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INSANIUM E+ RESENHA: ERASMO DE ROTERDÃ PERFIL: HELENO, LOUCO POR FUTEBOL

O Museu da Loucura


EDITORIAL

Maluco Beleza Qual é, afinal, a definição da

loucura? Agir de forma distinta da maioria? Enquanto uns se esforçam para ser normais, fazer o que parece ser aceitável e esconder sua personalidade, outros não têm vergonha de ser o que querem ser. Somos todos loucos, a nossa maneira, misturando maluquez com lucidez. Tentando ser racional, normal, mas com ideias tortas, doidas, fora da lei, fervilhando em nossas mentes. Quem nunca vez algo meio maluco, ainda que em pensamento? Essas ideia loucas, acompanhadas de algumas enfermidades, fizeram e fazem com que muitos sejam largados em hospitais psiquiátricos, e julgados e condenados, pelas mentes ditas sãs que eles não podem mas viver como os outros, livres. Mas um maluco beleza, de verdade, doente ou não, internado ou livre, usando terno ou camisa de força, será sempre um maluco beleza. Indiferente aos que os outros pensam dele. Simplesmente, deixa com que sua alegria transborde, divide com as pessoas, sem medo de julgamentos. Então, que sejamos todos malucos beleza, misturando maluquez com lucidez, aprendendo a ser louco, e trilhando um caminho fácil de seguir, o de não ter para onde ir.

Expediente:

Conselho editorial: Aliny Ramalho, Bárbara Barreto, Caroline Araújo . Fotografia e arte Tawane Cruz Interior do Museu.


RESENHA A Loucura de Erasmo de Roterdã A loucura, uma das enfermidades humanas mais temidas, já rendeu diversos livros, filmes e longas discussões. Erasmo de Roterdã, já em 1509, se atreveu a elogiá-la em seu livro O Elogio da Loucura. O livro contém uma forte crítica sobre os costumes da Igreja Católica da época e traz um humor crítico sobre a loucura, não a loucura de uma pessoa só que precisa ser internada e tratada, mas a loucura de toda a humanidade. Na posição de uma deusa, filha de Plutão e Frescura, é a própria loucura que narra o livro, ela própria fala aos leitores e julga a guerra uma das maiores loucuras existentes. Justifica que o homem mesmo sabendo que pode morrer e que muitas pessoas morrerão ainda insiste em guerrear. Essa deusa louca também busca mostrar às pessoas que é através dela que realizamos todos os nossos anseios e desejos. . Em contraste com o elogio que Erasmo de Roterdã fez sobre a loucura, encontramos em Barbacena o Hospital Colônia. Lá a loucura não era vista com bons olhos e qualquer comportamento que não fosse aprovado pela sociedade, como a homossexualidade, merecia o internamento e o tratamento de choque, literalmente tratamento de choque. Presos dentro de um hospital, mal tratados e submetidos a diversos métodos de tratamento, as pessoas julgadas loucas muitas vezes não agüentavam a dura realidade e ali mesmo faleciam.

Morriam ali sem, ao menos, desfrutar de sua loucura e enxergar o mundo como bem queriam. A loucura, que dentro do Hospital Colônia muitas vezes se agravava, não tinha nada de belo como a de Erasmo de Roterdã, lá ela não permitia a realização de anseios, muito menos era tratada como uma deusa. O único tratamento que a loucura conheceu em Barbacena foi as altas doses de remédio e os choques. Por: Caroline Araujo

Objetos usados no antigo hospital:Acima uma camisa de força, tpicamente usada pelos sanatórios. Ao lado e abaixo, aparelhos de eletrochoque, usados para supostamente curar os pacientes.

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REPORTAGEM REPORTAGEM REPORTAGEM

O Museu d

Em 1903, foi criado na cidade de Barbacena, o primeiro hospital psiquiátrico de Minas

Gerais, para levar assistência aos alienados do estado. Instalado onde antes funcionava um sanatório particular para tratamento de tuberculose. As dependências do hospital, está situado nas terras da antiga Fazenda da Caveira, de Joaquim Silvério dos Reis, o delator do movimento dos Inconfidentes mineiros Barbacena foi levantada como uma das opções para se tornar a nova capital mineira, mas por não possuir recursos hídricos suficientes, Belo Horizonte foi escolhida..Como prêmio de consolação a “cidade das rosas” recebeu o Hospital dos Alienados, depois Hospital Colônia. Assim começava o funcionamento do “hospício”, que possuía a capacidade de 200 leitos e teve como primeiro diretor o Dr. Joaquim Antônio Dutra. Nos primeiros anos de funcionamento, o Colônia foi uma Instituição de respeito, mesmo não dispondo de métodos muito eficientes de tratamento, seus pacientes recebiam atendimento respeitável. O Hospital oferecia oficinas de olaria e carpintaria e um Centro Hortigranjeiro. Fachada museu de Barbacena-MG. Devido aosdobons resultados apresentados, o A Hospital Colônia, começou a receber pacientes considerados para alembra sociedade, e oigreja. hospício tornou-seestino de doentes mentais, sifilíticos,, entrada da anormais construção uma


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tuberculosos, marginalizados, desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoólatras, mendigos, negros, pessoas sem documentos e prostitutas. Com a demanda de pacientes, o Hospital começou a sofrer uma mudança significativa. Os leitos não eram suficientes para atender a todos, havia escassez de recursos financeiros e matérias de limpeza. O tratamento com os pacientes passou a ser degradante e como resultado dos maus tratos, o Colônia atingiu índices elevados de mortalidade. O local antes respeitável, começou a se tornar depósito de doentes, mortos e comércio de cadáveres. Diante a todos os problemas apresentados pela instituição, Barbacena recebeu o estigma de “Cidade dos Loucos”. Os problemas apresentados pelo hospício de Barbacena, só

,tuberculosos, marginalizados, desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoólatras, mendigos, negros, pessoas sem documentos e prostitutas. Com a demanda de pacientes, o Hospital começou a sofrer uma mudança significativa. Os leitos não eram suficientes para atender a todos, havia escassez de recursos financeiros e matérias de limpeza. O tratamento com os pacientes

passou a ser degradante e como resultado dos maus tratos, o Colônia atingiu índices elevados de mortalidade. O local antes respeitável, começou a se tornar depósito de doentes, mortos e comércio de cadáveres. Diante a todos os problemas apresentados pela instituição, Barbacena recebeu o estigma de “Cidade dos Loucos”.

Dentro da sala Representativa. Alguns raios-x são expostos

num grande mosaico, e logo abaixo, um crânio de verdade.

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Os problemas apresentados pelo hospício de Barbacena, só aumentavam como o decorrer do tempo. Em 1979, os eletrochoques se tornaram uma constante no Colônia, maior hospício do Brasil. As descargas eram tão fortes, que chegavam a afetar o abastecimento de luz no município. No decorrer dos anos, estmasse que morreram cerca de 60 mil pessoas no local. Projetado para 200 leitos, chegou a receber 5.000 pacientes. Os mesmos dormiam no chão, bebiam água de esgoto, andavam nus e passavam frio e fome. Mulheres grávidas chegavam a passar fezes no próprio corpo para se proteger de ataques de funcionários. Além de doações de bebês, realizadas sem o consentimento das mães. A ditadura escondeu o drama dos pacientes do Colônia, denunciado em 1961 por “O Cruzeiro”.O caso só voltou a ganhar importância em 1979, quando um grupo de psiquiatras e profissionais ligados à Saúde Mental, trouxeram Franco Basaglia, psiquiatra italiano, que ao visitar o Hospício de Barbacena, ficou horrorizado com a forma que os pacientes eram tratados e comparou o local com “Um Campo de Concentração Nazista”. No mesmo ano, começaram uma séria de reportagens e denúncias envolvendo o Hospital.

Imagens acima: Instrumentos cirúrgicos usados pelos médicos no sanatório. Muitas das cirurgias ali praticadas nunca se fizeram necessárias. 7


As amarras da sociedade. Algemas usadas para prender os internos mais agressivos. Alguns nem reagiam Ă  prisĂŁo mas mesmo assim eram encarcerados como animais.

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Através destas denúncias, a partir dos anos 1980, o hospício começou a ser modificado e desativado. As autoridades da área da saúde contrataram profissionais para área assistencial e psiquiatras que estiveram ligados ao III Congresso Mineiro Psiquiatria para elaborar um plano de reestruturação do hospital. O projeto elaborado permitiu um profundo processo de transformação e humanização do Colônia.

Na imagem acima, agulhas de diferentes tamanhos. No hospital haviam seringas com 20cm de comprimento,. Na foto abaixo, a sala onde os equipamentos de eletrochoque, lobotomia entre outras cirurgias bizarras estão expostos

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Exposição de fotos de internos do sanatório. A maioria das pessoas retratadas já está morta. Algumas fotos mostram momentos peculiares em que se pode ver momentos felizes, ou pelo menos não tão sórdidos quanto os já passados nesse lugar.

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PERFIL

Heleno de Freitas, a louca estrela solitária Heleno de Freitas, nascido em 12 de fevereiro de 1920 na cidade de São João Nepomuceno, um dos maiores ídolos do futebol brasileiro, ícone do Botafogo e botafoguense de corpo e alma, passou seus últimos dias de vida no Hospital Colônia de Barbacena, maior hospício do Brasil, lugar onde veio a falecer precocemente em 8 de novembro de 1959. Não seria clichê chamar Heleno de Estrela Solitária, ele era, de fato, uma estrela solitária, sua própria estrela. Heleno possuía o egocentrismo como centro de sua vida. Além disso, ele era diferente. Era um jogador de futebol que assistia às peças de Sheaskpeare, escutava Jazz, era advogado e galã. Com inúmeras qualidades dentro de si, era impossível imaginar seu fim trágico. Devido à vida boêmia e viciado em éter, Heleno contraiu sífilis, doença que o levou á loucura. Um de seus delírios iniciais foi entrar em campo de sobretudo quando defendia o Boca Juniors em Buenos Aires e querer acender com um revólver um palito de fósforo que colocara entre os dedos dos pés. Com o tempo, os delírios ficaram mais graves, a loucura piorou e Heleno precisou ser internado no Hospital Colônia. Lá esqueceu que tinha família, mulher e um filho, seu único assunto era o futebol e chegou a tal ponto de comer papel higiênico usado. O craque respirava futebol, freqüentava jogos dos times locais e um dia pediu pra jogar. Durante um jogo teatral, Heleno marcou gols, tinha sua torcida e, por um momento, era como se o gênio da bola estivesse de volta. Mas o gênio não resistiu muito tempo. Heleno de Freitas foi encontrado já morto em seu quarto, por ironia do destino ou por pura coincidência, em um dia que faz alusão ao futebol, em uma manhã de domingo. A loucura levava naquele 8 de novembro de 1959 o ídolo botafoguense. 11



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