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O QUE O LIGA A ESTA CASA?

O QUE TE LIGA A ESTA RITA CALÇADA BASTOS MARTA BERNARDES ANDRÉ MURRAÇAS GONÇALO SOUSA CRISTINA SANTOS CASA? Fotografias de Estelle Valente

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RITA CALÇADA BASTOS

Encenadora de Se Eu Fosse Nina, em cena de 8 a 18 de março

A minha ligação a esta casa vem como espectadora desde há muitos anos a esta parte e vem também do lugar de renascimento enquanto mulher, mãe e atriz no projeto Filhos das Mães. Um projeto muito querido feito com mais cinco atrizes, mães e amigas em que se falava sobre a maternidade e em que nossos filhos de 2 anos entravam. Foi a partir dessa data que me liguei aqui, que me senti aqui. O lugar que acolheu também os nossos filhos. Não importa só ter uma casa. Importa saber quem mora na casa. E aqui, estas pessoas que fazem parte desta casa, que fazem esta equipa, estas pessoas que moram nesta casa, não param, não esmorecem, não desistem, mesmo quando já não aguentam o cansaço, mesmo quando aparece um bicho manhoso que fará para sempre parte da nossa história. Eu vi. Inventam, recriam, desdobram-se, não baixam os braços. Esta é a minha casa: A casa que também me acolhe enquanto criadora e que, sem hesitar, manifesta a franca vontade que esta ligação se torne profunda. A casa que marca o meu regresso à encenação. O lugar que me protege, que me ampara, que me aquece e diz sem medo: “Eu acredito em ti!” Há casas que nunca se esquecem. Caramba, valeu a pena esperar!

MARTA BERNARDES

Encenadora de Plano Comensal de Leitura, em cena a 27 e 28 de fevereiro

A esta Casa liga-me o que me liga a qualquer sítio a que posso chamar casa (eu que, em boa verdade, habito o mundo como hóspede): a empatia, a generosidade e a absoluta liberdade com que sou sempre aqui recebida. Uma casa de tantas Mulheres, que trabalham diariamente para que uma equipa se desdobre em afazeres e em entrega, porque desengane-se quem acha que por de trás de uma casa serenamente aberta não há um turbilhão de tarefas altamente especializadas: desde a Técnica à Bilheteira, da Limpeza à Programação, da Segurança às Secretárias, Tudo tantas vezes cumprido até à exaustão (cansaço contínuo que nenhum salário paga verdadeiramente). O São Luiz é casa porque há espaço para a coisa mais importante da vida que é a fabricação de alegria: das mais altíssimas formas de transformar e conhecer o mundo. A estas alturas de gargalhada é preciso voltar, muitas e muitas vezes, como um labor afincadamente político e poético.

ANDRÉ MURRAÇAS

Encenador de Cabaret Repórter X, em cena de 13 a 31 de janeiro

Não me lembro da primeira vez que aqui entrei. Lembro-me da última vez da Pina a dançar, recordo-me do Festival da Canção que aparecia na televisão e dos travestis que não via ao vivo – só nas revistas na semana seguinte. Guardo também memória de ver um dos meus mais estimados encenadores no seu menos bem – ainda hoje não recuperei. Gostava de ter aqui estado no tempo dos seus fantasmas. Conviver com as irmãs Irma e Emma Gramatica que ainda hoje habitam o espaço e me assombraram um espetáculo que aqui fiz sobre elas. Cruzar-me com Sarah ou Eleonora Duse – é verdade que chegou a haver espetáculos onde a diva combatia com um canguru? Gostava de ter assistido às peças do Reinaldo Ferreira que por aqui passaram depois de serem êxitos de jornal e ter sido público do sarau que os amigos de Botto lhe organizaram para ele fugir para o Brasil. E que bom que é ser surpreendido por um novo criativo em cena… No fundo, esta casa permite-me entrar e sair para junto desta gente quando quiser. E isso é o melhor do mundo.

GONÇALO SOUSA

Técnico de Som

É toda uma entrega de uma vida a uma arte e a um ofício. Desde os meus dez anos de idade, em que comecei a aprender o meu primeiro instrumento musical, abriram-se as portas a toda uma descoberta e um caminho que me iriam trazer até aqui. Tive a sorte de ter acesso a tecnologias e com o passar dos anos, na busca de conhecimento e nas experiências que criava, a música, as ciências acústicas e a tecnologia do áudio tornaramse uma obsessão. Soube desde muito cedo o sentido que queria seguir e depois de todo este tempo, ter vindo para esta casa, acabou por ser a maior e mais feliz coincidência. Aqui, no São Luiz, onde posso pôr em prática este ofício que se demonstra invisível, mas que se sente e dá sentido e forma às ideias, à forma de comunicar e fazer chegar a mensagem. É esse o desafio e nesse desafio o uso da imaginação, da arte e da ciência. Mas mais do que o me liga a esta casa, gosto de pensar que me sinto uma ligação da casa, assim como todas as pessoas que por cá passam e deixam uma parte de si. Assim como as veias do nosso corpo transportam o sangue e os nutrientes, somos nós as ligações que dão vida e sentido ao São Luiz. Uma casa vazia ficaria entregue à crescente entropia, à oxidação do tempo e ao efémero. Nós somos essa contrariedade e é para mim uma honra fazer parte dela, todos os dias.

CRISTINA SANTOS

Assistente de Bilheteira

O que me liga a esta Casa é uma enorme gratidão por me abrirem as portas e receberem de braços abertos. O que me liga a esta Casa são também as pessoas, porque afinal são as pessoas que fazem das casas lares. O que me liga a esta Casa é o estar cheia de gente tão diferente e serem tão iguais no mesmo objetivo: pôr um brilhozinho nos olhos de quem nos visita. E que bom que é fazer parte disso .

Desde 2007 que o São Luiz tem sessões com tradução em Língua Gestual Portuguesa. À boca do palco, viradas para a plateia, sentam-se as intérpretes que contam a história a quem não ouve os atores nem os sons de cena. Um trabalho minucioso que começa muito antes da estreia FAZER TEATRO Texto de Gabriela Lourenço

COM AS MÃOS Fotografias de Estelle Valente

Uma mão com a palma virada para baixo e a outra com dois dedos esticados como se andassem sobre a primeira – assim se diz “estar em palco” em Língua Gestual Portuguesa (LGP). Ana Sofia, Sandra, Ana e Sandra raramente sobem ao palco, mas são elas que traduzem para quem não ouve tudo o que ali se passa. Intérpretes de LGP, as duas Anas e as duas Sandras não têm apenas os nomes em comum. As quatro partilham um gosto enorme pelo trabalho que fazem nas sessões com tradução em LGP, ao longo das sucessivas temporadas deste Teatro.

Desde 1997 que a Língua Gestual Portuguesa é uma das línguas oficiais do nosso país e desde 2007 que o São Luiz a integra na sua programação, a pensar na comunidade Surda. Em 12 anos, foram feitas neste Teatro cerca de 100 sessões com interpretação LGP, com um total de quase dois mil utilizadores. Sentadas à boca do palco, duas a duas, as intérpretes encarnam personagens e contam as histórias em cena. Às primeiras palavras dos atores, as suas mãos – na verdade, todo o seu corpo e rosto – ganham uma vida intensa. Mesmo discretamente vestidas de preto, não há como não dar por elas ali, com as suas danças quase poéticas de mãos, a seguir o desenrolar da trama no palco.

“Gosto de tudo o que faço, adoro a minha profissão, mas traduzir teatro é a minha grande paixão. Posso estar triste ou cansada, mas chego ao Teatro para traduzir um espetáculo e todas as minhas preocuções desaparecem”, afirma Ana Silva, 60 anos. “Tenho uma irmã surda que nunca aprendeu língua gestual, mas nunca a vi como surda, via-a como minha irmã simplesmente e a única diferença para mim é que, por ela não ouvir, eu pregava-lhe partidas”, conta, bem disposta. Só quando, por um acaso, foi trabalhar para a Associação Portuguesa de Surdos entrou no universo da LGP. Mais tarde, fez formação e, quando surgiu a licenciatura em LGP, tirou o curso superior. Sandra Bragança, 44 anos, concorda na descrição do prazer que lhe dá fazer interpretação LGP em teatro: “Deixamos de ser nós, entramos na história e nos personagens. Quando acaba, é uma festa, é inexplicável.” Sandra decidiu fazer formação em LGP por curiosidade e nunca mais quis outra coisa: “De repente, descobri uma paixão, foi um

Da esquerda para a direita, uma coreografia de gestos: Sandra Faria diz “luz”, Sandra Bragança e Ana Sofia Rocha dizem “teatro” e Ana Silva diz “palco”

De baixo para cima, num gesto que sobe pelo braço, se diz em Língua Gestual Portuguesa “emocionante, arrepiante, impressionante”

bichinho que entrou e nunca mais saiu. Apaixonei-me pelos gestos, pela melodia dos gestos. Esta língua visual é muito bonita.”

A história de Ana Sofia Rocha, 44 anos, e Sandra Faria, 31 anos, é semelhante. Filhas de Surdos, foram bilingues desde sempre e eram as “tradutoras oficiais” dos pais e de quem mais precisava – antes de existir formação e licenciatura, a primeira geração de intérpretes de LGP era constituída pelos filhos de pais surdos. Nunca pensaram que esta seria a sua profissão, mas, aos poucos, foi fazendo cada vez mais sentido e hoje não a trocariam por nenhuma outra. Sobretudo este trabalho que fazem em teatro, sublinham. “Temos uma sorte por poder absorver tudo isto, esta cultura, estes espetáculos... É um privilégio! E ver o público a reagir ao que estamos a traduzir é uma satisfação”, diz Sandra Faria, reconhecendo, no entanto, que a comunidade não é ainda muito assídua no Teatro. “Infelizmente, não vêm tantos Surdos como seria desejável. Tem havido uma aproximação mas ainda falta criar esse hábito”, nota. “É uma grande entrega e é tão bonito”

O trabalho de tradução em teatro começa muito antes da sessão do espetáculo. As quatro trabalham sempre em parceria, dividindo as peças entre duplas, para depois poderem fazer mudanças de personagem entre elas. Antes ou depois da estreia, têm acesso ao guião e vêm assistir a uma sessão. Depois, em casa, trabalham o texto que têm de interpretar, tentando perceber o contexto histórico, social, político e geográfico, destrinçando o significado das palavras, procurando referências que ajudem a entender a história da peça e o que nela é dito. “Não queremos mandar calinadas de traduções literais que sejam um bocado à toa”, justifica Sandra Faria. “Feito esse trabalho, tentamos entre nós chegar a uma uniformização dos gestos”, explica Ana Sofia, acrescentando que há muitos significados para um gesto só e que é necessário criar nomes gestuais para as personagens. As expressões idiomáticas, por exemplo, não têm correspondência na língua gestual, por isso, é necessário estudar equivalências linguísticas, fazer adaptações. O

MESMO DISCRETAMENTE VESTIDAS DE PRETO, NÃO HÁ COMO NÃO DAR PELAS INTÉRPRETES DE LÍNGUA GESTUAL PORTUGUESA, COM AS SUAS DANÇAS QUASE POÉTICAS DE MÃOS, A SEGUIR O DESENROLAR DA TRAMA NO PALCO.

mesmo acontece com a poesia, que não pode ser traduzida de forma literal.

“Vir assistir é fundamental para percebermos o tom de voz, a velocidade, o ritmo e o movimento em palco, tudo o que não passa quando lemos o texto”, nota Sadra Faria. “E as emoções!”, completa Ana Silva. “Não é só pelo texto, mas também pela expressão corporal que passamos as emoções e aquilo que está a acontecer no palco. Também tentamos fazer alguns dos movimentos dos personagens e a música é passada pelo corpo, pelo movimento, é expressão corporal e facial”, descreve Sandra Bragança. Não admira que cheguem exaustas ao final dos espetáculos. Exaustas mas felizes, apressam-se a dizer. “É uma grande entrega e é tão bonito”, conclui.

Habitualmente sentadas nas suas cadeiras viradas para a plateia, já aconteceu serem chamadas para o palco por alguns encenadores. E, apesar de quererem passar despercebidas – vestem-se sempre de preto e afastam-se discretamente no final, “temos a consciência de que não somos atrizes, os aplausos são para os atores”, diz Ana –, nunca recusaram um desafio. Sandra Faria já foi a sombra de uma atriz num espetáculo para os mais pequeninos, Sandra Bragança já andou quase em espelho com o ator numa outra peça… e Ana Silva tem a melhor história para contar, de quando teve que se fingir de morta, como todos os atores no palco. “Nunca tinha morrido em teatro… muito menos sentada. Debrucei-me para a frente, como estava combinado, mas o problema foi a cadeira em que estava sentada! Quando percebi, estavam todos a rir… porque a cadeira tinha-se fechado em cima de mim!” Como se dirá comédia em Língua Gestual Portuguesa? ■