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Textos de Gisela Gold Diagramação: Tarcísio Cavalcante

giselagold.com 2010


Pequeno grande menino

Ouvi numa palestra de um amigo psicanalista um retrato interessante de seu filho: uma mãe não desgrudava os olhos do garoto que brincava com o amiguinho de pular escada. Certa hora o menino soltou: “Minha mãe está querendo que a gente não brinque com medo que eu me machuque. Acontece que meu joelho já está ralado há maior tempão”. Quanto encontro recusado por imaginar que poderia não dar certo e me machucar. Esqueci a criança que se jogou na primeira bicicleta sem rodinha, sem pensar que podia cair. Acho que vou dar férias ao meu analista e marcar hora com esse menino para pular escada.


Tem que ser com ela

Imagino como deva ser a vida de um cara ralador que dá a alma para pagar a primeira prestação da casa própria. Aquela que ele prometeu pra mulher amada e junta todo troquinho do mês. O filho está atrasado pra escola, não deu tempo de almoçar, mas a prestação da casa não pode atrasar. Porque a alegria que dá botar um sorriso no rosto dela, tem preço não. Esse homem não se apaixona ou faz loucura? Talvez a paixão seja trocada por aquele amor de quem é feliz há muito tempo ao lado daquela que um dia pegou em sua mão querendo construir futuro junto. Aquela que recebe telefonema dele na tarde de folga, para darem uma olhada nos móveis da casa que eles vão parcelar. Mas tem que ser com ela. Tem que ser com ela.


Tempo da tia

Lembrou das queixas, histórias, vestidos, desejos e poemas. Lembrou de todos. Todos eram dela. Um dia como outro qualquer, nos tempos da tia de redação, o menino escreveu sobre si. No texto aparecia bolinha de gude, fruta roubada no quintal do vizinho, beijo escondido no pátio da escola, cinema de adulto visto antes da hora. Não tinha espaço pra ela. Nem na redação, nem no coração. A alma de moleque ainda não entendia de paixão.


Domingo pé de cachimbo

Sempre desconfiei de pessoas que nunca aceitam chocolatinho, fatia de torta saindo do forno, pedacinho de empadão de vó. Não ensinaram na maternidade a declarar desejo, mas tem assim de gente ensinando a reprimi-lo. Ensinamento que acabou com meus almoços de família. Era domingo pé de cachimbo, quando o avô sentava meio dia em ponto na ponta da mesa para inaugurar a clássica macarronada. Bons tempos em que corpo da gente entendia de calor e não de caloria.


Desde que o mundo é mundo

Sempre desconfiei do bom humor de gente muito limpa. Gente já começa a sujar a mão quando sai da barriga de mãe e quer saber da vida lá fora. Quem pegar num jornal pra saber do mundo, vai borrar os dedos. Todo mundo que vai em frente marca o chão que pisa. Viver requer sujeira.


Grito calado

Tem grito que é mudo mesmo. Tão mudo quando a gente quer dizer tanta coisa, mas fez armadura no corpo pra enfrentar o mundo e se esquece como é que faz pra dizer que ama. Vontade de ter coragem. Vontade de dar um grito do meu afeto para meu avô. Que falta faz aquele homem, que lhe mandava pegar papel, lápis e borracha para anotar suas observações a respeito das matérias que eu não entendia. “Não decora, menina; aprende. Tem que saber interpretar. Tem que saber ler.” Saudade de não entender matéria...


Venda não efetuada

Uma senhora bastante erudita não parecia muito contente com o auxílio que pediu na livraria: “ Olha aqui, minha filha, não é esse tipo de livro que estou procurando”. Como nenhum dia se soletra como o outro, a empregada do estabelecimento experimenta o inédito: “eu não entendo de tudo que vendo, mas posso entender um pouquinho, se a senhora falar sobre o assunto. Quem sabe a senhora não me ajuda a ajudá-la?” Por lá desaguou água muito nova nos rumos daquelas mulheres. Nem sempre ela levava algum livro. Mas toda visita à livraria, a moça lembrava de perguntar da saúde da senhora que saía sempre com sorriso no rosto. Moça não entendia de vendas. Entendia de alma.


Dois ponteiros

Ela berrou querendo saber quanto tempo ainda faltava para chegar o dia das crianças e ganhar a boneca que todas tinham menos ela. Tudo tinha cheiro de que era para ontem. O avô avistou-a invocada e resolveu contar-lhe que um dia também já fora invocado com o tempo. Ele berrou querendo saber quanto tempo ainda faltava para chegar o dia das crianças e ganhar o direito de dar uma volta no quarteirão escondido dos nazistas. Tudo tinha cheiro de que já é hoje. Graças a Deus.


Mãe judia não se aposenta Todo ano, quando chegam as festas judaicas, minha avó põe a célebre mão no peito e ao invés de cantar o hino nacional, começa: - Não vou aguentar, meu dedo não melhorou, esse ano não vou aguentar ir pra cozinha sozinha preparar o jantar. - Perfeitamente, pensa a família, vamos encomendar a comida. As vésperas do festejo, a nora recebe um telefonema da sogra, com uma voz de um resfriado que está só no começo, mas se alguém perguntar, ela está com pneumonia: - Não quero ninguém comendo comida industrial. Se ninguém sabe, vou eu para a cozinha. Vovó passa o jantar todo falando que esse é o ultimo que faz, que dá muito trabalho, mas ai do neto que levantar antes do terceiro prato (judeu que não repete o prato três vezes, para a mãe judia, não gostou da comida). Moral da história: mãe judia não tem aposentadoria.


Casamenteira Era uma mulher de casamentos. Dez anos comprando pão e queijo minas com Seu Manoel, mais oito colhendo dicas com a Maria da locadora, e mais vinte gritando em jogo do Flamengo. Ai do mundo se quebrasse alguma regra sem avisá-la previamente. Que enviasse uma mensagem de texto, ligasse a cobrar. Há cinco anos, escolheu a mesma calçada do homem de sua vida. Ele ousou mudar seu roteiro no mundo. A relação ganhou gosto de inédito, que nem torta de vó que acabou de sair. Desejaram pôr um rebento no mundo. Achou que estava curada do casamento com os hábitos. Coisa nenhuma. Mais uma vez quis brincar de regra. Foi tentar fazer o papel de Deus, desenhando o jeito da criança vir pra vida. Pião girou e o feto veio diferente do que ela planejava. Rebento queria era rabiscar seu próprio roteiro. E em seu dicionário ainda não cabia a palavra “hábito”. Veio de um jeito não escrito em seu caderno. Talvez escrito nas estrelas. E elas só brilham sem hora marcada.


Ao mestre com carinho

A menina leu a revista mais lida do país. A soma de ponto nos testes dizia que ela não era feliz. Disse-lhe um professor que quando não se acha a solução

do

problema

debruçado

na

escrivaninha,

procura-se nas caminhadas. Foi lá que ela achou uma lembrança. Vasculhou os filmes de sua vida e pescou o clássico Cinema Paradiso. A história de um garoto com olhar espumado de inocência saboreando escondido

cenas clássicas dos beijos de

cinema. Culpa de um velho. O velho que rodava os filmes no cinema de vila. Um velho que carregava consigo um olhar de menino apaixonado por cinema. Esse foi seu mestre de felicidade. Uma felicidade que não sai na revista. Olhou para o sofá, viu a tal revista com fórmula de felicidade. Jogou fora.


Auxiliar de portaria Entrei no quarto. Perguntei quem era ele. Contou-me de sua doença renal. Insisti que a pergunta ainda não tinha resposta. “Você quer mesmo saber quem sou eu: eu sou um auxiliar de portaria.” “Um porteiro”, pensei calada. Ele não titubeou: “Um auxiliar de portaria é nada mais nada

menos

que

a

porta

de

entrada

de

um

estabelecimento. Muita gente já me pediu informação. E dependendo do meu jeito de recebê-las elas vão subir para falar com o presidente da empresa de um jeito ou de outro. Além do que, muita gente importante já apertou a minha mão e precisou da minha ajuda para não se perder lá dentro. Fora os que resolvem puxar assunto, enquanto não chega o elevador e me contam a vida toda. Talvez ninguém da família saiba coisas que eu soube. Ai que saudade de acordar com as galinhas, fazer a barba, vestir meu uniforme...”. Definitivamente ele não era mais “o quarto 502”, nem “a crise renal crônica”. Ele era o auxiliar de portaria.


Red

O espelho me acusa de sumiço. Em cinco minutos o dedo suja meus lábios com batom cor de sangue. Como quem sublinha em letras garrafais o segredo mais elementar da humanidade: somos todos feitos de carne. Somos todos VERMELHOS. Vermelho-vontade... Ferrari-rubi. Ao virar meu olhar para a esquerda, lembro da China comunista e me aquieto por cinco minutos. Os cinco minutos me são caros vermelho dor de coração. Vermelho que arranha a garganta num grito que me diz mulher. Cabelos castanhos que se querem ruivos. Uivos. O vinho é tinto, por favor. Vontade de me chamar Eva. Que pecado, se fosse cor, não teria dúvida. Lua cheia, intensa que só ela, como fêmea que menstrua e experimenta a gula de cerejas. Desejo que soa como arte: marcial. Difícil conter esse Vermelho que se catapora de significados... Que Vermelho é moça arteira. E arte não entende de discrição.


Fora do compasso

Original não é apelido de cerveja; please, criaturas, criaivos! Ao invés de brioches, criatividade para esse povo que

vive

da

chepa

das

imitações

baratas.

Sem

demagogias, pulo o couvert e vou direto aos finalmentes: vai ver se eu cover lá na esquina! A estatística me faz estática

e

o

mundo

estético

me

faz

apática.

Absolutamente fora da gramática, esqueço a regra de ser super simpática. O som casou e o mundo ficou mais triste. Alguém desafina, por favor, que essa danada da repetição faz o game ficar over. Fim. Poderia acabar por aqui. Ao invés de ponto, uma vírgula, por favor, maestro! Talvez eu queira experimentar as curvas da estrada de Santos. É preço alto não seguir em linha reta, eu sei. Prefiro o descompasso do que dez com passo de um. Que Jeans tamanho único nunca me caiu bem nas pernas.


Temperaturas

Eu sei que são três e cinco enquanto o moço pincela perfume de margarina sobre o milho quente. Meus dentes escorregam em delícia como quem entra no país de Alice. O pianista do café da esquina arranha um jazz e o inverno me vem precoce na tua ausência. Por que a gente só ouve “My funny valentine” depois que os amores se vão? O apetite vai comprar cigarros e não volta. Como você. Enterro meu corpo em leituras e textos. Quem sabe os dias passam. Livros me oferecem sorrisos sem data de vencimento. Um dia novo, num mês outro chega e eu agradeço o vizinho por aumentar o som da vitrola. “Chovendo na Roseira” de Tom Jobim me lembra o recomeço. Primaveras. O passado pede licença e se recolhe como a boa e velha música clássica na estante, para uma tarde ser apreciado sem me depreciar. Já não são mais três e cinco. A vida pega bicicleta e dá voltas. Abre o sol. Eu também.


Chocolate

Chocolate... Em Francês fica mais bonito. Ainda mais se o filme tiver a Juliette Binochet com seus dedos sujos e sem culpa. Chocolates me faltam no sumiço do diálogo com o marido de minha mãe, a quem chamo de “paiê”. Quis tantas vezes oferecer-lhe chocolate ao leite, mas na hora agá, inventava discussão e o sabor era amargo: “Vou ficar assim, exagerada como você?”. Daí coração cansava da dieta e exigia açúcar. E lá eu ia no supermercado das pazes catar em mim doces bilhetes: “exagerada sim, mas adorável, como um bom Chocolate...”


Generosos

Moço que se procura no umbigo, carece de saber seu lugar no mundo. Daí, vida fica com gosto de isopor. Coisa pouca fica com o nariz em pé se exibindo como questão de vida ou morte. Generosa essa gente que não passa a mão na cabeça, mas pega na mão do moço e lhe propõe um trabalho. Minuto que se arrastava feito burro velho, começa a voar. Corpo troca dor pelo cansaço que cai como cachaça da boa, abrindo apetite.


Jardim sensorial

Faz batuque dentro de mim. Não sabe. Eu é que sei o sorriso escancarado que borra meu espelho depois do banho. Escapa que tomou perfume de ervas. Saliva escorre pelos lábios que tremem como adolescente no experimento do primeiro beijo. Só serve se for o seu. Sonoro. Só nosso. Cerro as pálpebras. Imagino. É alguém tateando seu primeiro encanto. Hiatos de silêncios. Faço de ti meu jardim sensorial. Tateio com cuidado como se tocasse um anjo. Desejo. Vou aos céus. Ao raiar do dia, o vento sujeita-se ao acaso e me grita predicados num quadro embalsamado pelo vermelho. Eu rio de janeiro por dentro uma música clássica no meio de uma fazenda distante. Abro os olhos. É você. Choro.


Feng chui de alma

Vez em sempre, há de se pôr sachê nos músculos cardíacos. Que alma trata dos nervos com perfume fresco de flor. Recomendável acortinar peito de aconchego. Amanhecer o palato com comida chamada delícia. Lavar ombros com moletom de abraço. Hidratar madeixas com cafuné de vô. Trocar colírio de entrelinhas por estrelas gotejando noite enluarada. Adubar canteiro de paz, pra pé de amor vingar. Aposentar matraca. Deixar ouvido saber de assobio de passarinho. Cochicho? Só se for de canção de ninar gente grande.


Laço de fita

Laço de fita tem o peso de uma valsa leve. Flutua. Mesmo sabendo que nasceu de um nó. Frisson de quem corteja. Desejo de quem abre. E quando revela o segredo da caixa, não rasga. É seda que desmancha. Pétala que escorrega do buquê. Goiaba derretida em suflê. Desfaz num passe de mágica. Para uns, pedaço de tecido. Para tantos outros, carícia de lembrança.


Morte e vida, Severina

Aterro meus dedos e desenho natureza morta. Cheia de viço. Vasculho tamanho que vira pó. Do qual viestes ao qual retornarás. Aliás, evapore nesse inverno sem deixar caroços no meu mapa mundi. Mó justo, que ainda carrego sementes e primaveras.


Compulsão a não repetição

Dê rota, que eu tento o caminho oposto.



Pintura Íntima