LIMBO 2019

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NICIPAL SÃO LUIZ TEATRO MU FORA DE PORTAS N’A VOZ DO OPERÁRIO RUA DA VOZ DO OPERÁRIO, 13

15 A 22 JANEIRO ENCENAÇÃO SARA CARINHAS 2019


“TO SLEEP...”

ajudar a dar-lhe liberdade, deixá-lo ser frágil e rarefeito – que seja ele a dizer-se a si próprio, sozinho, quando o público se vier sentar à sua mesa. Há tanta coisa sem explicação neste mundo, e tanta generosidade nestes actores que aceitaram dar-me a mão de olhos fechados... qualquer coisa nas entrelinhas irá revelar-se. Dar ao espaço vazio o seu valor, saber o que revelar e saber o que esconder – é sobre isso o teatro, parece-me. “Havemos de continuar”, diz Sónia ao seu “Tio Vânia” ou, como canta Chico Buarque, “Apesar de você/ amanhã há-de ser outro dia”. Mesmo que continuemos “a escrever para o vazio”, continuaremos a “escrever”, sem parar.

Este nosso objecto é coisa frágil do mundo dos sonhos. Dormir, dormir, por ventura morrer a cada vez, deixar lacunas pelo caminho, interromper a narrativa, correr às voltas, correr no mesmo sítio. Dormir e ter medo de nunca mais acordar. Agir, agir talvez seja melhor, para assustar o papão, contar histórias, olhar olhos nos olhos, voltar à poesia, ao teatro, ao número do circo, à canção de embalar. Seis fantasmas de salão revelam uma pequena série de retratos de violência. Traumas. Mas em forma de pequenos contos, sombras que passam, amostras de identidade. O Limbo poderia ser um segundo acto de As Ondas (2013), a equipa que me acompanha é a mesma que fez comigo esse espectáculo, o grupo de actores embora seja outro, podia ser de novo o mesmo grupo de amigos: o Bernard, a Jinny, o Louis, o Neville, a Rhoda e a Susan. Pode ser que seja na verdade um espectáculo outra vez sobre amizade (se a amizade quiser dizer cumplicidade, respeito pelo que nos diferencia), sobre envelhecer depressa, sobre o combate da humanidade com a Natureza, sobre o lusco-fusco também – o pássaro que canta não sabemos já se porque o dia acaba ou porque está a começar. Não consigo escrever sobre o que é o Limbo, talvez só saiba 2

Sara Carinhas Texto escrito segundo a antiga ortografia

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A ARTE DO PENSAMENTO MÁGICO ENCONTRAMO-NOS NO “LIMBO” E CANTAMOS UMA CANÇÃO

sabendo-se salvaguardado pela distância? Talvez o gesto de celebração do encontro que o teatro representa possa ser o ato mais simples, despretensioso, para lá chegar. Por isso, Sara começou por escolher os atores com quem queria trabalhar e nessa escolha, e no processo de criação com muita partilha, que iniciou aí, fundou a natureza dessa procura de dizer do mundo, num equilíbrio sempre precário entre a sua própria voz, também como criadora, e a voz daqueles que se juntam a ela. Alguns meses antes do primeiro encontro ao vivo para criação, separados geograficamente, a equipa partilhava já ideias, notícias, vídeos, imagens através das redes sociais, e o mundo de referências comum foi-se desenvolvendo. As trocas surgiram logo em múltiplas línguas, sem ceder à tendência de uniformização pelo inglês. Em junho de 2018, recolhiam-se num dos salões do Palácio Pancas Palha (em Lisboa, espaço da Companhia Olga Roriz), um dos lugares de residência artística por onde passaram e experimentavam cantar juntos músicas que cada um trouxe das suas histórias pessoais e sobre as quais Madalena Palmeirim [Desenho de som] foi experimentando desvios, contorções, arrastamentos ou risos, às vezes simplesmente desarmando artificialismos, dando a escutar as vozes distintas dos atores acompanhadas pelo seu ukulele.

Conversa entre Cláudia Galhós e Sara Carinhas

Quantas vezes deste por ti a escutar uma canção e a sorrir embalado pelo tom de felicidade do ritmo? E, depois, na escuta mais atenta das letras, descobres a tristeza? E ainda assim talvez continues a sorrir... juntinhos, amparados nesse abraço de tristeza e felicidade, o mundo todo cabe ali dentro. “Bye bye life/ Bye bye happiness/ Hello loneliness/ I think I’m gonna die/ I think I’m gonna die/ Bye bye love/ bye bye sweet caress/ Hello emptiness/ I feel like I could die”. Entremos ligeiramente no “Limbo”. Sara Carinhas visitou um campo de refugiados em Atenas, estávamos em 2016. A experiência deixou em carne viva uma realidade de que tinha conhecimento à distância e, logo ali, sentiu que tinha de falar do que é esta errância, esta vida de um lado para o outro, que na verdade é a essência da história de cada pessoa – feita de memórias, impressões, sonhos, dilemas, angústias, alegrias –, mas é também a história da humanidade e a história, desenraizada e muitas vezes esquecida ou banalizada, dos migrantes e dos imigrantes. São histórias... Mas como falar de um tal tema, com respeito e fazendo-lhe justiça, 4

A cerca de um mês da estreia [em dezembro de 2018], nesta viagem pelos mundos dos outros e o mundo de ti própria, por onde andas? Sara Carinhas: Nunca desapareceu aquela primeira vontade de querer juntar pessoas numa moldura geracional próxima, que falassem um bocadinho do estado de coisas. Ainda tenho viva essa impressão que a viagem a Atenas me deixou: como é que falamos sobre isto? Continua a ser uma questão. Como falar das coisas reais, do mundo real e concreto, imediatamente identificável, num espetáculo em que, apesar de todos os diálogos e encontros, a linguagem é a minha. Como falar do cru com magia, sem ser pelo hiper-realismo, sem cair na lamúria. Acho que essa continua a ser a linha de trapezista do espetáculo. Essa ideia geracional está agora no arco entre os 19 e os 37 anos. É um olhar com futuro e com sentido de responsabilidade. Fui, no entanto, surpreendida por eles, porque lhes pedi textos e improvisações (lembro-me de lhes dizer, “pode ser mentira”) e o que partilharam ou escreveram revelava um sítio negro. Se calhar fui eu quem lhes lançou essas sementes quando lhes pedi que me contassem sonhos, memórias de infância ou outras... Acho que houve aí um caminho por si só que não é apenas meu. Quero que o espetáculo tenha aquela qualidade de fazer com que o público queira

conhecer um bocadinho mais de cada um deles. Como foi esse percurso entre a porta totalmente aberta para falar dos assuntos do mundo e o falar do mundo de cada um? SC: Devagarinho, algumas portas foram-se fechando. Começaram naturalmente a surgir temas como a morte, a relação com a família, os medos, traumas e sonhos – sonhos recorrentes e pesadelos. Isto sempre com humor, porque sempre houve humor. Já na reta final da criação, partilhas com os intérpretes o texto que escreveste sobre esse facto insólito, que custa a crer que é verdade, do “síndrome da resignação”1. SC: Já lhes tinha falado que andava a escrever este texto, mas senti que era o momento de ver até onde podíamos levar a dimensão do real dentro da peça, mesmo que possa ser entendido como não sendo verdade. Queria perceber até que ponto podemos falar sobre algo real, sem ficar só num registo auto-referencial... e o que é que resta? O que é que se pode dizer a seguir a isso? Já procurámos vários fins possíveis para o espetáculo: já acabaram todos juntos a dançar, já terminámos com o Marco a dizer um texto sobre a guerra, já 1. Surgiu em 2005, na época de maior fluxo migratório, na Suécia. Manifesta-se somente em crianças cujas famílias estão em estado de trânsito, sem poiso, após lhes ter sido negado asilo. O sofrimento destas crianças fá-las entrar numa espécie de sono profundo.

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seja algo da ordem dos sonhos, com a estrutura dos sonhos, em que num momento estás na casa-de-banho e logo a seguir estás num prédio que vai desabar. Depois há um jogo com uma espécie de histórias gémeas, que não têm necessariamente princípio, meio e fim. E também o facto de eu considerar que é permitido nesta proposta o público duvidar, não saber se é um sonho ou uma história de infância, se já acabou ou não, se perdeu alguma coisa pelo caminho... O cinema também está aqui por isso, nesse cortar e montar, nesse plano aproximado ou afastado de uma cena para outra. Talvez estas ligações não sejam evidentes num primeiro olhar. Nesse sentido, estou a plantar gestos parecidos que pontuam o espetáculo. Gostava que ficasse numa zona em que temos a impressão de... acho que já ouvi isto...

testámos o Pierre a dançar sozinho numa cadeira, em género “soldado com stress pós-traumático”... Porque... quando nos deparamos com algo assim, como este síndrome, o que podemos dizer depois disso? Por entre todas as vozes que aqui se escutam, onde está a Sara? SC: Eu estou em alguns gestos, pequeninos. A minha escola é a dos gestos, que não são necessariamente físicos, são gestos teatrais. Nunca explico tudo. Há vários poços negros onde os intérpretes entram. A narrativa que temos é muito a narrativa que aparentemente não está lá, mas está. Podemos definir como teatro multidisciplinar, porque há canção, há dança, há teatro físico, há histórias que se contam. Mas diria que me suscita uma emancipação dessa definição pós-dramática e que evoca uma variedade que está na raiz de toda a modernidade e muita da dança contemporânea, que vem do cabaret, do burlesco, do musical, e até um toque de faz-de-conta... Ou seja, de superação de géneros artísticos. SC: Estou nesta tentativa, por mais infantil e arriscado que seja, de querer que os atores dancem uma coreografia, cantem uma canção, contem uma história. Por outro lado, interessa-me que

Isso cria uma relação com o tempo e a memória que é interna ao espetáculo – as pessoas podem ter a sensação de reconhecer algo porque viram ou ouviram ali – mas também cria essa relação com o tempo histórico. E, no entanto, a história de que fala não é assim tão distante. O questionar a Europa é uma questão de hoje, com o brexit e as manifestações em França, o frexit. Mas com a escuta das várias línguas também lembra um 6

tempo antes da União Europeia. As desigualdades sociais estão aí. Os absolutismos que são supostamente sombras do passado são ameaças próximas, a descolonização não é um processo resolvido... SC: Há aqui muitas coisas que não são de agora, não são de um discurso de 2018, por exemplo a sirene da II Guerra Mundial. Estive um dia a ouvir sirenes e aquela é a que me faz tremer, mesmo que a memória que tenhamos dela seja por via de filmes. Quando a Náná conta histórias de Angola, isso desperta-nos memórias... Mas anda nessas várias dimensões. Também entre o público e o privado. Há histórias que os atores contam que não podem ser ouvidas por todos: insisto na existência de um momento em que se espalham e dividem entre as pessoas, que imagino sentadas em mesas n’ A Voz do Operário, e a quem abrem um bocadinho o coração. O que eu tento fazer com os atores, e seria bonito se conseguíssemos, é que cada um partilhe uma fresta de quem é, por onde as pessoas possam entrar e espreitar um bocadinho lá para dentro. No outro dia estava a pensar nisto. Estava a trabalhar com a Náná numa cena dela sobre um pesadelo, que ainda não sabemos se vai existir, sobre ela não ver a sua cara ao espelho, e lembrei-me de uma expressão do Romeo

Castellucci que me atrai muito. Algo como “o espelho que os meus espetáculos apresentam ao público não é dos que refletem”. Ele fala de um espelho negro. Não tem a ver com refletir uma imagem ou explicar o que as pessoas já sabem, ou identificarem algo que já conhecem. Tem mais a ver com caírem lá para dentro. Acho fundamental também a visita à infância. Esse lugar distante, do antigo, informa quem eles são agora. Há aqui o encontro da ideia de site specific com o apresentar fora de espaços teatrais convencionais. Em Lisboa é n’ A Voz do Operário, mas parece-me que há aqui uma ideia de instalar num lugar que supera essas categorias, porque há uma habitação e qualidades humanas nesse habitar os espaços... SC: Gosto desse arriscar lugares diferentes. Não estou de todo a recusar o teatro, até gosto que A Voz do Operário tenha no espaço que vamos usar um palquinho... Nunca achei que precisasse de cenários para imaginar o que estou a criar. Ou seja, se um palco é uma caixa preta, eu vejo-o como uma caixa preta. Gosto mais de tomar como informação cénica aquilo que, à partida, já lá está. Aqui, especificamente, não precisamos de cenário, porque já lá está, é a sala d’ A Voz do Operário. 7


15 a 22 janeiro

Encenação: Sara Carinhas; Apoio à dramaturgia: Cristina Carvalhal; Interpretação: António Bollaño, Carolina Amaral, Filomena Cautela, Marco Nanetti, Nádia Yracema, Pierre Ensergueix; Consultoria artística: Ana Vaz; Desenho de luz: Cristina Piedade; Desenho de som: Madalena Palmeirim; Assistente de direcção: Carolina Passos Sousa, Pedro Rei; Fotografia: Sara Pinto Soares; Produtor executivo: Pedro Rei; Parceria: A Voz do Operário; Apoios: Centro Cultural Vila Flor/ Centro de Criação de Candoso, Centro Nacional de Cultura, Companhia Olga Roriz, Oneyourfirststop.com, Polo Cultural Gaivotas -Boavista/CML, RTP – Rádio e Televisão de Portugal; Santa Rita Filmes; Agradecimentos: Aida Carvalhal, Ana Cunha, Andrea Durães, António Godinho, Cláudia Galhós, Cucha Carvalheiro, David Matos, David Santos, José Mota Leal, Maria Folha, Olga Roriz, Patrícia Sequeira, Sónia Baptista

teatro estreia fora de portas

LIMBO

SARA CARINHAS Terça a terça, 21h A Voz do Operário Rua da Voz do Operário, 13 A classificar pela CCE Duração: 1h10 €12 com descontos CONVERSA COM OS ARTISTAS

Coprodução: Causas Comuns, Teatro Municipal do Porto-Rivoli e São Luiz Teatro Municipal

19 janeiro, sábado

Causas Comuns é uma estrutura apoiada pela República Portuguesa – Ministério da Cultura – DGARTES – Direção Geral das Artes

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

Direção Artística Aida Tavares Direção Executiva Joaquim René Assistente da Direção Artística Tiza Gonçalves Programação Mais Novos Susana Duarte Adjunta Direção Executiva Margarida Pacheco Secretária de Direção Soraia Amarelinho Direção de Produção Mafalda Santos (Diretora), Andreia Luís, Margarida Sousa Dias, Tiago Antunes Direção Técnica Hernâni Saúde (Diretor), João Nunes (Adjunto) Iluminação Carlos Tiago, Nuno Samora, Ricardo Campos, Sara Garrinhas, Sérgio Joaquim Maquinistas António Palma, Cláudio Ramos, Paulo Lopes, Paulo Mira, Vasco Ferreira Som João Caldeira, Gonçalo Sousa, Nuno Saias, Ricardo Fernandes, Rui Lopes Vídeo João Van Zelst Manutenção e Segurança Ricardo Joaquim Direção de Cena Marta Pedroso (Coordenadora), José Calixto, Maria Tavora, Ana Cristina Lucas (Assistente), Rita Talina (Camareira) Direção de Comunicação Elsa Barão (Diretora), Ana Ferreira, Gabriela Lourenço, Nuno Santos Bilheteira Cristina Santos, Diana Bento, Renato Botão

TEATROSAOLUIZ.PT

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