O que vocês acham que isso significa? A sorte está lançada. A sala de aula ficou em silêncio. É claro que havia alunos que sabiam a resposta, mas, por costume, ninguém levantou a mão. — A ação está feita, o ganso está cozido, o leite está derramado, sua cama está feita — Eu zumbia com uma voz muito entediada. — Sim — Wilson ignorou o meu tom. — Está nas mãos do destino. Ele atravessou o Rubicão e não havia como voltar atrás. Nós todos sabemos o que eventualmente aconteceu com Júlio César, certo? — Não, nós não sabemos. Eu sim, mas estava cansada de ser uma aluna estrela. — Júlio foi assassinado - um assassinato conspirado com a ajuda do seu amigo. Shakespeare escreveu uma peça perversa chamada Júlio César, a qual atribuo a vocês a leitura e serão testados nesta sexta-feira — Comecei a gemer, mas Wilson apenas sorriu. — Eu disse a vocês, literatura conta a história muito melhor do que os livros didáticos, e é infinitamente mais agradável aprender dessa maneira. Parem de choramingar. Vocês vão me agradecer um dia — Choramingar? Essa era uma coisa que eu não tinha ouvido antes. — Então, Júlio César cruza o Rubicão, apressando-se para o seu destino. E era um destino tanto glorioso como trágico. Ele alcançou o auge do poder, e no final, descobriu que o poder era uma ilusão. — Então, isso nos leva a rodada três, as pessoas. Sintam-se livres para adicionar as páginas que precisarem. Esta é a atribuição que começou no primeiro dia de aula. E isso só vai continuar crescendo. Vocês escreveram algumas de suas histórias, pelo menos em termos gerais. Agora quero que vocês escrevam sobre um momento de suas vidas. Um momento em que a sorte foi lançada, onde cruzaram o Rubicão metafórico e vocês não poderiam voltar. Eu quero que vocês me digam sobre suas formações ou o que transformaram vocês. Talvez tenha sido algo que estava além do seu controle, algo que aconteceu com você, ou talvez fosse uma decisão que você tomou. Para melhor ou pior, como isso afetou o rumo da sua história? Um a um, Wilson começou a entregar os papéis aos meus colegas de classe, fazendo um comentário aqui ou ali. Suspirei, lembrando-me de


como eu tinha jogado a minha folha no lixo. Mais uma vez. A sala de aula ficou em silêncio quando as pessoas começaram a trabalhar. Arranquei uma folha de papel do caderno e me preparei para começar de novo. Wilson de repente estava em pé em frente a minha mesa, que infelizmente, tinha permanecido bem na primeira fila, uma vez que ele já nos tinha atribuído os lugares que havíamos “escolhido” no primeiro dia de aula. Ele colocou uma folha de papel na minha mesa. Olhei para ele, surpresa. Meus olhos subiram para os dele e, então voltei para o meu papel. Era o papel que eu tinha jogado fora. Duas vezes. Ele deve tê-lo recuperado depois que eu saí da sala naquele dia. Ele estava alisado e pressionado de novo, como se ele tivesse colocado no meio de um livro pesado. Minhas palavras olharam para mim, quase zombando. — Não há nenhum sentido em fugir do passado. Não podemos jogá-lo fora ou fingir que não aconteceu, senhorita Echohawk. Mas talvez possamos aprender alguma coisa com ele. Você tem uma história interessante, e eu gostaria que me contasse mais — Ele se virou para ir embora. — Parece um pouco injusto para mim — Deixei escapar, e imediatamente desejei que tivesse mantido minha boca fechada, quando trinta pares de olhos se concentraram em mim. Wilson ergueu as sobrancelhas, inclinou a cabeça curiosamente e cruzou os braços. — O que você quer dizer? — Ele perguntou. Eu esperava que ele ficasse com o rosto vermelho ou me expulsasse. Isso era o que normalmente acontecia nas minhas outras aulas quando eu não conseguia manter meus comentários petulantes para mim mesma. Dei de ombros e estalei o chiclete que não deveria estar mastigando. — Você nos pede para descobrir tudo, escrever os nossos pequenos segredos, os nossos momentos mais baixos, mas não vejo você compartilhar nada pessoal com a gente. Talvez eu não queira que você saiba a minha história. A classe estava em silêncio. Extremamente em silêncio. Parecia que todos estavam segurando a respiração, esperando para ver se Blue Echohawk tinha finalmente ido longe demais. Quando Wilson não explodiu, mas apenas me olhou como uma coruja durante vários segundos, a tensão diminuiu um pouco.


— Tudo bem. Justo o suficiente — Wilson concordou em silêncio. — Mas eu sou o professor, que por definição, significa que eu ensino e você aprende, por isso as coisas não vão ser necessariamente justas, porque temos diferentes papéis. E por questão de tempo, não vou passar o período de aula falando de mim. — Que tal vinte perguntas? — Alguém falou da parte de trás da sala. — Ou girar a garrafa — Alguém gritou, e algumas pessoas riram. — Vou lhes dizer uma coisa. Darei a vocês uma breve linha do tempo, assim como vocês têm feito para mim, e então vou contar o meu momento de virada. De acordo? Dessa forma, a senhorita Echohawk pode ter certeza de que tudo é justo — Ele piscou para mim, e eu resisti à vontade de enfiar a língua para fora. Os professores não deveriam ser jovens e bonitos. De alguma forma, isso realmente me irritava. Eu apenas levantei uma sobrancelha com desdém e olhei para longe. — Eu nasci em Manchester, Inglaterra. Tenho duas irmãs mais velhas. Uma irmã ainda vive na Inglaterra, assim como a minha mãe. Minha irmã mais velha, Tiffa, vive em Las Vegas, que, aliás, foi o que me trouxe aqui. Tenho vinte e dois anos de idade. Terminei o que chamamos de ensino fundamental, quando eu tinha quinze anos, que suponho é o equivalente a se formar no colegial muito cedo. — Uau! Então você é muito inteligente, não é? — Esta brilhante dedução foi oferecida por uma garota com uma voz de Marilyn Monroe que usava canetas brilhantes e escrevia cada letra de seu nome em uma cor diferente, cercado de corações e estrelas. Eu a tinha apelidado de Sparkles. Eu bufei alto. Wilson me lançou um olhar, e eu decidi que era provavelmente hora de calar a boca. — Nós nos mudamos para os Estados Unidos quando tinha dezesseis anos para que eu pudesse frequentar a universidade mais cedo, o que simplesmente não é possível na Inglaterra. Minha mãe é Inglesa, mas o meu pai era americano. Ele era médico e tinha uma posição no Instituto do Câncer Huntsman em Utah. Formei-me na universidade, quando eu tinha dezenove anos, e foi quando tive o meu momento de virada. Meu pai morreu. Ele queria que eu fosse um médico como ele - na verdade, quatro gerações de homens da minha família foram médicos. Mas eu estava uma bagunça depois que ele morreu e decidi ir para outra direção. Passei dois


anos na África pelo Peace Corp ensinando inglês. Então descobri que eu realmente gostava de ensinar. — Você deveria ter sido um médico — Sparkles falou ofegante. — Eles ganham mais dinheiro. E você ficaria bonito de jaleco — Ela riu em sua mão. — Obrigado, Chrissy — Wilson suspirou e balançou a cabeça, irritado. Então isso era o seu nome. Não era muito melhor do que Sparkles. — Este é o primeiro ano que ensino aqui nos Estados Unidos. Simples assim — Wilson olhou para o relógio. — Minha vida em dois minutos. Agora é vez de vocês. Vocês têm o resto da aula. Olhei para o meu papel. A vida de Wilson era uma linha pura de eventos e realizações. Então, ele era inteligente. Isso era bastante óbvio. E era legal. E era bonito. Veio de uma boa família. Tudo isso... Agradável. Tão diferente da minha própria história. Eu tive um momento decisivo? Um momento em que tudo mudou? Eu tive realmente alguns. Mas houve um momento em que o mundo girou, e quando se fixou, era uma garota diferente. Eu estava morando com Cheryl por cerca de três anos, e nesse tempo não houve nenhuma notícia de Jimmy. A equipe de busca e salvamento de Nevada tinha eventualmente suspendido o esforço de busca, depois de serem incapazes de encontrar qualquer vestígio dele. Não houve protestos, nem conhecimento do público para o seu desaparecimento, sem exigências que a busca continuasse. Ele era um desconhecido. Apenas um homem que significava o mundo para uma menina. Durante esses três anos, tentei meu melhor para não desistir dele. Não nas primeiras semanas, quando minha assistente social me disse que eles tinham que levar o meu cachorro, Icas. Não quando, semana após semana, não havia nenhum sinal de Jimmy. Não quando Cheryl fumava sem parar no apartamento, e eu tive que ir para a escola cheiro ruim, meu cabelo e roupas fedendo a cigarro, sem amigos e desnorteada, e estranha aos meus próprios olhos e aos olhos dos meus colegas. Eu não estava disposta a admitir que Jimmy sumiu por pura vontade, e teimosamente mantive meus olhos em frente e me fiz forte.


Se não fosse a provocação ocasional, eu teria gostado da escola. Gostava de estar perto de outras crianças, e o almoço na escola parecia uma festa diária, após anos comendo em um fogão de acampamento. Eu gostava de ter mais livros à minha disposição. Meus professores disseram que eu era inteligente, e trabalhava duro tentando recuperar, sabendo o quão orgulhoso Jimmy ficaria quando eu mostrasse a ele os livros que eu poderia ler e as histórias que eu tinha escrito. Anotei todas as histórias que ele tinha me dito, todas as coisas que eram importantes para ele, e portanto, importantes para mim. E esperei. Um dia eu cheguei em casa para encontrar minha assistente social e ela estava me esperando do lado de fora. Ela me disse que tinham encontrado o meu pai. Ela e Cheryl, ambas viraram para mim quando me aproximei do apartamento. Cheryl estava soltando enormes anéis de fumaça, e me lembro de ter maravilhado com o seu “talento” antes de ver a expressão em seu rosto, a aparência tensa ao redor dos olhos e a boca virada para baixo da assistente social. Então eu soube. Um caminhante tinha escalado em volta de uma fenda, e tinha visto algo abaixo, algo entalado profundamente no fundo da fenda, e de certa forma protegido contra os elementos e os animais que certamente teriam espalhado seus restos mortais. O alpinista pensou que pareciam restos humanos. Ele havia chamado às autoridades que enviaram uma equipe. Os restos mortais de Jimmy foram trazidos alguns dias depois. Ele havia caído de uma altura significativa. A queda o matou, ou ele foi incapaz de escalar para fora da fenda? Sua carteira estava no bolso da calça, era como se soubesse que era ele. Mistério resolvido. Esperança frustrada. Depois que a assistente social se foi, fui para o meu quarto e deitei na minha cama. Olhei ao redor, eu sempre o mantive arrumado e impessoal. Eu nunca o tinha considerado o meu quarto. Era a casa de Cheryl, e eu estava ficando com Cheryl. Ainda tinha a serpente que eu estava trabalhando no dia que Jimmy desapareceu. Eu tinha guardado as peças que ainda não tinha vendido ou concluído e foram empurradas no canto, juntando poeira. As ferramentas foram empurradas debaixo da minha cama. E isso foi tudo o que restou da vida de Jimmy Echohawk, e tudo o que restava da minha vida... Antes. Escuridão desceu sobre o apartamento e eu ainda estava deitada, olhando para o teto e a marca de infiltração marrom que vagamente se assemelhava a um elefante pesado. Eu tinha chamado a


marca de Dolores e até falava com ela periodicamente. Enquanto eu olhava, Dolores começou a diluir-se e crescer, como uma daquelas coisas esponjosas que se expandem quando você coloca na água. Levei um momento para perceber que estava chorando, que não era Dolores que estava flutuando para longe, era eu. Flutuando, flutuando, longe. Algo deslizou pela minha bochecha e espirrou no meu braço e isso me balançou, olhei para baixo, surpresa, que meus braços emolduravam na página que Wilson tinha posicionado na minha frente. Eu abaixei minha cabeça e peguei minha bolsa disfarçadamente, limpando a umidade do meu rosto. Peguei meu espelho compacto para verificar se minha maquiagem dos olhos tinham deixado riscas reveladoras. Que diabos tinha acontecido comigo? Chorando na aula de história? Joguei a minha bolsa para baixo e agarrei meu lápis, determinada a acabar com isso. Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Eu parei de escrever, recordando. Esperei até que Cheryl saísse para o trabalho e depois fui para o banheiro encher a banheira. Tirei minhas roupas e afundei embaixo da superfície, recusando a pensar em Cheryl me encontrando, me vendo nua. Meu corpo começou a mudar e mostrar sinais de maturidade, e o pensamento de que ninguém visse minhas partes íntimas era quase o suficiente para me fazer mudar de ideia sobre o que eu estava determinada a fazer. Eu forcei minha mente a ir além do banheiro minúsculo com a pintura descascada e linóleo sujo. Desejei voar como o falcão que eu tinha visto no dia que Jimmy desapareceu. Ele tinha vindo para o acampamento e ficou em um galho do pinheiro logo acima da minha cabeça. Eu tinha segurado minha respiração, observando enquanto ele me olhava. Eu não ousei me mover. Jimmy tinha me dito que falcões eram mensageiros especiais. Perguntei-me qual era a mensagem que ele estava me trazendo. Agora eu sabia. Ele estava me dizendo que Jimmy tinha ido embora. Meus pulmões gritavam, exigindo que eu levantasse meu rosto da


água do banho, mas ignorei a dor. Eu iria flutuar como a estrela donzela da minha história favorita. Estava iria derivar no mundo do céu e dançar com as outras estrelas donzelas. Talvez visse Jimmy novamente. De repente, eu estava sendo retirada da água pelos cabelos e jogada no chão do banheiro. Minhas costas estavam sendo golpeadas repetidamente. Tossi e balbuciei, de volta para a terra. — Que diabos, garota? Você quase me matou de susto! O que você está tentando fazer? Você adormeceu ai dentro? Santo inferno! Pensei que estivesse morta! — O namorado de Cheryl, Donnie estava agachado ao meu lado. De repente, seus olhos estavam em todos os lugares e ele parou de falar. Eu puxei as pernas para cima me cobrindo quando deslizei entre o vaso sanitário e a pia barata. Ele me observou ir. — Você está bem? — Ele chegou mais perto. — Saia, Donnie — Pedi, mas a tosse que me assolava enfraqueceu a minha ordem. — Apenas tentando ajudá-la, garota — Donnie estava olhando para o comprimento das minhas pernas molhadas, que era tudo o que podia ver no momento. Mas ele tinha visto tudo quando me tirou da banheira. Fiz-me tão pequena quanto possível, o meu cabelo preto longo grudado em mim, em aglomerados fibrosos, proporcionando pouca cobertura. — Vamos lá, menina — Donnie disse. — Você acha que estou interessado em suas pernas magras? Idiota! Você parece com um pequeno pássaro afogado — Ele se levantou pegou uma toalha e entregou para mim, saindo do banheiro com um profundo suspiro, uma indicação de quão ridícula ele pensou que eu era. Eu me enrolei na toalha, mas fiquei pressionada no canto. De repente estava cansada demais para me mover. Estava cansada demais para ainda ter medo de Donnie. Eu o ouvi falando com alguém. Talvez ele tivesse chamado Cheryl. Ela não ficaria satisfeita. Eles teriam de chamá-la para fora do cassino. Eu estava proibida de ligar para ela no trabalho. Inclinei minha cabeça contra o armário e fechei os olhos. Gostaria de dormir aqui. Esperaria Donnie sair, e então eu iria voltar na banheira onde estava quente e eu poderia flutuar mais uma vez.


O sinal tocou. Joguei meu lápis para baixo com gratidão e peguei minha bolsa, abandonando a atribuição como se estivesse me queimando. — Basta deixar os seus papéis em suas mesas. Eu vou recolher! — Wilson falou, evitando ter trinta páginas empurradas para ele ao mesmo tempo. Ele pegou os papéis restantes em silêncio e parou quando veio até a mesa onde eu estava sentada. Eu o observei ler a linha que eu havia escrito. Ele olhou para mim, com uma pergunta em seu rosto. — Você não escreve muito. — Não há muito a dizer. — De alguma forma eu duvido disso — Wilson olhou de volta para o papel e estudou o que eu tinha escrito. — O que você escreveu soa quase como um... Uma lenda ou algo assim. Isso me faz pensar em seu nome quando li isso. Você fez isso intencionalmente? — Echohawk era o nome do homem que me criou. Eu não sei qual é o meu nome. Pensei que a afirmação ousada o faria recuar. Deixando-o desconfortável. Olhei para baixo e esperei que ele respondesse ou ignorasse. — Meu primeiro nome é Darcy. Risos balbuciaram do meu peito na aleatoriedade da sua resposta, e ele sorriu comigo, então o gelo quebrou entre nós. — Eu odeio. Então, todo mundo só me chama de Wilson... Exceto minha mãe e minhas irmãs. Às vezes acho que não saberem o meu nome é uma bênção. Eu relaxei um pouco, recostando-me na minha mesa. — Então, por que ela o nomeou de Darcy? Soa bastante Barbie Malibu para mim — Foi a vez de Wilson bufar. — Minha mãe adora literatura clássica. Ela é extremamente antiquada. Jane Austen e Mr. Darcy são os seus favoritos. Eu sabia muito pouco sobre a literatura clássica, então esperei. — Olhe, senhorita Echohawk...


— Ugh! Pare com isso! — Eu gemi. — Meu nome é Blue. Você parece como um velho com uma pequena gravata, quando fala assim! Tenho dezenove anos, talvez vinte. Você não é muito mais velho do que eu então... Apenas... Pare! — O que quer dizer, talvez vinte? — Wilson levantou uma sobrancelha questionando. — Bem... Não sei exatamente quando nasci - então acho que eu já poderia ter vinte — Jimmy e eu tínhamos comemorado meu aniversário todos os anos no dia em que minha mãe me abandonou. Ele estava certo de que eu tinha cerca de dois anos de idade na época. Mas não tinha nenhuma maneira de saber quantos anos eu realmente tinha. Quando eu finalmente fui matriculada na escola, eles tinham me colocado no grau abaixo da minha idade estimada porque eu tinha muito que recuperar. — Você... Não sabe o seu nome... E não sabe quando nasceu? — Os olhos de Wilson estavam arregalados, quase incrédulos. — Escrever a história um pouco desafiador, não é? — Eu zombei com raiva de novo. Wilson parecia completamente atordoado, e eu senti uma onda de poder por eu tê-lo tirado do seu pedestal. — Sim... Eu acho que sim — Ele sussurrou. Passei por ele e me dirigi para a porta. Quando eu estava no meio do corredor, joguei um olhar por cima do ombro. Wilson estava na porta de sua sala de aula, com as mãos enfiadas nos bolsos, me olhando ir embora.


Capítulo Quatro Pedra Não fui à escola até aproximadamente dez anos de idade. Jimmy Echohawk não ficava em um lugar por tempo suficiente para a escola ser uma opção. Eu não tinha certidão de nascimento, não tinha registro de imunização, nem endereço permanente. E ele estava com medo, embora eu não tivesse conhecimento disso na época. Ele tinha feito seu melhor para mim, da única maneira que conhecia. Quando eu ainda era pequena, ele fez vários brinquedos de restos de madeira que ele tinha que sobraram de seus projetos. Algumas das minhas lembranças mais antigas eram vê-lo trabalhar muito. Isso me fascinava, a forma como a madeira se enrugava e enrolava quando ele a transformava. Ele sempre parecia saber como o resultado final seria, como se ele pudesse ver o que havia por baixo das camadas da casca, como se a madeira estivesse guiando-o, direcionando suas mãos em movimentos suaves. E então ele parava e se sentava ao meu lado, olhando para a escultura inacabada, olhando por muito tempo, como se o trabalho continuasse em sua cabeça, em um lugar que eu já não era capaz de observar. Ele ganhava a vida vendendo suas artes e esculturas em lojas turísticas e até mesmo algumas galerias de classe alta com peças de artistas locais e artes do sudoeste. Ele tinha cultivado uma relação com vários proprietários de lojas em todo o Ocidente, e gostávamos de viajar entre lojas, levando uma vida difícil com o dinheiro que ele fazia. Não era muito. Mas eu nunca estava com fome, nunca estava com frio, e não me lembro de alguma vez ser realmente infeliz. Eu não conhecia nada diferente disso, então não era especialmente sozinha, e eu fui criada no silêncio, então eu não sentia necessidade de preenchê-lo nas poucas vezes que fui deixada sozinha. Houve momentos em que Jimmy me deixava por várias horas, como se precisasse de descanso das restrições que a paternidade tinha colocado em cima dele. Mas ele sempre voltava. Até o dia em que ele não o fez.


Vivíamos principalmente nos climas mais quentes - Arizona, Nevada, Utah e partes do Sul da Califórnia. Simplesmente deixava a vida ficar mais fácil. Mas naquele dia estava muito quente. Jimmy tinha saído no início da manhã com algumas palavras que estaria de volta mais tarde. Ele havia saído a pé, deixando a caminhonete queimando no sol ao lado do trailer. Tínhamos um cão chamado Icas, que na linguagem Pawnee{13} significava tartaruga. Icas era lento, cego e dormia a maior parte do tempo, de modo que o nome era apropriado. Icas foi com Jimmy naquela manhã, eu fiquei magoada e incomodada. Normalmente os dois me deixavam para trás, embora Icas parecesse relutante em ir, e Jimmy teve que assobiar para ele duas vezes. Tentei ficar ocupada, tanto quanto uma menina de dez ou onze anos de idade, pode, sem jogos de vídeo, cabo ou uma alma para conversar ou brincar. Eu tinha meus próprios projetos, e Jimmy era generoso com suas ferramentas. Passei a manhã lixando um pequeno ramo que eu tinha formado em curva, com uma sinuosidade semelhante a uma cobra. Jimmy tinha me dito que era bom o suficiente para que ele achava que poderia vendê-lo. Essa era a minha primeira e eu trabalhava com afinco na sombra da cobertura irregular que se estendia a três metros da porta do trailler, proporcionando sombra abençoada no calor de 43 graus. Estávamos acampados na base de Mount Charleston, a oeste de Las Vegas. Jimmy queria mais mogno da montanha, uma árvore perene rasteira que não parecia em nada com a madeira escura e rica que a maioria das pessoas associava ao mogno. Madeira de mogno da montanha era da cor marrom-avermelhada e dura, como a maioria das madeiras que Jimmy trabalhava quando estava esculpindo. O dia se arrastou. Eu estava acostumada a ficar sozinha, mas estava com medo naquele dia. A noite chegou e Jimmy não retornou. Abri novamente um feijão enlatado, aqueci no pequeno fogão do trailer, e espalhei em algumas tortillas que tinha feito no dia anterior. Obriguei-me a comer, porque era algo para fazer, mas eu me encontrei chorando e engolindo minha comida em grande quantidade, porque o meu nariz estava entupido e eu não conseguia respirar e mastigar ao mesmo tempo. Houve outro momento em que Jimmy ficou fora a noite toda. Ele tinha voltado para casa agindo de forma estranha e tropeçando. Ele tinha caído em sua cama e dormido o dia inteiro. Tinha pensado que ele estava doente


e tinha colocado um pano frio na sua cabeça, só que ele me empurrou, me dizendo que estava bem, apenas bêbado. Eu não sabia o que significava bêbado. Perguntei quando ele finalmente acordou. Ele estava envergonhado e pediu desculpas, dizendo-me que álcool fazia os homens maus e mulheres baratas. Eu pensei sobre o que ele disse por um longo tempo. — Pode fazer as mulheres serem más também? — Perguntei a Jimmy inesperadamente. — Huh? — Ele resmungou, sem entender. — O álcool. Você disse que faz os homens maus e as mulheres mais baratas. Ele pode fazer as mulheres ruins também? — Eu não sabia o que significava barata, mas sabia o que significava ser mau e queria saber se o álcool foi parte do problema da minha mãe. — Claro. Mau e barato são iguais — Jimmy concordou. Eu estava confortada por esse pensamento. Pensei que a minha mãe tinha deixado eu e Jimmy, porque eu tinha feito algo errado. Talvez eu tivesse chorado muito ou queria as coisas que ela não podia me dar. Mas talvez ela tivesse bebido álcool e tenha ficado má. Se o álcool a deixou má, então talvez não fosse eu, afinal. Adormeci naquela noite, mas dormi irrequieta mesmo que eu pegasse no sono, tentando não chorar, dizendo a mim mesma que era o álcool de novo, apesar de eu não acreditar. Acordei na manhã seguinte, o calor penetrando no trailer me puxando de sonhos em que eu não estava sozinha. Eu levantei rapidamente, empurrando meus pés em meus chinelos e tropeçando para fora na luz do sol ofuscante. Corri em torno do nosso local de acampamento à procura de qualquer indício de que Jimmy havia retornado enquanto eu dormia. — Jimmy! — Gritei. — Jimmy! — Eu sabia que ele não tinha voltado, mas me consolei chamando por ele e olhando em lugares ultrajantes onde ele não poderia possivelmente estar. Um gemido abafado me fez correr ao redor do trailer em júbilo, esperando ver Jimmy e Icas se aproximando da direção que eles tinham saído no dia anterior. Em vez disso, eu vi Icas, há vários metros de distância, mancando com sua cabeça baixa e sua língua praticamente se arrastando no chão. Não havia nenhum sinal de Jimmy.


Corri até ele e peguei em meus braços, chorando e agradecendo que ele estava aqui. Eu não era uma menina grande, e cambaleei um pouco sob o seu peso, mas não estava disposta a deixá-lo ir. Deitei desajeitadamente na sombra da cobertura e corri para a tigela, colocando água morna em seu prato e instando-o a beber. Ele levantou a cabeça e tentou beber de uma posição de bruços. Ele conseguiu espirrar um pouco de água na boca, mas não bebeu com o entusiasmo que se esperaria de um cão tão claramente com a necessidade de água. Ele tentou se levantar, mas agora que estava para baixo, não conseguia encontrar forças para se levantar a seus pés. Eu tentei apoiá-lo enquanto ele tentava beber novamente. — Onde está o Jimmy, Icas? — Eu questionei quando seu corpo tremia e ele caiu no chão. Ele olhou para mim tristemente e fechou os olhos. Ele gemeu pateticamente e depois ficou em silêncio. Várias vezes ao longo do dia pensei que Icas estava morto. Ele estava tão quieto que eu tinha que chegar perto e verificar para ver se ele estava respirando. Eu não conseguia acordá-lo para comer ou beber. Esperei por mais dois dias. A água do tanque do trailer estava quase no fim. Eu ainda tinha comida. Jimmy e eu éramos econômicos, e havia se passado poucas semanas da viagem para a loja. Mas estávamos frequentemente em movimento, e estávamos aqui neste local por uma semana antes de Jimmy desaparecer. O que finalmente me forçou a buscar ajuda foi Icas. Ele comeu um pouco e bebeu um pouco mais, mas ele estava apático e gemia baixinho, quando estava consciente, como se soubesse algo que ele não era capaz de comunicar. Na manhã do terceiro dia, eu peguei o cachorro e coloquei na caminhonete. Então subi atrás do volante, realizando manobras no assento, colocando-o para frente quanto poderia. Deixei para Jimmy um bilhete sobre a pequena mesa da cozinha. Se ele voltasse, eu não queria que ele pensasse que eu tinha fugido e levado todas as suas ferramentas. No ousaria deixá-los para trás. Se alguma coisa acontecesse ao longo de nosso acampamento, eu sabia que a fechadura da porta não manteria ninguém de fora, se as ferramentas fossem tiradas, não haveria mais escultura. Sem esculturas, significava sem comida. Havia uma nota de vinte dólares no cinzeiro. Parecia um monte de dinheiro para uma criança. Eu sabia como conduzir a caminhonete, mas eu


me esforçava para ver por cima do volante. Peguei o travesseiro do banco que ficava dobrado na minha cama estreita toda noite. Sentada em cima dele me dava a altura suficiente para ver a estrada além do volante. Uma vez que eu estava fora do canyon tranquilo que eu tinha permanecido, por pouco não sai colidindo com vários carros. Minha experiência de dirigir não se estendia à condução entre outros veículos. Não sabia onde estava indo, mas percebi que se eu parasse em qualquer posto de gasolina e falasse que meu cachorro estava doente e meu pai estava ausente, alguém poderia ajudar. Consegui manter a caminhonete indo a uma linha reta, mas não demorou muito até eu começar a ver as casas surgirem em manchas cada vez maiores e luzes azuis e vermelhas piscando estavam atrás de mim. Eu não sabia o que fazer. Então continuei dirigindo. Tentei empurrar o pedal do acelerador com mais força, pensando que talvez eu pudesse acelerar e fugir. Isso não funcionou muito bem. Além disso, a caminhonete começou a sacudir da mesma forma como sempre fazia quando Jimmy tentava empurrá-la para ir mais rápida. Eu desacelerei e pensei que talvez se eu fosse realmente devagar o carro da polícia fosse apenas passar por mim. Diminuí a velocidade e o carro da polícia veio ao meu lado. O homem atrás do volante olhou irritado e acenou para mim com o seu braço, como se estivesse me dizendo para correr mais. Eu fugi e ele veio para uma parada roncando. Outro carro com luzes piscando veio acelerando em minha direção. Gritei, agora convencida de que eu tinha cometido um erro terrível. Icas nem sequer se mexeu. Eu o confortei de qualquer forma. — Está tudo bem, rapaz, está tudo bem. Sou apenas uma criança. Eu acho que não vou para a prisão — Não tinha certeza disso, mas disse assim mesmo. Não havia razão para deixar Icas preocupado. Minha porta foi aberta e o policial que estava acenando freneticamente para encostar estava ali, com as pernas e braços abertos, fazendo-o parecer muito grande e muito assustador. — Oi — Sorri nervosa. Doçura normalmente ajudava com Jimmy. — Preciso que você saia da caminhonete, Senhorita — O oficial tinha músculos pulando para fora de suas mangas e um belo rosto emoldurado em cabelos loiro escuro, cuidadosamente penteados e fora do seu rosto.


— Eu prefiro não deixar o meu cão, senhor — Respondi e não movi um músculo. — Ele morde estranhos. E você é um estranho. Eu não quero que você seja mordido — Icas parecia um saco de feijão com cabeça de cão, pendendo sobre o banco. Ninguém ia ser mordido, infelizmente. Cutuquei-o em frustração. — Icas? O policial olhou para Icas e depois de volta para mim. — Eu acho que vou ficar bem. Por favor, saia da caminhonete, senhorita. — O que vai fazer comigo? — Perguntei, olhando para baixo. — Você nem sequer pediu minha carteira de motorista — Sabia que isso era o que os policiais deveriam fazer. Jimmy foi multado cerca de um ano atrás, porque a caminhonete tinha um farol quebrado, e a primeira coisa que o policial pediu foi sua carteira de motorista. — Quantos anos você tem, garota? — O oficial suspirou. — Idade suficiente para dirigir... Provavelmente — Eu disse, tentando soar convincente. Outro policial juntou-se ao primeiro um pouco atrás da porta aberta do lado do motorista. Ele era alto e muito magro, e sua cabeça era careca no topo. O sol brilhava nela como vidro, e eu desviei o olhar estremecendo. Eu disse que era por isso que os meus olhos estavam molhados e ardendo. — Plates e Vin disseram que o veículo pertence a um James Echohawk. Com a menção do nome de Jimmy, meu coração balançou e o sofrimento em meus olhos se intensificou. A umidade escapou e começou a deslizar pelo meu rosto. Limpei a lágrima e tentei fingir que era o calor. — Droga! Com certeza é um dia quente! Olhe para mim, suando por todo o lugar. — Qual é seu nome, garota? — O policial magro tinha uma voz profunda totalmente em desacordo com a sua aparência. Ele quase parecia um sapo. — Blue — Respondi com a minha arrogância desaparecendo rapidamente. — Blue? — Sim. Blue... Echohawk — Resmunguei. Meus lábios tremiam.


— Tudo bem, uh, Blue. Seu pai sabe que você está com a sua caminhonete? — Eu não consigo encontrá-lo. Os policiais se entreolharam e depois olharam de volta para mim. — O que você quer dizer? — Eu não consigo encontrá-lo — Repeti com raiva. — Estamos acampados, e ele disse que estaria de volta. Icas voltou para casa, mas ele não. Ele esteve fora por muitos dias e Icas está agindo como se estivesse doente e a água está quase acabando no tanque, e estou com medo que ele não vá voltar. — Icas é o cão, certo? — O policial de cabelo loiro escuro apontou para Icas, que ainda não tinha sequer aberto os olhos. — Sim — Sussurrei, tentando desesperadamente não chorar. Dizendo as palavras em voz alta se tornou real e terrível. Jimmy estava desaparecido. Ele se foi. O aconteceria comigo? Eu era uma criança. Eu não conseguia evitar de me preocupar com o que aconteceria comigo e igualmente terrível era a preocupação com Jimmy. Eles pediram para sair da caminhonete, mas na última hora me lembrei da mochila que eu tinha guardado as ferramentas. Corri de volta para a caminhonete e puxei para fora do banco da frente. Era pesada e eu acabei arrastando atrás de mim. O policial musculoso tinha levantado Icas do lado do passageiro, e estava olhando para ele com a testa franzida. Ele olhou para mim como se quisesse falar, pensou melhor, e o colocou suavemente no chão na parte de trás de seu carro-patrulha. — O que no mundo... — O policial magro, cujo nome eu lembrei era Izzard - como o lagarto sem a L - tentou levantar a mochila e não colocou peso suficiente no seu esforço. — O que você tem aqui? — Ferramentas — Respondi. — E não vou soltar. — Okaaaaay — Ele falou, olhando para o outro policial. — Vamos. Basta colocá-los de volta aqui com o cão assassino. Os dois riram como se fosse um grande jogo engraçado. Eu parei e olhei para eles, olhando de um homem para o outro, empurrando meu queixo


para cima, desafiando-os a continuar. Surpreendentemente, suas risadas morreram, e Izzard colocou as ferramentas ao lado de Icas. Eu estava na frente do carro com o Sr. Músculos, também conhecido como policial Bowles, e policial Izzard seguiu atrás de nós. Oficial Bowles pelo rádio passou uma mensagem para alguém, falando sobre o veículo e alguns números que eu não entendia. Era obviamente um código para “o que eu faço com essa garota louca?”. Eu fui capaz de mostrar-lhes onde estava nosso trailer. Ele estava na parte de trás das montanhas. Eu não tinha virado à direita ou à esquerda descendo do canyon, porque estava com medo de não me lembrar de como voltar. Mas Jimmy não tinha milagrosamente voltado na minha ausência. Minha nota estava sobre a mesa onde eu a havia deixado. Eles acabaram chamando alguns rapazes de busca e salvamento. Isso soou bem para mim - busca e salvamento - e eu me senti esperançosa pela primeira vez em dias. Pediram-me uma descrição do meu pai. Eu disse que ele não era tão alto quanto Izzard, mas era, provavelmente, um pouco mais alto do que o oficial Bowles, não tão “pesado”. Oficial Izzard achou engraçado que eu chamei oficial Bowles de pesado. Oficial Bowles e eu simplesmente o ignoramos. Eu disse a eles que ele tinha cabelo preto e cinza e que sempre usava duas tranças. Quando os lembrei de que o seu nome era Jimmy, pedi para eles fazerem o favor de encontrá-lo e tive que parar de falar por medo de que eu iria chorar. Jimmy nunca chorou então eu também não chorava. Eles fizeram uma varredura. Eles procuraram por cerca de uma semana. Eu fiquei em uma casa onde havia outras seis crianças. Os pais eram bons, e eu comi pizza pela primeira vez. Fui à igreja três domingos consecutivos e cantava canções sobre um cara chamado Jesus, que eu apreciei. Eu perguntei à senhora que nos levou para cantar se ela conhecia as músicas de Willie Nelson. Ela não conhecia. Provavelmente foi bom que ela não conhecia. Cantando canções de Willie poderia me fazer sentir a falta de Jimmy. A casa onde eu fiquei era um orfanato, uma casa para as crianças que não têm outro lugar para ir. E essa era eu. Eu não tinha outro lugar para ir. Eu fui interrogada por uma assistente social, tentando descobrir quem eu era. Eu não sabia que Jimmy não era meu pai naquele momento.


Ele nunca me explicou isso. Aparentemente, a minha identidade era um mistério. — Você pode me dizer alguma coisa sobre a sua mãe? — A assistente social me perguntou. A pergunta era gentil, mas eu não estava enganada em pensar que não tinha que responder isso. — Ela está morta — Eu sabia muito. — Você se lembra do nome dela? Eu tinha perguntado uma vez a Jimmy o nome da minha mãe. Ele disse que não sabia. Ele disse que eu a tinha chamado de Mama, como a maioria das crianças de dois anos faz. Parecia inacreditável. Mas eu era apenas uma criança acolhida e sem levantas suspeitas. Jimmy tinha uma pequena TV preto e branco com duas antenas que eu assistia no trailer. Ela pegava a estação PBS local. Essa era a minha exposição ao mundo exterior. Vila Sésamo, Arthur{14}, e o Antiques Roadshow{15}. Eu não entendia a natureza das relações entre homens e mulheres. Eu não sabia nada sobre bebês. Os bebês nasciam entregues por cegonhas, e compradas nos hospitais. Eu não tinha noção de que meu pai não sabia o nome da minha mãe, era muito estranho. — Eu liguei para a mãe dela. Os olhos da senhora piscaram e ela tinha um olhar malvado no rosto. — Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Certamente seu pai sabia o nome dela e teria dito. — Não. Ele não falou. Ele não a conhecia muito bem. Ela só me deixou com ele um dia e partiu. Então ela morreu. — Então, eles nunca foram casados? — Não. — Por que você o chama de Jimmy e não de pai? — Eu não sei. Acho que ele não era o tipo de pai. Às vezes eu o chamava de pai. Mas, na maioria das vezes era apenas Jimmy. — Você conhece a sua tia? — Eu tenho uma tia? — Cheryl Sheevers. É o seu endereço listado nas informações de seu pai.


Ela é meia-irmã de seu pai. — Cheryl? — Recordações apareceram. Um apartamento. Estivemos lá algumas vezes. Nunca fiquei muito tempo. Geralmente esperava na caminhonete. A única vez que eu tinha visto Cheryl, eu estava doente. Jimmy estava preocupado e me levou para o apartamento dela. Ela me deu um remédio... Antibióticos, ela os tinha. — Eu não a conheço muito bem — Falei. A senhora suspirou e deitou sua caneta. Ela correu os dedos pelos cabelos. Ela precisava parar de fazer isso. Seu cabelo estava todo confuso e começou a ficar em pé. Eu quase ofereci para trançá-lo para ela. Eu era uma boa em fazer tranças. Mas eu achava que ela não deixaria, por isso fiquei quieta. — Sem certidão de nascimento, sem registro de vacinas... Não há registros escolares... O que eu devo fazer? É como um maldito bebê Moises{16}, eu juro — A senhora estava resmungando para si mesma, a mesma forma que Jimmy fazia às vezes, quando ele estava fazendo uma lista para a loja. Eu disse a assistente social que Jimmy tinha uma família em uma reserva em Oklahoma, mas que eles não me conheciam. Acontece que eu estava certa. Os serviços sociais os encontraram. Eles não sabiam nada sobre mim e não queriam nada comigo. Isso foi bom para mim. Oklahoma era muito longe, e eu precisava estar por perto quando encontrassem Jimmy. Os policiais entrevistaram Cheryl. Ela me disse mais tarde que “a pressionaram”. Cheryl vivia na cidade de Boulder, não muito longe de onde eu estava hospedada no lar de adoção. E por incrível que pareça, Cheryl disse que iria me levar. O nome dela não era Echohawk, era Sheevers, mas acho que isso não importava. Ela realmente não parecia com Jimmy, também. Sua pele não era tão morena e tinha o cabelo tingido em vários tons de loiro. Usava tanta maquiagem que era difícil dizer como ela realmente era sob as camadas. A primeira vez que a encontrei, eu olhava para ela, tentando ver o “verdadeiro” rosto dela. Assim como Jimmy tinha me ensinado a ver a madeira, imaginando algo bonito sob o exterior duro. Era mais fácil fazer com a madeira, lamento dizer. Os policiais me deixaram ficar com as ferramentas de Jimmy, mas eles levaram Icas para um abrigo de animais.


Eles disseram que ele seria atendido por um veterinário, mas eu estava com muito medo que Icas não poderia ser curado. Ele estava quebrado para sempre. Senti-me quebrada também, mas ninguém poderia dizer.


Capítulo Cinco Internacional — Quando os antigos romanos conquistariam um lugar novo ou um novo povo, eles iriam deixar a língua e os costumes intactos - até mesmo deixariam as pessoas conquistadas decidirem por si mesmos, na maioria dos casos, quem nomeariam como governador para manter um ponto de apoio na região — Wilson encostou-se ao quadro branco enquanto falava, sua postura relaxada, com as mãos entrelaçadas vagamente. — Isto foi parte do que fez Roma tão bem sucedida. Eles não tentaram obrigar todos romanos quando já estavam conquistando-os. Quando fui para a África com o Peace Corp, uma mulher que trabalhou com o Corp disse algo para mim que muitas vezes tenho pensado desde então. Ela me disse que “A África não vai se adaptar a você. Você vai ter de se adaptar a África”. Isso é verdade para onde quer que vá, seja escola, ou seja, no mundo mais amplo. — Quando me mudei para os Estados Unidos aos dezesseis anos, tive meus olhos abertos para as diferenças na nossa língua, e tive que adaptar na América. Eu não poderia esperar que as pessoas me entendessem ou dar um desconto para as diferenças em nossa língua e cultura. Os americanos podem falar Inglês, mas existem sotaques regionais e frases, grafias diferentes, uma terminologia diferente para quase tudo. Lembro-me da primeira vez em que eu perguntei a alguém no campus se eles tinham uma fag. Foi uma coisa boa que eu não apanhei. Em Blighty, um fag é um cigarro, e eu estava passando por uma fase em que eu gostava de fumar. Eu achava que isso me fazia parecer mais velho e sofisticado. — O que é Blighty? — Alguém perguntou em meio a risadinhas que irrompeu quando Wilson disse fag. — Blighty é um apelido para a Grã-Bretanha. Temos apelidos e frases que não faria absolutamente nenhum sentido para nenhum de vocês. Na verdade, você pode precisar de um tradutor por um tempo, se você viver em Londres por qualquer período de tempo, como eu fiz quando cheguei


aqui. Felizmente, tive uns companheiros que cuidavam de mim na Uni. Tive anos para me tornar americanizado, mas acho que os velhos hábitos custam a morrer, então pensei que você gostaria de ouvir algumas gírias britânicas. Assim, se eu escorregar e disser algo instável, você terá uma ideia do que estou me referindo. — Por exemplo, na Grã-Bretanha chamamos de uma garota atraente de um belo passarinho. Funciona para os caras também. Vocês podem dizer que é um cara atraente ou um pássaro atraente. Também diríamos delicioso - que suponho que venha da palavra esplêndido. O alimento é delicioso, cochilos são deliciosos, os livros são deliciosos. Essa é a ideia. E se gostam de algo dizemos isso. Se vocês virem e gostarem de um pássaro delicioso, vocês podem tentar conversar ou flertar com ela. Se eu chamar de pateta, estaria chamando você de idiota ou imbecil. Se eu dissesse que você parece inteligente, estaria me referindo a sua roupa, não a sua inteligência. Se você é ridículo ou caduco ou excêntrico isso significa que você está louco. E se alguém está contrariado ou aborrecido na Inglaterra, isso significa que eles estão fartos ou com raiva. Não chateado, lembre-se, o que significa bêbado. Nós não dizemos sujeira ou lixo, dizemos escombros. E, claro, nós xingamos diferente, embora adotamos muitos palavrões que suas mães se oporiam. — Você diz bloody{17}, bugger{18} e blast{19}, certo? — Alguém falou no fundo da sala. — Entre outras coisas — Wilson tentou manter uma expressão séria quando continuou. — Nós não “ligamos” para os nossos amigos íntimos ao telefone, nós tocamos ou soamos. Nós também não temos capotas e porta malas em nossos carros, temos gorros e mala de carro. Não temos bares, temos pubs. Não temos vácuos, temos aspiradores, e uma sombrinha é um guardachuva. Que, por sinal, você deve ter na Inglaterra. É fria e molhada. Depois de passar dois anos na África, o pensamento de voltar para Manchester não era atraente. Eu descobri que amava o sol em grandes doses. Então, embora eu sempre me considere inglês, acho que nunca mais vou morar na Inglaterra. — Conte-nos um pouco mais! — Chrissy deu uma risadinha.


— Bem, se algo é as ou brilhante isso significa que é legal ou incrível — Acrescentou Wilson. — Se eu estivesse em Londres, eu poderia cumprimentá-lo, dizendo: “Tudo bem?” E você iria responder com “Tudo bem?” Basicamente, significa “Como vai?” ou “Olá, como você está?” e não exige uma resposta. Imediatamente, toda a turma começou a perguntar uns aos outros “Tudo bem?” com sotaque britânico terrível, e o Sr. Wilson continuou por cima do caos, erguendo a voz um pouco para conter a classe de volta. — Se algo é esquisito ou instável, isso significa que ele não está certo, ou parece duvidoso. Sua pontuação mais recente no seu teste pode me parecer um pouco instável se todos os seus exames anteriores falharam. — Em Yorkshire, se alguém diz que você não ganha nada por nada, eles iriam dizer, você não entende coisa nenhuma... Ou você recebe o que você paga. Se eu disser para você chivvy isso significa que eu quero que você se apresse, e se eu disser para você se livrar, isso significa que eu quero que você se perca. Se alguém é fraco eles são estúpidos, se algo é embotado é chato. Uma facada não é embotada, sua mente é. É sem corte, para conseguilo certo — Wilson sorriu para os rostos extasiados de trinta alunos, rapidamente tomando notas de gírias britânicas. Era como se os Beatles tivessem invadido os Estados Unidos mais uma vez. Eu sabia que iria ouvir “chivvy” e “ela é um pássaro bonito” nos corredores pelo resto do ano. Wilson estava apenas se aquecendo. — Se você transar alguém, isso significa que você arrasou-a. Se algo é canja isso significa que é uma coisa fácil, ou é realmente fácil. Se você disser que deixou cair um erro, isso significa que você fez algo vergonhoso. Como perguntar a uma mulher se ela é imprestável, que significa grávida, para descobrir o que ela está apenas um pouco gorda. A classe estava histérica agora, e isso era tudo que eu podia fazer para não rir com eles. Era como um idioma diferente. Wilson era muito diferente de todos os garotos que eu já tinha conhecido. E não era só o jeito que ele falava. Era ele. Sua luz e sua intensidade. E eu o odiava por isso. Revirei os olhos, gemi e rosnei quando ele me pediu para participar. Ele manteve a calma, o que me deixou ainda mais “descontente”. Minha irritação só aumentou à medida que Wilson começou a introduzir um “visitante especial”, uma garota loira chamada Pamela, que


apresentou um power point sobre arquitetura romana de sua viagem recente. Seu sobrenome era Sheffield - como nos Sheffield Estates - um popular hotel em Las Vegas, que foi projetado para se parecer com uma propriedade Inglesa. Sua família tinha aparentemente construído o hotel, que ainda tinha o sobrenome dela. Aparentemente, eles tinham hotéis em toda a Europa. Pamela disse-nos que tinha se formado em hotelaria internacional e viajado para todos os diferentes hotéis de propriedade da sua família, um dos quais era perto do Coliseu, em Roma. Ela parecia exatamente como a princesa Diana quando falava, era elegante e glamorosa e dizia as palavras como “abominável” e “brilhante.” Wilson apresentou como sua “amiga de infância” mas ela olhava para ele como se ela fosse sua namorada. Fazia mais sentido que ele estava no Boulder City, se sua namorada trabalhasse para o Sheffield States. Pamela zumbia sobre este ou aquele exemplo impressionante de engenho Romano, e eu desprezava a sua beleza tranquila, seu conhecimento do mundo, o seu óbvio conforto consigo mesma e com o seu lugar no universo, e eu a provocava um pouco durante a apresentação. Era fácil ver por que Wilson iria gostar dela. Ela falava a sua linguagem, afinal. Ela tinha juventude, beleza, sucesso e status. Em outros tempos, ela e Wilson teriam sido os conquistadores Romanos, e eu gostaria de ter sido uma líder de uma tribo selvagem que atacaram Roma. Como Wilson os tinha chamado? Havia vários. Os Visigodos, os Godos, os Francos e os Vândalos. Ou talvez eu seja um Hun. A namorada de Átila. Poderia usar um osso no meu cabelo e montar em um elefante. No final, as tribos invadiram Roma, saqueando e queimando toda a área. Isso me agradou em algum nível. Os azarões se levantando e vencendo os conquistadores. Mas se eu fosse completamente honesta comigo mesma, não queria conquistar Wilson. Eu só queria sua atenção. E teria isso das maneiras mais detestáveis. Ele geralmente era um bom garoto sobre isso, até o dia que Pamela veio e ele me manteve depois da aula. — Senhorita Echohawk - espere um minuto. Eu gemi, recuando perto da porta onde eu estava a poucos passos de fazer a minha saída. Tive alguns sorrisos de alguns outros alunos quando


eles desocuparam a sala. Todos sabiam que eu estava em apuros. — Eu pensei que nós já tivéssemos discutido a coisa de senhorita Echohawk — Rosnei para ele, quando a sala estava vazia à nossa volta. Wilson começou a reunir os papéis espalhados na mesa, empurrando e alisando-os enquanto os pegava. Ele não me disse nada, mas havia uma profunda ruga entre as sobrancelhas. Ele parecia um pouco... Bravo - a definição americana. — Eu perdi alguma coisa? — Sua voz era suave, e quando ele finalmente olhou para mim seus olhos estavam preocupados. Joguei meu cabelo e mudei o meu peso, estalando o quadril do jeito que as garotas fazem quando somos repreendidas. — O que você quer dizer? — Por que você está tão irritada? Sua pergunta me pegou de surpresa, e eu ri um pouco. — Isso não é irritação — Eu sorri. — Essa sou eu. Acostume-se com isso. — Eu realmente preferiria não — Ele respondeu suavemente, mas não sorriu. E senti uma pontada de algo perto de remorso. Eu sufoquei a sensação imediatamente. Mudei o meu peso novamente e desviei o olhar, comunicando que tinha acabado essa conversa. — Posso ir agora? — Perguntei bruscamente. Ele me ignorou. — Você não gosta de mim. E está tudo bem. Eu tive professores que eu não me conectava muito na escola. Mas você está constantemente à procura de uma discussão... E eu não tenho certeza se entendo o porquê. Você foi rude com a senhorita Sheffield hoje, e fiquei constrangido por você e por ela. — Pessoas como a senhorita Sheffield precisam ganhar um momento difícil de vez em quando. É bom para ela. Isso vai fortalecê-la, ajudar a crescer o pelo em seu peito e desenvolver um pouco de músculo — Eu sorri. — O que quer dizer, pessoas como a senhorita Sheffield? — Vamos lá, Wilson! — Eu gemi. — Você sabe exatamente o que quero dizer. Você já reparou todos os pequenos grupos, todas as pequenas panelinhas em sua própria sala de aula? Aqui temos os atletas — Eu caminhei para o agrupamento de mesas na fileira de trás. — Aqui temos os


pompons e as rainhas do baile — Apontei enquanto passeava. — Os nerds geralmente se reúnem aqui. A garota vadia – Que seria eu. – Senta-se aqui. E os restante que não têm ideia de quem ou o que são, preenche todos os lugares do meio. Talvez você não reconheça essas pequenas divisões, porque pessoas como você e a Miss Sheffield tem o seu próprio status. Pessoas como você não tem um grupo, porque flutua acima dos grupos. Você é da Inglaterra. Você deve saber tudo sobre a estrutura de classe, certo? — O que no mundo que você está falando? — Wilson gritou em frustração e sua óbvia irritação apenas me motivou. — Jimmy, o homem que me criou, me contou uma história uma vez — Eu expliquei. — Isso vai junto com a coisa toda tribal que temos falado. Romanos contra Godos, e contra os Visigodos que está contra todos os outros. É a razão pela qual as pessoas lutam. É uma lenda indígena que seu avô lhe contou. Ele disse que Tabuts, o lobo Wise, decidiu esculpir muitas pessoas diferentes com galhos. Diferentes formas, tamanhos, cores. Ele esculpiu todos eles. Então o lobo Wise colocou todas as pessoas que criou em um grande saco. Ele planejou espalhar por toda a terra de maneira uniforme, para que cada pessoa que criou tivesse um bom lugar para viver, muito espaço, muita comida e muita paz. — Mas Tabuts tinha um irmão mais novo chamado Shinangwav. Shinangwav, o coiote, era muito travesso e gostava de causar problemas. Quando Tabuts, o lobo wise, não estava olhando, Shinangwav fez um buraco no saco. Assim, quando o lobo Wise tentou espalhar, em vez de todo mundo começar seu próprio espaço, o povo caiu em grupos. Wilson ficou muito quieto, seus olhos cinzentos focados no meu rosto, e eu percebi que tinha sua atenção agora, querendo ou não. — Isso explica porque as pessoas lutam, disse Jimmy. Eles não têm espaço suficiente, ou talvez alguém tenha caído em um pedaço de terra melhor, e todos nós queremos a terra ou bens que outra pessoa tem simplesmente por questão de sorte. Então, nós lutamos. Você e Pamela são o mesmo tipo de pessoas. Você é do mesmo grupo — Terminei, desafiando. — O que é que isso quer dizer, Blue? — Wilson não era desafiador. Ele parecia chateado, magoado mesmo.


Dei de ombros, cansada, minha raiva crepitando como um balão furado. Wilson era um homem inteligente. Não era exatamente difícil decifrar o que significado disso. — Mas, se somos todos esculpidos pelo mesmo lobo Wise — Wilson insistiu, usando a história para fazer seu ponto. — Por que importa aonde nós fomos espalhados? — Porque tantas pessoas sofrem, enquanto outras parecem tê-lo tão fáceis. E não faz muito mais sentido para mim do que a lenda indígena. — Então você está com raiva pelo local que você foi espalhada. E você está com raiva de mim - e Pamela também - porque crescemos do outro lado do oceano em uma vida de lazer e privilégio. A maneira como ele resumiu, me fez parecer preconceituosa. Mas eu meio que era, talvez isso fosse justo. Dei de ombros e suspirei, e Wilson apertou as mãos na frente dele, com os olhos sérios. — Nenhum de nós pode evitar o lugar onde fomos espalhados, Blue. Mas nenhum de nós tem que permanecer onde fomos espalhados. Por que você não se concentra mais para onde está indo e menos de onde veio? Por que você não se concentra mais no que a faz brilhante e menos no que a deixa com raiva? Está faltando um elemento chave para a história. Talvez a moral da lenda seja que somos todos esculpidos, criados e formados por uma mão de mestre. Talvez todos nós fôssemos obras de arte. Eu gemi. — Em seguida, você vai me dizer para ser eu mesma e todos vão me amar, certo? — Amar pode ser uma palavra muito forte — Wilson respondeu inexpressivo. Eu ri. — Estou falando sério! — Argumentei, rindo de mim mesma. —Todas as coisas que as pessoas dizem sobre apenas ser você mesmo são completa... — Lixo? — Sim. Ser você mesmo só funciona se você não for ruim. Se você for ruim, definitivamente não seja você mesmo. Foi à vez de Wilson suspirar, mas eu poderia dizer que ele tinha me perdoado e meu coração amoleceu um pouco.


— E aquele poema “Não Sou Ninguém” que você citou outro dia? Eu acho que provavelmente é mais preciso. — O poema de Dickinson? — Wilson parecia absolutamente radiante que eu me lembrava. E então ele recitou, as sobrancelhas levantadas como se tivesse certeza que eu não poderia estar me referindo a Dickinson. Não sou Ninguém! Quem é você? Ninguém — Também? Então somos um par? Não conte! Podem espalhar! Balancei a cabeça. — Sim. Esse mesmo. Acho que o velho Dick e eu teríamos sido bons amigos, porque eu sou definitivamente um ninguém também. — O velho Dick é, na verdade é Emily Dickinson — Os lábios de Wilson contraíram. Eu sabia muito bem quem havia escrito o poema, mas gostei de fazê-lo rir. — A beleza desse poema é que todo mundo pode se relacionar, porque todos nós sentimos como se não fossemos ninguém. Todos nós sentimos que estamos do lado de fora, olhando para dentro. Nós todos nos sentimos dispersos. Mas acho que é essa consciência que realmente nos faz alguém. E você é definitivamente alguém, Blue. Pode não ser uma obra de arte, mas é definitivamente uma parte do trabalho.


Capítulo Seis Pavão Novembro chegou inesperadamente, e a luz do sol mudou e suavizou. O calor do deserto tornou-se silencioso e suave, embora Vegas e Boulder City tivesse mais palmeiras do que folhas se transformando, o outono era um belo descanso. Mason começou a vir com mais frequência, enquanto eu estava na parte de trás da sua bicicleta atravessando o deserto, estar com ele era algo que eu gostava. Quando o passeio terminava, quando a nossa paixão tinha consumido, quando estávamos respirando com dificuldade, desejo saciado, não tínhamos nada a dizer. Eu estava sempre ansiosa para ir embora ou para ele ir. Eu nunca fingi amá-lo ou querer alguma coisa dele, e ele parecia satisfeito com o que eu estava disposta a lhe dar. Eu acho que era por isso que me surpreendeu quando seu irmão Brandon apareceu do nada em uma noite de quinta-feira. Manny e Graciela estavam no meu apartamento assistindo American Idol, o programa favorito de Manny. Manny estava convencido de que ele era um cantor melhor do que quase todos os concorrentes, e demonstrava sua habilidade em intervalos comerciais, de pé no sofá com sua mão fechada ao redor de um microfone invisível. Ele não era ruim, e o que lhe faltava em talento, ele compensava com personalidade. Normalmente Graciela era sua maior fã, mas ela estava nervosa e ficava olhando para o telefone dela e andando para lá e para cá. Graciela estava me dando nos nervos ultimamente. Ela tinha começado a alisar seus cabelos pretos encaracolados para que eles ficassem soltos em suas costas e jogava seu cabelo ao lado, para que sua longa franja escondesse seu olho esquerdo. Assim como o meu. Quando o ano letivo começou, a única maquiagem que ela usava era brilho labial e rímel. Mas isso tinha mudado, também. Seu delineador era grosso e preto, seus cílios enrolados e pintados, sua sombra escura esfumaçada. O jeans estava apertado, suas camisas justas, e ela ainda encontrou um par de botas de cano alto tamanho 5. Ela pesava talvez 40 quilos e não tinha quadris ou seios, e as roupas e maquiagem a faziam parecer como se ela estivesse


vestida para o Halloween. Não foi difícil descobrir que ela estava tentando me imitar, mas ela parecia ridícula, e pela primeira, vez eu me perguntava se talvez eu também fosse. Quando a campainha tocou, Graciela saltou do sofá e correu para o banheiro, gritando como se Justin Bieber estivesse na porta. — O que no mundo acontece com ela? — Eu resmunguei, irritada. — Devem ser hormônios — Manny suspirou, como se soubesse tudo sobre os hormônios femininos. — Ah, sim? É por isso que ela se tornou uma miniatura minha? Hormônios? — Andei até a porta e a abri, pensando que os vizinhos tinham cansado de ouvir Manny cantar a plenos pulmões e estavam vindos para reclamar. Brandon Bates e dois de seus amigos estavam na minha porta, combinando sorrisos em seus rostos. — Ei, Blue — Brandon sorriu com seus olhos em meu top e o short de algodão que eu tinha trocado depois do trabalho. Seus amigos pareciam igualmente interessados na minha roupa. Fiquei surpresa, e por um segundo eu não sabia bem o que dizer. — Uh, oi, Brandon. O que vocês estão fazendo aqui? — A minha saudação não era exatamente acolhedora, mas Brandon passou pela pequena abertura como se eu tivesse acabado de lhe convidar para entrar. Eu me rendi com a surpresa quando ele entrou no apartamento como se fosse dono do lugar, Cory e Matt em seus calcanhares. Todos eles sentaram confortáveis no sofá, os olhos na TV, como se fossem ficar por algum tempo. Manny era todo sorrisos e felizes comprimentos, contente que Brandon Bates estava aqui para assistir o seu programa favorito com ele. Graciela escapuliu para fora do banheiro, abraçando as paredes como um filhote de cachorro tímido e sentou no braço do sofá mais próximo a Brandon. — Oi, Brandon — Ela ronronou, com os olhos colados ao rosto dele e a respiração superficial. O comportamento nervoso de Gracie, de repente fez sentido. Ela sabia que eles estavam vindo. O que ela estava pensando? Que todos iriamos sair? A forma como os olhos dela se agarraram a Brandon, deixou seus


sentimentos bastante óbvios. Mas eu sabia que Brandon não estava interessado em Gracie. Graças a Deus. Na verdade, ele flertava e era sugestivo comigo em várias ocasiões, e eu queria saber até que ponto Mason veria o seu irmão como uma possível ameaça. — Então, Blue — Brandon falou, após alguns minutos. — Estava pensando que você e eu poderíamos dar uma volta ou algo assim. Cory e Matt poderão servir de babás se você quiser sair. Manny bufou de indignação com o termo babá, e as sobrancelhas de Cory subiram, indicando que não era o que ele tinha planejado. — Brandon — Matt avisou. — Brandon — Graciela chorou, como se Brandon a tivesse esbofeteado. Então, ela me lançou um olhar com tanto veneno que eu dei alguns passos para trás. — Será que Mason sabe que você está aqui, Brandon? — Eu disse sem rodeios. — Mason disse que você e ele têm um acordo, e não um relacionamento, então duvido que ele se importe — Brandon sorriu para mim como se fosse o meu dia de sorte. Gracie olhou com raiva para mim como se eu tivesse roubado sua alma gêmea. Era hora para enviar todos para casa. — Realmente, Brandon? — Murmurei. — Não me lembro de você fazer parte desse acordo, então acho que vou passar esse passeio. E olha a hora! Droga, minha tia vai estar em casa logo — Era uma mentira, mas Brandon não sabia disso. — Garotos, é melhor que saiam — Eu abri a porta e olhei para eles com uma sobrancelha levantada em expectativa. Matt e Cory foram obedientes, mas Brandon parecia um pouco irritado. Ele foi mais lento para sair e eu pensei por um minuto que eu poderia ter problema em mãos. — Eu vou lhe acompanhar, Brandon — Graciela ronronou e se colocou de pé ao lado dele. Os instintos fraternos de Manny finalmente entraram em ação, e ele se levantou brutalmente e agarrou Graciela pela mão. — Vamos lá, Gracie. Precisamos ir também — Gracie puxou a mão dela, e os olhos de Manny brilharam. Ele cuspiu algo intenso em espanhol e


Gracie rosnou de volta para ele como um gato encurralado, mas ela o deixou puxá-la do apartamento. — Eu vou lhe enviar mensagem, ok, Brandon? — Gracie falou por cima do ombro, e os amigos de Brandon riram quando Manny lançou outro discurso enquanto os barulhos dos seus passos desapareciam. Brandon e seus amigos os seguiram e eu soltei um pequeno suspiro de alívio. Brandon disse algo baixinho e as risadinhas se tornaram roncos e sugestões manhosas. Eles empurravam um ao outro enquanto se dirigiram para a calçada, indo para longe do meu apartamento. — Ei, Brandon — Eu falei atrás deles. — Fique longe de Gracie, por favor. — Gracie não é em quem estou interessado, Blue — Brandon falou de volta. — Me avise quando estiver pronta para dar esse passeio, tudo bem? Eu fechei a porta em resposta.

— Joana d’Arc nasceu em 1412, em uma pequena aldeia no leste da França. Sua família era pobre, e eles viveram em uma região que foi devastada por conflitos. Três anos depois do nascimento de Joana, o rei da Inglaterra Henrique V invadiu a França e derrotaram os franceses em Agincourt, deixando o país muito dividido — As mãos de Wilson estavam enfiadas nos bolsos, os olhos sérios enquanto observava a sua classe. — Em documentos de sobreviventes, Joana foi descrita como se assemelhasse uma mera “pastorinha.” Mas para mim ela foi uma das pessoas mais fascinantes da história. Aos treze anos, ela começou a ter visões de natureza religiosa ou espiritual. Ela descreveu-as como admoestações para ser boa ou piedosa, para ir à igreja. Muito simples, tanto quanto visões poderiam ser — Wilson sorriu com um flash rápido de dentes brancos alinhados, uma concessão para o fato de que as visões não eram nada comuns ou simples — Não foi até que ela estava mais perto de 16 anos de idade, quando as visões mudaram. Ela começou a receber instruções específicas para “ir à França”. Então ela obedeceu.


— Joana d’Arc tinha dezesseis anos quando solicitou por Charles de Ponthieu, herdeiro assediado ao trono, e disse-lhe que tinha sido enviada por Deus para ajudá-lo. Você pode imaginar uma menina nos dias de hoje ir até o Presidente dos Estados Unidos dizendo que ela foi enviada por Deus para ajudá-lo? Afirmo que isso não foi menos dramático para a jovem Joana solicitar um rei. O fato de que lhe foi concedida a entrada é notável. Ela foi efetivamente duas vezes antes que, finalmente, fosse bem sucedida. Mas, eventualmente, Joana foi capaz de convencer Charles que ela foi enviada por Deus, retransmitindo uma oração que ele havia feito recentemente perguntando a Deus se ele era o herdeiro legítimo do trono, e se não fosse, que ele sofresse e não o seu povo. Ela disse que Deus o tinha ouvido, e que ele era de fato o Rei legítimo. — Ela enviou uma carta para os ingleses, dizendo-lhes que o Rei do Céu e filho de Maria, Jesus Cristo, apoiou a reivindicação de Charles ao trono francês e que eles deveriam voltar para a Inglaterra. Foi dado a ela também, o controle sobre um exército e permissão para levá-los para a batalha. Uma camponesa de dezessete anos de idade! — Wilson olhou ao redor da sala para a sua plateia, muitos dos quais tinham dezessete anos de idade. — Joana tornou-se uma líder quase mítica entre aqueles que lutaram contra o governo inglês. As pessoas estavam maravilhados com a sua sabedoria, conhecimento e maturidade espiritual. Ela deu-lhes algo em que acreditar e algo para lutar. Dentro de um ano, Joana d'Arc havia liderado o exército francês as vitórias em Orleans, Patay e Troyes. Muitas outras cidades também foram liberadas do controle inglês, possibilitando a coroação do rei Charles VII, em julho de 1429. No entanto, um ano depois, Joana foi capturada e vendida para os Ingleses. — Os Ingleses e membros do clero francês decidiram colocá-la em julgamento por bruxaria. Sempre que queriam pôr fim a uma mulher naqueles dias, eles simplesmente acusavam de ser uma bruxa. Vocês verão essa acusação sendo feita a mulheres fortes ao longo da história. Inicialmente, o julgamento foi realizado em público, mas as respostas de Joana em sua própria defesa eram muito mais nítidas e mais astutas do que os seus promotores jamais poderiam ter imaginado. Ela, na verdade, ganhou apoio e simpatia entre os ouvintes. Seus acusadores não poderiam ter isso, então seu julgamento foi feito privado.


— Claro, ela foi considerada culpada e condenada a queimar na fogueira. Dizem que quando ela estava amarrada à estaca, ela perdoou seus acusadores e pediu-lhes para orar por ela. Muitos ingleses choraram sua morte, convencidos de que eles tinham queimado uma santa. Temos uma grande quantidade de documentação da vida de Joana d' Arc. Mas eu acho que uma coisa que ela disse é particularmente reveladora sobre seu caráter e suas convicções. Ela disse que “a vida é tudo o que temos e vivemos como acreditamos em vivê-la. Mas sacrificar o que você é e viver sem crença, é um destino pior do que a morte". — A última vez que trabalhamos em nossa história pessoal, escrevemos sobre as falsas crenças que podemos ter - crenças que podem ser mitos. Hoje quero que vocês escrevam sobre o outro lado da moeda. Quais as crenças que os mantem seguindo em frente? Quais as crenças que os definem? Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas para onde iria? Eu tinha parado de tentar jogar fora o meu papel. Mas eu o odiava mais a cada vez que eu o via. Eu não sou ninguém! Quem é você? E minha mente viajou de volta para aquele terrível dia. O dia em que eu tinha me tornado, ninguém. Eu fui fraca, e eu fui pequena. A lembrança se levantou como uma nuvem negra. Acho que eu tinha adormecido enroscada entre a pia e o vaso sanitário porque a próxima coisa que me lembrava, era que Donnie estava de volta. Ele puxou minhas pernas, me arrastando para fora do meu esconderijo com pouco esforço. Eu tinha gritado, chutado e corri para a porta. O chão estava molhado e eu escorreguei, e Donnie deslizou, agitando


seus braços enquanto tentava dar um passo atrás de mim. Corri para o meu quarto com Donnie nos meus calcanhares. Terror me sufocou, e eu não conseguia gritar. Bati a porta, tranquei e tentei entrar debaixo da cama, mas era muito perto do chão e minha cabeça não cabia. Não havia onde me esconder. Donnie estava empurrando a porta. Estiquei-me até a gaveta e puxei uma camiseta grande, colocando sobre minha cabeça e peguei a cobra de madeira que estava em cima de minha cômoda. — Só quero ter certeza de que está bem, Blue — Donnie mentiu. Eu já tinha visto o rosto dele quando olhou para mim, e eu sabia que ele estava mentindo. Então a porta bateu contra a parede ao lado, e Donnie foi entrando por ela. O boom me fez pular e eu deixei cair à cobra. — Você está louca? — Donnie gritou. Estendeu as mãos na frente dele como se tivesse encurralando um animal selvagem. Ele se movia para mim lentamente com as palmas das mãos para cima. — Conversei com Cheryl. Ela disse que você recebeu uma notícia ruim hoje. Você tem que ser forte, garota. Vou ficar com você até ela chegar em casa, certo? Apenas vá em frente e suba na cama. Seus lábios estão azuis. Inclinei-me e peguei minha cobra, segurando na borda da minha camiseta para ela não subir e revelar a nudez abaixo. O peso da madeira lisa em minhas mãos me fez sentir bem. Donnie parou de se mover. — Eu não vou machucá-la, Blue. Estou aqui apenas para me certificar de que está tudo bem, ok? Virei-me e corri para minha cama, mergulhei e puxei o cobertor até meu queixo. Agarrei a cobra debaixo das cobertas. Eu vi a aproximação de Donnie. Ele relaxou se sentando na beirada da cama, se inclinou em direção a minha mesa de cabeceira e apagou o abajur. Eu gritei. A luz imediatamente voltou. — Pare com isso! — Ele gritou. — Deixe a luz acesa — Eu ofegava. — Ok, ok — Ele respondeu rapidamente. — Só vou me sentar aqui até você pegar no sono. Eu me virei para do lado da parede, de costas para Donnie, apertando os olhos fechados e me enrolando e girando a cobra muito tempo, que estava ficando quente no meu aperto. A madeira era assim, quente e suave.


Jimmy disse que era porque a madeira uma vez foi uma coisa viva. Senti uma mão no meu cabelo e endureci, abrindo meus olhos. — Quando eu era pequeno, minha mãe costumava esfregar minhas costas às vezes, para me ajudar a adormecer — A voz de Donnie era suave. — Eu poderia esfregar suas costas, assim — Sua mão moveu no meu ombro. Ele cuidadosamente moveu em pequenos círculos na parte de cima das minhas costas. Foi bom. Eu não disse nada, minha atenção estava voltada para os círculos e a mão que viajava indo e voltando. Finalmente caí no sono com as ministrações suaves contra minhas costas. Donnie tinha me confortado e me acalmou com seu toque. Eu estava precisando muito de conforto. Quando Cheryl chegou em casa ela despertou a nós dois. Donnie tinha adormecido na cadeira ao lado da minha cama. Cheryl o chutou para fora e tomou seu lugar na cadeira, acendendo um cigarro e apertando as mãos. — Donnie me disse que acha que você tentou se matar hoje à noite. Por que você faria uma coisa dessas? Eu não respondi. Eu não queria morrer. Não exatamente. Só queria ver Jimmy novamente. — Eu quero ver meu pai novamente. Cheryl me olhou com a boca franzida ao redor do seu cigarro. Ela parecia estar pensando no que eu tinha dito, pesando isso em sua mente. Ela finalmente suspirou e apagou o cigarro na base do abajur, espalhando cinzas sobre minha mesa de cabeceira. — Você sabe que ele não é seu pai, certo? Quero dizer. Ele era como um pai. Mas ele não era o seu pai. Sentei na minha cama e olhei para ela, odiando, perguntando por que ela estaria dizendo essas coisas horríveis para mim, especialmente hoje, de todos os dias. — Não me olhe assim. Não estou tentando machuca-la. Você só tem que saber o que está acontecendo. Jimmy me disse que estava comendo em uma parada de caminhões em Reno, um lugar onde ele vendia algumas de suas esculturas. Ele disse que você estava dormindo, simplesmente uma coisa pequenina, pouco mais que um bebê, toda amontoada em uma mesa de canto, à espera de sua mãe, que estava jogando caça-níqueis. Ele disse que


não conhecia a quem você pertencia. Você se lembra de Jimmy. Não gritaria por ajuda mesmo se suas roupas estivessem em chamas. Ele sentou-se ali com você, lhe deu um pouco do seu jantar. Ele disse que você não chorou e não parecia com medo dele. Ficou com você por um bom tempo, até mesmo talhou uma boneca para você — Cheryl acendeu outro cigarro e inalou profundamente. Ela assentiu com a cabeça em direção a minha cômoda. — É aquela. A que você tem aí. Comecei a balançar a cabeça, negando a sua história, negando-lhe a capacidade de levá-lo para longe de mim, da maneira que ela parecia ter a intenção de fazer. Mas ela insistiu e eu, impotente, escutei. — Ele disse que apenas a observava e você engoliu as batatas fritas que ele ofereceu. Sua mãe finalmente voltou. Jimmy disse que tinha certeza de que ela estaria com raiva que ele estava sentado lá com você. Mas ele disse que ela parecia nervosa, aquele nervosismo o surpreendeu mais do que qualquer coisa. — Na manhã seguinte, ele a encontrou dentro da sua caminhonete. Ele disse que a maçaneta do lado do passageiro estava quebrada e ele não conseguia trancar, ficando mais fácil para ela entrar. As janelas estavam abertas alguns centímetros e você estava deitada no banco da frente. Felizmente, era bem no início da manhã quando ele a encontrou. Jimmy disse que estava quente e sua mãe foi uma tola por deixá-la dentro da cabine de uma caminhonete, mesmo com as janelas meio abertas. Mas talvez ela estivesse exausta ou drogada. Você tinha uma mochila recheada com algumas roupas e a bonequinha que ele tinha esculpido. Por que ela a deixou lá, ele não sabia. Talvez ela pensasse que seria bom para você. Talvez não houvesse mais ninguém e ela estava desesperada. Mas, obviamente, ela o seguiu e, em algum momento durante a noite deixou você lá. Ele voltou para a parada de caminhões onde ela tinha visto pela primeira vez você e sua mãe. Mas ela não estava lá, e ele estava com medo de fazer perguntas, não querendo chamar a atenção para si. — Assim, o idiota a manteve. Ele primeira coisa que ele deveria ter feito, seria ir para a polícia. Depois de alguns dias, a polícia apareceu e fez algumas perguntas ao gerente de parada de caminhões. O gerente era amigo de Jimmy, então ele perguntou do que se tratava. Aparentemente, o corpo de uma mulher havia sido encontrado em um hotel local. Eles imprimiram algumas fotos da sua carteira de motorista e tinha deixado


uma lá com o gerente para colocar na parada de caminhões. Um daqueles panfletos “Se-você tiver-qualquer informações-ligue-para-este-número” que a polícia às vezes faz. Era sua mãe. Quando Jimmy viu, ele assustou até a morte, e seguiu em frente e a levou com ele. Eu não sei por que ele não deixou você lá ou foi à polícia. Mas ele não o fez. Ele não confiava na polícia. Provavelmente pensou que iria ser culpado por algo que não tinha nada a ver com ele. Ele nem sabia o seu nome. Ele disse que você só ficava dizendo Blue, Blue, Blue. Então, foi assim que ele a chamou. Meio que ele se apegou, eu acho. — Até onde eu sei, ninguém nunca veio procurar por você. Seu rosto não estava em uma caixa de leite ou algo assim. Três anos atrás, quando Jimmy desapareceu, eu pensei que isso tivesse acabado. Eu sabia que alguém ia descobrir que você não era dele e eles me jogariam na cadeia por não contar sobre ele. Então, eu só disse a eles que era sua filha, até onde eu sabia. Não pressionaram muito. Jimmy não tinha um registro nem nada e você disse que ele era seu pai. Foi por isso que eu a peguei, senti que tinha que manter meu olho em você por causa dele e para o meu próprio. E você era uma boa menina. Espero que continue a ser uma boa menina. Não faça mais merda como você fez esta noite. A última coisa que preciso é de uma garota morta na minha frente.

Ao longo dos próximos meses, Donnie vinha mais quando Cheryl estava no trabalho. Ele sempre foi bom para mim. Sempre ofereceu conforto. Uma carícia, um breve toque, migalhas para o passarinho com fome. Cheryl deixou-o eventualmente, talvez sentindo que ele gostava de mim um pouco mais do que deveria. E fiquei aliviada, reconhecendo que suas atenções não eram inteiramente apropriadas. Mas eu aprendi algo de Donnie. Eu aprendi que uma menina bonita poderia ser confortada. O conforto físico é um conforto que pode ser passageiro, mas isso iria me preencher temporariamente e tirar a minha solidão. Joana d'Arc disse que sacrificar quem você é e viver sem crença era um destino pior que a morte. Eu tinha vivido com esperança por três anos. Esperança de que Jimmy iria voltar para mim. Naquela noite, a esperança morreu, assim como a minha autoestima. Eu não sacrifiquei quem eu era,


não exatamente. Isso foi arrancado de mim. Jimmy foi um pequeno melro que teve uma morte lenta e dolorosa. Em seu lugar eu construí um pássaro chamativo, colorido, um pássaro azul. Um espalhafatoso e repulsivo pavão com penas brilhantes, que o vestia para chamar a atenção para a sua beleza em todos os momentos, e que almejava afeição. Mas tudo era apenas um disfarce brilhante.


Capítulo Sete Majestoso Gloria Olivares, a mãe de Manny e Gracie, nunca estava em casa. Não era porque ela era uma mãe ruim. Não era porque ela não amava seus filhos. Era porque mantê-los significava trabalhar sem parar. A mulher era magrinha e teria 1,50 metros se ficasse na ponta dos pés, e dia sim, dia não ela trabalhava 18 horas por dia. Ela era camareira no mesmo hotel onde Cheryl era dealer, mas também trabalhava como empregada doméstica para uma família rica em Boulder City. Eu não sabia se ela estava legalmente nos EUA ou se tinha ainda família no México. Ela tinha um irmão, Sal, que tinha fornecido madeira para mim uma vez ou duas, mas Manny e Gracie nunca falaram do pai, e certamente não havia dinheiro entrando de outra fonte. Gloria levava muito a sério a sua responsabilidade para com os filhos. Eles eram impecáveis, alimentados e eram agasalhados, mas suas opções eram limitadas, e ela tinha que deixá-los sozinhos. Não era um grande problema já agora que eles eram adolescentes, mas Manny disse que foi babá de Gracie desde que ela tinha cinco anos de idade. Talvez fosse esse o motivo que Manny se considerava a mãe de sua irmã mais nova, mesmo que eles tivessem apenas dois anos de diferença. Talvez fosse esse o que a transformação de Graciela deixou Manny tão agitado como um viciado em crack necessitando de uma correção. A insolência e a atitude de Gracie deixou Manny andando de um lado para o outro, exigindo que ela saísse do seu quarto, quando eu levei o jantar na véspera de Natal. Bev tinha mandado para casa um pouco de tudo, desde o café, que normalmente para Manny já seria o paraíso. Mas Gracie alegou que ela não estava com fome e declarou que ela não queria “comer com uma vagabunda”. Graciela foi totalmente desagradável comigo desde que Brandon tinha aparecido na minha casa há mais de um mês. Infelizmente, quanto menos interesse Brandon mostrava, mais Gracie se tornava agressiva e determinada.


Dei de ombros, desejei a Manny um feriado feliz e voltei para o meu apartamento. Graciela poderia não querer “comer com uma vagabunda”, mas ela estava mais do que disposta a pegar uma carona comigo depois da escola todos os dias só para que ela pudesse ver Brandon no estacionamento. E ela ainda copiava cuidadosamente o jeito que eu usava o meu cabelo, maquiagem e imitava o meu estilo, até o jeito que eu virava as mangas e abotoava minhas camisas. Então, ela não queria comer com uma vagabunda, mas aparentemente, queria se parecer com uma. Eu realmente senti falta da velha Gracie sonhadora, e se ela não parasse logo com isso, Manny ia desmoronar, e eu ficaria chateada.

— Elizabeth, a primeira, era a filha de um rei. O rei Henrique VIII, para ser mais preciso. Soa bem não é mesmo? Ser uma princesa? Riqueza, poder, adulação. Brilhante, não? Mas lembre-se do ditado “nunca julgue um livro pela capa?” Vou acrescentar a isso. Nunca julgue a história somente pelos fatos contados. Levante a cobertura brilhante e alcance a verdadeira história por baixo. A mãe de Elizabeth foi Ana Bolena. Alguém sabe alguma coisa sobre ela? — Wilson examinou o mar de rostos extasiados, mas sem as mãos se erguerem. — A irmã de Ana Bolena, Maria foi amante do rei Henrique, um deles, pelo menos. Mas Ana queria mais, e ela acreditava que poderia conseguir mais. Ela planejou e usou o cérebro para chamar a atenção de Henrique e fisgá-lo. Por sete anos, Henrique tentou se divorciar da rainha para que ele pudesse se casar com Ana. Como ela fez isso? Como é que ela não só manteve Henrique interessado, mas disposto a mover céus e terra para têla? Ela não era considerada bonita. O padrão de beleza para o tempo era o cabelo loiro, olhos azuis, pele clara - como sua irmã Maria. Então, como ela fez isso? — Wilson fez uma pausa para efeito. — Ela manteve o homem com fome! — A classe explodiu em gargalhadas, entendendo o que Wilson estava se referindo. — Eventualmente, quando Henrique não conseguia que a Igreja da Inglaterra dissolvesse seu casamento com a rainha, ele cortou seus laços


com a igreja, e se casou com Ana de qualquer maneira. Chocante! A igreja tinha um incrível poder naqueles dias, mesmo sobre um rei. — Ahhhh! — Suspiraram algumas meninas. — Isso é tão romântico — Chrissy suspirou, batendo os olhos de vaca para Wilson. — Oh, sim, muito romântico. Uma história de amor brilhante... Até você descobrir que três anos depois de Ana conseguir se casar com o Rei, ela foi acusada de bruxaria, incesto, blasfêmia e conspirar contra a coroa. Então ela foi decapitada. — Eles cortaram sua cabeça?! Isso é tão rude! — Chrissy estava indignada. — Ela falhou em produzir um herdeiro do sexo masculino — Continuou Wilson. — Ela teve Elizabeth, mas isso não contava. Alguns dizem que Ana tinha muito poder político. Sabemos que ela não era tola. Ela foi desacreditada e capturada, e Henrique deixou que isso acontecesse. — Ele obviamente não estava mais com fome — Eu acrescentei causticamente. As orelhas de Wilson ficaram rosa, o que me agradou profundamente. — Obviamente — Acrescentou secamente com sua voz traindo seu desconforto. — O que nos traz de volta ao nosso pensamento original. As coisas raramente são o que parecem. Qual é a verdade por baixo da superfície, sob os fatos aparentes? Pensem agora sobre suas vidas... Entendi aonde Wilson queria chegar e coloquei minha testa para baixo na mesa, deixando meu cabelo esconder meu rosto. Sabia aonde isso ia. As nossas histórias pessoais. Por que ele estava fazendo isso? Qual era o ponto? Fiquei assim com a minha cabeça contra a mesa quando Wilson terminou sua palestra e os sons dos papéis sendo passados e lápis sendo apontados, substituindo seu suave sotaque britânico. — Blue? Eu não me movi. — Você está doente? — Não — Resmunguei, sentando e tirando o meu cabelo do rosto. Olhei para ele quando peguei o papel que estendeu para mim. Ele agiu como se


quisesse falar, pensou melhor e retirou-se para sua mesa. Eu o observei ir, desejando que eu ousasse dizer-lhe que eu não faria a tarefa. Não poderia fazê-la. Meu pequeno parágrafo triste parecia ilegível na página enrugada. Um garrancho, como pegadas de galinha. Isso é o que eu era. Uma galinha, bicando nada, gritando e agitando minhas penas para me fazer parecer forte, para manter as pessoas à distância. Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas para onde iria? Eu adicionei novas linhas a minha história e parei, batendo o lápis contra a página, como pequenas sementes para a galinha bicar. Talvez essa fosse a verdade sob a superfície. Eu estava com medo. Estava apavorada que a minha história terminaria tragicamente. Como a pobre Ana Bolena. Ela traçou, planejou e se tornou rainha, só para ser descartada. Havia essa palavra de novo. A vida que ela tinha construído foi tirada dela de uma só vez, e o homem que deveria tê-la amado a abandonou ao destino. Eu nunca tinha me considerado uma galinha. Nos meus sonhos eu era o cisne, o pássaro que se tornou belo e admirado. O pássaro que provou que todos estavam errados. Perguntei uma vez a Jimmy por que ele me deu um sobrenome de pássaro. Jimmy respondia minhas perguntas. Ele me disse que eu era anormalmente resistente e principalmente não era afetada pela ausência de minha mãe. Eu não tinha chorado ou reclamado, e era muito falante, quase ao ponto de deixar louco um homem que tinha vivido com pouca companhia. Ele nunca perdeu a paciência comigo, embora às vezes, simplesmente se recusava a responder, e eu acabava tagarelando para mim mesma. Mas, desta vem em particular, ele estava de bom humor para contar histórias. Ele explicou como os gaviões eram símbolos de proteção e força,


e que por causa disso ele sempre era orgulhoso do seu sobrenome. Ele me disse que muitas tribos nativas americanas tinham variações de algumas histórias sobre animais, mas a sua favorita era uma história de Arapaho sobre uma garota que subiu para o céu. O nome dela era Sapana, uma bela garota que amava os pássaros da floresta. Um dia, Sapana estava fora recolhendo lenha quando viu um falcão que estava na base de uma árvore. Um grande espinho de porco-espinho preso em seu peito. A menina acalmou o pássaro e retirou o espinho, liberando o pássaro para voar para longe. Em seguida, a menina viu um grande porco-espinho parado no tronco de uma árvore. — Foi você, você é uma coisa má! Você feriu aquele pobre pássaro — Ela queria pegar o porcoespinho ruim e tirar os espinhos para que ele não fizesse mal a outro pássaro. Sapana o perseguiu, mas o porco-espinho foi muito rápido e ele subiu na árvore. A menina subiu atrás dele, mas nunca conseguia alcançá-lo. Cada vez mais alto o porco-espinho subia, e a árvore só se estendia cada vez mais alta no céu. De repente, Sapana viu uma superfície plana, lisa sobre sua cabeça. Ele estava brilhando, e quando ela estendeu a mão para tocá-lo, ela percebeu que era o céu. De repente, viu-se de pé em um círculo de tendas. A árvore tinha desaparecido e o porco-espinho tinha se transformado em um homem velho e feio. Sapana estava com medo e tentou fugir, mas ela não sabia como voltar para casa. O homem porco-espinho disse: — Eu tenho observado você. Você é muito bonita e trabalha muito duro. Nós trabalhamos muito duro no mundo do céu. Você vai ser minha mulher — Sapana não queria ser a esposa do homem porco-espinho, mas ela não sabia mais o que fazer. Ela estava presa. Sapana sentia falta do verde e o marrom da floresta e desejava voltar para sua família. Todo dia o velho trazia peles de búfalo para raspar e esticar e fazer roupas. Quando não havia peles para esticar, ela iria cavar nabos. O homem porco-espinho disse a ela para não cavar muito fundo, mas um dia a menina estava sonhando com sua casa na floresta e não prestou atenção para a profundidade que estava cavando. Quando puxou o grande nabo do chão, ela viu uma luz brilhando através do buraco. Quando olhou para dentro do buraco, ela podia ver as manchas de terra verde lá embaixo. Agora ela sabia como voltar para casa! Ela rolou o enorme nabo


de volta no buraco para que o homem porco-espinho não visse o que ela tinha descoberto. Todo dia Sapana pegava os restos dos tendões das peles de búfalo e os amarrava juntos. Eventualmente, ela tinha uma corda muito longa que poderia usar para descer de volta para a Terra. Ela amarrou a corda a uma árvore próxima e rolou o nabo da terra. Descendo através das nuvens, ela viu que as manchas verdes ficavam cada vez mais perto, mas ela ainda estava no alto do céu. De repente, Sapana sentiu puxarem a corda e olhou para cima para ver o homem porco-espinho olhando para ela através do buraco no céu. — Suba de novo ou vou desamarrar a corda da árvore e você vai cair! — Ele rugiu. Mas Sapana não iria subir de volta. De repente, a corda se soltou e ela estava caindo através do ar. Então, algo voou por baixo dela, e ela se estabeleceu na parte de trás de um grande falcão. Era o falcão que Sapana tinha ajudado na floresta no dia em que ela tinha perseguido o porco-espinho. Ele voou para a terra com ela em suas costas. A família de Sapana ficou muito feliz em vê-la. Desde então, eles deixavam pedaços de carne de búfalo para o falcão e outras aves de rapina, como um símbolo de sua gratidão pela proteção e o retorno de Sapana. — Você é como o falcão que salvou Sapana! — Gritei encantada com a história. — Gostaria que meu nome fosse Sapana! Então eu seria Sapana Echohawk! Jimmy sorriu para mim. Mas ele parecia triste, e murmurou: — Às vezes me sinto mais como o homem porco-espinho do que como falcão. Não entendi o que ele quis dizer e ri ruidosamente de sua piada. — Icas é o homem porco-espinho — Eu disse, apontando para o cão preguiçoso com a pelagem felpuda. Icas levantou a cabeça e olhou para mim, como se soubesse o que estávamos falando. Ele bufou e se afastou, como se tivesse ofendido com a comparação. Então Jimmy e eu rimos e a conversa foi esquecida. Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas quando ela


olhou para fora, subiu na borda do ninho e olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas para onde iria? Estava com medo... Porque ela sabia que não era um falcão.

— Jimmy? O trailer estava escuro ao meu redor, e eu escutei para ver se conseguia ouvir sons, se Jimmy ainda estava dormindo. A chuva estava investindo contra nós e dava para sentir em todos os lados, o pequeno trailer balançava um pouco com a chuva e o vento. — Jimmy — Eu disse mais alto. — Humm? — Sua resposta foi imediata desta vez, como se ele também estivesse ouvindo no escuro. — Minha mãe se parecia comigo? Jimmy não respondeu de imediato, e eu me perguntei se ele iria entreter com essa conversa no meio da noite. — Ela tinha o cabelo escuro como você — Ele respondeu calmamente. — E ela me lembrou de alguém que eu conhecia. Ele não disse mais nada, e eu esperei em silêncio, esperando migalhas. — Isso é tudo? — Eu disse finalmente, com impaciência. — Ela realmente não se parecia com você — Ele suspirou. — Ela se parecia mais comigo. — Huh? — Eu não tinha esperado que a resposta fosse essa. — Ela era nativa, como eu — Ele resmungou. — Seus olhos e cabelos eram pretos, e sua pele era muito mais morena do que a sua. — Ela era Pawnee? — Eu não sei qual tribo sua mãe pertencia. — Mas eu ainda sou Pawnee? — Eu persisti. — Porque você é Pawnee?


Jimmy resmungou. Eu não tinha reconhecido o seu desconforto por essa pergunta. Eu não tinha percebido o que ele não estava me dizendo. Jimmy suspirou. — Vá dormir, Blue.


Capítulo Oito Arma de Metal Quando ouvi o primeiro tiro pensei que eram fogos de artifícios que tinham estalado e chiado em todo o bairro na véspera de ano novo. Isso me assustou, mas não me ocorreu de ter medo. O estacionamento em volta do meu complexo de apartamentos estava iluminado nos últimos dois dias com os moradores soltando rojões e spinners{20}, crianças correndo com estrelinhas, e estava quase acostumando com o som. Fechei o meu armário e fui em direção a minha sétima aula quando outro tiro foi disparado. Em seguida, os alunos estavam gritando e as pessoas explodindo que alguém tinha uma arma. Eu virei o corredor no caminho para a sala do Sr. Wilson e vi Manny, com o braço erguido como a Estátua da Liberdade, com a sua mão agarrada ao redor de uma arma. Ele estava atirando para o teto e caminhando em direção à porta de Wilson exigindo saber onde Brandon Bates estava. O horror me atingiu como um trem desgovernado. Brandon estava na minha aula de História Europeia na sala do Sr. Wilson. Deixei meus livros e corri atrás de Manny, gritando. — Manny! Manny, pare! — Gritei. Manny nem sequer virou a cabeça. Ele continuou andando e atirando. Três tiros e depois quatro. Ele entrou na sala de aula de Wilson e fechou a porta atrás de si. Um tiro ecoou mais uma vez. Eu voei pela porta segundos depois, esperando pelo pior. Sr. Wilson estava na frente de Manny, uma mão estendida em direção a ele. Manny tinha a arma apontada para a testa de Wilson e estava exigindo saber onde Brandon estava. Os alunos estavam chorando e se juntando debaixo de suas mesas. Eu não vi nenhum sangue, nem corpos e nenhum sinal de Brandon Bates. O alívio me deu coragem. Fui atrás de Manny, de frente para Wilson, embora os olhos de Wilson nunca deixassem o rosto de Manny ou a arma apontada para sua testa, a mão dele me fez sinal para manter distância. Eu me movi para Wilson, dando a Manny um amplo espaço para não assustálo, falando baixinho.


— Manny. Você não quer machucar Wilson. Você gosta dele, lembra? Você disse que ele é o melhor professor que você já teve — Os olhos de Manny oscilavam loucamente para mim e depois se concentraram em Wilson mais uma vez. Ele estava respirando com dificuldade e suando muito, e suas mãos tremiam violentamente. Eu estava com medo que ele, acidentalmente, puxasse o gatilho. A essa distância, ele não erraria Wilson. — Fique longe, Blue! Ele está protegendo Brandon! Todo mundo se abaixe! — Manny gritou, acenando com a arma em todas as direções. — Eu vou estourar a cabeça dele, eu juro — Ele gaguejou as palavras tão em desacordo com a sua voz jovem que eu quase ri. Mas não era engraçado. Nada disso era engraçado. Eu continuei andando e Wilson balançou a cabeça furiosamente, querendo que eu ficasse quieta. Mas eu continuei me movendo. Minhas pernas pareciam pesar 400 quilos e não conseguia sentir minhas mãos. Eu estava completamente paralisada pelo medo. Mas não tinha medo de Manny. Tinha um medo terrível por ele. — Manny. Dê-me a arma, querido. Nenhum de nós está protegendo Brandon — Olhei para os alunos agachados, rezando para que Brandon não estivesse na sala. Vários estudantes levantaram suas cabeças, procurando por Brandon também, mas ninguém falou. — Ele não está aqui, Manny — Wilson ofereceu, sua voz tão calma como se ele estivesse apenas dando outra palestra. — Eu não estou protegendo-o. Estou protegendo você, entende isso? Sua irmã precisa de você, e se você atirar em Brandon ou em qualquer outra pessoa, você irá para a prisão por muito tempo. — Mas ela tem apenas quatorze anos! E ele enviou as imagens para todos! Ela pensou que ele gostasse dela. Disse-lhe para enviar algumas fotos e, em seguida, enviou para todos! Ela tentou se matar, e agora vou matá-lo! — Manny gritou, curvando-se para olhar por baixo das mesas, certo de que eles estavam escondendo Brandon. — E ele vai ter que responder por isso, Manny — Eu o acalmava, agora que estava mais perto dele. Wilson estendeu a mão e agarrou meu braço, me puxando em direção a ele. Ele tentou me empurrar para suas costas, mas dei de ombros fora de seu alcance, mantendo-me entre ele e Manny. Eu


sabia que Manny não iria atirar em mim. Manny havia apontado novamente a arma em direção a Wilson, mas agora eu estava no caminho. — Há foto de você também, Blue! Você sabia? Gabby me mostrou esta manhã. Toda a maldita escola a viu! — Manny gaguejou com seu rosto uma máscara quebrada. Eu tentava me tranquilizar que isso não poderia ser verdade, a mesma humilhação atordoada entupiu minha garganta e se espalhou através dos meus membros, como veneno de cobra. Mantive o meu braço estendido, esperando que Manny cedesse e me entregasse a arma. — Se for esse o caso, então blue não deveria estar com a arma? — Wilson respondeu suavemente. Os olhos de Manny saltaram para Wilson, um olhar chocado em seu rosto. Então ele olhou para mim, e eu mexia os dedos, indicando que ele deveria entregá-la. Ele pareceu considerar o que Wilson disse. Então Manny riu. Foi apenas um ligeiro sorriso, mas o som ricocheteou ao redor da sala com outro tiro. Eu queria cobrir minha cabeça, mas o soluço tornou-se uma gargalhada, e a gargalhada uma risada cheia de ondas que se transformou em soluços. De repente, Manny pareceu perder a sua convicção, e seu braço ficou frouxo, a arma pendurada em seus dedos. Ele enterrou o queixo no peito e deixou os soluços ultrapassá-lo. Wilson contornou e pegou Manny em seus braços, puxando-o mais perto enquanto minhas mãos se fecharam ao redor da arma. Manny deixou levá-la sem protesto, e eu recuei devagar, um passo de cada vez, enquanto eu observava Manny soluçar no peito de Wilson. Mas uma vez que eu tinha a arma, não sabia o que fazer com ela. Eu não queria colocá-la para baixo, e não podia dar a Wilson. Seus braços estavam ao redor de um Manny inconsolável, mais para mantê-lo contido, eu acho que também para oferecer conforto, embora Manny não precise saber disso. — Você sabe como esvaziar a arma? — Wilson me perguntou em voz baixa. Eu balancei a cabeça. Jimmy tinha me ensinado. Rapidamente tirei as balas enquanto Wilson se dirigiu à classe, muitos dos quais tinham começado a se levantar de onde eles haviam encolhido embaixo de suas mesas.


— Alunos - preciso que todos saiam calmamente da sala de aula. Andem, não corram. Quando vocês saírem para o corredor, não parem. Saiam da escola. Estou supondo que a ajuda já está a caminho. Tudo vai ficar bem. Blue fica aqui comigo. Você não pode sair para o corredor com a arma, e eu não posso tirá-la de você agora. Vamos esperar aqui até que cheguem os reforços. Por reforços, sabia o que Wilson falava, significava a polícia, mas estava tentando não alarmar Manny que tinha claramente se desfeito, e era uma bagunça, tremendo em seus braços. Meus colegas se embaralharam para a porta, atirando-se quando irromperam pelo corredor. O corredor estava silencioso e vazio, como se as aulas estivessem acontecendo atrás das portas fechadas. Mas eu sabia que havia professores que tentavam manter seus alunos seguros, encolhidos e aterrorizados por trás dessas portas, chorando, rezando, esperando não ouvirem mais tiros, implorando por socorro, ligando para o 911. Talvez todos tivessem corrido para as saídas quando Manny começou a disparar contra as luzes. Talvez houvesse uma equipe da SWAT subindo as escadas naquele momento. Tudo o que eu sabia, era que quando a polícia chegasse, o meu pequeno amigo estaria saindo algemado, e não voltaria para a escola. Nunca mais. — Coloque a arma e as balas na minha mesa, Blue. Você não vai querer estar segurando isso quando as autoridades chegarem — Wilson instruiu, chamando a minha atenção de volta para a sala de aula, agora vazia e a arma na minha mão. Eu fiz como Wilson pediu, e enquanto me movia em direção a ele novamente, seus olhos encontraram os meus e eu vi o terror do que tinha acabado de acontecer estampado por todo o seu rosto jovem. Era como se, agora que o perigo tinha passado, ele estava repassando todo o evento em sua cabeça, com cenas de bônus e possíveis cortes sangrentos. Então quando eu me perguntava por que não estava tremendo, minhas pernas não me seguravam mais, eu oscilei, agarrando em uma mesa para me abaixar. E, em seguida, a sala estava cheia de policiais gritando instruções e fazendo perguntas. Wilson respondeu-lhes tudo em rápida sucessão, apontando a arma e transmitindo o que havia acontecido em sua sala de


aula. Wilson e eu fomos deixados de lado quando Manny foi cercado, contido e levado da escola. E então os braços de Wilson estavam ao meu redor, me segurando ferozmente quando me agarrei a ele em troca. A frente de sua camisa estava molhada das lágrimas de Manny, e eu podia sentir seu coração batendo violentamente contra minha bochecha. O cheiro de sabão picante e balas de menta que eram exclusivamente Wilson estavam acompanhados pelo aroma acentuado do seu medo, e por alguns minutos nenhum de nós foi capaz de falar. Quando ele finalmente falou, sua voz estava rouca com sentimento. — Você está maluca? — Ele repreendeu seus lábios contra meu cabelo, suas palavras suprimidas e seu sotaque pronunciado. — Você tem mais coragem do que qualquer garota que eu já conheci. Por que, em nome de Deus não se escondeu como qualquer outro aluno com metade de um cérebro! Agarrei-me a ele, tremendo. A adrenalina que tinha me mantido de pé tinha me abandonado. — Ele é meu amigo. E os amigos não deixam amigos... Atiram... Sobre outros amigos — Brinquei com a minha voz trêmula, apesar da minha falsa arrogância. Wilson riu, o som quase vertiginoso e cheio de alívio. Juntei-me a ele, rindo porque tínhamos encarado a morte de frente e vivemos para contar a história, rindo porque eu não queria chorar.

Wilson e eu respondemos as perguntas juntos, e então fomos interrogados novamente separados, e também todos os alunos presentes na sala de aula e nos corredores desde a hora em que Manny entrou na escola. Tinha certeza de que Manny também foi questionado extensivamente, embora rumores abundassem que ele estava sem responder e atualmente em observação. Descobri mais tarde que foi chamado a SWAT, e ambulâncias e equipes de emergência já estavam se reunindo em volta da escola no momento que a classe que estava tendo aula de História Europeia no sétimo período irrompeu pela porta principal do colégio. A maioria dos estudantes foi rapidamente evacuado pelos professores e administradores, quando o drama se desenrolava na sala de aula do Sr.


Wilson, e quando seus alunos tinham fugido do prédio, levando consigo a notícia de que Manny foi desarmado, a polícia simplesmente alcançou o local, entrando rapidamente no prédio. Somente quinze minutos se passaram desde o primeiro tiro em uma luz fluorescente, até quando Manny foi levado em custódia. Parecia uma eternidade. As pessoas diziam que Wilson e eu éramos heróis. Havia câmaras locais em todos os lugares, bem como alguma cobertura nacional do tiroteio na escola que tinha terminado sem derramamento de sangue. Fui elogiada pelo diretor Beckstead pessoalmente, que foi surreal para ambos, com certeza. As poucas vezes que eu estava em sua mira no passado não foram por comportamento heroico, para dizer o mínimo. Sr. Wilson e eu fomos perseguidos durante semanas pela mídia. Mas eu não queria falar com ninguém sobre Manny, e eu recusei todas as entrevistas. Só queria meu amigo de volta, e todos os policiais e as entrevistas só me faziam pensar em Jimmy e da última vez que eu tinha perdido alguém que me importava. Até pensei que eu vi o policial Bowles, o oficial que tinha me puxado na caminhonete de Jimmy uma vez, há muito tempo atrás. Ele estava falando com um grupo de pais quando eu saí da escola naquele dia terrível. Disse a mim mesma que não podia ser ele. E então e se fosse? Não tinha nada para dizer a ele.

Passou um mês desde que Manny tinha perdido a cabeça. Um mês desde que eu tive uma pausa da loucura que se seguiu. Um mês de intensa infelicidade, um mês de desespero para a família Olivares. Eles tinham liberado Manny, enquanto aguardavam uma espécie de audiência, e Gloria pegou os filhos e fugiu. Eu não sabia onde eles estavam, e duvidava que fosse vê-los novamente. Um mês horrível. E então liguei para Mason. Era o meu padrão. Eu não namorava. Eu não saia. Eu fazia sexo. Mason estava feliz pela por isso, como sempre. Eu gostava da aparência de Mason, e gostava da sensação de estar embaixo dele. Mas eu não gostava especialmente de Mason. Eu não analisava o porquê de não gostar dele, ou mesmo se isso devia ser levado em consideração. E então, quando eu o encontrei à minha espera depois da escola parado em sua Harley com os braços cruzados para que eu pudesse ver as tatuagens em seus bíceps


sarados, deixei meu carro no estacionamento da escola e pulei na traseira da moto. Pendurei minha bolsa passando por minha cabeça e coloquei meus braços ao redor de sua cintura enquanto a moto rugia, saindo. Mason adorava andar de moto e à tarde de janeiro estava fria, mas o sol do deserto implacável trespassava. Nós andamos pela estrada por mais de uma hora, atingindo a represa Hoovere e o nosso sinuoso caminho de volta, quando o inverno começou a reivindicar a luz, empurrando de volta o sol, que recuou cedo demais. Eu não tinha prendido os meus cabelos, então o vento chicoteava meus fios em uma massa negra hostil batendo em meu rosto de uma forma que limpa e punitiva, que parecia ser a minha intenção. Mason vivia acima da garagem de seus pais em um apartamento que era acessado por um pequeno conjunto de escadas que nivelava a uma plataforma ali. Subimos para o apartamento dele, com as bochechas ardendo e vermelhas pelo sangue bombeando e revigorado pelo passeio no frio. Eu não queria esperar por conversa mole ou flertes preliminares; eu nunca esperava. Nós caímos sobre sua cama desarrumada sem dizer uma palavra, e eu desliguei o meu coração ansioso e minha cabeça nervosa enquanto o anoitecer descia para mais uma noite, outra fusão sem sentido, outra tentativa de encontrar-me enquanto eu me entregava. Acordei horas mais tarde com uma cama vazia. Música e vozes sangravam através da fina parede que separava o quarto e banheiro de Mason do resto do espaço. Vesti minhas roupas, colocando o meu jeans que eu desprezava, mas continuava vestindo dia após dia. Eu estava morrendo de fome e esperava que Mason e quem mais estivesse lá fora, houvesse encomendado pizza que eu poderia roubar. Meu cabelo estava um emaranhado impossível, meus olhos uma bagunça de círculos pretos, eu passei 20 minutos no banheiro certificando-me que a companhia de Mason não poderia fazer insinuações desagradáveis sobre as atividades da noite. Terminei no banheiro e, por força do hábito, apaguei a luz quando fui para o outro lado. Eu fiz o meu caminho cuidadosamente ao redor da cama, pisando em todas as roupas e sapatos espalhados. O interruptor de luz para o quarto estava na porta da frente, mas o banheiro era do outro lado, fazendo com o caminho um local confuso e traiçoeiro para as minhas botas de salto alto. Fui até a porta que me separava de algo quente e queijo e estava quase perto do interruptor, quando ouvi a porta de fora abrir e Mason saudar seu irmão com um: — E aí, mano?


Eu não tinha visto ou falado com Brandon Bates desde antes do tiroteio. E não queria. Ele não estava na escola naquela tarde, mas eu o culpava inteiramente pelos os eventos que ocorreram. Encolhi-me na porta do quarto, com fome e indecisa, quando ouvi alguém oferecer uma saudação também. — Ei, Brandon? Alguém tentou fazê-lo sair ultimamente? — Era Colby, de todos os amigos de Mason esse era o meu menos favorito. Ele era feio, mau e estúpido. Uma ameaça tripla. E parecia bêbado, o que era um mau presságio para a noite. Eu o evitava sempre que possível. Parecia que esta noite não seria possível. — Ainda não, Colb, mas a noite é uma criança — Brandon brincou, sempre amigável. — Mason disse que você tem algumas fotos da pequena senhorita em seu telefone — Colby falou. — Eles não confiscaram, não é? Mesmo que Graciela tivesse enviado para Brandon suas fotos nuas, Colby estava sendo acusado de solicitar e distribuir essas fotos e o boato era que seus pais estavam lutando com unhas e dentes para sua absolvição. Mas todo mundo sabia o que ele tinha feito. — Cale a boca, Colby, seu idiota — Mason latiu, mas o seu latido não parecia muito firme e eu suspirei, já prevendo o desenrolar disso. Eu iria voltar caminhando para a minha caminhonete, ainda estacionada na escola. Ele e Colby, obviamente, tinham a noite preparada. Lotes de álcool e episódios intermináveis de Ultimate Fighter. — O quê? Eu vi aquela foto que você tem de Blue! Agora aquela menina tem um corpo do caralho - sabe o que estou dizendo - não como a pequena do nono ano{21}! — Colby gargalhou. Meu coração derrapou para uma parada brusca. Mason xingou e jogou algo, suas palavras perdida em uma discussão óbvia, quando algo caiu e obscenidades voaram com vários objetos duros. — Ela está no quarto ao lado, Colby, você é um maldito idiota! — Mason falou, Colby e Brandon começaram a rir, obviamente, não estavam preocupados sobre o fato de que eu pudesse ouvi-los discutindo o meu corpo ou o fato de que Mason tinha tirado uma foto do dito corpo, sem o meu conhecimento ou consentimento.


— Cara, eu vi isso também! — Brandon uivou. — A escola inteira viu. Na verdade, acho que aquela pequena mexicana viu isso no meu celular. Facilitou muito para convencê-la de que todas as garotas mais quentes me enviavam fotos. — Cale a boca! — Mason murmurou, seus sussurros tão audíveis quanto Brandon e Colby rindo. — O que diabos vocês dois estavam procurando no meu telefone? Blue ainda não sabe que eu tirei! Eu tropecei de volta para o banheiro, sem vontade de ouvir mais. Meu estômago revirou, e a fome que eu tinha rosnou para mim momentos antes de se transformar em uma marrenta azeda, e eu me perguntava se eu ia passar mal. Graciela tinha visto uma foto minha nua no telefone de Brandon. Manny tinha me dito. Mas eu tinha me convencido de que era apenas a emoção, apenas um discurso retórico louco, somente para me atingir para estar do lado dele, e o que ele entendia como justiça. Eu não disse nada à polícia sobre o que Manny tinha alegado. Até onde eu sabia, ninguém mais tinha notícia de nenhum dos dois. Lembrei-me da noite que Graciela tinha ficado muito irritada comigo. A noite que Manny e eu tínhamos rolado os olhos e brincado sobre meninas hormonais e as suas paixões. E, de repente, tudo fez sentido. Graciela me observava e me idolatrava. E eu a tinha traído. Ela pensou que eu tinha enviado as fotos a Brandon, um garoto que eu sabia que ela gostava. Um garoto que todos pareciam gravitar para ele, e por um momento, ela foi aquecida pelas luzes das atenções dele. E então ela tinha feito isso também. Meus olhos estavam secos, mas meu peito arfava, em um esforço para conter um grito lancinante e seco, que atingiu ao redor do meu coração e minha garganta ficou obstruída pela culpa. — Eu não sabia! — Implorei a minha consciência por absolvição. Mason tinha tirado essa foto minha sem o meu conhecimento, e seu irmão tinha conseguido se apossar dela. — Eu não sabia — Eu disse desesperadamente, e desta vez a minha voz ecoou no banheiro imundo onde eu me encolhia. Olhei em volta para as roupas sujas, a cortina de chuveiro pendurada, o ranço do vaso sanitário e da pia. O que eu estava fazendo aqui? O que eu tinha feito? Eu escolhi estar aqui! E eu tinha escolhido estar nessa situação com Mason. Eu não sabia sobre a foto. Mas eu não era inocente, também.


Minhas ações provocaram uma cadeia de eventos. Uma menina confusa com fome de afeto que fez uma escolha terrível. Eu estava falando sobre Graciela ou de mim? Eu me enfrentei no espelho e imediatamente desviei o olhar. Minhas ações, mesmo inadvertidas, tinham dado início a escolha de Graciela e por sua vez, a resposta de Manny. Manny, que parecia amar o mundo inteiro e, ainda mais impressionante, ele se gostava. Eu não sou ninguém. Quem é você? — Eu sou Manny — Ele disse, como se isso fosse suficiente. E por que não era? Porque apesar da boa intensão do desejo de ser apenas você mesma, como era mesmo possível, se não sabia quem VOCÊ era? Manny parecia saber, mas ele era tão sensível, como todos nós, as influências de um mundo em que as pessoas agem sem pensar, vivendo sem consciência, e julgando sem entendimento. Peguei minha bolsa e me dirigi de volta pelo quarto. Deveria pedir o telefone de Mason e apagar a foto, ameaçando ir à polícia? Deveria jogar as coisas, gritar e dizer que ele era um bastardo doente e que eu nunca mais queria vê-lo? Será que adiantaria alguma coisa? O segredo já foi revelado, por assim dizer. A foto já estava circulando. E talvez isso fosse justiça. Eu caminhei através da sala de estar e coloquei a minha jaqueta. Colby cuspiu um olá feliz e Brandon parecia desconfortável. Mason estava em silêncio enquanto eu me dirigia para a porta. Ele deveria saber que eu o tinha ouvido falar. — Não vá, Blue — Disse ele enquanto eu caminhava para fora. Mas ele não veio atrás de mim.


Capítulo Nove Escuridão Minha caminhonete estava sozinha na parte de cima do estacionamento. As luzes do estacionamento fizeram pequenas poças alaranjadas no chão, e eu caminhei para a minha caminhonete, grata que a noite estava quase no fim. Meus pés doíam. As botas de salto alto que faziam minhas pernas parecerem mais longas machucavam meus dedos e me faziam mancar os últimos passos. Procurei as chaves na minha bolsa e abri a porta. Ela guinchou alto quando eu a abri, fazendo-me saltar um pouco, embora eu já tivesse ouvido o ranger mais de mil vezes antes. Deslizei para dentro da cabine, fechei a porta e enfiei as chaves na ignição. Clique, clique, clique, clique. — Oh, não! Agora não, por favor, agora não! — Eu lamentei. Tentei novamente. Apenas a série de rápidos cliques pequenos. As luzes nem sequer ligaram. A bateria estava morta. Eu disse uma palavra muito grosseira e bati no volante, fazendo o beep misericordioso da buzina. Considerei dormir no banco da frente. Minha casa estava a quilômetros de distância, e eu estava usando sapatos impossivelmente altos, ridículos. Levaria horas a pé para casa. Cheryl estava no trabalho, de modo que ela não poderia vir me buscar. Mas se eu ficasse aqui, teria pela frente o mesmo dilema na parte da manhã, e eu poderia ser presa andando para casa com a maquiagem de guaxinim e cabelo bagunçado em plena luz do dia. Mason viria me buscar. Ele provavelmente iria responder ao primeiro toque. Empurrei o pensamento da minha cabeça. Eu não ligaria para Mason Bates nunca mais. Isso me deixava com apenas uma opção. Saí da minha caminhonete e comecei a andar, minha raiva alimentando os meus passos. Atravessei o estacionamento e contornei a escola em direção a casa – na direção oposta que eu tinha vindo. Um carro que eu não tinha notado quando cheguei estava estacionado no lado dos professores, mais perto da escola e das portas de entrada. Era o Subaru prata que eu tinha visto o Sr.


Wilson dirigindo pela cidade. Se fosse dele, era porque estava na escola, e poderia me dar uma carona - ou melhor ainda, ajudaria com a minha caminhonete. Eu tinha os cabos. Talvez ele tivesse deixado suas chaves nele, e eu poderia apenas “emprestar” o seu carro, dirigir até a minha caminhonete, conseguir dar a partida no meu carro, trazer o seu carro de volta sem que ele nunca soubesse. Testei a porta do lado do motorista. Sem sorte. Eu testei todas as portas, só para ter certeza. Poderia bater na porta da escola, a mais próxima de onde ele estava estacionado. Mas sua sala era subindo as escadas e no final do corredor no segundo andar. A probabilidade de ele me ouvir batendo era muito pequena. Mas eu conhecia outro acesso à escola. Minha ferramenta tinha quebrado no verão passado e por cerca de um mês eu não tinha o dinheiro para substituí-la. Mas a oficina de marcenaria na escola tinha uma que fiz bom uso muitas vezes. Eu tinha trocado uma peça de metal da fechadura da porta da oficina, deixando o suficiente para que qualquer chave abrisse a porta. Se ninguém tivesse descoberto nos sete meses desde então, eu seria capaz de entrar. Eu poderia ficar em apuros, mas poderia dizer que a porta estava destrancada. De qualquer maneira, eu duvidava que Wilson fosse bisbilhotar. Minha maré de azar tirou umas pequenas férias, porque as chaves do carro virou facilmente a fechadura da porta da oficina. Eu entrei e rastejei através das passagens familiares. O cheiro da escola - desinfetante, almoço escolar e perfume barato - era estranhamente reconfortante. Gostaria de saber como eu iria abordar Wilson, sem assustá-lo. Quando me aproximei da escada que levava ao segundo andar, ouvi algo que me fez parar bruscamente. Eu escutei e meu coração batia como um tambor, o que deixou difícil determinar o que era o som. Prendi a respiração e me esforcei a ouvir. Violino? Era estranho. O psicopata de Hitchcock passou pela minha cabeça. “REE! REE! REE! REE!” Eu tremia. Violinos eram assustadores. O som me fez subir as escadas, seguindo as notas filiformes. Quando cheguei ao segundo andar, o corredor estava escuro e a luz da sala de aula de Wilson chamou minha atenção. Era a única claridade em toda a escola, criando um foco de luz sobre o homem lá dentro. Wilson estava delineado pela estrutura de sua porta, um retângulo brilhante no fim do corredor sombrio. Eu andei em direção a ele, me mantendo perto da parede no caso


dele olhar para cima. Mas a luz que o iluminava também o cegava. Eu duvidava que ele fosse me ver, mesmo que olhasse diretamente para mim. Ele estava enrolado com um instrumento. Eu não sabia o nome disso. Era muito maior do que um violino - tão grande que estava apoiado no chão e ele estava sentado atrás dele. E a música que estava fazendo não era assustadora. Era dolorosamente linda. Era penetrante, mas doce. Poderosa, mas simples. Seus olhos estavam fechados e sua cabeça estava inclinada, como se ele orasse enquanto tocava. As mangas da camisa estavam arregaçadas e seu corpo se movia com o arco, como um guerreiro cansado. Então pensei em Manny. Como Manny tinha observado os antebraços de Wilson e assisti ao jogo dos músculos sob a pele lisa, puxando e empurrando, persuadindo a música suave das cordas sombrias. Eu queria revelar minha presença, para assustá-lo. Queria rir, para zombar dele, para dizer algo sarcástico como eu costumava fazer. Eu queria odiá-lo, porque ele era lindo de uma forma que eu nunca seria. Mas não me mexi. Eu não disse nada. Eu só ouvia. Por quanto tempo, não sei. E enquanto eu continuava a ouvir, meu coração começou a doer com um sentimento que eu não tinha como nomear. Meu coração parecia inchado no meu peito. Levei minha mão ao peito, como se eu pudesse fazêlo parar. Mas com cada nota tocada por Wilson, o sentimento crescia. Não era tristeza e não era dor. Não era desespero ou mesmo remorso. Parecia mais... Gratidão. Senti amor. Imediatamente rejeitei as palavras que tinham surgido em minha mente. Gratidão por quê? Por uma vida que nunca foi gentil? Pela felicidade que eu raramente tinha conhecido? Pelo prazer que tinha sido fugaz e deixou um gosto desesperado de culpa e ódio? Fechei os olhos, tentando resistir à sensação, mas meu coração estava com fome disso, insaciável. O sentimento curativo se espalhou pelos meus braços e pernas, quente e líquido. E a culpa e o ódio escaparam, empurrados para fora pela gratidão por eu estar viva e por poder sentir isso ao ouvir a música. Estava cheia com uma doçura indescritível, diferente de tudo que eu já tinha sentido antes. Deslizei para baixo contra a parede até que eu estava sentada no chão frio de linóleo. Eu inclinei minha cabeça pesada contra os meus joelhos, deixando as cordas tocadas por Wilson desatarem os nós da minha alma e


me libertar dos fardos que eu arrastava como latas e correntes imundas, mesmo que fosse por um momento. E se houvesse uma maneira de deixá-los ir para sempre? E se eu pudesse ser diferente? E se a vida pudesse ser diferente? E se eu pudesse ser alguém? Eu tinha pouca esperança. Mas havia algo na música que sussurrava possibilidades e dava vida a um sonho muito particular. Wilson tocava desconhecendo a faísca que tinha acendido dentro de mim. A melodia de repente mudou, e a música tocada por Wilson foi a que suscitou uma lembrança. Eu não conhecia as palavras. Mas era algo sobre a graça. E então as palavras vieram à minha mente, como se tivessem sido sussurradas em meu ouvido. “Sublime graça! Como é doce o som, que salvou um miserável como eu...” Eu não sabia o que era graça, mas talvez soasse como música. Talvez isso fosse o que eu estava sentindo. Como era doce o som. Incrivelmente doce. Como era doce o som que salvou uma miserável como eu. Uma miserável é a mesma coisa que uma cadela? Ou uma vadia? A minha vida era uma evidência que nem tudo poderia ser salvo. Não era uma evidência de amor - sem o amor de ninguém. Minha cabeça rejeitou firmemente a ideia. A graça não iria me salvar. Mas, no cantinho negligenciado do meu coração recém-despertado pela música, de repente eu acreditava que pudesse. Eu acreditei que poderia. — Deus? — Sussurrei, dizendo o nome de quem nunca tinha falado, exceto em palavrões, nem sequer uma vez. Mas eu tinha cantado o seu nome uma vez, há muito tempo. Senti o nome doce na minha língua, e eu experimentei novamente. — Deus? Eu esperei. A música me estimulou a seguir em frente. — Deus? Eu sou feia por dentro. E não é minha culpa. Você sabe que não é. Eu assumo a responsabilidade por parte dela, mas você tem que assumir a sua parte, também. Ninguém me salvou. Ninguém deu à mínima. Ninguém veio ao meu resgate — Engoli seco, sentindo a dor na garganta, deixando-a machucada para engolir, mas era a dor que estive engolindo por muito tempo, e forcei para baixo. — Então, estou pedindo para você agora. Você pode tirá-la? Pode tirar a feiura?


Algo se quebrou dentro de mim e eu gemi, incapaz de segurar isso. Vergonha quente encharcada me inundou por dentro em ondas de dor esmagadoras. Tentei falar, mas a quantidade era demais. E então engasguei ao final do meu pedido. — Deus? Se você me ama... Leve isso embora. Por favor. Estou pedindo para você levar isso embora. Não quero me sentir assim — Deitei minha cabeça nos meus braços e deixei as lágrimas me consumirem. Eu nunca tinha chorado assim. Eu temia que se eu abrisse as comportas, acabaria me afogando. Mas quando as ondas caíram em cima de mim, não fui consumida, fui varrida, lavada, a minha alma foi coberta com um alívio abençoado. A esperança cresceu dentro de mim como uma boia. E com a esperança, veio à paz. E a paz acalmou as águas e a tempestade, até que eu me sentei consumida, sangrada e acabada. A luz floresceu em cima, iluminando o corredor onde eu me encolhia. Levantei-me, pegando minha bolsa e virando as costas para o homem andando na minha direção. — Blue? — A voz de Wilson estava hesitante, quase incrédula. Pelo menos ele não falou senhorita Echohawk. — O que você está fazendo aqui? Continuei de costas para ele enquanto tentava remover a evidência do que eu acabado de fazer. Esfreguei freneticamente meu rosto, esperando não estar tão destruída como eu me sentia. Eu mantive meu rosto virado quando ele se aproximou. — A bateria da minha caminhonete acabou. Estou parada no estacionamento. Vi seu carro aqui e queria saber se poderia ajudar — Eu disse baixinho, ainda sem fazer contato visual. Mantive meus olhos fixos no chão. — Está tudo bem? — Ele perguntou gentilmente. — Sim — Eu disse. E eu estava. Milagrosamente, estava. Um lenço de tecido branco apareceu debaixo do meu nariz. — Um lenço! Quantos anos você tem, oitenta e cinco? — Humph! Tenho vinte e dois anos, como você bem sabe. Simplesmente fui criado adequadamente, a moda antiga, por uma mulher


inglesa que me ensinou a sempre carregar um lenço. Aposto que você está feliz por ela ter feito isso. Eu estava. Mas não queria admitir isso. O tecido parecia acetinado contra meus olhos inchados e lágrimas nas bochechas. Isso tinha um cheiro divino... Como pinho, lavanda e sabão, e de repente, usando o seu lenço me senti incrivelmente íntima. Procurei algo para dizer. — Esta é a mesma mulher que chamou você de Darcy? A risada de Wilson foi suave. — Essa mesma. — Posso ficar com isso? Eu vou lavá-lo e devolvê-lo. Vou até passar, como sua mãe faz — Eu diabo em mim tinha que dizer isso. — Ah, Blue. Aí está você. Pensei por um momento que você tivesse sido arrancada do corpo por uma garota humana real - aquela que não têm um grande prazer em insultar o professor de história — Ele sorriu para mim, e eu desviei o olhar conscientemente. — Deixe-me pegar minhas coisas. Eu terminei aqui. — O quê? Você vai sair tão cedo? A escola só terminou oito horas atrás — Brinquei, tentando mais uma vez ser normal. Ele não respondeu, mas estava de volta momentos depois, seu instrumento pendurado em suas costas. Ele apertou o interruptor de luz no final do corredor e descemos as escadas em silêncio. — Como foi que você entrou? — Ele perguntou e logo em seguida balançou a cabeça e acenou com a pergunta. — Não importa. Eu realmente não quero saber. No entanto, se na segunda-feira eu achar as paredes pintadas com tinta spray, vou saber para quem apontar o dedo. — Pintura não é meu forte — Funguei ofendida. — Ah, é mesmo? O que exatamente é o seu forte? — Ele fechou a porta atrás de nós quando saímos para a noite. — Madeira — Respondi, perguntando por que eu estava lhe dizendo. Deveria tê-lo deixado pensar que eu era uma artista de graffiti. Quem se importava. “Você” uma pequena voz zombou suavemente. E eu me importava. — O que exatamente você faz com a madeira? — Esculturas.


— Pessoas, ursos, totens, o quê? — Totens?! — Eu não conseguia acreditar. — Isso é suposto ser uma espécie de golpe à minha etnia? — Sua etnia? Pensei que você tivesse dito que não era nativoamericana. — Eu não sei que diabos eu sou, mas isso ainda soou como um golpe, Sherlock! — Por que você não sabe quem você é, Blue? Você nunca tentou descobrir? Talvez isso a deixe menos hostil! — Wilson parecia frustrado. Ele andou na minha frente, quase falando sozinho. — Absolutamente impossível! Ter uma conversa com você é como tentar conversar com uma cobra! Você é vulnerável e chorosa em um momento, e sibilante e atacando no outro. Eu sinceramente não sei como chegar até você, ou até mesmo se quero! Só disse totens porque eles são geralmente esculpidos em madeira, tudo bem? — Ele se virou e olhou para mim. — Você fica rabugento quando passa da hora de dormir, não é? — Eu murmurei. — Viu? — Ele reclamou, jogando as mãos para cima. — Lá vai você de novo — Ele parou no carro, com as mãos nos quadris. — Eu sei que você é incrivelmente brilhante, porque quando não está sendo uma espertinha, seus comentários em sala de aula são muito perspicazes, e quando você ESTÁ sendo espertinha você é espirituosa, inteligente e me faz rir, mesmo quando eu quero bater em você. Eu sei que você é viciada em adrenalina ou tem mais coragem do que qualquer um que eu já conheci, e sabe como descarregar uma arma. Sei que você foi criada por um homem com o nome Echohawk. Sei que não sabe quando é seu verdadeiro aniversário. Eu sei que você não tem planos de ir para a universidade quando se formar. Sei que gosta de ser a palhaça da turma, fazendo-me o alvo de suas piadas. Ele contava nos dedos. — Isso são oito coisas. Ah, e você consegue esculpir algo de madeira. Provavelmente NÃO totens, já que parece provocar uma reação ruim em você. Então, nove, ou talvez dez se contarmos ser uma esperta — Ele colocou as mãos de volta em seus quadris. — Eu realmente gostaria de saber mais. Não quero saber sobre o pássaro pequeno que foi empurrado do ninho. Gostaria de saber algo sobre


a Blue — Ele cutucou no centro do meu peito, forte, quando ele disse “Blue”. — É uma parábola — Eu gemi, esfregando o local que ele apontou com seu dedo comprido. — Meu pai - Jimmy - costumava dizer que eu era como um melro pequeno, longe de casa. — Onze coisas. Veja? Não é tão difícil. — Você é bonitinho quando está bravo — Eu queria irritá-lo, mas acabou soando como um flerte, como se fosse algo que Sparkles e Chrissy diriam. Senti-me estúpida e lancei um olhar para ele. Felizmente, ele apenas revirou os olhos. Engraçado como você pode dizer que alguém está revirando os olhos, mesmo quando está escuro e você mal consegue vê-los. Wilson colocou as mãos nos bolsos, sentindo cada um. Em seguida, ele tentou suas portas do carro. Poderia ter dito a ele que estavam todas trancadas, mas sabiamente permaneci em silêncio. Supunha que seriam doze coisas: eu poderia ser sábia. — Droga — Ele pressionou o rosto contra a janela do carro, com as mãos protegendo os olhos dos dois lados. — Merda! — Você tem uma boca suja, Sr. Wilson — Repreendi, tentando não rir. — Não está explodindo como dizer a palavra com F na Inglaterra? — O quê? Não! Droga, merda e inferno são bastante dóceis... Como maldição. — E droga? Isso soa absolutamente profano — Realmente não, mas eu descobri que estava me divertindo. — Logo você vai dizer caralho! Não acho que o diretor Beckstead aprovaria. — Minhas chaves estão na ignição — Wilson gemeu, me ignorando. Ele endireitou e olhou para mim com sobriedade. — Estamos caminhando, Blue, a menos que você esteja disposta a admitir que tenha certas habilidades... Quebrando e invadindo, talvez? — Eu não preciso de habilidades para quebrar e invadir. Eu só preciso de ferramentas - e não tenho nenhuma comigo — Respondi sem rodeios. — Nós poderíamos enfiar seu grande violino pela janela do carro.


— Sempre uma espertalhona — Wilson virou-se e começou a caminhar em direção à estrada. — Eu vivo cerca de seis quilômetros e meio de distância naquela direção — Informei, mancando atrás dele. — Ah, bom. Eu vivo nove e meio. Isso significa que por pelo menos três quilômetros, não vou ter que ouvir você zombar de mim — Wilson resmungou. Comecei a rir. Ele realmente estava irritado.


Capítulo Dez Cobalto Caminhamos por vários minutos apenas com o clic clack das minhas botas de salto alto para quebrar o silêncio. — Você nunca vai fazer seis quilômetros e meio nesses sapatos — Comentou Wilson pessimista. — Eu vou porque tenho que fazer — Retruquei com calma. — Uma garota durona, hein? — Você tem alguma dúvida? — Nenhuma. Embora as lágrimas dessa noite tenham me deixado questionando. O que foi aquilo? — Redenção — O escuro fez a verdade sair mais fácil. Wilson parou de andar. Eu não. — Você nunca vai fazer nove quilômetros e meio com esse violino nas costas — Eu o imitei, mudando de assunto. — Vou porque tenho que fazer — Ele zombou. — E é um violoncelo, sua tola — Seus passos largos tinham me alcançado de novo em segundos. — Não diga tola. Você soa malditamente ridículo. — Tudo bem, então. Não diga malditamente. Americanos soam tolos quando dizem malditamente. O sotaque é todo errado. Silêncio. — O que você quer dizer com redenção? Suspirei. Sabia que ele iria voltar a isso. Seis quilômetros e meio era muito tempo para fugir dele, então pensei por um momento, perguntando como eu poderia colocar em palavras sem dizer a ele do que eu precisava me redimir. — Alguma vez você já rezou? — Arrisquei.


— Claro — Wilson acenou com a cabeça como se não fosse grande coisa. Ele provavelmente rezava de manhã e a noite. — Bem. Eu nunca rezei. Não até esta noite. — E então? — Wilson cutucou. — Me senti... Bem. Senti os olhos de Wilson em mim no escuro. Caminhamos em síncope por várias respirações. — Normalmente, a redenção implica resgate - ser salvo. Do que você estava sendo salva? — Ele perguntou com a sua voz cuidadosamente neutra. — Fealdade. A mão de Wilson disparou, puxando-me para parar. Ele procurou meu rosto, como se estivesse tentando vislumbrar o significado por trás das minhas palavras. — Você é muitas coisas, Blue Echohawk, eu posso até citar doze — Ele sorriu um pouco. — Mas feia não é uma delas. Suas palavras me fizeram sentir engraçada por dentro. Fiquei surpresa por elas. Tinha assumido que ele nunca tinha notado meu físico. Eu não sabia se eu queria. Só balancei a cabeça e ele encolheu os ombros e começou a andar de novo, respondendo a ele quando segui. — Eu tive um monte de coisas horríveis na minha vida, Wilson. Ultimamente o feio vem sendo mais do que posso suportar. Retomamos nossa marcha constante pelas ruas calma. Boulder City estava incrivelmente tranquila. Se Vegas era a cidade que nunca dormia, então Boulder foi feita para isso. Ela dormia como um bêbado em uma cama de penas. — Tudo bem. Então, faltam mais dois. Estamos no quatorze. Você teve uma vida horrível, mas não é feia. E você gosta de rezar nos corredores escuros no meio da noite. — Sim. Sou fascinante. E agora já são quinze. — Eu pensei que depois do tiroteio, a escola seria o último lugar que você gostaria de ir para a oração... Ou redenção.


— Eu realmente não escolhi o local, Wilson. Eu fiquei presa. Mas se Deus é real, então é igualmente real na escola como é na igreja. E se ele não é... Bem, então, talvez, minhas lágrimas foram para Manny e todo o resto dos desajustados perdidos que andam por esses corredores sozinhos e poderiam precisar de um pequeno resgate. — Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca vi as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum... — Wilson murmurou. Olhei para ele com expectativa. — Sozinho de Edgar Allan Poe. Desajustado. Solitário. Poeta. Eu deveria saber. Eu gostaria de conhecer as linhas que ele citou para que eu pudesse continuar o poema de onde ele parou. Mas eu não conhecia e não podia, por isso, o silêncio reinou mais uma vez. — Então me diga por que você não sabe quando nasceu — Disse Wilson, abandonando Poe. — Você gosta de cutucar as cicatrizes? — Eu revidei. — O quê? Por quê? — Porque você continua cutucando a minha, e isso meio que dói — Lamentei, esperando que meus apelos patéticos de “ai” acabassem com o interrogatório. — Oh, bem, então. Sim. Acho que amo mexer nas cicatrizes. Fale-me sobre isso. Temos ainda quase cinco quilômetros a percorrer. Suspirei pesadamente, indicando a ele que não era da sua conta. Mas eu continuei a lhe dizer, de qualquer maneira. — Minha mãe me abandonou quando eu tinha por volta de dois anos. Nós não sabemos exatamente quantos anos eu tinha. Ela me deixou na caminhonete de Jimmy Echohawk e foi embora. Ele não a conhecia, e eu não tinha idade suficiente para dizerlhe qualquer coisa. Ele não sabia o que fazer comigo, mas tinha medo que, de alguma forma, ele estivesse envolvido em algum tipo de crime ou de que alguém pensasse que ele tinha me sequestrado. Então, ele foi embora. Levou-me com ele. Ele não era exatamente convencional. Ele vagava por aí, fazia esculturas para viver, vendia a diferentes lojas turísticas e algumas galerias. E foi assim que vivemos os próximos oito anos. Ele morreu quando eu tinha dez ou onze anos. Mais uma vez, eu não tenho nenhuma ideia


quantos anos eu realmente tenho, e acabei com Cheryl, que é meia-irmã de Jimmy. — Ninguém sabia quem eu era ou de onde vim, e eu pensava que Jimmy fosse meu pai. Cheryl não me disse isso por uns três anos. Não havia registro, então, com a ajuda dos tribunais, eles me deram uma certidão de nascimento, um número de segurança social, e eu sou oficialmente Blue Echohawk, nascida em 02 de agosto, que foi o dia que Jimmy me encontrou e era o dia em que comemorávamos meu aniversário. Os serviços sociais pensavam que eu tinha uns dez anos, que era mais ou menos o que Jimmy e eu achávamos. Então, eles estimaram que eu tivesse nascido em 1991. Então lá vai. Estou com dezenove anos... Talvez até vinte anos nessa altura, quem sabe. Um pouco velha para o último ano no colegial, mas hey! Talvez seja por isso que sou tão inteligente e madura — Eu sorri. — Muito — Disse Wilson suavemente. Ele parecia estar processando meu conto improvável, absorvendo em sua cabeça, dissecando. — Meu aniversário é 11 de agosto, o que me faz três anos mais velho do que você, quase no mesmo dia — Ele olhou para mim. — Acho que é um pouco bobo para mim, chamá-la de senhorita Echohawk. — Não me importo tanto assim, Darcy — Eu sorri inocente, docemente mesmo. Ele bufou com meu comentário. A verdade era que eu não me importava. Quando ele dizia “senhorita Echohawk” daquele jeito arrogante, isso me fazia sentir como se eu tivesse um upgrade ou uma transformação. Senhorita Echohawk soava como alguém que eu gostaria de me tornar. Alguém sofisticada e elegante, alguém que eu poderia aspirar. Alguém muito diferente de mim. Meu celular vibrou contra meu quadril, e eu puxei para fora do meu bolso apertado. Era Mason. Considerei não atendê-lo, mas pensei nos quilômetros que eu e Wilson ainda tínhamos que caminhar. — Mason? — Blue. Baby... Onde está você? — Oh, cara. Ele parecia tão bêbado. — Vim fui a sua procura. Você está com raiva de mim? Estamos na sua caminhonete, mas você não está aqui. Você não está aqui, certo? — De repente, ele parecia duvidoso, como se eu fosse saltar para fora em algum lugar.


— Minha bateria morreu. Estou voltando para casa, Mason, ao longo da Adams. Quem está com você? — Esperava que alguém menos embriagado. — Ela está com Adam — Eu ouvi Mason dizer isso a alguém, e o telefone parecia ter caído. Alguém amaldiçoou e o telefone parecia ter sido empurrado de um lado para outro. — Quem é Adam, Blue? Foi por isso que você saiu tão cedo, sua vadia! — A voz de Colby soava para mim. Ele deu uma gargalhada estridente, e segurei o telefone longe do meu ouvido. Eu tinha certeza que Wilson podia ouvir a conversa, a voz de Colby era tão alta. — Estou na Adams... Na rua, Colby — Eu disse tão claramente quanto poderia. A ligação caiu. Incrível. — Bem. Podemos ser salvos — Eu disse taciturna. — Mas talvez não. E pode ser melhor se nós não formos. — Eu percebi — Wilson balançou a cabeça. — Este dia foi para o livro dos recordes. Não demorou muito para que as luzes nos prendessem em seu brilho, e nos virássemos para o veículo que se aproximava. Puxei o braço de Wilson. Não queria que ele fosse atropelado pela equipe de resgate. Era a caminhonete de Mason, e ele estava dirigindo. Colby estava pendurado para fora da janela do passageiro como um grande cão, com a língua batendo e tudo. — Ei, Adam! Você conseguiu um pedaço de bunda também? — Colby riu, e eu senti o nojo enrolar em minha barriga. Nojo de mim, e nojo do garoto que pensou que poderia falar de mim como se eu fosse lixo. — Estes são seus companheiros? — Perguntou Wilson rigidamente, içando seu violoncelo mais para cima nas costas. Balancei a cabeça uma vez rapidamente, muito humilhada para olhar para ele. — Entre, Blue — Mason gritou do outro lado. Colby abriu a porta e acenou para mim. Fiquei na calçada. — Esses garotos estão completamente bêbados — Disse Wilson cansado. — Eu não reconheço nenhum deles. Eles não estão em nenhuma


das minhas aulas. — Eles já se formaram. Mason tem a mesma idade que você. Colby é um ano mais novo — Ambos tinham saído da escola há anos. Infelizmente, nenhum dos dois havia se mudado para além do campo de futebol, onde ambos haviam se destacado. — Você precisa me deixar dirigir, Mason. Ok? — Eu sabia que se falasse agressivo, ele iria embora, era preferível eu dirigir para eles neste momento, já que não deveriam estar dirigindo. — Claro baby. Você pode sentar no meu colo. Vou deixar você dirigir. Sei que você gosta de pegar no câmbio! — Mason gritou, o tempo todo olhando para Wilson como se quisesse bater nele. Comecei a andar. Eles poderiam sofrer um acidente e pegar fogo. Mason gritou para parar e saiu da caminhonete, cambaleando atrás de mim. A caminhonete parou. Aparentemente, Mason não tinha colocado em ponto morto antes de decidir me perseguir. Wilson estava em cima de Mason em um flash, e com um soco rápido, a cabeça de Mason rolou sobre seus ombros e afundou em uma pilha com Wilson lutando para sustentar seu peso. — Puta merda! — Colby estava meio fora da caminhonete, uma perna dentro, uma perna no chão. — O que você fez para ele, Adam? — A porra do meu nome não é Adam! — Wilson rosnou. — Agora venha me ajudar a tirar o seu companheiro estúpido... Fodido... Do caralho, ou como você o chama — Wilson aparentemente, teve o suficiente. Eu não tinha ideia do que ele fez para dominar Mason. Mas fiquei agradecida. Corri para o lado dele, ajudando-o a arrastar Mason para onde Colby estava congelado em um estupor embriagado. Abri a porta traseira, e conseguimos rolar Mason para a caçamba. Infelizmente, mesmo com Mason inconsciente na parte de trás, eu tinha que sentar esmagada entre Colby e Wilson, que surpreendentemente sabia como dirigir um veículo com câmbio manual. Colby correu o braço ao longo da parte de trás do meu banco, descansando a mão possessiva no meu ombro. Eu lhe dei uma cotovelada na lateral e me movi para perto de Wilson tanto quanto pude, ficando com o câmbio muito próximo. O braço direito de Wilson


pressionava contra mim e ele fazia uma careta cada vez que trocava de marcha, como se odiasse me tocar. Dane-se. Eu não sentaria perto de Colby. Voltamos para a escola e Colby ficou emburrado em silêncio enquanto fazíamos a minha caminhonete funcionar. Até que ele decidiu passar mal, ou seja, vomitou em todo o lado do passageiro da caminhonete de Mason. Wilson só cerrou os dentes e voltou para a cabine, abrindo sua janela com movimentos irritados. — Vou seguir você até a casa de Mason — Ele falou como se toda a confusão fosse culpa minha. Dirigi na frente com minha caminhonete, mantendo Wilson no meu espelho retrovisor. Quando chegamos, içamos Mason para fora caminhonete e pelo porão da casa de seus pais. De forma alguma que nós conseguiríamos carregar Mason pelas escadas até seu apartamento em cima da garagem. Ele pesava cerca de 90 quilos, e isso tudo era peso morto. Nós o jogamos no sofá e seus braços caíram teatralmente. — Será que ele vai ficar bem? — Eu observei seu peito subir. Wilson bateu as bochechas de Mason bruscamente. — Mason? Mason? Vamos amigo. Sua garota está preocupada que eu matei você — Mason gemeu e empurrou as mãos de Wilson. — Está vendo? Ele está ótimo. Nenhum dano feito — Wilson marchou para fora da casa. Colby caiu em uma poltrona reclinável e fechou os olhos. A diversão tinha terminado. Eu puxei o porão fechando atrás de mim e corri atrás de Wilson. Ele levantou seu violoncelo da parte traseira da caminhonete de Mason. — As chaves estão no painel, mas eu tranquei as portas. Será melhor se ele não tiver outra chave. Estou esperando que isso o atrase se ele e seu amigo decidirem resgatar mais alguém hoje à noite, ou, melhor ainda, ir atrás de você — Ele me encarou furiosamente e colocou seu violoncelo na minha caminhonete. Subiu no lado do passageiro, e eu deslizei atrás do volante, com raiva porque ele estava irritado. Sai da entrada da casa de Mason com meu temperamento queimando com o guincho dos meus pneus.


— Não é minha culpa que você trancou SUAS chaves no SEU carro. Isso não tem nada a ver comigo. — Por favor, me leve para casa. Eu cheiro a cerveja, pizza e vômito. #16 - Blue tem péssimo gosto para amizades. — Todos os britânicos ficam miseráveis a meia-noite, ou é só você? E o que você fez lá atrás, afinal? Você é um professor da escola e toca violoncelo! Você é o mais nerd que eu conheço. Você não deveria saber Kung Fu. Wilson fez uma careta para mim, aparentemente, não apreciando o comentário nerd. — Eu honestamente não sei o que eu fiz. Foi pura sorte. Eu só atingi seu queixo. Ele desceu — Nós dois estávamos em silêncio, contemplando as probabilidades. — Isso foi incrível pra caralho. Assustada com a sua admissão, minha cabeça girou e meus olhos encontraram os dele. Eu não sei quem começou a rir primeiro. Talvez fosse eu, talvez tenha sido ele, mas em poucos segundos estávamos sibilando e gargalhando. Mal conseguia dirigir de tanto que eu estava rindo. E isso foi incrível pra caralho. Acabei levando Wilson à sua casa para pegar as chaves reserva e depois voltamos para a escola, para ele pegar o carro. Ele morava em uma grande casa antiga que estava sendo reformada. A maioria das casas mais novas na área de Las Vegas era de estuque, e seria difícil encontrar algumas casas que eram de tijolos. Mas em Boulder City as coisas não faziam sentido, tinha casas mais antigas do que mais novas e menos planejamento comunitário. Algumas estruturas mais antigas ainda dominavam Buchanan Street, onde ficava sua casa. A casa de Wilson era incluída em uma lista da sociedade histórica, até que com a falta de fundos ficou impossível de mantê-la. Wilson me disse que era um lixo quando ele tinha comprado um ano atrás. Eu informei a ele que ainda era, sorrindo para tirar a ferroada das minhas palavras. Mas eu conseguia ver como era atraente. Ela era enorme, feita de tijolo vermelho em um estilo que parecia mais adequado para um campus universitário do Leste do que em um bairro de uma pequena cidade do deserto. Wilson disse que tudo na Inglaterra era


antigo e não era com 70 anos de idade, como esta casa, mas centenas e centenas de anos de idade. Ele não queria viver em uma casa onde não havia nenhuma história, e sua casa tinha tanta história como você encontraria em uma cidade do Oeste. Eu deveria ter imaginado isso. Quando caminhamos até os degraus da frente, notei que ele tinha colocado uma pequena placa na porta, daquelas com letras douradas que normalmente indicavam o endereço da casa. Ali estava escrito Pemberley. Isso era tudo. — Você nomeou a sua casa de Pemberley? — O nome era familiar, mas eu não conseguia me lembrar de onde. — É uma pequena piada — Ele suspirou. — Minhas irmãs acharam que seria engraçado. Elas fizeram isso e Tiffa me surpreendeu no meu aniversário. Eu continuo dizendo a mim mesmo que eu vou tirar isso, mas... — Sua voz desapareceu e eu deixei isso pra lá. Eu jogaria Pemberley no Google quando tivesse a chance, só para ficar por dentro na brincadeira. Uma grande quantidade de trabalho foi feita no interior. As portas da frente se abriam em um hall de entrada dominada por um grande conjunto de escadas que se curvaram para o segundo andar. Era lindo, mas achava que foi a madeira escura e pesada que me conquistou. Os pisos combinavam com o enorme corrimão de mogno que curvava graciosamente até o segundo andar, onde se transformava em um balaústre grosso que fazia um grande círculo abaixo do teto arqueado. Havia dois quartos completamente acabados, um no segundo andar e outro no nível principal. Outro ainda estava em construção, que deveria ser concluído em breve, de acordo com Wilson. O apartamento térreo era ocupado por uma senhora de idade que Wilson parecia ter bastante afeição. Eu não a encontrei. Era meia-noite, depois de tudo. Wilson morava no outro. Eu estava curiosa para ver como eram suas acomodações, mas fiquei para trás, me perguntando se ele gostaria que eu ficasse para fora. Ele era meu professor, e quase tudo o que tinha acontecido naquela noite poderia custar o seu emprego, ou pelo menos deixá-lo em apuros, embora fosse uma vítima inocente nesse caso. Ele parecia aliviado que eu não entrei, mas deixou a porta aberta. Eu conseguia ver que o piso de madeira escura se estendida em seu quarto, que ele chamou de “flat.” As paredes eram pintadas com um verde claro.


Duas gravuras emolduradas de mulheres africanas carregando tigelas em suas cabeças estavam penduradas no longo corredor que conduzia para o resto do espaço. Bonito. Eu não sabia o que estava esperando. Talvez prateleiras e prateleiras de livros, e uma poltrona de veludo com encosto alto na qual Wilson pudesse fumar um cachimbo, vestindo um blazer smoking vermelha durante a leitura de grandes livros empoeirados. Ele trocou seu violoncelo por um segundo conjunto de chaves e uma camiseta limpa e jeans. Ele não estava sujo de vômito, mas insistia que ele cheirava a isso. Eu nunca o tinha visto em outra coisa além de calça social e camisas. A camiseta era de um azul suave confortável e seu jeans era desbotado, embora parecesse caro. Ele não tinha comprado na Hot Topic. Por que ele parecia ter muito dinheiro mesmo quando se estava com jeans e camiseta? — Calça{22} bonita — Eu comentei quando ele se aproximou de mim na porta. — UH-huh? — Wilson gaguejou. E então sorriu. — Oh, uh. Obrigado. Você quer dizer minha calça. — Calça? — Sim. As calça é roupas íntimas, veja. Pensei que... Um. Não importa. — Roupa íntima? Você chama calça de roupa íntima? — Vamos, vamos? — Ele fez uma careta, ignorando a pergunta e fechando a porta atrás de si. Ele parecia tão diferente, e eu tentei não olhar. Ele era... Gostoso. Ugh! Revirei os olhos para mim e entrei de volta na minha caminhonete, me sentindo triste de repente. Passei a viagem de volta até o carro dele em contemplação silêncio, querendo que Wilson não se intrometesse nisso até chegarmos à escola. Antes que ele saísse, olhou para mim sério, os olhos cinzentos cansados na insignificante sombra desencadeada por sua porta aberta. Então ele estendeu a mão e apertou a minha, dando-lhe uma breve agitada. — Aqui está a redenção. Vejo você na segunda-feira, Blue — E ele saiu da minha caminhonete e saltou para seu Subaru. Abriu facilmente e deu um pequeno aceno. — Aqui está a redenção — Eu repeti para mim mesma, na esperança de que tal coisa existisse.


Capítulo Onze Tiffany O Beverly's Cafe ficava na Rua Arizona, no centro de Boulder City, um restaurante remodelado na parte antiga da cidade, fundada em 1930, quando Hoover Dam estava sendo construída. Boulder City era uma cidade planejada, com os serviços básicos necessários e foi totalmente construída pelo governo dos EUA para abrigar os trabalhadores da barragem após a Grande Depressão. Ela tinha ainda a maior parte das estruturas originais, juntamente com um hotel interessante, não muito longe de Bev, que foi construído nos primeiros dias. Boulder City era uma mistura estranha de grande cidade com coisas descartáveis e as tradições do Velho Oeste que fazia a maioria das pessoas coçarem a cabeça. Não era muito longe de Las Vegas - mas o jogo é ilegal. Ela mantinha o apelo de comunidade cidade pequena que Vegas não poderia se gabar. Eu conhecia Beverly, a dona do café, desde os meus dias com Jimmy. Ela tinha uma pequena loja de presentes no café que era preenchida com a arte do sudoeste, pinturas, cerâmica, cactos e várias antiguidades. Ela pegava o trabalho de Jimmy em comissão, e parecia que Jimmy sempre gostou dela. Jimmy tinha mantido minha existência bastante discreta, mas Beverly era gentil com ele e boa para mim. Ele confiava nela e era um dos lugares onde deixamos baixar um pouco a guarda. Eu tinha comido muitas vezes nas grandes mesas de couro vermelho. Há alguns anos atrás, quando eu tinha idade suficiente para dirigir e dar a volta sozinha, eu me aproximei de Beverley procurando um trabalho. Ela era uma mulher acima do peso, agradavelmente roliça, com cabelo vermelho e um jeito acolhedor. Sua risada era tão grande quanto seus seios, o que era bastante impressionante, e ela era tão popular com seus clientes como seus milk-shakes e cheeseburgers duplos com jalepenos eram. Ela não tinha me reconhecido até que eu disse a ela o meu nome. Em seguida, o queixo caiu e ela saiu de trás da caixa registradora, me abraçando com força. Foi a mais genuína expressão de preocupação que alguém tinha me mostrado uma vez... Desde que... Sempre.


— O que aconteceu com vocês dois, Blue? Jimmy me deixou com cinco esculturas, e eu vendi todas elas, mas ele nunca mais voltou. Eu tive pessoas que queriam o seu trabalho, pedindo por isso. No começo fiquei confusa, me perguntando se eu tinha feito alguma coisa errada. Mas eu tinha dinheiro para entregar a ele. Certamente ele teria voltado para pegar o dinheiro. E então eu comecei a me preocupar. Passaram-se pelo menos cinco anos, não é? — Seis — Eu a corrigi. Beverly me contratou naquele mesmo dia, e eu trabalhava para ela desde então. Ela nunca disse nada sobre a minha aparência ou o meu gosto por homens. Se ela achava que a minha maquiagem era um pouco demais ou meu uniforme apertado, ela também nunca disse. Eu trabalhava duro, e era confiável, então ela me deixou ficar. Ela até me deu o dinheiro da venda de esculturas de Jimmy seis anos atrás. — Está aqui tirando os meus vinte por cento, além de seis anos de juros — Ela havia dito o assunto com naturalidade. — E se você tiver mais de suas esculturas, vou pegá-las. Foram quinhentos dólares. Eu tinha usado para comprar ferramentas e garantir o aluguel do depósito atrás do apartamento. E eu tinha começado a esculpir de verdade. Não brincava mais como tinha feito desde que Jimmy morreu. Eu ataquei a arte com uma ferocidade que eu não sabia que era capaz. Algumas das minhas esculturas eram horríveis. Algumas não eram. E eu fui ficando melhor. Eu separei algumas esculturas de Jimmy, e terminei as que ele não teve a chance de completar. Então, vendi tudo com o seu nome - o meu nome também, Echohawk - e quando foi tudo dito e feito, eu tinha feito mais $ 500. Com isso e o valor da poupança de um ano, eu comprei a minha pequena caminhonete. Ela era surrada e tinha 100.000 milhas rodada. Mas funcionava e me dava o transporte que eu precisava para ampliar minhas captações de madeira. Eu tinha praticado em cada tronco de árvore que conseguia pegar em minhas mãos, mas não era como se houvesse vastos bosques ao meu redor. Eu vivia em um deserto. Felizmente, Boulder City ficava acima na base das colinas com algaroba crescendo em abundância suficiente para que eu pudesse recolher e, praticamente escolher o que eu queria. Eu fiquei muito boa em usar um motosserra. Ninguém se preocupava com as algaroba


raquíticas de qualquer maneira. E eu tinha que admitir, cortá-la era terapêutico de uma forma muito visceral. Depois de um ano de conseguir um emprego no café, eu tinha vendido algumas das minhas peças e tinha mais ou menos dez peças que revestiam as prateleiras da pequena loja de Beverly em todos os momentos. Três anos depois, eu tinha um pé de meia de milhares de dólares. Eu estava trabalhando quinta-feira a noite no horário do jantar, quando o Sr. Wilson entrou no café com uma mulher bonita com um grande casaco de pele. Seu cabelo era uma massa de cachos loiros presos no alto da cabeça, e ela usava pequenos diamantes em suas orelhas, bem como saltos agulha pretos e meia arrastão. Ela parecia que estava vindo de algum lugar muito chique ou era uma daquelas mulheres que nunca se cansam de se arrumar. O casaco de pele era tão fora de lugar com a decoração do café, que eu me encontrei tentando não rir quando me aproximei de sua mesa para anotar os pedidos. Ela encolheu os ombros tirando seu casaco e sorriu para mim brilhantemente, quando eu perguntei se poderia trazer-lhes algo para beber. — Estou com tanta sede! Eu vou querer uma jarra cheia de água, querida e bastante nachos, se os tiver só para começar — Ela cantarolou com um sotaque acentuado. Ela era britânica também. Olhei do Wilson para a mulher e vice-versa. — Olá, Blue — Wilson sorriu para mim educadamente. — Blue é uma das minhas alunas, Tiffa — Ele ofereceu, me apresentando para a mulher em frente a ele. As sobrancelhas de Tiffa dispararam em descrença quando ela mais uma vez me deu uma rápida olhada em mim. Eu tive a sensação de que ela não achava que eu me parecia uma estudante. Sua mão se estendeu rapidamente e eu aceitei hesitante. — Você é a garota que pegou a arma do pobre rapaz? Wilson me falou tudo sobre você! Que belo nome! Sou Tiffa Snook, sou a irmã de Darcy, er, Sr. Wilson. Você vai ter que me dizer o que pedir! Eu poderia comer um unicórnio e limpar meus dentes com seu chifre! Estou absolutamente faminta — Tiffa despejou tudo isso em cerca de dois segundos, e eu encontrei-me gostando dela, apesar do seu casaco de pele. Se ela não


tivesse mencionado o vínculo familiar, eu teria pensado que Darcy gostava de mulheres mais velhas. — Tiffa está sempre morrendo de fome — Wilson acrescentou secamente e Tiffa bufou, jogando o guardanapo nele. Mas ela riu e deu de ombros, admitindo o ponto. — É verdade. Eu vou ter que correr por horas para tirar esses nachos, mas não me importo. Então me diga Blue, o que devemos pedir? Sugeri várias coisas, me perguntando o tempo todo em que Tiffa Snook trabalhava se ela usava meia arrastão e um casaco de pele para comer no café. Eu conseguia vê-la correndo na esteira com salto alto e coberta com uma roupa e ginastica de pele. Ela era tão magra como um palito e muito alta, e exalava energia. Ela provavelmente precisava comer um cavalo - ou um unicórnio - apenas para alimentar seu nível de energia. Eu encontrei-me observando Wilson e sua irmã durante toda a sua refeição, e não foi só porque eu era sua garçonete. Eles pareciam desfrutar da companhia um do outro, e suas risadas frequentemente enchiam sua mesa. Parecia ser Tiffa a falar a maior parte do tempo, seus gestos e movimentos das mãos acentuando tudo o que ela dizia, mas Wilson tinha rido descontroladamente mais de uma vez. Quando eles finalmente sinalizaram que queriam a conta, Tiffa estendeu sua mão pegando a minha mão, como se fôssemos velhas amigas. Era tudo que eu podia fazer para não puxar de volta. — Blue! Você tem que resolver isso para nós! Darcy aqui diz que você sabe alguma coisa sobre esculturas. Há algumas esculturas fabulosas que vi ali na loja. Você não sabe nada sobre elas, não é? Eu passei mal com a súbita autoconsciência e por um minuto eu não sabia como responder. — Uh, o que você gostaria de saber? — Eu perguntei com cautela. — Darcy diz que seu nome está gravado na base de todos. Eu disse a ele que não poderia ser. Sem ofensa amor, mas elas são experientes, se isso faz algum sentido. — Elas são minhas — Eu disparei. — Se isso é tudo o que precisa, aqui está sua conta. Você pode pagar no caixa. Obrigada por terem vindo — Corri para longe sem fôlego, e invadi a cozinha como se alguém estivesse


atrás de mim. Eu encontrei-me realmente à procura de algum lugar para me esconder, como se Wilson e sua irmã fossem realmente me perseguir e me atacar, jogando-me no chão. Depois de um minuto de covardia, eu criei coragem suficiente para espiar pelas portas giratórias que separa a cozinha da sala de jantar. Eles andando pela loja de presentes, parando ao lado de várias das minhas peças. Tiffa correu os dedos ao longo de uma delas, comentando com Wilson, embora eu não conseguisse ouvir o que ela dizia. Fiquei impressionada com a minha autoconsciência mais uma vez, o horror e euforia guerreando no meu peito. Afastei-me, não querendo ver mais. Era perto da hora de fechar, e o café estava quase vazio, então consegui me esconder na cozinha, fazendo meus deveres para encerramento e esperando que eles saíssem. Cerca de meia hora mais tarde, Jocelyn, a gerente do turno da noite, veio irrompeu pelas portas duplas da cozinha, com o rosto envolto com sorrisos. — Oh meu Deus! Oh meu Deus, Blue! Sabe aquela senhora naquele agradável casaco de pele? Ela acabou de comprar todas as suas esculturas. Cada uma delas! Ela pagou tudo com seu cartão de crédito e disse que iria enviar uma caminhonete para buscá-los na parte da manhã. Você acabou de ganhar mais ou menos US $ 1000 dólares! Havia dez delas! Eu estava andando atrás dela com uma calculadora e nós somamos todas elas, mais ela acrescentou uma gorjeta de US $ 200 para você, porque disse que elas eram “pateticamente subvalorizadas!” — Ela balançou os dedos, indicando citações. — Ela comprou todas elas? — Eu rangia. — Todas, exceto uma, e isso foi porque o cara com que ela estava insistiu que queria! — Qual? — Todas elas! — Não, quero dizer, qual era o que o cara quis? — A mais próxima da saída. Venha aqui! Vou mostrar-lhe onde estava. Ele levou com ele.


Ela gritou como uma menina e se virou, correndo da cozinha quando eu corri atrás dela. Eu estava meio surpresa com seu óbvio entusiasmo para comigo. — Não! Estava aí! — Jocelyn apontou para um grande espaço vazio em uma prateleira alta. — Ela tinha um título engraçado... The Arch? Sim! Acho que era isso. Wilson tinha levado “The Arch”. Senti uma vibração por ele ter reconhecido pelo que era. Eu tinha encontrado um pedaço de algaroba que escondia uma curva em sua linha. Lentamente, eu tinha cortado a madeira, formando a sugestão de uma mulher de joelhos, costas curvadas como um gato, profundamente curvada em adoração ou subserviência. O corpo dela formava um arco, esticando os braços para além de uma cabeça que quase beijava o chão com as mãos que se fecharam em punhos cerrados em súplica. Tal como acontecia com todas as minhas peças, era completamente abstrata, a sugestão de uma mulher, simplesmente isso, uma sugestão, uma possibilidade. Alguns podem simplesmente ver a madeira altamente polida, moldada em linhas longas e depressões provocantes. Mas quando eu a havia esculpido, tudo o que eu conseguia ver era Joana. Tudo o que eu conseguia ouvir eram as suas palavras. “Viver sem crença é um destino pior que a morte”. Minha Joana d' Arc. E foi isso que Wilson tinha comprado.

Cerca de uma semana depois, eu entrei na sala de aula de Wilson e parei tão de repente, que as pessoas que estavam andando atrás de mim colidiram como dominós humanos, criando um pequeno engarrafamento na porta. Fui empurrada e meus colegas se queixaram descontentes fazendo seus caminhos ao redor da minha forma inerte. Minha escultura estava colocada em uma mesa no centro da sala. Wilson estava junto à sua mesa, falando com um aluno. Olhei, desejando que ele olhasse para cima, para explicar qual era seu jogo. Mas ele não o fez. Eu fiz meu caminho lentamente para a minha mesa, na frente e ao centro, colocando-me em frente escultura que eu tinha criado com minhas próprias mãos. Eu não tinha que olhar para as longas linhas ou madeira reluzente para saber onde eu tinha corrigido um furo ou cortado mais fundo do que eu havia planejado. Eu poderia fechar os olhos e lembrar-me


de como eu me sentia ao formar a sugestão de curvas femininas arqueando como o contorno do mapa da França nas costas da escultura. — Blue? — Wilson falou de onde estava parado em sua mesa. Eu virei minha cabeça lentamente e olhei para ele. Eu não achei que a expressão no meu rosto era especialmente amigável. Ele não reagiu ao meu olhar penetrando e calmamente me fez um pedido. — Venha aqui, por favor. Aproximei-me com cuidado e parei na frente da sua mesa, com os braços cruzados. — Eu quero que você fale para a classe sobre a sua escultura. — Por quê? — Porque é brilhante. — E? — Eu ignorei o prazer que inundou meu peito em seu pronunciamento. — Você chamou a de “The Arc”. Por quê? — Eu estava com fome... Pensando sobre McDonalds, sabe? — Hmm. Eu vejo. Como nos arcos dourados — Um pequeno sorriso se contorceu nos cantos da sua boca. — Você não escreveu mais do que um parágrafo na sua história pessoal. Talvez existam outras maneiras de compartilhar quem você é. Eu pensei que talvez essa peça fosse sobre Joana d'Arc, o que tornaria especialmente relevante. Considere-a um crédito extra... Que, francamente, é o que você precisa. Eu considerei responder com a famosa frase “Francamente, meu querido, eu não dou a mínima”. Mas isso não era verdade. Eu me importava. Em um pequeno canto do meu coração, o pensamento de falar sobre a minha escultura me enchia de alegria. Mas o resto do meu coração estava apavorado. — O que você quer que eu diga? — Eu sussurrei com o pânico escorrendo para fora e arruinando a minha postura de garota durona. Os olhos de Wilson suavizaram, e ele se inclinou para mim do outro lado da mesa. — Que tal se eu lhe fizer algumas perguntas e você as responde. Eu vou entrevistá-la. Então você não terá que pensar em coisas para dizer.


— Você não vai me perguntar qualquer coisa pessoal... Sobre o meu nome ou meu pai... Ou qualquer coisa assim, vai? — Não, Blue. Eu não vou. As perguntas serão sobre a escultura. Sobre o seu dom incomum. Porque, Blue, o seu trabalho é brilhante. Tiffa e eu ficamos fascinados. Ela não consegue parar de falar sobre você. De fato — Wilson enfiou a mão no bolso da camisa e tirou um cartão. — Tiffa pediu que eu lhe desse isso. Era um cartão preto brilhante com letras douradas. Tiffany W. Snook The Sheffield era tudo o que dizia. Um número de telefone e uma conta de e-mail enfeitando o canto direito. Corri meus dedos sobre as letras gravadas e, em seguida, olhei para ele com desconfiança. — A Sheffield é o grande hotel na extremidade sul que se parece com uma propriedade Inglesa, certo? Aquela em que sua amiga trabalha? — Tiffa é curadora, tanto para o museu de arte como para a galeria. Ela comprou nove de suas peças na sexta à noite. Você sabia? Ela teria comprado dez, mas pedi-lhe para me deixar ter apenas uma. — Eu sabia que ela havia comprado. Apesar de não saber por que. Eu ainda não estou certa do que faço. — Ela quer colocar algumas de suas peças na galeria e ver como vão. O Sheffield vai dividir se elas venderem. Mas ela vai dar-lhe o que restar, menos a parte que ela já pagou. — Mas ela comprou. Ela pode fazer o que quiser com elas. Wilson balançou a cabeça. — Ligue para ela, Blue. Se você não fizer isso, ela vai caçá-la. Ela é muito persistente. Agora, a classe está esperando. Os alunos atrás de mim não estavam esperando. Eles estavam ruidosamente aproveitando o fato de que a aula não tinha começado, mas eu não discuti com ele. Voltei para o meu lugar, me perguntando quanto tempo levaria até que Wilson me envergonhasse. Não demorou muito. — Muitos de vocês estão provavelmente se perguntando sobre esta escultura deslumbrante — Eu gostaria que ele desistisse das descrições ridículas e me encolhi um pouco. Ele se virou em direção a um rapaz que estava sentado à minha direita chamado Owen Morgan. — Owen, você pode ler a palavra esculpida aqui na base da escultura?


Owen levantou-se e se abaixou para que pudesse ver a palavra que Wilson estava apontando. — Echohawk — Owen leu. — Echohawk? — Ele repetiu com uma inflexão surpresa. Owen virou a cabeça para mim, as sobrancelhas levantadas em dúvida. Eu realmente não gostava muito de Wilson naquele momento. — Sim. Echohawk. Esta peça é chamada de “The Arc” e foi esculpida por Blue Echohawk. Blue concordou em responder algumas perguntas sobre seu trabalho. Pensei que todos iriam se interessar. Levantei-me e me movi ao lado de Wilson, mas mantive meus olhos focados na escultura, de modo que eu não teria que fazer contato visual com ninguém na sala. A classe tinha ficado em silêncio atordoado. Wilson começou perguntando algumas coisas básicas sobre ferramentas e diferentes tipos de madeira. Eu respondi facilmente, sem embelezar e encontrei-me relaxando com cada questão. — Por que você esculpe? — Meu... Pai... Ensinou-me. Eu cresci observando-o trabalhar com madeira. Ele fazia coisas bonitas. Entalhar me faz sentir perto dele — Fiz uma pausa, reunindo meus pensamentos. — Meu pai disse que escultura requer olhar para além do que é óbvio, para o que é possível. Wilson acenou com a cabeça como se entendesse, mas Chrissy se intrometeu da primeira fila. — O que você quer dizer? — Ela perguntou, com a expressão forçada quando inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse tentando descobrir o que ela estava olhando. — Bem... Pegando esta escultura, por exemplo — Eu expliquei. — Era apenas um enorme pedaço de algaroba. Quando eu comecei, não era nada bonito. Na verdade, isso era feio e pesado e foi um pé no saco para entrar na minha caminhonete. Todos riram, eu estremeci e murmurei um pedido de desculpas pela minha linguagem. — Então nos diga sobre esta escultura, em particular — Wilson ignorou o riso e continuou reorientar a classe. — Você chamou de “The Arch”. Que eu achei fascinante.


— Eu acho que, se algo está realmente na minha mente... Ele tende a sair pelas minhas mãos. Por alguma razão, eu não conseguia tirar a história de Joana d'Arc da minha cabeça. Ela me atraía — Eu confessei, inclinando um olhar para Wilson, esperando que ele não achasse que eu estava bajulálo. — Ela me inspirou. Talvez fosse por ela ser jovem. Ou corajosa. Talvez fosse porque ela era forte em um momento em que as mulheres não eram especialmente valorizadas por sua força. Mas ela não era apenas forte... Ela era... Boa — Eu terminei timidamente. Eu estava com medo de que todo mundo fosse rir de novo, sabendo que “boa” não era algo que já tinha sido aplicada a mim. A classe tinha ficado quieta. Os meninos que geralmente batiam na minha bunda e faziam sugestões lascivas estavam olhando para mim com expressões confusas. Danny Apo, um garoto polinésio gostoso que eu tinha transado uma ou duas vezes, estava inclinado para a frente em sua cadeira, suas sobrancelhas negras baixadas sobre os olhos igualmente negros. Ele ficou olhando de mim para a escultura e depois de volta novamente. O silêncio era irritante, e eu olhei para Wilson, na esperança de que ele fosse preenchê-lo com outra pergunta. — Você disse que escultura é ver o que é possível. Como você sabia por onde começar? — Ele tocou a inclinação graciosa de madeira, correndo seu longo dedo sobre a cabeça curvada de Joana. — Havia um pedaço de tronco que tinha uma ligeira curva. Algumas partes da madeira tinham apodrecido, e quando eu tirei tudo, consegui a ver um ângulo interessante que imitava a curva. Eu continuei a cortar, criando o arco. Para mim, parecia a coluna de uma mulher... Como uma mulher orando — Meus olhos dispararam para Wilson, imaginando se as minhas palavras trouxeram à sua mente a noite que ele havia me descoberto no corredor escuro. Seus olhos encontraram os meus por breves instantes e em seguida, foram reorientados para a escultura. — Uma coisa que notei, quando vi todo o seu trabalho em conjunto, foi que cada peça é muito original - como se a inspiração por trás de cada uma fosse diferente. Eu balancei a cabeça. — Todas elas contam uma história diferente.


— Ahhh. Ouviram isso classe? — Wilson sorriu amplamente. — E eu nem sequer disse a Blue para falar isso. Todo mundo tem uma história. Cada coisa tem uma história. Eu disse a vocês. A classe riu e reviraram os olhos, mas eles tinham a intenção de discutir e suas atenções permaneceram em mim. Uma sensação estranha tomou conta de mim, enquanto eu olhava para os rostos das pessoas que eu conhecia há muitos anos. As pessoas que eu conhecia, mas nunca realmente as conheci. Pessoas que eu tinha muitas vezes ignorados, e que tinham me ignorado. E fiquei impressionada com o pensamento de que elas estavam me vendo pela primeira vez. — É uma questão de perspectiva — Eu disse hesitante, dando voz à minha súbita revelação. — Eu não sei o quanto você vê quando olha para isso — Eu balancei a cabeça em direção minha escultura. — Eu não posso controlar o que você vê, ou como interpreta o que vê mais do que posso controlar o que pensa de mim. — Essa é a beleza da arte — Wilson sugeriu calmamente. — Todo mundo tem sua própria interpretação. Eu balancei a cabeça, olhando para o mar de rostos. — Para mim, esta escultura conta a história de Joana d' Arc. E ao contar a sua história... Eu acho que devo contar a minha própria, em algum grau. — Obrigado, Blue — Wilson murmurou e eu rastejei para o meu lugar, aliviada por ter acabado, o calor de tanta atenção pesando na minha pele. A sala ficou abafada por um instante mais, e então meus colegas começaram a bater palmas. As palmas eram modestas e não abalaram a sala em aplausos estrondosos, mas para mim, foi um momento que não esquecerei enquanto viver.

Descobriu-se que Pemberley era o nome da casa do Sr. Darcy de Jane Austen de Orgulho e Preconceito. Essa era a piada interna. Tiffa tinha chamado a casa de Wilson de Pemberley para provocá-lo sobre o seu nome. Isso me fez gostar ainda mais dela. E o meu respeito para ela não tinha nada a ver com o fato de que ela parecia amar minhas esculturas, embora, isso certamente não doía.


Liguei para o número do cartão que Wilson me deu e apreciei os dez minutos de elogios efusivos em um inglês muito bom. Tiffa estava convencida de que ela poderia vender tudo o que tinha comprado no café e a preços significativamente mais elevados. Ela me fez prometer que eu continuaria esculpindo e também que um contrato seria enviado para eu assinar. O Sheffield pegaria uma parte do que seria vendido em sua galeria, que incluiria o percentual de Tiffa, mas eu ficaria o resto. E se as peças fossem vendidas com os preços que Tiffa tinha certeza de venderia, minha porcentagem ainda seria substancialmente maior do que antes. E a exposição seria impagável. Eu tinha que continuar me beliscando no decorrer da conversa, mas quando acabou, eu estava convencida de que o esforço para me tornar um Blue diferente, fez a minha sorte mudar também. Naquela noite, sexta-feira, em vez de esculpir, eu assisti todas as versões de Orgulho e Preconceito que eu poderia ter em minhas mãos. Quando Cheryl arrastou-se em casa do trabalho, oito horas depois, eu ainda estava sentada no sofá olhando para a televisão com os créditos rolando. O sotaque inglês tinha deixado muito fácil substituir Wilson para cada representação de Sr. Darcy. Ele até tinha os olhos tristes do ator que interpretava ao lado de Keira Knightley. Eu encontrei-me vendo-o em cada cena, irritada com ele, chorando por ele, meio apaixonada por ele quando tudo foi dito e feito. — O que você está assistindo? — Cheryl resmungou, observando Colin Firth passar pela tela do menu uma e outra vez, esperando que eu apertasse o play. — Orgulho e Preconceito — Eu respondi, ressentindo da intrusão de Cheryl no meu brilho pós-Darcy. — Para a escola? — Não. Eu quero. — Você está se sentindo bem? — Cheryl olhou para mim. Eu acho que não poderia culpá-la. As minhas preferências geralmente se voltaram para The Transporter e velhos filmes Duro de Matar. — Eu estava com vontade de algo diferente — Eu disse, não cordialmente.


— Sim, acho que sim — Cheryl olhou desconfiada para a tela. — Eu nunca me importei para essas coisas esnobes. Talvez fosse, porque naqueles dias, seria eu a esfregar as panelas na cozinha. Inferno, garota. Você e eu teríamos sido as meninas que o duque perseguiu na cozinha! — Cheryl riu para si mesma. — Definitivamente não somos material para duquesa, isso é certo — Cheryl olhou para mim. — Claro que sendo nativas, significa que não estamos em qualquer lugar perto da Inglaterra, certo? Eles não poderiam nos ter nem mesmo esfregando as panelas. Eu apontei o controle remoto para a tela e Sr. Darcy desapareceu. Eu puxei meu travesseiro sobre meu rosto e esperei até que Cheryl entrasse em seu quarto. Ela tinha arruinado oito horas perfeitas de fingimento, em dez segundos. E pior ainda, ela me lembrou de que “Eu não era material para duquesa”. Eu entrei no meu quarto me defendendo mentalmente. Era perfeitamente aceitável ter uma paixão por um personagem fictício. A maioria das mulheres tinha! Cheryl, com toda a sua insistência em me dar um choque de realidade, tinha uma coisa por vampiros, para o inferno com isso! Mas esse não era o problema, e no fundo, eu era muito honesta para negar. Era perfeitamente possível ter uma queda pelo fictício Sr. Darcy, mas não era aceitável ter uma coisa para o real. E eu tinha uma coisa para meu jovem professor de história. Sem dúvida alguma.


Capítulo Doze Encouraçada O teste deu positivo. Fiz vários outros ao longo dos próximos dias, até que eu não podia mais me convencer de que todos os resultados estavam errados. Eu estava grávida. De pelo menos oito semanas pelos meus cálculos. Eu tinha dormido com Mason na noite em que Wilson e eu ficamos presos na escola, e eu o tinha evitado desde então. Ele ligou e mandou uma mensagem, mas tirando as mensagens iradas no meu correio de voz, fazendo insinuações sobre “Adam” ele se manteve longe. Ele provavelmente sentia-se culpado sobre a foto, mas eu realmente esperava que seguisse em frente, porque eu tinha seguido. Eu tinha seguido em frente, mas a vida tinha me arremessado de volta. E fiquei arrasada. Eu perdi uma semana de escola, ligava dizendo que estava doente para não trabalhar, e dormia constantemente, incapaz de encarar a verdade. A náusea que me obrigava a enfrentar a possibilidade de que eu poderia estar com problemas, em primeiro lugar, desceu sobre mim com força total, deixando mais fácil me chafurdar e esconder. Cheryl estava na maior parte do tempo alheia, mas depois de uma semana sem sair de casa, eu sabia que teria que me “recuperar” ou correria o risco de ter que explicar para Cheryl o que havia algo de errado comigo. Eu não estava preparada para essa conversa ainda, então eu me recompus, voltei para a escola e retomei meus turnos normais no café. Mas o conhecimento era como um pedaço doloroso tentando trabalhar o seu caminho para fora, constantemente ali, logo abaixo da superfície, impossível de escapar, impossível de erradicar, e em pouco tempo, impossível de ignorar.

Nós tínhamos falado sobre a Inquisição Espanhola por uma semana, e a correlação entre a inquisição e as caças as bruxas foi o monólogo de Wilson para começar o dia.


— Nós pensamos em bruxaria como um fenômeno principalmente medieval, mas cerca de 100 mil pessoas foram julgadas por bruxaria entre os séculos XV e XVIII. Desses julgados, aproximadamente 60.000 foram executados. Queimados na fogueira, mais frequentemente do que não. 75% dos executados eram mulheres. Por que os números desproporcionais? Bem, mulher são mais suscetíveis à influência do diabo — As sobrancelhas de Wilson ergueram-se quando as meninas na classe imediatamente tiveram problemas com a sua declaração. — O quê? — Ele levantou as mãos em sinal de protesto simulado. — Tudo começou com Adão e Eva, não é? Pelo menos essa era a lógica da igreja durante todo o período medieval e os próximos. Muitas das mulheres que foram acusadas eram pobres e idosas. As mulheres também trabalhavam como parteiras e curandeiras. Elas eram as únicas que cozinhavam e cuidavam dos outros, então a ideia delas cozinharem uma poção ou veneno ou lançar um feitiço era um rótulo mais fácil de colocar em uma mulher do que em um homem. Homens resolviam as coisas com os punhos, mas as mulheres eram menos físicas e mais verbais, talvez mais propensas a darem uma bronca que poderia ser interpretada como maldição de uma bruxa. Acho interessante que na história tudo que era preciso fazer era simplesmente desacreditar uma mulher para rotulá-la como bruxa. Como é que vamos desacreditar uma mulher hoje? A classe olhou para Wilson, sem entender. E então isso clicou. — Você a rotula de puta — Eu ofereci com ousadia. A classe engasgou, como era costume, quando alguém deixava um termo ruim voar. Embora Wilson não tenha vacilado. Ele só olhou para mim pensativo. — Sim. Muitas vezes a mesma coisa. Vamos comparar. Ao longo da história, as mulheres foram definidas pela beleza. Seu valor era ligado ao seu rosto, não é? Então quando uma mulher envelhece e sua beleza desvanece, o que acontece com o seu valor? A classe estava acompanhando agora. — Seu valor diminui, mas e sobre a sua liberdade? De certa forma, uma mulher que não é mais bela, não compete pela mão do homem mais rico ou mais é elegível e pode ter menos a perder. Uma velha de cinquenta anos em 1500 poderia não ter tanto medo de falar o que pensava como uma menina


de quinze anos que sente a pressão para se casar, e casar bem. Dessa forma, a mulher menos atraente pode ser mais livre, mais independente, do que a menina bonita. — Hoje em dia, as mulheres ainda são julgadas de acordo com seus atributos físicos, mais ainda do que os homens. Mas os tempos mudaram, e as mulheres não necessariamente precisam de homens para cuidar delas. As mulheres hoje têm menos a perder por falar seus pensamentos, e chamar alguém de bruxa é bastante ineficaz. Então, nós usamos as mesmas táticas que foram usadas há muito tempo, apenas palavras diferentes. Acho interessante, porém, que o rótulo usado para desacreditar uma mulher forte e independente só mudou a escrita. A classe riu, e Wilson sorriu com a gente antes de ele seguiu em frente. — O que nos leva ao nosso projeto de final de ano. O rótulo que você usa? Por que você usa isso? Muitos de vocês são adolescentes e estarão movendo-se para o mundo maior. Você não tem que continuar usando o rótulo que usou. Você vai escolher arrastá-lo junto com você e vesti-lo em seus novos círculos, ou vai escolher lançá-lo e fazer um novo nome para si mesmo? — Wilson olhou para os rostos atentos que o cercavam. — Infelizmente, na escola, e muitas vezes na vida, somos definidos pelos nossos piores momentos. Pense sobre Manny — A sala ficou em silêncio com a contemplação, e Wilson fez uma pausa, como se a memória fosse difícil para ele também. — Mas para a maioria de nós, fazemos pequenas escolhas, pequenos atos, pequenos momentos que compõem as nossas vidas, dia após dia. E se você olhar para isso dessa forma, os rótulos são muito imprecisos. Nós todos temos que usar mil rótulos com mil descrições diferentes para descrever a nós mesmos honestamente — Wilson caminhou até sua mesa. — Aqui. Pegue um e passe o restante para trás. Vá em frente — Wilson entregou uma pilha de páginas brancas pesadas para a primeira pessoa em cada fila. Cada página tinha cerca de vinte rótulos sobre ele. Eu peguei uma página e entreguei o resto para o garoto atrás de mim. — Se eu lhes dissesse para descolar cada etiqueta e colá-la em si mesmos e, em seguida, caminhar pela sala e deixar diversas pessoas escreverem algo sobre você - apenas uma palavra, como bruxa, por


exemplo - no rótulo, o que você acha que escreveriam? Devemos tentar isso? Eu senti um o pavor inundar a minha barriga como cera quente. Houve um mal-estar geral na sala de aula, e as pessoas começaram a resmungar e murmurar sob suas respirações. — Não gostam dessa ideia, não é? Sorte de vocês que eu não gosto disso. Para começar, as pessoas ou seriam muito boas ou muito brutais - e teríamos muito pouca honestidade. Em segundo lugar, embora IMPORTE o que os outros pensam de você... Sim, eu disse isso, isso, importe — Wilson fez uma pausa para se certificar de que estávamos ouvindo. — Nós todos gostamos de jogar fora esses clichês fofinhos, mas em um sentido do negócio, no sentido de relacionamento, em um sentido no mundo real, isso IMPORTA — Ele enfatizou “importe” e olhou para todos nós novamente. — Embora isso seja importante, não interessa tanto quanto o que nós pensamos de nós mesmos, porque, como discutimos no início do ano, nossas crenças afetam nossas vidas de maneiras muito reais. Elas afetam a nossa história. Assim. Então, eu quero que VOCÊ se rotule. Vinte rótulos. Seja o mais honesto possível. Cada rótulo deve ser uma palavra - duas no máximo. Faça-o pequeno. As etiquetas são apenas isso... Pequenas e implacáveis, não são? Wilson abriu uma enorme caixa de canetas pretas e começou a entregar uma para cada aluno da classe. Marcador permanente. Bom. Eu vi como todo mundo ficou ocupado ao meu redor. Chrissy se absteve do marcador pelas suas canetas gel e ficou ocupada escrevendo palavras como “incrível” e “bonita” em seus rótulos. Fiquei tentada a escrever CHUTE-ME em um de meus rótulos e pregar em sua bunda. Então eu ia escrever VÁ PARA O INFERNO sobre o resto deles e pregá-los um por um na testa de Wilson. Ele era tão irritante! Como alguém que eu gostava poderia me deixar tão irritada? A imagem de Wilson com rótulos na testa me fez sorrir por um segundo. Mas só por um segundo. Esta atribuição era seriamente confusa e degradante. Olhei para os pequenos quadrados brancos na minha frente, apenas me esperando para dizer como isso seria. O que eu colocaria? Grávida? Ligeiramente grávida? Isso se qualificaria. Duas palavras, certo? Ou que tal Vadia? Talvez... PERDEDORA? Que tal ferrada? Acabada? Fundo


do poço? Game Over? A palavra que me veio a cabeça em seguida me fez estremecer. Mãe. Oh, inferno não. — Eu não posso fazer isso! — Eu disse em voz alta, enfaticamente. Todo mundo olhou para mim com as canetas paradas e bocas abertas. E eu realmente não tinha falado sobre o trabalho. Mas eu descobri que não conseguia fazer isso também. Eu não faria isso. — Blue? — Wilson questionou em voz baixa. — Eu não vou fazer isso. — Por que não? — Sua voz era tão suave, muito suave. Eu gostaria que ele gritasse de volta. — Porque é errado... E é... Estúpido! — Por quê? — Porque é incrivelmente pessoal! É por isso! — Eu joguei minhas mãos no ar e empurrei os rótulos para o chão. — Eu poderia mentir e escrever um monte de palavras que não significam nada, palavras que não acredito, mas então qual seria o ponto? Então, não vou fazer isso. Wilson encostou-se ao quadro negro e olhou para mim com as mãos levemente entrelaçadas. — Então você está me dizendo é que se recusa a se rotular. Certo? Eu olhava para ele com frieza. — Você se recusa a se rotular? — Ele perguntou novamente. — Porque se esse é o caso, então acabou de passar neste pequeno teste com louvor — Um protesto foi iniciado ao meu redor, os alunos se sentindo como se tivessem recebido a pior parte porque eles tinham feito o que foi pedido. Wilson simplesmente ignorou e continuou. — Eu quero que vocês joguem os rótulos á distância. Descole-os, rasgue-os, rabisque-os, jogue-os no lixo. Senti o calor de o confronto deixar meu rosto e meu coração retomar um ritmo mais normal. Wilson desviou o olhar, mas eu sabia que ele ainda estava falando para mim, especialmente para mim. — Nós escrevemos nossas histórias ao longo dos anos. Mas agora eu quero que vocês pensem sobre o futuro. Se vocês previrem o futuro com base no seu passado, como será o futuro? E se vocês não gostarem da


direção que estão indo, que rótulo que vocês precisam jogar? Quais dessas palavras que vocês escreveram para se descreverem devem ser abandonadas? Todas elas? Qual o rótulo que vocês desejam para si? Como vocês se rotulam se as etiquetas não foram baseadas no que vocês pensavam de si, mas o que vocês queriam para si? — Wilson pegou uma pilha de pastas. Uma por um começou a passálas. — Eu tenho organizado todas as páginas dos seus históricos nestas pastas. Tudo o que tenho escrito desde o primeiro dia. Esta é a última página das suas histórias pessoais. Agora. Escrevam o seu futuro. Escrevam o que vocês querem. Retirem as etiquetas. Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas para onde iria? Estava com medo... Porque ela sabia que não era um falcão. E ela não era um cisne, um belo pássaro. Ela não era uma águia, digna de admiração. Ela era uma pequena melra. Ela se encolheu no ninho escondendo a cabeça debaixo de suas asas, desejando ser resgatada. Mas ninguém veio. A pequena melra sabia que podia ser fraca, e podia ser pequena, mas não tinha escolha. Ela tinha que tentar. Ela iria voar para longe e nunca olhar para trás. Com um profundo suspiro, ela abriu as asas e se empurrou para dentro do grande céu azul. Por um minuto ela voou constante e crescente, mas então ela olhou para baixo. O chão abaixo se levantou rapidamente para encontrá-la enquanto ela entrava em pânico, e girou em direção a terra.


Imaginei o pássaro oscilando à beira do ninho, tentando voar, em seguida, caindo e batendo no concreto abaixo. Uma vez eu tinha visto um ovo que tinha caído de um ninho em um pinheiro enorme perto do nosso complexo de apartamentos. Um filhote de pássaro, parcialmente formado, tinha ficado na casca rachada. Eu joguei meu lápis para baixo e levantei-me da minha mesa, respirando com dificuldade, sentindo-me como se fosse quebrar também, e a parte cortadas de Blue chovesse sobre a sala em uma exibição horrível. Peguei minha bolsa e corri para a porta, precisando sair. Ouvi Wilson chamar atrás de mim, me dizendo para esperar. Mas eu corri para a saída e não olhei para trás. Eu não podia voar para longe. Esse era o retrocesso. O pequeno pássaro na história já não era eu. Minha história agora era sobre alguém completamente diferente.

Eu tinha ido a Planned Parenthood{23} antes. Eu tinha conseguido o controle de natalidade ali, embora a última rodada tivesse, obviamente, falhado comigo. Eu pesquisei todos os controles de natalidade possíveis e as razões que podem falhar. Talvez fossem os antibióticos que eu tinha tomado após o Natal, ou o fato de que eu tinha inexplicavelmente tomado uma pílula extra e nenhum dia a mais, ou seja, eu tinha perdido uma em algum lugar. Seja qual for à razão, o teste ainda foi positivo, e eu ainda não havia tido um período. Eu tinha ligado dias antes e marcado uma consulta para depois da escola - apesar de ficar sem aula tivesse me dado tempo suficiente para chegar lá com tempo de sobra. A senhora na recepção era prosaica se não amigável. Eu preenchi um formulário médico, respondi a algumas perguntas, e em seguida, sentei-me em uma cadeira de metal, com uma almofada preta e virei às páginas em uma revista cheia de “mulheres mais bonitas do mundo”. Eu me perguntei se alguma delas já tinha ido para a Planned Parenthood. Seus rostos me encaravam das páginas brilhantes, resplandecendo em suas coloridas plumas. Sentia-me pequena, fria e feia, como um pássaro com penas molhadas. Chega de pássaros! Eu empurrei o pensamento longe e virei à página.


Eu me perguntei se minha mãe tinha vindo para um lugar como este, quando ela estava grávida de mim. O pensamento de repente parou. Eu nasci no início dos anos noventa. Muito pouco mudou nos últimos vinte anos, certo? Teria sido muito fácil para ela fazer um aborto, quanto era para mim. Então por que não tinha feito? Do pouco que eu sabia sobre ela, meu nascimento não era conveniente para ela. Eu definitivamente não era desejada. Talvez ela simplesmente soubesse de mim tarde demais. Ou talvez ela tivesse a esperança de me usar fazer o seu namorado voltar com ela, amá-la, cuidar dela. Quem diria? Eu com certeza não. — Blue? — Meu nome foi chamado, um grande ponto no fim, como sempre era o caso quando alguém lia o meu nome. As pessoas estavam sempre tendo a certeza de que estavam se confundindo. Peguei minha bolsa e caminhei até a porta, onde a enfermeira estava de pé me esperando juntar a ela. Sem mesmo esperar que a porta se fechasse atrás de nós balançando, ela me informou que iriam precisar de uma amostra de urina e me entregou um copo. — Quando estiver pronto, escreva seu nome no rótulo, anexe-o a sua amostra, e entregue diretamente para mim. Vamos testar para a gravidez e doenças sexualmente transmissíveis. Você terá seu resultado de gravidez hoje, mas os resultados de DST vão demorar mais tempo — Ela me levou para o banheiro e esperou até que eu entrei e fechei a porta. Eu olhei para o rótulo que eu deveria anexar ao copo. Havia um lugar para o meu nome e uma local para o horário, temperatura e data da amostra, que eu assumi que seria concluído depois que eu terminasse a inspeção. A palestra de Wilson dos rótulos encheu minha cabeça. ... E se vocês não gostarem da direção que estão indo, que rótulo que precisam jogar? Quais dessas palavras que vocês escreveram para se descreverem devem ser abandonadas? Eu ia colocar meu nome em um copo de urina. Eles iriam me dizer que eu estava grávida. Em seguida, iriam me aconselhar em abortar a gravidez, porque, era por isso que eu estava aqui. Logo, eu seria capaz de retirar metaforicamente o rótulo de “grávida”, rabiscar isso, jogá-lo fora e


terminar. Já não seria verdadeira. E eu gostaria de ser capaz de mudar a direção que eu estava indo. Etiqueta abandonada. Assim como minha mãe tinha me abandonado. Revirei os olhos para a comparação que meu cérebro excessivamente emocional tinha imediatamente pulado para fazer. Não era a mesma coisa. Abandonar um filho e abandonar uma gravidez. Eu disse-me que os dois não eram sequer comparáveis. Corri e consegui a amostra, rabisquei meu nome no rótulo e tapei o copo quente que me fez muito consciente de que eu provavelmente precisava beber mais água, e muito envergonhada que a enfermeira estaria pensando a mesma coisa.

— Parabéns. O teste não tinha levado muito tempo. Eu me perguntei se eles usaram o mesmo teste que eu tinha usado dez vezes em casa. — Parabéns? — Sim. Você está grávida. Parabéns — Disse a enfermeira, inexpressiva. Eu não sabia o que dizer. Parabéns parecia a palavra completamente errada, considerando que eu fui aconselhada sobre os serviços de aborto ao telefone quando eu tinha marcado a minha consulta. Mas eu não detectei a zombaria. Esta era, obviamente, apenas a resposta padrão, ou segura... Eu supunha. — Eu vejo que você tem conversado com.. — Ela olhou para sua prancheta. — Uh, Sheila... Sobre suas opções? Sheila era a menina no telefone quando eu tinha ligado para uma consulta. Ela era boa. Eu fiquei grata por ter alguém com quem conversar. Desejei que Sheila fosse à pessoa comigo agora. Esta enfermeira era assim... Seca com seus parabéns enlatados. Eu precisava pensar. — Sheila está aqui? — Uhhhh... Não — Disse a enfermeira, claramente confusa com a minha pergunta. Então ela suspirou. — Você terá que marcar outra consulta para o seu procedimento, se é isso que decidiu fazer.


— Posso ter o meu xixi de volta, por favor? — Eu interrompi de repente desesperada, querendo sair. — O q... Que? — Eu só preciso, quero dizer, não quero o meu xixi colado com o meu nome nele. Posso tê-lo, por favor? A enfermeira olhou para mim como se eu fosse louca. Em seguida, ela tentou me tranquilizar. — Tudo é completamente confidencial. Você entende isso, certo? — Eu quero ir agora. Pode me dar o meu xixi? A enfermeira levantou-se, abriu a porta com seus olhos correndo de um lado para o outro como se estivesse procurando algo para me imobilizar. —E não há tal coisa completamente confidencial! — Eu sai um pouco para fora da sala com a bolsa na mão, em uma missão para encontrar minha amostra etiquetada. De repente, senti como se minha vida tivesse reduzido a esse rótulo, ao meu nome em uma etiqueta branca, pressionada em uma amostra de urina. Eu estava cruzando o Rubicão. Era isso. E esse rótulo era tudo que eu conseguia pensar. A enfermeira parecia abalada, mas não discutiu comigo. Ela me entregou o meu frasco e suas mãos tremiam. Peguei-o e corri, como uma ladra em uma loja de conveniência, esperando que ninguém pudesse me identificar, sabendo que a probabilidade de me safar era quase nula, sabendo que meu problema tinha acabado dez vezes pior. No entanto, como o ladrão, eu me sentia empolgada em adrenalina, com a decisão que eu tinha feito. Eufórica com o poder que eu tive de jogar a minha vida direto para o brejo... Ou proteger a vida, independentemente da forma como você olhava para isso. Falando jogar, eu ainda segurava a amostra de urina perto do meu peito. Eu coloquei no painel de instrumentos na minha caminhonete e olhei para o meu nome sob a luz do teto. Blue Echohawk. Data: 29 de março de 2012; Horário: 17h30min. Fora do interior do meu carro, já estava escuro. Em Vegas no inverno, o sol se punha por volta das cinco horas. Estava completamente escuro agora. Olhei para o meu nome novamente. Pensei nas palavras de Cheryl para mim no dia terrível quando o afogamento parecia ser uma alternativa mais palatável do que viver sem Jimmy.


Ele nem sabia o seu nome. Ele disse que você só ficava dizendo Blue, Blue, Blue. Então, foi assim que ele a chamou. Meio que ele se apegou, eu acho. Blue Echohawk não era o meu nome. Não realmente. Talvez eu tivesse sido nomeada Brittney, Jessica ou Heather. Talvez Ashley, Kate ou Chrissy, Deus me livre. Eu não sou ninguém. Quem é você? O poema me provocou. De repente, me incomodava que eu poderia ter um filho, e que a criança não saberia o nome de sua mãe também. O ciclo continuaria. Eu puxei a etiqueta adesiva da amostra e enfiei na minha camisa com a necessidade de declarar quem eu era, apenas para a minha própria mente. Então eu joguei o copo para fora da janela e pedi ao Karma para perdoar-me, sabendo que era nojento e que eu estaria pisando em coco de cachorro ou vômito em breve, porque o universo iria exigir retribuição em espécie.


Capítulo Treze Pálida Eu me encontrei em frente da casa de Wilson. Havia restos de construção empilhados ao lado, e parecia que o telhado foi refeito. A luz resplandecia de todas as janelas e as largas escadas da frente estavam iluminadas pelo brilho suave da luz em forma de uma lanterna de bronze antiga que estava pendurada ao lado da porta. Saí, sem saber o que diabos estava fazendo, mas desesperada por companhia. Por razões de segurança. Eu não sabia mais para onde ir. Mason deveria saber, mas eu não falaria a ele esta noite. Havia um pequeno interfone na porta e a placa que dizia Pemberley. O intercomunicador era novo. Apertei-o uma vez, perguntando-me se o alarme soou dentro da casa. Apertei-o mais uma vez, e a voz de Wilson veio pelo alto-falante, parecendo ridiculamente como um mordomo Inglês narigudo. Era um complemento tão perfeito para a casa, que se eu tivesse em qualquer outro estado de espírito, teria rido histericamente. — É Blue Echohawk. Posso falar com você... Por um minuto... Por favor? Eu não preciso entrar. Eu vou esperar aqui fora... Nos degraus. — Blue? Você está bem? O que aconteceu na escola? — A preocupação era evidente mesmo através do intercomunicador, e eu mordi meus lábios para conter um soluço. Sacudi-me vivamente. Eu não iria soluçar. — Eu estou bem. Eu só preciso... Falar com alguém. — Eu vou descer. Eu me afundei no degrau, esperando, querendo saber o que eu ia dizer. Eu não diria a ele que estava grávida, eu tinha certeza disso. Então, por que eu estava aqui? O soluço rebelou-se novamente, e eu gemi, desejando que soubesse como falar, sem ficar completamente desfeita como fiz no corredor escuro da escola ouvindo Wilson tocar, dois meses antes. A porta se abriu atrás de mim, e ele se sentou ao meu lado nos degraus. Ele estava de calça jeans e uma camiseta de novo, e eu fracamente desejei


que ele não estivesse. Seus pés estavam descalços e eu desviei o olhar, de repente dominada pelo desespero. Eu precisava de um adulto - uma figura de autoridade - para me tranquilizar, para me dizer que tudo iria ficar bem. Wilson de jeans e pés descalços apenas parecia outro garoto sem resposta alguma. Como Mason ou Colby, como um garoto que não teria a menor ideia do que fazer se ele estivesse no meu lugar. Gostaria de saber se os seus pés estavam congelando e decidi que precisava chegar ao ponto. — Lembra quando você nos contou sobre Júlio César atravessando o Rubicão? — Eu disparei. Wilson estendeu a mão e tocou meu queixo, virando meu rosto em sua direção. — Você parece knackered. Eu girei meu queixo, deixando-o livre e afastei sua mão. Eu descansei minha cabeça em meus joelhos. — Blue? — Não, eu não estou exausta, ou knickered{24}, ou seja, lá o que isso signifique. — Knackered significa exausto, knickered significa algo totalmente diferente, mas sou grato por você não saber — Disse Wilson secamente. Eu fiz uma nota para descobrir o que knickered significava. — Então... Júlio César, hein? Você precisava falar comigo sobre Julius Caeser? — Você disse que ele sabia que quando cruzasse o rio que não seria capaz de voltar, certo? — Eu incitei. — Sim? — Bem, se você atravessou o Rubicão... E não sabia que era o Rubicão. O que, então? — Eu suponho que nós estamos falando hipoteticamente. — Sim! Eu errei! Eu não posso corrigir isso, não posso voltar, e não tenho nenhuma ideia da porcaria que vou fazer — O soluço quebrou em mim mais uma vez, e eu cobri o rosto, recuperando o controle quase imediatamente. — Ah, Blue. Isso não pode ser tão ruim assim, pode?


Eu não respondi, porque exigiria dizer-lhe como realmente era ruim. — Ninguém morreu — Ainda não. Eu empurrei a culpa para longe. — Nenhuma lei foi violada, não estou com um bigode crescendo de repente, não tenho câncer terminal, e não vou ficar surda ou cega, então sim, acho que as coisas poderiam ser piores. Wilson se aproximou e gentilmente tirou uma mecha de cabelo dos meus olhos. — Você vai me dizer qual é o problema? Engoli em seco, lutando pela compostura. — Eu tentei mudar, Wilson. Lembra quando falamos sobre a redenção? Naquela noite, meu carro não pegava, naquela noite fomos resgatados por Larry e Curly{25}? Wilson sorriu e acenou com a cabeça, colocando meu cabelo atrás da minha orelha. Eu tentei não estremecer quando seus dedos tocaram minha pele. Ele estava tentando me consolar, e eu fui receptiva, desejando poder colocar minha cabeça em seu ombro enquanto eu desabafava. Ele puxou sua mão para trás, esperando que eu continuasse. — Aquela noite... Algo aconteceu comigo. Algo que eu nunca senti antes. Eu estava com o coração partido e triste por dentro. E orei. Eu clamei por amor, nem mesmo sabendo que o amor era o que eu pedi. Eu precisava sentir-me amada, e isso simplesmente... Derramou sobre mim. Sem compromissos, sem ultimatos, sem promessas necessárias. Apenas foi me dado livremente. Tudo o que eu tinha a fazer era pedir. E eu estava... Mudando por isso. Naquele momento, eu senti-me... Curada — Eu olhei para ele, desejando que me entendesse. Ele parecia absorto com o que eu estava dizendo, e me senti encorajada a continuar. — Não me entenda mal. Isso não deixou tudo perfeito. Minhas dificuldades não foram sequer levadas. Minhas fraquezas não foram subitamente transformadas em pontos fortes, mas as lutas não eram diferentes. Minha tristeza milagrosamente não se tornou alegria... Mas mesmo assim, me senti curada — As palavras derramaram de mim, palavras que descreviam um sentimento que eu tinha refletido repetidamente naquela noite. — Era como se as rachaduras fossem preenchidas, e as pedras em volta do meu coração foram desmanteladas e varridas. E eu me senti... Completa. Wilson olhou para mim, com a boca ligeiramente aberta. Ele balançou a cabeça como se quisesse limpá-la e esfregou a parte de trás do seu pescoço


como se não soubesse o que dizer. Eu me perguntava se eu tinha feito algum sentido, ou se ele começaria a insistir novamente que eu estava exausta. — Essa é possivelmente, a coisa mais linda que eu já ouvi. Foi a minha vez de olhar para ele. Seus olhos refletiam os meus até que eu me virei, envergonhada com o elogio que vi ali. Senti seus olhos no meu rosto, pensando claramente no que eu disse. Depois de um minuto, ele voltou a falar. — Então você teve essa experiência incrível. Você chama isso de redenção. Obviamente, você pensou muito sobre isso... E agora está convencida de que você já errou muito, então? Você não pode ser resgatada de novo? Eu não tinha pensado nisso dessa forma. — Não é isso... Não realmente. Acho que só acreditei que eu tinha ido além do meu velho eu. E agora... Acho que não posso escapar dos erros que cometi. — Então, a redenção não a salvará da consequência? — Não. Ela não o fará — Eu sussurrei. E era isso. A redenção não me salvou da consequência. E eu me senti traída. Eu senti que o amor que foi derramado sobre mim havia sido retirado antes que eu tivesse a chance de provar que eu era digna dele. — E agora? — É por isso que estou aqui, Wilson. Eu não sei o que é agora. — E eu não posso aconselhá-la, já que você não me diz qual é o problema — Wilson falou suavemente. Quando eu não respondi, ele suspirou, e nós paramos, olhando para o nada na rua com os nossos pensamentos cheios de coisas que poderíamos dizer, mas não dissemos nada. — Às vezes não há resgate — Concluí, aceitando o que estava na minha frente. Eu ainda não sabia o que eu faria. Mas eu conseguiria. De algum modo. Wilson apoiou o queixo nas mãos e me olhou pensativo. — Quando meu pai morreu, eu fiquei perdido. Havia tanta coisa que eu me arrependi em nosso relacionamento, e já era tarde demais para corrigir isso. Entrei


para Peace Corp - principalmente porque o meu pai me disse que eu não duraria um dia - e passei dois anos na África trabalhando para caramba, vivendo em condições muito primitivas. Muitos dias eu queria ser resgatado da África. Eu queria ir para casa e viver com a minha mãe e ser cuidado. Mas no final, a África me salvou. Eu aprendi muito sobre mim mesmo. Eu amadureci - descobri o que queria fazer com a minha vida. Às vezes, as coisas das quais queremos ser resgatado podem salvar-nos. — Talvez. — Vai ficar tudo bem, Blue? Eu olhei para ele e tentei sorrir. Ele estava tão sério. Eu me perguntei se ele era menos sério quando seu pai estava vivo. De alguma forma eu duvidava. Ele era como Beverly chamava Mensch. Uma velha alma. — Obrigada por falar comigo. Cheryl não é boa com a conversa pesada. — Você tentou Mason ou Colby? Eles parecem bem adequados para resolver os problemas do mundo. Eu ri, o riso aliviando o aperto no meu peito. — Eu a fiz rir! Brilhante! Eu sou bom. — Sim, Wilson, você é bom. Um pouco bom demais para o gosto de Blue Echohawk. Mas nós já sabíamos disso. Wilson concordou, agindo como se o meu comentário fosse num tom de brincadeira. Então ele se levantou, me puxando para ficar em pé depois dele. Ele me acompanhou até meu carro, me colocou lá dentro, e beliscou minha bochecha, como se eu tivesse cinco anos e ele cento e cinco. — Seis semanas, Echohawk, e o mundo será seu. Eu apenas dei de ombros e acenei, esse mundo pesando nos meus ombros e mais longe do meu alcance do que nunca.

A graduação foi realizada em uma manhã no final de maio no campo de futebol. Isso significava abundância de lugares nas arquibancadas duras para a família e amigos, e temperaturas relativamente suportáveis. Digo


relativamente porque eram 32 graus às dez horas. Eu estava extremamente enjoada e o calor não ajudou. Eu considerei ir embora, mas queria o meu momento. Eu queria usar o meu capelo e a beca, receber meu diploma e silenciosamente dar um foda-se para todos os inimigos que rolaram os olhos quando entrei, por pensarem que eu iria sair antes do fim do segundo ano. Mas eu tinha terminado. Mal tinha acabado, mas eu tinha. Infelizmente, acabei correndo para o banheiro minutos antes de nós fazermos fila para a nossa entrada. Eu vomitei o pouco que estava na minha barriga e tentei respirar através dos tremores secundários com o meu estômago exigente e rolando como um mar revolto. Levantei-me, lavei minha boca, e procurei na minha bolsa os biscoitos que eu levava em todos os lugares que eu ia. Eu estava com quase quatro meses. A mal estar da manhã não deveria aliviar nesse momento? Eu comi um biscoito, bebi um pouco de água da torneira - tentando não saber quanto de cloro continha - e arrumei a maquiagem onde meu delineador manchou e deixou manchas negras debaixo dos meus olhos. Então eu coloquei um brilho labial, refiz meu sorriso desdenhoso e caminhei de volta para o refeitório, onde todos os alunos estariam reunidos, somente para descobrir que eles haviam entrado sem mim. Eu me afundei em uma mesa de almoço e comecei a refletir sobre por que a minha vida tinha ficado tão ruim. Havia um nó na garganta que colidia com a dor em meu coração. Eu não poderia ir lá fora agora. Eu tinha perdido isso. — Blue? Eu pulei completamente tomada de surpresa, e levantei a cabeça de onde eu a tinha embalado em minhas mãos. Sr. Wilson estava cerca de três metros de distância, com a mão preparada para o interruptor de luz perto da porta mais próxima de onde eu estava sentada. Ele usava sua habitual camisa listrada e calça social, mas tinha deixado à gravata em casa. A maioria dos professores tinha um papel na graduação, estavam recolhendo capelos e becas, misturando-se com os pais e alunos, ou verificando os retardatários. Parecia que Wilson estava no comando deste último. Eu me endireitei e olhei para ele, chateada que ele tinha me encontrado vulnerável novamente. — Você está... Tudo bem? Você pode perder a entrada. Todo mundo está no campo.


— Sim. Eu tenho que ir — O nó na garganta dobrou de tamanho, e eu olhei desdenhosa para Wilson. Levantei-me e tirei meu capelo e joguei-o sobre a mesa. Comecei a puxar minha beca sobre a minha cabeça, revelando o short cor de rosa e camiseta branca que vestia por baixo. Nós deveríamos usar vestidos sob nossos mantos, mas quem ia ver? — Espere! — Wilson gritou, e começou a se mover em minha direção com sua mão esticada. — Não é tarde demais. Você ainda pode fazer isso. Eu também tinha me levantado rapidamente, e o lugar rodou ao meu redor. Ohh, por favor, não! A náusea se abateu sobre mim e eu percebi que não conseguiria chegar ao banheiro desta vez. Jogando minha beca de lado, corri voando pela porta, passando por Wilson e vomitando na lata de lixo as bolachas e água que eu tinha acabado de consumir. Senti as mãos nos meus cabelos, puxando-o para trás do meu rosto e queria empurrar Wilson para longe... Oh, por favor, não... Mas eu estava muito ocupada, trêmula e ofegante para seguir em frente. Eu finalmente ganhei o domínio sobre meu estômago e desejei desesperadamente por algo para limpar minha boca. Quase imediatamente, um quadrado de pano dobrado apareceu na minha linha de visão. Peguei-o das mãos de Wilson agradecida. Era a segunda vez que eu tinha usado um de seus lenços. Eu não tinha lhe devolvido o outro lenço. Eu tinha lavado e passado, mas eu sabia que cheirava a fumaça de cigarro e eu tinha vergonha de devolvê-lo. Eu me endireitei, e a mão de Wilson soltou meu cabelo quando ele se afastou de mim. Ele se virou e saiu rapidamente, somente para voltar em menos de um minuto depois com um copo de papel com água gelada. — Com os cumprimentos da sala dos professores. Bebi a água, grata - mas novamente - recusando-me a olhar para ele. — Se você acha que pode, deve colocar sua beca e sair para o campo. Você não perdeu nada importante. — Ha! Eu não vou andar pro aí sozinha. — Eu vou com você. Sem problema algum. Quando estiver sentada, o embaraço vai acabar, e no final você estará feliz que não perdeu sua própria formatura. Olhei para o meu capelo e a beca melancolicamente. Wilson deve ter visto minha hesitação e me pressionou ainda mais. — Vamos. Você gosta de


fazer grandes entradas, lembra? Eu sorri um pouco, mas o sorriso caiu enquanto eu considerava a probabilidade de que eu não faria isso na cerimônia sem necessidade de fazer outra corrida para o vaso sanitário. — Eu não posso fazer isso. — Claro que pode — Wilson pegou meu capelo, a beca e estendeu-os para mim com um olhar encorajador no rosto. Ele me lembrou de um cão implorando por uma volta no quarteirão com seus grandes olhos com cílios espessos e longos implorando, então sua boca ficou um pouco menor em uma súplica. — Eu não posso fazer isso — Eu repeti com mais força. — É preciso — Disse Wilson muito vigorosamente. — Eu entendo que você está se sentindo embaraçada... — Eu não estou embaraçada, o que quer que isso signifique! Estou grávida! — Eu sussurrei, interrompendo-o. O rosto de Wilson caiu, como se eu tivesse acabado de dizer que estava tendo um caso com o príncipe William. O caroço estava de volta, e eu senti um ardor nos meus olhos que me levou a piscar rapidamente e cerrar os dentes. — Eu vejo — Disse Wilson em voz baixa, e suas mãos caíram para os lados, o meu capelo e beca ainda estavam em sua mão. Uma expressão estranha roubou suas feições, como se ele estivesse colocando tudo junto, seu maxilar ficou tenso enquanto seu olhar ficou bloqueado no meu rosto. Eu queria olhar para longe, mas o orgulho manteve meu olhar firme e beligerante. Peguei o capelo e a beca dele e me virei, sentindo-me subitamente muito tímida de shorts curto de Daisy Dukes{26} e minha camiseta fina, como se a minha escolha de roupa minúscula ressaltasse minha confissão humilhante. De repente eu me desprezava e não queria nada mais do que ficar longe de Darcy Wilson - o professor, a única pessoa que parecia dar a mínima para mim. Ele tinha se tornado um amigo, e percebi naquele momento que eu tinha provavelmente o desapontado. Eu comecei a ir embora. A sua voz era insistente atrás de mim. — Eu não quis ir ao funeral do meu pai. Eu me virei, confusa. — O q-quê?


— Eu não quis ir ao funeral do meu pai — Ele caminhou na minha direção até que estava a minha frente. — Por quê? Wilson deu de ombros e balançou a cabeça. — Achava que era responsável por sua morte. À noite em que morreu, tivemos uma briga enorme e eu saí. Eu não queria ir para a faculdade de medicina; ele achava que eu estava sendo um tolo. Foi a única vez que eu tinha discutido com meu pai. Mais tarde naquela noite, ele teve um ataque cardíaco fulminante em seu carro no estacionamento do hospital. Ele havia sido chamado para o hospital, mas nunca teve a chance de passar pelas portas. Eles poderiam têlo salvo se ele tivesse feito isso. — Naturalmente, eu me culpava pelo ataque cardíaco. Fiquei arrasado e culpado... Então eu não fui — Wilson parou de falar e olhou para suas mãos, como se elas tivessem as respostas que ele ainda procurava. — Minha mãe implorou e suplicou. Ela me disse que eu iria me arrepender de não ir, para o resto da minha vida — Ele olhou para mim. — Ela estava certa. Olhei para as minhas próprias mãos, sabendo exatamente o que ele estava tentando dizer. — Os momentos não voltam, Blue. Você não quer passar a vida inteira pensando naqueles momentos que não aproveitou, sobre as coisas que você deveria ter feito, mas estavam com muito medo de fazer. — É apenas uma cerimônia estúpida — Eu protestei. — Não. É mais do que isso, porque significa alguma coisa para você. É algo que você ganhou e ninguém pode tirar de você. Esta viagem não foi fácil para você, e você merece este momento, talvez mais do que qualquer estudante lá fora — Wilson apontou para o campo de futebol que havia além das paredes do refeitório. — Ninguém vai sentir falta de mim. Eu não tenho ninguém lá fora esperando para me ver andar pelo palco. — Eu estarei lá, vou bater palmas, berrar e gritar o seu nome. — Se você fizer isso, vou chutar o seu traseiro! — Eu respondi horrorizada.


Wilson riu. — Aí esta a garota que eu conheço — Ele apontou para o meu capelo e a beca. — Vamos. Por fim, acabei participando de minha cerimônia de formatura. Acabou que eu não tinha perdido muito. Saí para o campo com Wilson ao meu lado. Eu me mantive com firmeza e não me apressei, e eu fiz o meu caminho para o meu lugar vazio sem vacilar, embora cabeças girassem à direita e à esquerda. Wilson sentou-se com a fila de professores e fiel à sua palavra, assobiou e gritou quando o meu nome foi chamado. Tinha que admitir que eu meio que gostava dele, e os meus colegas de classe e os outros professores riram, provavelmente pensando em Wilson batendo palmas, porque ele estava feliz por se livrar de mim. Eu tentei não sorrir, mas, apesar dos meus melhores esforços, no último minuto, um enorme sorriso dividiu meu rosto.


Capítulo Quatorze Índigo Passei tão pouco tempo no apartamento possível. Ele cheirava a cigarros, e embora eu tentasse manter minha porta fechada do resto do apartamento e as janelas abertas do meu quarto em todos os momentos, maio em Las Vegas era quente e meu quarto era insuportável. Minha pequena oficina na parte de trás do complexo era muito quente, mas eu tinha o ar fresco e os meus projetos para me distrair. Eu estava perdida na minha mais recente criação - esculpindo e lixando, trabalhando duro quando um carro apareceu fora da porta de metal deslizante. Eu me virei para ver Wilson descer do seu Subaru cinza e bater a porta atrás de si. Eu saí para a luz do sol, protegendo os olhos enquanto ele se aproximava. — Sua tia disse que eu iria encontrá-la aqui fora — Ele ofereceu isso em forma de cumprimento. — Ela abriu a porta? Uau. Milagres nunca cessam — Ela estava dormindo no sofá quando eu saí. Eu tentei não puxar a minha blusa vermelha e meu short jeans desfiado. Minha barriga tinha começado a ficar redonda, mas não estava perceptível na minha roupa. Eu olhei para os meus chinelos e enrolei os dedos dos pés pintados. Eu tinha tomado banho e raspado minhas pernas, mas meu cabelo ainda estava molhado quando eu tinha fui para fora, e eu tinha puxado-o em um rabo de cavalo alto para manter os fios molhados do meu pescoço. Eu ainda não tinha me olhado no espelho. Eu não sabia o que me incomodou mais: Wilson vendo-me assim ou o fato de que eu me importava que Wilson estivesse me vendo assim. Ele havia parado de andar e estava olhando para mim. Eu me encolhi e em seguida fiquei na defensiva. — Por que você está me olhando desse jeito? Wilson estava com as mãos enfiadas nos bolsos e suas sobrancelhas baixaram zombeteiramente sobre seu olhar sombrio. — Você está diferente.


— Bem, sim! — Eu zombei conscientemente. — Eu pareço uma porcaria. Sem maquiagem, meu cabelo não está penteado, e estou usando essas roupas imprestáveis. — Imprestáveis? — As sobrancelhas de Wilson dispararam. — Sim, você sabe. Baratas e desprezíveis são imprestáveis. — Eu vejo — Wilson assentiu sabiamente. — Como desconfortável, apenas... Imprestável — Ele inclinou a cabeça ligeiramente. — Combina com você. — Imprestável combina comigo? — Eu tentei não ser ferida. — Obrigada, Sr. Darcy! — Eu disse no meu sotaque belle do sul e bati meus cílios. — Você é tão romântico como o seu xará. — Natural combina com você. Você usa muita maquiagem — Wilson deu de ombros e virou-se. — Uma garota não pode usar muita sombra azul nos olhos — Eu brinquei, tentando fingir que não ligava para o que ele disse ou pensasse. Passei a mão no meu cabelo, sentindo os fios embaraçados e o rabo de cavalo descentrado. — Diga-me o que você está fazendo — Wilson se moveu para ficar ao meu lado. Ele estendeu um dedo e seguiu um sulco que se alargou em um espaço oco. — Eu nunca tenho certeza do que estou fazendo — Respondi honestamente. — Então, como você saberá quando terminar isso? — Wilson sorriu. — Essa é sempre a questão. Quando parar. Eu costumo começar a ter uma ideia do formato enquanto trabalho. Isso raramente vem a mim antes. A inspiração vem através da ação — Eu mordi meu lábio em concentração. — Será que isso faz sentido? Wilson assentiu. — Se eu olhar de soslaio quase se parece com um violoncelo que foi derretido e puxado... Como caramelo. Eu não disse a ele que eu ficava vendo um violoncelo também. Parecia muito pessoal, como se fosse mais uma vez apresentar os sentimentos que tinham levantado dentro de mim, quando eu o ouvi, pela primeira vez, tocar naquela noite no ensino médio, à noite em que eu tinha jurado mudar.


— O que é isso? — Wilson indicou um pequeno buraco circular na superfície agora suave da madeira. — Um buraco vazado. — Você vai lixá-lo? Eu balancei minha cabeça. — Provavelmente não. Eu só vou preenchêlo com um pouco de massa de vidraceiro. O problema de corrigir um problema é que às vezes você descobre dois. — O que você quer dizer? — Bem, esse é relativamente um pequeno buraco vazado, certo? Ele acenou com a cabeça. — Se eu começar a lixá-lo, o buraco pode ampliar e desviar para uma nova direção, criando um problema muito maior ou, no mínimo, um buraco muito maior. Não existe tal coisa como perfeito, e honestamente, se a madeira fosse perfeita, não seria tão bonita. De qualquer maneira, eu me lembro de alguém me dizendo que “perfeito era chato”. — Você estava ouvindo! — Wilson sorriu novamente. — Eu normalmente ouço — Eu respondi sem pensar e, em seguida, preocupada que eu poderia ter dado alguma coisa. — Como você está hoje? — Os olhos de Wilson ficaram sérios quando ele mudou de assunto. Eu parei de esculpir e flexionei os músculos. — Duros como pregos — Eu disse secamente, não querendo falar sobre o que eu sabia que ele estava se referindo. Eu havia passado cerca de uma hora me sentindo absolutamente horrível, inclinada no vaso sanitário do apartamento. Mas eu tinha conseguido manter cerca de dez bolachas, e o ar fresco do lado de fora estava me fazendo bem. Eu me perguntei novamente quanto tempo seria capaz de ficar no apartamento cheio de fumaça. Não era bom para mim, e definitivamente não era bom para o bebê dentro de mim. Meu estômago deu um nó imediatamente, e me perguntei brevemente se parte da minha contínua e interminável náusea era simplesmente o velho medo. — Será que sua tia saber sobre a gravidez? — Ok, agora Wilson estava sendo contundente. — Não — Eu respondi brevemente.


— Você já foi ver um médico? — Ainda não — Eu não estava fazendo contato visual. Eu não achava que a minha viagem a Planned Parenthood contava. Seu silêncio me fez sentir como culpada. Afastei-me da minha escultura e suspirei alto. — Eu tenho uma consulta com alguém da Saúde e Serviços Humanos. Eu serei capaz de conseguir algum tipo de assistência médica, e eles vão me dizer onde eu posso ir para ver um médico, ok? — Bom — Wilson respondeu logo, balançando a cabeça. — Você sabe que vai ter de parar de fumar também, certo? — Eu não fumo! — Era como se Wilson tivesse ouvido meus pensamentos momentos antes. Wilson levantou uma sobrancelha em descrença, e sorriu para mim, esperando por uma explicação. — Eu não fumo, Wilson! Eu moro com alguém que fuma como uma chaminé. Então eu cheiro como um cinzeiro o tempo todo. Eu não posso limpar meu cheiro, mas obrigada por notar. Wilson tinha perdido seu sorriso duvidoso, e suspirou fazendo um som. — Eu sinto muito, Blue. Eu sou muito bom em dar um fora. Eu não tenho uma boca grande, mas de alguma forma eu consigo enfiar meus pés pelas mãos com bastante frequência. Dei de ombros, ignorando. Ele me viu trabalhar por um tempo, mas parecia preocupado, e eu me perguntava por que ele ainda estava aqui. — Bem, isso resolve tudo... — Ele murmurou para si mesmo. Então me disse: — Você já pensou em comprar uma casa própria? — Só a cada segundo de cada dia — Eu respondi ironicamente, não olhando para cima da linha que estava surgindo, mudando meu violoncelo em uma sinfonia completa. A curva sugeria som e movimento e uma continuidade que eu não poderia colocar em palavras, mas que de alguma forma, era transmitida na linha da madeira. Assim acontecia - a beleza surgiria quase por acidente e eu tinha que deixá-la me levar para onde queria que eu fosse. Então, muitas vezes, eu sentia como se minhas mãos e coração soubessem de algo que eu não sabia e eu entregava a arte para eles.


— Você pode fazer uma pausa? Eu quero mostrar uma coisa que pode lhe interessar. Mordi meus lábios, perguntando se eu iria perder o fio de inspiração se saísse. Estava quase pronto; eu poderia ir. Eu balancei a cabeça para Wilson. — Deixe-me correr lá dentro e me trocar. — Você está bem. Vamos. Não vai demorar muito. Eu puxei o meu rabo de cavalo, retirando o elástico. Corri meus dedos pelo meu cabelo e decidi que não importava. Em instantes, minhas ferramentas estavam arrumadas e a oficina trancada. Corri para dentro e peguei minha bolsa, passando uma escova no meu cabelo enquanto eu colocava uma camiseta um pouco menos curta. — Um cara com um sotaque engraçado veio procurando por você — Cheryl murmurou do sofá. — Parecia o professor de Buffy, A Caça Vampiros. Mas ele era muito mais jovem - e bonito também. Fazendo sucesso, certo? — Cheryl tinha uma coisa por Spike da série Buffy, A Caça Vampiros. Ela tinha todas as temporadas e assistia obsessivamente sempre que estava sem namorado. Isso a fazia acreditar que seu cara perfeito ainda estava lá fora - imortal, sugadores de sangue, e estranhamente atraente. Comparando Wilson com qualquer membro do elenco é um grande elogio. Saí sem comentar. Wilson abriu a porta do passageiro para mim, e eu consegui não dizer algo sarcástico ou dizer que ele me fez lembrar um pouco de um jovem Giles{27}. Nós paramos em frente a sua casa, e comentei sobre a melhoria da aparência do exterior. — Inicialmente, eu concentrei toda a minha atenção no interior, mas uma vez que os três apartamentos foram concluídos, eu voltei minha atenção para o exterior. No mês passado ficou pronto o novo telhado e foram colocadas novas janelas. Reformamos os degraus e colocamos pedras na calçada. Os paisagistas vieram e limparam o quintal também. A velha menina teve uma reforma completa, na verdade. Ele subiu os degraus e abriu a porta. Eu o segui tranquilamente. Como seria ter dinheiro para promover uma reforma como ele fez com a “a velha garota”? Claro que ele ainda tinha trabalho a fazer. Era provavelmente uma


dor de cabeça lidar com prestadores de serviços e construção. Eu não poderia imaginá-los todos juntos. Mas como seria ser capaz de fazer o que quer... Razoavelmente? Eu me perguntava aleatoriamente se eu estava no novo projeto de Wilson. Talvez ele me fizesse uma transformação. — Isso é o que eu quero lhe mostrar — Ele me levou a uma porta para fora do hall de entrada que eu não tinha notado a última vez que estive aqui. Estava parcialmente escondida atrás das escadas. — Você vê como dividimos a casa em dois apartamentos no andar de cima, mas só há um aqui embaixo? É porque quando a casa foi construída, a escadaria foi ligeiramente deslocada para a direita. Isso fez com que todos os cômodos deste lado da casa fossem menores. Meus cômodos ficam um pouco em cima da garagem, por isso ainda tenho muito espaço. Mas aqui as coisas são muito apertadas. Eu pensei que talvez em algum momento eu pudesse viver aqui e deixar o meu apartamento, mas eu não posso ficar em pé no chuveiro - você verá por que - e, honestamente, eu gosto do meu apartamento lá de cima. Eu também pensei que poderia deixá-lo para um empregado faz tudo sortudo. Mas acabou por ser eu esse faz-tudo, o que torna mais fácil justificar que eu continue no meu apartamento e estou economizando dinheiro em não contratar ninguém. Enquanto ele falava nós andávamos para dentro do pequeno apartamento. O espaço tinha os mesmos pisos de madeira do hall de entrada, e as paredes foram pintadas. Uma pequena porta de entrada se abria em uma pequena sala de estar, que Wilson chamou de “longe”, rodeado por uma cozinha completa com uma pia de aço inoxidável, um frigobar preto, fogão e um balcão estreito preto. Era tudo novo, brilhante e cheirava a madeira e tinta nova. Um quarto e banheiro, muito novo e muito pequeno, completava o minúsculo apartamento. Eu entrei no chuveiro e vi o que Wilson tinha falado. — O trabalho do duto atravessa aqui. Foi a nossa única opção. O teto tem menos de dois metros acima do chuveiro, o que não será um problema para você, a menos que goste de tomar banho naquelas botas ridiculamente altas que gosta de usar. — Eu não posso pagar esse lugar, Wilson. É pequeno, mas é muito bom. Eu trabalho no café, estou grávida e não há espaço para esculpir, o que


significa que a minha situação financeira provavelmente não vai melhorar se eu viver aqui. — Você pode pagá-lo, confie em mim. E a melhor parte? Vamos. Eu vou lhe mostrar — Ele estava na porta do banheiro e de volta na cozinha em cerca de dez passos. — Essa porta aqui? Não é uma despensa. Ela leva para o porão. Eu pensei que se isso seria o apartamento do faz-tudo, ele precisaria de fácil acesso, por isso não cobrimos a porta original quando desenhamos a planta. Eu lavo a minha roupa lá em baixo. O aquecedor de água e fornalha estão lá em baixo, junto com todas as caixas de fusíveis, etc. Há uma entrada exterior também, para que eu possa acessá-la sem perambular através de seu apartamento. E é enorme. Há bastante espaço para você guardar suas compras. Pode ficar um pouco frio no inverno, mas poderíamos colocar um pequeno aquecedor. E no verão vai ser o melhor lugar na casa. Segui-o descendo as escadas, tentando não ficar animada, dizendo a mim mesma que era uma má ideia. O porão não tinha muito para ver. As paredes de concreto e piso, facilmente 770 metros quadrados de espaço quase. Havia algumas bugigangas nas extremidades e uma velha máquina de lavar e secar roupas empurradas contra a parede mais distante, mas isso era tudo. O fato de que a casa tinha um porão era notável. Os porões em Las Vegas eram tão escassos como casas de alvenaria. Tinha luzes do teto, e energia elétrica para as minhas ferramentas elétricas. Seria mais do que suficiente para o que eu precisava. — Há um mobiliário antigo que estava na casa quando eu comprei o lugar — Wilson empurrou as lonas de vários itens no canto mais distante. — Você pode ficar a vontade e pegar o que precisar e a lavadora e secadora estão todas funcionando. Você poderia vir aqui e lavar sua roupa, também. — Quanto, Wilson? — Eu exigi, interrompendo sua lista de amenidades. — Quanto por mês? Ele considerou, inclinando a cabeça para o lado como se tivesse que pensar muito.


— É pequeno, e eu não posso alugá-lo para um homem adulto. Ele se sentiria como Gulliver vivendo com os liliputianos. Eu tinha realmente decidido deixá-lo vazio e deixar minha mãe usá-lo quando viesse visitar. Mas ela é muito esnobe, de modo que, provavelmente não vai funcionar. — Quanto, Wilson? — Provavelmente quatrocentos por mês — Ele me olhou. — Mas eu vou ajudar na manutenção para deixar isso mais justo. Quatrocentos era ridiculamente barato, e ele sabia disso. O aluguel do apartamento de Cheryl era de US $ 900 por mês e era mergulhado no mal cheiro, e só incluía água e esgoto. Gás e energia eram separados. Eu sabia disso por que houve momentos em que eu tive que pagar a conta de energia com o meu salário do café. — Por que você está fazendo isso por mim? — Eu exigi, enfiando as mãos nos bolsos da minha bermuda rasgada. Wilson suspirou. — Eu realmente não estou fazendo nada, Blue. Os US $ 400 são mais do que suficiente, de verdade. Vai ser bom para a Sra. Darwin ter outra mulher no prédio também. Meu novo inquilino é um homem. Dessa forma, se ela precisar de ajuda com qualquer coisa... Feminina... Então você vai estar aqui. É perfeito, realmente — Ele estava apenas me enrolando. — Qualquer coisa do sexo feminino? Como o quê? — Bem, eu não sei. Pequenas coisas de diferentes tipos... Uh, coisas femininas que eu não seria capaz de ajudá-la com isso. — Eu vejo — Eu disse, tentando não rir. Euforia estava borbulhando no meu peito, e eu queria fazer uma dança de celebração em todo o porão. Eu iria fazer isso. Eu iria me mudar sozinha para um perfeito e pequeno apartamento. Sem cigarros, sem Cheryl, sem garrafas de cerveja e sem ter que evitar tropeçar em homens suados. Eu iria sair.


Capítulo Quinze Reluzente Eu encontrei uma mesa e duas cadeiras, um sofá de dois lugares com uma cadeira combinando, e uma estrutura da cama que nós trouxemos do porão. Wilson insistiu em limpar o sofá e a cadeira à vapor. Ele inventou uma desculpa sobre a Sra. Darwin já ter agendado alguém para vir limpar algumas coisas dela, mas a Sra. Darwin parecia completamente ignorante do fato quando eu mencionei a ela no dia que a limpeza à vapor chegou. Wilson também produziu milagrosamente um colchão novo de molas duplas que, segundo ele, também estava no porão, embora eu não tivesse visto. Eu o presenteei com um cheque de seiscentos dólares no dia seguinte e disse-lhe que era para os extras, porque não podia arcar com tudo e não estava aceitando brindes. Eu carreguei as minhas ferramentas, cancelei minha locação do espaço do depósito, e recolhi os meus poucos pertences de Cheryl. Foi provavelmente o dia mais fácil da mudança. Cheryl estava um pouco surpresa, mas não especialmente emotiva. Ela parecia um pouco preocupada de que não pudesse conseguir pagar todas as contas do mês, mas estava pensando em possíveis colegas para vir morar no momento em que eu saí. Eu me perguntava se iria vê-la novamente. Eu escrevi o meu novo endereço e disse a ela que se precisasse de mim era só me procurar. Ela balançou a cabeça, respondendo: — Você também — E isso foi tudo. Havia uma enorme lixeira na borda do complexo, não muito longe de onde minha caminhonete estava estacionada. Olhei para os sacos de lixo cheios com as minhas roupas, e depois de novo para o lixo. Logo eu não iria caber na maioria das minhas coisas, e todas elas fediam como o apartamento de Cheryl. Eu não queria levá-las para a minha nova casa. Eu queria jogá-las para o alto, deixando-as pousar em uma pilha fedorenta em cima de todos os outros lixos. Tiffa me ligou alguns dias antes e me disse que tinha vendido mais três das minhas peças. Juntas, as peças tinham valido mil dólares. Eu poderia comprar roupas novas, se eu fosse econômica. Tiffa disse que iria levar o cheque para a casa de Wilson quando


eu estivesse me mudado. Ela parecia ter todos os detalhes sobre a minha grande mudança, isso tanto me surpreendeu, como me agradou. Eu gostei ser mencionada nas conversas de Wilson. Peguei minhas botas e os sapatos do saco, bem como algumas outras coisas que eu queria, e empilhei-os no banco do passageiro. Eu não poderia substituir tudo. Em seguida, com grande prazer, eu joguei todas as outras peças de roupa que eu tinha.

A melhor coisa sobre o meu apartamento era a abertura no teto. Se eu ficasse embaixo, eu podia ouvir Wilson tocando seu violoncelo. Eu não sei por que o som viajava sem interferências, mas uma vez que descobri isso, eu reclinava a poltrona debaixo da saída de ar no centro da minha pequena sala de estar, e sentava-me no escuro toda noite, balançando e ouvindo quando a música de Wilson sussurrava através das ripas de metal sobre mim, envolvendo-me em doçura. Ele teria rido de me ver ali com eu rosto virado para cima e um sorriso nos lábios, enquanto ele fazia as cordas cantarem sem palavras. Ele tocava uma melodia especial todas as noites, e eu gostava de esperar por isso, suspirando com satisfação quando a melodia familiar encontrava seu caminho até mim. Eu não sabia o nome. Eu nunca tinha ouvido isso antes, mas cada vez que ele tocava, eu sentia como se tivesse finalmente voltando para casa. As semanas seguintes da minha mudança foram as mais felizes que já tinha vivido. Eu fui aos brechós e vendas de garagem para mobiliar a minha nova casa e encher meu armário novo, e meu guarda-roupa passou por uma transformação drástica. Lá se foram as calças legging apertadas e baixas e camisetas curtas. Lá se foram os shorts curtos e tops de malha. Descobri que gostava de cores - muitas - e os vestidos eram mais legais em Nevada do que até mesmo shorts, por isso a maioria das minhas compras eram vestidos em tons alegres e tecidos frescos, com a vantagem adicional de que havia espaço para a minha barriga em expansão. Minha casa se tornou meu refúgio, um paraíso, e eu me beliscava toda vez que eu voltava. Nem mesmo o medo do que o futuro me traria escurecia meu prazer no meu novo lugar. Se eu visse algum brechó algo que eu podia pagar, eu comprava, e isso me fazia feliz. O resultado foi um vaso amarelo


brilhante com um trincado nele, uma manta cor maçã verde no meu sofá que estava cercado por almofadas decorativas vermelhas e amarelas que a Sra. Darwin não queria mais. Pratos com diferentes combinações em cores brilhantes e tapetes soltos para combinar, enchiam os armários e cobriam o chão. Eu lixei a mesa e cadeiras do porão e os pintei de vermelho. Então eu coloquei três vasilhas de vidro com tampas de madeira no centro e enchi um com cinnamon bears{28} de canelas vermelhas, uma com skitlles{29}, e um com chocolate kisses{30}. E ninguém comia além de mim. Eu encontrei um relógio cuco com um pássaro azul que chilreava na hora e um suporte bronze de livros em formato de Júlio César por cinco dólares em uma venda de brechó. Os suportes de livros me fizeram rir e pensar em Wilson, então eu os comprei. Eu mesma construí uma estante de livros - trabalhar com madeira tem suas vantagens mais práticas - pintei de maçã verde para combinar com o meu piso, e a enchi com todos os livros que eu tinha e todos os livros que Jimmy tinha possuído. Meus dois Césares guardava-os firmes, mantendo-os alinhados como soldados obedientes. Minha serpente de madeira e uma escultura que Jimmy e eu tínhamos feito juntos estava sobre ela, junto com o presente de inauguração que Wilson tinha me surpreendido. Eu tinha voltado para casa após meu primeiro grande dia de compras para encontrar um pacote pequeno do lado de fora da minha porta. Tinha uma nota anexada e BLUE escrito em todo o envelope em negrito. Abri a porta e joguei minhas sacolas na entrada, incapaz de conter minha curiosidade. Abri o pacote de primeiro - eu não consegui evitar. O cartão poderia esperar. Dentro estava um pequeno melro de porcelana com olhos azuis brilhantes. Era delicado e bem feito, com detalhamentos finos e penas escuras. De pé na palma da minha mão, tinha talvez, dez centímetros de altura da cabeça aos pés. Coloquei-o cuidadosamente em minha bancada e rasguei o cartão com o meu nome. Blue, Você nunca terminou a sua história. A melra precisava de um lugar seguro para pousar. Espero que ela o tenha encontrado. Parabéns pelo seu


novo ninho. Wilson Minha história pessoal, a que eu tinha tentado e falhado miseravelmente escrever, estava incluída com o bilhete. Li-a, mais uma vez, observando o jeito que eu a tinha deixado, com a melra caindo em direção à terra, incapaz de se endireitar. Era uma vez, havia uma pequena melra, empurrada do ninho, indesejada. Descartada. Então, um falcão a encontrou, mergulhou e a carregou voando acima, dando lhe uma casa em seu ninho, e ensinou-a a voar. Mas um dia o Falcão não voltou para casa, e a pequena melra estava sozinha de novo, indesejada. Ela queria voar para longe. Mas quando ela olhou para fora, subiu na borda do ninho e olhou através do céu percebeu quão pequenas e fracas suas asas eram. O céu era tão grande. E qualquer outro lugar era tão longe. Ela se sentia encurralada. Ela podia voar, mas para onde iria? Estava com medo... Porque ela sabia que não era um falcão. E ela não era um cisne, um belo pássaro. Ela não era uma águia, digna de admiração. Ela era uma pequena melra. Ela se encolheu no ninho escondendo a cabeça debaixo de suas asas, desejando ser resgatada. Mas ninguém veio. A pequena melra sabia que podia ser fraca, e podia ser pequena, mas não tinha escolha. Ela tinha que tentar. Ela iria voar para longe e nunca olhar para trás. Com um profundo suspiro, ela abriu as asas e se empurrou para dentro do grande céu azul. Por um minuto ela voou constante e crescente, mas então ela olhou para baixo. O chão abaixo se levantou rapidamente para encontrá-la enquanto ela entrava em pânico, e girou em direção a terra. Eu procurei na minha bolsa e encontrei uma caneta. Sentada à mesa, eu adicionei mais algumas linhas.


No último minuto, o pássaro olhou para cima, fixando os olhos no horizonte. Quando ela levantou a cabeça e endireitou suas asas, começou a voar em vez de cair com o vento sob ela, levando-a de volta para o céu. Era ridículo e brega. Mas eu me senti melhor por ter escrito isso. Não foi um final exatamente, mas talvez fosse um novo começo. Então eu dobrei a carta de Wilson e minha história e coloquei-os em uma cópia do Inferno de Dante, que eu sabia que nunca iria ler, mas que sempre me fazia pensar em harpias e história, aflição e esperança. Nas semanas que se seguiram, estava suspensa em uma atemporalidade feliz. O nascimento do meu bebê ainda estava distante, então eu poderia empurrar os pensamentos de maternidade para longe, mesmo quando comecei as visitas regulares ao médico, não tendo tomado nenhuma decisão além da aceitação. Eu tinha aceitado que eu não estaria interrompendo a minha gravidez. Eu faria o parto. Eu tinha essa responsabilidade. Reivindiquei isso. Eu estava vivendo em minha própria casa, trabalhando no café, e vendendo minhas esculturas. E estava feliz. Além disso, eu simplesmente não sabia de mais nada.

Quando Tiffa vendeu mais quatro de minhas esculturas, eu parei de colocá-las no café, simplesmente porque eu não podia atender às demandas de ambos, e Tiffa poderia vendê-las por muito mais. Pedi desculpas a Beverly, explicando o meu dilema. — Isso é maravilhoso, Blue! — Disse ela com firmeza, descansando a mão no meu braço. — Você não tem nada que se desculpar! Não peça desculpas pelo sucesso! Você está louca? Eu poderia ter que batê-la na cabeça, garota! — Ela me apertou com força, e em seguida, puxou-me para o seu escritório, fechando a porta atrás de nós. — Eu encontrei um rolo de filme quando estava limpando alguns armários velhos no outro dia. Eu o tinha guardado. Eu tenho algo para você — Ela puxou um quadro de 8 x 10 da sacola plástica do Walmart e me entregou. — Eu acho que você vai gostar disso.


Fiquei olhando para uma foto de Jimmy e eu, nossos olhos vesgos contra o sol, o café como pano de fundo e Icas aos nossos pés. Apreciei isso sem palavras. — Eu tinha acabado de comprar uma nova câmera e fui tirar fotos de todos os meus clientes habituais naquele dia. Havia fotos de Dooby e Wayne tomando seu café da manhã, da mesma forma que fizeram durante os últimos trinta anos. Barb e Shelly eram minhas garçonetes naquela época, também. Eu tenho uma bonita delas de avental fazendo companhia para Joey na cozinha. Barb está ficando gorda. Assim como eu — Bev acariciou a barriga com tristeza. — Eu esqueci que ela costumava ser uma figura muito bonita. Não lhe mostrei as fotos. Pensei que poderia deprimila. Eu não sei por que isso não aconteceu, mas você me conhece, sempre me movendo a mil por hora. Beverly bateu no vidro, apontando para um Jimmy sem sorrir. — Ele virou-se naquele dia, do nada, isso era a forma como sempre foi com Jimmy. Eu tive sorte, eu acho. Eu pedi-lhe para posar para uma foto. Você estava tão bonita, sorridente e emocionada ao tirar uma foto. Lembro-me de pensar que Jimmy era um velho rabugento. Ele não estava entusiasmado com a foto, e mesmo assim não falou muito. Ele só me fez prometer que eu não iria exibi-lo no café. Pelo menos ele colocou o braço em volta de você. É fácil ver que vocês pertenciam um ao outro - apenas duas ervilhas engraçadas em uma vagem você e seu pai, hein — Suas palavras eram como uma bofetada, especialmente porque eram muito sinceras. — Você acha? — Eu sussurrei ao redor das memórias engasgadas em minha garganta. — Você acha que nós pertencíamos um ao outro, Bev? — Não há dúvida sobre isso, querida — Declarou Bev, balançando a cabeça enquanto falava. Consegui sorrir, apertar a imagem contra o meu peito. Eu nunca tinha compartilhado o fato de que Jimmy não era meu pai com Beverly. Na verdade, a única pessoa que sabia, além de Cheryl, era Wilson. A compreensão me atingiu. Eu disse coisas a Wilson que nunca tinha dito a outra alma. Bev pigarreou e ajeitou a blusa. Eu poderia dizer que ela queria dizer algo mais, e eu esperei quase certa que ela tivesse percebido as mudanças na minha pessoa.


— Você está mudando, Blue — Suas palavras ecoaram meus pensamentos quase literalmente, e eu apertei ainda mais a imagem, me protegendo mentalmente do desconforto sobre o tema. — Você suavizou um pouco e isso fica bem em você. E eu não estou falando sobre o peso que está em você — Ela me olhou incisivamente, fazendo uma pausa para efeito, me mostrando que ela estava ao meu lado. — Eu estou falando da sua linguagem, sua aparência e seu gosto por homens. Estou falando sobre esse seu amigo bonito Sean Connery. Eu espero que você possa mantê-lo por perto. E espero que você diga a ele sobre o bebê, porque estou supondo que não é dele. — Não é. Nós não somos nada. Quero dizer... Não estamos em um relacionamento assim — Eu gaguejei. — Mas sim, ele sabe. Ele tem sido um bom amigo — Mas Bev estava mais certa do que eu queria admitir. Alguma coisa estava acontecendo comigo, e que tinha tudo a ver com Darcy Wilson. — Isso é bom, então — Bev assentiu para si mesma e ajeitou alguns papéis em sua mesa. — Eu sou sua amiga também, Blue. Eu estive onde você está, sabe. Eu era ainda mais jovem do que você. E eu consegui fazer isso completamente. Você vai fazer também. — Obrigada. Bev. Pela foto, e... Todo o resto — Eu me virei para ir embora, mas ela me parou com uma pergunta. — Você vai ficar com o bebê, Blue? — Será que você ficou com o seu? — Eu perguntei, não querendo responder. — Sim... Eu fiquei. Eu me casei com o pai do bebê, tive meu filho, e me divorciei um ano depois. Eu eduquei o meu filho sozinha e foi difícil. Eu não vou mentir. — Alguma vez você se arrependeu? — Arrepender de ter meu filho? Não. Mas de engravidar? Casar? Claro. Mas não há nenhuma maneira de evitar o arrependimento. Não deixe ninguém lhe dizer diferente. O arrependimento é tempero da vida. Não importa o que você escolher, sempre vai se perguntar se deveria ter feito diferentes. Eu não necessariamente escolhi errado. Eu só escolhi. E eu vivi com a minha escolha, tempero e tudo. Eu gosto de pensar que dei ao meu


garoto a melhor vida que eu poderia, mesmo que eu não fosse perfeita — Bev deu de ombros e encontrou meus olhos de forma constante. — Conhecendo você, tenho certeza que isso é verdade, Bev — Eu disse com sinceridade. — Eu espero que sim, Blue.


Capítulo Dezesseis Velha Glória — Mas o quarto de julho é um feriado americano — Eu franzi meu nariz para Wilson. — O que diabos faz um grupo de britânicos celebrando o Dia da Independência? — Quem você acha que celebra mais quando criança sai, os pais ou a criança? A Inglaterra ficou feliz por todos vocês, confie em mim. Nós fizemos uma festa quando a América declarou sua independência. Bravo! Agora vão e não nos importamos se ficam ou não! — Wilson rosnou. — Eu não acredito. Será que a guerra revolucionária lembra alguma coisa, Sr. Professor? — Tudo bem, então. Na verdade, minha mãe está na cidade, junto com Alice e Peter e os meus três sobrinhos. É também um maldito dia quente para churrasco, o apartamento de Tiffa tem uma vista incrível da avenida por isso os fogos de artifício serão ótimos - e o melhor de tudo, há uma piscina na cobertura. Estávamos tendo uma média de 47 graus durante toda à semana. Quente nem sequer começava a descrever isso. O pensamento de uma piscina era quase maravilhoso demais para contemplar. Então eu pensei em como ficaria em um maiô e senti meu entusiasmo declinar. — Então, por que você está me perguntando? Onde está Pamela? — Eu estava orgulhosa de quão inocente a conversação soou. — Eu estou perguntando porque você me informou que estaria buscando madeira, que está entediada, sentindo calor e irritada — Isso era certamente verdade. Wilson tinha descido ao porão para lavar algumas roupas e encontrou-me olhando para a minha mesa de trabalho tristemente vazia, tentando não derreter no piso de concreto. Eu tinha recentemente negligenciado minhas expedições de coleta de madeira. O calor combinado com a gravidez me fez uma covarde absoluta. Agora eu estava pagando por isso. Um dia inteiro a toa e nada de esculpir.


— E Pamela está na Europa — Acrescentou Wilson, colocando uma carga de suas roupas na secadora. Era claro que ela estava. Pessoas como Pamela viajam por toda a Europa com seus amigos. Mas se Pamela tinha ido embora... — Ok — Eu concordei. — Vamos ao churrasco!

A mãe de Wilson não se parecia em nada com ele. Ela era loira, magra e se parecia muito com um aristocrata inglesa. Ela parecia ficar em casa com um chapéu de abas largas assistindo a uma partida de polo e dizendo “boa jogada!” Eu podia ver uma semelhança com Tiffa em sua figura esbelta e grandes olhos azuis, e Alice parecia exatamente como ela, apenas menos serena. A falta de serenidade pode ter sido o resultado dos três meninos de cabelos vermelhos que saltavam ao redor dela, sobre ela, debaixo dela. Alice parecia exausta e irritada onde sua mãe parecia fresca como um pepino. Gostaria de saber se Wilson se parecia com seu pai. Se não fosse pelos cabelos cacheados de Tiffa, eu poderia pensar que ele era o produto de um tórrido romance. O pensamento me fez rir silenciosamente. Joanne Wilson não teve affairs tórridos, eu quase apostaria minha vida nisso. Mas ela era louca por Wilson, não havia dúvida sobre isso. Ela segurava a mão dele enquanto eles conversavam, se pendurava em cada palavra que ele dizia e dava um tapinha em sua bochecha inúmeras vezes. Eu fiquei para trás, desajeitada no ambiente íntimo da família, e passei a maior parte do meu tempo na piscina brincando com as crianças, jogando anéis no fundo várias vezes, para que pudessem recuperá-los como cachorros incansáveis. Tiffa se juntou a mim depois de um tempo, e as crianças se amontoaram ansiosamente, pequenos corpos molhados lutando para se agarrarem enquanto ela ria e mergulhava - várias vezes. Fiquei surpresa com seu jogo físico e o afeto óbvio que ela tinha por seus sobrinhos. Eu, de repente, me perguntei por que ela não tinha filhos. Ela parecia muito mais adequada para a maternidade do que a pobre Alice, que tomava uma bebida alcoólica em uma cadeira perto da piscina e gritava cada vez que um dos meninos jogava água demais. O que tinha a mulher estava pensando tendo três filhos, um após o outro? Talvez, como eu, ela não tivesse pensado muito.


Tiffa conheceu e se casou com Jack, um garoto nativo de Las Vegas, quando ele estava completando sua residência no Instituto do Câncer, seu pai havia deixado a Inglaterra para trabalhar. Ela poderia ter ficado na Inglaterra, quando seus pais e Wilson se mudaram para os Estados Unidos. Alice era casada nesse tempo e permaneceu na Inglaterra. Mas em vez disso, Tiffa tinha aceitado um emprego em uma pequena galeria de arte no Upper East Side de Salt Lake City, ansiosa para ficar perto de sua família e ganhar novas experiências. Ela e Jack se casaram em uma questão de seis meses. E seis anos depois, eles ainda estavam obviamente apaixonados. Eles haviam se mudado para Las Vegas quando Jack tinha recebido uma posição permanente na oncologia no Hospital Desert Springs, e Tiffa foi contratada como curadora para o Sheffield. Meus olhos giraram para Jack, bronzeado e bonitão em uma polo azul claro e bermuda de brim cáqui, trabalhando no churrasco como um fodão homem americano. O marido de Alice, Peter não estava contribuindo muito com o churrasco, mas estava perto de Jack, ouvindo falar e rindo de algo que Jack dizia. Os dois homens em nada se pareciam, mas eu tinha gostado deles imediatamente. Peter era sobrinho de um conde - fiquei espantada ao descobrir que ainda havia aristocratas e tal, na Inglaterra - e segundo Tiffa, mais ricos do que a rainha. Eu não sabia o que os aristocratas faziam, mas, aparentemente, quando a sua riqueza rivaliza com a da realeza, há um monte para gerenciar, e Peter era declaradamente bom. Talvez isso fosse o que atraiu Alice, embora tivesse outras qualidades que o tornaram querido para mim. Ele era despretensioso, enquanto Alice era glamorosa, tranquilo enquanto Alice repreendia, e gentil, enquanto Alice parecia rude. Seu sorriso era tímido e seu jeito despretensioso. O seu cabelo era vermelho como os de sua prole. Eu sinceramente esperava que eles estivessem todos usando protetor solar. Eu era naturalmente morena, e mesmo assim usava fator 50. Eu sai da piscina e caminhei rapidamente para onde eu tinha tirado meu vestido. Eu tinha feito Wilson parar em uma Target no caminho, e tinha comprado uma peça enfadonha azul que atraia tão pouca atenção quanto possível. Eu não queria vestir o biquíni preto que havia sobrevivido à pilha de lixo há seis semanas. De alguma forma, gravidez e biquíni de amarrar não me atraia. Algumas mulheres gostavam, eu supunha. Para


mim, apenas parecia brega, como aquelas horríveis fotos do Facebook onde as mulheres grávidas tinham seus maridos beijando suas barrigas sem jeito. Eu estava com cinco meses a minha barriga era um pequeno monte, mas em comparação do jeito que eu era, parecia gigantesca. Eu me perguntava se ele seria plano de novo. Wilson e sua mãe ainda estavam sentados nas cadeiras sob o guardasol azul listrado em sérias discussões desde que tínhamos chegado. Wilson tinha me apresentado à sua mãe como uma “amiga e inquilina” e não tinha enfeitado isso. Joanne Wilson parecia aceitar o meu status, embora tivesse erguido as sobrancelhas um pouco e perguntado sobre Pamela quando pensou que eu não estava escutando. Aparentemente, Joanne tinha uma boa amizade com os pais de Pamela. Eu tentei ficar distante deles quando sai da piscina, mas quando Joanne parou de falar no meio da frase, eu sabia que não havia escondido a minha barriga bem o suficiente. Eu puxei meu vestido de verão sobre minha cabeça e tentei fingir que não tinha notado a pausa reveladora. Ela retomou sua conversa a meia batida depois, como se nunca tivesse parado, mas quando eu roubei uma espiada em Wilson, ele estava olhando para mim com uma expressão indecifrável no rosto. Ele não tinha compreendido mal a reação dela também. — Tiffa? Estes bifes estão prontos, baby. Vamos comer — Jack gritou para sua esposa, que estava gargalhando como uma bruxa, o menor dos ruivos em sua cabeça, os outros dois esguichando água com uma arma em suas costas. — Vamos jantar lá dentro, vamos? — Alice falou de sob seu guarda-sol. — Eu não posso suportar este calor por tanto tempo. — Nós podemos fazer as duas coisas — Tiffa respondeu saindo da piscina sem abrir mão do macaquinho nas costas. — Eu organizei tudo no apartamento. Jack vai trazer os bifes. Quem quiser pode voltar aqui e comer ou ficar lá dentro de casa, onde achar melhor. Jack e Tiffa também tinham convidado vários amigos próximos para a reunião, que foi um alívio para mim. Com o grupo maior torna-se mais fácil ser discreta. Quase todos fizeram o seu caminho descendo as escadas circulares que ligavam o telhado para Jack e o apartamento de Tiffa. Todas as coberturas, como Tiffa se referiu a eles, tinham escadas privadas que


levavam à piscina e jardins. Eu tentei não pensar no valor do custo de um lugar desses e maravilhar-me novamente com as diferenças entre Wilson e eu. Ele havia recebido a herança quando completou vinte e um, o que lhe permitiu comprar a mansão antiga em Boulder City. Eu não tinha ideia do quanto recebeu. Sinceramente, não queria saber, mas da forma como Tiffa falou, foram milhões. O que pode explicar o pequeno suspiro que Joanne Wilson deu quando viu a minha barriga. Milhões de dólares? Milhões de razões pelas quais ela gostaria que alguém como eu ficasse longe de Wilson. Eu entendia, realmente entendia, mas não diminuiu o constrangimento que eu senti pelo resto da tarde. O sol de verão do final da tarde trouxe um alívio e uma trégua do sol do deserto. Quando o sol se pôs em Las Vegas, o calor não era apenas suportável, era lindo. Eu até gostei da maneira como cheirava, como se o sol tivesse arrancado toda a sujeira e os oásis do deserto fosse lavada no fogo. Indescritível, até você respirá-lo. Eu acho que não era qualquer lugar no mundo que cheirava como Vegas. A festa voltou para a cobertura com o pôr do sol, e eu me deliciava com o calor ao anoitecer, um chá doce gelado na mão e os olhos no céu, esperando que os fogos de artifício começassem. Wilson ficava ao meu lado de vez em durante a noite, e nenhum de nós comentou sobre o constrangimento anterior junto à piscina. Joanne Wilson era gentil e educada sempre que as circunstâncias exigiam, mas eu a peguei me olhando várias vezes ao longo da noite. À medida que a hora dos fogos se aproximava, eu caminhei de volta para baixo da escada para mais uma viagem para o banheiro - amaldiçoei minha bexiga grávida! - quando ouvi Wilson e sua mãe conversando na cozinha de Tiffa. As escadas da piscina terminavam em uma área de azulejos - uma grande jacuzzi e uma sauna logo à esquerda, uma lavanderia e um grande banheiro com um enorme chuveiro à direita. Em frente, através de um grande arco de pedra estava à cozinha, eu não podia ver Wilson ou a sua mãe, mas era impossível não ouvi-los, especialmente quando eu era um papel tão proeminente na conversa. Fiquei imóvel ao pé da escada, ouvindo quando Wilson negou qualquer sentimento especial por mim. Sua mãe parecia horrorizada que ele iria me levar para sair onde muitos diriam que eu era sua namorada.


— Darcy. Você não pode estar namorando uma menina que está grávida, querido. — Eu não estou namorando com ela, mãe. Blue é minha amiga, e mora no meu prédio - isso é tudo. Eu estou apenas ajudando-a um pouco. Eu a convidei por amizade. — E que nome é esse? Blue? Soa como algo que Gwyneth Paltrow iria escolher. — Mãe — Wilson suspirou. — Eu poderia dizer o mesmo sobre Darcy. — Darcy é um nome clássico — Joanne Wilson rosnou, mas deixou o assunto e retomou seu argumento original. — É uma pena que a gravidez seja tão fácil para aqueles que não querem e, em seguida, difícil para aquelas que estão desesperadas para serem mães. — Eu não ouço Tiffa reclamando — Wilson respondeu, suspirando. — Não? É por isso que ela sempre tem Henry em seus braços, embora ele tenha três anos de idade e mais do que capaz de andar? É por isso que eu a peguei observando Blue com o seu coração quebrado? — Isso não é culpa de Blue. — O que ela vai fazer com o seu bebê? — Joanne perguntou. — Onde está o pai? — Tenho certeza que ela planeja mantê-lo. O pai não parece estar em cena, não que seja da minha conta ou da sua, mamãe. — É indecoroso, Darcy. Você pensaria que ela está um pouco embaraçada por acompanhá-lo aqui em sua condição — Eu senti sua desaprovação me espetar da minha cabeça até minhas unhas vermelhas dos pés. Eu me perguntava por que ela estava levando a minha presença de maneira tão pessoal. Eu não sabia que Tiffa queria ter filhos e não era capaz de tê-los. Fiquei imaginando agora se era realmente difícil para ela me ter por perto. O pensamento fez meu peito doer. Eu gostava e admirava Tiffa Snook. Ela era uma das pessoas mais bonitas e mais genuínas que já conheci. Eu me perguntava se era fingimento ou se ela se sentia da mesma maneira que sua mãe. Eu escorreguei para o banheiro para evitar ouvir mais, sabendo que só faria me sentir pior. Eu tinha dinheiro suficiente para pegar um táxi, e


embora provavelmente fosse covarde, eu não voltaria para a cobertura ou em qualquer lugar perto de Joanne Wilson, ou qualquer um dos Wilson. Eu não havia pedido para vir. Eu não estava apaixonada por Wilson ou fingia uma relação ou um status que não existia. Eu não tinha agido de forma “indecorosa”, seja lá o que queria dizer. Eu usei o banheiro, lavei as mãos e levantei meus ombros enquanto abria a porta. Joanne Wilson atravessou o arco quando saiu, e um flash de desgosto cruzou seu rosto antes dela continuar a subir as escadas até a cobertura. Eu estava no hall de entrada congelada com indecisão. Fiquei tentada a sair e só enviar a Wilson um texto e dizer a ele que eu estava cansada e não queria ficaria mais. Mas o meu telefone estava na minha bolsa, e minha bolsa ainda estava na cobertura ao lado da cadeira que eu tinha ficado na maior parte da noite. — Blue — Tiffa estava descendo as escadas com um Henry dormindo em seus braços. — Será que nós o cansamos muito, peixinho? Você não é o único — Henry ainda estava com seus brinquedos de natação, e sua cabeça era um borrão despenteado de vermelho, descansando em seu ombro. Ela acariciou-o distraidamente. — Eu pensei em colocar Henry na cama. Eu acho que ele encerrou sua noite. Gavin e Aiden ainda estão acordados, embora Aiden esteja começando a se queixar e esfregar os olhos. Eu acho que não levar muito tempo antes que ele fique desmaiado também. — Estou um pouco cansada, eu acho — Dei a desculpa que ela ofereceu. — Eu acho que vou pegar a minha bolsa e chamar um táxi para que Wilson não tenha ir ainda. — Darcy não vai querer isso. Além disso, acho que ele está ansioso em ir para casa. Ele estava procurando por você — Tiffa atravessou o arco em direção a uma parte do apartamento que eu ainda não tinha visto. Ela me chamou por cima do ombro. — Venha comigo enquanto eu arrumo Henry. Eu não cheguei a conversar com você hoje. Suas peças estão vendendo tão bem que precisamos começar a planejar estratégias para estabelecer uma presença maior - mais peças, peças maiores — Tiffa falava enquanto caminhava, e eu a segui obedientemente, adiando a minha partida. Tiffa colocou o menino para baixo e o deitou na cama, morto para o mundo. Ele estava completamente mole quando Tiffa tirou o calção de


banho. Quando ela sentou-o para colocar seu pijama, ele sacudia e oscilava, embriagado de sono. Nós duas rimos, Tiffa o guiou de volta contra os travesseiros, beijou-o e puxou uma coberta fina sobre seu pequeno corpo. — Boa noite, doce garoto — Ela sussurrou enquanto olhava para ele. Senti-me como uma intrusa, uma voyeur, observando-a enquanto olhava para ele. — Tiffa? — Hmm? — Estou grávida. Você sabia? — Sim, Blue. Eu sei — Ela disse suavemente. — Será que Wilson lhe disse? — Ele me disse quando se mudou para o pequeno apartamento no andar de baixo — O quarto estava a meia luz e nós falávamos em voz baixa, a fim de não perturbar Henry, mas nenhuma de nós se mexeu, um reconhecimento silencioso de que a conversa tinha se tornado íntima. — Ouvi a sua mãe e Wilson falando — Eu disse suavemente. Tiffa inclinou a cabeça curiosamente, esperando. — Sua mãe estava chateada. — Oh, não — Tiffa gemeu baixinho, seus ombros caindo. — O que ela disse? — Ela disse a Wilson que não deveria ter me trazido aqui. Isso era difícil para você — Eu queria pedir desculpas, mas minha raiva persistente de Joanne Wilson me manteve em silêncio. Eu não tinha tentado fazer mal a ninguém. — Oh, mamãe. Ela pode ser tão imbecil... E antiquada com isso. Agora vejo por que Wilson faz questão de ir embora. Ela provavelmente destruiu o coitado — Tiffa estendeu a mão e apertou a minha mão. — Eu sinto muito, Blue. Embora eu desesperadamente quisesse ter uma barriga igual a sua, você é bem-vinda em minha casa, com meu irmão, a qualquer hora. — Você está tentando engravidar? — Eu perguntei esperando que não fosse muito pessoal.


— Jack e eu nunca usamos o contraceptivo e desfrutamos muito um do outro, se você sabe o que quero dizer. Eu pensei que eu teria vários pequenos Jackie mordendo nossos tornozelos — Tiffa fez uma pausa e olhou para Henry novamente. — Há alguns anos atrás, Jack e eu fomos a um especialista. Ele disse que as chances são quase nulas... E nada favorece. Mas eu sou uma otimista, e continuo dizendo a mim mesma que ainda pode acontecer. Eu só tenho trinta e dois. Minha mãe teve dificuldades para engravidar e ainda assim, conseguiu duas vezes. — Alguma vez você já pensou em adoção? — As palavras saíram da minha boca, e meu coração começou a acelerar. Eu sabia o que diria a seguir, e isso me aterrorizava, mesmo quando senti uma súbita inspiração repousar em mim. Tiffa deve ter sentido minha emoção elevada, porque ela se virou para mim com um olhar interrogativo em seus olhos azuis. — Sim — Ela respondeu lentamente, soltando a palavra enquanto seus olhos procuravam o meu rosto. Todas as noites eu me deitava, considerando as opções, combatendo as inseguranças, pesando opções, parecendo se unir neste exato momento. Olhei de volta, ansiosa para me comunicar. Precisando que ela entendesse. — Minha mãe me abandonou quando eu tinha dois anos de idade — As palavras saíram com a força do Niágara, e o menino na cama se mexeu, embora eu não tivesse levantado a minha voz. — Eu quero que o meu filho tenha uma vida diferente da que eu tive. Eu quero que ela... Ou ele, seja esperado, comemorado... Ac... Acalentado — Eu gaguejei, parando para pressionar minhas mãos no meu coração galopante. Eu ia dizer isso. Eu ia fazer a Tiffa Snook uma oferta que agitou meu interior. Ela apertou as mãos em seu próprio coração e os seus olhos estavam tão grande como luas gêmeas. — Eu gostaria que você e Jack adotassem o meu bebê.


Capítulo Dezessete Evasiva Wilson estava tranquilo quando nós dirigimos de volta a Boulder City, e eu estava muito preocupada em confessar que tinha ouvido a conversa com sua mãe. Eu estava muito atordoada com esperança dele se importar já que tinha me descartado como um capricho, nada mais. Eu tinha ido à casa de Tiffa no quatro de julho esperando nada além de fogos de artifício, cachorros quentes, e um longo mergulho. Eu tinha ido embora com uma possível família para o meu filho que ainda não nasceu. E embora minha cabeça nadasse e meus pensamentos corressem freneticamente, eu senti algo certo ressoando dentro de mim por essa primeira noite longa e os dias seguintes. Tiffa e eu concordamos que deveríamos pesar a decisão e não dizer nada a ninguém até que tivesse falado com Jack e consultado um advogado. Nenhuma de nós tinha ideia alguma das etapas legais necessárias a serem feitas, mas Tiffa pensou que poderia conseguir algumas respostas do irmão de Jack, que era advogado. Suas mãos tremiam quando ela me abraçou e seus olhos estavam arregalados de espanto, provavelmente pela virada que sua vida tinha dado de repente. A esperança nos olhos dela deveria espelhar a minha, e embora ela me pedisse para pensar seriamente sobre a minha escolha ao longo dos próximos dias, eu sabia que não mudaria de ideia. Tiffa, Jack e eu nos encontramos com o irmão de Jack, que nos conduziu através do processo. Não era terrivelmente complicado: Jack e Tiffa pagariam minhas despesas médicas, o que eu precisaria reembolsar se mudasse de ideia dentro de um determinado tempo. E, claro, o pai deveria que ser notificado, teria que assinar abrindo mão dos seus direitos. O pensamento fez meu estômago dar cãibras de pavor. Não era que eu achei que Mason gostaria de ser pai e criar a criança. Mas ele era territorial, e eu podia vê-lo causando problemas apenas por ser encrenqueiro.


E então Tiffa disse à sua família. A mãe de Tiffa, Alice, Peter e as crianças estavam voando de volta para Manchester na parte da manhã, por isso Tiffa convidou Wilson para jantar para que ela pudesse dar a notícia, enquanto eles ainda estavam juntos. Ela me convidou também, mas eu recusei, grata que a mudança do horário de trabalho no café me deu uma desculpa para ficar longe. Estranha não começaria a descrever a situação. E eu realmente não queria falar sobre a adoção e outras coisas com Joanne Wilson. Gostaria de saber se o constrangimento se estenderia até o meu relacionamento com Wilson, e eu passei uma noite tensa no trabalho, deixando cair os pratos e atendendo mal. Eram nove horas exatas quando sai e voltei para casa, cansada e deprimida por receber e entregar pedidos e energia nervosa. Wilson estava sentado nos degraus da frente de Pemberley quando eu marchei até a calçada. Sentei-me ao lado dele e tentei descansar minha cabeça cansada nos joelhos, o que eu tinha feito mil vezes antes, mas minha barriga em desenvolvimento deixou impossível. Na última semana ela havia crescido tanto, que constantemente estava me surpreendendo e atrapalhando, disfarçadamente isso tinha ficado cada vez mais difícil. Então, eu só estava sentada com as mãos no meu colo e olhando para a rua escura, lembrei-me do momento, alguns meses atrás, quando eu estava tão perdida e tinha aparecido na casa de Wilson procurando por orientação. Tínhamos nos sentado exatamente dessa forma, os nossos olhos para o exterior, as pernas quase se tocando, tranquilos e contemplativos. — Tiffa e Jack podem ser as pessoas mais felizes do planeta neste momento — Wilson murmurou, olhando para mim por alguns instantes. — No entanto, minha mãe não está muito atrás. Ela estava cantando uma comovente versão “God Save the King” quando eu saí. — God Save the King? — Eu gaguejei, surpresa. — É a única música que ela conhece todas as palavras... E, aparentemente, sentiu vontade de cantar. Eu ri e nós voltamos a ficar em silêncio. — Você tem certeza sobre tudo isso, Blue? — Não — Eu ri com tristeza. — Eu decidi que certeza é um luxo que nunca vou ser capaz de suportar. Mas estou tão certa como uma garçonete


de vinte anos de idade poderia estar. E o fato de Tiffa e Jack estarem tão felizes me deixa quase certa. — Muitas mulheres mais jovens do que você, e com muito menos talento, criam os filhos sozinha todos os dias. — E algumas delas, provavelmente, fazem um trabalho muito bom, também — Eu admiti, tentando não deixar os seus comentários me incomodarem. — Algumas não — Meus olhos se encontraram com os dele desafiadoramente, e eu esperei, me perguntando se ele iria me pressionar ainda mais. Ele examinou a minha expressão e, em seguida, desviou o olhar. Eu queria que ele entendesse e precisava desesperadamente da sua validação, então me virei para a única coisa que eu sabia que ele iria entender. — Houve um poema que você citou uma vez, de Edgar Allan Poe. Você se lembra? — Eu memorizei depois daquela noite. Talvez tenha feito me sentir mais perto dele conhecer algo que ele sabia, compartilhar algo que ele amava, mas as palavras tinham falado comigo em um nível muito primitivo, até mesmo me assombrando. Era a minha vida, ela se resumia em poucas linhas de rima. Wilson começou a citar as linhas iniciais, uma pergunta em sua expressão. Quando ele fez, eu disse as palavras com ele, recitando-as. Suas sobrancelhas subiram, em cada palavra, e eu poderia dizer que eu o havia surpreendido pela minha maestria. Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar de fonte igual à deles; e era outra a origem da tristeza, e era outro o canto, que acordava o coração para a alegria. Wilson ficou parado, encarando-me à luz sombria que derramava ao redor do nosso poleiro de concreto. — É a próxima parte que não consigo tirar da minha cabeça — Arrisquei, mantendo o seu olhar. — Você sabe o que vem depois? Wilson acenou com a cabeça, mas não citou as linhas. Ele só esperou que eu continuasse. Então, falei-as, entregando cada linha da maneira que


interpretei. Tudo o que amei, amei sozinho. Assim, na minha infância, na alba da tormentosa vida, ergueu-se, no bem, no mal, de cada abismo, a encadear-me, o meu mistério. Havia mais, mas era esta linha que ressoava e eu juntei meus pensamentos, querendo ser entendida. — O mistério da minha vida me une ainda, Wilson. Você me disse uma vez que não podemos evitar onde fomos espalhados. Nascemos em quaisquer circunstâncias e nenhum de nós tem qualquer controle sobre isso. Mas posso garantir que esse bebê não será espalhado como eu fui. Eu não tenho nada para dar a não ser eu mesma, e se algo vier a acontecer comigo, meu bebê não teria mais ninguém. Não posso garantir à essa criança uma vida feliz, mas posso ter certeza que ela não amará sozinha. Eu a quero sob camadas de amor. Mãe, pai e avós e tias e tios e primos. Eu quero que ela tenha família ao seu redor para que não haja mistério e medo de estar sozinha ou abandonada... Ou espalhada. Wilson balançou a cabeça novamente, mas seu rosto estava preocupado e seus olhos cinzentos melancólicos. Ele se inclinou e beijou minha testa, e eu senti o cheiro de menta e creme pós-barba, tive que me segurar contra o desejo de inspirar profundamente, para puxar o cheiro dele ao meu redor como um cobertor quente. Eu senti a sua inquietude, como se ele não concordasse com tudo o que eu tinha dito, mas não queria ferir meus sentimentos. Eu me perguntava se era o fato de que ele seria um tio para o meu filho, o filho de Tiffa. Ele seria uma das camadas de amor que eu estava tão cuidadosamente construindo. — Então, o que vem depois, Blue? Para onde vamos a partir daqui? — Eu não sabia ao que ele se referia exatamente, por isso aceitei isso literalmente. — Amanhã eu tenho que dizer a Mason.


— Bem, veja quem está aqui. Não conseguiu ficar longe, certo? — Mason sussurrou, olhando para mim de sua porta aberta. Sua silhueta estava aparecendo à luz de seu pequeno apartamento em cima da garagem. Eu liguei para ele, dizendo-lhe que eu estava aqui fora e precisava falar com ele. Ele bateu o telefone com força e começou a descer as escadas com sua arrogância pronunciada. Ele, obviamente, pensou que eu queria fazer algo mais do que falar. Eu segurei minha bolsa na minha frente, não querendo que ele tivesse um deslumbre até que eu estivesse pronta. Eu ouvi uma porta bater. Wilson virou a esquina. Eu lhe disse tanto para ficar no carro. — Onde diabos você esteve, Blue? — Mason chegou ao pé da escada, ao mesmo tempo em que Wilson chegou a meu lado. Os olhos de Mason desviaram para Wilson e um olhar sombrio passou sobre suas feições. — Pensei que você me trocaria por esse viadinho arrogante? — Estou grávida, Mason. É seu — Eu joguei, não querendo conversar. Eu precisava disso o mais rápido possível. Movi a minha bolsa para o lado para que ele pudesse dar uma boa olhada na minha barriga. Os olhos de Mason desviaram para minha barriga e de volta ao meu rosto. Eu conseguia esconder a gravidez se eu usasse a roupa certa. Eu estava usando uma camiseta justa com calça capri slim, então não havia dúvida. — Oh, isso é ótimo! — Mason gritou, passando as mãos pelos cabelos, e eu imediatamente me senti mal por ele. Eu não o culpava por estar indignado. Era um grande golpe, e eu sabia exatamente como ele se sentia; eu me senti da mesma forma há vários meses. Ele apontou para mim, com o dedo apenas a centímetros do meu rosto. — Você aparece aqui depois de quase seis meses e joga isso em mim? De jeito nenhum. Uh uh! Eu não acredito. — Não acredita o que, Mason? — Eu o desafiei. Temperei minha simpatia com a necessidade de resolver o que eu tinha vindo fazer. — Como eu sei que o garoto é meu, Blue? Eu, com certeza, não fui o seu primeiro, e definitivamente não o último. Se bem me lembro, Adam aqui estava em cena nessa mesma época — Mason olhou para Wilson amargamente. Wilson apenas balançou a cabeça e cruzou os braços. A coisa de Adam simplesmente não foi embora. Não adiantava tentar negar ou explicar qualquer coisa.


Dei de ombros, não discutindo. Era melhor se Mason duvidasse de mim. Ele faria menos barulho. Entreguei-lhe a intimação que o irmão de Jack tinha preparado. — Eu não vim aqui para criar problemas, Mason. Eu não vim aqui para discutir. Eu quero dar o bebê para adoção. Isso explica a rescisão de direitos. Você precisa aparecer no tribunal nesta data, assinar na linha pontilhada, e está terminado. Você nunca mais terá que me ver ou a minha barriga. Mason olhou para a papelada e por um minuto eu pensei que ele iria rasgá-la em dois. — Eu tenho que pensar. Eu não posso fazer isso assim — Ele fez uma careta, jogando o papel de lado. Ele caiu no chão, e todos nós olhamos para ele, esperando que alguém fizesse uma jogada. Depois de um segundo, me abaixei para pegá-las. — Eu entendo — Eu disse a doçura escorrendo de minha voz. — Você definitivamente vai querer fazer isso. Porque se essa adoção não der certo, vou abrir um processo de paternidade e pedir pensão alimentícia — Eu mantive meu rosto neutro e os olhos inocentemente arregalados. Mason amaldiçoou e Wilson reprimiu um sorriso. Ele me deu um polegar para cima em seus braços cruzados. Seu sorriso desapareceu quando Mason começou a me chamar de puta vadia. — Cuidado camarada — Ele rosnou e Mason olhou com cautela, provavelmente recordando do kung fu do seu último encontro. — Vocês não vão receber um maldito centavo meu, Blue. — Apareça na quinta-feira e eu nunca vou fazer isso — Eu apertei o papel contra o peito, segurando-o até que ele estendeu a mão e agarrou-o, amassando o na mão. — Vejo você quinta-feira. Eu me virei e fui embora, não olhando para trás para ver se Mason observava ou se Wilson me seguia. Eu deslizei para o banco do passageiro do Subaru de Wilson e me atrapalhei para pôr meu cinto de segurança com a necessidade de me sentir segura, precisando tranquilizar-me que eu estava a salvo. Segura da ira de Mason? De sua sensação palpável de traição? Talvez. Eu só sabia que sentia medo e inexplicavelmente triste. Wilson subiu ao meu lado e ligou o carro. Minhas mãos tremiam tanto que


o fecho escorregou e ricocheteou de volta contra a janela, batendo no vidro com um estrondo revoltante. Wilson inclinou-se e puxou o cinto de segurança através de mim e travou sem comentários, mas senti os olhos dele no meu rosto enquanto ele se afastava do meio-fio. — Você está tremendo. Você está bem? Eu balancei a cabeça, tentando engolir a vergonha que encheu minha boca, me deixando com dificuldades para falar. Eu podia sentir seus olhos em mim, estudando meu perfil, tentando ver por baixo da minha máscara. Eu gostaria que ele deixasse isso para lá. — Você o ama? — A simpatia foi tão inesperada que eu ri, um latido duro que mantinha pouca semelhança com alegria. — Não! — Isso foi fácil. — Eu estou envergonhada. O amor não tem nada a ver com isso. Nunca foi isso. — Deixa isso mais fácil... Não amá-lo? Eu ponderei isso por um momento e depois assenti. — Sim. Deixa. Estou feliz por ele não se oferecer para me fazer uma mulher honesta. Wilson sorriu ironicamente. — Sim... É isso — Ele ligou o rádio e The Killers estava tocando na noite de Vegas com “Miss Atomic Bomb” fazendo vibrar o painel. Eu pensei que a conversa tivesse acabado quando Wilson estendeu a mão e apertou o botão, silenciando a música. — E se ele tivesse? — Se o quê? Me pedido para casar com ele? Caia na real, Wilson. — Então, será que você quereria manter seu bebê? — E nós poderíamos ser uma família feliz? — Eu guinchei, incrédula. — É ruim o suficiente para que o bebê tenha o nosso DNA combinado. Ele não merece ser educado por nós, também. — Ahh, Blue. Você não seria uma mãe ruim. — Eu me pergunto se isso é o que alguém disse à minha mãe quando ela descobriu que estava grávida de mim. Wilson balançou a cabeça com a surpresa evidente em seu rosto bonito. Eu dei de ombros, fingindo indiferença. Eu não sabia se eu seria uma mãe ruim. Eu não sabia se eu seria uma boa mãe. Mas eu sabia que não seria


uma boa mãe como Tiffa Snook, não, de qualquer maneira. E esse era o ponto principal.

Quinta-feira veio. Eu tinha dormido mal durante toda a semana, preocupada que Mason iria aparecer com os seus pais e que eles iriam pedir a custódia de meu filho quando nascesse. Se isso acontecesse, eu manteria o meu bebê. Dá-lo a Tiffa e Jack era uma coisa. Mas para Mason e seus pais era outra. Então Mason estava desacompanhado no tribunal quando cheguei na quinta de manhã. Ele era adulto e não precisava de permissão para o que estava prestes a fazer. Eu me perguntava se ele tinha dito a seus pais. Ele usava uma gravata e uma expressão de estado de choque e eu me senti mal mais uma vez. Quando o juiz perguntou-lhe, certificando-se de que ele entendeu os seus direitos, bem como os direitos que ele estava cedendo, ele acenou com a cabeça e, em seguida, olhou para mim. Eu não sentia mais raiva. Ele parecia atordoado. Com o tabelião olhando, ele assinou os documentos, e Tiffa e Jack se abraçaram com força, como se também estivessem com medo dele voltar atrás. Senti-me fraca com alívio e me esforcei para conter uma inundação repentina de emoção. Assim que o processo foi terminado, eu encontrei Mason. Eu devia isso a ele. — Obrigada, Mason — Eu disse em voz baixa, estendendo minha mão. Mason lentamente pegou a minha mão estendida na sua. — Por que você não me contou antes, Blue? Eu sei que nós nunca fomos sérios, mas eu... Eu queria ser. Foi a minha vez de ficar chocada. — Você queria? — Eu nunca pensei que Mason gostasse de mim além do sexo. Ocorreu-me, então, que a minha baixa opinião de mim mesma pode ter me cegado aos seus verdadeiros sentimentos. — Eu sei que posso ser um idiota. Eu bebo muito, digo coisas que não deveria e fico nervoso muito fácil. Mas você poderia ter me contado. — Eu deveria ter feito isso — Eu aquiesci. Ficamos sem jeito, olhando para todos os lugares, menos um para o outro.


— É melhor assim, Mason — Sugeri suavemente. Ele olhou para mim e balançou a cabeça em seguida. — Sim. Eu sei. Mas talvez um dia você vá me dar outra chance. Não. Eu não faria isso. Mason era parte de um passado que eu não queria repetir. Mas eu assenti não me comprometendo, grata que havia paz entre nós. — Cuide-se, Blue. — Você também, Mason — Eu me virei e fiz meu caminho até a porta. Mason gritou atrás de mim, e sua voz parecia muito alta no tribunal quase vazio. — Eu nunca imaginei você com um cara igual a Adam. Virei-me e dei de ombros. — Nem eu, Mason. Talvez isso seja parte do problema.


Capítulo Dezoito Neon — Por que a sua poltrona está no meio da sala? — Eu gosto de me sentar debaixo da saída de ar. — Você está com frio? Não tenha vergonha de aumentar o termostato. Este espaço não é exatamente muito grande para aquecer. — Wilson. É agosto, em Nevada. Eu não estou com frio. — Então... Porque é que a poltrona está no meio da sala? — Wilson insistiu. — Eu gosto de ouvir você tocar à noite — Eu admiti facilmente para minha surpresa. Eu não tinha planejado lhe dizer. — O som viaja através da saída de ar. — Você gosta de me ouvir tocar? — Wilson parecia chocado. — Claro — Eu disse calmamente, encolhendo os ombros como se não fosse grande coisa. — É muito bom — Bom era um eufemismo. — Eu continuo querendo que você toque alguma coisa de Willie — Eu provoquei. Wilson olhou cabisbaixo. — Willie? — Sim, Willie — Eu insisti, tentando não rir. — Willie Nelson é um dos maiores compositores de todos os tempos. — Huh — Disse Wilson, coçando a cabeça. — Eu acho que não estou familiarizado com o seu... Trabalho. Ele parecia tão desconcertado que eu não conseguia me conter e comecei a rir. — Willie Nelson é um cantor de música country - um clássico. Jimmy amava. Na verdade, Jimmy meio que era parecido com ele, apenas a pele mais escura e um pescoço menor. Jimmy usava tranças e bandana, e tinha todos os álbuns que Willie tinha lançado. Nós ouvíamos as músicas várias vezes — Eu realmente não sentia vontade de rir mais e de repente mudei de assunto. — Há uma canção que você toca, que eu particularmente gosto —


Arrisquei. — Sério? Cante uma parte. — Eu não consigo cantar, dançar ou recitar poesia, Wilson. — Só uma parte, então eu saberei que música você gosta. Limpei a garganta, comprimi meus olhos fechados e tentei pensar na melodia. Estava na minha cabeça, como uma corrente de água fria. Linda. Eu tentei um par de notas e ganhando confiança, cantarolei um pouco mais, ainda com os olhos fechados. Eu me senti muito satisfeita comigo mesma e abri um olho para ver como o meu cantarolar havia sido recebido. O rosto de Wilson estava vermelho e ele estava tremendo de tanto rir. — Eu não tenho a menor ideia de qual a música que você está cantarolando, amor. Talvez você poderia cantarolar mais algumas partes até que eu perceba qual é. — Seu... Idiota! — Eu esbravejei, batendo nele enquanto ele ria mais ainda. — Eu disse que não conseguia cantar! Pare com isso! — Não... Realmente, foi brilhante — Ele ofegou, afastando-se. Desisti com uma bufada e comecei a arrastar minha poltrona do meio da sala, indicando que eu ouviria mais, agora que isso tinha saído e me envergonhado. — Vamos lá, sinto muito. Aqui. Eu vou cantarolar para que você ria de mim — Ele puxou a cadeira de volta, diretamente debaixo da saída de ar. — Sente-se aqui e coloque os pés para cima — Ele me empurrou gentilmente na poltrona e levantou meus pés para que eles estivessem apoiados no descanso de pés da poltrona. — Melhor ainda, vou correr lá em cima buscar o meu violoncelo e trazê-lo para baixo para tocar para você. — Não estou interessada — Eu menti. O pensamento dele tocando seu violoncelo para mim me fez sentir um pouco sem fôlego e tonta. Felizmente, ele apenas riu e correu para fora do meu apartamento. Eu podia ouvi-lo voando pelas escadas e o estrondo da sua porta acima de mim. Em poucos minutos ele estava de volta, carregando o enorme estojo do violoncelo. Ele agarrou uma das minhas cadeiras da cozinha sem braços, sentou-se na minha frente e tirou seu violoncelo preto brilhante. Ele


começou a afinar e apertar as cordas enquanto eu observava, tentando esconder a minha expectativa. — Perfeito — Aparentemente satisfeito, ele começou a correr o seu arco sobre as cordas, encontrando uma melodia. Seus olhos encontraram os meus. — Quando você ouvi-la, me diga. — Por que você não apenas toca... Do jeito que faz quando está sozinho. Eu vou apenas ouvir — Eu desisti de qualquer pretensão de não estar interessada. — Você quer que eu pratique? — Ele parou de tocar de repente. — Sim. Basta fazer o que você faz todas as noites. — Eu pratico por pelo menos uma hora na maioria das noites — Foi falado como um desafio e eu respondi imediatamente. — Eu sei — E eu sabia, muito bem. — Mas diga-me os nomes conforme você segue, então quando eu ouvir você praticar a partir de agora, vou saber o que está tocando. Será educacional — Acrescentei, sabendo que iria fazê-lo rir. Ele riu. — Eu sou tudo sobre educação, você sabe. — Sim, muito. A menina que mal podia esperar para chegar a minha aula todos os dias, muito ansiosa para ouvir e aprender. Se ele soubesse. Mas ele apenas sorriu para mim e ergueu as mãos para tocar mais uma vez. Ele precisava de um corte de cabelo novo. Um cacho castanho deslizou em seus olhos, e ele com impaciência empurrou-o de volta. Ele inclinou a cabeça para o lado como se o violoncelo que ele segurava fosse uma amante, sussurrando um segredo. O arco deslizou sobre as cordas, e ele começou uma melodia. O som era tão doce e sensual os tons baixos, tremendo e misturando um ao outro - que eu quase suspirei alto. A música encheu a sala e empurrou contra meu coração, exigindo entrar. — Você conhece essa? — Ele perguntou enquanto tocava. — Mary Had a Little Lamb{31}? — Sempre atrevida, não é? — Ele suspirou, mas um sorriso pairou ao redor dos seus lábios e as pálpebras caíram fechadas conforme ele continuava a tocar. Observei-o, seus cílios compridos contra seu rosto sua


bochecha, o maxilar definido enfatizado pela leve sombra de barba por fazer. Seu rosto estava sereno, perdido na música que ele estava criando. E eu fiquei maravilhada que ele havia se tornado meu amigo. Eu me perguntei se havia outros homens como ele. Homens que amavam a história, carregavam lenços e abriam as portas para garotas... Até mesmo para as garotas como eu. Eu não conhecia ninguém como ele. Eu me perguntei novamente sobre Pamela e se ele estava apaixonado por ela. — Isto é Brahms — Seus olhos se abriram, focando novamente em meu rosto. Eu balancei a cabeça e mergulhei de volta no devaneio. Uma canção sangrava para outra, e eu permiti que meus olhos se fechassem enquanto eu ouvia. Eu me sentia pesada com a paz e o bem-estar, e me enrolei mais profundamente na poltrona. E então eu senti uma pancada. Oomph! Eu olhei para baixo maravilhada, perplexa com a cutucada contra meu abdômen. A sensação veio novamente e eu ofeguei. — Wilson! Wilson venha aqui! O bebê... Está... Dançando! Wilson estava ao meu lado de joelhos, quase antes que as palavras saíssem da minha boca. Ele estendeu a mão para mim, e eu apertei a mão dele à minha barriga, orientando-o para o movimento. Eu sentia o bebê se mover muitas vezes, mas não como agora. — Aqui! Aqui! Sente isso? — Os olhos de Wilson estavam grandes como pires. Nós dois seguramos nossas respirações e esperamos. Uma cotovelada e um chute. — Ouch! — Eu ri. — Você tem que ter sentido isso! — Wilson moveu a outra mão para cima da minha barriga com mais firmeza e apoiou sua bochecha contra mim, escutando. Durante vários segundos, sua cabeça estava embalada em mim, cachos escuros inclinados sobre minha barriga e eu resisti ao impulso de correr minha mão pelo seu cabelo. O bebê então parou e, no entanto, Wilson parecia relutante em se afastar. — Foi à música — Eu sussurrei, na esperança de mantê-lo perto, só por um minuto a mais. — Você estava tocando a música que gostamos. Wilson olhou para mim e nossos rostos estavam tão perto, teria sido muito fácil me inclinar para ele. Muito fácil... E completamente impossível. Ele parecia surpreso com a minha proximidade e imediatamente se afastou.


— Essa era a música? — Um sorriso iluminou seu rosto. — Sim. Qual era? — Eu perguntei — Bob Dylan. — O quê? — Eu lamentei. — Eu pensei que fosse Beethoven ou algo assim. Agora eu sei que sou um lixo branco. Wilson bateu-me na cabeça com o seu arco. — É chamada de “Make You Feel My Love”. É uma das minhas canções favoritas. Eu há embelezo um pouco, mas é Dylan, definitivamente não é Mozart. A letra é brilhante. Ouça. — Wilson cantou baixinho enquanto tocava. Sua voz era muito intensa quando o violoncelo gemeu. — É claro — Eu disse acidamente. — O quê? — Wilson parou, assustado. — Você pode cantar. Você tem uma voz linda. Eu não posso fingir que você é um merda. Porque não pode ser ruim em alguma coisa? É tão injusto. — Você claramente não me viu tentar esculpir algo complexo e belo de um toco de árvore — Disse Wilson secamente e começou a tocar novamente. Retomei a ouvir, mas a música fez meus dedos coçarem para esculpir. — Se você praticar no porão todas as noites, eu poderia ouvi-lo enquanto esculpo. Então, gostaria de fazer esculturas que parecessem seus sons musicais. Nós poderíamos fazer milhões juntos. Você seria a minha musa, Wilson. Os homens podem ser musas? Wilson sorriu, mas seus olhos novamente usavam aquele olhar sem foco, como se seu poder de ver fosse absorvido por sua necessidade de ouvir. Fechei os olhos também, deixando-me afastar em um mar de som. Acordei horas depois no silêncio. Minha manta cor maçã verde estava dobrada ao meu redor e Wilson e seu violoncelo mágico tinham ido embora.

Desde que me mudei para Pemberley, eu tinha adotado o hábito de caminhar para o trabalho. Isso economizava dinheiro do combustível e fornecia um pouco de exercício, mas como me aproximava do final do meu


oitavo mês, o calor, mesmo em meados de outubro, era quase suficiente para me fazer dirigir. Mas eu nunca dirigia às segundas-feiras. Era à noite em que Wilson descia e comia no café. Quando meu turno terminava, eu sempre me juntava a ele, e caminhávamos para casa juntos. Uma vez, apenas de passagem, eu disse a ele como eu costumava levar para Manny e Gracie o jantar nas noites de segunda-feira então elas eram sempre um pouco tristes para mim. Depois disso, Wilson começou aparecer no café nas segundas-feiras à noite. Tentei não ler qualquer coisa em suas ações. Ele era bom para mim, gentil e atencioso, e eu dizia a mim mesma que era apenas quem ele era. Eu nunca questionei o tempo que passava comigo, nunca comentei sobre isso, nunca chamei a atenção para isso. Eu me preocupava que se eu fizesse, ele poderia parar. Meu turno normalmente terminava às sete, e Wilson entrou naquela segunda-feira, às sete em ponto. Ele ainda usava calça social e uma camisa azul clara, enrolada na altura dos cotovelos. Era seu traje padrão da escola. Bev piscou para ele e mandou-me ir em frente, mostrando-me o relógio. Então me juntei a ele para um sanduíche e um copo de limonada, suspirando enquanto eu mexia meus dedos dos pés e revirava meus ombros rígidos. Bev assegurou-se de serviu à Wilson seu pedido padrão, tomate, queijo grelhado com batatas fritas, embora Bev sempre as chamasse de chips, como se para fazer Wilson se sentir em casa. Ele agradeceu e disse que tudo parecia absolutamente “delicioso”. Ela riu como Chrissy costumava fazer na aula de história. Era tudo que eu podia fazer para não rir bem alto. — Acho que Bev tem uma queda por você, Wilson. Eu sei que você provavelmente está acostumado com isso agora. Você não tem um fã clube na escola? O clube “I Heart Wilson” ou algo assim? — Ha, ha, Blue. Eu nunca fui totalmente popular com as garotas. — Wilson. Não seja idiota. Você era tudo que Manny conseguia falar durante todo o primeiro mês de aula. — Manny não é uma garota — Comentou suavemente. Eu ri. — É verdade. Mas acho que eu era a única que não estava seguindo o com a minha língua de fora. Era nojento. Agora até mesmo Bev


se juntou ao clube. Eu vi um adesivo em seu carro que dizia A bunda britânica me deixa louca. Wilson engasgou com a boca cheia de comida, rindo, e pegou sua limonada para ajudar a descer. Eu adorava fazê-lo rir, mesmo que fosse perigoso para a sua saúde. Wilson se recuperou e balançou a cabeça, negando a minha afirmação de que ele era popular com as garotas. — Eu sempre fui o nerd da orquestra - que os americanos chamam... Geeks da banda? Eu me dava melhor com meus professores do que com meus colegas. Eu era o garoto magricela com óculos e pés grandes que sabia todas as respostas em sala de aula e que se oferecia para limpar os quadros depois da aula. — As crianças realmente fazem isso? — Eu o interrompi, incrédula. Wilson apenas revirou os olhos para mim e continuou. — Eu não era nenhum ímã de garotas, especialmente com garotas como você... Por isso o fato de que você não se impressionou comigo no ano passado, bem, isso não mudou. E isso sempre foi bom para mim. Meninas nunca estavam no topo da minha lista de prioridades. Não me entenda mal, eu observei as garotas como você, mas não gostava de garotas especialmente como você. E garotas como você nunca notam caras como eu. — O quê? As vadias horríveis, você quer dizer? — Eu disse isso suavemente, fingindo que estava brincando. Eu não estava. Suas palavras arderam, mas “garotas como eu” se adaptavam com as mudanças. — Não, Blue — Ele balançou a cabeça, exasperado. — Não foi isso que eu quis dizer. Garotas lindas, duronas, que cresceram muito rápido e que comeriam caras como eu e os cuspiriam de volta. — Sim. Como eu disse. As vadias horríveis — Eu empurrei o meu prato e bebi ruidosamente, indicando tinha acabado. Levantei-me, comunicando o fim da nossa conversa e o fim da nossa “refeição aconchegante”. Wilson apenas olhou para mim, e eu poderia dizer que eu o tinha deixado com raiva. Muito ruim. Eu sorri para ele lentamente, com sarcasmo, mostrando muitos dentes. O que foi uma conversa alegre, de repente, tinha assumido um tom diferente. Ele passou as mãos pelos cabelos e empurrou o prato também. Ele jogou algumas notas sobre a mesa e se levantou. Ele caminhou em direção ao caixa, longe de mim, me dispensando. Então pagou por ambas as refeições e saiu do café.


Acenei para Beverly, que me soprou um pequeno beijo. — Vejo você amanhã, Blue. Diga a Wilson que eu disse adeus. Wilson estava me esperando do lado de fora com as mãos enfiadas nos bolsos e o rosto inclinado em direção ao pôr do sol. Uma das minhas coisas favoritas sobre o deserto era o pôr do sol. O céu sob as colinas mais baixas ao oeste emitia ondulações rosa e roxo para o céu ao cair da noite. Talvez fosse porque não havia nada para obscurecer a visão - Las Vegas se localizava no vale, e Boulder City ficava mais alta, no sudeste, ao redor da curva das colinas do leste - mas o pôr do sol nunca deixou de me mover e lembrar-me do tempo com Jimmy, quando eu não era tão dura, quando não tinha que ter crescido tão rápido. Wilson não falou quando me aproximei e começamos a caminhar em silêncio. O meu aumento de tamanho me obrigava a gingar, mas Wilson ajustava seu passo conforme caminhamos para casa. — Por que você faz isso? — Wilson eventualmente disparou. Eu sabia que ele estava pensando feito um louco. — Fazer o quê? — Assumir o pior. Colocar palavras na minha boca, chamar-se de nomes, tudo isso. Por quê? Eu pensei por um minuto, perguntando como eu poderia fazer alguém como Wilson entender como era ser uma “garota como eu”. — A primeira vez que fiz sexo eu tinha quatorze anos, Wilson. Eu necessariamente não queria, mas foi. Ele era um menino mais velho, e eu gostava de sua atenção. Ele tinha dezenove anos, e eu era uma presa fácil — Eu dei de ombros. — Eu tive sexo muitas vezes desde então. Algumas pessoas podem dizer que isso me faz uma puta, e o fato de que não peço desculpas por isso pode me qualificar como uma. Chamar-me de vadia horrível é leve, se você olhar para isso dessa forma. Eu não estou orgulhosa disso - e estou tentando mudar - mas é a verdade, e não estou realmente interessada em dar desculpas para mim. Wilson tinha parado de andar e estava olhando para mim. — Quatorze! Isso não foi sexo. Foi estupro, Blue. — Sim, Wilson. De muitas maneiras, isso foi.


— Droga! — Wilson sussurrou incrédulo. — Eu malditamente não acredito nisso! — Então ele gritou: — Droga! — Desta vez disse tão alto, que algumas pessoas que atravessam a rua pararam e olharam. Uma mulher estava dirigindo seu carro com a janela abaixada quando ele gritou, e ela franziu o cenho para nós. A pobre mulher pensou que Wilson estava gritando com ela. — Deixe-me adivinhar, nada aconteceu com ele? Certo? — Wilson virou para mim como se eu estivesse furiosa com ele. Eu sabia que não estava. Na verdade, a raiva de Wilson era incrivelmente válida. Descobri que lhe dizer não me afligia e, pela primeira vez, a lembrança não fez meu interior tremer. — O que você quer dizer? Claro que não. Eu disse a Cheryl, ela se certificou que eu tomasse a pílula, e eu... Superei. — Aaah! — Wilson gritou de novo, chutando uma pedra e a fazendo voar. Ele resmungou e xingou, parecia incapaz de falar racionalmente, então eu caminhei ao lado dele, esperando-o. Depois de um alguns quarteirões, ele estendeu a mão e pegou a minha mão na sua. Eu nunca tinha segurado a mão de um garoto enquanto caminhava ao lado dele. A mão de Wilson era muito maior do que a minha, e ele a engolia, me fazendo sentir delicada e querida. Era incrivelmente... Sexy. Se eu não tivesse extremamente grávida, se eu não tivesse acabado de confessar meu passado feio, eu poderia ter feito um movimento em Wilson logo em seguida. Eu poderia ter pegado seu maravilhoso rosto em minhas mãos e o beijado até que nos enrolássemos um ao redor do outro no meio da calçada. Eu ri silenciosamente de mim mesma e afastei o pensamento. Eu tinha certeza que Wilson iria correr gritando para as montanhas, se eu alguma vez fizesse uma jogada nele. Essa não era a natureza da nossa relação. Essa definitivamente não era a natureza dos seus sentimentos por mim. Além disso, com a barriga gigante do jeito que estava, aproximar poderia ser impossível. Caminhamos até o pôr do sol desaparecer e o crepúsculo ofuscou nosso ponto de vista. As luzes da rua começaram a piscar quando nos aproximávamos de Pemberley. — Faça um pedido! — Eu gritei, puxando a mão de Wilson. — Depressa! Antes que todas as luzes se acendam! — Na área de Vegas, o céu


noturno sempre tinha um tom alaranjado. O neon e a vida noturna juntos deixavam quase impossível ver as estrelas. Então, eu tinha criado minha própria variação do pedido para as estrelas. Eu pedia para a iluminação pública em vez disso. Eu apertei meus olhos fechados e agarrei a mão de Wilson, encorajando-o a fazer o mesmo. Corri mentalmente através de uma ladainha de desejos, alguns deles os mesmos pedidos que sempre fazia riquezas, fama, nunca ter que raspar minhas pernas novamente - mas havia novos, também. Estalei meus olhos abertos para ver se os tinha adquirido antes da última rua acender. O último zumbiu e brilhou enquanto eu observava. — Incrível! — Eu bati meu quadril no de Wilson. — Esses pedidos estão definitivamente se tornando realidade. — Eu não posso continuar, Blue — Disse Wilson suavemente. — Estou sempre cambaleando com você. Então quando eu acho que sei tudo o que há para saber, você revela algo que absolutamente me arrebata. Eu não sei como você sobreviveu, Echohawk. Eu realmente não sei. O fato de que você ainda está fazendo piadas e desejando para postes é um pequeno milagre — Wilson estendeu a mão como se fosse tocar meu rosto, mas a deixou cair no último segundo. — Lembra-se da vez na sala de aula quando eu perguntei-lhe por que você estava tão brava? Eu me lembrava. Eu tinha sido uma pirralha. Eu balancei a cabeça. — Eu pensei que tivesse tudo calculado para mostrar que você não era tão importante como achava. E então eu descobri por que você estava tendo dificuldades em escrever a sua história pessoal. Eu me senti como um idiota total. Eu ri e fiz um gesto de vitória com a mão livre. — Esse era o objetivo, Wilson. Faça o professor sentir pena de você. Isso realmente ajuda a classe. Wilson só olhou para mim e eu poderia dizer que ele não estava acreditando. Ele começou a subir os degraus para a casa, soltando minha mão e pegando suas chaves. — Para constar, Blue, eu não acho que você seja uma vadia horrível — Disse sobriamente, e eu quase ri da maneira como essas palavras soaram saindo de sua boca. — Admito que quando você entrou na minha classe no


primeiro dia, eu pensei exatamente isso de você. Mas você me surpreendeu. Há muito mais em você do aquilo que aparenta. — Há muito mais na maioria das pessoas do que aparenta, Wilson. Infelizmente, muitas vezes não é boa coisa. É uma coisa assustadora, coisa dolorosa. Você sabe tanta coisa assustadora e dolorosa sobre mim, que é uma maravilha que ainda esteja por perto. Você me prendeu muito bem desde o início, eu diria. No entanto, está errado sobre uma coisa. As meninas como eu notam caras como você. Nós apenas não achamos que merecemos. Wilson deixou as chaves caírem imediatamente. Eu gemi por dentro e gostaria de ter mantido minha boca fechada. Ele se inclinou, pegou as chaves e depois de várias tentativas, destrancou a porta de entrada e abriua. Ele esperou até que eu entrasse e depois me seguiu para dentro, fechando a porta atrás de nós. Sempre um cavalheiro, ele parou do lado de fora do meu apartamento. Ele parecia estar procurando as palavras certas e pela primeira vez eu não o provoquei ou tentei ser engraçada. Eu só esperei, me sentindo um pouco desesperada por ele saber aqueles meus segredos mais obscuros e parecia estar lutando com eles. Ele encontrou sua voz finalmente, e fixou seus olhos melancólicos em um ponto além de mim, como se ele estivesse relutante em encontrar o meu olhar. — Eu continuo desejando que você tivesse uma vida melhor... Uma vida diferente. Mas uma vida diferente teria feito você uma Blue diferente — Então ele olhou para mim. — E essa seria a maior tragédia de todas — Com uma pequena sombra de um sorriso, ele levantou a minha mão aos lábios Mr. Darcy até o fim - e, em seguida, virou-se e subiu as escadas. Naquela noite eu fiquei sentada no escuro esperando que Wilson tocasse. Mas não havia cordas para me amarrar em nós de seda. Gostaria de saber se Pamela, a loira bonita com pele perolada e dentes perfeitos, estava com ele. Talvez por isso não houvesse música. Eu acho que deveria ser grata que não havia gemidos e declarações de amor que vinham através da saída de ar. Estremeci com o pensamento e o bebê chutou, fazendo-me recuperar o fôlego e levantar a camisa para que eu pudesse ver a minha barriga. Era tão estranho... E tão legal. Minha barriga revirou, levantando e baixando como uma onda do mar.


— Nenhuma música ainda, docinho. Wilson está se escondendo de nós. Eu cantaria, mas prometo que é pior do que nenhuma música. Minha barriga revirou de novo, e eu me aliviei em uma posição diferente, tentando ficar confortável, tentando apreciar o desconforto. Não seria por muito tempo. Momentos como estes estavam desaparecendo. Eu os senti escorregarem conforme os dias iam passando, e os dias passados foram se acumulando. Eventualmente, esse momento iria se juntar aos outros. E finalmente o amanhã viria e meu bebê nasceria. E eu seria apenas Blue novamente. Eu estava cansada, e meus olhos ficaram pesados. Em algum lugar entre a vigília e o sono, a memória brilhou para a superfície, e eu assisti isso como um sonho passando como uma reprise na velha TV. — Jimmy, que tal encontrar uma nova mãe? — Eu tinha me arrastado para cima de uma árvore com galhos baixos pendurados e subi até que eu estava deitada no galho acima de Jimmy. Suas mãos deslizaram ao longo do pedaço retorcido de cedro que ele estava descascando. — Por quê? — Jimmy respondeu depois de alguns segundos. — Você não gostaria que tivéssemos uma mãe? — Eu perguntei, apreciando a paisagem de cima. Isso me dava uma visão interessante da cabeça grisalha de Jimmy. Eu deixei cair uma pinha em cima dele, que quicou em sua cabeça sem causar danos. Ele nem mesmo a esmagou. — Eu tive uma mãe — Ele resmungou. — Mas eu não! E eu quero uma! — Mais duas pinhas acertaram o alvo. — Coloque um avental em Icas — Jimmy pegou seu chapéu e o colocou, a sua resposta para barrar as pinhas. — Icas fede e tem beijos piegas. Mamãe não tem a respiração de um cão — Eu dobrei meu joelho sobre o galho e balancei um braço e uma perna. Descendo, eu arranquei o chapéu de Jimmy de sua cabeça. — Talvez Bev possa ser a nossa nova mãe. Ela gosta de você e gosta de mim, e faz realmente bons sanduíches de queijo — Eu coloquei o chapéu de Jimmy em minha cabeça e desci para o chão, realmente não me importando com a sensação de alfinetes e agulhas em meus pés quando eu atingi na terra. — Eu acho que gosto das coisas do jeito que estão, Blue.


— Sim. Eu acho — Peguei um pedaço menor de cedro, um martelo e uma lâmina e comecei a tirar a casca, imitando os movimentos constantes de meu pai. — Talvez pudéssemos adotar um bebê — Eu sugeri. A lâmina de Jimmy mordeu profundamente na madeira e ele amaldiçoou sob sua respiração... Algo sobre o inferno congelar de novo. — Eu seria uma boa mãe, eu acho — Eu disse séria, assinalando minhas realizações. — Gostaria de compartilhar minha cama com ela. Eu poderia ensiná-la a engatinhar. Eu, obviamente, sei como andar, de modo que não seria um problema. No entanto, você teria que trocar as fraldas. Ou talvez a gente pudesse ensiná-la a fazer cocô lá fora, como Icas. — Hmmm — Jimmy suspirou, me afastando. — Eu poderia ser a mamãe, você poderia ser o vovô. Gostaria de ser um vovô, Jimmy? Jimmy parou de esculpir, as mãos caindo para os lados. Ele olhou para mim com sobriedade, e me espantei com as linhas profundas ao redor da sua boca que eu realmente não tinha notado antes. Jimmy já meio que parecia um vovô. Melodias musicais encontraram o seu caminho através da saída de ar e me balancei sonolenta, a lembrança / sonho ainda pairava no ar como uma sugestão de perfume. Eu tinha avós em algum lugar. Minha mãe deveria ter alguma família. E se não, o que aconteceu com a família do meu pai? Será que eles sabiam que eu existia? Será que tinham procurado por mim? Eu estava no escuro ouvindo Wilson tocando as canções que eu, agora, tinha nomes para elas. Eu poderia identificar muitas delas nas primeiras notas. No entanto, eu poderia passar pelo meu avô – até mesmo pelo meu próprio pai! - amanhã e não reconhecê-lo. Meu bebê mexeu dentro de mim novamente. Um dia meu bebê iria querer saber, não importava o quanto ele ou ela estivessem envoltos em amor e família. Algum dia ele ou ela precisaria saber. E isso significava que eu tinha que descobrir.


Capítulo Dezenove Página em Branco O recinto cheirava como seria de esperar de uma delegacia. Cheirava autoridade. A café, água de colônia, uma pitada de água sanitária e eletrônicos... Você conhece o cheiro. No entanto, eu não senti o cheiro de donuts. Eu achei que a coisa de polícia e donuts era apenas um estereótipo. Mais rótulos. Aproximei-me da recepção, ocupada por uma mulher enorme, com um coque apertado e uma sugestão de bigode. Sua aparência não incentivava a contar um segredo. — Posso ajudar? — Sua voz era um completo contraste com sua aparência. Era doce e amável, e me fez lembrar Betty White{32}. Eu me senti melhor quase que imediatamente. — Eu não sei se você pode me ajudar, mas talvez possa me orientar. Gostaria de saber se existe um policial aqui com o sobrenome de Bowles? Acho que ele se lembrará de mim. Trata-se de um caso de pessoa desaparecida com o qual esteve envolvido cerca de dez anos atrás. — Nós temos um detetive Bowles. Será que você gostaria que eu visse se ele está no local? Bowles não era um nome extremamente incomum, e eu sabia que havia uma chance de que não fosse o mesmo cara, mas acenei de qualquer maneira. Era um começo. — Eu poderia saber o seu nome, por favor? — Blue Echohawk — Isso tornaria mais simples. Se Detetive Bowles não reconhecesse meu nome, não seria o mesmo oficial que eu tinha conhecido. A mulher que engoliu Betty White falou docemente em seu fone de ouvido, obviamente tentando localizar Detetive Bowles. Eu desviei o olhar, dando uma olhada ao redor. Este edifício era muito mais velho do que a


delegacia de polícia que tinham me levado em 2001. Aquela delegacia ficava em Las Vegas em algum lugar e era completamente nova. Tinha cheiro de tinta nova e serragem, que na época foi muito reconfortante. Para mim, o cheiro da serragem foi, provavelmente, o equivalente a cookies com gotas de chocolate quente fora do forno. — Blue Echohawk? — Virei-me quando um homem musculoso, de meia-idade se aproximou. Ele era familiar e eu resisti à vontade de virar e correr quando meu coração começou a bater. Será que eu ficaria em apuros por não ter apresentado esta informação antes? Será que Cheryl ficaria? Um sorriso apareceu em seu rosto quando a surpresa o fez rir e estender sua a mão em saudação. — Eu serei amaldiçoado. Quando todas as coisas aconteceram na escola em janeiro passado, eu queria entrar em contato e dizer olá e avisá-la como eu estava orgulhoso de você, mas pensei que talvez você estivesse sobrecarregada com todo o falatório e atenção da mídia na época. — Eu pensei que o vi naquele dia. É por isso que estou aqui. Eu achei que você tinha que estar trabalhando aqui em Boulder City agora e - eu sei que isso é um pouco estranho - acho que você pode ser capaz de me ajudar. Eu não estou em apuros! — Corri para adicionar e ele sorriu de novo. Ele parecia genuinamente feliz em me ver. — Eu sabia que não poderia haver duas Blue Echohawk no mundo, mas admito, eu ainda a imaginava com dez anos de idade — Ele olhou para a minha barriga saliente em surpresa. — E você vai ser mãe em breve, pelo que parece! — Minha mão escorregou para a minha barriga, sem jeito. Eu balancei a cabeça e agarrei a mão que ele estendeu em minha direção, sacudindo-a com firmeza antes de soltá-la. — Candy? — Detetive Bowles dirigiu sua pergunta para a senhora atenciosa na recepção. — Será que a sala D está disponível? Doce?? Oh, pobre mulher. Ela precisava de um nome forte para acompanhar aquele quase bigode. Candy sorriu e acenou com a cabeça, o tempo todo falando em seu fone de ouvido. — Por aqui — Detetive Bowles começou a caminhar. — Posso chamá-la de Blue?


— Claro. Do que eu o chamo? — Detetive... Ou Andy está bem, também. Ele me levou para uma pequena sala e puxou uma cadeira. Eu me perguntei se eles usavam estas salas para interrogar assassinos e membros de gangues. Estranhamente, tinha me sentido muito mais nervosa no Planned Parenthood. — Então fale comigo. O que a traz para mim depois de todo esse tempo? — O Detetive Bowles cruzou os bíceps protuberantes sobre o peito e recostou-se na cadeira. — O corpo de meu pai foi encontrado três anos depois de ter desaparecido. Eu não sei se você sabia disso. Foi-me dito pelo meu assistente social e eu não sei o que aconteceu ao término de suas coisas... O que exatamente a polícia fez. Eu estou supondo que foi documentado e o caso foi encerrado em algum momento? — Eu não sabia se estava usando a terminologia correta. Como a maioria das pessoas, eu tinha visto alguns programas policiais. Eu me sentia um pouco tola tentando soar como se tivesse alguma ideia do que estava falando. — Eu sabia, na verdade. Sinto muito pela sua perda — Detetive Bowles inclinou a cabeça, sabendo que havia mais por vir. — Min... Tia... — Minha voz sumiu. Ela não era minha tia, mas por causa da história eu precisava mantê-la simples, mas honesta. Eu ajustei isso ligeiramente. — Uh... A mulher que me acolheu me disse algo naquela época que eu não acho que a polícia soubesse. Eu não sabia... Você sabe — Eu não estava fazendo nenhum sentido. Detetive Bowles apenas esperou. — Eu não quero deixá-la em apuros. Ela deveria ter falado... Mas tinha suas razões, eu acho. — Você quer um advogado — Perguntou o detetive Bowles suavemente. Eu olhei para ele em confusão. — N... Acho que não. Eu não cometi um crime. Eu era uma criança. Nunca me ocorreu que eu poderia ir à polícia com o que ela me disse. E estou esperando que isso não seja sobre Cheryl Sheevers ou qualquer outra pessoa.


Trata-se de mim. Estou tentando descobrir quem era minha mãe. — Se bem me lembro, ninguém parecia saber quem era sua mãe, correto? Eu balancei a cabeça. — Mas depois que o corpo de Jimmy Echohawk foi encontrado, Cheryl me disse que ele não era meu pai. Detetive Bowles estava sentado um pouco mais reto. Eu definitivamente tinha a sua atenção. — Como é que ela sabia disso? — Ela me disse que Jimmy parou para passar a noite em uma parada de caminhões em Reno. Sentou-se em uma grande mesa no restaurante para ter algo para comer, e cerca de vinte minutos em sua refeição uma menininha sentou-se em frente a ele. Ela havia estado aparentemente dormindo do outro lado desta grande mesa redonda, e ele ainda não a tinha visto lá. Ele ofereceu a menininha suas batatas fritas. Ela não chorou, mas estava com fome e comeu tudo o que ele lhe deu. Ele acabou ficando sentado ali com ela, esperando que alguém a reclamasse — Eu olhei para Detetive Bowles cujos olhos tinham ficado maiores, saltando para a conclusão óbvia. — Você teria que conhecer Jimmy. Ele definitivamente caminhava em um ritmo diferente. Ele não viveu como as outras pessoas viviam, e definitivamente não respondeu da forma que alguém teria respondido. Ele era gentil, mas também era reservado... E muito... Calmo e... E despretensioso. Eu só posso imaginá-lo, olhando ao redor, tentando descobrir o que no mundo fazer com esta criança, mas não dizendo uma palavra. Eu juro, ele não teria falado em uma sala de emergência se tivesse um machado em sua cabeça. Andy Moody assentiu, ouvindo e me encorajando. Fiz uma pausa, a lembrança pronta nos limites da minha mente... Mas ainda nebulosa. Eu realmente não sabia se era uma lembrança verdadeira ou se eu havia apenas imaginado tantas vezes que parecia dessa forma. — De qualquer forma, eventualmente, uma mulher veio até a menininha. Jimmy pensou que talvez a menina estivesse perdida e sentada na mesa sozinha. Mas da forma como a mulher agiu, ela tinha colocado a menininha na mesa de propósito, e a deixado dormir enquanto ela saia e jogava bilhar.


Detetive Bowles balançou a cabeça em descrença. — E essa menininha era você. — Sim — Eu disse com franqueza. Eu continuei a dizer-lhe o que Cheryl tinha me dito, sobre a crença de Jimmy que a minha mãe o tinha seguido de volta ao seu trailer e sobre a porta do lado do passageiro quebrada. Eu disse a ele como fui encontrada na manhã seguinte, como Jimmy tinha me reconhecido, e como não sabia o que fazer. — Poucos dias depois, a polícia apareceu na parada de caminhões, mostrando um panfleto com o rosto da mulher nele, perguntando sobre uma criança. O proprietário da parada de caminhões, que tinha comprado algumas esculturas de Jimmy e foi bastante simpático com ele, disse-lhe que a mulher tinha aparecido morta no hotel local. Os policiais tinham vindo, porque a mulher estava usando uma camiseta com o logotipo da parada de caminhões. Foi então que Jimmy seguiu em frente e me levou com ele. Por este ponto, o detetive Bowles estava rabiscando freneticamente, seus olhos lançando-se do seu papel para o meu rosto enquanto eu falava. — Em resumo, minha mãe me abandonou em uma parada de caminhões em Reno. Ela apareceu morta em um hotel na região alguns dias depois. Com essa informação, eu me perguntava se você poderia descobrir quem era ela. Detetive Bowles olhou para mim, seu maxilar pulsando e piscando rapidamente. Ele não tinha uma boa cara de blefe. — Você sabe aproximadamente quando isso teria sido? — Agosto. Eu sempre achei que meu aniversário era 02 de agosto. Mas como Jimmy saberia quando meu aniversário era? Eu acho que ele marcou o meu aniversário no dia em que minha mãe me abandonou. Eu não posso ter certeza disso, mas é o meu melhor palpite. Cheryl disse que ela pensou que eu tivesse dois anos, quando tudo isso aconteceu. Deveria ser em 1992 ou 1993. Isso ajuda? — Sim. Isso ajuda. Agosto de 92 ou 93. Quarto de hotel. Criança desaparecida. Camiseta com o logotipo da parada de caminhões. O que mais você pode me dar? Qualquer coisa?


— Ela era jovem... Talvez mais jovem do que sou agora — O pensamento me ocorreu muitas vezes nos últimos meses. — Ela era nativa americana, como Jimmy. Eu acho que poderia ser uma das razões por ter me deixado com ele — Talvez eu estivesse me enganando. Mas era algo para me agarrar. — Eu vou fazer algumas ligações. Este caso foi, obviamente, nunca resolvido, porque nunca encontramos você, não é? O departamento de Reno terá que procurar nos arquivos, fazer um pouco de pesquisa, pode levar alguns dias, mas vamos descobrir quem sua mãe era, Blue. — E descobrir quem eu sou. Detetive Bowles olhou para mim e, em seguida, balançou a cabeça lentamente, como se a compreensão fosse impressionante. — Sim. Você, pobre garota. E descobriremos quem você é, também.

— Eu estou indo para Reno. — Reno? — Reno, Nevada — Wilson era britânico. Talvez ele não soubesse onde era Reno. — É em Nevada, mais para o Norte. Trata-se de uma viagem de oito horas. Eu posso voar, mas estou longe demais para que isso seja seguro. Eu nem mesmo sei que eles me deixariam voar. — Por que Reno? — Eu fui ao departamento de polícia na segunda-feira. Os olhos de Wilson se arregalaram e ele estava muito quieto. — Eu disse a eles tudo o que sabia... Sobre mim, sobre a minha mãe... Sobre Jimmy — Eu me senti estranhamente com vontade de chorar. Eu não me sentia assim quando falei com o Detetive Bowles na segunda-feira. Mas ele tinha me ligado de volta esta manhã. E estava animado. Eu tive a sensação de que a vida que eu estava tentando construir para mim seria desfeita mais uma vez. — O Detetive com quem eu falei... Ele disse que houve uma mulher que foi encontrada morta em um quarto de hotel em Reno, em 1993. Esta mulher, aparentemente, tinha um filho. A criança nunca foi encontrada. Os


detalhes correspondem com o que me disse Cheryl. Eles querem que eu vá para Reno dar uma amostra de DNA e ver se eu sou a criança desaparecida. — Eles serão capazes de lhe dizer isso? — Wilson soou tão surpreso quanto eu. — Não imediatamente. Aparentemente, quando perceberam que havia uma criança desaparecida, eles colheram uma amostra de DNA da mulher e está em algum banco de dados nacional. — Em quanto tempo eles vão saber? — Meses. Não é como na TV, eu acho. Detetive Bowles disse que ele já teve que esperar um ano pelos resultados de DNA, mas acha que isso será uma prioridade, por isso não deve demorar muito. Wilson bufou. — Bem, quanto mais cedo você chegar lá e dar-lhes uma amostra, mais cedo você vai saber, certo? — Sim — Eu me sentia enjoada. — Eu vou com você. — Você vai? — Fiquei surpresa e estranhamente tocada. — Você não pode ir sozinha. Não quando você está no final. — Eu tenho duas semanas. Wilson acenou para longe e pegou rapidamente o celular, fazendo arranjos para um substituto para a quinta-feira e sexta-feira, bem como reservas em um hotel de Reno, tudo em questão de minutos. — Você disse à Tiffa? — Ele fez uma pausa com o telefone na mão, olhando para mim. — Ela vai querer saber. Liguei para Tiffa e, como se viu, Tiffa não só queria saber, ela queria vir. Ela realmente não queria que eu fosse, mas Wilson só balançou a cabeça e pegou o telefone de mim. — Ela tem que ir, Tiff. Ela precisa — Então Tiffa decidiu que a melhor coisa a fazer era simplesmente ir junto. Jack estaria em Reno para uma convenção médica no sábado e domingo de qualquer maneira, e ela tinha se debatido em se juntar a ele. Ela iria apenas voltar alguns dias mais cedo para que pudesse estar comigo. O status mamãe bebê estava ficando um pouco velho, eu disse a mim mesma irritada. Eu fui muito independente por


tanto tempo, me sentia estranha precisando comunicar minhas idas e vindas para alguém. Secretamente, porém, eu estava emocionada que ela se importava tanto. — Viagem rodoviária! — Ela gritou vindo através da minha porta, duas horas depois com a mala na mão, óculos de sol e usando um daqueles grandes chapéus que de praia. Ela parecia pronta para um dia em um iate. Eu ri e permiti que ela me puxasse para um grande abraço com um beijo na minha barriga e um bem minha bochecha. Eu sempre pensei que os ingleses deveriam ser menos efusivos, menos demonstrativos que os americanos. Isso definitivamente não era verdade onde Tiffa estava em causa. — Nós vamos de Mercedes! Eu não vou apertar essas longas pernas na parte de trás do Subaru, Darcy! — Tudo bem. Mas eu vou dirigindo e você ainda está sentando na parte de trás — Disse Wilson agradavelmente. — Por favor! Eu só vou me sentar e relaxar, talvez ler, talvez cochilar um pouco. Ela não leu uma palavra. Ou acomodou-se. E ela definitivamente não cochilou... Que eu aprendi que significava dormir. Ela conversou, riu e brincou. E eu aprendi algumas coisas sobre Wilson. — Será que Darcy lhe disse como ele queria seguir os passos de St. Patrick? — Tiffa... Por favor, você pode apenas dormir? — Wilson gemeu, soando um pouco como um de seus alunos. — Alice tinha acabado de completar dezoito anos - terminando a escola, querendo umas férias emocionantes. Eu nem estava morando em casa. Eu tinha vinte e dois anos e trabalhava em uma pequena galeria de arte em Londres, mas todo ano, tínhamos um feriado familiar. Gostávamos de ir a algum lugar por umas semanas, geralmente em algum lugar ensolarado e quente, onde o papai poderia descansar um pouco. Alice e eu queríamos ir para o sul da França, e meu pai também. No entanto, o pequeno Darcy estava obcecado com essa ideia. Ele queria ir para a Irlanda


- frio, molhado, e VENTAVA como Manchester nessa época do ano. Por quê? Porque o rapaz precoce tinha acabado de ler um livro sobre Saint Patrick. Mamãe, é claro, pensou que era maravilhoso, e todos nós acabamos perambulando por uma maldita colina com botas sloshy, lendo panfletos. Eu ri e lancei uma olhada ao pobre Wilson. — St. Patrick era fascinante — Ele deu de ombros, sorrindo. — Oh, Caramba! Aqui vamos nós! — Tiffa gemeu teatralmente. — Ele foi sequestrado da sua casa aos quatorze anos, acorrentado, colocado em um barco e mantido como escravo na Irlanda até que ele tinha 20 anos de idade. Em seguida, ele conseguiu atravessar a Irlanda, entrar em um barco com nada mais do que as roupas do corpo e retornou para a Inglaterra, um milagre em si. Sua família estava muito feliz com seu retorno. A família de Patrick era rica e educada, e Patrick teria tido uma vida confortável. Mas ele não conseguia tirar a Irlanda da sua cabeça. Ele sonhava com isso. Em seus sonhos, ele alegou que Deus lhe disse para voltar para a Irlanda para servir as pessoas de lá. Ele voltou... E acabou por servir as pessoas na Irlanda para o resto de sua vida! — Wilson balançou a cabeça com fascinação, como se a ainda considerasse a história. Pensei que St. Patrick era apenas um duende irlandês. Eu nunca tinha pensado nele como uma pessoa de verdade. Ou um santo de verdade. Era apenas um feriado. — Então, quantos anos você tinha quando descobriu St. Patrick? — Eu provoquei. — Doze! Ele tinha malditos doze anos! — Tiffa gritou do banco de trás, fazendo todos rirem. — Quando Darcy nasceu ele estava usando uma pequena gravata borboleta e suspensórios. — Suspensórios? — Eu ri. — Suspensórios — Wilson forneceu secamente. — Ele sempre foi um nerd absoluto — Tiffa gargalhou. — Isso, minha querida Blue, é por isso que ele é brilhante. E maravilhoso. — Não tente ser boa para mim agora, Tiff — Wilson sorriu, encontrando seu olhar pelo espelho retrovisor. — Tudo bem. Eu não vou. Você sabia que ele ia ser um médico, Blue?


— Tiffa! — Wilson gemeu. — Sim... Na verdade. Eu sabia disso — Eu dei um tapinha no ombro de Wilson. — Ele não foi feito para isso. Ele seria completamente miserável. Papai viu o quão brilhante era Darcy e só assumiu que significava que ele deveria ser um “homem da medicina” como ele era, e seu pai antes dele e seu avô. Mas Darcy era brilhante em todos os caminhos que não tinham nada a ver com ciência, não é amor? Wilson apenas suspirou e balançou a cabeça. — Darcy sempre teve o nariz em um livro. Ele usava palavras enormes e as usava corretamente... Pelo menos eu acho que ele o fazia. Ele amava a história, a literatura, a poesia. — Você já o ouviu citar Dante? — Eu interrompi. Os olhos de Wilson dispararam aos meus. — O que era aquele poema encantador que você compartilhou conosco... Sobre harpias? — Eu questionei. Wilson riu da lembrança e citou as linhas obedientemente. Tiffa gemeu: — Isso é horrível! — Eu achava assim, também — Eu ri. — No entanto, não conseguia esquecê-lo. Acabei esculpindo “Bird Woman” como resultado. — Foi isso que inspirou “Bird Woman”? — Perguntou Wilson com a perplexidade colorindo sua voz. — Suas aulas de história pareciam encontrar seu caminho em minhas esculturas mais frequentemente do que parecia. — Quantas? Quantas esculturas foram inspiradas pelas minhas aulas de história? — Contando “The Arc”? — Contei-as na minha cabeça. — Dez. Tiffa comprou algumas delas na primeira vez que ela foi ao café. Tiffa e Wilson pareciam atordoados, e o carro estava tranquilo pela primeira vez desde que tínhamos partido. Eu me mexia desconfortavelmente, não sabendo o que o silêncio significava.


— Blue! — Eu deveria saber que Tiffa encontraria a língua antes. — Blue, eu tenho que ver todas elas. Devemos fazer algo grande, uma grande exposição com todas as peças juntas. Seria brilhante! Minhas bochechas coraram e eu olhei para as minhas mãos, não querendo ficar animada sobre algo que ainda não tinha acontecido. — Algumas delas eu vendi no café, mas você está convidada a ver o resto. — Darcy pode morrer um homem feliz agora — Tiffa adicionou depois de um momento. — Seu ensino tem inspirado arte — Ela inclinou-se, levantou sobre o banco e beijou o rosto de Wilson com estalo dos seus lábios. — Na verdade. Pela primeira vez, Tiffa está absolutamente certa. Isso poderia ser o melhor elogio que alguém já me fez — Wilson sorriu para mim. O calor me inundou e o bebê chutou em resposta. — Eu vi isso! O bebê chutou! — Tiffa ainda estava pendurada sobre o banco da frente e colocou as mãos contra a minha barriga, um olhar de intenso êxtase em seu rosto. O bebê rolou e cutucou mais algumas vezes, induzindo Tiffa a guinchar de prazer. Pelo resto do caminho nós conversamos, ouvimos música - eu os apresentei para Willie Nelson - e se revezaram dirigindo e cochilando. Mas eu não conseguia tirar a imagem de um jovem Darcy Wilson da minha cabeça, se arrastando sobre montes irlandeses em busca de um santo que viveu muitas centenas de anos antes. Era fácil ver como um menino como esse poderia ir para a África por dois anos ou trocar a medicina por algo mais simples e menos glamoroso. Foi mais difícil ver como um garoto como esse, tão inspirado por um santo, poderia ser atraído por uma pecadora como eu.


Capítulo Vinte Nevasca O processo foi incrivelmente fácil. Encontrei-me com um detetive Moody, que foi o oficial que respondia pelo caso há mais de 18 anos atrás. Ele era careca, por opção ou necessidade, eu não tinha certeza. Ele estava em seus quarenta e poucos anos, mas parecia cansado, como se tivesse uma vida longa até o momento. Ele parecia em boa forma e magro com calça cáqui, uma camisa e um coldre de ombro que parecia tão confortável como todo o resto que ele usava. — Eu não posso lhe dar mais detalhes do caso. Ainda não. Você entende que se não for à filha desta mulher, não tem direito à informação. Nem o seu nome, o nome de sua filha, os detalhes de sua morte, nada... Você entende? — O Detetive Moody era apologético e firme. — Mas se você é quem pensa que é, quando tivermos a confirmação do DNA, nós lhe daremos tudo o que temos. Eu tenho que dizer, eu espero como o inferno que você seja aquela menina. Isso me incomodou por muitos anos, posso dizer isso. Seria um final feliz para um caso muito triste — Detetive Moody sorri para mim, seus olhos castanhos sóbrios e sinceros. Fui enviada para o laboratório, e foi-me dado um grande cotonete e disseram para esfregá-lo contra o interior da minha bochecha. E foi isso. Oito horas no carro para um cotonete bucal. O Detetive me disse que iria apressar isso, e esperava tê-lo de volta em três ou quatro meses. — Nestas coisas tudo depende do resultado. No entanto, há casos prioritários. E estas taxas praticamente elevam. Seria muito emocionante para nós ver a resolução disso. E nós queremos isso para você também. Resolução. Redenção. Minha vida tinha começado a circular ao redor desses temas recorrentes. Agora nós podemos adicionar Reno. Isso era mais uma coisa nova. Outro “R” para adicionar à lista. Ficamos a noite em Reno, Tiffa e eu em um quarto, Wilson em outro. Tiffa colocou os braços em volta de mim quando saímos da delegacia de polícia e me manteve perto no jantar, ocasionalmente esfregando minhas


costas ou batendo no meu lado, como se, pela primeira vez, ela não tivesse palavras. Nenhum de nós tinha. A coisa toda era mais estranha que a ficção, e as ramificações afetavam não só a mim, mas o meu filho que nasceria e a mulher que seria sua mãe. Foi só quando nos instalamos no quarto escuro, que o longo dia foi abandonado, os sons da noite de Reno excluídos por pesadas cortinas e carpetes grossos, que eu enfrentei os medos que tinham se agarrado com o reconhecimento desde que eu falei com o detetive Bowles na segunda-feira. — Tiffa? — Eu disse suavemente. — Hmm? — Sua voz estava sonolenta, como se eu a tivesse pego um pouco antes de cair no sono. — E se ela foi um monstro... Uma pessoa terrível? — O quê? — Tiffa estava um pouco mais acordada agora, como se sentisse a minha agitação. — Isso pode ser transmitido? Será que fica em nossos genes? — Amor. Você vai ter que me perdoar. Eu não tenho ideia do que você está falando — Tiffa sentou-se e estendeu a mão para o abajur. — Não! Por favor, deixe-o desligado. É mais fácil falar no escuro — Eu implorei com a necessidade do quarto sombrio entre nós. Tiffa deixou cair sua mão, mas ficou em pé. Eu podia sentir que ela estava olhando para mim, deixando que seus olhos se ajustassem no escuro. Eu fiquei virada para o meu lado, olhando para a parede, o peso da minha barriga apoiada pelo colchão grosso. — Você estará adotando o bebê. Você diz que não se importa se é uma menina ou menino. Você não se importa se o bebê é de pele morena ou clara. E eu acredito em você. Mas e se o bebê for... Descendente de uma pessoa fraca, egoísta, má? — Você não é nenhuma dessas coisas. Pensei por um momento. — Não todo o tempo. Mas às vezes eu sou fraca. Às vezes sou egoísta. Eu não acho que sou má... Mas não sou necessariamente boa, também. — Você é muito mais forte do que eu. Você é incrivelmente altruísta. E eu não acho que o mal reside com o forte e o altruísta — Tiffa disse


suavemente. Eu achava que não funcionava dessa maneira. — Mas a minha mãe... O que ela fez foi ruim. — Deixando-a com um estranho? — Sim. E seu sangue corre nas veias deste bebê. Você está disposta a correr esse risco? — Absolutamente. Mas não acho que nenhum risco, amor. Jack tem diabetes. Você sabia? É transmissível. Nunca pensei em não ter filhos só porque a criança pode ter a mesma doença. Eu tinha dentes horríveis. Felizmente, o aparelho me deixou com uma beleza arrebatadora — Havia riso em sua voz. — Mas e se não houvesse tal coisa e meu filho estivesse condenado a dentes de cavalo? — Nenhuma dessas coisas se compara — Eu protestei, precisando que ela entendesse. Tiffa se sentou na cama atrás de mim e começou a alisar meu cabelo. Ela seria uma mãe fabulosa. Era tudo que eu poderia fazer para não me enrolar nela e deixá-la me acalmar. Mas, claro que eu não fiz. Eu estava tensa, tentando não ser tão suscetível a um carinho. Ela acariciava o meu cabelo enquanto falava. — Nós não sabemos que tipo de vida a sua mãe teve. Nós não sabemos quais eram seus motivos. Mas olhe para você. Você é brilhante! E isso é o suficiente para mim, Blue. E se a minha mãe tivesse optado por não adotar Darcy? Ela nunca conheceu sua mãe biológica ou pai. Ela não sabia nada sobre eles, exceto os seus nomes. Mas ela amava Darcy, talvez isso fosse o melhor de tudo, e ele era um completo desconhecido. Seu pai poderia ter sido um assassino em série, até onde sabemos. — Wilson foi adotado? — Eu estava tão atordoada, as palavras saíram como um grito. A ajuda calmante de Tiffa vacilou junto com meu coração. Ela deitou-se na cama ao meu lado, enrolando-se contra as minhas costas, e voltou a acariciar meu cabelo. — Sim! Ele não lhe disse? Mamãe e papai tentaram ter outro filho por anos. Eles adotaram Darcy quando ele tinha apenas alguns dias de vida. Foi organizado através de nossa igreja. — N... Ele não me disse — Minha voz falhou e eu limpei minha garganta para disfarçar meu espanto.


— Ele visitou seus pais quando completou dezoito anos. Sua mãe era jovem, como você, quando ficou grávida. Ela é casada agora com vários filhos. Ela estava feliz em vê-lo, feliz que ele tinha acabado bem. Seu pai era um policial, em Belfast. Ele e Wilson se deram bem. Eu acho que eles ainda se falam de vez em quando. Jenny Woodrow e Bert Wheatley, acho que são seus nomes. Eu não consigo lembrar o nome de solteira de Jenny. Eu estava no escuro, meus pensamentos girando como cata-ventos em uma tempestade. E um furacão estava se formando. Senti-me traída. Wilson foi adotado. Adotado! E ele não tinha dito nada. Nenhuma palavra de sabedoria ou incentivo quando Tiffa e eu tínhamos comunicado a notícia para a família. Nenhum comentário “a adoção é uma coisa maravilhosa, olhe para mim”. Ele permaneceu em silêncio; sem revelar nada. Tiffa estava aparentemente sem saber da minha tormenta. Ela não disse nada por alguns minutos, e em pouco tempo ouvi sua respiração mudar e eu sabia que ela tinha caído no sono deitada ao meu lado. Meus quadris doíam. Minhas costas estavam me matando todos os dias, meus tornozelos estavam inchados e eu estava muito desconfortável, muito grávida e muito irritada demais para dormir. Redenção, resolução, revelações. As palavras com “r” só ficavam se acumulando. Reno estava cheio de segredos. Eu estava pronta para ir para casa.

Jack voou para Reno na sexta-feira para a conferência médica e Tiffa ficou com ele, mandando eu e Wilson de volta em sua Mercedes. Eles iriam voar para casa no domingo à noite, o que significava que eu estava presa no tornado com Wilson durante oito longas horas. As revelações estavam zumbindo na minha cabeça como abelhas furiosas, ameaçando se soltar e atacar Wilson com uma barragem de ardor. Sentei-me em silêncio com raiva, dando respostas curtas a todas as perguntas sem olhar para ele e sem rir. Ele parecia desconcertado, mas eu tentei ser cada vez mais e mais cruel que eu poderia, até que finalmente o empurrei longe demais e ele saiu da estrada aparentemente interminável para uma área de descanso. Parando o carro em um estacionamento, ele se virou para mim e jogou as mãos no ar.


— O que está errado com você, Blue? Eu fiz alguma coisa? Você está com dor? Pelo amor de Deus! Qual é o problema? — Você foi adotado! — Eu gritei e prontamente irrompi em uma espécie de lágrimas que esguicharam fora dos seus olhos, como uma mangueira fazendo meu nariz escorrer. Peguei a caixa de lenços, mas Wilson estava lá com seu lenço maldito, limpando meu rosto e me calando como um velho senil. — Tiffa tem uma boca malditamente grande. — Ela não tinha ideia de que você não tinha me dito! Por que você não me disse, Wilson? — Será que a ajudaria? — Wilson limpou meus olhos com seu olhar penetrante e testa enrugada em consternação. Eu com raiva, então empurrei suas mãos, abrindo a porta e tirando meu corpo desajeitado de dentro do carro, furiosa de uma forma que nunca estive antes. Minhas costas estavam pegando fogo, meu pescoço estava dolorido e meu coração doía como se tivesse sido arrastado atrás do carro. Eu caminhei em direção aos banheiros, precisando de espaço e, francamente, com a necessidade de fazer xixi. Eu estava grávida de nove meses. Eu usei o banheiro e lavei as mãos, tentando conter as lágrimas de raiva que não paravam. Eu segurei uma toalha de papel molhado frio no meu rosto e enxuguei o rímel. Parecia miserável. Até o meu nariz estava inchado. Eu olhei para os meus tornozelos e tentei não chorar. Eu costumava ser quente... E costumava ser magra. E costumava confiar em Wilson. As lágrimas escorriam de novo, e eu segurei a toalha em meus olhos, desejando que elas parassem. — Você está bem, querida? — Uma pequena de voz falou à minha direita. Uma mulher de idade, que mal alcançava meu ombro ficou olhando para mim com uma expressão gravada em seus lábios finos. Rugas margeavam sua boca como pernas de uma centopeia. Seu cabelo grisalho estava em pequenos cachos arrumado sobre sua cabeça, e ela usava um lenço sobre eles, supostamente para proteger seu cabelo do vento, que estava do lado de fora. Eu tinha trazido à tempestade comigo, aparentemente.


— Seu marido me pediu para checá-la. Ele está preocupado com você. Eu não a corrigi. Era evidente que eu precisava ter um marido, já que eu estava obviamente prestes a ter um filho, e realmente não queria explicar quem era Wilson. Segui-a para fora e vi Wilson conversando com um homem igualmente velho. Quando eles me viram, o velho deu um tapinha no ombro de Wilson e assentiu com conhecimento de causa. Em seguida, ele ofereceu seu braço para a senhora, e eles foram em direção ao carro deles, abraçados contra o vento, que tinha começado a se enfurecer. — Eu sinto muito, Blue — Wilson teve que levantar a voz para ser ouvido e seus cachos escuros chicotearam sua cabeça. — Por que você não me contou? Eu não entendo! Deitei na cama a noite toda pensando nisso. E eu não consigo pensar em uma explicação plausível — Meu cabelo voava para minha boca e ao meu redor como cobras da Medusa, mas eu não voltaria para o carro... Não até que eu tivesse uma resposta. — Eu não queria influenciar a sua decisão — Wilson gritou: — Eu tive uma ótima vida. Pais maravilhosos. E os meus pais nunca esconderam a verdade de mim. Eu cresci sabendo que eles haviam me adotado. Mas eu não consigo lhe dizer que não me incomodou, porque incomodou! Muitas vezes me perguntei sobre a mulher que não me quis e sobre o homem que não queria nenhum de nós. Senti suas palavras como um chute no estômago, e passei meus braços em volta da minha barriga, segurando a vida dentro de mim, protegendo-a dele. Ele estremeceu, mas continuou falando, gritando contra o vento. — Eu não queria que os meus sentimentos a influenciasse, você pode entender isso? — Você acha que não quero esse bebê? Você acha que estou dando-o, porque não quero? Os olhos de Wilson procuraram os meus, e uma miríade de emoções cruzaram seu rosto enquanto ele lutava por palavras que não eram fáceis dizer. — Quando você me disse que tinha decidido não manter seu bebê, eu pensei que você estava cometendo um erro. No entanto, como eu poderia


dizer uma maldita coisa? Minha irmã está nas nuvens de tanta alegria. E você parecia estar em paz com a sua escolha. O vento gemia e o céu escureceu. Wilson se aproximou de mim, mas eu me afastei, deixando o vento uivar e puxar-me. Pareceu apropriado. — Minha mãe não me deu para adoção, Wilson. Mas ela deveria ter feito isso. Deveria ter feito! Wilson fixou as pernas contra o vento e enfiou as mãos nos bolsos. — Ela não me amava o suficiente para desistir de mim. Eu não vou estragar a vida deste bebê só porque preciso de alguém para amar. O trovão rolou e um relâmpago fez Wilson se aproximar de mim novamente. Desta vez eu não fui rápida o suficiente, e ele passou um braço em volta de mim, me puxando em direção ao carro. A chuva nos atingiu quando fechamos nossas portas, e estávamos rodeados por cinza e a chuva era tão pesada, que o mundo era líquido além das janelas. A Mercedes ronronou à vida e o calor subiu dos nossos pés, aquecendo os bancos abaixo de nós. Mas Wilson não retomou a nossa viagem. Ainda havia muito a dizer. — Eu não tive a intenção de esconder isso — Ele apelou com seus olhos cinzentos suplicando para mim. Eu desviei o olhar, não querendo ouvir. Mas ele era insistente, e virou meu queixo em direção a ele, exigindo que eu o ouvisse. — Eu não falei quando deveria ter falado. Nunca pareceu adequado ou oportuno. E então já era tarde demais. E honestamente, o fato de que eu fui adotado é irrelevante, Blue. — Irrelevante? Como você pode dizer isso? — Eu chorei, puxando meu queixo de seu alcance. Como se as opiniões de Wilson já tivessem sido irrelevantes para mim. Ele tinha se tornado a coisa mais importante na minha vida. Redenção, resolução, revelação e agora relevância. Eu enfiei minhas mãos no meu cabelo. — Eu tenho cegamente tentado descobrir as coisas. Estou a poucos dias de dar à luz, e você acha que a sua própria adoção não é relevante? Sua perspectiva poderia ter mudado tudo. — Exatamente. Mas em vez disso, você tomou suas próprias conclusões, você fez suas próprias decisões e é assim que deve ser.


— Mas você disse que eu estava cometendo um erro — Eu sussurrei, tentando não chorar. Eu procurei a raiva que eu tinha sentido, mas ela tinha explodido em algum lugar entre o banheiro e o carro, e eu não conseguia chamá-la de volta. Wilson se esticou e segurou minhas mãos nas dele, virando-se para mim, tanto quanto o volante permitiria. — Blue, toda esta experiência tem sido uma revelação para mim. Tentei não recitar todas as palavras com R na minha cabeça enquanto ele continuava. — Eu, como todo ser humano, precisava saber quem eu era. Meus pais entenderam e, ao contrário do que você lidou, não havia segredos na minha vida. Eu sabia de tudo... Exceto o porquê. Eu nunca entendi por que minha mãe biológica fez essa escolha. Eu sempre achei que se alguém realmente me amasse, eles nunca me dariam. Vendo você passar por tudo isso, eu acho que finalmente entendi que isso não é necessariamente verdade. Meus olhos estavam grudados em nossas mãos entrelaçadas, nossos dedos lado a lado. Eu não conseguia olhar para ele. Não quando as palavras que ele disse eram tão intensamente pessoais, que o brilho da verdade machucava meus olhos. Wilson continuou, com a voz embargada pela emoção. — Amar alguém significa colocar suas necessidades acima do sua própria. Não importa o quê. De alguma forma, você descobriu isso. Eu serei amaldiçoado se sei como, mas você fez. Então, não. Eu não acho que você está cometendo um erro, Blue. Acho que você é malditamente incrível. E quando eu chegar em casa, Jenny Woodrow vai receber uma ligação. Ela merece um pequeno agradecimento - finalmente - por me amar e me deixar ir. Nós ficamos em silêncio por várias respirações, deixando a emoção vazar com as nossas mãos entrelaçadas e o calor circulando o interior do carro e embaçando as janelas. — O que o velho homem disse? — Eu questionei baixinho. — Ele me disse para não me preocupar. Ele disse: “As mulheres choram. Se ela está chorando por você, ainda te ama” — Wilson tentou


imitar a voz trêmula do velho homem. Ele olhou para mim e sorriu, brincando. — Ele disse que eu só devo me preocupar quando você parar. Eu não consegui sorrir de volta e rapidamente desviei o olhar. Eu era a única que deveria me preocupar. Não porque eu tinha parado de chorar, mas porque tinha começado, em primeiro lugar. O velho tinha descoberto tudo.

Tentamos esperar a chuva passar, mas nunca parava. Nós voltamos para estrada só para lutar com chuva e neve por aproximadamente três horas. Neve em Boulder City era quase desconhecida, mas estávamos numa longa estrada ao norte da área de Las Vegas, e neve em Reno era comum. No entanto, em outubro a neve não era. Minha ansiedade crescia à medida que a viagem prolongava. Eu não queria lamentar ou preocupar Wilson, mas minhas costas e baixo ventre estavam doendo constantemente desde que tínhamos parado na área de descanso. Talvez fosse o estresse da viagem ou todas as palavras com R derramando sem alívio, ou talvez fosse simplesmente a hora. Duas semanas antes não era realmente considerado prematuro. Era considerada a gestação completa. E eu tinha uma suspeita de que estava em trabalho de parto. — Eu vou sair da estrada onde posso encontrar um hotel. Nós ainda temos três horas, talvez mais a esta velocidade, e eu já tive o suficiente — Wilson suspirou, apertando os olhos para distinguir os sinais de trânsito. — Nós temos que continuar — Eu insisti, agarrando o apoio de braço quando uma onda de pressão apareceu na minha parte inferior do corpo. — Por quê? — Wilson não olhou para mim, ele estava tão concentrado na estrada. — Porque eu realmente não quero ter um bebê em um Super 8 Motel. — Droga! — A cabeça de Wilson virou em minha direção com os olhos arregalados de horror. — Eu não estou em nenhuma dor. Não realmente. É apenas desconfortável. E isso vem acontecendo por cerca de três horas. Basta continuar dirigindo e nós vamos ficar bem.


Às três horas seguintes foram as mais longas três horas de minha vida a de Wilson também, eu supus. Ele estava branco ao redor dos lábios, e seu rosto estava abatido no momento em que vimos às luzes de Vegas manchadas como um derramamento de óleo além do para-brisa, um arcoíris suave em um mar de preto. Eu tinha cronometrado minhas contrações, e elas tinham ficado constantes e cada vez mais dolorosas em cerca de cinco minutos de intervalo. Eu não tinha ideia do que isso significava, ou o quão longe eu teria que ir. Mas nós dois estávamos cansados demais para ir para casa e esperar que isso piorasse. Chegar ao hospital era muito bom. Algumas estradas estavam com a água até o joelho e a chuva não estava parando. Entramos no estacionamento, Wilson saiu e a minha porta foi aberta antes que eu pudesse tirar meu cinto de segurança. Juntos, fomos para a maternidade, dando um pequeno suspiro de alívio que tínhamos conseguido fazer isso. As visões de nascimentos em estrada foram nossas companheiras constantes durante três longas horas. Eu tinha certeza de que foi um alívio para Wilson me entregar para a animada enfermeira loira que escorria competência. Ela me acomodou em uma sala, me deu um vestido e me disse que estaria de volta em instantes. Wilson virou-se e caminhou em direção à porta. Pânico borbulhava em meu peito enquanto eu o via sair. O meu medo me deixou corajosa. — Você vai ficar comigo? — As palavras saíram em uma confusão e meu rosto ficou quente de vergonha por eu tê-las até mesmo pronunciado. Mas eu tinha e não queria tomá-las de volta. Ele permaneceu congelado no lugar com a mão ainda descansando na maçaneta da porta. — Por favor — Eu não sei se ele ouviu o apelo final, e eu tive que fechar meus olhos para que não visse sua resposta. Eu estava com medo de vê-lo se encolher, ver seus olhos se afastarem, ouvi-lo dar desculpas. A cama se moveu e eu abri meus olhos para vê-lo sentado ao meu lado. Suas sobrancelhas estavam juntas e seus olhos cinzentos cheios de apreensão. Mas ele não se inquietou ou se encolheu e seus olhos seguraram os meus. — Tem certeza?


— Eu não posso fazer isso sozinha, Wilson. Eu não pediria... Mas... Eu não... Tenho mais ninguém — Eu mordi meu lábio, reprimindo a vontade de pedir descaradamente. Seu rosto suavizou e a preocupação em seus olhos desapareceu. — Então vou ficar — Ele deslizou sua mão na minha e segurou-a com força. A mão dele era grande e suave com as pontas dos dedos calejados. Meu alívio foi tão intenso, que eu não poderia responder imediatamente por medo que perdesse a compostura. Eu passei as minhas duas mãos ao redor da dele e apertando em gratidão. Depois de várias respirações profundas, eu sussurrei meus agradecimentos quando outra onda de pressão e dor construiu dentro de mim.


Capítulo Vinte e Um Melhor Amigo Minha enfermeira entrava e saía. Wilson fazia questão de sentar-se à cabeceira da cama, tentando desesperadamente manter o pudor, tanto quanto possível. Ele manteve os olhos no meu rosto quando ela me examinou e disse que eu estava com cinco centímetros, em seguida, seis e, em seguida, seis e meio. E então, o progresso estagnou. — Você quer se levantar e caminhar um pouco? Às vezes ajuda — A enfermeira sugeriu depois de uma hora olhando o relógio e contando contrações sem melhora. Eu não queria andar. Eu queria dormir. Eu queria cancelar tudo. — Vamos lá, Blue. Eu vou ajudá-la. Apoie-se em mim — Wilson me ajudou a me sentar e, com a ajuda da enfermeira coloquei outro vestido do hospital ao redor das minhas costas como um manto, amarrando os cordões na frente para não mostrar meu traseiro enquanto passeava. E nós andamos, para cima e para baixo pelos corredores, os meus pés nos chinelos se arrastando penosamente ao lado de Wilson. Quando a dor era muito grande para mover e minhas pernas tremiam com o esforço de me manter na posição vertical, Wilson prendia seus braços em volta de mim e puxava minha testa em seu peito, falando baixinho como se em pé abraçando-o fosse a coisa mais natural do mundo. E foi. Minhas mãos seguravam seus braços enquanto eu tremia e gemia, então eu sussurrava minha gratidão a ele de novo e de novo. Quando a dor aliviava e recuperava o fôlego que retomava nossos passos vacilantes mais uma vez, e quando eu estava desesperada por distração das ondas implacáveis, eu cutucava Wilson. — Conte-me uma história, Wilson. Pode até ser um longo, chato e empoeirado tome{33} inglês. — Wow! Tome. Aprendeu uma palavra nova, Echohawk? — Wilson passou os braços em volta de mim quando cai contra ele.


— Eu acho que você me ensinou, Sr. Dicionário — Eu tentei não choramingar quando a dor passou por mim. — Que tal Lord of the Flies? — Que tal você me mata agora? — Rangi meus dentes cerrados contra o ataque apreciativo da tática de diversão de Wilson, se não pela sua escolha de histórias. A risada de Wilson soou estrondosa no peito contra minha bochecha. — Hmm. Muito realista e deprimente, certo? Vamos ver... Tomes empoeirados... Como Ivanhoe? — Ivan quem? Parece pornô russo — Eu brinquei cansada. Wilson riu novamente, um gemido balbuciado. Ele estava praticamente me carregando neste momento e parecia quase tão exausto como eu me sentia. — E se eu lhe disser uma — Eu me ofereci quando a dor diminuiu, e eu me afastei do círculo dos seus braços. — É a minha história favorita. Eu costumava implorar para Jimmy para contá-la para mim. — Tudo bem. Vamos voltar para o seu quarto e ver se toda essa caminhada fez bem. — Esta é a história de Waupee... — Whoopee? — Muito engraçado, Wilson. Tudo bem. Eu não vou usar o seu nome indígena. Esta é a história de White Hawk, o grande caçador e da Star Maiden. Um dia, White Hawk estava caçando na mata e encontrou um estranho círculo em uma clareira. Ele se escondeu na borda da clareira, observando, se perguntando o que fez as marcas estranhas. — Ahhh. Agora vou descobrir a origem dos círculos de cultura — Wilson interrompeu mais uma vez. — Hey! Sou eu quem faz as piadas. Fique quieto. Eu tenho que contarlhe esta história enquanto posso falar — Eu dei-lhe um longo olhar, e ele fez o movimento de fechar os lábios. — Depois de um tempo, White Hawk viu uma grande cesta de palha descendo do céu. Doze belas garotas saíram e começaram a dançar na clareira. Enquanto White Hawk as observava,


percebeu que todas as meninas eram adoráveis, mas a mais bonita era a mais nova e White Hawk se apaixonou imediatamente por ela. Ele saiu correndo, tentando alcançá-la, mas as meninas gritaram e subiram de volta para a cesta, que subiu alto no céu até que desapareceu nas estrelas. Isso aconteceu mais três vezes. White Hawk não conseguia comer ou dormir. Tudo o que podia fazer era pensar na jovem estrela que ele havia se apaixonado. — Finalmente, ele arquitetou um plano. Ele se transformou em um rato — Eu estendi braço e coloquei minha mão sobre a boca de Wilson, quando ele começou a falar. — Ele tinha poderes, ok? — Wilson balançou a cabeça, mas seus olhos brilhavam de alegria. Tínhamos voltado para o meu quarto de hospital e Wilson ajudou-me a ficar sentada na beira da cama. Eu fiquei parada, segurando-o quando eu senti meu interior começar a tensionar lentamente e ir piorando até que eu estava segurando as lágrimas. Eu tentei falar com ele, agarrando-me aos braços de Wilson quando a pressão tornou-se quase insuportável. — Ele... Esperou — Eu ofegava, falando em pequenos suspiros. — Até que as irmãs estelares... Desceram do céu novamente. Ele sabia... Que não... Teriam medo de um pequeno rato. — Claro que não. As mulheres adoram ratos — Wilson retrucou agradavelmente, e eu ri e gemi, tentando continuar. Wilson alisou meu cabelo para trás do meu rosto, seguindo-o pelas minhas costas em traços firmes quando eu pressionei meu rosto contra ele, tentando escapar da dor que era só minha para suportar. Mas ele não me interrompeu novamente quando contei a história aos trancos e suspiros. — Quando as irmãs da cesta desceram e começaram a dançar... White Hawk... Foi se aproximando cada vez mais... Das mais jovens, até que ele estava bem... Ao lado dela. Então, ele se transformou... De volta para um homem e pegou-a em seus braços — A dor começou a diminuir em intervalos, e eu dei várias respirações longas, desapertando minhas mãos dos braços de Wilson. O homem ia ter algumas contusões graves quando tudo isso acabasse. — As outras irmãs gritaram e pularam na cesta, que subiu para o céu, deixando a mais jovem para trás. A estrela donzela chorou, mas White


Hawk enxugou suas lágrimas e disse-lhe que iria amá-la e cuidar dela. Ele disse a ela que a vida na Terra era maravilhosa e ela seria feliz com ele. Parei de falar quando a enfermeira entrou no quarto, empurrando a cortina com uma investida de sua mão. — Tudo bem, querida. Vamos ver como você está — Eu olhei para Wilson quando me deitei na cama. Ele sentou-se no banquinho ao lado da cama e se inclinou para mim, ignorando a enfermeira e o desconforto da intimidade que eu tinha forçado em cima dele. Seu rosto estava a centímetros do meu quando ele novamente pegou minha mão e encontrou meu olhar. — Você está se progredindo. Está com sete. Vamos ver se conseguimos o anestesista para lhe dar algum alívio... As luzes piscaram, e de repente houve uma interrupção do som e a escuridão foi completa. A enfermeira praguejou baixinho. As luzes voltaram com um zumbido e nós expiramos em uníssono. — O hospital tem geradores. Não se preocupe — A enfermeira tentou nos acalmar, mas seus olhos se voltaram para a porta, e eu poderia dizer que ela estava se perguntando o que mais a noite traria. — Isso deve ser por causa da tempestade — Ela voltou a sair pela porta com promessas voltar logo. Pensei em Tiffa em um aeroporto em Reno e imediatamente afastei o pensamento. Ela viria, ela iria fazer isso. Haveria alguém para segurar o meu bebê. Alguém tinha que segurá-lo. Eu não seria capaz de fazê-lo. O pensamento congelou minhas veias e pavor se agrupou no meu peito. Tiffa e Jack precisavam estar aqui, prontos, com os braços abertos para receber o meu filho e levá-lo imediatamente para longe. A dor tirou o pensamento da minha cabeça, a miséria mais imediata estava tirando a minha atenção dos pensamentos de Tiffa e meu filho. Vinte minutos se passaram, então, mais vinte. A enfermeira não retornou nem o anestesista. Então a dor atingiu foi aumentando. Ondas gigantes em cascata ameaçaram me rasgar ao meio. Eu me contorcia em agonia e agarrei Wilson, desesperada por alívio. — Diga-me o que posso fazer, Blue. Diga-me o que fazer — Wilson insistia calmamente. Eu tinha ficado em silêncio, minha energia e foco


estavam atraídos para a estreita picada de agulha da luz, pega no ciclo aparentemente interminável de dor e perdão, incapaz de encontrar palavras. Eu só balancei a cabeça e agarrei a sua mão. Ele amaldiçoou violentamente e se levantou da minha cama com um idiota, seu banco arrastando ruidosamente pelo chão. Ele soltou os meus dedos de sua mão, e eu choramingava de consternação quando ele se virou em direção à porta. Ele atravessou o quarto em passos largos, e abriu a porta. Então eu o ouvi com sua voz elevada, exigindo assistência em termos muito, muito grosseiros. Eu estava tão orgulhosa e ridiculamente tocada que quase ri, mas a risada ficou presa na minha garganta, e em vez disso, eu gritei. Meu corpo tremia e a pressão nas minhas pernas era avassaladora. A necessidade de empurrar era tão intensa que eu agi sem pensar. Gritei de novo, e minha porta se abriu, com Wilson e uma bagunça de cabelo selvagem, juntamente com uma enfermeira horrorizada vieram voando para o quarto. — O médico está a caminho! O médico está a caminho! — A enfermeira balbuciou com seus olhos se alargando quando ela se posicionou entre as minhas pernas. — Não empurre! Wilson estava instantaneamente ao meu lado, e eu virei meu rosto para ele, mais uma vez, incapaz de parar as ondas de pressão que visava expulsar meu filho. A porta bateu novamente quando a enfermeira saiu do quarto e gritou no corredor por reforços. De repente eu estava cercada outra enfermeira, um médico e alguém se movia com uma incubadora móvel. — Blue? — A voz do médico parecia muito longe, e eu lutava para me concentrar em seu rosto. Olhos castanhos encontraram os meus enquanto eu me abatia impotente. — É hora de empurrar, Blue. Não vai demorar muito até que seu bebê esteja aqui. Meu bebê? O bebê de Tiffa. Eu balancei minha cabeça. Tiffa não estava aqui ainda. Eu me concentrei mais uma vez, empurrando através da dor. Em seguida, novamente. E mais uma vez. E mais uma vez. Eu não sei quanto tempo empurrei e supliquei a Deus para que isso acabasse. Eu perdi a conta na neblina de dor e exaustão. — Só mais um pouco, Blue — O médico pediu. Mas eu estava muito cansada. Eu achava que não poderia fazer isso de novo. Doía muito. Eu


queria flutuar. — Eu não posso — Eu resmunguei. Eu não podia. Eu não faria isso. — Você é a pessoa mais corajosa que eu conheço, Blue — Wilson sussurrou em meu cabelo. Suas mãos embalaram meu rosto. — Eu já lhe disse o quão linda eu você é? Você está quase lá. Vou ajudá-la. Segure-se em mim. Vai dar tudo certo. — Wilson? — Sim? — Se eu vê-la... Não sei se vou ser capaz de deixá-la ir. Eu tenho medo que se eu segurar meu bebê, não serei capaz de deixá-la ir — As lágrimas corriam pelo meu rosto, e eu não tinha forças para segurá-las. Wilson passou os braços em volta de mim enquanto a agonia dentro de mim se levantava e gritava. — Vamos lá, Blue! — O médico foi insistente. — Aqui vamos nós! Mais uma vez. E de alguma forma eu fiz. De alguma forma, eu consegui. Um último esforço desesperado, o impulso final e o alívio imediato quando o bebê foi retirado livremente. Os braços de Wilson caíram, e ele se levantou quando o quarto irrompeu em exclamação animada. Uma menina. Ela estava aqui, agitando os braços, cabelo preto molhado e grudado em sua pequena cabeça, os olhos arregalados. Ela gritou de indignação, um grito de guerra digno da batalha que tinha sido travada e vencida. E eu a peguei. Naquele momento ela era minha. A enfermeira a deitou no meu peito e minhas mãos estavam lá para abraçá-la. O mundo ao meu redor caiu. O tempo parou, e eu a apreciava. Sentia-me simultaneamente tonta com poder e incrivelmente fraca, enquanto eu olhava para a minha pequena filha. Ela piscou para mim, os olhos borrados e inchados, a boca em movimento, fazendo sons tristes que rasgaram meu coração. Terror cresceu dentro de mim, me cegando, e por um instante pensei em fugir do quarto, correndo freneticamente pelos longos corredores e para a tempestade com a minha filha em meus braços para escapar da promessa que eu tinha feito. Eu a amava. Insanamente e completamente. Eu a amava. Eu balancei minha cabeça, descontrolada com o tormento, doente de medo, em busca de Wilson. Ele estava apenas alguns metros de distância, com as


mãos enfiadas nos bolsos, o rosto desfigurado, e seu cabelo caindo sobre a testa. Seus olhos encontraram os meus, e eu vi que ele estava chorando. E, em seguida, a enfermeira a pegou e levou para longe - simples assim - e o momento se foi. O tempo retomou a sua velocidade normal, de forma competente e sem impedimentos por minha devastação. Eu caí para trás contra os travesseiros, atordoada e deixei o mundo correr sem mim. Foram poucos minutos antes que o quarto esvaziasse e eu ficasse sozinha, os resíduos do parto foram limpos de forma eficiente. Wilson havia saído para o corredor para ligar para Tiffa, as enfermeiras tinham levado o bebê para algum lugar desconhecido para medir e dar banho, o médico tinha impecavelmente terminado seu trabalho, removeu as luvas e me parabenizou pelo trabalho bem feito. E agora eu não era mais novidade. E isso tinha acabado.

Eu fui transferida para um quarto de recuperação, me ajudaram a entrar no chuveiro e sem cerimônia me colocaram de volta na cama. Ninguém me perguntou se eu gostaria de ver o meu bebê. Wilson tinha ficado comigo por um tempo, mas, quando era evidente que eu estava em boas mãos, ele decidiu correr para casa, tomar um banho e colocar roupas limpas também. A chuva finalmente parou. O aviso de enchente foi suspenso, mas o nível mais baixo do hospital teve que ser evacuado por causa das inundações - o que causou o caos em todo o resto do hospital. Minhas enfermeiras se desculparam por eu ter sido negligenciada durante o meu trabalho. A equipe era menor, devido às dificuldades de chegar ao hospital no meio da tempestade e a inundação tinha atrapalhado muito. Jack e Tiffa foram incapazes de chegar em casa. A tempestade que causou inundações em Las Vegas causou uma nevasca em Reno com a enorme tempestade que se estendia desde uma extremidade do estado para a outra. O aeroporto de Reno foi fechado pela nevasca, e os voos não foram programados para retomar até de manhã. Consegui comer e estava cochilando quando Wilson retornou. As luzes estavam apagadas no meu quarto, mas não estava realmente escuro. O meu quarto tinha uma “bela vista” do estacionamento e os postes de amarelo-alaranjados abaixo lançavam um brilho reluzente no meu quarto escuro. Wilson tentou se


sentar discretamente na cadeira de canto, mas a cadeira rangeu alto e ele amaldiçoou baixinho. — Você não precisava voltar — Minha voz soou áspera e errada para os meus próprios ouvidos, rouca, como se eu tivesse gritado por horas. Wilson afundou-se na cadeira de balanço barulhenta, apoiando os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos. Eu já tinha o visto fazer isso antes, e isso trouxe uma súbita onda de ternura tão intensa que eu engasguei. — Está doendo? — Ele perguntou baixinho, interpretando mal o som. — Não — Eu sussurrei. Era uma mentira, mas no momento, a verdade era muito complicada. — Acordei você? — Não — Eu repeti. O silêncio ampliava os sons no quarto e além dos corredores. Rodas rangendo e sons de tênis esmagando o chão de linóleo chiavam pelo corredor. Uma enfermeira entrou no quarto do outro lado do hall com um alegre “Como estamos fazendo?” e eu encontrei-me ouvindo os sons que eu não poderia ouvir. Esforçando-me para ouvir o choro de um bebê. Minha mente viajou pelo corredor e berçário, onde a criança deitada não reclamava. — Será que você a segurou — Eu perguntei de repente. Wilson se endireitou na cadeira, e seus olhos procuraram o meu rosto em busca de pistas com a luz turva do quarto. — Não — Era a sua vez de responder. Mais uma vez, silêncio. — Ela está sozinha, Wilson. Ele não discutiu que Tiffa estava a caminho ou que o meu bebê estava sendo cuidado e provavelmente dormindo. Em vez disso, ele se levantou e se aproximou da cama. Eu estava enrolada de lado, de frente para ele, e ele se agachou para que seus olhos estivessem no mesmo nível que os meus. Estudamos um ao outro em silêncio. E então ele ergueu a mão e colocou-a suavemente contra minha bochecha. Um simples gesto. Mas foi a minha ruína. Eu fechei os olhos e chorei, bloqueando seus olhos cinzentos tempestuosos com o entendimento, compaixão. Eventualmente, eu o senti se deitar ao meu lado na cama estreita e envolver seus braços em volta de mim, me puxando contra ele. Ocasionalmente, ele acariciava meus cabelos


ou falava baixinho, mas não fez nenhum comentário da minha intensa tristeza encharcando o travesseiro sob a minha cabeça. Uma enfermeira entrou no quarto uma vez, deu a volta e foi direto para fora. Wilson não fez nenhuma tentativa de se mover ou se retirar para a cadeira no canto. — Você não me disse o fim da história — Ele murmurou bem mais tarde. — Hmm? — O caçador e a menina estrela? Será que eles viveram felizes para sempre? — Oh — Eu me lembrei, sonolenta. — N... Não exatamente. Ela ficou com ele e tiveram um filho. Eles ficaram felizes, mas a menina começou a sentir falta das estrelas — Fiz uma pausa, lutando contra a letargia que estava caindo sobre mim. Eu continuei com a minha voz desaparecendo com cada palavra. — Ela queria ver sua família. Então ela teceu uma grande cesta e recolheu presentes para a sua família, coisas da terra que você não poderia encontrar no céu. Ela colocou a cesta no círculo mágico, colocou os presentes e seu filho dentro, então entrou na cesta. Em seguida, ela cantou uma música fazendo a cesta subir para o céu. White Hawk ouviu a música e correu para a clareira, mas era tarde demais. Sua esposa e filho tinham ido embora — Senti-me derivar para o sono, a exaustão atrapalhando meus pensamentos, dificultando a fala. Eu não tinha certeza se sonhei ou se Wilson realmente falou. — Essa história é uma merda — Wilson sussurrou sonolento no meu ouvido. Eu sorri, mas estava longe demais para responder.


Capítulo Vinte e Dois Cinzento Tiffa e Jack chegaram ao hospital por volta das de cinco horas do dia seguinte. Wilson tinha se mudado para a cadeira em algum momento enquanto eu dormia e tinha recebido uma ligação avisando-nos que eles haviam chegado. Ele saiu para encontrá-los quando minha enfermeira entrou para olhar meu gráfico e tirar a minha pressão arterial. Eu estava ansiosa para sair do hospital e estava vestida, esperando para ter alta, quando ouvi um leve bater. Tiffa enfiou a cabeça pela porta do hospital e me chamou. — Podemos entrar, Blue? Eu respondi que sim e ela e Jack entraram no quarto de mãos dadas. Tiffa tinha tirado o cabelo de seu rosto em um coque, mas de alguma forma ela ainda conseguiu parecer chique. Jack parecia cansado. Eles ficaram no aeroporto a maior parte da noite e toda a manhã, esperando os voos retomarem. Mas eles estavam com um grande sorriso, e Tiffa estava praticamente vibrava. Sem aviso, ela me puxou para os seus braços e imediatamente começou a chorar. Jack passou os braços ao nosso redor e começou a fungar. Eu senti a emoção inchar no meu peito e subir na minha garganta até que engolir era impossível. Eu fiquei tão imóvel quanto podia, como se o movimento fosse desalojar o meu controle. Eu recitei o alfabeto de trás para a frente na minha cabeça “Z, Y, X, W, V, U, T...” focando meus olhos além de Tiffa e Jack. Wilson estava perto da porta. Meus olhos fixaram nos dele e imediatamente se afastaram. “J, H, I, L, M, E...” eu recitava em silêncio. Mas os meus esforços de distração não me impediu de ouvir sinceros agradecimentos dela. — Ela é linda, Blue. Ela é absolutamente linda. Eu posso ver você nela... E isso me deixa muito feliz — Tiffa sussurrou entre soluços. — Obrigada, Blue. Eu tive que me afastar. Para a minha própria sobrevivência, eu tive que me afastar. Eles me deixaram ir, mas Tiffa apertou minhas mãos nas dela.


Ela parecia despreocupada com o fato de que as lágrimas ainda escorriam pelo seu rosto. Fiquei maravilhada com a sua capacidade de chorar sem vergonha ou constrangimento. — Vamos chamá-la de Melody. Era o nome da mãe de Jack e eu sempre gostei — Os olhos de Tiffa deslocaram-se para Jack, que acenou para ela com um movimento de sua cabeça. — Mas gostaríamos de colocar o seu nome do meio de Blue, se estiver tudo bem para você. Melody Blue. Era um nome bonito. Eu balancei a cabeça, apenas um pequeno movimento, eu não confiava em mim para falar. Então eu assenti novamente, um pouco mais forte e sorri o melhor que pude. Eu fui puxada de volta para os braços de Tiffa, que me apertou ferozmente enquanto sussurrava uma promessa no meu ouvido. — Você me deu algo que eu nunca teria pedido para você, e prometo que vou ser a melhor mãe que puder. Eu não vou ser perfeita. Mas eu a amo com todo o meu coração, e serei perfeita nisso. Quando ela tiver idade suficiente, vou dizer-lhe tudo sobre você. Vou dizer- lhe como você era forte e como a amava. Um gemido escapou de minha garganta, e eu estremeci impotente, então não fui capaz de segurar a tristeza ondulante que inundou a minha boca e foi transmitida pelos meus olhos, me deixando sem expressão. Os braços de Jack estavam de volta ao nosso redor e ficamos assim por um tempo muito longo, apoiando uns aos outros, quando a gratidão e tristeza se encontraram e se fundiram, e laços silenciosos foram forjados. Eu encontrei-me oferecendo uma oração pela primeira vez. Uma oração para o Grande Espírito que Jimmy tinha acreditado. Uma oração ao Deus que criou a vida e deixou isso crescer em mim. Uma oração para a criança que nunca iria me chamar de mãe e pela mulher que ela faria isso. E orei para que tirasse a minha dor, e se Ele não pudesse fazer isso, então, por favor, retirasse o meu amor? Porque a dor e o amor estavam tão entrelaçados que eu não conseguia ter um sem o outro. Talvez se eu não tivesse amor, não doeria tanto. Senti os braços de Wilson suportando meu peso, quando Tiffa e Jack finalmente me soltaram e deram um passo para trás. Quando recebi alta do hospital, Wilson me levou para casa, me ajudou na cama e ficou comigo durante a noite mais uma vez. Nenhuma vez ele reclamou ou ofereceu palavras vazias ou chavões. Ele esteve lá quando eu


mais precisei dele. E eu inclinei-me sobre ele, provavelmente mais do que deveria. Eu não me deixei pensar ou questionar. Eu me permiti ser cuidada e me proibi refletir. Nos dias que se seguiram, Wilson me dava cada vez mais espaço, e caiu em um padrão que lembrava os dias e as semanas que antecederam o nascimento de Melody. Voltei a trabalhar no café quase que imediatamente e comecei a esculpir novamente. De outra forma, passar por isso seria muito mais difícil. Imediatamente após o nascimento de Melody, apertei meus seios da maneira que as enfermeiras me mostraram, mas doía e vazava, e eu acordava ensopada com os lençóis molhados com leite e minha camisola grudada em mim. Tomar banho era quase doloroso, meu corpo parecia estranho, e eu não podia suportar olhar no espelho e ver os seios inchados que foram feitos para alimentar, a barriga que ficava a cada dia mais plana e os braços que desejava segurar o que já não era mais minha. De vez em quando eu esquecia e acariciava minha barriga, só para lembrar que o inchaço que permanecia não era uma criança, mas um útero vazio. Eu era jovem e ativa, então meu corpo se recuperava rapidamente. Logo, a única lembrança que eu teria que ela foi uma parte minha, seriam as estrias fracas que marcaram minha pele. Estas marcas tornaram-se bonitas para mim. Preciosas. Do mesmo modo, eu me encontrei disposta a lixar as imperfeições em um pedaço de zimbro que eu estava moldando. As cicatrizes na madeira eram como as marcas na minha pele e eu encontrei-me continuamente rastreando-as, como se removê-las significasse uma vontade de esquecer. Eu acabei ampliando-as, por isso, as linhas divergentes tornaram-se cânions e recessos sombrios, e os ramos graciosamente alongados ficaram torcidos e torturados, como os punhos cerrados de mãos vazias. Wilson veio me visitar no porão uma noite enquanto eu trabalhava na escultura, se sentando em um balde virado, observando sem comentários. — Como você acha que deveria chamá-la? — Ele perguntou depois de um longo silêncio. Dei de ombros. Eu não tinha chegado tão longe. Eu olhei para ela pela primeira vez. — Como você acha que eu devo chamá-la? Ele olhou para mim, então, a tristeza em seus olhos cinza tinham me feito desviar imediatamente, encolhendo pela compaixão que eu vi lá.


— Loss{34} — Ele sussurrou. Fingi não ouvir. Ele ficou por mais uma hora, vendo-me trabalhar. Eu nem sequer o ouvi sair.

A vida voltou ao normal em incrementos dolorosos, tão normal como sempre foi. Eu trabalhava, esculpia, comia e dormia. Tiffa ligava com frequência para me verificar e oferecia detalhes sobre o bebê só se eu perguntasse a ela. Ela era cuidadosa, mas felizmente subjugada em suas descrições. Cada vez que eu era capaz de ouvir um pouco mais, embora a primeira vez que ouvi o choro de Melody através do receptor, tive que terminar a ligação imediatamente. Passei o resto da noite no meu quarto, convencida de que o meu coração foi oficialmente quebrado e nenhuma quantidade de tempo e nenhuma quantidade de lágrimas jamais aliviariam a dor. Mas o tempo e as lágrimas provaram ser melhores tônicos do que eu teria pensado. Eu tinha passado a minha vida inteira negando a dor, mantendo-a para trás como se fosse algo a ser evitado a todo custo. Jimmy era tão contido, e eu tinha adotado seu estoicismo. Talvez fossem os hormônios ou uma resposta puramente biológica, talvez tenha sido o fato de que eu tinha rogado a Deus que eu conhecia muito pouco em como tirar a dor, mas nos dias que se seguiram ao nascimento de Melody, eu descobri que me foi dada a capacidade de chorar. E no choro havia poder. O poder da cura, o poder de liberar a dor e deixar ir, o poder de suportar o amor e se apoiar. E conforme as semanas se tornavam meses, eu chorava menos e sorria mais. E a paz se tornou uma companheira mais frequente. Mas, quando a paz e a aceitação se tornaram minhas amigas, Wilson começou a se afastar. No começo eu era quase grata, simplesmente porque eu era uma companhia horrível. Mas quando comecei a me curar, comecei a sentir falta do meu amigo e ele era quase ausente. Eu me perguntava se ele sentia que o seu trabalho tinha terminado. Talvez com Melody sendo entregue, assim foi com ele. Pouco antes do Natal, eu tive uns dias de folga do trabalho e fui a uma grande expedição de caça a madeira. Fui para o Arizona, cheguei ao sul de Utah, e circulei de volta para Las Vegas com a caminhonete cheia de zimbro, mogno da montanha e mais algaroba do que eu poderia esculpir


nos domingos do mês. As fortes chuvas e inundações de meses atrás havia movido a madeira de um lugar mais alto, enchendo os vales e tornando-se bastante fácil encontrar o que eu estava procurando. Infelizmente, eu tive que deixar algumas partes mais pesadas para trás, porque, embora eu tivesse aperfeiçoado o uso das alavancas, polias e rampas, algumas partes exigiam mais do que uma mulher e suas ferramentas poderiam fazer. Quando planejei a viagem, eu esperava que pudesse ser capaz de convencer Wilson a ir comigo. Com o feriado de Natal, ele teria um tempo de folga. Eu achava ele estava obviamente tentando ficar longe de mim, então eu não me incomodei. Quando eu cheguei na segunda-feira à noite, suja e cansada, imunda, com contusões, roupas rasgadas e um dedo do pé latejante, cortesia de um tronco que foi embora, eu não estava com disposição para quaisquer interações com Pamela e Wilson. Infelizmente, eles pararam na casa enquanto eu estava tentando descarregar a minha caminhonete na entrada do porão. Pamela estava vestindo uma saia branca com tênis e uma camiseta sem manga justa, com o cabelo puxado para trás em um rabo de cavalo. Ela estremeceu quando Wilson pulou na traseira da minha caminhonete e começou a me ajudar a descarregar. Ela dançou no local por cerca de dois minutos, pulando de um pé para o outro. — Darcy, estou congelando. Vamos para dentro, vamos? — Ela reclamou, e depois sorriu para Wilson, quando ele fez uma pausa para olhar para ela. — Vá em frente, Pam. Está muito frio aqui fora. Eu vou ajudar Blue a guardar no porão. Pamela fez uma pequena careta com os olhos incertos demorando em mim. Ela não queria deixar Wilson, eu poderia dizer. As mulheres têm um sentido sobre essas coisas. Havia alguma coisa acontecendo entre Wilson e eu. E ela sabia disso. Eu apenas dei de ombros. Não era problema meu. — Realmente, Pammy. Vá para o meu apartamento. Eu estarei lá em apenas um minuto. Não há motivo nenhum para você ficar no frio — Wilson insistiu. Não estava realmente muito frio, apesar de que dezembro no deserto poderia ser surpreendentemente cortante. Mas achei que se eu estivesse


usando pouca roupa em vez de calça de brim, luvas de trabalho e uma camisa de flanela, eu poderia sentir frio também. Eu não sabia por que Pamela estava preocupada. Meu cabelo era um ninho de rato. Na verdade, eu tinha certeza que estava ostentando alguns galhos. Meu nariz estava vermelho, meu rosto arranhado e eu não chamaria a atenção de ninguém, incluindo Wilson. Pamela deve ter chegado à mesma conclusão, porque ela me deu um longo olhar, dizendo que iria ligar o “televisor” um pouco. — Pammy? — Eu zombei, rolando uma parte de 1,5 metros de uma árvore que tinha arrasado a minha rampa improvisada. — Quando éramos pequenos, todos a chamavam de Pammy. Isso desliza de vez em quando. Eu bufei, não tendo nada a dizer, mas me sentindo desdenhosa de qualquer maneira. — Por que você saiu sem dizer a ninguém onde estava indo, Blue? — Wilson disse por cima do ombro enquanto descia a rampa, fazendo malabarismos com uma braçada de zimbro. Ele começou a descer as escadas para o porão, e eu pensei que ele não precisava de uma resposta ou que achava que não receberia nenhuma. Ele galopou de volta segundos depois e voltou a falar como se ele não tivesse saído. — Eu nem sabia que você tinha saído até ontem de manhã. Então eu comecei a me preocupar. — Eu não sai sem dizer nada a ninguém. Eu só não disse a você — Eu respondi logo. — Esta é a última parte, mas é mais pesada do que o inferno. Vá para o outro lado, está bem? — Eu me movi, mudando de assunto. Eu não queria justificar a minha ausência. Era ele quem estava me ignorando e não o contrário. Wilson segurou o final de dois pesados galhos emaranhados que eu estava lutando para içar. Dois galhos separados haviam crescido de duas árvores diferentes, que vinham crescendo lado a lado, e os ramos tinham se sobreposto, envolvendo um em volta do outro, os galhos menores enrolados e entrelaçados. O galho de uma árvore foi danificado e foi dividido em sua base. Se não tivesse se enrolado no galho da outra árvore teria descido por conta própria. Eu tive que subir em ambas as árvores para cortar cada galho, serrando o que não foi dividido e cortando as


poucas ligações irregulares. Tinha me custado um buraco na calça jeans e um longo arranhão na minha bochecha direita, mas valeria a pena no final. As imagens dos galhos fundidos eram convincentes e sugestivas de algo inato de cada coração humano - a necessidade de tocar, a necessidade de conectar - e eu sabia exatamente como ficaria quando eu terminasse. Quando eu o tinha visto pela primeira vez, ansiava por algo que tinha me negado desde que eu saí da garagem do apartamento de Mason um ano atrás. Mas não era o contato físico que eu ansiava. Não inteiramente. Era a proximidade, a ligação. Mas o pensamento de uma época quando eu tinha uma necessidade física, em detrimento de uma emocional não funcionou por mais tempo. E assim eu fiquei com a dor e nenhuma ideia de como acalmar isso. Wilson e eu balançávamos descendo as escadas, de frente para o outro através dos troncos, arbustos e casca espinhosa. Eu liderei o caminho, colocando suavemente no chão perto da bancada, e ele seguiu o exemplo e voltou limpando as mãos na bermuda e tênis branco. Ele tinha seiva em sua camisa azul clara e marcas sujas em sua bermuda onde tinha limpado as mãos. Gostaria de saber se Pammy iria querer que ele se trocasse. O pensamento me fez inexplicavelmente triste e eu peguei um cinzel e martelo. Eu queria começar a remover as cascas, galhos e folhas imediatamente. Talvez eu pudesse trabalhar a dor a distância, o focar na necessidade e o desejo, me arranhar em algo produtivo, algo bonito, algo que não me deixaria vazia no final. — Posso deixar minha caminhonete onde está? — Eu perguntei a Wilson, atacando a casca com os meus olhos nos ramos. — As chaves estão lá dentro? Bati meus bolsos e gemi. — Sim. Estão. Deixa para lá. Eu vou movê-la e trancá-la. — Eu faço isso. Eu já vi esse olhar antes. Blue está na zona — Comentou Wilson ironicamente, se virou e saiu sem dizer mais nada. Eu trabalhei freneticamente por várias horas, descascando e cortando, lixando e raspando, até meus galhos abraçados estarem nus no concreto. Minhas mãos estavam em carne viva e minhas costas gritaram quando eu voltei a tomar um fôlego. Eu tinha tirado minha camisa de flanela em algum momento no decorrer da noite por causa do meu trabalho, e estava me


sentindo com calor e também tinha o pequeno aquecedor explodindo no canto que Wilson insistiu que eu usasse. Eu prendi meu cabelo em uma trança desleixada para mantê-lo fora do meu rosto e fora da lixadeira. Ele tinha crescido tanto, que a trança continuava caindo sobre o meu ombro esquerdo como uma videira pesada. Eu estava pensando em cortá-lo quando ouvi um arranhão na chave da fechadura e a porta do porão se abriu com uma corrente de ar frio. Wilson fechou a porta atrás dele, tremendo um pouco da explosão de inverno. Ele usava uma camiseta e jeans de cintura baixa, as que eu tinha tentado não notar a primeira vez que eu o vi usando. Minhas chaves estavam em sua mão, e uma expressão irritada fez um vinco entre seus olhos cinzentos. — É meia-noite, Blue. Você já esteve aqui trabalhando sem parar por cinco horas. — E? — E... É meia-noite! — Tudo bem, vovó. A carranca entre as sobrancelhas de Wilson se aprofundou. Ele diminuiu a distância entre nós com seus olhos se dando conta da minha aparência desleixada. — Você sumiu por três dias e estou supondo que quase não dormiu o tempo todo que esteve fora, mas aqui está você, como se estivesse trabalhando com prazo ou algo assim. Seu jeans está rasgado, você estava mancando mais cedo, e seu rosto está arranhado — Wilson argumentou. Ele correu um dedo pelo arranhão irritado em minha bochecha. Estendi a mão para empurrar a dele, mas ele capturou minha mão e virou-a, correndo os dedos sobre a palma, abrindo meus dedos, observando os calos e os arranhões que eu tinha adquirido nos últimos dias. Arrepios subiram em meus braços e fizeram cócegas na minha garganta. Eu tremi e a puxei. Agachei-me ao lado de meu projeto e voltei a lixar. — Então por que você não me contou? — Hmm? — Eu não parei de trabalhar. — Você disse que não saiu sem dizer a ninguém onde estava indo. Você só não me falou. Por quê?


— Você está me evitando por um tempo, Wilson. Deu-me a impressão de que não estaria se preocupando com a minha ausência — Minhas palavras eram bruscas e eu, corajosamente, sustentei o olhar. Wilson acenou com a cabeça, puxando o lábio inferior em sua boca, pensando na minha acusação. Mas ele não negou que ficou propositalmente longe. — Eu pensei que talvez você e eu precisássemos de alguma distância. Foram apenas dois meses desde que Melody nasceu. Nosso... Relacionamento... Avançou em algumas experiências muito intensas — Wilson formava as palavras com cuidado, fazendo uma pausa entre os pensamentos. Eu não gostei que ele estivesse tão deliberado. Parecia paternalista. Mas ele continuou no mesmo tom, falando precisa e lentamente. — Eu pensei que talvez você precisasse de algum tempo e algum... Espaço. Sem drama, sem... Eu... Ou qualquer outra pessoa. Apenas espaço — Wilson olhou para mim atentamente, o olhar cinza sóbrio e firme. Eu soltei as minhas ferramentas e me levantei, colocando espaço - a coisa era que Wilson estava tão convencido que eu precisava - entre nós. Eu tremi, congelando, agora que eu tinha abrandado o ritmo. O frio do piso de concreto que tinha subido através das solas dos meus pés, e a minha calça jeans rasgada e camiseta de alças finas eram subitamente insuficientes para afastar isso. Virei às costas para Wilson e aproximei as minhas mãos no aquecedor, tentando puxar o calor para meus dedos rígidos e braços. — Você se lembra da história que Jimmy me contou? Aquela sobre Tabuts o lobo sábio e seu irmão Shinangwav, o coiote? — Joguei-lhe um olhar interrogativo sobre o meu ombro. — Aquela sobre a pessoa esculpida em galhos? A que você me disse na escola sobre a estrutura socioeconômica injusta em todo o mundo? — A boca de Wilson franzia ironicamente, e ele caminhou em minha direção, agarrando minha camisa de flanela do chão onde eu a tinha descartado. Ele colocou-a em volta dos meus ombros, e depois cruzou os braços em volta de mim, apoiando o queixo na minha cabeça. Seu calor me fez sentir tão bem, tão certo, que eu fechei os olhos contra isso, contra ele e a facilidade com que ele me segurava, como se eu fosse sua irmã ou uma prima favorita.


Eu não sentia nada fraternal por Wilson. E era tão bom seus braços em volta de mim, que não havia dor no prazer. — Quando eu era criança, essa história nunca fez qualquer sentido para mim. Por que as pessoas querem ficar sozinhas? — O tom melancólico da minha voz foi revelador e os braços de Wilson apertaram ao meu redor. Eu mantive meus olhos fechados, um cansaço repentino rastejando em meus músculos e membros com o calor que me rodeava. — Eu pensei que Shinangwav era o irmão mais esperto. Ele sabia que as pessoas gostavam de ficar em grupos. Eu importunei Jimmy constantemente por uma mãe, uma irmã ou alguns amigos. Um lobo sábio deve saber que as pessoas preferem ficar próximas. Wilson virou-me em seus braços e alisou os cachos de cabelo de meu rosto. Eu queria manter meus olhos fechados, com medo de que se os abrisse quando estávamos tão perto, eles iriam me entregar. Mas a proximidade e continuando a mantê-los fechados pareciam expectantes, como se eu estivesse esperando que ele beijasse meus lábios, então eu os abri e levantei-os, cansada. — Às vezes sinto como se eu fosse um daqueles que foi deixado dentro do saco, enquanto todo mundo estava caindo em grupos — Eu sussurrei. Seus olhos eram tão cinza à luz insignificante do canto escuro que pareciam ardósia em um dilúvio. Seu rosto era um estudo de concentração e empatia, como se cada palavra que eu disse fosse de muita importância. Era essa expressão, essa intensidade que havia me desgastado, e me conquistado, aula de história após aula de história, dia após dia, e ele nem sabia que eu era dele. — Eu diria que é uma reação bastante compreensível depois de carregar uma criança por nove meses... E se separar dela — A voz de Wilson era gentil, e ele beijou minha testa castamente, ofensivamente. Mas eu não queria sua simpatia. E eu definitivamente não queria espaço. Eu o queria. Eu não queria que ele beijasse minha testa. Eu queria beijar sua boca. Eu queria beijá-lo com as minhas mãos em punhos em seu cabelo e meu corpo envolto ao redor dele. Eu queria confessar meus sentimentos e demonstrar minha devoção. E se eu não saísse naquele momento, poderia fazer algo que talvez me afastasse dele para sempre. Eu me afastei quase


freneticamente, com medo de mim, com medo por mim. Wilson deixou-me ir imediatamente. — Algumas pessoas estão destinadas a ficar sozinha. Jimmy parecia ser uma dessas pessoas. Talvez eu também seja, gostando ou não. Wilson não respondeu quando eu me virei e caminhei até a minha mesa de trabalho. Eu peguei as chaves e me dirigi para as escadas que levavam ao meu apartamento. Nenhum de nós ofereceu palavras de despedida e a distância entre nós foi restabelecida como se eu nunca tivesse estado em seus braços.


Capítulo Vinte e Três Alice Eu tinha recusado Ação de Graças, Natal e todas as armadilhas de feriados, mas quando Tiffa ligou e me pediu para ir à festa anual de Ano Novo e disse-me que sua mãe estaria cuidando dos meninos de Alice e Melody em outro lugar, eu cedi. Eu disse a mim mesma que não tinha nada a ver com o fato de que ela tinha arranjado que Wilson fosse meu par porque Pamela estava na Inglaterra para o Ano Novo. Imaginei uma festa elegante com uma orquestra ao vivo e vestido de cocktail e saltos. Mas Tiffa me surpreendeu, dizendo: — Vista algo confortável! E colorido! Temos um concurso de quem pode usar mais cores, e nós, Wilsons gostamos de festas de Ano Novo extravagantes. Não use nada que irá mostrar sua calcinha ao se curvar para o caso de acabarmos fazendo o jogo do saco marrom. Alice se queixa todo ano, mas não seria Ano Novo sem isso. Pensei que eu estava bastante colorida de jeans skinny pink e um top azul brilhante de lantejoulas. Eu até tinha brincos de penas roxas em minhas orelhas e anexadas ao meu cabelo, sombra brilhante nos olhos e lábios vermelhos, mas Tiffa tinha me batido facilmente com leggings tingida, uma camisa listradaneon ofuscante, plataformas de salto alto de laranja, e uma peruca de palhaço arco-íris. Wilson ainda entrou no espírito com uma camisa que não era azul, cinza ou preta. Era de manga comprida com um longo decote em v em um suave verde claro. Não muito forte, mas pelo menos ele tentou. Ele usava calça jeans preta e botas pretas e parecia muito um professor liberal. Não era uma grande festa - talvez trinta pessoas - mas todos pareciam se conhecer bem. Havia dez ou doze casais, além de Tiffa e Jack, Alice e Peter, e Wilson e eu. A maioria dos outros eram sócios britânicos de Tiffa da The Sheffield. Eu esperava que todos eles fossem beber seu champanhe com o mindinho levantado, considerando como adequado soava na


conversa. Mas eles eram todos muito ruidosos e fáceis de lidar, especialmente depois de algumas bebidas. A noite começou com um jogo chamado Ha Há Ha - que foi como Tiffa chamou. Cada integrante da festa tinha ganhado uma pulseira, que foi feita de um rolo de adesivos em todas as cores diferentes. O objetivo era fazer as pessoas rirem usando um grande falso “ha ha há”. Se você fosse bem sucedida em fazer a pessoa rir, essa pessoa tinha que recompensá-lo com um beijo e um adesivo. Se uma garota fizesse outra garota rir, ela poderia dar-lhe um beijo molhado, ou escolher um garoto para essa menina beijar ou vice-versa. O campeão do Ha Ha Ha era determinado no final da noite pelo número de adesivos acumulados, bem como quantos ainda tivesse em seu bracelete. Fiquei aliviada ao ver que os beijos eram todos amigáveis nos lábios e nas bochechas com muitos “Feliz Ano Novo!” eram lançados. Ninguém parecia tirar vantagem e dar um beijo molhado em um alguém sem vontade. A maioria das pessoas tinha a intenção de colecionar adesivos. O jogo continuou durante toda a noite, mesmo quando outros jogos foram sendo feitos e eu me tornei um pouco mais de um alvo, porque os Ha Ha Ha dirigidos à mim não eram terrivelmente engraçados, e eu ainda tinha que perder um adesivo... Ou dar um beijo. Tiffa e Wilson continuaram indo de um lado para o outro com as outras pessoas, tentando fazer com que o outro perder - ocasionalmente quebrando em gargalhadas que eram prontamente recompensadas com um beijo na testa, seguido por uma etiqueta. Tiffa rapidamente parecia ter varíola com seu rosto muito pontilhado de adesivos. Alice era tão irritante com o Ha Ha Ha que as pessoas riam e se encolhiam, quando davam seus vários beijos e adesivos também. Eu não sei o que eu esperava de uma festa de Ano Novo com um monte de ingleses, mas não era Ha Ha Ha, e definitivamente não era o jogo do saco marrom. O jogo do saco marrom consistia em ficar de pé sobre uma perna, como um guindaste, inclinando-se sem tocar no chão ou o saco, levantando o saco do chão usando apenas a boca. A cada rodada, alguns centímetros seriam cortados do saco marrom até que houvesse apenas uma borda fina restante do saco. Alice acabou ficando com o nariz sangrando quando o cara a colocou no chão. Tiffa era como Giselle{35}, facilmente dobrando-se ao meio e mergulhando o saco do chão como se fosse um movimento de dança que ela dominava há muitos anos. Jack estava fora após a primeira rodada.


O marido de Alice, Peter, soltava gases toda vez que fazia uma tentativa do saco, ficando envergonhado, e dizendo: “Pardon me’s” quase que mais engraçado do que os barulhos constantes. Wilson atacou o jogo do saco marrom com uma concentração obstinada que suas irmãs diziam ser como ele fazia com todos os jogos, mas estava fora do seu alcance depois de duas ou três rodadas. Aparentemente, o jogo do saco marrom era uma tradição da família de Wilson e não uma tradição Inglesa. Foi o falecido Dr. Wilson que apresentou o jogo para seus filhos, e eles tinham jogado durante todo o tempo que qualquer um deles conseguia se lembrar. Fazia pouco mais de dois meses desde que eu tive um bebê, e eu poderia facilmente ter implorado, alegando que não estava pronta para um jogo tão físico. Mas eu não queria despertar a curiosidade de outras pessoas ou convidá-las a fazer perguntas, e se juntar a isso o meu desagrado por álcool era uma verdadeira vantagem, o meu saldo ainda estava intacto quando todo mundo estava oscilando. A rodada final foi entre Tiffa e eu, e ela estava falando bobagens, soando como Scary Spice37, quando deslizou para a vitória. — Ha ha ha! — Ela me disse, nariz com nariz, seus olhos cruzaram comicamente, quando admitiu a vitória. Essa Tiffa era uma grande contradição da Tiffa-the-Art-Connoisseur que eu ri e afastei-a. — Você riu! Você riu do meu ha ha ha! — Tiffa gritou e pulou em volta agitando as mãos no ar. — Dê-me um adesivo, Blue Echohawk! Você sucumbiu à minha inteligência! Agora preciso designar alguém para beijar você e beijar bem! Wilson! Pronto para um beijo, amor! Ninguém realmente prestou muita atenção para o olhar congelado no rosto de Wilson. Nós estávamos lá juntos, como um casal, por assim dizer. Os convidados de Tiffa estavam mais entretidos por seu regozijo do que pelo fato de que Wilson havia se levantado e estava se aproximando de mim com a intenção de oferecer um beijo. Alice, no entanto, estava assistindo com alegria quando Wilson se inclinou e pressionou seus lábios nos meus em um beijo que foi principalmente ar e antes que eu tivesse a chance de me preparar. — Oh, Caramba! Isso foi patético, Darcy! O que nós temos, cinco? — Alice gemeu alto. — Essa festa toda é patética! Eu não vi um beijo de


verdade a noite toda! Todos esses selinhos, adesivos e a porra do jogo do saco marrom. Maldição! — Alice pigarreou alto. Ela sentou-se e apontou para um cara de boa aparência cercado pela maioria das mulheres quando o jogo do Ha Ha Ha começou. — Justin! Você não é casado, e está absolutamente delicioso. Você daria um beijo de verdade na Blue, fazendo o favor? — Alice estava um pouquinho bêbada, eu suspeitava. O homem chamado Justin olhou para mim com interesse. — Agora, Peter e eu poderíamos mostrar-lhe como se faz, não poderíamos Peter? — Alice deu uma cotovelada em seu marido, que tinha adormecido depois de ter falhado no jogo do saco marrom. Ele respondeu com um pequeno ronco silencioso. Alice empurrou-o em indignação. — Maldição! Bufando e roncando! Que romance! Ajude-me, Justin! — Ajude-nos todos, Justin! — Tiffa acrescentou enfaticamente, empurrando Justin para a frente. Todo mundo começou a rir, todos, menos Wilson, que estava tenso ao meu lado, seus olhos focados no Justin bonitão que tinha decidido dar a Alice o que ela queria e estava vindo em minha direção. Wilson se virou para mim de repente, as suas mãos seguraram o meu rosto, seus dedos deslizando em meu cabelo. Com seus olhos nos meus, ele abaixou a cabeça e roçou os lábios contra a minha boca, uma vez e novamente, como se tivesse medo que Alice começasse a puxar um coro de “Droga” se ele se afastasse. Seus lábios eram firmes e suaves e sua respiração fez cócegas em meus lábios. Meu coração batia forte na minha garganta e minha mente gritou para mim, pedindo-me para arquivar todos os detalhes do evento que eu tinha sonhado, mas nunca ousei esperar. Wilson estava me beijando! E então eu não conseguia pensar em nada. Seus lábios estavam mais insistentes, suas mãos me puxando para a frente, para ele, quando sua boca se movia contra a minha, e depois a minha abrindo os lábios suavemente com sua língua buscando a entrada. E eu deixei-a entrar, então seus braços estavam ao meu redor, e o beijo tornou-se algo mais. Não era um jogo, não era um show, era nosso e a sala ao nosso redor não existia.


Nós nos separamos com um suspiro compartilhado. A sala irrompeu em gritos e aplausos enquanto Alice pulava e ria como uma menina prestes a sentar no colo do Papai Noel. — Isso foi lindo! Darcy! Se você não fosse meu irmão mais novo eu entraria na fila! Peter! Acorda homem! — Alice chamou seu marido cansado que tinha perdido todo o espetáculo. Tiffa estava olhando para nós com um pequeno sorriso em seus lábios, como se soubesse disso o tempo todo. A mão de Wilson deslizou pelo meu braço e capturou meus dedos em um aperto. Suas orelhas estavam vermelhas, mas ele não falou. Ele segurou minha mão pelo resto da noite, e eu jurei que meu coração tinha inchado. Eu estava ofegante, emocionada e ansiosa para ficar sozinha, e excitada para explorar este novo acontecimento. Quando a meia-noite se aproximava, Tiffa ligou a televisão e repassou chocalhos e confetes. Aparentemente, outra tradição britânica era assistir o Big Ben bater doze vezes que Tiffa tinha gravado, quando na verdade já tinha realmente ocorrido em Londres, ela fez que todos se sentissem como se estivessem em casa... Na Inglaterra. Eu não me importava de trocar a Times Square pelo Big Ben. Ou desistir de rapazes americanos por um professor nerd Inglês. No momento, eu estava completamente encantada com todas as coisas britânicas. Nós contamos e, em seguida, vimos quando o grande relógio saudou o Ano Novo em nosso canto do mundo. Gritos de “Feliz Ano Novo!”, abraços, aplausos e festas barulhentas irromperam pela sala. Tiffa e Jack tinham lágrimas em seus rostos enquanto se beijavam e se abraçavam, obviamente, pelo ano que tiveram e os anos que estavam por vir. E eu tinha ajudado a dar-lhes isso. Virei-me para Wilson, com um sorriso, mas ele desviou o olhar, observando a sala irromper sem unir-se a celebração. — Vamos — Disse ele de repente. — Está pronta? Eu quero ir embora. Vamos fugir. Eu ligo para Tiffa de manhã e a agradeço pela festa. — Oh, ok — Eu concordei e ele me empurrou para a porta. Pegou nossos casacos e estava tentando escapar quando Tiffa correu para nós, chamando-nos para esperar. Wilson fez uma careta, e eu me perguntei por que ele estava com tanta pressa para sair de repente.


— Darcy, espere! Não leve Blue para longe ainda! Os fogos de artifício são inacreditáveis daqui de cima. Você perdeu-os no quarto de julho também! E nós não coroamos o campeão do Ha Ha Ha! — Ela caiu sobre nós, envolvendo os braços ao redor dos nossos ombros. — Eu acho que Justin está embriagado, Tif — A voz de Wilson soou estranha, e um olhar passou entre irmão e irmã, que fez o meu peito ficar apertado e meu rosto queimar. — Eu vejo — Disse Tiffa suavemente. Eu queria ir embora. Ela se inclinou, beijou meu rosto e apertou minha mão. — Obrigada por ter vindo, Blue. Jack e eu a consideramos parte da nossa família e sempre será. Quando estiver pronta, você deve ver Melody. Seria bom para todos nós, eu acho — Seus olhos foram para Wilson e de volta para mim. — Feliz Ano Novo, Amores. Descemos para a garagem em silêncio, o elevador surpreendentemente estava lotado, considerando o fato de que era apenas meia-noite e a maioria das festas estavam em pleno andamento. Eu pressionei minhas costas em Wilson conforme em cada andar mais ocupantes apareciam, todos descendo. Wilson manteve sua mão na minha e vi quando os números marcavam. Meu humor desceu tão rapidamente quando me perguntei se a viagem para casa seria cheia de desculpas por um beijo que me iluminou como o Quatro de Julho... Ou véspera de Ano Novo, para ser mais exata. Tiffa estava certa. Os fogos de artifício de sua varanda teriam sido inacreditáveis. Eu gostaria de ter ficado para vê-los, para compartilhar mais um beijo quando as cores enchessem o ar antes que realidade varresse a magia para longe. Vegas era uma cidade de festa e as multidões eram pesadas, tornando a caminhada longe do prédio de Tiffa lenta com as pessoas alinhadas que pulavam de um hotel para o outro, absorvendo as luzes brilhantes, infinita comida e glamour de uma cidade que se adaptava para celebrações extremas. Felizmente, o Sheffield ficava na extremidade sul da Strip de Las Vegas, ficando mais fácil passar as interseções mais grossas quando subimos indo para o anel viário à leste, em direção a Boulder City. Wilson tinha ficado quieto enquanto manobrava através da multidão de tráfego e pessoas, mas quando a cidade e suas luzes ficavam atrás de nós, o silêncio era mais do que eu podia aguentar, então eu decidi fazer pouco caso da coisa toda.


— Você beija como uma mulher velha, Wilson. O carro desviou violentamente, balançando-nos um pouco quando Wilson praguejou e endireitou o veículo, com a cabeça girando entre mim e a estrada. — Droga! — Wilson balbuciou, depois riu e gemeu, passando a mão pelo rosto em agitação óbvia. — Bem, você não. Meu coração acelerou e meu estômago caiu com suas palavras. — Então qual é o problema? — Esse é o problema. — Bem, se você me beijou e me fez sentir como beijar uma das Golden Girls{36}, tudo estaria bem no mundo? Porque isso foi o que senti e me sinto bem, enquanto você, obviamente, não. — The Golden Girls? — Wilson obviamente não assistia reprises americanas. — Bem... Talvez nenhuma delas. Talvez... O príncipe Charles — Eu provoquei. — Mas não Camilla? Por favor, me diga que não foi como beijar Camilla — Insistiu. Eu ri. Pobre Camilla. — Estava beijando como a Victoria Beckham? — Eu retruquei. — Tiffa me disse que você tinha uma grande queda por ela quando tinha sete anos. — Oh, sim. Já que eu sei exatamente como é beijar Victoria Beckham. — Será que você pensou em Victoria Beckham quando me beijou? Isso é quase tão bom. — Não, Blue. Eu não. Infelizmente, eu estava muito consciente de quem estava beijando e por que não deveria estar beijando-a. Minhas tentativas para evitar o exame sério do “beijo” obviamente falhou. Wilson manteve os olhos para a frente todo o caminho de casa, e eu sufoquei o impulso de pedir-lhe para explicar, para justificar sua rejeição contundente. Se ele estava lutando com seus sentimentos por mim, ele teria que entendê-los. Recusei-me a alimentar o seu pesar - ou até mesmo discutir com ele. Fiquei em silêncio sepulcral pelo restante da viagem. Ele


parou em frente de casa e colocou o carro no estacionamento, girou a chave e virando-se para mim ao mesmo tempo. — Eu cruzei muitas linhas com você tantas vezes. Eu era seu professor, pelo amor de Deus! Minha irmã adotou seu filho! É tudo tão complicado, e eu não quero fazer as coisas mais confusas do que já são. A amizade que temos, os momentos incrivelmente íntimos que nós compartilhamos, o fato de que você é a minha inquilina... Eu posso racionalizar tudo isso. Posso justificar tudo... Contanto que não haja romance. Hoje à noite, quando eu a beijei, eu cruzei a linha de amigo, professor, conselheiro, maldita figura paterna — Ele cuspiu esta última linha para fora, claramente revoltado — Para algo completamente diferente, e eu lhe devo um pedido de desculpas. Eu não sei o que estava pensando, deixando Alice manipular-me dessa maneira. — Figura paterna! Puta que pariu! — Eu fiquei horrorizada. — É assim que você vê o nosso relacionamento? Eca, Wilson! — Eu saí do carro e subi os degraus, não esperando por Wilson. Eu realmente não queria matá-lo, mas nesse momento, estrangulá-lo não teria sido um exagero. Eu o ouvi atrás de mim, e eu virei para ele quando nós subimos as escadas da frente. — Para registro, Wilson. Você era meu professor. Uma vez! Você se tornou meu amigo. Eu não sou uma criança e não sou sua aluna. Eu sou uma mulher adulta, nem mesmo três anos mais jovem do que você. Você não só beija como uma velha retrógada como está agindo como uma! Beijar você não era grande coisa! Não era inadequado, foi um jogo bobo de festa. Se liga! Eu me orgulhava de minha honestidade e aqui estava eu, mentindo através dos meus dentes. A verdade era que o beijo foi um grande negócio. E Wilson definitivamente não beijava como uma mulher velha. Mas ele não receberia essa verdade. Não agora. Não depois de ter arruinado tudo. Seus olhos estavam na minha boca, e eu poderia dizer que ele estava lutando uma batalha interna entre suas proezas de beijar-me ou deixar-se acalmar sua consciência culpada. Ele realmente não poderia ter as duas coisas. Ou o beijo foi um negócio muito grande e nós estávamos em um relacionamento totalmente diferente do que ele estava pronto para admitir, ou o beijo foi apenas um jogo entre amigos e ele poderia continuar fingindo


que tudo era simples e ele era apenas o bom cara se preocupava com Blue Echohawk. Ele se aproximou de mim, movendo-se de forma deliberada. Parou logo abaixo de mim, assim eu estava apenas um degrau acima dele. Nossos olhos estavam agora no mesmo nível, assim como nossas bocas. — Não foi grande coisa — Ele disse suavemente. — Só um jogo bobo — Eu respondi, muito calmamente. — Então, por que eu quero fazer isso de novo? Meu coração estava batendo tão forte que ecoou na minha cabeça. — Talvez você só precise me provar que você não é uma mulher velha? — Ah... Provavelmente seja isso. Eu só preciso lhe mostrar que eu sou de fato um homem, capaz de entregar um beijo que não vá fazer você pensar em agulhas de crochê e meias largas. — E o pó de talco e dentaduras. A boca de Wilson estava há um fôlego. — Deve ser isso. Meus olhos se fecharam enquanto ele mordiscava meu lábio inferior e, depois o superior. Em seguida, ele separou meus lábios com sua língua, me provando suavemente. Sua língua encontrou a minha e ficamos apenas com nossas bocas se tocando, apenas nossas bocas se movendo. Por vários minutos permanecemos desta forma, nossos corpos centímetros de distância, nossas mãos aos nossos lados, completamente focados no encontro dos nossos lábios. O beijo era lento, doce, lânguido, como um gato que se estende ao sol. E então tudo terminou. Eu me segurei ainda - esperando, desejando sua boca encontrar a minha novamente. Mas isso não aconteceu. Meus olhos se abriram sem vontade de enfrentar o fim de um beijo verdadeiramente impressionante. Wilson estava me observando, um pequeno sorriso em seus lábios. — Tome isso, Camilla — Ele sussurrou. Sem outra palavra, ele me evitou, subiu as escadas e abriu a porta. Ele segurou-a aberta, esperando eu me virar e juntar a ele. Meus membros estavam lentos e eu não conseguia manter meus olhos abertos. O céu da minha boca estava tão sensível que


era como se eu tivesse comido manteiga de amendoim enquanto estava inconsciente. Wilson me acompanhou até a porta e sussurrou: — Boa noite Blue. Eu não respondi. Eu só o observei a subir as escadas para o seu apartamento, me perguntando como ele tinha conseguido a última palavra, depois de tudo.

Wilson voltou a me evitar pelo próximo mês. Talvez ele estivesse ocupado, talvez o novo semestre o fizesse trabalhar até tarde. Várias noites eu ouvi seus passos no apartamento por cima de mim depois das nove horas. A vida de um professor era ingrata, eu supunha. Mas eu suspeitava que tivesse mais a ver com o beijo no Ano Novo e ficar longe de mim, do que um aumento de horário de trabalho. E, claro, Pamela. Pamela estava de volta da Inglaterra, insinuando de volta para a vida de Wilson, devorando seu tempo livre. Eles iam ao cinema, saiam para jantar, e ainda jogaram tênis no fim de semana. Eu nunca tinha sequer segurado uma raquete de tênis. Acho que nós não jogaríamos em duplas. Além disso, eu não tinha exatamente um parceiro. Eu não poderia imaginar Bev sendo muito boa no tênis, e além de Wilson e Tiffa, ela era minha melhor amiga. E isso era simplesmente triste.


Capítulo Vinte e Quatro Iridescente E, então o laboratório ligou. Eu tinha trabalhado sete turnos de oito horas no café, e quando eu não estava no café, estava no porão, chafurdando em todo o espaço que me foi dado. Wilson ficou longe. A única ligação que eu sentia com ele era à noite, quando me sentava debaixo da saída de ar para ouvi-lo tocar seu violoncelo. Eu já havia tentado afastar-me até mesmo disso, simplesmente porque a música ironizava o meu desejo e me fazia sentir crua e rejeitada. Mas noite após noite, encontrei-me com o meu rosto virado, me torturando com o som, amaldiçoando Wilson e seu espaço. Não era que eu tivesse me esquecido dos resultados pendentes do teste de DNA. Eu não tinha. Mas eu não os aguardava ansiosamente. Então, quando veio a ligação, eu não estava preparada. — Blue Echohawk? — Sim. Sou Blue. — Aqui é Heidi Morgan do laboratório forense em Reno. Nós temos os resultados. Meu coração realmente doía de tanto bater forte. — Tudo bem — Meus lábios estavam dormentes e duas palavras simples eram tudo que eu poderia formar. — Nós temos a combinação, Blue. Gostaríamos que você retornasse para Reno. — Ok — Eu repeti. Eles tinham uma combinação. Eles sabiam quem eu era. — Eu... Eu preciso de um segundo para pensar. Vou ter que sair do trabalho e comprar uma passagem de avião... E E... Eu preciso pensar — Eu gaguejei, parecendo ridícula mesmo para os meus próprios ouvidos. — Absolutamente — Heidi Morgan respondeu calorosamente. — Avise-nos quando você tiver isso organizado. Tenho estado em contato com


o detetive Moody e o sargento Martinez. Todo mundo está muito animado, Blue. Esse tipo de coisa não acontece com muita frequência. Eu prometi que entraria em contato e desliguei o telefone, caindo para a minha velha cadeira onde ela descansava embaixo da saída de ar, esperando mais uma sinfonia tarde da noite. Tentei acalmar o meu coração acelerado e respirar através do nervosismo que me fazia roer as unhas e bater os pés contra o chão. Eu precisava contar a alguém. Eu precisava contar a Wilson. Mas ele não estava em casa, e eu estava com raiva dele. Sem parar para me convencer do contrário, peguei as chaves e sai pela porta. Eu veria Tiffa.

O prédio de Tiffa tinha um porteiro, e eu supunha que era bom porque ele avisou Tiffa que eu estava subindo, dando-lhe tempo para se recompor diante da minha visita surpreendente. Mas ela atendeu a porta imediatamente e me puxou para dentro da casa com um forte abraço e um sorriso largo. — Blue! Sua idiota! Por que você não me disse que estava vindo? Eu teria o almoço e champanhe para comemorar! E eu gostaria de saber para ter a oportunidade de trocar a minha blusa! Melody cospe em mim por todos os lados. Ela cospe de tudo, estou avisado. Pelo menos eu poderia ter trocado as fraldas para que ela pudesse fazer uma boa primeira impressão! Agora você vai ter que aturar-nos como estamos - fedorentas e com fome! — Tiffa flutuava ao meu redor como uma brisa suave e eu relaxei imediatamente, deixando-a me puxar em direção ao quarto. O quarto de Melody parecia um jardim com borboletas e pássaros esvoaçantes nas paredes e empoleirados nos ramos de árvores florescendo. Um esquilo enfiava a cabeça de um buraco no tronco, e uma família de coelhos pulava ao longo da parede acima do carpete verde claro macio. O teto era um céu azul, salpicado de gordas nuvens brancas e um bando de pequenos gansos voando em formação de V. Uma velha coruja sábia olhava para baixo de um galho que se estendia acima do berço, que estava envolto em espuma do mar coberto de verde, salpicada de pequenas flores cor de rosa, como uma pequena colina na primavera. Havia bichos de pelúcia


saídos do filme Bambi alinhando as bordas do quarto, e uma gigante cadeira de balanço branca repleta de almofadas em forma de flor no canto. Era absolutamente encantador. Toda menina deveria ter um quarto assim. Mas foi o bebê no berço que prendeu minha atenção. Ela borbulhava e chutava as pernas rechonchudas. O cabelo preto que tinha ao nascer se transformou em um marrom mais claro, e ela facilmente dobrou de tamanho. Eu só a tinha visto por alguns segundos, mas esses segundos estavam arquivados no meu cérebro. Este bebê parecia muito diferente da imagem na minha cabeça. Mas seus olhos eram azuis. Ela sorriu e balançou os braços e pernas e eu me vi sorrindo de volta, piscando com os olhos que de repente se encheram de lágrimas. O pesar que eu temia que eu tivesse, foi o que me manteve afastada e não caiu em cima de mim como eu pensava que seria. As lágrimas nos meus olhos eram mais como alívio de dor e eu me agarrei à mão de Tiffa, grata por ela de uma forma que eu nunca seria capaz de colocar em palavras. — Ela é... Assim... Assim... — Eu gaguejei — Perfeita — Concluiu Tiffa, seus próprios olhos brilhando de lágrimas quando ela colocou os braços ao meu redor e me apertou ferozmente. — Perfeita. Fraldas sujas e tudo. Deixe-me trocá-la para que você possa segurá-la. Em três meses, Tiffa tornou-se uma profissional, mudou a fralda com as mãos hábeis e limpando-a, enquanto ela balbuciava e conversava com Melody, cujos olhos ficaram apontados para seu rosto. Tiffa deixou-me colocar o talco no bumbum rosa enrugado de Melody, e nós duas espirramos ruidosamente quando eu me aproximei um pouco mais. Tiffa riu. — Você faz isso apenas como Jack. Ele diz que você nunca pode colocar muito talco. Quando papai está de plantão, Melody desprende um pouco de talco perfumado toda vez que ela chuta. Tiffa pegou Melody e a colocou em meus braços. — Aqui. Você balança a pequenina enquanto eu pego a mamadeira — Tiffa bateu no meu rosto, deu um beijo no cabelo esvoaçante de Melody, e foi para fora do quarto antes que eu pudesse protestar. Sentei-me com firmeza na ponta da cadeira de balanço. Sem contar os poucos segundos após o nascimento de Melody, eu nunca tinha segurado um bebê. Tentei não segurá-la muito frouxo ou muito apertado, mas seu rosto se enrugou


insatisfeito e seu lábio inferior se projetou para fora, como se estivesse se preparando para uivar. — Ok, ok. Você não gosta dessa posição. Podemos ajustar! — Corri para segurá-la de modo que a cabeça balançava acima do meu ombro, uma das minhas mãos em sua parte inferior e a outra pressionada contra suas costas. Ela prontamente agarrou a minha bochecha e começou a chupar freneticamente. Eu gritei, afastando-me e ela voltou-se ao meu nariz. — Tiffa! Ajuda! Ela pegou o meu nariz! — Eu ri, tentando despregar da pequena sugadora de sangue. Ela imediatamente começou a chorar, e eu virei-a de modo que ela estava virada para fora, com a cabeça no meu peito. Eu pulei um pouco e caminhei pelo quarto, conversando com ela do jeito Tiffa tinha feito. — Ah, olha, Melody. Há alguns coelhos do bebê! Pequenos coelhos cinzentos da cor dos olhos do tio Wilson — Eu me parei abruptamente. De onde tinha vindo isso? Mudei-me para outras características interessantes do quarto. — Oh, garoto! — Eu continuei no meu tom meloso. — Há um pequeno esquilo. Ele está olhando para Melody. Ele vê você, Melody! Melody parou de chorar, e assim eu continuei indo, caminhando ao redor do quarto com ela saltando em meus braços. — É melhor aquele pequeno esquilo tomar cuidado! Sr. Coruja está observando-o, e corujas gostam de devorar esquilos! — Mordi o lábio. Talvez tenha sido assustador. Tentei novamente. — As corujas são os únicos pássaros que pode ver a cor azul. Você sabia Melody? — Sério? — Tiffa entrou no quarto, sacudindo uma mamadeira rapidamente em sua mão direita. — Isso é verdade? — Sim. Quer dizer, eu acho que é. Jimmy, meu pai, amava os pássaros, e ele sabia todos os tipos de coisas interessantes aleatórias. Eu provavelmente já esqueci mais do que ele me disse, mas isso era uma piada entre nós. Eu achava ingenuamente que, por causa das corujas serem os únicos pássaros que podiam ver a cor azul que eu devia ser invisível para todos os outros pássaros. Tiffa sorriu: — Porque você era BLUE.


— Sim. Eu pensei que era incrível. — Invisibilidade viria a calhar, não é? — Tiffa me entregou a mamadeira, mas eu implorei para não. — Você faz isso, por favor! Ela está com fome, e eu não quero fazê-la chorar novamente. Ela tentou fazer sair leite do meu nariz. Tiffa riu, pegou Melody dos meus braços, e estabeleceu-se na cadeira de balanço. Melody começou a sugar forte. Tiffa e eu a observávamos com os olhos colados ao rosto feliz, às bochechas entrando e saindo em êxtase com o conteúdo que a agradava facilmente. — Falando de invisibilidade — Disse Tiffa calmamente, sem levantar os olhos do rosto de Melody. — Estou um pouco surpresa ao vê-la. Feliz - mas surpresa. O que está acontecendo, Blue? — O laboratório ligou hoje. Eles disseram que têm uma combinação. Eles sabem quem eu sou, Tiffa. Eles sabem quem é a minha mãe. Eles me pediram para ir a Reno. — Ohhhh, Blue — Tiffa soltou as palavras em um longo suspiro. Seu olhar estava cheio de compaixão e senti um nó na minha garganta. Engoli em seco e tentei rir. — Eu espero que eu não a tenha assustado vindo aqui de olhos arregalados e em pânico. Eu só precisava contar a alguém. E eu pensei em Melody e como preciso dessas respostas para o bem dela, mesmo que às vezes eu preferiria nunca saber. — Estou tão feliz que você veio. Era hora. E você não estava com os olhos arregalados e em pânico. Você está sempre tão calma, Blue Echohawk. Eu leio as pessoas muito bem, mas você é sempre tão autossuficiente, tão reservada. E aquele ditado? Águas paradas são profundas? Dessa forma, você e Darcy são tão parecidos — Quando eu não comentei, Tiffa apenas balançou a cabeça, exasperada, como se meu silêncio provasse seu ponto. — Ele veio aqui ontem, sabe — Disse Tiffa casualmente. — Acho que ele está apaixonado. Meu coração caiu aos meus pés. Meu rosto deve ter registrado o meu sofrimento, porque Tiffa parou de balançar bruscamente. — O quê? Blue, o que foi que eu disse?


— Nada — Eu menti, balançando a cabeça. — Eu percebi isso. Tiffa inclinou a cabeça para o lado, confusa. — Percebeu o quê? — Que ele está apaixonado — Respondi categoricamente. Eu me sentia mal. — Ele está apaixonado por Melody! — Tiffa gritou e balançou a cabeça, incrédula. — Você deveria ter visto seu rosto. De quem você acha que eu estava falando? Pamela? Olhei para os meus pés, sem vontade de responder. — Blue. O que no mundo está acontecendo com vocês dois? Eu pensei que depois do Ano Novo vocês finalmente admitiram ter sentimentos um pelo outro. É tão óbvio! Perguntei a Wilson sobre você ontem e ele agiu de modo indiferente. Eu não sabia o que fazer com ele. — Sim. Wilson deve ser uma raça rara de ave. Definitivamente não uma coruja porque eu me tornei completamente invisível. — Oh, querida — Tiffa suspirou. — Meu irmão é filho da minha mãe. Talvez não biologicamente, mas em todos os outros sentidos. Seu senso de decoro é positivamente arcaico. Eu estou surpresa que ele permitiu-se ficar mais próximo de você como ele tem feito. E aquele beijo? Alice e eu estávamos cantando sobre isso por dias. Eu mantive meu rosto para baixo, desconfortável com a reviravolta da conversa, mas Tiffa ficava balançando e falando. — O meu irmão precisa de um empurrão. Com certeza funcionou na frente de Justin. Talvez seja hora de você abrir suas asas e forçá-lo a fazer uma escolha — Pensou, acariciando as costas de Melody. A mamadeira estava longe e Melody estava roncando suavemente com o leite escorrendo do canto de sua boca em forma de arco. — Tenho trabalhando em algo, mas eu não queria lhe dizer até que fosse coisa certa. Eu tinha um artista programado para ser parte de uma exposição no Sheffield no próximo sábado à noite. Ele decidiu que queria renegociar o seu contrato e acabou saindo. Acontece que acho que sua arte vai bem com toda a exposição. Na verdade, acho que o seu trabalho vai se destacar. Eu mantive a “Bird Woman” e algumas outras peças, simplesmente porque elas exigem um certo tipo de público. Acho que


seremos capazes de vender “Bird Woman” por 5.000 dólares na exposição, quando ela poderia ficar meses na galeria. Engoli em seco e amaldiçoei sob a minha respiração. Tiffa apenas piscou para mim. — Isso é uma pechincha, querida. Algum dia o seu trabalho vai vender por muito mais, eu garanto. Bird Woman - Rubicon Witch - e aquele que você chama de “Armor” são as únicas peças que me restam. Todas aquelas serão impressionante, mas eu preciso de mais. O que você concluiu? Eu tinha esculpido uma chamada “The Saint”. Era St. Patrick imortalizado em madeira, embora o homem curvado com o cajado dê a impressão de um pastor caminhando ao redor das chamas ondulando, e poderia facilmente se confundido com algo totalmente diferente. Aquela que Wilson tinha chamado de “Loss” e estava no porão também, coberta por um lençol ao lado da minha bancada, então eu não teria que vê-la. Poderia ser o meu melhor trabalho, mas machucava olhar para ela. E havia várias outras, incluindo os ramos entrelaçados que eu tinha freneticamente me perdido por um mês. — Eu posso chegar a dez. — Então está certo. Traga-me as peças, e vou fazer isso acontecer. E Blue? Não diga a Darcy. Será nossa pequena surpresa.

Eu terminei meu turno no café na quinta-feira à noite e fui para casa com a minha mente na exposição de sábado, nas esculturas que eu tinha montado e na ligação para Reno que eu ainda não tinha feito. Eles deveriam pensar que eu estava louca. Detetive Moody deixou duas mensagens no meu correio de voz e eu recebi outra de Heidi Morgan do laboratório. Disse a mim mesma que depois da exposição eu os ligaria. Uma grande parte da minha indecisão era Wilson. Eu tinha compartilhado essa viagem com ele, e no último mês eu mal o tinha visto. Ele se tornou meu melhor amigo, e eu sentia sua falta desesperadamente, e estava brava com ele por ter se afastado. Eu tinha decidido que “espaço” era apenas mais um desses slogans “não é você, sou eu” que as pessoas


usam quando querem terminar um relacionamento. Mas as amizades não deveriam acabar. Eu desejei que nunca tivesse compartilhado aquele maldito beijo. Wilson não foi o mesmo desde então. Eu estava em pé na frente da minha porta do apartamento, lendo meu e-mail, quando ouvi a porta de Wilson abrir e fechar acima de mim. Eu fiquei tensa, ouvindo seus passos perto do topo da escada, e depois fiz uma careta quando ouvi a voz de Pamela perguntar-lhe sobre a exposição no The Sheffield, no sábado. — Eu vi os ingressos. Você ia me surpreender? É surpresa do Dia dos Namorados? — Pamela brincou e seu tom de flerte me fez querer correr até a escada e atirá-la sobre o balaústre. Ela não deve ter percebido minha intenção assassina, porque ela continuou falando direito. — Podemos jantar com os meus pais antes. Eles vão ficar no hotel até a próxima semana — Eu tinha esquecido sobre a conexão de Pamela com o hotel. Tiffa disse que a família Sheffield não era mais a única proprietária do hotel, além do dinheiro, o hotel ainda tinha o nome de Sheffield. Pamela e Wilson chegaram ao pé da escada e eu furtivamente fui para trás, esperando que eles não me vissem. Eu deveria ter ido para o meu apartamento e fechado porta. Agora era tarde demais para fazê-lo sem alertá-los da minha presença. Então eu fiquei congelada, observando Pamela com os braços em volta do pescoço de Wilson ficando na ponta dos pés para colocar um rápido beijo nos lábios. Eu desviei o olhar. Eu deveria ter visto, deveria ter reconhecido que ela era a garota da sua vida. E eu era a vizinha. O projeto. A fantasia? Eu não tinha ideia do que eu era para Wilson. — Vejo você no sábado? — Perguntou Pamela. Eu não ouvi a resposta de Wilson, eu estava muito ocupada desbloqueando minha porta. Eu decidi que não me importava se eles sabiam que eu estava lá. Eu fechei a porta atrás de mim. Quando ouvi uma batida suave alguns minutos mais tarde, considerei ignorá-la. Só podia ser Wilson, e isso só me fazia sentir pior. Mas eu era apenas uma garota. E o cara que eu gostava estava do outro lado da porta. Então abri. — Oi — Eu disse alegremente, como se não estivesse completamente afetada pelo o que eu tinha acabado de ver. Wilson não parecia com um homem que acabou de apreciar um beijo de boa noite. Ele parecia um pouco irritado. E um pouco estressado. Tentei não ler qualquer coisa nele.


— Oi — Ele respondeu suavemente. — Posso falar com você por um minuto? — Claro. Mi casa es su casa... Literalmente — Virei-me e caminhei para minha casa, sentindo-o em minhas costas. — Será que Camilla simplesmente foi embora? — Eu perguntei incisivamente. Quando Wilson não respondeu, eu olhei para ele questionando. — Camilla? — Ele sorriu, cruzando os braços. — Você me perguntou se Camilla acabou de sair. — Foi isso o que eu disse? — Eu fiz uma careta. — Sim. Você chamou Pamela de Camilla. — Hmmm. Ato falho — Eu murmurei um pouco envergonhada. Não foi minha culpa. Eu estava pensando em beijos e ultimamente, me fez pensar em Camilla... E The Golden Girls. A escultura que eu tinha trabalhado na última vez que conversamos estava na minha mesa da cozinha, e Wilson parou ao lado dela abruptamente. Ele estudou-a atentamente, virando-a de um lado para outro, mas eu estava distraída, sabendo que qualquer menção de Camilla o lembraria de o que havia acontecido entre nós mais de um mês atrás. — Diga-me o que você vê quando olha para esta escultura — Wilson pediu depois de um tempo, seus olhos itinerantes para baixo das linhas sensuais do mogno manchado. Sua mão traçava os contornos com reverência. Eu tinha desbastado o peso dos galhos, criando depressões, nervos e modelado a sugestão de amantes abraçados, mantendo a inocência natural e simplicidade dos galhos. Os galhos eram de mogno da montanha, a madeira um marrom avermelhado natural. Eu tinha esfregado várias aplicações da mancha preta em um galho e brilhava como um gato selvagem preto, os tons dourados avermelhados fundiam com a mancha escura, de modo que o preto parecia que estava em silhueta na luz solar. Não apliquei nenhuma mancha no outro galho, mas havia simplesmente desbastado e camuflado a madeira vermelha de dourado até que brilhavam como âmbar. O efeito era que os dois membros da escultura pareciam ser diferentes da madeira, galhos de dois tipos diferentes de árvores. O resultado era uma declaração própria.


Eu desviei o olhar. Senti-me quente e com raiva e meu peito estava apertado com um sentimento que Wilson sempre pareceu agitar em mim. — Eu prefiro não dizer. — Por quê? — Wilson parecia realmente confuso com a minha recusa, desde que eu era geralmente ansiosa para discutir minhas esculturas com ele. — Por que você quer a minha explicação? O que você vê quando olha para ela? — Eu disse irritada. Wilson retirou a mão da escultura e agarrou a minha trança, onde pairava sobre meu ombro. Ele puxou-a suavemente, envolvendo ao redor de sua mão, como ele fazia. — O que há de errado? — Nada há de errado. Estou preocupada — Eu protestei. — E a minha arte não é sobre o que eu vejo. É sobre o que eu sinto. E agora eu realmente não quero discutir o que sinto — Tentei puxar meu cabelo livre de sua mão, mas ele acabou apertando mais, puxando-me para ele. — Eu vejo membros, amor e luxúria — Wilson afirmou categoricamente. Eu parei de resistir e meus olhos se levantaram para os dele. O olhar de Wilson era largo e franco, mas seu maxilar estava tenso, como se soubesse que ele estava cruzando essa linha invisível que ele tinha traçado sozinho. — Eu não estou surpresa que você vê essas coisas — Eu disse suavemente. — Por quê? — Seus olhos eram intensos, e de repente eu estava furiosa. Eu estava apaixonada por Wilson, não havia dúvida sobre isso, mas não brincaria, e com certeza não ia jogar beijinho no rosto dez minutos depois de Pamela sair. — Você acabou de passar a noite com Pamela — Eu lembrei-lhe docemente. — Ela é uma mulher bonita. Seus olhos brilharam e ele deixou minha trança cair, virando-se para a escultura. Eu poderia dizer que ele estava contando mentalmente até dez. Se eu o deixei com raiva, era culpa dele. O que ele achou que eu faria? Envolver-me-ia ao redor dele depois que ele ignorou-me de vez durante meses? Eu não era aquela garota. Mas talvez ele pensasse que eu fosse. Eu respirei fundo várias vezes e ignorei a tensão que fervia entre nós. Era


espessa o suficiente para cortar e servir com uma grande dose de negação. Ele deu vários passos, com as mãos em punhos em seu cabelo, colocando alguma distância entre nós. Eu mantive minha posição, esperando que ele fizesse o próximo movimento. Eu não tinha ideia do que eu estava fazendo aqui. E ele não parecia saber também. Quando ele olhou para mim novamente, a boca estava tensa em uma linha sombria, e os seus olhos tinham um tom de súplica, como se ele precisasse me convencer de alguma coisa. — Você disse que a sua arte é sobre o que você sente, não o que vê. Eu disse o que eu vejo. Agora me diga o que você sente — Ele exigiu. — O que estamos falando, Wilson? — Eu revidei. Eu andei em direção a ele, com as mãos enfiadas nos bolsos. — Estamos falando sobre a escultura? — Ele me olhava quando eu me aproximei, mas não parei até os nossos dedos dos pés estavam quase se tocando. — Se nós estamos falando sobre a escultura, tudo bem. Vejo desejo, pertencimento e amor, sem espaço — Eu disse as palavras como se eu fosse um guia de um museu de arte, com ênfase na palavra espaço. — O que eu sinto? Bem, isso é fácil. Estive no trabalho o dia todo. Estou cansada, Wilson. E estou com fome. E não gosto de Pamela. Fim. Isso é o que eu sinto. E você? Wilson olhou para mim como se quisesse me sacudir até que meus dentes batessem. Então, ele apenas balançou a cabeça e caminhou até a porta. — Peço desculpas por ter perguntado, Blue — Ele suspirou. Parecia cansado e resignado, como um daqueles pais de TV apenas tentando tolerar sua filha em idade adolescente. — Boa noite, Blue. Eu estava muito confusa até mesmo para responder. Ele saiu do meu apartamento sem outra palavra.


Capítulo Vinte e Cinco Elétrica Passei um tempo ridiculamente longo enrolando meu cabelo. Quando terminei, ele ficou caído em ondas escuras brilhantes nas minhas costas. Tomei muito cuidado aplicar uma maquiagem dramática{37}, mais do que eu tinha usado em meses. Eu pensei que era adequado para um artista em sua primeira exposição. Eu tinha reservado um vestido de cocktail que destacasse os meus olhos, e o azul elétrico era exatamente do mesmo tom. Não foi muito caro, mas eu estava cruzando os dedos para que não parecesse barato. Tinha mangas curtas e um decote alto, mas as costas tinham um decote baixo, quase até a minha cintura. Ele deslizava por minhas curvas, sem ser muito apertado ou sugestivo, e terminava um pouco acima do joelho. Eu encontrei um par de sandálias de salto alto para corresponder. Pensei que eu parecia muito bem e gritei um pouco quando estava pronta. Pareci adulta e sedutora, mas sofisticada também, como Tiffa. Esperei perto da minha porta apenas para ouvir Wilson deixar seu apartamento. Se ele e Pamela fossem sair para jantar com seus pais, ele sairia em breve. Eu não tive que esperar muito tempo. Wilson saiu do seu apartamento e começou a descer as escadas exatamente às 18h30min. Eu calmamente tranquei a porta e caminhei em direção à porta da frente, assim como eu planejei, atingindo o pé da escada antes de Wilson. Ele estava olhando seu telefone, mas quando ouviu o clique de meus saltos, ele olhou para cima e seus olhos se arregalaram. Eu tentei não sorrir. Eu queria desesperadamente ver essa reação. Ele poderia pensar em mim o tempo todo quando estivesse com Pamela. Eu esperava que ele tivesse um tempo horrível. Seus olhos viajaram para cima e para baixo no comprimento do meu corpo e pareciam ficar presos nas minhas pernas. Era tudo que eu podia fazer para não rir. Limpei a garganta em seu lugar. Agarrado a meus olhos, ele me encarou. Espere. Não era isso que eu queria. Corando, gaguejando, elogios - tudo isso que eu queria. Olhares furiosos não faziam parte do plano.


— Aonde você vai? — Sua voz soou engraçada. Quase com raiva. — Sair — Eu disse levemente. — Eu vejo — A expressão de Wilson era indecifrável. — Esse vestido é um pouco curto. — Sério? — Eu ri, incrédula. Eu olhei para a bainha que realmente não era muito curta. — E por que exatamente você se importa quão curta é o meu vestido? — Eu não me importo — Wilson respondeu bruscamente. Ele definitivamente se importava. Talvez ele estivesse com ciúmes. Isso foi uma coisa boa. Uma coisa muito boa. Dei de ombros e passei por ele em direção à porta. Meu cabelo deslizava contra a pele nua de minhas costas. Wilson amaldiçoou. — Droga! Então, vai começar de novo, não é? — Wilson falou bruscamente atrás de mim. Eu congelei. A dor me perfurou, e eu girei para ele. Seu rosto era como granito, os olhos de gelo, seu maxilar tenso. Seus braços estavam cruzados e sua postura era larga, quase como se estivesse preparando-se para o meu retorno. — O que quer dizer, Wilson? O que eu estou começando de novo? — Eu mantive minha voz baixa e contida, mas por dentro eu estava tremendo. — Você sabe exatamente o que quero dizer, Blue — Sua voz era dura e as suas palavras cortadas. — Oh, entendo — Eu sussurrei. E eu entendia. Estava escrito em todo o seu rosto. Repulsa. Ele não via uma mulher glamorosa indo para uma exposição elegante. Ele via uma adolescente de mau gosto com um passado sórdido, toda vestida para uma noite na esquina. — Estou voltando ao minha forma de puta. Deve ser isso — Eu levantei uma sobrancelha fina com desdém e segurei-a lá, esperando que ele me corrigisse. Ele apenas olhou para trás e ficou em silêncio. Eu girei em desgosto e puxei a porta da frente aberta. — Blue! Eu não me virei, mas fiz uma pausa, esperando por um pedido de desculpas.


— Eu não vou assistir você se destruir. Se este é o caminho que você quer ir, não vou atrás de você — A voz de Wilson era dura, quase irreconhecível. Eu balancei a cabeça, incapaz de falar. De onde veio isso? O que eu tinha feito para fazê-lo todo parental e hipócrita comigo? Eu queria gritar para ele, arranhar-lhe os olhos, e dizer-lhe o quão idiota que ele estava sendo. Mas eu não queria ser mais aquela garota. Apesar do que ele pensava, eu não era mais aquela garota. Então eu me virei e nivelei meu olhar nele. — Eu digo o mesmo... Huh? Eu me virei e saí do prédio, minha coluna rígida, mas meu queixo tremendo. Se ele me viu sair, eu não sabia. Eu olhei nem para a direita nem para a esquerda, mas fui embora olhando para a frente. Eu não chorei. Eu não amaldiçoei. Eu só dirigia impassível até ao hotel. Tiffa tinha me dito para ir para estacionamento com manobrista e eu fiz, recusando-me a ser constrangida pela minha velha caminhonete. Saí dela como se eu fosse à realeza e deixei cair minhas chaves na mão do manobrista com um comentário para me certificar de que ele não “arranharia meu bebê”. O homem era bom em seu trabalho e nem sequer pestanejou. Fiquei grata por sua habilidade de esconder seus verdadeiros sentimentos e jurei que hoje eu iria esconder os meus muito bem. Era um talento que eu tinha deixado ficar enferrujado. Eu abri a porta e perguntei a primeira pessoa que parecia ser funcionário que vi, onde eu poderia encontrar a exposição de arte. Ele me dirigiu para os elevadores e me instruiu a sair da galeria, marcado com um L ao lado do botão. Pânico borbulhava em meu peito, e por um momento pensei em ir embora. Apenas batendo os saltos, me dirigi para a porta. Eu cerrei os dentes e entrei no elevador, junto com várias outras pessoas em traje formal. Olhei para mim mesma no espelho, tentando não ver o que Wilson tinha visto. Meu prazer com a minha aparência foi esmagada em minúsculos fragmentos ferozes. Meu reflexo olhava-me desafiadoramente. Meus olhos pareciam muito grandes no meu rosto e o rosa do meu rosto sumiu pela a alegria que eu não sentia mais. O que eu estava pensando? Tiffa me recebeu logo que eu saí do elevador. A sala além era suave, com iluminação estratégica e a arte cuidadosamente colocada. Uma enorme


pintura de um rosto chorando ficava no centro do palco. As lágrimas eram tão realistas que a umidade brilhava nas luzes. — Blue! Você está maravilhosa! Sensacional! Onde está Darcy? — Tiffa olhou além de mim para as portas do elevador que estavam firmemente fechadas. — Ele vai morrer quando vir as suas peças em exposição! Eu mal posso esperar! — Ela gritou femininamente e eu senti uma onda intensa de afeição por mim. Mas, como a maré, a onda de amor foi arrancada de volta para o mar da minha decepção quando os meus pensamentos estavam focados novamente em Wilson. — Eu não disse a ele. — Sim, amor, eu sei. Eu convidei-o! — Tiffa sussurrou teatralmente. — Eu disse que ele tinha que vir esta noite. Eu disse que havia uma nova e brilhante artista cujo trabalho ele tinha que ver. Enviei-lhe ingressos e tudo. Ele estragou isso, então? Você poderia dizer isso. Eu me sentia muito estragada. — Eu não sei quais são os planos de Wilson — Minha voz soou plana e fria, e as sobrancelhas de Tiffa dispararam. Não era bem verdade, mas eu não elucidei. — Hmm — Seus olhos vasculharam meu rosto. Ela apertou os lábios vermelhos na contemplação. — Ele é bom em estragar as coisas — Foi tudo que ela disse isso. Então ela enrolou seu braço no meu e me puxou para a frente. — Venha ver como organizamos as suas peças. Elas estão de tirar o fôlego, Blue. Eu já tenho uma enorme quantidade de pessoas perguntando por elas. Você já é um sucesso — Eu me deixei ser puxada e prometi esquecer Wilson e a maneira como ele tinha olhado para mim. Eu era “um sucesso”. Tiffa disse isso, e eu faria o meu melhor para aproveitar o momento que era surreal. “Bird Woman” preenchia um canto inteiro. Ela estava elevada em uma plataforma preta. A iluminação acima transformou a madeira em líquido dourado. Por um momento, eu vi a escultura como os outros o fariam, e minha respiração ficou presa na garganta. Havia apenas uma sugestão de uma mulher na curvatura dramática de madeira e a sugestão de asas estendidas. Esta era a razão pela qual eu odiava colocar títulos em minhas esculturas; o título era limitador. Eu não queria fazer isso. Eu queria que as pessoas interpretassem o que elas viam, sem minha influência.


Algumas pessoas estavam ao redor dela, estudando-a, virando a cabeça de um lado para isso. Meu coração batia tão forte que eu pensei que iria abalar a sala e seu precioso conteúdo. Tiffa deslizou em direção ao homem que parecia mais apaixonado pela mulher envolta em madeira. Ela estendeu a mão e tocou graciosamente a manga do homem. — Sr. Wayne, esta é a artista — Ela deslizou a outra mão para a minha. Sr. Wayne virou-se para nós. Seu cabelo grisalho estava penteado para trás de seu rosto. Era um rosto interessante, mais adequado para um mafioso que um conhecedor de arte. Ele era poderosamente construído, e seu smoking preto caía-lhe bem. Ele pareceu surpreso com a introdução, e sua boca se curvou enquanto seu olhar encontrava o meu. — Eu a quero — Disse ele sem rodeios, sua voz tão acentuada como Tiffa. Ele deveria trabalhar na Sheffield, também. Senti calor inundar meu rosto, e Tiffa riu, aquele som de cachoeira tilintando quando disse: — Você é tão maravilhoso - Eu adoro você. — E você pode tê-la. A escultura, digo — Tiffa respondeu com um brilho malicioso. — Esta é Blue Echohawk — Ela disse meu nome como se eu fosse alguém muito importante. Eu tentei não rir. Eu coloquei uma expressão de pedra. Essa era a expressão que fazia quando eu não tinha ideia de como responder. — Seu trabalho é lindo. Mas o mais importante, é fascinante. Encontrome perdendo nele. É assim que eu sei que quero alguma coisa — Sr. Wayne levantou o copo de líquido claro que ele estava bebendo e virou-o pensativo. — Eu quase não vinha hoje. Mas Tiffa pode ser bastante insistente. — Sr. Wayne é um dos proprietários do The Sheffield, Blue — Disse Tiffa simplesmente. Tentei não tremer. Tiffa voltou-se para o Sr. Wayne. Eu me perguntei brevemente se seu primeiro nome era Bruce. Parecia que ele poderia ter um Batmovel escondido no telhado. Tiffa continuou: — As peças de Echohawk vão valer uma fortuna um dia. O The Sheffield marcou um grande ponto no mundo da arte hoje à noite — Tiffa escorria confiança. Eu me sentia tentada a colocar minha mão sobre sua boca.


— Eu concordo — Sr. Wayne inclinou a cabeça para o lado. — Muito bem, Tiffa — Ele estendeu a mão para mim. — Você poderia me mostrar suas outras peças? Tiffa nem hesitou. — Isso é uma ideia brilhante. Eu estarei por perto, Blue — Então ela saiu, indo para outro casal, sem uma segunda olhada. Sr. Wayne cheirava caro. Ele enfiou minha mão pelo seu braço, a maneira que Wilson fez algumas vezes, e nos movemos para a minha próxima escultura. Talvez fosse uma coisa britânica, o modo cortês. Ou talvez fosse algo que homens ricos e educados faziam. Eu tinha muito pouca experiência com ambas as situações. Eu movia ao lado dele e tentei pensar em algo inteligente para dizer. Minha mente corria em círculos estonteantes enquanto eu tateava desesperadamente por alguma coisa - qualquer coisa para conversar. De repente, percebi que o Sr. Wayne não estava à espera de comentários espirituosos, estava absorto na escultura a frente dele. — Eu acho que mudei de ideia. Eu quero esta ao invés daquela — Eu notei a escultura na minha frente pela primeira vez. “Loss” se curvava diante de mim em repouso angustiado. Eu queria me afastar. Eu estava aliviada quando Tiffa tinha enviado a caminhonete para buscá-la. Eu não respondi, mas olhei para além dela, esperando que o Sr. Wayne seguisse em frente. — É quase doloroso olhar — Ele murmurou. Senti-o olhar para mim, e eu levei os meus olhos para os dele. — Ah, há uma história aqui, eu posso dizer — Ele sorriu. Sorri também, mas me senti forçada. Eu sabia que deveria contar a ele sobre a peça, vendê-la, vender a mim mesma. Mas eu não conseguia. Eu não tinha ideia de como fazer isso. Um silêncio constrangedor se seguiu. Ele finalmente falou e nós dois nos salvamos. — Alguém me disse uma vez que, para criar uma verdadeira arte você deve estar disposto a sangrar e deixar que os outros assistam — Eu me sentia um pouco exposta e de repente queria derreter-me nas sombras da sala onde poderia observar sem ser observada. — Está sofrendo em cada linha. É simplesmente... Maravilhosa — Sua voz era suave, e me repreendi em silêncio. Aqui estava eu no braço de alguém que poderia ser extremamente útil para minha carreira e eu queria fugir.


— Então ela é sua — Eu respondi, de repente. — É o meu presente para você, para lhe agradecer por esta oportunidade. — Oh, não — Ele balançou a cabeça grisalha enfaticamente. — Não. Vou comprar esta escultura. Obrigado, mas um tremendo preço foi gasto com a criação desta peça, e não deve ser dada de graça — Sua voz era ao mesmo tempo terna e amável. Meu coração bateu dolorosamente e emoção subiu no meu peito. — Obrigada — Foi tudo o que consegui. E seguimos em frente. A noite continuou um borrão de roupas caras e louvor inebriante. Eu esqueci a minha dor no prazer de atenção e movia de um patrono efusivo para o outro, Tiffa sempre por perto. No fim da noite, Tiffa parou e acenou para alguém do outro lado da sala. — Ele veio amor. Você ainda está irritada com ele? Devo mantê-lo afastado para que você possa fazê-lo sofrer? — Minha cabeça disparou encontrando “ele” em pé na frente do rosto chorando que acolhia os recémchegados na galeria. Wilson parecia pressionado e apropriado em seu smoking preto. Alto, bonito, com o cabelo penteado para trás, apenas uma onda à vista. Eu gostaria de poder correr meus dedos por ele e despenteálo em cachos flexíveis. Afastei-me imediatamente. Ele tinha visto o aceno de Tiffa e estava levantando a mão em resposta quando me viu ao lado dela. Sua mão congelou no meio do aceno. — E ele trouxe aquela vaca idiota com ele — Tiffa gemeu. — O que há com o meu irmãozinho? Seu gosto por mulheres é medonho. Bem, agora sabemos o que ele fez com o outro ingresso. Ele é definitivamente estúpido — Ela murmurou a última parte em voz baixa. Eu não tinha certeza ao que ela se referiu. Pamela não era exatamente uma vaca. Ou um cachorro. Ou qualquer coisa remotamente atraente, tanto quanto eu queria que ela fosse. — Estou indo embora agora, Tiffa. Eu já conversei o suficiente? — Eu disse brilhantemente, já me afastando. — Não! Blue! O que no mundo está acontecendo com você e meu irmão idiota? Esta é sua grande noite! — E tem sido incrível. Mas não quero falar com Wilson agora. Tivemos um momento muito tenso antes de eu vir esta noite. Eu não estou pronta para estar em qualquer lugar perto dele.


— Senhorita Echohawk! — Sr. Wayne se aproximou da minha direita, um pequeno homem asiático andando ao lado dele. — Senhorita Echohawk — Sr. Wayne estendeu a mão para apresentação. — Este é o Sr. Yin Chen — O homenzinho inclinou-se ligeiramente. — Ele está intrigado com o seu trabalho. Ele implorou por uma apresentação. Ao meu lado, Tiffa estava praticamente vibrando. Este deveria ser alguém importante. Qual era o nome dele? De repente eu senti como se o topo da minha cabeça fosse estalar e flutuar como um balão de hélio. Deveria me curvar também? Tiffa o fez. Então eu a copiei. — Prazer em conhecê-lo — Eu murmurei, sem noção. — Sr. Chen está especialmente interessado na que você já intitulou “Cello” — Sr. Wayne sorriu para o Sr. Chen com indulgência. Sr. Chen! Era isso. Não era muito difícil lembrar. Do canto do meu olho, eu vi Wilson se aproximando com Pamela em seu braço. Eu pisei no pé de Tiffa, provavelmente mais violentamente do que se justificava. Tiffa engasgou um pouco e moveu-se para envolver o Sr. Chang (?) na conversa. Virei-me para o Sr. Wayne, e ele baixou a cabeça discretamente e murmurou baixinho no meu ouvido, me puxando de lado, o que foi bom para mim, pois me afastou de Wilson. — Sr. Chen (Chen!) é um magnata Bei Jing - um dos patronos que nós gostamos de cuidar muito bem quando está na cidade. Ele observa cada detalhe da arte. Se ele gostar do seu trabalho e pensar que você é a próxima grande coisa, ele vai mover céus e terra para comprar tantas peças quanto puder. — Será que ele vai comprar todas elas? — Eu perguntei, tentando não guinchar como uma criança. — Infelizmente para o Sr. Chen, todas elas foram vendidas — Sr. Wayne sorriu para mim. — Todas elas! — Eu sussurrei atordoada. — Sim. Todas elas.


O smoking de Wilson estava arremessado por cima do corrimão e sua gravata estava solta, pendurada em uma onda cansada. Alguns botões estavam abertos e ele estava caído na escada, os cotovelos sobre os joelhos, as mãos cruzadas na sua frente. Eu o observei através do vidro da porta da frente, por um momento, imaginando o que ele poderia dizer que me faria perdoá-lo. Ele tinha revelado demais, e eu não poderia tirar suas palavras da minha cabeça. Elas piscavam em neon, movimentando-se continuamente em meu cérebro. Eu tinha sido felicitada, elogiada, mesmo adorada naquela noite. Mas eram as palavras de Wilson que enchiam minha cabeça. O Bei Jing Mogul cujo nome não conseguia lembrar-me encomendou-me cinco peças separadas e tinha me presenteado com um cheque de US $ 5.000. E receberia outro cheque no mesmo valor quando as esculturas fossem concluídas, e o The Sheffied me deixou ficar com toda a comissão. A noite foi um sucesso e eu poderia ver um futuro pela frente. Um sucesso que eu ainda não tinha ousado sonhar. Mas meu coração doía no meu peito, e eu tinha me sentido mal toda a noite por causa de Wilson. Ele parou quando eu abri a porta da frente. Coloquei as chaves na minha bolsa e me dirigi para o meu apartamento, eu não o reconheceria. Eu tinha dirigido pela cidade por horas depois de sair da exposição. Pela primeira vez desde que me mudei, eu não queria ir para casa, para Pemberley. — Blue. Eu tive que procurar as chaves de novo da minha porta. Calma. Minhas mãos tremiam, e eu olhei para baixo procurando-as. Eu não me abalaria! Eu não lhe mostraria fraqueza. — Blue — Foi apenas um sussurro, e eu vacilei contra o tremor em meus membros e a quebra do meu coração. E então ele estava ao meu lado, com a cabeça inclinada sobre a minha. Eu mantive minha cabeça baixa, olhando para a fechadura da minha porta. — Eu estava preocupado com você. — Por quê? — Falei calmamente. A chave deslizou na fechadura, e eu girei a maçaneta com gratidão. — Tiffa não lhe disse? Eu era a prostituta de


luxo contratada para o evento. Eles me contrataram para manter o Sr. Ying Yang feliz — Eu golpeei meus cílios para ele, não realmente olhando quando empurrei a porta aberta e entrei no meu apartamento. Wilson empurrou-me como se eu fosse correr dele. E então me apertou contra a parede, batendo a porta atrás de nós tão forte que a minha foto e de Jimmy balançou e caiu, batendo no chão. Minha cabeça estava presa entre suas mãos, e ele se inclinou para mim com seus lábios tremendo. — Pare. Pare com isso. Não é engraçado, Blue. É doentio. Isso me faz querer caçar o maldito Sr. Chen, qualquer que seja o diabos do seu nom... — Não foi isso que você pensou quando saí hoje à noite? — Eu interrompi. — Que eu estava à caça? — Por que você não me contou? — Ele engasgou com incredulidade. — Eu estava tão malditamente orgulhoso. Foi brilhante. Tudo isso. E você não me disse. Você me deixou como um idiota completo. — Eu não contei a você? Eu estava toda arrumada e você... Você me insultou e disse que eu parecia uma... Uma puta — Eu me empurrei contra ele, empurrei-o com raiva, precisando respirar, não querendo quebrar na frente dele. Mas ele não se afastou, em vez disso suas mãos caíram para enquadrar meu rosto, forçando-me a olhar para o dele. Eu desviei o olhar imediatamente, em tom desafiador. — Eu estava com medo — Eu observei sua boca e tentei me concentrar no que ele me havia me dito antes. Eu me lembrei da sua repulsa, o seu desdém. Mas seus lábios estavam tão perto. Ele estava tão perto. Seu hálito cheirava doce e eu senti um tremor no fundo do meu ventre. — Eu estava com medo, Blue — Ele repetiu insistente. — Você já passou por tanta coisa. E sou meio louco por você. Eu não acho que você está pronta para o que eu sinto. Meu coração bateu a um impasse e minha respiração parou. E, em seguida... Seus lábios roçaram os meus. Devagar, com ternura. Mal estavam lá. Ele falou de novo, suas palavras fizeram cócegas em minha boca. Segurei a parte de trás de sua camisa, torci o tecido, desesperadamente tentando não perder a cabeça. — Eu tentei dar-lhe tempo. E então eu vi você hoje à noite. Você estava toda arrumada, pronta para sair, incrivelmente bonita, confiante e forte. E


eu pensei que tivesse perdido você de uma vez por todas. Eu conseguia sentir seu coração batendo no seu peito, e o meu correndo para se juntar a cadência. E então sua boca se fechou sobre a minha novamente. Não hesitante, não sussurrando. E eu também me sentia perdida. Completamente. Era um beijo há muito tempo negado. Perguntando, abrindo, reivindicando. E a sala girou quando eu me agarrei a ele. Minhas mãos se moviam sobre o comprimento de suas costas, puxando-o para mim, precisando de mais. Seus braços passaram em volta de mim e me levantaram para ele, abrindo sua boca na minha, exigindo entrada. Ele tinha gosto de alcaçuz e flocos de neve. Simultaneamente proibido e familiar. Quente e frio. Pecaminoso e seguro. Sua boca deixou a minha e colocou beijos em minhas pálpebras, bochechas, meu pescoço e suas mãos agarraram meus quadris desesperadamente, esmagando o tecido em suas mãos, como se ele se ressentisse da barreira. Eu senti como se estivesse pegando uma onda, montando a crista, e eu não conseguia chegar perto o suficiente para ele. Então, ele me levantou, envolvi minhas pernas em volta de sua cintura, quando ele reivindicou minha boca novamente, engolindo o meu nome quando falou contra os meus lábios. — Blue, eu preciso tanto de você. Quero muito você. E o seu rosto rosa apareceu na minha mente... A maneira como ele tinha me olhado quando me disse que não iria atrás de mim “nesse caminho”. Eu me afastei ofegante com as minhas pernas ainda bloqueadas ao redor dele, com os seus braços apoiados ao redor do meu corpo. — Você me quer, Wilson? Você me quer? Ou você me ama? — As palavras correram para fora de mim, e os seus olhos estavam carregados de paixão, seus lábios à fôlego, em busca dos meus novamente, como se ele não tivesse registrado a pergunta. Afastei-me ainda mais, negando a mim mesma, negando-lhe. Ele franziu o cenho e mordiscou meus lábios, puxando minha cabeça para ele, exigindo mais. Eu resisti, mesmo que o meu corpo tremia com a necessidade. Soltei minhas pernas de sua cintura, deixando meus pés encontrarem o chão. Alisei minha saia para baixo, agradecida que minhas pernas me mantiveram. Se eu não parasse agora, não teria força para dizer não.


E hoje eu tinha que dizer não. Wilson parecia atordoado, como se toda a razão o tivesse deixado. — Blue? — Eu vi como você olhou para mim esta noite. Você estava revoltado. Você olhou para mim como se eu fosse... Barata — Eu respirei fundo. — Mas eu não sou mais aquela garota. E então você precisa ir. Por favor — Minha voz não era forte, mas firme. Wilson parecia atordoado. Ele passou a mão ao longo da parte de trás do seu pescoço, confusão e remorso guerreando em seus olhos. Movi-me para além dele e abri a porta. Eu esperei ao lado dela com o meu coração na garganta. — Por favor, Wilson — Eu supliquei. Ele moveu-se como se não soubesse mais o que fazer, entrando lentamente no foyer passando pela minha porta como um homem que acabava de sofrer um choque terrível. Fechei a porta atrás dele e esperei com meu ouvido pressionado contra ela, até que ouvi os passos dele se afastarem. Eles pisaram pesadamente sobre as escadas. Eu tranquei a porta e ajoelhei-me, recuperando a imagem que tinha caído no chão. O rosto de Jimmy olhava para mim, mas era o meu próprio que me atraiu. Uma menina com tranças longas, mais longas que a de Jimmy. Eu tinha perdido meus dois dentes da frente, e sorria alegremente, rindo para a câmera com toda a minha glória desdentada. Jimmy não sorria, mas seu braço estava envolto ao meu redor e eu me agarrava a ele tão naturalmente como ele à mim. Como se eu fosse preciosa. Como se eu fosse amada. Havia uma rachadura no vidro. Pendurei a imagem de volta de qualquer maneira, endireitando-a cuidadosamente. A rachadura separava a parte de cima de nossos corpos da parte inferior. Felizmente, o quadro não foi danificado. Estávamos ainda todo debaixo da cicatriz irregular. Parei, considerando. Eu estava cheia de cicatrizes, mas não estava quebrada. Sob minhas feridas eu ainda estava inteira. Sob minhas inseguranças, debaixo da minha dor, debaixo da minha luta, por baixo de tudo, eu ainda estava inteira. Eu diminuí as luzes e retirei o meu vestido na contemplação silenciosa. E, em seguida, acima de minha cabeça, a música começou. Fui até a sala e levantei meu rosto para a saída de ar, escutando. Wilson sintonizava e


apertava as cordas, deslizando e tocando. E, quando ouvi, fiquei cheia de admiração. Willie Nelson. Wilson estava tocando Willie Nelson. “You Were Always on my Mind” nunca soou tão doce. Era como se tivesse sido escrita para o violoncelo, embora eu duvidasse que a maioria das pessoas sequer reconhecesse Willie Nelson no arranjo de Wilson. Tocou-a várias vezes antes de parar, como se a necessidade de se certificar de que eu ouvi. E então tudo ficou tranquilo acima de mim.


Capítulo Vinte e Seis Leve Acordei com alguém batendo na minha porta na manhã seguinte. Eu havia passado toda a noite inquieta, com desejo e amor, cansada com a dúvida, me perguntando se eu deveria ter aceitado o que Wilson estava oferecendo de forma clara. — Blue! Blue! Abra! Eu preciso falar com você! — Puta merda! — Eu gemi, deslizando para fora da cama e colocando um sutiã, um jeans e uma camiseta com Wilson continuando a bater. Abri a porta, deixando-o entrar, mas imediatamente retirei-me para o banheiro. Ele me seguiu, e eu rapidamente fechei a porta na cara dele. Eu usei o banheiro, escovei os dentes e cabelo, e retirei toda a maquiagem da noite anterior. Wilson ainda estava esperando do lado de fora da porta do banheiro quando eu abri. Ele pegou no meu rosto limpo, os olhos demorando em minha boca. Sem dizer uma palavra, ele deslizou seus braços ao redor de mim e enterrou o rosto no meu cabelo. Engoli em seco, isso me pegou completamente de surpresa. Ele apenas me segurava mais apertado. — Eu acho que é hora de acabar com isso — Ele sussurrou contra meu cabelo. Eu tentei me afastar dele, rejeitá-lo antes que ele me rejeitasse. Era mais fácil dessa maneira. Mas ele apertou seus braços e me acalmou com sons de shhhing. — Shh, Blue. Basta ouvir. Eu me mantive muito rígida, tentando não me distrair com seu cheiro, com a sensação dos braços ao meu redor, seus lábios em meus cabelos, pelo meu desejo de mantê-lo ali. — Acabar? — Eu finalmente respondi. — Esse negócio de não saber. — O que você não sabe, Wilson?


— Eu sei muito mais do que costumava saber, Blue. Que número nós estamos agora? Eu já perdi a conta. Quais eram eles? Eu sei que você é brilhante. Você é linda. Você é incrivelmente corajosa. Você tem senso de humor. Você esculpe obras de arte inacreditáveis... Não totens — Eu relaxei contra ele, sorrindo em seu peito. — Você tem gosto ruim para parceiros... Embora desde que eu me incluo entre eles, eu poderia ter que alterar isso. — Tiffa diz que você tem péssimo gosto para mulheres, talvez nós estejamos quites — Eu interrompi. — Eu não tenho péssimo gosto para mulheres. Eu sou louco por você, não é? — Você é? — Sim, Blue. Eu sou. Estou completamente apaixonado por você. O sentimento que surgiu em mim era uma mistura de confusão e dúvida. — E quanto a Pamela? — Ela beija como uma velha — Disse ele em voz baixa. Eu ri com o meu coração imediatamente mais leve. — Eu disse a ela na noite passada que estava apaixonado por você. O engraçado é que eu acho que ela já sabia. Eu enrolei minhas mãos em sua camisa e respirei fundo, esperando o machado cair, porque eu podia sentir que ele tinha muito mais a dizer. Ele fez uma pausa, talvez se perguntando se eu gostaria de declarar meus sentimentos também. Quando eu permaneci em silêncio, ele suspirou e voltou a falar. — Mas esta é onde entra a parte de não saber, não tenho nenhuma ideia de como você se sente sobre mim. Um minuto, eu tenho certeza que você sente o mesmo. O próximo você está me dizendo que é apenas um jogo idiota. Um minuto, estou dizendo a você que estou perdido sem você. O próximo você está me dizendo para cair fora. — Então é isso que você não sabe? Você não sabe como me sinto sobre você? — Eu quase ri, era tão óbvio. — Não sou eu que está namorando


alguém, Wilson. Eu não estou convencida de que não é apropriado ficar comigo. Não sou eu que tenho lutado a cada passo do caminho. — Isso ainda não é uma resposta, Blue. Como você se sente sobre mim? — Sua voz era insistente, e suas mãos estavam em meus ombros agora, me afastando para que ele pudesse ver meu rosto. Eu não conseguia responder. Não porque não sabia, mas porque eu sabia. — Posso mostrar a você algo? — Eu disse de repente. Wilson deixou cair às mãos em frustração e virou-se, passando a mão pelo cabelo. — Por favor. Pode ajudar-me a explicar. Eu não sou tão boa com as palavras como você é, Wilson. Eu me inclinei para a frente e agarrei sua mão, puxando-o atrás de mim enquanto caminhava pela casa. Ele seguiu, mas eu podia ver que eu ia machucá-lo por não responder sua pergunta. Puxei-o através da porta na minha cozinha, que levava ao porão, e desci as escadas, não liberando sua mão até chegarmos a minha bancada. Eu apontei para o meu mais recente trabalho em andamento. — Este era o enorme pedaço de madeira que você me ajudou a arrastar há algum tempo atrás. Você me perguntou se eu iria fazer uma réplica em tamanho natural do Tiranossauro Rex, lembra? — E é isso? — Wilson olhou incrédulo para a escultura que ainda era grande, uma das maiores esculturas que já fiz - mas quando nós a arrastamos e era grande demais para colocá-la na mesa de trabalho, nós tivemos que usar o carrinho para colocá-la na casa. Deveria pesar 100 quilos. Desde aquele dia, eu tinha esculpido o suficiente para eu mesma içálo para cima da mesa. Eu apontei para as grandes seções de madeira que eu tinha cortado, criando uma escalada, estrutura circular, quase como uma escada circular construída para fadas em um vale arborizado. Ela seria a minha primeira escultura para o Sr. Chen. — Você vê como a escultura foi criada através da remoção de madeira? Como quase removi mais do que mantive? Wilson acenou com a cabeça, vendo meus dedos roçarem ao longo dos vales e sombras que eu tinha criado. — Não é apenas sobre o que está ai, mas o que não está. Você entendeu? — Eu tropecei um pouco sobre as minhas palavras, sabendo o


que eu estava tentando dizer e não sabendo se eu estava realmente dizendo. — Eu acho que sim. O espaço cria a silhueta, a dimensão, à forma... Certo? Eu sorri para ele, emocionada que ele entendeu. Ele sorriu de volta, tão docemente, tão carinhosamente, que por um minuto eu não consegui encontrar a minha respiração, e me mexi para recuperar a minha linha de pensamento. — É exatamente isso — Eu balancei a cabeça com os meus olhos focando novamente na escultura à minha frente. — Jimmy me ensinou que quando você esculpe, é o espaço negativo que cria linha, perspectiva e beleza. Espaço negativo é o lugar onde a madeira é esculpida, criando aberturas que por sua vez criam forma — Fiz uma pausa e respirei fundo, sabendo que isso era algo que eu tinha que dizer. Se eu amava Wilson - e eu sabia que amava - teria que fazê-lo entender algo sobre mim que não era fácil de entender. Isso faria me amar muito. Eu tinha que avisá-lo. Eu me virei para encará-lo e encontrei o seu olhar, suplicando sem artifícios ou pedido de desculpas. — Às vezes eu sinto que tenho um enorme e escancarado buraco do meu queixo até a minha cintura, um espaço negativo aberto que a vida acabou esculpindo. Mas não é bonito, Wilson. Às vezes sinto que é vazio e escuro... E... E nenhuma quantidade de lixa ou tinta irá transformá-lo em algo que não é. Eu tenho medo que se eu deixar você me amar, seu amor será engolido por esse buraco e por sua vez, você será engolido por ele. Wilson tocou minha bochecha, ouvindo o que eu estava dizendo, suas sobrancelhas baixaram se concentrando durante um olhar cinza compassivo. — Mas isso não é realmente com você, Blue — Disse ele suavemente. — Você não pode controlar quem você ama... Você não pode deixar alguém amar você mais do que pode fazer alguém amar você — Ele embalou meu rosto entre as mãos. Eu estendi a mão e segurei seus pulsos, presos entre a necessidade de agarrá-lo e afastá-lo, mesmo que fosse apenas para me salvar do que ele me fazia sentir.


— Então, você está com medo de me deixar amar você, porque tem medo que você tem um buraco que não pode ser preenchido... Por nenhuma quantidade de amor. Mas a minha pergunta para você é, mais uma vez, você me ama? Eu me preparei e acenei com a cabeça, fechando os olhos contra o seu olhar, incapaz de dizer o que precisava dizer com os olhos, tão cheios de esperança, fixados no meu rosto. — Eu nunca senti por ninguém o que sinto por você — Eu confessei rapidamente. — Eu não posso imaginar que o que estou sentindo que não seja amor. Mas “eu te amo” não é adequado para expressar isso — Eu mergulhei de cabeça balbuciando. — Eu quero desesperadamente que você me ame. Eu preciso que você me ame - mas não quero precisar disso, e estou com medo de que preciso muito disso. Os lábios de Wilson dançaram com os meus, e ele me tranquilizava entre beijos, professando sua própria necessidade. Suas mãos alisaram meu cabelo, os lábios traçaram minhas pálpebras e os cantos dos meus lábios enquanto ele continuava a sussurrar todas as razões, uma após a outra, por isso que ele me amava. Quando suas palavras tornaram-se poesia, Como Eu Amo Você? Deixe-me Contar as Diversas Formas, eu suspirei e ele capturou o som com um beijo. Quando as lágrimas inundaram os meus olhos e escorriam pelo meu rosto, ele seguiu-as com a boca e as prendia entre nossos lábios. Quando eu sussurrei seu nome, ele provou seu sabor e sorveu-a até que eu estava tonta com sua atenção e me enrolei ao redor dele como uma criança assustada. Mas eu não estava com medo. Eu estava gloriosamente efervescente, sem peso e livre. Leve. E embora nós tivéssemos passado o dia no meu apartamento em ataques felizes de beijar e tocar, intercalados com conversas tranquilas e silêncios sonolentos, entrelaçados como cobras preguiçosas, por algum conhecimento tácito, não fizemos amor. E era tudo novo para mim, romance e prazer, beijar por beijar, e não como um meio para um fim, mas como uma experiência em si. Eu nunca tinha segurado alguém ou ficado abraçado sem ter como finalidade o sexo. Eu nunca tinha corrido minhas mãos nas costas de um homem ou entrelaçado minhas mãos nas suas enquanto beijava minha boca sem a minha mente ser consumida com o que vinha em seguida. Com


Wilson, não era sobre o que vinha depois, mas o que estava acontecendo agora. Tocar não foi orquestrado ou coreografado para cumprir os requisitos das preliminares. Era um evento próprio. E foi eroticamente casto, sensível e revelador. Foi a última sessão de amasso, do tipo que eu imaginava acontecer em casas de adolescentes em toda a América. Onde cada toque era roubado, cada beijo uma conquista, a cada momento uma corrida contra o toque de recolher. Era o tipo de beijo proibido porque a mãe e o pai estavam sentados lá em cima e a descoberta era iminente, era a roupa ficava onde estava e paixões se enfureciam e beijar assumia uma intensidade própria, simplesmente porque ir mais longe não era uma opção. No momento em que o sol da tarde encheu minha sala de estar, meus lábios estavam machucados e bonitos, e meu rosto estava um pouco machucado de aninhar e acariciar no pescoço de Wilson e de ser tocada em troca. Passamos um tempo sem compromisso, saciados sem sacrifício, completa e totalmente envolvidos no amor. E foi delicioso.

A sombra de uma perfeita noite de domingo encheu meu apartamento antes que qualquer um de nós fizesse qualquer tentativa de falar do futuro. Tínhamos invadido meu armário e descobrimos o que eu já sabia... Havia pouca comida em minha cozinha. Acabamos pedindo comida chinesa e esperamos ansiosamente por sua chegada, nos distraindo da fome com cinnamon bears e o jogo de confissão. — Fui eu que retirei as tampas de todos os seus. — Sério? Foi você quem os substituiu no dia seguinte, também? — Sim. Eu me senti mal. Eu não sei o que deu em mim. Fiquei tentando chamar sua atenção nas formas mais desagradáveis, como um daqueles meninos esquisitos no playground que atira pedras nas meninas que eles gostam. — Então, posso assumir que foi você que colocou uma foto suja no meu retroprojetor para que quando eu ligasse todos os alunos teriam o pacote completo? — Culpada.


— E o bloqueio que de repente apareceu no case do meu violoncelo? — Sim. Isso fui eu também. Foi só um pouquinho. E eu coloquei a chave no bolso do casaco. — Sim... Foi um pouco estranho. Pena que demorei dois dias tentando serrar a maldita coisa antes que eu a encontrei. — Eu queria a sua atenção, eu acho. Wilson bufou e balançou a cabeça. — Você está brincando? Você entrou na minha classe com a calça mais apertada que eu já vi, botas de salto alto de motociclista, o cabelo selvagem. Cabelo de Snogging. Você tinha a minha atenção desde o início. Corei, meio satisfeita, meio envergonhada. — Cabelo de Snogging? Wilson sorriu como um homem que sabe que está agradando sua mulher. — Snogging é o que nós passamos o dia todo fazendo, amor. Significa beijando... Muito. Após essa primeira semana ou mais de aula, eu estava convencido de que tinha escolhido a profissão errada. Eu estava completamente deprimido, e era tudo culpa sua. Eu tinha certeza de que teria que pedir-lhe para se transferir para outra classe, porque eu sabia que estava em apuros. Na verdade, desde que estamos confessando coisas... Eu fui pedir ao conselheiro para pegar seus registros para mim. Foi depois do dia em que eu falei com você depois da aula, depois de toda a “Eu não sei quem eu sou”. — Não foi legal — Eu disse, magoada. — Sim, querida. Eu sei — Ele disse baixinho e deixou cair um longo beijo na minha boca carrancuda. E, então, enroscou-se em mim, esquecendo completamente a discussão até a campainha tocar e nós puxar, rindo um pouco quando nós fizemos. — A comida está chegou! — Nós dois corremos para a porta. Só depois que tínhamos escavado o frango com caju e a carne de porco agridoce que eu voltei de novo para a sua confissão. — Então você pesquisou meus registros... E o que achou? Wilson engoliu em seco e deu um grande gole de leite. — Eu não sabia com o que eu estava lidando. Você era um caso difícil, Echohawk. Você sabia que há um registro policial em seu arquivo?


Eu congelei, minha colher deu uma pausa entre a boca e a tigela. — O quê? — Quando o corpo do seu pai foi encontrado reabriram o seu caso - ou o pouco que alguém conhecia. Houve alguns esforços para descobrir quem era sua mãe por razões óbvias. Seu pai estava oficialmente morto, e alguém pensou que era importante fazer mais uma tentativa de localizar sua mãe. Não havia muito no arquivo. Eu não sei por que a escola ainda tinha uma cópia, exceto que você era responsabilidade do estado, pelo menos você foi até dezoito anos. Tinha o nome de um funcionário no arquivo. Eu anotei isso não sei por quê. Talvez fosse o nome estranho, Izzard. Isso lembra alguma coisa? Eu balancei a cabeça, retomando a minha refeição. — Ele era um dos oficiais que, inicialmente, me encontrou, por assim dizer, depois que meu pai desapareceu — Comemos em silêncio. — Eles me ligaram. O laboratório, em Reno? Eles ligaram. Os resultados ficaram prontos. Wilson olhou para mim e o garfo parou no caminho para sua boca, me incitando a continuar. — Eles querem que eu volte. Eles disseram que têm uma combinação. Eles vão mostrar-me tudo. Eu soube há duas semanas. Uma parte minha quer entrar no carro agora e ir para Reno. Uma parte mal pode esperar. Mas a outra parte, a parte que pertence a Jimmy? Essa parte não quer saber. Ele era tudo o que eu tinha, e não quero deixá-lo ir. Eu não quero saber uma coisa que vai mudar o que eu sinto por ele, que vai mudar a nossa história. Eu pensei em como esse pequeno ato de bondade para uma menina com fome trouxe o destino à porta de Jimmy Echohawk e como ele pagou seu Karma com compaixão e arte de uma forma única. Um pequeno ato e ele se abriu ao desespero de uma mãe e encontrou-se em uma posição onde ele se tornou responsável por uma criança que ficou ainda mais sozinha no mundo do que ele. — E eu me preocupo que o que eu descobrir vai ser feio e... Assustador. Estou realmente cansada do feio, como você bem sabe. Vai doer. Vai me rasgar. E eu estou cansada disso também. Que tipo de mulher faz o que ela fez? Que tipo de mãe? Uma grande parte minha não quer saber quem ela é ou nada sobre ela.


Nós ficamos em silêncio com as minhas palavras no rodeando como grafite nas paredes, inevitáveis e gritantes, destruindo a paz que esteve entre nós. Wilson largou o garfo e apoiou o queixo em suas mãos. — Você não acha que é hora de colocar um fim a isso? — As mesmas palavras de antes com um contexto totalmente diferente. — Um fim em quê? — Eu disse a minha linha. — Neste negócio de ficar sem saber — Repetiu em voz baixa, segurando meu olhar. Eu sabia o que ele queria dizer e não precisava ouvi-lo dizer isso. — Vamos tirar uns dias de folga. Eu tenho alguns dias de folga para pegar e Beverly vai entender. — E o que vamos fazer? — Nós acharemos sua mãe. E encontraremos a Blue.


Capítulo Vinte e Sete Gelo Nós voamos desta vez. Nenhuma viagem longa de estrada, oito horas de estrada ida e volta. Eu não estava mais grávida e sob ordens médicas para não voar. Wilson disse que dirigindo levaria muito tempo, e não havia nenhuma razão para nos torturar. Acho que ele estava mais ansioso para chegar lá do que eu. Eu oscilava entre ansiedade e náuseas. Fizemos contato com o laboratório e o Detetive Moody, e dissemos a eles que estávamos indo. Detetive Moody ofereceu nos encontrar no aeroporto, o que me surpreendeu. Eu não achava que isso era um procedimento padrão e disse isso. Ele ficou em silêncio por um momento e depois respondeu com sua voz cheia de emoção. — Na minha linha de trabalho, não há muitos finais felizes. Então, muitas pessoas sofrem, muitas pessoas estão perdidas... E nós nunca as encontramos. Para mim, este é um negócio muito grande. Todo o departamento está bastante animado. O chefe disse que é uma ótima história de interesse humano, e nós temos uma ligação do Reno Review ansioso para uma entrevista. Vamos deixá-la decidir se isso é algo que você está interessada. Eu liguei para o detetive Bowles por cortesia profissional, e o avisei que temos o resultado do teste. Ele estava muito animado também. Eu não disse nada, não querendo esvaziar o seu entusiasmo genuíno, mas eu sabia que não estaria falando com nenhum repórter. Como uma criança com um presente há muito esperado, eu não estava pronta para desembrulhar a minha história e imediatamente passá-la como se tivesse pouco valor. Havia um tempo para compartilhar e um tempo para saborear. Eu precisava manter a minha história, examiná-la, compreendê-la. Então, talvez, um dia, quando não fosse tão fresca e crua, quando um pouco do brilho e novidade tivesse desgastada, quando eu entendesse não apenas o que, mas por que... Talvez então eu estaria disposta a compartilhar. Mas não agora.


Las Vegas já tinha abraçado a primavera, mas Reno estava frio. Wilson e eu amontoamos em nossos casacos, despreparados para a explosão de ar de inverno que nós encontramos enquanto caminhamos para o nosso carro alugado. Nós recusamos a escolta da polícia, decidindo que seria necessário irmos com o nosso próprio carro, embora não ficaríamos em Reno por muito tempo. As respostas estavam lá esperando por nós. Não haveria a busca. Minha vida, minha história, seria colocada para fora diante de mim como um roteiro de filme... Completo com cenas de crime e descrições de personagens. E, como um roteiro de filme, nada parecia real. Pelo menos, não até que paramos no departamento de polícia. De repente, era necessária uma ação. As câmeras estavam rolando, e eu não sabia as minhas falas. Eu estava com medo do palco, dos estranhos na plateia, das cenas que eu não tinha estudado e não poderia preparar. E acima de tudo, eu não queria que Wilson me visse no centro das atenções mais uma vez, a luz pouco lisonjeira, o enredo trágico, violento e deprimente. — Você está pronta, Blue? Não. Não! — Sim — Eu sussurrei, mentindo, mas não vendo nenhuma maneira de contornar isso. Mas eu não conseguia me mover. Wilson saiu do carro e deu a volta até a minha porta. Ele a abriu e estendeu a mão. Quando eu não a peguei, ele se inclinou e me olhou atentamente. — Blue? — Eu não quero que você entre. Você sabe demais, Wilson! Ele deu um beijo na minha testa. — Sim. Eu sei centenas de coisas. Eu acho que nós já discutimos isso... Muito recentemente, na verdade. — E se eles nos disserem algo que muda a maneira como você se sente por mim? — O que eles poderiam, eventualmente, dizer que mudaria o que eu sinto por você? Você tinha dois anos de idade quando sua mãe a deixou. Você acha que eles vão nos dizer que você era uma pequena traficante de drogas? Do mundo mais jovem? Uma assassina, talvez? Ou... Oh não! Um rapaz. Talvez você seja realmente um menino. Isso seria difícil de ajustarse, eu confesso. Risos borbulharam dentro de mim como um balão amarelo, e eu me agarrei a esse lampejo de brilho que Wilson sempre parecia inspirar em


mim. Eu enterrei meu rosto na curva entre o seu pescoço e o ombro, respirando o cheiro que era Wilson. Conforto, desafio, e esperança, todos enrolados em um aroma limpo. — Blue. Tudo o que nós aprendermos só me fará amar mais você. Você está certa. Eu sei muito. E porque eu sei, não há nada que alguém possa dizer que vai me fazer duvidar de você ou o que eu sinto por você. — Ok — Eu sussurrei, e beijei seu pescoço logo acima da gola do casaco. Ele estremeceu e passou os braços em volta de mim. — Ok — Ele repetiu, com um sorriso em sua voz. — Vamos.

Eu conheci o sargento Martinez, que foi o detetive responsável pelo caso há dezoito anos, juntamente com vários outros que desapareceram no fundo quase tão rapidamente quanto eles foram introduzidos. Heidi Morgan, do laboratório criminal do Estado também esteve presente, e ela, o sargento Martinez, e o detetive Moody começaram a levar-nos para uma sala onde um arquivo grande estava à espera no centro da mesa. Sentamos em um banco ao redor do arquivo e Heidi Morgan adicionou um arquivo próprio. Sem alarde, a reunião começou. Heidi passou por uma explicação de DNA e DNA marcador. Ela me mostrou um gráfico comparando o meu DNA ao DNA da mulher que era minha mãe. Alguns dos breves panoramas era a mesma informação que foi compartilhada comigo quando foi colhido o meu DNA meses atrás, só que desta vez eles tinham os resultados para me falar. Heidi olhou para mim e sorriu. — Temos certeza de que você é realmente a filha biológica de uma mulher chamada Winona Hidalgo. — Esse era o nome dela? — Eu repeti-o, apenas para testar o seu impacto. — Winona Hidalgo — Eu pensei que talvez fosse encontrar uma série de lembranças, que eu iria sentir alguma coisa quando ouvisse. Mas era estranho para mim, banal como o nome de Heidi Morgan ou Andy Martinez. Era como se eu nunca tinha ouvido antes.


Foi à vez do sargento Martinez tomar o centro do palco. Ele virou o grande arquivo aberto, e Wilson pegou minha mão debaixo da mesa. Agarrei-me a ele, sem fôlego. — Winona Hidalgo foi encontrada morta no Stowaway Motel em 5 de agosto de 1993. No momento da sua morte, ela tinha dezenove anos de idade. Na verdade, ela tinha acabado de completar dezenove anos em agosto, três dias antes. — Ela foi assassinada? — Eu engasguei. Eu não sabia o que eu esperava, mas não era um assassinato. — Encontramos muitos apetrechos na cena do crime, e exames de sangue constataram drogas em seu sistema, mas sua bolsa e seu carro estavam faltando, e havia contusões na parte de trás de sua cabeça. Aparentemente, a senhorita Hidalgo tinha ganhado cerca de cinco mil dólares dos slots{38} em uma parada de caminhões local uns dias antes, e no momento da sua morte, ela tinha um pequeno e agradável maço de dinheiros em cima dela. O dinheiro acabou matando-a. Pelo exame toxicológico, parece que ela estava muito drogada e indo para a segunda rodada. O traficante decidiu que era presa fácil, tomou a bolsa dela e bateu a cabeça no criado-mudo. Não havia muitas evidências de luta, e nós não tínhamos testemunhas. Mas nós fomos capazes de conseguir uma imagem de uma câmera de segurança com seu carro deixando o local, com uma imagem decente do motorista. O caso foi bastante dividido e insuficiente. Até que descobrimos pela família que havia uma criança desaparecida. É aí que o caso atingiu um impasse. Você tinha literalmente desaparecido no ar. — Esta é uma foto dela, tirada dos seus registros de carteira de motorista, o que a coloca com cerca de dezesseis nesta foto — Detetive Martinez deslizou uma foto 8X10 de uma menina sorridente do outro lado da mesa, e quando eu deixei meus olhos se concentrarem em seu rosto, eu me vi ali. Wilson prendeu a respiração ao meu lado e sua mão apertou a minha. — Ela se parece com você, Blue — Ele sussurrou. — Os olhos são diferentes, e você tem a pele mais clara... Mas o sorriso e o cabelo... É você. — Sim. Percebemos isso logo também, e como o resultado era bastante confiante quando nos encontramos com você em outubro, tínhamos encontrado a menina de Winona. É claro que não podia dizer nada no


momento — Detetive Moody abriu um largo sorriso, e eu tentei sorrir de volta. A descrição da carteira de motorista de Winona Hidalgo dizia que seu cabelo era preto e seus olhos castanhos. Sua etnia foi listada como nativo americano. Ela media 1,62 e 53 quilos. Eu era mais alta que ela, mas muito magra. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela não parecia má. Ela apenas parecia jovem. — Inicialmente, tivemos a notificação de morte feita por aplicação da lei local, mas quando a busca pelo filho, uh... Quando a pesquisa paralisou, o detetive Moody e eu fomos visitar a família pessoalmente. — Eu tenho família? — A agitação no meu estômago voltou com uma vingança quando senti que a pequena identidade que eu tinha estava sendo arrancada das minhas mãos. — Você tem uma avó, Stella Hidalgo, que é mãe de Winona. Você e sua mãe viveram com ela até Winona sair com você quando você tinha apenas dois anos de idade. Stella Hidalgo vive em Utah, na reserva indígena Paiute. Entramos em contato com ela e ela está ansiosa para vê-la. — Será que a minha avó sabe quem é meu pai? — Sim. Seu pai biológico é um homem com o nome de Ethan Jacobsen — Outra foto foi tirada do arquivo e entregue a mim. Um garoto com cabelos loiros espetados e olhos azuis brilhantes olhava para fora, sem sorrir. Seus ombros eram largos e quadrados sob uma camisa vermelha com um número branco 13 exibido orgulhosamente em seu peito. Parecia uma foto de anuário, do tipo que tiram de cada jogador de futebol, onde todos os caras tentam parecer maiores e mais malvados do que realmente eram. — Eu vi essa expressão antes — Wilson murmurou, e quando meus olhos encontraram os dele, havia ternura em seu olhar. — Eu vi no primeiro dia em que encontrei você. Interpretei esse olhar como “cai fora”. A sala ficou em silêncio enquanto todos pareciam sentir que eu precisava de um minuto para me recuperar emocionalmente. Eventualmente, o detetive Martinez voltou a falar. — De acordo com Ethan Jacobsen e Stella Hidalgo, Ethan não queria nada com Winona quando ela lhe contou sobre sua gravidez. Sua família


está no registro alegando que pediu a ela para dar o bebê para adoção. Eles deram a Winona algum dinheiro quando você estava com dezoito meses de idade, que Stella Hidalgo confirmou, mas Winona deixou área pouco depois e nenhum deles jamais a viu ou você novamente. — Ethan Jacobsen é casado e tem filhos agora, mas ele nos deu uma amostra de DNA quando Winona foi encontrada morta e você foi declarada desaparecida. Seu DNA também foi carregado em NCIS, e tivemos uma comparação com o seu também. Heidi Morgan interrompeu. — DNA de Ethan Jacobsen também foi confirmado correspondendo com o seu, foi por isso que nos levou um pouco mais tempo do que eu prometi para conseguir os resultados de volta. Detetive Moody falou novamente, e seus olhos estavam sérios e o seu sorriso desaparecido. — Como cortesia, Blue, Jacobsen também foi contatado, e ele foi informado de que você foi localizada. Ele estava muito abalado, compreensivelmente. Ele nos deu a sua informação de contato e endereço atual, mas disse que qualquer contato virá de você. Eu balancei a cabeça, minha cabeça girando. Eu sabia os nomes dos meus pais. Eu sabia quem era. Eu tinha uma avó. Ela queria me ver. Havia apenas mais uma coisa. — Qual é o meu nome? Detetive Martinez engoliu, e os olhos do Detetive Moody se encheram de lágrimas. Ambos pareciam tão sobrecarregados no momento como eu. — O nome em sua certidão de nascimento é Savana Hidalgo — Disse o detetive Martinez com voz rouca. — Savana — Wilson e eu respiramos juntos, e era a minha vez de ser tomada pela emoção. — Savana? Apenas Jimmy verdadeiramente iria apreciar a ironia — As palavras tremiam em meus lábios. Wilson inclinou a cabeça em questão. Eu expliquei as palavras pegando na minha garganta enquanto as lágrimas derramavam sobre meu rosto. — Quando eu era mais jovem, eu fingia que meu nome era Sapana - muito perto do nome Savana. Sapana é uma garota em uma história nativa americana que sobe para o céu e é resgatada por um falcão. Eu sempre dizia a Jimmy, que por causa de seu nome ele era o falcão e eu Sapana. Ele


sempre alegou que ele era mais parecido com o homem porco-espinho. Eu nunca entendi o que ele quis dizer. Eu pensei que ele estava apenas sendo engraçado. Olhando para trás, ele provavelmente sentia culpa por não ir à polícia. Eu acho que isso deveria ter pesado sobre ele. Mas eu não me arrependo — Eu olhei de uma pessoa para a outra, meus olhos descansando em Wilson no final. — Ele era um bom pai. Ele não machucou a minha mãe ou me sequestrou... — Você estava preocupada que ele tivesse feito isso? — Wilson interrompeu suavemente. — Às vezes. Mas, então, eu me lembrava de Jimmy e como ele era. É como você disse, Wilson. Eu sabia muito para duvidar dele. Eu não vou me ressentir por ele ter escolhido me manter com ele. Nunca. Eu sei que pode ser difícil entender, mas é assim que eu me sinto. Eu não era a única que precisava de um minuto para me recompor, e fizemos uma breve pausa para enxugar os olhos antes que o detetive Martinez continuasse. — Você nasceu no dia 28 de outubro de 1990. — Dois dias antes do aniversário de Melody — Comentei, tocada mais uma vez. — 28 de outubro também foi o dia em que apresentou uma amostra de DNA para descobrir quem você era — Heidi Morgan ofereceu. — Interessante como as coisas formam um círculo completo. — Tenho vinte e um — Fiquei maravilhada, e como a maioria dos jovens, eu estava contente que eu era mais velha do que pensava. — Mas sua carteira de motorista ainda diz que tem vinte anos, por isso não vamos para um pub ou cassinos esta noite — Brincou Wilson, fazendo todo mundo rir e aliviar um pouco da pressão emocional que tinha crescido na sala. — Você está convidada a olhar tudo no arquivo. Porém, há fotos da cena do crime, e coisas que você pode preferir não ver. As fotos estão nos envelopes. Tudo o que sabemos está no arquivo. Vamos deixá-la sozinha por um tempo, se você quiser. Informações de contato da sua avó estão aí, bem como do seu pai. Sua avó ainda vive na reserva, mas seu pai está em Cedar City, Utah que não é tão longe de lá.


Wilson e eu passamos uma hora derramando sobre o conteúdo do arquivo, tentando conseguir um quadro mais completo da garota que foi a minha mãe. Não havia muito a aprender. A única coisa que me surpreendeu foi que, quando o carro da minha mãe foi recuperado, tinha um cobertor azul no banco de trás. Ele foi descrito como tendo grandes elefantes azuis em um fundo azul claro e foi claramente projetado para uma criança. Uma imagem de que havia marcado como evidência de uma possível cena de crime secundário. — Blue — A palavra surgiu de dentro de mim como uma lasca de reconhecimento insinuando seu caminho para a superfície. — Eu chamava esse cobertor de “blue”. — O quê? — Wilson olhou para a foto que eu estava olhando. — Esse era o meu cobertor. — Você o chamou de blue? — Sim. Como é que eu me lembro do cobertor, mas não me lembro dela, Wilson? — Minha voz era firme, mas senti meu coração inchado e maltratado, e eu não sabia o quanto mais poderia segurar. Eu empurrei o arquivo para longe e fiquei de pé, andando pelo quarto até que Wilson estava perto e me puxou para os seus braços. Suas mãos acariciaram meu cabelo enquanto falava. — Não é tão difícil de entender, amor. Eu tinha um cachorro de pelúcia que minha mãe teve que arrancar das minhas mãos, porque era muito sujo e desgastado. Ele tinha sido lavado uma centena de vezes, apesar da etiqueta de advertência severa em sua bunda, que prometia que iria se desintegrar. Chester está, literalmente, em cada foto minha quando criança. Eu era extremamente ligado, para dizer o mínimo. Talvez fosse assim para você com o seu cobertor. — Jimmy disse que eu ficava dizendo blue... — As peças do quebracabeça se encaixaram e eu parei no meio da frase. — Jimmy disse que eu não parava de dizer “blue” — Eu repeti. — Então foi assim que ele me chamou. — Foi assim que você conseguiu seu nome? — Wilson estava incrédulo com o entendimento surgindo em seu rosto bonito.


— Sim... E todo o tempo, eu só queria o meu cobertor. Você pensaria que ela teria deixado isso comigo, envolvendo-o ao meu redor quando ela me deixou em um banco da frente. Que ela saberia que teria medo, o quanto eu precisaria desse maldito cobertor — Eu me afastei, lutando para sair dos braços de Wilson, desesperada para respirar. Mas o meu peito estava tão apertado que eu não conseguia inalar. Senti-me rachar, as fissuras se espalhando à velocidade da luz através do gelo fino que eu tinha andado por toda a minha vida. E então eu estava submersa em tristeza, consumida por ela. Eu lutei para respirar, lutei para subir à superfície. Mas não eu não conseguia controlar os meus pés, e eu estava afundando rapidamente. — Você já teve o bastante por hoje, Blue — Wilson me segurou contra ele e abriu a porta, sinalizando para alguém além da porta. — Ela teve tudo o que precisava — Eu o ouvi dizer, e alguém de repente estava ali ao meu lado. Minha visão ficou turva e escuridão se fechou, então senti que fui colocada a uma cadeira, e minha cabeça forçada entre as minhas pernas. — Respire, Blue. Vamos, baby. Respire fundo — Wilson cantava no meu ouvido. Minha cabeça clareou um pouco, e o gelo em minhas veias começou a descongelar devagar. Uma respiração, em seguida, várias outras. Quando minha visão clareou eu tinha apenas um pedido. — Eu quero ir para casa, Wilson. Eu não quero saber de mais nada.

— Saímos da delegacia com uma cópia do arquivo. Wilson insistiu que eu levasse, bem como as informações de contato das pessoas que compartilhavam o meu sangue, mas nunca tinham compartilhado minha vida. Eu queria jogar o arquivo para fora da janela enquanto nós dirigíamos e deixar as páginas derramarem por toda a estrada na noite de Reno, uma centena de páginas de uma vida trágica jogada contra o vento, para que pudessem ser esquecidas e nunca se reunissem novamente. Nós comemos num drive-thru, muito cansados e fracos para deixar o carro ou até mesmo conversar. Mas minha casa estava a oito horas de distância e nosso voo não sairia até às 8 da manhã seguinte, então nós


encontramos um hotel e pagamos um quarto por uma noite. Wilson não me perguntou se eu queria o meu. Eu não queria. Mas havia duas camas de casal no quarto, e logo que chegamos eu escovei os dentes, tirei minha calça jeans, e me arrastei para uma, prontamente adormecendo. Sonhei com sequencias de caracteres de recortes de boneca de papel com o rosto e os cobertores da minha mãe em todas as cores além do azul. Sonhei que eu ainda estava na escola, caminhando por corredores intermináveis, à procura de Wilson, mas em vez disso, encontrei dezenas de crianças que não sabiam seus nomes. Eu acordei com lágrimas no rosto e o terror se contorcendo em minha barriga, convencida de que Wilson havia deixado Reno enquanto eu dormia. Mas ele ainda estava lá na cama ao lado da minha, seus longos braços em volta do travesseiro, com o cabelo despenteado fazendo um contraste escuro contra os lençóis brancos. O luar derramando sobre ele, e eu o observei dormir por um longo tempo, memorizando o contorno do seu maxilar, os longos cílios contra suas bochechas magras, observando seus lábios enquanto ele suspirava em seu sono. Então, sem me dar tempo para considerar minhas ações, eu penetrei em sua cama e me enrolei ao redor dele, descansando minha cabeça contra suas costas, passando os braços em volta do seu tronco. Eu queria selá-lo em mim, fundir a minha pele na dele, para tranquilizar-me que ele era realmente meu. Eu pressionei meus lábios contra suas costas e deslizei as mãos sob sua camiseta, apertando minhas mãos contra seu abdômen liso, acariciando para cima, para o seu peito. Senti que ele estava acordado, então ele se virou para mim e seu rosto caiu nas sombras enquanto mantinha-se acima de mim. O luar delineava-o em branco, e quando eu o alcancei e toquei seu rosto, ele ficou perfeitamente imóvel, deixando-me traçar suas feições com a ponta dos dedos, deixando-me levantar e dar beijos em todo o seu maxilar, em suas pálpebras fechadas e, finalmente, contra seus lábios. Então, sem uma palavra, ele me pressionou contra os travesseiros e capturou minhas mãos nas dele. Minha respiração ficou presa com a expectativa quando ele me puxou firmemente contra seu peito, prendendo minhas mãos entre nós. Mas ele não beijou a minha boca ou passou suas mãos ao longo de minha pele. Ele não sussurrou palavras de amor ou de desejo. Em vez disso, ele colocou minha cabeça sob o seu queixo e me envolveu em seus braços


tão firmes que eu mal podia me mover, e ele não me soltou. Fiquei surpresa, atordoada, esperando que ele soltasse seu aperto, esperando que suas mãos me tocassem, que o seu corpo se movesse contra o meu. Mas seus braços ficaram fechados ao meu redor com a respiração dele se mantendo estável, e seu corpo ainda imóvel. E ali, no círculo dos seus braços, segura tão ferozmente que não havia espaço para duvidar dele ou temer sua perda, eu adormeci.


Capítulo Vinte e Oito Doloroso Quando acordei na manhã seguinte, Wilson já estava de pé, de banho tomado e barba feita, mas seus olhos estavam cansados, e eu me perguntava se me segurar toda a noite tinha cobrado o seu preço. E eu estava um pouco envergonhada que fui rejeitada, mesmo sendo tão suave quanto a sua recusa foi. Ele não agiu estranho ou desconfortável, então eu afastei meus sentimentos feridos e corri para o chuveiro e um rápido café da manhã para que pudéssemos fazer nosso voo para casa. Eu estava preocupada e quieta, Wilson estava introspectivo e melancólico, e no momento em que nos arrastamos pelas portas do Pemberley, estávamos precisando de nossos cantos separados com o peso das últimas 24 horas pairando como uma nuvem negra. Wilson levou minha mochila para o meu apartamento e fez uma pausa antes de ir para o seu. — Blue. Eu sei que você está exausta. Estou absolutamente cansado, e não fui eu que tive seu mundo virado de cabeça para baixo repetidas vezes ao longo dos últimos meses. Mas você precisa ver isso até o fim — Ele suplicou. — Eu sei, Wilson. — Você quer que eu ligue? Pode ficar mais fácil dar o próximo passo. — Isso é ser fraco? — Eu perguntei, realmente querendo deixá-lo fazer isso, mas não querendo fazer a coisa fácil se isso significasse que eu era uma covarde. — Isso é delegar, amor. É garantir que será feito sem se confundir. — Então, sim. Por favor. E eu vou estar pronta quando ela estiver.

Descobriu-se que Stella Aguilar era mais forte do que eu, porque ela estava pronta imediatamente. Então Wilson e eu fomos para St. George, Utah, na manhã seguinte, em sua Subaru. Ambos tivemos uma sólida doze


horas de sono em nossas camas... Separadamente, o que me preocupou um pouco, principalmente porque eu não sabia o que fazer com ele. Wilson era um tipo completamente diferente de cara que eu estava acostumada. Ele era um cavalheiro em um mundo de maçons{39} e Colbys{40}. E eu estava com muito medo de que o fato de que eu não era uma lady seria um problema. — Diga- me como é — Eu implorei, meus pensamentos se estreitaram sobre a tarefa que eu tinha pela frente. — Como é que é? — Wilson respondeu, com os olhos na estrada. — Encontrar seus pais biológicos pela primeira vez. O que você disse? Tiffa disse que você fez isso sozinho. Isso, obviamente, foi o mais corajoso do que eu. Eu não acho que poderia fazer isso sozinha. — As circunstâncias são completamente diferentes, Blue. Nunca acredite que você não é corajosa. Você é o pássaro mais forte que eu conheço, e isso, amor, é um elogio. Eu tinha dezoito anos quando conheci meus pais biológicos. Minha mãe tinha mantido contato com eles ao longo dos anos para que um dia eu pudesse fazer isso. Ela pensou que poderia chegar um momento em que seria importante para mim. Meu pai foi contra. Ele achou que era desnecessário, e estava certo de que seria uma distração. Eu estava há um semestre para me formar, e tinha me enterrado na escola, isso era minha cara, tenho que confessar. Eu tinha conseguido encaixar quatro anos de faculdade em dois anos e meio, mantendo-me num cronograma que meu pai e eu tínhamos traçado. Meu pai era um homem incrivelmente impulsionado, e eu pensei que ser um homem significava ser como ele. Mas era intervalo de semestre, e eu estava inquieto e irritado, e, francamente, eu era um barril de pólvora prestes a explodir. Então eu voei para a Inglaterra e fiquei com Alice. E eu os procurei — Wilson terminou levianamente, como se não tivesse sido nada demais. — Minha mãe e eu pensávamos que poderíamos manter em segredo de papai. Má ideia. Mas isso é outra história. — E como foi? — Eu cutuquei. — Foi terrível — Ele respondeu prontamente. — E esclarecedor e... Muito confuso. Eu não tinha ideia do que dizer a isso, então eu só esperei, observando seus pensamentos aparecerem em seu rosto. Ele meditou por um


momento, perdido na lembrança. — Quando eu conheci o meu pai biológico minha primeira impressão foi de que ele era um pouco vagabundo — Ele meditou. — Depois de algumas horas conversando com ele, andando por aí, vendo seu bairro, encontrando seus companheiros, comecei a vê-lo um pouco diferente. Fomos a um pub onde ele gostava de ter uma bebida após o turno, um lugar chamado Wally, onde todos pareciam conhecê-lo e gostar dele. Bert é um tira. — Um tira? — Um policial. Isso parecia tão em desacordo com sua personalidade. Ele é incrivelmente jovial e de espírito livre. Eu sempre pensei que policiais fossem do tipo forte e silencioso. — Talvez mais como o seu pai? — Sim! Como John Wilson. Focado, duro, sério. E Bert Wheatley era tudo, menos sério ou focado. Ele disse que era um policial, porque amava o seu bairro. Ele gostava de estar com as pessoas e, quando era um menino, sempre quis dirigir um carro com luzes e uma sirene — Wilson riu e balançou a cabeça. — Isso foi o que ele disse! Eu me lembro de pensar o quão maluco que ele era — Wilson olhou para mim como se eu estivesse indo para repreendê-lo por sua opinião. Eu só fiquei quieta.


Mas eu notei outras coisas. Bert parecia muito contente. Era muito divertido estar com ele — Wilson riu novamente, mas seu riso era de dor. — Dessa maneira, ele era muito diferente do meu pai, também. John Wilson nunca estava satisfeito - raramente feliz - e não era exatamente prazeroso estar com ele na maior parte do tempo — Wilson balançou a cabeça e de repente mudou de assunto. — O nome da minha mãe biológica é Jenny. Ela nunca se casou com Bert, obviamente. Ela se casou com um encanador chamado Gunnar Woodrow. Gunnar o encanador — Wilson disse que como o Gunna Plumma, e eu tentei não rir silenciosamente. Eu tinha chegado ao ponto em que eu nem notava seu sotaque... A maior parte do tempo. — Ela e Gunnar têm cinco filhos, e sua casa é como um jardim zoológico. Eu fiquei por uma ou duas horas, até que Gunnar chegou em casa do trabalho, e em seguida, Jenny e eu saímos e fomos tomar chá na esquina onde poderíamos conversar sem que as pestinhas nos interrompesse. — Você gosta dela? — Muito. Ela é adorável. Ama livros e história, gosta de citar poesia. — Parece você. Wilson assentiu. — Nós temos muita coisa em comum, isso me emocionou, devo dizer. Nós conversamos sobre tudo. Ela perguntou-me todas as coisas que as mães estão interessadas: meus desejos e sonhos, e se eu tinha uma namorada. Eu lhe disse que não tinha tempo para as meninas. Eu disse a ela que a história e os livros eram os únicos amores na minha vida até agora. Nós conversamos sobre a escola, e ela me perguntou quais eram meus planos para o futuro. Eu divagava do meu plano de dez anos, envolvendo pós-graduação da Faculdade de Medicina, e trabalhar com o meu pai. Ela parecia um pouco surpresa por meus objetivos de carreira e disse: “Mas e os amores em sua vida?”. — Ela estava preocupada com sua vida amorosa? Você tinha apenas dezoito anos — Eu protestei, ridiculamente grata que ele não tinha um passado como o meu. — Não. Ela não estava preocupada com a minha vida amorosa. Ela estava preocupada com os “amores na minha vida” — Wilson repetiu. — História e livros.


— Oh! — Respondi com a compreensão. — Encontrar meus pais havia me feito questionar pela primeira vez na história. De repente eu me perguntava se realmente queria ser médico. Eu me peguei pensando sobre o que me faria feliz. Eu pensei sobre luzes e sirenes — Os lábios de Wilson se ergueram, uma sugestão de um sorriso. — Eu pensei sobre como eu queria compartilhar tudo o que aprendi com quem quisesse ouvir. Na verdade, eu deixava os meus pais e minhas irmãs loucos, constantemente recitando este ou aquele fato histórico. — St. Patrick? — St. Patrick, Alexandre o Grande, Leônidas, o rei Arthur, Napoleão Bonaparte, e tantos outros. — Então, sendo um médico perdeu um pouco de seu brilho. — Isso nunca teve nenhum brilho, e quando percebi isso, eu disse ao meu pai que não iria para a faculdade de medicina. Eu tinha mantido minha boca fechada até a formatura, calmamente fazendo planos diferentes, enquanto meu pai continuava a traçar o meu futuro. Eu lhe disse que queria ensinar, esperava que em um dia em uma universidade. Eu lhe disse que queria escrever e palestrar, eventualmente, conseguir meu doutorado em história. Ele descobriu que eu tive contato com meus pais biológicos e culpou a minha mudança de comportamento na minha viagem. Ele estava furioso comigo e com minha mãe. Nós brigamos, gritamos, eu saí de casa, e meu pai foi chamado para o hospital, e eu nunca mais o vi vivo. Você já ouviu essa parte da história — Wilson suspirou profundamente e passou a mão pelo cabelo. E foi isso que você quis dizer quando falou que conhecer seus pais biológicos foi terrível... Porque definiu tantas outras coisas em movimento? — Não. Embora, eu acho que poderia ser interpretado dessa forma. Foi terrível, porque eu estava tão incrivelmente confuso e perdido. Dois sentimentos que nunca tinha sentido antes, nunca. Eu sei, eu vivi uma vida protegida, não é? — Wilson deu de ombros. — Eu conheci duas pessoas que eram muito diferentes das pessoas que me criaram. Nem melhor, nem pior. Apenas diferente. E isso não é uma ofensa contra a minha mãe e meu pai. Eles eram bons pais, e me amavam. Mas o meu mundo foi abalado. Por um lado, eu estava muito confuso sobre do porquê de Jenny e Bert não terem dado certo por minha causa. Se me manter significava tão pouco para eles


que me deram para um médico rico e sua esposa e continuaram suas vidas alegremente, lavando as mãos? Estremeci, sabendo intelectualmente que isso não era sobre mim. Mas havia culpa do mesmo jeito. Gostaria de saber se Melody iria me fazer a mesma pergunta um dia. Wilson continuou. — Por outro lado, de repente eu percebi que eu não queria as coisas que eu sempre pensei querer. Eu queria fazer coisas que me deixavam feliz, e queria certa quantidade de liberdade que eu nunca tinha experimentado. E eu sabia que significava tomar um caminho muito diferente do que eu tinha estado. — Eu posso entender isso — Eu sussurrei. — Sim. Eu sei — Os olhos de Wilson encontraram os meus, e havia um calor lá que fez meu coração deslizar lentamente dentro do meu peito. Como ele conseguia olhar para mim dessa maneira e me segurar durante toda a noite sem um único beijo? — A última semana na Inglaterra, eu deixei Manchester e tomei um ônibus para Londres. Alice é muito menos protetora comigo do que o resto da minha família. Ela meio que deu de ombros e disse: “Divirta-se, não se mate, e certifique-se que você esteja de volta aqui em uma semana para pegar seu voo para casa”. Encontrei-me com alguns companheiros de escola, e passei a semana completamente bêbado, fazendo coisas que fico um pouco envergonhado para contar. — Como o quê? — Eu disse meio horrorizada, meio emocionada que Wilson poderia não ser completamente limpo, depois de tudo. — Eu estava absolutamente desesperado por companhia. Eu perdi minha virgindade, e não me lembro de muito. E não parei por aí. Noite após noite, clube após clube, menina após menina, e me senti pior com a semana passando. Fiquei tentando restaurar meu equilíbrio, fazendo coisas que só me deixava tonto. Será que isso faz sentido? Eu balancei a cabeça, sabendo exatamente o que ele quis dizer. Compreendi atordoada. — Um dos meus companheiros acabou me levando de volta para Manchester. Ele fez com que eu estivesse em um avião e de volta para os Estados Unidos. E ao longo dos próximos seis meses, eu consegui parar o


giro na minha cabeça e encontrar o equilíbrio novamente na maior parte. Mas em vários aspectos, estar com você através de sua jornada, tem sido uma jornada para mim, também. E eu entendo meus pais - os dois - muito melhor agora. Nós dirigimos sem falar por um longo tempo. Então eu perguntei-lhe o que estava me incomodando desde que acordei sozinha na manhã anterior. — Wilson? O que aconteceu em Reno? Quero dizer... Eu pensei que você fosse querer... Quero dizer, você não é atraído por mim? — Eu senti como se estivesse pedindo ao quarterback para me levar ao baile, e meus joelhos tremiam. Wilson riu bem alto. E eu me encolhi, tentando não cair no meu lugar e cobrir o meu rosto para esconder a minha rejeição. Wilson deve ter visto a humilhação em minha expressão, e com um guincho de freios e algumas mudanças ilegais de faixa, estava desviando para o lado da estrada, com perigo e tudo mais. Então ele se virou para mim, balançando a cabeça como se não pudesse acreditar que eu não entendia. Blue. Se isso fosse simplesmente sobre a atração, você e eu nunca teríamos deixado Reno. Nós ainda estaríamos naquele quarto de hotel de merda, nus, pedindo serviço de quarto... Ou, mais provavelmente, pizza de baixo da porta. Mas para mim, com você, o sexo não é o objetivo. Você entende isso? Eu balancei minha cabeça. Não. Eu totalmente não entendia isso. — Quando você subiu na minha cama, em Reno, tudo que eu conseguia pensar era como eu me sentia em Londres, na terrível semana, quando eu tinha tido mais sexo do que qualquer garoto adolescente poderia sonhar. E como eu me sentia destruído no final de tudo. Eu não queria que a nossa primeira vez fosse assim para você. Você estava emocionalmente abalada em Reno, assim como eu estava em Londres, e você precisava de mim. Mas você não precisa de mim dessa maneira. Algum dia... Espero que seja em breve - porque eu vou entrar em combustão, se tiver que passar uma noite como essa novamente - você vai me querer porque me ama, não porque está perdida, não porque está desesperada, não porque está com medo. E esse é o objetivo. — Mas, Wilson. Eu amo você — Eu insisti. — E eu te amo... Mais ardentemente — Ele respondeu, torcendo meu cabelo em suas mãos e me puxando em direção a ele.


— Orgulho e Preconceito? — Como você sabe? — Ele sorriu. — Eu tenho uma coisa para o Sr. Darcy. Em resposta, o próprio Darcy capturou minha boca com a dele, e me mostrou o quão ardentemente que ele se importava.


Capítulo Vinte e Nove Verdade Se não tivesse sido um caminhão diesel nos explodindo com sua buzina e sacudindo a Subaru enquanto voava, poderíamos ter chegado muito tarde para o nosso compromisso com a minha avó. Encontramos a casa de Stella Hidalgo, nos arredores da Reserva Indígena Shivwits depois de um pequeno retrocesso, e uma consulta no fiel Garmin{41} de Wilson, que não parecia funcionar bem, especialmente quando se tratava de reservas indígenas, ou Utah. Eu só tinha ido para a área de St. George uma vez antes em uma viagem escolar, mas lembrei-me das rochas vermelhas e os planaltos salientes delineados contra o céu azul e areia do deserto. Era tão duro e inóspito como era bonito, e eu me perguntei brevemente como os meus antepassados tinham sobrevivido na área em centenas e centenas de anos antes de conveniências modernas. A água era escassa, a comida deveria ter sido ainda mais escassa, e plantar alguma coisa teria sido quase impossível. Nós fomos até a casa de Stella Hidalgo, observando os caminhantes e as casas brancas com tapume e persianas vermelhas com a necessidade de uma pintura. Era bonito e limpo, mas sem adornos, e o pátio era mantido simples com pedras do deserto e árvores de Joshua. Nós saímos do carro em um silêncio tão pesado que eu conseguia ouvir meu coração batendo como um tambor velho. Stella Hidalgo abriu a porta antes de chegarmos aos degraus da frente. Ela era uma mulher franzina de estatura mediana. Ela provavelmente estava perto de sessenta anos, embora tivesse uma beleza atemporal que fazia a estimativa difícil. Sua pele não tinha rugas, e seu cabelo tinha traços de prata em meio ao preto. Usava-o solto, repartido para um lado e cortado na altura dos ombros. Ela usava uma camisa branca solta e calça branca, a pele morena dourada era um contraste contra a roupa clara. Ela tinha sandálias brancas nos pés e pedras turquesa em suas orelhas e ao redor de seus pulsos e pescoço. Ela tinha a aparência de uma mulher que sabia como apresentar-se ao mundo e era confiante com o que via no espelho. Ela nos


convidou e a única indicação de que ela estava tão nervosa quanto eu, foi o tremor em sua mão quando ela nos chamou para frente. — A polícia me disse muito pouco sobre sua vida — A voz de Stella Hidalgo era suave e culta quando falou. — Na verdade, quando o detetive Martinez me ligou na semana passada e me disse que tinha um exame de DNA, ele teve o cuidado de explicar porque você é uma adulta legalmente com o direito à privacidade e eles poderiam incentivá-la, mas em última análise, seria a sua escolha se deveria ou não fazer contato comigo. Ele nem sequer me disse o seu nome. Eu não sei como chamá-la. — Você pode me chamar de Blue — Eu estendi a mão e ela apertou-a na sua. Eu nunca seria Savana Hidalgo ou Savana Jacobsen... Ou qualquer outra coisa. Eu era Blue Echohawk, e isso não mudaria. — Combina com você — Ela sorriu timidamente. — Por favor, me chame de Stella — Seus olhos se voltaram para Wilson, à espera de uma introdução. — Olá. Sou Darcy Wilson, mas todos me chamam de Wilson. E estou apaixonado pela Blue — Wilson também estendeu a mão, e Winona mostrou as covinhas, completamente encantada a partir da palavra “olá”. — Que bom! — Ela riu, e eu amei Wilson mais naquele momento do que eu tinha já amado uma única alma. Graças ao charme de Wilson, as mãos de Stella pareciam firmes quando ela nos indicou sua pequena casa e nos convidou para sentarmos em um sofá coberto com um cobertor multicolorido em frente a duas cadeiras marrons. Vários prêmios enquadrados estavam pendurados ao longo das paredes, junto com uma imagem que eu podia jurar que era Jimmy Carter com uma mulher que era mais provável que era a minha avó com seus trinta anos. Eu não sei o que esperava quando o sargento Martinez me disse que Stella Hidalgo vivia em uma reserva, mas não foi nada disso. Algumas fotos foram colocadas no manto, e um grande tapete de estilo indiano cobria o chão de madeira. Eu não sabia nada sobre os índios Paiute - seus costumes, sua história, seu estilo de vida. Seria algo que eu esperava que esta mulher pudesse me ensinar sobre mim mesma. Algum dia. Os olhos de Stella continuaram à deriva para o meu rosto, como se ela não pudesse acreditar que eu estava lá. Deixei-a olhar bem. No momento em que estava além de surreal, e eu tinha me perguntado como deveríamos


parecer olhando uma para a outra em silêncio, com o relógio correndo a medida que tentávamos absorver mais de 18 anos para o presente. Conversamos um pouco por alguns minutos, discutindo a nossa viagem para Reno e nosso caminho até St. George, mas logo a conversa virou-se para minha mãe. Tive a nítida sensação de que a minha avó precisava de mim para compreender a filha. Talvez porque ela ainda estava lutando para entendê-la bem. — Winnie era cheia de personalidade, e gostava de ser o centro das atenções, o que normalmente conseguiu ser aqui em casa e na escola. Meus pais a adoravam, e ela sempre teve muitos amigos. Amava ser líder de torcida e era muito popular, especialmente com os meninos. Eu sempre fui exatamente o oposto. Eu era muito tímida perto de meninos... Nunca conseguia descobrir o que dizer — Stella fez uma pausa, e eu desejei que ela não tivesse me dito que minha mãe era popular com os meninos. Fezme preocupar mais uma vez que éramos iguais, e eu não queria ser nada parecida com ela. Meus sentimentos de desespero aprofundaram quando Stella tocou na gravidez inesperada de sua filha. — Ficar grávida foi difícil para ela, como seria para qualquer garota de dezesseis anos de idade. Quando Ethan não queria ter nada a ver com ela ou com o bebê, ela ficou desapontada... Não queria sair do seu quarto, chorou muito. Sua gravidez foi miserável, e depois que você nasceu ela estava inconsolável. O médico disse que era depressão pós-parto e passaria com o tempo, então ela ficou menos deprimida, mas muito irritada, e eu cuidava de você a maior parte do tempo. Você era um bebê doce, uma coisinha tão calma. Você quase nunca se mexia. Isso tornou mais fácil para Winnie a ignorá-la, eu acho. Para mim, era muito mais fácil para amá-la. Contanto que você tivesse o seu cobertor, você ficava contente. — Era azul? Com elefantes nele? — Sim! É... Era! — Stella gaguejou, surpresa. — Você se lembra? — Os lábios de minha avó tremiam, e ela apertou os dedos para reprimir a emoção que era evidente em cada linha de seu rosto. Eu balancei a cabeça, de repente, incapaz de falar. — Winnie odiava — A voz de Stella vacilou e ela limpou sua garganta. — Ela disse que azul era para meninos. Mas eu escolhi porque você tinha olhos azuis. Seus olhos eram tão marcantes. Em outros aspectos, você


parecia Nativo, a não ser talvez, por não ser tão morena. Seus olhos foram o que finalmente convenceu a família de Ethan que você era dele. Sua família deu a Winona algum dinheiro quando você tinha quase dois anos de idade. Ela pegou o dinheiro que tinham dado a ela, roubou todo o dinheiro na minha conta poupança, bem como o meu carro e pegou a estrada. Infelizmente, ela não a deixou para trás. Eu sempre me arrependi de não ter entrado em contato com a polícia e por que com isso, eles a jogariam na cadeia. Isso poderia ter salvado a vida dela, e eu nunca teria perdido você. — Mas ela precisava crescer, e eu pensei que sair da cidade seria bom para ela. Então eu não denunciei. Eu só... Deixei-a ir. Na verdade, se ela tivesse apenas me pedido o dinheiro e o carro, eu provavelmente teria dado a ela. Ela acabou ficando com um amigo em Salt Lake City e encontrou um emprego. A mãe do amigo dirigia uma creche, e você estava sendo cuidada por pessoas que eu conhecia e confiava. Eu mantive o controle sobre ela através de seu amigo e pensei que as coisas estavam indo muito bem. Ela estava lá por cerca de seis meses, até que abusou da boa vontade. Ela acabou roubando uma grande quantidade de dinheiro da mãe do amigo. E eles a denunciaram. Depois disso, eu ouvia falar dela de vez em quando, o suficiente para que eu soubesse que ela estava bem. A conversa parou e eu estudava o rosto da minha avó enquanto ela estudava o meu. Foi Wilson quem finalmente falou. — O relatório da polícia diz que eles tiveram uma informação de alguém em Oklahoma que jurou que uma menina que correspondia à descrição de sua filha foi pega furtando vários itens de uma loja de conveniência. O dono da loja acabou por não apresentar queixa, porque se sentiu mal pela menina. Ela estava roubando fraldas e leite. Ele acabou dando-lhe o leite, alguns mantimentos e fraldas, junto com algum dinheiro. Quando o dono da loja viu a foto dela no jornal, ele se lembrou de sua filha e sua filhinha e chamou a polícia. — Oklahoma? — Stella Aguilar parecia atordoada, e balançou a cabeça, murmurando baixinho. — N... Não é possível. — A polícia diz que nada aconteceu. Isso só turvou as águas sem lhes dar qualquer coisa mais para seguir em frente — Eu interrompi. — Eu só notei isso porque o meu pai - o homem que me criou - tinha família em uma


reserva em Oklahoma. Fiquei imaginando o que no mundo que ela estaria fazendo lá. — Qual era o nome do seu pai? — A voz de Stella Hidalgo era fraca e havia um silêncio estranho sobre ela, como se estivesse à espera de uma resposta que ela já sabia. — James Echohawk... Eu o chamava de Jimmy. Stella caiu para trás em sua cadeira, o choque e consternação escritos em negrito em seu rosto. Ela se levantou abruptamente e saiu correndo da sala, deixando-nos sem uma palavra. — Alguma coisa está errada. Você acha que ela conhecia Jimmy? — Eu sussurrei. — Com certeza, ela agiu assim quando reconheceu o nome — Wilson respondeu com um tom sussurrado. Fomos interrompidos por batidas e resmungos, e levantamos ao mesmo tempo, ansiosos para sair. — Talvez devêssemos ir — Disse Wilson em voz alta. — Sra. Hidalgo? Nós não viemos aqui para incomodá-la. Stella correu de volta para a sala segurando uma caixa. — Me desculpe, mas preciso que você espere... Por favor. Apenas espere... Por um minuto — Nós nos sentamos relutantemente, observando Stella quando ela puxou a tampa da caixa e retirou um álbum de fotos. Freneticamente, ela folheou as páginas e depois parou. — Algumas fotos estão faltando. Alguém pegou algumas das fotos! — Stella passou as páginas, os olhos voando de uma foto para outra. — Aqui. Esta não é uma foto muito boa... Mas é ele — Ela puxou a foto de baixo da cobertura de plástico. Obviamente estava ali há muito tempo, e tinha aderido a ao plástico. Ela puxou e a imagem começou a rasgar. Ela desistiu e entregou o livro para mim, atravessando o pequeno espaço de joelhos, como se tivesse seis em vez de sessenta. — Você reconhece o homem na foto? — Ela exigiu, batendo na página. Eu olhei para a imagem que tinha um tom ligeiramente amarelado. As roupas e os carros no fundo datados em algum momento dos anos 70. Um homem e uma mulher estavam na foto, e por um momento meus olhos estavam na jovem Stella Hidalgo, magra e sorridente em um vestido vermelho escuro, seu cabelo caindo sobre o ombro. Ela parecia tanto


comigo que a minha cabeça nadou. Wilson enrijeceu ao meu lado, observando claramente a semelhança também. Então meu olhar virou-se para o homem de pé ao lado dela, e tempo cessou seu tique-taque constante. Jimmy parecia de uma década passada. Seu cabelo era de um preto escuro e pendurado sobre os ombros de uma parte central. Ele usava jeans e uma camisa marrom estampada com grandes golas pontudas que eram populares naquela época. Ele parecia tão jovem e bonito, e embora seus olhos estivessem voltados para a pessoa tirando a foto, a mão dele estava enrolada ao redor de Stella, e ela se agarrava ao seu braço com a mão livre. — Será que Jimmy Echohawk criou você? — Stella exigiu novamente. Meus olhos foram para os dela, incapaz de compreender o significado do que eu estava vendo. Eu balancei a cabeça em silêncio. — Blue? — Wilson questionou completamente confuso. — O que você está tentando me dizer? O que é isso? — Eu engasguei, encontrando a minha voz e empurrando o livro em direção a Stella, que ainda se ajoelhava na minha frente. — Jimmy Echohawk era o pai de Winona! — Stella gritou: — Ele não era apenas O... O... Estranho aleatório! — Stella abriu o livro mais uma vez. O seu choque era tão claramente pronunciado quanto o meu. — Inferno! — Wilson praguejou ao meu lado, sua maldição soando na pequena sala de estar que tinha se transformado em uma casa de espelhos. — Sra. Hidalgo, a senhora precisa começar a falar — Wilson insistiu com a voz firme e sua mão apertada na minha. — Eu não sei que tipo de jogo que você acha que isso é... — Eu não estou brincando, rapaz — Gritou Stella. — Eu não sei o que isso significa. Tudo que sei é que eu conheci o Jimmy Echohawk quando eu tinha vinte e um anos de idade. Era 1975. Eu tinha acabado de me formar na faculdade, e acompanhei meu pai para várias reservas indígenas em toda Oklahoma — Stella balançava a cabeça enquanto falava, como se não pudesse acreditar no que estava dizendo. — Meu pai era um membro de um conselho tribal que estava tentando obter o status federal devolvido ao povo Paiute. As tribos Paiute tiveram seu status Federal encerrado em 1950. O que significava a manutenção de


nossas terras e nossos direitos sobre a água - o pouco que tinha - era quase impossível. Os Paiutes do Sul tinham diminuído para perto da extinção. Fomos a várias reservas diferentes, além das bandas remanescentes da paiutes tentando construir o apoio entre outras tribos para a nossa causa. Minha cabeça estava nadando com o sofrimento do povo Paiute, infelizmente muito longe na minha lista de coisas que eu-precisava-saberneste- minuto. — Sra. Hidalgo, a senhora precisar adiantar um pouco essa história — Wilson solicitou. Stella assentiu, obviamente, sem saber por onde começar ou o que era ainda relevante. — Foi amor à primeira vista. Eu era reservada e ele também. No entanto, ficamos imediatamente confortáveis um com o outro. Nós não estávamos em Oklahoma há muito tempo, e meu pai não gostava de Jimmy. Ele estava preocupado que eu estaria me desviando do futuro que tinha planejado — Ela encolheu os ombros. — Ele estava certo em se preocupar. Eu tinha sonhado em ser a próxima Sarah Winnemucca, e de repente a única coisa que eu conseguia pensar era me tornar a Sra. Jimmy Echohawk. Ao ouvir o nome de Jimmy nos lábios de Stella nesse contexto, foi outro choque. Eu nem sequer perguntei quem era Sarah Winnemucca. Outro dia, outra história. — Nós escrevemos cartas por quase um ano. Até então eu estava trabalhando para Larry Shivwa, que mais tarde trabalhou na Administração Carter em Relações Indígenas. — Stella se apressou. — Jimmy queria estar mais perto de mim. Ele veio para o Oeste... Só para estar perto de mim. Ele era um entalhador extremamente talentoso. Ele havia recebido algum reconhecimento nacional por seu trabalho, e começou a vender suas esculturas. Ele estava guardando para abrir uma loja... — Sua voz diminuiu, e ela parecia relutante em continuar. Mas o tempo para o silêncio era passado, e eu empurrei-a para frente. — Stella? Eu preciso que você me diga o que aconteceu — Eu exigi, forçando-a a olhar para mim. Seus olhos estavam cheios de pesar e os ombros se estreitaram com a derrota.


— Jimmy pegou suas economias e comprou uma caminhonete e um trailer de acampamento. E ele veio aqui. Ele sabia que o meu pai não apoiaria um casamento nesse momento. Minha carreira estava realmente decolando. E eu tinha a responsabilidade da minha comunidade. Fui a primeira da minha família a me formar na faculdade, e uma das primeiras meninas Paiute. Eu estava preparada para coisas maiores. Assim... Vimos um ao outro pelas costas dos meus pais. Eu estava irritada com eles. Eu era adulta e Jimmy era um bom homem nativo. Eu não entendia por que não poderia ter as duas coisas. Mas eu lhes dei razão no final. E, sinceramente, eu os culpava porque era mais fácil do que culpar a mim mesma. Eu usei meus pais como desculpa. A verdade é que eu era ambiciosa, e temia perder a minha ambição. Eu temia tornar-me como a minha mãe, presa em uma reserva, pobre, sem ser notada, banal. — O que aconteceu? — Wilson perguntou. — Jimmy Carter foi eleito presidente em 1976 e eu fui convidada para voltar e trabalhar em Washington, DC no escritório de assuntos indígenas como assistente do secretário Shivwa. Meu pai tinha certeza de que seria fundamental na obtenção da reintegração do status tribal Paiute. Então eu fui. Jimmy nunca me disse para não ir. Ele me disse que me amava... Mas ele nunca me pediu para ficar. — Eu descobri cerca de seis semanas mais tarde que eu estava grávida. Eu fiquei em Washington DC até que o meu patrão, que era um bom amigo dos meus pais, chamou-os e me delatou. Nessa época, eu estava grávida de sete meses, e não era capaz de esconder a minha figura em vestidos e xales de cintura alta. Eu estava grande demais para voar para casa, então eu fiquei, mesmo que estivesse envergonhada e meus pais se envergonhassem. Quando Winnie nasceu, deixei Washington DC e voltei para casa. Mas Jimmy estava muito longe. E eu orgulhosa demais para encontrá-lo. — Jimmy não sabia? — Eu sussurrei, devastada pelo homem que me criou. — Eu nunca disse a ele. — Mas então... Como foi... Como é que ele me encontrou? — Eu não tinha outra conclusão a tirar. De alguma forma, Jimmy tinha me encontrado... E ele tinha me tirado de minha mãe.


— Eu não sei — Stella sussurrou. — Isso não faz nenhum sentido. — Winona nunca soube quem era o pai dela? — Wilson perguntou gentilmente. Ele era o único que parecia capaz de amarrar dois pensamentos juntos. — Nós lhe permitimos pensar que meus pais eram seus pais. Eu os chamava de mamãe e papai, e isso era como ela chamava também, e todos nós vivíamos juntos quando eu não estava viajando. Minha mãe a educou, enquanto eu continuei a trabalhar com a ligação para Assuntos Indígenas. E, em 1980, o presidente Carter assinou a legislação que restaurou o reconhecimento federal para as tribos e Paiute teve a sua reserva Paiute. Eu gosto de pensar que tenho algo a ver com isso. Isso fez a bagunça que eu tinha feito da minha vida pessoal um pouco mais fácil de suportar. — Mas o que dizer de Jimmy? — Eu sussurrei atordoada que ele poderia nunca sequer saber que tinha um filho. O Jimmy que eu conhecia tinha vivido tão simples e teve tão pouco. Eu senti a raiva crescendo em meu peito com esta mulher que nunca tinha contado a ele sobre sua filha. — Eu não sabia como encontrá-lo, Blue. Eu deveria ter tentado mais, eu sei. Mas era uma época diferente. Na década de 1970, você não apenas fazia um rápido telefonema para uma reserva indígena. Na verdade, dificilmente você pode fazer isso agora! Eu consegui algum contato com a mãe de Jimmy, mas ela morreu alguns anos depois de Winona nascer. O irmão de Jimmy disse que não sabia onde ele estava. Fiquei bastante conflituosa. Eu amava Jimmy, mas eu o havia trocado por meus sonhos... E eu o perdi. Eu pensei que algum dia iria encontrá-lo outra vez, e talvez fosse capaz de explicar. — Talvez Winona quisesse encontrá-lo — Wilson ponderou em voz alta. — Ela foi vista em Oklahoma. Por que outro motivo ela teria ido para Oklahoma? — Mas... Eu não acho que tenha Jimmy voltado. Ela não o teria encontrado ali — Stella protestou, claramente confusa com tudo isso. — Mas ela não saberia isso, saberia? Existe alguma maneira que ela poderia ter descoberto quem era seu pai? — Meu pai faleceu quando Winnie tinha quinze anos, e minha mãe morreu no ano seguinte. Suas mortes foram muito difíceis para Winnie. Eu


decidi que era hora de dizer a ela que eu era a sua mãe. Eu pensei que iria fazê-la se sentir menos sozinha, e não mais ainda. Eu pareço não ter muito bons instintos com essas coisas, porque ela não lidou com isso também. Ela queria saber tudo sobre o pai dela... Sobre o porquê de ele não ficar por aqui. Eu tive que explicar que a culpa foi minha. Mas eu poderia dizer que ela não acreditou em mim. Mostrei-lhe algumas fotos dele. Eu me pergunto se ela era a pessoa que as levou — Stella pôs o dedo nos espaços vazios, enquanto continuava com a sua história. — Ela começou a dar problemas na escola. Ela teve alguns desentendimentos com a polícia sobre drogas. Não muito tempo depois que ela ficou grávida. Todos falavam que seu pai a deixou. E eu pensei que ela tinha deixado isso para trás, que ela mudou-se para outras preocupações. Nós nunca falamos sobre seu pai de novo. Stella Hidalgo começou a colocar o álbum de fotos de volta na caixa quando ela hesitou e sentiu algo dentro da caixa, puxando vários itens de lá. — As cartas não estão aqui — Anunciou e olhou para mim. — As cartas se foram! Eu mantive todas as cartas de Jimmy. Elas estavam aqui. Eu não abri esta caixa dede que mostrei as fotos a Winona, há mais de vinte anos atrás. — As cartas teriam lhe dado algumas informações valiosas, incluindo um endereço de retorno — Wilson respondeu. Stella balançou a cabeça, e ficou em silêncio enquanto digeria a possibilidade de que Winona tinha ido à procura de seu pai. — A última vez que falei com Winnie, ela continuou reclamando sobre os homens que nunca assumem a responsabilidade... Sobre as injustiças da vida — A voz de Stella estava pensativa, e sua expressão sugeria que ela estava examinando a memória. — Eu apenas achei que ela estivesse falando sobre Ethan. Ela disse que iria enfrentá-lo e fazê-lo responder pelo que tinha feito. Eu pensei que ela estava falando de Ethan — Stella insistiu mais uma vez, quase suplicante. — Eu estava com medo. Ela estava com tanta raiva e não falava sobre isso. Eu mesmo liguei para Ethan e avisei. Eu não gostava de Ethan Jacobsen, ou seus pais, mas não queria machucá-lo, pelo amor de Winnie, tanto quanto para o seu próprio. — Ela não encontrou Jimmy em Oklahoma, mas talvez o irmão de Jimmy lhe contasse sobre Cheryl — Eu disse, remoendo as possibilidades.


Stella franziu o cenho para mim, claramente confusa. — Cheryl? Cheryl era um pouco mais jovem do que Jimmy. Ela tinha apenas doze anos quando Jimmy e eu nos encontramos, e ela não vivia na reserva. Sua mãe era uma garota branca que teve um caso com o pai de Jimmy. Eu só sabia sobre ela, porque Jimmy tinha um monte de ressentimentos em relação a seu pai, e o caso foi uma grande parte disso. Era difícil imaginar Cheryl aos doze anos. Ela estava em seus quarenta e tantos anos agora e não gostava muito de sua idade. — Cheryl vive em Nevada. Ela me levou quando Jimmy morreu — Eu disse, esperando que a morte de Jimmy não viesse como um choque, mas a minha avó balançou a cabeça como se soubesse. — O irmão de Jimmy me enviou uma carta quando encontraram os restos de Jimmy. Ele nunca mencionou nada sobre você — Disse Stella, entre lágrimas. — Por que ele faria? Eu nunca conheci nenhum deles. Eles não sabiam nada sobre mim — Eu expliquei. Ficamos em silêncio, cada um de nós mentalmente desenrolando o emaranhado de segredos e suposições que nos havia levado a este ponto da história. — Jimmy disse que me encontrou em uma mesa de restaurante. Eu estava dormindo. Ele esperou comigo até minha mãe voltar. Ele contou a Cheryl que minha mãe agia estranha, mas ele pensou que era porque ele era um estranho, sentado com sua filha. Talvez fosse porque ela o tenha reconhecido, e ele a pegou de surpresa. — Nós sabemos que Jimmy não prejudicou a sua mãe, Blue. A polícia encontrou o homem que fez isso — Wilson ofereceu enfaticamente, como se ele soubesse onde meus pensamentos tinham andado. — Jimmy nunca teria ferido uma alma — Stella concordou. — Mas eu não entendo como você acabou com ele. — Ele disse que eu estava dormindo no banco da frente de sua caminhonete na manhã seguinte. — Então foi isso que aconteceu — Disse Stella com firmeza. — Jimmy Echohawk não era um mentiroso. Winona deve tê-lo seguido e deixou você com ele. Talvez ela planejasse voltar. Talvez quisesse forçá-lo a reconhecê-


la. Talvez ela estivesse sob efeito de drogas, ou desesperada... — Stella ofereceu desculpa após desculpa antes que sua voz desaparecesse. Quaisquer que sejam suas razões, Winona tinha feito isso e ninguém nunca realmente saberia o porquê. — Jimmy era meu avô — Fiquei maravilhada, de repente chegando à conclusão de que tinha sido óbvio desde que a minha avó me mostrou uma foto dele. — Meu nome é realmente Echohawk — E de repente, eu não sentia vontade de chorar mais. Sentia vontade de rir. Senti vontade de jogar as minhas mãos para cima e dançar, louvando e rezando. Eu gostaria de poder falar com o Jimmy. Para dizer a ele que eu o amava. Para dizer a ele o quanto eu sentia por duvidar dele às vezes. Wilson e Stella estavam me observando, e o maxilar de Wilson estava tenso e seus olhos brilhavam de emoção. Inclinei-me e o beijei nos lábios, bem na frente da minha avó. Ela teria que se acostumar com isso. Então eu olhei para ela e falei diretamente. — Quando Cheryl me disse que Jimmy não era meu pai, foi o pior dia da minha vida. Eu o tinha perdido, não só fisicamente, mas em todos os sentidos. Eu não tinha ideia de quem eu era. Eu me convenci de que não sabia quem ele era — Fiz uma pausa para encurralar a emoção que queria transbordar. — Mas ele era meu o tempo todo. E eu era dele. Stella tinha começado a chorar. Quando eu terminei de falar, ela cobriu o rosto com as mãos, e um gemido de tal tormento quebrou livre que eu me ajoelhei na frente dela e fiz algo que nunca teria sido capaz de fazer antes de Wilson. Ele chorava comigo, me segurava, me apoiava, me empurrava para frente, e não pedia nada em troca. E porque ele tinha feito isso por mim, eu fui capaz de colocar meus braços em volta dela. Abracei-a com força, e não queria deixá-la ir. Eu a senti ceder contra mim, e então ela se agarrava a mim desesperadamente, chorando, sofrendo por um homem que havia maltratado, por uma filha que tinha falhado, e por uma neta que ela tinha perdido. Tantos segredos, tantas escolhas erradas, tanta dor.


Capítulo Trinta Firmamento No final, eu fui ver Ethan Jacobsen, também. Eu estava cansada de segredos, cansada de esqueletos, cansada de não saber. Eu estava tremendo as teias de aranha e derrubando as pesadas cortinas, deixando a luz brilhar em uma vida que não tinha sido nada além de cantos escuros. Não foi uma longa reunião, nem particularmente agradável. Ethan Jacobsen era apenas um cara normal com uma mulher gorda, um casal de filhos lindos loiros Saylor e Sadie - e um cão fedorento. Meu pai parecia em nada com a sua imagem de colegial. Sua expressão juvenil e seu cabelo loiro espetado foram substituídos por um sorriso benigno e uma cabeça careca. Ele havia ficado gordo e envelhecido. A única coisa que o tempo não tinha alterado foram seus olhos azuis. Ele olhava para mim com aqueles olhos azuis, e eu estava certa de que ele notou que eu tinha também. Eu tinha certeza que ele notou o meu cabelo preto, pele morena e a semelhança que eu tinha com uma garota que certa vez ele se preocupou, pelo menos por um tempo. Mas ele não me negou. Ele me disse que era meu pai e que gostaria de me conhecer. Ele me perguntou sobre a minha vida, meus sonhos e meu futuro com Wilson. Eu respondi vagamente. Ele não ganhou o direito a confidências. Mas talvez um dia. Eu prometi que entraria em contato. Eu queria ficar e conhecer as minhas irmãs. Cedar City ficava apenas cerca de três horas de Boulder City, e eu estava disposta a dirigir. A família tinha tomado uma nova importância para mim, porque eu tinha uma filha que um dia iria querer todas as respostas. E eu gostaria de ser capaz de dar a ela. Cada detalhe.

Eu perguntei a minha avó uma vez se valeu a pena... O trabalho que ela tinha trocado pelo meu avô. Eu não queria machucá-la, mas precisava entender. Ela desfiou um monte de fatos e detalhes interessantes.


— Bem, em 1984, os Paiutes receberam 4.470 acres de terra espalhados pelo sudoeste de Utah e um fundo de US $ 2,5 milhões do que podemos chamar do interesse para o desenvolvimento econômico e os serviços tribais. Nosso sistema de saúde é muito melhor, bem como as nossas oportunidades de educação. Temos sido capazes de construir novas casas, abrir e operar algumas fábricas. Mas temos de continuar lutando por direitos da água, para manter a nossa terra, para manter nosso povo prosperando. Há sempre trabalho a ser feito — Ela sorriu, mas suas mãos tremiam, e ela teve dificuldade em olhar em meus olhos. Depois de um tempo, ela voltou a falar. — A verdade é que, em um nível pessoal, realmente não valeu a pena, Blue. Quando está tudo dito e feito há tantas causas nobres, muito trabalho a ser feito, tanta coisa boa a fazer, mas sacrificar tudo por uma causa que tende a tornar-se um porta-voz em vez de um amante, um organizador em vez de uma esposa, uma lutadora em vez de uma mãe. Eu dei tudo em nome de um bem maior, mas veja quantas pessoas machuquei. Olhe para o efeito em cascata de pensar que o trabalho da minha vida era mais importante do que as pessoas nela.

— Eu estive pensando sobre essa história, o que você me disse quando Melody nasceu — Wilson falou com a testa e lábios franzidos. Ele vinha praticando seu violoncelo na minha pequena sala de estar, fazia isso todas as noites, a menos que eu estivesse esculpindo, nesse caso enchia o porão com a música doce e lixamento. Os dias escutando sob a saída de ar estavam muito longe. — Aquela que você disse que era uma droga? — Murmurei, desejando que ele fosse tocar outra música. Eu estava meio dormindo na minha poltrona, os tons profundos deixando-me tranquila e sonolenta. Era como um elixir, e eu a viciada em ambos, o homem e sua música. — Sim. Foi horrível. E pensar que você evitou Ivanhoe. Qual era o nome do caçador de novo? — Waupee. White Hawk.


— Correto. White Hawk amou uma menina estrela, eles estavam felizes juntos, mas ela decidiu levar seu filho e flutuar para o céu, deixando-o para trás. — Então, por que você tem pensado sobre isso? — Eu bocejei, concluindo que ele não ia tocar mais nada até que tivesse falado o que estava incomodando. — Eu percebi que é a história de Jimmy — Wilson arrancou suas cordas distraidamente com seus olhos luminosos sem foco, distraído com seus pensamentos. — Stella flutuou para longe e levou seu filho. Até o nome é semelhante. Eu não tinha pensado nisso. Mas Wilson estava certo. Era muito parecido com a história de Jimmy. Exceto Jimmy não conseguiu um final feliz. — Mas a jovem estrela voltou a White Hawk, Wilson. Eu não terminei a história. Seu filho perdeu seu pai, de modo que a donzela estrela voltou para ele. — Você sabia que Stella significa estrela? — Wilson interrompeu, como se tivesse acabado de tropeçar no entendimento. — Não. É? — Sim. Portanto, temos um falcão e uma estrela. E uma Sapana — Wilson contou cada nome em seus dedos. — É a sua história — Ele ficou maravilhado. Eu balancei a cabeça, discordando. — Jimmy nunca recuperou sua família. O pai da donzela estrela transformou a filha e Waupee e seu filho em falcões para que eles pudessem voar entre o céu e a terra e ficarem juntos. Mas nenhum de nós nunca vai estar juntos. — Mas você voltou para Jimmy, Blue. Você e ele estavam juntos. — Eu acho que eu voltei — Eu concordei. — Mas não é Sapana nessa história, amor — Eu sorri para ele com ternura, usando sua própria expressão de carinho. — Ela tem uma história só dela. Wilson pousou seu violoncelo e levantou-se, inclinando-se sobre a cadeira até que pairou apenas alguns centímetros acima de mim com os olhos cinzentos no azul, sua boca na minha. Ele falou contra os meus lábios.


— É claro que sim... Savana Blue. E é uma história esperando ser contada. — Um pouco de melro, empurrada do ninho? — Eu sussurrei, passando os braços ao redor de seu pescoço. — Ou colocada lá. É tudo da forma como você conta a história.

— Era uma vez havia um pequeno pássaro que foi colocado em um ninho. Procurado. Amado. Sem medo, porque sabia que era um falcão, um pássaro bonito, digno de reverência, merecedor de amor...

FIM


Sobre a Autora

Amy Harmon sabia desde cedo que escrever era algo que ela queria fazer, e ela divide seu tempo entre escrever canções e histórias como ela cresceu. Tendo crescido no meio de campos de trigo sem uma televisão, com apenas seus livros e seus irmãos para entretê-la, ela desenvolveu um forte sentimento de que fez uma boa história. Amy Harmon tem sido um palestrante motivacional, uma professora de escola primária, um alto professor júnior, uma mãe da escola para casa, e um membro do Prêmio Grammy Award winning Saints Unified Voices Choir, dirigido por Gladys Knight. Ela lançou um CD blues cristão em 2007 chamado "What I Know” (O que eu sei) -também disponível na Amazon. Seus dois primeiros livros, "Running Barefoot" e "Slow Dance in Purgatory" são ricos em humor, coração e rápido contação de histórias. Para mais informações sobre Amy e seus livros, acesse: Website Facebook Goodreads Twitter


{1}

Stowaway – Passageiros clandestinos

{2}

Burrito é um célebre prato tradicional da culinária do México consistindo de uma tortilla de farinha geralmente recheada com carne {3}

NCIS – National Criminal Intelligence Service – Departamento de investigação do governo norte americano. {4} Algaroba - é uma árvore da família das leguminosas. {5} Chica – menina em espanhol. {6} O MI6 (oficialmente designado Secret Intelligence Service ou SIS) é o serviço britânico de informações (ou de inteligência). {7}

Quesadilla é uma comida típica mexicana feita com tortillas recheada de queijo e grelhadas para fundir o queijo. {8} Ramen ou lamen é um macarrão instantâneo. {9}

Dealer – também são conhecidos como crupiês, são profissionais de cassinos ou salas de jogos que são responsáveis pelo manejo da mesa do jogo, controle das apostas e também por manter a integridade da disputa e fidelidade às regras. Quem distribui as cartas nas mesas de jogos de baralhos. {10} Dremel é uma marca de ferramentas {11}

Mesquite é uma planta leguminosa do gênero Prosopis encontrada no norte do México e Estados Unidos da Fronteira Estados Unidos-México no Texas até o sudoeste do Kansas e do sudeste da Califórnia. 12 Zimbro é um arbusto perene da família das cupressáceas que, geralmente, não atinge mais de 1 metro de altura. {12} PBS - Public Broadcasting Service é uma rede de televisão estadunidense de caráter educativo-cultural, em contraponto às grandes redes comerciais que operam no país. Possui em sua programação documentários, telejornais e programas educativos. {13}

Pawnee também conhecidos como Paneassa, Pari ou Pariki, é uma tribo nativa norte-americana, que atualmente vive no estado de Nebraska e no norte do estado de Kansas. {14}

Arthur é uma série para televisão feita especialmente para as crianças. É uma produção canadense e norte-americana, sucesso no mundo inteiro, produzida desde 1996.


{15}

Antiques Roadshow é um programa de televisão britânico no qual avaliadores de antiguidades viajam para várias regiões do Reino Unido (e, ocasionalmente, em outros países) para avaliar antiguidades trazidas pela população local. Ele está em funcionamento desde 1979. Há também versões internacionais do programa. {16} Moises – Referência a Moises (bíblia) que foi abandonado no rio Nilo. {17}

Bloody – no inglês americano seria sangrento, na no britânico seria um advérbio usado para dar ênfase a alguma coisa. {18} Bugger – no inglês americano seria sodomita, e no britânico indesejado {19} Blast - no inglês americano também pode significar um barato, o máximo, e no britânico explosão, explosivo. {20} Spinners – um aro adicionado ao pneu que gira quando o carro está parado e faz com que as pessoas continuam olhando, pensando que estão vendo coisas. {21}

Ele faz referência a Blue ter idade para cursar ano posterior. {22} No original a palavra usada foi pants que no inglês americano significa calças, já no britânico seria roupa íntima (cueca, calcinha) {23} Planned Parenthood - ONG que dá principalmente informações educacionais para as pessoas. Fornece a pílula, Pílula do dia seguinte, contracepção de emergência, testes de HIV, gravidez, aborto e aconselhamento. {24}

Knickered - esfregar calcinha suja no rosto.

{25}

Larry and Curly – personagens dos filmes Os Três Patetas, comédia americana dos anos de 1930 a 1970. {26}

Daisy Dukes – Ela faz referência ao personagem Daisy Duke da série americana The Dukes of Hazzard que usava shorts extremamente curtos. {27} Giles – personagem da série de televisão americana Buffy A Caça Vampiros. {28} Cinnamon bears – marca de doce em formato de urso. {29}

Skitlles – marca de doces – balas, gomas. {30} Chocolate kisses - é uma marca de chocolate fabricado pela The Hershey Empresa. Os pequenos pedaços do chocolate tem uma forma distinta, comumente descrito como lágrimas de fundo chato.


{31}

Mary Had a Little Lamb - ("Maria tinha um carneirinho") é uma música para crianças estadunidense do século XIX, cuja letra é atribuída a Sarah Josepha Hale. {32} Betty White- Betty Marion White é uma apresentadora, atriz, comediante e escritora americana, premiada com sete Emmys durante sua carreira. {33}

Tome - livro, especialmente um grande, pesado, um acadêmico {34} Loss – Perda em inglês. {35} Giselle- a autora faz referência ao balé Giselle do compositor de ópera francês Adolphe Adam. 37 Scary Spice – Pseudônimo de Melanie B, integrante da banda britânica Spice Girls. {36} The Golden Girls foi uma sitcom de grande êxito popular da NBC, exibida de 1985 a 1992 e que teve como protagonistas as atrizes Beatrice Arthur, Betty White, Rue McClanahan e Estelle Getty. {37}

Maquiagem dramática – É uma tendência popular que dá a seus olhos aparência de "olhos de gato", "olhos esfumaçados", "olha sedutor". {38}

Slot – jogo de cassino. {39} Maçons - Maçonaria, é uma sociedade discreta e por essa característica, entende-se que se trata de ação reservada e que interessa exclusivamente àqueles que dela participam. {40} The Colbys - foi uma novela em horário nobre americano, que foi originalmente exibido na ABC a partir de 20 de novembro de 1985 a 26 de março de 1987. {41}

Garmin (GPS) é uma empresa multinacional e fabricante de equipamentos de navegação.

Diferente blue amy harmon  
Diferente blue amy harmon  
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