ODEIO ESTE TEMPO DETERGENTE 2019

Page 1

© Nuno 'Azelpds' Almeida

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

ODEIO ESTE TEMPO DETERGENTE 6 A 10 MARÇO 2019

UMA ODISSEIA EM 17 POEMAS DE RUY BELO DIREÇÃO ARTÍSTICA ANA NAVE


À conversa com Ana Nave, encenadora, e Rui Lagartinho, responsável pela seleção de poemas e pela dramaturgia de Odeio Este Tempo Detergente

encenado pelo Luís Miguel Cintra. A poesia de Ruy Belo fala de coisas muito etéreas, muito espirituais, mas, ao mesmo tempo, também é comezinha no sentido em que a consciência do poeta é uma constante, como se fosse uma missão: “Estou aqui na vida para fazer versos”. Neste espetáculo, tento que quem não saiba quem era Ruy Belo passe a conhecê-lo um pouco melhor e que quem já tenha alguns ecos, fique a conhecer outras coisas. Tentei também, modestamente, que houvesse alguma narrativa. Tentei que existissem várias portas, várias etapas, várias formas de interpretar.

Este espetáculo nasceu de um desafio de Teresa Belo, viúva de Ruy Belo, depois de a Ana Nave ter criado, em 2015, Portugal, Meu Remorso, a partir da poesia de Alexandre O’Neill. Não se sentiu intimidada com a proposta? Ana Nave: Não, porque esse desafio foi feito logo a pensar no Rui Lagartinho, que também já tinha feito, com a Maria Antónia Oliveira, a dramaturgia no espetáculo de O’Neill, e eu tinha muita vontade de voltar a encenar poesia portuguesa. Senti que ia estar muito acompanhada na seleção de textos, por isso, fiquei entusiasmada e nada assustada. Como foi feita a seleção dos 17 poemas que levam para o palco? Rui Lagartinho: Tinha na cabeça dois ou três poemas de que gosto muito, a que se juntou o conhecimento sobre a personalidade do Ruy através de conversas ocasionais com a Teresa Belo, ao longo dos anos. Também me lembrei de um espetáculo a partir de Ruy Belo, de que gostei muito, que vi no Teatro da Cornucópia há cerca de 30 anos, Na Margem da Alegria, 2

sapatos dele e interpretamos a poesia, eu e a Maria João Luís, com o José Peixoto também em palco. Partilhamos uma interpretação nossa destes poemas, acrescentamos alguma coisa como pessoas que vivem hoje e que hoje leem Ruy Belo. É como se fosse um parêntesis, uma paragem no tempo. Viramos as costas à cidade, entramos nesta bolha e pomo-nos os três nos pés de um homem que é um poeta. Ficamos numa suspensão, paramos, existimos apenas neste tempo, neste espaço efémero, neste Teatro.

Porque pôr poesia em palco não é só ter alguém a dizer poesia… R.L.: Não, é levantar um espetáculo, é levantar palavras, e depois já não é a mesma coisa de quando se alinham os poemas. A ideia era ter narrativa, princípio, meio e fim, ter os temas: o que faço aqui, para onde vou, porque cheguei nesta altura… Em vez de serem duas diseuses, que dizem alternadamente os poemas, existem atmosferas que se criam e que nascem da interpretação daquilo que elas sentem.

O que procuram nessa paragem? R.L.: Parar para que se estabeleça uma certa intimidade com a obra de Ruy Belo. É uma odisseia no sentido de viagem, mas também no de descoberta. Que a relação que as pessoas têm com a poesia de Ruy Belo possa não ser a mesma depois de passarem aqui pelo São Luiz. Se conseguirmos que exista um antes e um depois é bom. A.N.: Que sirva para se pensar acerca de Ruy Belo em 2019. É redescobri-lo, por vezes, parece esquecido. Queremos trazê-lo a ele e às suas inquietações.

Por isso lhe chamam “uma odisseia em 17 poemas”? A.N.: É uma viagem pelas ideias de Ruy Belo, onde está sempre presente a noção de morte e da vida a passar… Pomo-nos nos

Que inquietações? A primeira vez que li Ruy Belo, quando era muito nova, impressionou-me a ideia de finitude. Foi uma grande paz quando li os seus poemas. Acho que na

instabilidade que é toda a obra dele, um desassossego, há uma paz por esta certeza de finitude, desse tempo de vida que é curto, dessa ideia de que pertencemos todos a esta raça dos mortos, como ele lhe chama. Essa consciência não é uma luta… dá uma paz. Acredito que se toda a gente lesse Ruy Belo tudo isto seria mais sossegado. R.L.: Mas, atenção, é uma paz que não é de alguém que está desenraízado da realidade. Ruy Belo escreve sobre o aborrecimento das tardes de domingo. E sobre o desencantamento com a religião, Os Vencidos do Catolicismo é um poema célebre. E as casas, a praia, as árvores, os pássaros… eles já lá estavam antes de nós e vão ficar quando partirmos. Se pensarmos nisso já é muito bom… Existe também uma análise da realidade, a poesia como arma. Não deixa de ser uma poesia política, implicada e revoltada. Há aqui um desânimo que é português. É essa paz que nos salva na poesia de Ruy Belo? A.N.: Sim. E esta ideia de que somos contemporâneos, de que passamos uns pelos outros, nos influenciamos uns aos outros, estamos juntos neste grãozinho de areia da história da humanidade. R.L.: Salva-nos essa tal “margem da alegria”, uma certa margem de podermos comandar as nossas vontades e os nossos sonhos.

A.N.:

3


É nesse sentido que este espetáculo é de intervenção? A.N.: Encenar poesia, de alguma maneira, é intervir, é chegar às pessoas. Não desvalorizando os recitais, acho que esta forma de nos envolvermos na poesia nos faz chegar ainda mais às pessoas. Mas também acho que se pode dizer que é um espetáculo de entretenimento. Sem medo da palavra.

© Estelle Valente

Percebeu, desde o início, que não queria estar sozinha em palco? A.N.: Quis juntar pessoas para pensarmos uma leitura destes poemas hoje. Queremos que estes poemas se aproximem das pessoas que vêm ver o espetáculo e que lhes criem curiosidade por este poeta que é maravilhoso.

6 a 10 março teatro estreia

ODEIO ESTE TEMPO DETERGENTE A PARTIR DA OBRA DE RUY BELO DIREÇÃO ARTÍSTICA: ANA NAVE Quarta a domingo, 19h Sala Bernardo Sassetti; m/12 €12 com descontos CONVERSA COM OS ARTISTAS

9 março, sábado

Direção artística: Ana Nave; Interpretação: Maria João Luís e Ana Nave; Seleção de poemas e Dramaturgia: Rui Lagartinho; Direção musical e interpretação: José Peixoto; Desenho de luz e Direção Técnica: João Cachulo; Operação técnica em digressão: João Cachulo e Sérgio Joaquim; Vídeo e fotografias: Nuno ‘Azelpds’ Almeida; Figurinos: Rafaela Mapril; Produção executiva: Mónica Talina e Vítor Alves Brotas; Apoio à circulação: Fundação GDA Uma encomenda São Luiz Teatro Municipal em coprodução com Arte33

Entrevista realizada em fevereiro 2019, por Gabriela Lourenço / Teatro São Luiz

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

Direção Artística Aida Tavares Direção Executiva Joaquim René Assistente da Direção Artística Tiza Gonçalves Programação Mais Novos Susana Duarte Adjunta Direção Executiva Margarida Pacheco Secretária de Direção Soraia Amarelinho Direção de Produção Mafalda Santos (Diretora), Andreia Luís, Catarina Ferreira, Margarida Sousa Dias, Mónica Talina, Tiago Antunes Direção Técnica Hernâni Saúde (Diretor), João Nunes (Adjunto) Iluminação Carlos Tiago, Nuno Samora, Ricardo Campos, Sérgio Joaquim Maquinistas António Palma, Paulo Lopes, Paulo Mira, Vasco Ferreira Som João Caldeira, Gonçalo Sousa, Nuno Saias, Ricardo Fernandes, Rui Lopes Vídeo João Van Zelst Manutenção e Segurança Ricardo Joaquim Direção de Cena Marta Pedroso (Coordenadora), Maria Tavora, Sara Garrinhas, Ana Cristina Lucas (Assistente), Rita Talina (Camareira) Direção de Comunicação Elsa Barão (Diretora), Ana Ferreira, Gabriela Lourenço, Nuno Santos Bilheteira Cristina Santos, Diana Bento, Renato Botão

TEATROSAOLUIZ.PT