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Inquietação Será desta vez, pensava Dona Ana enquanto ia-se vestindo. Ainda antes de sair de casa, benzeu e pediu a Nossa Senhora que olhasse à sua angústia. O que terá acontecido? Porquê tanto tempo sem dizer nada? Fico aqui nesta aflição dos diabos! Fico aqui a acabar aos bocados! Saiu de casa pensativa sem se aperceber do intenso calor que se fazia sentir e, que pedia um traje mais leve e não o blusão que se descaia sobre a saia. Tó, seu afilhado passou por ela apressado a pedir a bênção. Credo menino, para quê tanta pressa? Deus te abençoe. Falei ontem com a comadre que amanhã irás à monda comigo. Manel foi ver um amigo que está internado no hospital da Praia e só volta amanhã a tarde. Quando retomou os passos, assaltaram-lhe lembranças, de quando chegou pela primeira vez a aldeia onde agora vive. Lembrou, quando pela primeira vez, ouviu o nome da localidade onde fora nomeada para substituir uma professora que fora de licença de parto. Lá, vivem pessoas? Quando a licença dela acabar, não ficarei nesse local, nem um dia a mais. Os senhores que me arranjem uma colocação aqui na capital. Um sorriso gordo brotou-lhe da face. Riu-se da arrogância da jovem professora. Riu, porque agora compreende que a virtude maior da vida é o mistério. Caminhava absorta em seus pensamentos. Essas lembranças afastaram, por alguns instantes, as preocupações que nessa tarde não a deixavam estar tranquila. Depois disso, consultou o relógio e viu que não se ia atrasar. Também que chegasse atrasada, não haverá nenhuma carta. Mensalmente copiava o percurso que, cada vez mais, aumentava a sua amargurada. Que marido insensato! Onde já se viu renunciar um emprego prestável, abandonar a mulher que acaba de dar a luz e pegar a febre de Terra Longe! É bem feito, sempre menosprezou as minhas opiniões. Pela primeira vez, desde que saiu de casa, sentiu-se incomodada pelo calor. Logo que saiu, se estivesse atenta, teria voltado para pegar a sombrinha ou, então, quem sabe até trocado de roupa. Teve de aguentar. Quem consegue aguentar tudo isso, aguenta de bom ânimo o calor infernal que se fazia nessa tarde. Finalmente, chegou ao posto de venda da Dona Francisca. Era em frente desse estabelecimento que o senhor Fortes entregava as cartas. A mais de quinze anos nessa profissão. Ele, e a sua inseparável amiga, a moto. Vinha do centro e percorria todas as moradias dessa freguesia. Os que já o conheciam, sabiam que ele encarava essa tarefa como uma espécie de missão de vida. Nem as canseiras acumuladas conseguiram afastar a boa disposição com que sempre anunciava os nomes dos destinatários. Também aprendeu com o tempo, a decifrar pela expressão facial o que cada um esperava encontrar. Mal se sentava, a Dona Francisca mandava a sua codé levar-lhe uma caneca de água bem fresquinha. Nesse dia, enquanto bebia, Dona Ana constatou que apesar de ser um bom prosador, era muito discreto no que tocava aos aspectos íntimos da sua vida, por exemplo: se tinha filho, se era casado, se alguma vez tinha emigrado.


Ao longo desse tempo, muitas caras estranhas se tornaram dele habitual. Começou a entregar as cartas, pronunciando somente os nomes dos destinatários. Mais uma vez, nenhuma carta do marido. Morrer não, que notícia má tem pernas ligeiras. Sentada ainda no mesmo lugar, tentava desvendar essa estranha situação. Quando as cartas foram todas distribuídas, foi solicitada por duas senhoras que não sabiam ler para decifrar as respectivas mensagens. Despediu-se dos que ainda se encontravam presentes e retomou o caminho de volta. Faltava pouco para o sol se pôr, porém o calor não se tinha afrouxado nem um pouco.


Conto inquietação  
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