FOLHA DE SALA O DIA DO JUÍZO 2019

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© Estelle Valente

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL 10 A 20 OUTUBRO 2019

O DIA DO JUÍZO DE ÖDÖN VON HORVÁTH ENCENAÇÃO CRISTINA CARVALHAL


À conversa com Cristina Carvalhal, a propósito da encenação de O Dia do Juízo

sobreviver. E sobreviver é muito difícil, porque em recessão não há empregos e os salários são baixos... e, portanto, as pessoas chegam a pôr em causa a sua humanidade. Isso está sempre muito presente nas peças de Horváth. Mas existe sempre também um lado poético muito forte. Fui muito sensível a isso quando li esta peça, que tem didascálias imensas, onde Horváth lança o ambiente das cenas. Descreve, por exemplo, aquela noite escura em que os pilares do viaduto se erguem para o céu. Na escrita dos diálogos é muito mais direto e cru. Era pena perder esse lado poético e foi daí que surgiu a ideia do narrador que temos no espetáculo. Como se, de alguma forma, trouxéssemos o próprio Horváth para dentro de cena, tal como ele traz para dentro de cena os mortos, já no final da peça. O narrador é uma presença que rima com essa outra realidade dos mortos. Criámos este plano do narrador, que está a contar a história e que não faz parte do plano da narrativa da peça – tal como os mortos não fazem parte da realidade dos personagens.

Não é de agora a sua relação com textos de Ödön von Horváth. É um autor que a acompanha? Acho que foi quando fiz a peça Hotel da Bela Vista, de Horváth, em 1991, no Teatro Aberto, que conheci os seus textos. Tínhamos um encenador alemão, Hellmut Reinke, e foi um espetáculo bastante confuso para nós todos, porque havia a barreira da língua e Horváth não é de todo simples. Mas é precisamente isso que tem de mais interessante, as múltiplas possibilidades de leitura. E atrai-me porque tem um lado político muito presente, mesmo que possa estar camuflado. O Dia do Juízo começa logo a falar da racionalização dos serviços e do “estado em que isto está”... Parece que é só um drama à volta de um acidente e das causas desse acidente e, na verdade, o que está ali por baixo é toda uma situação política de recessão, do período da ascensão do nazismo, da altura em que as pessoas começam a ser divididas entre os que devem ficar e os que devem ser eliminados, os que interessam e os que não interessam. É um cenário em que as pessoas não têm quase alternativa porque têm de 2

como no excesso de informação com que estamos sempre a lidar hoje. E a estrutura em palco, num sítio elevado, tem essa ideia de uma torre de vigia que pode vigiar cá para fora mas que, ao ser transparente, também é devassada pelo olhar dos outros. Não há privacidade... E acho que tudo isso está lá no texto de Horváth, não estamos a pôr nada a mais. Horváth nos dias de hoje… Foi uma forma de ecoar ainda mais em nós esta peça, pô-lo numa sociedade em que a imagem tem um papel central. O Dia do Juízo fala da responsabilidade de todos na “coisa” social, na polis. Horváth faz isso a partir de uma cadeia de acontecimentos, em que todos estão envolvidos, e nós hoje vivemos essas situações ainda mais aceleradamente, porque estamos sempre online e sempre a ser bombardeados por imensas coisas. E toda a gente, no que faz e no que não faz, se torna responsável. Hoje conseguem fazer-se grandes movimentos populares através do Whatsapp ou do Facebook. Nesta peça, a opinião da comunidade ora vai para um lado, ora vai para o outro e isso fez-me lembrar imediatamente o que se passa hoje nas redes sociais. Qualquer gesto é julgado em praça pública e tudo se passa como se não tivesse importância nenhuma. Esse foi o gatilho para utilizarmos o vídeo aqui. E depois percebemos que esse era o lugar ideal para colocar uma série

O vídeo em cena também entra nesse jogo de realidades? Sim, as imagens de vídeo também não fazem parte da realidade, também têm esse carácter espectral, não são a própria coisa, são um simulacro da coisa, a sua aparência. Fazia todo o sentido usarmos a imagem porque esse é também o tempo em que vivemos: o de uma aceleração, o das imagens em detrimento do pensamento e de uma estruturação do pensamento, o das notícias falsas, da manipulação das informações, dos populismos, da tomada de opiniões radicais e pouco fundamentadas nas redes sociais. O vídeo dá-nos uma sobreposição de camadas em cena, que torna tudo um pouco mais simultâneo, 3


como a fazer, surgiu essa ideia: hoje ainda mais somos responsáveis, porque hoje ainda mais estamos em contacto com tudo – ou antes, com tudo aquilo que nos querem dar. E essa manipulação é outra responsabilidade. Os filtros têm que existir, mas hoje é mais difícil tê-los: como sabemos o que é falso e o que é verdadeiro?

de comentários de outras personagens que retirámos nesta adaptação, mas também as notícias e toda uma dimensão de devaneio mental que está presente no texto. A responsabilidade individual na comunidade, a culpa e a inocência, a mediatização, a opinião pública que muda facilmente… tinha mesmo de ser feita agora esta peça, não era? A mim interessa-me muito na peça a questão da responsabilidade de cada um de nós naquilo que podemos mudar no que fazemos todos os dias, nos mais pequenos gestos. Esse foi o meu primeiro impulso nesta peça. Depois, quando comecei a pensar

A peça foi escrita em 1935-36, mas já estava lá tudo. Até o bullying aos de fora lá está, aos que não são nossos. Toda essa incapacidade de parar e de olhar para nós.

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Horváth dizia que escrevia peças de teatro contra a estupidez e a mentira e isso é intemporal, mas agora parece mais pertinente do que nunca. Sim, identifico-me muito com essa frase dele. São duas coisas que me incomodam muito, a estupidez e a mentira. Hoje, sob o pretexto da liberdade de expressão, toda a gente emite opiniões. Na peça fala-se muito em “ter a sensação” e isso leva-nos para a ideia de que por sensações lá vamos nós. “Sensação” era uma das palavras que estava no texto de Horváth e que quisemos sublinhar nesta encenação: uma coisa rápida, uma ideia, um julgamento, um sentimento... sempre com um carácter imediato e pouco refletido. Pode ser ambivalente, porque também tem a ver com a inteligência emocional e não racional e isso tem o seu valor. A questão é o que fazemos com essa sensação e é disso que fala O Dia do Juízo. No final, o chefe da estação dirá “não importa se somos culpados ou inocentes”... De alguma forma, este homem faz uma viagem interior e é talvez isso que importa. Não importa se os outros acham se somos culpados ou inocentes ou se a justiça decide se somos culpados ou inocentes, mas importa aquilo que achamos que devemos fazer.

Na peça, Horváth acaba também por passar para o público essa ideia de “sensação”... no final, cada um dos espectadores há de ficar com a sua sensação do que aconteceu ali naquela história. Esse não fechar da história torna-o muito moderno. Fica para o público a leitura final. E a nós, encenadores e atores, torna-nos a tarefa mais difícil, porque não queremos perder essa ambiguidade em cena... Quem é que matou? Será que alguém matou? O que se passou dentro daquele homem? Horváth escreveu um romance muito bonito, Juventude Sem Deus, que tem muitas pontes com esta peça. Também aí há uma série de valores e de 5


referências de humanismo contra a barbárie – e a barbárie era o nazismo naquela altura. Em ambos os textos, o protagonista assume os seus erros e o que acontece a partir daí já não importa porque eles, de si para si, fizeram o que tinham de fazer. Na peça pergunta-se várias vezes “de quem é a culpa?”. Mas não há inocentes, pois não? Não há. E voltamos a olhar para o substrato político que ali está. Porque é que aquele acidente acontece? Porque há um único funcionário na estação, porque se racionalizaram tanto os serviços que se achou que bastava uma única pessoa para fazer tudo. A culpa não será dele, mas do sistema... Mas foi ele que não carregou no botão e foi ela que o beijou e foram os outros que andaram a falar da relação dele com a mulher… Por isso, não interessa propriamente de quem é a culpa, mas vale a pena diagnosticar a situação e pensar melhor sobre as coisas. Porque, na verdade, somos todos culpados.

“Mas a verdade é outra coisa”, diz-se também várias vezes na peça… A verdade não é uma só, cada um tem a sua. A questão da mentira e da verdade é um bocado relativa. Há factos, como o de ele ter falhado o sinal, mas de quem é a culpa? Há muitos fatores. Provavelmente, até ao final, o chefe da estação achará que não tem culpa do acidente, mas acaba por resolver corrigir a sua primeira mentira. O vídeo também contribui para este lado mais mental da peça, mais relacionado com a consciência do protagonista e da viagem interior que faz, e que está relacionado com a presença do além e dos fantasmas.

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centrar a atenção no trabalho dos atores e no conflito desenhado por eles e que é, no fundo, a história escrita por Horváth. Esta não é das peças mais famosas dele, mas isso agrada-me. Há uma certa imperfeição, que nos permite entrar mais nesta peça. Tem qualquer coisa de inacabado, de não perfeito, que nos convoca a decifrar e a preencher.

Mesmo com o vídeo e a estrutura cénica em palco, as cenas estão alicerçadas nas interpretações dos atores. Como foi o trabalho com o elenco? Todo o trabalho está muito assente neles, sim. Falámos muito sobre as motivações destes personagens e tentámos tornar isso o mais eficaz possível, de acordo com a nossa leitura político-social mais do que propriamente com o enredo. Tentámos que a peça saísse um bocadinho do drama burguês para o plano das ideias. E apesar dessa camada do diálogo dos atores com a estrutura em palco e com as imagens em vídeo, tentámos manter a cena o mais despida possível, de forma a

Entrevista realizada em outubro de 2019, por Gabriela Lourenço / Teatro São Luiz Fotografias de ensaio de Estelle Valente

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© Estelle Valente

10 a 20 outubro teatro

O DIA DO JUÍZO

DE ÖDÖN VON HORVÁTH ENCENAÇÃO: CRISTINA CARVALHAL estreia Quarta, sexta e sábado, 21h; quinta, 20h, domingo, 17h30 Sala Luis Miguel Cintra m/12 €12 a €15 com descontos Duração: 1h30

Versão e Dramaturgia: Cristina Carvalhal e Pedro Filipe Marques; Encenação: Cristina Carvalhal; Assistência de encenação: Sara Carinhas; Interpretação: Carlos Malvarez, Cucha Carvalheiro, Eduardo Frazão, Ivo Alexandre, Júlia Valente, Manuela Couto, Paulo Pinto, Pedro Lacerda; Participação em vídeo: Gracinda Nave, Isac Graça, Sara Carinhas; Cenário e Figurinos: Ana Limpinho & Maria João Castelo; Vídeo: Pedro Filipe Marques; Luz: José Álvaro Correia; Música: Sérgio Delgado; Produção executiva: Sofia Bernardo Agradecimentos: Nuno Girão, Vasco Vieira de Almeida, Ana Vieira de Almeida, Hugo Limpinho, Companhia Olga Roriz Coprodução: Causas Comuns, Teatro Nacional São João e São Luiz Teatro Municipal

A Causas Comuns é uma estrutura financiada por

20 outubro, domingo

Direção Artística Aida Tavares Direção Executiva Ana Rita Osório Programação Mais Novos Susana Duarte Assistente da Direção Artística Tiza Gonçalves Adjunta Direção Executiva Margarida Pacheco Secretária de Direção Soraia Amarelinho Direção de Comunicação Elsa Barão Comunicação Ana Ferreira, Gabriela Lourenço, Nuno Santos Direção de Produção Mafalda Santos Produção Executiva Andreia Luís, Catarina Ferreira, Mónica Talina, Tiago Antunes Direção Técnica Hernâni Saúde Adjunto da Direção Técnica João Nunes Produção Técnica Margarida Sousa Dias Iluminação Carlos Tiago, Ricardo Campos, Tiago Pedro, Sérgio Joaquim Maquinaria António Palma, Vasco Ferreira, Vítor Madeira Som João Caldeira, Gonçalo Sousa, Nuno Saias, Ricardo Fernandes, Rui Lopes Operação Vídeo João Van Zelst Manutenção e Segurança Ricardo Joaquim Coordenação da Direção de Cena Marta Pedroso Direção de Cena Maria Tavora, Sara Garrinhas Assistente da Direção de Cena Ana Cristina Lucas Bilheteira Cristina Santos, Diana Bento, Renato Botão

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