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são luiz teatro municipal

15 a 18 mai

dança

paus e p é talas an d r é b r aga e c l áu d ia f i g u e i r e do c i rco l an do


José Luís Ferreira

Fomos procurar o amor no lugar da desolação CIRCOLANDO

O programa de uma temporada é um lugar imponderável onde se cruzam estéticas e expressões diversas, geometrias diferentes de um mesmo impulso de criação, discursos articulados e rumores quase imperceptíveis. É um lugar que transcende, quando transcende, a possibilidade de entropia através dos mecanismos próprios do desejo. Cada espectador, cada cidadão que escolhe habitar esse lugar, é um reconstrutor da realidade, é o demiurgo que colhe os universos particulares dos artistas, como dos filósofos ou dos cientistas, e com eles ergue um universo próprio, que transforma o mundo transformando a percepção que dele temos. Ao longo destes quatro dias, encontramo-nos dentro do palco, partilhamos esse espaço mítico com os criadores e intérpretes, viajamos com eles para dentro do estômago da baleia. Entre os despojos que aí encontraremos estão os traços distintivos do trabalho de André Braga e Cláudia Figueiredo, da companhia Circolando. Um trabalho que se desenvolve em diferentes escalas, desde as grandes produções até estes momentos íntimos em que o artista se confronta, e nos confronta, com as suas escolhas e com os seus modos. Com paus e com pétalas, com a dureza essencial e com a poesia... Saibamos compreender-nos nestes corpos e nestas vozes, saibamos lê-los e pensá-los em relação com tudo o que lemos e pensámos do mundo, e saberemos viver. Com paus e com pétalas.

Nos últimos tempos, temos organizado a programação das nossas novas criações entre projectos de grande dimensão, que envolvem vastas equipas dentro e fora do palco, e pequenos projectos que favorecem a reflexão sobre a linguagem que vimos desenvolvendo e a experimentação de novos caminhos. Depois de Arraial e Estufas, voltamos com Paus e Pétalas à esfera da intimidade. Paus e pétalas. Um dueto sobre as relações entre o homem e a mulher. O amor nos seus versos e reversos. Atracção, repulsa. Fusão, separação. Amor cru. Amor em tempos de cólera. Ruínas, entulho, pó, os restos de uma casa-cidade demolida. Fomos procurar o amor no lugar da desolação. Duro, áspero, severo, fechado. O mundo absorveu as qualidades das pedras. Não aprendo com o corpo a levantar-me aprendo a cair e a perguntar O músculo do coração contém e protege o embrião da luz. Entrega, amparo, ternura, desejo, pele, sopro, transparência, união, fusão. A pedra espera ainda vir a dar flor. O amor é uma das respostas que o homem inventou para olhar de frente a morte. Por intermédio do amor roubamos ao tempo que nos mata umas quantas horas que transformamos às vezes em paraíso e outras em inferno. Das duas maneiras o tempo distende-se e deixa de ser uma medida. Para lá da felicidade ou infelicidade, embora seja as duas coisas, o amor é intensidade; não nos oferece a eternidade mas a vivacidade, esse minuto ao qual se entreabrem as portas do tempo e do espaço; aqui é lá, e agora é sempre. No amor, tudo é dois e tende a ser um. Octavio Paz


Um movimento amargo e doce TIAGO BARTOLOMEU COSTA

Houve sempre no trabalho da Circolando um desejo de expansão do movimento a partir de um conjunto de mecanismos reactivos que, se partiam do corpo, o tinham como elemento complementar a uma ideia de composição mais vasta. Os objectos, o espaço, a presença da banda sonora e a consciência de um espaço-tempo outro que não aquele que correspondia à duração da própria peça, organizavam-se de modo a fornecer ao espectador um conjunto de portas de entrada para um objecto polissémico e polifónico. O espectador, portanto, foi sempre um elemento fundamental no diálogo que a Circolando estabeleceu com os seus próprios espectáculos, ao ponto de o convidar a neles participar, não activamente, mas certamente activando uma presença, uma ritualização do modo como age, observa e interpreta. Em Paus e Pétalas voltam a sê-lo, talvez do modo mais surpreendente. Ao invés de se nos dirigirem directamente, como acontecia em Mansarda, ao contrário do convite à dança em Charanga, explorando de outro modo a relação afectiva com o espaço como acontecia em Casa-Abrigo, agora os espectadores entram numa viagem sensorial, solitariamente intuitiva, guiados pela errância de dois corpos que nunca se revelam completamente. É um jogo de confiança e é, ao mesmo tempo, um exercício de reconstrução de uma relação de intimidade, que ambiciona ser ainda mais íntima, de pele, de uma aproximação e já não tanto de identificação. Um trabalho de cumplicidade que é um trabalho de pesquisa conjunta. O desenho do espaço vai sendo construído aos nossos olhos, a partir das ilhas de pedra que fazem o cenário, da convulsão de alguns movimentos que constroem a coreografia, do que imaginamos ficar por detrás dos olhos fechados dos dois intérpretes, do que acreditamos estar a ver, a interpretar, a construir, com cada peça de roupa caída

no chão, cada pétala de flor pisada, cada pau partido, cada recusa de uma entrega ao outro – ao outro corpo, ao outro olhar, ao outro gesto. Há no movimento o que antes parecia apenas da ordem da poética. Há, agora, uma gravitas, uma sensação de falha, de perda, de risco, de errância e de procura que alimenta um jogo entre corpos que são espelhos um do outro. Os olhos fechados dele e a assertividade no olhar dela sujeitam-se a uma mesma violência, à mesma espiral de dor, à mesma tentativa de equilíbrio, que é, no fundo, um desejo de sobrevivência. A surpresa estará, portanto, no modo como para o percurso da Circolando uma coreografia como Paus e Pétalas sujeita um discurso de composição que viveu sempre na redoma da metáfora e da poética e quebra esse vidro, o conforto da construção paulatinamente desenhada, para se aventurar no interior de uma explosão de frases, fragmentos de ideias e de movimentos que nunca se encerram. Há, sobretudo, tal como antes em Areia, a obediência a apenas um desígnio: o da liberdade do corpo. E, com isso (ou porque não existem escolhas inocentes, por causa disso), um modo de agir sobre o espaço que é amplamente radical. Acabou a metáfora, acabaram os espelhos, as rimas internas e a poética. Acabou a distância que separava o intérprete do objecto, o movimento do espaço, o tempo do corpo. Acabou, sobretudo, um olhar de fora. Agora, o que existe, num gesto que é de refundação de um discurso, é a vontade expressa de olhar para o palco e, agindo sobre ele, esgotar qualquer equívoco que possa existir na relação entre o corpo e o espaço. E, assim, porque o movimento na Circolando deixou de ser um elemento entre outros para passar a ser o princípio e o fim da ideia, é de um jogo de forças, de formas, de equilíbrios, de estratégias que se vai construindo, impondo, uma coreografia que rasga, >


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de forma árida e ríspida – porque ambiciosamente desejante – o espaço e o tempo em que o palco se transformou. Num contexto e numa paisagem coreográfica que sugere estarmos a viver um regresso ao movimento mas, desta vez, mais observador e mais atento, o movimento proposto em Paus e Pétalas tenta resgatar-se de uma voragem de composição cínica e desconfiada para abraçar uma hipótese de diálogo. Há um desejo de pertença, de desenho, de inscrição daqueles corpos naquele espaço, do mesmo modo que o há daqueles intérpretes naquelas personagens. Mas há, também, um pudor nestes dois corpos. Não se exibem, não se expõem – ou pelo menos não o fazem um para o outro, fazem-no muito para o espectador, buscando alento numa partilha construída no momento – e, contudo, são cúmplices de uma mesma demanda. Ouvimos “quando estás ausente a tua imagem dilata-se”, mas o que dizem é “quando estás presente a tua imagem condensa-se”. Não é uma contradição porque o que se ouve, ouve-se como se fosse um grito, uma espécie de movimento que ambiciona ultrapassar a composição formal. Uma espécie de círculo que, para se completar, para se aproximar, rasga, rompe, provoca rupturas, procura-as. E, quando as encontra, insiste. Até a uma espécie de letargia que é, afinal, o ponto de equilíbrio onde se encontra o racional com o potencial de um movimento que, até agora, parecia acreditar na sua finitude. Há um novo início para a Circolando. O privilégio é nosso por podermos ser parte dele.

www.teatrosaoluiz.pt

15 a 18 mai dança

PAUS E PÉTALAS

um espectáculo de André Braga e Claúdia Figueiredo CIRCOLANDO QUINTA A DOMINGO ÀS 19H

PALCO DA SALA PRINCIPAL; M/12

€13 (com descontos: €5 a €9,10) duração aprox. 1h10

direcção artística André Braga, Cláudia Figueiredo coreografia, dramaturgia, espaço cénico e figurinos André Braga, Ainhoa Vidal, Cláudia Figueiredo composição musical Pedro Gonçalves, João Cardoso músicos Pedro Gonçalves, João Cardoso, Alexandre Frazão desenho de luz Francisco Tavares Teles desenho de som André Pires construção plástica Nuno Brandão produção Ana Carvalhosa, Cláudia Santos interpretação Ainhoa Vidal, André Braga co-produção Circolando, Centro Cultural Vila Flor, TNSJ e São Luiz Teatro Municipal residência de criação Centro Cultural Vila Flor Circolando é uma estrutura financiada pelo Governo de Portugal – Secretário de Estado da Cultura/Direção-Geral das Artes.

Apoios Circolando IEFP/CACE Cultural do Porto Agradecimentos Circolando Alexandra Natura, Fernanda Araújo, Nuno Carinhas, Didier Michel, Tiago Bartolomeu Costa, Vítor Costa, Tiago Faria, Jean-Marie Chabot, Susana Neves, CEM – Centro em Movimento e ainda Peixe, Carla Martinez, Margarida Cabral, Marta Félix, Alexandra Barbosa, Adriana Oliveira, e todos os que assistiram aos ensaios ao longo do processo de criação


Folha de sala Paus e Pétalas