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Alírio Vicente Silva, o homem e o poeta Bastaria uma sessão de recitação dos poemas de Tacalhe, para sairmos daqui maravilhados com os seus versos. Diriam, mil vezes melhor sobre a sua poesia, do que aquilo que ora começo a apresentar. (pausa) O meu propósito aqui é bastante simples. É contar-vos como conheci Alírio Vicente Silva (Tacalhe) e falar um pouco sobre os poemas de Tacalhe representados em duas das mais importantes antologias de poesia de expressão portuguesa: Canto Armado (organizado por Mário de Andrade) e No Reino de Caliban I (organizado por Manuel Ferreira). Não é meu propósito fazer uma análise exaustiva aos seus poemas. Quando descobri o encanto e a força da poesia eu frequentava o ensino secundário. Acreditem, até hoje foi a descoberta maior da minha vida. Espero que a minha breve apresentação vos aguce um pouco mais a curiosidade por esta forma de expressão (que é a poesia). Como conheci Alírio Vicente Silva Conheci o Alírio por intermédio de um outro poeta, também filho de São Miguel – Novissíl de Fasejo, pseudónimo de Landim de Barros. Ele ia fazer o lançamento do seu primeiro livro de poemas e convidou-nos, eu e Alírio para fazermos a apresentação do livro. Antes da apresentação do livro tivemos um contacto para nos conhecermos e trocar algumas impressões, do livro e não só. Desse breve contacto tirei duas ilações: que era um homem muito curioso e era um homem muito humilde. Duas qualidade que eu considero importante num ser humano. - Curioso porque ficou interessadíssimo na minha formação, em saber coisas sobre o meu curso. Ouvia aquilo que eu dizia e só interrompia quando tinha algo realmente para comentar. Falamos sobretudo de África e literatura. - Humilde porque falava dele e dos seus poemas com muita simplicidade e não parecia um escritor que andava atrás de nenhum prémio ou reconhecimento. Disse que estava a preparar a publicação dos seus poemas em livro. O que infelizmente não chegou a acontecer. O nosso segundo e último contacto, foi aqui nesta cidade no dia 28 de Setembro de 2010, na altura da apresentação do livro Diadema do Rei, do poeta Novissíl de Fasejo (que como já disse, também é filho deste conselho. E que foi colega e companheiro de casa em Lisboa). Após o lançamento da referida obra, Alírio veio ter comigo para me motivar a continuar a escrever e a ler. E até prometeu vir cá falar com os estudantes de São Miguel caso houvesse interesse e formulado um convite.


Da minha parte o convite nunca foi feito e foi a última vez que o vi. Não sei se depois dessa apresentação, ele teve a oportunidade de se dirigir publicamente aos micaelenses.

A poesia de Tacalhe visto a partir das antologias poéticas: Canto Armado e No Reino de Caliban. Quem se debruçar sobre os poemas de Tacalhe encontrará um poeta comprometido com a causa da Liberdade e da Justiça. Quem se debruçar sobre os seus poemas ser-lhe-á revelado um poeta com um extraordinário sentido de humanidade. Julgo que esses aspectos compõem a essência do corpo poético dele. Os poemas representados nessas duas antologias de poesia, são poemas que tentaram sobretudo expor as fraquezas, as debilidades do sistema colonial português. Referindo a esse sistema repressor, reparem o que dizem estes versos: Homens retidos em gaiolas Quebraram as grades da astúcia. Homens condenados à treva, De par em par abriram As portas do sistema cintilante E o sol fragmentou-se para todos

Os factos e a realidade são analisados com uma frontalidade que nos obriga a reflexão. Só uma pessoa muito desatenta ficaria indiferente aos seus retratos. Num outro poema o poeta afirma: Nem palavras pastosas Entulhem os ossos Dos esqueletos vazios Na procissão do desespero Duzentos e tal mil ecos Gritam que são vozes humanas


Estranguladas nestas ilhas. Imaginem a reacção dos agentes da PIDE e o pessoal da administração colonial ao lerem esses versos. O que diriam? - Como é possível tamanha afronta? Ou então provavelmente perguntariam – Quem é esse louco que imagina essas barbaridades? Louco, pois! Mas ele é assim. Gostaria, agora, de referir a algo que verdadeiramente mais chamou a minha atenção nos seus poemas. Nos poemas ditos de combate a coisa que primeiramente sobressai é o sentimentalismo que os poetas metem dentro dos seus poemas. Reparem, não é à toa que os poemas de combate são usados para a mobilização de militantes. É precisamente porque exploram muito o lado emocional e sentimental das pessoas. Tentam despertar sentimentos de revolta e de luta ligados a causa da pátria e nação. Tacalhe faz isso nos seus poemas e faz mais. Os poemas de combate dele, a meu ver, sugerem mais a reflexão do que a luta. Isso poderá chocar muitos. Mais o meu apelo vai no sentido de analisarem os seus poemas como poemas que abordam em várias dimensões a dignidade humana. A dificuldade da nova geração em compreender os poemas de combate é que a maioria, perde parte significativa do seu sentido e significado fora do contexto de luta. Ou seja, perdem a importância quando os conflitos acabam. É aí que reside a virtude maior dos seus poemas porque nos poemas de Tacalhe a dignidade humana é observado em várias dimensões, atinge um patamar elevado de compreensão. Os seus poemas são de combate em qualquer circunstância em que a opressão tenta reinar. São de uma tremenda actualidade os seus poemas. Nem todos que escreveram ou que escrevem poemas de combate se poderão gabar disso. Também a nível estético estamos perante uma linguagem bem trabalhada e depurada. E isso faz-nos querer recitar os seus versos: Escutem a músicas destes versos do poema emigrante: Passageiros anónimos De nomes iguais Éramos brilhos nos olhos rancores Dos carros eléctricos. Também ouviram os poemas que foram recitados, lindos versos! Apelo final:


Espero que os estudantes de S達o Miguel, jovens de S達o Miguel saibam valorizar um dos filhos mais ilustre desta cidade. Estejam na dianteira da promo巽達o das obras deste distinto poeta micaelense que para onde viajou levou consigo a Calheta.


Tacalhe