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são luiz teatro municipal

5 a 16 mar

á lva r o d e c a m p o s

marítima i n t e r p r e ta ç ã o

DIO G O IN FANTE J OÃO G IL Di recção cé n ica NATÁLIA LUIZA


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Caeiro, o mestre, diria… Sejamos simples e calmos, Como os regatos e as árvores, E Deus amar-nos-á fazendo de nós Belos como as árvores e os regatos, E dar-nos-á verdor na sua primavera, E um rio aonde ir ter quando acabemos!... Procurei que o alter-ego Caeiro fosse a “voz” que conduzisse o espectáculo… Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), Isso Exige um estudo profundo, Uma aprendizagem de desaprender Natália Luiza (Campos) Direcção cénica


ode marítima álvaro de campos

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ODE MARÍTIMA

José Luís Ferreira director artístico São Luiz Teatro Municipal

Um cais, um navio que chega, pequeno ponto ao longe que eventualmente nem chegará, porque não é isso que verdadeiramente interessa nesta história. E um poeta, que pode ser vários, um poeta que produz o milagre da viagem plena sem sair da sua cidade, sem sair da beira do cais... E três criadores que foram seduzidos, invadidos, por uma das manifestações mais extraordinárias da literatura portuguesa: um longo poema futurista, mas à sua maneira, que identifica “as máquinas e a sua poesia também”, mas que sabe demasiado da melancolia... A caminho de Abril, a caminho de quarenta anos de democracia real, vivemos com Diogo Infante, Natália Luiza e João Gil um daqueles projectos que nascem e tomam conta dos seus protagonistas. Um projecto feito de navios que, mais do que contar coisas, nos lançam perguntas, de navios que nos transportam numa inquirição de nós próprios. Ser português não é uma fatalidade. Também não é uma virtude substancialmente diferente de outras virtudes. É só diferente. “Um barco de papel num ribeiro”, nas palavras do actor.


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como é sentir? Luís Gouveia Monteiro

“Estes belos e grandes navios, imperceptivelmente balouçados (bamboleados) sobre as águas calmas, estes robustos navios, com aspecto ocioso e nostálgico, não nos dizem numa língua muda: Quando partimos para a felicidade?” Charles Baudelaire

A primeira pergunta do Diogo, retórica, é: “Como é que se interpreta o mar?.” Como é que se garante o absoluto, como é que se produz a transcendência? Como é que se pode assegurar que a magia é guardada e repetida, distribuída em palco, em dezenas de espectáculos, por todo o país, para milhares de pessoas, de quarta a sábado às 21H, domingos às 17H30? Ah, “as máquinas e a sua poesia também”. A pergunta, no fundo, é como repetir o que aconteceu na Quinta das Lágrimas, a 24 de Julho de 2012, depois das nove e meia da noite. A lua estava cheia, era uma terça, fazia muito calor e oitocentas pessoas esperavam ao ar livre por uma leitura encenada da Ode Marítima de Álvaro de Campos. A equipa, a mesma: Diogo Infante, João Gil e Natália Luiza. Só tinham tido meia dúzia de sessões de trabalho para montar o espectáculo e era a primeira vez que o Diogo dizia poesia, mas naquela noite, ali, aconteceu qualquer coisa. O actor acabou a récita encharcado, com as tripas de fora, virado do avesso, como um casaco despido à pressa. O público ficou colado à cadeira durante dez minutos, antes de conseguir abandonar o recinto. A equipa passou ainda algum tempo em silêncio antes de conseguir explicar aquilo: catarse, transe, sonho, viagem ou, simplesmente, um “vómito”, como ainda hoje o Diogo e o João se referem àquele 24 de Julho. “Essa noite foi muito improvisada, mas muito intensa, verdadeira e orgânica”,


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ode marítima álvaro de campos

lembra o Diogo. “Foi um vómito, uma descarga emocional, as vísceras todas à mostra. À quarta página abandonei a leitura, foi tudo muito electrizante, muito forte”, diz o João. “Foi marcante para nós e para o público. Nessa mesma noite decidimos continuar, era preciso seguir em frente”. Há portanto enormes semelhanças entre a forma como se induz o vómito e o processo de repetição dos milagres. A ambos os fenómenos se habitua depressa o indivíduo que anda nestas lides do mar. E não há maior risco do que navegar essa linha que separa o estrume do açúcar, as duas partículas elementares de que é feito o universo, como dizia o poeta. Se for gentil, o leitor perdoará a escatologia, mas é de tripas que aqui se trata, o que nos interessa é saber como se amanha uma alma. Ora então a questão é como induzir um vómito igual, como produzir repetitivamente um milagre como o da Quinta das Lágrimas? “A primeira vez foi um enorme e maravilhoso descontrolo. Agora é preciso partir muita pedra, controlar muito bem as condições para repetir esse descontrolo”. Como é que se volta a sentir aquilo? Como é que se volta a sentir, ponto. “O desafio é sentir alguma coisa”, diz o Diogo. “Numa época de atordoamento, o difícil é espicaçarmo-nos ao ponto de sentir alguma coisa.”

Glossário Marítimo Amainar

Colher as velas. Amurada

Parte inferior da borda que serve de parapeito ao navio. Ahoy

Interjeição utilizada para sinalizar barcos ou navios. É utilizada como saudação, advertência ou forma de despedida. Cordame

Conjunto de cabos de uma embarcação. Enxárcia

Conjunto de todos os cabos de um navio que seguram os mastros e mastaréus. Escuna

Como é esquecer? Para os dois intérpretes, o primeiro passo para a reconstrução do milagre foi o confronto sistemático com as imposições do texto, “cheio de beleza e transcendência”, para o Diogo, “ele próprio muito musical”, segundo o João. Pelo caminho, a Natália Luiza, responsável pela direcção cénica, insistiu na importância de tornar a poesia numa coisa viva. “Tivemos de partir muita pedra. O poema é um bloco de um mármore raro, maravilhoso. Para lhe dar vida senti a necessidade fazer com que aquele texto ficasse meu”, diz o Diogo. E continua: “Esta é a história de um tipo que vê um paquete e se vira do avesso, vai para fora da zona do conforto, mergulha em si próprio (...) Eu subscrevo emocionalmente a viagem, vou como um barco de papel num ribeiro, perco o controlo de mim. É uma sensação estranha, mas boa. Não sou este homem, mas procurei-o em mim. Não tanto uma personagem, mas uma determinada energia. A epopeia é um universo que nos é fácil, somos portugueses, as epopeias

Embarcação de dois mastros, velas latinas, verga só avante e sem mastaréu de joanete. Flâmula

Bandeira pequena terminada em bico; galhardete; pendão. Galdrope

Cabo que auxilia a manejar o leme. Gajeiro

Marinheiro de quarto na gávea. Gávea

Plataforma a certa altura dos mastros; vela que está acima da grande. Joanete

Vela superior à gávea e na sua direcção.


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estão em nós. As referências são-me familiares. Também conheço a dor e a mágoa e a angústia. Já vivi o suficiente para conhecer estas emoções. É a grande epopeia da humanidade, a necessidade desesperada de sentir alguma coisa.” Já o compositor e intérprete João Gil pensa em altura quando descreve este processo criativo: “O desafio é fazer com que a música seja uma catapulta, uma ferramenta, parte daquela linguagem maior. Para isso é preciso ser útil sem criar ruído. É preciso anular o ego artístico e pessoal. Há questões de coerência tímbrica e harmónica a que é preciso obedecer. O poema passa-se em vários patamares, exige um determinado ritmo: começa com uma lenta subida de intensidade, em crescendo, atinge um clímax e depois tem um desenlace bastante longo. Temos de respeitar tudo isso e de nos anular, de esvaziar as nossas pessoas. A solução foi aprender a coexistir com um poder dominante, como quando olhamos para o mar e o tentamos ler. É tal e qual a leitura da montanha: tenho de a respeitar e só se a souber ler é que a conseguirei atravessar. Mas é sempre a montanha que prevalece, é ela que fica lá.” Por esta altura, a cumplicidade entre actor e músico resulta já numa língua comum “o texto impõe jogos rítmicos muito definidos, balizas claras, mas a sua entrega tem de ser sempre feita pela primeira vez, implica sempre ir para fora de pé” (Diogo). A um mês da estreia o desafio já não era memorizar o longo monólogo, era esquecer, desaprender e voltar ao sopro inaugural da primeira vez. “Agora, a margem para o improviso é mais ao nível das intensidades do que das variações.” Agora é preciso preparar o descontrolo e, “se tudo correr bem, não andarei longe do primeiro vómito. Andamos uma vida inteira a aprender para depois, num pequeno gesto, transmitirmos aquilo que somos.”, explica o João. “Eu vi um ponto ao longe e pensei, vamos até lá. Ainda bem que o fiz, que me meti nesta balsa com esta equipa fantástica. Não quero portos seguros”, acrescenta o Diogo. Daqui a nada apagam-se as luzes, sobe o pano, há uma maré que enche e vem aí o mar. “O Porto não é alternativa ao naufrágio, é o sítio onde se perde toda a felicidade da vida.” Pois, “estamos todos embarcados”. Ai tanta citação, por deus, tanta metáfora, temos todos a cabeça cheia de humidade. “Para os barcos, filósofos. A terra moral também é redonda.” Esqueçam. O mar é o maior espelho do mundo.

Marooned

(em inglês no poema) Aquele que foi intencionalmente abandonado numa ilha deserta, com pouca ou nenhuma hipótese de salvação ou resgate. Mastaréu

Pequeno mastro suplementar. Poleame

Conjunto de todas as peças que servem para fixar ou dar retorno aos cabos do aparelho de um navio Schooner

(em inglês no poema) Escuna. Tramp Steamer

(em inglês no poema) Um dos dois principais tipos de navio mercante, no que diz respeito ao tipo de operação. O Tramp Steamer, por oposição ao Ocean Liner, navega sem rota ou calendário definidos, de e para onde quer que sejam requeridos os seus serviços de carga. Tombadilho

Castelo de popa, ou seja, parte elevada da coberta do navio, compreendida entre o mastro de gata e a popa. Verga

Longa peça de madeira que se coloca horizontalmente sobre os mastros, para que nela se prendam as velas.


ode marítima álvaro de campos

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! E quando o navio larga do cais E se repara de repente que se abriu um espaço Entre o cais e o navio, Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, Uma névoa de sentimentos de tristeza. Ode Marítima, Álvaro de Campos

QUARTA A SÁBADO ÀS 21H; DOMINGO ÀS 17H30 SALA PRINCIPAL; M/12

€8 a €15 (com descontos: €4 a €10,50) Duração: aprox 1h10

15 mar Conversa com a equipa artística

sábado depois do espectáculo

sessão 9 MAR

Direcção cénica Natália Luiza Cenografia Fernando Ribeiro Música original João Gil Desenho de luz Miguel Seabra Vídeo Pedro Sena Nunes (Realização e imagem) João P. Duarte (Edição) Responsável Técnica de digressão Tânia Neto Interpretação  Diogo Infante (Texto) João Gil (Música) Agradecimentos Margarida Mendes da Silva, Natália Alves, Marco Fonseca, Nuno Figueira, Cláudia Rodrigues e João Cachulo  

Co-produção

Apoio

Outros Apoios

São Luiz tEatro municipal Director Artístico José Luís Ferreira Directora Executiva e Adjunta da Direcção Artística Aida Tavares Adjunta da Direcção Executiva Margarida Pacheco Secretariado de Direcção Olga Santos Direcção de Produção Tiza Gonçalves (directora) Susana Duarte (adjunta) Mafalda Sebastião Margarida Sousa Dias Direcção Técnica Hernâni Saúde (director) João Nunes (adjunto) Iluminação Carlos Tiago Ricardo Campos Ricardo Joaquim Sérgio Joaquim Maquinistas António Palma Paulo Mira Vasco Ferreira Som Nuno Saias Ricardo Fernandes Rui Lopes Encarregado Geral Manuel Castiço Secretariado Técnico Sónia Rosa  Direcção de Cena Andreia Luís José Calixto Maria Távora Marta Pedroso Ana Cristina Lucas (assistente) Direcção de Comunicação Ana Pereira  Luís Gouveia Monteiro Nuno Santos Bilheteira Cidalina Ramos Hugo Henriques Soraia Amarelinho Frente de casa Letras e Partituras Assistentes de sala Carla Pignatelli Carolina Alves Carolina Serrão Constança Sá Cristiano Varela Delfim Pereira Domingos Teixeira Hernâni Baptista Inês Veiga Macedo João Cunha Leonor Martins Manuel Veloso Maria Veloso Severino Soares Carlos Ramos (Assistente) Segurança Securitas Limpeza Astrolimpa


8 mar poesia

100 ANOS DIA TRIUNFAL Um R á dio por Pessoa Concepção de José Neves SÁBADO ÀS 22H30

Jardim de Inverno; M/3

Entrada Livre

Diz o mito que, no dia 8 de Março de 1914, Fernando Pessoa se abeirou de uma cómoda alta e escreveu, de um jacto, O Guardador de Rebanhos, assim fazendo nascer Alberto Caeiro e a aventur a dos heterónimos. Escreveria também Chuva Oblíqua, «a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro», e terá tido ainda tempo para esboçar Ricardo Reis e criar, de Álvaro de Campos, a Ode TriunfaI. Cem anos depois, celebramos o dia mais importante e controverso das letras portuguesas ima ginando Pessoa-ele-mesmo cruzando as ruas de Lisboa. Muitas vezes ensimesmado – adivinhamo-lo assim – e outras tantas fazendo-se acompanhar de heterónimos nascidos a 8 de Março de 1914, como Alberto Caeiro. De algumas dessas viagens trata Um Rádio Por Pessoa, experiência de cerca de 30 minutos na qual José Neves investe em Pessoa, partindo de Caeiro e de O Guardador de Rebanhos, para chegar a cada pessoa, a cada ouvinte. Fernando, Alberto e José sintonizam-se através da palavra e do som, numa mistura de telefonia sem fios e de bandeiradas por Lisboa. Nunca isolados: sempre entre-si-e-com-quem-escuta, num só. Concepção e Interpretação José Neves Mulher Rádio Táxi Mirró Pereira Homem na Cidade Américo Rodrigues Espaço Sonoro Pedro Costa Fotografia Joana Oliveira Paiva Apoio à produção Mirró Pereira

www.teatrosaoluiz.pt

Folha de sala Ode Marítima  
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