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A COBERTURA JORNALÍSTICA DO TRIBUNA DA BAHIA NA CONSTRUÇÃO IMAGÉTICA DOS CANDIDATOS AO GOVERNO DO ESTADO¹

Tátila Sampaio²

RESUMO:

O presente artigo tem por objetivo a analisar a formação discursiva do jornal Tribuna da Bahia, bem como as matérias e fotografias que compõem o posicionamento partidário e ideológico do veículo. Foram observadas quinze edições do Tribuna, dos dias 16 de março a primeiro de abril de 2010, tendo como referência, além da teoria do agendamento, artigos sobre fotografia, comunicação e discurso. No desenvolvimento da pesquisa foram pontuadas questões que favorecem a reeleição do atual governador do Estado, Jaques Wagner, do Partido dos Trabalhadores (PT). Em todas as edições analisadas, o periódico deu ênfase aos projetos do governo, além de destacar viagens internacionais de Wagner e sua posição de influência frente ao Poder Executivo federal. A utilização de termos, fotos e enquadramentos, de forma repetida, tem como função construir e fixar a imagem do candidato. Articulando ideias e, principalmente ideologias.

PALAVRAS-CHAVE: discurso, enquadramento, comunicação, fotografia.

_________________________________________________________ 1. Artigo apresentado para obtenção de nota parcial à disciplina de Comunicação e Política, ministrada pela professora Verbena Córdula. 2. Estudante da Faculdade 2 de Julho, 5° semestre, do curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, noturno.


A partir do estudo, leituras e análise teórica dos textos, aliado a pesquisa das quinze edições do Tribuna da Bahia, fica evidente que a formação da imagem de um determinado candidato deve estar alicerçado no enquadramento. A circulação de fotos, textos e outros tipos de comunicação midiática, facilita e reforça as ações semióticas do indivíduo. O que com o tempo gera a projeção desejada.

Os exemplares dos dias 16, 20, 21, 23, 25, 26, 27, 28, 30, 31 do mês de março e do dia 1º de abril traziam na capa fotos que destacavam atos do governador. As imagens ilustravam a participação ativa do político em diversos setores sociais e também a “sua capacidade de articulação” em um período de grandes decisões eleitorais. Este fenômeno estabelece relações entre a ideia e a imagem, ou seja, a construção de um signo, a fim de ilustrar e fixar uma determinada narrativa. Uma progressão regular de fatos, ações que fortalecem a construção do símbolo.

Nas matérias analisadas Wagner sempre aparece em destaque. São inaugurações de obras; parcerias partidárias; apoio do prefeito de Salvador, João Henrique, além de prestígio internacional como membro da comitiva oficial do governo brasileiro no Oriente Médio (fato evidenciado em quatro edições). Estar na mídia, ter sua imagem de “homem público” e os feitos veiculados é uma das estratégias de fortalecimento ideológico.

Conforme Pinto (2002), a “propriedade da fala” faz parte da luta pela hegemonia do discurso na sociedade, o que salienta o poder na contemporaneidade. Porém, essa produção enunciativa é fruto de um processo de captação de outros discursos, que através dos efeitos de sentido no público criam uma grande polifonia, constantemente percebida na comunicação atual.

Pinto salienta ainda que, justamente, é esse processo de sucessivas interpretações, a partir da heterogeneidade da análise discursiva, que permite a pluralidade de contextualizar e interagir com a prática social. Todos esses aspectos partem do resultado das convenções de codificação do contexto de produção, dentro de um universo de outras possibilidades.


O estudo dos elementos semióticos (signos, símbolos, índices e ícones), o caráter polissêmico da narrativa e o enquadramento escolhido permitem o registro de uma mensagem. O propósito é direcionar e projetar uma interpretação capaz de gerar um recorte favorável ao emissor. Como é exposto por Julian Gutmann, em seu artigo Quadros narrativos pautados pela mídia: framing como segundo nível do agendasetting?

Enquadrar significa selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê-los mais salientes em um texto comunicativo, de forma a promover uma definição particular do problema, uma interpretação causal, uma avaliação moral e/ou uma recomendação de tratamento para o item descrito" (apud ENTMAN, 1993:52).

A formação discursiva vai além dos textos e está aliada ao campo das imagens, que também se configura como um discurso. Há uma ideologia, intenção e intertextualidade.

A mídia impressa, em especial nas capas de revistas e na primeira página dos jornais, utiliza diversas técnicas de tratamento de imagens e diagramação para definirem posições enunciativas. A caracterização de personagens públicos, obtida por meios da escolha de bordas coloridas, colocação de textos e legendas com determinadas características tipográficas, é uma constante na mídia” (PINTO, 2002, p. 37/8).

Todos estes aspectos têm a função de reforçar a imagem do governador, como um mecanismo de sustentação para sua reeleição estadual. Na edição do dia 16 de março de 2010 Jaques Wagner aparece na capa do impresso em uma foto que sugere seu poder de influência internacional.


Aparecer nas fotos sempre ao lado de algum representante de governo, seja internacional, federal o municipal, traz para Wagner a ideia de um governador bem articulado e presente nos principais cenários políticos. Ao lado do presidente Lula e da pré-candidata à presidência, Dilma Rousseff – na inauguração do Gasene na Bahia – Wagner aparece em posição privilegiada, com enquadramento em plano conjunto, o ângulo salienta o cenário, contextualiza, demonstrar prestígio e apoio ao governador frente à chapa petista.


A própria diagramação do jornal, o posicionamento das manchetes sugerem uma ideologia. Observa-se nas matérias de capa dos dias 27 e 28 de março uma forte alusão às ações do governo: “Rodovia Ilhéus-Itabuna será duplicada”, escrita em fonte maior, em negrito e com linha de apoio que extrapola o ideal jornalístico, favorece ao PT. Já a manchete abaixo: “Vaias para Geddel”, escrita em fonte menor e na cor vermelha, destaca a insatisfação popular diante do candidato do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). A legenda demonstra o constrangimento do presidente frente ao ex-ministro da Integração Nacional. Em contrapartida, a edição favorece a imagem de Wagner e da cúpula do governo federal, enquanto Geddel está no canto direito da foto e o ex-carlista, César Borges, ambos com a imagem cortada. Vale ressaltar que a manipulação e o tratamento de fotografias não é um fenômeno da era digital. Conforme Almeida (2006), os negativos de vidro das últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, já sofriam interferências. Os fotógrafos faziam cortes, aproximavam a imagem, modificavam o cenário, a fim de garantir ao personagem um ideal de imponência e austeridade política frente aos demais. Os líderes soviéticos Lênin e Stalin, o italiano Mussolini e o alemão Hitler utilizaram exaustivamente estas técnicas como estratégias de alcance político. No Brasil, a


partir da ditadura ocorreu a intensificação do uso da fotografia como instrumento de formação discursiva. A edição, o processo de seleção de imagens, tem com principal função produzir significados favoráveis a uma determinada montagem ideológica. A fotografia isoladamente pela sua denotação e conotação, é uma mensagem no universo da comunicação jornalística. Resta, portanto aproveitar essa imagem direcioná-la convenientemente, escolhendo as de maior potencial comunicativo e descartando as que destoam dos propósitos escolhidos. Esse esforço não se resume a destacar esta ou aquela foto, mas tem, na continuidade do processo, a sua principal estratégia. A documentação fotográfica deve produzir efeitos a médio e a longo prazo, de tal sorte que resulte num lento mas continuado construir do perfil do ator. Essa construção utiliza-se dos códigos visuais simples, notórios, para decodificação fácil dos estereótipos do leitor (ISSLER, 2002, p.95).

Outra foto de capa, bem sugestiva, é a que apresenta a troca de olhares entre o prefeito da cidade de Salvador, João Henrique, e o petista Jaques Wagner. A matéria do dia 30 de março traz a seguinte manchete: “Governo e Prefeitura de mãos dadas”, frase que acabou com as especulações e dúvidas a respeito do apoio do gestor municipal ao seu candidato favorito a ocupar o Palácio de Ondina. Na linha de apoio é descrito o amor, a civilidade, a união e a parceria dos políticos para o desenvolvimento de obras públicas. Em matéria do dia 23 de março João Henrique reafirma apoio à candidatura de Geddel Vieira Lima, mas como foi comprovado posteriormente, o prefeito acabou mudando o discurso depois de uma conversa a “portas fechadas” com o atual governador do Estado.


A construção de uma imagem é realizada através de múltiplas inserções, individuas e coletivas. De acordo com Pierce (1977), o signo representa um objeto, que na formação discursiva deve corresponder ao “saber dom mundo” do interpretante, de modo a favorecer as instâncias de poder. É um espaço de mobilidade discursiva, de inserções da percepção e da consciência do indivíduo. O interessante é observar o jogo entre os elementos enunciadores, pois não existem zonas impermeáveis, indiferentes às novas necessidades, novos pensamentos e novas formas de desenvolvimento social. É o cotidiano em movimento citado por Pierce. O poder não é substancialmente identificado com um indivíduo que o possuiria ou que o exerceria devido a seu nascimento; ele torna-se uma maquinaria de que ninguém é titular. Logicamente, nesta máquina ninguém ocupa o mesmo lugar; alguns lugares são preponderantes e permitem produzir efeitos de supremacia. De modo que eles podem assegurar uma dominação de classe, na medida em que dissociam o poder do domínio individual (FOUCAULT, 1979, p.219).

A desqualificação ou afirmação de um determinado conteúdo, a hierarquização do


conhecimento, aliado a fotografias e textos, produz uma influência que favorece à reeleição de Jaques Wagner. A multiplicidade discursiva, os níveis diferentes da sociedade e os efeitos dos dispositivos de poder buscam sinalizar o discurso teórico e unilateral, observam criteriosamente o que está por trás do estabelecimento de uma narrativa em detrimento da outra – uma forma de compreender os saberes históricos como formação de um novo conhecimento.

“CHAPA DOS SONHOS” Utilizando esse título o editor de Política do Tribuna da Bahia, Oswaldo Lyra, em refere-se à chapa eleitoral petista em matéria publicada no dia 26 de março. A equipe seria formada pelo atual governador Jaques Wagner (PT), o ex-governador e secretário do Tribunal de Contas dos Municípios, Otto Alencar (PP), o senador César Borges (PR) e a deputada federal Lídice da Mata (PSB). Uma coligação de partidos com vistas à ampliação das bases de campanha, sendo caracterizada como um “casamento perfeito”. A construção enunciativa transmite uma ideia de união, acertos e amor. O diálogo do Partido dos Trabalhadores (PT) com o Partido Republicano (PR) é uma ação de interesses políticos, para fortalecimento da chapa nas eleições 2010. A presença do PR é significativa, afinal o partido, na Bahia, tem quatro deputados federais, seis estaduais e a pretensão de aumentar esses números nas próximas eleições. O Tribuna enaltece, principalmente, a figura do presidente estadual do PR, senador César Borges, que na matéria do dia 17 de março caracterizado pelo repórter Adriano Villela como “o noivo cobiçado” e “o menino dos olhos de ouro”, em referência ao diálogo entre Borges e Wagner. Toda essa configuração faz parte de um jogo político, que não se articula individualmente; muito menos sem que haja um forte investimento econômico – o que facilita o uso da mídia para promoção da imagem pública. O poder dever ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas


malhas os indivíduos não só circulam mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer ação; nunca são alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos , passa por eles (FOUCAULT, 1979, p.183).

Os aparelhos ideológicos estão intimamente relacionados na produção de uma “verdade”. Esta sempre é polissêmica: a edição de imagens, os textos, a escolha direcionada, o recorte do cenário político, as fontes entrevistadas, a abrangência geográfica, social, financeira, as causas são múltiplas. Porém com uma significação centralizadora, que entram no espaço normativo, arbitrário e das formatações coletivas. Todos esses aspectos são unificados por um ideal comum: a ascensão do poder e a defesa da verdade. A verdade não existe fora do poder ou sem poder. A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como os enunciados verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro (IDEM, p.12)


CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise das quinze edições do Tribuna da Bahia juntamente com o estudo dos teóricos vem reafirmar a presença constante, e talvez indissociável, da ideologia. Ser parcial, tomar posicionamentos, escolher e excluir determinados pontos é sempre uma estratégia de manutenção ou ascensão de poder. Quando se fala em construção imagética de um candidato às eleições, tende-se ter em mente o recorte, o enquadramento. A mídia e todas as novas tecnologias da informação procuram, dentro da prática jornalística, informativa pinçar os elementos favoráveis à formação enunciativa. A associação de fotografias, textos, legendas ou ausência de conteúdo podem sinalizar o posicionamento e o tipo de destinatário que se deseja comunicar. A maneira como as matérias se organizam, manchetes, títulos, colunas e fontes que são, ou não ouvidas, tudo, revela um segmento dentro de um universo de outras possibilidades interpretativas. Conforme Foucault (1979) todos estes aspectos estão inter-relacionados, mas não são uma unidade única e impermeável. Tornar o homem “útil e dócil” é uma tarefa complexa, que requer habilidade estratégica e discursiva, afinal é uma relação instável, cheia de aporias. O indivíduo não é um coadjuvante do poder, um ser alheio e externo a realidade, pelo contrário é um dos resultados deste processo disciplinar. A construção enunciativa tem como base estabelecer uma verdade, seja por formas de coerção ou técnicas específicas, a produção da “verdade” está ligada a ideologias, efeitos de domínio e procedimentos que viabilizem a disseminação de uma ideia. “A „verdade‟ está circularmente ligada a sistemas de poder, que a produzem e apóiam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem. „Regime‟ da verdade” (1979:14). A formação dessa estrutura de diálogo entre os sujeitos, se dá principalmente na criação de zonas de empatia, ou seja o candidato tem que ser identificado pelo receptor, como um agente participativo. O que nesse período de análise foi muito bem construído pelo Tribuna. Nas matérias publicadas o atual governador do


Estado, Jaques Wagner, é tratado de forma honrosa, com destaque para suas ações, em detrimento dos outros candidatos, que, na maioria das vezes, aparecem como coadjuvantes de uma corrida eleitoral “já vencida”. A articulação entre o verbal e o não-verbal foi destaque nas edições observadas, com a intenção de focar o olhar do leitor no que é favorável ao veículo. A utilização de fotografias é essencial nesse processo, pois cria uma ideia de continuidade na transmissão das informações. Foucault (1979) destaca que a multiplicidade discursiva, os níveis diferentes da sociedade e os efeitos dos dispositivos de poder buscam sinalizar o discurso teórico e unilateral, observam criteriosamente o que está por trás do estabelecimento de um determinado discurso em detrimento a outro – uma forma de compreender os saberes históricos como forma de construção de um novo conhecimento . O poder e suas infinitas ramificações, instância que circula, uma rede que se transforma e desloca-se dentro dos mecanismos de produção do saber.


REFERÊNCIAS FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 26. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1979. _____ Arqueologia do saber. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. ISSLER, Bernardo. As máscaras de Barbie: um estudo dos conflitos simbólicos no fotojornalismo do Estadão. In: BARROS FILHO, Clóvis. Comunicação na pólis: ensaios sobre mídia e política. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. GUTMANN, Juliana Freire. Quadros narrativos pautados pela mídia: framing como segundo nível do agenda-setting? 2006. Disponivel em: http://www.portalseer.ufba.br/index.php/contemporaneaposcom/article/viewFile/3481/ 2538. Acesso em: 03/05/2010. PINTO, Milton José. Comunicação e discurso: introdução à análise de discursos 2ª edição – São Paulo: Hacker Editores, 2002. ALMEIDA, Cláudia M.T.; BONI, Paulo C. A ética no fotojornalismo da era digital. Discursos fotográficos, Londrina, v. 2, n.2, p.11-42. 2006. CATANHO, Fernanda J. M. A edição fotográfica como construção de uma narrativa visual. Discursos fotográficos, Londrina, v. 3, n.3, p.81-96. 2007

A COBERTURA JORNALÍSTICA DO TRIBUNA DA BAHIA  

O presente artigo tem por objetivo a analisar a formação discursiva do jornal Tribuna da Bahia, bem como as matérias e fotografias que compõ...