O CROCODILO OU O EXTRAORDINÁRIO ACONTECIMENTO IRRELEVANTE 2019

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L A IP IC N U M O R T EA T SÃO LUIZ C O D IL O O R C O TEATROSAOLUIZ .PT

© Mário Galiano

TEXTO E ENCENAÇÃO RUI NETO

31 JANEIRO A REIRO 2019 9 FEVE A CLAS

SIFICAR PELA CCE

OU O EXTRAORDINÁ ACONTECIMENTO IRREL RIO EVANTE


O sonho de ir às Galápagos ou a tragédia de ser engolido pelo progresso

burocracia, que me enerva muito. Aquele crocodilo remeteu-me para um espaço onde os sonhos e os projetos se vão diluindo e estraçalhando. Parecia-me uma máquina de destruir sonhos. E isso abria várias portas que achei interessantes.

O Crocodilo, de Dostoievski, é um daqueles contos que traz da adolescência ou foi uma descoberta recente? Descobri este texto há uns quatro anos. Estava a mudar de casa e decidi ter uma biblioteca. Fui a casa dos meus pais e trouxe aqueles volumes das obras completas de vários autores, russos e outros. Num período de secura artística, folheei um desses livros de Dostoievski. E cruzei-me com este conto, que achei um pouco infantil por causa dessa ideia de que alguém podia sobreviver dentro de um crocodilo. Fez-me lembrar o Pinóquio. Ao mesmo tempo, tinha um lado surreal que tinha a ver com o que gosto de fazer. Apeteceu-me pensar como é que se poria aquilo em cena, o que seria aquilo enquanto espetáculo.

Um crocodilo que parece extraordinário, mas que afinal… O crocodilo parecia significar o animal exótico, o desconhecido, aquilo que vem de fora e que é diferente para uma sociedade fechada e de fronteiras fechadas, virada para si própria. Mas isso também me faz pensar que o progresso nos engole como uma máquina e que nos tritura. Foi assim que cheguei à cenografia do espetáculo: o crocodilo como uma máquina de ferro que nos engole. E nada é bom aqui, nenhum daqueles personagens é bom. Às vezes é difícil sermos bons…

À conversa com Rui Neto, a propósito de O Crocodilo ou o Extraordinário Acontecimento Irrelevante

Somos engolidos pelo progresso e pelo turbilhão de coisas à nossa volta? Claro, e o extraordinário acontecimento de hoje, que é irrelevante e não tem interesse nenhum mas que todos acham extraordinário, é rapidamente esquecido quando a seguir vem uma coisa mais extraordinária ainda… A minha ideia sempre foi fazer uma reescrita do conto e senti margem para enquadrar e fechar esta história, que nunca foi terminada porque foi escrita enquanto folhetins numa publicação que faliu.

Encontrou logo paralelismos com a atualidade? O que há neste texto de 1864 que lembra Portugal do século XXI? Fiquei surpreso porque parecia que estava a ler um texto escrito agora: privatizações, investimento estrangeiro... As problemáticas continuam as mesmas. E há a 2

Como é que foi essa reescrita do conto? Mudou muito, ficou muito do original? Pus o protagonista a querer viajar para as Galápagos, porque eu estava numa fase em que só pensava nisso. Acho que Dostoievski não ia aprovar, mas foi por aí que fui. Tive a liberdade de ir por onde me apeteceu. Interessava-me uma narrativa e um fio condutor que a história já tinha, mas a ação é completamente reinventada e tresloucada. Os personagens correspondem mais ou menos à linha que ele definiu, mudei-lhes os apelidos. Fui sempre fazendo muitas alterações ao longo do processo, desde a primeira residência com os atores em 2015. Porque o texto era um conto e não uma peça de teatro e eu já tinha mexido tanto que tinha de ir vendo se as coisas funcionavam a nível dramatúrgico. Ao longo destes anos fui cozinhando tudo em lume muito brando até chegar aqui.

tom até à estreia do espetáculo ou até depois disso. Quando começo a definir as coisas muito cedo é um problema. Geralmente, o que defino logo é o que depois não funciona. Nas leituras de mesa que fizemos, achei que já tínhamos um tom, mas depois quando fomos para o palco percebi que não estava a funcionar. Este espetáculo quase me remetia para um teatro radiofónico – adorava ter a possibilidade de também o transformar numa áudio-peça, porque sonoramente existe essa vida. Mas com o corpo implicado na cena, já não é a mesma coisa. Talvez também porque esteja a trabalhar com uma certa comicidade que não é a minha zona habitual. Como vim aqui parar não sei… Vou sempre para coisas mais apocalípticas, mais escuras, mais fechadas… Gostava de conseguir aqui um tom cinematográfico, quase como se fosse o início do cinema sonoro, onde ainda há rasgos de ritmos e de expressão corporal que têm a ver com o cinema mudo e que têm determinada expressividade. E onde ainda há ainda efeitos da luz do cinema mais antigo, mais soturna, figuras também elas mais sombrias. Gostava de ter um espetáculo visualmente apelativo mas com densidade, em contraste com o absurdo e a parvoíce de cena. Queria que o crocodilo fosse uma máquina que aterra e é perigosa, fria, dura, metálica. E isso tem de ser sentido.

… até chegar a este ponto em que um crocodilo devora um homem e depois todos se devoram uns aos outros… Sim, eles consomem-se uns aos outros. Parece que enquanto há sonhos, há uma vontade insaciável de ir por ali fora. É absurdo, é assustador. A encenação ainda sublinha mais esse absurdo do texto. Que tom quis para esta peça? Acho que vou estar à procura do 3


A comédia não é a sua zona de conforto, mas este texto puxa para aí… Esforçou-se para não transformar isto numa comédia? Não me esforcei para apagar a comédia, esforcei-me para deixá-la lá sem que seja a protagonista. Não puxo por ela nem a apago. Mas quero que estejam lá outros filtros entre o espectador e a comédia. Estou a tentar levantar filtros para que existam outras coisas que, no espetáculo, nos preencham o entendimento.

O grande desafio cénico foi imaginar com seria este crocodilo e pô-lo em palco? Sim, pensei em muitas coisas diferentes. Chamei o Rui Miragaia, que tem feito as estruturas cénicas dos meus espetáculos. Não queria cair na tentação de fazer uma coisa grandiosa que não fosse a minha linguagem. Interessava-me a expropriação do lado orgânico. Ele tem a forma de um crocodilo, mas mais do que ser um bicho, é ferro e parece uma caverna que nos fecha lá dentro e nos isola. Era essa a sensação que procurava: uma coisa que isolasse, que afastasse, que provocasse uma expropriação de tudo o que temos. Por muito que quem lá esteja diga que aquilo é ótimo…

Será, mais do que uma comédia, uma tragédia que nos faz rir? Sim, acho que pode ser esse o objetivo: transformar isto numa tragédia que nos faça rir. Se conseguir isso, penso que o tom do espetáculo estará certo.

Porque, na verdade, quem está fechado dentro do crocodilo está a adorar… O Rui Miragaia até dizia que era bom ter um ipad no fundo da garganta do crocodilo para ver quem é que tinha vontade de alçar a perna para lá entrar e ir às redes sociais. Andamos todos contentes a ser engolidos pelo progresso? Sim, andamos todos felizes, sem nos apercebermos de que aquilo nos está a asfixiar e a retirar muita coisa. Por muito que às vezes seja bom, não deixa de nos asfixiar… Fico muito aterrorizado com isto da tecnologia estar a tomar conta das nossas vidas. Mas já nem eu consigo viver sem telemóvel…

Estes personagens, em modo de fúria dramática, levam-nos por aí. São figuras um bocado recortadas, eles. Mas nunca trabalho muito com o conceito de personagem. Aproximo-me muito mais do ator. Quando começo a escrever, imagino logo atores e as vozes deles. Penso como é que vão funcionar vocalmente. Já é normal pedir-lhes que gravem uma parte do texto, preciso disso. As figuras nascem a partir do equilíbrio entre o ator que escolhi e o texto. O Miguel Sopas, por exemplo, já tem tudo antes mesmo de eu escrever a personagem. Aquela voz… Ele é uma figura vocal… e com barbas! É o meu russo do espetáculo. 4

Quando o vi no Cyrano de Bergerac, dos Primeiros Sintomas, pensei: “É esta voz! É ele que quero!” A construção dos personagens faz-se com o entendimento que os atores têm do texto e é aquilo que se vai descobrindo em cada ensaio mais do que um pré-conceito que eu tenha. Mas claro que procuro sempre o meu ponto de vista sobre a cena.

Pensei ter vários instrumentos até que achei que estava tudo a mais. E ficou apenas o acordeão e o Dinis Oliveira a tocá-lo. Trabalhei com o Cristóvão Campos, que é o responsável pela sonoplastia do espetáculo, e quis ter em palco um instrumento que faz parte do nosso espólio musical enquanto portugueses, mas ir também ao encontro da musicalidade russa e ainda da parisiense, por causa da personagem da Ana Guiomar. Fomos vendo os três o que servia para a cena. Também pedi uma canção ao Cristóvão, com quem tenho uma grande sintonia. Às vezes digo-lhe coisas surreais e ele parece que entra na minha cabeça. Pedilhe um som que fosse alguém a ir para as Galápagos… e ele criou uma música maravilhosa.

Às vezes encena de olhos fechados…? Encenar talvez não, mas nas leituras muitas vezes fecho os olhos e fico só a ouvir. E, de olhos fechados, abano-me e faço imensos gestos ao ouvir os atores dizerem o texto… Foi num desses exercícios que optou por ter o narrador a falar ao microfone? Fiquei com vontade que o narrador se sobrepusesse. Tive dificuldade em decidir como é que o ia colocar em cena porque ele é também personagem. Achei até que podiam ser dois atores diferentes… Percebi que aquela voz tinha que, de alguma forma, sobrepor-se às outras. O narrador está noutro patamar, num outro sítio, numa sensação de omnipresença no espaço da cena e da imaginação. Nem sou especialmente fã de pôr atores com microfones. Ao longo do processo gosto de estar sempre consciente das escolhas que faço.

E esta pergunta é só para quem já viu a peça, mas… que história, afinal, queria contar neste espetáculo? Há uma peça que gostava muito de fazer e tenho sempre a sensação de que todos os espetáculos que tenho vindo a criar são uma preparação para esse. Estou sempre a tentar fazer evoluir a escrita, os mecanismos de cena, a direção dos atores, para um dia chegar a esse espetáculo… não sei se lá chegarei, se não… … Até lá é contentar-se com uma viagem às Galápagos. Ah, gostava tanto!

Ter música ao vivo foi uma escolha já durante o processo de trabalho?

Entrevista realizada em janeiro de 2019, por Gabriela Lourenço / Teatro São Luiz

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A máquina de ferro

Estrutura Cénica Rui Miragaia

Em casa de ferreiro, nem sempre os provérbios acertam. Rui Miragaia nasceu filho de um ferreiro e ganhou cedo o gosto de trabalhar o ferro. Não seguiu exatamente as pisadas do pai, que ainda cria tesouras, facas e outras ferramentas, mas hoje faz esculturas em ferro e tem sido um parceiro habitual de Rui Neto nos seus espetáculos. Desta vez, o encenador pediu-lhe que criasse a estrutura cénica que, em palco, dá vida ao crocodilo desta história. “Começou com a ideia de termos dentes de ferro e com o cozinhar da ideia chegámos à tridimensionalidade e a uma estrutura mais escultórica e figurativa. O Rui Neto gosta de explorar os materiais com que trabalho e isso é um desafio. Propõe-me sempre coisas arrojadas. Eu próprio fico surpreendido com o que acabo por conseguir fazer. Ele acredita tanto que é possível fazer o que imaginou que eu fico imbuído desse espírito e dessa energia de criação.” A partir de uma fotografia de um esqueleto de crocodilo bebé, Rui Miragaia foi fazendo a sua interpretação e construindo, até chegar a uma estrutura de três metros de comprimento por metro e meio de largura. “É quase do tamanho de um automóvel. É feita com uma estrutura tubular, revestida por uma rede de ferro estendido, uma espécie de grelha 6

Uma orquestra dentro de um acordeão

que permite que se veja para dentro. Uma cabeça enorme com uma boca que abre e fecha, através de uma manivela. Não desenho nada. Com as palavras do Rui Neto e uma fotografia como referência, vou criando. Vou desenhando com uns tubos no chão e vou subindo, a olho, sem fita métrica. Construo de baixo para cima, vou desenhando no ar.” No palco, vindo de cima, há de aparecer um crocodilo todas as noites – uma máquina de ferro pronta a engolir o que encontra pela frente ou todos aqueles que se debruçam um pouco para a apreciar. “No final, ficou a meio caminho entre uma coisa mecânica e uma coisa orgânica, a meio caminho entre a máquina e a caveira. Era isso que procurávamos. O ferro deixa-nos caminhos para todo o lado. Costumo dizer que gosto de trabalhar o ferro porque é mais mole do que as pessoas, é mais fácil de virar…”

Sonoplastia

Cristóvão Campos

Tudo começou com uma orquestra. Pelo menos, na cabeça de Cristóvão Campos, responsável pela sonoplastia. Haveria música ao vivo nesta peça, mas nas conversas com o encenador Rui Neto, acabaram por escolher ter apenas um instrumento no palco. “Entusiasmei-me e comecei por fazer música para uma orquestra inteira. Depois, surgiu a possibilidade de termos um acordeão e foi preciso pensar como é que um só acordeão ia preencher o espaço de cena. Fui criando músicas que foram sendo adaptadas para serem tocadas ao vivo por aquele instrumento. Acabou por ser uma composição atípica, porque fui passando as músicas ao intérprete e elas foram crescendo nas mãos dele… Eu vou sendo o maestro.” Cristóvão Campos criou um universo sonoro que junta vários ingredientes diferentes numa mistura explosiva, que se revela em músicas tocadas ao vivo e em texturas pré-gravadas que vão pontuando a peça e sublinhando as ações em palco. “Procurei uma sonoridade que satisfizesse o nonsense que há neste texto, mas queria que existisse também um lado russo nisto tudo. Fui buscar uma certa comicidade e também um certo drama. Ao mesmo tempo, está lá no som aquela coisa grandiosa, enfática, que associo ao imaginário russo. Ali é tudo maior do que a vida.” 7


© Mário Galiano

31 janeiro a 9 fevereiro

Texto e encenação: Rui Neto; Intérpretes: Ana Guiomar, Miguel Raposo, Miguel Sopas, Rui Melo; Músico: Dinis Oliveira; Desenho de luz: João Rafael Silva; Sonoplastia: Cristóvão Campos; Cenografia, Figurinos e Espaço cénico: Rui Neto; Estrutura Cénica: Rui Miragaia; Assessoria de imprensa: Mafalda Simões; Assistência: Solange Freitas; Produção executiva: Nuno Pratas/Culturproject; Apoio à criação: Fundação GDA; Parceiros: DuplaCena, El Corte Inglès, Lacoste, Teatro da Terra; Agradecimentos: António Neto, Corpo Nacional de Escutas, Dina Neto, João Faria, Marta Duarte, Rafaela Lúcio, Pedro Guedes, Tânia Pires

teatro estreia

O CROCODILO

OU O EXTRAORDINÁRIO ACONTECIMENTO IRRELEVANTE

Coprodução: LoboMau – Produções e São Luiz Teatro Municipal

RUI NETO

Quinta a sábado, 21h; domingo, 17h30 Sala Mário Viegas; m/12 €12 com descontos CONVERSA COM OS ARTISTAS

3 fevereiro, domingo TEATRO DA TERRA

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

Direção Artística Aida Tavares Direção Executiva Joaquim René Assistente da Direção Artística Tiza Gonçalves Programação Mais Novos Susana Duarte Adjunta Direção Executiva Margarida Pacheco Secretária de Direção Soraia Amarelinho Direção de Produção Mafalda Santos (Diretora), Andreia Luís, Catarina Ferreira, Margarida Sousa Dias, Mónica Talina, Tiago Antunes Direção Técnica Hernâni Saúde (Diretor), João Nunes (Adjunto) Iluminação Carlos Tiago, Nuno Samora, Ricardo Campos, Sérgio Joaquim Maquinistas António Palma, Paulo Lopes, Paulo Mira, Vasco Ferreira Som João Caldeira, Gonçalo Sousa, Nuno Saias, Ricardo Fernandes, Rui Lopes Vídeo João Van Zelst Manutenção e Segurança Ricardo Joaquim Direção de Cena Marta Pedroso (Coordenadora), Maria Tavora, Sara Garrinhas, Ana Cristina Lucas (Assistente), Rita Talina (Camareira) Direção de Comunicação Elsa Barão (Diretora), Ana Ferreira, Gabriela Lourenço, Nuno Santos Bilheteira Cristina Santos, Diana Bento, Renato Botão

TEATROSAOLUIZ.PT

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