PAIS & FILHOS 2021

Page 1

PAIS &FILHOS PEDRO PENIM

IVA N TU RG UE NI EV

M/16

©Carlos Pinto

A PAR TIR DE

15 SET A 3 OUT 2021 TEATRO/ESTREIA


no ta s s o bre

TURGUENIEV A partir de Fathers and Children: Turgenev and the Liberal Predicament de Isaiah Berlin, publicado como panfleto em dezembro de 1972 pela Oxford’s Clarendon Press.

Quando Ivan Turgueniev foi enterrado, a 9 de outubro de 1883, (nasceu e morreu exatamente nos mesmos anos que Karl Marx, 1818-1883) viviam-se tempos conturbados. Uma onda de atos terroristas tinha culminado no assassinato de Alexandre II dois anos antes e os líderes da conspiração tinham sido enforcados ou enviados para a Sibéria, sendo que havia ainda grande agitação, especialmente entre os estudantes, temendo o governo que a procissão fúnebre se pudesse transformar numa manifestação política. Contudo, ao contrário dos seus grandes contemporâneos Tolstoi e Dostoievski, Turgueniev nunca desejara agitar a sua geração. Tinha-se preocupado, acima de tudo, em entrar em determinados círculos, em compreender pontos de vista, ideais, temperamentos, tanto aqueles pelos quais sentia proximidade como aqueles pelos quais se sentia intrigado ou repelido. Turgueniev possuía aquilo a

que Keats chamou “capacidade negativa”, uma aptidão de entrar em crenças, sentimentos e atitudes alheias (e por vezes, fortemente antipáticas em relação às suas), um dom enfatizado aliás nas suas cerimónias fúnebres. Durante grande parte da sua vida esteve dolorosamente preocupado com as controvérsias, morais e políticas, sociais e pessoais, que dividiam os russos; em particular os conflitos profundos e amargos entre nacionalistas eslavos e admiradores do Ocidente, conservadores e liberais, liberais e radicais, moderados e fanáticos, realistas e visionários, e sobretudo entre velhos e jovens. Tentou sempre ficar de lado, a ver a cena, objetivamente. Nem sempre foi bem sucedido... Foi frequentemente descrito como um puro esteta, um crente no “art for art’s sake”, foi acusado de escapismo, falta de sentido cívico e foi apelidado de “gentil e suave como cera... feminino... sem carácter”. 2

A Rússia de meados do século XIX era um país enorme e atrasado, onde o número de pessoas instruídas era muito pequeno e a grande maioria dos habitantes - os servos - viviam em condições de indizível pobreza, opressão e ignorância. Quando criança, Turgueniev tinha testemunhado crueldades e humilhações abomináveis infligidas pela sua própria mãe aos seus servos. Varvara Turguenieva era um monstro selvagem (mesmo pelos padrões de humanidade não demasiado exigentes dos latifundiários russos da época), uma mulher histérica e brutal, amargamente frustrada, que amava o seu filho, mas que lhe atormentava o espírito. Este sistema miserável e degradante no qual seres humanos eram vistos como “propriedade batizada”, juntamente com uma sensação de impotência perante a injustiça, a brutalidade e a corrupção, levava a imaginação reprimida e a responsabilidade social para os únicos canais que a censura

não tinha fechado completamente – a literatura e as artes. A controvérsia entre os defensores da teoria da arte pura e aqueles que acreditavam que ela tinha uma função social, por exemplo, cresceu até se tornar numa grande questão moral e política, do progresso contra a reação, esclarecimento contra o obscurantismo, sentimento humano contra a autocracia. “Há épocas em que a literatura não pode ser meramente artística, há interesses mais elevados do que a poesia» admitiu Turgueniev que, já escritor famoso, publicava textos diversos na Contemporânea, uma revista radical ligada à esquerda. Os editores desta publicação eram jovens, ousados e fortes, e julgavam tudo à luz de um único objetivo, a libertação do povo russo. Rejeitavam o compromisso e estavam inclinados para uma solução radical: apenas “o machado do camponês”, i.e. dotar o povo de armas, lhe poderia dar liberdade. 3


não veio em sua defesa. As ações dos radicais, a sua zombaria brutal, pareciam-lhe mero vandalismo; e os seus objetivos revolucionários, utopia perigosa. No entanto, sentiu que algo novo estava a surgir - uma vasta mutação social de algum tipo. Sentia-se repelido e, ao mesmo tempo, fascinado por este novo e incrível tipo de adversário do regime – ainda que também adversário de muitas coisas em que ele e a sua geração de liberais acreditavam.

Dobrolyubov, um desses jovens literatos e radicais, escreve a propósito do romance Na Véspera de Turgueniev: “os escritores esclarecidos são impotentes. Estão paralisados, estão demasiado ligados à ordem dominante por uma rede de relações familiares e institucionais e económicas que não conseguem quebrar totalmente. Queremos destruição, revolução, novos fundamentos de vida; nada mais destruirá o reinado das trevas. Isto, para os radicais, é a clara implicação do romance de Turgueniev; mas ele e os seus amigos são evidentemente demasiado cobardes para o concretizar.”

Mas a curiosidade de Turgueniev era sempre mais forte que os seus medos: ele queria, acima de tudo, compreender estes novos Jacobinos. Pareciam-lhe uma nova geração, de olhos límpidos, não iludidos pelos velhos mitos românticos; acima de tudo eram jovens, o futuro do seu país estava nas suas mãos; e ele não queria ser afastado de nada que lhe parecesse vivo, apaixonado, e perturbador. Durante todo o resto da sua vida esteve obcecado por um desejo de os explicar a si próprio, e talvez de explicar-se a si próprio perante eles.

Mas apesar das duras críticas Turgueniev era fascinado por estes jovens. Odiava o seu puritanismo sombrio, não suportava o seu grosseiro utilitarismo anti-estético, a sua rejeição fanática de tudo o que era cultura, arte, relações humanas civilizadas, mas eles eram novos, corajosos, prontos a morrer na luta contra o inimigo comum, os reacionários, a polícia, o Estado. E Turgueniev desejava ser apreciado e respeitado por eles.

Quando publicou Pais e Filhos na primavera de 1862, Turgueniev achava que era velho. Tinha 43 anos de idade. A ação passa-se em 1859, na véspera da emancipação dos servos (1861, um ano antes da abolição da escravatura nos EUA) e era uma tentativa de dar corpo e substância à relação da sua geração (a dos 40) com os novos radicais (a geração de 60), cuja presença misteriosa e impalpável, declarou, sentia por toda a parte. As personagens do romance não são apenas caricaturas ou um tipo ideal trazido para ilustrar uma doutrina,

A inquietação política torna-se, entretanto, mais tempestuosa. Os movimentos radicais Terra Terrorista e Liga da Liberdade são criados em 1861, exatamente no ano da grande emancipação dos servos. Começam a circular manifestações violentamente redigidas, apelando à revolta dos camponeses. Os líderes radicais são acusados de conspiração, encarcerados ou exilados. Incêndios deflagram na capital e estudantes universitários são acusados de os ter iniciado; Turgueniev 4

mas “seres humanos reais de carne e osso”, daí que a discussão entre os pais e os filhos não prossiga de forma ordenada, mas sim por acusação e contra-acusação, como as discussões tendem a desenrolar-se na realidade. O protagonista, Yevgeny Vassilitch Bazarov, uma das personagens mais marcantes da literatura mundial, foi inspirado em alguns dos radicais com que Turgueniev se foi cruzando: o crítico literário progressista Belinsky, o agitador Bakunin, o democrata revolucionário Herzen e o feroz militante anti-estético Dobrolyubov. Bazarov é o primeiro niilista, termo cuja invenção é muitas vezes atribuída ao próprio Turgueniev, que se dizia tê-lo cunhado neste romance. Mas independentemente da precisão deste facto o que é visível é que o jovem estudante de medicina despreza tudo o que é irracional, incontrolável, que não pode ser reduzido à medição quantitativa - literatura e filosofia, a beleza da arte e a beleza da natureza, tradição e autoridade, religião e intuição, as ideias dos conservadores e liberais, dos populistas e socialistas, dos latifundiários e dos servos. Acredita na força, na vontade, na energia, na utilidade, no trabalho, na crítica impiedosa de tudo o que existe. Deseja arrancar máscaras, fazer explodir todos os princípios e normas reverenciados. Considera apenas factos irrefutáveis, apenas conhecimento útil, matéria. E choca quase imediatamente com o sensível e convencional Pavel Kirsanov, o tio do seu amigo Arkady.

bruta. “Concebi-o”, escreveu Turgueniev mais tarde a um jovem estudante, “como uma figura sombria, selvagem, enorme, poderosa, desagradável, honesta, mas condenada à destruição porque está ainda apenas nas portas para o futuro...”. E na verdade no fim do romance Bazarov é ferido mortalmente por um amor, por uma paixão humana que ele suprime e nega dentro de si, uma crise pela qual é humilhado e humanizado. É esmagado pela natureza sem coração, a que o autor chama a deusa de olhos frios - Ísis - que não se preocupa com o bem ou o mal, com a arte ou a beleza, e muito menos com o ser humano, uma criatura de existência fugaz. As críticas ao romance não se fizeram esperar, vindas de ambos os lados do espetro político. A direita considerava que a obra não fazia mais do que rastejar aos pés dos jovens radicais. “Turgueniev, deveria ter vergonha de baixar a bandeira perante um radical (…) Há aqui uma aprovação oculta... este Bazarov domina definitivamente os outros e não encontra resistência adequada”, “o que Turgueniev fez é politicamente perigoso. (...) Na verdade, ajoelha-se e curva-se perante os radicais, e espera obsequiosamente pelo favor de um sorriso da parte deles!” Já a esquerda considera que o autor “faz uma caricatura hedionda e nojenta dos mais jovens. Bazarov é um sensualista brutal e cínico, desejoso de vinho e mulheres, despreocupado com o destino do povo; o seu criador, quaisquer que fossem as suas opiniões no passado, passou evidentemente para o lado dos reacionários e opressores

Bazarov, alguém disse uma vez, é o primeiro bolchevique; quer uma mudança radical e não se esquiva à força 5


tos da sua vida de escritor, fosse muito grande, eram os radicais por quem ele mais se interessava. Já eles retribuíam-lhe com hostilidade ou simplesmente indiferença.

© Carlos Pinto

mais ferozes”. Ou ainda: “Turgueniev pode ser demasiado mole ou estar demasiado cansado para nos acompanhar, os homens do futuro; mas ele sabe que o verdadeiro progresso não está nos homens ligados à tradição, mas nos homens ativos, auto-emancipados, independentes, como Bazarov, livres de fantasias, de disparates românticos ou religiosos. Bazarov está em revolta; é essa a sua força magnética; é isso que traz progresso e liberdade. Bazarov é o que os pais veem hoje emergir nos seus filhos e filhas. Podem ficar assustados com o que veem, podem ficar perplexos, mas é aí que reside o caminho para o futuro.”

Turgueniev foi acusado de vacilação, temporização, enfermidade de propósito, de falar com demasiadas vozes e defendeu-se afirmando não fazer mais do que registar o que Shakespeare tinha chamado “o corpo e a pressão do tempo”. Dizia ele: “Sou um artista, não um panfletário; escrevo ficção, que não deve ser julgada por critérios sociais ou políticos; as minhas opiniões são o meu assunto privado; se não arrastas Scott ou Dickens ou Stendhal ou mesmo Flaubert para os teus tribunais ideológicos - porque não me deixas em paz?” Ele sabia que o leitor russo queria ser informado sobre o que acreditar e como viver, esperava ser apresentados a valores claros e contrastados, heróis e vilões claramente distinguíveis. Quando o autor não forneceu isto, o leitor ficou insatisfeito e culpou o escritor, uma vez que achou difícil e irritante ter de tomar a sua própria decisão, encontrar o seu próprio caminho. A posição complexa daqueles que, no auge da luta, desejam continuar a falar com ambos os lados é muitas vezes interpretada como suavidade, diplomacia, oportunismo, cobardia. É certo que Turgueniev não ofereceu nenhuma saída clara. Tchekov disse uma vez que o trabalho de um escritor não era fornecer soluções, apenas descrever uma situação de forma tão verdadeira, fazer tanta justiça a todos os lados da questão, que desse modo o leitor não poderia jamais alhear-se.

Turgueniev ficou perturbado e desconcertado com a receção do seu livro. O ataque da esquerda infligiu feridas que o consumiram para o resto da sua vida. Anos mais tarde ele escreveu: “Dizem- me que estou do lado dos ‘pais’ eu, que na pessoa de Pavel Kirsanov, na verdade, pequei contra a verdade artística, fui longe demais, exagerei os seus defeitos até ao ponto de o tornar ridículo, tornado-me ridículo a mim mesmo!” Toda a sua vida desejou marchar com os progressistas, com o partido da liberdade e do protesto. Mas, no final, não pôde aceitar o brutal desprezo que estes demonstravam pela arte, pelo comportamento civilizado, por tudo o que lhe era caro na cultura europeia. Odiava o seu dogmatismo, a sua arrogância, a sua destrutividade. Foi para o estrangeiro, viveu na Alemanha e na França, e regressava à Rússia apenas em visitas rápidas. Embora a sua popularidade junto do público russo nos anos sessenta, e em todos os momen6

7


e xce rto de

TO ABOLISH THE FAMILY THE WORKING-CLASS FAMILY AND GENDER LIBERATION IN CAPITALIST DEVELOPMENT ME O’Brien

“No Manifesto Comunista, Marx e Engels falam da “abolição da família”, como a “infame proposta dos Comunistas”. O apelo à abolição da família tem assombrado a luta do proletariado desde então, oferecendo um horizonte de libertação sexual e de género que tem sido frequentemente adiado ou deslocado por outras orientações estratégicas e táticas. A frase evoca a transformação completa, quase inconcebível, da vida quotidiana. Para alguns, a própria família é um terror implacável do qual se deve fugir para se conseguir encontrar qualquer semelhança consigo próprio. Para outros, é a única fonte de apoio e cuidado contra as agressões do mercado e do trabalho, polícias racistas e agentes dos serviços de deportação. Para muitos, são sempre ambos ao mesmo tempo. Ninguém consegue sobreviver sozinho neste mundo; e o relato pessoal das suas próprias famílias tem uma relação direta

com a forma de compreender o apelo à abolição da família. (...) A família suporta a contradição da sobrevivência numa sociedade truncada e alienada, tanto como uma fonte de consolo como de desespero. A abolição da família como slogan tornou-se hoje um apelo à universalização do amor queer como destruição de um regime normativo, e abertura à liberdade sexual e de género para todos. A abolição da família poderia ser a generalização do cuidado humano na verdadeira comunidade humana do comunismo”. (…) Numa sociedade capitalista, a reprodução da classe trabalhadora depende do trabalho assalariado, mediado através da família. O proletariado deve geralmente vender a sua força de trabalho aos capitalistas a fim de sobreviver. Aqueles que são incapazes de o fazer, incluindo as crianças pequenas, dependem dos seus laços familiares com outros envolvidos no mercado de 8

trabalho. Para além do acesso familiar ao salário, as crianças dependem igualmente de uma quantidade considerável de trabalho reprodutivo. A grande maioria deste trabalho reprodutivo sempre foi e continua a ser não remunerado. A família, sobretudo a família nuclear heterossexual, tem servido como modo dominante e mais estável de reprodução geracional para o proletariado sob o capitalismo. Os estados identificados como social-democratas e socialistas expandiram-se, por vezes, para assumir partes significativas da reprodução familiar, mas exclusivamente como suplemento da dependência primária do salário. Por vezes e em certos lugares, existiram sob o capitalismo outros sistemas de reprodução geracional e diária, incluindo orfanatos, adoção e acolhimento, sistemas de famílias monoparentais e de família alargada, e para aqueles que já ultrapassaram a primeira infân-

cia, os sistemas prisionais, militares, e alojamentos de trabalhadores. Nenhuma destas instituições, contudo, chegou perto de substituir totalmente a família como unidade primária de reprodução geracional. Hoje em dia, a expansão do trabalho reprodutivo assalariado e mercantilizado ainda não se estendeu à maior parte do trabalho dos cuidados infantis precoces, e ainda mantém muito trabalho doméstico e reprodutivo não assalariado. A mercantilização dos cuidados de crianças ainda depende de laços familiares de trabalhadores assalariados para pagar tais cuidados, alterando o registo de dependência familiar. A liberdade sexual e de género são fundamentalmente limitadas nestas condições capitalistas. O sexo e a sexualidade tornam-se meios de coerção e violência, em vez de serem uma fonte de prosperidade humana. A ausência de liberdade sexual e de género fun9


disso, contar com o estado para a sua sobrevivência fora da família ou do trabalho assalariado, através de subsídios da segurança social, habitação e cuidados de saúde fornecidos pelo estado, ou prisões. No entanto, todas estas instituições agem como sistemas de disciplina de género, impondo os preconceitos coletivos da classe dirigente e dos seus coadjuvantes profissionais sobre a vida dos pobres. Esta tirania de género da dependência proletária da família, do trabalho assalariado ou do estado, é particularmente clara com as pessoas trans sem passabilidade cis. As taxas de violência sofrida pelas pessoas trans são muito elevadas dentro das suas casas pelos seus pais ou por outros prestadores de cuidados familiares. Apresentam elevadas taxas de discriminação no emprego e muitas formas de assédio e violência dentro do local de trabalho. Para as mulheres trans da classe trabalhadora, isto resulta frequentemente na sua exclusão do trabalho assalariado. Quando as pessoas trans desempregadas recorrem ao estado para as ajudar na sua sobrevivência, enfrentam violência, recusa de cuidados de saúde e imposição de códigos de vestuário de género em abrigos para sem-abrigo, prisões ou programas de reabilitação de toxicodependentes, onde a conformidade de género é fundamental para a noção institucional de conformidade. Embora as mulheres trans tenham beneficiado de algumas disposições de bem-estar social limitadas, o estado está longe de ser um aliado fiável das pessoas não-conformes com o género. A liberdade sexual e de género significa necessariamente que a forma

ciona como uma restrição ao livre desenvolvimento, expressão do bem-estar de todas as pessoas. Impede-nos de aceder a uma plena expressão de género e de cumprir as relações sexuais. A família proporciona às pessoas os cuidados e o amor de que necessitam, mas acarreta um domínio pessoal. Dentro da família, as crianças estão sujeitas ao preconceito e dominação arbitrária dos seus pais juntamente com o seu amor e cuidados, isoladas em unidades habitacionais atomizadas que limitam intervenções para o bem das crianças de fora da unidade familiar. As crianças da burguesia estão vinculadas pela promessa de herança e propriedade; mesmo com os meios limitados disponíveis ao proletariado, muitos dependem das suas famílias para apoio durante os períodos de desemprego ou deficiência, ou para prestar serviços não remunerados mas financeiramente necessários, como a guarda de crianças. Quando tiverem idade suficiente, as crianças do proletariado podem sair de casa e alcançar uma independência relativa, mas apenas através da dependência do trabalho assalariado. O próprio trabalho é um regime elaborado de disciplina sexual e de género sobre a vida de todos os membros do proletariado, que inclui códigos de vestuário forçados, o género que é imposto ao próprio processo laboral, o trabalho afetivo na indústria dos serviços, a violência sexual no local de trabalho, e acima de tudo os preconceitos arbitrários dos empregadores. Numa sociedade onde os capitalistas dominam a vida das pessoas, a liberdade de género é impossível. Sob certas condições, o proletariado pode, em vez 10

condições materiais de reprodução social dependentes da comunização e da supressão da economia. As unidades comunistas de amor e reprodução doméstica devem substituir a família para todos, novas instituições exploradas e constituídas através das condições de luta. (...) comunas de algumas centenas de pessoas que reúnem o trabalho reprodutivo e partilham a educação dos filhos, incluem alguma atenção ao prazer sexual e à realização, e trabalham para satisfazer as necessidades interpessoais e de desenvolvimento de todos sem quebrar os laços afetivos, românticos ou parentais escolhidos entre os indivíduos. A substituição positiva da família é a preservação e emancipação do amor e cuidado genuínos que o proletariado encontrou entre si no meio das dificuldades: a diversão e alegria do erotismo; a intimidade da paternidade e do romance. Este amor e cuidado, transformado e generalizado, é o que deve ser preservado na abolição do domínio familiar. Afastado dos rígidos papéis sociais do género heteronormativo e da identidade sexual, dos constrangimentos materiais do capitalismo, e reconstruído na intensidade da luta revolucionária, o potencial do amor e dos cuidados pode ser finalmente libertado para o mundo. A abolição da família deve ser a criação positiva de uma sociedade de cuidados humanos e de amor queer generalizados”.

como as pessoas escolhem organizar as suas vidas afetivas, redes de parentesco e acordos sobre a vida doméstica não deveria ter consequências para o nível de vida e bem-estar material das pessoas. A liberdade de género, portanto, depende da acessibilidade generalizada a meios de sobrevivência e reprodução que não dependem da família, do trabalho assalariado, ou do estado. Estes meios de sobrevivência incluem tanto as características materiais de reprodução — habitação, alimentação, higiene, educação — como os laços afetivos e interpessoais de amor e cuidado que as pessoas encontram agora principalmente através da família. Os cuidados sob o comunismo podem ser uma dimensão crucial da liberdade humana: cuidado do amor e apoio mútuos; cuidado do trabalho positivo de criar as crianças e cuidar dos doentes; cuidado da ligação erótica e do prazer; cuidado de se ajudarem mutuamente na concretização da vasta gama de possibilidades da humanidade, que se exprimem de inúmeras formas, incluindo através das formas de expressão pessoal agora chamadas de género. O cuidado na sociedade capitalista é um ato comodista, subjugador e alienado; mas nele está o núcleo de uma interdependência e amor não alienantes. As liberdades positivas são possibilitadas pela fundação de um apoio material universal, e uma transformação cultural feminista queer, centralizando o amor e apoiando o nosso auto-desenvolvimento mútuo. Ao contrário dos atuais esforços contra-culturais para formar famílias alternativas, a abolição da família seria uma reestruturação generalizada das

https://endnotes.org.uk/file_hosting/EN5_To_ Abolish_the_Family.pdf

11


15 setembro a 3 outubro 2021 teatro / estreia

PAISDE PEDRO & FILHOS PENIM

A PARTIR DA OBRA HOMÓNIMA DE IVAN SERGEYEVICH TURGUENIEV* Sala Luis Miguel Cintra Quarta a sábado, 20h; domingo, 17h30 Duração (aprox.): 2h15m; M/16 Legendado em inglês 16, 18, 19 e 26 setembro; €12 a €15 (com descontos) 3 outubro, domingo 17h30 Personagens e atores: Arkasha, um jovem recém formado - David S. Costa / O seu pai - Diogo Bento / O seu tio - Pedro Penim / A sua camarada - João Abreu / A mãe da camarada - Rita Blanco / Fenitchka, o marido do tio - Hugo van der Ding / Anna - Joana Barrios / Katya - Ana Tang / O valete - Bernardo de Lacerda / Trouble Olívia; Texto e encenação: Pedro Penim; Assistência de encenação: Bernardo de Lacerda; Cenário: Joana Sousa; Figurinos: Joana Barrios; Mestre Costureira: Rosário Balbi; Vídeo: Jorge Jácome; Luzes: Daniel Worm d’Assumpção; Som: Miguel Lucas Mendes; Apoio coreográfico: Luiz Antunes; Fotografias de divulgação: Carlos Pinto; Direção de produção: Daniela Ribeiro (Teatro Praga); Produção: Alexandra Baião (Teatro Praga); Comunicação digital: Mafalda Jacinto (Teatro Praga) Coprodução: Teatro Praga, Teatro Nacional São João e São Luiz Teatro Municipal O Teatro Praga é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal / Direção Geral das Artes e parceira de O Espaço do Tempo. O Teatro São Luiz/EGEAC é parceiro no Projeto Europeu Inclusive Theater(s). Apoios: Hospital de Bonecas, Griffehairstyle; Agradecimentos: Alessandro Valera, André e. Teodósio, Cláudia Jardim, Cláudia Semedo, David Motta, Freddy, Jacinta, Joana Lopes, Joana Manuel, José Maria Vieira Mendes, Lúcia, Mariana Vieira, Mark Lowen, Mimi, Olívia, Pedro Batista, Sophie Lewis, Tiago Bartolomeu Costa, António Vieira / Artista Reborn - Imaginações Reborn, Celso Bispos, Filipe Dominguez, Helena Vaz, João Antunes e Ricardo Casal *com citações de / ideias inspiradas por: “Full Surrogacy Now: Feminism Against Family” de Sophie Lewis, “Gender Nihilism: An Anti-Manifesto” e “Beyond Negativity: What Comes After Gender Nihilism?” de Alyson Escalante, “Abolitionism in the 21st Century: From Communization as the End of Sex, to Revolutionary Transfeminism” de Jules Joanne Gleeson, “Kinderkommunismus: A Feminist Analysis of the 21st-century Family and a Communist Proposal for Its Abolition” de Kate Doyle Griffiths e Jules Joanne Gleeson, “To Abolish The Famly - The Working-Class Family and Gender Liberation in Capitalist Development” de ME O’Brien, “Gender Nihilism” de Aiden Rowe, “Bædan 1 – journal of queer nihilism” de Bædan, “Plagiarism, Kinship and Slavery” de Mario Biagioli, “My Preferred Gender Pronoun is Negation” de Pittsburgh, “Fathers and Sons” de Brian Friel, “Nothing Sacred” de George F. Walker, “Autumn Sonata” de Ingmar Bergman, “Mãe Arrependida” de Karla Tenório e “Diventare papà” de Alessandro Valera.

Direção Artística Aida Tavares Direção Executiva Ana Rita Osório Assistente da Direção Artística Tiza Gonçalves Adjunta Direção Executiva Margarida Pacheco Secretária de Direção Soraia Amarelinho Direção de Comunicação Elsa Barão Comunicação Ana Ferreira, Gabriela Lourenço, Nuno Santos Mediação de Públicos Téo Pitella Direção de Produção Mafalda Santos Produção Executiva Andreia Luís, Catarina Ferreira, Marta Azenha, Tiago Antunes Direção Técnica Hernâni Saúde Adjunto da Direção Técnica João Nunes Produção Técnica Margarida Sousa Dias Iluminação Carlos Tiago, Cláudio Marto, Ricardo Campos, Sérgio Joaquim Maquinaria António Palma, Miguel Rocha, Vasco Ferreira, Vítor Madeira Som João Caldeira, Gonçalo Sousa, Nuno Saias, Ricardo Fernandes, Rui Lopes Operação Vídeo João Van Zelst Manutenção e Segurança Ricardo Joaquim Coordenação da Direção de Cena Marta Pedroso Direção de Cena Maria Tavora, Sara Garrinhas Assistente da Direção de Cena Ana Cristina Lucas Camareira Rita Talina Bilheteira Cristina Santos, Diana Bento, Renato Botão

teatrosaoluiz.pt