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Ficha Técnica Título original: HOPE Autor: Lesley Pearse Traduzdio do inglês por M ário Dias Correia Capa: M aria M anuel Lacerda Imagem de capa: Craig Fordham Fotografia da autora: Charlotte M urphy, 2014 ISBN: 9789892333359

Edições ASA II, S.A. uma editora do Grupo LeYa R. Cidade de Córdova, n.º 2 2160-038 Alfragide – Portugal Tel.: (+351) 214 272 200 Fax: (+351) 214 272 201

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CAPÍTULO 1

Somerset, 1832 nunca ajudou a trazer bebés a este mundo! – sentenciou Bridie num tom brusco, enquanto –Gritar enfiava a corda presa à cabeceira da cama nas mãos da sua senhora. – Puxe pela corda e faça força. Ao ouvir a porta abrir-se nas suas costas, olhou por cima do ombro e viu Nell, a criada de sala, entrar com uma bacia de água quente. – Já não era sem tempo – resmungou. – Pensei que tinhas fugido. Nell não ficou ofendida com a dureza de Bridie; sabia que era o medo a falar. Bridie não era parteira e só o horror de ver Lady Harvey exposta ao escândalo público a convencera a fazer ela própria o parto. Naquele momento, aparentava bem os sessenta anos que tinha, com os cabelos cinzentos a escaparem-se de baixo da touca engomada, a cara gorducha tensa e amarelada pela luz das velas e os olhos azuis, que regra geral brilhavam de jovial bonomia, baços de exaustão e ansiedade. – Não seria melhor chamar o médico? – murmurou Nell, ao ver as grossas e zangadas veias que sobressaíam na cara e no pescoço de Lady Harvey. – Está a demorar tanto tempo, e ela está a sofrer tanto. Bridie fulminou-a com um olhar que Nell entendeu imediatamente: estava dispensada de apresentar novas sugestões ou opiniões. Por isso tirou o pano de dentro da bacia de água fria, torceu-o e limpou a testa da sua senhora. Só esperava que Bridie soubesse o que estava a fazer, porque se sua senhoria morresse, estariam as duas metidas em grandes sarilhos. Cheirava mal no quarto abafado, quente como um forno apesar de o lume na lareira ter-se quase extinguido. As cortinas pesadas que rodeavam a cama de dossel e as mobílias de madeira preta polida tornavam o ambiente ainda mais claustrofóbico. Nell vira os primeiros alvores da aurora clarearem o céu quando fora à cozinha buscar a água quente, e estava tão cansada que temia cair redonda no chão. No ano anterior, tinha ajudado no parto do seu irmão, mas não fora nada que se comparasse com aquilo. A mãe andara a cirandar de um lado para o outro até minutos antes, e depois deitara-se, soltara um pequeno grito e o bebé saíra, escorregadio como um leitãozinho ensebado. Até àquela noite, Nell pensara que era assim que todos os bebés nasciam. Lady Harvey, porém, começara a gritar e a fazer cenas às seis da tarde do dia anterior, e a partir daí as coisas só tinham piorado. A bonita camisa de noite branca que vestia estava empapada em suor, e por baixo dela o ventre inchado e distendido parecia obsceno à luz das velas. Se aquilo era o que se ganhava indo para a cama com um homem, pensou Nell, preferia morrer


virgem. – Deixem-me morrer e o meu bebé comigo! – gritou Lady Harvey. – Deus, não me castigaste já o suficiente pela minha maldade? – Empurre o bebé para fora ou morre mesmo – gritou-lhe Bridie em resposta, e aplicou uma rija palmada na coxa nua da patroa. – Vamos, empurre o estuporzinho para fora, raios a partam! Fosse por causa da palmada ou da ameaça de morte, o certo é que os gritos de Lady Harvey se transformaram numa espécie de mungido semelhante ao de uma vaca a parir e, de repente, ela estava a fazer força com genuína determinação. Cerca de vinte minutos mais tarde, Nell abriu muito os olhos quando a cabeça do bebé começou enfim a aparecer. Os cabelos eram negros como os de um cigano, a formar um gritante contraste com as coxas muito brancas da patroa. – É isso mesmo! Está a sair. – O alívio suavizou a voz de Bridie. – Deixe-o vir, pare de fazer força. Fascinada, esquecido o cansaço, Nell viu o bebé deslizar para as nodosas mãos da velha Bridie. A barriga que momentos antes parecia tensa e inchada como uma melancia madura abateu-se e sua senhoria deixou escapar um pequeno suspiro de alívio por o seu tormento ter finalmente acabado. Bridie afastou o bebé da mãe, sem sequer anunciar que era uma menina. Nell captou o olhar da mulher mais velha, viu o medo que se lhe espelhava no rosto, e no mesmo instante a alegria e o espanto que sentira ao assistir ao milagre de uma nova vida desvaneceram-se. Aquele bebé não estava destinado a viver. Bridie não ia dar-lhe uma palmada nas costas minúsculas, nem insuflar ar na pequena boca para o ajudar a viver. Estava destinado a morrer. – Acabou, de verdade? – perguntou Lady Harvey, com a voz reduzida a um murmúrio rouco. – Sim, acabou, m’lady – respondeu Bridie, enquanto, com gestos rápidos, atava o cordão e o cortava. – Só falta saírem as secundinas e poderá dormir e esquecer tudo isto. Nell olhou para o bebé silencioso e imóvel pousado aos pés da cama. Todos os seus irmãos e irmãs mais novos tinham sido feios e arroxeados e carecas ao nascer. E tinham protestado com gritos zangados ao verem-se atirados assim tão sem cerimónia para um mundo novo e hostil. Mas aquele era bonito, com cabelos negros e uma boquinha que parecia um botão de rosa. Nell pensou que talvez fosse por ter vindo preparado para seguir diretamente para o Céu. – Morreu? – perguntou Lady Harvey, numa voz sonolenta. As veias zangadas e vermelhas que momentos antes lhe riscavam a cara e o pescoço já tinham desaparecido, mas estava emaciada e pálida. O cabelo comprido louro, que eram a alegria e o orgulho de Bridie, tinham perdido o viço e o brilho. Nell quase não conseguia acreditar que aquela era a mesma mulher a quem sempre admirara a elegância e a beleza serena. Bridie limitou-se a lançar um olhar de lado ao bebé, enquanto massajava o ventre da patroa. – Sim, m’lady, receio que sim – respondeu, e a voz quebrou-se-lhe um pouco. – Talvez tenha sido o melhor. – Deixa-me vê-lo – pediu Lady Harvey. Bridie fez um gesto de cabeça a Nell, que pegou num pano de flanela, embrulhou nele o bebé e o levantou. Lady Harvey estendeu a mão e passou um dedo ao longo da face da criança, e então voltou a cara para o lado e começou a chorar. – Foi a vontade de Deus – murmurou. – Mas fico-Lhe grata pela Sua misericórdia. Bridie empurrou Nell na direção da porta.


– Leva-o para a destilaria e depois vai para a cama – sussurrou. – Trato dele mais tarde, quando acabar aqui. Com o pequeno corpo sem vida nos braços, Nell seguiu apressada pelo corredor a caminho da escada das traseiras. Briargate Hall estava silenciosa como uma cripta. Todos os outros criados tinham sido enviados para a casa de Londres três semanas antes, com a missão de a prepararem para o regresso de Sir William Harvey da América, onde estava havia dois anos, e essa era, claro, a razão por que Bridie não tentara salvar o bebé. Se sabia quem era o pai, não o dizia. Mantivera secreta a gravidez da patroa como se fosse sua. Mesmo quando se vira forçada a envolver Nell na conspiração porque sozinha não conseguiria dar conta do recado, tudo o que lhe dissera fora que sua senhoria ia dar à luz um filho indesejado. Estava-se em finais de abril, e só no dia anterior tinham visto sinais de primavera após um longo e frio inverno. E aquele dia que ainda mal acabava de romper prometia ser também bonito e agradável, pois o sol já entrava a jorros pela janela voltada a leste, junto à escada das traseiras. Nell viu-se refletida no grande espelho ao lado da janela. A imagem chocou-a, não tanto pelo aspeto desmazelado, com o avental sujo, a touca à banda e os cabelos pendentes, como pelo facto de os acontecimentos da noite a terem envelhecido de repente. Apenas vinte e quatro horas antes, era igual a qualquer outra criada de dezasseis anos: impecável e modesta no seu uniforme engomado, as faces rosadas de andar a correr escada acima, escada abaixo, um brilho nos olhos por saber que Baines, o mordomo, não estava lá para a admoestar. Os seus pensamentos estavam com Ned Travers, que lhe dissera que se encontraria com ela em Lord’s Wood. Ned ia alistar-se no Exército e todas as raparigas da aldeia queriam ser a sua namorada. Nell não tinha muito a certeza de ser isso que queria, mas era bom pensar que ele a queria a ela. Não ignorava que não fora abençoada em termos de beleza. Saía à família do lado do pai, como todos os seus irmãos e irmãs. Eram baixos e entroncados, com cabelos negros e lisos e olhos castanho-escuros. Ned dissera que a pele dela parecia leite, mas provavelmente fora só conversa para a seduzir. Tinha a boca demasiado pequena, o nariz um tudo-nada demasiado grande e as sobrancelhas demasiado grossas. Não chegou a encontrar-se com Ned, de modo que nunca viria a saber se ele gostava dela por si mesma ou se só achava que uma rapariga feiosa seria mais fácil. Bridie largara a bomba a meio da manhã e deixara bem claro que Nell não podia sair de casa sob pretexto nenhum. Até então Nell acreditara, como todos os outros criados, que a prolongada reclusão de sua senhoria no quarto se devia a ter ficado magoada depois de cair do cavalo. Rose, uma das outras criadas, dissera que era «esquisito», porque de todas as outras vezes que Lady Harvey caíra do cavalo estava de pé e a andar de um lado para o outro com a ajuda de uma bengala dois dias depois. Nell, porém, não viu nada de suspeito neste arrastado período de repouso acamado. Já reparara, naqueles quatro anos desde que entrara para o serviço doméstico, que as senhoras ilustres tendiam a sofrer de curiosas maleitas que não afetavam as pessoas comuns. Na sua opinião, o problema da senhora da casa era melancolia: uma combinação de um inverno comprido e áspero e a ausência prolongada do marido. Sempre que subia ao quarto com uma bandeja, Lady Harvey ainda estava na cama ou então sentada junto à janela com as pernas levantadas, envolta numa manta. E tão bonita como sempre, com o cabelo caído sobre os ombros, embora abatida e muito pálida. Nell pensara muitas vezes que Bridie devia ser mais firme com ela e obrigá-la a dar um pequeno passeio no exterior todos os dias.


Pouco antes de partir no coche para Londres com o resto dos criados, Baines dera a Nell as suas ordens. Ia ter de cozinhar e tratar de tudo até que Lady Harvey se sentisse capaz de viajar para a capital com Bridie. Quando isso acontecesse, ficaria ali sozinha a cuidar da casa, e o jardineiro e o moço da estrebaria ocupar-se-iam do exterior. Nell não ficou desapontada por não ter ido também para Londres. Bridie dizia que lá havia sempre mais trabalho, porque a casa era muito maior e os Harvey recebiam muito. Também dizia que o pessoal de Londres olhava de cima para os campónios da província e que era como trabalhar num manicómio. Na realidade, Nell encarava aquele seu retiro solitário em Briargate como umas férias, pois não teria quase nada para fazer. Poderia escapulir-se todas as tardes para ir a casa ver a mãe e os irmãos e irmãs mais novos, ou passear pelos jardins tanto quanto quisesse. Quando Bridie lhe disse, na tarde anterior, qual era o verdadeiro mal da senhora, sofreu um tremendo choque. «Teve um deslize», foi assim que Bridie explicou a situação, como se imaginasse que ela não sabia como os bebés eram feitos. Bridie prometera-lhe uma moeda de ouro desde que nunca dissesse fosse a quem fosse uma palavra a respeito do que ia ver e ouvir nas próximas horas. E disse, com uma franqueza cruel, que esperava que o bebé não sobrevivesse. No dia anterior, aquela esperança não lhe pareceu assim tão terrível. Bridie estava apenas a ser prática, tal como o moço da estrebaria era quando afogava as ninhadas de gatinhos nascidos nas cavalariças. E de qualquer modo, toda a gente sabia que as senhoras contratavam amas para cuidar dos seus bebés e que ligavam muito pouco aos filhos antes de eles serem quase adultos. No entanto, quando entrou em trabalho de parto Lady Harvey não foi muito diferente de qualquer outra mulher que Nell conhecia. Suou, chorou, até gritou palavrões feios como a debochada criada da taberna. Os linhos finos e as rendas, as escovas de cabelo com cabo de prata e as joias não evitaram que tivesse de fazer força para expulsar o bebé de dentro de si como qualquer camponesa. E Nell sabia que, tal como a mais miserável das pedintes chorava a morte de um filho, também Lady Harvey havia de chorar a morte do seu. Olhou para o pequeno embrulho que levava nos braços e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Os pais dela não tinham nada, dez filhos criados numa pequena casa com um telhado que deixava entrar água, e mesmo assim cada novo bebé era recebido com alegria. Aquele nunca tinha sido beijado, não teria um nome nem um funeral como devia ser. E também o fardo de ter sido testemunha do nascimento lhe pesava sobre os ombros. Não sabia como ia conseguir voltar a falar normalmente com Lady Harvey depois daquilo, ou se alguma vez conseguiria esquecer. Ela e Bridie podiam até estar amaldiçoadas por terem participado numa coisa daquelas! Toda a gente sabia como foi lançada uma maldição sobre Sir John Popham, um antepassado dos Popham que ainda viviam em Hunstrete House, a mansão mais próxima de Briargate do outro lado de Lord’s Wood. Sir John foi o juiz no julgamento de William Darrell, de Littlecote, acusado de ter assassinado um bebé recém-nascido atirando-o para o lume. Darrell lançou a maldição sobre os Popham porque o juiz ficou com Littlecote – e com Hunstrete, que fazia parte da propriedade – a troco de uma absolvição. A maldição foi que a família Popham nunca teria um herdeiro varão. E resultara, só tinham raparigas. Nell só podia supor que Darrell assassinara o bebé por não ser ele o pai. Ela e Bridie não tinham


assassinado aquele, mas talvez não ajudar um recém-nascido a respirar pela primeira vez acabasse por ir dar ao mesmo? Se alguém descobrisse podiam ser enforcadas! O coração começou a bater-lhe mais depressa, o seu estômago dava voltas. Tencionaria Bridie enterrar o bebé no jardim? Como pensaria ela que o ia conseguir sem que o velho Jacob, o jardineiro, desse por isso? Quando chegou à escada das traseiras, um pequeno movimento contra o peito sobressaltou-a. Tropeçou e quase deixou cair o pequeno fardo antes de recuperar o equilíbrio. Assustada, levantou uma ponta do pano de flanela, e para seu enorme espanto viu uma minúscula mão mexer-se, e o bebé abriu a boca num bocejo. Por um momento ficou quieta, a olhar, convencida de que tinha sido imaginação sua, mas então a mão voltou a mover-se, dessa vez com mais vigor. – É um milagre! – exclamou, com a voz a ecoar no poço da escada. Toda a gente sabia que os recém-nascidos choravam para anunciar ao mundo que estavam vivos e de boa saúde. Não se lembrava de alguma vez ter ouvido falar de um que tivesse permanecido em silêncio até estar demasiado fraco para sobreviver. A menos que fosse uma criança-fada. A instrução de Nell havia consistido em pouco mais do que aprender a ler e a fazer umas contas de somar com o reverendo Gosling, entre os seis e os oito anos. Mas superstições aprendera-as desde o berço, com os pais e muitos dos velhos da aldeia. Dizia-se que as crianças-fadas vinham a este mundo para dar boa sorte. Podiam ser reconhecidas pela sua chegada inesperada, pela sua extraordinária beleza e doçura de caráter. Joan Stott, da aldeia, era estéril, mas já depois de ter passado os quarenta anos, teve uma menina que mais parecia um anjo. Joan e Amos Stott viviam miseravelmente do que o seu pedaço de terra lhes dava, e ninguém esperava que a bebé sobrevivesse. Mas sobreviveu. E ainda mal a tinham deitado no berço quando as galinhas dos Stott começaram a pôr ovos, as colheitas aumentaram e até a velha porca teve uma ninhada de doze belos leitões. A menina tinha agora mais de seis anos, continuava bonita como uma manhã de maio e os Stott haviam-se tornado quase prósperos. No entanto, quer a bebé de Lady Harvey fosse um milagre ou uma criança-fada, Nell sabia que Bridie não ia ficar satisfeita quando soubesse que estava viva. Bridie estava ao serviço dos Dorville, a família de Lady Harvey, desde os catorze anos. Ascendera de servente de cozinha a ama dos filhos da casa e quando, há oito anos, Anne, a mais nova, casara com Sir William Harvey, acompanhara-a na mudança para Briargate na condição de criada particular. Toda a vida de Bridie girava à volta da patroa que ajudara a vir ao mundo e nunca ela permitiria que nada nem ninguém a desgraçasse ou envergonhasse fosse de que maneira fosse. Mas a possibilidade de se tratar de uma criança-fada impedia Nell de ter em conta os sentimentos ou os desejos de Bridie; tinha de agir de acordo com o que o instinto lhe ditava. Desceu apressada até à cozinha, e pegou no xale que deixara em cima de uma cadeira para embrulhar melhor a bebé. Expulsou o gato da cadeira da cozinheira, num canto, e pousou a criança na almofada, após o que saiu a correr para ir à bomba encher uma chaleira de água.

Quando, quase uma hora mais tarde, Nell ouviu na escada os passos lentos e pesados de Bridie era


já dia claro, com um sol quente a entrar pela janela de rótula por cima do lava-louça. A bebé estava lavada, reembrulhada num pano de flanela limpo e a dormir no cesto da roupa perto do fogão. Abrira os olhos, como que espantada, quando Nell a despojara da flanela suja, e gritara num protesto indignado quando a lavara. Mas no instante em que voltara a sentir-se agasalhada e confortável, tornara a adormecer. – Pensava que te tinha dito que fosses para a cama – resmungou Bridie, de mau humor ao entrar na cozinha, sobrecarregada com um balde de água suja numa mão e uma bacia com tampa na outra, além de montes de panos e lençóis ensanguentados debaixo de cada braço. Parecia exausta. Tinha o avental sujo de sangue, os ombros descaídos e a respiração sibilante devido ao esforço de andar. – A bebé vai viver – disse Nell, a apontar para o cesto. Bridie empalideceu e deixou cair tudo o que transportava, derramando água pelo chão. – Oh Jesus, Maria, mãe de Deus! – exclamou, enquanto se benzia e olhava, temerosa, para o cesto. – É linda – arriscou Nell, a medo. Apesar da pena que tinha de Bridie e da patroa, pois sabia os muitos problemas que uma criança viva ia causar a ambas, não conseguia impedir-se de estar deliciada por tê-la ajudado a sobreviver. Mas também sabia que uma rapariga como ela podia ser despedida por não ter sabido manter-se no seu lugar, e o mais certo era Bridie achar que fora isso mesmo que fizera. Bridie deixou escapar um soluço de dor e levou as duas mãos ao rosto, consternada. – Oh, meu Deus! – exclamou. – Que vou eu fazer? Num gesto instintivo, Nell aproximou-se da mulher mais velha e passou-lhe um braço pelos ombros, como faria com a sua própria mãe se a visse aflita. Bridie tinha sido boa para ela desde o seu primeiro dia em Briargate, quando era uma rapariguinha de doze anos muito assustada que não fazia a mais pequena ideia do que significava deixar a família e começar a servir numa grande casa. Fora Bridie que sugerira que ela estava a ser desperdiçada na cozinha e que devia ser treinada para criada de sala; enfrentara os protestos de Cook, a cozinheira, e de Mrs. Cole, a governanta, dera-lhe cobertura quando ela partira um bibelot e quando levara restos de comida para casa porque o pai estava de cama com problemas no peito e não podia trabalhar. Durante os quatro anos que passara em Briargate, aquela mulher tinha sido o seu arrimo, a sua professora e a sua confidente. Graças a ela, podia ajudar a família; tinha boa comida, roupas decentes e perspetivas. Não sabia se havia alguma maneira de poder ajudar Bridie naquele aperto, mas se houvesse, havia de a descobrir. – Deixe isso por agora, Bridie – disse, num tom apaziguador. – Estamos ambas demasiado cansadas, mas se nos pusermos as duas a pensar, havemos de arranjar qualquer coisa. Vou fazer-lhe um chá, e depois vai para a cama. Eu ponho a roupa na barrela e fico atenta à senhora. Bridie afastou o braço de Nell e limpou os olhos com a orla do avental. Continuavam marejados de lágrimas, mas Nell viu que ela se esforçava por recuperar a compostura. – És uma boa rapariga – disse Bridie, com a voz a tremer –, mas tu é que tens de ir para a cama. Eu fico aqui sentada um bocadinho com o meu chá e depois volto lá para cima. Posso dormitar no cadeirão no quarto da senhora. – Levo a bebé comigo? – perguntou Nell. Bridie abanou a cabeça. – Aqui fica mais quentinha. Agora vai-te deitar.


Nell descobriu que não conseguia dormir, a pensar na bebé. Ia ter de ser alimentada em breve, e se Bridie estivesse no quarto de Lady Harvey não a ouviria chorar. Além disso, havia tantas outras coisas que era preciso fazer: ir buscar carvão para o fogão, pôr a roupa a lavar, cozinhar qualquer coisa para Lady Harvey. Não podia ficar ali deitada, acordada, e deixar tudo a cargo de Bridie. * Levantou-se da cama, lavou-se e enfiou um velho vestido cinzento que lhe tinham dado para usar quando houvesse trabalhos sujos para fazer e, levando as botas na mão, desceu do seu quarto no sótão sem fazer barulho, para não incomodar a senhora. Quase não passava um dia em que não se sentisse abençoada por poder viver em Briargate Hall. Era uma casa ampla, cheia de luz, mandada construir há apenas quarenta anos por Sir Roland Harvey, pai de Sir William, a meio caminho entre as cidades de Bath e Bristol. Nell nunca estivera em qualquer delas. Tudo o que conhecia era a aldeia de Compton Dando, onde tinha nascido, e as outras em redor. O mais longe que se afastara de casa tinha sido Keynsham, a cerca de cinco quilómetros e meio de distância. As pessoas diziam que o porto de Bristol era uma maravilha onde se podia ver os grandes navios que iam até aos recônditos mais longínquos da Terra. Mas Nell não tinha desejo de lá ir; um ano antes, centenas de pessoas tinham morrido de cólera, e há apenas cinco meses, em outubro, houvera lá três dias de motins terríveis. Morreram dezenas de pessoas, muitas mais tinham ficado gravemente feridas, dúzias de edifícios foram destruídos e incendiados. Quatro pessoas tinham sido enforcadas por participarem nos distúrbios e várias dezenas mandadas para a prisão ou deportadas. Para Nell, era um lugar muito perigoso. Mr. Baines, que sabia tudo a respeito de quase tudo, dizia que os motins tinham acontecido porque o sistema de governo era corrupto. Dizia que os Tories subornavam e intimidavam as pessoas nas eleições para que os partidos reformadores não conseguissem entrar. Orgulhava-se do facto de as pessoas de Bristol terem coragem suficiente para se fazerem ouvir e afirmava que se fosse um rapaz novo se teria juntado a elas. Nell ouvira dizer que Bath, a outra cidade próxima, era muito diferente de Bristol, por ser o lugar onde as pessoas finas iam a águas e para se divertirem à grande. Baines dizia que era muito bonita, com ruas amplas, casas esplêndidas e lojas cheias de tantos artigos de luxo que uma pessoa ficava aparvalhada a olhar para eles. Para Cook, era um poço de iniquidade, com ruas infestadas de carteiristas, e dizia que as famosas águas cheiravam tão mal que era um espanto não matarem quem as bebia. Por isso Nell deduzia que se era verdade o que se dizia a respeito das duas cidades mais próximas, em nenhuma das duas havia nada de interesse para uma rapariga como ela. Baines dizia que o velho Sir Roland Harvey fora um grande viajante e que a traça de Briargate tinha sido influenciada por casas que vira em Itália e nas plantações das Índias Ocidentais. Mandara vir de Itália o mármore branco e preto do chão do átrio, bem como as estátuas de mármore do jardim, e em vez de construir com a pedra local, usara tijolos cobertos por uma espécie de argamassa rosada. A fachada principal ostentava um imponente pórtico sustentado por quatro grandes colunas, e as telhas do telhado eram verdes em vez de vermelhas.


Janelas altas e estreitas que chegavam quase até ao chão deixavam a luz do sol entrar a jorros durante todo o dia; as graciosas portadas tinham sido especialmente desenhadas para Sir Roland, tal como as lareiras de mármore. Nell gostava em particular dos cachos de uvas e das aves esculpidas nos balaústres dos patamares da escadaria; não parecia possível que um homem fosse capaz de fazer uma coisa tão delicada usando apenas um formão. Com os candelabros refulgentes, os tapetes espessos e as mobílias tão polidas que conseguia ver a todo o instante o reflexo do seu rosto, sentia que estava a viver num palácio. No início, parava muitas vezes de limpar uma lareira para ficar a olhar para os quadros nas paredes. Para onde quer que se voltasse, havia objetos de espanto e maravilha. Bridie não partilhava esse entusiasmo. Dizia que com apenas oito quartos, Briargate não era nem de longe tão grande e magnífica como a casa de Londres. Admitia que Sir Roland era um homem com a cabeça no lugar, pois concebera a mansão para poupar trabalho. E quase sempre acrescentava, maldosa, que ele devia saber que o tráfico de escravos acabaria por ser abolido e que mais tarde ou mais cedo deixaria de conseguir arranjar criados para trabalharem de borla. Para Nell, um mordomo, uma governanta, quatro criadas, mais jardineiros e cavalariços, além de várias outras pessoas que apareciam quando eram necessárias, pareciam uma quantidade enorme de servidores para cuidar de uma casa de apenas duas pessoas. Mas Bridie afirmava que não eram de mais, e que só o conseguiam com tanta facilidade devido à conceção da casa. As divisões principais eram espaçosas, mas não tão grandes que não pudessem ser adequadamente aquecidas. A sala de jantar ficava perto da cozinha, de modo que a comida chegava à mesa nas melhores condições. Havia até, na cozinha, uma engenhoca graças à qual era possível enviar para o piso superior grandes baldes de água quente para os banhos e as lavagens puxando uma corda. Bridie chamava-lhe, na brincadeira, «A Salvadora das Criadas», e arregaçava a manga para mostrar uma queimadura que tinha no braço e que arranjara quando era rapariga a carregar escada acima baldes de água a ferver.

Ao ouvir a bebé chorar quando se aproximava da cozinha, Nell não se deteve para calçar as botas, mas quando dobrou a esquina do corredor deteve-se horrorizada ao ver Bridie debruçada para o cesto onde a menina estava deitada com uma almofada nas mãos. Não havia dúvidas quanto ao que tencionava fazer, pois estava a chorar e a murmurar por entre as lágrimas qualquer coisa que pareceu a Nell um pedido de perdão ou até uma prece. – Não, Bridie! – gritou, ao mesmo tempo que largava as botas, que caíram com estrondo, e corria para a mulher mais velha. – Não pode... é uma grande maldade, e ela é uma criança-fada. Bridie voltou-se, com uma expressão de culpa estampada no rosto enrugado. – Mas é a única maneira, Nell. Se ela viver será a desgraça da minha senhora, expulsá-la-ão de Briargate. Mais tarde nesse dia, Nell recordar-se-ia de ter visto Bridie assistir impassível ao despedimento de uma criada que engravidara. Se Lady Harvey fosse expulsa poderia voltar para junto da sua própria família, mas aquela pobre rapariga tivera como única alternativa o asilo1. Na altura, porém, não pensou em nada disto. A única coisa que lhe ocupava o espírito era impedir um assassínio. – Não pode matar um bebé – insistiu, colocando-se entre Bridie e o berço improvisado. – Não está


certo, e sabe-o muito bem. Durante um ou dois segundos, pensou que Bridie ia afastá-la à força e levar por diante o seu plano, pois bem lhe via o ar de desespero. Mas em vez disso Bridie como que se abateu, deixou-se cair numa cadeira e tapou o rosto com as mãos. – Deus sabe que não quero fazer mal à bebé, mas que outra coisa posso fazer? – perguntou, num tom de súplica. – Não sei – respondeu Nell, e pousou uma mão no ombro da mulher mais velha. – Mas não está certo matá-la. Ela não tem culpa de ter nascido, e além disso é uma criança-fada. Olhe para ela! A bebé tinha os olhos abertos e parara de chorar, quase como se soubesse que o perigo tinha passado. Os seus olhos não eram do habitual azul dos recém-nascidos e sim negros como a noite, fixos em Nell como que a agradecer-lhe a trégua. – Talvez então possamos levá-la até à igreja e deixá-la lá – disse Bridie, em desespero. O reverendo Gosling havia de arranjar-lhe um lugar. Nell abanou a cabeça. Sabia que as crianças deixadas na igreja iam para o asilo e poucas sobreviviam mais do que algumas semanas. Pegou na bebé e embalou-a nos braços. – Sabe muito bem o que isso significa – lembrou a Bridie, e quando o doce cheiro da recémnascida lhe invadiu as narinas os olhos marejaram-se-lhe de lágrimas. Durante alguns minutos, nenhuma das duas falou. Bridie continuava com a cara escondida nas mãos, a soluçar, e Nell andava de um lado para o outro na cozinha, com a bebé ao colo. Sentiu uma súbita onda de raiva ao pensar que Lady Harvey dormia tranquila na sua cama enquanto ela e Bridie se viam forçadas a arranjar solução para um problema para o qual nenhuma delas contribuíra. Lady Harvey nascera rica, fora mimada, vestida com as melhores roupas, educada por uma governanta, e depois casara aos dezoito anos com um homem que toda a gente dizia ser o melhor partido de todo o West Country. Nell recordava-se de, ainda garotinha, ter estado com as outras crianças da aldeia no adro da igreja de St. Mary the Virgin para atirar pétalas de rosa ao casal. Nenhuma rainha poderia estar mais bonita do que Lady Harvey estava naquele dia, com o cabelo dourado a cair em grandes caracóis à volta dos ombros. O vestido de seda branca, com uma cauda de quatro metros, devia ter custado mais do que todo o dinheiro que o pai de Nell ganhara durante uma vida inteira. E Sir William não era apenas rico, era também bonito, com cabelo louro encaracolado e olhos azuis e brilhantes. Toda a gente dizia que era um casamento de amor, e quando, anos mais tarde, Nell fora trabalhar para Briargate, vira muitas vezes os dois a rir e a correr pelo jardim como dois jovens apaixonados, e isso, para ela, confirmara a afirmação. Porque fora então Lady Harvey para a cama com outro homem? Porque não deveria assumir a responsabilidade pelo seu pecado, como se esperaria que Bridie ou ela própria fizessem se qualquer das duas se transviasse? Mas mesmo enquanto estes pensamentos lhe passavam pela cabeça, sabia que, tal como Bridie, não aguentaria ver Lady Harvey desgraçada. Podia ser mimada, mas era acima de tudo uma criatura generosa e de bom coração. Nell perdera a conta às vezes que a senhora lhe enfiara um xelim na mão para levar à mãe. Dava-lhe as roupas que já não usava, deixava-a costurar vestidos e camisas para os irmãos e as irmãs quando devia estar a trabalhar. Nunca lhe batera, nunca sequer lhe ralhara quando era desastrada; ainda na manhã do dia anterior lhes tinha agradecido, a ela e a Bridie, a sua lealdade e lhes prometera que olharia sempre por elas.


A verdade era que Lady Harvey era, de muitas maneiras, como uma criança. Tinha em si demasiada vida e demasiada alegria, mas ao mesmo tempo era inocente. Aquele homem, fosse ele quem fosse, devia tê-la embalado com palavras doces, aproveitando-se da sua solidão. Ninguém da família dela a visitara desde que o senhor partira; não tinha verdadeiros amigos seus ali no Somerset, só os amigos dele. Nell lembrava-se de a ver chorar quando Sir William partira para a América; queria ir também, mas ele não consentira. Como a mãe de Nell tantas vezes dizia: «Tens de caminhar pelo menos um quilómetro com as botas de outra pessoa para saberes como é para ela.» Pensar na mãe deu-lhe uma ideia. – Podia levá-la para casa da minha mãe – disse, a atropelar as palavras. – Há de ter leite que chegue para a pequenina. – A tua mãe já tem filhos que bastem – respondeu Bridie, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara abaixo. – Além disso, é demasiado perto daqui. Como explicaria ela aonde foi buscar outro? Nell teve uma imagem mental da casinha sobrelotada e da mãe já tão cansada com tantos filhos, mas soube que no instante em que pegasse naquela bebé ao colo seria incapaz de a recusar. – As pessoas perderam a conta a quantos tem – disse, e era verdade. – Estão tão habituadas a vê-la sempre com um novo nos braços que já nem reparam. – Mas e o teu pai? Nell fez um meio sorriso. O único verdadeiro defeito do pai era ser demasiado generoso com todas as coisas: com o seu trabalho, com o seu tempo, com o seu afeto. E quando tinha dinheiro, era generoso também com isso. A mãe dizia muitas vezes que se ele trabalhasse só as horas que lhe pagavam, não a amasse tanto e poupasse o pouco que tinha, não viveriam num casinhota a cair aos pedaços e com tantos filhos. Mas Nell estava convencida de que a mãe não quereria que ele fosse diferente. – O meu pai gosta de bebés – respondeu. – Vai dizer que mais um não fará diferença. Bridie limpou as lágrimas ao avental, mas os seus olhos estavam ainda cheios de ansiedade. – Pode confiar neles, não dirão uma palavra – continuou Nell, convicta, sabendo o que Bridie estava a pensar. – Nem sequer os mais velhos saberão a verdade. Se a levar à minha mãe esta noite depois de terem ido para a cama, acreditarão que nasceu enquanto dormiam. A afirmação provocou em Bridie um ar de dúvida. – A minha mãe tem-nos muito depressa – insistiu Nell. – Quando o nosso Henry nasceu, no ano passado, só deram por isso quando o ouviram chorar. Eu estava com ela, sei o que estou a dizer, e ela tem uma barriga tão grande de ter tido tantos filhos que os meus irmãos estão sempre meio à espera de a ver pôr mais um cá fora de um momento para o outro. – Mas é um segredo que tem de ser guardado para sempre – lembrou-lhe Bridie. Nell assentiu com a cabeça; sabia isso muito bem. – A senhora disse-me, aqui há tempos, que se a criança vivesse queria que a entregássemos a alguém – revelou Bridie em voz baixa. – Pediu-me que investigasse, e eu fui falar com uma mulher, em Brislington. Não gostei dela, tinha cara de má e os filhos tinham um ar doentio e estavam imundos. Pelo menos sabemos que a tua mãe cuidaria bem dela. Bridie remeteu-se ao silêncio, claramente a ponderar tudo o que sabia a respeito de Meg e Silas Renton, e se seriam de confiança. Nell não disse mais nada porque sabia que a sua família era tida em alta estima na aldeia e na região. Fora uma das coisas que lhe conseguira o lugar em Briargate. – Como é que vamos chamar-lhe? – perguntou por fim a mulher mais velha, tirando a bebé dos


braços de Nell e desta vez olhando para ela quase com ternura. – Não seria certo não lhe dar um nome. A criança-fada de Joan Stott chamava-se Faith, e ocorreu no mesmo instante a Nell que outra criança-fada nascida tão perto tinha de ter um nome do mesmo género. – Hope – disse, sem hesitar. Bridie franziu os lábios como se não gostasse, mas então, ao olhar para a criança que dormia nos seus braços, começou a sorrir. – Sim, Nell, é um bom nome. Espero que a tua mãe venha a amar a pobre criaturinha, e também espero conseguir esquecer a coisa má que ia fazer há pouco. Não é nada parecida com a nossa senhora, de modo que talvez tenhas razão e seja uma criança-fada.

Nessa noite, Nell deteve-se na orla de Lord’s Wood, que marcava a fronteira entre Briargate House e as terras de Hunstrete. Tinha a bebé escondida debaixo da capa, segura contra o peito por um xale. Pousou o cesto que transportava e olhou para trás, para a casa, pois havia no céu uma lua cheia tão grande que se via como se fosse dia. O melhor sítio para admirar Briargate era o comprido caminho ladeado de árvores que começava na estrada em Chelwood. Erguia-se, orgulhosa, numa pequena elevação de terreno, e dali avistava-se o seu magnífico pórtico, as elegantes janelas e as grandes estátuas de mármore espalhadas pelo roseiral circular em frente da casa. No verão parecia um quadro, com rosas e glicínias a treparem até às janelas dos quartos. Nell estava, porém, do lado leste da casa, ao fundo da tapada, porque o caminho mais rápido para chegar a Compton Dando era através do bosque. Vistos daquele ângulo, à luz da lua, os abetos plantados ao longo das estremas da propriedade pareciam sentinelas de guarda a Briargate. O luar fazia refulgir as estátua de mármore do jardim dianteiro, e Nell sentiu uma lágrima deslizar-lhe pela face ao aperceber-se de que a bebé que dormia encostada ao seu peito ia na realidade perder o que deveria ser seu por direito de nascimento, juntamente com a mãe. – Eu digo-lhe adeus por ti – murmurou. – Tenho pena que não possas crescer num quarto de crianças bonito, que nunca venhas a ter vestidos de seda e criados para te servirem. Mas acho que vais receber mais amor na nossa pequena casa. A sensação de que envelhecera dez anos quando se vira ao espelho naquela manhã não desaparecera. Estava exausta, mas sentia que nem o sono conseguiria fazê-la voltar a ser a rapariga descuidada que fora dois dias antes. Tinha ouvido Lady Harvey chorar, à tarde, e, de repente, já não lhe parecia uma mulher bonita e rica que tinha o mundo a seus pés, mas apenas mais uma pobre criatura que chorava a perda de um filho. Hope começara a chorar pela mesma altura, e tudo o que Nell pudera fazer fora enfiar-lhe na pequena boca colheres de água com açúcar para a aguentar até mais tarde. Bridie passara a maior parte da tarde a remexer na arca do antigo quarto de Sir William à procura de camisas de dormir, toucas e casaquinhos de bebé. Dissera como a tinha entristecido ser obrigada a pôr de lado os melhores, com ricos bordados, e escolher só os mais simples, pois não deixaria de suscitar interrogações na aldeia se a pequena Hope aparecesse vestida com roupas finas. Mesmo assim, as fraldas, mantas e outras coisas arrumadas no cesto ficavam muito para lá de tudo o que Nell e os irmãos e irmãs tinham conhecido. Hope mamaria do mesmo seio que todos eles,


conheceria dias de fome tal como eles e descobriria que, para as gentes da aldeia, a vida de trabalho começava muito cedo. Mas não iria conservar alguma coisa dos seus verdadeiros pais? Não apenas o aspeto físico, a forma e o tamanho, mas o conhecimento inato de que não era na realidade um membro da classe servil? Nell suspirou e voltou a pegar no cesto. Sabia que não era bom pensar naquelas coisas, e tinha de escolher com muito cuidado o seu caminho pelo meio do bosque para não tropeçar e cair no escuro. * Compton Dando ficava num vale arborizado por onde corria o rio Chew. Para uma pequena aldeia, com uma população de pouco mais de quatrocentas almas, era um lugar azafamado, com uma taberna, uma padaria, a igreja, um ferreiro, um carpinteiro e um moinho. Durante o dia, ouvia-se a barulheira infernal das fundições de cobre de Publow e Woolard, as duas aldeias mais próximas descendo o rio, e havia várias pequenas minas de carvão espalhadas pela região. Embora alguns trabalhassem nas fundições ou nas minas, os homens da aldeia eram na sua maioria trabalhadores agrícolas, como o pai de Nell, e, como ele, arredondavam os magros salários cultivando os seus próprios pedaços de terra, criando galinhas e muitas vezes porcos e uma ou duas vacas. Depois de sair do bosque, Nell atravessou o baldio. Felizmente, a casa dos pais ficava daquele lado da aldeia; se ficasse perto da igreja, poderia ser vista por alguém que fosse a entrar na Crown Inn. Um mocho piou escondido entre a ramagem de um grande carvalho, mas isso e o murmúrio do rio lá mais abaixo eram os únicos sons.

– Nell! – exclamou Meg Renton ao ver entrar a filha. – O que é que te traz até aqui tão tarde? A pequena cabana era iluminada pela luz de uma única vela e o lume na lareira estava reduzido a um fraco clarão avermelhado. Qualquer desconhecido que entrasse presumiria que Meg estava sozinha, mas na realidade o minúsculo espaço estava cheio de corpos adormecidos. O pai de Nell estava deitado na cama ao fundo da divisão com Henry, o filho mais novo, a seu lado. As outras oito crianças dormiam no sótão, ao qual se chegava subindo uma íngreme escada de madeira com uma corda como corrimão. Uma das coisas a que Nell tivera mais dificuldade a habituar-se quando foi trabalhar para Briargate era não poder deitar-se ao pôr do sol, como sempre fizera em casa. As pessoas finas deitavam-se tarde, mas a verdade era que podiam dar-se ao luxo de manter acesas dúzias de velas e candeeiros a óleo, e não tinham de se levantar ao raiar da aurora. A mãe, no entanto, nunca ia para a cama com o resto da família, apesar de trabalhar mais do que qualquer dos outros. Ficava uma ou duas horas sentada junto ao lume, com uma vela acesa. Dizia que era a única altura em que podia ter um pouco de paz. Ao ver o rosto cansado da mãe à luz da vela, Nell sentiu uma pontada de remorso por vir sobrecarregá-la com mais trabalho. Meg tinha trinta e quatro anos, e dez filhos, além de um nadomorto, tinham-lhe roubado a vitalidade e a força que Nell recordava de quando era pequena. O cabelo continuava basto e negro, mas o corpo outrora esbelto tinha engrossado e o rosto estava a ficar flácido e sulcado por rugas. A camisa de noite que vestia era uma das que Bridie dera a Nell, de flanela, cosida e remendada e aqui e ali tão puída que dava a ideia de que mais uma lavagem a


desfaria. – Trouxe-lhe um bebé – limitou-se Nell a dizer, incapaz de pensar numa maneira menos brusca de apresentar Hope, e despojou-se da capa e desapertou o xale que servia de berço à bebé. – Sabia que não havia de querer vê-la deixada na igreja ou no asilo, e essas eram as duas únicas escolhas. Hope mexeu-se quando ela lhe pegou e começou a chuchar o punho cerrado. O mais sucintamente que pôde, Nell explicou como a bebé lhe fora parar às mãos, acrescentando que precisava de ser amamentada ou não tardaria a morrer. Sem uma palavra, Meg desabotoou a camisa de dormir e estendeu os braços, pegou em Hope e pôla ao peito. A bebé demorou alguns segundos a encontrar o bico do peito, e foi só quando ela começou a mamar, sôfrega, que Meg falou. – A tua senhora devia ter vergonha – disse em voz baixa. – Não é justo esperar que a sua criada assuma a responsabilidade pelo mal que fez. Com receio de que o pai acordasse, Nell puxou um banco para junto da mãe e sussurrou uma explicação mais completa, incluindo o facto de Lady Harvey pensar que a bebé tinha morrido. – Ela é boa pessoa, a mãe sabe que sim – concluiu. – Eu e a Bridie não podíamos deixar que ficasse desgraçada. – E ela, teria parado um instante para pensar em ti se estivesses na mesma situação? – perguntou Meg, com os lábios a tremerem de emoção. – Não, tinha-te posto na rua! Nell encolheu os ombros. – Depois do que vi hoje, não vou deixar nenhum homem pôr-me as mãos em cima – declarou. O fantasma de um sorriso perpassou pelos lábios de Meg. – Vê se não te esqueces do que acabas de dizer quando tiveres um namorado! – disse, cáustica. – Mas ela é uma mulher casada! E instruída! O que será que lhe passou pela cabeça? – Talvez ele a tenha forçado – sugeriu Nell. Meg atirou a cabeça para trás. – Quem se atreveria a forçá-la? Nell não tinha resposta para aquilo. Não queria pensar em Lady Harvey a comportar-se como uma prostituta, mas por outro lado também não queria imaginar aquela bebé como resultado de um ato de violência. – Fica com ela, mãe? – perguntou, e tirou do bolso a moeda de ouro que Bridie lhe dera. – Já tenho demasiados filhos – disse Meg, mas já estava a olhar para Hope com a mesma expressão de ternura que Nell a tinha visto dedicar aos seus próprios bebés. – Não temos espaço, torna-se mais difícil alimentá-los a todos a cada semana que passa. Se ficar com ela, daqui a uma ou duas semanas Lady Harvey voltará às suas festas e aos seus bailes sem pensar em ninguém senão em si mesma e eu é que vou ter de me desenvencilhar. Nell assentiu com a cabeça, porque sabia que a mãe tinha razão. Até ter ido para Briargate, não fazia a mínima ideia de como os ricos viviam. Eram apenas as pessoas bem vestidas que se sentavam nos bancos da frente na igreja, ou a que o pai tirava o barrete quando passavam nos seus belos cavalos. Ficara tão entusiasmada quando o reverendo Gosling lhe arranjara um lugar na mansão que nem por um instante pensara que ia ter saudades de viver ali com a família, ou que o seu trabalho como criada seria cem vezes mais duro do que as tarefas que fazia em casa. Na realidade, durante o seu primeiro ano em Briargate adormecera a chorar todas as noites, pois era um constante faz isto, faz aquilo, sem uma pausa de manhã à noite. Como servente de cozinha,


cabiam-lhe os trabalhos mais duros, como lavar tachos, esfregar os soalhos e acender as lareiras, sempre às ordens de toda a gente. Em casa havia amor, riso e conversa, além do trabalho; a mãe preocupava-se se lhe doíam as costas ou se cortava um dedo ou se estava apenas cansada. O pai sentava-a no colo, à noite, e dizia-lhe que era bonita e esperta. Em Briargate não tinha nada disso. Acabara por aprender a lidar com a situação. Pouco a pouco, fora subindo até chegar a criada de sala. Agora só tinha acima de si Baines, Mrs. Cole, Bridie e Cook, não fazia trabalhos pesados e até tinha tempo livre para um chá e dois dedos de conversa com Cook ou com Bridie. Mas os melhores momentos eram a sua tarde de folga, todas as semanas, e o domingo em cada quatro em que podia ir para casa depois do serviço matinal na igreja. A sua família podia ser pobre, mas todos tinham orgulho, dignidade e grandes corações. – Farei tudo o que puder para ajudar – disse Nell, e voltou a estender a moeda de ouro. – Deramme isto por ter ajudado, e a Bridie prometeu que haveria mais. E hei de conseguir que ela leve para Briargate o James e a Ruth. Será uma boa ajuda. Silas, o pai de Nell, considerava-se um homem afortunado. Quando bebia um par de canecas de sidra, costumava dar-lhe para se gabar de que tinha a melhor mulher que qualquer homem podia desejar, dez filhos felizes e saudáveis e que a sua casa ficava no sítio mais bonito de todo o Somerset. O que não alterava o facto de, por mais que Silas trabalhasse, viverem sempre com o credo na boca, e nas alturas em que não havia trabalho passarem muitas vezes fome. Mathew, que, com quinze anos, era o mais velho dos irmãos de Nell, também trabalhava no campo, pelo que levava para casa um salário regular. Mas James e Ruth, com catorze e treze, respetivamente, ainda não tinham conseguido encontrar um trabalho permanente. Seguiam-se Alice, Toby, Prudence, Violet e Joe, numa escada que ia dos nove aos dois anos e meio, e por fim o bebé Henry, que acabava de fazer um. – Estava a contar conservar a Ruth em casa, para me ajudar com os mais pequenos, mas a Alice também tem jeito para tratar deles – disse Meg, numa voz cansada. – Oh, Nell, tens sido tão boa rapariga. Não é justo atirarem-te este fardo para cima dos ombros. Nell pensou que a mãe era uma santa. Se aceitasse ficar com aquela bebé, amá-la-ia e cuidaria dela como amara e cuidara de todos eles, e não duvidava de que daí a uma ou duas semanas o mais certo era mal se lembrar de que não a tinha dado à luz. Mas isso não fazia com que fosse justo alguém aproveitar-se da sua bondade. – Não é para os meus ombros que este fardo está a ser atirado, mãe, é para os seus. Pode dizer-me que a leve embora, se quiser. Mas se concordar, farei tudo o que puder para lhe facilitar a vida. Isso posso prometer-lhe. Meg estendeu a mão e acariciou em silêncio a face da filha. Ao que parecia, a pequena Hope estava saciada, pois deixou escapar um pequeno suspiro de contentamento e largou o mamilo entumecido. Meg pousou-a no joelho e passou-lhe afetuosamente um dedo à volta do queixo, enquanto a estudava. – É uma coisinha bonita – disse por fim, e olhou para Nell. – Duvido que nos traga muitos problemas, a mim e ao teu pai. Vai para a cama, Nell, estás completamente exausta. A partir de agora ela é minha. 1 No original, «workhouse», instituição que acolhia e alimentava os pobres a troco de trabalho. (N. do E.)


CAPÍTULO 2

1838 ser uma rapariga e ser mais pequena não quer dizer que não saiba trepar às árvores tão –Lábemporcomo tu! Nell sorriu para si mesma ao ouvir a viva e indignada afirmação vinda do outro lado do bosque. Com seis anos, Hope tinha na aldeia fama de ser um anjo, mas a verdade era que conseguia ser uma diabinha, sobretudo quando se tratava de mostrar aos rapazes que era tão destemida como eles. Nell ia a caminho de casa na sua tarde de folga, e calculou que os dois irmãos mais novos, Joe e Henry, estavam a sofrer os efeitos do lado menos angelical de Hope. – Não é por acharmos que não és capaz de trepar à árvore. É por causa do teu vestido. Se o rasgas, vai ser o diabo lá em casa. Nell riu da diplomacia de Joe; conseguia quase sempre arranjar maneira de acalmar a fogosa irmã. – Então se é por isso dispo-o – gritou-lhe Hope. – Henry! Desaperta-me os botões! – Hope! – gritou Nell, sabendo que o submisso Henry ia fazer exatamente o que Hope mandava. Nell imaginou a expressão de desânimo de Hope ao ouvir a voz da irmã mais velha vinda do bosque, e a imagem fê-la rir alto. Sabia que quando acabasse de atravessar o bosque e chegasse junto das crianças ia encontrar Hope sentada, requintada como uma duquesa, com os olhos cheios de fingida inocência. Era a rapariguinha mais bonita que Nell vira em toda a sua vida. Cabelo preto ondulado, brilhante como mármore negro. Os seus olhos eram como dois poços escuros orlados por umas pestanas tão compridas que custava a crer, e a sua pele era perfeita, muito branca e suave. Todos na família tinham cabelo e olhos escuros: na aldeia, as pessoas usavam muitas vezes a expressão «escuro como um Renton» para descrever alguém. Mas tinham todos um aspeto vulgar, com peles amareladas e cabelo crespo. Nada os distinguia dos restantes aldeãos. Hope, pelo contrário, fazia as pessoas voltarem a cabeça para olhar para ela. Tinha um sorriso deslumbrante, uma alegria e um entusiasmo capazes de fazer rir até o mais austero. Queria falar com toda a gente; quando tinha quatro anos, ia pôr-se junto à cancela e cumprimentava quem passava. Até o reverendo Gosling, regra geral tão reservado, parava para lhe falar. Nunca Meg e Silas se tinham arrependido, nem por um instante que fosse, de a terem acolhido. Fora um bebé fácil e sossegado, que sorria e palrava todo o dia, e quase desde a primeira semana depois da sua chegada a sorte da família parecia ter melhorado. Muitos acreditavam, como Nell, que era uma criança-fada. Tinham visto como, pouco depois do seu nascimento, o colmo do telhado da casa dos Renton aparecera miraculosamente reparado, e que Ruth fora recebida como criada da lavandaria em Briargate, e James como ajudante na cavalariça.


Meg e Silas não podiam dizer a ninguém, nem sequer aos filhos mais velhos, que esta mudança de fortuna era o resultado da influência de Bridie, e assim, na ausência de qualquer outra explicação, as pessoas gostavam de pensar que tinha qualquer coisa a ver com magia. * Nell já não estava assim tão inclinada a acreditar em fadas ou em magia. Mas a verdade era que muita coisa acontecera durante aqueles últimos seis anos, e os seus horizontes já não se limitavam à aldeia. Visitara Bath, Bristol e agora Londres, estivera em mansões quatro vezes maiores do que Briargate e, instigada por Mr. Baines, lia os jornais quase todos os dias. Agora compreendia porque era que a maior parte dos trabalhadores se revoltava contra o governo. Todas as leis pareciam ser feitas para proteger os ricos – só os homens que tivessem propriedades podiam votar. As leis dos cercais e a vedação das terras comunais espremeram os pobres e obrigaram muitos a abandonar as áreas rurais e ir para as cidades em busca de trabalho. Mas as provações que estas pessoas suportavam nas aldeias não eram nada em comparação com o que as esperava nas cidades. O superpovoamento, a imundície, a doença e uma miséria desesperada empurravam homens, mulheres e crianças para o crime, e os mais pequenos delitos eram punidos com uma severidade incrível. E também se sentia muito menos inclinada a depositar uma confiança tão implícita nos patrões desde que Bridie morrera de pneumonia dois anos depois do nascimento de Hope. Apanhara uma constipação por ter feito à chuva, ao lado do cocheiro, a longa viagem de Londres ao Somerset. Ninguém se atrevera a comentar abertamente que fora muito pouco galante da parte de Sir William e de um dos seus jovens amigos viajarem no interior do coche com as respetivas mulheres enquanto a velha criada tinha de enfrentar os elementos sentada na boleia da carruagem. Mas esta insensibilidade provocara em Nell um profundo choque e fizera-a compreender que os ricos não sentiam verdadeiro afeto pelos seus criados; viam-nos como simples burros de carga que serviam para ser usados até caírem e depois substituídos. Depois do nascimento de Hope, Nell e Bridie tinham-se tornado muito próximas, e Bridie ensinara-lhe muitas coisas que lhe permitiriam subir na hierarquia e deixar de ser uma simples criada de sala. Graças a ela, Nell sabia agora pentear cabelos à última moda e costurar requintadas peças de roupa, além de ter adquirido todas as competências necessárias para ser uma governanta. Bridie também lhe ensinara a lidar com uma patroa que dependia dos criados para tudo mas que raramente lhes dava o devido valor. A morte de Bridie foi para ela um duríssimo golpe, e chorou quando Lady Harvey lhe disse que Bridie lhe deixara as suas poupanças, quase vinte libras, e lhe confidenciara que acabara por vê-la como uma filha. Nell calculou que Bridie usara a palavra «filha» para transmitir a mensagem secreta de que o dinheiro se destinava à criação de Hope e exortá-la a guardar para sempre o segredo que ambas partilhavam. Lady Harvey não falara uma única vez do parto, pelo menos a Nell, mas era óbvio pela pesada tristeza que demonstrou durante os dois primeiros anos que pensava nele com muita frequência. Disfarçava quando o marido estava em casa, mas mal ele voltava a sair para tratar dos seus negócios em Londres deixava-se afundar de novo no mesmo desgosto. Nell receou que a morte de Bridie a atirasse mais uma vez abaixo – ao fim e ao cabo, a velha


criada acompanhara-a ao longo de toda a sua vida. Mas, para sua surpresa, isso não aconteceu, e pouco depois do funeral Lady Harvey perguntou-lhe se queria ser a sua criada pessoal. Foi a única vez que deu alguma indicação de que se lembrava do papel que Nell desempenhara nos acontecimentos daquela noite, dois anos antes, e mesmo assim não se referiu diretamente ao assunto. – És a única pessoa que poderia ocupar o lugar da minha querida Bridie – dissera, pegando na mão de Nell e apertando-lha. – Provaste ser tão leal como ela era, e esta é a única maneira que tenho de te mostrar a minha gratidão. Porque a morte de Bridie a fizera olhar para a patroa com alguma desconfiança, o primeiro pensamento de Nell foi que aquilo era mais egoísmo do que recompensa. Mas era também mais um degrau subido, e no seu primeiro ano como criada pessoal viajou muito. Na sua primeira viagem a Londres, Nell viu com os seus próprios olhos, enquanto o coche atravessava a cidade, como era muito pior ser pobre ali do que no Somerset. Hordas de crianças esfarrapadas e descalças, de rostos contraídos pelo frio e pela fome, infestavam as ruas imundas. Viu mulheres de olhos gelados, com a maior parte dos seios exposta, paradas nas esquinas, e adivinharalhes a ocupação. Viu um número enorme de pessoas alcoolizadas, homens e mulheres, caídas como montes de trapos à porta de decrépitos pardieiros. Então, em 1835, Lady Harvey teve Rufus, o tão esperado filho e herdeiro. Nell não esteve presente no nascimento: dessa vez, uma parteira experiente e um médico de Bath acompanharam o parto. Rufus era pequeno mas robusto, com um belo par de pulmões, e tão louro, de olhos azuis e pele clara como ambos os progenitores. Não foi contratada uma ama de leite: Lady Harvey amamentou-o ela própria, e a sua alegria, e a de Sir William, tinha contagiado toda a casa. Também Nell ficou feliz por eles, mas ao mesmo tempo não podia impedir-se de pensar nas diferenças entre a vida que Hope ia ter e a do seu pequeno meioirmão. Mas quando Lady Harvey convidou Ruth, a sua irmã mais nova, para ama de Rufus, sentiu uma satisfação secreta por ao menos as duas crianças irem ser criadas pela família Renton.

Durante os primeiros quatro anos da vida de Hope, a sorte sorrira à família de Nell. Com invernos amenos, boas colheitas e os filhos mais velhos e o pai a trabalhar, fora um tempo de relativa fartura. Não houve mais bebés, e Meg costumava dizer que estava demasiado velha para ter filhos. Apesar de parecer ainda mais exígua quando todos se juntavam para uma visita, a pequena casa ressoava de risos e alegria. Os tempos felizes acabaram de repente quando Prudence e Violet, com nove e oito anos, morreram de escarlatina. O reverendo Gosling dissera que deviam pôr-se de joelhos e dar graças ao Senhor por Joe, Henry e Hope terem sido poupados, porque a doença levava quase sempre os mais novos. Mas Nell, pelo menos, ficara convencida de que as outras crianças tinham sido salvas pela iniciativa da mãe ao isolar as doentes no anexo antes que as mais pequenas fossem contagiadas. A morte de crianças era uma ocorrência comum – um em cada três bebés morria antes de completar um ano –, mas o facto não tornara mais fácil para a família aceitar a perda de Prudence e Violet. Tinham passado já dois anos, mas o luto continuava presente e muitas vezes, quando Nell aparecia em casa sem avisar, encontrava a mãe a chorar. Mesmo assim, a natureza terna e afetuosa de Hope ajudava. Meg dizia com frequência que se não fosse ela não teria conseguido aguentar. Como Nell previra, nunca ninguém suspeitara que Hope não era uma verdadeira Renton. Até as


crianças mais crescidas, ao descerem do sótão na manhã seguinte à sua chegada e ao verem um novo bebé nos braços da mãe, tinham aceitado com naturalidade que era apenas mais uma irmã, pois todos os outros bebés tinham chegado sem fanfarra nem alarido. Silas costumava piscar o olho a Nell quando alguma vizinha mais efusiva comentava o quanto Hope era parecida com o pai, mas nunca nem ele nem a mãe falavam de como ela lhes chegara, nem sequer quando estavam sozinhos. Nell, no entanto, continuava a recear que à medida que Hope fosse crescendo as pessoas notassem a sua graça, a brancura da sua pele, os membros finos e as feições delicadas, e a vissem como a criança nobre que na realidade era.

– Viemos esperar-te – disse Hope docemente quando a irmã mais velha emergiu do bosque. Como Nell já esperava, estava sentada num tronco, muito sossegada a fazer uma grinalda de margaridas, como se nunca lhe tivesse passado pela cabeça despir-se para trepar a uma árvore. – Deem-me um beijinho, então! – disse Nell com um sorriso, pousando o cesto e abrindo os braços para os abraçar. Joe e Henry pareciam um par de escanzelados maltrapilhos, com os cabelos pretos desgrenhados, caras sujas, pés descalços e calções remendados. Excetuando o facto de Joe ser alguns centímetros mais alto do que Henry, os dois eram parecidos como gémeos, e tinham herdado as características feições masculinas dos Renton: orelhas um tudo-nada salientes e narizes demasiado grandes. Mas embora nenhum deles pudesse alguma vez vir a ser considerado atraente, eram por natureza meigos e afetuosos, e responderam com entusiasmo aos abraços e beijos da irmã. Com as três crianças a pular e a gritar à sua volta, Nell atravessou o baldio. Estava um belo dia, invulgarmente quente para maio, a cicuta-dos-prados erguia-se mais alta do que a cabeça de Hope, e o ar era perfumado pelo aroma das flores do espinheiro. Nell estava ansiosa por passar algumas horas com a mãe e saber notícias de Alice e Toby. Alice fora servir para uma grande casa de Bath pouco depois de Prudence e Violet terem morrido. O reverendo Gosling conseguira-lhe o lugar, e seis meses mais tarde Toby juntara-se-lhe, na condição de lacaio aprendiz. A pequena casa parecia quase espaçosa, com apenas três crianças, e apesar de a mãe afirmar que estava muito bem assim, Nell adivinhava que não era bem verdade.

Meg estava a sachar a horta quando Nell chegou, mas largou a enxada para abraçar a filha. – As ervas daninhas podem esperar – respondeu, a rir, quando Nell se ofereceu para ajudar. – Aparecem todos os dias, mas tu não. O seu cabelo tinha-se tornado grisalho depois das mortes de Prudence e Violet, e o rosto ainda mais marcado por rugas, mas, em muitos aspetos, parecia mais nova e mais saudável do que quando Henry nascera. Dizia que era porque o seu corpo estava enfim a recuperar de tantas gravidezes, e era verdade que voltara a ganhar alguma esbelteza, mas Nell estava convencida de que isso se devia ao facto de comer e dormir melhor e ter algum tempo para si mesma. Sentia-se feliz a cuidar da horta, a tratar das galinhas e a mungir a vaca que Nell comprara com uma parte do dinheiro de Bridie. Sentaram-se as duas no banco tosco que Silas instalara junto à porta das traseiras e Nell tirou do cesto os pães de passas que Cook lhe dera para levar para casa e distribuir. As três crianças sentaram-se no chão à frente de Meg e Bell, com os olhos escuros a brilharem


perante os grandes pães polvilhados de açúcar. Matt e James sempre tiveram personalidades muito diferentes quando eram rapazes, mas isso não impedira que fossem inseparáveis, e com Joe e Henry acontecia o mesmo. Joe estivera sempre atento durante as lições do reverendo Gosling e sabia ler e escrever muito bem; Henry, pelo seu lado, era um sonhador. Se o mandavam enxotar as galinhas para o galinheiro, o mais certo era esquecer-se da missão e ir deambular pelo campo, à procura de coelhos e raposas. Preferia desenhar animais na sua ardósia a escrever palavras ou fazer contas. Joe era mais fiável e consciencioso, o verdadeiro cérebro do duo, mas não era tão forte fisicamente ou destemido como Henry. – Não acham que o vale está hoje muito bonito? – exclamou Nell. Maio era o seu mês preferido, nem demasiado quente nem demasiado frio, e adorava as flores da primavera. Era também a altura do ano em que a vista da pequena casa era mais encantadora. A terra dos Renton descia num íngreme declive até ao rio. Aqui e além havia um espinheiro em flor, e cresciam tantos ranúnculos no meio da relva que era mais amarela que verde. As flores das macieiras e das pereiras estavam a desaparecer e já quase não havia prímulas, mas debaixo das árvores junto à margem do rio e no bosque na margem oposta havia um rico tapete de campainhas. Para lá do bosque, o terreno voltava a subir, pintado de um verde brilhante pelos jovens rebentos de trigo e aveia, e as aves faziam o que podiam para abafar com o seu canto o barulho da fundição de cobre de Woolard. Nell gostava dos jardins de Briargate, mas gostava ainda mais daquilo. Ali podia acreditar que a vida ainda lhe reservava qualquer coisa de bom, ao passo que em Briargate estava sempre a ser lembrada de que não passava de uma criada. – Anteontem apanhei uma truta – gabou-se Joe. – Era deste tamanho – acrescentou, afastando as mãos cerca de quarenta centímetros. – Fui eu que a fisguei – protestou Henry, indignado. – Tu só a enfiaste no saco. Meg olhou para Nell com uma sobrancelha arqueada. – Devia andar mais perto dos quinze centímetros. E chegaram a casa atrasados para o jantar e cobertos de lama. Face a esta manifesta ingratidão, os dois rapazes afastaram-se a correr em direção ao rio, para ver se conseguiam apanhar outra. Mas Hope ficou, desejosa de ouvir Nell coscuvilhar a respeito de Briargate. Hope nunca tinha estado na grande casa, mas via Sir William e Lady Harvey na igreja, aos domingos, e com duas irmãs e um irmão lá empregados ouvira o suficiente a respeito do lugar para desenvolver um enorme interesse por tudo o que acontecia. Porque tinha passado as suas primeiras semanas em Briargate a sentir-se esmagada pela maneira como os ricos viviam, Nell queria que Hope tivesse alguma preparação para quando chegasse a sua vez de servir. Por isso contou como Ruby, a criada de cima, tinha escorregado na escada das traseiras quando carregava um balde cheio de água, e que Cook se tinha esquecido de pôr açúcar na tarte de ruibarbo num dia em que Lady Harvey tinha convidados para o almoço. Em seguida descreveu o novo vestido de baile de seda cor-de-rosa de Lady Harvey, que os costureiros de Londres tinham entregado no dia anterior. – Tem centenas de pérolas muito pequeninas cosidas no corpete e na cauda – explicou. – Quando for uma senhora hei de ter vestidos bonitos – declarou Hope, pondo-se de pé e


segurando a saia do velho vestido de algodão como que a preparar-se para entrar num salão de baile. – Nesse caso vamos ter de te arranjar um marido rico – disse Nell, com ternura. Quando as outras irmãs desejavam coisas que ela sabia que nunca poderiam ter, apressava-se sempre a refrear-lhes os entusiasmos. Mas, por algum motivo, não era capaz de fazer o mesmo com Hope. Havia qualquer coisa nela, a ousadia do olhar, a postura da cabeça, que sugeria que talvez conseguisse encontrar o caminho de volta ao lugar que lhe pertencia. – Talvez possa casar com o menino Rufus – riu Hope. – Nesse caso iria viver para Briargate. – Não sejas tonta, criança – disse Meg, num tom duro. – A única maneira de viveres em Briargate é indo trabalhar para lá, como a Nell. Apesar de compreender que Meg tinha de acabar com aquela ideia em particular, Nell teve pena de Hope ao ver-lhe a expressão do rosto. Hope não fora criada na ignorância do mundo para lá da aldeia, como os irmãos e irmãs. Não só sabia tudo a respeito de Briargate, como já fora uma vez a Bristol, de carroça, com o pai. Durante semanas, não falara de outra coisa senão dos barcos, das ruas apinhadas de gente, das belas carruagens e das lojas cheias de coisas que nunca tinha visto. Seria de espantar que tivesse ideias fantasistas? – Tu, o Joe e o Henry podiam ir comigo até Briargate, mais tarde – sugeriu Nell, num impulso. – Estou sempre a falar à Cook a vosso respeito, e ela ia adorar conhecer-vos. E podiam aproveitar para ver a Ruth e o James. Hope bateu palmas, encantada. Meg lançou a Nell um olhar reprovador. – É melhor para ela aprender que o único lugar que lá tem é na cozinha – respondeu Nell, enquanto Hope corria campo abaixo para ir contar aos rapazes. Meg suspirou, mas não fez qualquer comentário. Era o seu hábito.

Mrs. Cole tinha saído de Briargate pouco depois do nascimento de Rufus, e Lady Harvey decidiu que não precisava de outra governanta. A partir do momento em que ocupara o antigo lugar de Bridie como criada pessoal de Lady Harvey, Nell tornara-se a terceira na hierarquia da casa, depois de Baines e de Cook. Havia agora menos pessoal – quando alguém se ia embora, não era necessariamente substituído –, o que significava que todos tinham mais alguns deveres. Rose, que fora a criada de cima, era agora criada de sala, e Ruby, a criada da cozinha, substituíra-a nas suas antigas funções. Cook tinha uma nova criada de cozinha chamada Ginny, e todo o trabalho mais duro passara a ser feito por Ada, que vinha todos os dias de Woolard. Ruth, como ama, e James, o único cavalariço desde que o velho John Biggins se reformara, além do novo jardineiro, Albert Scott, e do seu assistente Willy, completavam o conjunto do pessoal. Nell tinha alguma satisfação em saber que o seu trabalho era o mais fácil e agradável de todos. Lady Harvey não era exigente, e Nell só tinha de a vestir e cuidar-lhe do cabelo e das roupas. Se a patroa ia visitar uma amiga, fazer compras a Bath ou apenas dar um passeio de carruagem, Nell ia também. Quando havia visitas em Briargate, ocupava o seu tempo a remendar roupa ou a passar a ferro, mas se não tivesse obrigações a cumprir, podia fazer o que quisesse. De um modo geral, considerava-se muito afortunada. Apesar disso, no caminho de regresso a Briargate, horas mais tarde, com as crianças a correrem à sua volta, ia pensativa. Aquela sensação de ter envelhecido dez anos na noite em que Hope nascera


nunca tinha desaparecido por completo. Era como se lhe tivesse roubado a juventude, tornando-a demasiado cautelosa e timorata. Tinha vinte e dois anos, e quase todas as raparigas da aldeia com que crescera estavam casadas e com filhos. Alguma vez isso lhe aconteceria? Era o que queria mais do que tudo. Quase todas as noites adormecia a imaginar o seu casamento, a casinha onde viveria e até a dar nomes aos filhos. Mas... e se já tivesse deixado passar o seu auge? A ideia assustava-a, porque não queria acabar como Bridie, uma velha que dedicara toda a vida à família que servia. Não que não tivesse admiradores. Sabia que Baines tinha um fraquinho por ela. Mas Baines já passara os cinquenta e nunca seria capaz de lhe fazer o coração palpitar mais depressa. E havia também Seth O’Reilly, que levava as mercearias da loja em Pensford; ficava tão atrapalhado sempre que a via que mal conseguia alinhavar uma frase. Mas parecia-lhe um pouco fraco, não conseguia imaginá-lo a rachar lenha ou a mungir uma vaca, e além disso era coxo. Queria um homem como o pai, um homem feliz e de trato fácil que não se queixasse depois de um dia de trabalho ao frio ou à chuva. O género de homem capaz de deitar mão a qualquer obra, que não fosse esbanjador, não bebesse muito, mas que ao mesmo tempo tivesse na alma um pouco de paixão. Achava que talvez Albert Scott, o novo jardineiro, fosse um homem assim. Começara a trabalhar em Briargate em março, pouco depois de Jacob, o velho jardineiro que estava no lugar desde que a casa fora construída, ter morrido. Desde a chegada de Albert, Nell passara muito mais tempo do que devia a espreitá-lo das janelas. Era um homem muito atraente, com mais de um metro e oitenta de altura, cabelo negro encaracolado, uma espessa barba preta e mãos fortes e muito bronzeadas, e ela calculava que devia andar por volta dos vinte e cinco anos. Infelizmente, como criada pessoal de Lady Harvey, não se dava, por ausência de motivo, com jardineiros ou cavalariços, que tinham os seus quartos por cima das cavalariças e comiam depois dos outros criados. Aquela fora mais uma razão para sugerir que as crianças a acompanhassem naquele dia, pois se pedissem para ver os cavalos, talvez surgisse uma oportunidade para falar com Albert. As crianças corriam à sua frente pelo bosque, os rapazes a equilibrarem-se sobre os troncos caídos como pequenos cabritos-monteses e a falar aos berros um com o outro enquanto Hope apanhava campainhas para Cook. Nell observava-as com ternura, a recordar a si mesma como era afortunada por ter a família tão perto. Cook deixara a sua quando tinha doze anos e havia mais de vinte que não tinha contacto com qualquer deles. O sol do fim da tarde ainda estava quente quando saíram do bosque e atravessaram a tapada em direção à cancela perto das cavalariças. – A Cook vai gostar das campainhas? – perguntou Hope, excitadíssima. Parecia prestes a explodir, porque ia finalmente ver a casa de que tanto tinha ouvido falar. – Vai pô-las num boião de compota? – Tenho a certeza de que sim – respondeu Nell, divertida com tanta excitação. – Mas não vão poder ficar muito tempo, porque hão de estar a preparar o jantar para logo à noite. E eu tenho de ir tratar do banho de Lady Harvey; hoje têm convidados. – O James vai deixar-nos ver o Merlin? – quis saber Henry. Merlin era o novo garanhão de Sir William e James estava sempre a falar dele. – De certeza – respondeu Nell. – E podem ver a Duchess e a Buttercup, a filha dela, e há também os cavalos do coche.


Cook ficou encantada por conhecer as crianças, de que ouvira falar tanto, assim como elas dela. Serviu a cada uma um grande copo da sua limonada especial e ofereceu-lhes uma fatia de tarte de maçã. Ruth apareceu na cozinha, muito elegante no seu uniforme de criada às riscas azuis e brancas. Tinha dezanove anos, e era uma cópia um pouco mais magra e mais alta de Nell. Lançou um grito de delícia ao ver os irmãos e a irmã, embaraçando os rapazes ao abraçá-los e beijá-los à frente de Cook. – Amanhã vou a casa na minha tarde de folga – disse-lhes. – Mas agora tenho de ir porque são quase horas do chá do menino Rufus. Não se esqueçam de ir ver o James antes de se irem embora. Sir William tinha saído com Merlin, mas James mostrou-lhes Duchess e Buttercup, a égua e a cria, e deixou-os dar cenouras aos cavalos do coche. Para seu grande desapontamento, Nell não viu Albert em parte alguma. – Ele ainda está a trabalhar no jardim? – perguntou a James. – Pensei que podia mostrá-lo à Hope. James sorriu. Já completara vinte anos e desde que fora trabalhar para Briargate crescera vários centímetros e desenvolvera uma respeitável musculatura, graças ao trabalho duro que fazia. Tinha muito êxito junto das criadas, pois apesar de não dever nada à beleza, com o seu cabelo escorrido e o grande nariz dos Renton, havia nele uma alegria e uma simpatia inatas que o tornavam cativante. – Queres tu dizer que vinhas na esperança de o encontrar! – disse, e piscou um olho. Nell corou. Não tentou negá-lo, pois o irmão conhecia-a demasiado bem. – Está na frente da casa, a mondar o roseiral. Leva a Hope até lá. – Esboçou um sorriso conhecedor. – Os rapazes podem ficar aqui comigo. – Não posso ir – disse Nell, horrorizada. Havia uma espécie de lei não escrita que proibia os criados de darem a volta até à parte da frente da casa. Sentir-se-ia muito à vontade para mostrar a Hope os jardins das traseiras, mas os da frente eram diferentes porque qualquer pessoa poderia vê-la de uma das janelas. – Não sejas pateta, claro que podes – riu James. – A Hope vai gostar de ver as estátuas. E o Albert vai gostar de te ver a ti. Encorajada, Nell pegou na mão de Hope e passou por baixo do arco do pátio das cavalariças em direção à parte da frente da casa. Além do grande roseiral central, contornado pelo caminho de acesso ensaibrado, havia outras roseiras junto à fachada, algumas das quais, no pino do verão, trepavam pela parede, e era essas que Albert estava a mondar. Tinha despido a bata castanha que regra geral usava e enrolado as mangas da camisa, e a vista dos antebraços musculosos e nus e das calças de fustão cingidas às nádegas encheu-a de uma súbita timidez. Sabia, pela experiência de anos anteriores, que dentro de um par de semanas as roseiras estariam espetaculares, mas por enquanto não havia nenhuma a florir. Se tivessem desabrochado, poderia deixar Hope aspirar-lhes o perfume, mas sem uma verdadeira razão para estar ali, sentia-se vulnerável e bastante tola. Hope, no entanto, correu direita a Albert antes que Nell pudesse impedi-la. – Porque é que ainda não há flores? – perguntou Hope. – Haverá para o mês que vem – respondeu Albert, e olhou para Nell com um sorriso. – As roseiras gostam de ter o canteiro inteiro só para elas. Não são grandes apreciadoras de companhia. Bell encheu-se coragem e avançou para ele. Quando chegou, Hope estava a perguntar porque era


que as roseiras não gostavam de companhia e a dizer que gostava de jardins que tivessem flores por todo o lado. – Também eu – concordou Albert. – Mas este jardim não é meu, de modo que tenho de fazer como o patrão quer. Nell, corada, pediu desculpa pela irmã. – Não incomoda nada – disse Albert, jovial. – Volte a trazê-la quando todas as roseiras estiverem em flor. Aposto que vai gostar. Hope estava interessadíssima nas estátuas de mármore espalhadas pelo grande roseiral circular, e voltou a fazer Nell corar quando perguntou porque era que as senhoras não tinham roupas. Albert riu e disse que, em sua opinião, era por ser mais difícil esculpir roupas do que corpos nus. Estava a cerca de quatro metros de distância do pórtico quando Nell ouviu a porta abrir-se e Lady Harvey despedir-se de alguém. Não querendo ser vista a falar com o jardineiro, disse a Hope que eram horas de voltar para trás. Mas Hope ignorou-a e correu para a porta principal, chegando no preciso instante em que um cavalheiro saía para o pórtico. – Hope! – chamou Nell. Mas, para seu horror, a criança deteve-se, de mãos atrás das costas, a sorrir para o homem com um ar angelical. O cavalheiro teria talvez trinta anos, era alto e magro e vestia um casaco de montar verde, calções castanhos e botas altas, além de um ousado lenço amarelo e verde à volta do pescoço. Baixou os olhos para Hope e sorriu. – Olá! Quem és tu? – Hope Renton – respondeu ela sem hesitação. – Vim ver as rosas, mas não há nenhuma. Nell correu para o pórtico e pegou na mão de Hope. Lady Harvey tinha entrado e fechado a porta. – Peço desculpa, senhor – disse Nell. – Não há motivo para pedir desculpa por uma criança bem educada. A voz era profunda, mas continha uma nota de divertimento face à atrapalhação dela. Nell olhou para o rosto bonito e sorridente e empalideceu. Os olhos quase pretos e o cabelo era igual ao de Hope. O choque foi tão grande que Nell ficou como que paralisada a olhar para ele, de boca aberta. – Deve ser irmã do jovem cavalariço que ficou com o meu cavalo – disse ele com um sorriso descontraído. – São muito parecidos. Nell recompôs-se num instante. – Sim, senhor, é o James. Eu sou a Nell, a criada de Lady Harvey – conseguiu dizer. – Vou dizer ao James que traga o seu cavalo, senhor. E afastou-se a correr, levando a mão de Hope bem segura na sua. * Depois de dizer a James que levasse o cavalo ao cavalheiro, Nell despediu-se das crianças, ordenando-lhes que fossem diretamente para casa. Ficou alguns instantes a acenar-lhes da cancela da tapada, pois não se atrevia a entrar em casa abalada como estava. Nunca se permitira conjeturar a respeito de quem seria o pai de Hope, tal como não se atrevera a procurar parecenças entre a patroa e a criança. Tinha decidido havia muito que o melhor era não pensar nessas coisas.


Eram muitos os cavalheiros que visitavam Briargate; alguns levavam as mulheres, as irmãs ou até as mães, outros iam sozinhos se eram amigos de Sir William. Mas Nell nunca vira ninguém que se parecesse nem mesmo remotamente com Hope, e nunca esperara ver. Ao fim e ao cabo, era pouco provável que o homem que fizera aquilo à sua senhora fosse bem-vindo naquela casa. No entanto, a maneira sub-reptícia como Lady Harvey se despedira daquele cavalheiro era quase uma prova de intriga, pois porque fora que não chamara Rose? E porque receberia visitantes masculinos numa altura em que o marido não estava em casa? E se o homem se tivesse reconhecido em Hope? Se ela conseguia ver as parecenças, decerto toda a gente conseguiria.

Um pouco mais tarde, Nell subiu ao quarto das crianças para falar com Ruth, tão confusa que se esqueceu que Lady Harvey aparecia muitas vezes por lá àquela hora do dia. – A Ruth estava a dizer-me que esta tarde trouxeste os teus irmãos e a tua irmã mais novos – disse Lady Harvey, num tom amável. – Peço desculpa, m’lady – respondeu Nell. – Devia ter perguntado se o podia fazer. – Que tolice, não precisas da minha autorização para eles virem ver o irmão e a irmã. – Lady Harvey pegou em Rufus e começou a fazê-lo saltar em cima dos joelhos. – Gostava de os ter visto também, e tenho a certeza de que o Rufus apreciaria uma visita. Precisa de companheiros de brincadeira. O quarto das crianças era o lugar onde Lady Harvey se mostrava sempre mais descontraída, e pareceu ficar satisfeita com o aparecimento de Nell, dizendo que nunca gostara da ideia de as crianças viverem separadas das pessoas. Nell estava arrependida de ter ido, mas não podia ir-se embora assim de repente sem despertar suspeitas, de modo que se inclinou para apanhar do chão alguns cubos de madeira. Estava aliviada por a patroa parecer perfeitamente normal. Não estava afogueada nem nervosa, e vestia um simples vestido cinzento-pomba muito adequado para uma mãe, de modo nenhum o género de vestido que uma mulher escolheria para receber um amante. Tinha o cabelo tão composto e bem arranjado como ela própria lho deixara naquela manhã. Talvez estivesse então enganada em relação ao homem. – Não nos atreveríamos a trazer os meus irmãos até aqui para conhecerem o menino Rufus – arriscou, esforçando-se por falar e agir de uma maneira natural. – São demasiado rudes para um pequeno cavalheiro como ele. Rufus parecia uma menina, com o seu longo e encaracolado cabelo louro, os olhos azuis e o habitual vestido comprido de bebé. Poucos dias antes Nell ouvira Sir William dizer que achava que era mais do que tempo de o filho começar a usar calções, mas até ao momento Lady Harvey não dera instruções a Ruth nesse sentido. – Mas a tua irmã podia vir brincar – disse Lady Harvey, com um sorriso. – Que idade tem ela agora? – A Hope tem seis, minha senhora – respondeu Nell, nervosa, com receio de que a patroa ficasse a pensar naquilo e achasse estranha a coincidência de a filha mais nova dos Renton ter a mesma idade que o filho que perdera. – Mas é como se tivesse dezoito, não para de fazer perguntas – apressou-se a acrescentar.


– Quero ir para o chão, mamã – disse Rufus, e desceu do colo da mãe e dirigiu-se, com os seus passinhos ainda trôpegos, para Ruth. Tanto Nell como Ruth adoravam Rufus; era um rapazinho meigo e brincalhão, que se mostrava tão afetuoso com elas como com a mãe. – Traz a Hope para o chá na segunda-feira – disse Lady Harvey, enquanto se punha de pé e alisava a saia. – Podes ir buscá-la depois do almoço. Quando voltares já o Rufus terá feito a sua sesta. Quero que aprenda a partilhar os brinquedos e a dar-se com outras pessoas. Quando a patroa saiu do quarto das crianças, Ruth olhou para a irmã e riu: – A nossa Hope aqui! A senhora não sabe no que se foi meter.

Nessa noite, Nell estava a escovar o cabelo de Lady Harvey quando Sir William entrou no quarto. – Fazem um lindo quadro – disse, encostado ao umbral. – Quem te escova o cabelo a ti, Nell? Nell riu. Sabia, pela cara avermelhada e pela fralda da camisa solta por fora do cós das calças, que o patrão tinha bebido demasiado. Era, sem hipótese de discussão, o homem mais bonito que alguma vez vira, com umas feições tão perfeitas como as das estátuas de mármore do roseiral, cabelo cor de trigo maduro e olhos de um azul intenso. Cook dizia muitas vezes que era bonito como uma rapariga, mas Nell não concordava; talvez os lábios fossem um tudo-nada demasiado cheios, mas tinha um queixo forte, coxas e nádegas bem torneadas e firmes de tanto montar a cavalo. Sabia que estava bem-disposto, embriagado ou não, pois ouvira-o rir com a mulher enquanto subiam a escadaria depois de os convidados do jantar terem saído. – Só eu, senhor – respondeu. Ficou ali parado, a olhar para ela e para a mulher, e Nell pensou que era porque queria visitar o leito conjugal naquela noite. Pensou que ainda bem que já libertara a sua senhora dos espartilhos e a ajudara a vestir a camisa de noite. Achava que não era apropriado um marido assistir a todas essas coisas. – Tens namorado, Nell? – perguntou Sir William de repente. – Não, senhor – respondeu ela, e o sangue subiu-lhe às faces. – Mas gostavas de ter um? – continuou ele, entrando no quarto e sentando-se na cama. – Esperas casar um dia? – William! – admoestou-o Lady Harvey, a rir. – Para de interrogar a pobre Nell. – Sim, espero casar um dia, senhor. Quando o homem certo aparecer – respondeu Nell. – Nesse caso acho que é melhor eu tratar de ver se arranjo um marido adequado para ti – declarou ele, com um sorriso que revelou os dentes perfeitos e muito brancos. – Bem, não procures muito longe de Briargate, William – disse Lady Harvey, com uma nota de riso na voz. – Não quero que ela fuja e me deixe. Mas podes ir para a cama, Nell. Eu consigo fazer o resto sozinha. Nell pousou a escova de cabelo em cima do toucador, fez uma pequena reverência e disse boa noite. Quando ia a sair do quarto voltou a cabeça apenas o suficiente para ver o patrão levantar-se da cama e beijar o pescoço da mulher. Aquilo agradou-lhe, e contribuiu muito para atenuar os seus medos em relação ao visitante daquela tarde. Ficara a saber, através de James, quem era o cavalheiro em causa: o capitão Angus Pettigrew, dos Hussardos Reais, um primo dos Pettigrew que viviam em Chelwood House, a cerca de três


quilómetros de Briargate. Não podia, claro, explicar ao irmão as razões do seu interesse nem, na realidade, fazer mais perguntas por receio de o alertar para a sua ansiedade. Nem ela própria sabia para que queria a informação. Tudo o que sabia era que se sentia ameaçada. Mas ameaçada pelo quê? Fizera a si mesma esta pergunta dezenas de vezes naquela noite, e não encontrara uma resposta. Mas agora que deixara o senhor e a senhora juntos, obviamente felizes, pensava que talvez o capitão só tivesse passado por Briargate porque estava de visita em casa dos parentes e teria sido indelicado não o fazer. Mesmo assim, o pedido da sua senhora para que Hope fosse brincar com Rufus continuava a preocupá-la. Se Bridie fosse viva, levaria as mãos à cabeça de horror. Mas a verdade era que não podia recusar, ou arranjar uma desculpa. Só podia esperar que a visita não corresse bem e que Lady Harvey decidisse que Hope não era uma companhia adequada para o filho e que as coisas ficassem por ali.

As esperanças de Nell de que a visita fosse um fracasso saíram goradas. Choveu na segunda-feira, pelo que as crianças tiveram de ficar no quarto. Hope ficou tão entusiasmada com os brinquedos de Rufus, tudo coisas que nunca tinha visto, que teve todo o prazer em brincar com o que ele quis. Construiu-lhe castelos com blocos de madeira e riu quando ele os deitou abaixo. Montaram juntos o cavalo de balouço e viram juntos os livros com ilustrações. Lady Harvey juntou-se-lhes para o chá, e Hope recorreu despudoradamente ao charme, admirando as delicadas louças de porcelana, comendo e bebendo com muito mais requinte do que lhe era habitual e chegando a admoestar Rufus por não comer as côdeas do seu pão com geleia. Saltava aos olhos que Rufus achava que ela era a melhor coisa que alguma vez surgira na sua jovem vida, e quando foram horas de Nell levar Hope para casa, agarrou-se a ela a chorar e obrigou a mãe a prometer que a festa se repetiria na semana seguinte. Enquanto atravessava a tapada levando Hope pela mão, Nell imaginava Bridie a sacudir o punho na sua direção e a perguntar-lhe como pudera, para começar, ser estúpida ao ponto de levar a criança àquela casa. * Aos domingos, esperava-se que todo o pessoal de Briargate que podia ser dispensado das obrigações ligadas à preparação do almoço fosse à igreja em Compton Dando. Todos os que vinham das aldeias vizinhas tinham também um domingo por mês para passar a tarde com as famílias, depois do serviço religioso. James e Ruth gozavam com frequência o mesmo domingo de folga, mas Nell, que tinha de substituir Ruth no seu papel de ama quando ela não estava, ia sempre a casa sozinha. Tinham passado três semanas desde a primeira tarde de Hope em Briargate quando Nell teve o seu próximo domingo de folga. Sentia-se feliz enquanto atravessava Lord’s Wood a caminho da igreja. O chão estava seco, não haveria lama nas suas botas bem engraxadas nem no seu melhor vestido azul, e Lady Harvey tinha-lhe dado um ramalhete de rosas artificiais e fita azul para enfeitar o chapéu. Ia desejosa de ver o pai, porque nas suas tardes de folga normais ele estava sempre a trabalhar, e ela tinha muita sorte se conseguia estar com ele meia dúzia de minutos antes de ter de voltar a Briargate. Mas, sobretudo, estava encantada porque, naquele domingo, Albert fazia parte do grupo. Como jardineiro, nunca trabalhava aos domingos, e até ao momento sempre fora à igreja em


Chelwood. Nell achava que ele só podia ter decidido mudar de igreja porque queria conhecê-la. Não podia ser de Rose que gostava; era uma verdadeira velha criada, com mais de trinta anos. Ruby tinha só catorze e era magra como um ancinho e desengraçada como um cabo de vassoura. O que deixava apenas Ruth, mas, que Nell soubesse, nunca tinham falado um com o outro. Perguntou a si mesma se teria coragem para convidá-lo para casa dos pais depois do serviço. Não pareceria demasiado atrevido? Como se lhe tivesse adivinhado os pensamentos, Albert deteve-se, olhou para trás com um sorriso e esperou que ela o alcançasse. – Quantos da tua família estarão hoje em casa? – perguntou. Nell pensou que ele bem poderia passar por um fidalgo rural com o seu casaco de tweed, os calções verde-escuros e as impecáveis meias brancas. – Só a Hope, os dois rapazes mais novos e o Matt, o mais velho. Trabalha na mesma quinta que o meu pai – respondeu. – E a tua família, onde está? – Em Penshurst. É no Kent – disse Albert. – Só um irmão e duas irmãs, e estão todos casados. Os nossos pais morreram há anos. – O James disse-me que trabalhaste para o bispo de Wells. O que foi que te fez vir de tão longe procurar trabalho? Albert encolheu os ombros. – Sabia que nunca teria uma oportunidade melhor do que trabalhar nos jardins de um palácio. – Porque foi então que saíste de lá? Ele lançou-lhe um estranho olhar de lado, e ela pensou que talvez estivesse a fazer demasiadas perguntas. – Porque seria velho antes de chegar a jardineiro-chefe. Ouvi dizer que Sir William precisava de alguém, e vim a pé até cá para falar com ele. Foi um dia inteiro a andar. Mal vi o jardim, soube que era o lugar certo para mim. E Sir William gostou das minhas sugestões. Todos os criados tinham reparado que o senhor parecia muito mais entusiasmado com o jardim desde a vinda de Albert. Ia para lá fizesse chuva ou fizesse sol, e muitas vezes oferecia-se para planear os novos canteiros. Lady Harvey dizia que estava contente por ele ter descoberto outro interesse além de montar. – Mas não te sentes um pouco sozinho? – perguntou Nell. – Quero dizer, o Willy é um pouco simples, e o James vai para a aldeia todas as noites. Devias ter montes de amigos em Wells. Albert voltou a encolher os ombros. – Não sou muito de companhias. Se me apetece alguma, vou até à taberna de Chelwood. Em Wells não era muito diferente; os outros homens eram todos ou muito velhos ou um pouco patetas, como o Willy. Gosto mais de estar aqui. James dissera a Nell que Albert não era grande conversador, mas estava enganado. Falou durante todo o caminho até à igreja, e fez a Nell dúzias de perguntas a respeito da família dela. Era um pouco para o sério, franzia o sobrolho mais do que sorria, mas Nell não se importava, estava feliz por ele querer falar com ela.

Depois do serviço religioso, Albert subiu a encosta com Nell e o resto da família, e foi o pai dela que o convidou para um copo de cerveja. Albert ficou cerca de meia hora a admirar a horta antes de


pedir licença e se retirar. Antes de sair, porém, perguntou a Nell a que horas ia regressar a Briargate, deixando-a com a nítida impressão de que tencionava encontrar-se com ela para a acompanhar durante a travessia do bosque. Nell bem via que os pais tinham gostado de Albert, apesar de o único comentário que fizeram ter sido «é um rapaz muito sério». No entanto, por muito entusiasmada que estivesse por Albert parecer tão interessado nela como ela nele, um domingo em casa com a família era, de momento, mais importante. Meg tinha feito guisado de coelho com bolinhos de massa, seguido por framboesas de conserva, e foi uma refeição alegre, com muita conversa e muito riso. Matt começara havia pouco tempo a cortejar Amy Merchant, a filha de um agricultor de Woolard que tinha sido amiga de Nell quando eram pequenas e assistiam as duas às lições do reverendo Gosling no vicariato. Meg e Silas estavam muito esperançados de que aquilo levasse a um casamento, não só por gostarem de Amy mas também porque o pai dela, um rendeiro, gozava de uma relativa prosperidade e só tinha filhas. Meg brincou com Matt por ele engraxar as suas melhores botas todas as tardes antes de ir a casa dela, o que levou Silas a contar-lhes que costumava percorrer dezasseis quilómetros a pé para ir cortejar Meg, acrescentando que só a tinha pedido em casamento porque não aguentava mais a caminhada quando estava mau tempo. Matt despediu-se às quatro para ir encontrar-se com Amy e os três mais novos foram brincar para a margem do rio, deixando Nell, Meg e Silas meio a dormitar à sombra da macieira nas traseiras da casa. Foi só quando Meg falou da visita semanal de Hope a Briargate que Silas se sentou direito. – Não sei se devíamos deixar que isto se tornasse uma coisa regular – disse. – Só pode acabar em problemas. – O teu pai tem razão – concordou Meg, assentindo com a cabeça. – Eu sei que a Hope adora ir, mas está a dar-lhe a volta à cabeça. Não tarda começa a pensar que é demasiado fina para nós. Ainda há dias perguntou porque é que não temos chávenas e pires de porcelana. É Briargate isto, Briargate aquilo. Lady Harvey tem um vestido cor-de-rosa, ou o Rufus vai ter um pónei. Aonde é que tudo isto vai parar, Nell? – Não sei. – Nell franziu a testa. – Eu disse-lhes logo no início que não gostava da ideia. Mas como é que podemos pôr-lhe fim sem perturbar o menino Rufus? – Como é que Lady Harvey a trata? – perguntou Silas, com uma expressão ansiosa nos olhos escuros. – Muito bem, gosta muito dela. Toda a gente em Briargate gosta dela. – É natural que goste dela, ao fim e ao cabo é sangue do seu sangue, e é aí que está o perigo – disse Silas, com um suspiro. Nell preparava-se para dizer que não via qualquer perigo no facto de alguém gostar de uma criança quando, de repente, recordou a maneira como Lady Harvey ria com Hope, lhe alisava o cabelo ou lhe tocava nas faces. – Acham que ela pode começar a gostar demasiado da Hope? Mais uma vez, viu os pais trocarem um olhar. – Têm medo de que ela lhes tire a Hope? – perguntou, incrédula. – Não faria uma coisa dessas! Não podia! – Há mais de uma maneira de nos tirarem uma criança – disse Meg, sombria. – Meter-lhe na


cabeça a ideia de que é diferente, por exemplo, ou fazê-la querer mais do que alguma vez poderá ter. E não podemos ter a certeza de que a Bridie não disse a Lady Harvey que a filha sobreviveu. – Não! – Nell abanou a cabeça. – A Bridie nunca o faria. – Tudo o que a Bridie fez foi pela patroa – retorquiu Meg. – Deixou-te trazer a bebé cá para casa porque achou que era o melhor para Lady Harvey, mas talvez mais tarde, quando a mulher ainda estava desgostosa, lhe tenha dito a verdade por achar que também era o melhor para ela. – Não acredito nisso – disse Nell, convicta. – Se o tivesse feito, Lady Harvey ter-me-ia feito perguntas a respeito de todos nós, e nunca o fez. – Os ricos não são como nós – declarou Silas, e o seu tom foi de desprezo. – Já nascem astutos. Seja como for, não precisa de perguntar-te nada, a Ruth conta-lhe mais do que o suficiente. Nell preparava-se para negar aquilo, mas de súbito apercebeu-se de que era muito provável que o pai tivesse razão, pelo menos em relação a Ruth. A irmã estava com Rufus todos os dias desde que ele tinha nascido, todo o seu conhecimento a respeito de como tratar de bebés vinha de ter observado e ajudado a mãe com os irmãos e irmãs mais novos. O que seria mais natural do que dizer «A minha mãe fazia isto ou aquilo com o Henry», ou «A minha mãe fazia assim com a Hope»? E Ruth não tinha motivos para suspeitar de quaisquer perguntas que se seguissem. – Não há maneira de isto poder acabar bem – disse Silas, entristecido. – Mesmo que Lady Harvey saiba a verdade, não vai de certeza correr o risco de o seu segredo se tornar conhecido dando uma mão à Hope para subir na vida. E se não sabe, mas começa a gostar cada vez mais da nossa menina, vai dar-lhe a volta à cabeça com fantasias impossíveis. De um modo ou de outro, a Hope acaba sempre por perder, porque não será peixe nem carne. Nell suspirou, a concordar. Ela e todos os irmãos e irmãs tinham sido criados a saber exatamente qual era o seu lugar na sociedade, como a mãe e o pai tinham sido antes deles. Estavam todos destinados a servir alguém, quer fosse o pai a lavrar e a ceifar as terras ou a mungir as vacas de um agricultor rico, ou ela própria, com doze anos, a servir em Briargate. Ainda crianças, tinham começado a ser preparados para o que os esperava, apanhando lenha, indo buscar água ao poço ou recolhendo os excrementos dos cavalos na estrada para servirem de adubo na horta. Na altura da ceifa, a família inteira ajudava o pai nos campos. Com três anos, já Nell era obrigada a apanhar batatas. Antes de começar a servir, passara muitas vezes frio e fome. As roupas cosidas e remendadas que usava tinham passado para Ruth e depois para Alice; nunca ninguém tinha nada que fosse novo. O mais que as pessoas pobres como eles conseguiam fazer era ir sobrevivendo, porque se num ano a colheita era boa, no ano seguinte podia ser desastrosa. Os trabalhadores agrícolas como o pai podiam ser despedidos a qualquer momento, e nunca conseguiam acumular poupanças que os ajudassem nas épocas de escassez. Durante o primeiro mês de Nell em Briargate, as mãos sangravam-lhe sem parar por estar horas a esfregar tachos e panelas, e no final do dia estava tão exausta que mal conseguia subir a escada. Mas quando recebera o primeiro salário e o entregara à mãe, o sorriso de gratidão e de orgulho de Meg na filha fizera com que tudo valesse a pena. Nell não conseguia imaginar Hope a aceitar uma coisa daquelas. Nunca tinha ido para a cama com fome, nunca lhe tinham pedido que cuidasse de bebés, que remendasse roupas ou fosse buscar água ao poço. Não fora endurecida como eles tinham sido. Mas se não era feita para o serviço doméstico, que mais lhe restava?


– O que é que fazemos? – perguntou numa voz muito baixa. – Não sei – disse Silas com um suspiro. Todos eles sabiam que não era sensato ofender Lady Harvey dizendo-lhe que não queriam que Hope continuasse a frequentar a mansão. – Talvez o melhor seja deixarmos as coisas como estão, por enquanto – disse Meg, desanimada. – A ver o que acontece. Fora intenção de Nell falar-lhes do capitão Pettigrew durante aquela visita. Mas não podia darlhes mais coisas com que se preocuparem. Não podia afirmar com qualquer espécie de certeza que era ele o pai de Hope, e quer fosse ou não, era provavelmente uma coisa que devia guardar para si mesma.


CAPÍTULO 3

1840 o patrão deixava-nos ficar com a casa do guarda-portão – disse Albert, a torcer –S eo casássemos, barrete nas mãos, com a expressão quase tão torturada como o pobre barrete. Nell olhou para ele estupefacta, quase incapaz de acreditar no que tinha ouvido. Ao longo daqueles dois últimos anos, tinham sido uma companhia constante: iam à igreja juntos, conversavam no pátio das cavalariças ao fim da tarde, ou, como naquela ocasião, Albert esperava por ela junto a Lord’s Wood para a acompanhar no caminho de regresso nas suas tardes de folga. – Casássemos, Albert? Estás a pedir-me que case contigo? – É mais ou menos isso – respondeu ele, de olhos no chão. – Queres? Era uma quente tarde de junho, os raios do sol vesperal trespassavam com feixes oblíquos de luz dourada o dossel de folhas lá em cima. O arrulhar dos pombos-do-bosque e o murmúrio de um riacho a correr sobre os seixos por entre a vegetação rasteira ali perto deveriam fazer do lugar um cenário romântico para a proposta, mas a falta de paixão, ou sequer de calor, da parte de Albert estragava tudo. – Não sei – disse ela. – Quero dizer, nunca disseste nada que me fizesse pensar que tinhas esses sentimentos por mim. É tão repentino. – Já lá vão dois anos – respondeu ele, como se isso tornasse tudo perfeitamente compreensível. – Agora ganho o suficiente para manter uma esposa, e estamos bem um para o outro. Nell concordaria que estavam bem um para o outro, na medida em que eram ambos dedicados a Briargate e aos Harvey. Albert era apaixonado pela jardinagem; nos últimos dois anos, construíra jardins de rochas, criara muitos novos canteiros e plantara uma tal profusão de arbustos e árvores que o efeito era espetacular. Nell aprovava aquela paixão, mas sempre esperara que o homem com quem casasse mostrasse sentir alguma paixão também por ela, e lhe dissesse que a amava antes de pedir a sua mão em casamento. – E «estarmos bem um para outro» será o bastante? – perguntou, a olhar para ele, confusa. Não passava um dia em que não pensasse que ele era atraente, forte e inteligente. Gostava da barba viril, da cana do nariz larga, da maneira como o cabelo se enrolava em pequenos cachos quando molhado. Albert sabia muito mais do que ela a respeito do que se passava no mundo; ainda algumas semanas antes lhe dissera que o transporte forçado para a Austrália ia acabar e explicara-lhe muita coisa a respeito desse longínquo país. Seria possível que um homem que sabia tanto não soubesse que uma mulher precisava que lhe dissessem que era amada? – Acho que sim – respondeu ele, sisudo. – Um canário não acasala com um tordo pois não? Cada um anda com os seus, e nós os dois somos iguais.


– Então e o amor? – perguntou ela, zangada. – Há centenas de pessoas por esse mundo iguais a mim, tal como as há iguais a ti. Mas é o amor entre duas pessoas que as torna especiais uma para a outra. – Tu és especial para mim – disse ele. – Por isso acho que é aquilo a que as pessoas chamam amor. – Quero um marido que saiba que me ama – retorquiu ela, indignada, e começou a afastar-se dele. Nell estava muito consciente de que a esmagadora maioria das pessoas casava exatamente pelas razões que Albert tinha apontado. Era um tema muitas vezes discutido pelo pessoal de Briargate quando se sentavam todos à volta da mesa na sala dos criados, depois do jantar. A aristocracia casava sobretudo para fortalecer laços entre famílias, ou para levar riqueza a uma família ilustre que estivesse com problemas financeiros. Baines, que trabalhara ou visitara dezenas de grandes propriedades, dissera certa vez que Sir William e Lady Harvey eram as únicas pessoas tituladas que conhecia que tinham feito aquilo a que poderia chamar um «casamento de amor». Na opinião do distinto mordomo, aqueles que dedicavam a sua vida ao serviço doméstico deviam escolher um marido ou uma mulher por razões práticas em vez de por causa da «doença do amor», como lhe chamava. Nell, porém, nascera de pais que tinham casado por amor. Meg e Silas estavam casados há vinte e cinco anos, e apesar de todas as dificuldades continuavam a namorar-se e a arrulhar como dois pombinhos. O pai dissera-lhe certa vez que não precisava de ir para a taberna beber cerveja com outros homens; o seu lugar preferido era em casa, junto à lareira com a sua Meg. E era isso que também ela queria num casamento. – Não fujas, Nell – gritou Albert. – Desculpa se não soube usar as palavras certas. Queres casar comigo? Nell deteve-se e voltou-se para olhar para ele. – Não enquanto não fores capaz de me dizer que queres que eu seja tua mulher porque não podes viver sem mim. E que seja a sério.

Hope via a mãe cuidar mais uma vez do cabelo de Nell. Não estava habituada a que outro membro da família fosse o centro de todas as atenções, e não estava a gostar. Os sinos da igreja começaram a tocar. – Quer dizer que são horas de irmos – disse Silas. – Isto é, se a Nell tem a certeza de que o Albert é o homem certo para ela. Estava-se em setembro e Nell tinha enfim aceitado casar com Albert quando, uma semana depois do pedido feito no bosque, ele declarara que a amava e que a sua relutância em confessá-lo se devia apenas à timidez. – Tenho a certeza – disse Nell, resoluta. – Estás bonita como um cerejeira em flor – disse Meg, enquanto colocava uma coroa de flores brancas na cabeça da filha. Albert trouxera-as de Briargate de manhã cedo, quando Nell estava ainda a dormir no sótão. Meg confecionara a coroa com um pouco de arame, musgo e folhas, e prendera-lhe as flores mais pequenas. Com as restantes fizera um ramalhete para Nell levar nas mãos. Nell fizera ela própria o seu vestido branco e cor-de-rosa, com alguma ajuda de Rose, a criada de sala. Tinha um decote acentuado e mangas tufadas, e a saia tinha franzidos à volta da orla e anquinhas


como as que qualquer verdadeira senhora usaria. Com um saiote rendado e engomado por baixo e os delicados sapatos com fivelas de prata que sua senhoria lhe dera, Hope achava que a irmã estava linda. – Porque é que eu não tenho uma coroa? – perguntou. – Porque a Nell é que é a noiva, e de qualquer modo tu tens uma touca com fitas novas – respondeu Meg, enquanto entregava o ramalhete a Nell. – Agora deixa de fazer essa cara, Hope, e porta-te bem na igreja. Hope sabia que Albert já estava na igreja porque o vira passar pouco antes com Ruth e James, que seria o seu padrinho. Joe e Henry também tinham saído por essa altura. Hope achava que Albert ficava com um ar esquisito com um colarinho de pontas reviradas, mas a verdade era que acontecia o mesmo a toda a gente quando vestia as suas melhores roupas. A velha Gertie Ford estava à espera no caminho quando saíram de casa. Vivia na casa em frente e já não tinha pernas para fazer a caminhada até à igreja. – Boa sorte – gritou, apoiada à bengala. – Estás uma noiva muito bonita, Nell. Certifica-te de que aquele teu belo homem te trata como deve ser. Hope perguntou-se porque seria que as pessoas estavam sempre a dizer aquilo a Nell. Significaria que havia maridos que eram maus para as mulheres? Toda aquela história de casar era um pouco misteriosa para ela. Perguntara à mãe e ela dissera que era porque as mulheres queriam bebés e precisavam de um homem para lhos dar. Mas Hope sabia que os bebés cresciam na barriga das mães, de modo que aquilo não fazia grande sentido. O clangor do sino foi-se tornando mais forte à medida que desciam a encosta a caminho da aldeia. Nell ia de braço dado com o pai; Hope e a mãe caminhavam atrás deles. Não havia mais ninguém para acenar ao pequeno grupo porque quase todos os outros habitantes da aldeia já estavam na igreja. – Não arrastes os pés, Hope – disse Meg. – Vais fazer-nos chegar atrasados! Hope correu para alcançar a mãe e deu-lhe a mão. – Quanto tempo falta para a Nell ter um bebé? – perguntou. – Isso é o Senhor que decide – respondeu Meg, mas baixou os olhos para Hope e sorriu. – E hoje não me faças mais perguntas dessas.

Hope espreitou por entre os dedos enquanto devia estar a rezar. A igreja estava muito bonita. Nessa manhã, algumas das mulheres da aldeia tinham pendurado grinaldas de flores à volta do púlpito e nas extremidades dos bancos compridos. Mas era estranho ver os vizinhos e os amigos da aldeia sentados nos bancos da frente onde costumavam sentar-se os ricos. Mr. e Mrs. Calway estavam lá, e toda a família Nichols, os Carpenter de Nutgrove Farm, Mr. Humphreys, os Pearce, os Box, os Webb, os Wilkins, até Maria Jeffries, a velhota maluca que passeava a cabra pelas ruas da aldeia presa por uma trela. Hope perguntara à mãe onde se sentariam Sir William e Lady Harvey e Rufus quando chegassem, mas ela limitara-se a dizer que eles não iam aos casamentos dos pobres. Hope não compreendia aquilo. Nell cuidava de Lady Harvey e Albert tornava o jardim bonito para ela. Por isso deviam ter ido ali naquele dia para tornar as coisas bonitas para Nell e Albert. «Vou ser má para o Rufus da próxima vez que for a Briargate», prometeu a si mesma. Continuava a ir brincar com ele nas tardes de segunda-feira, a menos que o tempo estivesse muito


mau. Por vezes fartava-se dele porque apesar de já ter cinco anos, continuava a ser muito bebé. Compreendia que era por não ter irmãos e irmãs como ela, e não fazer nada nem ir a parte nenhuma sozinho como ela fazia quando tinha cinco anos, mas mesmo assim era irritante. No entanto, gostava de ver todos os livros dele, e dava-lhe um prazer especial saber lê-los para ele. Também gostava de desenhar e pintar com ele e de jogar às escondidas no jardim. Acima de tudo, porém, adorava ir a Briargate. Só subir a grande escadaria até ao quarto das crianças fazia-a sentir-se uma convidada especial. Era bom ver todos aqueles quadros tão bonitos, tocar nas madeiras polidas e nos cortinados de veludo e entrar num mundo tão diferente daquele de onde vinha. Não achava que Nell, James e Ruth sentissem a mesma coisa, mas talvez isso fosse porque eram criados. Estavam sempre cheios de pressa de a levar para a cozinha, como que para lhe lembrar que era ali o seu lugar. Mas a verdade era que ela gostava tanto da cozinha como do resto da casa. Era bom ver comidas que nunca provava em casa, observar o cuidado que Cook punha na preparação das refeições, e raras vezes saía de lá sem qualquer coisa para levar para os pais: uma empada, um bolo ou um boião de compota. E depois havia Lady Harvey. Hope achava que ela tinha de ser a senhora mais encantadora à superfície da Terra. O seu cabelo dourado, os olhos azuis e os belos vestidos eram por si só suficientes, mas além disso também era muito boa, e tratava-a sempre com muito carinho.

Nell e Albert estavam ajoelhados diante do altar. Nell parecia tão diferente com o cabelo solto; a mãe tinha-lho lavado na noite anterior e torcido e enrolado em panos para o fazer encaracolar. Hope nunca o vira tão brilhante e leve, e a pequena coroa de flores era muito bonita. Decidiu que quando fosse crescida usaria o cabelo assim todos os dias. Voltou a cabeça ligeiramente para olhar para Alice e Toby, que estavam no banco atrás do seu, e sorriu-lhes. Estava entusiasmada por eles terem conseguido estar presentes, uma vez que não iam a casa com muita frequência devido a Bath ficar tão longe. Alice sussurrara à porta da igreja que tinham feito todo o caminho a pé, e que iam ter de o fazer outra vez no regresso, no dia seguinte, mas que valia a pena. Também acrescentara que tinha uma coisa para ela. Esperava que fosse uma caixa com pincéis e tintas como a que Rufus tinha.

– Porque é que está a chorar, mãe? – perguntou Hope num murmúrio, um pouco mais tarde. Começava a ficar aborrecida, porque o reverendo Gosling estava sempre a perguntar a Albert e depois a Nell as mesmas coisas, e parecia que nunca mais ia acabar. – Chiu – sibilou Meg, e levou um dedo aos lábios. – Declaro-vos marido e mulher. Ao ouvir estas palavras do reverendo Gosling, ditas numa voz alta e imponente, Hope voltou a ficar interessada. Esperava que fosse o fim e que pudessem ir para casa, para a festa. Andara toda a gente com muito medo de que chovesse naquele dia, porque a casa não era suficientemente grande para todos os convidados, mas havia já três dias seguidos que o tempo se mantinha bom, com sol e calor, e na noite anterior Silas e Matt tinham montado uma mesa comprida, feita com portas velhas, no campo ao lado da horta, e havia tábuas apoiadas em cepos a servir de


bancos. Nell pedira emprestados alguns lençóis em Briargate para fazer as vezes de toalhas, havia um barril inteiro de cerveja, e empadas e pães e outras comidas que chegavam para dúzias de pessoas e Gareth Peregrine ia tocar o seu violino para que todos pudessem dançar. – Pode beijar a noiva. Hope tapou os olhos com as mãos ao ouvir a ordem do reverendo Gosling a Albert; não suportava ver homens a beijarem mulheres. Matt estava sempre a beijar Amy, sobretudo quando julgava que não estava ninguém a ver, e ela achava que não seria capaz de aguentar se Nell e Albert passassem também a vida a fazer aquilo. Mas teve de espreitar por entre os dedos só para ver Albert fazê-lo, porque nunca o tinha visto beijar Nell. Ficou aliviada por ter sido só um debicar. Matt e Amy davam uns grandes beijos, chupados.

Mabel Scragg, a dona da padaria que ficava a seguir à casa dos Renton, bamboleou-se ao encontro deles assim que saíram da igreja. Hope não gostava dela; a mulher chamava-lhe sempre «a senhorinha» e uma vez dera-lhe um puxão de orelhas por ela lhe ter chamado Scraggy. – A primeira está casada, então – disse a Meg, com os vários e gordos queixos a tremelicarem. – Calculo que o próximo seja o Matt. – É verdade. – Meg sorriu ao filho mais velho, que estava sempre tão perto de Amy que pareciam colados um ao outro. – Mas serão os pais dela a pagar, graças a Deus. – A vossa Nell saiu-se bem com o Albert, disso não há dúvida – continuou Mabel. – Calculo que vão ficar com a casa do guarda-portão e que Lady Harvey vai conservar a Nell ao seu serviço! Não há de ser por muito tempo, se ela sair a ti! Hope franziu a testa ao ouvir o último comentário de Mabel. Não era ela a primeira a fazê-lo. Quase toda a gente já o tinha feito. Queria saber o que significava.

Quando escureceu, Hope teve a sua resposta. Todos os adultos que continuavam na festa estavam um pouco tocados, incluindo a mãe e o pai. A comida desaparecera toda, e agora tinham de voltar o barril quase de pernas para o ar para conseguir os últimos restos, e Gareth Peregrine parara de tocar violino e estava a curtir a bebedeira junto ao galinheiro. Até Joe e Henry tinham bebido um pouco de cerveja. Hope também provara, mas não gostou. Reparara que a cerveja fazia as pessoas dizerem coisas que normalmente não diriam. Matt dissera que amava Amy diante de toda a gente, e ela rira como se achasse que ele era maravilhoso. Houvera durante toda a noite uma grande quantidade de piadas de jardinagem a respeito de plantar sementes que ela não percebera. Mas quando os recém-casados se foram embora de mão dada, alguém comentou que talvez em junho estivessem a molhar a cabeça a um bebé. – Bastava o Silas espirrar e a nossa família aumentava – disse Meg, rindo perdidamente. – Só espero que a Nell não saia a mim, ou então que dê um nó na pila do Albert. Houve mais conversa entre as mulheres, sempre nesta linha, que Hope escutou com muita atenção. Uma disse que Albert era frio como um peixe, e logo se ergueram várias vozes a concordar, incluindo a da mãe. Até Ruth afirmou que já vira mais paixão num arroz-doce do que nele, e apontou para Matt, que dançava muito agarrado a Amy, e disse que aquilo era muito mais normal.


E assim, juntando tudo isto ao que aprendera a respeito de procriação com os animais da quinta, chegou à conclusão de que era para aquilo que os seres humanos se casavam, e que o resultado era bebés. Mais tarde, quando dançou com o pai, que cambaleava devido à bebida, ele dissera-lhe que esperava não ser demasiado velho para dançar no casamento dela. – Não vou casar – disse ela, perentória. – Ninguém me vai fazer aquilo a mim.

Três meses depois do casamento de Nell, Matt casou com Amy. Foi na semana antes do Natal, na igreja de Publow, a aldeia a seguir a Compton Dando. Fred Merchant, o pai de Amy, recebera Matt na família de braços abertos, pois sempre quisera um filho a quem deixar a quinta. Toda a gente na aldeia acreditava que Matt tinha a vida resolvida. Mais uma vez, Hope viu a mãe chorar no casamento e os pais ficarem um pouco tocados pela bebida, mas teve a sensação de que estavam muito mais felizes por Matt casar com Amy do que tinham ficado por Nell casar com Albert. Nem uma única vez ouvira o pai perguntar a Matt se tinha a certeza, como perguntara a Nell. E tinha visto a mãe abraçar Amy dúzias de vezes, exatamente como fazia com os seus próprios filhos. Hope não gostava de Albert. Tinha uma maneira esquisita de olhar para as pessoas, como se elas cheirassem mal, e quase nunca falava. Nell dissera, a defendê-lo, que era só por timidez, e que com ela falava muito. Talvez fosse verdade, mas Hope não conseguia compreender porque havia isso de mudar Nell. Deixara de ir a casa nas tardes de folga; a família já só a via aos domingos, na igreja, com Albert. Sempre que voltava de Briargate depois de brincar com Rufus, a mãe fazia-lhe montes de perguntas a respeito de Nell. – Ela está bem? Disse alguma coisa a respeito do Albert? Quando é que vem a casa? Hope só podia dizer a verdade: que a irmã estava igual ao que sempre fora, e não, não dissera nada a respeito de Albert, e tinha dito que não podia ir a casa nas tardes de folga porque agora tinha a sua própria casa para tratar. Ruth e James iam sempre a casa quando tinham folga. Diziam que achavam que Nell devia ter mais tempo agora que estava casada porque Lady Harvey dispensava-a mais cedo, e quando saía sem ela mandava-a para casa. A dada altura, Hope ouviu Ruth dizer que Albert era um tirano, mas a mãe levara um dedo aos lábios para a impedir de dizer mais. Hope perguntara ao reverendo Gosling o que era um tirano, e ele disse que era um homem que impunha a sua vontade aos outros.

Na primavera de 41, Hope estava no quarto das crianças de Briargate a jogar damas com Rufus diante da lareira quando Lady Harvey entrou acompanhada por outra senhora. Rufus era bom a jogar damas, de modo que Hope não tinha de o deixar ganhar de vez em quando para o apaziguar. Ganhara os dois últimos jogos, e no momento em que Lady Harvey entrou Hope estava a concentrar-se naquele para poder batê-lo. Ruth levantou-se de um salto como sempre fazia quando alguém entrava no quarto das crianças e começou a arrumar um puzzle que as duas crianças tinham feito.


– Rufus – disse Lady Harvey –, quero apresentar-te Miss Bird. Vai ser a tua precetora e ensinar-te a ler e escrever. Rufus continuou ajoelhado no tapete diante da lareira e ergueu os olhos para a senhora alta, de rosto severo, que vestia um vestido cinzento e touca. – A Hope está a ensinar-me a ler e escrever – respondeu, desinteressado. A brincadeira preferida de Hope era «a escola», e já tinha conseguido ensinar a Rufus todas as letras do alfabeto e até a ler algumas palavras simples com três letras. – Não sejas mal-educado, Rufus – ralhou Lady Harvey. – E quantas vezes tenho de te dizer que um cavalheiro se põe sempre de pé quando uma senhora entra na sala? – Peço desculpa, mamã – disse ele, e levantou-se relutantemente do chão. Hope achou que o melhor era levantar-se também, e seguiu o exemplo de Ruth ajudando a apanhar as peças do puzzle. Lady Harvey explicou à visitante que Hope era a irmã mais nova da sua criada e que vinha brincar com o filho uma vez por semana. Em seguida disse a Rufus que Miss Bird lhe daria lições na sala de estudo todos os dias. – Prefiro ir ao reverendo Gosling, como a Hope – respondeu Rufus. – O reverendo Gosling só ensina as crianças da aldeia – disse Lady Harvey num tom brusco, zangada por o filho estar a mostrar-se tão pouco cooperante. – E Miss Bird ensinar-te-á um pouco de história, geografia e música. Toca piano. Hope teve vontade de rir de Rufus por causa da cara que ele estava a fazer, com o lábio inferior estendido para a frente num amuo petulante. Achava que ele era sobretudo um pouco mariquinhas, mas isso talvez fosse em parte por estar sempre vestido à marinheiro e com umas meias brancas impecáveis, sem um grão de pó que fosse. Percebia por que razão ele não gostava do aspeto da nova professora. Tinha um ar mau, com as suas costas muito direitas e os lábios finos que não sorriam. Além disso, não tinha queixo: a parte inferior da cara desaparecia no pescoço. – Ela também vai ensinar a Hope? – perguntou Rufus. – Não, não vai – disse Lady Harvey, e aproximou-se de Rufus para lhe despentear os caracóis louros. – O teu pai acha que é tempo de te dares com rapazes, de modo que o Benjamin e o Michael Chapel vão passar a vir cá duas tardes por semana. Hope sabia, porque Nell lho dissera, que os Chapel viviam numa grande mansão em Chelwood e que por vezes eram convidados para jantar em Briargate. Nunca vira os rapazes, mas Nell descrevera-os como um par de pequenos pedantes. – Penso que é melhor ires andando para casa, Hope – disse Lady Harvey. – Gostaria que Miss Bird falasse com o Rufus a sós. Apesar de Rufus ter começado a protestar que estavam a meio de um jogo, Ruth foi buscar o xale e a touca de Hope e empurrou-a para a porta. Foi muito claro para Hope que devia desaparecer de uma forma definitiva e sem uma palavra, mas aquilo não lhe pareceu justo. – Não vou poder continuar a vir ver o Rufus? – perguntou, já à porta. Lady Harvey franziu o sobrolho. – Continuarás a vê-lo na igreja – disse. Rufus soltou um grito de protesto e Hope saiu apressada da sala, com medo de chorar também. Embora fosse verdade que muitas vezes se aborrecia com Rufus, gostava dele e brincavam juntos havia muito tempo. O que mais lhe custava, no entanto, era o facto de James a ter avisado, algumas


semanas antes, de que seria prontamente largada quando Sir William decidisse que já não era apropriado o filho brincar com uma criança da aldeia. Não acreditara no irmão; na realidade, dera-lhe um pontapé por ter dito uma coisa tão má. Mas afinal ele tinha razão. Correu direita à cozinha. Cook ergueu os olhos da massa que estava a tender. Tinha um aspeto esquisito, com os olhos tortos e uma pequena corcunda nas costas, mas Hope gostava dela. – Olá, meu docinho – disse Cook, com a ternura habitual. – Hoje vens mais cedo. Ou trazes um recado para mim? Hope explicou o essencial do que tinha acontecido, a atropelar as palavras. – Por isso tenho de me ir embora – concluiu. – Já não sou desejada aqui. Dizê-lo daquela maneira tão clara fê-la chorar, e Cook puxou-a para si e abraçou-a. – Pronto, pronto – disse, num tom calmante. – Eles têm de fazer do menino Rufus um homenzinho antes de o mandarem para o colégio. Mas não te preocupes, ele vai ter saudades tuas e não duvido de que vai fazer a vida negra à precetora por causa disso. Talvez então Lady Harvey volte a mandar-te chamar. – Não virei mesmo que ela o faça – respondeu Hope, orgulhosa, a fungar. – Onde está a Nell? – Foi para casa – respondeu Cook, e tirou da travessa um biscoito acabado de cozer e ofereceu-o a Hope. – Agora mudou as tardes de folga para as segundas-feiras. Hope teve vontade de chorar outra vez ao ouvir a novidade, mas engoliu as lágrimas, despediu-se de Cook e saiu. O caminho mais curto era pela cancela atrás das cavalariças e atravessando a tapada até ao bosque, mas Hope mudou de ideias quando chegou à cancela e voltou para trás para contornar a casa e descer o caminho de acesso. Em parte porque queria ver Nell e a casa dela ficava daquele lado, mas sobretudo era um gesto de desafio, pois bem sabia que podiam vê-la da mansão. Não ia esgueirar-se, como um cão escorraçado, pelo meio do bosque. Mesmo que não voltasse a pôr os pés em Briargate, pelo menos daquela última vez sairia pela porta principal. O caminho de acesso era muito mais comprido do que esperara, porque nunca o tinha percorrido. Ainda semanas antes, quando estava na cama, no sótão, ouvira os pais falar. O pai comentara que já era mais do que tempo de Nell e Albert os convidarem para sua casa. Dissera que compreendia que quisessem arranjá-la o melhor possível antes de convidarem alguém, mas que achava que seis meses era tempo mais do que suficiente para isso. A casa do guarda-portão, uma construção de pedra de aspeto severo com janelas de pequenas vidraças montadas numa armação de chumbo e uma bonita cerca branca à volta, fora construída muito antes de Briargate. No tempo de Sir Roland Harvey havia sempre lá alguém durante todo o dia para abrir e fechar os portões quando os visitantes entravam e saíam, mas isso acabara há cerca de vinte anos e os portões tinham sido retirados. Até Nell e Albert se terem mudado para lá, permanecera desocupada durante anos. Nell abriu a porta um segundo depois de Hope ter batido e ficou espantada ao ver a irmã. – Oh, Hope! – exclamou. – O que te traz por cá? – M’lady já não me quer em Briargate – balbuciou Hope, e desfez-se no mesmo instante em lágrimas. – Então, então – disse Nell, passando-lhe um braço pelos ombros e puxando-a para dentro. – Entra e conta-me tudo.


Entre soluços e fungadelas, Hope explicou. – Agora deitaram-me fora, como se eu fosse um pedaço de lixo – concluiu. Ficou surpreendida ao ver que Nell tinha lágrimas nos olhos, e ajudou-a saber que também a irmã sentia a injustiça de tudo aquilo. – Já receava que isto acontecesse – admitiu Nell. E acrescentou que tanto ela como os pais tinham tido dúvidas de que fosse uma boa ideia desde o princípio, e que de qualquer modo, agora que tinha nove anos, Hope era demasiado crescida para brincar com Rufus. Fez chá, e foi só então que Hope começou a olhar em redor. Era a casa mais limpa e arrumada que vira em toda a sua vida. A mesa, de tão esfregada, era quase branca, e o mesmo podia dizer-se do chão lajeado. O fogão parecia novo, como se Nell tivesse acabado de lhe dar uma demão de grafite. Não havia nada fora do lugar ou à banda. As duas cadeiras junto ao fogão tinham almofadas colocadas com uma precisão matemática. O tapete de retalhos entre elas parecia nunca ter sido pisado. As prateleiras onde estavam arrumados os pratos, os tachos e as panelas tinham um debrum de papel frisado azul e branco. Até o pano da loiça estava dobrado com todo o cuidado. Havia o cheiro de qualquer coisa a cozinhar no forno, mas nenhum sinal de qualquer espécie de preparação. Até as facas, garfos e colheres de estanho estavam alinhados como uma fila de soldados dentro de uma caixa. Todos eles cintilavam. – Tens tudo muito bonito – disse Hope, mas na realidade achava tanta arrumação um pouco arrepiante. – Pensámos que ainda estivesses a arranjar a casa, como não nos convidaste. – Não tenho tempo nenhum – respondeu Nell, um tudo-nada demasiado depressa. – Além disso, a casa é demasiado pequena para poderem vir cá todos. Tanto quanto Hope podia ver, era maior do que a deles, e Nell tinha um fogão como deve ser e um lava-louça a sério. Mas estava ansiosa por ver o resto e subiu a correr a estreita escada no canto. O primeiro piso não era um simples sótão, como em casa deles; o quarto de Nell era mesmo um quarto, com porta e janelas. Uma cama de ferro, um lavatório com bacia e jarra de esmalte e uma arca de madeira constituíam a única mobília, e as paredes eram caiadas, como as do piso térreo. Também ali estava tudo impecável. A colcha da cama não tinha uma única ruga. As cortinas pendiam em pregas perfeitas. As tábuas nuas do soalho tinham um ligeiro brilho, como se tivessem sido enceradas. O outro quarto do segundo piso estava vazio, tinha só as cortinas na janela. – É para o teu bebé? – perguntou Hope. – Quando tiveres um? – Se tiver um – respondeu Nell. – Então, o que é que achas da minha casa? – Está muito bem arrumada – respondeu Hope, à míngua de um verdadeiro elogio. – O Albert gosta de tudo muito arrumado – disse Nell, e alisou a já mais do que alisada colcha, como se estivesse enervada. – Mas é melhor ires para casa, Hope. É uma longa caminhada e a mãe vai ficar preocupada se te atrasares. Minutos depois, Hope ia a caminho de casa, atravessando os terrenos de Hunstrete House para não ter de voltar a passar por Briargate. Apesar dos seus poucos anos, sabia que Nell não estava preocupada com o seu atraso. O que não queria era que ela estivesse lá quando Albert chegasse.

Meses depois da sua última tarde em Briargate, Hope deu por si a considerar aquele dia como o momento em que tudo mudara para ela. Não era só o facto de já não poder brincar com Rufus, ou de ter deixado de ver Nell, Ruth e James com tanta frequência. Era sobretudo por ter tido de começar a


trabalhar. Claro que sempre tinha contribuído com a sua parte e ajudara o pai na quinta quando era preciso ceifar as searas, ou fazer a sementeira, ou pôr o feno a secar para o gado. Os irmãos e irmãs mais velhos também o tinham feito; era assim em todas as famílias de trabalhadores do campo. Mas, no passado, só era precisa para as tarefas mais ligeiras; ia todos os dias às lições do reverendo Gosling, e no resto do tempo fazia o que quisesse. Mas as lições tinham acabado de repente, sem qualquer explicação. Agora esperava-se dela que trabalhasse tanto como Joe e Henry, e saía com eles todas as manhãs, mesmo que estivesse frio ou a chover. E nos dias em que ficava em casa tinha de lavar a roupa, e fazer a limpeza e ajudar na cozinha. – Se não trabalhas não podes comer – disse-lhe a mãe num tom brusco quando ela se queixou. – É assim que as coisas são, Hope, e quanto mais depressa o compreenderes, mais feliz serás. Hope tinha consciência de que o dinheiro era mais curto desde que Nell e Matt tinham casado e deixado de contribuir com os seus salários. James e Ruth continuavam a entregar à mãe os deles, e Alice e Toby ajudavam com o que podiam. Mas nenhum deles ganhava muito e Alice e Toby iam a casa tão poucas vezes que Meg tinha de esperar semanas por um par de xelins. Hope via também que os pais estavam a ficar velhos e cansados. Nenhum dos dois tinha a força que em tempos tivera. O reverendo Gosling fizera-lhe notar que a mãe já ia nos quarenta e cinco anos, que o pai era um par de anos mais velho, e que uma vida inteira de trabalho e provações tinha consequências. Disse, com palavras severas, que muitas raparigas de nove anos, e até mais novas, tinham de trabalhar tão duramente como os adultos e que ela devia dar graças a Deus por lhe ter sido permitido ter uma verdadeira infância e ter podido frequentar a sua pequena escola durante quatro anos. Assim, teve de aguentar sem queixumes, mesmo quando sentia que as costas se lhe iam partir depois de passar um dia inteiro dobrada a apanhar morangos, ou que os braços lhe iam saltar das articulações quando carregava sacos cheios de batatas ao longo de todo o comprimento de um campo, a resmonear pragas entre dentes. No entanto, não era só o trabalho forçado que a incomodava. O que verdadeiramente lhe custava era a perda de posição. «A nossa bebé» era uma expressão que ouvira para a descrever desde que se lembrava. Todos na família, exceto Joe e Henry, a usavam, uma maneira amorosa de reconhecer que ela tinha um lugar especial. Todos cuidavam de que estivesse bem aquecida, que tivesse o suficiente para comer, que não estivesse cansada. A mãe e Nell certificavam-se de que tinha roupas decentes e botas que lhe servissem, o pai e Matt tinham-lhe esculpido bonecas de madeira e pendurado um balouço para ela nos ramos da macieira. Aprendera mais depressa do que qualquer dos outros a ler e escrever, e enquanto nenhum deles tivera mais de dois anos com o reverendo Gosling, ela tivera quatro. Pediamlhe que lesse as notificações, ou os jornais que calhasse chegarem-lhes às mãos, porque o fazia muito melhor do que qualquer um deles. Até o facto de ter sido mandada brincar com Rufus a fizera sentir que tinha sido escolhida, porque Henry era apenas um ano mais velho. Durante os dois anos em que visitara Briargate, fora o centro de todas as atenções. Tinha de estar bem vestida para lá ir, nos primeiros tempos fora preciso ir levá-la e buscá-la, e toda a gente na família queria saber o que lá fizera e o que Lady Harvey lhe dissera. Agora não era nada. Tinha de usar o seu velho vestido para ir trabalhar e ninguém precisava de lhe perguntar o que tinha feito porque todos sabiam. Não gostara muito de ter de ir às lições do


reverendo Gosling, mas lá aprendia coisas de que podia falar com os pais quando chegava a casa. O pior de tudo, porém, era saber que doravante seria sempre assim até começar a servir. E isso seria ainda pior. * – Vem sentar-te ao pé de mim, Meg – chamou Silas ao ver a mulher de pé à porta a ver onde ele estava. Era setembro, um bela tarde com o sol a começar a pôr-se. Silas estava sentado no banco debaixo da macieira a fumar o seu cachimbo enquanto via o céu tornar-se cor-de-rosa. Ao fundo do campo, junto ao rio, via coelhos a alimentarem-se. Um mocho, empoleirado num poste da vedação, esperava atento que o jantar lhe passasse ao alcance. Estava tudo como devia, as galinhas no galinheiro, Hope, Joe e Henry já a dormir no sótão, e eles tinham comido um bom jantar de frango e bolinhos de maçã. Mas Silas não conseguia saborear a paz nem a vista porque estava preocupado. Meg caminhou sobre a erva em direção a ele, com uma caneca de sidra na mão. Entregou-lha e sentou-se a seu lado. – Faz amanhã um ano que a nossa Nell casou. Achas que a perdemos para sempre? Silas não respondeu logo, sobretudo porque não era nisso que estava a pensar. Claro que o entristecia o facto de Nell nunca mais ter aparecido para os visitar, mas uma mulher tinha de obedecer aos desejos do marido, e se Albert a queria em casa no tempo que tinham livre, Silas supunha que tinha de o aceitar. Mas sabia que Meg não via as coisas da mesma maneira. – Sei que tens saudades dela – acabou por dizer. – Mas ela escolheu o Albert e agora os dois têm a sua própria vida para viver. Pelo menos vemo-la na igreja todos os domingos. – Talvez seja diferente quando ela tiver um bebé – disse Meg, num tom de esperança. – Talvez. – Silas suspirou, porque não acreditava muito nisso. – Mas era na Hope que estava a pensar. Não parece a mesma. – Há de ficar bem, há de habituar-se ao trabalho, todos nós tivemos de nos habituar – disse Meg. – Talvez devêssemos ter feito a mudança mais devagar, acabado com as idas a Briargate há um ano. Mas o que está feito feito está. Temos de ensinar-lhe que para as pessoas como nós não há caminhos fáceis. Silas voltou-se para olhar para a mulher e perguntou a si mesmo, como tantas vezes fizera, como conseguia ela ser tão resignada. Quando se apaixonaram, acreditavam que um dia teriam a sua própria quintazinha, mas haviam passado vinte e seis anos e continuavam a partir as costas por uma miséria. Quando ele fosse demasiado velho para trabalhar e não pudessem pagar a renda, seriam postos na rua. Mas eram abençoados, bem o sabia. Tinham-se um ao outro, os filhos eram fortes e saudáveis, os cinco mais velhos estavam todos em bons lugares e dois deles casados. Esperava conseguir colocar Joe e Henry como aprendizes em bons ofícios. Hope era a única que o preocupava, por não ser uma Renton por sangue nem por natureza. – Nunca vai prestar para o serviço doméstico, nem para trabalhar no campo – desabafou. – Tem demasiada cabeça para qualquer das coisas. Por vezes vejo-a questionar tudo; a centelha que há nela nunca a deixará obedecer cegamente, como nós sempre fizemos. E é demasiado bonita para seu próprio bem. – Talvez sabendo ler, escrever e fazer contas como sabe, consiga arranjar trabalho em Bristol ou


em Bath, numa loja – disse Meg, esperançosa. – Mas há perigos na cidade. – Há perigos em todo o lado. – Meg pegou-lhe nas mãos e esfregou-lhas amorosamente. – Ensinámo-la a distinguir o bem do mal, amámo-la como se fosse nossa. Não podemos fazer mais. Silas bebeu o resto da sidra enquanto o sol desaparecia atrás da colina. – Talvez pudéssemos ir falar com Lady Harvey – disse de repente. – Dizer-lhe que a rapariga é filha dela e arrancar-lhe a promessa de que a ajudará quando chegar o momento. Meg fez um ar chocado. – Que estás tu a dizer, Silas? – exclamou. – Não podemos fazer isso! Ia pensar que estávamos a tentar fazer chantagem. A Nell, o Albert, o James e a Ruth, todos eles perderiam os seus lugares. E o mais certo era tu perderes também o teu. – Ela não o faria! Nunca depois dos bons serviços que a nossa família lhe prestou! – Não contes com isso. – Meg fez uma careta. – Uma mulher com um segredo de culpa é um animal perigoso.


CAPÍTULO 4

1843 já devia ter voltado! – comentou Hope. Estava a olhar pela janela para a chuva pesada e –O pai persistente que caía. O pai tinha ido de carroça ao cais de Bristol buscar alguns artigos chegados de barco três dias antes e esperava-se que voltasse na mesma noite. A mãe suspirou, porque não era a primeira vez naquele dia que Hope dizia o mesmo. – Com os barcos nunca se sabe, quando está mau tempo – explicou. – Mas ele não há de ter gostado de ficar em Bristol; diz sempre que é um lugar barulhento e sujo. – E que estarão o Joe e o Henry a fazer? – perguntou Hope, quezilenta. – Com certeza não estão a trabalhar, com uma chuva destas? Os irmãos de Hope tinham agora treze e doze anos. As esperanças de Silas de colocá-los como aprendizes num bom ofício tinham-se visto goradas porque não conseguira arranjar dinheiro para os contratos. O reverendo Gosling tentara tudo para os colocar como jardineiros, moços de estrebaria ou lacaios, mas sem resultado. Por isso, até que aparecesse qualquer coisa melhor, faziam trabalhos ocasionais nas quintas das redondezas, de momento para Mr. Francis de Woolard, o mesmo que mandara Silas a Bristol. – As vacas têm de ser mungidas, com bom ou mau tempo – respondeu Meg, com uma nota de irritação na voz. – Mas talvez tenham perdido algumas e ido à procura delas. O outono chegara cedo naquele ano, com ventos fortes, trovoadas e chuvadas tão intensas e prolongadas que o rio Chew galgara as margens. O moinho da aldeia ficara inundado e uma grande parte do grão acabado de colher tinha-se perdido. Em Woolard e Publow, várias casas chegaram a ter metro e meio de água a correr-lhes no interior. Dizia-se que em Pensford uma criança tinha sido levada pela cheia e se afogara. Toda a gente se juntara para levar o gado e as ovelhas para zonas mais altas, mas muitos animais tinham morrido antes que conseguissem chegar-lhes. À noite, Hope ouvia o rio correr lá em baixo, no fundo do vale, e apesar de saber que a casa ficava demasiado alto para ser inundada, tinha medo. O mau tempo tornava muito mais difíceis as tarefas do dia a dia. Ficavam encharcados quando saíam para ir dar de comer às galinhas, traziam lama espessa para dentro de casa, o que significava mais trabalho, e quando a lenha que iam buscar ao telheiro estava molhada não ardia. A horta estava devastada, as maçãs e as pêras tinham sido arrancadas dos ramos antes de terem tido tempo para amadurecer e apodreciam. Só um pouco de feno fora cortado antes da chegada das chuvas, e o resto perdera-se. Na taberna, os velhos fumavam os seus cachimbos e profetizavam que a tudo aquilo se seguiria um inverno muito frio e que todos iam ter de apertar o cinto. Hope sabia o que significava apertar o cinto, porque os dois últimos anos tinham sido maus para


toda a gente. Já não protestava por ter de trabalhar tanto, sobretudo na quinta, com o pai, porque compreendia a necessidade. Era usual a mulher e os filhos de um trabalhador agrícola ajudarem em períodos cruciais, e embora este trabalho não fosse pago, havia quase sempre uma ou outra recompensa, como um par de galinhas poedeiras, um saco de batatas ou de farinha. Mas a recompensa, por muito bem-vinda que fosse, não era tão importante como conservar a boa vontade do agricultor. A vida era precária para todos os trabalhadores agrícolas: se não tivessem trabalho não podiam pagar a renda, e isso podia significar uma ordem de despejo e, em última análise, o asilo. A única maneira que tinham de garantir trabalho era tornarem-se mais valiosos do que qualquer outro homem. Uma mulher e vários filhos prontos para meter mãos à obra ajudavam a alcançar este objetivo. Hope detetara o gelo da palavra «asilo» ou «Union» quando era ainda demasiado nova para saber o que era, ou sequer onde ficava. Agora, porém, já tinha visto o sombrio edifício de pedra cinzenta em Keynsham, e observara a miséria gravada como que a golpes de cinzel nos rostos dos desgraçados que se tinham visto obrigados a ir bater-lhe à porta para encontrar refúgio. Era uma ameaça muito real para a família. A colheita do ano anterior fora má, e aquele inesperado período de mau tempo era um potencial desastre. Não fora só a horta dos Renton que ficara destruída; a maior parte dos agricultores tinham também perdido as suas. Sem nada para vender no mercado, e sem feno armazenado para dar aos animais durante o inverno, seriam obrigados a vendê-los ou vê-los morrer de fome. E então não precisariam de trabalhadores. No inverno anterior, quando a neve cobrira o chão durante semanas, a família vivera de nabos e batatas porque não havia dinheiro para comprar carne. Os rapazes montavam armadilhas para apanhar coelhos sem qualquer êxito, e noite após noite todos eles iam para a cama com fome. Mas se voltasse a nevar naquele inverno, nem nabos ou batatas teriam para comer. – Vamos amanhã à quinta dos Merchant ver se o bebé já nasceu? – perguntou Hope, na esperança de dissipar a sombra de tristeza que se abatera sobre a mãe. O primeiro filho de Matt e Amy, Reuben, nascera no ano anterior. Estavam à espera do segundo a qualquer momento, mas havia inundações à volta da quinta deles. – Acho que é melhor esperarmos que pare de chover – respondeu Meg, mas suspirou porque estava tão ansiosa por notícias como Hope. – A Amy tem a mãe com ela, de modo que estará bem, e o Matt viria até cá se precisasse de nós. – Porque é que a Nell ainda não teve um bebé? – perguntou Hope. – Perguntas, perguntas, perguntas, é só o que sabes fazer – irritou-se Meg. – Deus decide quem tem filhos e quem não tem. Hope remeteu-se ao silêncio. Sentia havia já algum tempo que os pais estavam infelizes em relação a Nell e a Albert, pois sempre que perguntava qualquer coisa a respeito deles a resposta era invariavelmente seca. A família só fora convidada para a casa do guarda-portão uma vez, e isso tinha sido há quase oito meses, num domingo. Nell fartara-se de trabalhar, cozinhando cordeiro assado com vários legumes e tarte de maçã para sobremesa, mas a refeição fora ensombrada pelas críticas de Albert aos cozinhados da mulher e pelo evidente nervosismo dela. No entanto, já houvera suspeitas de que Albert era um indivíduo prepotente muito antes disso. Nell raras vezes ia visitar os pais, e quando ia nunca se demorava mais de meia hora. Aos domingos, na igreja, com Albert a seu lado, parecia muitas vezes tensa e ansiosa. Albert era delicado mas distante,


como se pensasse que os familiares da mulher lhe eram inferiores. Ruth contara que Nell nunca mais se demorara na sala dos criados depois do trabalho para uma verdadeira conversa, pois precedia todas as frases com um «O Albert diz», como se tivesse perdido a faculdade de expressar as suas próprias opiniões. Uns meses antes, Hope fora visitar Nell e perguntara-lhe sem rodeios se era feliz com Albert. «É um bom marido», fora a resposta da irmã, o que não era bem uma resposta à pergunta. * A luz do dia desaparecia quando Silas chegou finalmente a casa. Hope estava a acender as velas quando o estalido da lingueta da porta a fez voltar-se e viu o pai no umbral, a escorrer água para o chão. Meg arquejou, pois era evidente pela expressão dele que estava exausto e gelado até aos ossos. – Graças a Deus estás de volta – disse, correndo para lhe tirar dos ombros a serapilheira encharcada. – Tens de despir já essa roupa molhada! Espevita o lume e faz-lhe um chá! – ordenou a Hope enquanto despia o marido como se ele fosse uma criança pequena. Depois de o ter sentado numa cadeira junto ao lume, embrulhado numa manta, com uma bebida quente na mão e os pés de molho num banho de mostarda, interrogou-o a respeito da viagem a Bristol. – O navio não tinha sido descarregado, de modo que tive de ficar numa pensão. Foi terrível. Meg levou-o para a cama porque estava a tremer muito, mas ele agarrou-lhe a mão e tentou dizerlhe como tinha sido. Estava quase incoerente, mal conseguia encadear duas frases seguidas, mas as palavras que usou e o nojo na sua voz pintaram a Meg e a Hope um quadro muito vívido do sítio onde tinha ficado. – Doze ou mais homens num quarto imundo. Palha suja. Tipos reles, abrutalhados, estúpidos de bebida. Hábitos que me deram a volta ao estômago. Os animais portam-se melhor. Meg lavou-lhe a cara e as mãos com gestos de ternura, apertou as mantas à volta dele, acalmou-o com a recordação de que estava a salvo e em casa. Mas apesar de a sua voz se ter tornado pouco mais do que um grasnido, Silas parecia desesperado por fazê-la compreender aquilo por que tinha passado. Hope estivera em Bristol duas vezes, ambas durante o dia e com bom tempo, mas por muito excitante que tivesse achado a experiência, não esquecera as hordas de mendigos, o barulho, os cheiros fétidos e o assustador tumulto das ruas. Não lhe custava imaginar como se sentiria se estivesse sozinha, com frio e encharcada até aos ossos, obrigada a deambular pelas docas durante três dias sem ter ninguém a quem recorrer. O pai falou de rufiões que esperavam para enganar as crédulas pessoas do campo, das crianças esfarrapadas e meio mortas de fome que o tinham perseguido depois de o verem dar duas moedas a uma delas. Disse que em cada esquina havia prostitutas pintadas que o insultavam aos gritos quando ele as ignorava. E sempre o medo que qualquer um dos muitos bêbedos embrutecidos pelo álcool atacassem um simples homem do campo para lhe roubarem as poucas moedas que tinha no bolso, ou até o cavalo e a carroça. Alguém na pensão lhe esvaziara os bolsos durante a noite. De manhã, outro homem tentara levarlhe as botas, e tivera de correr descalço atrás dele e lutar para as recuperar. Disse que teria feito meia-volta e regressado a casa naquele momento, mas sabia que Mr. Francis deixaria de lhes dar


trabalho, a ele e aos rapazes, se o fizesse. Por isso esperara para recolher os artigos do navio, gelado, encharcado, cheio de fome e assustado quase para lá do imaginável. Afirmou que nunca mais lá voltaria. E no entanto, apesar da fome que dizia ter passado, só conseguiu comer meia tigela de guisado antes de deixar cair a cabeça na almofada. Ainda estava a tremer, e disse que lhe doíam a cabeça e as costas, de modo que Meg foi buscar mais mantas para o tapar e pôs-lhe um tijolo aquecido na lareira perto dos pés.

Joe e Henry chegaram um pouco mais tarde, igualmente encharcados e desanimados porque Mr. Francis não lhes tinha pagado e nem sequer dado qualquer coisa para comer. – Fizemos o trabalho de um homem, devíamos ter recebido o salário de um homem – disse Joe, acalorado. – Mr. Francis passou o dia inteiro a resmungar porque o pai ainda não tinha voltado. Acho que eu e o Henry vamos ter de ir para Londres para encontrar trabalho. Aqui não há nada para nós. Os rapazes foram para a cama logo a seguir ao jantar, mas Hope ficou com a mãe, sentindo que ela estava preocupada com o marido. Mesmo à luz das velas, Hope via que o pai não estava bem. Parecia ter adormecido, mas continuava a tremer, enquanto gotas de suor lhe brilhavam na testa. – É um homem forte, vai ficar fino depois de uma boa noite de sono – disse Meg, mas a voz dela soou a falso.

Hope acordou a meio da noite com os sons da mãe a espevitar o lume na lareira e o cheiro de roupas húmidas a secar. Estava escuro como breu e continuava a chover a cântaros. – O pai está melhor? – sussurrou, enquanto descia a escada do sótão. Meg abanou a cabeça. – Não vai poder trabalhar um ou dois dias. Está muito em baixo. Hope aproximou-se da cama no canto, e apesar de a luz da vela não chegar tão longe, imaginou que o rosto do pai estava invulgarmente emaciado. – Dormiu alguma coisa, mãe? – perguntou. – Deitei-me um bocadinho ao lado dele, mas estava demasiado calor para mim. – Meg suspirou. – Não podia tirar as mantas porque ele estava a tiritar, de modo que me sentei na cadeira. – Vá para cima e deite-se na minha cama – disse Hope. – Eu fico a olhar por ele. – Chama-me logo que houver luz e continua a voltar as roupas dos rapazes até secarem. Não quero que apanhem também uma constipação – respondeu Meg, numa voz cansada. – Se o teu pai acordar, dá-lhe um pouco de água. Vou logo de manhã falar com a Lizzie Brierly, a ver se ela consegue fazerme uma das suas poções. Para Hope, isto foi a confirmação de quão assustada a mãe realmente estava, pois regra geral troçava das mezinhas que Lizzie preparava.

Ao longo dos quatro dias seguintes, Hope viu o pai ficar cada vez mais doente. Tinha febre, apertava a cabeça entre as mãos porque lhe doía e quase não conseguia levantar-se para fazer as suas necessidades. Meg obrigou-o a beber não só a poção que Lizzie lhe dera mas também uma das suas


próprias infusões de ervas, boa para a febre. Lavava-o com um pano molhado quando tinha demasiado calor e punha um tijolo aquecido ao lado dele quando tiritava. Apesar de tudo isto, na manhã do quarto dia Silas começou a delirar. – Quer que vá chamar a Nell? – perguntou Hope. – Não, claro que não – foi a resposta brusca. – Não se deve pedir ajuda a ninguém quando há doença em casa. – Mas a Nell devia saber como o pai está doente – argumentou Hope. – O que ela não sabe não lhe faz mal. Só serviria para ela vir a correr para cá e arranjar mais problemas com o Albert. Semanas antes, Ruth dissera que achava que Albert batia em Nell, e o pai dissera que se viesse a provar-se que era verdade ia lá e torcia-lhe o pescoço. – Nesse caso quer que chame o médico? – perguntou Hope. Estava assustada, porque o pai parecia não reconhecer a própria mulher. – Não temos dinheiro para o médico – respondeu Meg, com os olhos baços de ansiedade. – Vai à padaria e vê se há lá algum trabalho que possas fazer enquanto eu acrescento lenha ao lume para tentar fazê-lo suar e deitar aquela febre cá para fora. Hope percebeu que a mãe devia estar desesperada por dinheiro para a mandar pedir trabalho na padaria, porque detestava Mrs. Scragg, a mulher do padeiro, tanto como ela. Mrs. Scragg interrogou-a a respeito da saúde do pai, com evidente receio de que fosse qualquer coisa contagiosa, e acabou por pô-la a trabalhar lá fora, a limpar as formas do pão. Ao fim da tarde, Hope estava mais exausta do que se tivesse trabalhado todo o dia nos campos. Depois de limpar as formas do pão, fez uma limpeza aos dois armazéns, esfregando as paredes e os soalhos. Foi ao poço buscar uma infinidade de baldes de água, varreu o estábulo e lavou uma montanha de aventais. Por tudo isto, recebeu um xelim e um pão. A mãe deteve-a à porta de casa quando se preparava para entrar. – Não entres – disse. – O teu pai está com uma impingem. Tu e os rapazes têm de dormir no barracão enquanto ele não melhorar. – É escarlatina, como a Violet e a Prudence? – perguntou Hope, com as lágrimas a subirem-lhe aos olhos porque sentia que a mãe estava com medo de que ele morresse. – Quem me dera que fosse só isso, não é doença que mate um homem adulto – disse Meg, cansada. – Vai falar com o médico, Hope. Diz-lhe como o teu pai estava quando voltou de Bristol, mas que agora está a delirar e que as feridas parecem amoras. Ele saberá o que quer dizer. Não espero que venha ver o teu pai, mas talvez te dê um remédio qualquer se lhe deres esse xelim. O doutor Langford vivia em Chewton, um povoado a caminho de Keynsham, a três quilómetros de distância. Hope era demasiado nova quando Violet e Prudence tinham morrido para se lembrar da visita do médico, mas via muitas vezes o homem gorducho e baixinho, de chapéu alto, atravessar a aldeia no cabriolé, e na igreja. A mãe contara-lhe que, anos antes, ele tratara de um braço que o pai tinha partido e que, como não tinham dinheiro, lhe tinham dado uma galinha. Isto fê-la pensar que devia ser um homem bondoso, e enquanto descia apressada em direção à aldeia e subia Fairy Hill, perguntava-se se seria suficientemente bondoso para lhe oferecer um copo de água e talvez qualquer coisa que comer, e levá-la a casa no cabriolé. Esta esperança morreu quando a senhora que abriu a porta lhe disse que esperasse na rua depois de ela explicar que o pai estava doente.


O médico saiu para falar com ela quase no mesmo instante. Vestia um elegante colete vermelho e parecia muito mais baixo sem o seu habitual chapéu alto. Mal começou a descrever a doença do pai, Hope reparou que ele se afastava, recuando para o pórtico da casa. – Estava então doente quando voltou de Bristol? E isso foi há quatro dias? Hope assentiu com a cabeça. – Foi horrível porque teve de dormir num quarto muito sujo nas docas com vários outros homens. Tremia muito quando a minha mãe o obrigou a ir para a cama. Agora parece que nem sequer sabe quem somos! O médico fez um ar alarmado. – Diz à tua mãe que mantenha o quarto arejado e as janelas abertas – disse. – Ela que tente obrigálo a beber água e caldo, e que ferva os lençóis sujos. Vou preparar um medicamento, mas vocês, as crianças, mantenham-se bem longe dele. – A minha mãe já me disse que temos de dormir no barracão – disse Hope. – É então uma coisa muito grave? O médico pareceu não saber o que responder. – O teu pai é um homem forte, podemos ter esperança. Mas espera aqui, Hope, vou buscar o remédio para ele.

– É a irmã mais nova das duas raparigas que morreram de escarlatina, não é?– perguntou a mulher do Dr. Langford quando ele voltou a entrar em casa. – Sabes o que tem o pai? – Espero estar enganado, mas parece tifo – respondeu o médico com uma careta, e dirigiu-se a um armário que continha vários géneros de medicamentos, unguentos e bálsamos. – Houve um surto no asilo, há pouco tempo, e claro que está sempre presente na cadeia de Bristol. Mrs. Langford era uma pessoa muito melindrosa, e estremeceu. – Mas os Renton não são pessoas ordinárias – disse. – Ouvi dizer que a casa deles é um modelo de limpeza. O médico suspirou. – Há de tê-lo apanhado numa pensão imunda onde teve a pouca sorte de procurar alojamento. Alguém que lá estava deve tê-lo trazido de um navio, ou da prisão. E agora a mulher é capaz de estar infetada, e talvez também as crianças. – Oh, meu Deus! – arquejou Mrs. Langford. – Não lhe tocaste, pois não? O médico dirigiu-lhe um olhar de censura, chocado por ela ter pensado em primeiro lugar em si mesma. Mas não se sentia capaz de admoestá-la pela sua falta de compaixão quando ele próprio não fazia a mais pequena tenção de se colocar em perigo indo a casa dos Renton. – Claro que não. Mas agradecia-te que pusesses algumas coisas num cesto para a criança levar para casa. Brandy, talvez, e coisas apetitosas que possam estimular-lhes o apetite. Vou mandar um pouco de beladona para abrandar o pulso do Silas e ajudar com as dores de cabeça, mas infelizmente é tudo o que posso fazer.

– Não me vou embora – disse Hope num tom decidido, forçando a entrada. – Está doente, mãe, e eu vou cuidar dos dois.


Tinham passado dez dias desde que o pai voltara de Bristol, e até ao momento ela fizera o que a mãe lhe pedira. Tratara dos animais, rachara lenha, fora buscar água e dormira sozinha no barracão todas as noites. Joe fora a Briargate e à quinta dos Merchant avisar o resto da família de que o pai estava doente e deviam manter-se afastados. A mãe insistira que Joe e Henry dormissem no celeiro da quinta, em Woolard, em vez de irem para casa. Hope não compreendia como era possível Nell ainda não ter aparecido, apesar das instruções da mãe. Sabia que Lady Harvey a devia ter obrigado a obedecer por receio de que ela levasse a doença para Briargate e contagiasse Rufus, mas não era próprio de Nell não aparecer ao menos ao portão com um embrulho de comida e perguntar se havia mais qualquer coisa que pudesse fazer. Matt fora levar-lhes a notícia de que Amy tivera uma menina e deixar-lhes um pouco de leite e queijo. Gritara do caminho, a pedir que abrissem a janela. A mãe zangara-se com ele e mandara-o afastar-se, obrigando-o a prometer que não voltaria enquanto ela não mandasse dizer que o pai estava bem. Mas na realidade ficara contente por ele ter ido, e Hope supôs que tinha a esperança de que Nell fizesse o mesmo e no seu íntimo responsabilizava Albert por ela não o ter feito. Hope detestava dormir sozinha no barracão. Era frio e a palha que enfiara num saco de serapilheira para lhe servir de cama estava húmida. E também tinha medo, porque ouvia os delírios incoerentes do pai e o choro da mãe. Na noite anterior, porém, quando fora até à porta buscar qualquer coisa para comer, vira que a mãe também estava doente. Mal se mantinha de pé, tinha a testa coberta de suor e uma expressão vazia nos olhos. Hope fizera o que ela pedira e fora buscar mais um balde de água e outro cesto de lenha antes de voltar ao barracão, mas passara a maior parte da noite acordada, cheia de ansiedade. Naquela manhã, decidira que ia desobedecer à mãe. – Tens só onze anos, és demasiado nova para tratar de nós, e tenho medo de que também apanhes a doença – disse Meg, tentando fechar a porta para impedir a filha de entrar. – Não sou demasiado nova para saber que a mãe devia estar na cama – argumentou Hope, escapulindo-se para dentro antes que Meg conseguisse fechar a porta. – Manter-me-ei afastada de vocês, se quiser. Mas não vou deixar os dois aqui sozinhos sem ninguém para os ajudar. Meg estava demasiado fraca para discutir. Hope subiu ao sótão e arrastou para baixo um dos sacos cheios de palha para fazer uma cama para a mãe perto da lareira, e a maneira como a viu deixar-se cair em cima dela sem uma palavra provou-lhe que tinha apanhado a mesma doença, fosse ela qual fosse, que atingira o pai. Aproximou-se da cama do pai com deliberação, mas recuou horrorizada ao vê-lo. A impingem de que a mãe falara dias antes dera-lhe à cara e ao corpo um aspeto mosqueado, com pequenas erupções que faziam lembrar as do sarampo. Tinha os dentes e as gengivas cobertos de uma substância acastanhada, respirava muito depressa, quase como um cão a ofegar, e arranhava as mantas da cama como um homem enlouquecido. Emanava dele um cheiro horrível, e Hope calculou que tinha perdido o controlo dos intestinos. Por um instante, esteve quase a sair a correr porta fora, mas olhou para a mãe estendida na enxerga junto à lareira e soube que se fugisse ela se obrigaria a pôr-se de pé para fazer o que era preciso. Não podia permitir que isso acontecesse. Lavar o pai e pôr-lhe um lençol lavado na cama foi a coisa mais difícil que alguma vez fizera. O cheiro provocava-lhe vómitos, e ele era muito pesado. Mesmo assim conseguiu, e depois de voltar a


deitá-lo endireitou-o um pouco apoiado em almofadas e obrigou-o a beber uns goles de água. Voltou então as suas atenções para a mãe, despojando-a das roupas e lavando-a com muito cuidado. Estava a arder em febre e ao mesmo tempo a tiritar como o pai estivera na primeira fase da doença. Obrigou-a a beber água e apertou-lhe as mantas à volta do corpo. – Durma, agora tomo eu conta do pai – sussurrou. Não havia só um lençol sujo para lavar mas vários, empilhados num canto, além de um par de camisas de dormir e roupa interior. Lembrando-se do que o médico tinha dito a respeito da roupa suja, foi ao barracão acender o lume debaixo da caldeira de cobre. Uma das suas recordações mais antigas era da mãe ajoelhada no chão a soprar as chamas e a acrescentar mais gravetos até conseguir um bom braseiro. Ajudava sempre a mãe no dia da barrela, enxaguando a roupa em água fria e pendurando-a na corda para secar. A única coisa que sempre desejara fazer, mas nunca lhe fora permitido, era mexer a roupa na água a ferver dentro da selha. Era sempre a mãe que o fazia, usando uma grande colher de cobre e, quando tinha a certeza de que a roupa estava lavada, pescava as peças uma a uma, com uma espécie de gancho, para dentro de um enorme alguidar. Foram precisos oito baldes de água para encher a selha de cobre antes de poder acender o lume, mas não foi tão fácil como parecia quando era a mãe que o fazia. Retorceu alguns pedaços de papel e chegou-lhes fogo, e então acrescentou pequenos gravetos secos, um a um, mas a chama brilhava por breves instantes e morria. Tentou outra vez, e outra, durante mais de uma hora, e de cada vez que tentava aumentava a quantidade de papel, mas a chama continuava a apagar-se, por mais que soprasse. Só lhe apetecia chorar. Os lençóis tinham de ser fervidos, e se ela não conseguisse fazê-lo não haveria nenhuns lavados se o pai voltasse a sujar-se. O médico insistira muito na necessidade de os ferver, pelo que era evidente que os lençóis sujos eram perigosos, talvez até transmitissem a doença. Na sua frustração, bateu com o espevitador na selha, e foi só então que reparou numa pequena alavanca ao lado do lar. Puxou-a e, para sua surpresa, viu abrir-se na parede uma pequena porta, evidentemente destinada a deixar entrar ar, pois sentiu uma ligeira corrente. Tentou mais uma vez e, deliciada, viu os gravetos começarem a arder, acrescentou mais, e mais, e só quando teve a certeza de que o lume tinha pegado bem voltou a sua atenção para a raspagem do sabão. Também não foi fácil. Fez dois golpes nos dedos antes de lhe apanhar o jeito. Entre correr para casa para dar água aos pais, lavar-lhes a cara, dar de comer às galinhas, recolher os ovos e mungir a vaca, teve de alimentar constantemente o lume debaixo da selha de cobre com mais lenha. Passaram duas horas antes que a água começasse a ferver, e mexer a roupa com a colher de cobre foi muito mais difícil do que esperara. Tirar a roupa lavada da selha com o gancho foi ainda mais difícil, e queimou-se várias vezes com a água a ferver. Depois foi preciso ir buscar mais água para a enxaguar, e quando acabou tinha as mãos vermelhas e em carne viva. Ao menos estava um belo dia, com vento suficiente para secar tudo. Depois de ter pendurado a roupa, Hope recebeu instruções da mãe para fazer um caldo com um pequeno pedaço de carne que uma vizinha deixara junto à cancela. Estava a dobrar os lençóis lavados quando sentiu uma vez mais o cheiro fétido que vinha do pai, e teve de voltar a lavá-lo e mudar-lhe a cama antes de tentar obrigálo a beber algumas colheres de caldo de carne.


– És tão boa menina – disse a mãe num fio de voz quando Hope a ajudou a sentar-se para beber também um pouco de caldo. – O teu pai está melhor? Jovem como era, sem qualquer experiência de doenças, Hope sentia que o pai estava a morrer. Não tivera um único momento lúcido em todo o dia e só conseguira fazê-lo engolir duas ou três colheres de caldo. Era como se o homem forte e jovial que ela conhecera já tivesse partido. – Está um pouco melhor – mentiu, sabendo que se dissesse outra coisa a mãe ia tentar levantar-se para o ver. – Bebeu um pouco de caldo. Perguntou por si.

Era quase noite quando Hope ouviu alguém bater na cancela com um pau. Pensou que talvez fosse um vizinho, porque houvera o pedaço de carne e outras pequenas oferendas de empadas, legumes e frascos cheios de sopa deixadas nos degraus da porta nos últimos dias. Saiu a correr e, para seu enorme alívio, viu Nell parada no caminho, com um cesto na mão. – Não me atrevo a entrar – gritou Nell. – Lady Harvey nunca mais me deixaria voltar a Briargate e o Albert ficava furioso. Mas tinha de te ver. Como está o pai? Hope queria correr para os braços da irmã, mas sabia que não podia. – Mal, e agora a mãe também apanhou a doença – respondeu. – Tenho medo, Nell, não sei o que fazer. Mesmo com a pouca luz do final da tarde viu a expressão angustiada da irmã e soube que ela queria entrar e substituí-la. Mas, por muito que precisasse de Nell, não podia permitir que isso acontecesse. – Diz-me só o que mais posso fazer – gritou, e explicou em breves palavras o estado em que os pais estavam. – Estás a fazer tudo o que se pode fazer – respondeu Nell, com a voz a tremer. – Mas não devias ter de estar a fazê-lo, és uma criança. Eu devia ter desobedecido ao Albert já há dias e vindo para cá logo no princípio. Naquele momento, Hope soube que Nell tinha medo de Albert, e apesar de a penumbra já não permitir ver com nitidez, pareceu-lhe notar uma nódoa negra na cara da irmã. – Não te teríamos deixado entrar – disse. – Mas a mãe vai ficar contente por saber que vieste esta noite. Deixa o cesto aí. Eu cá me arranjo. Hope ficou a ver Nell afastar-se, a voltar constantemente a cabeça como que dividida entre o amor pelos pais e o seu dever para com a patroa e o marido. As lágrimas corriam-lhe pelas faces enquanto Nell desaparecia da sua vista, porque compreendia o dilema da irmã. Ainda no dia anterior a mãe lhe dissera que se, cinco anos antes, soubesse que havia escarlatina na aldeia, não teria deixado Violet e Prudence saírem de casa. Também disse que se soubesse que o marido tinha trazido aquela doença de Bristol, teria igualmente mandado Hope embora. Meg chamava-lhe a «febre dos navios»; disse que já a vira, quando era menina. O tio, que era marinheiro, apanhara-a, e a mãe cuidara dele. Mas não disse se se curara ou se morrera. Mais tarde nessa noite, Hope ajoelhou no chão e rezou. – Não os deixeis morrer, por favor! – pediu. – Farei tudo o que for preciso, nunca mais me queixarei seja do que for. Só quero que melhorem. Mal abriu os olhos de manhã, Hope sentiu que alguma coisa estava mal. Ouvia as aves a cantar lá


fora, e o som do vento nas árvores, mas havia um estranho silêncio dentro de casa. Dormira no sótão para poder estar de olho nos pais, e saltou da cama e desceu a escada o mais depressa que as pernas lhe permitiram. Foi direita à cama do pai mas deteve-se de repente, a tapar a boca com uma mão, horrorizada. Nem sequer precisou de lhe tocar para saber que estava morto. Os dedos dele não estavam a arrepanhar as mantas, como tinham estado durante todo o dia anterior. Estavam imóveis, e o rosto estava muito pálido e sereno. Voltou-se para a mãe num gesto instintivo, em busca de conforto, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara, mas viu no mesmo instante que não lhe viria conforto daquele lado. Meg tinha o corpo coberto de grandes erupções vermelhas, que faziam lembrar amoras, e apesar de parecer acordada, tinha nos olhos abertos a mesma expressão vazia que o pai tivera. Hope queria gritar e bater com os pés, mas em vez disso o que fez foi ficar ali parada, a chorar. Durante os seus onze anos de vida vivera rodeada de adultos que lhe diziam o que fazer, lhe ralhavam, cuidavam dela, mas agora estava sozinha, e percebeu que a sua infância chegara abruptamente ao fim. Ia ter de agir como um adulto. Não havia ninguém para quem correr aos gritos como tantas vezes fizera no passado pelas coisas mais triviais. Pedir a alguém que a ajudasse era pedir a essa pessoa que se arriscasse a apanhar a doença e espalhá-la. E além disso, também não podia abandonar a mãe para ir procurar ajuda. Obrigar-se a desempenhar as habituais tarefas do início da manhã pareceu-lhe ser a única coisa a fazer. Varreu a lareira e levou as cinzas para fora, e em seguida preparou a lenha e acendeu-a. A chaleira assobiou e ela foi buscar uma bacia com água para lavar a cara à mãe. – Já é manhã? – perguntou Meg. – Tenho de acordar os rapazes! – Os rapazes não estão cá, mãe – disse Hope, e as lágrimas voltaram a correr ao ver que a mãe delirava, como o pai tinha delirado. – Foram trabalhar para a quinta. Só cá estou eu. Conseguiu que a mãe bebesse um copo de leite com um ovo batido, e então arrancou uma folha de papel de um bloco de notas. «Ajudem-me por favor», escreveu em grandes letras. «O meu pai morreu e a minha mãe está muito doente. Não quero que ninguém entre e apanhe a doença. Mas podem chamar o médico? Gritem da cancela e eu responderei da porta.» Assinou a nota: «Hope Renton.» Então, levou-a para fora e pregou-a na cancela, para que quem passasse pudesse vê-la.

O reverendo Gosling gritou a chamá-la mais tarde nessa manhã, quando ela estava outra vez a lavar a cara da mãe com água fresca. Pousou a bacia e correu para fora. Sempre se sentira um pouco intimidada pelo pastor alto e severo que a ensinara a ler e escrever, mas estava contente por ser sido ele a chamar, porque o reverendo Gosling sabia tudo. – Minha querida Hope – disse ele, tirando o chapéu preto de aba larga e segurando-o contra o peito. O topo da sua cabeça era calvo, mas os cabelos brancos que restavam mais abaixo eram compridos, lisos e tinham um aspeto bastante gordurento. – Lamento muito saber que o teu pai faleceu. Estás sozinha com a tua mãe? – Os pálidos olhos azuis tinham uma expressão muito mais


terna do que era habitual, e até os lábios finos, que pareciam sempre esboçar um esgar de troça mais do que um sorriso, estavam mais suaves. – Sim, reverendo. – Hope explicou as circunstâncias o melhor que foi capaz. – A mãe mandou os outros manterem-se afastados até o pai melhorar. Disse que era «febre dos navios». Também me obrigou a ficar no barracão, mas ontem eu vi que ela estava doente e vim para casa. Hoje de manhã o pai estava morto e agora a mãe também está muito mal. Tenho-a lavado e dou-lhe água e caldo, mas não sei o que fazer em relação ao pai e não sei como fazer a mãe ficar outra vez boa. Hope estava determinada a não chorar, mas quando viu o reverendo Gosling avançar para ela de braços estendidos para a abraçar, não conseguiu conter-se. – Não deve tocar-me – disse, num fio de voz, mas no instante seguinte os braços dele rodearam-na e ela apoiou a cabeça contra o seu peito ossudo e soluçou. – Pobre criança – disse ele, numa voz suavizada pela compaixão. – Se tens coragem suficiente para cuidar da tua mãe, eu posso ter coragem suficiente para te abraçar. Estás bem? – Agarrou-lhe os braços com as duas mãos e, afastando-a um pouco de si, estudou-a. – Sim, reverendo – soluçou ela. – Não se passa nada comigo. E lavei as mãos depois de ter tocado no pai, como a mãe me disse para fazer. Mas a doença está no ar, não está? Respiramo-la. – Não acredito nisso, porque se fosse o caso alastraria a todo o país e ninguém seria poupado. É uma doença que só floresce em lugares apinhados e insalubres, como navios e prisões. A tua mãe dormiu na mesma cama com o teu pai quando ele voltou de Bristol? Hope confirmou com um aceno de cabeça. – Há de ter sido assim que a apanhou – disse o reverendo Gosling, numa voz repassada de tristeza. – Mas claro que na altura ela não sabia o que era. Deixa-me entrar para a ver.

Não obstante as preces do reverendo Gosling, e do facto de ter conseguido recrutar Mrs. Calway para ajudar a tratar dela, Meg morreu dois dias depois de Silas. Pareceu recuperar um pouco, talvez o suficiente para perceber que o marido tinha morrido, mas então pareceu desistir de lutar contra a doença e morreu durante a noite. Quando apareceu na manhã seguinte, o reverendo Gosling disse que talvez tivesse sido uma bênção ela morrer depressa, sem a indignidade que Silas tinha suportado. Hope teve de concordar, porque sabia que a mãe teria detestado ter alguém a limpar os seus dejetos. Mas isso não diminuiu a dor de a ter perdido. Mrs. Calway lavou os corpos de Meg e Silas e preparou-os para serem sepultados. O marido, Geoffrey, o carpinteiro da aldeia, levou os caixões, e Matt e James depositaram-nos neles. Os caixões foram colocados em cima de cavaletes e Hope correu os campos e o bosque à volta da casa em busca de flores silvestres para os decorar. Por muito que todos a elogiassem por ter cuidado dos pais, não conseguia libertar-se da ideia de que devia haver qualquer coisa que pudesse ter feito para evitar as suas mortes.

Fizeram o funeral numa bela manhã de sol. Às primeiras horas tinha havido alguma névoa, mas depressa se dissipou. Hope ficou à porta de casa a olhar para o rio durante muito tempo antes de os irmãos e irmãs chegarem, a lembrar-se de como o pai sempre gostara daquela época do ano. – Quando a colheita está no celeiro e os campos lavrados, tenho a sensação de que o Senhor quer


recompensar-nos a todos com uma exibição da Sua magnificência – costumava ele dizer. E agitava a mão na direção das árvores engalanadas com as suas cores outonais, e a emoção humedecia-lhe os olhos. Muitas das árvores tinham sido derrubadas por vendavais recentes, e outras tinham perdido prematuramente as folhas, mas mesmo assim o vale continuava a ser uma manta de retalhos de cor de laranja, amarelo, escarlate, verde e castanho. O rio, meio escondido durante o verão, revelava-se em toda a sua glória, os esquilos corriam para cima e para baixo nas árvores à procura de avelãs e penugentas barbas-de-velho trepavam pelas sebes. Hope recordava todas as vezes que tinha apanhado amoras e bagas de sabugueiro com a mãe, a maneira como ela costumava rir e erguê-la nos braços para chegar às mais altas. Era insuportável pensar que nunca mais voltaria a ouvir aquele riso e que nunca mais voltaria a ver os pais sentados juntos no banco debaixo da macieira nas noites de verão, de mãos entrelaçadas.

Mais tarde nessa manhã, enquanto Matt aparafusava as tampas dos caixões, Hope olhava em redor para a família reunida e desejava estar num terceiro caixão. Nell soluçava, com a cara escondida no peito de Albert. Amy, pálida e ansiosa, parecia temer que a doença continuasse escondida algures na pequena casa e que ela pudesse levá-la consigo e infetar Reuben e a nova bebé. Matt estava sombrio, a esforçar-se por controlar as emoções, e Ruth e Alice agarravam-se uma à outra enquanto James e Toby se mantinham por perto, a mudar o peso do corpo de um pé para o outro, sem saberem o que dizer ou o que fazer. Joe e Henry estavam rígidos e muito pálidos. Apesar de ainda não serem homens, com doze e treze anos, eram demasiado crescidos para chorar, e talvez recordassem que uma das últimas coisas que tinham dito aos pais fora que iriam para Londres porque ali não havia nada para eles. Hope sentia-se a estranha. Todos os outros dez tinham uma ligação estreita a outra pessoa qualquer da família; Matt tinha Amy e Nell tinha Albert. Era verdade que todos a tinham abraçado e prometido que cuidariam dela, mas mesmo assim sentia-se muito sozinha. O colchão da cama dos pais tinha sido queimado, bem como os sacos cheios de palha do sótão. Ela e Mrs. Calway tinham esfregado a casa de alto a baixo com água e vinagre. Todos os lençóis tinham sido fervidos, as mantas lavadas, as cadeiras e a mesa esfregadas. Tinham queimado ervas aromáticas na lareira para desembaraçar a casa de qualquer pestilência que tivesse restado, mas nunca mais voltaria a ser um lar. Por enquanto, ainda ninguém se atrevera a falar do dia seguinte, da semana seguinte, do mês seguinte. Com certeza todos tinham consciência de que a casa estava perdida, e que depois disso não haveria nenhum lugar onde pudessem reunir-se como família. Hope bem via, pela frieza da expressão de Albert, que era pouco provável que sugerisse que a casa do guarda-portão se tornasse o lugar de reunião dos Renton. Matt e Amy tinham apenas um quarto na casa da quinta dos pais dela, como poderiam fazer quaisquer convites? James e Ruth voltariam para Briargate, Toby e Alice para Bath. Joe e Henry poderiam provavelmente ficar na quinta de Mr. Francis. Todos aos pares, exceto ela.

Quase toda a gente da aldeia, e muitas pessoas das aldeias vizinhas também, apareceram para o


funeral, um sinal do seu respeito por Silas e Meg Renton. Mr. Francis, Mr. Warren, Mr. Carpenter e Mr. Miles, todos agricultores para os quais Silas trabalhara muitos anos, estiveram presentes com as respetivas mulheres. Frank e Dorothy Nichols, Gareth Peregrine, os Box, Big Neal, o ferreiro, e Fred Humphreys. Todos os que cultivavam flores nos seus jardins tinham levado ramos de margaridas e crisântemos, e Hope achou que eram muito mais bonitos e significativos do que as rosas de estufa e os cravos enviados por Sir William e Lady Harvey. Nell, Ruth e Alice choraram durante todo o serviço. Mesmo quando não as via, Hope sentia os seus ombros que estremeciam e os seus dedos que apertavam lenços encharcados. Arderam-lhe os olhos quando o reverendo Gosling falou de como Silas e Meg tinham sido dedicados um ao outro, e que os seus filhos eram uma prova do amor e carinho com que tinham sido criados. Mas só chorou a sério quando o caixão do pai foi baixado à terra, ao lado da pequena campa de Violet e Prudence, e depois o da mãe pousado em cima dele. Não foi, como as pessoas diriam mais tarde, por ter de repente compreendido que eles tinham partido para sempre. Isso ela soube no instante em que a mãe morreu. O que a fez chorar foi o conhecimento de que a mãe desistira quando soubera que o marido tinha morrido. Não podia viver sem ele, nem sequer pelos filhos. Preferia estar no cemitério com ele do que em casa a ver os filhos crescer e casar e ter os seus próprios filhos. Parecia-lhe um egoísmo tão grande, quando ela se esforçara tanto por mantê-la viva; seria possível que não se tivesse apercebido de que a filha mais nova continuava a precisar dela?

– Vais viver com o Albert e comigo – murmurou Nell com os lábios colados ao cabelo de Hope enquanto embalava a irmã nos braços para a reconfortar. Estavam todos no jardim da pequena casa, a família e alguns vizinhos. Felizmente o sol estava quente, pois ninguém parecia querer entrar. Toby e Alice partiriam em breve para a longa caminhada de regresso a Bath, e Mr. Francis oferecera a Joe e a Henry um quarto por cima dos estábulos e um salário se pegassem no trabalho que o pai sempre tinha feito. – O Albert não vai querer-me lá – soluçou Hope. Vira-o olhar para ela com um ar sombrio várias vezes depois do funeral. Não havia de querer ninguém, nem sequer um cão, a perturbar a sua arrumadíssima casa. – Não sejas pateta – disse Nell, a acariciar-lhe o cabelo. – O Albert sabe muito bem que não podes ficar aqui sozinha. Falei ontem com Lady Harvey e ela disse que estava bem, e que achava que até talvez pudesses ajudar na cozinha. Hope secou os olhos, não por estar satisfeita por ser desejada, mas por saber que não havia alternativa. Mais ninguém se oferecera para a acolher, e adorava Nell e gostava da ideia de ajudar Cook em Briargate. Só teria de aturar Albert. * Nell lavou os últimos pratos e copos, limpou a mesa com um pano e sentou-se para descansar por um instante. Albert estava a falar com Mr. Merchant, o sogro de Matt, e parecia ter esquecido que há apenas quinze minutos estava desejoso de chegar a casa. Albert não fazia ideia de como ela se sentia. Parecia faltar-lhe a parte que permite à maioria das pessoas compreenderem a dor dos outros. Recebera mais solidariedade de Lady Harvey, de Baines e


de Cook do que de Albert. Ainda naquela manhã ele lhe dissera: «Vais sentir-te melhor depois do funeral.» Como se ela pudesse apagar vinte e seis anos de recordações no instante em que a terra fosse atirada para cima dos caixões! Estava devastada por ter perdido os pais e arrependia-se amargamente de não ter desafiado Albert e Lady Harvey e ido a casa deles antes de ser demasiado tarde. Talvez não pudesse ter feito nada para os salvar, mas ao menos não teria aquela terrível sensação de culpa por não ter agido. Do que mais se envergonhava, no entanto, era de não ter batido o pé a Albert logo no primeiro dia de casados e insistido em passar as tardes de folga com a família. Que direito tinha ele de lhe dizer que o seu lugar era em casa e que os pais não eram importantes? Em três anos de casamento, só passara um total de talvez cinco ou seis horas com eles, e mesmo essas sobretudo a caminho de casa, depois da missa, com Albert. Recebia notícias da família através de Ruth e não pudera nem uma única vez sentar-se com o pai e com a mãe e explicar-lhes o que se passava. Mas supunha que se tivesse tido essa oportunidade talvez tivesse revelado à mãe que estava arrependida de ter casado com Albert e admitido que ele lhe batia muitas vezes. Olhou para fora através da porta aberta, como se acreditasse que Albert era capaz de lhe ler os pensamentos. Mas estava tão habituada a que ele decidisse tudo na sua vida, desde o que cozinhava à maneira como a mobília estava disposta, como varria o chão e lavava a roupa, que já nem sequer sentia que a sua própria mente lhe pertencesse. Albert continuava embrenhado numa conversa com Mr. Merchant. Essa era outra das facetas dele: só falava com pessoas que fossem bem sucedidas ou bem criadas, e os Merchant incluíam-se nessa classificação porque tinham a sua própria quinta. Certa vez comentara que Matt fora «muito sensato» ao casar com Amy! Como se a sensatez tivesse tido alguma coisa a ver! Matt agira de acordo com o que o coração lhe dizia, nada mais. Com tristeza, Nell apercebia-se agora de que Albert só a pedira em casamento por ela estar tão perto de Lady Harvey. Não queria viver por cima das cavalariças com os moços de estrebaria, queria uma casa sua e alguém a quem pudesse dar ordens. Sabia que a senhora não quereria perdê-la, e a casa do guarda-portão estava desocupada. Como correra tudo à medida dos seus desejos! Uma mulher que lhe obedecia sem discutir, uma casa mobilada com sobejos de Briargate, e podia comportar-se como um grande homem na taberna de Chelwood porque tinha o favor de Sir William. Nell perguntava-se muitas vezes o que pensariam os amigos do «grande homem» se soubessem que ele tinha um casamento só no papel. Não havia amor conjugal: dormiam os dois na mesma cama, mas nunca acontecia nada. Sentia que ele desprezava as mulheres, porque quando experimentara tentá-lo no início do casamento ele dera-lhe uma estalada e dissera-lhe que não passava de uma prostituta imunda. Ela nunca mais voltara a tentar. Podia quase resignar-se a uma vida sem amor, e a ser menos do que a sua criada para todo o serviço, mas não aceitava nunca ter filhos seus. Isso era demasiado cruel. Ao olhar para fora, viu Hope sentada sozinha debaixo da macieira, a contemplar a vista como que a tentar agarrar-se às boas recordações que ela evocava. As lágrimas recomeçaram a correr-lhe pelas faces, porque gostava muito de Hope e não suportava vê-la infeliz. Precisava e queria levá-la para casa, mas tinha medo de o fazer. Albert não a queria lá. Não o dissera de uma forma explícita. Não podia, porque toda a gente em Briargate, incluindo Lady Harvey, esperava que ele acolhesse Hope. Ninguém que a conhecesse poderia considerá-la um


fardo, e ele seria considerado pouco caridoso, na melhor das hipóteses, e um bruto na pior. Naquela manhã, em conversa com Matt e James, agira como se aceitasse de braços abertos a ideia de ter uma criança em casa. Mas Nell sabia a verdade. Albert só pensava em em si próprio. Não tinha ternura, nem compaixão. Queria que a sua vida fosse como um dos seus malfadados canteiros. Era ele que ditava o que lá crescia. Eliminaria tudo o que não fosse exatamente como planeara, arrancaria tudo o que ameaçasse dominar. Hope não se enquadraria neste esquema.


CAPÍTULO 5

1844 Hope – sussurrou Nell. – Ele está a começar a ficar zangado. –D espacha-te, Hope não disse nada e continuou a apertar os cordões das botas com o mesmo vagar. Albert gostava de imitar os ricos e exigia que Nell pusesse a mesa do pequeno-almoço com todos os requintes e o servisse. Também esperava que Hope estivesse pronta para ir trabalhar antes de se lhe juntar à mesa. Hope achava ridículo pôr a mesa quando a única coisa que havia para comer era uma fatia de pão. O pai costumava beber rapidamente o chá enquanto se vestia, e depois pegava no pão e comia-o a caminho do trabalho. Preferia ficar mais dez minutos na cama abraçado à mulher e nunca lhe passaria sequer pela cabeça sobrecarregá-la com o trabalho de pôr a mesa às cinco da manhã. Não podia dizer o que pensava porque Albert vingar-se-ia em Nell, de modo que a única forma de protesto à sua disposição era demorar a arranjar-se para não ter de se sentar à mesa com ele. Albert pôs-se de pé, arrastando a cadeira pelo chão de lajes. – Muito bem! Nada para ti – ladrou. – Nell, levanta a mesa. Ela tem de aprender à bruta. Hope abafou uma gargalhada. Não estava interessada no pão; quando chegasse à mansão, Cook dar-lhe-ia papas de aveia com mel. Nell pusera o casaco do marido diante da lareira para o aquecer, outra coisa que Albert exigia. Ele pegou nele com um gesto brusco e voltou-se para a mulher. – Não te atrevas a dar-lhe seja o que for – disse, a apontar para Hope. – Vou verificar o pão quando chegar a casa logo à tarde. Saiu sem se despedir, batendo com a porta. Hope riu. Nell esboçou um meio sorriso, porque sabia das papas de aveia; ela também as comia. – Gostava que não o provocasses tanto. Não podes fazer o que ele quer, por mim? – Fá-lo-ia, se isso o tornasse mais simpático – respondeu Hope, desanimada, e aproximou-se da irmã para a abraçar. – Nunca hei de casar, se é assim que os homens são. – Não são todos assim – recordou-lhe Nell. – Lembra-te do pai, e olha para o Matt. Mas é melhor ires, ou vais chegar atrasada. – Não te preocupes. – Hope sorriu. – Vou chegar lá antes do Albert. Uma vez fora de casa, começou a correr. Albert ia a meio do caminho de acesso, mas ela sabia que não teria dificuldade em ganhar-lhe até à mansão. Gostava de correr, sobretudo numa fria manhã de fevereiro como aquela, mesmo que não fosse considerado muito próprio de uma senhora. Chegaria a Briargate com as faces rosadas, quente por dentro e por fora, e poderia até fazê-la esquecer como detestava o cunhado.


Passou por ele a toda a velocidade, e quando já estava bem longe do seu alcance, voltou-se e acenou-lhe, descarada. Com sorte, ele passaria o dia gelado a trabalhar no exterior. Se aprendesse a ser simpático para as pessoas, Cook deixá-lo-ia entrar na cozinha para se aquecer e também lhe daria papas de aveia. * Tinham passado apenas quatro meses desde a morte dos pais, mas a ela pareciam-lhe anos. Havia dias em que a dor da saudade era tanta que pensava que podia matá-la. Os rostos deles estavam gravados na sua mente, ouvia-lhes as vozes dentro da cabeça, e curiosamente era das coisas em que mal reparava quando eles estavam vivos que agora mais sentia a falta. A maneira como o pai lhe fazia uma festa no queixo quando voltava do trabalho e a mãe a beijava na testa sempre que acabava de lhe escovar o cabelo. Eram provas tangíveis do amor deles por ela, porque nenhum dos pais era do género de traduzir os seus sentimentos em palavras. O que não os impedia de dar muita importância à comunicação no seio da família. Queriam saber tudo o que todos tinham feito todos os dias; ninguém escapava a ser interrogado a respeito de quem tinha visto e com quem tinha falado. Também Nell fora assim antes de casar com Albert. Sempre que ia a casa, queria saber tudo o que acontecera desde a sua última visita. As recordações mais antigas de Hope eram de competir com Joe e Henry para ver qual chegava primeiro ao colo dela e de Nell se sentar no chão para haver lugar para os três. Era tão alegre e divertida, sempre pronta para brincar com eles, mas ao mesmo tempo tão meiga e atenciosa. Hope pensava que não teria tantas saudades dos pais se Nell tivesse continuado a ser aquela pessoa, mas agora tornara-se tensa e vigilante, raramente ria quando Albert estava presente e andava sempre a limpar e a arrumar. Não havia qualquer espécie de diálogo entre ela e Albert. Nell podia perguntar-lhe o que tinha feito durante o dia, mas as respostas secas dele sugeriam que achava ofensivo o simples facto de ela falar. E também não era sequer possível Hope e Nell conversarem uma com a outra, porque ele lançava-lhes olhares zangados e isso deixava Nell ainda mais nervosa. Albert era um tirano, tal como Hope suspeitara. Não mostrava amor por Nell; na realidade, tratava-a como se ela fosse sua criada. Nunca ajudava acendendo a lareira ou indo buscar um balde de água. Ficava impassível a vê-la esforçar-se para despejar a banheira de folha ou rachar lenha. Procurava coisas fora do lugar – lama no chão, o tapete torto em frente da lareira, pó no tampo da mesa – e então arrastava Nell por um braço e apontava como se ela fosse um cão que tivesse urinado dentro de casa. Certa vez que Nell se esqueceu de fazer a cama, ele saltou-lhe em cima quando ela chegou de Briargate, já quase noite, e levou-a por uma orelha escada acima para apontar o erro. Parecia esquecer que ela também tinha um trabalho, e que por vezes trabalhava muito mais horas do que ele. Era sempre «O que é isto?», «Porque foi que fizeste isto?», ou «Quantas vezes tenho de te dizer?» Parecia incapaz de um elogio, de gratidão ou até de simples bondade. Os únicos momentos bons eram quando ele ia à taberna em Chelwood. Hope e Nell sentavam-se perto do lume e falavam do passado, e de como estavam as coisas em Briargate. Mas nem nesses momentos Nell conseguia relaxar por completo, pois estava sempre de ouvido atento ao regresso do marido, e se ele já vinha tocado podia ser ainda pior do que de costume. Os domingos eram pura e simplesmente intermináveis. Nell saía para a mansão muito cedo, e Hope


tinha de fazer a longa caminhada até à igreja sozinha com Albert. Ele nunca falava, e apesar de, quando chegavam à aldeia, o facto de ver todos os seus amigos e vizinhos a fazer sentir a perda dos pais de uma forma ainda mais aguda, nunca lhe permitia mais do que uma breve troca de cumprimentos. Se Lady Harvey tinha convidados, Nell regressava a Briargate depois da igreja, e era Hope que preparava o almoço de Albert. Nada do que fazia estava bem, apesar de ela se ter tornado uma cozinheira bastante boa desde que começara a ajudar na mansão. Depois de comer, ele sentava-se mesmo em frente da lareira, impedindo o calor de chegar até ela, e não lhe permitia ler fosse o que fosse exceto a Bíblia. Aquelas horas sozinha com ele eram as que ela mais temia, porque Albert era um homem violento quando se zangava. Batera-lhe em diversas ocasiões e Hope sabia que batia muitas vezes em Nell, ainda que a irmã recusasse admiti-lo. Por isso, sozinha com ele, tinha de ter muito cuidado para não lhe dar motivos para a agredir. Trabalhar em Briargate era a única coisa que tornava a sua vida tolerável. Lá podia esquecer Albert porque via Ruth e James todos os dias, e Cook e Mr. Baines e os outros criados faziam-na sentir que tinha voltado a fazer parte de uma grande família. Como em qualquer família, mostravamse por vezes irritados ou secos, mas no fundo do coração Hope sabia que gostavam dela, e isso contribuía muito para compensar Albert. Nos tempos em que ia a Briargate brincar com Rufus, nunca imaginara que um dia havia de esfregar tachos e panelas na copa, ou passar horas a cortar legumes, e por vezes ressentia-se por ter de o fazer. Queria tanto passar para lá da cozinha, subir a bela escadaria como costumava fazer e ir ao quarto das crianças ver Rufus. Mas não lhe era permitido. Agora devia referir-se-lhe como menino Rufus, como toda a gente. O mais perto que se aproximava dele era quando ajudava na lavandaria e tinha de lavar uma das suas camisas ou peças de roupa interior. De longe a longe ele ia à cozinha ver Cook, e do seu lugar na copa ela maravilhava-se ao ouvir-lhe a voz clara, bastante alta e imperiosa, pois lembrava-se dele a balbuciar como um bebé. Se espreitava pela fresta da porta entreaberta, tinha dificuldade em acreditar que o pequeno cavalheiro de colarinho engomado, casaco e calções escuros era o mesmo rapazinho que costumava rebolar com ela pelo chão do quarto das crianças vestido com o seu fatinho de marujo. Via-o, claro, na igreja quase todos os domingos. Mas como o banco dos Harvey era logo o primeiro, e a família dela se sentava muito lá para trás, só apanhava vislumbres do seu cabelo louro. Antes da morte dos pais, tentara muitas vezes falar com ele no adro da igreja, mas apesar de a carinha dele se iluminar quando a via, Miss Bird, a precetora, não o deixava aproximar-se e falar com ela. A mãe sempre dissera que era melhor ela aprender depressa que os ricos não gostavam que os filhos se misturassem com pessoas comuns, mas não era assim que Hope se via. Tinha, ao fim e ao cabo, crescido a ouvir a história de que era uma criança-fada, e para ela isso significava que estava destinada a coisas melhores. Embora sabendo que de momento tinha de se manter no seu lugar e fazer o que lhe ordenavam, consolava-se com a ideia de que um dia seria senhora de si mesma. Baines gostava muito de dizer que havia poucas oportunidades para as raparigas além do serviço doméstico, mas a verdade era que estava naquela vida desde os doze anos, por isso o que sabia ele do mundo real? Cook sorria com um ar conhecedor sempre que Hope dizia que queria fazer outro género de trabalho; parecia pensar que o casamento era uma opção muito melhor. Mas quaisquer ideias românticas que Hope pudesse ter em tempos alimentado a respeito do casamento tinham sido


mortas pela observação de Nell e Albert. Para ela, estar no serviço doméstico ou casada ia dar mais ou menos ao mesmo, uma vida inteira de escravidão. Queria qualquer coisa melhor.

Hope estava na copa a arear pratas, ao princípio da tarde, quando ouviu Rose entrar na cozinha. – O capitão Pettigrew apareceu outra vez – disse, num tom de voz importante. – É curioso como vem sempre quando o senhor não está. – Rose! – exclamou Cook. – Não devias dizer essas coisas. Se Mr. Baines te ouvisse! Hope estava fora da vista das duas mulheres mais velhas, mas bem ao alcance da voz. Esperava que Baines não estivesse, porque Cook tinha razão. Quase não passava uma semana sem que ele lhes lembrasse que não deviam falar fosse do que fosse que ouvissem ou vissem o senhor e a senhora dizer ou fazer. Baines era alto e magro como um chicote, e com as suas calças às riscas cinzentas, casaca de abas e colarinho engomado, de óculos sempre encavalitados na ponta do comprido nariz, fazia lembrar a Hope uma garça. E da garça tinha também a vista apurada, a graça e a paciência. Nada lhe escapava, uma ponta de sujidade numa faca ou um guardanapo mal dobrado, e esperava que todos os criados mantivessem os elevados padrões que exigia. Mas, com tudo isto, era um homem justo e bondoso, que parecia ter resposta para todas as perguntas e solução para todos os problemas. Cook costumava dizer que era o único mordomo sob cujas ordens tinha trabalhado que não era um perfeito cretino. E dizia também que quando Rose chegara a Briargate fizera mira a Baines, e ficara muito desapontada quando ele não respondera. Agora com trinta e muitos anos, uma mulher magra e sem graça que se sabia condenada a ficar solteira, Rose gostava demasiado de meter o nariz nos assuntos alheios, fossem do senhor e da senhora, fossem dos outros criados. – O capitão é charmoso, reconheço – continuou Rose, ao que parecia indiferente ao aviso de Cook – E muito bonito! A Nell ficou toda nervosa quando o viu. Hope arrebitou a orelha ao ouvir o nome da irmã, e apesar de continuar a arear o candelabro que tinha na mão, abrandou os movimentos para não perder uma palavra. – Também eu ficava nervosa por causa de um homem bonito se fosse casada com o Albert – respondeu Cook, com uma gargalhada. Hope sorriu; ficava sempre contente quando um dos criados admitia que não gostava de Albert. Eram discretos na presença de Nell, mas quando ela não estava diziam que era pomposo, hipócrita e sem ponta de sentido de humor. Hope poderia sem dificuldade acrescentar meia dúzia de defeitos, mas, por amor a Nell, guardava-os para si. Nunca confessara a ninguém, nem sequer a James e Ruth, como era horrível viver com ele. – Não estou a dizer que a Nell gosta dele – apressou-se Rose a acrescentar. – Foi mais como se tivesse visto o diabo em pessoa entrar porta dentro. Terá medo pela senhora? Ou ter-lhe-á o capitão feito alguma? – Se sabes o que te convém, guarda esses pensamentos para ti – retorquiu Cook num tom seco. Hope estava a transbordar de curiosidade; tinha de ver aquele homem que fizera Nell ficar nervosa. Infelizmente, não tinha desculpa para ir aonde quer que fosse na casa. Era servente de cozinha, e a cozinha era o lugar onde tinha de estar.


Cook fazia sempre um pequeno período de descanso entre as três e as quatro da tarde. Regra geral, ficava sentada na sua cadeira junto ao fogão e dormitava um pouco, mas naquela tarde as pernas, que muitas vezes a incomodavam, estavam muito inchadas, e ela disse que ia estender-se na cama. – Se não estiver de volta às quatro, põe a água ao lume para o chá e vai-me chamar – recomendou a Hope. Baines estava no seu escritório, ocupado com as contas, Rose estava na sala de jantar a pôr a mesa para o jantar e Ruby tinha a sua tarde de folga e fora até à aldeia. Com toda a gente fora, Hope tratou de lavar o chão da cozinha e da copa. Quando regressou de despejar a água suja no pátio, ficou surpreendida ao ver que eram quase quatro, e Cook não tinha voltado. Aquilo nunca tinha acontecido. Cook pedia sempre que a chamassem, mas nunca era preciso. Apesar de ser a desculpa que Hope sempre desejara para sair da cozinha, ficou de repente nervosa. Pôs a chaleira ao lume, mudou de avental, ajeitou a touca e, ao fim de alguns minutos de hesitação, saiu para o vestíbulo. A escada das traseiras no lado leste da casa, que subia de trás da sala dos criados diretamente para os quartos no sótão, era a que devia usar, mas indo por esse caminho não teria oportunidade de ver o capitão. Por outro lado, se arriscasse atravessar o vestíbulo, subir a escadaria principal e passar pelos quartos do senhor e da senhora para chegar à escada das traseiras e alguém a visse, estaria metida em sarilhos. Ao ouvir a voz de Lady Harvey vinda da sala de estar, o que significava que a porta estava aberta, voltou para trás. Talvez fosse melhor esperar que o capitão fosse às cavalariças buscar o cavalo – ninguém poderia ralhar-lhe por ter saído para o pátio. Enquanto subia as escadas das traseiras, Hope meditava em como eram pobres. Eram estreitas e íngremes, e as paredes caiadas estavam cobertas de marcas e riscos deixados pela passagem dos muitos criados que tinham transportado cargas pesadas para cima e para baixo. Sempre lhe parecera absurdo que não obstante o facto de os criados terem um conhecimento íntimo dos corpos dos patrões, dos seus hábitos pessoais e de todos os outros aspetos das suas vidas, serem obrigados a usar escadas separadas. Bateu à porta do quarto de Cook e anunciou que já passava das quatro. Ao não obter resposta, abriu a porta e espreitou para dentro. Mas em vez de encontrar Cook a dormir na sua cama, como esperava, viu-a caída de bruços no chão. – Cook! – exclamou, assustada, e correu para a voltar. Viu, horrorizada, que estava branca como a cal das paredes da escada que acabava de subir, com um vergão vermelho na testa, consequência evidente de ter batido com a cabeça nos pés da cama quando caíra. Estava também fria como gelo, e quando não respondeu de maneira nenhuma às massagens que lhe fez nas mãos, pensou que estava morta. Saiu do quarto a correr e desceu as escadas das traseiras de dois em dois degraus, e no pânico em que estava, foi direita à sala de estar de Lady Harvey. – É a Cook, m’lady! – disse a atropelar as palavras, enquanto entrava de rompante. – Caiu no quarto e acho que está morta. – Não bateste! – ralhou Lady Harvey. – O que foi que te passou pela cabeça, Hope? É o Baines que trata dos criados. Hope tinha esquecido não só as maneiras e Baines, mas, na sua pressa, esquecera também o


capitão. Tinha-se levantado da cadeira junto ao lume quando ela entrara, e Hope reconheceu no mesmo instante o homem alto e esbelto que tinha visto na jardim dianteiro aquando da sua primeira visita a Briargate, havia quase seis anos. – É apenas uma criança – disse, a olhar com reprovação para Lady Harvey. – Veja como está assustada! – Está fria e rígida. – Hope dirigiu estas palavras ao capitão, que era claramente mais compreensivo do que a patroa. – Voltei-a porque estava caída de bruços, mas não consegui levá-la para a cama sozinha. – Ela queixou-se de se sentir mal? – perguntou Lady Harvey, pondo-se enfim de pé. Também o seu rosto estava frio e rígido, mas Hope soube que era de fúria pela interrupção. – Não, m’lady – respondeu Hope, com lágrimas de choque a subirem-lhe aos olhos. – Disse que lhe doíam as pernas, mas foi só isso, e que ia deitar-se por uma hora. Disse-me para a chamar se não tornasse a descer às quatro. – Temos de chamar um médico, claro – disse o capitão. – Mas eu tenho alguns conhecimentos de medicina, m’lady, de modo que talvez deva ir ver o que posso fazer até ele chegar. – Sim, sim, claro, capitão Pettigrew. – Lady Harvey parecia confusa. Voltou-se para Hope. – Vai dizer ao James que sele um cavalo, e chama a Nell. O capitão saiu da sala, com Lady Harvey no encalço. Hope correu até as cavalariças, contou a James o que tinha acontecido e voltou a correr escada acima à procura de Nell. Estava na pequena divisão contígua ao quarto de Lady Harvey, onde fazia os seus trabalhos de costura. Pareceu assustada quando a porta se abriu. Hope correu para os braços dela e explicou-lhe o que se passava. – Acho que está morta, Nell – soluçou. – E Lady Harvey nem sequer quis saber, disse-me que devia ter procurado o Baines. – É só a maneira dela – disse Nell. – Não estava a falar a sério, deve ter sido do choque. Volta lá para baixo, que eu vou ver o que posso fazer. * A casa estivera silenciosa como uma igreja durante todo o tempo que Hope passara a esfregar o chão da cozinha, mas enquanto Nell subia ao sótão e Hope voltava a descer, houve um tumulto repentino. Baines apareceu no vestíbulo a exigir saber o que se passava, Rose saiu da sala de jantar e Rufus saltou como um coelho para fora da sala de estudo, seguido por uma Miss Bird de ar distraído a protestar que a lição ainda não tinha acabado. Ruth saiu atrás dele com uma expressão assustada; mais tarde, confessaria a Hope que a primeira coisa que pensara fora que ela tinha feito uma asneira qualquer. Ruth continuava a ser chamada ama, e tratava de Rufus antes e depois das lições, mas ocupava o tempo em que não estava com ele trabalhando onde fosse necessária. Isto significava que desempenhava as funções de Rose, de Ruby e de Nell nas respetivas tardes de folga, e ajudava muitas vezes na cozinha quando havia jantares. Era mais próxima da velha Cook do que qualquer dos outros, e pareceu fulminada quando lhe contaram o que tinha acontecido. Toda a gente esqueceu os bons modos e as conveniências, incluindo Baines, e estavam reunidos no vestíbulo, todos a falar ao mesmo tempo, quando o capitão desceu a escadaria. – Voltem para a cozinha – ordenou, mas o seu tom foi gentil e compreensivo. – A Cook não está


morta, felizmente, mas está muito doente. Penso que é do coração. Encaminhou-os todos para a cozinha e foi com eles, explicando que as pessoas doentes precisavam de silêncio. James esperava instruções, com um cavalo selado, e o capitão saiu e disse-lhe que fosse buscar o médico. Quando voltou para dentro, sugeriu que Ruth subisse e ficasse a fazer companhia a Cook até à chegada do médico, e que Nell fosse para junto da sua senhora, que estava em choque. – E tu, pequenina – disse, voltando-se para Hope –, penso que é melhor fazeres chá para toda a gente. És capaz disso? Até então, Hope tinha considerado Baines o homem mais admirável que conhecia. De repente, porém, o capitão parecia-lhe muito mais impressionante, pois não só tinha tomado o seu partido contra Lady Harvey como assumira o comando de toda a casa. Percebia exatamente por que razão deixava Nell tão nervosa: era muito atraente, com aqueles grandes olhos escuros e as maçãs do rosto altas e bem definidas. Sentira um calor por dentro quando ele lhe chamara «pequenina», porque era assim que o pai costumava chamar-lhe. Mas havia mais; achava maravilhoso o modo como ele olhava nos olhos a pessoa com quem estava a falar, e sabia os nomes, as respetivas posições na casa e até as maneiras de ser, como se todos e cada um fossem de vital importância. Nunca conhecera ninguém como ele; Sir William não era nada assim, passava pelos pessoas quase sem um aceno de cabeça. Hope achava que nem sequer sabia quem trabalhava para ele, quanto mais os nomes. Depois de o capitão ter voltado à sala de estar, dizendo que esperaria lá até que o médico chegasse para o caso de ser necessário, Baines pigarreou para limpar a garganta e deu as suas instruções. Hope sentiu que apesar de ele dizer que estava satisfeito por o capitão ter estado ali naquela emergência, ficara um pouco aborrecido por um estranho ter assumido o seu papel. – Podem passar semanas antes que a Cook esteja em condições de voltar ao trabalho – disse, mas o tom triste da voz sugeria que na realidade não esperava voltar a ver Cook na cozinha. – Entretanto, temos de manter a casa a funcionar sem sobressaltos, fazendo um esforço extra. Dividiu os deveres de Rose como criada de sala entre as outras criadas e disse a Rose que teria de assumir o papel de cozinheira. – Não posso, Mr. Baines. – Rose parecia horrorizada. – A Nell e a Ruth são ambas muito melhores do que eu na cozinha. Baines encolheu os ombros. – Nesse caso, será um bom treino para ti. A Hope ajudar-te-á... pode ser muito nova, mas a Cook ensinou-a bem. Hope sorriu ao ouvir estas palavras de elogio, mas o sorriso morreu-lhe nos lábios quando, um segundo mais tarde, Baines acrescentou que também teria de ajudar Ruby a acender as lareiras todas as manhãs. O que na realidade significava que seria ela a fazer quase todo o trabalho, porque Ruby era lenta e já mal conseguia acender a lareira no quarto das crianças e na sala de estudo. Baines continuou, dizendo que ia perguntar a Lady Harvey se não queria considerar a possibilidade de cancelar o grande jantar planeado para a semana seguinte, dada a falta de experiência de Rose como cozinheira. Tinha acabado de sair da cozinha quando Albert entrou pela porta das traseiras. Estava coberto de sujidade e trazia no rosto uma expressão tempestuosa. – Que estás aqui a fazer? – rosnou a Hope. – O lume está apagado e não há jantar para mim. Com todo aquele drama, Hope nem sequer se apercebera de que já passava bem das seis. Ia sempre para casa depois de preparar a bandeja do chá para o menino Rufus, e fazia parte dos seus


deveres pôr lenha na lareira, pôr a chaleira ao lume e aquecer o que quer que fosse que Nell tivesse deixado pronto para o jantar de Albert, que chegava a casa por volta das seis. – Peço desculpa – disse, e lançou-se numa explicação do que tinha acontecido. – Isso não me diz respeito – ladrou Albert, interrompendo-a a meio de uma frase. – Um homem que passou todo o dia a trabalhar no exterior precisa de comer. Vai já para casa. Rose entrou na cozinha no instante em que Hope estava a pôr o xale e a touca. – A Nell não vai a casa esta noite – disse a Albert, que já ia a sair. – Mr. Baines pensa que ela pode ser necessária aqui. Hope sentiu o coração afundar-se-lhe no peito quando viu o rosto de Albert tornar-se ainda mais sombrio ao saber que ia ter de passar sem a sua escrava pessoal, mas Rose ofendera-o ainda mais ao falar-lhe naquele tom tão descuidado. * Estava muito frio e Hope tiritava enquanto quase tinha de correr atrás de Albert na escuridão. Estava assustada: que soubesse, Nell não conseguira ir a casa durante o dia preparar o jantar do marido, como habitualmente fazia. Se o lume estivesse apagado, passariam séculos antes que conseguisse arranjar qualquer coisa. Albert não ia gostar.

A casa estava gelada e o fogão apagado. Era prova de que Nell não tinha ali estado durante o dia, pois acrescentava sempre mais um pouco de lenha quando chegava. Hope varreu as cinzas com gestos rápidos, juntou um pequeno monte de gravetos secos e pedaços de papel e chegou-lhes fogo. Estava muito nervosa porque Albert se mantinha de pé a seu lado, carrancudo, e pediu a Deus, numa prece silenciosa, que o lume não se apagasse. A sorte esteve do seu lado: as chamas pegaram depressa e ela foi acrescentando pedaços cada vez maiores de lenha até o fogo crepitar alegremente. – Dá-me o teu casaco e senta-te aqui, onde está mais quentinho – disse, a olhar para Albert. Em circunstâncias normais não lhe falaria com tanta gentileza, mas estava com medo de que ele explodisse. – Quero chá quente e qualquer coisa na barriga – rosnou ele. – E depressa. Hope pôs a chaleira ao lume e saiu para ir procurar na despensa, situada no anexo onde estava também a copa. Havia metade de um pão, um pouco de queijo e as sobras do guisado de cordeiro da noite anterior. Suspirou de alívio por não ter de cozinhar qualquer coisa desde o início. Quinze minutos mais tarde, tinha a chaleira a ferver, a mesa posta e as batatas a cozer. Tinha acrescentado alguns pedaços de carvão ao lume para conseguir um calor mais constante, e enquanto aquecia o bule do chá deitou água quente numa bacia para Albert lavar as mãos. – Pronto – disse, acrescentando um pouco de água fria. – O chá estará feito quando acabares de lavar as mãos. Observou-o enquanto se lavava, e viu-o examinar um golpe feio que tinha na palma da mão. – Isso está com mau aspeto – disse, compadecida. – É o que se ganha no meu trabalho – sibilou-lhe Albert, como se a culpa fosse dela. – As mãos ficam tão enregeladas pelo frio que por vezes nem sequer sei que me cortei. Entretanto a terra entra na ferida, e um destes dias um corte como este infeta, e então como é que eu fico? Hope não conseguia compreender porque estava ele tão zangado. Parecia ser mais do que só por a


casa estar fria e ter de esperar pelo jantar. – Deixa-me pôr-te aí qualquer coisa – disse. – A Nell tem uns unguentos que são bons para cortes. – Quero o meu jantar – rugiu ele. – Não quero a merda do unguento. Hope ficou chocada por ele ter usado aquele palavrão horrível diante dela. No ano anterior, durante a apanha do feno, houvera um trabalhador que o dissera na presença dela e da mãe, e o pai dera-lhe um murro nos queixos. Voltou-lhe as costas, enojada, fez o chá e serviu-lhe uma chávena sem uma palavra. Esperava que a mão dele infetasse, e depois o braço, e depois o corpo todo. Era odioso.

Hope levantou-se quando ouviu o relógio que estava em cima da consola da lareira dar as cinco. Estava escuro como breu, lá fora, e muito frio. Acendeu uma vela, pôs um xale por cima da camisa de dormir e passou em bicos de pés pelo quarto de Albert. Albert fora para a cama mal acabara de comer, para grande alívio de Hope, que receara que ele se pusesse a encontrar-lhe mais defeitos. Ela própria se deitara depois de ter acabado de levantar a mesa, lavar a louça e arrumar os pratos, mas não conseguira dormir a pensar em Cook, e em quem a substituiria se ela morresse. O lume no fogão não se apagara por completo, graças ao pó de carvão que ela lhe pusera antes de se deitar. Conseguiu reavivar as chamas e usou a água quente da chaleira para se lavar. Decidiu preparar-se e só chamar Albert quando estivesse pronta para sair. Desse modo só teria de voltar a enfrentá-lo ao fim da tarde.

– Albert, são horas de levantar – disse, cautelosa. – O lume está aceso e a chaleira quase a ferver. Agora tenho de ir. Não conseguia vê-lo no escuro, mas ouviu-o resmungar qualquer coisa e voltar-se, fazendo ranger as molas da cama. – Não voltes a adormecer, são quase cinco e meia – disse, dessa vez mais alto. Ele resmoneou entre dentes, o suficiente para ela saber que o tinha acordado, e Hope fez meiavolta e desceu a escada para calçar as botas. Tinha acabado de atar os cordões da primeira quando ele apareceu no alto da escada, com as suas compridas ceroulas de lã. – Não puseste a mesa para mim – disse Albert num tom indignado, enquanto descia até à cozinha. – Não tenho tempo para essas tolices – respondeu Hope sem pensar. – Tenho de acender... Antes que tivesse tempo de terminar a frase, ele bateu-lhe na cara com tanta força que foi como se a cabeça lhe tivesse saltado dos ombros. – Essas tolices! – rugiu ele, furioso. – Tenho-me esforçado por vos ensinar bons modos, suas porcas Renton. Apesar da dor, Hope não ia encolher-se. – Chamas bons modos a bater em mulheres? – gritou-lhe. Albert saltou para a frente e agarrou-lhe o pescoço com ambas as mãos, como se fosse estrangulála. Levantou-a do chão e bateu-lhe com a cabeça contra a parede. Largou-a e, quando ela caiu, deulhe um pontapé na barriga.


– Nunca mais voltas a responder-me – rosnou. – Podia ter-te mandado para o asilo, mas, por caridade, deixei-te vir viver para aqui. E em troca disso espero gratidão e humildade. Era aterrorizador, grande como uma torre visto do chão, com os lábios arreganhados, os olhos raiados de sangue, o cabelo negro empastado e o mau cheiro que exalava. Hope tinha demasiadas dores até para chorar, mas quando ele se voltou por um momento soube que tinha de aproveitar a oportunidade. Pôs-se de pé, saltou para a porta, abriu-a e saiu a correr. Poucos metros mais à frente, a dor no ventre fê-la dobrar-se ao meio. O vento gelado trespassava-a como uma faca, e ela tinha deixado o xale em cima da cadeira. Endireitou-se com esforço e continuou a andar, mas cada passo era uma agonia, e a cabeça começou a latejar. Cambaleava como uma ébria quando chegou ao pátio das cavalariças; tão zonza que nem conseguia ver bem. Mas um raio de luz vindo da janela da cozinha impediu-a de desistir e deixar-se cair. Já só poucos passos a separavam da segurança.

Baines estava a vestir-se quando ouviu Rose gritar. A pensar que ela estava a ter problemas com o fogão, saiu do seu quarto do outro lado da sala dos criados em mangas de camisa e encontrou-a ajoelhada no chão ao lado da jovem Hope, que parecia ter desmaiado. Presumiu que era apenas o resultado do esforço com o estômago vazio; descobrira que as raparigas tinham tendência a desmaiar quando se esforçavam demasiado antes do pequeno-almoço. Mas Rose estava a levantar a cabeça de Hope para lhe pôr uma almofada por baixo, e quando ela retirou a mão, viu que estava coberta de sangue. Baines já tinha problemas de sobra. Cook morrera durante a noite, e além da tristeza que lhe causava a perda tão repentina de uma amiga querida, tinha também a preocupação de saber como iam aguentar-se até que Lady Harvey conseguisse arranjar uma substituta adequada. E agora aquilo! Correu a buscar o frasco de sais de cheiro e agitou-o debaixo do nariz de Hope. Quando ela começou a recuperar os sentidos, as suas primeiras palavras foram um entrecortado pedido de desculpa. Baines voltou-a de lado para lhe examinar a nuca, presumindo que tinha caído no caminho de acesso. Foi então que viu as marcas vermelhas de dedos no pescoço dela e soube que não tinha sido um acidente. – Quem te fez isto, Hope? – perguntou. Ela não respondeu, limitou-se a olhar para ele com os olhos cheios de medo. – Vá, diz-me – insistiu Baines. – Foi um caçador furtivo? Os caçadores furtivos eram um problema. Regra geral, procuravam faisões ou veados nos bosques de Hunstrete, e se o guarda-caça os perseguia fugiam atravessando os terrenos de Briargate. Mas Baines nunca soubera de um caçador furtivo que tivesse atacado alguém que não o ameaçasse. Hope parecia demasiado chocada para responder, de modo que ordenou a Rose que fosse buscar uma bacia de água morna e um pano para poder lavar a ferida. Rose estava na copa quando Nell entrou na cozinha. – Hope! – exclamou, e pôs-se muito pálida ao ver o sangue. – Foi o Albert que te fez isto? Baines ficou espantado por Nell ter de imediato suspeitado do marido, e pensou que era uma sorte Rose não estar a ouvi-los. Mas quando Nell se ajoelhou ao lado da irmã mais nova, o seu rosto expressava tanta fúria, além de horror, que era evidente que tinha boas razões para acusar Albert. Baines sempre tivera a maior consideração por Nell. Não fora a sua posição na casa e o facto de


ser muito mais velho, talvez se tivesse sentido tentado a admitir que alimentava ideias românticas a respeito dela. Apesar disso ficara contente quando ela casara com Albert, pois saltava aos olhos que queria muito ter a sua própria casa, e filhos. Albert parecera ser uma boa escolha; era fiável e trabalhador, ainda que um pouco azedo. Dada a revelação de Nell, percebia agora a razão por que ela deixara de ser a mulher vibrante e faladora que tinha sido antes de casar. Até ao momento, atribuíra a mudança ao aumento das responsabilidades, ou talvez ao desapontamento por ainda não ter engravidado. Com toda a certeza nunca lhe passara sequer pela cabeça que Albert pudesse ser a causa.

Quando Rose voltou, Nell tirou-lhe das mãos a bacia de água morna e começou a lavar a ferida, a murmurar palavras de ternura e a pedir a Hope que lhe dissesse como acontecera aquilo. Baines, que estava a observar o rosto de Hope, viu como ela reprimia o impulso de dizer a verdade. O que só por si constituía prova suficiente de que fora Albert, porque a criança queria claramente poupar à irmã o embaraço e a vergonha. Baines sentiu uma ligeira vertigem, pois a lei não era generosa para com as mulheres; pais e maridos podiam infligir terríveis castigos a filhas e esposas sem receio de serem perseguidos pela justiça. Se Albert fora capaz de fazer aquilo a uma criança, o que não faria a Nell se ela o acusasse? Sir William era a pessoa que devia lidar com aquilo. Um sério aviso de que passaria a estar atento ao que acontecesse a Nell e a Hope seria de certeza o suficiente para obrigar Albert a refrear os seus impulsos. Mas Sir William era fraco. «Mole», fora como Cook uma vez o descrevera, e apesar de a ter admoestado, Baines sabia que ela tinha razão. Rodeado em criança por mulheres que o adoravam e estragavam com mimos, Sir William nunca aprendera a ser um verdadeiro homem. Podia ser encantador e parecer galante e atraente quando galopava pelos campos montado em Merlin, mas na realidade era completamente irresponsável. Baines sabia que os negócios em Londres e na América, que ele usava com tanta frequência como desculpa para se ausentar de casa, não existiam. Tinha um círculo de amigos em ambos os lugares, mas era cavalos, jogos de cartas, festas e bailes que partilhava com eles, não negócios. Infelizmente, nunca quereria saber se o jardineiro maltratava a mulher e a cunhada. Desde que os seus jardins continuassem a ser admirados pelos amigos, o homem responsável por essa admiração podia fazer o que quisesse.

Hope libertou-se dos cuidados de Nell e pôs-se de pé. – Já estou bem, Nell, só escorreguei no gelo e caí – insistiu. – Tenho de ir acender as lareiras. – Deixe-me ir eu acender as lareiras, Mr. Baines – pediu Rose. – A Hope ainda não está bem, tem uma grande ferida. A Nell podia fazer o que é preciso aqui em baixo e ficar com ela. Baines percebeu que havia ali interesse próprio: Rose estava apavorada pela ideia de ter de cozinhar naquele dia. – Muito bem, Rose – disse num tom grave, pois era mais do que evidente que Hope não estava em condições de fazer trabalhos pesados. – Vai tu tratar das lareiras. E certifica-te de que a Ruby faz a parte que lhe cabe. Mal Rose saiu, Baines voltou-se para Nell.


– Penso que seria melhor a Ruth vir cá para baixo. A Cook, Deus a tenha em descanso, já não precisa da ajuda dela e a Ruth é uma boa cozinheira. Podes lavar e preparar o menino Rufus antes de te ocupares da senhora. Nell assentiu, mas pousou-lhe a mão no braço e levou-o para a copa, onde podiam falar em privado. – Que vou eu fazer, Mr. Baines? – perguntou, num murmúrio. – Eu sei que foi o Albert, mesmo que a Hope não me diga. Tive muitas vezes medo por mim mesma, mas nunca pensei que pusesse as mãos nela. – Falamos disto mais tarde. – Baines suspirou. – Além de todas as tarefas habituais do dia a dia, tenho de tratar do funeral da Cook e falar com Lady Harvey a respeito de como vamos substituí-la. A Hope fica bem aqui, com a Ruth. – Pousou uma mão no ombro de Nell, a tentar transmitir-lhe a certeza de que não estava a despachá-la por não querer saber. – Temos de ter cuidado, Nell, e pesar as consequências.

Depois de Baines ter saído, Nell voltou-se para Hope e, com um gesto de ternura, afastou-lhe o cabelo da testa. – Diz-me a verdade, meu amorzinho. Foi o Albert, não foi? – Não, já te disse que caí no caminho – mentiu Hope. Nell fechou os olhos, exasperada. – É o que tencionas dizer à Ruth e ao James? Hope assentiu com a cabeça. Nell pôs um pedaço de algodão a proteger o ferimento na cabeça da irmã, segurou-o com uma ligadura e cobriu tudo com uma touca. – Não posso esconder essas marcas no teu pescoço com tanta facilidade – disse, irritada. – Mas tenho a certeza de que encontrarás uma desculpa para as explicar também.

Às cinco horas, Nell desceu o caminho de acesso em direção à casa do guarda-portão levando num cesto um pão e uma empada de carne e batata que Ruth lhe tinha feito. O medo fazia o coração martelar-lhe o peito com força, mas nunca estivera mais determinada em toda a sua vida. Hope passaria a noite no quarto de Ruth em Briargate. Mantivera a história de que tinha escorregado no gelo e caído, e Nell sabia que era a sua maneira de a proteger. Mas à tarde vomitara, e Baines mandara-a para a cama sem mais demora. Nem mesmo Hope tivera coragem suficiente para discutir com ele. Nell não voltara a falar de Albert com Baines porque ele estava demasiado ocupado com os preparativos do funeral de Cook. Mas ponderara todas as possíveis linhas de ação e as consequências de cada uma delas. Todas iriam, com toda a probabilidade, trazer-lhe a ela e a Hope desgraças ainda maiores. Legalmente, não tinha direitos; a mulher era propriedade do marido e devia-lhe obediência. Nell suspeitava de que essa mesma lei significava que Albert podia fazer o que quisesse à cunhada, uma vez que lhe tinha dado um teto. A ideia de pedir ajuda a Lady Harvey fora muito tentadora, mas pusera-a de parte por saber que se


a senhora recusasse, era bem capaz de retaliar e dizer qualquer coisa de que viesse a arrepender-se. O capitão Pettigrew aparecera de visita em Briargate muitas vezes nos últimos três anos, sempre quando o senhor estava fora. Talvez não fizessem nada de mal, mas Nell sentia qualquer coisa entre os dois, e sua senhoria ficava sempre perdida num sonho quando ele se ia embora, por vezes até um pouco chorosa. Nell era capaz de compreender, pelo menos até um certo ponto. Com o passar dos anos, acabara por ver que Sir William não era o marido perfeito que em tempos pensara. Era descuidado com ela, preferindo a companhia dos amigos que tinha em Londres à sua. Talvez sempre tivesse sido assim e fosse por isso que a senhora sucumbira aos encantos do capitão. Sem a ajuda de Lady Harvey não podia fugir a Albert, e de qualquer modo não queria deixar o trabalho que adorava, ou a sua família. Se James e Matt soubessem que Albert batera em Hope, haviam de querer tirar desforço. Mas Albert era um homem inteligente e determinado, e conhecia a lei. Mandaria prender Matt e James, que acabariam numa masmorra, e ela e Hope ficariam à sua mercê. Nem sequer podia ter a esperança de que naquele momento ele se sentisse envergonhado de si mesmo, pois sabia que não a amava. Não amava ninguém senão a si próprio. Apesar de não haver maneira de se livrar de Albert ou castigá-lo, não tencionava deitar-se de barriga para o ar e deixar que ele a espezinhasse. Como o pai tanto gostava de dizer: «Há mais do que uma maneira de esfolar um gato.» E Nell sentia que tinha encontrado uma maneira de esfolar Albert.

Não estava mais quente dentro da casa do guarda-portão do que no exterior, e Nell procurou às apalpadelas, no escuro, a vela e os fósforos que deixava sempre na prateleira junto à porta. Uma vez acesa a vela, levou-a para a mesa e acendeu o candeeiro a óleo. O fogão estava apagado, tal como ela já esperava, e na tábua do pão em cima da mesa havia apenas algumas migalhas e a faca. Viu uma chávena partida no chão, sem dúvida atirada por Albert, e o tapete da lareira estava enrugado, mas não havia mais nada fora do lugar. Apanhou os cacos da chávena e procurou mais provas do que acontecera naquela manhã. Deteve o olhar numa mancha de sangue na parede caiada junto à porta. De uma maneira estranha, ficou contente por vê-la, pois era a confirmação de que precisava para levar por diante o seu plano. Cinco minutos mais tarde tinha o fogão aceso. Deixou a empada a aquecer no forno, pôs a mesa e subiu apressada a escada para fazer a cama e ir buscar o balde dos despejos.

Pouco depois das seis, ouviu o som dos passos de Albert lá fora e as entranhas contraíram-se-lhe de medo. Estava a deitar a última colher de chá para dentro do bule cheio de água quente quando ele entrou. Albert deteve-se por um instante no umbral, com os olhos semicerrados de surpresa por encontrá-la em casa, uma vez que ela chegava regra geral muito mais tarde do que ele. Apesar de toda a infelicidade por que aquele homem a fizera passar, Nell conseguia continuar a admirar-lhe a beleza física. Um metro e oitenta e oito de músculo duro como rocha, e um rosto que faria muitas mulheres suspirar: grandes olhos azul-escuros orlados por pestanas compridas, nariz


direito e uma boca bem desenhada. Rapara a barba pouco depois do casamento, e embora houvesse uma mancha escura a sombrear-lhe o rosto porque não se barbeara naquela manhã, o queixo, com a sua pequena covinha, era atraente. Até os dentes continuavam bons, e ele fazia notar muitas vezes que ela se devia envergonhar por ter perdido tantos dos seus. – Tenho uma bela empada de carne e batata para o teu jantar – disse ela, amável e sorridente. – E este chá vai ficar pronto num instante. – Onde está a rapariga? – perguntou ele, enquanto pendurava o casaco no prego ao lado da porta. – Na mansão – respondeu Nell. – O meu pai perguntava sempre à minha mãe como estava e beijava-a quando chegava a casa. Albert olhou para ela, claramente sem perceber o sarcasmo, mas não disse nada e dirigiu-se à bacia com água que Nell já tinha preparado para lavar as mãos. Ela serviu-lhe o chá em silêncio, tirou a empada do forno e pousou-a em cima da mesa, e então cortou uma fatia de pão. Todos os sons pareciam amplificados, o raspar da cadeira no chão de pedra quando ele a puxou para se sentar, o primeiro gole de chá que bebeu e o crepitar da lenha no fogão. Albert mantinha quase sempre um mutismo sombrio, e ela costumava tagarelar só para quebrar o pesado silêncio. Mas daquela vez não disse nada, limitou-se a servir-lhe um grande pedaço de empada. Foi quando ele pegou na faca para barrar manteiga no pão que Nell o viu fazer uma careta. – Que aconteceu à tua mão? – perguntou. – Um golpe – foi a resposta seca. – Deixa-me ver – pediu ela, inclinando-se e estendendo a mão para a dele. – Deixa-me em paz, mulher – cuspiu ele. – Não sou uma criança. Nell tencionara esperar até ele acabar de comer, mas a maneira como lhe tinha falado enfureceu-a tanto que não conseguiu conter-se por mais tempo. – Não, não és uma criança. És um homem grande e muito forte. Quase estrangulaste uma garotinha e tentaste rachar-lhe a cabeça e espalhar-lhe os miolos pelo chão. Albert corou e começou a levantar-se da cadeira, como se fosse bater-lhe. Nell pegou na faca do pão. – Senta-te – ordenou, a apontar-lhe a lâmina. – Por uma vez, vais ouvir o que tenho para dizer. – Olha, mulher – começou ele, com a fúria a fazê-lo atropelar as palavras. – Já esperava que esse estuporzinho impudente fosse lamuriar-se, mas duvido muito que te tenha dito a verdade. Insultou-me, eu castiguei-a. Mereceu-o. – Ela não se lamuriou a ninguém. Nem sequer ao Baines e a mim admitiu que tu a tinhas atacado. Mas nós soubemos! Marcas de dedos no pescoço, a ferida na cabeça. Não podia tê-las arranjado caindo no caminho. Ele bufou, depreciativo, e fez menção de se levantar, mas Nell avançou a mão que empunhava a faca, a avisá-lo, e Albert voltou a sentar-se. – Podia correr contigo desta propriedade – sibilou ela. – Pôr-te na rua sem uma carta de recomendação. E então o que seria de ti? – Não podem fazê-lo sem te despedirem a ti também – respondeu ele, com um sorriso torcido. – Sou teu marido. – Marido? – troçou ela. – Como é que então continuo virgem ao cabo de três anos de casamento? Foi evidente a surpresa de Albert por ela se ter atrevido a falar daquilo. De repente, pareceu um


pouco inseguro de si mesmo. – É essa a minha carta de trunfo – continuou ela, determinada. – Ainda não a joguei, mas estou preparada para o fazer. – Baixou muito ao de leve a ponta da faca, inclinou-se para a frente e empurrou o prato para mais perto dele. – Come, querido Albert, precisas de conservar as tuas forças. A Ruth fez isso para ti, mas se adivinhou a verdade a respeito dos ferimentos da Hope o mais certo é ter acrescentado um pouco de arsénico. Ele olhou para o prato, e depois de novo para Nell. Hesitava. Queria comer, porque estava cheio de fome, mas receava fazê-lo. – Vá lá, Albert, come – disse ela. – Nós, os Renton, somos tantos. – Deu uma pequena gargalhada, como se estivesse a brincar. – O James nas cavalariças com uma forquilha! O Matt escondido algures, à espera, com uma foice! Que tal o Joe e o Henry destruírem as tuas roseiras? – Ouve-me bem, mulher! – rosnou ele, com o rosto a escurecer. – Não podes ameaçar-me! – Ameaçar-te? – arquejou Nell, como se a ideia nem sequer lhe tivesse passado pela cabeça. – Com certeza não pensaste que estava a ameaçar-te? Estava apenas a apontar as coisas que tu podias pensar que podiam acontecer. Mas nenhuma dessas coisas é necessária, com a minha carta de trunfo. Fez uma pausa, sentindo-se um pouco mais confiante. – Seria tão fácil para mim ir ter com Lady Harvey e dizer-lhe que tu não és um verdadeiro homem e que te vingas na Hope e em mim porque tens vergonha? Achas que ela te quereria como seu jardineiro sabendo disso? Julgo que é possível anular um casamento que não foi consumado. – Sorriu-lhe, orgulhosa de se ter lembrado da palavra certa. – Podia falar com o reverendo Gosling a este respeito! – Não queria bater na Hope – exclamou Albert, repentinamente pálido. – Raios, mulher, lamento tê-lo feito. – Também eu lamento que o tenhas feito – respondeu ela, cortante. – Porque me fez enfrentar coisas a teu respeito que até agora não tinha querido examinar. Albert olhou para ela sem compreender. – Não gostas mesmo de mulheres, pois não? – perguntou Nell. – Quando casámos, pensei que me amavas e que teríamos filhos. Mas tu enganaste-me. Sabias que nunca poderias dar-mos. – Cuido de ti – protestou ele, indignado. – Cuidas? Chamas cuidar de mim a dar-me ordens a toda a hora, a ralhar comigo porque a manta da cama não está bem esticada? – A voz de Nell ergueu-se num grito. – Não falas nem ris. Não há alegria em ti. Estar casada contigo é como uma pena de prisão. – Não sei o que foi que te deu. Já disse que lamentava, vamos acabar de vez com este assunto – disse ele, e começou a comer. – Acabar com este assunto? Ainda mal comecei, Albert Scott. Não és normal, és uma aberração da natureza por não gostares de mulheres, e eu juro por tudo o que é sagrado que direi a toda a gente o que na verdade és a menos que faças exatamente o que eu vou dizer. Ele pareceu pela primeira vez assustado, e Nell soube que detinha um pouco de poder. – O que é que queres de mim? – perguntou Albert numa voz que foi pouco mais do que um murmúrio, e desviou os olhos dos dela. – Para começar, nunca mais voltas a bater na Hope ou em mim. Ele assentiu com a cabeça. – E não voltas a fazer queixas a respeito da maneira como eu governo esta casa. Vais buscar o


carvão, a lenha e a água, como qualquer marido decente faria. E vais receber a minha família e comportar-te como se gostasses deles. – Só isso? – perguntou ele. – Achas que te safaste com pouca coisa, não achas? – Nell soltou uma gargalhada desprovida de humor. – Mas não é verdade, porque eu sei o que vai custar-te teres de tratar-me bem. Terás sempre medo de que eu abra a boca e faça de ti o alvo da chacota do condado. Talvez te custe tanto que acabes por me deixar. O que me faria muito feliz. Nunca me considerei uma verdadeira esposa, de qualquer modo. Para seu espanto, Albert tapou a cara com as mãos. – Não tenho culpa de ser como sou – murmurou, como se estivesse a chorar. – Deus sabe como gostava de ser como os outros homens. Naquele momento, Nell esteve quase a ceder. Sentiu-se tentada a abraçá-lo e dizer-lhe que talvez pudessem aprender a ser amigos como eram antes de casarem. Mas sabia que se ele visse fraqueza nela a usaria em sua vantagem. Em vez disso, afastou-lhe as mãos da cara. Havia lágrimas nos olhos dele. – Talvez ainda haja esperança para ti se és capaz de derramar uma lágrima, Albert Scott – disse, numa voz seca. – Acaba o teu jantar e depois deixa-me tratar desse golpe que tens na mão.


CAPÍTULO 6

1845

H

ope atravessava Lord’s Wood a caminho de casa depois de ter passado a sua tarde de folga em Woolard com Matt, Amy e os filhos quando ouviu atrás de si o estalido de um ramo seco a partir-se. Voltou-se, mas não viu nem ouviu nada. Se fosse um animal, teria ouvido o restolhar da sua passagem por entre a vegetação rasteira, pelo que tudo indicava que se tratava de um ser humano que se escondera. Não estava assustada; eram apenas seis da tarde e em junho não escurecia antes das dez. Além disso, ela e os irmãos costumavam espreitar pessoas no bosque, quando eram mais novos. Na realidade, se não soubesse que Joe e Henry estavam a pescar junto à ponte, em Woolard, pensaria que era um deles. Mas Mr. Box, o guarda-caça de Hunstrete, proibira-os de entrar no bosque, por suspeitar de que se dedicavam à pesca ilegal. Felizmente, naquele dia Box não os apanhara com peixe pescado no lago, mas avisara-os de que se voltasse a encontrá-los no bosque os entregaria às autoridades. Hope esperou um pouco, mas ao verificar que não havia mais qualquer som, pensou que talvez tivesse sido imaginação sua e recomeçou a andar. Pouco depois, um novo estalido fê-la voltar-se, dessa vez a tempo de entrever alguém a esconder-se atrás de uma árvore. Sabia que não era um adulto, pois os passos eram demasiado leves, e pensou que era uma rapariga, pois tinha captado de relance uns cabelos louros. Os Nichols, que viviam no baldio perto da sua antiga casa, tinham duas filhas louras, e uma delas, Anna, era suficientemente ousada para fazer aquele género de jogo com alguém. Por isso Hope decidiu virar o feitiço contra o feiticeiro e escondeu-se atrás de uma árvore. Puxou para si a saia do vestido castanho, para que não a denunciasse, e esperou. Ao cabo de cerca de um minuto, ouviu o som de passos cautelosos. Avançavam na direção da árvore atrás da qual ela se tinha escondido e detiveram-se tão perto que Hope conseguia ouvir a respiração da rapariga. Deulhe vontade de rir ao imaginar a expressão confusa de Anna a perguntar a si mesma como conseguira ela desaparecer. Sem fazer ruído, contornou a grande árvore e saltou para a frente. – Apanhei-te! – gritou. Para seu espanto, porém, a pessoa que a seguia não era Anna Nichols. Era o menino Rufus, e parecia assustado como um coelho. – Peço desculpa, menino Rufus – gaguejou Hope. – Não sabia quem era. – Não? Bem, isso é bom. Quer dizer, é esse o objetivo do jogo, não é – disse ele, com um grande


sorriso. – Estive séculos à espera que passasse alguém. Fiquei tão contente quando te vi... Não pensei que gritasses como se eu fosse um assassino, como Miss Bird faria. Hope não gostava nem um bocadinho da seca Miss Hope, de modo que isto fê-la rir. Rufus tinha agora dez anos e era quase tão alto como ela, mas conservara o ar doce e inocente que tinha com cinco anos. O cabelo louro quase lhe chegava aos ombros e tinha uns grandes olhos azuis e uma boca grande e carnuda. Herdara da mãe o nariz um tudo-nada arrebitado e a pele leitosa, mas, no todo, era uma réplica juvenil do pai, que também tinha uma boca de menina e cabelo encaracolado, e usava o seu fato de marujo com a mesma elegância com que o pai usava o traje de montar. – Pode estar aqui sozinho, menino Rufus? – perguntou Hope, sarcástica. – Pensava que não estava autorizado a sair dos limites de Briargate. – Pois, acho que não estou. – Rufus sorriu. – Mas não me trates por menino. Rufus chega perfeitamente. Vamos jogar às escondidas? Hope completara treze anos em abril, mas tinha muitas vezes saudades das brincadeiras que costumava fazer com os irmãos antes de os pais morrerem A sua vida era só trabalho: levantava-se às cinco e labutava na cozinha dia após dia, com frequência até às oito da noite ou mesmo mais tarde se havia um jantar. A única pausa era a tarde de folga, quando visitava Matt e Amy, mas Amy era quase sempre tão aborrecida como Miss Bird. A única coisa que sabia fazer era coscuvilhar a respeito dos vizinhos, ou gabar-se de como os filhos eram inteligentes. Albert não gostava que ela chegasse tarde a casa; lançava-lhe um dos seus olhares sombrios e apontava para o relógio. Mas Hope duvidava que fosse mais longe do que isso. Muitas vezes perguntava a si mesma o que lhe teria dito Nell naquela noite depois de ele lhe ter batido com a cabeça contra a parede, porque desde então fora tudo muito diferente. Não que tivesse passado a ser mais simpático, pois continuava tão taciturno e mal-humorado como sempre, mas nunca mais lhe batera, e deixara de dar ordens a ela e a Nell a todo o instante. Era uma coisa muito estranha, na realidade, pois Hope sentia que ele continuava a detestá-la como dantes. E também não era mais gentil para com Nell, mas ia buscar água ao poço e lenha para o lume. Apesar de tudo isto, Hope tinha medo dele e fazia o possível para não o irritar fosse de que maneira fosse. Felizmente, já quase nunca estava a sós com Albert. Pouco depois do funeral de Cook, Martha Miles, a nova cozinheira, fizera a sua aparição, e Baines dissera a Hope que ia passar a ser uma verdadeira servente de cozinha, com seis libras por ano, e isso significava que tinha de trabalhar até muito mais tarde. Nas suas tardes de folga, às quartas-feiras, ia sempre visitar Matt e Amy, e Baines arranjara as coisas de maneira a que ela e Nell pudessem ter a mesma tarde de domingo de folga uma vez por mês. Hope jogou às escondidas com Rufus durante algum tempo, e foi um pouco como antigamente, quando brincavam no jardim, só que muito mais divertido porque Rufus tinha agora idade suficiente para se esconder como devia ser. Mas por fim disse que tinha de se ir embora e que ele também devia ir, porque a mãe começaria a ficar preocupada. Rufus limitou-se a encolher os ombros. – Talvez sirva para variar de se preocupar com o papá – disse. Hope franziu a testa, presumindo que Rufus tinha ciúmes da atenção que Lady Harvey dedicava ao marido. – Devias estar contente por serem felizes juntos – ralhou. – Seria muito pior se não gostassem um do outro.


Rufus olhou para ela de uma maneira estranha. – Felizes juntos? Quase nunca estão juntos. Mesmo quando está em Briargate, ele passa a maior parte do tempo fora. Só vai a casa para as refeições. Hope não sabia disto, mas a verdade é que as únicas vezes que via Sir William de relance era quando ele ia às cavalariças buscar Merlin. Também não ouvira uma palavra a respeito do assunto por parte de nenhum dos outros criados, pois Baines era muito estrito em relação a coscuvilhices sobre o que o senhor e a senhora diziam ou faziam. Nell era a discrição em pessoa; podia dizer a Hope o que Lady Harvey ia vestir para o jantar, ou que tivera de se deitar por causa de uma dor de cabeça, mas pouco mais do que isso. Ela e Ruth falavam muito de Rufus, mas só com a ternura com que qualquer pessoa falaria de uma criança. Orgulhavam-se do facto de ser tão inteligente, repetiam as coisas engraçadas que dizia, e por causa disto Hope sentia que o conhecia tão bem agora como quando brincavam os dois juntos. – Aonde é que ele vai, então? – perguntou. – Passear a cavalo, visitar os amigos. A mamã não gosta nada quando ele não volta a casa à noite. Hope disfarçou um risinho. Pensou que ele queria dizer que o pai se embebedava de tal maneira que caía num lugar qualquer e lá ficava até curar a bebedeira. O pai fizera aquilo um par de vezes e acordara num campo encharcado em orvalho. – Suponho que não goste nada de como se sente na manhã seguinte. Rufus fez um ar intrigado, sem perceber o que ela queria dizer. Hope explicou. – Não me parece que o papá fique a dormir num campo – disse Rufus, parecendo chocado por Hope ter sequer sugerido semelhante coisa. – Acho que vai para Bath. Uma vez ouvi a mamã perguntar-lhe se tinha ido a uma casa de putas! Sabes o que é isso? Hope sabia o que era uma puta, ouvira Albert usar a palavra algumas vezes e perguntara a Nell o que significava. Nell explicara-lhe que o verdadeiro significado era uma mulher que deixava um homem deitar-se com ela a troco de dinheiro. Mas apressara-se a acrescentar que Albert a usava para se referir a qualquer mulher que, na sua opinião, fosse demasiado viva ou namoradeira. – É uma casa de mulheres felizes – respondeu, a pensar que talvez fosse melhor não lhe dar a definição de Nell. – Bem, nesse caso não censuro o papá por gostar de lá ir – disse Rufus, com uma expressão amuada –, porque a mamã está sempre infeliz. – Como pode ela estar infeliz? – perguntou Hope. Para ela, Lady Harvey tinha a melhor vida que era possível ter. – Está – declarou Rufus, com alguma indignação por ela não acreditar. – Chora muito porque o papá parece não querer saber dela. Hope tinha dificuldade em acreditar naquilo, uma vez que toda a gente dizia que Lady Harvey e Sir William tinham um casamento de amor. Mas a verdade era que as pessoas pensavam que Nell e Albert também tinham, e ela sabia pessoalmente como não era verdade, e a desgraça que podia ser encontrar-se no meio dos dois. – A minha mãe costumava dizer que todos os casais se zangam de vez em quando – disse, tentando oferecer um pouco de conforto, pois era evidente que aquilo o perturbava. – Por isso não te preocupes com eles. E além do mais não tarda vais para o colégio. – Não quero ir-me embora – respondeu ele, sombrio. – Sei que vou detestar. Voltas a encontrar-te aqui comigo? Gosto de estar contigo.


Hope pensou que talvez fosse o medo de ir para o colégio que estava na raiz de todas as preocupações de Rufus, e que talvez também ele se sentisse um pouco só. – Só posso encontrar-me contigo às quartas-feiras – disse, com um sorriso. – Mas é melhor não dizeres nada a ninguém.

Albert saiu para a taberna de Chelwood mal Hope chegou a casa, sem sequer se deter para lhe ralhar por ter chegado tarde, pois jantara na mansão. Passara a fazê-lo com muita frequência porque Martha, a nova cozinheira, o enchia de mimos. Nell dizia, a rir, que ele estava apaixonado por Martha, apesar de a nova cozinheira ter passado há muito os quarenta, ser gorda e ter dentes podres. Por mais ridículo que fosse, Albert parecia apreciar a infindável admiração de Martha pelo seu trabalho no jardim, a sua veneração e, claro, os seus cozinhados. Uma vez que Nell só chegaria a casa bastante mais tarde, Hope sentou-se no degrau da porta das traseiras a comer um pedaço de pão com queijo. Estava uma bela tarde, ainda quente e amenizada por uma ligeiríssima brisa, com o ar repleto do cheiro do feno acabado de cortar. Era o seu lugar preferido, porque Lord’s Wood ficava-lhe à direita, e à esquerda havia hectares de campos, e mesmo em frente erguia-se a grande casa, no fim do caminho de acesso ladeado por árvores. O sol punha-se e a mansão ganhava tons de alperce maduro. Estava demasiado longe para ver as roseiras, mas Nell dissera-lhe naquela manhã que as trepadeiras tinham chegado à altura das janelas de Lady Harvey e enchiam o quarto com o seu aroma. As coisas que Rufus lhe dissera a respeito dos pais ocupavam-lhe o pensamento e faziam-na recordar os tempos em que brincava com ele. Na altura, não tomara consciência do enorme abismo que havia entre a sua família e a dele. Apesar de se maravilhar com os brinquedos de Rufus, com as ricas mobílias e os belos vestidos de Lady Harvey, sentia-se envolvida no mesmo ambiente de ternura que conhecia em casa. O que lhe dava a ideia de que Sir William e Lady Harvey não eram diferentes dos seus próprios pais. Agora sabia como estivera enganada. Os ricos eram uma raça completamente diferente dos trabalhadores e a ternura que sentia em Briargate não vinha de modo nenhum dos donos da casa. Vinha dos criados, três dos quais eram membros da sua família. Não fora Lady Harvey que criara Rufus, fora Ruth. Ele só passava uma hora por dia com a mãe. Com Nell a entrar e sair do quarto das crianças todo o dia, e James a levá-lo a dar passeios no seu pónei, Rufus sentia-se provavelmente mais próximo dos Renton do que dos pais. Era em parte por isto, compreendeu, que Rufus queria voltar a encontrar-se com ela, ainda que ele próprio não o soubesse. Enquanto os Renton procuravam em Briargate uma subsistência, Rufus procurava nos Renton carinho e afeto. Nunca tinha visto Nell ou Ruth infelizes, nem de ar azedo como Miss Bird. James devia brincar e puxar por ele como um irmão mais velho. Quanto a ela, talvez imaginasse que porque fora a sua primeira companheira de brincadeiras, podia agora ser sua amiga, confidente e aliada. Suspirou, sabendo muito bem que Nell não aprovaria encontros secretos com Rufus. A irmã estava sempre a recordar-lhe «o seu lugar». Hope sabia que se tentasse explicar-lhe que Rufus se sentia triste e sozinho, Nell responderia que estava a dizer disparates. Nunca acreditaria que um rapaz que tinha tanto não pudesse ser outra coisa senão gloriosamente feliz.


Ao ver Nell descer o caminho, Hope pôs-se de pé e correu ao encontro dela. Mesmo à distância conseguia ver que a irmã parecia muito cansada e coxeava um pouco, como se lhe doessem os pés. – O Albert está? – perguntou Nell, quando Hope chegou junto dela. – Não, foi para a taberna – respondeu Hope. Nell assentiu com a cabeça, como se isso a alegrasse. – Como estavam o Matt e a família? Hope repetiu tudo o que conseguiu lembrar-se do que Amy dissera durante a tarde. – Pareceu-me que talvez esteja outra vez à espera de bebé. Não disse que estava, mas tinha aquele ar. – Achei o mesmo no domingo, na igreja – disse Nell, pensativa. – E o Joe e o Henry, viste-os? Hope não ia preocupar Nell admitindo que tinha visto os rapazes a pescar junto à ponte quando deviam estar a trabalhar na fundição de cobre em Woolard. – Vi-os à distância – disse, porque essa parte era verdade, e se Nell optasse por pensar que fora na fundição, poupar-lhe-ia preocupações desnecessárias.

Quando entraram, Hope fez uma chávena de chá para Nell e foi buscar uma bacia com água para que pudesse pôr os pés de molho. Depois sentou-se ao lado dela e perguntou-lhe quem tinha estado a jantar naquela noite em Briargate. – Os Warren de Wick Farm e os Metcalf de Bath – informou Nell. – Lady Harvey usou o vestido novo de cetim azul e estava encantadora. – Achas que estava feliz? – arriscou Hope. – Esta noite parecia estar – disse Nell, a agitar os dedos dos pés na água quente e a suspirar de prazer por poder enfim sentar-se. – Mas parece sempre mais animada quando o senhor está em casa. – Então fica infeliz quando ele não está? – continuou Hope, a sondar. – Muitas perguntas fazes tu – riu Nell. – Sim, fica. Às vezes, quando percebo que esteve a chorar, dá-me vontade de lhe dizer que, por mim, ficaria feliz como um porco num lameiro se o Albert se fosse embora. Hope soube, por aquele comentário, que a irmã tivera um dia difícil, pois apesar de o ter feito num tom de ligeireza, como se estivesse a brincar, aquilo era, pelos seus padrões habituais, uma enorme indiscrição. Nell nunca admitira abertamente que estava arrependida de ter casado com Albert, mas Hope vialho todos os dias no rosto. Ele podia tratá-la melhor agora, mas nunca mostrava a mais pequena ponta de afeto, e Nell já nem sequer tentava entabular conversa. Embora continuasse a desempenhar todas as tarefas que lhe competiam como esposa – limpar, lavar, remendar –, deixara de vir a casa durante o dia para lhe fazer o jantar, porque ele passara a comer na mansão. Era como se ela fosse sua criada, porque Hope nunca o vira beijá-la ou abraçá-la desde o dia em que tinham casado. Quando, meses antes, Hope começara a ter as suas regras, Nell explicara-lhe o que aquilo significava, e dissera-lhe que em breve ia começar a suspirar por um namorado. Avisara-a para que não deixasse nenhum homem ou rapaz tomar liberdades com ela, pois o resultado seria um bebé. – És tão bonita que não faltarão homens a querer-te – disse, severa. – Mas não te deixes enganar, Hope, o homem que te amar de verdade esperará pelo casamento. – Calara-se por um instante, e então, de repente, pegara na mão de Hope e apertara-a com força. – Mas antes de aceitares casar,


certifica-te de que és tu que ele quer, o teu corpo, a tua mente, tudo o que faz parte de ti. Porque há homens que não podem amar de verdade, são pessoas vazias que escondem o mal que os aflige tendo uma mulher a seu lado. Hope soubera então que era assim que Nell via Albert, como uma pessoa vazia incapaz de amar. E também suspeitava de que não tinham feito aquilo que se fazia para ter bebés, ou de certeza Nell já teria tido um.

Miss Bird, a precetora de Rufus, deixou Briargate em finais de junho para aceitar um lugar em Bristol. Ruth e Nell ficaram muito contentes por a verem partir, porque nunca tinham gostado dela, mas manifestaram alguma preocupação a respeito de como Rufus ia passar os seus dias até ir para o colégio, em setembro. Rufus detestava sair e fazer visitas com a mãe, mas sentia-se aborrecido e sozinho em casa sem ninguém com quem brincar. Gostava de sair a cavalo com o pai, mas mesmo quando estava em casa era raro Sir William levá-lo consigo. James tentava arranjar tempo para passear com ele de vez em quando, mas desde que o seu ajudante deixara o lugar tinha sempre demasiado que fazer. Hope justificava os seus encontros secretos semanais com Rufus dizendo a si mesma que estava a entretê-lo para que não se sentisse tão sozinho. Primeiro ia ver Matt e Amy, mas saía cedo para poderem passar mais tempo juntos. O rosto como que se lhe iluminava quando a via e ele dizia sempre que as quartas-feiras eram o seu dia preferido. Por vezes, levava presentes para ela: caramelos, chocolates, coisas que Hope raramente tinha oportunidade de comer. Internavam-se no bosque, com frequência até ao grande lago cercado por arbustos e canaviais, e nos dias muito quentes descalçavam as botas e as meias e chapinhavam na água. Hope descobriu que se sentia tão à vontade com Rufus como com os membros da sua família, mas ele era muito mais gentil e calmo do que os seus irmãos. Não se importava se ela quisesse apenas sentar-se ao sol e conversar, não a arrastava para jogos violentos, como os irmãos faziam. Apesar de ao princípio ter pensado que estava só a ser bondosa para com um rapaz solitário, depois do segundo encontro descobriu que estava tão ansiosa por vê-lo como ele por a ver a ela. Acabou por perceber que também se sentia sozinha, mas que por estar rodeada de pessoas durante todo o dia nunca tinha dado por isso. Nell, Ruth e todos os membros do pessoal de Briargate eram muito mais velhos do que ela; só falavam de trabalho e dos mexericos da aldeia. Rufus era muito inteligente. Sabia de todo o género de coisas de que ela não sabia nada; sítios como a Índia, a África e a América. Lia livros a respeito desses lugares e falava-lhe dos costumes e dos animais selvagens. Dizia que queria ser explorador e descobrir terras que nenhum homem branco tivesse alguma vez visto. Até a fez desejar poder ir com ele. Em troca, Hope falava-lhe das pessoas no meio das quais crescera, e contava-lhe histórias engraçadas a respeito delas. – Bem gostava de conhecer pessoas divertidas – disse ele, com um ar triste, num dia em que ela estivera a contar-lhe como Jack Carpenter, de Nutgrove Farm, não conseguira apanhar o seu porco premiado quando ele se escapara. Pusera-se a gritar e a agitar um grande pau para tentar enxotá-lo na direção da quinta, mas a dada altura o porco carregara contra ele e atirara-o para dentro do lago. – A verdade é que gostava de conhecer pessoas de todos os géneros. Sabias que este ano só falei com


três pessoas além das que vivem em Briargate? Duas delas foram Miss Lacey e Miss Franklin, as duas velhotas que por vezes vão visitar a mamã. Foram muito aborrecidas, só falavam de como eu estava crescido. A outra pessoa foi o ferrador, quando fui com o James ferrar os cavalos. E esse só falava em resmungos. – É mais uma boa razão para ires para o colégio – disse Hope. – Terás muito mais pessoas com quem falar do que aqui, e quando voltares poderás contar-me coisas divertidas a respeito delas. * À medida que as semanas passavam, as conversas entre os dois tornaram-se pouco a pouco mais pessoais. Hope contou-lhe como as duas irmãs tinham morrido de escarlatina, e como os pais tinham morrido de tifo. Nunca mais voltara a falar com ninguém a respeito do assunto depois do funeral, nem sequer com Nell, mas a Rufus contou tudo: como tinha sido horrível, o medo que sentira, e como ficara zangada com a mãe por ela ter desistido e morrido quando soubera que o marido já partira. Rufus ficou horrorizado por nunca lhe terem dito como os pais dela tinham morrido. – Como pôde a Ruth tomar conta de mim e não me dizer nada? – perguntou, indignado. – Ou a Nell, ou até a mamã? Porque foi que não me disseram? Eu podia ao menos ter dito que tinha pena e apanhado algumas flores do jardim para pôr na sepultura deles. – Eras muito pequeno. As pessoas não dizem às crianças esse género de coisas – respondeu Hope, mas ficou emocionada por ele desejar ter podido fazer um gesto qualquer. – A mamã e o papá fizeram alguma coisa? – Bem, deixaram-me vir ajudar na cozinha. Os olhos de Rufus escureceram. – Mais nada? Mas a Ruth foi minha ama desde que eu nasci. A Nell está connosco há quase dezassete anos... com certeza a mamã podia ter feito mais qualquer coisa? – Que podia ela fazer, Rufus? – Hope encolheu os ombros. – Eles são fidalgos ricos, nós somos apenas trabalhadores. E eu não fiquei ao abandono, fui viver com a Nell e o Albert. – Mas a mamã estava sempre a falar de como tu eras bonita e esperta – disse ele, confuso. Hope percebeu então que por muito que Rufus soubesse a respeito do resto do mundo, não fazia a mínima ideia de como os pobres viviam. Começou a explicar uma parte da questão: as casas pequenas com soalhos nus e muito pouca mobília, como nunca tivera uma verdadeira cama, só um saco de serapilheira cheio de palha. Contou-lhe como a maior parte das crianças eram postas a trabalhar em qualquer coisa mal começavam a andar, quase, nem que fosse só enxotar as aves das searas. – Eu tive a sorte de ir à escola do reverendo Gosling durante quatro anos para aprender a ler e escrever – continuou. – Nenhum dos meus irmãos teve tanto tempo, e a maior parte das pessoas da aldeia nunca aprendeu. – Mas isso não é justo – explodiu ele. – Toda a gente devia ter as mesmas oportunidades. – As coisas são como são – disse Hope, repetindo o que Nell lhe dizia sempre que ela se queixava de injustiças. Eram horas de ir para casa, e quando deixou Rufus na orla do bosque ele atravessou a tapada com um ar muito triste e pensativo.


Em meados de agosto, Lady Harvey recebeu uma carta da irmã mais nova a dizer que a mãe estava muito doente e a pedir-lhe que fosse imediatamente. Lady Harvey quis que Nell a acompanhasse, mas achou que Rufus devia ficar em Briargate uma vez que em setembro entraria para o colégio em Wells. Apanhariam o comboio da Great Western Railway em Bristol, e Hope ficou cheia de inveja porque tinha visto fotografias do comboio e parecia ser uma maneira de viajar muito rápida e excitante. Por outro lado, preocupava-a a perspetiva de ficar sozinha com Albert na casa do guarda-portão, mas Nell disse que ia falar com Baines e pedir-lhe que a deixasse dormir em Briargate desde que ela fosse todos os dias fazer a limpeza e arrumar as coisas para Albert. Tinha estado muito calor nas últimas semanas e quando, às cinco horas da manhã seguinte, Nell e Hope saíram de casa, o sol já estava quente. – Por favor, porta-te bem enquanto eu estiver fora – pediu Nell, ansiosa, enquanto subiam o caminho de acesso carregando a mala entre as duas. – Não acredito que volte tão cedo. Mesmo que a velha senhora morra já, o funeral ainda vai demorar alguns dias. E não podemos partir logo a seguir, não seria decente. – Não vai haver problema – declarou Hope, sabendo muito bem que Nell se preocupava com ela. – A Ruth e o James estão aqui, e o Matt mesmo ao fundo da estrada. E, de qualquer modo, não vai haver muito que fazer com o senhor também fora. Sir William estava em Londres havia já algum tempo, mas Nell dissera que Lady Harvey lhe tinha escrito a pedir que fosse ter com ela à casa da família no Sussex. – Vai ser um horror viajar até tão longe com este calor – resmungou Nell. Hope riu. – O comboio viaja tão depressa que estará fresco com as janelas abertas. Vais gostar, eu sei que sim. É melhor do que ficar aqui em Briargate a ver o mundo passar. – Não devias falar assim sabendo que a mãe de Lady Harvey está a morrer – disse Nell, num tom seco. Hope queria retorquir que Lady Harvey não dera mostras de grande solidariedade quando a mãe dela morrera, mas não o fez; Nell era cega quando se tratava da patroa. Hope despediu-se da irmã com um beijo, na cozinha, e agarrou-se a ela com um pouco mais de força do que era costume. – Quem é que está a ser uma bebé? – murmurou Nell, numa voz cheia de ternura. – Pensei que ias ficar contente por me ver pelas costas. – Vou ter saudades tuas – admitiu Hope, a engolir as lágrimas. Nell não se ausentava com Lady Harvey desde que os pais tinham morrido, mas agora ia, e Hope tinha medo. Nell afastou-lhe uma madeixa de cabelo da testa e empurrou-lha para debaixo da touca. – Alguma vez te disse o que significas para mim? – perguntou num murmúrio, muito consciente de que Martha e Baines estavam ali perto. Hope abanou a cabeça. – Tudo! – disse Nell. – Desde que te peguei pela primeira vez quando eras uma bebé. Portanto vê se te portas como deve ser. Não quero voltar aqui e descobrir que caíste em desgraça.

Depois de Lady Harvey partir para o Sussex, Briargate pareceu mergulhar numa espécie de torpor.


Sem refeições para preparar para a sala de jantar, sem lareiras para acender, menos limpezas, lavagens de roupa e todas as incontáveis obrigações de que estavam livres agora que nem o senhor nem a senhora se encontravam em casa, os criados podiam relaxar. Martha falou de fazer geleia com as groselhas que restavam no jardim, mas não parecia com pressa de começar. Até Baines se instalou na sala dos criados para ler o jornal. Mais tarde nessa manhã, Martha mandou Hope ao pomar colher ameixas. Hope levou o seu tempo, detendo-se no pequeno socalco por cima do pomar para saborear a beleza do cenário. Todas as árvores de fruto estavam carregadas: voluptuosas ameixas roxas, pêras verde-pálidas e refulgentes maçãs vermelhas, tudo tão perfeito e luxuriante. Gordos abelhões zumbiam preguiçosos ao sol, um tordo cantava a alegria de viver e o ar estava carregado do cheiro da fruta e da alfazema sob os seus pés. Para lá do pomar, descendo até ao fundo do vale e subindo pela vertente oposta, grandes manchas de trigo dourado ondulavam, sedutoras, sob o sopro da brisa ligeira. A ceifa tinha começado; Hope via os lampejos prateados do sol a refletir-se nas foices enquanto os homens avançavam numa fila ordenada através dos campos. Matt havia de estar entre aqueles homens que pareciam pequenos pontos, talvez Joe e Henry também, e labutariam até que o sol se pusesse, a rezar para que o bom tempo se mantivesse até toda a colheita estar a salvo nos celeiros. Hope comeu algumas ameixas enquanto enchia o cesto. Eram quentes e sumarentas, tão doces que a deixavam quase delirante de prazer, e ficou contente por se ter lembrado de pôr o avental que usava para os trabalhos mais pesados, porque o sumo escorria-lhe em rios pelo queixo e manchava-o de um vermelho profundo, carregado. Não se apressou a voltar, detendo-se com frequência para admirar as velhas e majestosas árvores que tinham sido plantadas no tempo em que Briargate fora construída, e os novos canteiros de flores que Albert criara em anos mais recentes. Ao contornar um grande castanheiro-da-índia, viu-o a cortar a erva que crescia à volta de alguns arbustos e deteve-se, de súbito impressionada ao reparar como era belo com o rosto e os braços bronzeados e brilhantes de suor, o espesso cabelo negro, o nariz bem proporcionado e o corpo musculado mas gracioso. Apesar de em condições normais ter medo dele, ali não lhe parecia ameaçador porque estava em perfeita harmonia com o que o rodeava, manejando a gadanha com desenvolta precisão. – O jardim está maravilhoso – disse, nervosa, à espera de que ele a mandasse seguir o seu caminho. – Aquele canteiro é tão bonito! Estava a apontar para um canteiro onde margaridas de pé alto e umas flores estreladas e roxas cujo nome ignorava se erguiam atrás de uma massa de malmequeres. Albert interrompeu o que estava a fazer e dirigiu-lhe um dos seus raros sorrisos, mostrando os dentes muito brancos. – Sim, esse ficou muito bem – respondeu, com surpreendente simpatia. – Mas o resto já passou o seu melhor. Hope aproximou-se dele e ofereceu-lhe uma ameixa. – Prova uma, são deliciosas. Albert olhou para o avental coberto de nódoas vermelhas e Hope convenceu-se de que ia fazer mais um dos seus comentários sarcásticos, mas ele limitou-se a pegar na ameixa e dar-lhe uma dentada. Sorriu quando o sumo jorrou.


– Hum – disse, apreciador. – O melhor é comê-las todas antes que as vespas as descubram. Encantada por, para variar, ele não estar a ser desagradável, Hope ofereceu-lhe outra. – Fizeste um excelente trabalho neste jardim – disse. Ele pareceu satisfeito com o elogio, mas não disse nada. – É preciso ter olho de artista para escolher cores e formas que ficam tão bem juntas – continuou ela, ainda a medo. Ele sorriu ao ouvir isto e apoiou-se no cabo da gadanha para limpar o suor da testa com um pedaço de pano. – Deves estar cheio de calor – disse Hope. – Queres que te traga qualquer coisa para beber? – Estou quase a acabar, já vou para casa – respondeu ele. – Mas obrigado por teres perguntado. Hope afastou-se, mas com um calorzinho no peito por sentir que tinham enfim uma relação. Pensou que quando, à tarde, fosse à casa do guarda-portão lhe deixaria algumas ameixas numa tigela, e talvez pusesse algumas flores em cima da mesa. Nell ficaria tão contente se, quando voltasse a casa, descobrisse que os dois estavam a dar-se melhor.

Dez dias mais tarde, Ruth entrou na cozinha vinda do pátio das cavalariças, com um ar preocupado. – Não consigo encontrar o Rufus – disse. Martha e Ruth estavam a preparar o jantar. – Estava com o James nas cavalariças – disse Martha. – Pelo menos estava ainda há pouco, porque os ouvi rir. – Agora não está. O James disse que pensava que ele tinha voltado para dentro. Mas em casa não está. Procurei-o por todo o jardim. Não sei onde mais procurar. – Há de acabar por aparecer, Ruth, já não é nenhum bebé – disse Hope. – Mas eu sou responsável por ele e a mãe não está cá – argumentou Ruth, com a voz a tremer de ansiedade. Ainda na véspera Ruth afirmara que não se importaria se o senhor e a senhora nunca mais voltassem, porque o tempo tinha-se mantido quente e soalheiro e os criados podiam relaxar, fazendo apenas o mínimo indispensável. Para ela, estavam a ser umas férias quase perfeitas, porque mal a mãe partira Rufus declarara que queria comer com os criados e agora, passada uma semana, só ia ao quarto das crianças para dormir. Levantava-se de manhã cedo para ajudar James a tratar dos cavalos e mais tarde ia à cozinha oferecer os seus préstimos. A sua natureza amável e o evidente prazer que lhe causava ser admitido no mundo dos criados afetava toda a gente. Toda a normal e rígida estrutura do dia tinha-se desmoronado, o trabalho era feito de manhã cedo ou à tarde, quando estava menos calor, as refeições eram muito mais simples. Tinham posto uma mesa e cadeiras no pátio das cavalariças e até Albert, que regra geral só entrava para uma bebida, que despejava de um trago e voltava a sair, se sentava agora com os outros e participava nas conversas. Hope não se lembrava de alguma vez ter ouvido tanto riso em Briargate. Certa tarde, Baines tinhalhes ensinado, a ela, a Rufus e a Ruth, um novo jogo de cartas, numa outra Rose ensinara-os a todos a fazer bonecos de palha. Mas do que Hope mais gostava era de ela e Rufus poderem estar juntos. Ao princípio, tinham tido o cuidado de agir como se mal se conhecessem, mas à medida que os


dias passavam ninguém parecia reparar, ou querer saber de qualquer familiaridade excessiva. Baines chegara a fazer notar, numa manhã de domingo quando iam a caminho da igreja, que Hope devia caminhar sossegada com os outros em vez de correr à frente com Rufus como uma estouvada, mas fora apenas uma maneira gentil de lhe recordar o seu lugar, não uma verdadeira admoestação.

– Deve estar escondido por aí, à espera de que um de vocês passe por perto para o assustar – disse Hope. – Vou procurá-lo. Saiu apressada da cozinha, porque tinha quase a certeza de saber onde Rufus estava, embora não imaginasse o que fora ele para lá fazer quando eram quase horas do jantar. Uma vez passada a cerca da tapada, pegou nas saias e correu para o bosque. Na quarta-feira Baines deixara-a sair às onze da manhã. Matt e Amy tinham estado ocupados com a ceifa, de modo que só estivera com eles um par de horas e encontrara-se com Rufus no bosque muito mais cedo do que era habitual. Haviam descoberto um velho barco escondido nos canaviais à volta do lago e passado a maior parte do tempo a tentar tirá-lo de lá. Rufus falara, entusiasmado, de levar ferramentas para tentarem consertá-lo e pô-lo a flutuar. Calculou que fosse isso que estava a fazer naquele preciso momento, na esperança de a surpreender e sem se aperceber de que começava a fazer-se tarde. Estava muito mais fresco no bosque, e os trilhos tão bem definidos no início do ano estavam agora cobertos de mato rasteiro e silvas. Hope conhecia cada centímetro daquele bosque, mas havia lugares onde era difícil passar, e com a pressa as silvas prendiam-se-lhe no cabelo e arranhavam-lhe o rosto e as mãos. Ia chamando por ele enquanto avançava, exortando-o a aparecer porque calculava que Ruth não tardaria a mandar James ou Albert procurá-lo para aqueles lados. Mas Rufus não respondia, e quando ela se imobilizou por um instante, à escuta, a única coisa que ouviu foi o canto das aves. Quando chegou ao lago, estava ofegante e cheia de calor. Chamou-o mais uma vez e escutou, mas não ouviu nada. Quase toda a superfície do lago estava coberta por ervas aquáticas e nenúfares, e também por uma nuvem de mosquitos que a atacaram mal se aproximou da água. Não via o barco, que estava enfiado no meio do canavial na margem oposta, mas se Rufus lá estivesse conseguiria com certeza vê-lo ou ouvi-lo. Ficou ali parada alguns instantes, hesitante quanto ao que fazer a seguir. A voz da razão dizia-lhe que se enganara ao pensar que ele estaria ali e que o melhor era regressar a Briargate, mas uma sensação de frio no estômago incitava-a a contornar o lago e certificar-se. Tinham encontrado o barco ao aproximarem-se do lago pelo outro lado, mas era muito difícil dar a volta a partir do sítio onde estava naquele momento. No inverno, o ribeiro que alimentava o lago transformava-se muitas vezes numa furiosa torrente; agora estava reduzido a um fio de água. Mas os caniços, as ervas e as silvas tinham coberto a lama ainda húmida, obrigando-a a escolher bem o seu caminho pelo meio de tudo aquilo. Ouvia, à distância, Albert e James a gritarem o nome de Rufus, avançando na direção do bosque, pelo que tinha de se apressar, porque se a encontrassem ali ia ter muitas explicações a dar. Chegou finalmente ao barco e viu que estava meio voltado de lado, com a quilha apontada na sua direção. Soube que Rufus tinha ali estado, porque na quarta-feira o barco ficara direito. O medo contraiu-lhe as entranhas, porque sentiu que ou ele entrara na água para tentar deslocá-lo,


ou escorregara na lama do canavial enquanto se esforçava por libertá-lo. Rufus não sabia nadar, tinha-lho dito da primeira vez que ali haviam estado. E mesmo um bom nadador teria dificuldade numa água tão cheia de plantas. Despojou-se das botas, do vestido, do saiote e das meias e, vestindo apenas a camisa interior, entrou na água e contornou a proa do barco. Foi então que o viu, completamente submerso com exceção da cabeça que parecia repousar nas canas. Tinha um golpe feio na testa. O pânico fê-la esquecer que ignorava a profundidade do lago naquele ponto e também não sabia nadar. De súbito, não havia nada debaixo dos seus pés, e afundou-se na água. Agitou os braços e as pernas e conseguiu voltar à superfície e aguentar-se o tempo suficiente para se agarrar o lado do barco. A tossir e a cuspir água, foi avançando ao longo do costado até chegar junto de Rufus. O aspeto dele recordou-lhe o do pai quando o encontrara morto. – Rufus! – chamou, enquanto lhe atirava água para a cara. – Não podes estar morto! Acorda e fala comigo! Mas não houve resposta, e ao ouvir James e Albert a chamar algures ali perto, inclinou a cabeça para trás e gritou-lhes que fossem até ao lago. Enquanto ouvia os passos a avançarem na sua direção, os ramos a partirem-se e as aves a levantarem voo assustadas, passou o braço livre por baixo do pescoço de Rufus e puxou-o para si. Todos os avisos que recebera dos pais e dos irmãos mais velhos a respeito de brincar perto da água acudiram-lhe à memória naqueles longos momentos enquanto esperava que James e Albert a alcançassem. Devia ter passado aqueles avisos a Rufus. Ele era mais novo, e o que podia saber de perigos se passava toda a sua vida na segurança de um quarto ou a passear de coche com a mãe? Tinha-o levado até ali. Era responsável pela sua morte. A soluçar, continuou a apertá-lo contra si, a beijar-lhe o rosto, a pedir-lhe perdão por não o ter protegido. Mal sentia o frio da água ou os mosquitos que a picavam, estava totalmente concentrada no doce rosto dele, e no que tinham acabado por tornar-se um para o outro. – Hope! – Era James, a chamá-la do outro lado do lago. – Onde estás? – Aqui! – gritou em resposta. – O Rufus caiu perto de um barco velho escondido entre as canas. Estou a segurá-lo. Houve um forte chapão quando James mergulhou, e de repente ela viu-o nadar por entre o emaranhado de nenúfares, com o cabelo escuro molhado e puxado para trás, e os olhos a espelharem o seu próprio terror. – Acho que já está morto – conseguiu ela tartamudear. – Tinha a cara fora de água quando o encontrei, mas bateu com a cabeça. James manteve-se à tona enquanto olhava para Rufus, e de seguida começou a nadar de costas levando o rapaz consigo, a segurar-lhe a cabeça com uma mão de cada lado. – Agarra-te com força, Hope! – gritou. – Já te venho buscar. Hope deixou de o ver, mas pouco depois ouviu a voz de Albert e mais barulhos de chapinhar enquanto os dois homens içavam Rufus para a margem. A espera pareceu-lhe uma eternidade. As vozes de James e de Albert eram abafadas, e pensou que estavam tão perturbados por causa de Rufus que se tinham esquecido dela. O medo e a água fria faziam-na bater os dentes. Não seria apenas ela a ser culpada por aquilo, seriam todos os criados. E no entanto, por muito terrível que isso fosse, a ideia do desgosto de Lady Harvey por perder o filho


era ainda pior. Não conseguia decidir-se a gritar para recordar a James que continuava ali, e estava demasiado assustada para tentar chegar a águas menos profundas pelos seus próprios meios. Mas de repente James estava de volta, a segurá-la como tinha segurado Rufus, e dizendo-lhe que estivesse quieta e não se debatesse, ou iriam os dois para o fundo. As grandes mãos de Albert agarraram-na pelas axilas e um instante mais tarde tinha sido tirada da água e estendida na margem ao lado de Rufus. Depois do frio da água, o sol pareceu-lhe muito quente. – Ele está...? – perguntou, mas sentiu-se incapaz de terminar a frase porque James e Albert olhavam fixamente para ela. – Está bem, graças a ti – disse James. – A pancada na cabeça fê-lo perder os sentidos. Mas se tivesse ali ficado muito mais tempo ter-se-ia afundado e afogado. Hope não era capaz de voltar a cabeça e olhar para o amigo; tinha a certeza de que James estava a tentar esconder-lhe a terrível notícia. Mas quando, por fim, os seus olhos pousaram nas pernas e nos pés nus de Rufus e viu um deles mexer-se, ganhou coragem e voltou-se de lado. Albert estava a lavar o ferimento na cabeça de Rufus, que gemia baixinho. – Oh, obrigada, Deus! – exclamou. – Pensei que ele tinha morrido. * James contornou o lago para ir buscar as roupas e as botas dela, mas teve de ser ele a vesti-la porque Hope tremia demasiado para o fazer sozinha. Albert pegou em Rufus e levou-o ao colo, enquanto ela e James o seguiam sem uma palavra. O silêncio de James durante o caminho de regresso foi toda a confirmação de que Hope precisava para saber que estava metida em grandes sarilhos. Ia de certeza ser despedida, porque era culpada mesmo que Rufus sobrevivesse. Nunca precisara tanto de Nell, e apesar de Albert ainda não lhe ter caído em cima, tinha a certeza de que era só por estar demasiado ocupado a cuidar de Rufus. Quando chegassem a Briargate, era mais do que certo que ia dar-lhe uma sova.

Na cozinha, Martha, Ruth, Baines e Rose juntaram-se à volta de Rufus. Tinham-no embrulhado numa manta, dando-lhe também uma bebida quente, e Baines estava a dizer-lhe que pregara um susto enorme a toda a gente. – Foi a Hope que o encontrou – declarou James, quando Ruth começou a elogiá-lo. – Despiu-se e entrou na água para lhe chegar. Se não lhe tivesse mantido a cabeça à tona, ele ter-se-ia afogado. É uma rapariguinha muito corajosa, nem sequer sabe nadar. De repente, todas as atenções estavam voltadas para ela, mas apesar de aquela parte da história ser verdade, Hope não podia aceitar a admiração deles. Sabia que era apenas uma questão de minutos antes de Rufus contar tudo a respeito dos seus encontros secretos e de como tinham descoberto o barco. Martha pôs-lhe uma chávena de chá nas mãos que tremiam e afastou-lhe da cara uma madeixa de cabelo molhado. – Como soubeste onde procurá-lo? – perguntou. – Não sei – choramingou Hope.


Ruth pôs vários tachos de água ao lume para preparar um banho para Rufus, e Hope percebeu como estava abalada ao notar-lhe a palidez do rosto e os movimentos sacudidos. Deixou Baines pôr um penso na testa de Rufus, mas segurou a mão do rapaz entre as suas e perguntou-lhe numa voz queixosa o que tinha ido fazer para o bosque. Ao ouvir isto Hope sentiu-se verdadeiramente mal, pois apercebeu-se de que Ruth pensava que o seu lugar estava em risco; era a ama, e deixara o filho dos patrões sair sozinho. De repente, Hope estava a soluçar; conseguia aguentar o castigo que merecera, mas não a ideia de Ruth ou qualquer dos que ali estavam ser punido por uma coisa que ela fizera. – Porque está a Hope a chorar? – perguntou Rufus, numa voz alta e clara. – Porque pensou que o menino tinha morrido – respondeu Baines. – Podia ter-se afogado, se não fosse ela. – Deixem-me vê-la – pediu Rufus e, afastando Ruth, aproximou-se de Hope, ainda embrulhado na sua manta. – Não chores, Hope – disse, e usou uma ponta da manta para lhe limpar os olhos. – Olha, estou ótimo. Foste muito esperta por me teres encontrado, e peço desculpa por te ter assustado. – Olhou-a nos olhos enquanto falava, com um ligeiro sorriso a brincar-lhe nos lábios. – A mamã vai ficar-te muito agradecida por me salvares a vida, porque tenho a certeza de que a Ruth vai ter de lhe contar o que eu fiz. Mas eu estava tão excitado por ter encontrado um barco velho. Queria levá-lo para a água e brincar nele. Não parei para pensar que podia ser perigoso. Hope sentiu formar-se-lhe um nó na garganta, pois soube que ele estava a tentar dizer-lhe que os seus encontros secretos permaneceriam secretos. – Isso é tudo muito bonito, menino Rufus – disse, severa. – Mas a sua mãe vai de certeza culpar a Ruth por não o ter vigiado com mais atenção. Ela está com medo de ser despedida. – Nesse caso, talvez o melhor seja não contarmos nada à mamã. – Olhou em redor para os outros criados. – Posso ter arranjado este galo na cabeça por ter caído. E é capaz de até já ter desaparecido quando ela voltar. Voltou-se e dirigiu-se a Ruth, passou-lhe os braços pela cintura e apoiou a cabeça contra o peito dela. – Desculpa ter-te assustado, Ruthie – disse. – Prometo não voltar a fazê-lo. Perdoas-me? Hope teve vontade de rir, porque ele tinha o mesmo encanto fácil do pai. – Vai tomar um banho, meter-se na cama e ficar lá – disse Ruth, mas embora fosse evidente que a sua intenção era fazer parecer que aquilo era um castigo, o tremor da sua voz traduzia apenas alívio e preocupação. – E não volta a sair da minha vista, ou fecho-o à chave no quarto das crianças.

– Muito bem, Hope. Hoje evitaste uma tragédia – disse Baines enquanto Rose levantava a mesa do jantar. Ruth tinha levado Rufus para cima e Albert fora para casa, de modo que estavam sozinhos na sala dos criados. – Ainda bem que o menino vai para a escola em breve. Está a precisar da companhia de outros rapazes e de alguma disciplina. Hope baixou a cabeça. Tinha a nítida impressão de que Baines sabia que o seu envolvimento com Rufus ia mais longe do que ela dava a entender e que ele estava a avisá-la de que tinha de acabar. – Vem aí uma trovoada – disse ele, pondo-se de pé e apontando para a janela. – Sinto os trovões no ar. Talvez seja melhor assim... este calor tornou-nos a todos um pouco irresponsáveis.


CAPÍTULO 7

1847

H

ope estava a bater claras de ovo à mesa da cozinha numa manhã de novembro quando Martha regressou da sua reunião semanal com Lady Harvey para decidir as refeições da semana seguinte. – A senhora parte amanhã de novo para o Sussex – anunciou, com ares de importância. Hope ergueu a cabeça ao ouvir a notícia inesperada. – Desta vez é o pai que está doente? – perguntou. – Nunca mais ficou bom desde que a mulher morreu – disse Martha, como se o conhecesse pessoalmente. – Aquele pobre homem sozinho num casarão tão grande! Hope engoliu um comentário sarcástico. Martha era uma boa mulher, mas Hope achava que devia oferecer a sua solidariedade aos que na verdade a mereciam. Squire Dorville tinha um vastíssimo pessoal a cuidar dele e da sua propriedade, enquanto a menos de dois quilómetros de distância havia famílias inteiras a viver com uns poucos xelins por semana. Alimentar os filhos era uma luta de todos os dias e se adoeciam não tinham dinheiro para chamar um médico. – A senhora disse se a Nell também vai? – perguntou. – Claro que vai, a senhora não viaja sem a sua criada – fungou Martha. – Nem sequer aqui, onde os padrões estão a descer um pouco mais de dia para dia. Hope não fez mais perguntas porque achava os modos superiores de Martha muito irritantes. Apesar de ter razão no respeitante à baixa dos padrões em Briargate. Martha não conhecera os velhos tempos, claro, quando havia cerca de quinze criados, mas em anos recentes, quando alguém partia, os que restavam dividiam o serviço entre si. Martha era o único novo membro do pessoal, admitida para substituir a velha cozinheira quando ela morrera. Quando Rufus fora para o colégio em Wells, havia já mais de um ano, aquela situação, que todos aceitavam sem problema porque não era particularmente onerosa, deteriorara-se ainda mais. Um mês depois de Rufus ter partido, Ruth despedira-se, furiosa por a terem convidado a tornar-se criada para todo o serviço. James fora dispensado quando Sir William vendera todos os cavalos menos dois e Ruby saíra para casar. Hope e Nell sentiram imensas saudades dos irmãos, mas tiveram de admitir que tinha sido o melhor para eles. Ruth foi para Bath como governanta de um viúvo com duas filhas de sete e nove anos, e seis meses depois estava casada com ele. Era um canteiro chamado John Pike, e apesar de ter parecido tudo muito repentino, Nell e Hope tinham ido visitar Ruth duas vezes depois do casamento e acharam-na muito feliz. John Pike era um homem bondoso e trabalhador com uma bela casa e as duas filhas tinham ficado encantadas por terem


uma nova mãe. Ainda na semana anterior Ruth escrevera a dizer que estava à espera de bebé, o que fizera as delícias das duas irmãs. Sir William conseguira a James um lugar como encarregado das cavalariças em Littlecote Manor, no Berkshire, talvez por se sentir culpado por ter sido obrigado a fazer cortes. Albert podia cuidar de Merlin e de Buttercup, a égua que puxava a aranha; não se justificava manter cavalos de coche quando podia apanhar o comboio de Bath para Londres. Fossem quais fossem as razões dadas aos criados para os cortes, toda a gente sabia a verdade. Sir William estava com graves dificuldades financeiras. A casa de Londres fora vendida anos antes, e a partir daí começara a haver cada vez menos festas em Briargate. Nell dizia que mal se lembrava de como era fazer os preparativos para um grande jantar ou até para convidados de fim de semana. Lady Harvey passara a examinar as contas da casa. Sugerira a Baines que talvez não precisassem de lareiras acesas em divisões que raramente eram usadas e chocara Martha ao dizer-lhe que devia cozinhar refeições mais simples. Em diversas ocasiões, o negociante de vinhos ou o dono do talho tinham aparecido em Briargate a pedir a regularização de contas, apesar de Baines dar sempre a entender que se tratara de um simples esquecimento. A melancolia de Lady Harvey impregnava a casa, afetando-os a todos. Nell afirmava que a patroa ainda estava de luto pela mãe, e talvez estivesse, mas a verdade é que deixara de sair para fazer visitas ou compras e passava muitas vezes o dia inteiro na cama. Sir William parecia não querer saber de coisa nenhuma. Era raro estar em casa, e quando estava bebia demasiado e discutia com a mulher. Os criados andavam todos demasiado preocupados com a sua própria segurança para se queixarem do trabalho extra que eram agora obrigados a fazer. Albert não resmungou por ter perdido Willy, o seu ajudante, ou por ter passado a desempenhar também as funções de cavalariço e cocheiro. Nell não disse nada a respeito de ter de limpar os quartos do senhor e da senhora, e Hope mordeu a língua quando a mandaram despejar bacios, carregar água para os banhos ou lavar a maior parte da roupa da casa. Era, porém, o leal e paciente Baines que suportava a parte pior dos cortes. Sempre fora o criado pessoal de Sir William, sempre acendera lareiras e engraxara sapatos. Mas agora era pau para toda a obra, desde trabalhos de manutenção até varrer o pátio das cavalariças ou polir os latões da porta quando não havia mais ninguém disponível. Em consequência de todas as suas novas obrigações, Hope deixara de viver na casa do guardaportão com Albert e Nell. Ficara com o antigo quarto de Ruby no sótão, e apesar de ter agora muito mais trabalho, pelo menos quando acabava o dia não tinha de aturar os sombrios silêncios de Albert ou os seus olhares reprovadores. Tinha saudades de Ruth e de James, mas tinha sobretudo saudades de Rufus. Depois do incidente no lago, criara-se uma espécie de ligação especial entre os dois. À medida que o dia da partida para o colégio se aproximava, Ruth e Baines tinham-nos deixado passar cada vez mais tempo juntos. Faziam puzzles no quarto das crianças, jogavam às cartas e inventavam mil e um jogos de adivinhas. Hope percebia que ele estava preocupado com a ida para o colégio; franzia o sobrolho ao reluzente baú novo arrumado num canto do quarto e que Ruth ia pouco a pouco enchendo de roupas, e dizia-lhe que fugiria se não gostasse de lá estar. Mas Hope encorajava-o, dizia-lhe que todos os novos alunos seriam como ele e que em breve faria amigos, e depois distraía-o com uma nova brincadeira. Lady Harvey ainda não regressara quando ele tivera de partir, mas o pai aparecera para o levar na


aranha. Tinham-se juntado todos no caminho de acesso para lhe dizer adeus, e houve lágrimas em todos os olhos enquanto ele, armado de uma falsa coragem, gritava as suas despedidas e fingia estar feliz por ir. Hope convencera-se de que seria influenciado pelos novos amigos e quando viesse a casa para as férias já não havia de querer uma servente de cozinha como companheira. Mas enganava-se; mal regressara a Briargate, pouco faltara para que Rufus descesse direito à cozinha para a ver. Nell e Baines partilhavam a opinião de que era preferível ele estar na cozinha ou ir passear com Hope a ver o pai embriagado, a mãe a chorar e os dois a discutir. Nell suspirava muitas vezes e recordava os tempos felizes em que Rufus era um bebé. Sir William podia estar muitas vezes ausente, na altura, mas quando estava em casa ele e Lady Harvey brincavam juntos com o filho, e o senhor nunca se fechava à chave no escritório para beber. Agora, quando se embebedava, ia muitas vezes à procura de Lady Harvey para arranjar uma discussão com ela. Rose afirmava que por várias vezes tivera de apanhar do chão cacos de chávenas de porcelana e de copos de cristal depois de uma dessas cenas.

– Essas claras vão abater se continuares a batê-las! – exclamou Martha, arrancando Hope ao seu devaneio. – Peço desculpa, não reparei – respondeu Hope, e entregou a tigela com as claras batidas à cozinheira para a sobremesa que estava a fazer. – Pergunto-me quanto tempo irá Lady Harvey estar fora desta vez. Martha encolheu os ombros. – Quem sabe? Mas é melhor que esteja de volta para o Natal, o menino Rufus não vai gostar se não estiver. E esperemos que o Albert consiga chegar a Bath amanhã. As estradas vão estar traiçoeiras. Chovera muito durante os meses de setembro e outubro, e agora havia grandes geadas todas as noites. A colheita naquele ano fora má, e se o inverno também fosse muito frio, todos sabiam que haveria muito sofrimento nas aldeias em redor. Até Matt estava a passar por dificuldades. O sogro morrera no ano anterior, e com a mulher, a cunhada ainda por casar e a sogra para sustentar, além dos três filhos que já tinha, não era fácil manter a cabeça à tona da água. De longe em longe, Hope pensava em tentar arranjar um lugar em Bristol ou em Bath, porque a sua vida ali era só trabalho e mais trabalho, sem companhia da sua idade. James escrevia a falar dos jantares das colheitas e da festa de Natal para os criados em Littlecote, e parecia muito mais divertido estar numa casa grande. Baines, no entanto, aconselhara-a a ficar até se tornar uma cozinheira suficientemente habilitada para se candidatar a um lugar dessa envergadura, porque a maior parte das serventes de cozinha recebiam um tratamento muito mais duro do que aquele a que estava habituada. Por isso ela observava Martha com muita atenção, fazia perguntas a respeito de tudo o que não compreendia, oferecia-se para fazer sozinha alguns pratos e anotava as receitas mais complicadas que a cozinheira usava. Por vezes desejava ser como Martha e Rose, porque as mentes delas não se alongavam para lá de Briargate e dos mexericos locais. Não sabiam ler, e os conhecimentos que tinham vinham de pessoas tão limitadas como elas. Resmungavam muito, sobretudo agora que havia tanta incerteza na casa, mas nenhuma delas parecia ter verdadeira vontade de se mudar.


Hope estava bem consciente de que tinha ainda menos experiência do que elas do mundo para lá de Briargate, mas lia as revistas, os jornais e um ou outro livro que aparecia, sem que se soubesse muito bem como, na cozinha. Sabia que muitos trabalhadores eram suficientemente corajosos para desafiar o governo por causa da injustiça das leis, e que um pouco por todo o país havia motins como o que houvera em Bristol um ano antes de ela ter nascido. Via que não era justo só os detentores de propriedades poderem votar. Os homens eleitos para o Parlamento cuidavam apenas dos seus interesses, e os pobres tinham de desenvencilhar-se sozinhos.

– Vais então acompanhar Lady Harvey? – perguntou Hope mais tarde, quando Nell desceu. Felizmente, Martha estava a conversar com Baines na sala dos criados, pelo que tinham a cozinha só para as duas. – Não faças esse ar sombrio – disse Nell, com um sorriso. – Vai ser só por algumas semanas. – Detesto quando não estás cá. – Hope suspirou. Sentia-se muitas vezes sozinha desde que Ruth e James se tinham ido embora, Mas com Nell longe sabia que ia ficar ainda mais só e isolada. Nell deu uma palmadinha afetuosa na cara da irmã. – Acho que vamos ter de te arranjar um namorado. Não estarias a pensar na tua irmã se estivesses interessada num rapaz. – Tenho tantas ou menos hipóteses de conhecer um rapaz trabalhando aqui como de me tornar rainha – respondeu Hope, macambúzia. Nell fez um ar preocupado, e Hope arrependeu-se no mesmo instante. – Não te preocupes, vou ficar bem – apressou-se a dizer. – Só quero que voltes a tempo do Natal. – Vais de vez em quando à casa do guarda-portão fazer a limpeza para o Albert? – perguntou. – E se eu não conseguir voltar antes de o menino Rufus vir a casa para as férias do Natal, prometes mantê-lo debaixo de olho? Hope assentiu, com um sorriso. Sabia o que Rufus ia pensar daquele pedido. Dizia que Nell o tratava como se ainda tivesse cinco ou seis anos, mas agora era um rapaz desembaraçado com quase treze, e o colégio tinha-o enrijado muito. – E não te aproximes de Sir William quando ele estiver a beber – avisou Nell. – Se ele tocar à campainha, deixa que seja a Rose ou o Baines a responder. – Será que Lady Harvey vai aguentar perder também o pai? – perguntou Hope. Sentia que Nell estava preocupada com qualquer coisa, e pensou que talvez fosse isso. – Penso que sim... não é tão chegada a ele como era à mãe – respondeu Nell. – Mas a morte dele vai arranjar-lhe mais problemas. Hope arqueou uma sobrancelha, numa expressão interrogativa. – Não devia dizer-te isto, sobretudo porque o Squire Dorville ainda nem sequer morreu. Mas Sir William está a presumir que a herança será dividida entre as três irmãs. – E não vai? – Lady Harvey acha que não. O pai não aprova os hábitos esbanjadores de Sir William. Hope sabia muito bem do que Nell estava a falar. O dinheiro da esposa passava a ser do marido, e talvez Sir William estivesse a contar com a herança de Lady Harvey para resolver os seus problema financeiros. Se isso não acontecesse, ficaria furioso. – Nesse caso, nem tu nem Lady Harvey têm muitos motivos para voltar para casa, pois não? –


observou Hope, irónica. Não fora sua intenção ser sarcástica, mas naquele último ano percebera que a senhora e a sua criada pessoal tinham muito em comum, no respeitante a maridos. – Tenho-te a ti, e Lady Harvey tem o Rufus – retorquiu Nell. – E é tudo o que qualquer uma de nós precisa. Hope ficou envergonhada, pois sabia que Nell a via mais como uma filha do que como uma irmã muito mais nova. Passou os braços à volta dela e apertou-a com força. – Amo-te, Nell – murmurou. – Sempre cuidaste de mim e não imagino o que faria sem ti. Só te desejo o género de vida que mereces. – Sou muito mais afortunada do que muitas – disse Nell com determinação contra o ombro de Hope, mas o tremor na sua voz revelava que estava a chorar. – Fazes uma coisa por mim? – Claro – respondeu Hope. – Na realidade, é mais por Lady Harvey – disse Nell, afastando-se da irmã, limpando os olhos à ponta do avental e engolindo as lágrimas. – O que te vou dizer é segredo; tens de me prometer que nunca o dirás a ninguém. – Prometo – respondeu Nell, perguntando-se que segredo seria aquele. – Jura pela alma da nossa mãe! – Juro pela alma da nossa mãe. – Muito bem – continuou Nell. – Quero que vejas o correio todas as manhãs e retires qualquer carta parecida com esta. – Enfiou a mão no bolso do avental e tirou de lá um sobrescrito dirigido a Lady Harvey. A letra era elegante e ousada, diferente de qualquer outra que Hope tivesse visto. – Reconhecê-la-ás? Hope assentiu. – O que queres que faça com elas? – perguntou. – Esconde-as num lugar seguro até nós voltarmos, e não digas uma palavra seja a quem for – respondeu Nell, e baixou a voz de forma conspirativa. Hope abriu a boca de espanto, pois tal pedido só podia significar uma coisa. – Ela tem um amante? Nell levou um dedo aos lábios, num gesto de aviso, e olhou, nervosa, por cima do ombro. – Eu não lhe chamaria isso – sussurrou. – É só um amigo, mas se Sir William visse uma carta dele isso causar-lhe-ia a ela muitos problemas, e as coisas já estão suficientemente mal entre os dois. – Nesse caso porque é que ela não lhe escreve agora a dizer que não vai estar em casa? – perguntou Hope. – Ele é militar – explicou Nell, impaciente. – As cartas demoram muito tempo a chegar. Hope soube que não valia a pena fazer mais perguntas, pois bem via pela expressão fechada de Nell que aquilo era o máximo que estava preparada para revelar e que envolver a irmã numa coisa que ela própria não aprovava a enchia de preocupação. – Não te preocupes, consigo ser tão muda como tu. – Hope sorriu. – Só gostava que fosses tu a receber cartas secretas; isso sim, far-me-ia muito feliz. Nell fez um meio sorriso, com os seus olhos castanho-escuros suavizados pelo alívio. – És uma boa menina – disse, estendendo a mão para acariciar a face de Hope, com o mesmo gesto afetuoso que a mãe costumava usar. – Não te esqueças de arrumar a casa do guarda-portão – acrescentou, claramente consciente dos seus deveres para com o marido. – E importas-te de lhe lavar a roupa?


– Não, se conseguir adiantar-me à Martha – disse Hope, sentindo que tinha de tentar fazer a irmã rir. – Contigo longe vai mimá-lo ainda mais. Nell riu, e por uns segundos voltou a parecer uma rapariga em vez de uma mulher de trinta e um anos bastante gasta e roliça. – Por mim, pode mimá-lo tanto quanto quiser. Mas recorda-lhe que não se pode tirar de onde não há.

Nos dias que se seguiram, Hope pensou muito no misterioso amigo de Lady Harvey. Tanto quanto sabia, o capitão Pettigrew era o único militar que alguma vez estivera em Briargate, e era de certeza o único visitante do sexo masculino que aparecia sempre que Sir William não estava. E depois havia aquele comentário que Rose fizera anos antes a respeito de Nell ficar muito nervosa quando o via. Na altura não fizera sentido, mas agora fazia. Quando Nell desaprovava qualquer coisa, ficava sempre com aquela expressão tensa. Por isso tinha de ser ele. Claro que era chocante a senhora ter um admirador secreto, mas Hope não alterou fosse de que maneira fosse a boa opinião que formara a respeito do capitão no dia em que encontrara Cook inconsciente. Era encantador, bonito e garboso e não lhe custava imaginar que qualquer mulher, casada ou não, apreciasse a sua atenção. Por ele, Hope estava mais do que disposta a intercetar quaisquer cartas e guardá-las num lugar seguro.

O tempo tornou-se muito mais húmido e ventoso depois de Lady Harvey e Nell terem partido para o Sussex. Uma noite, o vento foi tão forte que derrubou um velho carvalho do jardim e o telhado das cavalariças escapou por pouco. Na manhã seguinte, Hope e Rose saíram com Baines para ver os estragos, e era assustador ver as grandes raízes expostas e o grande buraco no chão onde a árvore se erguera durante talvez cem anos. – O meu pai costumava dizer que quando um carvalho cai é prenúncio de coisas piores que estão para vir – disse Rose, temerosa. – Tenho a certeza de que o teu pai também acreditava em bruxas – retorquiu Baines, sarcástico. – Eu diria que foi um acaso e que significa que não vamos ter falta de lenha este inverno. Vai fazer o teu trabalho e não sejas tola.

Hope tinha umas saudades enormes da irmã. Não se apercebera até Nell se ter ido embora de que era ela que os mantinha a todos juntos. Apesar de ser uma pessoa calada, gostava genuinamente dos outros criados e sabia estimular a conversa e o riso entre eles. Sem ela, era tudo muito sombrio. Martha só falava de comida. Rose queixava-se do trabalho que ainda tinha de fazer e Baines quase não dizia uma palavra. A imprevisibilidade de Sir William não contribuía para melhorar o ambiente. Punham-lhe a mesa na sala de jantar e ele queria comer no escritório; dizia a Baines que não ia jantar nessa noite e chegava a casa perdido de bêbedo e a horas tardias e exigia uma refeição. Avisava Martha de que queria um jantar especial para essa noite porque ia levar um amigo e no fim não aparecia. Rose dizia


que ele era um porco egoísta, mas como Baines fazia notar, a casa era dele e eles eram pagos para lhe obedecer. Também lhes lembrava que se achavam que conseguiam arranjar trabalhos mais fáceis, eram todos livres de sair de Briargate quando quisessem.

Uma carta com a caligrafia igual à que Nell lhe mostrara chegou mais de duas semanas depois de Lady Harvey ter partido, coincidindo com uma para ela da irmã. Enfiou as duas no bolso do avental, deixou as outras na salva de prata no vestíbulo para que Sir William as visse mais tarde, acabou de preparar a lareira da sala de estar e voltou à cozinha para ler a sua carta. Nell não sabia escrever muito bem, de modo que era curta e concisa: Squire Dorville tinha morrido. Calculava que regressariam a casa dentro de duas semanas e esperava que estivesse tudo a correr bem em Briargate. Hope sabia que se Nell lhe tinha escrito, Lady Harvey também teria escrito ao marido, e o mais certo era ele partir de imediato para o Sussex. Perguntou-se sem grande interesse se passaria pelo colégio para levar Rufus consigo ou se se limitaria a escrever-lhe para lhe transmitir a notícia da morte do avô. Só depois do pequeno-almoço, quando subiu com Rose para tratar do quarto de Sir William, é que se voltou a lembrar da carta do capitão. Tirara-a do bolso do avental e enfiara-a no corpete do vestido quando fora à latrina, mas fazia barulho quando ela se mexia e precisava de arranjar um sítio melhor para a esconder. Sabia que tinha de ser cuidadosa. Rose era muito abelhuda e Ruth sempre a avisara para que não deixasse no seu quarto nada que não quisesse que fosse visto, porque Rose metia o nariz nos pertences de toda a gente. Rose não sabia ler, de modo que não poderia saber de quem e para quem era a carta, mas era suficientemente esperta para levá-la a Mr. Baines alegando que a encontrara na escadaria. O que também significava que não seria boa ideia escondê-la algures no quarto de Lady Harvey, porque sem dúvida Rose o passava a pente fino de cada vez que o limpava. A casa do guarda-portão parecia ser o lugar mais seguro. Podia escondê-la debaixo do colchão da sua antiga cama, pois Albert não teria qualquer razão para entrar no quarto, e muito menos para remexer na cama. E, de qualquer modo, Hope já tencionava ir lá naquela tarde para fazer uma limpeza.

Hope estava na cozinha, mais tarde nessa manhã, quando Sir William entrou. Soube no mesmo instante por que razão ele viera, mas Martha e Baines pareceram espantados, uma vez que era raro vê-lo na cozinha. Como sempre que via o patrão, Hope ficou impressionada pela sua parecença com Rufus. Estava agora a meio da casa dos quarenta, mas parecia muito mais novo; nem sequer o excesso de bebida lhe estragara a pele clara ou empanara o brilho dos belos olhos azuis. A flacidez dos lábios cheios e a falta de um queixo pronunciado sugeriam uma debilidade de caráter, mas com o colete azul-claro bordado com pequenas rosas, talvez feito por Lady Harvey, e o cabelo louro encaracolado assim despenteado, a imagem geral era a de um jovem atraente e estouvado. – Recebi uma carta de Lady Harvey esta manhã – disse. – Infelizmente, o pai morreu durante o sono, há três dias. Parto amanhã de manhã para estar com ela no funeral. Tenho a certeza de que


posso deixar Briargate nas vossas mãos competentes. Baines apresentou as suas condolências e em seguida perguntou como ia Sir William viajar e o que queria que fosse emalado. – O Albert leva-me na aranha até Bath e apanho lá o comboio – respondeu Sir William. – Não preciso de levar muita coisa comigo, só lá vou ficar uns poucos dias.

Albert entrou na cozinha para almoçar por volta do meio-dia, e como de costume Martha afadigouse à sua volta, dessa vez porque tinha o casaco encharcado. Hope estava na copa, a arear pratas, e sorriu do esforço da cozinheira para o levar a falar com ela. A pobre mulher já devia ter percebido, por aquela altura, que Albert era uma causa perdida. Ele informou Martha de que tinha passado a manhã a serrar o carvalho caído, comentou que o rio Chew estava mais uma vez a atingir níveis perigosamente altos e previu que a chuva continuaria por pelo menos mais dois dias. – Não podes voltar a trabalhar lá fora esta tarde – exclamou Martha. – Podes ser um homem grande e forte, mas isso não te impedirá de apanhar uma constipação. Albert disse que tinha levado alguns dos troncos maiores para a arrecadação da lenha e que iria trabalhar para lá para os cortar em pedaços mais pequenos, pelo que estaria ao abrigo da intempérie. Hope achou que ele parecia menos brusco do que era habitual, quase como se começasse a simpatizar com Martha. A cozinheira aborrecia-a, e a Baines, com o seu constante tagarelar, mas tinha bom coração e adorava alimentar pessoas. Contara a Hope que, quando era uma servente de cozinha, namorara com um lacaio e que os dois planeavam casar. A patroa reagira como a maior parte dos ricos reagia em relação ao casamentos entre criados, e recusara a sua autorização. Martha tinha agora mais de quarenta anos, e tudo o que lhe restava para mostrar ao fim de uma vida inteira de trabalho duro eram tornozelos inchados, mãos calosas e o título de cozinheira. Hope estava absolutamente determinada a que a sua vida não fosse igual.

Às três e meia dessa tarde, Martha estava a dormitar numa cadeira na sala dos criados e Rose acabava de pôr os ferros de engomar a aquecer em cima do fogão, para passar umas camisas de Sir William, quando Hope se esgueirou pela porta das traseiras. Chovia a cântaros, mas ela decidira ir naquele dia fazer a limpeza na casa do guarda-portão, por lhe parecer provável que, depois de Sir William partir para o Sussex, Albert começasse a ir para casa ao fim da tarde. Não pedira autorização a Baines para o fazer pois sabia que o mais certo era ele dizer-lhe que esperasse até ao dia seguinte, e não queria admitir que tinha medo de se encontrar com Albert. Se ele já era desagradável que chegasse na mansão, na casa do guarda-portão voltava ao comportamento que ela recordava do tempo em que lá morava. Dava-lhe ordens a torto e a direito como se fosse sua escrava e criticava tudo o que ela fazia. Baines estava no quarto de vestir de Sir William, a fazer-lhe a mala, e como ficava nas traseiras da casa, não a veria descer o caminho de acesso. Com sorte, estaria de volta antes que ele desse pela sua falta.


A chuva torrencial impedia-a de ver mais do que alguns metros à frente do nariz, e quando chegou à casa do guarda-portão tinha a capa encharcada e as botas ensopadas. Dirigiu-se à porta das traseiras, encontrou a chave que deixara debaixo de uma pedra, despojou-se da capa e das botas, que deixou a pingar sob a proteção do alpendre do pórtico, e entrou só com as meias calçadas. Para sua surpresa, o fogão estava aceso e a casa bem aquecida. Havia a confusão habitual, a mesa coberta de pratos, chávenas e copos, um pão já a criar bolor e meia garrafa de whisky. Albert era um grande hipócrita: insurgia-se contra a desarrumação e a sujidade, mas não hesitava em criá-las à sua volta. Também o chão estava muito sujo. Era evidente que Albert deixara de descalçar as botas quando chegava a casa, pois havia montes de lama seca por todo o lado. A chaleira estava cheia e ainda morna, de modo que Hope voltou a pô-la ao lume e subiu a escada para ir esconder a carta do capitão e fazer a cama de Albert antes de iniciar a lavagem da louça e do chão. Quando chegou ao alto da escada, ouviu um rangido. Era como se a portada da janela do quarto de Albert e de Nell estivesse aberta e a abanar ao vento. Abriu a porta e entrou, e o espetáculo que se lhe deparou fê-la arquejar de horror e tapar a boca com a mão. Albert estava na cama, e a pessoa de cabelo louro encaracolado debaixo dele não era uma mulher, era sem a mínima dúvida Sir William. Estavam ambos nus, e o peito e braços de Albert, musculosos e bronzeados, tapavam quase por completo o seu muito mais pálido e magro patrão. A cena ultrapassava a compreensão de Hope. Imobilizou-se, e até o seu coração pareceu parar de bater, tal foi o choque. – Fora! – rugiu-lhe Albert. Hope voou escada abaixo, mas a enormidade do que acabava de testemunhar era tão terrível que não sabia o que fazer. Sabia que os animais machos tentavam montar-se uns aos outros quando não havia fêmeas disponíveis, mas nunca lhe passara pela cabeça que os homens pudessem fazer o mesmo. O choque privou-a da capacidade de tomar uma decisão e ficou ali parada, a chorar. Ouvia a voz profunda de Albert e, misturados com ela, os tons mais agudos e queixosos de Sir William. Uma parte do seu cérebro dizia-lhe que Sir William desceria aquela escada a qualquer momento e lhe daria uma explicação que justificaria tudo, enquanto a outra parte gritava que não era possível haver uma explicação inocente para o que acabava de presenciar. Talvez não tenha demorado mais de um minuto ali parada, sem saber se devia fugir ou sequer para onde fugir. Mas mal ouviu os passos de Albert na escada, recuperou a presença de espírito e soube que tinha de sair pela porta das traseiras. Os cordões das botas estavam emaranhados e o pânico tornara-lhe inúteis os dedos das mãos; tentou, sem o conseguir, enfiar os pés nas botas. Ouviu a porta da frente bater e suspirou de alívio por os dois homens se terem ido embora. Mas quando estendeu a mão para pegar na capa que pendurara no prego, a porta das traseiras abriu-se e Albert agarrou-a por um ombro. – Para dentro – rosnou-lhe ele. Hope tentou libertar-se da garra que a prendia, mas ele era demasiado forte. Puxou-a para dentro da cozinha, fechou a porta com estrondo e no mesmo instante voltou-se e bateu-lhe com força na cara. Vestia apenas a camisola interior e as ceroulas, e estava descalço. – Tens sido um tormento há demasiado tempo – rugiu. – Como te atreves a entrar aqui às


escondidas para me espiar? – Não foi nada disso. Vim fazer a limpeza – disse ela. – Não sabia que estava cá alguém. Albert voltou a bater-lhe, quatro ou cinco vezes seguidas, rápido, estaladas violentas na cara, e a cada uma ela recuava para mais perto da porta. – Para, por favor! – gritou Hope, tentando proteger o rosto com as mãos. – Juro que não conto a ninguém. Ele deu-lhe um murro no estômago, com tanta força que as costas dela chocaram com estrondo contra a porta. – Não vais ter oportunidade de espalhar as tuas mentiras – cuspiu-lhe. – Vou livrar-me de ti de uma vez por todas. Hope soube que isso significava que ia matá-la. Era a única maneira de garantir que aquilo nunca se saberia. Era até possível que Sir William o tivesse ordenado; ao fim e ao cabo, tinha muito mais a perder do que Albert. Albert agarrou-a pelo pescoço, como já fizera uma vez, apertando com tanta força que os olhos dela quase lhe saltaram das órbitas. Bateu-lhe com a cabeça na porta uma e outra vez até ela ver estrelas, e quando a deixou cair no chão pontapeou-a. Apesar de estar descalço, foi como levar um coice de um cavalo. Hope enroscou-se para escapar ao pior das pancadas, mas ele estava frenético, como um animal selvagem. Hope sentiu que ele estava a descarregar nela todo o seu ódio. Quando pensava que não conseguiria aguentar mais um golpe, ele agarrou-a pelo ombro do vestido para a pôr de pé, o que lhe rasgou o corpete, expondo a camisa interior e uma parte dos seios. Hope inclinou-se, num gesto instintivo, para se cobrir, e a carta do capitão para Lady Harvey caiu no chão. – O que é isso? – rosnou ele. – Uma carta do teu querido? Sua pegazinha porca! Apanhou a carta do chão, mas quando viu a quem estava endereçada, fez um sorriso de lobo. – A roubar as cartas de sua senhoria, é isso? – perguntou. – Não – respondeu ela. – Lady Harvey pediu-me para lhas guardar. Mantendo-a imobilizada contra a porta com um pé apoiado no ventre dela enquanto se equilibrava sobre a outra perna, Albert rasgou o sobrescrito e tirou de lá a carta para a ler. – Ah, então ela também é uma cadela traiçoeira – disse, a percorrer com os olhos a única página. Hope sentia a cara a inchar, todo o seu corpo latejava de dor, e desejou que ele a matasse depressa e acabasse com aquilo, porque já não aguentava mais. Nos poucos instantes que ele demorou a ler a carta, Hope apercebeu-se de repente de que o ato que testemunhara devia ser a verdadeira causa da infelicidade de Nell e de Lady Harvey. Apesar de ter a certeza de que nenhuma delas sabia o que Albert e Sir William faziam, isso devia ter afetado o casamento. Aquela situação durava há semanas, meses ou anos? Teria Albert casado com Nell só para esconder a sua anormalidade? – Quando foi que isto chegou? – perguntou ele. – Esta manhã – gemeu Hope. Ele pousou o pé no chão, com um ar pensativo. Hope queria tentar fugir, mas sabia que não conseguiria chegar à porta da frente porque ele a apanharia antes. Ficou ali quieta, à espera, cheia de dores. – Com que então a senhora conseguiu a lealdade de mais uma maldita Renton – rosnou. – Até onde estás disposta a ir para a manter a salvo?


Hope desconhecia o conteúdo da carta, pelo que não percebia muito bem o que ele queria dizer. – Não sei – sussurrou. – Podia matar-te agora – disse Albert, a mostrar os dentes. – Enterrar o teu corpo no bosque ou até no jardim de Briargate, e nunca ninguém saberia. Mas posso aceitar deixar-te ir se te fores embora deste lugar e nunca mais voltares. Hope pensou que ele estava a brincar com ela, a querer obrigá-la a suplicar que lhe poupasse a vida para sentir ainda mais poder. Mas não ia deixar que isso acontecesse. – Terias demasiado medo de me deixar ir – disse. – Eu podia contar a alguém o que tu fazes. – Podias, mas eu não to recomendaria – respondeu ele, com os olhos escuros a brilharem de malícia. – Tanto eu como Sir William diríamos que era tudo mentira. Nenhum juiz aceitaria a palavra de uma servente de cozinha maluca contra a de um membro da aristocracia, sobretudo quando essa servente está a tentar esconder o adultério da patroa, e podíamos mostrar esta carta para o provar. Hope podia nunca ter gostado de Albert, mas até àquele dia sempre acreditara que ele era leal aos dois patrões. Mal conseguia acreditar que estava disposto a arrastar o nome de Lady Harvey pela lama quando ela sempre o tratara tão bem. – E depois há a Nell, mais uma razão para não quereres começar um escândalo – continuou ele, com um sorriso maldoso. – Eu sei que esteve envolvida nisto! Imagina a vida dela só comigo, sem a sua m’lady! Hope sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. Imaginava até muito bem o inferno que seria a vida de Nell. – Não precisas de me ameaçar nem de me bater – argumentou. – Há outra maneira. Não quero que ninguém seja envergonhado, nem tu nem a Nell. Nem o senhor ou a senhora. Não direi uma palavra disto seja a quem for. – Como se atreve uma miserável cadela emproada como tu a falar-me nesse tom? – rosnou, e voltou a bater-lhe na cara. – Amo o Billy e ele ama-me, não queremos saber do que os pobres diabos como tu pensam. O facto de ele chamar «Billy» a Sir William significava que aquela coisa durava há já algum tempo. Hope bem via que Albert estava desequilibrado e que uma palavra errada da sua parte podia fazê-lo perder a cabeça. – Que queres então que faça? – perguntou, hesitante. Tinha tantas dores que se sentia à beira do desmaio e concordaria com tudo para fugir para longe dele. – Vai-te embora, esta noite – disse ele. – Mas não penses que me podes enganar, estou a falar de te ires mesmo embora, não de te ires esconder em casa do parolo do teu irmão que vive ao fundo da estrada ou de qualquer outro membro da tua família. Lembra-te de que tenho os trunfos todos. Posso denunciar Lady Harvey como adúltera, e isso arruinará também todas as hipóteses do teu querido Rufus. E posso tornar a vida da tua irmã feia e chata a pior de toda a Criação. Voltou a agarrá-la pelo pescoço e apertou devagar, com um sorriso maníaco. – Se te atreveres a tornar a pôr os pés em Briargate, se escreveres uma carta ou até se enviares uma mensagem por outra pessoa qualquer, acredita, farei o que disse que fazia. Largou-lhe o pescoço, deu-lhe um murro com força na barriga e quando ela caiu no chão, a uivar de dor, deu-lhe um pontapé na cabeça. – Mais uma coisa – disse, inclinando-se e levantando-a como se fosse um saco de batatas. – Vais escrever uma carta à Nell.


Passada mais de uma hora, quando a noite lá fora era escura como breu e continuava a chover intensamente, Albert abriu a porta da frente e empurrou Hope para fora. Para ter a certeza de que ela não corria para junto de alguém que a conhecesse, ordenou-lhe que seguisse o caminho mais comprido, passando por Chelwood para chegar à estrada de Bristol. A capa continuava encharcada quando ela a pusera sobre os ombros, mas ele deixara-a usar um velho vestido de Nell, uma vez que o dela estava rasgado. Hope vira-se no espelho enquanto se vestia; os seus olhos eram duas frestas no rosto inchado e tinha os lábios rachados em dois pontos. Quanto ao resto, estava tão moída e magoada que só os pés não lhe doíam. Calculou que, quando acabasse de percorrer os mais de dezasseis quilómetros até Bristol, também estes lhe doeriam tanto como o resto do corpo. Soluçava enquanto caminhava, de cabeça baixa, mas saber como Nell ia reagir à carta que ele a obrigara a escrever doía-lhe mais do que os seus ferimentos, por muito graves que fossem. Albert era mais esperto do que ela pensara. Dissera-lhe exatamente o que escrever. Que conhecera um rapaz, um soldado, e que ia fugir com ele porque estava farta de esfregar tachos e panelas e de acender lareiras. Obrigara-a a pedir desculpa por ter levado o vestido de Nell e a dizer que ela podia ficar com todas as suas coisas. Calculou que Albert já estaria de regresso a Briargate para o jantar, e que ouviria Baines, Martha e Rose perguntarem-lhe onde ela estava, e ele diria que não a tinha visto porque passara toda a tarde na arrecadação da lenha. Talvez fosse para casa depois do jantar e regressasse mais tarde com a carta e dissesse que a tinha encontrado em cima da mesa. Conseguia até imaginar a cena na sala dos criados, Baines sentado à cabeceira da mesa, com as duas mulheres uma de cada lado. Baines argumentaria e diria que teria visto sinais de aviso se ela andasse a sair para se encontrar com alguém. Martha e Rose, como as galinhas tontas que eram, falariam dos rapazes que lhes tinham feito o coração bater mais depressa e diriam que sempre haviam sabido que ela tinha alguém escondido algures. Quando Nell voltasse do Sussex, a história seria conhecida em toda a aldeia. E Nell acreditaria e ficaria com o coração destroçado.


CAPÍTULO 8

U

ma sensação de picadas fê-la acordar em sobressalto. Por um momento, não soube onde estava. Mas quando se mexeu e sentiu uma pontada de dor, a recordação dos acontecimentos da noite anterior voltou em catadupa, e lembrou-se de como acabara estendida sobre a palha de um celeiro. Ironicamente, estava a menos de três quilómetros da quinta de Matt. Se tivesse desobedecido a Albert e descido até Woolard e daí subido pelo outro lado do vale para alcançar a estrada de Bristol, já poderia ter chegado à cidade. Fora o género de noite em que nem um cão se poria na rua, muito fria, com vento forte e chuva intensa. Quando chegara a Pensford, tinha tantas dores e estava tão desesperada que se detivera na ponte e pensara em atirar-se ao rio torrencial que passava lá em baixo. Mas sabia que quando o seu corpo fosse encontrado coberto de contusões Nell pensaria que lhe tinham sido feitas pelo soldado que na carta dizia que amava, e o seu desgosto seria duas vezes maior. Também olhara com uma ânsia enorme para as janelas iluminadas da taberna Rising Sun. Sabia que estariam lá amigos de Matt, e que eles a ajudariam. Mas não se arriscava a pedir ajuda; Pensford ficava demasiado perto de Briargate, e de manhã a história já lá teria chegado. E Hope sabia que Albert cumpriria a sua ameaça. Por isso subiu a íngreme encosta, sempre em frente até Gibbet Lane, na orla da aldeia de Whitchurch. Mal conseguia pôr um pé à frente do outro e todo o seu corpo gritava de dor. Não tencionava tentar encontrar refúgio naquele lugar, porque, quando era pequena, o pai contara-lhe que costumavam enforcar ali pessoas e que os corpos ficavam pendurados até que os corvos e outras aves deixassem apenas os ossos. Era um lugar assustador mesmo à luz do dia, mas quando viu o celeiro soube que tinha de vencer o medo, porque não conseguia dar nem mais um passo. A palha do celeiro tinha um cheiro doce e foi um alívio sair da chuva e do vento, mas estava tão encharcada que não conseguiu aquecer. Ficou ali deitada durante o que lhe pareceram horas, a ouvir o uivo do vento enquanto o que acontecera naquele dia lhe desfilava pela mente. A imagem mais nítida de todas era a de Albert na cama com Sir William. Podia só os ter visto durante alguns segundos, mas o contraste entre as costas bronzeadas e o cabelo escuro de Albert e o louro Sir William debaixo dele com uma pele tão branca era inesquecível. O choque na cara deles ao serem descobertos ficar-lhe-ia para sempre gravado na memória. No entanto, o ato que estavam a praticar intrigava-a tanto como a enojava, pois porque haveria um homem de querer outro? Seriam eles os dois os únicos em toda a Inglaterra? Ou seria ela apenas uma camponesa ignorante que não sabia nada a respeito de coisa nenhuma? Em todo o caso, explicava certas coisas do passado: como Rufus ter-lhe dito que a mãe perguntara a Sir William se estivera numa casa de prostitutas; e a afirmação de Nell de que Albert ficava muitas


vezes fora até de madrugada. Estariam juntos? Depois havia a maneira como a antiga cozinheira costumava dizer que Sir William era bonito como uma rapariga, e o facto de Albert ter dito que fora de Wells a Briargate na esperança de que Sir William o aceitasse como jardineiro. Seria porque sabia que Sir William era igual a ele? Acima de tudo, porém, perguntava a si mesma se Albert já saberia que não podia amar uma mulher quando casou com Nell.

Hope levantou-se com esforço ao ouvir um galo cantar ali perto. A capa e as botas estavam tão molhadas como tinham estado na noite anterior, e continuava a chover. O seu cabelo tinha-se soltado e, sem um pente, não havia nada que pudesse fazer. Bastou-lhe tocar no rosto dorido e inchado para saber que devia parecer tão desesperada como se sentia. Arrastou os pés do celeiro até à estrada, mas cada passo era uma agonia e sentia-se tão fraca e zonza que era uma tentação voltar para trás. Então foi dominada por uma onda de náusea e vomitou nos arbustos. Quando se endireitou, viu o vale através de uma abertura na ramaria. A névoa cinzenta impedia-a de distinguir fosse o que fosse além do campanário da igreja de Publow, mas foi o suficiente para a fazer chorar, porque não ficava muito longe de Woolard e de Matt. Imaginou-o na cozinha, com o cabelo escuro desalinhado pelo sono, um restolho de barba no queixo, talvez com o bebé sentado nos joelhos enquanto Amy fazia o chá. Ia ficar furioso quando soubesse da carta. A doce Amy ia provavelmente achar que era romântico e exortar Matt e os rapazes a não ficarem zangados. Mas nunca passaria pela cabeça de nenhum deles que ela pudesse ter sido forçada a escrever aquela carta, que nada daquilo fosse verdade. Sabia que não podia esperar que Sir William se sentisse culpado e confessasse o que na verdade acontecera na casa do guarda-portão. Na realidade, o mais certo era ter ordenado a Albert que a calasse, sem querer saber de como o conseguiria. O seu desaparecimento seria o tema de todas as conversas na aldeia durante alguns dias, mas quando isso passasse até os seus familiares acabariam por esquecê-la. Estavam sempre a desaparecer pessoas. Deixavam a aldeia para irem procurar trabalho em Bath ou em Bristol e nunca mais voltavam. Lembrava-se de o pai lhe ter falado de um homem cujo filho tinha desaparecido havia três anos quando recebera uma carta de um padre na América a dizer que o rapaz tinha morrido de varíola. Nunca houvera uma explicação a respeito de como ou porquê fora para lá. Toby e Alice não apareciam na aldeia há oito meses; tinham perdido o incentivo para fazer a longa caminhada depois da morte do pai e da mãe. James se calhar também nunca mais voltaria, e quando tivesse o seu bebé também Ruth deixaria de se interessar pelos irmãos e irmãs. As coisas eram assim mesmo, a família dela não era diferente de todas as outras. Mas sabia que Nell nunca deixaria de chorar por ela, nunca esqueceria a sua irmã mais nova, durante semanas, ou até mesmo anos. E nem sequer tinha um marido que a amasse, a confortasse e tranquilizasse.

O relógio da igreja de St. Nicholas dava as doze badaladas do meio-dia quando Hope chegou finalmente a Bristol Bridge. Demorara cerca de cinco horas a percorrer uma distância que podia ser feita em duas. Era quase um milagre ter conseguido lá chegar, porque estivera zonza de dores durante


todo o caminho e estava agora tão fraca que teve de se agarrar ao parapeito da ponte para se manter de pé. Não sentiu, no entanto, qualquer prazer ou alívio por ter conseguido, porque o barulho das carroças e carruagens e os gritos dos vendedores de rua eram ensurdecedores e o rio fedia como uma latrina. As pessoas empurravam-na ao passar por ela; e mesmo que tivessem reparado na sua presença, nenhuma teria parado para oferecer ajuda a uma rapariga encharcada, a cambalear de exaustão e obviamente cheia de dores. O pai sempre lhe dissera que as pessoas da cidade não sabiam o que era caridade, e Hope nunca se sentira tão sozinha e abandonada em toda a sua vida. Pensou que se pudesse ao menos beber um copo de água se sentiria muito melhor, mas toda a gente sabia que não se podia beber a água de Bristol. Como conseguiria ela, sem dinheiro, arranjar qualquer coisa para beber? Não voltara a Bristol desde a morte do pai, e a descrição que ele fizera do que lhe tinha acontecido na sua última e fatídica viagem estava sempre presente no seu espírito. Apertou com mais força a capa molhada à volta do corpo, deixando o capuz pender-lhe para o rosto para esconder as contusões, e recomeçou a andar com um doloroso esforço. Quando pisou o empedrado para atravessar a rua em direção à igreja, ouviu o cocheiro de uma carruagem gritar um insulto qualquer. Parecia dirigido a ela, embora não soubesse porquê. Sentia-se muito estranha, como se o corpo e a mente se tivessem separado. Ouvia os ruídos à sua volta, cheirava os excrementos de cavalo na rua, até sentia a cara de alguém muito perto da sua. Mas era como num sonho, como se estivesse a dormir. – Tens de te levantar – dizia uma voz de mulher. – Se ficares aí, levam-te para Bridewell ou para a enfermaria. – Olha pra cara dela! – exclamou um homem. – Levou uma valente tareia – Quem te fez isso, querida? – perguntou a mulher. – Quase foste atropelada por uma carruagem! Não será melhor chamarmos um polícia? A palavra «polícia» foi quase como porem-lhe um frasco de sais de cheiro debaixo do nariz. Hope recuperou os sentidos o suficiente para perceber que estava caída no chão, que as vozes que ouvira pertenciam a um homem e a uma mulher jovens e que havia outras pessoas à volta a olhar para ela. Mas parecia não conseguir abrir os olhos o bastante para os ver com nitidez. – Não chame um polícia – conseguiu rouquejar. – Ajude-me só a levantar! Sentiu que a erguiam, mas cambaleou e a mulher agarrou-a. – Credo! Tás encharcada até aos ossos – exclamou. – Não deste um mergulho no rio, pois não? Hope sabia que a mulher estava a brincar, e isso sugeria pelo menos que era bondosa. – Só gosto de água potável – respondeu, e fez um esforço muito grande para sorrir. – Deus lhe valha – exclamou a mulher. – Quem te bateu não te roubou a coragem, isso é certo. Ajuda-me, Gussie, vamos levá-la para a igreja e tirá-la da chuva. O interior da igreja estava muito escuro, mas era muito mais quente do que lá fora na rua e cheirava a cera de velas em vez de a excrementos humanos e de animais. Uma vez sentada num banco perto da porta, Hope tentou agradecer ao casal, mas continuava a não conseguir abrir os olhos o suficiente para os ver. – Não consigo ver – murmurou. – Claro, c’os olhos inchados dessa maneira – disse o homem. – Quem fez isto? – O meu cunhado – respondeu Hope.


– A tua irmã deixou ele fazer-te isto? – perguntou a mulher, indignada. – Não estava lá – explicou Hope. – Ele expulsou-me. Caminhei metade da noite, e então cheguei aqui esta manhã. – Tens parentes em Bristol? – quis saber a mulher. – Não, e também não tenho dinheiro – disse Hope. – Sabe de algum sítio onde possa arranjar trabalho? Mais do que ver, sentiu os dois trocarem olhares eloquentes. Presumindo que duvidavam que alguém a recebesse por causa do seu aspeto, Hope baixou o capuz. – Se me emprestar um pente e me levar a um sítio qualquer onde possa lavar a cara, ficarei bem. Fui servente de cozinha durante mais de três anos e cozinho muito bem. Quando eles continuaram silenciosos, Hope interpretou isso como um sinal de descrença e sucumbiu finalmente às lágrimas. – Sei fazer todo o género de trabalhos – soluçou. – Por favor, acreditem! – Bem, não vais conseguir trabalho nenhum com essa cara – disse a mulher e, para surpresa de Hope, abraçou-a e embalou-a. – Não chores, querida. Estás só cansada e dorida. Acho que vamos ter de te levar pra casa e tratar de ti. Sabe Deus que não podemos deixar-te aqui no estado em que estás.

– Não tás a pensar bem, Betsy – disse Gussie num murmúrio, olhando por cima do ombro para a rapariga adormecida em cima do monte de sacos de serapilheira que fazia as vezes de cama. – Já é difícil que chegue safarmo-nos a nós. Não podemos ficar com ela. Betsy lavara a cara da rapariga, dera-lhe um pouco de cerveja fraca, ajudara-a a despir as roupas molhadas e tapara-a com uma manta. Hope adormecera logo a seguir. O quarto ficava em Lewins Mead, um labirinto de vielas fétidas e velhas e de casas de madeira decrépitas perto das docas. Albergava aquilo a que alguém chamara não há muito tempo, no Parlamento, «As Classes Perigosas e Deterioradas», um estrato social muito inferior às classes trabalhadoras – ladrões, prostitutas, varredores, vendedores de rua, aleijados, desertores, os mais desesperados dos pobres da cidade. Cem anos antes, quando Bristol era a segunda maior cidade de Inglaterra, a seguir a Londres, e o seu porto tão azafamado como o da capital ou o de Liverpool, Lewins Mead fora um bom local para morar. Grandes fortunas tinham sido feitas com o tráfico de escravos, pois eram os navios de Bristol que viajavam até África para os ir buscar, e depois até às Índias Ocidentais para os vender, e por fim regressavam a Inglaterra com os porões cheios de melaço e tabaco. Mas à medida que o tráfego marítimo florescia, os mercadores ricos, os capitães dos navios e os profissionais liberais deixaram de querer viver perto da pestilência das docas e mudaram-se para casas opulentas nas colinas de Clifton e Kingsdown. O porto já não era, porém, tão azafamado como fora há cem anos. Taxas exorbitantes, a demora da Corporação em construir o novo cais flutuante e o facto de os novos navios, muito maiores, não conseguirem subir e descer o rio Avon tinham feito com que Bristol perdesse importância a favor de Liverpool. Os novos caminhos de ferro levaram a que perdesse o seu lugar como centro de distribuição para todo o Oeste de Inglaterra, Gales e as Midlands. Em tempos, Bristol orgulhara-se das suas múltiplas indústrias – refinação de açúcar, fundições de ferro e fábricas de sabão –, mas agora tudo isso desaparecera, com exceção de quatro fábricas de


vidro. Isto, e a periclitante economia do país em geral nos últimos anos, tinha agravado ainda mais a situação da cidade. Por isso agora as antigas casas dos mercadores eram alugadas ao quarto, e os inquilinos subalugavam espaço a quem o quisesse. Por vezes, havia vinte ou trinta pessoas a dormir em cada quarto. As casas, negligenciadas, vergavam e rangiam; o vento soprava pelas fendas, e as janelas dos pisos superiores, projetadas sobre as estreitas vielas lá em baixo, estavam entaipadas, porque havia muito que os vidros se tinham partido ou caído. Mesmo assim, Betsy e Gussie consideravam-se afortunados por terem aquele quarto num último andar em Lamb Lane. Podiam partilhá-lo com quatro outras pessoas, mas eram amigos, não desconhecidos. O telhado não deixava passar demasiada água, tinham vidro na pequena janela e até uma lareira, e tapavam os buracos nas paredes com panos embebidos em óleo. Para eles, era um lar. – Vai trazer-nos sorte – insistiu Betsy. – Há qualquer coisa nela. – É, há qualquer coisa nela! Qualquer coisa que fez um homem amassar-lhe a cara toda – resmungou Gussie, sombrio. – Além disso, tá muito doente. E se nos pega alguma coisa? – O que ela tem não te pega – respondeu Betsy, num tom firme. Desconfiava que a rapariga estivesse grávida e que o cunhado receara que envergonhasse a família. Betsy Archer tinha dezanove anos, um metro e sessenta e cinco de altura, um ar saudável e atrente e seios fartos, com cabelo escuro comprido que entrançava à volta da cabeça como uma coroa. Os olhos escuros e brilhantes e a pele morena sugeriam que lhe corria nas veias sangue espanhol ou italiano. Apesar de não ser uma verdadeira beldade, as pessoas descreviam-na como «bonita», porque tinha um ar exótico e orgulhoso e uma vivacidade que nem a dureza da vida conseguira apagar. Nascida em Liverpool, tinha oito anos quando o pai, tanoeiro de profissão, levara a família para Bristol. Três meses mais tarde, ambos os progenitores e Sadie, a irmã mais nova, tinham morrido quando a pensão onde se alojavam fora destruída por um incêndio. O pai fizera passar Betsy pela janela do segundo piso e deixara-a cair nos braços de um homem. Não tivera tempo para fazer o mesmo a Sadie. Às vezes Betsy desejava ter morrido também no incêndio. Sobrevivera misturando-se com as centenas de outras crianças órfãs ou abandonadas que deambulavam pelas docas e aprendendo com elas a mendigar, roubar e encontrar comida no lixo. A sua casa era o lugar onde conseguisse enfiar-se para passar a noite, e ficava agradecida se lhe davam uma manta, mesmo que estivesse infestada de piolhos. Quando fez dez anos, muitas das crianças que conhecera quando ficou órfã estavam na prisão. Algumas tinham morrido. Quase todas as raparigas mais velhas se tinham tornado prostitutas. Betsy não queria acabar na prisão ou morta, e também não tencionava tornar-se prostituta. Mesmo com aquela tenra idade, já percebera que a única coisa de valor que possuía era a sua virgindade. Por duas vezes fora suficientemente tola para se deixar convencer por mulheres de ar maternal que lhe ofereciam um teto, roupas novas e toda a comida que conseguisse comer. De ambas as vezes teve a sorte de ser ajudada a escapar antes de ser apresentada a um «cavalheiro» que tinha uma especial predileção por crianças. Nunca pôs de parte a possibilidade de vir um dia a recorrer a esse trunfo, desde que lhe pagassem bem. Mas até que isso acontecesse, tencionava manter-se viva e fora da prisão, pelo que conservava a cabeça fria e não corria riscos desnecessários.


As vielas húmidas e os caminhos estreitos à volta das docas eram o seu domínio. Conhecia quase todos os que lá viviam e não os roubava. Conhecia todas as lojas onde podia conseguir algumas moedas pela madeira, pregos e pedaços de metal que encontrava. Era com isso que pagava a renda. Quando não restava nada para comer, ia até uma das casas grandes em Clifton e descobria uma onde a cozinheira fosse suficientemente descuidada para deixar a porta das traseiras aberta enquanto cozinhava. Bastavam-lhe poucos segundos para entrar e roubar uma empada ou um bolo. Certa vez conseguira tirar uma perna de cordeiro inteira de dentro do forno. As docas eram uma fonte de muitas dádivas gratuitas para quem estivesse disposto a observar e esperar, armado pacientemente com um cesto e um boião ou um frasco. Betsy verificava todas as manhãs que barcos estavam a ser descarregados, e ficava por perto na esperança de que um caixote caísse e se abrisse. Nessa altura corria como uma seta, apanhava a fruta, o açúcar ou o chá e voltava a desaparecer muitas vezes antes que os estivadores se apercebessem de que tinham danificado um caixote. Havia também os marinheiros estrangeiros que convencia a darem-lhe uma moeda de seis pence para comprar um vestido novo para poder encontrar-se com eles mais tarde. Nunca comprava o vestido, tal como nunca comparecia aos encontros com os marinheiros estrangeiros. Mas em High Street havia lojas de roupas em segunda mão onde podia surripiar um saiote, um vestido ou um chapéu enquanto a lojista estava distraída.

Conheceu Gussie quando tinha treze anos e ele doze. Era um rapazinho baixo, de cara sardenta e cabelo ruivo que viera de Devon para Bristol em busca de fortuna. Aproximara-se quando ela andava a rondar o homem das empadas, à espera de que este voltasse costas para poder roubar-lhe uma, e perguntara-lhe onde poderia arranjar um sítio para passar a noite. Betsy estava com tanta fome que lhe disse que se conseguisse distrair o homem das empadas o ajudaria. Ele fez um excelente trabalho, ao fingir um ataque de fúria em frente da banca, e ela conseguiu não uma empada, mas três. Claro que foi obrigada a dar a Gussie uma das empadas e a levá-lo para a pensão onde costumava ficar. Um par de dias mais tarde, Betsy tinha decidido que Gussie era o parceiro ideal para ela. Não era duro, mas era voluntarioso e ousado. Além dos falsos acessos de fúria, era capaz de trepar por um algeroz e entrar numa casa por uma janela superior em plena luz do dia. E também sabia fazer um som que assustava os cavalos. Quando começavam a empinar-se, agarrava a cabeçada e acalmava o animal, gesto pelo qual o espantado proprietário o recompensava. Dizia que aprendera a fazer aquilo com um homem num circo, que também lhe ensinara acrobacias e palhaçadas. Foram as palhaçadas que conquistaram Betsy. Gussie fazia coisas incrivelmente engraçadas, contorcendo o rosto que parecia feito de borracha de modo a imitar diferentes emoções e pessoas. Uma noite, fizera uma pequena exibição para as pessoas que esperavam para entrar no teatro em King Street e elas tinham rido à gargalhada, atirando-lhe quase dois xelins em pennies e meios pennies. Até o nome dele, Augustus Pomfrey, lhe dava vontade de rir; Betsy dizia que seria um nome excelente para um vereador gordo, mas que era ridículo para um rapaz baixinho e escanzelado com um cabelo cor de cenoura. Mas a verdade era que ria muito sempre que estava com Gussie, porque apesar da sua pequena estatura ele fazia-a sentir-se protegida e à vontade. Podia não ser capaz de lutar contra


os muitos homens que tentavam abusar dela, mas a sua presença desencorajava-os. E, em troca, ela protegia-o dos muitos patifes e rufiões com que crescera. Passados seis anos eram inseparáveis, uma unidade indomável, mas não amantes. Betsy acabara por vender a sua virgindade a um capitão de navio pela principesca soma de cinco guinéus, mas a experiência dera-lhe uma aversão aos homens. Gussie, com o seu afeto fraternal e a sua lealdade absoluta, era o único macho em quem confiava sem reservas.

– É uma autêntica senhora – comentou Betsy, pensativa. – Mesmo magoada, agradeceu-nos com toda a delicadeza. Aposto que quando aquelas marcas desaparecerem vai ser mesmo muito bonita. – Não tás a pensar em levá-la ao Dolly’s! – exclamou Gussie. – Não, claro, por quem me tomas? – respondeu Betsy, indignada. Dolly era a dona de um prostíbulo em King Street. – Atão qu’é que vamos fazer co’ela? – Não temos de fazer nada co’ela. Faz-me pena, é só. Não nos vai matar cuidar dela um ou dois dias até melhorar, não é? Gussie encolheu os ombros. Sabia que quando Betsy tomava uma decisão era impossível dissuadila. – Atão acho qu’é melhor acender a lareira pra lhe secar a roupa. E depois vou ver s’arranjo q’alquer coisa pra comer.

Betsy ficou sentada no chão junto à lareira depois de Gussie ter saído, mas de vez em quando olhava para a rapariga adormecida. Tinha a cara coberta de pisaduras, roxa e azulada, e o inchaço tapava-lhe os olhos. Mas quando a ajudara a despir o vestido encharcado, a rapariga agarrara-se à barriga, pelo que Betsy deduziu que também tinha sido esmurrada e pontapeada ali. Homens a bater em mulheres era uma ocorrência diária por aqueles lados. Tão comum como ver pessoas meio mortas de fome. Todos os dias chegavam a Bristol rapazes e raparigas na esperança de conseguir trabalho, e a menos que tivessem uma carta de recomendação de um patrão anterior, a maior parte acabava morta, derrotada ou criminosa. Por norma, Betsy não ajudava ninguém. Aprendera, com oito anos, ao ver aquela pensão ser consumida pelo fogo com o pai, a mãe e Sadie lá dentro, que o mundo era um lugar perigoso e mau. Cada um tinha de cuidar de si e ser mais rápido, mais astuto, mais corajoso e mais esperto do que todos os outros, porque se uma pessoa baixava a guarda por um momento que fosse havia sempre alguém disposto a enganar-nos. Por isso não conseguia compreender o que havia nesta rapariga que a fizera querer ajudá-la. Ao examinar as roupas que secavam à volta da lareira, viu que eram bem confecionadas. Tecido vulgar, mas os pontos eram tão pequenos e cuidadosos como alguns que vira no mercado em vestidos que tinham pertencido a senhoras ricas. Também a roupa interior a impressionara, pois excetuando a lama que sujava a orla dos saiotes, era muito limpa e requintada. O rosto estava demasiado disforme e inchado para se poder ver se era bonita, mas o cabelo era negro e brilhante e, onde não estava coberta de nódoas negras, a pele era suave e muito branca, não cheia de manchas e áspera como a de tantas mulheres daquelas bandas. As mãos vermelhas e


calejadas provavam que passara anos numa cozinha, mas, no todo, parecia ter sido bem tratada. Estaria grávida? Por aqueles lados ninguém tinha dinheiro para casar, de modo que se uma rapariga engravidava ninguém achava que fosse nada de mais. Mas Betsy tinha recordações suficientes da sua vida antes da morte dos pais para saber que noutros círculos os bastardos eram mal aceites. Preparava-se para se aproximar da rapariga e ver se tinha a barriga inchada quando ela se começou a mexer. Tentou erguer-se, fez uma careta de dor e voltou a deixar-se cair. – Como te sentes? Tás melhor depois de dormir? – perguntou Betsy. A rapariga olhou em redor, como se estivesse confusa. – Consigo ver um pouco melhor. Mas doem-me os olhos. Estão muito inchados? – Digamos que não vais ter muitos admiradores durante uns tempos – respondeu Betsy, com uma gargalhada. – Foi muita bondade tua e do teu marido ajudarem-me. A doçura da voz tocou Betsy, mas também lhe recordou que tivesse cuidado. Tanto quanto sabia, a rapariga podia ser filha de um magistrado! – O Gussie não é meu marido; só um amigo. Digo-te desde já, normalmente não ajudamos ninguém. De modo que se queres ficar cá esta noite, o melhor é desembuchares! – Desembuchar o quê? – Bem, o teu nome, idade, d’onde és, pra começar. Não conseguimos saber nada quando te távamos a trazer pra aqui. – Hope Renton, quinze anos, e venho de uma aldeia a sul de Bristol. Disseste que te chamas Betsy? – Isso mesmo, Betsy Archer, e ninguém me faz o ninho atrás d’orelha. Agora vou fazer uma chávena de chá, e tu vais contar-me como foi que acabaste quase a ser atropelada por uma carruagem. E quando vai nascer o bebé. – Não estou à espera de bebé – protestou Hope, indignada. – O que foi que te fez pensar que estava? – É a razão habitual para as raparigas fugirem. – Betsy encolheu os ombros. – Mas se dizes que não estás à espera dum, é menos um problema pra resolver.

Hope viu Betsy encher um velho bule de folha com água de um garrafão e pô-lo ao lume para ferver. Perguntou-se porque seria que não tinha uma chaleira. A recordação de como chegara até ali era vaga. Lembrava-se de Betsy e Gussie estarem com ela na igreja, e depois segurarem-na pela braços para a apoiar e fazerem-na percorrer uma série de ruas muito estreitas. Mas mais nada. Estremeceu quando olhou em redor para o quarto pequeno e escuro. Ficava obviamente no último andar da casa, pois o teto descia num ângulo pronunciado até à minúscula janela, e não continha quaisquer mobílias, apenas alguns caixotes de madeira e montes de sacos de serapilheira que, ao que tudo indicava, serviam de camas. Num dos caixotes havia várias chávenas rachadas e uma grande caixa de folha. Num canto, junto à porta, havia um balde – para os despejos, calculou – e em cima de outro caixote uma bacia, também de folha. Conhecia pessoas que eram muito mais pobres do que a sua família, mas até essas tinham alguma


mobília, meia dúzia de quinquilharias e louça desirmanada. Betsy devia ser muito, muito pobre, mas não parecia, pois usava argolas de ouro nas orelhas e o seu vestido vermelho era elegante, apesar de velho, sujo e um pouco vulgar, com aquele decote tão grande. – Aqui é muito sossegado – comentou Hope. – É por vocês serem os únicos que aqui moram? Betsy deixou escapar uma espécie de bufar estrangulado. – Os teu olhos deviam tar em muito mau estado quando te trouxemos pra cá – disse. – É como um raio dum formigueiro, há tanta gente a entrar e a sair que é impossível contar todos. Tá sossegado agora porque a maior parte anda por fora, mas mais logo vai ser muito diferente. O que me faz voltar a ti. Vá lá, conta! Hope pensou a toda a velocidade. Estava muito agradecida a Betsy, mas não tinha a certeza de que fosse sensato contar-lhe a verdade toda, pelo menos até saber se podia confiar nela. Por isso deu-lhe uma versão mais reduzida e segura, segundo a qual Albert não a queria a viver com ele e com a irmã, e aproveitara a ausência de Nell para lhe dar uma sova e a expulsar de casa. – Porque não foste à casa dos teus patrões dizer o qu’ele te tinha feito? – perguntou Betsy. – Porque ele ia vingar-se na Nell quando ela voltasse – respondeu Hope. – Não podia fazer nada ao Albert sem que fosse a Nell a pagar. Betsy pareceu satisfeita com a explicação. O bule já fervia, e ela tirou-o do lume e pousou-o em cima do caixote. Em seguida abriu a caixa de folha, tirou de lá um pacote de chá e, com uma colher, deitou um pouco na água. – Temos de guardar tudo o que seja de comer nesta lata, por causa dos ratos e das ratazanas – disse, enquanto tirava um pequeno pacote de açúcar. – Há um pedaço de pão, se quiseres. O Gussie foi arranjar umas empadas, mas isto dá para te aguentares até ele voltar. Com uma chávena de chá açucarado numa mão e um pedaço de pão na outra, Hope sentiu-se um pouco melhor, apesar de ser difícil comer e beber com os lábios cortados. – Pago-vos o meu sustento logo que consiga encontrar trabalho – disse. – Tens uma carta de recomendação? – perguntou Betsy. – Não. Como é que havia de ter? O Albert pôs-me na rua de repente. – Então terás muita sorte se conseguires alguma coisa – declarou Betsy, abrupta. – Pra que queres ser uma criada, também? Hope respondeu que era a única coisa que sabia fazer, mas acrescentou que não se importaria de trabalhar numa loja. – Tens de saber fazer contas, escrever e essas coisas – argumentou Betsy – Sei fazer isso – respondeu Hope. – E também sei tudo a respeito das roupas e coisas de uma casa. E sei a respeito de quintas e de animais. – És um bocado sabichona, não és? – comentou Betsy, sarcástica. Hope baixou a cabeça, embaraçada. – Não era minha intenção parecê-lo, estava só a dizer-te o que sei fazer porque pensei que talvez te desse ideias a respeito de lugares aonde pudesse ir procurar trabalho. Betsy não conhecia ninguém que soubesse ler e escrever, e a verdade era que estava impressionada. Ocorreu-lhe que se os pais não tivessem morrido poderia ter aprendido tudo aquilo. Mas havia mais qualquer coisa nesta rapariga, talvez fosse o nome dela... Deus sabia que a esperança2 era muitas vezes a única coisa que a impedia de desistir. Ou talvez fosse porque se estivesse viva a irmã teria a mesma idade. Mas qualquer que fosse a razão, a verdade era que se


sentia atraída pela rapariga, como se fosse uma espécie de destino. – Não podes ir a lado nenhum enquanto a tua cara não sarar – disse, num tom mais gentil. – Portanto descansa. Conta-nos o que fazias na casa grande. Nunca tive em nenhuma, pelo menos durante muito tempo, se é que m’entendes.

Uma semana mais tarde, Hope examinou o seu próprio rosto num pequeno espelho que Gussie lhe levara. – Agora estás bonita – disse ele, com as sobrancelhas ruivas a enrugarem-se quando lhe sorriu. – Não quisemos que visses como tavas quando te encontrámos. Hope sentiu lágrimas de gratidão arderem-lhe nos olhos. Não pelo espelho – teria preferido permanecer na ignorância do seu aspeto, porque imaginara que quando o inchaço desaparecesse o seu rosto voltaria a parecer normal, mas as marcas das pancadas ainda estavam roxas e nem com um enorme esforço de imaginação alguém poderia achá-la bonita. No entanto, era mais um ato de bondade, dos muitos que Betsy e Gussie tiveram para com ela. Tinham-na deixado ficar, tinham-na alimentado e confortado, tudo isto quando eles próprios possuíam tão pouco. – Talvez o Gussie esteja a querer ser simpático quando diz que tás bonita, mas já não pareces um monstro – declarou Betsy, com riso na voz. – Ainda vai ser preciso mais um par de semanas pra essas nódoas negras desaparecerem, mas já tás bem o suficiente para ir ao Grapes esta noite. Betsy e Gussie saíam todas as noites para beber; o gin e o rum baratos pareciam ser a única coisa que tornava a vida tolerável em Lewins Mead. Até ao momento, Betsy declinara os convites para os acompanhar, usando as contusões como desculpa, mas era evidente que eles achavam que era tempo de ela se aventurar a sair. – Não posso – disse, alarmada. – Ainda não estou pronta para isso. Fico bem aqui sozinha. – Não te julguei uma cobarde – retorquiu Betsy, de mãos nas ancas e a olhar zangada para a rapariga mais nova. – Ninguém vai reparar numas nódoas negras. No Grapes são tão vulgares como as pulgas. Hope percebeu, por esta reação, que devia ir. Não era só uma questão de os ofender se recusasse, precisava de lhes provar que tinha fibra. Mas eles não podiam imaginar como o mundo em que viviam lhe parecia aterrador. No dia em que a tinham levado para ali, sentira-se apenas como um cão maltratado que estava agradecido por o deixarem entrar. A sua mente deixara de funcionar e não conseguia pensar no dia seguinte, e muito menos no outro depois desse. Respondeu às perguntas de Betsy o melhor que pôde, mas não conseguiu reunir forças suficientes para lhe perguntar o que quer que fosse. Teria ficado satisfeita por poder estender-se e morrer, pois tinha demasiadas dores para querer viver. Devia ter voltado a adormecer pouco depois de Gussie ter regressado com algumas empadas quentes e só voltou a acordar na manhã seguinte. Para seu choque e horror, havia quatro pessoas além de Betsy e Gussie a dormir à sua volta, e o fedor vindo do balde no canto era quase insuportável. Também ela precisava de se aliviar, mas não conseguiu decidir-se a acrescentar fosse o que fosse àquele balde já quase cheio, e enquanto estava ali deitada em cima dos sacos de serapilheira a perguntar a si mesma se haveria uma latrina no piso térreo, tomou consciência de um estranho ruído. Era uma espécie de som animal, fundo e irregular, e demorou algum tempo a perceber que era o som de pessoas a ressonar por toda a casa. Pouco depois, começou a ouvir outros barulhos: bebés a


chorar, crianças a gritar, e um homem a exigir aos berros que se calassem. Apesar de o barulho lá em baixo se ir tornando cada vez mais forte, os seus companheiros de quarto não acordaram. Ouviu o relógio de uma igreja dar as oito horas e pareceu-lhe inconcebível que ela e todas aquelas outras pessoas continuassem na cama a tal hora da manhã. Não que pudesse chamar cama a um monte de sacos e uma manta, e tinha comichões por todo o corpo, como se tivesse sido mordida por qualquer coisa.

Mais tarde naquela manhã, descobriu que o balde dos excrementos era despejado da janela para a rua. A água tinha de ser tirada de uma bomba mais abaixo e havia uma latrina nas traseiras. Mas como servia a casa inteira – oito quartos com uma média de dez pessoas em cada – não era um lugar que alguém visitasse de boa vontade. Os quatro inquilinos extra – que lhe foram apresentados como Toupeira, Pernas, Josie e Welsh Lil – andavam todos por volta da mesma idade que Betsy, muito mais mal vestidos e com um aspeto quase tão sinistro como os nomes que usavam. Mas desapareceram quase mal se levantaram. Betsy disse que o seu quarto era um «pouso» para eles, um lugar aonde iam dormir, e que ela e Gussie não queriam saber do que faziam durante o dia. Havia naquela explicação a sugestão implícita de que eram criminosos. As botas e a roupa de Hope estavam secas, e uma vez que parara enfim de chover, Gussie e Betsy tinham insistido em levá-la a dar uma volta. Talvez fosse por ter tantas dores e estar consciente da maneira como as pessoas olhavam para os seus ferimentos, mas a parte de Bristol que lhe mostraram naquele dia não tinha nada a ver com o lugar esplêndido e excitante que se lembrava de ter visitado com o pai quando era criança. Era cinzenta, imunda e barulhenta: vielas fedorentas e feias, pelo meio das quais corria um rio de dejetos humanos, casas que pareciam à beira do colapso. Viu pessoas que pareciam saídas de um pesadelo; mulheres de aspeto doente e olhos encovados sentavam-se como estátuas nos degraus de portais, muitas vezes segurando nos braços um bebé que gritava. Havia homens de ar abrutalhado, com chapéus altos amolgados e casacos esfarrapados, a beber de garrafas, e centenas de crianças andrajosas e descalças a brincar no meio da imundície. Aleijados passavam a coxear apoiados em muletas prontos para mais um dia a mendigar nos bairros mais ricos da cidade, e até viu uma criança a puxar uma carroça na qual estava sentada uma mulher sem pernas. Havia loucos que vociferavam e agitavam os punhos, mulheres encharcadas em gin e até homens que eram negros como carvão. Betsy e Gussie pareciam alheios ao choque dela enquanto lhe apontavam a melhor banca para comer arenques, a taberna de que mais gostavam e a loja onde vendiam o metal e a madeira que recuperavam nas lixeiras ou encontravam à beira-rio. Mostraram-lhe um homem que carregava um sacho e uma rede e explicaram-lhe que «trabalhava» nos esgotos que desembocavam no rio, e diziase que chegava a ganhar cinco libras num dia bom porque as moedas que caíam na rua iam muitas vezes lá parar. Gussie acrescentou, a rir, que os homens como ele podiam afogar-se nos esgotos se não tivessem cuidado com as marés. Betsy mostrou-lhe uma casa com janelas entaipadas e disse-lhe que vivia e trabalhava lá um moedeiro. Hope não fazia ideia do que era um moedeiro, mas parecia ser alguém que falsificava moedas. Betsy disse que certa vez ele a contratara como passadora e que tudo correra bem até que um lojista desconfiou, e então tivera de correr como o vento para lhe escapar.


Hope sentiu-se um pouco melhor depois de terem saído de Lewins Mead e descido até às docas. A porcaria, o barulho e o fedor eram os mesmos, mas os belos navios a balouçar na vasta extensão do rio que brilhava como prata sob o pálido sol de outono, compensavam tudo. Os latões refulgentes, a madeira polida e os grandes rolos de corda branqueada pela água salgada eram um prazer para os olhos depois da esqualidez de Lamb Lane. Olhou para o topo dos altos mastros e interrogou-se como se atreveria alguém a trepar até lá. Ficou fascinada pelas figuras esculpidas na proa dos navios, pelo espetáculo dos marinheiros sentados nos conveses a remendar velas e até pelas grades com galinhas, ovelhas e cabras vivas que viu serem embarcadas. As docas fervilhavam de atividade. Grandes barricas de vinho francês e espanhol eram roladas por cima do empedrado, homens musculosos içavam com a ajuda de cabrestantes grandes redes cheias de produtos para dentro e para fora dos porões, chegavam e partiam carroças com mais produtos, e vira chegar carruagens que lhe pareceram dignas da realeza. O martelar vindo do estaleiro, o drapejar das velas ao vento, o barulho dos marinheiros a esfregarem os conveses e o gritos das gaivotas fizeram Hope esquecer-se de si mesma. Era excitante imaginar os países estrangeiros para onde aqueles navios viajavam e, à sua maneira, as docas eram tão ordenadas como a vida dela fora em Briargate. Pensou que gostaria de trabalhar ali, em qualquer coisa, mas quando manifestou este pensamento a Betsy, ela riu à gargalhada. – Oh, há aqui trabalho pra fazer – disse ela, a olhar para um grupo de marinheiros. – Há levar os bêbedos até um beco e roubá-los; há esperar que eles deixem qualquer coisa sem vigilância. Até podes oferecer-te para limpar a caca das gaivotas dos sapatos das senhoras finas. Não era de modo algum o que Hope tinha em mente. Estava a pensar mais em termos de ficar sentada no escritório de uma companhia de navegação a anotar coisas num grande livro. Mas não corrigiu Betsy porque não queria que ela pensasse que a rapariga que salvara se julgava demasiado fina para Lewins Mead.

Os dias que se seguiram a esse primeiro pareceram-lhe intermináveis porque optou por ficar sozinha no quarto enquanto Gussie e Betsy tratavam da sua vida. Mas não havia nada para fazer, e sentia-se desolada sempre que o seu espírito regressava à família ou a Briargate. Nutria um ódio furioso por Albert, e embora ocupasse o espírito a planear vinganças, sabia que na realidade não havia nada que pudesse fazer-lhe, nem sequer matá-lo, que não afetasse Nell de uma forma negativa. Sentia-se totalmente impotente. Não conseguiria arranjar um trabalho decente sem uma carta de recomendação. Não podia sair de onde estava porque não tinha dinheiro. Não podia sequer passar o tempo a limpar, coser ou cozinhar porque não havia nenhum do equipamento necessário. Trabalhava desde criança, e apesar de muitas vezes ter pensado que seria agradável ficar sentada sem fazer nada, não era. Pelo menos não num quarto pequeno e esquálido, consumida pelo ódio a alguém e dependente da bondade de estranhos até para comer. Nos dias seguintes, por vezes, quando o tédio excedia o medo, atrevia-se a sair e explorar Lamb Lane e as vielas próximas. Foi numa dessas ocasiões que descobriu que o género de competências domésticas que tinha era desconhecido naquele lugar. Os residentes compravam comida feita e comiam-na pelo caminho; não lavavam nem remendavam a roupa, usavam-na até cair aos pedaços, ou, como no caso de Betsy, até conseguirem roubar outra


que a substituísse. A vida familiar que conhecera quando era criança também não existia. As crianças andavam na rua do nascer do sol até à noite, e o homem da casa que só lá ia dormir não era necessariamente o pai delas. Certa vez, numa das suas lições, o reverendo Gosling dissera que uma grande parte dos bebés nascidos nas zonas mais pobres das cidades morria antes de completar um ano, e que para os sobreviventes a vida continuava a ser uma corrida de obstáculos. Se recuperavam do sarampo ou da escarlatina, havia dezenas de outras doenças que podiam com toda a facilidade levá-los. Gussie dissera-lhe que, com sete ou oito anos, quase todas as crianças viviam na rua e tinham de arranjar a sua própria comida. Algumas eram como ele, fugidas a um homem brutal em casa e a uma mãe que vivia numa permanente névoa de gin, mas as outras eram postas fora para se desenvencilharem sozinhas porque a casa estava sobrelotada, muitas vezes com três ou quatro famílias a partilharem o mesmo quarto. Andavam todas descalças e vestidas de farrapos, e muitas não tinham sequer uma camisa com que se cobrir. A higiene tal como ela a conhecia era ali uma coisa de outro mundo. Nem os corpos nem as roupas eram lavados, e as últimas eram usadas até se desfazerem. Os cabelos das crianças não sabiam o que era um pente ou uma escova e estavam infestados de piolhos. Vira miúdos com feridas infetadas, impetigo e furúnculos horríveis a remexer nos restos de comida atirados para a rua. E sabia que sem cuidados, instrução ou sequer alguém que lhes desse um bom exemplo, os que sobrevivessem até à idade adulta iam perpetuar aquela situação assustadora trazendo ao mundo mais crianças para serem negligenciadas.

No seu terceiro dia em Lamb Lane, Hope, incapaz de continuar a suportar a imundície, pegou nos sacos usados para dormir e, um a um, sacudiu-os da janela. Em seguida improvisou uma vassoura com um monte de trapos abandonados num canto. Juntou-os, prendeu-os com um pedaço de fio de modo a fazer uma espécie de esfregona, e varreu o quarto. O lixo e o pó encheram uma caixa, que ela levou para baixo e depositou na rua, como toda a gente fazia. Lavou a janela com outro trapo, e limpou-a com uma folha de jornal que tinha encontrado debaixo dos sacos. Com os sacos arrumados em montes e cobertos por uma manta, o quarto pareceu-lhe um tudo-nada melhor, mas recordou-lhe o seu antigo quarto em Briargate, com a colcha macia, as mantas limpas e os lençóis brancos de algodão, e isso fê-la chorar outra vez. Gussie e Betsy olharam para o quarto arrumado com alguma admiração, mas sobretudo com divertimento. – Podemos dizer às pessoas que tamos a subir na vida porque temos uma criada – riu-se Betsy. Deitou-se num dos montes de sacos e agitou uma mão na direção de Hope. – Faz-me um chá, rapariga, e depressinha – disse, numa voz afetada. – Usa o bule de prata, claro, e quando acabares podes engomar o meu vestido de baile pra esta noite. Hope riu-se, porque era impossível resistir à irreverência e à graça de Betsy, mas o seu riso transformou-se em consternação quando Gussie tirou duas velas de dentro do casaco. – São de uma igreja? – perguntou horrorizada, ao reparar que eram grossas e compridas como as que se habituara a ver em St. Mary’s, na aldeia. – Claro – disse ele com um esgar. – Duram imenso tempo. Por isso enquanto sua senhoria bebe o seu chá, podemos ter luz.


Hope engoliu o seu protesto. Já reparara que nenhum deles tinha qualquer espécie de respeito pela lei, pela autoridade e pela aristocracia, e que troçavam dela por ter. Mas roubar qualquer coisa de uma igreja era horrível. – Não faças essa cara – ralhou Gussie. – Têm dúzias delas, não darão por falta de duas. Além disso, a Igreja é rica, tira dinheiro aos pobres e veste todos aqueles bispos com aquelas vestimentas ridículas para que possam viver em palácios e passar o dia inteiro sem fazer nada. * O comentário cáustico de Gussie a respeito da Igreja era apenas um dos muitos que ele fazia a respeito dos mais variados assuntos e que desafiavam as crenças que Hope conservava desde a infância. Não tardou a dar por si com muito menos certezas em relação ao que era certo e o que era errado. O reverendo Gosling repetira-lhe vezes sem conta: «Bem-aventurados os mansos.» Gussie dizia que isso tinha sido inventado pelos ricos e poderosos para se certificarem de que haveria sempre milhões de mansos que podiam explorar. Fazia-lhe notar que acendera lareiras e despejara bacios para os ricos e ociosos e que fora ensinada a ficar grata pelos poucos xelins que ganhava por ano. Dizia que era tempo de ela dar mais valor a si mesma. Betsy era ainda mais controversa. Achava que as mulheres deviam ter os mesmos direitos que os homens. Dizia que era errado o dinheiro e as propriedades de uma mulher passarem para o marido quando ela casava, e ele poder bater-lhe sempre que queria, e tirar-lhe os filhos se ela conseguia finalmente ganhar coragem suficiente para tentar deixá-lo. Também achava que as mulheres deviam poder ter a profissão que quisessem, fosse médico, juiz, padre ou carpinteiro, desde que tivessem capacidade para tal. Ela própria gostaria de ser carpinteira, e estava farta de ouvir os homens riremse dela por causa disso.

Nessa noite, Hope encaminhou-se para o Grapes cheia de medo, mas, para sua surpresa, não era o pavoroso antro escuro que esperava, mas um autêntico palácio, com brilhantes candeeiros a gás, colunas douradas, grandes espelhos e cadeiras forradas a veludo. Ficara maravilhada com os candeeiros a gás nas ruas, mas não esperava encontrá-los numa cervejaria. – Fecha a boca, ou ainda te entra uma mosca – disse Betsy, com um sorriso. – Mas é como um palácio – exclamou Hope. Não era só a elegância do lugar que a espantava, também os clientes não eram os desgraçados que viviam em Lamb Lane. Na realidade, alguns deles estavam até muito elegantemente vestidos. – É um palácio do gin – disse Gussie. – E tu tens de provar um pouco. Hope não gostou muito do sabor do primeiro gin com água, mas teve de admitir que o efeito era agradável. Com o segundo, esqueceu as nódoas negras na cara, Lamb Lane e o facto de não ver um futuro para si mesma. Gussie apresentou-a aos amigos de ambos como sendo uma prima vinda do campo, e todos eles eram um grupo de pessoas alegres e simpáticas. Hope calculou que algumas das raparigas eram prostitutas, porque pintavam a cara e usavam decotes demasiado grandes, mas era tão bom ver pessoas que não pareciam mendigos que não se importou. Um dos amigos de Gussie chamava-se Basher Boulton. Tinha um nariz achatado e uma orelha


deformada, mas Gussie disse que era um campeão do boxe. Havia outro homem que falava de combates de cães; aparentemente, estava a organizar um nos arredores de Bristol. Foram ambos muito simpáticos com ela, compadecendo-se das suas nódoas negras. Basher disse que tinha um unguento especial que as faria desaparecer duas vezes mais depressa e que talvez ela pudesse visitálo na noite seguinte no seu alojamento para ele lho poder dar. – Sei muito bem o qu’é que lhe queres dar! – interveio Betsy. – E só por cima do meu cadáver!

Hope nunca se tinha divertido tanto. Um homem começou a tocar acordeão, e ela dançou, primeiro com Gussie, depois com todos os que a convidaram. Ver os homens pularem exuberantemente de um lado para o outro recordou-lhe os festejos do Primeiro de Maio e os jantares das colheitas. Nell, que já tinha visto os ricos e aristocratas a dançar, comentava muitas vezes com ares de superioridade que as pessoas do campo dançavam como cavalos. Mas Hope gostava, era divertido rodopiar até ficar zonza. Compreendia agora por que razão Betsy e Gussie iam ali todas as noites. Já passava da meia-noite quando Gussie lhe deu o braço e a encaminhou para a porta. – São horas de te levar para casa – disse. – Mas eu não quero ir já para casa – protestou ela, a resistir. – Estou a divertir-me muito. – Tás bêbeda, Hope – disse ele. – Não estou nada – insistiu ela. Gussie agarrou-a com mais força e arrastou-a para fora. Depois do calor suado e do fumo do interior, a rua pareceu-lhe gelada. Mas também se sentia muito zonza e os candeeiros a gás por cima deles pareciam oscilar. – Estou só um pouco tonta – afirmou. – É da dança. Deixa-me voltar lá para dentro e eu sento-me muito quietinha. Gussie segurou-lhe a cara com ambas as mãos e beijou-lhe o nariz. – Não tás tonta da dança, é do gin – disse. – Se voltas lá para dentro cais para o lado. Era agradável sentir as mãos dele na cara, e Gussie estava a olhar para ela de uma maneira esquisita. – Não estás a querer levar-me para casa só para poderes abusar de mim, pois não? – perguntou, com um risinho. Nunca tinha reparado em como os olhos dele eram bonitos, como âmbar, com laivos de uma cor mais escura, e umas pestanas muito compridas e densas. – Não, não tou – respondeu Gussie. – Mas se eu não te levar para casa, um malandro qualquer vai de certeza tentar. Não sou suficientemente duro para lutar com todos pra te defender. Ela riu, mais por causa da maneira intensa como ele a olhava do que por achar que tinha dito qualquer coisa engraçada. – Um perfeito cavalheiro – disse, e encostou-se ao ombro dele, porque de repente se sentia muito esquisita e agoniada. – E tu és uma senhora – respondeu ele, enquanto se afastavam. – Demasiado boa para a laia dos que tão ali dentro. 2 «Hope» significa «esperança». (N. do E.)


CAPÍTULO 9

N

ell regressou a Briargate com Lady Harvey a 23 de dezembro, várias semanas depois do funeral de Squire Dorville. Eram nove da noite quando o fiacre virou para o caminho de acesso. A casa do guarda-portão estava às escuras e Nell presumiu que Albert já se tinha deitado, mas na mansão havia lanternas acesas no pórtico, a dar-lhes as boas-vindas. – Calculo que esteja muito contente por voltar a casa, m’lady – disse à patroa. – Com certeza que estou, Nell. – Lady Harvey suspirou. – Estas últimas semanas foram horríveis. Estou completamente exausta. Tinham-se passado coisas muito desagradáveis entre Lady Harvey e as irmãs depois da leitura do testamento do pai. Sir William não ajudara nada ao embebedar-se e tornar-se ofensivo, para depois se ir embora e deixar à mulher o trabalho de acalmar os ânimos. – Agora não tarda a recuperar – disse Nell, num esforço para a reconfortar. – O menino Rufus e toda a gente em Briargate vão ficar muito contentes por a terem de novo em casa. Ainda antes que o fiacre chegasse ao fim do caminho, Baines saiu com uma lanterna, logo seguido por Rose. Nell perguntou-se se teria estado sentado à espera junto à janela, porque com certeza não podia ter ouvido o fiacre da cozinha. Baines e Rose pegaram na bagagem de Lady Harvey e quando entraram todos no vestíbulo Rufus apareceu a voar escada abaixo, excitadíssimo. – Mamã, estou tão contente por ter voltado – disse, correndo para ela. – Estava com medo que não chegasse a tempo do Natal. O reencontro feliz fez Nell sorrir. Rufus parecia ter crescido mais uns bons cinco centímetros desde que voltara para o colégio em setembro e estava a tornar-se um jovem muito atraente. Perguntou-se por um instante porque não estaria Hope a pairar em segundo plano para as receber também, mas quando Baines disse que ia servir um jantar simples na sala de estar para Lady Harvey, presumiu que estava a ajudar Martha a prepará-lo. Depois de Rose ter levado a capa forrada a pele e o casaco de Lady Harvey, mãe e filho dirigiramse para a sala de estar enlaçados pela cintura. Nell correu para a cozinha; havia tanto tempo que não bebia nada que tinha a garganta áspera como lixa, e estava a morrer de frio.

– Oh, é tão bom estar outra vez num ambiente quente – disse ao entrar na cozinha, indo direita ao fogão e encostando o traseiro ao ferro. – O que eu não teria dado por uma capa forrada a pele no comboio para cá! Martha, que estava a dar os últimos retoques na bandeja para Lady Harvey, ergueu os olhos e


sorriu a Nell. – É bom ter-te de volta – disse. – O Albert queria esperar por ti, mas fez-se tão tarde que teve de ir para a cama. Mas pelo menos vai aquecer-ta. – Onde está a Hope? – perguntou Nell no instante em que Baines entrava na cozinha. Ele ignorou a pergunta e pegou na bandeja. – Vou levar isto a sua senhoria – disse. – Aconteceu alguma coisa? – perguntou Nell, quando ele saiu. – A Hope está doente? – Não me cabe a mim dizer nada – declarou Martha. – O Baines conta-te tudo quando voltar. Nell soube naquele instante que alguma coisa tinha acontecido, e isto foi confirmado quando viu Rose escapulir-se em direção à sala dos criados, presumivelmente porque não queria ser também interrogada. – Rose! Diz-me onde está a Hope! – gritou. – Acalma-te, Nell – disse Martha. – O Baines não demora. – Não está aqui, pois não? – exclamou Bell. – Para onde foi? Quando foi? A expressão fechada de Martha e o extremo nervosismo de Rose disseram-lhe que Hope tinha sem dúvida partido, mas nenhuma das duas estava disposta a dizer porquê ou quando. Nell começou a andar de um lado para o outro, esquecendo o frio e a sede com a sua agitação. A cozinha cheirava a canela, cravo-da-índia e outras especiarias, cheiros bons que lhe recordavam Natais passados quando tinha ali uma família à sua volta. Mesmo com toda a infelicidade que Albert lhe causava, ali em Briargate sempre fora capaz de pôr isso de lado. Não quisera que James e Ruth se fossem embora, mas nunca o dissera porque sabia que era errado interpor-se no caminho deles. Mas sem Hope não sabia o que ia fazer. Baines entrou e, ominosamente, fechou a porta. – Foi-se embora, não foi? – disse Nell. Baines assentiu com a cabeça, sombrio. – Porquê tão de repente? Com certeza podia ter esperado que eu voltasse? – perguntou Nell. – Conseguiu um bom lugar? Baines deixou-se cair numa cadeira e apoiou a cabeça nas mãos. – Fugiu com um namorado. – Namorado? Ela não tinha nenhum! – Era o que todos nós pensávamos. – Baines ergueu os olhos para ela, com o rosto contorcido pela pena. – Mas deixou um bilhete. O Albert trouxe-o e mostrou-mo. Nell sentiu-se como se todo o seu sangue lhe tivesse sido drenado do corpo e que as pernas não iam aguentá-la. – Quando foi isso? – Senta-te. – Martha empurrou-a para uma cadeira. – Vou fazer-te um chá. Baines explicou que tinha acontecido em novembro, cerca de duas semanas depois de ela ter partido com Lady Harvey. Disse que não houvera avisos nem despedidas; Hope estava ali na cozinha num minuto, e no seguinte tinha desaparecido. – Devia estar a planear aquilo há alguma tempo – disse numa voz cansada, e afastou da cara uma madeixa de cabelo. – Mas eu nunca desconfiei de nada, ela nunca agiu de um modo suspeito, nunca disse uma palavra que eu pudesse mais tarde interpretar como a sua maneira de dizer adeus. – E foi de mãos vazias – acrescentou Martha. – Todas as coisas dela continuam lá em cima, no seu


antigo quarto. Deixámos lá ficar tudo, para ti. – Mas porque foi que não me escreveram a dizer? – perguntou Nell, e começou a chorar. – O Albert disse que era melhor não. – Baines encolheu os ombros. – Disse que ficarias perturbada e que, como não podias deixar Lady Harvey, seria ainda pior. – Não foi procurá-la? – perguntou Nell, com o desespero a fazê-la levantar a voz. – Foi, e disse aos teus irmãos – respondeu Baines. – O reverendo Gosling passou por cá e disse que tinham ido falar com ele e com quase toda a gente na aldeia para tentarem descobrir quem era o rapaz. – E o que foi que descobriram? Baines abanou a cabeça. – Toda a gente diz o mesmo, que é um mistério. Não passou nenhum soldado por estas bandas. – Um soldado! – exclamou Nell. – Fugiu com um soldado? * A campainha correspondente à sala de estar tocou e Baines saiu. Lady Harvey estava instalada na cadeira junto à lareira, com Rufus sentado no tapete à sua frente, e voltou a cabeça quando ele entrou. – O que o Rufus me tem estado a dizer é verdade? Que a Hope se foi embora sem dizer uma palavra? – Sim, m’lady – respondeu Baines. – Acabo de contar à Nell o que aconteceu. Está muito perturbada. – Que pegazinha ingrata! – exclamou Lady Harvey, indignada. – Depois de tudo o que a Nell fez por ela! Parece-me evidente que está a dar às criadas demasiado tempo livre, Baines, se têm oportunidade para conhecer homens. Baines eriçou-se. Já era suficientemente mau a senhora achar que os criados não tinham direito a uma vida privada, mas considerando que toda a gente em Briargate estava a trabalhar o dobro porque os patrões não tinham dinheiro para contratar mais pessoal, não percebia como tinha o descaramento de dizer uma coisa daquelas. – Com todo o devido respeito, m’lady – disse, de dentes cerrados. – A Hope não tinha mais tempo livre além da tarde de folga, que passava sempre com o irmão e a família. Nem ele nem eu fazemos ideia de como e quando conheceu ela o tal homem. Além disso, não era nada dela, não é esse género de rapariga, e é muito chegada à Nell. – O melhor é a Nell ir para casa e falar com o Albert – respondeu Lady Harvey, já desinteressada. – Não me servirá de nada se estiver perturbada; a Rose pode cuidar de mim. Baines sentiu-se invadir por uma onda de fúria face à insensibilidade da patroa. Nell trabalhava para ela desde que tinha a idade de Hope, ninguém poderia ter sido uma servidora mais leal e dedicada, e merecia mais do que ser mandada para casa sem ao menos algumas palavras de solidariedade. – Não acredito que a Hope se tenha ido embora por sua livre vontade – disse Rufus, de repente. A mãe e Baines olharam para ele, surpreendidos. Os caracóis louros e compridos faziam-no parecer muito novo, mas a sua expressão era a de um adulto. – Aposto que o Albert a obrigou a ir. – O que estás tu a dizer? – perguntou Lady Harvey, num tom irritado. – Disseste-me que ela deixou uma carta à Nell.


– Deixou, o Albert mostrou-ma – disse Baines. – É perfeitamente possível obrigar alguém a escrever uma carta – insistiu Rufus, obstinado. – Já vi rapazes fazerem-no no colégio. A Hope gostava demasiado da Nell para fugir de casa quando ela não estava cá. – És uma criança e estavas no colégio quando isto aconteceu – retorquiu Lady Harvey, num tom de troça. – É tudo, Baines, por favor transmita a minha mensagem à Nell e à Rose. Gostaria de tomar um banho esta noite, antes de me deitar. Enquanto saía da sala, Baines ouviu Rufus dizer: – Mamã, não devia pedir à Rose que lhe prepare um banho a esta hora da noite. Trabalhou muito durante todo o dia e deve estar muito cansada! Baines não se demorou o suficiente para ouvir a resposta da patroa, mas ficou comovido pela compaixão do rapaz. Calculou que fora Hope que o ajudara a ver a injustiça da relação entre patrões e criados.

Nell soluçava enquanto descia o caminho em direção à casa do guarda-portão. Baines, Rose e Martha tinham feito tudo para tentar consolá-la, mas nada que alguém pudesse dizer conseguiria fazêla sentir-se melhor em relação à fuga de Hope. Lembrava-se de como era quando tinha dezasseis anos, tão ingénua, tão desejosa de experimentar tudo, sobretudo os mistérios do namoro e do beijo. Se Bridie não lhe tivesse dito de repente que Lady Harvey ia ter um bebé, teria ido naquela mesma tarde encontrar-se com Ned Travers em Lord’s Wood. Não sabia por que razão nunca considerara a possibilidade de Hope ser como ela era então, sempre a pensar em rapazes e desejosa de ter um namorado. Se ao menos tivesse falado com Hope a respeito de Ned, talvez a tivesse encorajado a revelar-lhe os seus próprios sonhos juvenis. Seria por se ter tornado tão amarga e seca que quisera inconscientemente que Hope também não conhecesse o amor e a felicidade? Mal abriu a porta da casa, ouviu Albert a ressonar no quarto, lá em cima, e sentiu no ar um cheiro acre que só podia vir de um bacio por despejar. Avançando às apalpadelas no escuro, chegou à mesa e encontrou o castiçal e os fósforos. À luz do primeiro, viu que a sala à sua volta estava num estado caótico e o coração afundou-se-lhe um pouco mais no peito. Com três velas acesas, teve vontade de fazer meia-volta e regressar a Briargate para passar lá a noite, porque a desarrumação era assustadora. Dúzias de garrafas vazias espalhadas por todo o lado, o chão semeado de grandes montes de lama seca trazida pelas botas de Albert, a mesa coberta de restos de pão bolorento e pratos sujos, muitos dos quais reconheceu como pertencendo à mansão, abandonados por tudo quanto era sítio. Não esperara nem por um instante que Albert a recebesse de braços abertos, mas com certeza que qualquer homem que soubesse o que a esperava no seu regresso teria tentado fazer qualquer coisa para lhe aliviar a dor. Ele não tivera sequer respeito suficiente pelos seus sentimentos para limpar a casa. Ao recordar todas as vezes que ele lhe ralhara por o tapete em frente do fogão não estar direito, ou as cadeiras não estarem bem enfiadas debaixo da mesa, sentiu a fúria invadi-la Ali parada a olhar para a imundície, a raiva dela tornou-se mais forte do que o seu medo de Albert.


Pegou na vela, subiu a escada e abriu com um pontapé a porta do quarto. – Acorda, Albert, quero falar contigo – gritou-lhe. – Que aconteceu? – perguntou ele, sonolento, e Nell franziu o nariz ao sentir o fedor das roupas suadas e do bacio cheio. – Grande porco! – gritou Nell. – Como pudeste deixar a casa neste estado para o meu regresso? Ele sentou-se na cama, a esfregar os olhos. – Fazer limpezas é um trabalho de mulher – resmungou. – Nesse caso devias ter arranjado uma mulher para o fazer – atirou-lhe ela. – Vi que a Martha tem estado a alimentar-te. Podias ter-lhe pedido que limpasse também a tua porcaria. – Cala a boca, mulher – disse ele, e voltou a deitar-se, como se tencionasse continuar a dormir. – Porco! – explodiu ela. – Não achaste que já era suficientemente mau para mim chegar a casa e descobrir que a Hope tinha desaparecido? E onde está a carta que ela deixou? A pergunta pareceu acordá-lo. – Como te atreves a entrar aqui e gritar comigo? – disse, rodando as pernas para fora da cama. – Um homem que trabalha precisa de dormir. Nell sempre tinha recuado quando ele fazia menção de avançar para ela, mas desta vez não tencionava fazê-lo. – Também uma mulher precisa de dormir, mas esperas que durma nesse ninho de ratos? – replicou, a apontar para a cama. A vela não dava muita luz, mas era o suficiente para ver que os lençóis estavam sujos. A colcha branca que ele exigia sempre que não tivesse uma única ruga tinha sido atirada para o chão e espezinhada por botas enlameadas. – Agora anda para a cozinha contar-me o que aconteceu à Hope. – Não sei de nada. Não a vi ir. Só encontrei o bilhete. A ligeira lamúria na voz dele disse a Nell que estava a mentir. – Mentiroso! – gritou, com a vela a oscilar no castiçal porque ela tremia de raiva. – Há mais qualquer coisa, eu sei que há. A mão dele subiu antes sequer que ela a visse mover-se e bateu-lhe com força no rosto. – Não consinto que me chamem mentiroso, e estou contente por aquela cabra se ter ido embora – sibilou. – Desaparece daqui. Encontrarás a maldita carta no aparador. Quando ele avançou como se fosse bater-lhe outra vez, Nell fez meia-volta e correu escada abaixo, subitamente consciente de que pisava terreno perigoso. Ouviu as molas da cama rangerem quando ele tornou a deitar-se, e de repente estava a chorar como se nunca mais fosse parar. Encontrou a carta, e aproximou-a da vela para poder lê-la. Não havia dúvida de que tinha sido escrita por Hope; a irmã tinha uma letra larga, nítida, a única que ela nunca tinha dificuldade em ler. Leu-a quatro vezes, mas a cada leitura ficava mais intrigada. Os seus conhecimentos em matéria de leitura e escrita eram rudimentares, e se tinha de escrever uma carta nunca conseguia mais do que frases curtas, incapazes de transmitir os seus pensamentos ou fazer qualquer espécie de descrição. Hope, em contrapartida, sempre escrevera como se estivesse a falar. Quando escrevia a James ou a Ruth, as suas cartas eram sempre relatos vibrantes de todas as notícias da família e da aldeia. Nell tinha a sensação de que aquela carta podia ter sido escrita por ela própria, com a diferença de não conter erros de ortografia. «Vou-me embora com um soldado.» Hope nunca diria apenas aquilo; mesmo que estivesse com muita pressa, acrescentaria uma razão qualquer, uma descrição do homem ou pelo menos o nome.


«Por favor não te zangues comigo.» Não seria a zanga da irmã que a preocuparia, e sim o desgosto. Onde estava a pena por não se despedir, ou o reconhecimento de que estava a desiludir toda a gente? «Podes ficar com as minhas coisas e com os salários que me devem.» Hope nunca se daria ao trabalho de dizer uma coisa daquelas, dá-la-ia como subentendida. Tal como era desnecessária a desculpa por ter levado um dos vestidos da irmã. * Mais tarde, Nell deitou-se na antiga cama de Hope no pequeno quarto. Estava frio e húmido por falta de uso, mas era muito melhor do que partilhar uma cama com Albert. Recordou as palavras que trocara com Hope na véspera da sua partida com Lady Harvey. Hope dissera que tinha tantas hipóteses de arranjar um namorado a trabalhar em Briargate como de tornarse rainha. Não teria dito aquilo nem feito um ar tão triste se já estivesse a pensar num rapaz. E também nunca teria deixado a carta ali, onde Albert poderia encontrá-la e lê-la. Tê-la-ia deixado no seu quarto, na mansão. Na realidade, se tivesse decidido fugir, nunca teria ido até ali, onde corria o risco de encontrar Albert. Como um raio de luz numa sala às escuras, Nell adivinhou de repente como tudo acontecera. Hope não estava a fugir, tinha ido ali para fazer a limpeza, como ela lhe pedira. Albert devia ter aparecido quando ela lá estava, e talvez Hope lhe tivesse ralhado por causa da porcaria e desarrumação. E ele batera-lhe. Quase podia ver a cena desenrolar-se à sua frente: Albert a perder o controlo, mas então a aperceber-se de que Hope contaria a Baines, que por sua vez contaria a Sir William. Por isso a carta de Hope era tão estranha. Tinha-a escrito, sim, mas obrigada por Albert. Podia ter aceitado deixar Briargate só para que ele parasse de lhe bater, mas como podia ele tê-la deixado ir, sabendo que correria direita à casa de Matt?

Nell ficou acordada toda a noite a olhar para a escuridão, atormentada por visões aterradoras de Albert a estrangular Hope. Queria desesperadamente que houvesse outra explicação, mas que outra explicação podia haver? Pouco depois de o relógio do andar de baixo dar as quatro horas, ouviu Albert sair subrepticiamente do quarto ao lado. Preparou-se, a pensar que ele a ia procurar, mas ele desceu a escada e, um minuto mais tarde, ouviu-o sair pela porta da frente. Era mais uma confirmação da sua culpa. Se não tivesse tido uma participação no desaparecimento de Hope não andaria em bicos de pés, nem sairia de casa uma hora mais cedo só para evitar encontrar-se com ela. Tinha a cara a latejar – sentia-a inchada – e a fúria e o desgosto voltaram multiplicados por dez. Era véspera de Natal, um dia de preparativos frenéticos, mas no passado sempre cheio de alegria. Até aos últimos dois ou três anos, houvera sempre muitos convidados em Briargate, e opulentos jantares na noite de Natal, e no dia seguinte um almoço ainda mais extravagante. Nell lembrava-se de anos em que tinha sido contratado um quarteto de músicos, e tinham enrolado os tapetes da sala de estar para os convidados poderem dançar. E também havia festas de máscaras. Lembrava-se de Lady Harvey vestida de Nell Gwyn e Sir William de Carlos II, e o riso e as canções a ecoarem por toda a casa. Aquele Natal, no entanto, não ia ser feliz para ninguém.


Duas horas mais tarde, quando o dia começava a raiar, Nell pegou na fronha de almofada onde juntara as suas coisas e dirigiu-se para a porta. Tinha limpado e arrumado a casa, não por qualquer sentido de dever conjugal mas apenas para ocupar o tempo até sair para a mansão. Enquanto empacotava as suas coisas, descobriu que o vestido que Hope levara era o mais antigo que tinha, um simples vestido cinzento de usar todos os dias que lhe ficaria demasiado grande. Mais uma coisa a confirmar a sua convicção. Se Hope fosse na verdade fugir com um apaixonado, ter-se-ia preocupado com o seu aspeto e levado o cor-de-rosa e branco que ela usara no dia do casamento. Mas esse estava dobrado e guardado na gaveta, mais um símbolo dos sonhos que Albert destruíra. * – Nell! – exclamou Baines quando ela entrou na sala dos empregados onde ele estava a engraxar as botas de montar de Sir William e pousou no chão a fronha onde enfiara todas as suas posses. – O que é isso? – As minhas coisas – respondeu ela, muito calma. – Não posso continuar a viver com o Albert. Baines pareceu aturdido, mas aproximou-se e tocou ao de leve na sua face avermelhada. – Bateu-te? – perguntou numa voz que foi pouco mais do que um murmúrio, com os pálidos olhos azuis cheios de preocupação. – Sim, mas foi a última vez – disse Nell, resoluta. – Vou levar o chá da manhã a sua senhoria e falar com ela a respeito de ficar aqui. Sir William vai sair a cavalo? Baines franziu a testa. – Já saiu, mas o Merlin continua na cavalariça. Discutiu com Lady Harvey ontem à noite. Não me parece que a encontres muito recetiva esta manhã. – É pena – replicou Nell, num tom ácido. – Só lhe peço que se certifique de que a Rose não está à escuta com o ouvido colado ao buraco da fechadura enquanto falo com ela. Foi com o coração pesado que Baines ficou a ver Nell afastar-se em direção à cozinha. Nunca a tinha visto tão determinada e com uma expressão tão dura; normalmente, fosse o que fosse que tivesse de enfrentar, fazia-o sempre com um sorriso. Calculou que ela achava que Albert fora de algum modo responsável pela partida de Hope. Baines não gostava de Albert, nem da sobranceria com que ele olhava para os outros criados, nem da sua natureza azeda e fechada. E ficara a gostar ainda menos desde a última vez em que ele batera em Hope, mas não estava a ver o que poderia ter tido a ver com a partida dela; desde que ela se mudara para a mansão, quase nunca se viam. A partida de Hope fora um rude golpe para Baines, porque ela era uma boa rapariga e uma boa trabalhadora, mas se Nell cumprisse a sua ameaça e deixasse Albert, todo o tecido de Briargate se desfaria. Já estava no fio; um pessoal reduzido ao mínimo, que nem com toda a boa vontade do mundo podia cuidar como devia ser de uma casa tão grande. Com um patrão alcoólico, uma patroa que parecia alheia à existência de toda a gente exceto a sua e um filho e herdeiro a crescer sem uma verdadeira orientação, o desastre era iminente e inevitável. E no entanto, os ricos esperavam que os seus criados se comportassem com a maior decência,


obedecessem às leis do país e da Igreja, mesmo que eles ignorassem essas mesmas leis. Nell tinha um registo impecável e mais de vinte anos de serviço naquela casa, mas Baines duvidava que isso significasse que o senhor e a senhora apoiassem o seu desejo de deixar Albert. As mulheres que abandonavam os maridos eram sempre crucificadas, mesmo que o dito marido fosse um tirano cruel, um mulherengo ou um bêbedo. O mais certo era ordenarem-lhe que voltasse para Albert, e se ela recusasse que lhe dissessem para sair de Briargate.

Lady Harvey estava acordada quando Nell lhe levou a bandeja do chá. – Quase não dormi a noite toda – queixou-se, enquanto se sentava na cama. – O frio parecia ter-me penetrado até aos ossos. E depois a Rose acordou-me quando veio acender a lareira. Nell sentiu-se tentada a responder torto e fazer uma descrição de como tinha sido a sua noite. Mas como de costume, murmurou palavras de compreensão enquanto punha um leve xale de lã à volta dos ombros da patroa e ajeitava as almofadas atrás das costas dela. – E ontem à noite a Rose não aqueceu o suficiente a água do banho – continuou Lady Harvey. – Acho que ficou ressentida por eu ter pedido um! – Tinha estado a trabalhar desde as cinco da manhã – respondeu Nell, enquanto pousava a bandeja sobre os joelhos da mulher. – Agora tem de limpar a casa toda sozinha, lavar a roupa e ajudar a cozinheira. É natural que estivesse cansada. – Mas o trabalho dela é fazer limpezas e ir buscar e trazer coisas! – protestou Lady Harvey, indignada. Nell engoliu uma resposta dura e dirigiu-se à janela para abrir os cortinados. O dia estava cinzento e frio e as árvores ao longo do caminho de acesso pareciam lúgubres esqueletos despidas das suas folhas, deixando a casa do guarda-portão perfeitamente visível. Lembrou-se de como ficara entusiasmada quando Sir William dissera que ela e Albert podiam lá viver. Ficara tão excitada com a ideia de terem a sua própria casa que não conseguira dormir nessa noite. Mas isso foi antes do casamento. Todos aqueles sonhos de um bebé nos seus braços, de um marido dedicado e carinhoso e da família a visitá-los tinham-se desfeito em fumo. Quando voltou costas à janela, apanhou do chão o vestido que a patroa tinha usado para viajar no dia anterior. – Tem uma mancha de sangue – disse Lady Harvey, seca. – Deve-me ter começado o período quando vínhamos para cá. Trata disso, Nell. Nell olhou para a mulher que tinha adorado e servido com total abnegação durante tantos anos e de súbito viu-a como na realidade era: mimada, vazia e completamente egocêntrica. Com quarenta e dois anos continuava bonita: a camisa de noite de seda azul da cor exata dos olhos, o cabelo louro a cair-lhe sobre os ombros, a pele como porcelana. Mas tinha os cantos dos lábios descaídos num permanente amuo e rugas na testa por passar tanto tempo num estado de ressentimento por a vida não lhe ter saído tão bem como esperava. – Tratarei do vestido – disse. – Depois de falar consigo a respeito da Hope. – Oh, não quero falar dessa rapariga pateta – respondeu Lady Harvey, irritada. – Ela fez a cama, Nell, agora tem de se deitar nela. Diz-me, achas que o vestido de cetim preto que usei para o baile em Bath quando ainda estava de luto pela minha mãe pode ser arranjado para fazer um vestido de tarde? Tem metros e metros de excelente tecido.


Nell rangeu os dentes. – Tenho de falar consigo a respeito da Hope, minha senhora. É que acho que o Albert a matou. – Oh, não sejas ridícula, Nell! – Lady Harvey deu uma pequena gargalhada que soou a falso. – Foise embora com um soldado. Até o Baines viu a carta. Como podes tu pensar que o Albert a matou? É um homem tão gentil, tão simpático. Nell manteve-se firme. – Olhe para a minha cara – exigiu. Lady Harvey baixou a chávena e olhou para Nell. – Está muito vermelha. O que andaste a fazer? – Não andei a fazer coisa nenhuma, foi uma bofetada do gentil e simpático Albert. É um bruto, Lady Harvey. Bateu-me dezenas de vezes, e à Hope também. E agora estou convencida de que a matou. Lady Harvey abanou a cabeça, numa incredulidade obstinada, e pousou a chávena no pires. – Recuso-me a ouvir mais disparates – declarou, altiva. – A Hope é uma pegazinha estúpida que prefere ser fodida a trabalhar para ganhar a vida. Nell abriu muito a boca de choque e horror ao ouvir aquela afirmação ordinária e difamatória. Já era suficientemente mau Lady Harvey não ter qualquer consideração por ela nem manifestar um mínimo de preocupação pela menina que em tempos brincara com o filho. Mas chamar a Hope uma prostituta estúpida, sugerir que ela escolhera uma vida assim por ser demasiado preguiçosa para trabalhar na cozinha fez o sangue ferver-lhe nas veias. Não podia deixar aquilo passar em claro. – Pois, a senhora sabe bem o que é ser uma prostituta estúpida, não sabe? – replicou, com vontade de arrancar a cara àquela mulher. – Mas teve-me a mim e à Bridie para esconder a sua indiscrição. Lady Harvey pareceu estupefacta, e então semicerrou os olhos. – Basta, Nell! – Ergueu uma mão para a silenciar. – Se queres conservar o teu lugar, não digas mais nada. – Pensa que o meu lugar é mais importante para mim do que a vida da Hope? – rosnou Nell, demasiado furiosa para se conter. Pois vou dizer-lhe agora, sua m’lady de um raio. A Hope é o bebé que eu ajudei a vir a este mundo, aqui neste mesmo quarto, nessa cama, há dezasseis anos. É sua filha! Por um ou dois instantes, Lady Harvey não reagiu. Ficou a olhar para Nell com uma expressão vazia, talvez incapaz de digerir o que acabava de ouvir. Nell devolveu-lhe o olhar, de mãos nas ancas, desafiando a mulher a dizer que estava a mentir. Mas então os lábios de Lady Harvey começaram a tremer. – Mas o meu bebé morreu, foi o que a Bridie me disse – murmurou num trémulo fio de voz. A menção do nome de Bridie recordou a Nell a promessa que tinha feito tantos anos antes. Mas apesar de sentir uma pontada de culpa por ter quebrado aquela promessa, estava furiosa e queria castigar ainda mais a patroa pelas coisas horríveis que tinha dito a respeito de Hope. – Bridie julgou que estava morta porque não chorou – disse, desafiadora. – Mas eu levei-a para baixo e descobri que estava viva. Nós sabíamos o que aconteceria se as pessoas soubessem que tinha tido uma filha, por isso eu levei-a para casa para a minha mãe. A cara de Lady Harvey esmoreceu, e ela levou as mãos ao cabelo e começou a puxá-lo como uma louca. – Não, não! Não é verdade! Não acredito em ti! – gritou. – Estás a inventar isto para me perturbar!


– Estou perturbada porque acredito que a Hope foi assassinada – sibilou Nell. – E estou furiosa por ver como consegue ser tão insensível. Mas acredita de verdade que eu inventaria uma história destas? – Não pode ser verdade. A Bridie ter-me-ia dito. Um dos planos que fizemos antes de a criança nascer foi que, se vivesse, a poríamos ao cuidado de alguém. A Bridie disse que seria caro, mas nesse caso ter-me-ia pedido dinheiro e teria continuado a pedir mais. – Não se atreva a insultar a memória da Bridie insinuando que ela seria capaz de chantagem; ela teria morrido por si – cuspiu Nell. – Na realidade, foi o que fez; a senhora matou-a com trabalho, tal como me faria a mim e à Rose. Fez uma pausa, a deixar a farpa entrar bem fundo, porque naquele momento estava por cima e ia dizer tudo o que tinha a dizer, libertar-se de velhas queixas. – Tudo o que a Bridie quis fazer foi proteger a sua reputação, porque a amava. E também acreditou que seria mais fácil para si se acreditasse que o bebé tinha morrido. E nem eu nem a minha mãe nos rebaixaríamos a pedir-lhe dinheiro porque acabámos por amar a Hope como se fosse nossa. Para nós era um tesouro. «Mas agora desapareceu e eu estou convencida de que foi assassinada, e se lhe resta qualquer espécie de sentimentos naturais, ajude-me a conseguir justiça para ela.» Lady Harvey chorou, mas Nell não conseguia sentir nada por ela senão desdém, porque sabia que não estava a chorar pela filha que perdera, ou sequer por ter pena de Nell. Estava a chorar por si mesma. – O que é que queres que faça? – soluçou Lady Harvey. – Não aguento isto. Nem sequer sei se posso acreditar no que me disseste. – Pode consultar os registos da paróquia e verá que a Hope nasceu a 25 de abril de 1832. E também pode olhar para a cara do seu capitão Pettigrew e ver a semelhança. Ao ouvir isto, Lady Harvey pareceu verdadeiramente assustada. Abriu muito os olhos e levou as mãos à boca. – A Bridie não me disse nada – apressou-se Nell a acrescentar. – Nem mandando-a arrastar por cavalos selvagens lhe arrancariam uma palavra. Vi o capitão Pettigrew pela primeira vez no dia em que a senhora sugeriu que a Hope viesse para cá brincar com o Rufus. Soube que era o pai dela mal pus os olhos nele. – Mais alguém reparou? – perguntou Lady Harvey, num sussurro. – Porque haveriam de reparar? Todos nós, os Renton, somos morenos, e ninguém sabia que tinha tido outro filho. Mas espanta-me que a senhora não tenha visto as parecenças. Nunca perguntou a si mesma por que razão a Hope era tão bonita quando o James, a Ruth e eu somos tão vulgares? Não houve resposta a esta pergunta. – Nunca olhou de verdade para ela, pois não? – O tom de Nell foi trocista. – A Hope trabalhou nesta casa todos os dias durante mais de quatro anos e a senhora nunca reparou na sua beleza. Mas a verdade é que não vê os seus criados como pessoas, pois não? – Fez uma pausa para recuperar o fôlego. – Não espera que tenhamos sentimentos, ou até vidas pessoais. Não quer saber se estamos cansados, doentes ou tristes, nem sequer dá valor à nossa lealdade. Confortei-a quando a sua mãe morreu, mas quem me confortou a mim quando os meus pais morreram? A senhora não! A única coisa que me ofereceu foi uma tarde de folga para o funeral. Nem sequer se importa que o Albert me bata, apesar de eu trabalhar para si há vinte anos. O que é preciso para a fazer preocupar-se, m’lady?


Lady Harvey rolou para o lado e soluçou ainda mais alto, a bater na almofada com a outra mão. Nell avançou e tirou a bandeja do chá de cima da cama, receando que se entornasse. – Eu preocupo-me, Nell – disse a patroa, ao fim de alguns instantes, mas as suas palavras quase se perderam nas almofadas. – Preocupo-me! Preocupo-me! – Voltou a deitar-se de costas, com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces. – Disse muitas vezes que não sei o que faria sem ti. Foram tantas as ocasiões em que quis falar-te do que sentia quando trazia no ventre o filho do Angus, e de todo o desespero da minha situação, naquela altura e agora. Mas tinha medo, não por não confiar em ti, mas porque sentia que se falasse dessas coisas elas me esmagariam. Consegues compreender isto? Nell recordou a ocasião em que Lady Harvey admitira que o capitão Pettigrew lhe escrevia. «Podes verificar o correio todas as manhãs?», perguntara, numa voz muito doce. «Claro que é só um amigo, mas o William tem andado tão difícil nestes últimos tempos e pode não gostar que o Angus me escreva.» E ela, como uma pateta, ficara orgulhosa da confiança implícita da patroa. Até ficara contente por Lady Harvey obter um pequeno conforto das cartas do capitão. Mas talvez tivesse sido melhor falar na altura e informá-la de que o fruto da sua união com o amigo estava naquele preciso instante lá em baixo na cozinha, a esfregar tachos, e perguntar-lhe se não seria tempo de fazer qualquer coisa por aquela criança! – Com todo o devido respeito, m’lady – respondeu, numa voz dura –, os seus sentimentos não são importantes para mim neste momento. Só quero saber o que foi que o Albert fez à Hope. Lady Harvey olhou para ela com uma expressão chocada. Sentou-se direita na cama e limpou as lágrimas com o lençol. – É véspera de Natal, Nell. O Rufus está cá – choramingou. – E não me parece que o meu marido acredite por um instante que seja que o Albert matou a Hope. Gosta muito dele. – Está a tentar dizer-me que Sir William não permitirá que chamemos a polícia? Lady Harvey começou a torcer os dedos das mãos. – Não sei. É muito difícil para mim falar com ele a respeito de seja o que for. Já não é o homem com que casei. Nell presumiu que ela estava a referir-se ao facto de o marido beber em excesso. – Apanhá-lo-emos quando voltar para o pequeno-almoço – disse. – Nessa altura estará bem. – Já saiu? – Sim, o Baines diz que saiu muito cedo. Lady Harvey franziu a testa. – Já não o conheço. Porque é que ele sai às horas mais estranhas e fica tão zangado quando lhe pergunto onde esteve? Ele não era assim, Nell, antigamente fazíamos tudo juntos, falávamos e ríamos tanto. Nell assentiu com a cabeça, por delicadeza. – Suponho que te interrogas como pude eu envolver-me com outra pessoa? – Pensei que se sentia muito só quando Sir William estava fora. – Não era só isso – disse Lady Harvey. – Estiveste comigo todos os dias durante dezasseis anos, Nell. Fizeste tudo por mim, conheces-me melhor do que ninguém. Com certeza percebeste porque foi que me voltei para o Angus? Nell encolheu os ombros.


Lady Harvey suspirou. – Não estás a ver, pois não? Pensas, como toda a gente, e como eu própria pensava no dia em que me casei, que era muito afortunada por ter um marido tão jovem, bonito e rico. Oh, eu adorava-o, mas na altura era tão inocente, Nell, nunca tinha sequer beijado um homem. Só anos mais tarde descobri a paixão, e foi só então que compreendi que nunca houvera nenhuma entre mim e o William, nem desejo, nem faísca. Na realidade, éramos como irmão e irmã. – Está a dizer que ele não se deitou consigo? – perguntou Nell. Lady Harvey corou. – Ao princípio, fez o que se esperava dele. E como eu não fazia ideia de como devia ser a parte do sexo no casamento, pensei que a culpa era minha por ele se mostrar tão desinteressado. Então o Angus veio visitar-nos, e de repente eu estava a ter sentimentos que nunca tinha experimentado. – Fez uma pausa, com o olhar perdido na distância. – Apareceu uma tarde, quando o William tinha saído a cavalo, e passeámos juntos no jardim – continuou. – Sentámo-nos um instante no pavilhão, e de repente ele estava a beijar-me. Foi como uma loucura, Nell, tão doce e excitante. Prosseguiu, contando como nos meses seguintes tentara lutar contra a paixão que sentia. Como pedia a Bridie que ficasse na sala se Angus aparecia e William estava fora. – Acontecia o mesmo com o Angus – disse, com tristeza. – Via tudo o que sentia espelhado nos olhos dele. Não vinha muitas vezes, por causa das suas obrigações militares, uma vez passei um ano inteiro sem o ver, mas estava sempre no meu espírito. Então o William foi para a América, e por vezes eu saía a cavalo sozinha, e foi num desses dias que encontrei o Angus. – E escorregou? Lady Harvey assentiu com um gesto de cabeça. – Deus é testemunha de que tentei com todas as minhas forças resistir à tentação. Amava o William, tínhamos alguns momentos felizes juntos. Mas aquilo que sentia pelo Angus era muito diferente, tão forte que varreu a moralidade, a lealdade e tudo o mais que me era caro. Era tão belo e poderoso, Nell, nada importava senão possuir e ser possuída. Se tivesse um pouquinho só que fosse daquilo com o William tudo teria sido diferente. Mas vi então que o que o William e eu tínhamos na cama era uma obrigação, uma coisa furtiva que não dava prazer a nenhum dos dois, apenas vergonha. E compreendi que o William não me desejava, e nunca me desejaria. Nell sentiu as lágrimas subirem-lhe aos olhos ao recordar a humilhação da sua própria noite de núpcias. Estivera tão disposta, tão desejosa de fazer amor, mas Albert repelira-a, fazendo-a sentir-se suja e odiosa. – Talvez tenhamos sido enganadas quando nos levaram a acreditar que os homens são criaturas normais – disse, hesitante, tentada por um instante a admitir que o seu próprio casamento fora ainda mais vazio. – Mas tiveram o Rufus. – A única coisa boa que resultou de toda esta trapalhada – disse Lady Harvey. – Quando o William voltou da América, eu estava muito em baixo. Atormentada pela culpa e convencida de que tudo o que tinha sofrido com o meu primeiro filho fora o castigo de Deus para a minha maldade. Mas, felizmente, o William voltou a casa cheio de um entusiasmo renovado por gerar um filho e herdeiro, e talvez por eu ter mais experiência de como agradar a um homem, aconteceu. – E não foi o suficiente para si? – O nascimento do nosso filho marcou o fim dos deveres físicos do William para comigo. – Mas ao menos tem um filho – recordou-lhe Nell, a pensar que de boa vontade se contentaria com


isso. – Não é o suficiente quando se conheceu o êxtase de estar nos braços de um homem que nos deseja – disse Lady Harvey, com a voz a quebrar-se. – Durante alguns anos, o Rufus foi o suficiente para mim. O Angus estava no estrangeiro, e nós tínhamos festas e convidados para me distrair. Mas agora... – Calou-se e começou a chorar. – O William sai sozinho, bebe e joga demasiado. Fala comigo como se me odiasse – soluçou. – A noite passada perguntei-lhe porque foi que me deixou no Sussex logo a seguir ao funeral e a resposta foi que os três dias que lá passara comigo tinham sido mais do que suficientes para ele. Pensei que estava a falar dos problemas com as minhas irmãs, mas não estava. Referia-se a estar na minha companhia.

Nell teve de cerrar os dentes com força para se impedir de interromper Lady Harvey enquanto a ajudava a arranjar-se. Uma torrente ininterrupta de palavras saía da boca da patroa – como Angus era maravilhoso, como achava o marido desprezível –, e no entanto quase do mesmo fôlego dizia que tinha escrito a Angus quando estava em casa dos pais a dizer-lhe que a relação entre os dois tinha de terminar. Era o discurso de alguém totalmente obcecado por si mesmo. Era também evidente que esquecera por completo de que Nell a procurara com um problema grave. A dada altura, chegou a perguntar a Nell se achava uma grande maldade desejar a viuvez para a libertar de um casamento infeliz. – A minha mãe costumava dizer: «Tem cuidado com o que desejas» – respondeu Nell, tentada a dar uma bofetada naquele rosto bonito, quanto mais não fosse para a chamar à realidade. – Mas, m’lady, temos de falar do que vamos fazer em relação à Hope, e da situação em que me encontro. «Não posso continuar a viver na casa do guarda-portão com o Albert. Portanto, ou me deixa ficar aqui em Briargate, ou terei de me ir embora hoje e ficar com o Matt e a família. Mas em qualquer dos casos, tem de conseguir que Sir William chame a polícia por causa da Hope.» – Não posso fazer isso. – Lady Harvey abanou a cabeça, irritada. – Conheço o meu marido e sei que ele não acreditará em nada de mau a respeito do Albert. Nem aprovará que deixes o teu marido. – A Hope é sua filha – disse Nell, furiosa. – O corpo dela pode estar enterrado no bosque ou até aqui, no jardim, e a senhora espera que eu me mantenha calada e continue a viver com o homem que a matou? Uma expressão de puro pânico encheu os olhos de Lady Harvey. – Uma investigação policial trará grandes problemas para todos nós, Nell. Pensa no meu filho, pelo amor de Deus! Nell ficou baralhada por este pedido. – Tem medo de que eu divulgue as suas confidências? Como pode pensar uma coisa dessas? Lady Harvey não respondeu e Nell interpretou aquele silêncio como uma confirmação dos seus receios. – Guardei segredo a respeito do nascimento da Hope durante dezasseis anos – disse, numa voz muito baixa. – Nada me faria revelá-lo agora, ou qualquer das coisas que hoje me disse. Os meus irmãos farão o mesmo, e se a senhora e Sir William não me ajudarem nisto, terei de sair desta casa e ir para junto da minha família. – Não podes deixar-me! – exclamou Lady Harvey. – É Natal, preciso de ti.


Uma hora mais tarde, Nell passava a cancela com a fronha onde juntara os seus pertences e atravessava a tapada em direção a Lord’s Wood. As lágrimas corriam-lhe pela cara, porque deixar Briargate era como cortar um membro, mas sabia que tinha de o fazer. Ao chegar ao bosque, voltou-se para lançar um último olhar à casa e recordou vivamente a noite, tantos anos antes, em que seguira aquele mesmo caminho com Hope nos braços. Dessa vez estava escuro, e Briargate era apenas uma silhueta iluminada pelo luar. Naquele dia tinha um aspeto sombrio e triste à luz cinzenta e fria da manhã, muito semelhante à expressão no rosto de Lady Harvey quando finalmente se convencera de que Nell estava a falar a sério. Tentara dissuadi-la. Mas quanto mais falava, mais evidente se tornava como era vazia e egoísta. Chorou e disse que Angus ignorava que a união dos dois tivera como fruto um bebé porque partira para o estrangeiro antes de ela própria saber que estava grávida. Estava aterrorizada pela possibilidade de qualquer investigação em Briargate resultar na descoberta dos encontros e da correspondência entre os dois. Também disse que o seu pai deixara a Rufus uma parte considerável dos seus bens, passando por cima dela por recear que Sir William a desperdiçasse. William já estava furioso com ela por causa daquilo, pois convencera-se de que a ideia fora dela, e por isso quaisquer novos problemas poderiam precipitá-lo na loucura. Até chegou a acusar Nell de deslealdade.

Baines abraçara Nell quando ela lhe disse que se ia embora, e quando a largou tinha os olhos húmidos. Nell pedira-lhe que dissesse adeus a Martha e a Rose, porque não suportava a ideia de fazê-lo ela própria. Agora tinha de enfrentar os irmãos e dizer-lhes que suspeitava que o marido era um assassino, e na realidade também não sabia como ia conseguir fazê-lo. Sempre fora o elemento plácido e sensato da família, a pessoa a quem todos recorriam em busca de conselho e conforto. Mas aquilo não era verdade; se fosse sensata, ter-se-ia certificado de que Hope não teria mais qualquer contacto com Albert depois de ele a ter atacado pela primeira vez. Nunca lhe teria pedido que fosse à casa do guarda-portão fazer a limpeza; era como deixar um coelho de estimação com uma raposa.


CAPÍTULO 10

1848 até ele ir à divisão das traseiras, onde está o forno, e depois entras a correr e pegas-lhe –E speras – sugeriu Betsy. – Não custa nada, já tarás longe muito antes de ele dar por falta de uma. – Acho que não sou capaz – gemeu Hope, a olhar para a porta da Slater’s Pies, do outro lado de Wine Street. – A minha mãe dizia sempre que é pecado roubar. Nessa manhã, acordou determinada a proporcionar uma refeição para os três, mas agora que estava na rua mais concorrida de Bristol, suficientemente perto para cheirar os aromas que emanavam da Slater’s Pies, esfumara-se-lhe a coragem. Em circunstâncias normais, aquela rua estava cheia de fiacres, carroças e carruagens, com centenas de transeuntes a deslocarem-se pelos passeios. Mas mais de quinze dias de tempo frio tinham tornado a cidade mais calma, e agora que se esperava neve mais para o fim do dia, só um punhado de pessoas se arriscara a sair de casa. Segundo Betsy, uma oportunidade ideal para Hope treinar um apanha-efoge. – Pecado é os ricos encherem a barriga enquanto as pessoas como nós morrem de fome – fez notar Gussie. – Quanto ao Slater, nem vai dar pela falta de uma, tendo tantas! Há três dias que não comiam e todas as vias habituais para Betsy e Gussie conseguirem comida ou dinheiro pareciam ter-se-lhes fechado. As condições atmosféricas extremas tinham atrasado os navios, e as portas e janelas que de costume ficavam abertas passaram a estar fechadas. Todos os proprietários de bancas e lojas de comida à volta do cais tinham redobrado os cuidados e a vigilância. Todos os dias, ao acordar, Hope, Betsy e Gussie encontravam pingentes de gelo no lado de dentro da janela do quarto, e não havia à vista uma apara de madeira que pudessem queimar na lareira. Sem dinheiro, não podiam sequer ir aquecer-se para o Grapes. Hope sentia-se obrigada a fazer qualquer coisa para ajudar. Há já dois meses que os amigos lhe ofereciam alimento e um teto, e apesar de ela contribuir em certa medida ajudando-os a procurar coisas nas lixeiras, não lhe parecia justo ficar com uma parte da comida que eles roubavam sem correr ela própria qualquer risco. Tanto Gussie como Betsy estavam demasiado maltrapilhos para tentarem entrar na Slater’s, que servia uma clientela fina, mas Hope ainda conservava um ar suficientemente arranjado para passar por uma criada a fazer um recado à patroa. – Não és obrigada a fazê-lo se não queres – disse Betsy. Parecia preocupada, além de transida de frio. – Havemos de pensar noutra coisa qualquer. Se qualquer dos dois tivesse insistido, ou tivesse troçado dela por ser tão puritana, talvez Hope tivesse recuado. Mas eles tinham-se tornado a sua nova família, e eram as pessoas mais generosas


que alguma vez conhecera. Betsy batia os dentes, o fino xale com que envolvia os ombros não era proteção contra o gelado vento norte, e Gussie tinha problemas respiratórios. Ainda na noite anterior Hope o ouvira tossir como se fosse deitar os bofes pela boca fora. Estava com muito mau aspeto, a cara branca como a cal e uma respiração sibilante, e apesar de terem crescido sem nenhuma das vantagens que ela tivera, estavam dispostos a partilhar tudo com ela. – Está bem, vou fazê-lo – concordou, relutante. – Vão-se embora. Esperem por mim no alto da escada de St. Nicholas’s. Por um instante, ficaram os dois a olhar para ela em silêncio, e as suas expressões recordaram-lhe vividamente a maneira como Nell a olhava quando não estava muito convencida de que ia conseguir fazer qualquer coisa sozinha. Mas então Betsy deu-lhe uma palmada no ombro e sorriu. – Sê corajosa e rápida. Não entres a correr, isso só serviria para chamar as atenções pra ti. Mas se alguém te perseguir, dá à perna e mete-te nas vielas. Gussie limitou-se a esboçar um sorriso débil, mas a maneira como mexia no cachecol sugeria que não estava muito feliz por ver Hope juntar-se às fileiras dos criminosos. Depois de os amigos se terem afastado em direção a Corn Street, Hope atravessou a rua e avançou para a loja de empadas. A Slater’s Pies era única, não só pelo verde-escuro e dourado da fachada e os magníficos balcões de mogno, mas por ter fama de fazer as melhores empadas do Oeste de Inglaterra. Só olhar para a montra era suficiente para fazer crescer água na boca: empadas de caça, de frango, de carne de vaca e de porco dispostas sobre toalhas aos quadrados verdes e brancos, com a estaladiça crosta castanho-dourada a brilhar à luz dos candeeiros a gás. Hope parava para olhar para elas sempre que passava por ali. Adorava a limpeza da loja e os cheiros deliciosos, e admirava o corpulento Mr. Slater com o seu impecável avental branco e alto barrete engomado. O rosto dele era tão brilhante como a massa que fabricava, as mãos grandes como presuntos, e no entanto embrulhava as empadas em papel branco e colocava-as nos cestos dos clientes com a delicadeza de uma mulher. As empadas que ela e os amigos costumavam comer eram pequenas, com apenas uma camada de carne, e a massa era mole e ensopada, tão distantes das da Slater’s como Lamb Lane ficava distante de Briargate. As empadas da Slater’s, com dez ou doze centímetros de altura, recheadas com carnes da melhor qualidade e pinceladas com gema de ovo batida, eram feitas para alimentar dez ou doze pessoas. Hope tinha visto a antiga cozinheira de Briargate fazer umas muito parecidas para jantares das colheitas e festas, e eram regra geral servidas frias, com chutney. O que queria naquele dia, porém, era uma das de porco, ainda quente. Ficara acordada na noite anterior a imaginar-se a comer uma, até quase conseguir saborear a massa amanteigada, e sentir os dentes cravarem-se na suculenta e deliciosa carne de porco. Quando, nessa manhã, disse ao amigos o que tencionava fazer, Gussie avisara-a de que poucas das pessoas que conhecia se atreviam a roubar em Wine Street, por ser uma rua tão elegante. Hope achava que isso até lhe dava uma vantagem, porque Mr. Slater não estaria provavelmente tão atento a possíveis oportunistas. Mas... e se estivesse enganada?

Pareceu-lhe um muito bom presságio estar um tocador de realejo a atuar mesmo ao lado da loja. O homem tinha um macaquinho vestido com um casaco e um pequeno chapéu vermelhos que pulava ao ritmo da música. Toda a gente parava para ver, de modo que ela não despertava suspeitas por se


demorar em frente da montra enquanto espiava os movimentos de Mr. Slater. O maravilhoso cheiro das empadas a cozinhar fê-la babar-se e as cãibras da fome voltaram ainda mais intensas. Mr. Slater tinha posto quatro enormes empadas de caça dentro de uma caixa e estava a atá-la com um cordel. Viu-o entregar a caixa a um rapazinho, que ia sem dúvida levá-la a casa de um cliente. Parecia estar zangado com o rapaz, pois agitava um dedo na direção dele, talvez a dizer-lhe que não se desviasse do seu caminho. O rapaz saiu da loja com a caixa nas mãos e afastou-se pela rua, sem sequer fazer uma pausa para olhar para o macaco. Mr. Slater estava sozinho na loja, a olhar para um bloco de notas como se tivesse mais encomendas para aviar. Havia cinco grandes empadas de porco na ponta do balcão, ainda a fumegar. Mr. Slater chegou-se à porta e espreitou para fora, de sobrolho franzido; Hope pensou que estava irritado por o tocador de realejo lhe estar a estragar o negócio. Demorou-se no umbral um ou dois minutos, consultou o relógio de bolso, e de seguida voltou-se e saiu pela porta ao fundo da loja. Hope sentiu o coração começar a bater muito depressa, pois sabia que aquele era o momento e que tinha de o aproveitar antes que os clientes começassem a entrar. Tirando o pedaço de pano que tinha à volta da cintura, inspirou fundo e entrou. Com um gesto rápido tapou com o pano a empada mais próxima e pegou-lhe. Mas quando estava a voltar-se para sair da loja, ouviu o som de passos que se aproximavam e correu porta fora. Não foi suficientemente rápida, pois quando ia a passar o umbral ouviu Mr. Slater gritar: – Agarra que é ladrão! As entranhas contraíram-se-lhe de medo. Já vira pessoas correrem atrás de ladrões, e regra geral apanhavam-nos. Mas apesar de Mr. Slater ter gritado alto, a música do realejo lá fora era ainda mais alta, e ela passou pelo meio das pessoas a apertar a empada contra o peito. Estava muito quente, e tinha de usar a capa para a segurar. Conseguia cheirá-la, e estava certa de que o mesmo acontecia com as pessoas por que passava. – Ladra! – ouviu-o gritar de novo, dessa vez mais alto. – Essa rapariga de capa cinzenta, agarremna! Hope segurou a empada com mais força e correu por Wine Street, sem sequer voltar a cabeça para ver se estava a ser perseguida. Meteu pela Pithay, uma viela muito estreita que descia até ao rio Frome. Era a área onde se situava a maior parte das lojas de roupas e mobílias em segunda mão e o género de clientela que as frequentava estaria muito menos disposta a ajudar a apanhar um ladrão. Ouvia atrás de si, no entanto, o barulho de botas cardadas a baterem no empedrado. Correu então como o vento, com o coração a bater tão depressa e com tanta força, por causa do pânico, que pensou que ia rebentar. Sabia que estava perigosamente perto de Bridewell e podia haver vários polícias a fazer os seus giros, mas lembrando-se do que lhe fora dito, meteu pelas vielas e continuou a correr. Durante os dois meses que passara com Betsy e Gussie, tinham estado três vezes na galeria do tribunal dos magistrados para ver alguém que conheciam ser julgado. Um amigo deles apanhara cinco anos de trabalhos forçados por roubar duas velas. Quase sempre que iam ao Grapes ouviam falar de alguém que tinha sido açoitado em público por pequenos roubos – até crianças de oito ou nove anos podiam ser mandadas para a prisão. Hope achara que nunca ia conseguir habituar-se à imundície, miséria e brutalidade da vida em Lamb Lane, e no entanto conseguira. Mas tantas pessoas lhe tinham dito que a prisão faria com que Lamb Lane


parecesse um paraíso que ela preferiria atirar-se ao rio e afogar-se a descobri-lo por si mesma. Sentia uma dor de um dos lados do corpo por subir e descer vielas àquela velocidade, mas o homem que a perseguia não desistia. Não acreditava que fosse Mr. Slater, que devia ter oferecido àquele homem uma recompensa para a apanhar, e alguém que o fizesse por dinheiro seria muito determinado. Mas também ela era determinada. A empada era pesada, mas Hope não fazia a mínima tenção de a largar, e ainda menos de se deixar apanhar. Continuou a correr, fazendo tudo o que podia para despistar o seu perseguidor, mas a pesada empada atrasava-a, a fome enfraquecera-a e o homem estava a ganhar terreno. Quando começou a descer Tower Lane, que ficava perto de Pithay, a primeira viela por onde metera, olhou para trás e viu que o seu perseguidor era um sujeito alto, entroncado e calvo que parecia um pugilista. Estava a menos de quinze metros de distância e Hope soube que tinha de arranjar uma maneira de o enganar. Dobrou a esquina seguinte e olhou em redor à procura de um lugar onde se esconder, e como uma dádiva do céu havia uma porta aberta. Entrou por ela como uma seta e fechou-a, e ficou atrás dela, a arquejar, enquanto ouvia os passos do homem passarem lá fora. Mal conseguia respirar e sentia-se fraca e trémula, à espera de que a qualquer momento o homem adivinhasse o que ela tinha feito e começasse aos murros à porta. – És tu, Tilda? – perguntou uma voz débil vinda do fundo do escuro corredor, assustando-a ainda mais. Hope não via nada com a porta fechada, mas o cheiro a limpo do lugar disse-lhe que era a casa de alguém com algumas posses, e o nome que a velha senhora chamara devia ser o de uma criada. Mas uma criada só deixaria a porta aberta se estivesse ali perto. Meio morta de medo, e com o coração a bater como um motor a vapor, não sabia o que fazer a seguir. Era muito possível que o homem que a perseguira estivesse à espera na rua, e podia até ter recrutado a ajuda da criada. Estava encurralada. À medida que os seus olhos se habituavam à escuridão, viu uma escada à sua frente, e várias outras portas. Uma delas estava entreaberta, e Hope deduziu que seria a da sala onde a velhota se encontrava. Pareceu-lhe lógico que a do fim do corredor, à sua frente, desse para um pátio das traseiras e outra saída, e avançou para ela em bicos de pés. Estava trancada com um ferrolho, e o ferrolho rangeu quando ela o puxou para trás. Esperou um segundo, à espera de ouvir a velhota voltar a chamar. Como não houve gritos nem movimentos, abriu a porta e, para sua delícia, viu um pequeno quintal com um portão no muro com quase dois metros e meio de altura. Mas o portão estava trancado e não havia chave. Por um ou dois segundos, pensou que o jogo chegara ao fim. Não só estava encurralada como perdera a noção de onde se encontrava e não fazia ideia do que poderia haver do outro lado do muro. Como a maior parte de Bristol, aquela área era um labirinto de becos e vielas, com a parte superior das fachadas projetada sobre os caminhos, quase a tocar as casas fronteiras. Mas nunca tinha estado nas traseiras dos prédios, e não havia à vista nada de familiar que lhe dissesse exatamente onde estava. * Após alguns segundos, decidiu que trepar o muro era a única opção que lhe restava. Embrulhou a


empada no pano, atou o embrulho às fitas do capuz da capa e, agarrando-se a um tijolo que sobressaía do muro, içou-se. Se não estivesse tão desesperada, um olhar ao que havia do outro lado daquele muro poderia tê-la feito desistir. Era uma viela com menos de um metro de largura que parecia servir de esgoto, mas saltar para o meio de excrementos humanos era coisa que já não lhe importava.

Quando por fim chegou aos degraus de St. Nicholas’s percebeu pela rigidez da postura de Gussie e Betsy que já a julgavam apanhada e presa. – Procuram alguém? – gritou, numa imitação da mulher grosseira que vivia no quarto por baixo do deles. Foi uma delícia ver os rostos dos seus amigos iluminarem-se, e uma delícia ainda maior agitar-lhes o embrulho debaixo do nariz para que pudessem cheirá-lo. – Pensávamos que tavas feita! – disse Betsy, ofegante. – Távamos tão ralados! Tava mesmo a dizer ao Gus que não te devíamos ter deixado ir.

Entraram na igreja de St. Nicholas e, no mesmo banco para onde tinham levado Hope aquando da sua chegada a Bristol, Gussie partiu a empada com um canivete. Nunca nada lhes soubera tão bem, e os três empanturraram-se sem tentarem sequer falar. A empada ainda estava morna e os sucos escorriam-lhes pelo queixo, a massa colava-se-lhes aos dentes e às gengivas. – Quando for rico vou comer uma destas todos os dias – suspirou Gussie, quando por fim ficou saciado. – Foi a melhor coisa que alguma vez provei. Hope embrulhou o que restara para comerem no dia seguinte. – Deu-te alguma ideia a respeito de como ficar rico? – perguntou a Gussie, na brincadeira. Sentiase um tudo-nada agoniada, comera demasiado, mas não ia admiti-lo. – Não, mas há de vir – riu ele. – Agora conta-nos como foi. Era muito bom ser ela a cuidar deles, para variar, e enquanto contava a sua história riu alegremente. – Foi uma sorte o chão estar gelado naquela viela – concluiu. – Nem quero pensar no que havia por baixo do gelo.

Durante a tarde, por sugestão de Hope, foram os três para os lados da aldeia de Stapleton para arranjar alguma lenha. A empada matara-lhes a fome, mas todos eles tinham bem consciência de que não conseguiriam aguentar mais uma noite de frio intenso sem a lareira acesa. Estavam os três muito animados quando partiram, levando sacos para carregar a lenha para casa, mas mal as estreitas ruas de Bristol deram lugar ao campo aberto, Gussie e Betsy começaram a mostrar-se estranhamente nervosos. – O vento é tão forte e frio – queixou-se Betsy, a envolver-se nos seus próprios braços. – E o cheiro é esquisito! – É o cheiro do ar puro – disse Hope, a provocá-los, consciente de que os amigos nunca se


aventuravam fora da cidade e a suspeitar que se sentiam um pouco intimidados pelos campos gelados do inverno e pelas árvores nuas como esqueletos. – Caminha mais depressa que já aqueces. – Puseram-me a trabalhar numa quinta aos oito anos – disse Gussie enquanto atravessavam uma pastagem onde havia vacas. – Já era mau que chegasse no asilo em Plymouth, mas o raio da quinta era ainda pior. Tinha tanta fome que comia a lavagem dos porcos. – Não vamos ficar aqui – lembrou-lhe Hope. – Pensa só em como será bom encher estes sacos e ir para casa e acender um bom lume. É possível que encontremos algumas batatas, e poderemos assálas na lareira. Betsy continuava a resmungar como se estivesse a ser levada para o patíbulo e guinchava de medo sempre que uma vaca se aproximava deles. Gussie mantinha-se calado, e Hope calculou que estivesse a remoer dolorosas recordações de infância. Numa tentativa de animar os amigos, contou-lhes como costumava ir apanhar lenha com Joe e Henry. Descreveu o pequeno carrinho que o pai fizera para eles e como os rapazes costumavam deixá-la ir nele quando a terra estava dura e gelada, como naquele dia. – Pergunto-me o que estarão a fazer agora – murmurou, passando a explicar que da última vez que os vira trabalhavam na fundição, mas que estavam sempre a dizer que haviam de ir para Londres. Era muito raro Hope falar da família; por norma, evitava até pensar neles com receio de ficar demasiado triste. Mas ainda estava impante de orgulho depois de ter conseguido roubar a empada e animada por uma tão grande confiança nova que julgava ter passado a fase de se deixar afetar por recordações. – O Toupeira e o Pernas foram a Londres mas só lá ficaram um par de dias e foram espancados e roubaram-lhes os casacos e as botas – respondeu Gussie, a referir-se aos dois amigos que partilhavam o quarto em Lamb Lane à noite. – E eles são dos duros. Por isso não me parece que os teus irmãos tenham grandes hipóteses! A sugestão de Gussie de que um par de rapazes do campo não conseguiria aguentar-se em Londres não incomodou Hope, mas evocou a recordação do pai a entrar em casa a cambalear, encharcado e doente, tentando explicar o horror que experimentara em Bristol. No mesmo instante, apercebeu-se de que a pensão onde apanhara a doença que o matara a ele e à mulher se situava provavelmente em Lewins Mead. De repente, teve medo. Não tanto da doença, apesar de saber que grassava por todo o lado, sobretudo entre os irlandeses que chegavam famintos e de olhos encovados em todos os navios que vinham de um país assolado pela fome. Mas fora infetada com o outro mal que tanto chocara o pai: o roubo. Os pais sempre tinham sido escrupulosamente honestos. Nunca o pai se teria apropriado de uma couve ou de meia dúzia de batatas quando estivesse a trabalhar numa quinta. Sabia que estariam às voltas na sepultura se soubessem onde ela estava a viver e o que tinha feito naquele dia. Nas primeiras duas semanas em Lewins Mead ficara tão horrorizada com o lugar como o pai. Adormecia a chorar todas as noites, a odiar Albert por causa do que lhe fizera. Mas à frente de Betsy e Gussie tinha de mostrar coragem; ao fim e ao cabo, se não fossem eles não teria um teto para se abrigar. Nell costumava dizer que as pessoas se habituam a tudo, e era verdade. As condições em que vivia naquele momento, a usar a mesma roupa dias seguidos, sem saber de onde viria a próxima refeição... a tudo isso se tinha habituado.


Não tardou muito que Gussie e Betsy se tornassem a sua nova família, e ela adotasse os pontos de vista e os padrões deles, pondo de lado aqueles com que fora criada. Naquele instante, porém, com as imagens dos pais e dos irmãos e irmãs a assaltarem-lhe o espírito, envergonhava-se de ter perdido os antigos valores. Por muito certo e bom que fosse mostrar afeto e lealdade para com as pessoas que a tinham ajudado quando mais precisava, nunca devia ter perdido de vista quem era, ou deixado de dar ouvidos à sua consciência. Lágrimas picaram-lhe os olhos ao recordar como tinha sido amada quando criança. Como benjamim da família, fora mais bem alimentada, vestida e educada do que os irmãos. Todos eles se orgulhavam de ela saber ler e escrever tão bem, e Nell dizia muitas vezes que os pais a tinham mantido a estudar durante mais tempo na esperança de lhe dar as oportunidades que eles nunca tinham tido. E ela tornara-se uma vulgar ladra! Tudo o que a rodeava, os campos gelados que atravessavam, os bosques ao longe, até o vento frio e cortante, lhe recordava a sua casa. Sentia o cheiro do fumo da lenha a arder e do estrume de vaca, ouvia os corvos a crocitarem nas árvores. No cume da colina à sua frente via o campanário de uma igreja, e recordou o reverendo Gosling e os seus acalorados sermões contra o pecado. Betsy parou de resmungar contra o frio quando chegaram ao bosque. Gussie ficou entusiasmado pela abundância de combustível para a lareira espalhado pelo chão. Mas Hope estava tão sufocada por sentimentos de vergonha que não conseguia sequer ter qualquer sensação de triunfo por ter sido sua a ideia de irem até ali. Começou a encher o seu saco com gestos apressados, em silêncio, sem parar de se acusar a si mesma. Não fora por sua culpa que deixara Briargate e fora parar a Lewins Mead, mas no fundo do coração sabia que não se tinha esforçado muito por sair de lá. No início de janeiro, quando as nódoas negras tinham começado a desaparecer, tentara encontrar um trabalho respeitável. Procurara em lojas, em pensões, até num par de lavandarias. Mas as recusas tinham-na atirado abaixo, e aquilo era muito pior que remexer nas lixeiras com Gussie e Betsy. Em comparação, fazer a volta dos armazéns, fábricas e oficinas para procurar no meio do lixo coisas que podiam vender nas lojas do cais era uma brincadeira. Gostava de apanhar do chão o dinheiro que as pessoas atiravam a Gussie quando ele fazia as suas momices à porta dos teatros. Até achava graça a distrair os lojistas enquanto Betsy e Gussie roubavam coisas. Ainda há dois dias Gussie falara dos tesouros que era possível encontrar no lodo das margens do rio Avon durante a maré baixa. Os que lá trabalhavam eram conhecidos como «calhandras do lodo», e Hope estava desejosa de que chegasse o tempo quente para poder tornar-se um deles. Se, há um ano, alguém tivesse sugerido que podia tencionar ganhar a vida a patinhar no lodo fétido do rio teria ficado horrorizada. A desagradável verdade era, porém, que se permitira tornar tão apática como todos os outros habitantes de Lewins Mead. Dormia até tarde de manhã, deambulava pelas ruas em vez de procurar um verdadeiro trabalho e, o que era ainda pior, começara a depender de beber alguns copos de gin todos os dias porque a bebida bloqueava a sórdida realidade da sua nova vida. A ignorância e a apatia eram os verdadeiros flagelos de Lewins Mead. Embora se pudesse dizer que os residentes viviam em condições que tornavam quase impossível manterem-se limpos e saudáveis, poucos o tentavam, ou o viam sequer como desejável. O roubo e a prostituição eram as principais ocupações, e o dinheiro ganho era gasto em bebida. As crianças eram empurradas para as


ruas para mendigar ou roubar ainda mal conseguiam andar e ninguém achava que houvesse nisso qualquer problema. Ela, no entanto, não podia alegar a ignorância como desculpa para o que quer que fosse. Sabia distinguir o certo do errado, fora educada e possuía inúmeras competências que os seus vizinhos não tinham. Podia não ter culpa de ter caído naquela fossa, mas agora tinha de encontrar maneira de sair de lá. Se não o fizesse, acabaria na prisão ou a vender o corpo até que ele ficasse demasiado destruído pela doença para alguém o querer.

A luz do dia esmorecia e o vento soprava cada vez mais cortante quando os três amigos regressaram a casa carregando aos ombros pesados sacos cheios de lenha. Hope tinha encontrado algumas batatas que um agricultor deixara escapar e que, por milagre, a geada não tinha enegrecido. – Podíamos vender um saco e ganhar o suficiente pra um par de gins pra cada um – alvitrou Betsy, quando chegaram à cidade. – Vai nevar, vamos precisar da lenha – disse Hope, seca. – O gin não nos vai aquecer. – Olha pra ti! – troçou Betsy. – Achas que agora és tu que mandas só porque aprendeste a roubar? Hope hesitou antes de responder. Sabia que se desse voz aos pensamentos que lhe tinham enchido a cabeça naquela tarde os amigos o veriam como uma condenação do seu modo de vida. – Não aprendi coisa nenhuma – disse, com cuidado. – E sei que não me atreverei a voltar a tentar. Vou arranjar um trabalho a sério. – Não há trabalho pra pessoas como nós – replicou Betsy. – Já devias ter percebido isso. Hope estava meio à espera desta reação. – Nesse caso vou apanhar lenha e vendê-la – declarou. – Nunca conseguirás apanhar o suficiente para vender sem um carinho de mão – disse Gussie, apesar de estar a olhar para ela com simpatia, não com troça. – Mas também nunca achei que fosses talhada para roubar.

Algumas horas mais tarde, de novo no quarto, com o lume a arder na lareira e as batatas a assar perto das chamas, Hope tentou com muito tato explicar melhor o que sentia. Como já esperava, Betsy eriçou-se um pouco, mas Gussie pôs-se do seu lado. – Detestava que te tornasses uma dollymop – concordou, usando a palavra local para prostituta. – E a Betsy também, ela não o faria nem que tivéssemos a morrer de fome. – Talvez fizesse – declarou Betsy, descuidada. – Se o tipo fosse novo, rico e me tratasse bem. Hope riu, porque Betsy fazia sempre questão de ter a última palavra, e quase sempre argumentava só pelo prazer da discussão. – Se me aparecesse um homem assim, havia de querer casar com ele, não apenas ir para a cama – disse Hope. – Mas isso não vai acontecer, com este aspeto! Gussie lançou-lhe um olhar avaliador. – És bonita, Hope – disse, e era evidente que não estava a ver o cabelo emaranhado ou como o vestido cinzento se tornara esfarrapado e sujo. – E a Betsy também. Podiam conseguir qualquer um, se fizessem um esforço. – És encantador. – Hope sorriu. – Mas não vale a pena sonhar com um homem que me leve para


uma boa casa com boa comida na mesa. Vou ter de trabalhar para conseguir qualquer coisa melhor do que isto.

Nevou nessa noite e durante todo o dia seguinte. O Toupeira, o Pernas, e as respetivas mulheres, Josie e Lil, ficaram em casa, todos aconchegados à volta da lareira acesa. Jogaram cartas, beberam a garrafa de rum barato que o Toupeira tinha levado, discutiram e contaram histórias. Hope estava contente por estar abrigada do frio, mas não lhe agradava ser obrigada a passar tanto tempo na companhia dos inquilinos noturnos. O Toupeira e o Pernas eram patifes grosseiros e desbocados que não mantinham conversas, faziam monólogos sobre vilania. Apercebera-se semanas antes de que Josie e Lil eram prostitutas que entregavam aos seus homens o dinheiro que ganhavam. Os quatro representavam tudo o que detestava em Lewins Mead. O Toupeira, um sujeito baixo e atarracado com uns olhos escuros muito juntos por baixo de umas hirsutas sobrancelhas negras, ganhara a alcunha por ter sido mineiro. O Pernas era alto e magro, com uma cicatriz feia a riscar-lhe a face direita. Era de Dublin e a única coisa que tinha de atraente era o sotaque irlandês. Josie e Lil faziam lembrar a Hope uma tripa, brancas, flácidas e sem nada que as recomendasse. Tinham olhos baços e eram muito estúpidas, e os seus rostos pálidos e magros não registavam qualquer emoção. Todos eles vestiam roupas decentes pelos padrões de Lamb Lane, mas a sujidade entranhada na pele, a ausência de expressão dos seus olhos e a ininterrupta torrente de palavrões e calão de sarjeta eram repelentes. Às cinco da tarde, Hope estava convencida de que aquilo era uma amostra do que seria estar numa cela de prisão com mais seis pessoas, a respirar um ar pútrido, assaltada por cheiros fétidos de corpos imundos e obrigada a suportar as fanfarronices de criaturas que eram parasitas humanos. Passara a maior parte do dia a olhar pela minúscula janela, porque ao menos a neve tornara a vista dos telhados bonita e limpa. Mas agora escurecera e tinha de voltar para o seu monte de sacos, e à luz de duas únicas velas e da lareira, os quatro inquilinos não eram apenas feios, eram ameaçadores. Sentia que também Gussie e Betsy não estavam contentes com aquela companhia forçada. Betsy chamava aos inquilinos amigos, mas isso significava que ela e Gussie os conheciam bem, não que gostavam deles. Precisavam do contributo regular do subaluguer para pagar a renda de três xelins semanais, e até àquele dia os inquilinos sempre tinham saído por volta das dez ou onze da manhã, só voltando já tarde de noite. Aquele encarceramento forçado tivera ao menos o efeito de reforçar a convicção de Hope de que tinha de arranjar maneira de sair de Lewins Mead de uma vez por todas. No entanto, quando olhava para os rostos de Betsy e Gussie suavizados pela luz das velas sentia uma pontada de pena, porque isso significaria quase de certeza deixá-los para trás. – Em que tás a pensar? – perguntou Gussie em voz baixa, quase como se lhe tivesse entrado na cabeça. – Em arranjar trabalho – sussurrou Hope em resposta, sabendo que se um dos inquilinos ouvisse teria muito a dizer a respeito do assunto, e nada que ela estivesse interessada em ouvir. – Podias ir à Ragged School – sugeriu Gussie. – Há um fulano chamado Mr. Phelps que é lá professor. Talvez possa ajudar-te. Dizem que é um tipo decente. Hope também ouvira dizer que a filha de um pregador chamada Miss Carpenter estava a usar uma velha sala de St. James’s Back para ensinar as crianças da rua de Lewins Mead a ler e escrever. Era


famosa pela sua paixão por dar às crianças dos bairros pobres uma oportunidade na vida. Até àquele dia, no entanto, Hope não se interessara o suficiente para saber mais a respeito dela. – Desconfio que andaste a cheirar por lá – disse, a provocá-lo. Gussie era um enigma. Exteriormente, parecia tão manhoso, fanfarrão e casmurro como o Toupeira e o Pernas, mas por trás dessa fachada havia uma alma mais generosa e sensível. Hope adivinhava que alguma coisa de terrível lhe acontecera quando criança, talvez na quinta para onde fora mandado trabalhar, porque se fechava num mutismo intratável sempre que ela o interrogava a esse respeito. Tinha uma veia de ternura que uma vida nas ruas não extinguira, e também um código moral que o impedia de roubar àqueles que considerava ser «os seus». – Sim, fui lá algumas vezes. – Suspirou. – Queria aprender qualquer coisa, mas aquilo não é para mim. Os miúdos que lá vão são todos muito novos. Não podia fazer mais nada se lá fosse todos os dias. – Dão aulas à noite, não dão? – perguntou Hope. – Podias ir a essa hora. Gussie encolheu os ombros. – Cheguei a pensar nisso, mas para isso tinha de deixar a Betsy sozinha. Ela não tá segura sem mim, e tu também. A explicação pôs um nó na garganta de Hope, porque sabia do que Gussie tinha medo: os chamados «Traficantes de Brancas», que forçavam raparigas muito novas à prostituição. Havia em Lewins Mead inúmeros homens, incluindo o Toupeira e o Pernas, que viviam do que as suas mulheres ganhavam como prostitutas. Sem dúvida muitas daquelas mulheres tinham sido empurradas, ou até forçadas, para aquela vida pelos seus homens. Mas esses não eram de temer, Betsy conhecia-os todos e não se deixaria levar por nenhum deles. Os Traficantes de Brancas eram muito diferentes. Eram homens bem vestidos, de aspeto respeitável, e presumivelmente encantadores, a julgar pelo número de raparigas que desapareciam depois de terem sido vistas a conversar com um desconhecido. Havia uma mulher que trabalhava na Drawbridge, uma casa de bebidas nas docas frequentada por marinheiros, que tinha sido capturada desta maneira e levada para um bordel em Londres. A sua versão, confirmada pela polícia, que fez uma rusga ao bordel depois de ela ter sido expulsa por estar grávida, foi que um homem de aspeto elegante lhe oferecera uma bebida que devia estar drogada. Quando recuperou os sentidos, deu por si numa carruagem, amarrada e amordaçada. O bordel onde foi parar servia uma clientela rica que queria perversões indizíveis, não um rápido alívio num beco qualquer. As raparigas rebeldes eram espancadas ou passavam fome até se submeterem; algumas eram drogadas com láudano. Porém, cooperantes ou não, não recebiam nenhum do dinheiro que ganhavam e a fuga era impossível, porque não lhes era permitido sair e as portas estavam sempre fechadas à chave. As pessoas que geriam o bordel tinham sido capturadas e mandadas para a prisão, mas calculavase que havia centenas de outros lugares iguais em Londres e com certeza noutras grandes cidades também. De vez em quando, apareciam nos jornais artigos a respeito do assunto, listas de nomes de raparigas desaparecidas, mas era convicção generalizada que a polícia não se esforçava muito por investigar porque os homens que usavam aqueles bordéis eram ricos e poderosos. Betsy já se queimara uma vez. Contara a Hope o inferno por que passara com um capitão de um navio que lhe oferecera cinco libras pela sua virgindade. Dissera, com a sua habitual frontalidade, que «o tinha do tamanho de um burro, e não se contentou com tirar-me a minha flor, foi-me ao traseiro


e tudo». Dissera que saíra da pensão para onde ele a levara a sangrar e quase incapaz de andar, e jurara que nem que lhe oferecessem cem libras voltaria a passar por aquele tormento. No entanto, Hope sentia que Gussie tinha razões para temer que Betsy fosse raptada, porque ela atraía muito as atenções masculinas. Tinha uma personalidade cativante e viva que iluminava um bar mal entrava, e movia-se de uma maneira muito sensual e falava com toda a gente. Se Gussie não estivesse com ela, seria muito fácil para alguém drogar-lhe a bebida e levá-la. – Podias pedir à Betsy que não saísse enquanto estivesses nas lições – sugeriu. Gussie riu. – Sei muito bem qual seria a resposta dela a uma dessas! – disse. Também Hope sabia. Betsy não gostava que lhe dessem ordens e ria-se dos receios de Gussie. – Bem, nesse caso convence-a a ir contigo – insistiu. – Tenho a certeza de que também ela gostaria de saber ler e escrever. Ele abanou a cabeça, com um ar triste. – Ela não gosta de pessoas como Miss Carpenter.

Hope quase não dormiu naquela noite. Não estava cansada porque passara o dia inteiro em casa, e dava voltas à cabeça a tentar pensar num sítio onde pudesse encontrar trabalho. Sem uma carta de recomendação e roupa lavada não tinha hipótese de voltar ao serviço doméstico ou fazer qualquer outro género de trabalho respeitável. Apanhar lenha era a única coisa que podia fazer. Mas, como Gussie fizera notar, sem um carrinho de mão não conseguiria juntar o suficiente para vender. Ainda era noite escura quando se levantou. O quarto fedia e o Toupeira ressonava tão alto que não era capaz de aguentar mais um minuto ali dentro. Dormia sempre vestida, porque as noites eram muito frias, e levando nas mãos as botas e a capa, que usava como manta, e um dos sacos que lhe servira de cama, saiu sem fazer ruído, contornando os corpos adormecidos. Lamb Lane era traiçoeira com o empedrado coberto de neve, e estava silenciosa como um túmulo por ser tão cedo, mas, graças a Deus, parecia estar um pouco menos de frio do que no dia anterior. Hope calculou que precisaria de vender cinco ou seis cargas de lenha por dia para conseguir viver. Era muito caminho a percorrer, e um saco cheio era muito pesado. Mas conseguiria fazê-lo, se se dispusesse a isso.


CAPÍTULO 11

M

att desceu a escada, tonto de sono. Eram cinco da manhã, ainda estava escuro e chovia furiosamente. Era em dias assim que desejava ser qualquer coisa exceto agricultor e poder ficar na cama com Amy pelo menos mais uma hora. Ouviu a chaleira a ferver ainda antes de abrir a porta da cozinha. Nell estava sentada num banco junto do fogão, inclinada para a frente, e tudo indicava que já ali estava há algum tempo. O coração afundou-se-lhe no peito quando ela ergueu a cabeça e lhe viu os olhos inchados de chorar. Não tinha estômago para lidar com a infelicidade dela assim logo de manhã. – Tens de parar com isto, Nell – disse, antes de conseguir impedir-se. – Não tens necessidade nenhuma de te levantares tão cedo. – Sempre me levantei cedo – respondeu ela num tom choroso. – A Amy vai estar o dia todo ocupada com as crianças. O mínimo que posso fazer é acender o fogão. Matt suspirou e sentou-se à mesa. Quando Amy se queixava de ter a sensação de que Nell estava a usurpar o seu lugar, dizia-lhe sempre que fazer coisas era a maneira que a irmã tinha de mostrar a sua gratidão por a terem acolhido. Amy retorquia que estava farta de gratidão e que o que queria era recuperar a sua cozinha. – Não estava a falar de acenderes o fogão ou fazeres-me o pequeno-almoço – disse ele, cansado. – Tens de parar de chorar por causa da Hope. – Como é que posso quando sei que ela foi assassinada e que o homem que a matou vive livre como um passarinho? – perguntou Nell, zangada. – E parece que sou a única pessoa que se importa. – Não sejas tola, sabes que não é verdade. – Matt passou os dedos pelo cabelo despenteado, num gesto distraído. – Todos nós aceitámos que ela se foi embora com um homem, e tu também tens de o aceitar. – Nunca aceitarei! – exclamou Nell, indignada. – Isso é o que o Albert quer que acreditemos. Tu concordaste que a carta dela parecia estranha. Matt gemeu; era demasiado cedo para aquilo. Já lhe tinha dito a sua opinião a respeito da carta dúzias de vezes, mas repetiu uma vez mais que Hope estava com pressa quando a escrevera. E que nem todas as explicações que pudesse dar a Nell iam conseguir atenuar o desgosto. – Mas ela teria voltado a escrever mais tarde, para nos tranquilizar. – Os olhos de Nell tornaram a encher-se de lágrimas. – Tu sabes que sim, Matt. Como acontecia sempre que via a dor nos olhos de Nell, Matt arrependeu-se de ter sido duro e se ter irritado com ela. Pôs-se de pé e abraçou-a, apertando-a contra o ombro e dando-lhe palmadinhas nas costas para a acalmar. – Talvez tenha demasiada vergonha? Por mim, sei que se tivesse desaparecido daquela maneira e


causado todos estes problemas, havia de querer continuar desaparecido.

Matt bem gostaria que os seus sentimentos fossem tão simples e claros como aquela explicação. Oscilava entre uma enorme preocupação com Hope e um quase ódio pelo que ela tinha feito a Nell e o embaraço que causara à família. Era compreensível que as pessoas estivessem chocadas por Hope ter fugido com um soldado; ao fim e ao cabo, as raparigas Renton sempre tinham sido pessoas estáveis, discretas e respeitáveis que nunca causavam escândalos. Mas também teria causado grande espanto se Nell não tivesse reagido de uma forma tão dramática. Deixar o marido em Briargate dera origem a todo o género de suspeitas, e a maneira como Nell se comportava desde então só servia para deitar mais lenha na fogueira. Muitos pensavam que tinha enlouquecido, outros que Albert ou até Sir William tinham violado Hope. Quase não passava um dia sem que Matt ou Amy fossem abordados por alguém disposto a chegar ao fundo daquilo que muitos consideravam um sinistro mistério. Quando Nell correu para ali, na véspera de Natal, tão perturbada, Matt levara a sério as acusações de assassínio. Dirigira-se a Briargate no mesmo instante e teria matado Albert ali mesmo se o tivesse visto. Mas Sir William levara-o para o seu gabinete e acalmou-o. Fez notar que Albert estivera a cortar lenha na arrecadação na tarde em que Hope desapareceu; disse que ele próprio o vira ao regressar de um passeio a cavalo. Também recordou a Matt que Albert procurara Baines logo que encontrou a carta de Hope na casa do guarda-portão e que foi Baines que o convenceu a não informar Nell por carta porque o choque seria demasiado grande. Sir William não podia ter sido mais compreensivo. Até aceitou pedir à polícia que fizesse uma investigação para convencer Nell de que não fora cometido qualquer crime, na esperança de que isso a convencesse a regressar a Briargate e para junto de Albert. No dia a seguir ao Natal, Matt ajudou a polícia a passar a pente fino os terrenos de Briargate, os bosques circundantes e até a casa do guarda-portão, mas nada de suspeito foi encontrado. E no entanto Nell continuou a acusar e a chorar, recusando falar sequer com Albert quando ele foi à quinta tentar convencê-la a voltar para casa. Matt tentara persuadi-la, explicando que uma mulher que abandonava o marido ficava excluída da sociedade e recordando-lhe os votos que fizera no dia do casamento. Mas de nada serviu. Nell respondeu que não queria saber do que as pessoas pensavam dela e que sabia a verdade a respeito do que Albert tinha feito. Matt falara com Albert um par de semanas depois da busca policial, e achara-o até muito razoável. Admitira que podia ter sido mais gentil para com Nell quando ela chegou a casa e descobriu que a irmã tinha desaparecido, mas justificou-se dizendo que ela o acordara para o acusar e que mal conseguiu dizer uma palavra. Disse sem rodeios que o casamento dos dois não era feliz há já muito tempo e que achava que era por não terem tido um filho. Disse que estava disposto a tentar mais uma vez, mas que Nell devia odiá-lo para pensar que ele tinha matado Hope. Matt nunca gostara de Albert, achava-o frio, crítico e com ares de superioridade, mas o homem foi suficientemente honesto para admitir que no passado por vezes tratara Hope com excessiva dureza e que talvez devesse ter sido mais compreensivo para com Nell. Tendo em conta a maneira como a irmã se comportara naquelas últimas semanas, era até capaz de sentir alguma compreensão para com Albert, pois não devia ser agradável ser acusado de assassínio pela própria mulher.


Poucas semanas mais tarde, Lady Harvey escreveu a Nell. Ela não divulgou o conteúdo da missiva, mas Matt tivera ocasião de ler a magnífica carta de recomendação incluída. No entanto, Nell não ficou agradecida por esta bondade. Declarou, de uma forma muito misteriosa, que sabia coisas más a respeito de Lady Harvey e que ela só escrevera a carta de recomendação por ter medo de que ela começasse a revelá-las. Matt achava que fora muito generoso da parte de Lady Harvey esquecer que Nell a deixara na véspera de Natal e que além disso levara a polícia até à porta de Briargate, o que dera origem a muito mexerico por todo o condado. Se esperava que a carta de recomendação ajudasse Nell a conseguir um lugar bem longe de Briargate, Matt não podia censurá-la por isso, porque também ele começava a chegar ao limite com a irmã. Nell enchia a casa com a sua infelicidade; perturbava Amy e muitas vezes assustava as crianças. Ele amaldiçoava Hope por tudo isto, mas a despeito da sua fúria também não conseguia deixar de se preocupar com ela. Era tão nova e inexperiente, e um homem capaz de a convencer a deixar a família seria capaz de a persuadir a fazer fosse o que fosse. Toda a gente sabia que as grandes cidades eram antros de iniquidade, e uma coisinha bonita como ela não tardaria a ficar arruinada. Observou Nell enquanto ela enchia o bule com água quente. Tornara-se magra e emaciada, as faces outrora rosadas e rechonchudas estavam agora pálidas e encovadas e o vestido azul-escuro que usava pendia-lhe dos ombros como de um cabide. Tinha trinta e dois anos, mas de repente transformara-se numa velha: a sua voz tornara-se aguda e chorosa, falava sozinha em murmúrios, o cabelo escuro tinha perdido o brilho e ela começara a penteá-lo para trás e a prendê-lo com tanta força que fazia o rosto parecer quase esquelético. Nada a distraía da sua tristeza, nem os filhos dele, nem os sinais da primavera que se aproximava, nem sequer uma carta de Ruth ou de James. Não queria saber de Joe e de Henry, que tinham partido para procurar fortuna em Londres. Não parecia minimamente interessada no bebé de Ruth. Estava demasiado obcecada por Hope para querer saber de qualquer outra coisa. Que podia ele fazer? Amy queria pedir-lhe que se fosse embora. Disse que estava mais do que farta daquilo. Mas como podia ele pôr a irmã na rua sabendo que ela não tinha para onde ir?

Nell pousou o bule em cima da mesa e foi buscar as chávenas ao aparador. – Hoje vou levar os ovos a Keynsham, e enquanto lá estiver vou procurar trabalho – disse, de repente. Matt assentiu com a cabeça. Não se arriscava a falar. Duvidava que ela conseguisse arranjar trabalho em Keynsham, mas poupar-lhe-ia a viagem para vender os ovos, e enquanto Nell estivesse fora seria pelo menos uma trégua para Amy. – Se não conseguir encontrar nada lá, amanhã vou a Bath falar com a Ruth. – Vai ficar contente por te ver – conseguiu Matt dizer. Tinha ido a Bath pouco depois do desaparecimento de Hope, para dar a notícia a Ruth e a John. Apesar de ter ficado surpreendida e preocupada, Ruth fizera notar que qualquer rapariga desejaria mais vida do que a que havia em Briargate. Quando, depois do Ano Novo, Matt lá voltou para lhes falar da reação de Nell e da sua convicção de que Albert assassinara Hope, Ruth ficou irritada com o que considerava puro melodrama.


– Que ganharia ele em matá-la? – dissera, a abanar a cabeça, incrédula. – A Nell vai acabar num hospício, se continuar assim. James, Toby e Alice já tinham reagido mais ou menos da mesma maneira. Embora nenhum deles aprovasse o que Hope fizera, e estivessem todos preocupados com a sua segurança, pensavam que fora em busca de um pouco de excitação e que Nell devia aceitar os factos. Matt não duvidava de que Ruth teria pouca paciência para aturar a irmã mais velha, sobretudo agora que tinha um filho. Só esperava que não tratasse Nell com excessiva dureza, deixando-a ainda mais perturbada. Quando, por volta das seis e meia, Nell saiu da quinta com o cesto dos ovos pendurado do braço, tinha parado de chover e os primeiros raios de sol clareavam o céu. Meteu pelo trilho que atravessava os campos até Compton Dando e saiu perto da casa da sua infância. Era Gerald Box, irmão do guarda-caça, que lá vivia agora, com a mulher e os três filhos. Nell manteve os olhos teimosamente desviados da casa; naquele dia não queria nada que lhe recordasse os pais ou Hope. Tinha consciência de que Matt e Amy estavam a perder a paciência com ela. Também sabia que não estava a aguentar-se muito bem e que toda a gente estava horrorizada por ter deixado Albert. Por vezes, era muito tentador dizer-lhes que fora um casamento só de nome, porque, quanto mais não fosse, faria de Albert o alvo da chacota geral. Tal como gostaria de envergonhar Lady Harvey contando a história do nascimento de Hope. Talvez então as pessoas vissem como fora inabalavelmente leal à patroa durante todos aqueles anos e ficassem chocadas por uma mãe poder aceitar com tamanha ligeireza o desaparecimento de uma filha. Mas dizer aquelas coisas agora, quando as pessoas já estavam convencidas de que estava a enlouquecer, só serviria para reforçar essa convicção. Ninguém acreditaria nela e era muito possível que a metessem num hospício para a calar. Ainda que relutante, acabara por perceber que a única solução para tudo era arranjar trabalho longe dali. Era atormentada por recordações de Hope para onde quer que olhasse, criando atritos com Matt não obstante o seu esforço para se tornar útil. Na sua carta, Lady Harvey disfarçava os seus verdadeiros sentimentos em relação à antiga criada. Tinha muito cuidado em não dizer uma palavra a respeito de Hope, até afirmava compadecer-se dos problemas de Nell com Albert e dizia ter usado o nome de solteira de Nell na carta de recomendação para a ajudar a conseguir um novo lugar. Mas Nell sentia o gelo por baixo das frases melosas a respeito de como seria difícil substituí-la, da sua lealdade e natureza carinhosa. O que Lady Harvey queria na verdade dizer era que esperava que ela fosse para o mais longe possível e que fecharia a porta à criada que em tempos afirmara ser a sua única verdadeira amiga.

Quando Nell chegou a Chewton o sol já nascera, e apesar de o vento soprar frio, notou pela primeira vez que havia rebentos verdes nas sebes e umas poucas prímulas a espreitar de baixo delas. Ainda na noite anterior Matt dissera que os cordeiros começariam a nascer dentro de uma semana, e ela recordou como, em criança, costumava ficar empolgada ao ver o primeiro cordeiro da época. Os patos que grasnavam no rio junto ao moinho fizeram-na parar e pousar o cesto dos ovos para olhar do parapeito da ponte. Nunca vira tantos juntos no mesmo lugar: pelo menos vinte, a perseguirem-se uns aos outros sobre a água. As folhas dos salgueiros começavam a despontar e havia


uma enorme quantidade de narcisos a balouçar ao vento na margem. A beleza da cena provocou-lhe um nó na garganta, e apercebeu-se de que era a primeira vez desde o Natal que tomava consciência de qualquer coisa além da sua própria infelicidade. Ao ouvir cascos de cavalo aproximarem-se vindos do outro lado da curva, manteve-se junto ao parapeito da ponte, mas voltou a cabeça para ver quem era. Para sua surpresa, era nada menos que o capitão Pettigrew no seu cavalo malhado, e na posição em que estava na ponte não podia esconder-se. – Nell! – exclamou ele, detendo o cavalo e olhando para ela. – Como está? Ouvi dizer que tinha deixado Briargate e presumi que tinha ido para longe da aldeia. A despeito dos sentimentos iniciais de Nell em relação ao homem, ele conseguira conquistá-la quando Cook adoeceu. Embora a sua faceta puritana lhe dissesse para desconfiar de um homem que se intrometera entre marido e mulher, agora que sabia muito mais a respeito da relação entre ele e Lady Harvey o instinto dizia-lhe que a amara de verdade, e que talvez ainda a amasse. Era também difícil olhar para aquele rosto forte e atraente, sabendo que ele era o pai de Hope, e não estar disposta a confiar nele. – Devia ter-me ido embora – disse, a corar porque ele a olhava tão fixamente. – Aqui nada me resta senão más recordações, agora que a minha irmã desapareceu. – Falaram-me disso – disse ele, desmontando e aproximando-se, a segurar as rédeas. – Uma história muito estranha! Disseram-me que não acredita que ela tenha fugido com um soldado? – Não, senhor, não acredito. – Nell olhou-o bem de frente nos olhos. – Para começar, ninguém viu nenhum soldado por estes lados, e pouco antes de eu partir com Lady Harvey quando o pai dela adoeceu, a Hope disse-me, muito triste, que não tinha hipóteses de arranjar namorado porque nunca tinha oportunidade de conhecer ninguém. – Pode ter-lhe surgido essa oportunidade enquanto a Nell estava fora – disse o capitão, com um sorriso irónico. – Só tinha uma tarde de folga por semana, e passava-a com o nosso irmão, na quinta dele. – Perdoe-me a franqueza, Nell, mas ouvi dizer que estava convencida de que foi o seu marido, o jardineiro, que a matou. É verdade, ou não passa de um boato tolo? – Estava convencida, sim, e continuo a estar – disse Nell, num tom de desafio. – Agora olham-me de lado porque o abandonei, mas como podia eu ficar com um homem tão mau? – Palavras fortes, Nell – comentou ele, abanando a cabeça, pensativo. – Mas acho que demonstra muita coragem ao afirmar aquilo em que acredita. Lady Harvey deve sentir muito a sua falta; sei como ela gostava de si. – Lady Harvey não gosta de ninguém senão de si mesma – despejou Nell antes de conseguir conterse. O capitão arqueou uma escura sobrancelha. – E do senhor – acrescentou Nell, e pôs-se muito corada porque também não devia ter dito aquilo. – Oh, Nell – suspirou o capitão. – Sei que Lady Harvey não tinha segredos para si, e por isso sinto que posso falar com franqueza. Somos ambos vítimas de uma sociedade muito rígida; eu e Lady Harvey não podíamos ter um futuro juntos sem desgraça. Ela provavelmente disse-lhe que há um ano lhe pedi que enfrentasse essa desgraça e viesse viver comigo? Nell ficou chocada e surpreendida ao ouvir aquilo. – Não, não me falou disso, senhor. Só disse que lhe escreveu enquanto estávamos no Sussex e lhe


disse que estava tudo acabado entre os dois. – É próprio da Anne. – Pettigrew soltou uma pequena gargalhada desprovida de humor. – Sempre teve o hábito de contar só metade da história! Mas talvez tenha sido por isso que foi tão dura consigo, por a Nell ter tido a coragem de deixar o Albert! – A situação de Lady Harvey e a minha são muito diferentes – disse Nell. Mesmo depois de tudo aquilo por que tinha passado, continuava a não conseguir ser rancorosa para com a antiga patroa. – O Albert não me deixou outra alternativa senão abandoná-lo. O capitão pôs um dedo debaixo do queixo dela e ergueu-lhe a cabeça. – Está magra e muito perturbada, Nell. Ouvi dizer que Lady Harvey está na mesma. Penso que as duas se zangaram por qualquer coisa muito mais importante do que o Albert. Nell sentiu um aperto no estômago. – Se Lady Harvey está magra e perturbada só pode ser por estar a ter dificuldade em fazer todas as coisas que eu costumava fazer por ela – respondeu, cáustica. Ele esboçou um meio sorriso. – Outro homem poderia acreditar que é essa a razão, mas eu não. Em todo o caso, admiro a sua lealdade – disse. – Que vai fazer com esses ovos? – Vendê-los numa loja em Keynsham, e depois vou procurar trabalho. – Não me parece que haja muita procura de uma criada pessoal para aqueles lados. Nell encolheu os ombros. – Aceitarei o que aparecer. Sei cozinhar e fazer limpezas. Os pobres não podem ter esquisitices. Até trabalharei numa taberna, se isso me der teto e comida. Pettigrew olhou para ela com um ar avaliador durante tanto tempo que Nell começou a ficar nervosa. – Consideraria a possibilidade de ser minha governanta? – acabou ele por dizer. Nell esbugalhou os olhos, de surpresa. – Mas o senhor não tem uma casa – exclamou. – Tenho, sim – respondeu ele. – Comprei-a há um ou dois anos. Nada de grandioso, compreende, apenas um lugar para passar as minhas licenças e onde me refugiar quando for demasiado velho para a vida militar. Há algum tempo que ando a pensar em arranjar alguém, mas há tanta coisa que é preciso fazer antes que possa esperar que uma estranha esteja disposta a aceitar as inconveniências. No entanto, pode ser que lhe sirva, neste momento, e a mim serve-me de certeza. O primeiro pensamento de Nell foi que ele a via como um meio de voltar a chegar a Lady Harvey. Mas fosse ou não essa a razão, não estava em posição de recusar a oferta. – Obrigada, senhor – disse. – Fico-lhe muito agradecida pela sua bondade. Depois de lhe indicar a maneira de chegar à aldeia de Saltford, na estrada de Bath, e de lhe sugerir que o fosse visitar depois de vender os ovos, o capitão seguiu o seu caminho. Nell pegou no cesto e voltou à estrada com o coração muito mais leve. A verdade era que não queria saber como era a casa dele, ou do facto de ser ela a única criada. O capitão era um cavalheiro, preocupava-se o suficiente com a sua situação para querer ajudá-la, e era como se lhe tivessem oferecido uma lanterna numa noite escura.

Nell ficou alguns instantes parada diante de Willow End, a casa do capitão, antes de abrir o portão


e avançar para a porta principal, perguntando a si mesma porque teria ele escolhido aquele lugar. Seria de esperar que um oficial e cavalheiro quisesse instalar-se em Bristol ou em Bath, não a meio caminho entre as duas cidades. Apesar de ser maior do que uma casa de campo, com cavalariças e outros anexos, era o género de residência que o dono de uma loja ou um mestre-escola poderiam escolher. Era uma das várias casas que se espalhavam ao longo da estrada para Bath, à saída de Saltford, cerca de oitocentos metros antes da encruzilhada dos caminhos que levavam às aldeias de Corston e Lewton St. Loe. Um local agradável, sobranceiro aos campos que desciam até ao Avon, que a Great Western Railway para Londres também atravessava. O capitão Pettigrew não se enganara ao dizer que havia ali muito trabalho a fazer. O telhado e as janelas estavam em mau estado, e o jardim fora deixado anos ao abandono. Nell não esperava que o interior estivesse muito melhor. Mas seria um bom lugar para trabalhar, suficientemente longe de Albert mas ao mesmo tempo suficientemente perto de Matt e de Ruth para se sentir segura. Agradavalhe a ideia da quantidade de trabalho que teria de fazer; o que menos queria era tempo livre para pensar.

– Então que lhe parece, Nell? – perguntou o capitão enquanto voltavam à sala de estar depois de lhe mostrar a casa. – Acha que seria capaz de viver aqui e cuidar de mim? Nell sorriu; era difícil não o fazer, porque ele proporcionara-lhe uma visita guiada cheia de entusiasmo juvenil, descrevendo com vivacidade e pormenor o que tencionava fazer com cada divisão. Para um cavalheiro solteiro, possuía uma quantidade enorme de objetos pessoais – centenas de livros, muitos deles ainda dentro de caixotes, algumas mobílias de qualidade, relógios, tapetes e louças –, mas a maior parte estava ainda amontoada nas divisões do piso térreo, porque o telhado deixava entrar água. A sala de visitas era a única divisão onde havia uma aparência de ordem. Era fria, sem a lareira acesa, mas tinha cadeirões de braços, um tapete e uma mesa e cadeiras, e até um par de quadros nas paredes. O quarto dele oferecia menos conforto do que uma cela de prisão, sem tapetes no chão, com apenas uma cama, cortinas e as roupas penduradas em cabides atrás da porta. – Terei muito gosto em viver aqui e cuidar de si – disse Nell, com sinceridade. – Mas tem de mandar consertar o telhado depressa, antes que a água da chuva se infiltre até aqui. – Tenho tudo controlado – respondeu ele, com um sorriso. – As obras começam amanhã. Mas será capaz de cozinhar naquela horrível cozinha? Nell riu, e ocorreu-lhe que era a primeira vez em meses que tinha um motivo para rir. Para ela não era uma cozinha horrível; estava imunda, mas era espaçosa e tinha muita luz, e depois de uma boa esfregadela ficaria ótima. – Aprendi a cozinhar numa fogueira – recordou-lhe. – O fogão funcionará bem depois de eu limpar a chaminé, e tem uma boa despensa fria. – Trouxe alguns amigos até cá para darem uma vista de olhos e eles ficaram assustados – confessou ele, constrangido. – É que, sabe, eu estava a ver o potencial. Tem um bom terreno, as cavalariças e os anexos, e achei que a sensação era boa. Mas os meus amigos disseram-me que devia ter perdido o juízo, e isso fez-me pensar que talvez tivessem razão. – Nesse caso vamos ter de lhes provar que estavam enganados, senhor – disse Nell.


Ele deitou um pouco de sherry em dois cálices e entregou-lhe um. – Ao futuro, Nell – disse, erguendo o seu. – E a si, por ter aparecido quando eu mais precisava. Nell beberricou um cuidadoso gole de sherry, pois tinha uma longa caminhada pela frente até casa de Matt e comera apenas uma fatia de pão desde que saíra. – Posso cá estar amanhã de manhã cedo – disse. – Isto é, se me quiser já. – Quanto mais cedo melhor – respondeu o capitão. – Mas eu irei buscá-la no cabriolé, e poderemos comprar pelo caminho as provisões de que precisar. Não a quero a escapulir-se da quinta do seu irmão durante a noite, como um ladrão. – É muita bondade sua, senhor – disse ela, e baixou os olhos num momento de embaraço. – Consigo imaginar o que tem passado nestas últimas semanas – continuou ele, num tom gentil. – As pessoas conseguem ser muito cruéis, mesmo aquelas que afirmam amar-nos. Mas diga-me, Nell, e agora quero a verdade. A Hope era sua filha? – Não, senhor – respondeu Nell, e ergueu o queixo num gesto de desafio. Percebia que ele fizesse aquela suposição: muitas raparigas que, estando no serviço doméstico, tinham um filho fora do matrimónio conseguiam, com a ajuda de uma mãe compassiva, fazê-lo passar por irmão. – Por vezes ela sentia que era, sendo eu dezasseis anos mais velha e tendo os nossos pais morrido tão de repente. Mas não nasceu de mim. Era tão tentador dizer-lhe quem eram os verdadeiros pais de Hope, mas uma vozinha dentro da sua cabeça dizia-lhe que era demasiado cedo para revelar esse segredo. Ele olhou para ela longa e fixamente, e ela sustentou-lhe o olhar sem vacilar. – Se lhe serve de alguma consolação, não acredito que o Albert a tenha matado – disse ele. – Mas penso que arranjou uma maneira qualquer de a afastar. – Mas o que a impediria de me escrever, ou ao irmão ou à irmã, a dizer-nos isso? – perguntou Nell, com a voz a tremer-lhe porque sentia que ele sabia qualquer coisa. – Talvez tenha ameaçado fazer-lhe mal a si – disse Pettigrew, pousando uma mão no ombro dela. – Ou a Lady Harvey, ou até ao Rufus. Comando homens, Nell, estou habituado a avaliar-lhes o caráter. Sempre vi no Albert qualquer coisa que me preocupou. Talvez quando nos conhecermos melhor se sinta capaz de me dizer mais a respeito da sua vida com ele? Nell sentiu as lágrimas subirem-lhe aos olhos, porque nunca ninguém, nem sequer Matt, que sempre detestara Albert, lhe oferecera tanta compreensão. – Talvez – disse, num fio de voz. – Mas é difícil falar a um homem de assuntos pessoais. – Eu sei – concordou ele, tocando-lhe ao de leve na face com a palma da mão. – É uma tristeza tanto os homens como as mulheres sentirem que o sexo oposto é muito diferente. Somos ensinados desde o nascimento a acreditar nisto, somos encorajados a esconder os nossos verdadeiros sentimentos uns dos outros, e tantas vezes empurrados para casamentos sem amor. Não espanta que não consigamos comunicar livremente. – É um homem muito bondoso – murmurou ela. – Será um prazer cuidar da sua casa. – Espero que possamos ser também amigos. Temos mais em comum do que pensa, Nell, ambos estamos em situações delicadas, somos vítimas das circunstâncias. Mas eu considero o nosso encontro de hoje um acontecimento feliz, e espero que partilhe esta opinião.

Enquanto atravessava os campos a caminho da casa de Matt, Nell tinha vontade de cantar. Não só


por ter conseguido trabalho e uma nova casa, mas mais porque a sua dor fora reconhecida. Se isso seria ou não o suficiente para a pôr de novo de pé, não sabia. Mas estava otimista, porque se o capitão não acreditava que Nell estava morta, então talvez ela pudesse começar a acreditar também.

– Fico feliz por ti – disse Matt enquanto se inclinava para se despedir da irmã mais velha com um beijo, na manhã seguinte. – Não é o que teria escolhido para ti, fica sabendo! Sendo ele um homem solteiro, e tudo isso. Nell fez um sorriso forçado. Sabia que o primeiro pensamento de Matt seria que ela não estaria a salvo sozinha com um homem. Mas a verdade era que Matt ignorava que durante os seis anos em que ela dormira na mesma cama com Albert nunca ele quisera tocar-lhe. Era ainda menos provável que um cavalheiro a quisesse. – Metade das pessoas das redondezas pensa que enlouqueci e a outra metade que já vou a meio caminho do inferno – riu. – Um pouco mais de escândalo não me incomoda. Mas o capitão estará fora grande parte do tempo. Poderás ir certificar-te de que estou bem quando quiseres. Gosto dele, é um bom homem. Não te preocupes comigo. – Fala-se dele – desabafou Matt. – Tem muito êxito junto das mulheres. – Também tu tens muito êxito junto das mulheres – protestou Nell, indignada. – Bem vi a maneira como as raparigas Nichols te miram na igreja. Há homens que nascem assim, não quer dizer que não se possa confiar neles. Agora deixa-me ir, não podemos deixar o capitão à espera lá fora mais tempo. Enquanto Nell subia para o cabriolé e se sentava ao lado do capitão, Amy saiu da vacaria. Toda ela era sorrisos, a gritar como ia ter saudades dela. Mas Nell não se deixou enganar, como não se deixara enganar na noite anterior quando a cunhada tomara o seu partido contra a reprovação de Matt. Queria-a fora de casa, e não lhe faria a mínima diferença se ela fosse trabalhar para um bordel.

Era quase meia-noite quando Nell finalmente se despiu e foi para a cama. O único quarto do piso superior que estava suficientemente seco para se poder lá dormir era o do capitão, de modo que enquanto o telhado não fosse arranjado ela contentar-se-ia com uma cama de campanha numa pequena arrecadação contígua à cozinha. Mas os homens tinham começado a trabalhar no telhado naquela manhã, e quando acabassem esse serviço iam reparar todos os tetos, e então ela teria o seu próprio quarto. Estava exausta. Lavara e esfregara cada centímetro da cozinha e da despensa, as paredes e os chãos, forrara a papel as prateleiras e os armários e desempacotara pelo menos uma dúzia de caixotes de louça, tachos e panelas. Espantava-a um pouco que um militar solteiro tivesse todos aqueles artigos domésticos, mas não quisera fazer-lhe perguntas a respeito do assunto. Apesar de estar cansada e dorida, sentia-se mais como a antiga Nell, e até tivera apetite suficiente para comer um pouco do guisado de carneiro que fizera para o capitão. Ele disse que era a melhor refeição que comera nas últimas semanas, e riu-se quando ela declarou que tinham de limpar uma parte do jardim para cultivar legumes. Pareceu-lhe que ele não acreditava realmente que ela também soubesse dessas coisas.


Satisfeita era como se sentia, concluiu enquanto começava a deslizar para o sono. Ser criada pessoal de uma senhora implicava longos períodos de absoluto tédio, e transformar um pardieiro num lar era muito mais gratificante. No dia seguinte, tencionava atacar a sala de jantar. O capitão tinha uma mesa e cadeiras de excelente qualidade, e ela vira bons cortinados de veludo num dos caixotes. O capitão dissera que ia estar ausente dois dias; quando voltasse, já ela teria aquela sala pronta para receber convidados para o jantar. Os seus últimos pensamentos naquela noite foram, porém, para Hope. Imaginou-a a correr pelos prados em direção a Lord’s Wood, como tantas vezes a vira nas suas tardes de folga. A touca deslizava-lhe para a nuca e o cabelo negro brilhante soltava-se da prisão dos ganchos. Nell fazia um pequeno ruído de reprovação enquanto a observava de uma das janelas do primeiro piso, e decidia que iria dizer à irmã que só os rapazes corriam, nunca uma menina. No entanto, era sempre um prazer ver aquela criança deliciar-se na sua liberdade; era graciosa como uma corça e tão bela como tudo o que a rodeava. – Se estás viva, minha querida, escreve-me – murmurou.


CAPÍTULO 12

1849

H

ope via Betsy avançar na sua direção pelo cais apinhado de gente, mas mesmo a quase trezentos metros de distância era evidente que alguma coisa de muito errado se passava com ela. Cambaleava, dobrada ao meio pela dor, e não parava aqui e ali como de costume fazia para dois dedos de alegre conversa com marinheiros e trabalhadores das docas. Era um fim de tarde em pleno verão e estava tanto calor que seria provavelmente possível estrelar um ovo nas pedras do cais. Durante o longo e frio inverno, Hope ansiara o calor do verão, mas à medida que a temperatura subira ao longo das últimas semanas, sem chuva para lavar os dejetos humanos e animais, o fedor tornara-se tão horrível que mal se conseguia respirar. Durante o dia, podia subir a encosta até Clifton, onde o ar era puro e doce e soprava uma brisa. As pessoas que lá viviam tinham esgotos que levavam os seus resíduos, água canalizada nas cozinhas, e muitos dos seus jardins eram belos. Ultimamente, sentira-se muito tentada a dormir ao relento nos Downs em vez de enfrentar mais uma noite de calor sufocante em Lamb Lane. Mas Gussie e Betsy veriam isso como uma espécie de deserção. Foi quando vendia lenha no seu primeiro inverno em Bristol que teve oportunidade de pedir trabalho em Clifton. A governanta do n.º 5 de Royal York Crescent pagava-lhe para esfregar os degraus da porta da frente e polir os latões. Só no inverno seguinte a mulher acabou por confiar nela o suficiente para a deixar entrar de vez em quando para esfregar chãos e ajudar na lavandaria, mas agora, passados dezoito meses, Hope trabalhava lá regularmente duas vezes por semana, pelo que lhe pagavam três xelins. Tinha de se conter, pois era vigiada a todo o instante com olhos de falcão, com receio de que roubasse qualquer coisa. Os outros criados olhavam-na com sobranceria, e se lhe davam alguma coisa de comer enquanto lá estava, era sempre só sobras. Mas tinha de aguentar, porque precisava dos três xelins para comprar no mercado as flores com que depois fazia pequenos ramalhetes que vendia na rua durante o resto da semana. As terríveis provações por que passou durante o seu primeiro inverno em Bristol eram agora uma recordação distante. Nada, pensava, poderia alguma vez voltar a ser tão mau como aquilo. Como conseguira sair todas as manhãs enregeladas quando o sol ainda mal despontara, caminhar quilómetros com os pés cheios de bolhas e o estômago vazio, os dedos gretados pela geada, era coisa que não sabia. Houvera dias em que todos os ossos do seu corpo gritavam numa agonia a pedir descanso; a humilhação das pessoas a baterem-lhe com a porta na cara, a tortura da fome e do frio, tudo por uns poucos pennies por dia, tinham-na feito desejar a morte. Depois daquilo, esfregar chãos e lavar roupa duas vezes por semana parecera o paraíso, mesmo


que os outros criados a tratassem como se fosse um verme por ter o vestido rasgado e buracos nas botas. Naquele dia, porém, a governanta do n.º 5, Mrs. Toms, oferecera-lhe um lugar como criada para todo o serviço, interna, posição pela qual receberia cinco xelins semanais, bem como um uniforme e umas botas novas. Hope sabia que devia sentir-se exultante; ao fim e ao cabo, era o género de trabalho respeitável que desejara durante tanto tempo. Seria pura bem-aventurança dormir em lençóis lavados, nunca acordar com uma ratazana a correr-lhe por cima ou voltar a sofrer as dores da fome. No entanto, não estava alegre, estava dividida. Porque ao aceitar as vantagens de começar a servir, sabia que teria de aceitar também as restrições que as acompanhavam, bem como engolir as suas reservas a respeito da casa dos Edwards. Mr. Edwards era um vereador baixinho, gordo e pomposo, e dizia-se que fizera a sua fortuna aceitando subornos para conseguir a certas pessoas contratos com a Corporação. A mulher era um espectro nervoso que gostava de macaquear a verdadeira aristocracia. Tirando isso eram, aos olhos de Hope, um casal odioso que não fazia a mínima ideia de como governar uma casa. Dependiam para tudo de Mrs. Toms, e esta era uma tirana cheia de maldade que encobria a sua ignorância atirando as culpas para cima dos outros criados quando alguma coisa corria mal. Até àquele dia, Hope observara e ouvira o que acontecia no n.º 5 com algum divertimento, recordando o digno Baines que mantinha Briargate a funcionar com precisão e apesar de tudo granjeava o respeito e o afeto de todo o pessoal. Imaginava-o a levar as mãos à cabeça se soubesse que ela tinha aceitado um lugar numa casa gerida de uma maneira tão inepta. Não eram, porém, as dificuldades que poderia encontrar no n.º 5 que a preocupavam; sentia que era uma deslealdade deixar Gussie e Betsy. Se não fossem a generosidade e a proteção deles, e as técnicas de sobrevivência que lhe tinham ensinado, não teria sobrevivido um mês em Lewins Mead. O quarto deles em Lamb Lane podia ser esquálido e infestado de ratazanas, mas dentro das suas paredes sentia-se segura. A pequena e submissa Hope Renton que fugira escorraçada da casa do guarda-portão em Briargate por ordem de Albert tornara-se forte e desembaraçada. Nem sequer sabia muito bem se teria a capacidade de voltar a ser criada de alguém. Perdera o respeito pelos ricos quando viu Sir William na cama com Albert, e desde que vivia em Bristol vira e soubera de demasiados outros «cavalheiros» que gostavam de rapazes, ou de raparigas muito novas, para achar que Sir William era excecional. Quanto às senhoras, desprezava-as ainda mais pela sua hipocrisia. Enchiam as igrejas todos os domingos, vestidas de seda e de cetim, e rezavam pelos pobres e pelos doentes, mas nunca mexiam um dedo para ajudar os menos afortunados. Centenas de homens, mulheres e crianças despojados de tudo desembarcavam todas as semanas no porto de Bristol, vindos de uma Irlanda assolada pela fome, mas não havia compaixão para com a sua miséria. Aquelas pobres criaturas mal conseguiam manter-se de pé, famintas e doentes, mas os ricos gritavam que era preciso expulsá-las da cidade. A maior parte era forçada a viver como animais nas decrépitas casas junto ao rio Frome, e sem comida ou assistência médica, morriam como moscas. Hope ouvira Mr. Edwards comentar que, se tivesse poder, mandaria os militares pegar fogo ao lugar, e que esperava que as pessoas que lá viviam ardessem também. Poderia trabalhar para tal homem? Era sexta-feira, e na segunda de manhã teria de voltar ao n.º 5 de Royal York Crescent com uma


decisão. Infelizmente, tinha a certeza de que se rejeitasse a oferta de Mrs. Toms a mulher recusaria continuar a dar-lhe trabalho. Ao ver Betsy tão mal, no entanto, Hope pôs de parte os seus próprios problemas e correu a ajudar a amiga. – Que aconteceu? – perguntou, enquanto a agarrava por um braço. – Sinto-me mal – gemeu Betsy. – Dói-me a barriga, vomitei, nunca me senti assim, como se fosse morrer. Betsy era a pessoa mais rija que Hope alguma vez conhecera, nunca se queixava quando se magoava ou estava doente, de modo que aquelas palavras eram por si só razão suficiente para a preocupar. Já na noite anterior a amiga não parecera a mesma, pálida e letárgica, e recusara comer. Insistiu que era do calor. Mas o calor não provocava dores às pessoas nem as fazia vomitar, pelo que tinha de ser qualquer coisa muito mais grave. Nos últimos dias, falara-se muito de uma febre que haveria entre os irlandeses, e as pessoas diziam que se não fossem expulsos acabaria por alastrar a toda a cidade. Hope descartara isto como uma tentativa deliberada de espalhar o medo, mas... e se fosse verdade? Não tencionava alarmar Betsy com semelhantes sugestões, de modo que calou os seus receios e passou-lhe um braço pela cintura, para a ajudar a andar. – Vou levar-te para casa – disse. – Deves ter comido qualquer coisa estragada. Mas eu cuido de ti.

– Preciso de beber água – gemeu Betsy, enquanto subiam a escada. Hope começava a ficar verdadeiramente assustada, porque os movimentos de Betsy estavam a tornar-se lentos e pesados, e toda ela tiritava apesar do calor. – Vou fazer-te um chá de canela – disse. Nunca gostara do sabor da água de Bristol, e por isso nunca a bebia a não ser no chá. Deitar um pau de canela numa cafeteira de água a ferver era o remédio da mãe para náuseas ou dores de barriga, pois afirmava que dar água fria a uma pessoa doente só servia para a deixar ainda pior. Quando entraram no quarto, descobriram que Gussie já lá estava. Mas estava deitado, e um olhar ao seu rosto pálido e olhos pesados foi o suficiente para dizer a Hope que sofria do mesmo mal que afligia Betsy. – Vomitei – disse ele, numa voz que foi pouco mais do que um murmúrio. Tentou sentar-se, mas era evidente que não tinha forças para isso. Hope sentiu um calafrio descer-lhe pela coluna, pois embora fosse possível que os dois amigos tivessem partilhado comida estragada, os sintomas recordavam-lhe os que os pais tinham apresentado com o tifo. O reverendo Gosling dissera-lhe que era uma doença que florescia em condições de falta de higiene e promiscuidade, e ela sempre pensara que poderia facilmente aparecer em Lewins Mead. Passou-lhe pela cabeça que devia fugir dali o mais depressa possível, mas quando olhou em redor e viu Betsy caída no chão, com uma expressão de agonia enquanto enclavinhava as mãos no ventre, envergonhou-se de ter tido tal pensamento. Ajudou os dois a deitarem-se e tapou-os com mantas, após o que acendeu a lareira e pôs a chaleira ao lume. Havia água suficiente no jarro para lhes lavar a cara e as mãos, mas teria de ir à bomba buscar mais.


Estava um calor sufocante no quarto, e não tardaria a ficar ainda pior, com a lareira acesa. Hope deixou-se ficar junto da janela aberta durante alguns momentos, a tentar organizar os seus pensamentos e recordar que remédios a mãe e Nell costumavam usar para as doenças. – Tenho de ir buscar água e à loja comprar umas coisas – disse aos amigos. – Fiquem aí, não me demoro. Dez minutos mais tarde, voltou a subir a escada carregada com dois jarros de água e uma garrafa de vinagre, que a mãe usava para lavar as coisas quando estava alguém doente lá em casa. Tinha a canela, mais velas e um pouco de mostarda para fazer cataplasmas. Desde o inverno, quando os inquilinos se tinham ido embora de vez, Hope introduzira no quarto que partilhavam muitas coisas que considerava essenciais. Algumas tinham sido compradas em segunda mão, outras arranjadas por Gussie, mas agora tinham uma vassoura, uma caçarola grande, uma frigideira, tigelas para os guisados que ela fazia na lareira, alguns talheres e mais uma bacia grande para lavar a louça. Recentemente, Hope também enchera os sacos de serapilheira com palha para fazer camas, e certificava-se de que tinham sempre sabão, e montes de trapos para as limpezas. Mas quando entrou no quarto e encontrou Betsy de gatas no chão a vomitar para o balde dos despejos soube que tentar cuidar de dois doentes com tão escasso equipamento ia ser muito difícil. * A luz do dia desapareceu pouco depois de Hope ter aplicado o emplastro de mostarda aquecida nas barrigas dos amigos. Ficou contente ao ver que parecia aliviar as dores, tal como o chá de canela acalmara os vómitos. Ainda tiritavam, mas ela tapara-os com tudo o que conseguira encontrar para os fazer suar, e de momento estavam a dormir. Ela, em contrapartida, não conseguia dormir. O quarto parecia um forno, e o barulho da rua entrava pela janela aberta. Ali nunca havia verdadeiro silêncio, mas desde que o tempo quente começou tornara-se ainda pior, com mais bebés a chorar, mais bêbedos, mais zaragatas, e as crianças a correrem e a gritarem pelos becos até bem depois da meia-noite. Desde que se instalara ali, Hope fazia um esforço consciente para nunca pensar no passado, mas de pé junto à pequena janela, vestindo apenas a camisa interior, a pingar suor e desesperada por ar, com o fedor dos dejetos humanos a assaltarem-lhe as narinas, não conseguiu impedir-se de recordar as quentes noites de verão da sua infância. A família inteira sentava-se no exterior a ver o sol pôr-se, e a brisa era fresca e limpa, e cheirava a madressilva. Mesmo quando vivia na casa do guarda-portão, ela e Nell sentavam-se muitas vezes no degrau da porta das traseiras a olhar para as estrelas. Lembrou-se de muitas vezes ter desejado viver numa grande cidade, ansiando a excitação das multidões, das lojas e dos mercados. Esse desejo parecialhe louco, agora que sabia como a vida na cidade podia ser desagradável. Daria tudo para voltar a sentir-se enlaçada pelo roliço braço de Nell, a ouvir apenas o piar dos mochos e o restolhar das folhas das árvores. Nell já tinha de certeza endurecido o seu coração. Os filhos de Matt seriam os destinatários de todo o amor e dedicação que ela em tempos prodigalizara à irmã mais nova. Deixou-se deslizar para um bonito devaneio em que se imaginava a voltar lá, só para ver Nell. Viu-se escondida atrás de uma árvore na orla de Lord’s Wood numa manhã de domingo, à espera que Nell passasse a caminho da igreja. Usaria aquela bonita touca azul enfeitada com margaridas artificiais que Lady Harvey lhe dera. Só vê-la de relance seria o bastante.


E talvez também visse Rufus, que estaria em casa para as férias de verão. Talvez ele fosse até ao lago, por se lembrar dos bons tempos que lá tinham passado. Ela poderia saltar de trás da árvore e assustá-lo. Teria de obrigá-lo a jurar segredo, claro. Talvez entre os dois conseguissem arranjar maneira de fazer Nell saber que ela estava bem. Um palavrão gritado por um bêbedo lá em baixo na viela lembrou-a da realidade da sua situação. Mesmo que fosse possível voltar lá sem que Albert o soubesse, não suportava a ideia de alguém que conhecesse a ver tal como estava: igual a todos os outros habitantes daquele inferno, suja, magra e esfarrapada. Até Rufus desviaria a cabeça, enojado. E, além disso, nunca poderia explicar-lhe como tudo aquilo acontecera sem lhe revelar o papel que os pais tinham desempenhado. – Odeio-te, Albert Scott – murmurou para si mesma. – Um destes dias hei de me vingar de ti. Quando as primeiras luzes do novo dia se insinuaram no quarto, Betsy voltou a vomitar, sendo as suas entranhas sacudidas por espasmos incontroláveis. Chorou por causa das dores na barriga, das cãibras nos membros e da vergonha de ter sujado a cama, e apesar de Hope ter tentado tranquilizá-la dizendo-lhe que começaria a sentir-se melhor quando todos os venenos que tinha no corpo fossem expelidos, tudo aquilo fazia lembrar demasiado a Hope a morte dos pais, para acreditar de verdade no que dizia. Pouco depois, Gussie estava no mesmo estado, e Hope afadigou-se a reanimar o lume para ferver água e fazer mais chá de canela, correndo escada abaixo para ir buscar mais água à bomba e despejar o balde. As moscas zumbiam frenéticas pelo quarto, que ia ficando cada vez mais quente e mais fétido, e o suor jorrava dela enquanto tentava lavar o balde e as tigelas, esfregar o chão e manter os amigos limpos. Ao princípio da tarde, estava verdadeiramente alarmada pelo aspeto dos seus pacientes. Tinham os olhos encovados, a respiração curta e superficial, e já não estavam conscientes dos cuidados que ela lhes prestava. Hope sabia que tinha de procurar ajuda, mas nunca ouvira dizer que algum médico tivesse ido a Lewins Mead. Miss Carpenter, a professora, era a única pessoa que lhe ocorria com influência suficiente para convencer alguém a ir ali. Hope só falara com Miss Carpenter duas vezes. A primeira foi quando acompanhou Gussie à escola em St. James’s Back, num esforço para o encorajar a ter aulas. Da segunda fora perguntar à professora se precisava de alguém que a ajudasse a ensinar as crianças mais pequenas a ler. Tinha uma enorme admiração por Miss Carpenter, como quase toda a gente do bairro degradado. Qualquer pessoa capaz de ser tão dedicada a ensinar os mais pobres e menos privilegiados da cidade era digna de admiração. Miss Carpenter prodigalizava cuidados e atenção aos seus pequenos alunos, preocupava-se genuinamente com eles, mas, apesar de tudo isto, não era uma pessoa de quem fosse fácil gostar. Era fria, quase nunca sorria, e havia nela uma intensidade que assustava. Além disso, parecera desconfiar de Hope, da segunda e última vez que se tinham encontrado. Betsy afirmara que fora por Hope ser tão inteligente como ela, e muito mais bonita, mas Hope não acreditava que fosse essa a verdadeira razão. Parecia-lhe muito mais provável que a professora tivesse dificuldade em compreender como fora possível alguém que sabia ler e escrever ter ido parar àquele bairro. No entanto, quaisquer que fossem os motivos da gélida reação da mulher, Hope sabia que tinha de recrutar a sua ajuda, ou Betsy e Gussie podiam morrer.

Fez uma paragem na bomba para lavar a cara e as mãos antes de correr até à escola. Três mulheres


acabavam de encher os respetivos baldes e conversavam antes de voltarem a casa. Enquanto se lavava, Hope arrebitou a orelha, porque as mulheres falavam de uma família inteira que adoecera de repente. – Há dois dias estavam todos bem – dizia uma, com uma nota de alarme na voz. – A Velha Ada foi lá ver o que podia fazer, mas voltou a sair logo a seguir. Disse que achava que já ninguém podia ajudá-los. A Velha Ada era a coisa mais parecida com assistência médica que havia em Lewins Mead. Era responsável por ter trazido ao mundo a maior parte dos bebés do bairro, e por preparar os mortos. Era uma criatura suja, grosseira e estava quase sempre bêbeda, mas aqueles que ajudava eram-lhe dedicados. – E não são os únicos que estão doentes – disse outra das mulheres. – Ouvi dizer que também apareceu em Cask Lane. Um arrepio gelado percorreu a espinha de Hope, porque Cask Lane ficava mesmo ao lado de Lamb Lane. Correu a caminho da escola cada vez mais assustada.

– Miss Carpenter, posso falar consigo? – chamou Hope, quando viu a professora preparar-se para sair do velho edifício da capela. Apesar do tempo quente, Miss Carpenter continuava a usar o habitual vestido cinzento, muito simples, e a touca, com um xale à volta dos ombros. Olhou para Hope e franziu o sobrolho. – Hope, não é? – perguntou. – Infelizmente continuo a não ter trabalho para si. – Não é isso – disse Hope. – Os meus amigos Gussie e Betsy estão doentes e precisam de um médico. Pensei que talvez conhecesse alguém que pudesse ir vê-los. Betsy nunca gostara de Miss Carpenter; afirmava que ela só se tinha envolvido em obras de caridade por ser uma velha solteirona excêntrica que não tinha nada melhor em que ocupar o tempo. Troçava das deselegantes roupas da professora e das suas firmes convicções religiosas. Chegava ao ponto de sugerir que tirava um prazer indireto em meter o nariz na vida do bairro. Hope sempre rira das preconceituosas opiniões de Betsy, incapaz de decidir se concordava ou não com elas. Mas quando viu uma centelha de genuína preocupação faiscar nos olhos duros e escuros da mulher, envergonhou-se de ter permitido que Betsy a influenciasse. – Quais são os sintomas? – perguntou Miss Carpenter. – Têm febre? Hope explicou como estavam e o que já tinha feito para os ajudar. – Receio que seja tifo – concluiu. – Foi o que matou os meus pais. Miss Carpenter pareceu muito surpreendida e pegou na mão de Hope, apertando-a num gesto de solidariedade. – Não sabia que era órfã. Confesso que presumi, por ser instruída, que tinha fugido de casa em busca de aventura, e foi por isso que fui um pouco dura consigo. Mas isso não importa agora. Vou pedir a um médico que conheço que vá ver os seus amigos, embora não possa prometer que seja hoje, porque ele tem muitos outros pedidos. Vá para casa, mantenha-os aquecidos e dê-lhes mais líquidos. Parece que já está a fazer por eles tudo o que é preciso. – Não tenho muito dinheiro para pagar ao médico – murmurou Hope, que não fazia a mínima ideia de quanto poderia custar uma consulta. Miss Carpenter fez um pequeno gesto com as mãos, dando a entender que Hope não devia


preocupar-se com isso. – O Senhor providenciará – disse. – Nem toda a gente neste mundo espera pagamento pelos seus serviços. Depois de se informar com precisão de onde vivia Hope em Lamb Lane, a professora seguiu o seu caminho, apressada. Hope ficou um ou dois segundos a ver como ela avançava com passos cuidadosos pela viela estreita, a levantar a saia para não a sujar com a imundície que pisava. Calculou que devia ter cerca de quarenta anos, apesar de ser elegante e esbelta como uma rapariga. Perguntou-se porque não teria casado, porque apesar de não dever nada à beleza com aquele nariz comprido e os lábios finos e franzidos, havia mulheres muito mais feias que casavam. Betsy dizia que os homens não gostavam de mulheres inteligentes, e de beatas ainda menos, e talvez tivesse razão.

Quando ouviu o relógio dar as dez da noite, Hope já tinha perdido a esperança de que o médico aparecesse naquela noite. Fora um dia terrível e interminável, pois mal acabava de limpar Betsy, precisava de lavar Gussie, e ambos gritavam devido às dores que as cãibras lhes provocavam. Hope estava a cambalear de exaustão, a escorrer suor e louca de ansiedade. Os fluidos que saíam deles eram como água de arroz, e nenhum parecia consciente do seu próprio estado. Era como tratar de dois grandes e indefesos bebés, com a diferença de que não tinha fraldas, lençóis ou toalhas para os deixar mais confortáveis. Mais terrível ainda era o aspeto deles. Quando aproximava uma vela, via-lhes os olhos que pareciam enterrados no rosto, e a pele sarapintada e escura. Falava com eles sem parar, e massajavalhes os membros para aliviar as cãibras, e apesar de eles parecerem incapazes de responder, Hope tinha a certeza de que sabiam o que estava a dizer. O alvoroço de vozes lá em baixo alertou-a de repente para a chegada de um estranho. Nos dezoito meses que já ali passara, habituara-se àquela espécie de sistema de alarme. Quem quer que entrasse em Lewins Mead e não fosse conhecido dos residentes era tratado com desconfiança, e ao interpelarem o intruso, quase sempre com rudeza, os moradores tornavam a presença do visitante conhecida de toda a rua. Hope abriu a porta e espreitou para a escura e desconjuntada escada. Havia a habitual cacofonia de ruídos, e mais luz do que habitual, porque havia mais portas abertas, mas não a suficiente para ver quem era. – No alto da escada, senhor – gritou alguém. Sentiu-se invadir por uma onda de alívio, porque tinha de ser o médico. Entrou no quarto, pegou numa vela e voltou à escada, para alumiar a subida. O único médico que Hope conhecera fora o de Chewton, que procurara quando os pais tinham adoecido, de modo que esperava que aquele fosse de uma idade e tamanho semelhantes. Por isso ficou um pouco surpreendida quando viu aparecer um jovem alto e de cabelo louro. – É o médico? – perguntou. – Sou. Dr. Meadows – respondeu ele, dos degraus. – E a menina deve ser a Hope. Peço desculpa, mas Miss Carpenter não me disse o seu nome completo. – Obrigada por ter vindo, e Hope chega muito bem – disse ela, quando ele chegou ao patamar. – Estou com muito medo, porque os meus amigos pioraram muito desde que falei com Miss Carpenter.


O Dr. Bennett Meadows considerara-se afortunado quando, ao terminar o curso, o tio, o Dr. Abel Cunningham, o convidara para trabalhar no seu consultório em Clifton. Não tinha dinheiro para lançar o seu próprio consultório e sabia que, com toda a probabilidade, qualquer outro médico que se oferecesse para o aceitar como assistente esperaria que trabalhasse muito a troco de uma ninharia. Em criança, passara muitas férias com o tio, e sabia que os seus clientes eram maioritariamente pessoas ricas, pelo que imaginou que lhe bastaria um par de anos para estar em situação de se estabelecer sozinho. Para seu desapontamento o tio não era diferente de qualquer outro médico bem sucedido; guardava os melhores pacientes para si e só o deixava tratar dos mais pobres. – Pede um xelim logo que entrares numa casa para uma consulta – aconselhara o tio Abel. – Se esperares até depois de tratares o doente, vão pensar que és mole e arranjarão uma desculpa para não te pagar. Talvez Bennett fosse mole, porque não se sentia capaz de pedir dinheiro antes de ver uma criança com tosse convulsa ou um homem a sofrer com uma perna esmagada. E o tio tinha razão: muitas vezes não lhe pagavam. Ao princípio isto frustrou-o, mas com a passagem do tempo acabou por aprender que os pobres nunca chamavam um médico a menos que fosse para uma coisa muito grave. Descobriu que não era suficientemente duro para aceitar o último xelim de uma família sabendo que isso significava que iam todos passar fome, e se conseguia salvar o doente, a satisfação era a sua recompensa. Era por causa desta atitude altruísta que o tio Abel chamava a Bennett e a Mary Carpenter, num tom de troça, «Almas Gémeas». O Dr. Cunningham tinha sido amigo de Lant Carpenter, o falecido pai de Mary, mas o facto de a filha do pastor, uma rapariga instruída, ter decidido dedicar a sua vida à Ragged School fazia-o abanar a cabeça, incrédulo. Quando apresentou Mary a Bennett, sorrira ironicamente e dissera que tinham a obrigação de se dar bem, uma vez que eram ambos campeões de causas perdidas. Bennett não achava que uma escola gratuita fosse uma causa perdida, como não o era o reformatório que Mary tinha fundado na aldeia de Kingswood. Achava que era maravilhoso ela ter convencido os tribunais a confiar as crianças delinquentes à sua guarda, para que pudesse ensiná-las a ler e escrever e ajudá-las a aprender um ofício, mantendo-as afastadas das prisões para adultos onde seriam ainda mais corrompidas. Mary queria que o seu projeto fosse aplicado em toda a Inglaterra, e até ao momento estava a ser tão bem sucedido que tudo indicava que o ia conseguir. Bennett admirava a compaixão, a inteligência e a dedicação de Mary, mas já não apreciava tanto os seus modos imperiosos ou a maneira como muitas vezes obrigava amigos e conhecidos a fazer o que queria. Conseguira escapar a isto até àquela noite; Mary convidava-o com frequência para eventos de angariação de fundos, e pedia a sua opinião ou tratamento para pequenas maleitas, mas aquela era a primeira vez que o obrigara a fazer uma visita ao domicílio. Disse que havia qualquer coisa de intrigante na rapariga chamada Hope que lhe pedira ajuda. – Não é típica das raparigas de Lewins Mead – disse, a abanar a cabeça como se estivesse confusa. – É inteligente, tem boas maneiras e parece muito limpa. Estremeço só de pensar nas condições em que vive, mas ela preocupa-se desesperadamente com os seus dois amigos doentes e senti-me compelida a fazer qualquer coisa para ajudar.


Bennett quis recusar. Toda a gente sabia que o bairro albergava as pessoas mais brutais e depravadas de Bristol. Nem sequer a polícia lá entrava, com medo de um ataque. Mary insistiu que a sua maleta de médico seria proteção suficiente e que, em caso de necessidade, dissesse que tinha sido ela que o enviara, mas pelo que ele ouvira de outras fontes, os habitantes daquele bairro roubariam a própria avó por um copo de rum. No fim, acabou por aceitar. Se uma mulher de meia idade frágil era suficientemente corajosa para ir lá todos os dias ensinar, mal pareceria que um médico jovem e bem constituído não fizesse o mesmo para cuidar dos doentes. Apesar de tudo, o medo fizera o seu coração bater mais depressa enquanto percorria o dédalo de vielas estreitas e fétidas. A imundície enojava-o, o número de homens e mulheres embriagados caídos nos portais chocava-o, e o facto de, já noite escura, tantas crianças mal alimentadas, sujas e quase nuas estarem fora de casa horrorizava-o. O seu nervosismo aumentara enquanto subia a escada até ao quarto no sótão, porque apesar de estar demasiado escuro para ver a porcaria, sentia-a, e tapava o nariz para fugir ao cheiro. Ouvia vozes estridentes e raivosas à sua volta, e sentiu uma ratazana roçar-lhe o tornozelo. Aquilo, pensou, era o mais perto do inferno que um homem podia chegar, e se não fosse a doçura da voz que perguntava lá de cima se era o médico, talvez tivesse voltado costas e fugido. A descrição que Mary Carpenter lhe fizera de Hope criara no seu espírito a imagem de uma rapariga vulgar mas bondosa. Quando, porém, chegou ao patamar e a viu iluminada pela vela, ficou espantado ao descobrir que era bonita. O vestido cinzento que usava estava rasgado e coberto de manchas, e ela cheirava a doença e a suor e tinha o cabelo colado à cabeça. Mas aquele rosto! Olhos enormes, límpidos e escuros, lábios cheios e um nariz perfeito. Era como descobrir uma rosa a crescer num monte de esterco. Ficou tão estupefacto que, por um instante, só conseguiu olhar para ela em silêncio. – Vai vê-los agora? – perguntou a rapariga, fazendo-o voltar ao propósito da sua visita. – Tentei obrigá-los a beber, mas já não aceitam mais. Tenho tanto medo por eles. Bennett tinha estado em centenas de casas de gente pobre desde que fora viver para Bristol, mas nunca vira nada tão miserável como aquele quarto. À luz das três ou quatro velas, viu que não havia mobília, apenas um par de caixotes de madeira que faziam as vezes de mesa, e sacos de serapilheira cheios de palha a servir de camas. Os amigos de Hope estavam deitados sobre dois desses sacos e o ar cheirava a doença e a excrementos, embora fosse visível, pelos trapos pendurados ao lado da janela, que aquela rapariga fizera tudo o que pudera para manter os seus pacientes limpos. Aproximou-se primeiro da mulher doente, ajoelhando no chão para a examinar. O pulso quase não se sentia, ela parecia alheia à presença dele e ao que a rodeava e, pior do que isso, as faces tinham adquirido um tom roxo-azulado. Bennett abafou um arquejo de horror, porque aquela cor disse-lhe qual era exatamente o mal de que sofria. Nunca tratara ninguém com aquele doença, mas lembrava-se dos efeitos de uma epidemia que grassara pouco antes de ele começar a estudar medicina. Tinha, em todo o caso, estudado a doença em teoria e sabia como era grave, e sentiu um aperto no estômago ao recordar com que rapidez podia espalhar-se. Os sintomas do rapaz eram os mesmos, só que o pulso estava ainda mais fraco. Bennett olhou para Hope, viu a exaustão no rosto e o medo nos olhos dela, e teve receio de lhe dizer a verdade. – Há quanto tempo adoeceram? – perguntou.


– Foi ontem – disse ela. – A Betsy já não se sentia muito bem na noite anterior, e o Gussie também estava em baixo, mas pensámos que era só do calor. É tifo, senhor doutor? – Não, não é tifo – respondeu Bennett desejando que fosse, porque a taxa de recuperação dessa doença era muito mais elevada. – Então o que é? – exclamou Hope. – Diga-me, pelo amor de Deus. Bennett sabia que tinha de lhe dizer a verdade. Tinha de lhe dar a oportunidade de decidir se fugia para salvar a vida naquele momento ou se ficava para ser também contagiada. Era até possível que já a tivesse, pois sabia que era uma doença incerta. Em algumas pessoas demorava dias a manifestar-se, noutras, como era o caso daqueles dois, atacava rápido e sem misericórdia, e a morte seguia-se no prazo de um dia. – É cólera – disse, com um nó a formar-se-lhe na garganta por ter de nomear a doença que o assustava mais do que qualquer outra. Ela arquejou e levou a mão à boca, horrorizada. – Centenas de pessoas morreram disso no ano em que nasci – disse, com as lágrimas a jorraremlhe dos olhos. – Lembro-me de a minha mãe falar nisso com a minha irmã. Pode tratá-los? Podemos levá-los para o hospital? – Os seus amigos estão demasiado doentes para serem deslocados – respondeu ele, em voz baixa. Tinha a mente num turbilhão, a tentar calcular com que rapidez a doença alastraria a outros naquela casa. Lembrava-se de ter ouvido gritos quando descia a viela. Podiam ser de outra vítima. Ainda naquela manhã o tio Abel referira que havia relatórios de várias mortes entre os imigrantes irlandeses, e agora, à luz do que ali via, pensava que podia tratar-se também de cólera. Receava a onda de pânico que se geraria quando se soubesse que a temida doença voltara à cidade, e se as pessoas começassem a fugir para o campo poderia ser o início de uma epidemia a nível nacional. De momento, porém, aqueles dois doentes eram a sua principal preocupação. Teria tempo suficiente, quando saísse dali, para informar as autoridades, e elas que decidissem o que devia ser feito. – Vou dar-lhe um pouco de ópio para deitar na água que beberem. Ajudará a atenuar as cãibras. Sabia que devia dizer à rapariga que a cor azulada dos amigos significava que já estavam nas fases finais do doença, mas não era capaz. O ópio serviria ao menos para suavizar-lhes a morte. Ela podia ter ouvido falar da epidemia de cólera em 32, mas ele vira-a com os seus próprios olhos, pois na altura tinha doze anos. Sentia muitas vezes que fora aquela epidemia que o levara a querer ser médico. A casa da sua infância ficava a três quilómetros de Exeter, mas na cidade as pessoas tinham morrido como moscas naquele verão, por vezes caindo em plena rua. A mãe ficara aterrorizada e proibira-o de sair com medo do contágio, mas ele escapulira-se e ouvira o dobre dos sinos, vira os corpos serem amontoados em carroças descobertas e despejados em valas comuns. Nunca esqueceria as fogueiras em que as roupas de vestir e de cama das vítimas eram queimadas, nem o medo nos olhos das pessoas que fugiam da cidade a tentar escapar à doença. O mesmo medo que via naquele momento nos olhos de Hope; a rapariga olhava para ele como se soubesse que não estava a dizer-lhe tudo, mas receosa de perguntar mais qualquer coisa. – Tenho estado a dar-lhes canela com o chá – disse ela de repente. – Quer dizer, até eles deixarem de beber. E também lhes pus cataplasmas de mostarda na barriga. Fiz bem? Devo continuar? – Tudo isso é excelente – respondeu ele, espantado por uma rapariga tão nova conseguir ser tão


altruísta e prática. – Daria uma excelente enfermeira, Hope. Mas agora deixe as cataplasmas, dê-lhes só a água com ópio. E precisa de descansar, ou vai adoecer também. Ela olhou-o em silêncio durante um longo instante. – Porque foi que eu não a apanhei? – perguntou por fim, com a voz a tremer. – Não apanhei tifo quando os meus pais morreram, apesar de ter tratado deles. Foi só sorte? – Não sei – respondeu Bennett, sentindo-se impotente. – Há tantas teorias diferentes a respeito do que provoca as doenças. Alguns médicos pensam que são transportadas pelo ar, outros que são transmitidas por contacto, mas ninguém sabe ao certo. Pessoalmente, estou convencido de que é pelo ar, mas se é por contacto físico, é estranho alguns membros da família serem contagiados e outros não. Queria poder dizer-lhe que se não a tinha já estava a salvo, mas não era capaz de lhe mentir daquela maneira. Tanto quanto sabia, a rapariga podia sucumbir de um momento para o outro, tal como ele podia acordar doente no dia seguinte. – A minha mãe costumava lavar tudo com vinagre quando alguém adoecia – disse ela, num fio de voz. – Também acredita nisso? – Sim – concordou ele. – Lave as mãos com sabão depois de tocar em qualquer deles e não use para si a mesma chávena em que lhes dá de beber. Pôs-se de pé e tirou da maleta um pequeno frasco de ópio. – Três ou quatro gotas, não mais – disse. – Volto a passar por cá amanhã de manhã para ver como estão. Sentia uma estranha relutância em deixá-la. Sabia que tinha de ser, não havia mais nada que pudesse fazer ali e seria loucura ficar mais um minuto do que o necessário. Mas parecia-lhe errado deixar alguém tão novo com tão grande responsabilidade. Queria saber como fora uma rapariga tão bonita parar àquele lugar horrível; na realidade, queria saber tudo a respeito dela. Mary Carpenter tinha razão, Hope era intrigante.

– Hope! Sobressaltou-se ao ouvir o débil chamamento de Gussie e ficou surpreendida ao descobrir que o dia nascia. Devia ter cedido ao sono e dormido algumas horas. O coração deu-lhe um salto no peito, porque se ele conseguira chamá-la talvez fosse por o pior já ter passado. – O que é? – sussurrou, correndo para ele. – Queres beber? Gussie assentiu debilmente com a cabeça e ela chegou-lhe a taça aos lábios gretados, mas viu no mesmo instante que não havia quaisquer melhoras, porque a cor azulada era ainda pior à luz do dia do que parecera à luz das velas. – Tou a morrer – rouquejou ele. Não era uma pergunta, era uma afirmação. Mas ela negou-a com veemência. – Não – disse ele, com os olhos encovados a fazerem-no parecer muito velho. – Sei a verdade. Tens de sair daqui agora, não é seguro ficares. O facto de Gussie pensar só na sua segurança quando estava à beira da morte fez as lágrimas subirem-lhe aos olhos. Pegou num pano e limpou-lhe ternamente a testa. – Amo-te, Gussie – sussurrou. – Tu e a Betsy foram tão bons amigos para mim, não posso deixar-


vos. Por isso não me peças para ir. Por um curto instante, Gussie fixou nela os olhos encovados. – Queria que fosses a minha namorada – disse. – Quis tantas vezes dizer-te o que sentia por ti, mas não me atrevia. Hope corou, surpreendida pela declaração. Mas então recordou todas as vezes que ele lhe pegara na mão, os abraços que eram um nadinha mais do que amizade, a maneira como por vezes a olhava. Talvez tivesse ficado assustada se tivesse compreendido o que aquelas coisas significavam, porque não sentia o mesmo por ele. Só o amava como um irmão. – Quem me dera que me tivesses dito – murmurou, incapaz de deixá-lo morrer a pensar que os seus sentimentos não eram retribuídos. – Teria tido muito orgulho em ser a tua namorada. Ele sorriu, então. Não foi nada como o sorriso rasgado e alegre a que ela estava habituada, quando os olhos dele dançavam e faiscavam, mas apenas o fantasma desse sorriso. Mas mesmo assim ficou contente por a sua mentira pequena e inofensiva lhe poder proporcionar um pouco de felicidade. – Costumava sonhar que a nossa sorte ia mudar, que casaríamos e iríamos viver para um sítio bonito – disse ele, fazendo um esforço para pronunciar as palavras. – Foge daqui, Hope, procura a boa vida que mereces. Partirei mais descansado se prometeres. O espírito dela regressou às boas recordações do passado. Às muitas vezes que se tinham sentado diante da lareira, no inverno, com ele a massajar-lhe os pés gelados, para os aquecer. Recordou o ar de deliciada surpresa na cara dele quando comia um guisado que ela tinha feito na lareira, e a maneira como rira em Brandon Hill, num dia de primavera, quando tinham rolado os dois pela encosta coberta de erva. Gussie podia não ter sido o homem a quem quereria dedicar a sua vida, mas ensinara-lhe muitas lições valiosas que ela nunca esqueceria. Era meigo e divertido, leal, generoso e bom, e ela guardaria essas importantes qualidades no coração e certificar-se-ia de que o homem com que viesse a casar as possuía também. – Prometo – disse, e beijou-o na testa. – Nunca te esquecerei, Gussie, e vou ter muitas saudades tuas. – Como tá a Betsy? – perguntou ele, tentando soerguer-se o suficiente para a ver. Era tentador dizer-lhe que estava melhor, mas depois de uma curtíssima reflexão pensou que tendo Gussie e Betsy sido tão bons amigos durante tanto tempo, talvez tivessem menos medo morrendo juntos. – Penso que quer ir contigo – disse. Ele deixou-se cair na cama e fechou os olhos. Manteve-os fechados durante algum tempo, levando Hope a pensar que tinha adormecido, mas então as cãibras recomeçaram, os seus braços e pernas contorciam-se como cobras furiosas, e ela massajou-lhos com força com ambas as mãos, como já antes fizera. – Vai agora – rouquejou ele, a meio de um terrível espasmo. – Não há mais nada que possas fazer por nós. Salva-te! * Foi a última coisa coerente que ele lhe disse. Disse outras palavras, mas nada que fizesse sentido, e ela conseguiu fazê-lo beber mais um pouco de chá de canela com ópio até que voltou a ficar quieto.


Betsy teve as mesmas violentas cãibras pouco depois, e Hope massajou-lhe os braços e as pernas até não lhe restarem forças. – Deixa-me morrer agora! – gritou. – Tou acabada. Também ela voltou a acalmar com um pouco mais de ópio, e voltou para Hope uns olhos suplicantes. – Não dês para o torto sem mim – rouquejou. – Arranja um tipo decente, com alguma massa. Betsy sempre gostara de distribuir conselhos e opiniões, e Hope tinha a certeza de que a amiga se sentia frustrada por não conseguir dar voz a tudo o que sentia. No entanto, o que acabava de dizer era na realidade uma versão condensada da sua filosofia, e até o reconhecimento de que estava contente por Hope não ter caído no roubo e na prostituição. Havia tanta coisa que Hope queria dizer à amiga; mas não havia palavras suficientemente grandes para expressar a sua gratidão, o seu afeto e a sua admiração. Sentia as lágrimas escaldantes correrem-lhe pela cara, o coração inchado como se estivesse à beira de explodir, a cabeça cheia de uma centena de imagens muito nítidas. Via Betsy na loja de roupas em segunda mão, a tagarelar animadamente com a vendedora enquanto enfiava um saiote ou um xale debaixo do vestido, o seu sorriso descarado quando fugia com uma empada ou uma peça de fruta roubadas, a maneira como conseguia cativar um marinheiro estrangeiro com aqueles grandes olhos escuros e persuadi-lo a darlhe um xelim. Era viva, divertida, ousada, um raio de sol no dia mais negro. Podia ter sido uma ladra, mas tinha o seu próprio código moral pelo qual vivia e que era de muitas maneiras muito mais honroso do que o das piedosas senhoras que enchiam as igrejas todos os domingos. Tinha levado comida e roupa a pobres irlandeses, e quase não havia uma família em Lamb Lane que não tivesse ajudado numa ou noutra ocasião. Hope sentia-se orgulhosa por Betsy a ter escolhido para ser sua amiga, porque o tempo passado com ela fora uma lição, uma alegria e uma dádiva de amor. – És bela – murmurou por entre as lágrimas enquanto limpava com o pano húmido o rosto da amiga. – Uma verdadeira irmã, e um dia, quando tiver filhos, hei de falar-lhes de ti.

Gussie foi o primeiro a morrer, quando os sinos das igrejas tocavam para o serviço da manhã. Betsy seguiu-o minutos mais tarde. Hope já não conseguia chorar, gastara todas as suas lágrimas naquelas últimas horas, e agora sentia apenas alívio por o sofrimento dos amigos ter acabado. Os cadáveres eram quase irreconhecíveis como sendo as pessoas que amara, porque a cólera transformara-lhes os rostos nos de espectros emaciados e terríveis. Só os cabelos, o escuro e o ruivo, recordavam o que em tempos tinham sido. Hope precisava de ir para um lugar qualquer onde tivesse boas recordações dos seus vibrantes carateres, onde pudesse ouvir o riso deles, recordar as suas histórias, voltar a vê-los no seu espírito como quando eram belos. Para então poder chorá-los. Puxou a enxerga de Betsy para mais perto da de Gussie e tapou-os com uma manta. Recolheu então os seus escassos pertences, fez com eles uma trouxa e saiu, fechando a porta sem ruído e deixando uma nota para o médico espetada num prego.


CAPÍTULO 13

B

ennett achou Lewins Mead muito menos assustador e barulhento à luz do dia do que lhe parecera à noite, mas depois pensou que o mais certo era que às dez horas de uma manhã de domingo, a maior parte dos habitantes estivesse ainda na cama a curtir a bebedeira da noite anterior. No entanto, apesar de dar uma sensação de maior segurança, a luz do sol revelava também toda a esqualidez do lugar. As casas com estrutura de madeira vergavam ao peso da idade e iam apodrecendo. Poucas tinham janelas intactas, cresciam ervas daninhas nos telhados e as paredes abaulavam para fora de uma maneira alarmante. Um esgoto a céu aberto no meio da viela tinha sido bloqueado pelo cadáver putrefacto de um cão e os dejetos humanos atirados das janelas avançavam para as portas das casas. Sufocado pelo fedor, mas alertado pelo aviso gritado de cima, saltou para o lado no instante em que o conteúdo de um bacio caía do céu, não lhe acertando por pouco. Mais para o interior do bairro, junto à bomba de água, um grupo de mulheres coscuvilhava. Todas se voltaram para o mirar com olhos duros e desconfiados, mas a mais nova, uma rapariga bonita mas muito suja com metade dos seios exposta, segredou um comentário qualquer que arrancou às outras desbragadas gargalhadas. Bennett corou, mas levantou o chapéu e desejou-lhes um bom dia. Os seus filhos, seminus, brincavam sem alegria sentados no chão, e ao reparar nos ventres inchados e nos membros finos como gravetos, o médico sentiu-se culpado por ter comido dois belos pedaços de arenque fumado ao pequeno-almoço, naquela manhã. Quantos deles sobreviveriam à cólera? Duvidava que algum, mal alimentados como estavam. Quase não conseguira dormir a pensar na doença e naquilo que poderia fazer para evitar que alastrasse. Lembrou-se de que, durante a última epidemia, algumas paróquias tinham tentado um sistema de quarentena para a conter. Isto significava obrigar os saudáveis de uma zona afetada a ficarem enclausurados com os doentes. Era, em sua opinião, uma coisa bárbara, pois famílias inteiras morriam sem necessidade nas piores condições. Suspeitava, no entanto, que o tio Abel aprovaria tal plano, desde que não se aplicasse a ele. Era por isso que Bennett ainda não lhe falara do que ali tinha encontrado na noite anterior. O tio não lhe teria sem dúvida permitido voltar naquela manhã, e a pobre rapariga ficaria sozinha com os amigos doentes a acreditar que ele não queria saber do seu calvário. Tencionava, depois de a ver, avisar as autoridades de que a cólera chegara à cidade. Se Hope ainda estivesse saudável, aconselhá-la-ia a abandonar a área o mais depressa possível, antes de se ver lá encurralada. Deteve-se ao chegar à casa, chocado pelo péssimo estado em que se encontrava. Na noite anterior, o manto da escuridão escondera o verdadeiro horror de tudo aquilo. Soubera, claro, pela maneira como a escada estremecera, que a delapidação era grave, mas mesmo assim não imaginara nada


parecido com o que via naquele momento. Não havia porta da rua, e os painéis de madeira do vestíbulo tinham sido arrancados, presumivelmente para servir de combustível; o mesmo acontecera aos balaústres do corrimão e a muitas das portas interiores. Havia enormes buracos no estuque, deixando à mostra o fasquiado que ficava por baixo, e quando olhou para o alto da escada viu o céu através de uma abertura no teto. Não era um lugar adequado para habitação humana, e no entanto sabe Deus quantas pobres almas eram obrigadas a viver ali, e o cheiro era tão atroz que teve de tapar o nariz e a boca com uma mão para não vomitar. Viu a nota pregada na porta ainda antes de chegar ao último patamar, e o seu primeiro pensamento foi que Hope tinha fugido e estava a pedir-lhe que arranjasse alguém que cuidasse dos amigos. Experimentou uma estranha sensação de desapontamento, apesar de ter sido ele próprio a sugerirlhe que se fosse embora. Arrancou a nota do prego. Dizia: Caro Senhor Doutor, Infelizmente, o Gussie e a Betsy morreram esta manhã com poucos minutos de diferença. Não sabia o que fazer em relação a eles. Não tenho dinheiro para um funeral e não podia ficar aqui, por isso achei que era melhor ir. Vou para o campo até ter a certeza de que não apanhei também a doença. Obrigada por ter vindo vê-los, foi muita bondade sua, e espero não o ter posto em perigo. Com cumprimentos, Hope Renton Bennett sentiu formar-se-lhe um nó na garganta. Era surpreendente ela saber escrever tão bem, sem um único erro de ortografia e com uma excelente caligrafia. Mas foram a sinceridade e bondade da mensagem que mais o afetaram. Pensou que a maior parte das pessoas naquela situação se limitaria a fugir sem qualquer explicação ou agradecimento. Abriu a porta, mas ao ver que o quarto estava cheio de moscas, apressou-se a voltar a fechá-la. Vira de relance o volume coberto por uma manta no chão e não precisava de uma exame mais próximo para saber que Hope não se enganara. * Duas horas mais tarde, Bennett regressou, cansado, a Clifton. Uma vez que o conselho municipal estava encerrado ao domingo, comunicara as mortes à polícia, deixando-lhes o cuidado de contactar as pessoas adequadas. Infelizmente, o homem com quem falou parecia ser um imbecil incapaz de compreender a gravidade de uma doença como a cólera ou a rapidez com que uma epidemia podia alastrar. Disse que tinha havido notícias de mortes entre os irlandeses acampados junto ao rio Frome, mas fê-lo a rir, como se isso o divertisse. Bennett sentira-se tentado a apagar o sorriso idiota daquele rosto informando-o de que a cólera não era esquisita em matéria de quem atingia e que o próximo podia muito bem ser ele ou alguém da sua família. Mas, claro, não o fez; realçar a gravidade da situação só serviria para desencadear o pânico. Uma coisa era certa, porém: aquele punhado de mortes não ia ser o fim da história. E Bennett sabia que, como médico, seria obrigado pelo dever a ajudar. Não queria fazê-lo – seria muito mais seguro ficar em Clifton e rezar para que a doença não chegasse tão longe. Pelo menos metade dos atingidos


morreria, e com ou sem um médico a percentagem continuaria a ser a mesma. Mas jurara ajudar os doentes, e era isso que tinha de fazer. Também a jovem Hope o preocupava. Podia estar infetada, e sem dinheiro, um teto para se abrigar e ninguém a quem recorrer, estaria numa situação desesperada. Tentou adivinhar para onde poderia ela ter ido. A nota falava apenas do «campo», o que podia significar qualquer lugar à volta de Bristol. Seria como procurar a proverbial agulha no palheiro!

Enquanto o sol começava a pôr-se no fim da tarde de domingo, Hope olhava das alturas de Leigh Woods para a garganta do Avon, e as lágrimas corriam-lhe pelas faces. A beleza do cenário à sua frente era incomparável: a majestade da garganta rochosa, o sol cor de laranja a refletir-se na água, o verde profundo dos bosques de ambos os lados. Com a maré alta, um grande navio de três mastros era lentamente levado à sirga em direção ao mar por cavalos situados nas margens. Ouvia os marinheiros interpelarem-se uns aos outros, e um músico invisível tocava acordeão. No convés do navio, uma senhora de vestido branco e chapéu enfeitado com penas dava a mão a dois rapazinhos. Hope subira muitas vezes até àquele lugar quando andava a recolher lenha, e quaisquer que fossem as condições atmosféricas nunca se cansava de observar os navios, ou imaginar de onde viriam ou que carga transportavam. Naquele dia, porém, não queria saber se a senhora de vestido branco e os dois rapazinhos iam a caminho da América ou de qualquer outra terra distante. Não queria saber se o navio ia ficar retido durante semanas na foz do rio por falta de vento ou se encontraria uma tempestade no seu caminho. Gussie e Betsy, os seus queridos amigos, estavam mortos, e ela não ia sequer poder estar lá para rezar uma oração quando fossem enterrados. Certa vez, Betsy rira dela quando confessou a sua pena por uma vizinha que morrera ter tido um funeral de pobre. Dissera que quer se fosse levada para a tumba numa carruagem dourada tirada por seis cavalos emplumados ou carregada na carroça da paróquia, acabava-se da mesma maneira debaixo de seis palmos de terra. Talvez fosse verdade, mas parecia-lhe muito injusto que os seus amigos, que tinham sido tão vibrantes e bonitos em vida, morressem de uma morte tão horrível, e no fim fossem atirados sem cerimónia para o fundo de uma vala. E também temia por si mesma. Excetuando a noite em que Albert a expulsara de casa para a escuridão e a chuva, sempre tivera alguém a quem recorrer. Gussie e Betsy tinham-na salvado pouco depois daquilo, e nunca chegara a ser posta à prova para saber se era capaz de se desenvencilhar sozinha. Podia ter aprendido a ganhar a vida, a fazer refeições numa frigideira, até a manter-se limpa em condições terríveis, mas tivera os amigos para lhe louvar os esforços, confortá-la quando se sentia à beira de desistir, e estavam presentes todas as noites, a aquecerem-na com o seu calor, a animarem-na com o seu riso. O bosque era muito silencioso, os únicos sons que ouvia eram o ocasional restolhar de um pequeno animal a passar por entre o mato ou o arrulhar de um pombo-bravo. Por isso gostava tanto de ali estar, porque lá em baixo, na cidade, o barulho nunca parava. Mas não era bom saber que não havia absolutamente ninguém por perto quando a qualquer momento podia começar a tiritar de febre e a ter cãibras nos intestinos. Podia morrer ali em cima, no bosque. Não haveria ninguém para lhe levar uma bebida aos lábios, massajar-lhe os membros ou dizer-lhe palavras de conforto. Do seu corpo os


corvos deixariam só os ossos, e nunca ninguém saberia o que lhe acontecera. Apenas dois dias antes hesitara entre os amigos e o lugar em Royal York Crescent. Agora as duas opções tinham desaparecido. Mesmo que se sentisse bem na manhã seguinte, não podia apresentar-se no n.º 5 e arriscar levar a doença consigo. Ironicamente, tinha naquele dia mais dinheiro consigo do que alguma vez tivera em toda a sua vida. Encontrara uma libra e oito xelins no bolso de Gussie, mais quatro xelins no de Betsy, e tinha cinco xelins e seis pence seus. Sentira-se mal ao ficar com o dinheiro dos amigos, mas sabia que quem quer que fosse recolher os corpos o tiraria, e de qualquer modo Gussie e Betsy teriam querido que fosse para ela. Se não fosse a cólera, aquele dinheiro dar-lhe-ia para comprar um bom vestido em segunda mão e um par de botas, e ainda restaria o suficiente para se instalar num quarto barato, comprar flores no mercado para fazer ramalhetes e ganhar a vida a vendê-los na rua. Mas não podia voltar à cidade enquanto não tivesse a certeza de que estava bem. E se a cólera já por lá grassasse, seria loucura voltar. Naquelas últimas semanas de tempo quente, tentara muitas vezes convencer Gussie e Betsy a irem até ali com ela e dormir sob as estrelas. Mas a ideia horrorizara-os. Tinham-lhe dito que os bosques eram assustadores e que gostavam de estar perto de pessoas. Betsy até afirmara, a rir, que demasiado ar puro fazia mal a um corpo habituado a Lewins Mead. Hope fizera os possíveis por tentá-los dizendo-lhes que seria divertido, descrevendo como poderiam construir um abrigo, acender uma fogueira e ir buscar água a um ribeiro, mas a simples ideia fizera-os estremecer. Tivera a presença de espírito suficiente para levar de Lamb Lane o velho bule de chá e outras coisas essenciais, mas agora já não lhe parecia assim tão divertido; sem Betsy e Gussie, parecia-lhe um castigo terrível por não ter morrido com eles. – Estás só cansada, ficarás ótima depois de uma boa noite de sono – murmurou para si mesma, a esforçar-se por controlar as emoções. Fez meia-volta, resoluta, e regressou ao lugar onde tinha deixado as suas coisas. Talvez no dia seguinte recuperasse a vontade de construir um abrigo, e encontrasse o lago que descobrira alguns meses antes para se poder lavar. Naquela noite, porém, estava demasiado esmagada pelo desgosto e pelo cansaço para fazer mais do que embrulhar-se na sua velha capa e dormir.

Uma semana mais tarde, foi acordada pelo som da chuva a cair. Sentou-se e esfregou os olhos, e então afastou os ramos atrás dos quais escondera o seu abrigo. Ainda quase não havia luz e o cheiro da chuva na terra ressequida era bom. Voltou a deitar-se, sorrindo satisfeita consigo mesma, porque o abrigo continuava seco, provando que escolhera o lugar certo, debaixo da copa de um grande carvalho, e o construíra bem. Quando eram crianças, ela, Joe e Henry construíam muitas vezes abrigos daqueles no bosque, mas nunca imaginara que um dia uma coisa que fora tão divertida se revelaria tão útil. Foi a recordação dos irmãos e da casa onde crescera que lhe permitiu aguentar aquela semana; distraía-lhe o espírito do horror da morte dos amigos, ajudava-a a enfrentar o desgosto e impedia-a de ceder ao desespero. Cada pequena dor ou indisposição enchia-a de terror, pois podia ser o início da cólera. Era tentador ceder ao cansaço que sentia e limitar-se a esperar pelo que a sorte lhe reservava, fosse doença ou inanição. Mas obrigava-se a percorrer o bosque à procura dos ramos flexíveis que podia


entretecer para fazer o abrigo, a juntar fetos secos para lhe servirem de cama e armazenar lenha para a fogueira. As magras provisões que levara consigo tinham-se esgotado no primeiro dia; no terceiro, a fome forçou-a a descer até Hotwells, nos arredores da cidade, e comprar numa banca as coisas de que precisava. Nunca nada lhe soubera tão bem como aquelas batatas assadas na fogueira, com um pedaço de queijo a derreter-se no interior. Tinha algumas maçãs e um ramo de agriões frescos, e soube, enquanto mastigava as folhas apimentadas, que devia estar bem, ou nunca poderia apreciá-las tanto. Tomar banho no lago contribuíra para a animar ainda mais do que a comida. Descobrira-o na primavera, e em muitos dos dias mais quentes dos dois últimos meses recordara-o com saudade. Demorou algum tempo a voltar a encontrá-lo, pois estava escondido por um denso matagal. Só o ligeiro gorgolejar da nascente que o alimentava lhe permitira localizá-lo. Abrira caminho por entre a espessura do mato, meio à espera de o encontrar reduzido a uma poça de lama húmida. Quase gritou de alegria ao ver que era ainda mais bonito do que se lembrava: água limpa e fresca, a brilhar ao sol e completamente cercada por uma densa cortina de arbustos. Entrou nele vestida, agarrada a um ramo grosso com medo de perder o pé, e ficou deliciada ao descobrir que, no seu ponto mais fundo, a água só lhe chegava à cintura. Esfregou as roupas com sabão ainda com elas vestidas, e depois despiu-as, torceu-as e pô-las a secar nos ramos de um arbusto. Voltou para a água nua e lavou cada centímetro de pele, ensaboando o cabelo, deliciada com a ideia de que ia por fim desembaraçar-se do fedor e dos piolhos de Lewins Mead. Descobriu que, agarrando-se a um pequeno tronco como se fosse uma boia, conseguia nadar, e nunca nada na sua vida fora tão bom como flutuar na água fresca e límpida, que lhe acariciava e estimulava os membros. Ficou tanto tempo no lago que quando por fim saiu tinha os dedos das mãos e dos pés engelhados, e as roupas estavam quase secas. Sentiu-se então renascer, com o cabelo sedoso, a pele lavada e brilhante, e jurou a si mesma que no futuro viveria sempre perto da água para poder tomar banho. Mais tarde, de volta ao abrigo, examinara-se no pequeno espelho que Gussie lhe tinha dado quando ela chegara a Lewins Mead. O seu cabelo estava brilhante e encaracolado como se lembrava de o ver em Briargate. As suas faces estavam de novo rosadas e os seus olhos refulgiam. Durante um par de horas, conseguira até pensar apenas no futuro, em vez de se demorar no passado, e então ocorreulhe que Betsy e Gussie não veriam aquilo como uma traição, antes ficariam felizes por ela. A partir daquele dia, ganhara um novo propósito. Eram muitas as vezes que dava por si a chorar os amigos, e sabia que havia de passar muito tempo antes que a recordação deles deixasse de doer. Mas já não desejava ter morrido também, e decidiu permitir-se recuperar de tudo aquilo por que tinha passado com repouso, ar puro e comida. Tinha a ideia de que lhe seria dado um sinal quando a altura de começar de novo chegasse. Ali deitada, a ouvir a chuva a cair por entre as folhas, sentiu que aquilo era o sinal. Não falara com ninguém exceto o homem a quem comprara a comida, e mesmo assim só para lhe perguntar os preços. Vira de relance outras pessoas a descer através do bosque, mas mantivera-se afastada delas. Mas não podia ficar ali escondida para sempre; agosto estava a acabar e a chuva daquele dia bem podia assinalar o início do fim do verão. Qualquer coisa lhe dizia que fosse ao n.º 5 de Royal York Crescent e explicasse por que razão não aparecera na segunda-feira anterior. Não tinha grande esperança de que Mrs. Toms tivesse mantido o


lugar de criada aberto para ela, mas era possível que sim. Se não, poderia visitar algumas quintas para ver se alguém estava a contratar ajuda para a ceifa.

Parou de chover algum tempo depois, e o ar estava muito mais fresco enquanto Hope empacotava os seus pertences. Antes de descer o trilho que levava a Bristol, foi até à beira da garganta e olhou para a vista. Não chovera muito, mas bastara para deixar tudo a brilhar. Um barco subia o Avon com vento suficiente nas velas para singrar a uma boa velocidade. Era a primeira vez desde que ali chegara que via um barco com todas as velas desfraldadas, e era um espetáculo muito bonito. Precisava de saber o que estava a acontecer em Bristol, se a cólera tinha reclamado outras vidas, e agradecer a Miss Carpenter por ter mandado o médico. Lembrava-se de que a mãe dava sempre muita importância a agradecer como devia ser às pessoas que a tinham ajudado em momentos difíceis. Dizia que provava que sabíamos apreciar devidamente os seus esforços. Também pensava que devia ir à igreja rezar uma oração de graças por ter sido poupada.

Quando atravessou a ponte e chegou a Hotwells, já o sol tinha nascido por completo e aquela primeira chuvada secava depressa no chão. Meteu pelo caminho íngreme que subia a encosta até Clifton, admirando as muitas e bonitas casas novas. Ficara a conhecer bem aquela área quando por lá andara a vender lenha, e muitas vezes, quando estava enregelada de frio, cansada e com fome, distraía-se fingindo que era uma senhora rica à procura de uma casa onde morar. A sua preferida era pequena em comparação com as vizinhas mais imponentes, pouco mais do que uma casa de campo. A porta era de madeira polida, castanhoavermelhada, com uma aldraba de latão em forma de cabeça de leão, e tinha cortinas de renda nas janelas. Certa vez batera à porta, e uma rapariga não mais velha do que ela abrira-lha. Não era uma criada, usava um belo vestido azul com franzidos de renda nos punhos e na gola, e fitas no cabelo louro. Dera-lhe uma moeda de seis pence por um molho de gravetos e dissera-lhe que ficasse com o troco. Aquela pequena generosidade aquecera Hope mais do que um almoço quente, e recordá-la naquele momento era uma lembrança de que a sorte podia mudar de um momento para o outro. Talvez naquele dia acontecesse qualquer coisa de bom. Quando voltou para Royal York Crescent, vinda de Regent Street, lembrou-se de como ficara espantada da primeira vez que estivera em Bristol e vira que as pessoas viviam em casas coladas umas às outras. O pai explicara-lhe que as construíam assim porque na cidade o terreno era muito caro. Disse que lhes chamavam casas em banda. Royal York Crescent, onde viviam algumas das pessoas mais ricas de Bristol, era um grupo de casas em banda extraespecial por causa da sua forma: uma longa e encurvada fileira de casas de quatro ou cinco pisos no alto da colina sobranceira à cidade. Hope ficara entusiasmada quando finalmente lhe foi permitido levar o carvão para a lareira da sala de estar do n.º 5 e contemplara a vista que se descobria das grandes janelas. Via os navios no porto, a torre de St. Mary Redcliffe’s, e depois do outro lado até às colinas de Dundry, no horizonte. Pensou que se fosse dona daquela casa passaria o dia inteiro sentada à janela, a olhar. Nesse momento estava uma carruagem a parar em frente da primeira casa e Hope deteve-se para


olhar apenas porque tinha na porta um brasão semelhante ao de uma que ia de vez em quando a Briargate. Viu o lacaio de libré vermelha e dourada saltar do estribo e abrir a porta. Apearam-se duas jovens. Uma vestia de cor-de-rosa, a outra de amarelo-claro. Até os delicados sapatos condiziam com os bonitos vestidos. Hope não conseguiu decidir-se a seguir o seu caminho, porque as duas riam, excitadas, e receou que rissem dela, de súbito consciente de como devia parecer miserável a raparigas como elas. O seu vestido cinzento era pouco mais do que um farrapo, as botas tinham buracos nas solas e não calçava meias nem usava chapéu. De repente, a porta do n.º 1 abriu-se e uma mulher muito mais velha, com um vestido de seda cor de alfazema, saiu e quase correu pelos degraus abaixo para receber as duas jovens. Percebia-se que era a mãe, pela expressão de alegria que se lhe espelhava no rosto e pela maneira como abriu os braços para as abraçar. Hope sentiu as lágrimas subirem-lhe aos olhos ao recordar que era assim que a mãe costumava receber Nell quando ela ia a casa nas suas tardes de folga. Mas era raro ver os ricos entregarem-se a tais manifestações de afeto em público. As senhoras desapareceram no interior da casa e Hope seguiu em frente, mas aquela pequena cena de felicidade despertou recordações do dia do casamento de Nell. Via a mãe e o pai e cada um dos irmãos e irmãs, todos vestidos com as suas melhores roupas, os rostos engalanados com sorrisos. Lembrou-se de ouvir o pai fazer um brinde. Disse que acreditava que o casamento da filha mais velha era o início de uma era dourada para a família. Hope era na altura demasiado nova para entender o que ele queria dizer com aquilo. Mas agora compreendia que esperava que, um a um, os filhos e filhas fossem casando bem e que em breve houvesse netos para ele e Meg amarem. Mas os pais tinham morrido, a família desfizera-se e dispersara. E ela, a mais nova e aquela em que depositavam mais esperanças, era uma mendiga, reduzida a esfregar chãos para comer.

– Devia ter vindo na segunda-feira passada – disse Mrs. Toms, a olhar do alto do nariz empinado para Hope, que esperava de pé, nervosa, diante da porta dos criados, na cave. Mary, a servente de cozinha, fora chamar a governanta a pedido de Hope, mas assim que ela viu Mrs. Toms avançar pelo corredor com aquele ar emproado que tão bem recordava, soube que ter ido ali fora uma perda de tempo. – Os amigos com quem morava adoeceram e tive de cuidar deles – explicou. – Senti que não podia vir para cá sem ter a certeza de que não tinha apanhado a doença. Mrs. Toms recuou, de olhos muito abertos e a agitar as mãos. – Tiveram cólera? Hope sentiu o coração cair-lhe aos pés. Queria mentir, mas descobriu que não era capaz. Assentiu com a cabeça. – Vai-te embora! – Mrs. Toms esbracejava como um ganso assustado. – Como te atreves a trazer essa doença nojenta até à nossa porta? Fora, fora, e não voltes! Hope tinha a certeza de que não transportava a doença, uma vez que estava bem, mas não valia a pena tentar explicar, sabia que Mrs. Toms não a ouviria. Não havia nada a fazer senão dar meia-volta e ir-se embora. – Sua pegazinha porca, tu e os da tua laia andam a espalhar essa praga por todo o lado! – gritou


Mrs. Toms, num acesso de histeria. – Devias estar presa! Ao ouvir o insulto, Hope não conseguiu conter as lágrimas que quase a cegavam enquanto corria por Regent Street, com a trouxa das suas coisas a bater-lhe contra as pernas. Só abrandou quando chegou aos Downs, a vasta área de espaço aberto aonde costumava ir tantas vezes quando sentia a necessidade de silêncio e solidão. Deixou-se cair à sombra de uma grande árvore e tapou a cara com as mãos enquanto soluçava. Foi como se todas as injustiças que se tinham amontoado sobre ela desde o dia em que Albert a atacara na casa do guarda-portão a tivessem finalmente deitado abaixo. Imagens de todas elas atravessaram-lhe o espírito: arrastar-se debaixo de chuva para longe de Briargate, chegar a Bristol tão enfraquecida que mal sabia onde estava, acordar no dia seguinte na miséria e na imundície de Lamb Lane. Viu também as muitas vezes que lhe tinham recusado trabalho, a fome horrível que a forçara a roubar a empada de porco. Depois houve a apanha e venda de gravetos, com os pés cheios de bolhas e a pele tão gretada e esfolada que a fazia gritar de dor. Tanta humilhação, as recusas secas e as portas fechadas na sua cara. Mesmo quando conseguira trabalho ali em Clifton, fora sempre tratada com desconfiança e desdém: nunca ninguém lhe dera na verdade uma oportunidade para provar o seu valor. E então, para cúmulo, as duas únicas coisas boas da sua vida tinham-lhe sido roubadas, os seus dois queridos amigos. Porquê? Que fizera ela para merecer tão grande infelicidade? Outras raparigas teriam ido direitas daquele quarto em Lamb Lane para o n.º 5 de Royal York Crescent sem quererem saber se levavam a cólera com elas. Mas ela não o fizera, ficara sozinha e cheia de medo no bosque até ter a certeza de que estava bem. Pouco lhe importava que Mrs. Toms não a deixasse voltar a trabalhar, pois era uma mulher má, mas os seus insultos tinham-lhe roubado o que lhe restava de dignidade, e agora não tinha nada.

Bennett Meadows estava quase a chegar a casa, em Harley Place, nos Downs, quando viu uma rapariga encolhida debaixo de uma árvore. Regressava do Hospital de St. Peter, e os seus pensamentos estavam concentrados nas vítimas da cólera que acabara de tratar e na incerteza de quantas mais mortes seriam de esperar antes que a epidemia acabasse. Mais de cinquenta pessoas tinham morrido na última semana, não só em Lewins Mead mas também em Butts e Bedminster, e houvera um ou dois casos nas grandes casas de Queen’s Square. Até ao momento, não havia registo de ocorrências ali em Clifton, mas pensava-se que isso se devia à sua localização elevada, bem acima dos miasmas da área das docas. O medo mantinha as pessoas em casa. Bennett notara que as ruas estavam silenciosas; as únicas lojas que tinham um fluxo constante de clientes eram aquelas que vendiam coisas que as pessoas julgavam capazes de as proteger. Quanto a ele, não acreditava que beber copiosas quantidades de brandy, queimar ervas ou embeber lençóis em vinagre e tapar com eles portas e janelas pudesse funcionar como defesa. Mas supunha que as pessoas tinham necessidade de depositar a sua fé em qualquer coisa. A desolação que transparecia na maneira como a rapariga estava sentada, com a cabeça apoiada nos joelhos, alarmou-o. Se estava doente, teria de a levar para o hospital antes que espalhasse o contágio também por aquela área.


– Está doente, menina? – perguntou enquanto se aproximava. Tornara-se muito mais cuidadoso depois dos dois primeiros casos em Lamb Lane. Embora fosse impossível não tocar de todo nos doentes, fazia-o o menos que podia, e depois lavava sempre as mãos com sabão. – Sou médico e posso ajudá-la, se estiver. Ela ergueu a cabeça ao ouvir-lhe a voz e, para sua enorme surpresa, ele viu que era Hope, a rapariga a cuja eventual presença se mantinha atento sempre que ia à cidade. – Hope? – exclamou, incrédulo. – É a Hope, não é? Percebeu no mesmo instante que ela estava a chorar há já algum tempo. Tinha os olhos vermelhos e inchados e olhou para ele com uma expressão vazia, como se nunca o tivesse visto. – Sou o Dr. Meadows – continuou. – Fui ver os seus amigos quando eles estavam doentes. Houve uma centelha de reconhecimento. Hope limpou os olhos à orla do vestido, com gestos apressados, e até tentou sorrir. – Não o reconheci – disse, com a voz ainda embargada pelas lágrimas. – Não o vi muito bem naquela noite. – Não, suponho que não – disse ele, lembrando-se de como estivera escuro, e de que ela aproximara a vela dos doentes, não dele. – Tive muita pena por os seus amigos terem morrido. Voltei lá por volta das dez na manhã seguinte. Obrigado pela sua nota. Mas diga-me, o que se passa agora? Está doente? – Não! – Hope abanou vigorosamente a cabeça e levantou-se de um salto, a tentar alisar o cabelo com uma mão e limpar as lágrimas que corriam com a outra. – Estava só triste por causa de uma coisa que me disseram. Estou muito saudável. Pareço doente? Bennett aproximou-se um pouco mais. A cor dela era boa, os olhos estavam brilhantes apesar das lágrimas, e estava muito limpa, os seus cabelos refulgiam; na realidade, toda ela estava ainda mais encantadora do que a recordava. – Não, não parece doente, só infeliz – respondeu. – Não quer contar-me o que aconteceu?

Hope olhou para o médico alto e jovem que a olhava com interesse e perguntou-se como era possível recordar tão pouco da sua aparência física naquela noite em Lamb Lane. Tinha-o reconhecido pela voz profunda, suave e bondosa, mas achava que devia lembrar-se de que os olhos eram como veludo castanho macio, e a pele lisa e saudável como a de uma criança. Era magro, com um rosto anguloso, quase severo, e o bigode dava a sensação de não lhe pertencer, porque era escuro enquanto o cabelo era louro. Não exatamente bonito, mas tinha um rosto agradável, e uma vez que se interessara o suficiente para voltar a Lamb Lane naquele fatídico domingo, soube que devia falar com ele. – Céus, tenho a certeza de que não quer ouvir a história das minhas desgraças – exclamou, para disfarçar o embaraço de ter sido apanhada a chorar num local público. – Há de ter doentes suficientes com que se preocupar sem necessidade de estar a perder tempo comigo. – Posso sempre arranjar tempo para uma enfermeira tão boa como a Hope foi – respondeu ele, com um sorriso. A severidade do rosto dele desapareceu com aquele sorriso. A sua boca era grande e de lábios cheios, notou ela, e tinha ótimos dentes. – Eram meus amigos, tinha de cuidar deles. – Corou e baixou os olhos. – Mas diga-me, a doença


alastrou muito? Fui para o bosque e só voltei hoje, por isso não sei nada do que tem acontecido. – Infelizmente, é agora uma autêntica epidemia – respondeu Bennett, num tom grave. – Houve muitas mortes, e o número aumenta todos os dias. – Mas venha sentar-se um pouco ao pé de mim – convidou, indicando um tronco caído a cerca de seis metros dos dois. – Não me sento há muito tempo e doem-me os pés. Nunca Hope precisara mais de uma palavra bondosa e de um rosto amistoso, pelo que fez o que ele pedia. Ele falou-lhe das terríveis condições que se viviam no Hospital de St. Peter e do seu receio de que a doença alastrasse para lá das bolsas relativamente pequenas onde por enquanto estava contida. – Mas basta deste assunto – disse. – O que na verdade quero saber é o que foi que a trouxe hoje a Clifton, e o que aconteceu que a fez chorar. Hope contou-lhe, com palavras entrecortadas, o que acontecera quando se apresentara no n.º 5 de Royal York Crescent e a maldade com que Mrs. Toms a tratara. – Foi de mais para mim quando ela me insultou. E eu não o merecia, pois não? – Não, não o merecia, e muito menos depois de tudo aquilo por que passou – disse o médico, pensativo. – Mas as pessoas têm medo, Hope; e o medo impede-as de pensar seja em quem for exceto nelas próprias. É que, sabe, a cólera é uma doença tão misteriosa; chega, mata ao acaso e desaparece tão de repente como apareceu. Já ouvi chamarem-lhe a Praga do Diabo, porque dizem que leva os bons e os puros e deixa os patifes em paz. – Nesse caso, espero que seja um patife – disse Hope, e soltou uma gargalhada desprovida de humor. – O meu tio acha que sou – respondeu Bennett, a sorrir. – Horroriza-o pensar que o sobrinho a quem pagou o curso de medicina está a desafiar deliberadamente a infeção indo todos os dias ao St. Peter’s. Acha que devia usar os meus conhecimentos em pessoas com meios para me pagar. – Eu também não lhe paguei – disse Hope, e corou de embaraço. – Não lhe pedi dinheiro – respondeu Bennett. – Percebi qual era a sua situação. Mas diga-me, Hope, como foi parar a Lewins Mead? Sei, pela sua maneira de falar e pelos seus modos, que não era aquele o seu lugar. Hope contou-lhe a mesma versão censurada que tinha dado a Gussie e a Betsy quando chegou a Bristol; que tivera uma discussão com o cunhado. Muitas vezes desejara ousar contar-lhes a história toda, mas nunca o fizera; tivera demasiado medo de que a impulsiva Betsy resolvesse ir a Briargate vingá-la. – Que idade tem, Hope? – perguntou Bennett, sem fazer, estranhamente, qualquer comentário a respeito do relato. – Dezassete anos, senhor – disse ele, mas, com receio de que ele continuasse a interrogá-la, mudou de assunto. – Sabe para onde levaram os corpos dos meus amigos? Bennett sabia que tinham sido levados para uma vala comum perto do rio, nos arredores da cidade, juntamente com os de outras vítimas que tinham morrido naquele dia. Também sabia que haviam sido regados com cal viva e que não lhes fora concedida sequer a dignidade de uma oração. Mas não podia dizer-lhe uma coisa daquelas. – Julgo que foram sepultados no cemitério de St. James – mentiu. – Mas houve tantos mais doentes naquele dia que não posso ter a certeza. Ela assentiu com a cabeça, como se aquilo a satisfizesse. – Não tem medo de apanhar a doença? – perguntou, surpreendida por ele suportar ir ao St. Peter’s,


que era um hospital só de nome, um lugar horrível para onde eram mandados os loucos, os muito velhos e os órfãos. – Sim, tenho medo – admitiu ele. – Mas não poderia continuar a autointitular-me médico se recusasse tratar doentes que sofressem de qualquer doença contagiosa, pois não? – O médico não foi ver os meus pais quando eles tiveram tifo – disse Hope. – Mas o reverendo Gosling foi, e isso significou muito para mim. De repente, deu por si a contar-lhe como tinha cuidado dos pais até ao fim. – O que explica porque é tão boa enfermeira. Se tivéssemos enfermeiras assim no St. Peter’s e no General Hospital talvez não perdêssemos tantos doentes. Há algumas Irmãs da Misericórdia que são boas enfermeiras, mas o resto! Bennett encolheu os ombros e fez um gesto de impotência com as mãos. Hope conhecia o género de mulheres a que ele se referia. Quase todas velhas de aspeto imundo que não conseguiam qualquer outro género de trabalho e viam aquilo como uma alternativa ao asilo. Quase todas alcoólicas. Muitas delas roubavam os doentes. Com enfermeiras assim, não era de estranhar que poucas pessoas fossem para o hospital de boa vontade. – Tenho de ir – disse, pondo-se de pé. – Vou tentar arranjar trabalho a ajudar na ceifa. – O trabalho no campo não é para si – apressou-se ele a dizer. – Deixe-me ver, talvez consiga arranjar-lhe uma coisa melhor. – Porque o faria? – perguntou ela, surpreendida. – Com certeza não quer apresentar alguém como eu aos seus amigos finos. Ele levantou-se também e, colocando dois dedos debaixo do queixo dela, inclinou-lhe a cabeça para trás para lhe ver melhor o rosto. – Se com isso quer dizer amigos ricos ou influentes, não tenho nenhuns – disse, com um pequeno sorriso. – Mas o meu tio, que também é médico, tem muitos doentes que são ricos e que podem precisar de uma enfermeira que cuide deles. Era nesse género de pessoas que estava a pensar. – Eu, enfermeira? – Hope inclinou a cabeça para um lado, a olhar para ele de soslaio. – Não saberia o que fazer. – Mas fez tudo muito bem com os seus amigos – disse Bennett. – A enfermagem é sobretudo manter os pacientes limpos e confortáveis, fazê-los alimentarem-se como deve ser e tomarem os medicamentos a horas. Sei que pode fazê-lo, e se houver alguma coisa que exija mais conhecimentos médicos, posso ensiná-la. – Mas olhe para mim! – exclamou ela, baixando os olhos para o esfarrapado vestido cinzento. – Quem quereria alguém com este aspeto a cuidar de si? – Penso que ninguém repararia, com a sua cara bonita e voz doce – disse Bennett, com um sorriso. – Mas um vestido novo e um avental lavado talvez a façam sentir-se mais confiante. Estou certo de que a governanta do meu tio pode tratar disso. Venha comigo e falaremos com ele. – Porque quer fazer isso por mim, senhor? – perguntou ela. Sentia que podia confiar naquele homem, e até gostava dele, mas Betsy avisara-a de que os homens só estavam interessados em servirse de raparigas como ela. – Porque sei que será uma boa enfermeira. E porque acho que nós os dois temos mais em comum do que imagina. Olhou para ele com curiosidade, incapaz de acreditar que um cavalheiro como ele tivesse qualquer coisa em comum com ela.


Bennett sorriu. – A minha mãe ficou viúva quando eu era ainda criança. Não tínhamos dinheiro e ela teve de trabalhar como modista para nos alimentar a mim e ao meu irmão mais novo. O meu tio Abel era cunhado dela, e foi ele que pagou os meus estudos. Se não fosse isso, hoje não seria médico. Mas não tem sido fácil para mim. Posso não ter passado fome como a Hope, ou ter sido obrigado a viver num lugar como Lamb Lane, mas sei o que é ser o parente pobre, ter de parecer sempre muito agradecido e satisfazer os desejos do meu tio em detrimento dos meus próprios interesses ou necessidades. – Está a dizer que não queria ser médico. – Não, dessa parte gosto muito. Mas sou como um peixe fora de água na alta sociedade. Não gosto nem me identifico com muitas das pessoas com quem o meu tio quer que me dê. Há tanta hipocrisia, tanta mesquinhez de espírito e tanta ignorância. E muito pouca compaixão para com os menos afortunados do que eles. Hope assentiu com a cabeça, a pensar que gostava cada vez mais daquele estranho médico. – Parece uma versão refinada da Betsy – disse, a sorrir. – Acho que ela teria gostado de si. – Teria querido que fosse enfermeira? – perguntou ele. – Céus, não. – Hope riu. – Era um espírito demasiado livre para aprovar qualquer espécie de trabalho que envolva obedecer a ordens. Mas acharia que qualquer médico suficientemente corajoso para ir a Lewins Mead deve ter qualquer coisa de especial. E é também o que eu acho. – Vem então a casa do meu tio? – Bennett voltou-se e indicou a fila de casas elegantes voltadas para os Downs. – É já ali, em Harley Place. Hope olhou para a casa, e a esperança de que uma visita pudesse levar a qualquer coisa de que se pudesse orgulhar sobrepôs-se às suas cautelas. – Sim – respondeu. – Mas se ele me tratar mal saio logo. Nunca mais permitirei que alguém me fale como Mrs. Toms fez hoje.

– É uma coisinha bonita, tenho de admitir – disse o Dr. Cunningham, de má vontade. – Mas é orgulhosa, e isso não cairá bem junto dos meus doentes. Bennett estava com o tio na sala de estar do primeiro piso, uma bela divisão com janelas largas e elegantes, um lustre refulgente e tapetes persas excelentes, embora o efeito fosse estragado pelo excesso de mobília. Enormes cadeirões estofados e sofás competiam por espaço no meio de chiffoniers pesadamente lavrados, mesas de apoio, estantes carregadas de livros e uma vasta secretária. A sala refletia o aspeto do Dr. Cunningham, um homem de sessenta anos que parecia também estofado, baixo, barrigudo, com uma predileção por coletes floridos que muitas vezes faziam concorrência às sua faces rubicundas e às calças aos quadrados. Alice, a sofredora e paciente governanta que o adorava, tentava com frequência convencê-lo de que parecia mais um apresentador de circo do que um médico eminente, mas a explicação dele para estes gostos espalhafatosos era que, na natureza, o macho da espécie tinha sempre a plumagem ou a pelagem mais vistosa. Para Bennett, era apenas uma maneira de ostentar a sua riqueza e posição. Harley Place fora construída durante o período jorgiano, quando o tráfico de escravos florescia e os mercadores ricos queriam fugir ao barulho e à imundície de Bristol. O Dr. Cunningham herdara do pai, que fora armador, dinheiro suficiente para se instalar ali, com um consultório no piso térreo,


quando era ainda um homem novo. Mary, a sua mulher, estava bem relacionada na sociedade, de modo que praticamente assim que a placa de latão foi afixada na porta, os amigos dela acorreram ao consultório. Infelizmente, Mary morrera de parto apenas cinco anos mais tarde. O filho fora um nadomorto e o Dr. Cunningham não voltara a casar. Alice vivia na cave com as duas criadas, e embora o Dr. Cunningham nunca admitisse que eram mais do que servidoras, na realidade tinham-se tornado a sua família de substituição. Bennett pensava muitas vezes que o tio estava mais ligado a elas do que ao sobrinho e sócio minoritário. – Vai dar uma excelente enfermeira, aposto nisso tudo o que quiser – disse Bennett, perentório. Achara graça quando Hope recusara fazer mesuras ao tio: o Dr. Cunningham era um homem que, regra geral, intimidava as pessoas que o viam pela primeira vez. Mas Hope dera boa conta de si. Olhara-o nos olhos e dissera-lhe que sabia ler e escrever, e que fora treinada no serviço doméstico e sabia cozinhar e coser. Fez também um relato pormenorizado da morte dos pais e deixou claro que compreendia a necessidade de uma estrita higiene no quarto de um doente. – Se é um tal espelho de virtudes, porque é que estava a viver em Lewins Mead? – ladrara-lhe ele. Bennett percebeu que o tio suspeitava que ela era uma prostituta e esperava que Hope se fosse abaixo face àquele pergunta carregada de intenção. – Porque quando não se tem dinheiro é-se obrigado a aceitar refúgio onde no-lo oferecem – replicou ela, secamente. – Mas isso não significa que fosse obrigada a adotar os hábitos da vizinhança. Neste momento o Dr. Cunningham tocou a chamar Alice e disse-lhe que levasse Hope para baixo enquanto ele falava com o sobrinho. Pelo menos, não embaraçara ainda mais Hope ordenando a Alice que se certificasse de que ela se lavava e lhe arranjasse roupas limpas, mas Alice era uma mulher de bom coração e Bennett sabia que ela o faria mesmo assim, ainda que mais tarde a rapariga fosse mandada embora.

– Não paras de te queixar da falta de boas enfermeiras no St. Peter’s – disse o tio Abel, enquanto se voltava para se servir de um brandy. – Leva-a para lá. – Não posso pedir-lhe que corra esse risco – exclamou Bennett, horrorizado. – Tratou dos amigos e sobreviveu – disse o tio, com um encolher de ombros. – E tu também pareces ter escapado ao contágio. – Não sei se isso se deveu a pura sorte ou ao cuidado que tenho em evitar um contacto próximo com as vítimas – respondeu Bennett. – Se foi sorte, pode esgotar-se de um momento para o outro. Tinha tomado todas as precauções possíveis e imaginárias para evitar levar a doença para casa. Conservava no hospital um casaco de algodão que só usava lá, fazia questão de se manter afastado do tio e das criadas quando voltava a casa e esfregava as mãos até ficarem quase em carne viva. – Testa-lhe a coragem oferecendo-lhe o lugar – ladrou-lhe o tio. – Se ela estiver preparada para o fazer, arranjar-lhe-ei qualquer coisa melhor, mais tarde. Bennett sabia como a cabeça do tio funcionava. Não tinha o hábito da caridade e era desconfiado e de vistas estreitas. Provavelmente pensava que ele gostava da rapariga e que a proposta a faria fugir a sete pés, o que, quase de certeza, era o que desejava. Mas Bennett não acreditava que ela fugisse; a sua bondade inata ia fazê-la querer ajudar aquela pobre gente.


Semicerrou os olhos, visualizando as enfermarias imundas e sobrelotadas do St. Peter’s, que fediam ao mais horroroso sofrimento. Hope já tivera mais do que o seu quinhão de miséria, seria justo dar-lhe mais? Pedir-lhe que arriscasse a vida pela dúbia honra de mais tarde ser talvez promovida a tomar conta de uma qualquer velha ácida que não saberia dar-lhe o devido valor? Não seria melhor deixá-la ir procurar trabalho numa quinta? Talvez lá encontrasse amor e felicidade. Mas recordou a maneira orgulhosa como ela fizera frente ao tio, o rosto belo como uma manhã de primavera, e soube que tinha de arranjar uma maneira qualquer de a manter na sua vida.


CAPÍTULO 14

H

ope deteve-se na curva da escada, fascinada pela imagem refletida no espelho à sua frente. Não se lembrava de se ter voltado a ver num espelho de corpo inteiro desde que era criança e ia para Briargate brincar com Rufus. Via, claro, o seu próprio rosto todos os dias, no espelho de mão, e via-se refletida nas monstras das lojas, mas estas últimas imagens nunca eram nítidas, e além disso desviava sempre o olhar porque não queria ver como o seu aspeto era desmazelado e maltrapilho. Agora, porém, ali à sua frente estava a rapariga que durante tempo ansiara ser. Tinha o cabelo entrançado e enrolado à volta da cabeça. O vestido que Alice, a governanta, lhe tinha dado, era um vestido de criada, azul-escuro com gola e punhos brancos, e calçava uns botins engraxados. Se levantasse a orla do vestido quatro ou cinco centímetros acima dos tornozelos veria a renda do saiote de algodão e as meias pretas. Não sabia como agradecer a Alice aquela transformação que ela levara a cabo de uma maneira tão bondosa e diplomática que Hope nem sequer se sentira embaraçada. Alice disse que o vestido e os botins tinham pertencido a uma criada que se fora embora anos antes para casar e eram demasiado pequenos para servir a qualquer das outras. Era aquela pequenez o que mais a surpreendia. Nunca se apercebera de que era tão esguia. Mas, claro, o antigo vestido fora de Nell e ficava-lhe tão grande que lhe escondia as verdadeiras formas. Alice fizera um comentário a respeito da esbelteza da sua cintura e, a rir, disse que as senhoras de Clifton iam ficar cheias de ciúmes. Também dissera que ela tinha uns olhos e um cabelo muito bonitos e que compreendia porque o Dr. Meadows ficara tão preocupado com ela quando soube que tinha deixado Lewins Mead. Era maravilhoso sentir-se outra vez respeitável, mas saber que causara uma impressão suficientemente forte no médico para que ele se preocupasse com ela punha-lhe um agradável calor no peito. Nem sequer estava com medo de ter de voltar à sala de estar e ficar a saber o que o Dr. Cunningham decidira a respeito de lhe dar trabalho como enfermeira. O banho de água quente, as unhas cortadas e esfregadas e a roupa nova faziam-na sentir-se capaz de lidar com qualquer coisa que ele tivesse para lhe dizer. Alice disse-lhe que ele ladrava mais do que mordia, e que isso era por ter perdido a mulher e um filho tão cedo. Acrescentou que a melhor maneira de lidar com a rudeza do velho médico era responder-lhe no mesmo tom. «Ele gosta de luta», foi como a governanta se expressou. Pois bem, sentia-se pronta para lutar. Não tinha muita certeza a respeito daquilo de ser enfermeira, mas lavar e dar de comer a velhotas era de certo melhor do que trabalhar no campo, vender flores ou apanhar gravetos. Estava em dívida para com o Dr. Meadows por lhe ter dado uma oportunidade.


Não fazia tenção de o deixar ficar mal. Continuou a subir a escada, mas ao aproximar-se da porta da sala de estar ouviu vozes a falar alto e perguntou-se se estariam a discutir por causa dela. Mas bateu de qualquer modo, e passado menos de um segundo o Dr. Meadows abriu-lha. – Entre, Hope. A Alice fez-lhe justiça – disse, sorrindo apreciativamente ao aspeto dela. Mesmo assim, Hope teve a sensação de que a cor que lhe avivava as faces era de fúria por qualquer coisa que o tio tinha dito. O Dr. Cunningham estava de pé de costas voltadas para a lareira. Olhou para ela com uma expressão azeda e não fez qualquer comentário a respeito da mudança. – Acha então que será uma boa enfermeira, é isso? – perguntou, num tom seco. Aquilo soou-lhe a sarcasmo, e Hope ficou sem saber muito bem como responder. – Não tenho a certeza, senhor – disse, entrelaçando as mãos à frente do corpo. – Mas tentarei. – Provar o seu valor, é o que quer dizer? – resmoneou ele. – Sim, senhor. Hope olhou para o médico mais jovem, e reparou que estava claramente nervoso. – Nesse caso vou colocá-la num sítio onde o seu caráter e habilidade serão postos à prova. Esta tarde o meu sobrinho vai voltar ao Hospital de St. Peter, a menina acompanhá-lo-á e ele irá entregála aos cuidados da enfermeira-chefe. Como tenho a certeza de que o Dr. Meadows já lhe disse, têm uma enorme necessidade de enfermeiras. Hope sentiu o coração cair-lhe aos pés. Se o Dr. Cunningham tivesse dito que ia mandá-la para o hospital geral perto de Bedminster Bridge, teria ficado assustada mas não horrorizada, porque o edifício fora construído há pouco tempo e era, ao que se dizia, um bom hospital. Mas St. Peter’s era encarado com o mesmo pavor que a forca. Era um facto bem conhecido que a maior parte dos que lá entravam saía num caixão, e abundavam os relatos a respeito da brutalidade e da esqualidez da vida entre as suas paredes. Preparava-se para responder que mais depressa voltaria para os bosques e viveria lá quando reparou na expressão matreira dos olhos do velho médico. Percebeu no mesmo instante o que ele queria dizer com pô-la à prova. Esperava que ela recusasse, o que lhe daria uma desculpa para a mandar sair da sua casa e da vida do sobrinho. – Não posso dizer que fico grata por tal lugar – disse, com toda a dignidade que conseguiu reunir. – Mas como sei que deseja testar-me, irei e provarei que tenho alguma habilidade. – Não é obrigada a fazê-lo – disse o Dr. Meadows, a atropelar as palavras, e quando olhou para ele Hope viu o horror espelhado no seu rosto. – St. Peter’s é um buraco infernal; não há outras palavras para o descrever. E com esta epidemia de cólera, vai correr um risco terrível. – Bennett! – exclamou o Dr. Cunningham, num tom carregado de reprovação. – Não permito que faças comentários desse teor a respeito do nosso hospital; a comissão de saúde gastou muito dinheiro a melhorar as condições nestes últimos anos. – O tio não põe lá os pés desde os motins de há dezoito anos – replicou Bennett. – Se pusesse, saberia que o dinheiro destinado às obras foi desviado por vereadores gananciosos para os seus próprios projetos. Se eu pudesse pedir a satisfação de um desejo, seria que o povo de Bristol voltasse a amotinar-se e destruísse St. Peter’s como destruiu a prisão da última vez. – Eras uma criança na altura dos motins. O que ouviste dizer foi muito distorcido – protestou o Dr. Cunningham.


– Vivia aqui – respondeu-lhe Bennett, numa voz gelada. – Lembro-me de o ver voltar a casa coberto de sangue depois de tratar os ferimentos dos que tinham sido retalhados pelos sabres da cavalaria. Vi-o chorar por causa da carnificina e das terríveis condições do hospital. Se o que ouvi foi distorcido, ouvi-o de si! – Basta! – O velho médico ergueu uma mão para silenciar o sobrinho. – Nada disso é relevante. Trouxeste esta jovem aqui a casa por estares convencido de que ela pode ser enfermeira. Os desgraçados que estão no hospital precisam muito mais de uma boa enfermeira do que uma viúva rica com gota. Eu digo que ela deve ir para onde faz falta. Hope compreendeu no mesmo instante como eram as coisas entre os dois homens. Era possível que Cunningham tivesse, em tempos, sido tão compassivo e dedicado como o sobrinho, mas os anos, e talvez a riqueza, tinham-no mudado. No entanto, aquilo que dizia fazia sentido, mesmo que fosse hipócrita da sua parte mandá-la para um sítio onde ele próprio nunca poria os pés. Sabia que despejar o bacio de uma velha rica e possivelmente insuportável não lhe daria qualquer espécie de satisfação nem lhe ensinaria nada de novo. Mas sentia uma afinidade com os pobres, e se pudesse oferecer-lhes um pouco de conforto na suas últimas horas, ao menos valeria a pena. – Serei enfermeira no St. Peter’s – disse, erguendo o queixo num gesto de desafio enquanto olhava bem de frente para o Dr. Cunningham. – E hei de tornar-me a melhor enfermeira de todo o hospital, vai ver. Mas não pense que vou porque me manda. Vou porque quero! – Rapariguinha descarada! – respondeu ele, mas o seu tom foi muito mais suave, quase divertido. – Agora desapareça lá para baixo, o meu sobrinho precisa de descansar antes de lá voltar esta noite, e quanto a si tem todo o ar de quem está a precisar de uma refeição decente.

Nessa noite, da segurança da carruagem do Dr. Cunningham, Hope contemplou o Hospital de St. Peter com alguma apreensão enquanto o Dr. Meadows entrava para falar com a enfermeira-chefe. No escuro, pouco mais via do que a porta principal, iluminada por dois candeeiros, mas já o tinha visto muitas vezes à luz do dia e sabia que a beleza exterior escondia o inferno do que acontecia lá dentro. Era um belo edifício antigo, um dos mais ornamentados de Bristol, e Hope sentira curiosidade suficiente pelo que tinha sido no passado para indagar um pouco da sua história. A família Norton tinha mandado construir a mansão, com estrutura de madeira, em 1600, para substituir a antiga, e mandara-a decorar com modilhões e empenas de madeira lavrada e obras de estuque. Na altura, a sua localização, fronteira à igreja de St. Peter e com as traseiras voltadas para o cais flutuante perto de Bristol Bridge, devia ser muito agradável, mas Hope suspeitava que os North se tinham mudado para outro local quando o rio se transformara num esgoto a céu aberto. No fim da século xvii, albergara durante algum tempo a Casa da Moeda, mas mais tarde foi comprada pela Bristol Incorporation of the Poor para servir de asilo. Betsy nunca gostara de passar perto do velho casarão por ter medo dos lunáticos que lá estavam encerrados. Além disso, afirmava, estava assombrado. Hope achava que, nesse aspeto, a amiga era bem capaz de ter razão, porque durante a epidemia de cólera de 32 ficara sobrelotado e tinham lá morrido centenas de pessoas. Pelo que Bennett lhe dissera, não podia esperar que as condições fossem agora muito melhores. Se havia uma coisa em que praticamente toda a gente em Bristol estava de acordo no respeitante ao


St. Peter’s era que significava o fim da linha para quem tivesse a infelicidade de ser para lá levado. Era tentador fugir naquele momento, enquanto ainda podia, mas a sua costela obstinada não lhe permitia dar ao Dr. Cunningham a alegria de ouvir dizer que ela se escapulira e desaparecera na noite como um ladrão.

Meia hora mais tarde, porém, sozinha com a Irmã Martha, a enfermeira-chefe, Hope levou a mão à boca para abafar uma involuntária exclamação de horror quando a porta da enfermaria da cólera foi aberta e viu o lugar onde começaria a trabalhar às seis horas da manhã seguinte. O seu primeiro pensamento foi que aquilo era o inferno na Terra. Cerca de trinta homens, mulheres e crianças estavam apinhados numa sala húmida e fétida onde mal caberia em condições normais metade desse número. Não havia camas; jaziam estendidos em montes de palha sujos de vomitado e excrementos ou sentavam-se encolhidos contra as paredes. À escassa luz de duas lanternas, ver os olhos cheios de dor que se voltavam para ela era como vislumbrar as almas perdidas de que o reverendo Gosling costumava falar nos seus sermões de fogo e maldição. O som dos soluços, dos gemidos e dos queixosos pedidos de ajuda dilacerou o coração de Hope. – É muito pouco o que podemos fazer por estas pobres almas – disse a Irmã Martha, agarrando o grande crucifixo de madeira que trazia suspenso da cintura do hábito como se ele pudesse protegê-la. – Desde que a praga começou, nenhum dos que para cá trouxeram recuperou. Muitos destes estarão mortos de manhã. Apressou-se a arrastar Hope para longe daquele lugar, depois de fechar à chave a porta da enfermaria. Explicou que aquilo era necessário porque alguns dos doentes ficavam tão dementes que tentavam fugir. Também fez notar que o novo hospital em Guinea Street recusara aceitar quaisquer casos de cólera. Hope tinha visto duas velhas bruxas a arrastar os pés por entre os doentes, a oferecer água. Mas teve a sensação de que mal a porta voltasse a fechar-se iriam refugiar-se na pequena sala contígua onde, segundo a Irmã Martha, estavam o fogão e o lavatório, e tirariam a garrafa de gin do buraco onde a escondiam. A Irmã Martha era uma irlandesa robusta, de meia-idade, com um sinal de nascença vermelho-vivo num dos lados do rosto. Fora talvez aquela marca que a levara a juntar-se às Irmãs da Misericórdia e a razão por que tinha tanta compaixão para com os outros, mas Hope achava que devia ser mais firme em relação aos que supostamente deviam cuidar dos doentes, pois era evidente que estavam a fazer muito pouco. – As condições que aqui temos fazem-me desesperar – admitiu a Irmã Martha, no seu cerrado sotaque irlandês. – As enfermeiras estão quase sempre bêbedas e muitas vezes roubam o láudano destinado aos doentes. Os serventes deviam manter a enfermaria limpa, mas são todos débeis de espírito ou ex-presos, e têm muito medo de ser contagiados. – Que comida dão aos doentes? – perguntou Hope. A Irmã Martha deixou escapar um fundo suspiro. – Mandam-nos uma papa aguada da cozinha, mas se estiverem demasiado fracos para se alimentarem sozinhos, nem sempre comem seja o que for.


O imponente vestíbulo de paredes apaineladas a carvalho e a escadaria que nele começava dava uma boa ideia de como a mansão devia ter sido magnífica quando era a morada de uma família. Aquela parte, ao menos, estava razoavelmente limpa, apesar de cheirar mal, e os soalhos estavam desgastados pelos milhares de pesadas botas que deviam tê-los pisado ao longo de séculos. A Irmã Martha agitou uma mão na direção de umas grandes portas fechadas no extremo oposto do vestíbulo e explicou que os velhos, os pobres e os órfãos estavam alojados naquela parte do edifício, que também albergava a cozinha. Estava muito escuro, sendo a única luz um candeeiro a óleo suspenso do teto por uma corrente comprida, mas a Irmã Martha pegou numa das várias candeias mais pequenas alinhadas numa prateleira, acendeu-a e começou a subir a escadaria, dizendo a Hope que a seguisse. Ia mostrar-lhe onde poderia dormir. Mantinha uma tagarelice ofegante enquanto subia à frente, mas muito do que ela dizia a respeito das enfermarias de cirurgia e de maternidade escapava à compreensão de Hope. No primeiro patamar, apontou para uma porta fechada e explicou que era ali que estavam os loucos. Mas acrescentou, talvez sentindo o receio de Hope, que não tivesse medo, pois estavam sempre trancados à chave e eram os serventes que cuidavam deles. Hope achou o edifício surpreendentemente silencioso, considerando que tinha de haver dezenas, senão centenas de pessoas ali dentro. Havia o som de sapatos pesados em soalhos de madeira nua, uma ou outra voz mais alta, o choro de uma criança e alguns débeis soluços, mas nada da balbúrdia que esperara. Perguntou-se se isto seria porque administravam láudano a quem causasse problemas. Também se interrogou por que razão não tinha visto nenhum membro do pessoal além da Irmã Martha e as duas velhas na enfermaria da cólera. Eram oito e meia, demasiado cedo para toda a gente ter já ido para a cama. Quando se aproximavam do último piso, a irmã falou do Dr. Meadows. – É um santo – disse, num tom de adoração. – Compadece-se de toda a gente. Ainda esta manhã me disse: «Irmã Martha, tem de descansar, ou ainda se torna uma das minhas doentes.» Mas claro que, como prima dele, deve saber disto, minha querida. Hope ia dizer que estava enganada, mas a Irmã Martha não lhe deu tempo. – O doutor disse-me que já teve alguma experiência com casos de cólera. É óbvio que se orgulha muito dos seus dotes de enfermeira. E a Hope deve ter um coração de leão para querer ajudar-nos aqui. Hope compreendeu então porque fora o médico falar a sós com a Irmã Martha. Devia ter pensado que dizendo que ela era sua parente lhe tornaria a vida mais fácil. – Tenho o coração de um ratinho – respondeu, e sentiu que ao menos isso era verdade, porque não se sentia com coragem para desmentir o que o Dr. Meadows dissera quando a intenção da mentira fora tão generosa. – Espero sentir-me mais corajosa de manhã. Foi talvez também por causa do Dr. Meadows que lhe deram um quarto só para si. Era um quarto pequeno como uma cela, por baixo do beiral, com espaço para pouco mais do que a estreita cama de campanha que quase o enchia, mas ela, que esperava condições semelhantes às dos doentes, sentiu-se muito mais animada. Havia lençóis na cama e uma porta que podia ser trancada por dentro. O calor do dia ficara ali retido, mesmo à débil luz da candeia viu que as paredes estavam sujas e pensou que talvez houvesse bichos na enxerga, mas depois de Lamb Lane e do abrigo improvisado no bosque,


parecia-lhe um palácio. A Irmã Martha deu-lhe um uniforme antes de se despedir: um vestido castanho áspero e informe, dois aventais brancos e duas toucas. Enquanto os passos vigorosos da Irmã Martha se afastavam escada abaixo, Hope sentou-se na sua nova cama, sentindo-se de repente muito sozinha e insegura. Todo o hospital era assustador; o silêncio tão pouco natural, as inúmeras portas fechadas, a ausência de pessoas e até a tremenda idade do edifício. Estava muito consciente de que ia ser obrigada a lidar com visões horríveis e com um sofrimento superior a tudo o que alguma vez experimentara. Duvidava que houvesse ali mais alguém que pudesse tornar-se um amigo, e o trabalho seria esgotante. Mas com a porta fechada a ferrolho e o arco de luz dourada da candeia a tornar o quarto quase acolhedor, recordou a si mesma que fora uma sorte extraordinária ter encontrado o Dr. Meadows naquele dia. Ele entregara-lhe um saco de algodão quando a deixara com a Irmã Martha, dizendo que Alice lhe pedira que lho desse quando chegassem ao hospital. – Hão de ser alguns mimos – acrescentara, com um sorriso. – Pediu-me para lhe dizer que guardou as suas outras coisas em lugar seguro, para quando precisar delas, e que lhe deseja sorte e espera voltar a vê-la em breve. Hope quisera abri-lo de imediato, mas a Irmã Martha levara-a consigo antes que pudesse sequer despedir-se como devia ser do médico, quanto mais examinar o conteúdo do saco. Mas estava contente por poder ter agora esse prazer, porque a distraía da ideia do que a esperava na manhã seguinte. A primeira coisa que tirou do saco foi um xale aos quadrados azuis, e o cuidado de Alice humedeceu-lhe os olhos, pois não tinha nada para usar quando o tempo mais frio chegasse. Seguiu-se uma camisa de dormir de flanela, um saiote e um par de meias. Havia uma escova de cabelo, um pente novo, uma toalha e um caixa com ganchos de cabelo. Mesmo no fundo, encontrou uma caixa de folha cheia de biscoitos caseiros, duas velas e uma palmatória de esmalte. Nesse momento, foi incapaz de conter as lágrimas. Gostara da roliça mulher de ar maternal à primeira vista, e sentira-se muito à vontade com ela na cozinha, mas aquelas dádivas encantadoras e práticas sugeriam que também Alice simpatizara com ela. Fora um dia muito longo e cansativo, mas Hope sentia sem a mais pequena sombra de dúvida que a sua sorte mudara. Tinha trabalho, um sítio para viver e pessoas que gostavam dela. Embora pudesse ser verdade que ia fazer um trabalho que mais ninguém queria, e que podia até matá-la, ao menos agora tinha uma maneira de recuperar a autoestima. O dia seguinte seria um novo começo para ela, e talvez a seu tempo pudesse até pensar em voltar a contactar Nell e o resto da família mais uma vez.

Ao meio-dia do dia seguinte Hope já não achava que aquele trabalho era um novo começo e sim que representava vários passos para trás. Quando se apresentou ao serviço, às seis da manhã, tinham morrido quatro pessoas durante a noite, uma delas um rapazinho de seis anos. Viu, cheia de abjeto horror, dois serventes despojarem os corpos da pouca roupa que tinham vestida e em seguida, pegando nos cadáveres nus como se fossem peças de carne, levarem-nos pelo corredor até um pátio e atirarem-nos para a carroça aberta. Foi-lhe dito que iam ser levados para a Fossa.


Não apareceu ninguém para lhe dar instruções. As duas velhas bruxas que vira na noite anterior saíram quando ela chegou e foram substituídas por outras duas mulheres igualmente velhas e imundas que se apresentaram como Sal e Moll. Sal era muito pequena, sem um único dente, o que dava a impressão de que a cara estava a ser chupada para dentro. Moll era muito maior e tinha um nariz bulboso avermelhado e cabelo grisalho que fugia de baixo da touca tão emaranhado que parecia meadas de lã para remendar. Eram amistosas, mas totalmente indiferentes às necessidades dos doentes da enfermaria. Quando Hope lhes pediu para limparem os espaços onde os mortos tinham jazido, riram à gargalhada. – Não nos preocupamos co’isso – replicou Moll. – A carroça volta com mais não tarda uma hora. Não vale a pena limpar um sítio onde outro vai cagar. Anda pra sala das traseiras connosco e bebemos uma chávena de chá. Hope queria muito uma chávena de chá, e a divisão a que elas chamavam «sala das traseiras» era bem mais convidativa do que a enfermaria, com um fogão, lavatório, mesa e cadeiras e uma janela que se abria. Mas não podia sentar-se a beber chá sabendo que em breve iam chegar mais doentes. Num rápido reconhecimento ao pátio onde a carroça dos mortos entrava, no fim do corredor, descobriu que havia palha limpa debaixo de um alpendre. Havia também um braseiro onde estavam as roupas dos que tinham sido levados pouco antes e que iam obviamente ser queimadas. Levando consigo uma grande caixa vazia, apanhou toda a palha suja, levou-a para fora e despejou-a, após o que esfregou toda a área com sabão. Depois de ter feito camas com palha limpa, dirigiu-se à «sala das traseiras». Apesar do calor, Sal e Moll estavam encolhidas junto ao fogão, e o cheiro que emanava delas era quase tão mau como o que enchia a enfermaria. No tempo que passara em Lewins Mead, conhecera muitas mulheres como elas, preguiçosas, sujas, sem escrúpulos e sem moral. Mulheres capazes de roubar um cego. Sabia, porém, que se as desafiasse fosse de que maneira fosse, só conseguiria arranjar problemas, pelo que resolveu tentar apelar a algum resto de decência que houvesse nelas. – Limpei tudo e pus palha fresca – disse, enquanto lavava as mãos. – Damos agora o chá aos doentes? – Chá! – exclamou Moll. – Só lhes damos água, e podem esperar por ela até tarmos prontas. Hope tinha visto o balde de madeira no pátio e ficou horrorizada ao perceber que o púcaro de folha pendurado da pega por um cordel era usado por todos. – Vá lá, querida, bebe uma chávena de chá – disse Moll. – Eu sei que queres fazer boa figura no teu primeiro dia, mas aqueles que ali estão não vão pra parte nenhuma a não ser prá Fossa. Não vale a pena tares a cansar-te por nada. Hope engoliu uma resposta dura, lavou com muito cuidado uma chávena e serviu-se de um pouco do chá que elas tinham feito. – Pensei que talvez pudéssemos mudar alguns dos doentes para a palha limpa e lavar o chão onde eles estiveram – disse, hesitante. – Pensaste o quê? – exclamou Moll. – Não lhes tocamos a não ser para lhes dar água e tentar fazêlos comer um pouco de papa quando a trazem. Aquilo, descobriu Hope, era toda a enfermagem que se fazia na enfermaria da cólera. Até a Irmã Martha, quando apareceu mais tarde, se limitou a ficar à porta agarrada ao crucifixo, sem conselhos práticos ou instruções para dar. Ao que parecia, os doentes nunca eram lavados, não havia


cataplasmas para lhes aliviar as dores, nem mantas para os tapar quando tiritavam de febre, ninguém para lhes massajar os membros quando tinham cãibras. Apesar de ver pela cor azulada e pela apatia dos doentes que já estavam provavelmente numa fase demasiado avançada da doença para poderem ser salvos, sentia que tinha ao menos de tentar melhorar um pouco as condições e tornar a enfermaria menos imunda. Por isso, um a um, rolou ou puxou os pacientes para cima de palha limpa, lavou-lhes a cara e as mãos e esfregou com sabão o sítio onde tinham estado. – És maluca – disse Moll, encostada ao umbral da porta a ver, incrédula, Hope esfregar o chão. – Vais apanhá-la, a mexer neles dessa maneira. Como se esperava, a carroça chegou pouco depois: trazia três mulheres. Estavam as três na fase final, com os rostos azulados e muita dificuldade em respirar. Hope tentou dar-lhes de beber, mas pareciam incapazes de engolir e a água escorria-lhes pelos cantos da boca. Viu uma ratazana olhar para ela com olhos maldosos enquanto as tapava com mantas e pensou que era uma sorte para aquelas mulheres não terem consciência de onde estavam.

Hope estava ajoelhada ao lado de um doente, a massajar-lhe as pernas numa tentativa de lhe aliviar as violentas cãibras, quando o Dr. Meadows chegou. Não ouviu a porta abrir-se porque o doente, um homem ruivo e corpulento, abanava a cabeça de um lado para o outro e rugia de dor. O médico foi direito a ela para a substituir na massagem. – Tire o láudano da minha maleta e deite algumas gotas em água quente – ordenou. Hope obedeceu, voltando a correr para dar a água ao homem. Ao principio, ele cerrou os dentes, a recusá-la, mas ela acariciou-lhe a face e implorou-lhe que bebesse. O homem pareceu ouvi-la e fez o que ela pedia, e minutos depois estava sossegado. – Obrigado – rouquejou. – Diz à minha mulher que beije os nossos filhos e lhes diga adeus por mim? – Vai poder beijá-los em breve – respondeu ela. – Agora durma. Quando acabou de examinar os outros doentes, o Dr. Meadows pediu-lhe que fosse com ele até ao pátio. Depois da escuridão da enfermaria, a luz do sol foi tão brilhante que a cegou. Mas era bom voltar a respirar ar fresco. – Estava à espera que já tivesse dado meia-volta e fugido – disse ele, num tom meio irónico. – Estive tentada – respondeu Hope, e lançou-se numa desanimada descrição do que tinha sido a sua primeira manhã de trabalho. – Não posso acreditar que ninguém faça nada pelos doentes. O Dr. Meadows deixou escapar um suspiro. – Sei exatamente o que deve sentir, Hope. Eu faço o que posso quando cá venho, mas não é nem de longe o suficiente. A verdade é que os doentes são trazidos para aqui para morrer; não estamos a combater a doença de maneira nenhuma. «Mas não há nenhum medicamento capaz de lhes salvar a vida. Não posso sequer afirmar que pôr os doentes em camas limpas, lavá-los ou embrulhá-los em mais mantas faça qualquer diferença em termos de resultado final. Na última epidemia ficou bem evidente que está nas mãos de Deus recuperarem ou não. Não tem nada a ver com cuidados de enfermagem.» – Mas é desumano não lhes tornar as últimas horas um pouco mais confortáveis e não lhes dar


alguma dignidade – respondeu Hope, veemente. Estava cheia de calor e suada, e também com fome, uma vez que a tigela de papas de aveia que lhe tinham dado como pequeno-almoço às seis da manhã era agora uma recordação distante. – Além disso, aquelas mulheres são pagas para fazer um trabalho, e se não o fazem deviam ser mandadas embora. O Dr. Meadows passou os dedos pelo cabelo, num gesto cansado. – Aquelas duas vivem aqui, na parte do hospital que é asilo. Tal como as duas de ontem à noite – disse, com uma nota de censura na voz. – Não escolheram tratar dos doentes, foi-lhes ordenado que o fizessem, e a única recompensa que recebem é uma ração de cerveja ou gin. Poderá censurá-las por não se mostrarem muito entusiasmadas? Hope sentiu-se envergonhada, pois tinham-lhe prometido quatro xelins por semana, além de cama e comida. – Não, suponho que não. – Do que precisamos é de uma maneira de chamar para a enfermagem o género certo de mulheres e então treiná-las como deve ser – disse ele, desanimado. – De momento, temos ou religiosas ou pedintes, nada no meio. Mas com salários baixos, condições abjetas e o risco de contágio, o que é que pode atrair as mulheres certas? Olhe para si! Se não tivesse sido praticamente obrigada, estaria aqui? – Não me obrigou – disse Hope. – Foi muito bondoso para mim, senhor, sobretudo ao dizer que sou sua prima! Penso que foi por isso que me puseram sozinha num quarto. E a Alice também foi muito generosa. Agradece-lhe pelas coisas que me mandou? É muito importante para mim. – A Alice gostou muito de si, e aquelas pequenas prendas foram a sua maneira de lho dizer – respondeu ele. – E não me esquecerei de transmitir a sua mensagem. Mas o meu nome é Bennett. Os primos não podem estar com formalidades. Hope corou, porque ele tinha uma maneira de a olhar que a fazia sentir-se muito estranha. – Já almoçou? – perguntou ele. Ela abanou a cabeça. – Pensei que a Irmã Martha viria dizer-me qualquer coisa. – Tem estado a ajudar na amputação de uma perna – explicou Bennett. – Esteve a cortar uma perna a alguém? – perguntou Hope, com uma careta. – Eu não, o cirurgião, mas eu administrei o clorofórmio. O pobre homem deve recuperar, mas não sei como vai alimentar a família. Não vai poder trabalhar só com uma perna. Bennett levou-a para a sala junto à cozinha onde Hope tomara o pequeno-almoço naquela manhã. Havia seis pessoas a comer, dois homens de aspeto rude que deviam ser serventes, uma freira muito velha que Bennett lhe apresentou como Irmã Clare, e três enfermeiras que pareciam apenas um pouco mais limpas e novas do que Sal e Moll e que olharam para ela com expressões duras. Deram-lhe uma grande tigela de uma sopa gordurosa cinzento-azulada e um pedaço de pão. Bennett não quis nada, mas fez-lhe companhia enquanto ela comia. – Como é? – perguntou. – Não tão má como parece – respondeu ela, com um esgar. Bennett sorriu. – É sempre assim tão estoica? Ela encolheu os ombros. – No que toca a comida, sou. Sei o que é passar fome.


– Hoje viu o pior de St. Peter’s – disse Bennett, com alguma veemência. – Mas a enfermaria da cólera não é representativa de todo o hospital. O Dr. Peebles, o cirurgião, é em excelente médico, e a taxa de êxito na maternidade é muito boa. Mas o edifício é velho e não está adequado às necessidades de um hospital. – Nesse caso porque é que continuam a usá-lo? – perguntou ela. – Não é bom trazer pessoas com doenças contagiosas para um sítio onde há órfãos, velhos e loucos. – Quando o novo General Hospital foi construído, a intenção era que todos os doentes fossem para lá – disse ele, com um encolher de ombros. – Mas não chega para fazer face a uma epidemia como esta. E St. Peter’s não é bem um asilo, é mais aquilo a que se poderia chamar um refúgio. – Pensava que refúgio significava lugar seguro – observou Hope, com um toque de sarcasmo. Bennett esboçou um meio sorriso. – É melhor não me pôr a falar desse assunto – disse. – É um tema em que tenho tendência para me alongar. – Conte-me – insistiu ela. – Bem, nos velhos tempos, até pouco antes de a Hope ter nascido, a maior parte dos desafortunados, os pobres e os velhos, doentes ou não, tinham aquilo a que se chamava ajuda externa. Ficavam em casa e recebiam dinheiro da paróquia para se sustentarem. St. Peter’s e outros lugares semelhantes eram para aqueles que não tinham casa ou estavam demasiado doentes, ou eram demasiado velhos para cuidarem de si mesmos. No geral, eram lugares decentes, e St. Peter’s era um dos melhores. «Mas o governo queria pôr os contribuintes do seu lado poupando dinheiro, e por isso fizeram a Lei dos Pobres. Deixou de haver ajuda externa, porque diziam que encorajava a ociosidade, e em vez disso foram construídos centenas de asilos por todo o país, lugares horríveis, semelhantes a prisões, sem qualquer conforto, capazes de fazer desistir todos exceto os mais desesperados.» Hope assentiu com a cabeça. – Os meus pais sempre tiveram pavor de acabar num – disse. – São pessoas como os seus pais que mais sofreram com a nova Lei dos Pobres. – Bennett soltou um fundo suspiro. – Imagine que o seu pai ficava sem trabalho algumas semanas, Hope, ou que adoecia. Com a lei antiga, podia contar com a ajuda da paróquia para alimentar a família até que recuperasse a saúde, ou voltasse ao trabalho. Os velhos podiam ficar nas suas aldeias, ajudados na doença pelos vizinhos e pela família. Mas de repente tudo isso foi varrido; não seria distribuído nem mais um penny. «Depois de estes infelizes gastarem todas as suas poupanças, venderem tudo o que têm e estarem a morrer de fome, são obrigados a deixar as suas casas e ir para um asilo.» Bennett interrompeu a sua apaixonada exposição e sorriu, embaraçado. – Oh, não era minha intenção entrar nos pormenores de toda esta iniquidade! O que queria na realidade fazer notar é que os administradores do St. Peter’s tentaram mantê-lo como sempre foi: uma casa para aqueles que não têm outro sítio para onde ir. Continua a dar abrigo a idosos, a débeis mentais, a órfãos, a mães que não podem ter os filhos em casa, e aos doentes. Aqui não vigora o regime bárbaro dos asilos da Union; aqui nunca ninguém teve de desfiar estopa para calafetar barcos ou partir pedra para a construção civil. Mas, como quase todas as obras de beneficência, tem as suas falhas. Em caso de emergência recebem toda a gente, e neste momento temos demasiados doentes. Sem instalações nem pessoal para cuidar deles.


Hope notou que ele estava a corar, claramente embaraçado por ter tentado defender St. Peter’s. – O senhor é uma espécie de raridade – disse, descarada. – Pensava que os ricos não queriam saber de nada nem de ninguém exceto eles próprios. Bennett pareceu espantado. – Vê-me como um «rico»? – Bem, é o que é. – Não, não sou. Como lhe disse ontem, sem a ajuda do meu tio quando o meu pai morreu, o mais certo era ter entrado também para o serviço doméstico. Mas voltando ao St. Peter’s e à crise que aqui temos, se não fossem as Irmãs da Misericórdia, que felizmente parecem acreditar que Deus lhes deu instruções pessoais para continuarem aqui, não sei o que faríamos. Hope sorriu. – Isso dá a ideia de que não acredita em Deus. – Acreditarei se Ele resolver pôr fim a esta epidemia – disse ele, a rir. – Ou me der uma palmadinha no ombro e me disser como começa. Tenho tido muitas discussões com a Mary Carpenter a respeito da questão da fé. Ela diz que eu devia envergonhar-me por não a ter. E a Hope, é uma crente ou uma cética como eu? – Depende. – Hope sorriu. – Quando andava a vender lenha, rezava uma pequena oração de cada vez que me aproximava de uma porta. Acreditava se me compravam alguma coisa, duvidava se não compravam. A Betsy costumava dizer que o gin funciona melhor do que a religião. Um copo e todos os nossos problemas desaparecem. Observou-lhe o rosto, à espera de uma expressão de alarme a que logo se seguiria um pequeno sermão a respeito dos malefícios da bebida. Mas ele limitou-se a sorrir. – Tenho de voltar para a enfermaria – disse ela. – E o... Bennett tem doentes para ver. – Sim, tenho – concordou ele –, muitos. Cuide de si, Hope. Não desespere, está bem?

Ao longo das duas semanas seguintes, Hope pensou muitas vezes no pedido de Bennett, porque era difícil não desesperar rodeada como estava de sofrimento. Todos os dias morriam doentes, e mal eram levados para serem enterrados chegavam outros para os substituir. Muitas vezes ninguém sabia os nomes destas novas vítimas, e Hope achava que, de todas as partidas da sorte, a mais cruel era morrer sem uma identidade. Sal e Moll pareciam ter um prazer quase diabólico em relatar o pânico que se apoderara da cidade, e como as pessoas fugiam aos magotes, os ricos nas suas carruagens e os pobres a pé, para dormirem nos campos em vez de apanharem a doença. Diziam que à noite as ruas estavam desertas, e que muitos navios recusavam aportar ao cais de Bristol por causa da epidemia. Diziam, e com razão, que quando chegasse o tempo frio e chuvoso haveria centenas de pobres e desesperados a procurar abrigo e comida nos asilos. Teriam demasiado medo de voltar aos bairros degradados de onde tinham fugido e não teriam dinheiro para ir para qualquer outro lugar. Mas o tempo quente continuava, implacável, e o fedor vindo do rio nas traseiras do hospital era insuportável. Cada vez mais, Hope dava por si a devanear a respeito de fugir para a frescura de Lord’s Wood. Recordava o cheiro limpo da terra húmida, a maneira como a luz do sol se coava por entre o dossel da ramaria, e a paz absoluta; queria tanto estar lá que até doía. Quando, à noite, se retirava para o seu pequeno quarto enterrava o nariz no pequeno ramo de


alfazema ou rosmaninho comprado à garotinha que costumava estar junto à porta do hospital e pensava no jardim da sua infância. Queria poder ver os irmãos e as irmãs, ser outra vez uma criança e sentir o calor do amor deles. Não era justo, com apenas dezassete anos, estar trancada naquela casa de mortos. Era Bennett que a impedia de fugir. Por muito duro e repelente que o seu trabalho tantas vezes fosse, ele estava a contar com ela e ela não podia desiludi-lo. Graças a ele, podia agora dispor de alguns medicamentos. Quando chegavam novos pacientes que estavam ainda na fase inicial da doença, dava-lhes colheres de xarope de ruibarbo a intervalos regulares, punha-lhes cataplasmas de mostarda no ventre, dava-lhes chá de gengibre ou de canela e tapava-os com mais mantas para os manter aquecidos. Seis destes doentes não caíram na segunda fase, e isto deu-lhe uma enorme alegria, mas não tinha meio de saber se era o resultado dos seus cuidados ou apenas a vontade de Deus. Em todo o caso, determinada a que recuperassem e a desafiar a lenda segundo a qual nunca ninguém saía dali vivo, alimentava-os com araruta misturada com leite fervido até serem capazes de comer sopa. Seis recuperações em setenta ou mais que já tinham morrido ou iam morrer em breve não era, no entanto, suficientemente bom, e ela tinha de lutar contra a apatia de todos os envolvidos na enfermaria da cólera. A Irmã Martha era tão fraca que todos se aproveitavam dela. Moll e Sal faziam o menos possível, só se mexendo quando alguém morria para lhe roubar o pobre espólio. Até o homem do armazém recusava muitas vezes dar a Hope mais sabão, soda e vinagre. Certa vez disse-lhe mesmo que era um desperdício estar a gastar aquelas coisas numa enfermaria onde nunca ninguém melhorava. O que mais a entristecia, porém, era o facto de apenas ela prestar atenção às instruções de Bennett em relação à higiene. Para ela fazia todo o sentido esfregar as mãos depois de tocar num doente, lavar todos os dias os aventais e as toucas, ferver toda a água de beber. Sal e Moll eram demasiado preguiçosas para lavar as mãos, as toucas ou os aventais, troçavam da ideia de ferver a água de beber e diziam que o médico era tão louco como alguns dos seus pacientes. Hope nunca perdera a sua convicção de que a água de Bristol estava carregada de veneno. Nos quase dois anos que já passara na cidade nunca tinha bebido água tirada diretamente da bomba; mesmo que estivesse a morrer de sede, fervia-a e bebia-a como chá. Gussie e Betsy bebiam-na, e tinham morrido enquanto ela se mantinha saudável, e isto servia-lhe de prova de que Bennett tinha razão. Tentava convencer outros, fazendo notar que Moll e Sal só bebiam chá ou álcool, fosse de que género fosse, e que era por isso que conservavam a saúde. Bennett agradecia-lhe o facto de ela espalhar a sua mensagem, mas realçava que não podia ter a certeza de que a doença era transmitida pela água, uma vez que a que era consumida em toda a cidade vinha da mesma fonte. E quase todos os infetados eram oriundos do bairros mais populosos e sujos, o que parecia apoiar a opinião generalizada entre os médicos de que o contágio se fazia por via aérea. No entanto, ninguém sabia explicar a natureza totalmente aleatória da doença. A maior parte dos sacerdotes, médicos, enfermeiras e carroceiros que lidavam com os doentes permanecia saudável. Por vezes, apenas um membro de uma família numerosa era atingido, enquanto os outros ficavam incólumes. Em algumas pensões, tinham morrido todos os ocupantes exceto um punhado de felizardos; por vezes, só as crianças eram infetadas. Não havia qualquer espécie de padrão. Também não faltavam as teorias extraordinárias. Alguns atribuíam a culpa da doença aos judeus da cidade, o que não fazia o mais pequeno sentido. Outros chamavam aos médicos «Burkers», um nome


inspirado nos infames Burke e Hare, que roubavam corpos nos cemitérios e os vendiam para dissecação. Alguns dos mais estridentes pregadores evangélicos afirmavam que era o castigo de Deus para a depravação generalizada de Bristol e que era espalhada pelas prostitutas que trabalhavam nas tabernas sempre cheias. Hope falava muito com Bennett destas estranhas ideias e defendia com veemência que o clero e os seus hipócritas e piedosos seguidores deviam era considerar que motivos levavam as mulheres à prostituição e fazer qualquer coisa quanto a isso. Hope apercebia-se de que estava a ficar cada vez mais cativada por Bennett. Não era só por ele ser o seu único amigo, ou tratá-la como uma igual, mas por causa da sua compreensão dos verdadeiros males da pobreza e das suas ideias sobre como combatê-los. Havia muitos ricos que praticavam gestos de benevolência, e Hope não duvidava que essas pessoas tinham bom coração. Mas infelizmente as suas vidas eram demasiado diferentes das dos miseráveis que se amontoavam nos fétidos bairros degradados para compreenderem que roupas novas, uma refeição quente por dia e alguns xelins nunca bastariam para resolver o problema. O mais que fazia era proporcionar um conforto temporário. Bennett comparava a pobreza a uma espécie de pântano onde as pessoas caíam ou onde nasciam. Compreendia que, uma vez dentro desse pântano, era difícil, muitas vezes impossível, voltar a sair sem ajuda e que para muitos a criminalidade, ou a prostituição, eram a única maneira de permanecer à tona. Como a sua amiga Mary Carpenter, via a educação como a única escada verdadeira e segura para sair do atoleiro. Afirmava com alguma paixão que dando a todas as crianças dos bairros degradados as ferramentas da leitura e da escrita elas seriam capazes de construir uma vida melhor para si mesmas. De certa maneira, Hope era uma prova viva disto mesmo. A educação que recebera permitira-lhe compreender conceitos e ideias muito para lá dos limites da maneira como fora criada. Sentia-se estimulada pelas ideias um pouco radicais de Bennett, que era cáustico em relação à ociosidade dos ricos e suspeitava de muitos dos que ocupavam lugares proeminentes na cidade, afirmando que enchiam os bolsos à custa dos pobres. A melhor altura do dia era quando ele aparecia na enfermaria. Hope só tinha de ver aquele rosto magro e um tanto severo abrir-se num sorriso para que todos os seus problemas se esfumassem. Quando ele lhe louvava os esforços exultava, e quando o via examinar os pacientes e reparava na ternura dos seus gestos, na expressão de grave preocupação nos seus olhos, sentia-se emocionada até às lágrimas. Quase sempre, ele demorava-se o suficiente para uma chávena de chá. Levavam as respetivas chávenas para o pátio das traseiras e conversavam. Nas primeiras duas semanas, as conversas foram sobretudo a respeito dos pacientes, do que se passava na cidade e de como a epidemia estava a ser relatada nos jornais. Porém, à medida que o tempo passava, tornaram-se mais pessoais, e numa tarde de calor, quando, para variar, a enfermaria estava silenciosa, Bennett falou-lhe um pouco da sua experiência na escola de medicina em Edimburgo. Pintou o retrato de um jovem tímido e um tudo-nada desastrado que se deixava intimidar pelos estudantes que eram mais ricos, mais inteligentes e muito mais sofisticados do que ele. – Eles achavam que eu era um marrão porque não saía para beber todas as noites – disse, um


pouco embaraçado. – E eu não arranjava coragem para lhes dizer que não tinha dinheiro para a bebida, ou que não me atrevia a chumbar nos exames por causa do meu tio. – Imagino que nenhum deles se tornou um grande médico – disse Hope, convicta. Bennett soltou uma pequena gargalhada desprovida de humor. – Alguns deles foram muito mais longe do que eu – respondeu Bennett. – Dois ou três têm consultório em Londres, em Harley Street. O Oswald Henston, um tipo execrável, está no St. Thomas Hospital. Vários tornaram-se médicos do Exército ou da Marinha. Penso muitas vezes que teria feito uma carreira muito melhor no Exército. Hope pensou que ele queria dizer com aquilo que considerava um erro ter-se juntado ao tio em Bristol. – Mas tratar os pobres deve ter-lhe dado uma experiência muito mais variada do que alguma vez conseguiria a tratar soldados. – Talvez. – Bennett suspirou. – Diz-se que como médico do Exército a disenteria é a única doença em que nos tornamos verdadeiramente especialistas. Mas teria gostado de ir para a Índia ou qualquer outro lugar exótico. O meu tio está sempre a dizer que nunca conseguirei arranjar uma esposa enquanto não tiver qualquer coisa interessante para contar. – E este lugar não é interessante que baste? – perguntou Hope. Ficava pendente de cada palavra que ele dizia, e não imaginava qualquer mulher a achá-lo uma companhia aborrecida. Bennett arqueou uma sobrancelha. – Um cavalheiro não fala destas coisas com uma senhora! – disse, com fingido horror. Hope riu. – Imagino que levaria a maior parte das senhoras a deitar a mão ao frasco de sais de cheiro. – É essa falsa delicadeza das senhoras da sociedade que acho mais irritante – disse Bennett, pensativo. – Há apenas alguns meses cheguei atrasado à festa de um dos amigos do meu tio porque tinha estado a assistir a um parto. Pedi desculpa à dona da casa e às duas filhas e expliquei o motivo do atraso, mas recebi em troca um olhar gelado. Ao que parece, «não se faz» falar de coisas como partos na presença de meninas solteiras! – Porquê? – perguntou Hope. Bennett encolheu os ombros. – Essas coisas devem permanecer um mistério até elas casarem, presumo. Mas para mim essas convenções revelam uma grande estreiteza de espírito. – A minha irmã Nell era muito mais nova do que eu sou agora quando ajudou a nossa mãe a ter os últimos filhos – disse Hope. – Viu-o como uma espécie de treino para quando tivesse os seus. – E é assim que deve ser – respondeu Bennett. – Mas fale-me da sua irmã, Hope. Chegou a ter filhos? Hope hesitou, receosa de que aquela pergunta levasse a outra a que não pudesse responder. Sentia, no entanto, um enorme desejo de falar da sua família, porque todos eles tinham estado muito presentes no seu espírito desde a morte de Betsy e Gussie. – Infelizmente, a Nell não foi abençoada com filhos – disse. – De certa maneira, fui eu a filha dela, por causa da diferença de idades. E então, tendo começado, falou-lhe dos irmãos e irmãs, da pequena casa onde viviam, de como Nell foi a primeira a casar, e depois Matt, da morte dos pais e de como foi viver com Nell e Albert. – Quase cuspiu o nome do Albert – disse Bennett em voz baixa. – Já me tinha dito, naquele dia nos


Downs, que se zangou com ele e que foi por isso que acabou por ir parar a Lewins Mead. Um grito agudo vindo da enfermaria interrompeu-os. Entraram a correr e viram Sal a ser empurrada contra a parede, com uma faca encostada ao pescoço. Hope demorou um ou dois segundos a perceber que o homem entroncado que vestia apenas uma camisa esfarrapada era na realidade um dos doentes que tinham dado entrada naquela manhã. No entanto, para seu espanto, Bennett não hesitou. Saltou por cima das filas de doentes deitados até chegar junto do homem, agarrou-o pelos ombros e puxou-o para trás, afastando-o de Sal. – O que foi que lhe deu? – perguntou. – Isto é um hospital. O homem sacudiu Bennett com um safanão e voltou-se, de faca empunhada, com o rosto vermelho de fúria. – Um hospital! Isto é um raio de um armazém de cadáveres. Maldito Burker! Hope sabia que aquele homem tinha sido levado para a enfermaria ao mesmo tempo que três outras pessoas que se encontravam alojadas na mesma pensão. Era evidente que não se tratava de uma vítima da cólera e sim alguém que estava de tal maneira inconsciente devido ao excesso de bebida ou de ópio que os homens da carroça da Corporation o tinham carregado juntamente com os companheiros, convencidos de que era mais um doente. – Acalme-se – ordenou Bennett. – Se não está doente, é livre de sair daqui. – Acalmo-me uma merda! – gritou o homem, a revirar os olhos enquanto esgrimia a faca na direção de Bennett. – Acordo e vejo aquela velha bruxa a roubar-me as calças e descubro que estou trancado num lazareto. Hope estava espantada com a calma de Bennett. O homem era muito maior e mais pesado do que ele, e a faca que empunhava estava perigosamente perto do seu peito, mas mesmo assim não mostrava medo. – Pouse essa faca – disse, no tom suave que usava para com os doentes mais graves. – Se a carroça o trouxe para aqui a culpa é sua. A enfermeira só estava a tirar-lhe as calças para o deixar mais confortável; não tinha meio de saber que estava a curtir uma bebedeira. – Trouxe-me para aqui para me retalhar o corpo – gritou o homem. Bennett abanou a cabeça, exasperado. – Não tenho tempo nem inclinação para retalhar corpos – disse. – Se olhar à sua volta verá que estas pessoas estão muito doentes, e a minha tarefa é tentar salvá-las. Sal, devolva-lhe as calças e deixe-o ir-se embora. Sal afastou-se em direção à pequena divisão contígua. Hope calculou que ela estivera de facto a tentar roubar as calças, talvez na esperança de encontrar dinheiro nos bolsos. Mas quando já parecia que o grandalhão ia recuar, ele saltou de súbito para Bennett, a brandir a faca. Hope gritou, mas, para sua surpresa, Bennett esquivou-se do ataque e agarrou o antebraço do homem, com um movimento rápido desarmou-o e fê-lo estatelar-se no chão. Apanhou a faca e, a olhar para o homem caído, esboçou um meio sorriso. – Podia mandá-lo prender neste mesmo instante – disse. – Mas desta vez vou deixar passar porque não duvido que ficou assustado quando acordou e se viu aqui. Dê-se por feliz por não ter apanhado cólera. E de futuro não se embriague tanto. Sal voltou com as calças, de olhos baixos como se esperasse que Bennett a mandasse sair também. – Presumo que qualquer dinheiro que estivesse nessas calças continua lá – disse-lhe Bennett, com a expressão e o tom severos.


– Sim, senhor doutor – murmurou ela, entregando-as. O homem enfiou as calças – parecia não ter botas – e encaminhou-se para a porta. Bennett abriu-a, devolveu-lhe a faca e deixou-o sair. Com a porta novamente fechada, Bennett voltou-se para Sal. – Se alguma vez desconfio que se apoderou dos bens de alguém, Sal, mando-a para Bridewell – disse, com os olhos a lançar chispas. – Só a graça de Deus tem impedido que apanhemos todos esta terrível doença, mas enquanto estivermos saudáveis é nosso dever tratar os doentes com bondade. Roubá-los é um pecado terrível. – Peço perdão, senhor doutor – disse ela de olhos baixos, sem tentar sequer negar que era o que tencionara fazer. Bennett aproximou-se da velha e, com um dedo por baixo do queixo, fê-la levantar o rosto. – Vá beber uma chávena de chá – disse, e a sua voz foi gentil. – Tenho a certeza de que ele a assustou muito. E de futuro deverão todas ter muito cuidado quando trouxerem novos doentes, sobretudo quando federem a álcool.

Alguns dos outros doentes tinham ficado agitados depois do incidente assustador e demorou algum tempo até que se acalmassem. Enquanto lavava as mãos antes de sair, Bennett sorriu a Hope. – Penso que é tempo de passar algumas horas longe daqui – disse. – A Alice está farta de sugerir que a leve a Harley Place para almoçar. Porque não vai amanhã? O meu tio foi passar alguns dias a Bath, de modo que podemos ficar à vontade com a Alice na cozinha. – Não posso sair daqui. Amanhã é domingo – disse Hope. Ele encolheu os ombros. – Sábado, domingo, aqui todos os dias são mais ou menos iguais – disse. – E continuará tudo na mesma quando voltar. Até a Irmã Martha disse que devia ter um dia de folga. Acha que anda pálida e cansada. – Mas... Bennett levou um dedo aos lábios, como que a silenciar o protesto. – Passar um dia com o seu primo é perfeitamente aceitável.


CAPÍTULO 15

E

ra meio-dia quando Hope chegou a Harley Place. A porta foi-lhe aberta por uma sorridente Alice. – É muito bom voltar a vê-la – disse. – Tenho estado preocupada consigo. Levou Hope para a cozinha na cave, explicando que Bennett saíra para ver um doente mas não tardaria a voltar. Entre perguntar a Hope se queria uma bebida fresca e resmungar por causa do calor que nunca mais passava e da falta de chuva, foi dizendo que, na sua opinião, St. Peter’s não era lugar para uma rapariga nova. Hope respondeu, a sorrir, que gostava de trabalhar no hospital e que o trabalho não era assim tão pesado, agora que estava habituada. Embora isto não fosse estritamente verdade, o cuidado de Alice provocava-lhe a mesma agradável sensação de calor interior que experimentava quando Nell a mimava. Alice era, de muitas maneiras, bastante parecida com Nell. Era mais velha, talvez quarenta e cinco anos, ou à volta disso, mais alta, e o seu cabelo era grisalho, mas tinha o mesmo ar limpo, bem arranjado, e a mesma natureza maternal. Bennett contara-lhe que o tio conhecera Alice quando o marido dela adoeceu. Na altura era ainda uma mulher nova, e quando o marido morreu o Dr. Cunningham oferecera-lhe um lugar como sua governanta. Bennett também tinha dito que em tempos alimentara a esperança de que acabassem por casar, por estarem bem um para o outro e serem amigos, mas acrescentara que eram ambos demasiado teimosos e estavam demasiado enquistados nos respetivos hábitos para considerarem sequer a ideia. Ali na clara e reluzente cozinha de Alice, que cheirava divinalmente a carne assada, o hospital, a cólera, a porcaria e a miséria pareceram-lhe de repente apenas um sonho mau mas só meio lembrado. Hope usava o vestido azul que Alice lhe dera e, com as botas bem engraxadas e o cabelo acabado de lavar a reluzir, mal podia esperar para ver Bennett. Não obstante todas as coisas más do St. Peter’s, havia duas casas de banho, que ela descobrira no primeiro piso poucos dias depois de ter chegado. Foram as primeiras que vira com água canalizada. A Irmã Martha disse-lhe que haviam sido instaladas no ano anterior porque um banho frio tinha um efeito calmante nos dementes. Só havia água quente no inverno, quando a caldeira era acesa e a Irmã disse que o seu funcionamento era tão errático que preferia a tina na cozinha, mas que se ela não se importava de se lavar com água fria, podia usar uma delas sempre que quisesse. Hope correra para lá, ansiosa, mal saíra da enfermaria no dia anterior. Estava tão cheia de calor e suada que ao princípio a água fria quase lhe cortara a respiração, mas minutos depois sentiu-se como se tivesse sido transportada até ao lago em Leigh Woods, perdida na bem-aventurança de poder tirar do corpo e do cabelo o fedor e a sujidade do hospital.


Deitada dentro de água, com o cabelo a flutuar à sua volta, o seu coração pareceu bater mais depressa com a excitação de ir a Harley Place no dia seguinte. Ou talvez fosse a expetativa de passar um dia inteiro com Bennett. O incidente do homem com a faca aumentara ainda mais o seu respeito por ele; nunca esperara que ele fosse capaz de fazer frente a um rufião. A maneira como desarmou o homem foi maravilhosa, quase como se também ele tivesse passado algum tempo nas ruas. E no entanto a sua dureza foi temperada por compaixão, tanto para com o homem como para com Sal. A mãe dela dizia sempre que era essa a marca de um verdadeiro homem. Se Betsy estivesse viva, poderia perguntar-lhe se aquele sentimento que nutria pelo jovem médico era algo mais do que mera admiração. Na aldeia, as pessoas costumavam dizer que um tal rapaz ou uma tal rapariga estavam «embeiçados» por alguém. Seria isso que se passava com ela? Fosse como fosse, era bom. Ver Bennett era como ver o sol brilhar por entre as nuvens, ou sentir o perfume de uma rosa ao atravessar um jardim. Era isso o que Matt sentia por Amy? Era amor?

– Espero que goste de carne assada, Hope. As palavras de Alice arrancaram-na com um sobressalto ao seu devaneio. – Adoro – apressou-se a responder, interrogando-se se teria perdido qualquer coisa importante enquanto divagava pelos seus pensamentos. – Mas há muito tempo que não como. – Não me parece que tenha tido muito que comer durante muito tempo – retorquiu Alice. – É um espanto ter tão bom aspeto.

– Foi só o melhor almoço de todos os tempos – suspirou Hope, enquanto rapava do prato o último pedaço de carne assada e legumes. Sorriu a Alice, feliz. – Mas vai fazer-me detestar a comida do St. Peter’s. – Espero que ainda tenha espaço para o doce – sorriu Alice. – Fiz syllabub. – Arranjo espaço – declarou Hope. – Dá prazer vê-la comer com tanto gosto – disse Bennett. Não precisava de acrescentar que aquele apetite provava que ela continuava saudável, Hope reparara na maneira como ele a observava quando voltara de visitar os seus doentes. – Parece que vai finalmente chover – comentou, porque o pedaço de céu que conseguia ver da janela da cozinha estava a escurecer. – A cólera desaparecerá quando ficar mais frio? – Tem sido esse o padrão – respondeu Bennett. – Espero que sim. Nenhum de nós aguenta muito mais. – Que irei eu fazer se acabar? – perguntou Hope. – Serei colocada noutra enfermaria? – Com toda a certeza. – Bennett sorriu abertamente. – Na realidade, até penso que quase poderá escolher a que quiser, porque a Irmã Martha só tem elogios para si. Embora sugira que tire um ou dois dias de descanso antes disso. – Talvez pudesse ir ver a sua família – sugeriu Alice. Hope corou. – Não posso – disse, num fio de voz. – O Albert mandou-a manter-se afastada? – perguntou Bennett, num tom cheio de gentileza.


Hope confirmou com um triste aceno de cabeça. Alice começou a perguntar que direito tinha Albert de a impedir de ir a casa, mas Bennett interrompeu-a perguntando pela sobremesa.

Terminada a refeição, Alice rejeitou a oferta de Hope para a ajudar a lavar a louça e sugeriu que fosse para o jardim com Bennett. – Pode ser a última oportunidade que tem nos próximos tempos de se sentar a apanhar fresco – disse, a olhar para o céu que se carregava. O jardim era pequeno, mas murado e muito bonito, com uma grande quantidade de margaridas a florescer. Bennett levou-a para um banco, ao fundo, e durante algum tempo falou de coisas sem importância, como as flores, o almoço e a possibilidade de chuva. – Vá lá, diga-me o que aconteceu de verdade com o Albert – disse de repente. – Enquanto não deitar isso cá para fora, vai doer. – Já lhe disse, tive uma discussão com ele, era um rufião, foi só isso. Bennett abanou a cabeça. – Julgava que éramos amigos, Hope. Porque é que não pode confiar em mim neste assunto? Hope manteve o olhar fixo nas mãos entrelaçadas no regaço. – Suponho que é por ter medo de como vai reagir – disse. – Quer dizer que poderia ficar a pensar mal de si? – Não. – Hope ergueu vivamente a cabeça. – Não fiz nada de mal. – Mas o Albert fez? Ela assentiu. – A si? Hope suspirou, achando que Bennett desconfiava que Albert a tinha violado, porque fora o que Betsy também pensara. – Não, não foi a mim. Mas eu surpreendi-o a fazer uma coisa feia e ele bateu-me e disse-me para sair de casa dele e nunca mais voltar. Não me atrevo a voltar, Bennett, a Nell sofrerá e outras pessoas que são importantes para mim também. – Um simples jardineiro não teria esse género de poder. Se foi ele que fez uma coisa errada, quem mais poderá sofrer? – Ele encontrou uma carta – disse ela, relutante. – Sabe uma coisa que revelará. – É então um chantagista? Betsy e Gussie tinham-na interrogado sem descanso a respeito de Albert quando os conhecera, mas ela decidira que não podia contar-lhes a história toda por causa de Rufus. As histórias picantes a respeito da aristocracia alastravam rapidamente, e embora ela pouco quisesse saber dos sentimentos de Sir William e Lady Harvey, importava-se, e muito, com os sentimentos do filho deles. No entanto, sempre desejara poder desabafar com alguém, e gostava tanto de Bennett que queria que ele compreendesse por que razão tivera de abandonar Briargate e a família. Também sabia que ele insistiria em interrogá-la, e que podia confiar nele para guardar um segredo. – Se eu lhe disser, promete nunca interferir e tentar ir nas minhas costas resolver a questão por mim? – perguntou. – E, claro, nunca contar a ninguém? – Prometo – disse ele. – Só quero compreender, mais nada.


E ela contou-lhe. Começou muito bem, explicando que Nell e Lady Harvey estavam fora e por que razão tivera de esconder a carta do amante de sua senhoria. Mas quando chegou ao ponto em que pensou que a portada da janela do piso superior estava a bater e entrou no quarto, a voz quebrou-se-lhe. – O Albert estava lá? Com quem? – pressionou Bennett. – Era outra das suas irmãs? O embaraço e a vergonha tolhiam-na. Voltou a ver os dois homens juntos na cama, e a visão horrorizou-a tanto como naquele terrível dia. – Não, era Sir William – disse por fim, num murmúrio. – Meu Deus! – exclamou Bennett, e pousou a cabeça nas mãos. – Não estava à espera dessa. Depois de lhe ter contado a pior parte, o resto foi fácil. As palavras saíram a atropelarem-se umas às outras, como se ela quisesse despachar aquilo de uma vez por todas. – Desmaiei na Bristol Bridge e a Betsy e o Gussie ajudaram-me e levaram-me para casa deles – concluiu. Bennett deixou escapar um pequeno assobio. – Agora percebo porque é que tem tanto medo do Albert. – Suspirou. – Quanto à minha promessa de não interferir, não poderia fazê-lo. Não saberia sequer como começar a lidar com uma coisa dessas. Mas acha que a Nell sabia o que o Albert era? – Sei que não sabia – respondeu Hope. – Ele sempre a tratou com frieza, mas como poderia ela pensar semelhante coisa a respeito dele? Duvido até que soubesse que isso existe. Pode ser dezasseis anos mais velha, mas penso que sou hoje muito mais conhecedora do mundo do que ela alguma vez será. – Estou solidário consigo – disse Bennett, com a voz carregada de genuína emoção. – Nenhuma jovem devia ter de aprender tais coisas dessa maneira. O Albert devia ser chicoteado, não por causa das suas tendências, tenho a certeza de que não tem culpa de ser o que é, mas pelo que lhe fez a si, pela maneira como enganou a sua irmã e por ser um miserável chantagista. – Compreende então porque é que não posso voltar para lá? – perguntou Hope. – Muito bem. – Bennett voltou a suspirar. – Tem-na encurralada. Só a verdade convencerá os seus irmãos e irmãs de que não fugiu por sua livre vontade, mas se lhes contar o que realmente aconteceu, eles vão querer atacar o Albert, e ele retaliará fazendo mal a quem puder. Embora fosse bom saber que Bennett via a situação tal como ela era, Hope sentia-se ao mesmo tempo um pouco desapontada. Supunha que, lá bem no fundo de si mesma, albergava a secreta esperança de que um homem tão inteligente como ele conseguisse congeminar um plano qualquer em que Albert tivesse o que merecia e todos os outros ficassem a salvo. Mas a verdade era que se tal plano fosse possível, já ela própria o teria descoberto entretanto. – Que devo então fazer? – perguntou. Bennett pegou-lhe na mão e apertou-lha. – Penso que deve fazer o que o seu coração lhe diz para fazer. Pondere bem se a necessidade de ver a sua família é maior do que o medo do que o Albert pode fazer à Nell e às outras pessoas de que gosta. Hope pensou nisto por alguns instantes. – Sir William afirmaria que eu inventei tudo, Lady Harvey apoiá-lo-ia para evitar a vergonha, e o Rufus odiar-me-ia por dizer tais coisas a respeito dos pais. Quanto à Nell, continuaria presa ao Albert e seria ainda pior para ela.


– Pode convencê-la a deixá-lo! – Ela não é do género de fazer isso, sempre acreditou que o casamento é para sempre. E perderia o seu lugar em Briargate. – Podia trazê-la para Bristol para junto de si. Eu poderia arranjar-lhe trabalho num sítio qualquer. Hope abanou tristemente a cabeça. – A Nell seria como um peixe fora de água numa cidade. – Nesse caso, parece que o melhor é deixar as coisas como estão e construir uma nova vida para si. Era a conclusão a que Hope chegara meses antes, mas depois de discutir o assunto com Bennett e compreender que também ele não via outra alternativa viável, deixou-se vencer pelo desgosto e começou a chorar. Ele abraçou-a e puxou-a para o seu ombro, embalando-a como faria a uma criança. – Eu sei – disse. – É como o julgamento de Salomão, não é? Tenho muita pena de si, minha querida, porque o Albert é um homem muito, muito mau e com toda a justiça merecia ser castigado. Mas acredito que o será, um dia. Também acredito que, a seu tempo, a Hope há de recuperar a sua família. Talvez deva ter isso como objetivo e certificar-se de que, quando voltarem a reunir-se, eles se orgulharão de si pelo que tiver conseguido. – Beijou-a na testa e limpou-lhe as lágrimas com um lenço, num gesto cheio de ternura. – Eu já me orgulho de si – continuou. – Sem a sua presença no hospital, generosa, sempre disponível e tão prática, julgo que não teria sido capaz de aguentar a tensão desta terrível epidemia. Iluminou todos os meus dias. Faz bem jus ao seu nome, esperança é o que me dá, e a todos os pacientes que têm a sorte de ser tratados por si.

Nessa noite, deitada na sua cama estreita a ouvir a chuva martelar o telhado do hospital, Hope estava tão feliz que era impossível dormir. Finalmente, a brisa que entrava pela janela era fresca e pura, expulsando os cheiros rançosos e o ar estagnado que se haviam acumulado no minúsculo quarto. As palavras de Bennett haviam tido o mesmo efeito nela, porque agora tinha um objetivo a alcançar. Tornar-se-ia uma enfermeira de primeira classe, não só por ser o único trabalho à sua disposição, mas porque queria de verdade ajudar os doentes. Não gostava da maneira como as coisas eram feitas no St. Peter’s, mas talvez pudesse melhorá-las se levasse essa tarefa a peito. Fora Bennett, porém, que fizera o seu coração cantar. Não era só admiração o que sentia por ele, era amor. Quando ele a abraçara para a confortar, quisera ficar assim para sempre. Os lábios dele na sua testa tinham-na feito estremecer de delícia, quisera erguer o rosto para ele e beijá-lo. O simples toque da mão dele na sua pusera pequenos frémitos a correr-lhe pela espinha. Mais tarde tinham dado um pequeno passeio pelos Downs, e Bennett levara-a até à beira da garganta para lhe mostrar as obras abandonadas de uma ponte que deveria atravessá-la. – Isambard Kingdom Brunel venceu um concurso para o desenho da ponte – explicou, tocando com a mão a enorme e atarracada torre de metal a que seriam presos os cabos metálicos da ponte. – Vi esboços da obra, uma maravilha de delicadeza, mas só construíram esta torre e a do lado oposto, e depois, em 43, abandonaram o projeto. Mas talvez um dia o terminem. Hope não conseguia imaginar alguém a querer atravessar uma ponte situada àquela altura. Só espreitar da beira da garganta para o Avon, tão lá em baixo, fazia-a sentir vertigens. Apontara o lugar


onde se escondera no bosque, do outro lado, e contara-lhe do lago que descobrira para tomar banho e da comida que fazia na sua fogueira. – Gostava de acampar – disse Bennett, com um sorriso. – Conheci um rapaz em Exeter que costumava fazê-lo, mas a minha mãe nunca me deixava ir com ele. – Podíamos ir juntos, um dia – propôs ela sem pensar, e apercebendo-se de repente de que as senhoras não deviam fazer sugestões daquelas a cavalheiros, corou de vergonha. Bennett riu-se. – Olhe que não me vou esquecer – disse. – Não consigo lembrar-me de nada de que gostasse mais do que estar sentado junto a uma fogueira consigo.

Hope fechou os olhos e imaginou-se aninhada nos braços de Bennett no pequeno refúgio que construíra no bosque. Só pensar nisso enchia-a das mais estranhas sensações e incendiava-a de calor. Amy dissera-lhe certa vez que era assim que se sentia com Matt quando tinham começado a namorar. Disse que contava as horas até ao próximo encontro e que soube imediatamente que era ele o homem com quem queria casar. Mas um médico não podia casar com uma rapariga como ela, pois não? Mesmo que Bennett quisesse, o tio não gostaria. Havia de querer que ele casasse com uma rapariga de boas famílias, alguém como uma daquelas jovens que tinha visto em Royal York Crescent. Cook costumava dizer que os cavalheiros gostavam de levar serventes de cozinha para a cama, mas casavam sempre com mulheres da sua classe. Nunca fora capaz de compreender porque era que algumas raparigas deixavam homens deitarem-se com elas sem serem casadas. Agora, porém, aquele sentimento por Bennett que tinha dentro de si explicava-o. E ele ainda nem sequer a beijara!

Choveu quase sem parar durante quinze dias. Os caminhos de terra que o sol endurecera tornaramse lamaçais, as ervas daninhas, privadas de água durante todo o verão, surgiram de súbito em paredes, nas fendas dos passeios, por todo o lado. O nível do rio subiu de uma maneira alarmante. Dizia-se que muitas zonas baixas do Somerset estavam alagadas, e as mesmas pessoas que se tinham queixado da falta de chuva queixavam-se agora de que ela não parava. No St. Peter’s, a água da chuva insinuou-se pelos buracos do telhado. A enfermaria da maternidade era a pior; o teto parecia um crivo e muitas das novas mães tinham ido para casa, porque por muito más que as condições lá fossem, ali corriam o risco de se afogar. Havia uma fuga no teto do quarto de Hope, mas felizmente não ficava por cima da cama e ela recolhia a água num balde. Mas o fedor por toda a cidade diminuiu e a chuva arrastou consigo a imundície e, pouco a pouco, o número de casos de cólera foi diminuindo. – Suponho que eu e a Moll vamos ter de voltar pro outro lado – comentou Sal, num tom lúgubre, no primeiro dia em que não houve entrada de novos doentes. Hope não sabia o que responder àquele comentário. Sal e Moll não mereciam qualquer simpatia, pois não a tinham mostrado para com os doentes. Mas mesmo assim Hope tinha um pouco de pena delas, porque já vira os velhos na outra parte do hospital. Passavam o tempo todo numa camarata sobrelotada e sem qualquer espécie de conforto; as duas deixariam de poder fazer chá, como ali


faziam, e também deixariam de receber uma ração de bebida. – Mas tu vais ficar bem – continuou Sal, com uma ponta de veneno na voz. – És a lambe-botas da Irmã Martha e do doutor. Mas vê lá se não te põem a tomar conta dos malucos! Não ias gostar. Comem a própria merda, mijam por todo o lado e a última rapariga que lá puseram foi estrangulada. Hope decidiu ignorar Sal. Embora fosse verdade que alguns dos doentes mentais faziam coisas repelentes, e uma enfermeira ter de facto sido estrangulada um ano antes, a Irmã Martha prometera que nunca a mandaria trabalhar para lá. Fosse como fosse, ainda tinham quinze doentes para tratar na enfermaria de isolamento, e pelo menos metade deles ia recuperar, porque não tinham chegado à fase final da doença. Agora quando olhava para a enfermaria, Hope sentia-se orgulhosa ao ver que estava tão limpa quanto um edifício tão velho podia estar. As suas mãos ásperas e avermelhadas eram a prova de quanto esfregara aquele chão, e até lavara as janelas para que a luz natural pudesse entrar durante o dia. Tencionava convencer a Irmã Martha a mandar caiar as paredes e o chão quando a epidemia acabasse, e a insistir que fossem lá postas camas decentes. Até ao momento, as suas vitórias eram pequenas. Os novos pacientes já não eram deitados em palha suja, davam-lhes chá, sopa e comida mais substancial se conseguissem ingeri-la. Eram lavados com regularidade e medicados com os remédios que houvesse disponíveis, e ninguém morria sozinho quando ela estava de serviço. Hope tinha consciência, no entanto, de que aquilo não era nem de longe o suficiente. Um hospital devia ser um lugar onde as pessoas entravam doentes e de onde voltavam a sair curadas.

Em meados de novembro, Hope disse adeus à última paciente da enfermaria da cólera. – Não se esqueça de cuidar bem de si, Mrs. Hubert – disse em tom de aviso, estendendo as mãos para prender melhor o xale à volta dos ombros da mulher pequena e de rosto quase branco, porque estava muito frio lá fora. – Não queremos voltar a vê-la aqui, pois não? Mrs. Hubert era uma paciente que Hope nunca esperara que sobrevivesse à doença. Tivera sete filhos, três dos quais tinham também contraído cólera e morrido. Era evidente que estava mal alimentada e esgotada antes de adoecer, e com um marido sem trabalho que não se dera sequer ao incómodo de ir buscá-la ao hospital, não tinha claramente grandes incentivos para viver. Mas vivera, e a Irmã Martha atribuía o facto à maneira como Hope cuidara dela. – Hei de voltar só para a ver – disse Mrs. Hubert, com as lágrimas a brilharem-lhe nos olhos. – É graças a si que estou outra vez bem. – Que disparate, é uma lutadora – insistiu Hope. – Agora lembre-se do que eu lhe disse, não tente esforçar-se demasiado logo no princípio. Ainda está muito fraca. Por vezes, Hope desejava não saber o que esperava em casa as doentes como Mrs. Hubert. A pobre mulher tinha ainda de lidar com o desgosto de perder três filhos, e com um marido que só ia a casa quando se lhe acabava o dinheiro para a bebida, não podia contar com grande conforto da parte dele. – Espero que case com o doutor – disse Mrs. Hubert. Hope ficou tão espantada que quase deixou cair o queixo. – Não há nada entre nós – apressou-se a dizer. Mrs. Hubert sorriu, e o sorriso suavizou-lhe o rosto magro e pálido.


– Há, minha querida, eu bem vejo – insistiu Mrs. Hubert. – Até a Sal disse, antes de se ir embora, que eu era uma felizarda por ele só ter olhos para si, ou nunca se daria ao trabalho de vir ver pessoas como eu. – Isso não é verdade – respondeu Hope, indignada. – O Dr. Meadows é provavelmente o médico mais dedicado de toda a cidade. Nunca ignoraria uma pessoa doente, fosse ela quem fosse. – Agora provou-me que sente o mesmo por ele. – Mrs. Hubert riu. – Nesse caso não deve haver nada que os impeça de casar, pois não? Mas vou andando. Se alguma vez for para os meus lados, não deixe de me fazer uma visita!

Hope ficou sozinha na enfermaria deserta e fria durante alguns minutos depois de Mrs. Hubert ter saído, com o coração alegre por causa do que ela tinha dito. Se uma mulher doente conseguia perceber que Bennett gostava dela, então devia ser verdade. Estava no hospital havia já três meses e vira-o quase todos os dias, mas apesar de conversarem e rirem juntos, ele não voltara a convidá-la para Harley Place, e seguramente não lhe dera quaisquer motivos para pensar que o seu amor era retribuído. Não que pensasse muito nisso; amava-o, mas a maior parte do seu cérebro já se resignara à ideia de que o interesse dele nela era apenas como protegida e amiga. E contentava-se com isso, embora desconfiasse que ficaria muito ciumenta se ele lhe dissesse que tinha uma namorada.

O som de passos no corredor avisou-a de que alguém se aproximava, e pegou na vassoura encostada a um canto para varrer do chão os últimos restos de palha. A porta abriu-se e Bennett entrou acompanhado por Sanders, o sujeito encorpado e rubicundo que fazia todo o género de reparações no St. Peter’s. – Trouxe o Sanders para lhe mostrar o que precisa de ser feito aqui – disse. Parecia afogueado e tinha o casaco sujo de sangue, como se tivesse acabado uma operação. – Já lhe falei em caiar a sala toda. Há mais alguma coisa, enfermeira Renton? – Piscou-lhe um olho ao usar o tratamento formal, e Hope disfarçou uma gargalhada. – É preciso tapar os buracos dos ratos e das ratazanas nos lambris das paredes. E limpar a chaminé – respondeu. – Vamos precisar de acender a lareira quando voltarmos a ter pacientes. Ah, e o lavatório da sala das traseiras precisa de ser desentupido, a água demora séculos a escoar. Sanders olhou em redor, a chupar as bochechas com uma expressão avaliadora, como se o trabalho fosse extraordinariamente difícil. Hope nunca gostara daquele homem intrometido e matreiro. Percebeu que ele ia pedir muito mais dinheiro do que o serviço valia. – Tomei a liberdade de pedir a uma pessoa que conheço que viesse até cá para fazer o orçamento – mentiu Hope. – Disse que faria tudo por duas libras e dez xelins. Bennett olhou para ela, surpreendido. – Sabia que tinha de ser feito depressa – disse, com um encolher de ombros. – E como sei que Mr. Sanders está sempre muito ocupado... – Faço-o por dois guinéus – rosnou Sanders. – Por uma questão de caridade. – Mas pode começar amanhã e ter tudo pronto em dois dias? – perguntou Hope. Sanders desviou os olhos dela para o médico. Parecia desanimado; era evidente que esperara não


só conseguir um grande lucro com aquele serviço, mas também fazê-lo quando lhe desse jeito. – Dois dias é muito pouco tempo! – exclamou. – O outro homem disse que chegava – declarou Hope. – E, além disso, é o tempo que temos, porque as novas camas estão a chegar e se não estiver tudo pronto não teremos onde as pôr. – Nesse caso terá de ser dois dias – respondeu ele, sombrio. – Claro que muitos não quereriam trabalhar aqui depois da cólera. Mas alguém tem de pôr isto em condições de ser usado. – É um homem muito bom e corajoso, Mr. Sanders – disse Hope, numa voz de mel. – Tenho a certeza de que vai fazer um excelente trabalho. Sanders saiu, e mal a porta se fechou Hope desatou a rir. – Aposto que estava a preparar-se para pedir cinco ou seis libras – disse. – Nesse caso foi uma sorte já ter perguntado a outra pessoa – observou Bennett. – Mas como é que conhece homens que façam este género de trabalho? – Não conheço – respondeu ela. – Inventei-o. Ao ouvir isto, Bennett riu à gargalhada. – Sua pestezinha! Quem lhe ensinou esses truques? – A Betsy e o Gussie, suponho. – Hope sorriu. – Eram grandes regateadores; diziam que nunca devemos parecer demasiado interessados em comprar seja o que for, assim o preço acaba sempre por descer. – Hei de lembrar-me disso – disse ele, ainda a rir. Olhou para a sala nua à sua volta, notando as manchas de sangue antigas, os insetos esmagados e outras marcas nas paredes. – É estranho o aspeto que tem agora. Custa a crer que durante os últimos três meses foi palco de tanta dor e miséria. Está tudo tão sossegado e silencioso. – Rezemos a Deus para que nunca mais voltemos a ter uma epidemia assim – disse ela, de súbito séria. Era aterrador pensar que tinham morrido ali mais de duzentas pessoas, e quase o mesmo número em casa. – Mas não estava à espera de o ver hoje. Ia varrer aqui o chão e depois perguntar à Irmã Martha para onde quer que vá a seguir. – Vai ter dois dias de folga antes de fazer seja o que for – declarou ele. – E estava na esperança de que quisesse passá-los comigo. – Consigo? – exclamou ela, espantada. – É uma perspetiva assim tão horrível? – Não, claro que não. – Hope riu. – Mas aonde planeia ir? – Promete ir comigo seja para onde for? – Penso que sou capaz disso – disse ela. A excitação fervilhava-lhe no peito, e apesar de querer fingir-se desinteressada, denunciava-se com um sorriso de orelha a orelha. – A menos, claro, que esteja a planear descer o Avon numa jangada ou ir acampar para os bosques. Novembro não é um bom mês para essas atividades. Bennett riu. – Posso prometer-lhe que será muito menos gelado do que isso. A irmã da Alice vive numa aldeia chamada Pill. Vou até lá com ela muitas vezes, porque é um lugar sossegado e muito bonito, junto à foz do Avon. Regra geral dou grandes passeios e deixo-a a tagarelar com a irmã. A Alice sugeriu que desta vez fosse connosco. O coração de Hope deu-lhe um salto no peito. – Adorava ir – disse ela.


– Nesse caso passamos por cá com a carruagem amanhã de manhã, às oito e meia. – Bennett sorriu. – A casa é muito pequena, mas a Alice dormirá com a Violet e a Hope poderá ficar com o quarto pequeno. Eu durmo no sofá. Mas não se esqueça de levar roupas quentes, porque por vezes sopra um vento muito agreste vindo de Bristol Channel. * Mrs. Violet Charlsworth, a irmã de Alice, fez lembrar a Hope um bolinho de maçã, baixa e gorda mas com uma natureza muito doce. O marido tinha sido piloto de um rebocador que ajudava os grandes navios a subir o rio até ao cais, mas morrera de pneumonia três anos antes. A minúscula mas acolhedora casa de Violet refletia a paixão do marido por barcos. Aguarelas de barcos, barcos dentro de garrafas, barcos de latão e barcos esculpidos em osso, uma coleção de antigos instrumentos de navegação e o sino de um navio decoravam as paredes. Havia também outros objetos exóticos, trazidos por marinheiros dos quatro cantos do mundo: estatuetas africanas de aspeto assustador, caixas de rapé e adagas. Todos eles estavam cuidadosamente arrumados e limpos. O grande fogo que ardia na lareira era mais do que bem-vindo, pois fazia muito frio lá fora, e o acolhimento de Violet não foi menos caloroso. Disse que não havia nada de que mais gostasse do que uma casa cheia de convidados. Durante o chá com pãezinhos torrados, que ela segurava por cima do lume na ponta de um comprido garfo, não parou de fazer perguntas à irmã e a Bennett, com os olhos azuis a cintilarem de prazer por ter companhia. – A Hope é então a sua menina – disse a Bennett, num tom carregado de intenção. – Não admira que não venha ver-me há mais de seis meses! Hope corou furiosamente e tentou explicar que era apenas uma amiga. Violet limitou-se a rir. – Ele não a traria até cá se não tivesse planos para si, minha querida – disse, e riu tanto que os seus muitos queixos estremeciam. – Mrs. Charlsworth! – disse Bennett num tom de reprovação, mas não desmentiu o que ela dissera e Hope recostou-se no confortável cadeirão sentindo-se extraordinariamente feliz. O cadeirão e o calor da lareira deram-lhe sono, e apesar de tentar lutar contra ele enquanto os seus três companheiros mantinham uma conversa animada, acabou por perder a batalha e dormitar um pouco. Foi talvez o som do seu nome a ser referido que a fez voltar a si, pois de súbito teve consciência de que estavam a falar a seu respeito. – Foi muito bem criada, percebi isso mal a vi – dizia Alice. – Podia estar vestida de farrapos, mas usava-os como uma duquesa. E olha-me para aquela cara! Onde foi que alguma vez viste outra tão bonita? Hope sabia que devia dar sinal de que estava de novo desperta, mas uma vez que a conversa a seu respeito parecia ser tão elogiosa, não conseguiu resistir a ouvir mais. – Está exausta – disse Bennett, e a sua voz foi suave e terna como uma carícia. – Se vissem como trabalha! Nenhuma tarefa é demasiado pesada ou demasiado suja. Nasceu para ser enfermeira, e só posso pensar que caiu do céu na nossa hora de maior necessidade. – Mas que pensa o Dr. Cunningham da sua amiga? – perguntou Violet. – Não aprova – respondeu Bennett, num tom desolado. De repente, Hope não quis ouvir mais. Mexeu-se e fingiu um bocejo.


– Peço desculpa, Mrs. Charlsworth – disse. – Foi muito má educação da minha parte deixar-me adormecer. A culpa foi do calor da lareira e do conforto do cadeirão. – Ficámos felizes por vê-la dormitar – declarou Alice. – O Bennett estava agora mesmo a dizer como tem trabalhado muito no hospital. É natural que esteja cansada. – Estou ótima – disse Hope, sentindo-se pouco à vontade e a desejar só ter acordado depois de eles terem acabado de falar dela. – Talvez esteja a precisar de um passeio para dissipar as teias de aranha. – Há um trilho junto ao rio que é sempre agradável mesmo nos dias frios – anunciou Bennet. – Quer que lho mostre? – Isso mesmo, vocês os dois vão dar um passeio para abrir o apetite – disse Violet. – Tenho um estufado de rabo de boi ao lume, mas ainda vai demorar um par de horas a ficar pronto. * Estava muito frio no exterior, em comparação com o calor da sala, e Hope embrulhou-se melhor na capa. Saíra do hospital cheia de confiança, naquela manhã, com o novo vestido de lã vermelho que comprara numa das lojas de roupa em segunda mão da Pithay e um atrevido chapéu vermelho enfeitado com penas. Mas a capa cinzenta era a mesma com que fugira de Briargate, agora tão puída que o vento e o frio a trespassavam. Enquanto desciam em direção à pequena aldeia, pouco mais do que um punhado de casas de pedra, a capa que Nell fizera recordou-lhe que apesar de as circunstâncias da sua vida terem melhorado de uma forma espetacular desde que conhecera Bennett em Lamb Lane, continuava a haver coisas que nunca mudariam. Ninguém senão Bennett tinha muito apreço por enfermeiras. Como os soldados e os polícias, eram consideradas a escória da sociedade, a quem as pessoas só davam valor em alturas de necessidade. Bennett falava, animado, enquanto caminhavam. Ouvira dizer que a Corporation ia convocar uma reunião de emergência para discutir os problemas de saúde e de saneamento da cidade e esperava que isso significasse que iam deitar abaixo lugares como Lewins Mead e construir casas novas com água canalizada e esgotos. – E eu suponho que isso significará que vão pôr todos os meus antigos vizinhos na rua – retorquiu Hope. – Vão convidar para essa reunião alguém que saiba alguma coisa a respeito daqueles que vão ficar sem teto e se preocupe com eles? Não me parece. A reunião será apenas para os que vão lucrar com a construção das novas casas. Bennett pareceu surpreendido pelo veneno na voz dela. – Estou certo de que não será assim – respondeu. – O que foi que lhe deu, Hope? Pensei que ficaria satisfeita por saber que um lugar onde há tanta doença vai ser varrido. – Não se isso significar que as pessoas terão de ser varridas também – foi a dura resposta. – Deviam construir as casas novas primeiro, com rendas que aquela gente possa pagar. Se não o fizerem, limitar-se-ão a transferir o problema para Bedminster, St. Philips, Montpelier ou até, Deus ajude o seu tio, para Clifton! Aposto que não vai ficar nada satisfeito se alguns milhares de ratos de sarjeta como eu acabarem como seus vizinhos! – Porque é que fala do meu tio? – perguntou Bennett, detendo-se e agarrando-a pelos braços. Tinha aquela expressão severa que adotava sempre que estava preocupado. – E porque é que chama a si mesmo um rato de sarjeta? – É assim que ele me vê, não é? Não ia gostar se soubesse que me trouxe até aqui, pois não?


– Não, não ia – admitiu Bennett. – Mas ele não manda em mim. Sou senhor de mim mesmo e não lhe permito que me controle. – Mas vive em casa dele, portanto tem de lhe estar agradecido. – Em certa medida, sim. Mas só até ao ponto de reconhecer a sua maior experiência no tratamento da clientela que construiu e tratar a sua casa com respeito. Não o autorizo a escolher os meus amigos. – Mas tem de esconder os que são como eu. Não me poderia ter convidado para Harley Place se ele lá estivesse, pois não? Bennett não negou nem reconheceu que aquilo era verdade. Continuou a caminhar em silêncio. Hope caminhava a seu lado, consciente de que já tinha falado de mais e não de uma maneira que aumentasse a estima dele por si. Quando chegaram à margem do rio, Bennett deteve-se e ficou a olhar para a água, que era apenas uma estreita faixa a correr lenta por entre duas extensões de lodo de aspeto viscoso. Com o céu cor de chumbo por cima e as poucas árvores que cresciam ao longo da margem despidas de folhas, lúgubres como esqueletos, a cena nada tinha da beleza que teria na maré alta e com o sol a brilhar. – Não a escondi – desabafou ele de repente. – A epidemia foi tão terrível que não houve oportunidade para fazer mais nada senão tentar combatê-la. O meu primeiro pensamento quando os últimos doentes morreram ou regressaram a casa foi a seu respeito, sobretudo a respeito do seu futuro e dos meus sentimentos por si. Foi exatamente por isso que a convidei para vir aqui hoje. Hope não sabia o que responder àquilo, de modo que não disse nada. – Então? – perguntou ele, duro. – Nenhum comentário sarcástico? – Peço desculpa – murmurou ela. – Não devia ter dito aquilo. Bennett tinha o queixo projetado para a frente, como se estivesse furioso, e os olhos cravados nela. – Estou num dilema, Hope – disse. – São as circunstâncias do nosso primeiro encontro que tornam tudo tão difícil. Se a tivesse conhecido numa festa ou num jantar, saberia muito bem o que fazer. Iria visitá-la, poderia oferecer-lhe um livro de poesia, poderia até pedir ao meu tio que organizasse um evento qualquer para que pudéssemos falar e ser vistos a apreciar a companhia um do outro. Então convidá-la-ia para ir ao teatro ou a um concerto, e desde que estivesse devidamente acompanhada, e a Hope ou a sua família não me detestassem à primeira vista, poderíamos iniciar um namoro. «Mas não posso fazer nenhuma destas coisas consigo, Hope. Não vive com a sua família, não tem uma pessoa adequada para a acompanhar.» – E também não tenho as roupas nem os modos adequados – disse Hope, sombria. Ele fez uma espécie de som de exasperação no fundo da garganta. – Não é nada disso, Hope! Não são os seus modos, nem a sua família, nem nenhuma dessas coisas. Não está a compreender? Eu amo-a. Hope piscou os olhos, estupefacta. – Apaixonei-me por si quase no instante em que vi o seu bonito rosto – continuou ele. – Todos os momentos que passei consigo desde então só confirmaram que é a única rapariga em todo o mundo que eu quero. Nenhuma dessas amenidades sociais tem o mais pequeno significado para mim. Mas estou encurralado numa situação em que elas são importantes para todos os outros, e se eu as ignorar, será a Hope a sofrer. Hope tivera a certeza, quando ele falara de companhias, concertos e famílias, que estava apenas a


tentar mostrar-lhe as razões por que ela nunca se poderia encaixar no seu mundo. Mas então ele dissera que a amava, e isso anulou tudo o mais. – Ama-me? – murmurou, com ondas de prazer a descerem-lhe pela espinha. – De verdade? Ele fitou-a com os olhos tristes de um cocker spaniel. – Sim, Hope. De verdade! Loucamente, profundamente. Passo o dia inteiro a pensar em si, invento desculpas para ir vê-la, à noite não consigo dormir porque me imagino a beijá-la. – Oh, Bennett! – Hope lançou-se-lhe nos braços num gesto impulsivo. – Eu também te amo, a mim acontece-me o mesmo. Pôs-se em bicos de pés para o beijar, e quando os lábios dos dois se tocaram, os braços dele enlaçaram-na com tanta força que quase lhe cortaram a respiração. Hope nunca tinha beijado um homem nos lábios. No último ano, talvez dois, perguntara de vez em quando a si mesma, sem grande interesse, que espécie de sensação teriam as pessoas ao apertarem as bocas uma contra a outra, por lhe parecer uma improvável fonte de prazer. Mas quando os lábios quentes e macios de Bennett tocaram os seus, todas as deliciosas sensações que experimentara deitada na cama a pensar nele a inundaram como uma vaga, duas, três vezes mais fortes e doces. Não lhe importou o facto de estarem na margem de um rio, de poderem ser vistos por qualquer pessoa que o acaso fizesse passar por ali. Não lhe importou que ele fosse um médico e um cavalheiro e ela apenas uma servente de cozinha transformada em enfermeira. Só conseguia pensar que ele a amava, e que ela o amava. Nada mais importava. – Hope, minha querida, minha doce, minha bela Hope – murmurou ele, quando afastaram as bocas para respirar. – Desejei este beijo durante tanto tempo. * Houve muitos mais beijos. Andavam uns poucos metros, de mão dada, e então de repente estavam outra vez a beijar-se uma e outra vez, sem darem pelo vento frio que os açoitava nem pela lama que pisavam. Bennett passou os braços por baixo da capa dela, puxando-a ainda mais para si, acariciando-a de uma maneira que a fez sentir que se estava a derreter. Só quando se aperceberam de que estavam fora havia já mais de duas horas, e de que tinham as mãos e os pés gelados, é que voltaram para casa de Violet. – Não sei como é que vou esconder isto da Alice e da Violet – riu Bennett, enquanto se aproximavam. – Tenho a certeza de que deve estar escrito na minha cara. – E eu não sei como é que vou conseguir ficar sentada a fazer conversa de circunstância durante o resto do dia quando a única coisa que quero é beijar-te mais – respondeu Hope.

Nos meses que se seguiram à visita à pequena casa de Mrs. Charlsworth, Hope havia de pensar muitas vezes no último comentário de Bennett. Parecera tudo tão simples, na altura; sabiam que partilhavam os mesmos sentimentos um pelo outro, e que em breve arranjariam maneira de os tornar públicos. Mas não era assim tão simples. Como Bennett fizera notar, as vias habituais para a corte e o namoro estavam-lhes vedadas. Hope não tinha uma casa de família que ele pudesse visitar e Bennett não podia convidá-la para Harley Place. Sem amigos mútuos que pudessem proporcionar-lhes oportunidades de estarem juntos


devidamente acompanhados, estavam reduzidos a pouco mais do que passeios, sentarem-se num café e conversas apressadas no hospital quando Bennett ia ver os doentes. No Natal, Hope não o viu de todo, porque o Dr. Cunningham convidara amigos para as festas e queria que o sobrinho o ajudasse a recebê-los. Quando os sinos das igrejas tocaram a anunciar a chegada de 1850, estava ela a ajudar a Irmã Martha num parto de gémeos, e só dois dias mais tarde ele apareceu no hospital para lhe desejar um bom ano novo. Bennett não precisava de lhe fazer notar que não era aconselhável, naquela fase, alguém saber o que sentiam um pelo outro. Ela bem o sabia. O Dr. Cunningham arranjaria quase de certeza maneira de a despedirem do hospital e poderia até pôr fim à sociedade com o sobrinho. Mas se tivessem paciência para esperar que o tio de Bennet descobrisse por si mesmo que Hope se tornara uma excelente enfermeira, talvez o velho médico se tornasse mais recetivo à ideia. Hope estava agora colocada na maternidade, e adorava. Excetuando as ocasiões em que havia um parto muito difícil, ou quando uma mãe ou um recém-nascido morriam, era um trabalho alegre e muito gratificante. Como todas as outras enfermarias do St. Peter’s, a da maternidade estava sempre sobrelotada, e as outras enfermeiras ou eram umas preguiçosas com predileção pela bebida ou mulheres austeras, sem ponta de compaixão. No entanto, quaisquer que fossem os defeitos dos dois grupos, Hope depressa percebeu que possuíam uma riqueza de experiência que a ela lhe faltava. Sendo a mais nova da sua família, nunca tinha assistido a um parto; os seus conhecimentos em matéria de bebés limitavam-se aos que adquirira no contacto com a prole de Matt e Amy. O único atributo que levou para a enfermaria da maternidade no primeiro dia em que lá pôs os pés foi o conhecimento de que a sujidade gerava doença e a convicção de que se a eliminasse mais recémnascidos sobreviveriam. Cada vez que lavava um bebé, maravilhava-se face ao milagre do nascimento, e era o instinto puro e simples que guiava os seus gestos. Ao mesmo tempo, porém, assustava-a o facto de lhe ter sido dada a responsabilidade de velar pelo bem-estar daquelas criaturas quando pouco ou nada sabia a respeito de bebés, de partos ou até de anatomia e biologia. Pediu livros emprestados a Bennett, e apesar de trabalhar muitas vezes catorze horas por dia, passava mais duas ou três a estudá-los, desesperada por desvendar os mistérios do funcionamento do corpo humano. Talvez se estivesse em qualquer outra enfermaria lhe tivesse sido mais fácil afastar Bennett dos seus pensamentos, pelo menos durante uma parte do dia. Mas a própria natureza da maternidade era uma recordação permanente da união física. As mães eram na sua maioria mulheres licenciosas que falavam abertamente, e com grandes pormenores, das suas experiências sexuais. Por vezes Hope ficava chocada, outras achava aquelas histórias divertidas, mas quase não passava um dia sem que aprendesse qualquer coisa nova. Era nesses momentos que sentia com mais intensidade a falta de Betsy, pois ouvia tantas coisas que daria tudo para poder falar com uma amiga. Havia no hospital mulheres de que gostava – estranhamente, quase todas freiras –, mas não podia dizer-lhes que não conseguia dormir por imaginar Bennett a acariciá-la com intimidade, nem perguntar-lhes qual era o tamanho do pénis de um homem, e se magoava a mulher quando entrava nela. Nem sequer podia perguntar se era normal pensar nestas coisas. Nos momentos de pausa durante o dia, os seus pensamentos voltavam-se sempre para Bennett e ela revivia os beijos que trocavam e o que sentia quando ele a abraçava com força e lhe dizia que um dia haviam de casar e ter filhos. Inventava uma espécie de devaneio em que Bennett era o médico de uma


aldeia muito parecida com Compton Dando. Teriam um cavalo e um cabriolé para ele visitar os doentes, e a casa deles seria bonita, com roseiras a crescer à volta da entrada. Esperava ter pelo menos quatro filhos, e que eles crescessem como pessoas finas, sem nunca terem de ir servir. Também os irmãos e irmãs faziam parte deste sonho acordado, levando os filhos para os visitar. Nunca tentava sequer pensar em como iam ultrapassar o problema de Albert, porque era um milagre Bennett amá-la, e portanto tudo o mais era também possível. No entanto, a opinião do Dr. Cunningham a seu respeito preocupava-a. O tio de Bennet aparecia de longe em longe no St. Peter’s, e Hope tinha quase a certeza de que perguntava por ela porque havia sempre alguém que lhe dizia que ele tinha lá estado. Mas como ele nunca a procurava, era evidente que o seu interesse se devia apenas ao facto de ter tido um papel decisivo na sua colocação.

Quando Hope fez dezoito anos, em abril, Bennett levou-a de comboio até Bath, para passarem o dia. Já achara maravilhoso quando, no Natal, ele lhe oferecera uma capa nova, de lã azul-escura, com um capuz quente. Teria ficado contente se ele lhe tivesse comprado uma pequena lembrança, como um lenço, um livro ou um sabonete perfumado, mas o facto de ele ter escolhido uma coisa tão pessoal e bonita pusera-lhe lágrimas nos olhos. Sentava-se todas as noites no seu quarto, embrulhada na capa e a pensar nele. Nunca Bennett saberia como ela tinha ficado emocionada e deliciada. No entanto, e de uma maneira diferente, a viagem a Bath tinha um significado ainda maior, porque ele descobrira que ela andava morta por saber como era andar de comboio. Enquanto esperavam para embarcar na estação de Temple Mead, Hope estava tão excitada que pensou que o coração lhe ia rebentar. O edifício da estação era quase por si só uma visão suficientemente impressionante, com a sua gigantesca cúpula de vidro, mas Hope estava tão fascinada pelos outros viajantes que mal olhava para ele. Era toda a gente tão elegante: senhoras com capas orladas a pele e bonitos chapéus, cavalheiros de cartola e casaca. Havia crianças, também elas bem vestidas, a cargo das amas. Até as pessoas que não eram ricas e que Bennett lhe dissera que iam viajar em terceira classe pareciam ter abrilhantado o seu aspeto para a viagem. Havia, no entanto, muito mais coisas a acontecer na estação. Hope nunca tinha visto um comboio de perto, e a locomotiva era tão grande e barulhenta que quando Bennett, levando-a pelo braço, se aproximou para lhe mostrar a caldeira, Hope recuou, assustada. Grandes sacos do Royal Mail, grades com galinhas vivas, baús e embrulhos esperavam em carroças para serem carregados no comboio com destino a Londres. Hope espreitara para a sala de espera da primeira classe e vira que tinha um grande lume a arder na lareira; havia também um balcão onde vendiam chá, e carregadores vestidos com vistosos uniformes estava prontos para levar a bagagem dos passageiros. Os vários espetáculos da estação nada eram, porém, comparados com a excitação de embarcar no comboio, instalar-se num confortável assento e ouvir o guarda soprar o apito e vê-lo agitar a bandeira para dar a partida. Nem que vivesse até aos noventa e oito anos, pensou Hope, esqueceria o som daqueles pistões a rodar, o arfar cada vez mais rápido da caldeira à medida que o comboio acelerava, e de repente estavam a correr a uma velocidade assustadora, com a paisagem a voar do outro lado das janelas.


Sabia que eram precisas duas horas ou mais para chegar a Bath com um coche e quatro cavalos, e quase um dia de carroça. Mas a viagem de comboio demoraria apenas meia hora. Quando saíram da estação, Hope quis ficar imóvel só a olhar, porque Bath era muito diferente de Bristol. Não que as ruas estivessem menos apinhadas de pessoas, cavalos e carruagens, ou que houvesse menos pedintes, varredores de improviso ou crianças andrajosas. Era a atmosfera geral, muito mais calma e gentil. Pessoas elegantemente vestidas passeavam de braço dado sob o sol primaveril, e até as matronas, mais sóbrias na indumentária, tinham um ar muito mais abastado do que as suas homólogas de Bristol. Mas foi a cidade propriamente dita que mais a impressionou. As ruas principais eram mais largas e os edifícios de pedra amarela muito elegantes, sem nada a ver com as velhas e decrépitas casas da cidade portuária. Até o rio Avon parecia mais limpo, e Hope adorou a ponte que o atravessava, ladeada de pequenas lojas a todo o seu comprimento. – É porque foi construída nos últimos cento e cinquenta anos – disse Bennett, à laia de explicação. – Vês como algumas das casas são parecidas com as de Clifton? Muitas delas foram desenhadas pelos mesmos arquitetos. Mas Bath não tem a indústria de Bristol para a tornar tão suja; os Banhos Romanos são a principal atração. Os ricos vêm para cá cuidar da saúde, convencidos, pobres patetas, de que alguns goles de água intragável curarão tudo, desde a gota à sífilis. Hope sorriu para si mesma. Era evidente que Bennett não acreditava que a água tivesse qualquer espécie de propriedade mágica e reprovava os que lucravam com a credulidade alheia. Bennett parecia saber muito bem aonde ia, pois apontou-lhe os Pump Rooms, onde disse que os ricos ociosos se juntavam, e em seguida guiou-a por uma série de ruas estreitas até por fim se deter diante da porta de uma pequena loja com montras em arco. – É aqui que vou comprar a tua prenda – anunciou, beijando-a na face. – Mas vir a Bath era o meu presente – disse ela, olhando para a loja de montras em arco e apercebendo-se de repente de que era uma joalharia. – Não tens dinheiro para comprar nada aqui. – Tenho – afirmou ele, com um sorriso. – Mas primeiro quero perguntar-te uma coisa. Hope olhou para ele, à espera. – Diz. – Casas comigo? Ela estava à espera que ele lhe perguntasse se queria um alfinete para conjugar com a capa, ou até um medalhão. Nunca, nem nos seus sonhos mais loucos, o imaginara a pedi-la em casamento, pelo menos até resolverem a questão de como dizer ao Dr. Cunningham o que sentiam um pelo outro. – Mas não podemos! O teu tio! – Não estava a dizer já. – Bennet riu-se da expressão espantada dela. – Só queria que conhecesses as minhas intenções, e oferecer-te um anel como penhor. Hope demorou alguns segundos a assimilar o que ele acabava de dizer. E então lançou-lhe os braços ao pescoço, a rir de felicidade. – Adorava casar contigo, este ano, para o ano, em qualquer altura. A tua palavra teria sido o suficiente para mim. Não preciso de um anel. – Mas eu preciso de te mostrar tudo o que significas para mim – disse ele, apertando-a contra o peito. – Ainda que não o possas mostrar já a toda a gente. – Nesse caso vou usá-lo ao pescoço, por enquanto. Amo-te tanto, Bennett.


Mais tarde, sentados num banco do parque junto ao rio, Hope estendeu a mão a Bennett. – Vê como brilha – disse. Bennett tinha-lhe comprado um fio de ouro para suspender o anel, mas naquele dia ela estava a usá-lo no dedo. Bennett pedira desculpa por ser um diamante tão pequeno, mas para ela era uma coisa que qualquer rainha usaria. – Não brilha tanto como tu – disse ele a sorrir, e beijou-lhe as pontas dos dedos. – És o meu amor e a minha vida, espero que te lembres disso quando te disser o que decidi. – Vamos fugir os dois esta noite? – sugeriu ela. – Não, isso não seria sensato, não tendo eu dinheiro para te sustentar. Mas tenho um plano para resolver esse problema. Decidi alistar-me no Exército como médico. Hope sentiu o coração afundar-se-lhe no peito. – Oh, não, Bennett! – exclamou. – Não podes fazer isso. Nunca te veria, podes ser morto. – Os médicos militares não combatem – disse ele, e sorriu-lhe com ternura. – Deixa-me explicar até ao fim. Estará sempre tudo contra nós enquanto eu estiver na mão do meu tio. Não tenho meios para lançar a minha própria clínica, e se entrasse para outra qualquer como médico subalterno, ficaria ainda pior do que estou agora. Mas no Exército não estarei obrigado a ninguém. – Mas vais ter de ir para longe – protestou ela, com lágrimas a arderem-lhe nos olhos. – Podias vir comigo – disse ele. – Não seria uma aventura? Talvez fôssemos parar à Índia! – Mas deixar-me-iam ir contigo? – Tenho a certeza que sim. Mas o mais provável neste momento, em que não há nenhuma guerra em curso, era ficarmos encravados num lugar qualquer como Winchester, comigo a tratar de furúnculos e coisas assim. E que vantagem tu representarias para mim! Ao fim e ao cabo, quantos médicos têm uma mulher que seja enfermeira? Hope olhou-o nos olhos, a perguntar-se se ele teria de facto pensado bem em tudo aquilo. – Já investigaste a possibilidade? – Não, queria saber primeiro a tua opinião. – Não sei – disse ela, hesitante. – Se casássemos – continuou ele, a apertar-lhe a mão –, podias escrever para casa. Quero dizer, estarias casada com um militar, de modo que, além de pedires desculpa por não teres dito nada durante tanto tempo, não precisarias de lhes explicar as verdadeiras razões por que partiste. Hope sorriu, porque o entusiasmo dele era contagioso. Na realidade, sabia que aquilo não resultaria, porque a família inteira ia ficar furiosa com ela por os ter preocupado tanto. Mas não ia estragar aquele momento dizendo-o. – Não nos preocupemos com eles, de momento – disse. – Aproveitemos o dia. – Certo. Primeiro vamos arranjar um sítio para almoçar – disse, pondo-se de pé e obrigando-a a levantar-se também. – Depois poderemos visitar Bath. Horas mais tarde, nos Pump Rooms, Hope fazia um esforço enorme para não rir. Assim que entrou e viu toda aquela gente elegante ali reunida, Bennett fingiu sofrer de uma terrível doença. Esticou um ombro, entortou as costas, fez caretas e coxeou, dando várias voltas à sala para que todos reparassem nele. Alguns dos presentes pareceram ofendidos pelo seu aspeto, outros trocaram murmúrios, talvez de pena. Então, quando teve a certeza de que todos os olhares estavam fixos nele, Bennett dirigiu-se à bomba para encher o seu copo de água medicinal. Hope, que lhe adivinhara o plano, tinha ficado perto da porta. Se tivesse dado a volta com ele ter-


se-ia desmanchado a rir e estragado o efeito. Mas Bennett desempenhou o seu papel melhor do que ela esperava, e enquanto ele bebia com gestos cuidadosos o seu copo de água viu que todos o observavam com atenção. Enquanto bebia, Bennett fazia pequenos barulhos com a boca, para se certificar de que ninguém desviava o olhar. O braço esquerdo disparou para cima, como que animado por vontade própria, enquanto a perna esquerda não parava de tremer. – Está a resultar! – gritou, com um cerrado sotaque do Somerset. – Sim, está a resultar! Sinto os poderes a agirem dentro das minhas entranhas! Hope teve de tapar a boca com a mão para não rir à gargalhada. Bennett sacudia-se, contorcia-se, e engolia a água tão depressa que ela lhe escorria pelo queixo. As pessoas olhavam, fascinadas: umas pareciam assustadas, como se pensassem que ele estava a ter um ataque, mas as restantes tinham os olhos muito abertos de espanto, e o único som além dos gemidos e suspiros de Bennett era o de murmúrios espantados. Pouco a pouco, Bennett endireitou-se. Olhou para si mesmo, com uma expressão de incredulidade. Segurou o rosto entre as mãos e avançou para um grande espelho, como que para se certificar de que não estava enganado. – Aleluia! – gritou. – Estou curado! Estou curado! Hope fez a única coisa que podia fazer: correu para ele e abraçou-o. – Estava torcido e dobrado desde o dia que nasceu – anunciou, a imitar-lhe o sotaque rústico. – Agora tenho de o levar para casa, para que a nossa mãe também possa ver este milagre. Tinha lágrimas a correrem-lhe pelas faces, mas eram do esforço de reprimir o riso. Enquanto arrastava Bennett para fora, teve de morder o lábio ao ouvir nas suas costas exclamações como «Alguma vez viram uma coisa assim?», e «Era um aleijado e agora está curado», e outras do mesmo teor. Como conseguiram chegar à esquina sem se dobrarem de riso Hope não saberia dizer, mas mal desapareceram de vista como que explodiram em gargalhadas e, agarrados um ao outro, riram até lhes doer o peito. – És a desgraça da profissão médica – engasgou-se Hope. – Agora vão beber litros daquela água e ficar doentes. Bennett limpou as lágrimas dos olhos. – As caras deles! – exclamou. – «É um milagre! Estou curado!» – Devias ter vergonha – riu Hope. – Mas imaginas o que vai acontecer dentro de algumas horas? A notícia vai espalhar-se por Bath, toda a gente vai falar do milagre. – Hoje aconteceu um milagre verdadeiro – disse ele, puxando-a para si e beijando-a. – Aceitaste casar comigo. – Isso foi antes de ficar a saber como consegues ser pateta – respondeu ela. – E queres saber o mais engraçado? Fez-me amar-te ainda mais.


CAPÍTULO 16

1853

D

e pé junto à janela do seu quarto, Lady Harvey olhava para a casa do guarda-portão, ao fundo do caminho de acesso. Uma espessa camada de geada embelezara os campos nus e as árvores despidas de folhas, transformando-os no género de cena invernal que em tempos gostara de capturar em aguarelas. Mas naquele momento mal os via, consciente apenas da pequena casa de pedra cinzenta à distância, a casa em que, até Nell a ter deixado, mal reparava. Saíam fiapos de fumo da chaminé, e ela perguntou-se como seria viver lá agora que Albert estava sozinho. Para sua vergonha, nunca visitara Nell quando ela estava com ele; nem sequer perguntara se estava bem instalada, ou se poderia fazer alguma coisa para tornar a casa mais acolhedora. Sabia que naquele dia ir ter de lidar com Albert. Não podia adiar o assunto, pois era possível que não voltasse a ter uma oportunidade tão boa nos próximos meses. William estava em Londres e Rufus voltara ao colégio na manhã anterior, depois das férias de Natal, de modo que se Albert fizesse uma cena ninguém saberia. Tinham passado seis longos anos desde que Nell se fora embora, e os remorsos de Anne em relação àquele dia não tinham parado de crescer. Ao princípio, fora apenas o quebrar de uma rotina confortável. Claro que nunca antes se esperara dela que se vestisse sozinha ou arranjasse o seu próprio cabelo, e muito menos que lavasse a roupa, arrumasse o quarto ou remendasse roupa, mas depressa se tornou evidente que a partida de Nell causara muito mais estragos do que os que tinham sido de imediato evidentes. Descobrira que, na realidade, eram Nell e Baines que, entre os dois, governavam a casa; estabeleciam os padrões para os outros criados e certificavam-se de que nunca o senhor e a senhora tinham de se preocupar com a maneira como as muitas tarefas do dia a dia eram desempenhadas, ou por quem. Baines era o capitão, Nell mais um soldado, mas eram a energia dela, o seu orgulho em Briargate e o calor da sua personalidade que criavam o ambiente que mantinha todo o restante pessoal contente e disposto a trabalhar. Sem ela, Baines não tardou a ir-se abaixo, as suas ordens eram ignoradas, os criados discutiam entre si e atiravam as culpas dos trabalhos deixados por fazer para cima uns dos outros. Agora, as refeições eram muitas vezes servidas com atraso, os quartos nem sempre eram limpos, e um ambiente tenso e pesado substituíra a alegre azáfama de antigamente. Quanto a Albert, pavoneava-se de um lado para o outro como se fosse o dono de tudo, e toda a gente, incluindo ela própria e Sir William, se sentia enervada na sua presença.


Logo nos primeiros tempos depois da partida de Nell, Anne soube que precisava de se mexer e assumir o controlo, mas não o fez. Demasiado tarde, viu que Nell tinha sido muito mais do que uma simples criada; porque além de ser amiga, irmã e mãe da patroa, funcionara como um escudo que a protegia das duras realidades da vida. Sem a sua criada sentia-se vulnerável, com medo e muito sozinha. Além disso, carregava um pesado fardo de culpa por não a ter defendido e apoiado quando ela mais precisava. Volvidos seis anos, ainda corava de vergonha ao recordar como devia ter parecido dura e insensível quando Nell a informou de que Hope era sua filha. A única coisa que podia alegar em sua defesa era que não pudera acreditar que fosse verdade. Quem acreditaria que uma jovem criada pegasse numa bebé e a criasse como sua irmã sem qualquer espécie de recompensa, só para proteger a patroa? E a insistência de Nell em que Albert tinha assassinado Hope parecia um histérico melodrama. Nas semanas seguintes, Anne permanecera numa espécie de negação de que Hope era sua filha. Oscilou entre a raiva por a sua criada a ter abandonado, o medo de que ela pudesse espalhar aquela história ridícula e um angustiante desprezo por si mesma por não ter sabido prever que uma criada que sabia tanto podia ser muito perigosa. Mas à medida que as semanas passavam sem que qualquer boato escandaloso lhe chegasse aos ouvidos, e com tempo para refletir em tudo o que Nell lhe dissera, acabou por compreender como fora injusta. Ouviu rumores a respeito de Nell ter enlouquecido de desgosto por causa do desaparecimento da irmã mais nova, embora fosse claro que não dissera fosse a quem fosse uma palavra sobre a antiga patroa. Mesmo no fundo da sua angústia, Nell permanecera leal. O reverendo Gosling apareceu em Briargate, incandescente de fúria por Nell ter coberto a família de vergonha ao quebrar os votos matrimoniais. Exortou Anne a ir falar com ela, fazê-la recuperar o juízo e voltar para o marido, ou em alternativa deixar a aldeia para sempre. Mas Anne sabia que Nell nunca voltaria para Albert, e não conseguia arranjar coragem para lhe sugerir a alternativa, ou sequer, para ser franca, encarar Nell. Por isso fez o que sempre fazia quando confrontada com um problema, fosse o crescente alcoolismo de William ou o rápido desaparecimento da fortuna do casal: fingiu que não existia. Foi um alívio saber que Nell tinha saído de casa do irmão e arranjado trabalho perto de Bath. Se alguém sabia o nome do novo patrão, não chegou aos seus ouvidos, e ela fez os possíveis por esquecê-la. Rufus, porém, não a deixava esquecer Hope. Sempre que ia a casa de férias, a primeira coisa que fazia era perguntar por ela. Afirmava que Hope fora a sua única verdadeira amiga, admitindo que costumavam encontrar-se no bosque e brincar juntos. Parecia ter um prazer quase maligno em contar a história de como ela o salvara de morrer afogado no lago, e insurgira-se contra a indiferença da mãe quando Meg e Silas Renton tinham morrido, deixando a rapariga órfã. Anne perguntava-se muitas vezes como reagiria ele se soubesse que Hope era sua meia-irmã. Só pensar nisso fazia-a tremer de medo. O pior de tudo, porém, era Rufus parecer ter uma ligação muito mais forte aos Renton do que à própria mãe. Mal chegava a casa de férias, saía a correr para a quinta de Matt. Por vezes ficava lá do nascer ao pôr do sol, regressando coberto de sujidade e com histórias a respeito de mungir vacas, recolher ovos, lavrar e semear a terra. Anne sentia a trágica ironia do facto de os Renton terem recebido a sua primogénita e a terem


criado como se fosse deles e agora Rufus querer juntar-se também à família. Talvez devesse proibi-lo de ir, ou pelo menos insistir que fosse com menos frequência, mas, até há bem pouco tempo, o comportamento do pai fora tão atroz que sentia que o filho estava melhor longe de casa. Pouco depois de Nell se ter ido embora, Sir William começara a beber ainda mais, ao ponto de raras vezes estar sóbrio quando se encontrava em casa. Fechava-se no gabinete com uma garrafa e quando de lá saía, aos tropeções, era para a insultar a ela ou a quem tentasse chamá-lo à razão. Então, de repente, desaparecia sem aviso e sem dizer para onde ia, e ficava fora dias seguidos. Para sua vergonha, Anne dava muitas vezes por si a desejar que tivesse um acidente fatal e a deixasse livre de voltar para casa, para junto das irmãs. Sabia que era uma maldade pensar aquelas coisas, mas estava no seu limite e não tinha para quem se voltar. Até Angus a abandonara de vez. Podia ter sido ela a pôr fim à relação, mas pensava que ele podia ao menos ter conservado afeto suficiente para aparecer de vez em quando a indagar como estava. Mas então, quando pensava que nunca mais voltaria a vê-lo, deu de caras com ele. Acontecera havia menos de um mês, três dias antes do Natal. Tinha ido a Bath comprar algumas prendas. Milsom Street estava apinhada de gente, um realejo tocava alegremente, as montras das lojas estavam enfeitadas e alegres, os vendedores de castanhas assadas exortavam aos berros as pessoas a comprar o seu produto. O ambiente festivo animou-a muito e recordou-lhe que Rufus chegaria a casa no dia seguinte, e que ainda na noite anterior William admitira que tinha estado a comportar-se de uma maneira abominável e prometera mudar. Anne não estava muito otimista quanto a esta última parte. Não era a primeira vez que ele fazia a mesma promessa, só para a quebrar poucos dias mais tarde, mas naquela noite escondeu a cara no regaço dela e chorou como uma criança. Disse que a bebida era a sua maneira de esquecer o medo de perder a fortuna. Acrescentou que a desiludira a ela e a Rufus, que a casa estava a ficar em ruínas e que tudo aquilo era demasiado para ele. Anne sentiu que tinha de tentar voltar a acreditar nele. Sugerira-lhe que, depois do Ano Novo, falasse com os seus solicitadores e tentasse saber exatamente quanto dinheiro lhes restava; poderiam então fazer planos para lidar com a situação, por muito má que ela fosse. De momento, a única coisa que queria era que tivessem um feliz Natal e se voltassem a aproximar um do outro. Acabava de comprar um lenço de seda azul para William e descia a rua para comprar um novo conjunto de tintas para Rufus quando viu Angus avançar na sua direção. O choque foi tão grande que quase tropeçou. Estava de uniforme; o dólman azul com os galões dourados e os calções cor de cereja faziam-no parecer ainda mais alto e mais bonito do que se lembrava. Não pareceu ficar surpreendido ao vê-la, pois a sua expressão não se alterou. – Bom dia, Lady Harvey – disse, fazendo uma pequena vénia formal. – Espero que esteja bem. Anne recompôs-se, contente por estar a usar a capa azul debruada a arminho e a touca a condizer porque, apesar de estar já fora de moda, sabia que lhe ficava bem. Mas ficou confusa, pois apesar de terem passado seis anos desde que lhe escrevera na sequência do funeral do pai, havia oito que não estavam frente a frente, e sabia que esses anos se notavam no seu rosto. – Estou muito bem, obrigada – conseguiu tartamudear, notando que ele tinha as têmporas salpicadas de cabelos brancos e que rapara o bigode. – Está em casa de licença?


Lembrava-se de ele ter feito um qualquer comentário sardónico a respeito de não haver nenhuma boa guerra disponível de momento e de os soldados estarem a ficar gordos e preguiçosos. Perguntoulhe se estava com os pais, em Chelwood. – Não, tenho uma casa minha há já alguns anos – respondeu ele, num tom bastante seco. – Peço desculpa por a minha última carta ter sido tão fria e definitiva – murmurou ela. – Estava a passar por momentos difíceis com o William e com a morte da minha mãe, e tão pouco tempo depois a do meu pai, e a ida do Rufus para o colégio, nem sabia onde tinha a cabeça. – Suponho que essa é também a sua desculpa para tratar tão mal a Nell? – dissera Angus. – A Nell? – repetiu ela, estupefacta não só pela acusação mas sobretudo por ele ter sabido que a sua criada deixara Briargate. – Não sei como ouviu falar disso... A Nell foi-se embora de sua livre e espontânea vontade! – Raios, Anne, não lhe deste outra alternativa. Na sua fúria, Angus ergueu a voz, pondo de lado o tratamento formal que adotara ao princípio. – Como podia ela ficar com o canalha do marido? Segundo sei, o homem continua em tua casa. Anne olhou em redor, nervosa, com medo de serem vistos por alguém que a conhecesse. Queria perguntar-lhe se podiam falar noutro local onde dessem menos nas vistas, mas não sabia como fazêlo. – Quis despedir o Albert, mas o William não deixou – conseguiu dizer. – E era Natal – concluiu, sem convicção. Angus arqueou uma sobrancelha. – E tu, como boa cristã que és, achaste que era melhor que a mulher que te tinha dedicado a maior parte da sua vida fosse banida para manter a paz? – Não foi nada disso. – Anne estava a perder rapidamente a compostura face ao sarcasmo dele. – Só deves ter ouvido uma versão distorcida do que aconteceu. – Não, ouvi a verdade nua e crua – disse ele, sombrio. – Que a Nell estava convencida de que o Albert tinha assassinado a irmã mais nova, e que tu e o William recusaram levá-la a sério. Quando a encontrei e a levei para casa como minha governanta, era uma mera sombra da rapariga desembaraçada que tinha conhecido em Briargate. – Tua governanta? – arquejou Anne, espantada por Rufus não lhe ter dito nada daquilo, pois com certeza Matt havia de lho ter mencionado. Os pensamentos rodavam frenéticos na sua mente. Teria Nell dito a Angus que era o pai de Hope? – Sim, e a melhor governanta que um homem poderia arranjar – respondeu ele, com um sorriso débil. – Só um louco deixaria fugir tal tesouro. Anne sentiu-se castigada. – Quanto a isso estamos de acordo – admitiu. – Tenho tido tantas saudades dela. Mas, Angus, chamámos a polícia para procurar a Hope, e não encontraram nada de suspeito. Ficou toda a gente convencida de que ela tinha na verdade fugido. – A Nell não acredita nisso, porque pensa que se a Hope estivesse viva já teria entrado em contacto com um dos irmãos ou irmãs. Estou inclinado a acreditar que fugiu, mas tenho a certeza absoluta de que foi o Albert que a obrigou. Se estivesse na minha mão, pegava num chicote e arrancava-lhe a verdade à pancada, para que ao menos a Nell pudesse ter alguma paz de espírito, mas não me compete a mim fazê-lo; deve ser feito pela família dela ou pelo William. Era evidente, por aquelas palavras, que Angus não sabia que Hope era sua filha. Estava indignado


por pensar que ela e William não se tinham preocupado o suficiente com duas criadas leais e trabalhadoras. Mas se soubesse quem Hope era na verdade, correria no mesmo instante a Briargate para espancar Albert, e quase de certeza teria vontade de lhe fazer o mesmo a ela. Tinha receio de enfrentar o olhar dele, e apesar de ter prometido que trataria ela própria de Albert e de lhe ter pedido que desse carinhosas lembranças suas a Nell, a expressão pétrea dele deixou bem claro que não sentia por ela nada senão desprezo. Pediu licença e afastou-se apressada, corada até à raiz do cabelo. Sempre soubera que Angus detestava a injustiça e a crueldade – vituperava com frequência as terríveis condições em que viviam os soldados –, pelo que não era de espantar que tivesse oferecido refúgio a Nell em sua casa. Enquanto se afastava dele naquela manhã em Milsom Street, viu com total nitidez os seus próprios defeitos. Era uma mulher fraca, vazia e egoísta que durante toda a vida se servira do afeto e da lealdade de outras pessoas sem oferecer nada em troca. Não admirava que não houvesse vestígios de amor nos olhos de Angus.

Durante todo o Natal, não conseguiu pensar noutra coisa senão nele. Não era novidade para ela perder-se em pensamentos a respeito do antigo amante. Ao longo dos anos, passara milhares de horas a percorrer toda a gama de emoções, a amá-lo, a odiá-lo, a culpá-lo por lhe ter arruinado a vida, e ao mesmo tempo a fremir de excitação quando recordava as cenas de amor e sempre a ansiar mais. Agora, porém, era diferente. Não havia frémitos de desejo, nem ódio ou culpa, tudo o que via era como tinha sido egocêntrica e insensível. Angus era um homem de honra. Apaixonara-se por ela mas tentou lutar contra a vontade de levar aquele amor mais longe porque ela era uma mulher casada. Foi ela que fez com que tudo acontecesse, provocando-o, tentando-o e pressionando-o. Ele quis acabar com tudo inúmeras vezes, mas ela não deixou, chegando ao ponto de ameaçar matar-se. Só viu sempre como era para ela: a falta de futuro, a vergonha se fossem descobertos, a infindável espera quando ele se ausentava. Nunca, nem uma única vez, considerou os sentimentos dele ou viu que estava a impedi-lo de casar com alguém com quem pudesse fundar um lar e que lhe desse filhos. Sabia que já era demasiado tarde para reparações, para o compensar por todos aqueles anos perdidos, pelo desgosto por que o fizera passar. Mas uma coisa podia fazer, uma coisa que sabia que tanto ele como Nell apreciariam: interrogar Albert a respeito de Hope. Se conseguisse levá-lo a admitir o que na verdade acontecera naquele dia e porquê, talvez isso contribuísse para atenuar a dor que Nell sentira e continuava a sentir. Infelizmente, tinha medo de Albert; ele olhava para ela com uns olhos escuros e penetrantes que a faziam estremecer. Por norma, evitava qualquer contacto com ele, porque sentia que Albert estava convencido de que fora ela que incitara Nell a deixá-lo. Mas tinha de ser corajosa e enfrentá-lo ou continuar com vergonha de si mesma pelo resto da sua vida. Além disso, Hope era sua filha. Que mãe não quereria saber o que acontecera a um filho? Hope faria vinte e dois anos em abril. Talvez já estivesse casada, com filhos. Como era horrível recordar que durante tantos anos nunca se permitira pensar na sua primogénita! Nunca perguntara a Bridie onde estava enterrada, nunca sequer pensara na idade que teria se fosse viva, ou se perguntara como seria. E no entanto, nos últimos dois anos, quando já era demasiado tarde, pensava


constantemente nela. Calçou uns sapatos mais resistentes, pôs uma capa sobre os ombros e saiu pela porta principal. Albert estava a limpar umas silvas que tinham crescido na orla do jardim, do lado oposto. Enquanto avançava para ele, sentia-se cada vez mais nervosa. Albert era um homem forte, e se tinha matado Hope podia atacá-la também se o pressionasse demasiado. Além disso, era obstinado. Qualquer outro na sua situação ter-se-ia ido embora, pois era do conhecimento geral que Matt, Joe e Henry Renton o odiavam. – Bom dia, Albert – disse, quando chegou junto dele. – Preciso de falar consigo. Ele não se voltou, continuando a arrancar as silvas. – Pare com isso – ordenou ela, num tom firme. – Espero que olhe para mim quando estou a falar consigo. Ele voltou-se então, mas o seu rosto era uma máscara de indiferença. – Sim, m’lady – respondeu, com indisfarçada insolência. – Quero que me diga a verdade a respeito do dia em que a Hope se foi embora – continuou Anne. – Não estou satisfeita com a explicação que deu na altura. – Ah, não está? – disse ele, mirando-a de alto a baixo como se ela fosse uma vulgar criada. – Deve ser por achar a vida difícil sem uma criada. Ninguém para lhe prender o cabelo ou encher a banheira. O facto de ele a ver como uma patética criatura que só sentia ressentimento por ter de cuidar de si mesma agora que a sua criada se fora embora era mais um motivo de vergonha. – Não foi a mim que ela deixou, foi a si – retorquiu, a fazer um esforço para impedir que a voz lhe tremesse. – Infelizmente, não me foi possível conservá-la continuando você aqui. Sei que lhe batia, e à Hope também. Os homens que batem em mulheres são cobardes. – Ah, sim? – disse, e avançou alguns passos na direção dela, com o queixo projetado para a frente numa expressão ameaçadora. – Tem então muita experiência com homens? Anne sentiu o estômago contrair-se-lhe de medo, não só pela maneira como ele a olhava, mas também pela farpa implícita na pergunta. – É minha intenção pedir uma nova investigação sobre o desaparecimento dela – disse, com mais coragem do que sentia. – Estou a dar-lhe a oportunidade de me dizer a verdade agora, antes que eu vá falar com a polícia. – Olhe que não vai querer falar com a polícia – disse ele, com um sorriso torcido. – Tem demasiado a esconder. – Como? – exclamou ela, com alguma indignação. – Sei com quem andava enrolada. Arranje-me problemas, e eu arranjo-lhe problemas a si. Mas deixe-me dizer-lhe que tenho provas, e a senhora não. O medo voltou a contrair as estranhas de Anne. Havia muito tempo que Angus não visitava Briargate, e dos que sabiam dessas visitas já só restava Baines, de modo que talvez pudesse desafiar Albert a mostrar o seu jogo. – Não faço ideia do que está a falar – disse, seca. – Está enganado. É melhor mostrar-me essa suposta prova. – Não a tenho comigo neste momento – respondeu ele. – Mas está em lugar seguro. Uma carta do capitão Angus Pettigrew, dos Hussardos Reais, nada menos. Andou a cheiricar à sua volta durante anos.


Um arrepio gelado desceu pela espinha de Anne, pois de súbito compreendeu onde e como ele obtivera a carta. Devia tê-la tirado a Hope enquanto ela estava longe a enterrar o pai. – Esta deixou-a sem fala, não foi – comentou ele, com os olhos a brilharem de malícia. – Então, ainda vai falar com a polícia? Anne voltou costas e fugiu para casa.

Durante os três ou quatro dias seguintes, não parou de se censurar por ter provado a sua culpa ao fugir de Albert. Que podia fazer? Agora que o ameaçara com a polícia, ele era bem capaz de contar tudo a William só para se vingar. Não conseguia comer, dormir ou estar quieta, e quando William voltou a casa, teve de fingir uma dor de cabeça para se poder fechar no seu quarto. No dia seguinte, viu William falar com Albert no jardim e aguardou, à espera de a qualquer momento ver o marido entrar, furioso, para a interpelar. Mas não aconteceu. William estava até muito bem-disposto quando entrou, e a única coisa de que quis falar, mais tarde, foi a possibilidade de venderem algumas das peças de mobília mais valiosas para realizar dinheiro. Nos dias que se seguiram, no entanto, sempre que se aproximava das janelas Albert olhava para ela, sorria e agitava um papel que só podia ser a carta de Angus. A tensão, aliada à falta de alimento e de sono, tornava-a trémula e desastrada. Deitou ao chão um bibelot que estava na consola da lareira, entornou por duas vezes a chávena de chá e por fim prendeu o salto do sapato na orla do vestido quando descia a escada e rolou até ao fundo. Bateu com a cabeça e com o braço, e William chamou o médico, presumindo que ela estava cheia de dores porque não parava de chorar. O médico disse-lhe que ia ficar bem, que só estava abalada. Mas Anne soube que ele tinha dito mais qualquer coisa a William, pois mal se foi embora o marido voltou ao quarto e sentou-se na beira da cama. – Conta-me o que é que na verdade te perturba – pediu. – Tens andado enervada desde que voltei de Londres. O Baines disse-me que não comes. Era irónico o facto de William ter optado por voltar a ser o homem gentil e bondoso com que casara, cheio de preocupação por ela, e isso fê-la chorar ainda mais. Ele afastou-lhe o cabelo do rosto e disse-lhe que sabia que era o responsável por aquela tristeza. – Costumávamos ser amigos tão chegados – continuou. – Lembras-te de como costumávamos rir juntos? Contávamos tudo um ao outro. Não podemos tentar voltar a ser assim? Também ela o desejava, mas não podia contar-lhe a verdade por muito que quisesse, porque o magoaria demasiado. Os dias passavam e ela continuava na cama, embrulhada na sua infelicidade. Mas William não voltou à bebida; levava-lhe as refeições ao quarto e até lhe dava de comer, como a uma criança. Pediu-lhe vezes sem conta que lhe perdoasse por beber e por ter perdido o dinheiro dos dois, e até admitiu ter-se portado mal com ela e com as irmãs quando o sogro morrera. Era verdade que ele lhe devia um pedido de desculpas por todas aquelas coisas, mas Anne sentia as suas próprias faltas queimarem-lhe o peito, e porque continuava a não ser capaz de as admitir, atacava-o a ele. – Nunca foste um verdadeiro marido para mim – soluçou. – Estamos casados há quase vinte e sete


anos, mas só te deitaste comigo menos de seis vezes. Sabes como é que isso me faz sentir? Faz-me sentir feia e indesejável. O rosto de William esmoreceu, e ele começou a chorar. Então ela encheu-se de pena e abraçou-o para o confortar, espantada por ele ter levado aquilo tão a peito. Ao ver que ele continuava a soluçar, Anne sentiu-se obrigada a suavizar a sua acusação. Disse que a culpa era quase de certeza sua, que talvez ele pensasse que ela não apreciava as suas atenções. Nem sequer pensava no que estava a dizer; tudo o que queria era que ele parasse de chorar. – Não me arranjes desculpas – desabafou ele a dada altura. – A culpa é toda minha e não há no mundo nada que mais desejasse do que não ser aquilo que sou. Será que não compreendes, Anne? Não sinto desejo por qualquer mulher. Só por outros homens. Por um brevíssimo instante, Anne julgou não ter percebido bem o que ele dissera. Mas quando William ergueu os olhos para ela com o ar de um rapazinho apanhado com os dedos dentro do boião da geleia, soube de repente que era verdade. – Não! – exclamou. – Não pode ser. Tu não! Estava para lá do choque, para lá até do horror. Era demasiado espantoso. Nenhuma mulher podia estar casada com um homem durante tanto tempo e não descobrir uma coisa daquelas. Tudo o que sabia a respeito de homens com aquele problema era o que aprendera com Bridie. Pouco antes de ela casar com William, Bridie contara-lhe a história de um mordomo e de um cavalariço da casa onde antes trabalhara, que foram despedidos ao serem encontrados juntos na cama. Bridie chamava-lhes «maricas», mas explicou que os homens assim eram chamados sodomitas. Anne perguntara-se muitas vezes o que fora que levara a sua antiga criada a contar-lhe uma coisa daquelas, mas parecia-lhe agora evidente que Bridie sentira que William podia ser um deles e tentara alertá-la. – Tenho sido tão injusto para ti – soluçou William. – Juro por Deus que não sabia quando casámos, mas depressa percebi que havia qualquer coisa que não estava bem. Mas não podia falar do assunto, contigo ou com quem quer que fosse. Amava-te de verdade; continuo a amar-te, peço-te que não duvides disso. Mas depois de ter conseguido dar-te o Rufus, pensei que não faria mal seguir o meu próprio caminho. De uma maneira estranha, Anne sentiu uma espécie de alívio. Se era porque o que William acabava de dizer lhe dava alguma justificação para o seu próprio comportamento ou porque estava finalmente ali a resposta para as perguntas que durante tanto tempo fizera a respeito do seu casamento, ela não sabia dizer. Mas, de súbito, deixou de se sentir tão acossada. Ouviu, com horrorizado fascínio, o marido contar-lhe como tinha sido seduzido por outro homem num jogo de cartas em Londres, um ano depois de terem casado. – Odiei-me por ter cedido – disse ele, a soluçar. – Mas era mais forte do que eu. Talvez se não tivesse também experimentado o êxtase do prazer proibido Anne não fosse capaz de compreender aquela explicação. Mas as palavras de William eram as que teria usado para descrever a sua própria infidelidade. Muitas vezes se insurgira no seu íntimo contra a injustiça de uma sociedade que não só aceitava que um homem tivesse uma amante como quase o aplaudia, ao passo que uma mulher adúltera era vista como uma prostituta e condenada por todos. Era um mundo de homens. Um homem podia violar as criadas, frequentar bordéis e levar doenças para casa para as transmitir à mulher; podia até desflorar crianças sem receio de ser punido. Mas, absurdamente, não podia preferir parceiros


sexuais do seu próprio sexo sem ser considerado um animal pervertido, e se fosse desmascarado, seria ostracizado pela sociedade. Anne não queria que William se tornasse um pária. Não gostava do que ele lhe dissera, mas não lhe parecia que tivesse culpa de ser como era, apesar de pensar que se os desejos dele fossem normais, talvez ela não lhe tivesse sido infiel. De certa maneira, foi como apontar uma luz para um canto escuro, pois de repente estava a lembrar-se de como era quando se tinham conhecido e casado, e a ver que havia muitas pistas a sugerir-lhe que ele era diferente dos outros jovens da sua idade. Era quase belo com os seus compridos caracóis louros e as faces lisas e sem um único pelo. Sentia-se sempre mais à vontade com mulheres do que com homens. Na noite de núpcias, admirara a bonita camisa de dormir dela, mas não mostrara verdadeiro entusiasmo pelo que estava por baixo. Na realidade, tinham sido mais duas amigas do que marido e mulher, deitados na cama a rir ou a perseguirem-se um ao outro pelas escadas. Se não tivesse conhecido Angus e descoberto o que os verdadeiros homens faziam com as mulheres, e William não tivesse conhecido alguém igual a ele na América, podiam ter ficado para sempre naquela amizade imperturbada e despojada de paixão. – Pobre William – disse, apertando-o contra o peito. Podia ser magnânima, agora que descobrira a beleza e o êxtase de uma paixão normal. Encorajado pela compaixão dela, William pôs a alma a nu, contando-lhe como tinha conhecido muitos homens iguais a ele, obrigados a procurarem-se em segredo, sempre no pavor de serem descobertos e desmascarados. – Uma vez acusaste-me de ter ido a um bordel – disse ele, com a voz entrecortada. – Quem me dera que fosse verdade, pois dar-me com outros homens iguais a mim representa um perigo terrível. A maior parte está tão triste e confusa como eu; o que mais desejaríamos era não termos sido amaldiçoados com estes desejos. Mas também há aqueles que se deleitam na sua depravação e se aproveitam dos fracos, submetendo-nos à sua vontade. Não podemos escapar às suas garras, porque nos prendem por meio de chantagem e de intimidação. Anne suspeitou que era isto que lhe tinha acontecido, pois muitas vezes, quando ele estava embriagado e a insultava, sentia que as palavras que lhe saíam da boca não eram suas. Foi o que lhe deu forças para falar de Angus. Não era justo deixá-lo pôr a descoberto toda a sua dor e vergonha convencido de que fora o único a destruir a felicidade que em tempos tinham tido jutos. E, como sempre, continuou a ser egocêntrica ao ponto de pensar que a partir do momento em que William soubesse, Albert perderia todo o poder sobre ela. Confessou o seu adultério numa torrente de palavras, contando-lhe como se sentiu atraída por Angus logo no primeiro encontro, mas que reprimiu os seus sentimentos até ele, William, ter ido para a América. – Não teria acontecido se estivesses cá – disse, chorosa. – Mas tu foste-te embora sem mim e foi mais forte do que eu. Contou-lhe então que tivera um filho de Angus, e que Bridie lhe dissera que a criança fora um nado-morto. William permaneceu surpreendentemente calmo durante toda a revelação. Pareceu aturdido, confuso, mas não zangado. Não a interrompeu uma única vez com recriminações ou até perguntas. – Mas o bebé não morreu. A Nell levou-o para casa dos pais. Esse bebé é a Hope! – soluçou. – Nunca soube. Ela vinha para aqui brincar com o Rufus, e nunca me passou pela cabeça que fosse


minha filha. A Nell nunca me contou nada até àquele dia horrível em que me disse que o Albert a tinha matado. Nesse momento, a calma de William desapareceu. Sentou-se direito na cama e cravou nela uns olhos duros como aço. – A Hope era tua filha? – perguntou, com a voz de súbito mais alta e dura. – Deves ter sabido que o bebé estava vivo. Como pudeste consentir que fosse entregue a alguém aqui tão perto? Foi para poderes continuar a vê-la? – Não – insistiu Anne, um pouco confusa por ele estar mais perturbado pela existência do fruto da sua união com Angus do que com a traição que o gerara. – Acreditei na Bridie quando ela me disse que tinha morrido. Estava exausta, no fim do parto, e nessa altura não sabia nada a respeito de bebés. A Bridie mostrou-ma e não estava a mexer-se nem a chorar. Além disso, tu ias regressar da América a qualquer momento e eu estava cheia de medo. Pareceu-me que era a maneira de Deus resolver o meu problema. William escondeu o rosto nas mãos e deixou escapar uma espécie de uivo. – Tenho tanta pena, William – soluçou ela. – Não faço ideia do que teria feito se soubesse que ela estava viva. Suponho que teria pedido à Bridie que lhe arranjasse um lar, não podia fazer mais nada, pois não? Imagina o escândalo! William continuou com o rosto escondido entre as mãos. – Como é que te haveria de dizer? – continuou ela. – Foi uma altura horrível, sozinha com a Bridie, porque todos os outros criados tinham ido para a casa de Londres. A única coisa que conseguia pensar era que tinha de recuperar forças para ir ter contigo. Fiz todos os possíveis por esquecer que tinha sequer acontecido, e tu tornaste tudo mais fácil sendo tão bom e atencioso. William olhou então para ela, com o rosto pálido e desvairado. – Só porque também eu carregava o fardo da culpa – disse, numa voz quase inaudível. – Tu parecias distante, preocupada, mas pensei que estavas zangada por eu não te ter levado para a América. Oh, Anne, se ao menos me tivesses dito tudo isto mais cedo. – Como podia? – perguntou ela. – E de que serviria dizer-te quando pensava que o bebé estava morto? William assentiu com a cabeça, como se compreendesse o ponto de vista dela. – Mas disseste alguma coisa ao Angus? Anne abanou a cabeça. – O regimento dele partiu para o estrangeiro antes de eu saber sequer que estava grávida – respondeu. – Só voltei a vê-lo algum tempo depois de o Rufus ter nascido. Tu estavas cá quando ele apareceu. Lembras-te de ter subido connosco ao quarto das crianças para ver o Rufus? Trouxe-lhe um cavalinho de madeira. Tu fizeste-nos rir pondo-o a galopar pela beira do berço. William esboçou um meio sorriso triste. – Sim, lembro-me. Disse ao Rufus que teria um verdadeiro para montar logo que fosse capaz de se sentar numa sela. – Estávamos tão felizes, dessa vez – disse ela, pensativa. – Eu teria conseguido esquecer o Angus se tu tivesses continuado a ser como eras então. Mas mudaste, estavas sempre embriagado, dizias-me coisas horríveis. Porque foi que mudaste tanto? Foi por amares outra pessoa? – Naquela altura não – disse ele, a abanar a cabeça. – Mas sentia em ti a necessidade de qualquer coisa que eu não podia dar-te. Acordava todos os dias a saber que era uma fraude. – Estendeu a mão


e pegou na dela. – Ao princípio, sair a cavalo todos os dias ajudava-me a esquecer, mas não tardou que tivesse de ir à procura do que na verdade queria. Desprezava-me tanto que me embebedava sempre que estava em casa. Anne recordou pequenas cenas estranhas daquela altura, como ela de camisa de noite a chamá-lo para a cama e ele a voltar-lhe as costas, dizendo que estava cansado. – Se ao menos me tivesses dito o que se passava – disse ela, a limpar uma lágrima da face. – Penso que te teria deixado fazer o que quisesses desde que em casa continuasses a ser o William com que casei. – Os verdadeiros problemas começaram em casa, quando contratei o Albert – respondeu William. Anne abriu muito os olhos. – O Albert! Ele descobriu? Está a fazer chantagem contigo? William franziu os lábios, como se acabasse de chupar um limão. – Não, não é isso. Ele é como eu. – Estás a dizer...? William assentiu com a cabeça. – Deus do Céu! – exclamou Anne. Pensou que não conseguiria aguentar mais choques. – Sim, é um sodomita, ou lá como é que as pessoas nos chamam – cuspiu William. – E eu, pobre tolo que sou, apaixonei-me por ele. Se não fosse eu, não teria casado com a Nell. A sugestão foi minha. – Oh, não, William! – arquejou Anne. – Porque foi que fizeste uma coisa dessas? William encolheu os ombros. – Sem uma mulher, as pessoas poderiam começar a suspeitar dele. A Nell pareceu-me um rapariga simples, séria, que daria uma esposa sossegada, fiável. Não sabia até que ponto o Albert podia ser cruel, ou que odiava as mulheres. Pensei que ele seria capaz de lhe dar um filho, cuidar dela, e tu poderias conservar a criada de que tanto dependias. E eu continuaria a ter o Albert num lugar onde poderíamos estar juntos. – A casa do guarda-portão – murmurou Anne. – Costumavas ir lá? William assentiu, sombrio. – Era errado, vejo-o agora, mas ele tinha-me enfeitiçado, Anne. Não conseguia pensar noutra coisa, nada importava para mim senão ele. Consegues compreender? Ela não conseguia compreender, nunca com um homem tão odioso como Albert. A ideia de eles fazerem uma coisa tão depravada e bestial mesmo debaixo do seu nariz, tão perto do filho de ambos, fazia-a querer gritar, bater-lhe com os punhos, dizer-lhe que era nojento. Ao mesmo tempo, no entanto, lembrava-se de que se deixara enfeitiçar por Angus, de como o deixara possuí-la num campo ou no bosque sem pensar sequer no marido ou no filho. Inspirou fundo. – Continuas a sentir o mesmo por ele? – perguntou. – Não, tenho medo dele – respondeu William, desanimado. – Há muito que acabou tudo entre nós, mas ele recusa ir-se embora, e ameaça contar-te a ti, ao Rufus e a toda a gente aquilo que eu sou, se o obrigar a sair. Pensava que era amor o que ele sentia por mim, mas agora vejo que é incapaz desse sentimento. – Oh, William. – Anne suspirou, estendendo a mão para pegar na dele, porque agora tinham um inimigo comum. – Ele também sabe de mim e do Angus. Tem uma carta dele para mim. A Nell pediu


à Hope que guardasse qualquer carta que chegasse enquanto eu estava no funeral do meu pai, e ele deve tê-la encontrado. Matou-a? – Não, tanto quanto sei – apressou-se William a responder, e então ficou calado, a morder o lábio. Anne esperou. Sabia que o marido só fazia aquilo quando estava inseguro e com muito medo. Mas tinha a certeza de que ele acabaria por lhe dizer o que sabia; não tinha jeito para mentir. – Ela foi à casa do guarda-portão e apanhou-nos – disse ele por fim, com o rosto contorcido pela vergonha. – O Albert disse-me que saísse pela porta da frente, que ele trataria dela. Voltei lá mais tarde, à noite, e vi que ela tinha desaparecido. O Albert mostrou-me a nota que a tinha obrigado a escrever; disse-me que lhe tinha dito para nunca mais voltar, ou ele faria mal à Nell. Foi aqui que Anne explodiu de raiva, chamando-lhe todos os nomes horríveis de que conseguiu lembrar-se. – Cobarde! – gritou. – Ficaste calado, deixando a Nell pensar que ela estava morta, sabendo o que tinha acontecido! Como foste capaz? Foi desumano! – Que mais podia eu fazer? – gemeu William. – A ideia de o Albert e eu sermos desmascarados aterrorizava-me. O Albert até me convenceu de que a Hope tinha querido deixar Briargate. Na altura não sabia como ele é cruel, e mesmo agora não vejo o que poderia ter feito senão alinhar com ele. Anne sentiu-se doente. Deixou-se cair contra as almofadas, estupefacta pela capacidade de Albert para o mal. Rufus tinha-lhe dito que ele costumava bater em Hope e em Nell, que transformava a vida delas num inferno. Agora que pensava nisso, lembrou-se de que Nell fazia muitas vezes esgares de dor, dando como desculpa uma queda no caminho de acesso ou qualquer outra coisa. Era evidente que o bruto as aterrorizara durante muito tempo, mas ela estivera demasiado centrada em si mesma para reparar. Talvez Hope tivesse mesmo partido para garantir a segurança de Nell, mas, de alguma maneira, Anne sabia que também tinha sido para impedir que ela e Rufus fossem envergonhados. Tinha apenas quinze anos, na altura, e vira algo com que até uma mulher adulta teria dificuldade em lidar, fora banida da sua casa, da sua família, do seu modo de vida, com ordens para nunca mais voltar. Tê-la-ia Albert espancado antes de a mandar embora? Teria algum dinheiro? Para onde teria ido? William ficou na cama dela naquela noite, a abraçá-la com força e a dizer-lhe que continuava a amá-la, apesar de não merecer que o seu amor fosse retribuído. Anne ficou grata pelo conforto dos braços dele, mas a imagem da filha banida, aterrorizada e sem ninguém que a ajudasse impediu-a de dormir. Compreendeu porque tinha Nell enlouquecido de desgosto.


CAPÍTULO 17

1854

U

m silvo repentino vindo da lareira fez Lady Harvey sobressaltar-se. – O carvão está molhado – explicou William, quebrando o silêncio em que estavam mergulhados há já algum tempo. – Aposto que o Albert voltou a urinar-lhe em cima. Anne ouviu a tristeza na voz do marido e quando se voltou para olhar para ele viu lágrimas a brilharem-lhe nos olhos. – O que é que vamos fazer? – perguntou, chorosa. – Ele vai ficar cada vez pior, não vai? Estavam no gabinete de William. Já não usavam a sala de estar no inverno, porque saía demasiado caro aquecê-la. O gabinete era também a única divisão de Briargate que não mostrava ainda os sinais de abandono evidentes no resto da casa. Mas também era verdade que a masculinidade das paredes forradas de estantes e dos cadeirões de couro sugeriam que aquela divisão fora concebida para parecer sem idade e usada. Lá fora, na tarde cinzenta de fevereiro, um vento agreste vergava os ramos nus das árvores ao longo do caminho de acesso. A noite aproximava-se a passos largos, mas Anne, com as articulações presas pelo reumatismo, estava relutante em afastar-se do calor da lareira para ir acender o candeeiro a óleo. A penumbra escondia os estragos que o tempo e os problemas tinham causado naquele casal outrora belo. O cabelo de Anne tinha-se tornado mais ralo e branco, o seu rosto estava sulcado por rugas, o corpo menos esbelto. Com quarenta e oito anos, podia continuar a parecer mais nova do que muitas mulheres da aldeia da mesma idade, mas isso tinha mais a ver com a elegância da indumentária e da postura do que com uma boa saúde ou a generosidade da natureza. William tinha o rosto menos enrugado do que a mulher, apesar de ser três anos mais velho, mas engordara e começava a ficar calvo. Os anos de excesso de bebida tinham-lhe dado ao rosto uma aparência inchada, e havia uma rigidez de velhice nos seus movimentos. No entanto, excetuando a constante irritação causada pela presença de Albert em Briargate, tinham encontrado uma nova felicidade na sequência das revelações do ano anterior. William dizia que estava demasiado velho e desiludido para sentir desejo; Anne contentava-se com a sua amizade e companhia. Na realidade, o último ano fora a época em que se tinham sentido mais próximos desde o casamento. Falavam muitas vezes de como deviam ter despedido Albert anos antes. Mas pondo de lado as razões que cada um deles tinha para evitar uma confrontação com ele, tinham também tido em conta os terrenos de Briargate. Porque fosse Albert o que fosse, ninguém podia negar que era um extraordinário jardineiro. Tinha a energia de três homens, orgulhava-se do seu trabalho e seria


impossível substituí-lo. Briargate podia estar a desfazer-se por dentro, mas enquanto os jardins continuassem imaculados e belos, podiam convencer-se a si mesmos e aos outros de que tudo estava bem. Não que as visitas fossem muitas. Os Warren de Wick Farm apareciam de longe em longe para o chá no jardim, no verão, como os Metcalf de Bath, mas havia já anos que a mansão não assistia a um jantar de festa. E no entanto um ano antes os Harvey tinham acreditado, ou mais exatamente esperado, que, de novo juntos, conseguiriam controlar Albert e tudo o mais que a vida lhes atirasse à cara. Até se tinham convencido de que podiam voltar a receber. Mas enganavam-se. Martha, a cozinheira, foi a primeira a partir, dando como única explicação o desejo de mudar. Rose seguiu-a pouco depois, dizendo que conseguira um lugar numa casa mais animada. Sir William e Lady Harvey não tinham a mínima dúvida de que tinha sido Albert a convencer a cozinheira a ir-se embora, sabendo que Rose não tardaria a fazer o mesmo porque se sentiria muito sozinha sem outra mulher para lhe fazer companhia. O leal e fiável Baines ficara; nada que Albert pudesse dizer-lhe, ou oferecer-lhe, o induziria a partir. De qualquer modo, teria sido muito difícil para ele conseguir outro lugar, uma vez que passara os setenta anos e estava a ficar cada vez mais fraco. Lady Harvey contratara Mrs. Crabbe, uma viúva da aldeia, e Polly, a filha de quinze anos, mas eram ambas desmazeladas e insolentes. Para sua infelicidade, Lady Harvey vira-se obrigada a aceitar que os ricos que passavam por maus momentos não conseguiam arranjar bons servidores, e uma vez que não havia mais ninguém disponível, teve de habituar-se a padrões bem mais baixos. Albert, porém, permanecia como um espírito malévolo, estragando tudo o que era bom. Embora continuasse a cuidar com esmero dos jardins, fazia-o de uma maneira que implicava propriedade. E tinha muitas maneiras de mostrar aos Harvey que se considerava o novo dono de Briargate. Urinar no carvão destinado à lareira do gabinete era apenas um dos muitos truques que usava para os intimidar. Também já tinham sido sujeitos a uma cobra-de-água e a uma ratazana morta no balde do carvão. Desaparecia durante dias seguidos, sobretudo no inverno, e sempre que isso acontecia os Harvey alimentavam a esperança de que dessa vez fosse definitivo. Mas ele voltava sempre, para cortar uma árvore ou fazer um novo canteiro sem sequer os consultar. E exigira um salário mais alto, testando-os até ao limite.

– Pensei em convidá-lo para ir à caça comigo – disse William, interrompendo o triste devaneio de Anne. – Podia dar-lhe um tiro e dizer que foi um acidente. Anne duvidava que William fosse capaz de disparar contra Albert, por muito que tivesse acabado por odiá-lo e temê-lo. Mas comoveu-a saber que ele andava à procura de uma maneira de pôr cobro àquela horrível situação. – Ele é demasiado esperto para se deixar apanhar assim, adivinharia a tua intenção – disse, num tom mais duro do que pretendeu. – A única maneira de sair disto é mantermo-nos juntos e forçar-lhe a mão. – Acho que não tenho coragem suficiente para isso – disse William, deixando pender a cabeça. – Ele é diabólico, Anne, tu sabes. – Mas não pode dizer nada a teu respeito sem se incriminar a si mesmo – retorquiu Anne. –


Podíamos negar o meu caso com o Angus. Ninguém gosta do Albert, ninguém acreditaria numa palavra do que ele dissesse. A Nell nunca se poria do lado dele contra mim, e o Angus também não. – É possível que entretanto a Nell já lhe tenha dito a verdade a respeito da Hope – lembrou-lhe William. – E isso pode ter-lhe alterado a perspetiva. – Se o Angus soubesse que a Hope é filha dele seria ainda mais provável que nos apoiasse contra o Albert – disse Anne, desanimada. – Só tenho pena de não lho ter dito eu própria, quando nos encontrámos em Bath. Ele teria vindo até cá e tratado da saúde a esse demónio. – É tão curiosa a maneira como as coisas acontecem – murmurou William, pensativo. – Conheci o Angus quando ele era um rapazinho, instalado em casa de uns parentes em Chelwood. Ele admiravame, e eu tratava-o mal só porque era alguns anos mais novo do que eu. Estava sempre a pedir-me para o levar quando saía a cavalo. Talvez se eu não tivesse acabado por ceder e emprestar-lhe uma montada, ele não se tivesse dado ao trabalho de vir procurar-me quando conseguiu a sua patente no Exército. E vocês os dois nunca se teriam conhecido. – Se lhe pedisses ajuda para te livrares do Albert, tenho a certeza de que ainda conserva afeto suficiente por ti para o fazer de boa vontade – disse Anne. – Não seria capaz de aguentar que ele descobrisse aquilo que sou – respondeu William, em voz baixa. – E tu sabes que o Albert teria todo o prazer em dizer-lho. Anne apercebeu-se de que ele tinha provavelmente razão. – O que não consigo compreender é porque é que o Albert quer continuar aqui – observou Anne, sentindo que continuar a falar de Angus só serviria para magoar ainda mais o marido. – Sabe que não gostamos dele. Não tem amigos, nem família. O que é que o prende aqui? – Porque é bem pago, gosta de viver na casa do guarda-portão e em mais lugar nenhum teria a liberdade que aqui tem – respondeu William, num tom queixoso. – Faz o que quer no jardim, e tens de admitir que é mais do que um jardineiro, é um artista! Lembras-te de como os canteiros estavam magníficos no verão passado, da maravilhosa combinação de cores, da maneira inteligente como tem sempre qualquer coisa nova a crescer para disfarçar as flores que vão murchando? Nunca vi outro como ele. Anne lembrava-se; na realidade, as únicas ocasiões em que vira o homem verdadeiramente feliz era quando estava a admirar as suas plantas. Mas ao mesmo tempo certificava-se de que ela e William não podiam desfrutar delas. Se se sentavam no jardim para tomar chá, Albert punha-se a cortar a relva à volta deles. Se se limitavam a dar um passeio, seguia-os a empurrar um carrinho de mão; lançava-lhes olhares furiosos se apanhavam algumas flores e fazia-os sentirem-se intrusos. Era como se quisesse aprisioná-los no interior da casa, e mesmo nos dias de inverno certificava-se de que tinham consciência da sua presença através de pequenas coisas como o carvão molhado. Alisar com o ancinho o saibro junto à janela do gabinete era outro dos seus truques preferidos, e no verão batia com um pau nos ninhos de vespas para que os insetos furiosos entrassem a voar pelas janelas. Por vezes, quando via Anne a olhar de uma janela, urinava em frente dela. Andava à volta da casa a altas horas da noite, a esmagar o saibro com as botas, só para lhes recordar que ainda ali estava, a vigiá-los, à espera da sua oportunidade. William tentara vezes sem conta admoestá-lo, mas acabava sempre da mesma maneira. Albert ameaçava desmascará-los aos dois.


– Maldição! – gritou William, levantando-se de um salto quando um forte cheiro a urina emanou da lareira ou da caixa do carvão. – Isto é de mais! – O que foi, querido? – perguntou Anne. – O Albert! Tem de ir. A primeira coisa que vou fazer amanhã de manhã é dizer-lhe que não o quero cá. Vou dar-lhe até ao fim da semana, e se até então não tiver saído arranjo um par de homens para pôr as coisas dele na rua e mando mudar as fechaduras da casa do guarda-portão. – Mas e se ele te ataca? – murmurou Anne, nervosa. William dirigiu-se à janela e olhou para fora. – Quase espero que o faça – disse. – Poderia chamar a polícia e mandá-lo prender. Não era a primeira vez que Anne ouvia William dizer aquelas coisas, mas no fim acabava sempre por recuar, muitas vezes depois de dar mais dinheiro a Albert para o apaziguar. Mas estava contente por naquela ocasião o marido parecer verdadeiramente determinado, e calculou que fosse por causa de Rufus. O filho estava agora no seu segundo ano na Universidade de Oxford, e tinha recusado ir a casa no Natal. Albert dissera, trocista, que era por se ter tornado demasiado importante para aquela casa decrépita, e pela falta de festas e bailes, mas tanto Anne como William sabiam que não era essa a razão. Rufus tornara-se um jovem alto, forte e bonito, mas não se dava ares de grandeza. Continuava a gostar de ir para a quinta de Matt quando estava em casa; no verão anterior passara lá dias inteiros, a ajudar na ceifa. Ambos sabiam que Rufus não fora a casa no Natal por causa de Albert. As convicções que tivera quando rapaz a respeito do homem permaneciam inalteradas, e começara a sentir-se cada vez mais ultrajado ao vê-lo pavonear-se como se fosse ele o proprietário, e os pais a fazerem-lhe mesuras. Manter-se afastado era a sua maneira de mostrar a sua desaprovação, e a mensagem era clara: Albert tinha de ser despedido, ou ele não voltaria a casa para passar mais férias com os pais. Aquele fora o Natal mais triste de todos os que tinham passado, e Anne sabia que isso fazia William ficar ainda mais furioso com Albert. – Estás preparado para as coscuvilhices se ele cumprir as suas ameaças? – perguntou. Sentia-se preparada, mas não queria ver William deixar-se ir abaixo ao primeiro sinal de escândalo. – Estou, como nunca. Vá lá, rapariga, não me abandones agora! Temos de fazer isto ou ficamos debaixo da pata dele pelo resto das nossas vidas.

William soube pela expressão de Anne ao pequeno-almoço que ela estava à espera de o ver arranjar uma desculpa para não resolver a questão de Albert naquele dia, como prometera. E não estava completamente enganada; era verdade que ele passara a noite inteira acordado, a pensar em desculpas. Mas então ocorreu-lhe que a sua vida inteira fora uma sucessão de desculpas. Fizera um bom casamento mas desiludira Anne por causa das suas tendências sexuais. Nascera com uma fortuna e desbaratara-a ao jogo e não só. Havia apenas uma coisa de que se podia orgulhar, e era Rufus, que apesar das fraquezas dos pais se tornara um belo jovem, inteligente, forte, amoroso e trabalhador. O seu avô construíra Briargate com a intenção de que passasse para as mãos de William, e depois


para as do neto, mas, graças à sua estupidez, a propriedade tornara-se mais um fardo do que uma vantagem. Mas sabia que Rufus preferiria herdar uma casa em ruínas, sem qualquer valor e rodeada por mato a ter um pai demasiado cobarde para fazer frente a um chantagista. Felizmente, a segurança de Rufus não estava ameaçada, graças ao legado do avô materno, mas mesmo que estivesse, ele tinha a inteligência, o entusiasmo e os conhecimentos para transformar Briargate numa quinta rendível. Muitas vezes dissera que achava imoral ter tantos canteiros inúteis quando a terra podia ser usada para criar galinhas e porcos, ou cultivar legumes. Por isso, apesar de tremer de medo face à perspetiva do que podia acontecer em consequência do despedimento de Albert, sabia que tinha de fazer o que era certo, por Rufus.

– Aonde vais? – perguntou Anne quando ele se levantou da mesa do pequeno-almoço. Mal tinham trocado uma palavra enquanto comiam. Ele tinha olhado para o jornal, ela lera uma carta da irmã. Estavam quase sempre calados ao pequeno-almoço, mas era um silêncio confortável; naquele dia, fora tenso, cheio de assuntos por resolver. – Calçar os meus sapatos de jardim – respondeu ele. – Fica aqui a vigiar, para o caso de eu precisar de ti. – Vais falar com o Albert? – perguntou ela. Parecia surpreendida. – Não vou dizer grande coisa – respondeu ele, com um débil sorriso de rapaz. – Vou passar-lhe guia de marcha. – Não queres que vá contigo? William tinha pensado muito sobre se seria melhor ou pior ter Anne a seu lado. Mas chegara à conclusão de que tinha de fazer aquilo sozinho. Não podia sujeitá-la à linguagem grosseira de Albert, que ia de certeza recorrer a alguns dos seus palavrões preferidos. Saiu pela porta das traseiras passando pela divisão do calçado, enquanto vestia o sobretudo. Estava muito frio, e quando olhou para o jardim à procura de Albert, reparou que havia nevoeiro no vale, sobre o rio. O som da serra disse-lhe que Albert estava na arrecadação da lenha, nas traseiras das cavalariças. Era o único lugar onde não queria mesmo estar a sós com o homem. Fora lá que o beijara pela primeira vez e lhe dissera que o amava. Não aguentava pensar em como fora louco e estúpido. Dera àquele homem o seu amor e o seu dinheiro, arriscara tudo por ele. Mas o seu maior erro foi tê-lo romantizado. Vira-o como um belo, gentil e criativo arcanjo disfarçado de trabalhador que, por gratidão, transformou o jardim no género de Éden que achava que ele merecia. Até acreditou que Albert era um inocente; que sucumbiu perante William porque ele foi a única pessoa que alguma vez lhe mostrara afeto e lhe dera valor. Quando, muito mais tarde, William começou a compreender que, naquela relação, o dar era só de um lado, inventou desculpas para o amante: a mãe fora uma megera, tinha sido influenciado desde a infância por homens piores que animais. Mesmo assim, continuou a acreditar que se o tratasse com amor, compreensão e carinho suficientes, Albert lhe retribuiria na mesma moeda. Agora estava bem consciente de que Albert nunca tivera a capacidade de sentir amor. Podia ter um coração a fazer-lhe circular o sangue pelas veias como qualquer outra pessoa, mas faltava-lhe aquilo, fosse o que fosse, que dava à maior parte dos seres humanos sentimentos em relação aos outros.


Em contrapartida, era um soberbo imitador de emoções; no passado, dera mostras de tal ternura, admiração e solidariedade que William deixara de dar ouvidos à sua consciência e teria ido viver nos bosques com o homem se ele lho pedisse. No fim, porém, descobrira que era tudo uma fraude. A única emoção de que Albert era capaz era o ódio, ódio pelas suas origens humildes e por todos aqueles que considerasse mais afortunados do que ele. Quando William chegou ao telheiro onde era guardada a lenha, Albert parou de serrar tábuas. Brilhava de suor apesar do frio, e despira a bata e os calções. Tinha um aspeto sujo e desmazelado, o cabelo emaranhado a chegar-lhe quase aos ombros, a barba semeada de restos de refeições antigas, e o cheiro a suor azedo era avassalador. – Vieste ajudar-me, Billie? – perguntou, com um sorriso de malévola troça. – A companhia da velhota tornou-se demasiado chata para ti? William sentiu uma vertigem de náusea ao pensar que se tinha deitado com aquele homem, pois via agora claramente que não passava de um prostituto de coração gelado. – Lady Harvey é uma excelente companhia – respondeu William –, e vim dizer-te que estás despedido. Sairás da casa do guarda-portão e abandonarás Briargate até sexta-feira. Para nunca mais voltares. Albert sentou-se num tronco e procurou no bolso o cachimbo e o tabaco, como se não tivesse ouvido. – Não podes despedir-me – disse, a sorrir enquanto carregava o fornilho do cachimbo. – Estamos ligados um ao outro para sempre, meu rapaz! William estava tão intimidado como Albert pretendia que estivesse. Tentou não olhar para os poderosos músculos que esticavam o pano das mangas da camisa, ou para as enormes mãos. Forçouse a imaginar o rosto de Rufus, e o sorriso que sabia que havia de ver quando lhe dissesse que Albert tinha partido de uma vez por todas. – Não, não estamos ligados. Sais até sexta-feira, ou mando correr contigo. – Então, então. – Albert esqueceu o cachimbo e levantou-se do tronco, com os lábios arreganhados num esgar. – Queres que vá contar histórias a Lady Harvey? – Podes ir, se quiseres, mas ela já sabe tudo. Albert bufou, desdenhoso. Era evidente que não acreditava. – Não me venhas com merdas e não tentes fazer bluff comigo – disse, e começou a andar na direção da casa. William deixou-o avançar alguns metros, e então atravessou o relvado só o suficiente para que Anne pudesse vê-lo da sala de jantar e fez-lhe sinal para sair. Albert estava quase a chegar à porta das traseiras quando esta se abriu e Anne apareceu. – Vem até cá fora, Anne – gritou William. – Estou a ter alguma dificuldade em convencer o Albert de que não temos segredos um para o outro. Pela primeira vez em todos aqueles anos desde que conhecia Albert, William viu-o parecer inseguro. Os seus olhos semicerrados saltitavam de Anne para ele, como os de uma ratazana encurralada. William sentiu-se orgulhoso de Anne. Tinha posto um xale roxo à volta dos ombros, e a cor imperial, os olhos duros como pederneira e a postura davam-lhe uma aparência majestosa e controlada. – Presumo que Sir William lhe ordenou que se fosse embora – disse ela, e a sua voz soou seca e


fria como a manhã. – Estamos dispostos a dar-lhe uma carta de recomendação. Ao fim e ao cabo, tratou muito bem do jardim. – O capitão Pettigrew também tratou bem do seu jardim – respondeu Albert. William inspirou por entre os dentes ao ouvir a insultuosa réplica, sabendo que a intenção era fazer Anne correr para casa assustada. Mas ela limitou-se a sorrir, avançou para ele e deu-lhe o braço. – O meu marido sabe tudo a respeito da minha antiga relação com o capitão Pettigrew – disse. – Já não pode fazer-nos mal, Albert. Albert, vermelho de fúria, começou a gritar e a praguejar, ameaçando ir à aldeia contar a toda a gente tudo o que sabia a respeito dos dois. – Como pode fazê-lo sem se incriminar a si mesmo? – perguntou-lhe Anne. – As pessoas do campo não gostam de «maricas». Basta-nos dizer aos Renton que está a tentar difamar-nos e eles terão muito prazer em arrancar-lhe as pernas e os braços. Não tem amigos na aldeia, mas nós temos muitos. – O menino Rufus não vai gostar de ouvir o que tenho para dizer – ameaçou Albert, e William percebeu que estava desesperado, apanhado de surpresa pela notícia de que os dois tinham confessado os seus antigos pecados um ao outro. Anne soltou uma gargalhada desprovida de humor. – A sério, Albert? Mas que homem tão pateta! Pensa de verdade que ele acreditará numa palavra do que lhe disser? O meu filho detesta-o, sempre o culpou pela desaparecimento da Hope. Não ficaria surpreendida se ele pedisse uma nova investigação sobre o caso. Faça as malas e vá-se embora, Albert, o seu tempo aqui acabou. Já não lhe resta nada com que fazer chantagem sobre nós. – Está a esquecer que tenho a carta do capitão Pettigrew – rosnou ele. – É uma prova. William aproximou-se dele. – Em situações como esta nós, os cavalheiros, apoiamo-nos uns aos outros – disse, pondo na voz todo o desprezo de que foi capaz. – Cresci com o capitão, e ele dirá que essa carta é uma falsificação. Mais, virá até aqui e arrancar-te-á a pele à chibatada. – Recorrerei à lei – disse Albert, de cabeça perdida. William riu. – Acreditas verdadeiramente que um jardineiro pode desafiar um membro da aristocracia e ganhar? Metiam-te num barco para Botany Bay. Agora desaparece! Desocupa a casa do guardaportão até sexta-feira de manhã e terás uma carta de recomendação. Mas se ainda lá estiveres, mandarei correr contigo de mãos a abanar.

Anne deu a mão a William enquanto os dois viam Albert afastar-se contornando a casa. – Achas que ele vai? – murmurou. – Penso que sim – respondeu William. Sentia-se bem consigo mesmo porque tinha protegido Anne, Rufus e Briargate. – Não tem alternativa. Mesmo que se enfie numa taberna e conte algumas histórias, ninguém acreditará. É melhor irmos para dentro antes que apanhes uma constipação. Acho que vamos beber um cálice de sherry para celebrar.

Nessa noite, à fraca claridade de uma vela tremeluzente, Albert sentou-se à mesa na cozinha da casa do guarda-portão com um grande monte de dinheiro à sua frente. Enquanto o contava e fazia


pilhas ordenadas, bebia grandes tragos de uma garrafa de rum. Regra geral, contar o dinheiro davalhe um enorme prazer, pois gostara de sangrar William durante todos aqueles anos. Mas naquela noite estava demasiado cheio de raiva para se concentrar. Julgara estar governado para o resto da vida; que tinha William e Anne na palma da mão. O seu plano a longo prazo era esperar até que eles se vissem obrigados a vender Briargate e então comprar a casa. Nunca esperara que lhe fizessem frente. Tinha dinheiro mais do que suficiente para ir para onde quisesse; tinha saúde, força e inteligência bastantes para fazer o que lhe apetecesse, mas era o jardim de Briargate que queria. Fora ele que o criara: tudo aquilo era seu, cada árvore, cada arbusto, cada flor. Trabalhara nele durante dezasseis anos, cuidara dele, sonhara e planeara, e agora queriam tirar-lho. Sempre se considerara robusto como um carvalho, que nada conseguia chocá-lo ou perturbá-lo. Quando o fraco e patético William apareceu na arrecadação da lenha naquela manhã, o seu primeiro pensamento foi que o homem o queria outra vez, apesar do cenho carregado. Quando ele lhe disse que fizesse as malas e se fosse embora, teve vontade de rir. William já lhe tinha dito o mesmo noutras ocasiões, e recuara sempre depois de ele lhe lembrar em que pé as coisas estavam. Teria sido capaz de apostar todo o dinheiro que estava em cima da mesa em como William nunca teria coragem para revelar à mulher aquilo que era. Mas fê-lo, e ela contara-lhe a respeito do capitão. Tinham ficado os dois ali à sua frente, todos satisfeitos consigo mesmos, e o golpe final foi aquele comentário de William: «Acreditas verdadeiramente que um jardineiro pode desafiar um membro da aristocracia e ganhar?» Aquilo enfureceu-o. Não gostava que lhe lembrassem a sua condição. Quando era pequeno, detestava as roupas ásperas, ter de andar descalço e tudo o que implicava ter nascido numa família pobre. A mãe costumava dizer, em ar de troça, que o lugar dele era num palácio. Com dez anos, foi despachado para Hever Castle, para trabalhar nos jardins. Em muito pouco tempo despertara a atenção e a concupiscência do chefe dos cavalariços e, noite após noite, tivera de sujeitar-se a que o homem o usasse como se fosse uma mulher. Tinha catorze quando o chefe dos cavalariços morreu de repente, vítima de um ataque cardíaco, o que o deixara muito feliz. Não se interessava por raparigas, mas pensava que, na devida altura, a certa acabaria por aparecer e ele esqueceria aqueles atos que o tinham envergonhado durante tanto tempo. Aos dezasseis anos era um mocetão com mais de um metro e oitenta, pele morena e brilhante, cabelo negros encaracolado e uns ardentes olhos escuros, e não eram só as criadas que o miravam com desejo, o mesmo faziam muitas das grandes damas que visitavam Hever. Albert descobriu, porém, que não conseguia responder-lhes fosse de que maneira fosse. Não era timidez, pura e simplesmente não gostava delas. Em contrapartida, quando olhava para certos homens sentia o pulso acelerar e o pénis intumescer. Era como se o cavalariço lhe tivesse lançado uma maldição e, na sua fúria, jurou a si mesmo que nunca mais voltaria a permitir que um homem se servisse dele. De futuro, seria ele a servir-se, e faria com que isso lhe rendesse dinheiro. Felizmente, havia muitos cavalheiros distintos que visitavam Hever e que preferiam rapazes a raparigas, e Albert descobriu que conseguia identificá-los ao primeiro olhar.


Ficou em Hever até aos vinte e um anos, e nos intervalos de uma série de amantes que lhe davam dinheiro e presentes caros, deliciava-se a trabalhar nos jardins. Nunca o considerou um trabalho humilde, para ele um jardim bonito era um templo onde prestava culto. Nos seus tempos livres, aprendeu tudo o que pôde com jardineiros velhos e experientes e estudando livros sobre plantas. A sua visão para o futuro era desenhar e construir um jardim a partir do nada. Imaginava um lago, bosques, canteiros formais, vastos relvados, arranjos rochosos com cascatas e pérgolas escondidas. Mas os homens ricos que poderiam proporcionar a terra para tal projeto fugiam-lhe, e quando os rumores a respeito das suas proezas sexuais começaram a circular viu-se banido para os jardins do Palácio do Bispo, em Wells. Não gostava de pensar nas humilhações a que fora sujeito lá, a ouvir sermões de homens que sabia serem iguais a ele, obrigado a trabalhar até à exaustão por brutos sadistas e ignorado por todos os outros. Então, uma noite, numa taberna próxima, conheceu William. A taberna era frequentada sobretudo por trabalhadores agrícolas locais; os ricos usavam a cocheira do outro lado da rua principal. William destacava-se como um garanhão puro-sangue num campo cheio de burros, pois usava um casaco de montar aos quadrados azuis que se ajustava ao seu corpo esbelto como uma luva, e os seus caracóis da cor do trigo maduro estavam despenteados e brilhantes. Bebia com um homem mais velho que tinha ar de agricultor, mas os seus olhos tinham encontrado os de Albert do outro lado da sala apinhada e ficado presos, e de repente foi como se só ali estivessem duas pessoas. Não foi difícil descobrir quem ele era e onde morava, nem estar junto à porta à espera quando William por fim saiu, bastante embriagado. Albert estava pronto para segurar a cabeça do cavalo e ajudá-lo a subir para a sela. Perguntou-lhe se precisava de um jardineiro, e William disse-lhe que fosse a Briargate no dia seguinte. Albert sabia que estava a correr um risco enorme ao deixar definitivamente o Palácio do Bispo. Sir William podia não se lembrar de o ter convidado a ir, podia nem sequer precisar de um jardineiro, sobretudo um jardineiro sem carta de recomendação. Mas, enquanto percorria a pé os vinte e sete quilómetros que separavam Wells de Briargate só conseguia pensar na grande boca sensual, nos olhos azuis e nas nádegas firmes do homem. Quando começou a subir o caminho de acesso depois de passar pela casa do guarda-portão e viu Briargate, Albert sentiu que o seu sonho se tornara realidade. A localização da casa era perfeita; alguém tinha já plantado muitas e belas árvores, mas ele conseguiria tornar tudo aquilo muito mais bonito. Aquele era o lugar de que andara à procura. A sorte, ou o destino, tinha-lhe sorrido naquele dia. William estava em casa, e não só se recordava dele como ficou encantado por vê-lo, porque precisava mesmo de um jardineiro. Quando a noite chegou, Albert estava confortavelmente instalado num quarto por cima das cavalariças, já como jardineiro-chefe de Briargate, e Willy, o seu assistente, que era meio pateta, faria o que ele lhe dissesse para fazer.

Não foi difícil conseguir que William se apaixonasse por ele. Era um homem tão esmagado pela culpa que só precisava que alguém lhe mostrasse um pouco de amizade e compreensão. Gostava de trabalhar com Albert no jardim, e o árduo trabalho físico de cavar e limpar o terreno dava-lhe um novo propósito. Albert deixou-o tomar todas as iniciativas, fazendo o papel do jovem inocente que


pouco a pouco se apaixonava pelo patrão. O seu único verdadeiro amor era, no entanto, o terreno que rodeava Briargate; para ele, William não era mais importante do que um cão cuja companhia apreciava. Gostava de brincar com ele, tratava-o com todo o afeto de que era capaz, mas via-se sempre como dono. A única vez que William impôs a sua vontade foi quando insistiu com ele para que cortejasse Nell e casasse com ela. Albert percebia por que razão William o julgava necessário. Mas William nunca compreendeu até que ponto ele odiava as mulheres, até porque não partilhava aquela repugnância, gostava da companhia delas, e o jovem Rufus era prova de que, em caso de necessidade, era até capaz de copular com elas. O plano de William era que Albert fizesse como ele, engravidasse Nell uma ou duas vezes, e a partir daí ninguém poderia apontar-lhe o dedo da suspeita. Albert soube logo no seu primeiro encontro com a família Renton que nunca conseguiria levar aquilo a cabo. Eram camponeses típicos: homens fortes, viris, másculos, e mulheres desengraçadas, terra a terra, concebidas para parir filhos. Face a homens assim sentia-se inadequado, e apesar de saber pouco a respeito de mulheres, sentia que uma fêmea Renton seria como uma cadela no cio. O casamento e a festa que se seguiu foram uma tortura. A sua própria família era fria e lúgubre, a mãe uma mulher má e mesquinha que sempre desprezara quaisquer manifestações de ternura ou afeto. Os Renton, pelo contrário, beijavam-se e abraçavam-se, dançavam e cantavam, e ele sentia-se um peixe fora de água. Estremeceu a cada uma das inúmeras insinuações a respeito da noite de núpcias e do bebé que todos esperavam para breve. Esteve muito perto de fugir, pois tudo era preferível a enfrentar aquilo que sabia que iria seguir-se. Teve consciência de ter lidado mal com toda a questão da noite de núpcias; talvez devesse ter perguntado a William como resolvera o problema. Podia apostar que William nunca disse a Anne que ela era uma prostituta por o desejar, nem a afastou como ele fez a Nell. Mas o casamento era para sempre, e como simples criados não tinham o luxo de quartos separados. Partilhar a cama com Nell deu-lhe a volta ao estômago, a carne macia dela apertada contra a sua, o detestável cheiro a mulher, a necessidade desesperada que emanava dela. A censura nos seus olhos e as suas lágrimas silenciosas eram insuportáveis e tinham-no enlouquecido de ódio. Sabia que Nell era uma boa mulher, mas isso só servia para tornar a situação ainda pior, e tinha de implicar com ela a todo o instante para justificar a raiva dentro de si. Depois Hope foi viver com eles, e cada vez que olhava para o seu rosto bonito e inocente sentia-se ameaçado. Hope não era como Nell, era inteligente, viva e corajosa e muito capaz de perceber sem ajuda que ele não era um verdadeiro homem. A sua primeira ideia, no dia em que ela o surpreendeu com Sir William, foi matá-la. Podia ter-lhe torcido o pescoço como a uma galinha e enterrado o corpo no bosque sem problema nem hesitação. Mas então viu a carta e soube que havia uma maneira melhor de se desembaraçar dela. Quis que ela conhecesse a degradação e o isolamento que ele conhecera quando tinha a mesma idade, e sem dinheiro nem uma carta de recomendação só lhe restava um caminho. E ainda havia o bónus de ficar com a carta do capitão, uma pequena garantia para o caso de vir a necessitar. Resultou ainda melhor do que esperara. Livrou-se da rapariga e de Nell. Finalmente, tinha a casa do guarda-portão só para si. Não estava minimamente preocupado com o facto de William querer pôr fim ao caso entre os dois, até porque já começava a ficar farto das bebedeiras e da dependência dele. O homem estava a tornar-se um fardo. Durante seis anos, fora tudo perfeito. Dava-lhe uma enorme satisfação ver os padrões da mansão


degradarem-se cada vez mais e Anne e William agarrarem-se um ao outro como náufragos enquanto os amigos, os vizinhos e os criados os abandonavam. A beleza deles desaparecia, e não tardaria muito que o dinheiro seguisse o mesmo caminho. E no meio de tudo aquilo ele conservava o jardim impecável, sabendo que um dia a propriedade seria sua. De repente, porém, os seus planos desmoronaram-se. Pegou na garrafa de rum pousada em cima da mesa e bebeu um longo trago. – Não me vou embora – resmungou. – Isto é meu. Trabalhei para o merecer. Levantou-se da mesa, atravessou a cozinha aos tombos, abriu a porta e olhou para a mansão. Só conseguia ver a silhueta negra, pois a lua tinha-se escondido atrás de uma nuvem e não havia luzes acesas em nenhuma das janelas. Houvera um tempo em que todas as janelas estavam iluminadas, e havia cavalos nas cavalariças, e vinho na adega, e uma dúzia de criados numa azáfama constante. Agora só lá estavam William e Anne, e o velho Baines a arrastar os pés de um lado para o outro, a tentar fingir que ainda fazia qualquer coisa. Mrs. Crabbe e a filha, que ajudavam durante o dia, já deviam ter voltado ao seu casebre na aldeia. Passara tantas noites, de verão e de inverno, a olhar para a casa e a sonhar com o dia em que seria sua. Nunca lhe passara pela cabeça que qualquer coisa fosse capaz de mudar aqueles dois, que deixassem de ser as pessoas fracas, cheias de medo e esmagadas pela culpa que eram antes que se lhes acabasse o dinheiro e fossem forçados a vender. Naquela manhã, porém, não os reconhecera. Estavam orgulhosos, confiantes e determinados, e tinham respostas para tudo. Não fazia ideia do que lhes dera aquela força inesperada, mas sabia que estavam a falar a sério.

– Mais depressa pego fogo à casa do que deixo que vocês os dois me ganhem – murmurou, e bebeu mais um longo trago da garrafa. A nuvem que tapava a lua foi levada pelo vento, e de repente Briargate estava iluminada. Albert conseguia até ver o branco fantasmagórico das estátuas de mármore dos seus roseirais, e isso enfureceu-o ainda mais. Apesar de ter o espírito toldado pelo álcool, a ideia do fogo continuava presente. A propriedade pouco valor teria fosse para quem fosse sem a casa. O estafermo do menino Rufus estava demasiado ocupado a viver à grande com os seus amigos finos de Oxford para querer reconstruí-la. Mas teria valor para ele, poderia comprá-la ainda mais barata. Ninguém suspeitaria dele; pensariam que fora apenas uma brasa que caíra da lareira. E ele certificar-se-ia de que estava lá, a fazer todos os possíveis para apagar o fogo, quando as pessoas das quintas vizinhas vissem as chamas e acorressem para ajudar. O gabinete! Alguns livros e jornais deixados no tapete em frente da lareira não tardariam a pegar fogo a tudo o resto. Se deixasse a porta aberta, as chamas atravessariam o vestíbulo e subiriam as escadas num instante, e eles ficariam encurralados. Claro que o velho Baines também estava lá em cima, mas estava tão fraco que já não tinha utilidade para ninguém.


Minutos mais tarde, Albert avançava pelo campo contornando o caminho de acesso, porque não queria que William ou Anne fossem acordados pelo barulho das suas botas a pisar o saibro. Tinha tudo planeado. Havia uma chave extra debaixo de uma caixa no pátio. No passado, Baines ou um dos outros criados fechavam e trancavam sempre a porta das traseiras por dentro à noite, mas há já um ano que Albert via todas as manhãs Mrs. Crabbe tirar a chave de baixo da caixa para abrir a porta. Entraria por ali, atearia o fogo, e então voltaria a fechar a porta à chave e regressaria à casa do guarda-portão. Poderia assistir ao incêndio de lá, e só correria a tentar apagá-lo quando já estivesse bem adiantado. – Está um bom vento esta noite – disse, satisfeito, levantando a gola do casaco. – Vai ajudar a espalhar o fogo.


CAPÍTULO 18

M

att Renton hesitou junto à casa do guarda-portão de Briargate. Tinha estado com um agricultor seu amigo em Chelwood e como já passava bem da meia-noite, estava vento e muito frio, ele estava desejoso de ir para casa. Subir o caminho de acesso a Briargate e dar a volta pelas traseiras da mansão era um atalho e o outro caminho, por Lord’s Wood, além de muito mais longo era traiçoeiro no escuro; já por lá passara noutras ocasiões e ficara com as botas cheias de lama. A sua indecisão devia-se a Albert. Se o homem o visse, era bem capaz de lhe dar um tiro, alegando ter julgado tratar-se de um intruso. Mas uma vez que a casa do guarda-portão estava às escuras, presumiu que Albert já dormia e portanto não havia perigo. Matt tinha trinta e sete anos. O seu cabelo começava a ficar ralo e grisalho, e a exposição ao sol e à chuva curtira-lhe o rosto, mas continuava tão forte e ágil como quando casara com Amy, há catorze anos. A vida tratara-os bem. Conseguira manter-se, ultrapassando várias colheitas más, e nos últimos três anos as coisas tinham-lhe corrido suficientemente bem para conseguir pôr algum dinheiro de lado. Podia considerar-se abençoado por ter quatro filhos saudáveis e a melhor mulher que um homem podia desejar. Os irmãos mais novos, Joe e Henry, tinham voltado à quinta três anos antes, de rabo entre as pernas. Londres não fora boa para eles. Estavam magros, famintos e sujos, sem uma moeda no bolso. Matt recebeu-os com frieza, fazendo-lhes um sermão de todo o tamanho antes de os deixar ficar, mas no fundo estava encantado por os ter em casa. E os rapazes tinham cumprido a promessa que lhe fizeram, trabalhando duro e não se metendo em sarilhos, e agora tinham os dois namoradas, boas raparigas que dariam boas esposas. A presença de Joe e Henry recordava-lhe sempre Hope, porque os três tinham sido inseparáveis quando eram pequenos, e isso entristecia-o. Parecia-lhe incrível que ela não tivesse dito uma palavra a respeito de onde estava durante seis longos anos. Por vezes pensava que talvez Albert a tivesse matado, ao fim e ao cabo, ou que ela estivesse grávida quando fugira e que talvez tivesse até morrido no parto. Mas preocupava-o sobretudo a ideia de se ter metido num sarilho tão grande que tinha medo de voltar. Nell continuava a acreditar que Albert a tinha matado, mas isso não a impedia de ter esperança num milagre. Sempre que ia à quinta visitá-los, a primeira coisa que perguntava era se havia alguma novidade. E Rufus fazia o mesmo. Ter ido para aquele colégio para jovens cavalheiros e depois para a universidade não o fizera deixar de pensar nela. Mal chegava a Briargate, corria para a quinta. Matt desejava mais do que tudo ter um dia qualquer coisa boa para dizer a ambos.


Matt estava a cerca de três metros do pátio das cavalariças, a preparar-se para saltar a cancela e alcançar o trilho que o levaria à aldeia, quando ouviu um ruído. Não foi um som muito alto, apenas um estalido que podia ser o vento a mover qualquer coisa, mas também podia ser uma chave a girar numa fechadura, de modo que correu a esconder-se atrás da parede da cavalariça. Apurou o ouvido e esperou. O vento soprava com muita força e não o deixava ouvir mais nada, mas um sexto sentido dizia-lhe que estava ali alguém. Não se enganava; ouviu uma tosse abafada, e então, de repente, Albert apareceu. Matt pouco sabia a respeito das rotinas de Briargate, mas não conseguia imaginar uma razão para o jardineiro estar na casa àquela hora da noite, a menos, claro, que andasse a dormir com Lady Harvey. O que era mais do que improvável. Rufus afirmava que a mãe detestava o homem, e de qualquer modo Sir William agora estava sempre em casa – corria o rumor de que raramente de lá saía. Mas ainda mais estranho foi o comportamento de Albert. Em vez de descer o caminho de acesso, estava a passar por cima da cerca. Matt encostou-se ainda mais à parede e observou, a perguntar-se aonde diabo iria o homem. Mas Albert caminhou pelo campo, mantendo-se perto do caminho, em direção à casa do guarda-portão, e de poucos em poucos passos olhava para trás por cima do ombro. – Vai pela erva para não ser ouvido! – murmurou Matt para si mesmo. – Aposto que não anda a fazer coisa boa. Consciente de que se fosse visto a rondar a casa podia ser acusado de o que quer que fosse que Albert tinha feito, Matt escapuliu-se também, saltou a cancela e atravessou a tapada que confinava com o jardim em direção ao trilho que seguia pelo meio dos campos até Woolard. Quando chegou ao fundo da tapada e se preparava para galgar a vedação, voltou um pouco a cabeça. Para sua surpresa, notou um fraco clarão alaranjado numa das janelas do piso térreo de Briargate. O seu primeiro pensamento foi que alguém podia ter ouvido alguma coisa e acendido uma candeia para ir investigar. Mas a luz das candeias era amarela, e de certeza que a de uma só candeia não seria tão brilhante. E de repente compreendeu o que era. – Fogo! – arquejou. – Então era isso o que ele estava a fazer aqui! Por um instante, a indecisão paralisou-o. A primeira regra em caso de incêndio era dar o alarme, mas Lady Harvey, Sir William e Mr. Baines estavam ali dentro, e quando ele acabasse de alertar os homens de Woolard e voltasse, podiam já estar os três mortos e carbonizados. Despojou-se do pesado casacão e voltou para trás a correr. Conseguia cheirar o fogo, de modo que ignorou a cancela do pátio das cavalariças e abriu caminho à força pelo meio da sebe que separava a tapada do jardim. Só estivera no interior de Briargate uma vez, no dia em que fora falar com Sir William depois de Nell se ter despedido, mas lembrava-se de que a sala de estar para onde o tinham levado se prolongava da frente até às traseiras da casa, tendo ao fundo portas de vidro que davam para o jardim. Um grito agudo vindo do piso superior fê-lo correr mais depressa. Uma vez junto às portas de vidro, viu o interior da sala como se fosse dia, iluminado como estava pelo clarão das chamas vindo


da frente da casa. Pegando numa espécie de pesado vaso com flores que estava no terraço, partiu as portas de vidro, atravessou a sala de estar e, com muito cuidado, abriu a porta que dava para o vestíbulo. Foi como abrir a porta de um forno. Uma onda de calor bateu-lhe na cara e o fumo fez-lhe arder os olhos. O fogo tinha claramente começado na divisão ao lado da porta principal, que ardia como um braseiro; as chamas já avançavam pela alcatifa do vestíbulo em direção às escadas. Estalidos, silvos e estouros acompanhavam o rugido do incêndio, que devorava tudo o que encontrava no seu caminho. Matt fechou a porta da sala de estar depois de sair, inspirou fundo e, evitando as chamas que alastravam pelo chão, correu para as escadas. Lady Harvey continuava a gritar quando ele chegou ao patamar. Vestia uma comprida camisa de noite branca e torcia as mãos, demasiado aterrorizada pelas chamas lá em baixo para tentar descer. – Sou eu, o Matt Renton, m’lady – disse ele num tom firme, consciente de que ela estava tão abalada pelo choque que não o reconheceria. – Vou levá-la lá para fora. Mas primeiro mostre-me onde estão Sir William e Mr. Baines. – Não consigo acordar o William – soluçou ela. – Tentei ainda agora. Ele toma umas gotas para dormir e é demasiado pesado, não o consigo mover. – Há água cá em cima? – perguntou Matt, desejando conhecer a casa. – Só os jarros nos lavatórios – respondeu ela, a chorar. – Vamos morrer todos, não vamos? – Não, se estiver na minha mão evitá-lo. Agora acalme-se e mostre-me onde está Sir William. O quarto aonde ela o levou ficava mesmo por cima do foco do incêndio, lá em baixo, e estava cheio de fumo. A tossir e a engasgar-se, Matt avançou às apalpadelas até à cama, agarrou em Sir William como se fosse um saco de batatas, despejou-lhe em cima da cabeça a água fria da jarra e arrastou-o até ao patamar. – Acorde, senhor – gritou, enquanto lhe dava estalos na cara. – Há fogo, tem de acordar e sair daqui! Não houve uma resposta imediata, mas o rugido do fogo lá em baixo era cada vez mais alto. – Acorde-o – ordenou a Lady Harvey, que estava debruçada sobre o marido, a tossir. – Vou buscar o Baines. Onde está ele? – Lá em cima – respondeu ela. Matt correu de volta às escadas, descobrindo que não subiam mais um piso. As chamas tinham chegado aos primeiros degraus, não iam poder descer por ali. Voltou para junto de Lady Harvey, que lhe disse que havia outra escada e onde ficava, mas estava tão apavorada por não conseguir acordar o marido que ele teve de lhe pegar em peso, levá-la ao colo até à segunda escada, ao fundo do corredor, e deixá-la lá enquanto subia a correr para ir buscar Baines. O velho mordomo já estava a tentar vestir os calções, e tossia por causa do fumo. Matt carregou-o ao ombro e desceu, aos tropeções, até ao sítio onde deixara Lady Harvey. Mas ela desaparecera, e presumindo que tinha descido, fez o mesmo. Deu por si atrás da cozinha, no que lhe pareceu ser a sala dos criados de que Nell costumava falar, mas não viu sinais de Lady Harvey. Abriu com um pontapé a porta que dava para o pátio das cavalariças e deixou Baines no exterior, dizendo-lhe que se afastasse da casa. Quando voltou aos quartos entrando pela porta das traseiras, o extremo oposto do patamar estava em chamas e Lady Harvey estava lá, caída sobre o corpo estendido do marido. Não sabia se tinha


sido vencida pelo fumo ou se fora o medo que a fizera desmaiar. Levantou-a do chão e carregou-a para baixo, depositando-a no extremo mais afastado do pátio, onde Baines estava caído, a tossir como se fosse deitar os pulmões pela boca fora. Estava a sair fumo por todas as frestas da casa, inclusive por baixo da porta que Matt acabava de usar. Ouviu o barulho de coisas a caírem no interior, e o rugido das chamas. Tirou o lenço do pescoço, mergulhou-o na água de um balde junto das cavalariças e, amarrando-o de modo a tapar-lhe a boca e o nariz, voltou a entrar para ir buscar Sir William. Sentia o calor do fogo mesmo através da porta que dava para o patamar. Abriu-a com cuidado, três ou quatro centímetros, para espreitar. Só a manteve aberta por um segundo, mas foi o suficiente para ver que era demasiado tarde para salvar Sir William. As chamas já o tinham envolvido. O cheiro a carne e cabelo queimados provocou-lhe um vómito. Sabia que Sir William já devia estar morto e que também ele morreria se não saísse dali. Por isso fechou a porta e correu escada abaixo.

– Joe, corre a Keynsham e chama o polícia! – gritou Matt quando entrou em casa aos tropeções, a apoiar Lady Harvey com um braço e Mr. Baines com o outro. – Henry, vai chamar o médico! Os dois irmãos saíram a correr do quarto contíguo à cozinha, de olhos ensonados e a enfiar as roupas. – Que aconteceu? – perguntou Henry, a olhar para Lady Harvey, que, com a camisa de noite suja de lama, parecia um fantasma. – O Albert pegou fogo a Briargate – respondeu Matt, conciso. – Sir William está morto e estes dois têm sorte por estarem vivos. Tenho de ir juntar alguns homens para tentar salvar a casa. Amy apareceu no alto da escada, de camisa de noite. – Tem cuidado, Matt – disse, e então, descendo a escada, foi direita ao quarto dos rapazes, de onde voltou com duas mantas. – Agora estão a salvo – continuou, embrulhando Lady Harvey numa e Baines na outra e empurrando-os na direção das cadeiras. Estavam os dois imóveis e silenciosos como estátuas, num estado de choque demasiado profundo para perceberem sequer onde se encontravam. – Dê-me só um minuto para espevitar o fogão e já trato de vocês.

Deitada na cama estreita e dura, a olhar para o teto baixo e manchado, Anne pensava que aquilo era como um dos terríveis pesadelos que costumava ter quando era criança. Lembrou-se de como costumava forçar-se a acordar, por vezes até a andar pelo quarto, mas mal voltava à cama e fechava os olhos, os sonhos maus recomeçavam. Aquele pesadelo, porém, não parava nem por um segundo. Continuava a ouvir o estralejar das chamas, a sentir o calor e o cheiro a queimado, a ver William estendido no patamar, de camisa de noite. Era ela a culpada de ele ter morrido. Se se tivesse controlado quando Matt aparecera para os salvar! Podia ter-lhe mostrado logo onde ficava a escada das traseiras, e entre os dois poderiam com facilidade ter arrastado William para um lugar seguro. Além disso, se não tivesse convencido William a armar-se em duro, Albert não teria tido necessidade de incendiar Briargate. Que espécie de louca era ela para não lhe ocorrer que ele


tentaria vingar-se? Havia já três dias que estava deitada naquela pequena cama de colchão duro, com lençóis que a arranhavam, tão cheia de remorso e dor que mal sabia se era noite ou dia. Do outro lado da porta, Amy e os quatro filhos tinham retomado o curso normal das suas vidas. De vez em quando ouvia os sons habituais de uma família, risos, conversas e discussões. Sentia o cheiro de comida a ser preparada, ouvia o barulho de pratos a serem lavados, do fogão a ser limpo, de cadeiras arrastadas sobre o chão de pedra. Eram sons e cheiros familiares, e no entanto pareciam-lhe estranhos, como se tivesse sido transportada para um país estrangeiro onde tudo, a língua, os costumes e os comportamentos, fossem desconhecidos e assustadores. Nunca conhecera Amy, a mulher de Matt, antes da noite em que ele a levara para ali, e não tinha nada a apontar à bondade com que a mulher a tratava. Lavava-a como se fosse um dos seus filhos, ligava-lhe os pés, feridos durante a caminhada através do bosque, e até lhe emprestara uma das suas camisas de noite. E no entanto ainda não fora capaz de lhe agradecer, quanto mais explicar-lhe o que sentia, ou sequer perguntar-lhe porque era que continuava a cheirar-lhe a fumo. Era tão estranho. O sabão que Amy usava para a lavar era suficientemente forte para eliminar quaisquer cheiros que lhe tivessem ficado agarrados à pele, e a camisa de noite era limpa. Se não sentia a dor dos pés cortados, como era possível que continuasse a cheirar o fumo? Mesmo na espécie de estado de transe em que se encontrava tinha, porém, consciência de como Matt fora admirável. Salvara-a a ela e a Baines de Briargate e levara-os até ali, um lugar seguro, o que não fora pequena proeza considerando que mal conseguiam andar. Depois reunira os homens da aldeia e voltara a Briargate para tentar salvar a casa. Infelizmente, era uma causa perdida. Amy explicara-lhe que apenas com baldes de água e o vento forte a atiçar as chamas, todos os esforços tinham sido em vão. Disse que a casa ardera até aos alicerces, e que de manhã até as paredes se tinham desmoronado. A polícia andava à procura de Albert. Pensava-se que tinha visto Matt a sair da casa com Lady Harvey e Baines e fugido, em pânico. Matt disse que o condado inteiro fora alertado e que não tardaria muito a ser apanhado. Anne não tinha a certeza de querer que ele fosse apanhado. Não traria William de volta nem reconstruiria Briargate, mas daria a Albert uma oportunidade para a desmascarar a ela e a William durante o julgamento. Já era suficientemente mau ter de enfrentar a viuvez, a perda da casa onde vivia e de todos os seus bens terrenos. Não precisava de um escândalo para completar a sua desgraça. Corava de vergonha sempre que pensava em todas as vezes que, no passado, desejara a morte de William para poder estar com Angus! Como pudera ser tão má? Tinha agora o seu castigo. Na realidade, preferiria ter morrido no incêndio com William a ter de enfrentar Rufus. Amy e Matt podiam acreditar que tudo aquilo se devera apenas ao desejo de vingança de Albert por ter sido despedido. Mas Rufus era demasiado inteligente e percetivo, saberia que tinha de haver mais qualquer coisa, e sondaria, investigaria e faria perguntas até obter as respostas certas.

Uma pancada na porta fez Anne voltar a cabeça. – Entre – disse, cansada, à espera de que fosse Amy com mais comida que ela não seria capaz de engolir.


A porta abriu-se e, por delicadeza, Anne tentou compor um sorriso agradecido. Mas não foi Amy que apareceu no umbral, foi Nell. Anne deixou escapar um arquejo involuntário, não só por não estar à espera de que Nell a visitasse, ao fim de seis anos de afastamento, mas também por parecer uma dona de casa abastada, não uma criada. Estava mais magra do que Anne a recordava, e muito mais atraente; o vestido azulescuro e a touca a condizer faziam brilhar o rosto um tudo-nada pálido, e o cabelo visível por baixo da touca continuava negro como a asa de um corvo. – Peço desculpa por a ter sobressaltado, m’lady, mas tinha de vir – disse Nell, com a voz trémula de nervosismo. – Eu sei que sempre disse que o Albert era malvado, mas nunca pensei que a magoasse a si ou a Sir William. Lamento muito, m’lady. Anne começou a chorar, não tanto por causa das palavras da antiga criada como pelas recordações que o rosto dela evocava. – Não tens de pedir desculpa pelo Albert – soluçou. – Se tivéssemos dado mais atenção ao que há anos disseste a respeito dele, nada disto teria acontecido. – Pronto, pronto. – No mesmo instante Nell estava a seu lado, a massajar-lhe a testa como costumava fazer. – Não se culpe a si mesma agora, temos de voltar a pô-la boa. – Não estou doente – disse Anne, agarrando a mão dela com as suas e levando-a aos lábios. – Pelo menos não no corpo, só no coração. Estou tão contente por teres vindo. Anne sabia que Nell era pelo menos dez anos mais nova do que ela, o que significava que teria à volta de trinta e oito, mas era um choque vê-la parecer muito mais nova do que alguma vez lhe parecera quando estava em Briargate. E um pensamento pouco generoso acudiu-lhe ao espírito: só podia ser por se ter tornado amante de Angus. – Sofreu um choque terrível – disse Nell, sentando-se ao lado dela na estreita cama. – Eu sei o que isso faz a um corpo. Mas temos de levá-la para um lugar mais adequado a uma senhora ilustre. Recuperará mais depressa onde se sentir mais em casa. Anne sentiu-se envergonhada por se ter permitido tirar a conclusão errada. A doce e leal Nell tinha ido buscá-la para a levar para casa de Angus! – Querida Nell – suspirou. – Sempre tiveste a capacidade de adivinhar os meus desejos e necessidades. Mas na verdade eu não mereço a tua compreensão. – Dormi neste quarto durante muito tempo e sei como pode ser barulhento – disse Nell, com um terno sorriso. – Em Wick Farm terá o sossego de que precisa. Mrs. Warren está a preparar um quarto para si. Mandou-lhe algumas roupas e pediu-me para lhe dizer que é muito bem-vinda. Anne sentiu-se como se lhe tivessem tirado o tapete de baixo dos pés. – É muita bondade dela – conseguiu dizer, a disfarçar o desapontamento. Os Warren tinham sido bons vizinhos durante toda a sua vida de casada, mas não eram amigos íntimos, e ela fora até bastante seca com Mrs. Warren quando esta a visitara meses antes. – Estranha-me que ela se preocupe comigo quando não nos vemos há tanto tempo. – Os verdadeiros amigos estão sempre presentes nas emergências. Além disso, como estou certa de que já sabe, Mrs. Warren tem estado a cuidar também de Mr. Baines. Infelizmente, não creio que ele continue connosco muito mais tempo. Está a ir-se muito depressa. Anne compreendeu no mesmo instante que Nell tinha estado em Wick Farm para ver Baines. Sem dúvida julgara menos próprio que a senhora de Briargate estivesse a ser cuidada em condições espartanas na quinta do irmão enquanto o seu mordomo estava luxuosamente instalado.


Não queria ir para parte nenhuma naquele estado de sofrimento, e a suspeita de que Nell talvez fosse mais do que uma governanta para Angus voltou ainda com mais força. – Pobre Baines – disse, consciente de que tinha uma posição para manter a todo o custo, e de qualquer modo gostava genuinamente do velho mordomo. – Não merecia acabar os seus dias desta maneira. – Morrerá feliz se antes disso puder vê-la – respondeu Nell num tom despachado. Dirigiu-se ao saco que tinha deixado junto à porta e tirou de lá um vestido preto e um saiote branco e engomado. – Mrs. Warren mandou-lhe estas roupas. Agora toca a levantar para eu a ajudar a vestir-se. Anne estremeceu perante a ideia de usar roupas que não eram suas, mas ao mesmo tempo havia qualquer coisa de muito calmante no facto de voltar a ter Nell a ajudá-la a vestir-se. Tinha pensado em tudo: camisa interior, espartilho, saiotes e até um par de chinelos almofadados suficientemente grandes para calçar por cima das ligaduras que lhe envolviam os pés. Depois de a vestir, Nell dedicou a sua atenção ao cabelo, escovando-o com gestos meticulosos e prendendo-o num cuidado carrapito sobre a nuca. – Está melhor – disse, enquanto ajeitava o rufo da gola do vestido. – Parece outra vez a minha senhora. Anne sentiu que o comentário refletia um verdadeiro afeto, e apesar de não afastar de todo as suas inoportunas suspeitas, achou que chegara o momento de apresentar a Nell um há muito devido pedido de desculpas. – Perdoa-me, Nell – murmurou. – Merecias muito melhor do que a maneira como te tratei. Diz-me, o capitão é um bom patrão? Nell esboçou um meio sorriso. – O melhor! Mas receio que volte a partir em breve. Parece que está a surgir um conflito com a Rússia. – Com certeza as nossas tropas não terão de ir para lá! – exclamou. Dias antes, William dissera qualquer coisa a respeito de uma disputa entre turcos e russos, mas não parecera nada de grave. – Pois a mim parece-me que qualquer problema em qualquer parte do mundo tem de envolver o nosso exército – disse Nell. – Mas agora venha, o coche dos Warren está à espera. A Amy e o Matt irão visitá-la daqui a um ou dois dias.

– Como está ela? – perguntou Angus mal Nell entrou em casa, já a tarde chegava ao fim. Ela teve a impressão de que ele estivera a andar de um lado para o outro no vestíbulo, à espera do seu regresso. O passar dos anos tinha sido generoso para com ele. Com quarenta e sete, continuava tão esbelto, direito e atraente como quando Nell o vira pela primeira vez. Até os cabelos brancos nas têmporas só serviam para o fazer parecer ainda mais distinto. – Fraca e profundamente chocada – respondeu Nell, enquanto se desembaraçava da touca. – Mas ilesa, excetuando os golpes que fez nos pés ao atravessar o bosque até casa do Matt sem sapatos. – Venha sentar-se junto à lareira e beba um copo de vinho comigo – convidou Angus, tirando-lhe a capa e indo pendurá-la juntamente com a touca. – Conseguiu convencer Mrs. Warren a recebê-la? Nell assentiu com a cabeça. – Mandou-lhe algumas roupas. Foi muito generosa, mas a verdade é que é uma boa mulher.


– E o Baines, como está? Nell encolheu os ombros. – Mal. Mas ficou muito contente por me ver. Talvez melhore com descanso e uma boa alimentação. Penso que não teve nenhuma destas duas coisas nestes últimos anos. Mas não consigo impedir-me de esperar que morra em paz durante o sono... a única coisa que espera os velhos criados é o asilo. Angus pegou-lhe num braço, levou-a para uma cadeira diante da lareira e serviu-lhe um copo de vinho. – A Nell não vai acabar os seus dias num asilo – disse, num tom de reprovação. Nell franziu os lábios. – Espero que não, mas imagino que também o Baines esperava ver o fim dos seus dias em Briargate. Não parece possível a casa ter desaparecido. Olhei através dos campos de Woolard... de lá via-se a mansão... e é uma coisa estranha ela não estar lá. – E como foi Lady Harvey consigo? – perguntou ele. – Altiva como sempre – disse Nell, e fez uma careta. – Pediu-me desculpa pelo passado, mas fiquei com a impressão de que não gostou de me ver tão... Calou-se, sem saber como expressar o que queria dizer. – Bem tratada? – sugeriu Angus. Nell assentiu. – Olhou para mim com um ar de suspeita. Mas talvez eu devesse ter usado uma roupa mais velha e mais adequada à minha posição. Angus riu. – É a minha governanta, Nell, e as suas roupas refletem a sua posição. Espero que lhe tenha dito que agora tenho também uma criada, e que graças a si tenho uma casa onde me orgulho de receber os meus amigos. Nell corou. O capitão dava sempre um grande apreço a tudo o que ela fazia, o que tornava um prazer trabalhar para ele. Nos primeiros dois anos que ali passou, fizera tudo o que era preciso para transformar a velha e decrépita casa numa morada adequada a um cavalheiro. Caiara paredes, esfregara soalhos, fizera cortinas e descobrira profissionais para fazerem as coisas que estavam fora do seu alcance. Não esperara louvores, era recompensa suficiente voltar a ter uma posição, e o trabalho duro impedia-a de pensar demasiado em Hope. Mas quando o capitão voltava a casa no final de mais uma das suas ausências, tomava nota de tudo. Sorria e fazia-lhe uma festa na cara ao ver as filas de boiões de conservas na despensa; ria quando se enfiava na cama numa noite fria e encontrava um tijolo aquecido já à sua espera. Afirmava que as refeições que ela cozinhava eram tão boas como qualquer banquete em que tivesse estado presente na messe de oficiais, e que nunca ninguém lavara, engomara e remendara a sua roupa tão bem como ela. Dizia que todos os seus amigos o invejavam por ter uma governanta tão perfeita e que lha roubariam se pudessem. Nell fingia acreditar que era só lisonja, mas sabia que ele estava a ser sincero, e esse conhecimento ajudara-a muito a ganhar confiança em si mesma. Nunca tivera oportunidade de provar aquilo de que era capaz porque passara a vida inteira a obedecer a ordens, e era um prazer deixaremna tomar decisões, planear ementas, comprar o equipamento e os ingredientes de que precisava. Nem na sua própria casa Albert costumava deixá-la sequer mudar a mobília sem lhe pedir autorização. Chegara a tal ponto que acabou por se convencer de que era tola e que as suas opiniões não tinham


valor fosse para quem fosse.

– Conte-me tudo o que descobriu a respeito do incêndio – pediu o capitão, desejoso de informações. – Foi tudo como nos contaram? Tinham tido notícia da tragédia em terceira mão. Nell estava numa loja em Keynsham quando ouviu duas mulheres falarem de um incêndio. Foi só quando uma delas referiu o nome de um agricultor de Woolard que prestou verdadeiramente atenção, e as interrompeu para perguntar que quinta tinha pegado fogo. Uma das mulheres era a cozinheira do médico, e explicou que um dos rapazes Renton aparecera naquela manhã muito cedo para chamar o doutor. Disse que o incêndio foi em Briargate e que Sir William Harvey tinha morrido, mas que não sabia mais nada. Nell ficara tão horrorizada que correu para casa sem as mercearias que fora comprar. Entre soluços, contou a história ao capitão, que no mesmo instante se dirigiu até Compton Dando para saber mais. Foi um choque terrível descobrir que tinha sido Albert a atear o incêndio e que a polícia andava à procura dele, mas Nell não pôde evitar uma pontinha de orgulho ao saber como Matt salvara Baines e Lady Harvey. Quisera ir no mesmo instante para a quinta, mas Angus impedira-a. Disse que devia deixar Lady Harvey recuperar um pouco. Fez notar que certas pessoas podiam interpretar uma chegada demasiado rápida como sinal de que estava contente por ver provado que tinha razão a respeito de Albert.

– Se o Matt não tivesse visto o Albert sair de Briargate imediatamente antes do início do incêndio, teria parecido um acidente – explicou Nell, pois Amy contara-lhe tudo o que sabia. – Encontraram no gabinete, onde o fogo começou, os cacos de um candeeiro a óleo. Lady Harvey podia ter-se esquecido de o apagar antes de ir para a cama e uma corrente de ar podia tê-lo feito cair. Mas o polícia que fez a investigação pensa que o Albert pôs um carvão aceso em cima do tapete da lareira e depois deitou o candeeiro ao chão, para que o óleo escorresse e se incendiasse. Talvez até o tenha espalhado, para que chegasse aos livros e papéis. – Mas o que o terá levado a fazer semelhante coisa? – perguntou Angus, com alguma incredulidade. – Os homens da aldeia disseram que não fazia sentido ele pegar fogo à casa, uma vez que com isso perderia o emprego. – Parece que Sir William e Lady Harvey lhe tinham dito nessa manhã que teria de se ir embora – disse Nell. – Seria o bastante para o deixar furioso; adorava aquele jardim e via-o como seu. Mesmo depois de tudo o que Albert lhe tinha feito e do muito que o odiava, continuava a ser capaz de se pôr no lugar dele. Albert tinha trabalhado naquele jardim, transformara-o numa coisa bela, e sem dúvida esperara acabar os seus dias a cuidar dele. – Que razão apresentou ela para o despedir? – perguntou Angus, de testa franzida. – Segundo o que ouvi, era ele que mandava lá. – Disse-me que não aguentavam continuar a tê-lo por perto – respondeu Nell, com um encolher de ombros. – Que o Albert os intimidava aos dois há muitos anos e que estavam fartos. Não tivera coragem para continuar a interrogar Lady Harvey a respeito daquele assunto porque ela começara a chorar e a dizer todo o género de disparates, como que era o castigo de Deus pelo seu


adultério. Também não parava de pedir desculpa a Nell, afirmando que só assimilara a ideia de Hope ser sua filha quando já era demasiado tarde. – Talvez já não tivessem dinheiro para lhe pagar – disse Angus, pensativo. – Não é segredo que estavam a passar por um momento difícil. Mas e o Rufus? Já o mandaram chamar? – A Amy disse-me que o reverendo Gosling lhe escreveu a dar a notícia – respondeu Nell. – E também escreveu às irmãs de Lady Harvey. Devem aparecer por cá dentro de um ou dois dias. – Que idade tem o Rufus agora? – Só dezanove. – Os olhos de Nell encheram-se de lágrimas. – Pobre rapaz! Que vai ser dele? – Tanto quanto sei, tem o dinheiro de um legado que o avô materno lhe deixou – disse Angus, num tom calmo. – E parece que é um rapaz inteligente, com uma boa cabeça, de modo que vai ficar bem, apesar de ser um golpe terrível perder o pai. O seu irmão disse quando seria o funeral? Nell abanou a cabeça. – Suponho que tratarão disso quando o Rufus chegar – continuou Angus. – Entretanto, espero que apanhem o Albert. Vai ser enforcado por isto, Nell, e isso pelo menos deixá-la-á livre para voltar a casar. – Senhor! – arquejou Nell, cheia de horrorizada surpresa. Angus esboçou um meio sorriso. – Será um pensamento assim tão horrível? É uma mulher atraente, Nell, com o género de competências que qualquer homem desejaria numa esposa. E ainda é suficientemente nova para ter um filho. – Nunca poderia voltar a casar – respondeu ela, acalorada. – Nunca mais quero estar sob a pata de um homem! – Oh, Nell. – Angus suspirou. – Fomos os dois magoados pelo amor, mas talvez devêssemos os dois pôr tudo isso para trás das costas e tentar outra vez? – O senhor devia – disse ela, com firmeza. – Lembre-se de que Lady Harvey está livre. Arrependeu-se de o ter dito quase antes de as palavras lhe terem saído da boca, porque falar de uma coisa daquelas quando Sir William não estava ainda na sepultura era uma grande falta de respeito. Mas, para sua surpresa, Angus não a admoestou, tudo o que fez foi olhar para ela com uma expressão triste. – Tudo isso acabou – disse. – O meu amor morreu quando ela a tratou tão mal a si. A única coisa que sinto por ela é compaixão, como por uma velha amiga. Tinham sido tantas as vezes, ao longo dos anos, em que Nell se sentira tentada a dizer-lhe que Hope era filha dele. Partilhar o segredo teria atenuado a sua dor, e talvez ele até pudesse ordenar uma investigação ao que lhe tinha acontecido. Mas resistira à tentação apenas por causa da promessa que fizera a Lady Harvey. Voltou a sentir essa tentação naquele momento, porque não acreditava que Angus tivesse deixado de amar Lady Harvey. Era um solteirão muito desejável; os aristocratas com filhas para casar de Bath e de Bristol não se cansavam de o convidar para festas e jantares. Ele costumava falar-lhe, em tom de graça, das muitas senhoras que deixavam bem claro que gostariam de o ter como amante, mas apesar de ser galante, namoradeiro e muitas vezes gostasse genuinamente de alguma dessas senhoras, não parecia disposto a criar uma ligação romântica com qualquer delas. Certa vez, numa ocasião em que tinha bebido um pouco mais do que devia, revelara-lhe o quanto


amara Anne. Disse como o dilacerara saber que era a mulher de outro homem. Antes do nascimento de Rufus, pedira-lhe que fugisse com ele para a América. Ela recusara, e ele sentiu que foi por amar demasiado o título, e ser incapaz de encarar uma vida sem criados, dinheiro e boas roupas. Nell não concordava inteiramente com isto. Seria preciso uma mulher de coragem excecional para enfrentar a condenação de trocar o marido por outro homem. E Sir William não era um homem cruel como Albert; Anne tinha-o amado. Ainda horas antes Nell vira a profundidade daquele amor, porque Anne soluçara ao relatar-lhe como tentara acordar o marido enquanto Matt levava Baines para o exterior. – A culpa foi minha – chorara. – Se tivesse dito logo ao Matt onde ficava a escada das traseiras, ou se lhe tivesse pedido que levasse o William enquanto eu ia buscar o Baines! Fui patética, Nell; entrei em pânico e comportei-me como uma criança assustada. Agora perdi o meu mais querido amigo. * – Já pensou que quando o Albert for apanhado a Hope poderá voltar? – disse Angus, interrompendo o devaneio de Nell. Ela ergueu a cabeça num movimento vivo; de repente, estava outra vez alerta. – Porque havia de o fazer? Angus encolheu os ombros. – Eu sempre disse que era muito mais provável ele tê-la obrigado a deixar Briargate do que a ter matado. Quando estiver preso, não poderá fazer mal a nenhuma das duas. Os olhos de Nell começaram a brilhar de esperança. – Não tinha pensado nisso. Mas pode estar tão longe daqui que nunca chegue a saber de nada! – O assassínio de um aristocrata é notícia – disse Angus. – A história foi publicada pelo The Times de hoje, chegou a expulsar da primeira página a notícia da guerra com a Rússia, que está iminente. A Hope vai saber, onde quer que esteja.


CAPÍTULO 19

ficar congelados se continuarmos aqui muito mais tempo – recordou Bennett a Hope. –V amos – Mas, senhor doutor, é muito mais saudável aqui do que lá em baixo – disse ela com um sorriso. – Ou quer abusar mais uma vez de mim? Na realidade, Hope não queria voltar já para o minúsculo camarote. O vento carregado de poalha de água que lhe humedecia o rosto era revigorante e a vastidão do mar à sua volta maravilhava-a. Além disso, era uma bênção estar longe das pessoas durante algum tempo. Claro que isto não incluía Bennett. Por ela, seria capaz de passar com ele todas as horas de todos os dias sem se sentir aborrecida ou irritada. Mas também ele tinha a capacidade maravilhosa de adivinhar quando ela queria estar calada ou se estava com disposição para barulho e conversa. Hope achava que era provavelmente o marido mais perfeito do mundo. Por vezes, chegara a desesperar duvidando se alguma vez casariam, pois tinham passado quatro anos desde que ela fizera dezoito e ele lhe oferecera o anel de noivado. Bennett disse-lhe naquele dia que estava a pensar tornar-se médico do Exército, mas ela não o levara muito a sério. Mas era a sério. Apenas seis meses mais tarde, Bennett alistava-se na ilustre Brigada de Fuzileiros como cirurgião-assistente, e na altura ela receou perdê-lo, porque o regimento andava sempre de um lado para o outro – Winchester, Canadá e por fim África do Sul, para a guerra dos cafres –, de tal modo que nunca conseguia estar com ele. Hope mudou-se para o novo General Hospital, em Guinea Street, para trabalhar lá como enfermeira. Bennet escrevia-lhe cartas divertidas e cheias de ternura que faziam o seu amor por ele tornar-se cada vez mais forte. Mas os correios eram lentos e pouco fiáveis, pelo que podiam passar seis meses sem uma única carta, e então chegarem seis ou sete ao mesmo tempo. Houvera vários pontos muito baixos ao longo daqueles quatro anos. A solidão foi quase incapacitante, sobretudo quando Bennett partiu para o Canadá e ela se mudou para o General Hospital, onde não conhecia ninguém. No St. Peter’s, tinha a companhia das jovens mães na enfermaria, e com algumas delas tinha criado laços de amizade suficientemente fortes para as ir visitar nos dias de folga. Mas no General Hospital estava na enfermaria de cirurgia dos homens, e a chefe era um autêntico dragão que estava sempre a menosprezá-la, vigiando-a como um falcão à espera de detetar a mais pequena familiaridade com os pacientes, e fazia os dias parecerem intermináveis. Era bom estar num hospital melhor, mas Hope depressa descobriu que ali era uma espécie de anomalia. Tinha conhecimentos de enfermagem e medicina muito superiores aos das senhoras que lá trabalhavam gratuitamente como enfermeiras voluntárias, mas não pertencia à mesma classe. E as enfermeiras vindas de um estrato social semelhante ao seu pareciam ressentir-se do facto de também


não ser bem como elas. Com saudades de Bennett, receando que o dia em que seria sua mulher nunca chegasse e frustrada por a esmagadora maioria das pessoas considerar a enfermagem uma profissão inferior, pouco tinha que a animasse. Mas então, em janeiro de 1854, Bennett regressara a Inglaterra insistindo que casassem logo que fosse possível. Tinha mudado muito durante a estada na África do Sul. Além do rosto bronzeado, do cabelo descolorido pelo sol e de um corpo ainda mais musculoso das muitas horas passadas a cavalo, estava também muito mais assertivo, confiante e experiente. Aprendera muito com os médicos mais velhos do regimento e habituara-se a fazer complicadas intervenções cirúrgicas em condições primitivas e a dirigir o seu próprio hospital de campanha. Viver e trabalhar num meio totalmente masculino endurecera-o e a opinião do tio a respeito de como devia viver a sua vida deixara de lhe interessar. Hope tinha visto o Dr. Cunningham muitas vezes durante a ausência de Bennett, tanto no St. Peter’s como no General. Ao princípio tratara-a com frieza, claramente convencido de que fora ela que convencera o sobrinho a abandonar a clínica. Porém, talvez por influência de Alice, cerca de um ano mais tarde a sua atitude suavizou-se e passou a parar para lhe falar quando a via. Mesmo assim, só no último ano acabara por admitir que ela era uma excelente enfermeira e que, em matéria de mulher, Bennett até podia ter arranjado muito pior. Hope podia ter ficado ofendida pelo comentário, mas nos dias de folga ia com frequência visitar Alice, que lhe dizia que o velho médico falava dela em termos muito elogiosos. Hope sentia que o Dr. Cunningham continuava a preferir que o sobrinho casasse com alguém que o ajudasse a progredir na carreira, mas se o pensava, não o dizia. Até sugeriu que deixasse o General imediatamente e fosse viver para Harley Place até ao casamento, uma vez que havia muitos preparativos a fazer.

Tinham casado ao lado de Harley Place, em Christchurch, no início de fevereiro, num dia de muito frio e com ameaços de neve. Alice tinha feito o traje de casamento, um vestido de lã rosa-vivo com um elegante laço atrás e uma capa a condizer com um capuz orlado a pele. Houve apenas um punhado de convidados: Alice e a irmã, Violet, o Dr. Cunningham e uns poucos velhos amigos de Bennett, incluindo Mary Carpenter. Hope teria dado tudo para ter os irmãos e irmãs consigo naquele dia tão importante, mas como não podia ser esforçou-se ao máximo por não pensar nisso. A caminho de Lyme Regis para a lua de mel, Bennett disse que achava que, logo que possível, deviam ir a Bath visitar Ruth e o marido. Acreditava que se Hope lhes explicasse tudo, poderiam decidir como contar ao resto da família de tal maneira que Albert não se vingasse em Nell. O Dr. Cunningham emprestara-lhes a carruagem para a viagem até Lyme Regis, e com um tijolo quente debaixo dos pés, uma manta confortável a envolver-lhe o corpo e o marido a seu lado, Hope estava tão feliz que não queria pensar em nada que fosse sério. Há já sete anos que estava longe e mais algumas semanas não fariam qualquer diferença para os problemas da família. Sabia que, por muitos anos que vivesse, nunca esqueceria a sua noite de núpcias. O quarto na estalagem fronteira ao mar era quente e acolhedor. Havia um grande lume a arder na lareira, cortinados de brocado a impedir a entrada do ar frio da noite, uma grande cama de dossel, um candeeiro aceso e uma mesa redonda posta com o jantar para os dois. Tinham bebido brandy pelo caminho, para se manterem quentes, e com a garrafa de vinho


partilhada ao jantar ficara a sentir-se um pouco zonza. Lembrar-se-ia sempre de como Bennett a despira, numa desajeitada luta com os atilhos do espartilho, tão ansioso como ela por fazerem amor. Ele beijou as marcas vermelhas deixadas no corpo dela pelas barbas do espartilho e murmurou que não voltaria a usá-lo durante o resto da lua de mel. Disse-lhe que quando estava na África do Sul costumava sonhar com ela nua, mas que era cem vezes mais bonita do que a imaginara. Hope esperara sentir-se assustada e envergonhada, e convencera-se de que ia doer, mas a partir do momento em que ele lhe pegou ao colo e a deitou em cima da cama, saltando numa ânsia faminta para junto dela, todos esses pensamentos se desvaneceram. Ele foi demasiado terno e gentil para a magoar, e explorou o seu corpo com uma delícia tão evidente que ela achou a experiência muito mais excitante do que embaraçosa. Ela própria se surpreendeu com a sua lascívia, arqueando o corpo contra o dele, mas como isso pareceu acicatar-lhe ainda mais a paixão não tentou controlar a sua e abandonou-se por completo.

Lembrava-se de como acordou antes de Bennett na manhã seguinte e, por alguns instantes, não soube onde estava. Mais tarde, disse a Bennett que foi como morrer e despertar no paraíso: a cama macia e quente, o silêncio da casa e o som das ondas a desfazerem-se na praia por baixo das janelas. O que não lhe contou foi como tinha ficado deitada a vê-lo dormir. Nunca o vira dormir, e as feições que tantas vezes pareciam severas tinham-se tornado muito mais suaves e juvenis. O sol quente de África pusera-lhe pés de galinha à volta dos olhos, o que dava a impressão de estar a sorrir. Rapara o bigode para o casamento e os seus lábios, que antes tinham estado em parte escondidos, eram cheios, bem desenhados e muito convidativos. Até àquele momento, nunca sentira nada senão ódio por Albert, mas de repente ocorreu-lhe que se não fosse a crueldade dele nunca teria conhecido Bennett. O tempo não apagara o horror daquele período da sua vida. A recordação da fome, do desespero e da miséria que conheceu nunca a deixariam. Ainda conseguia ver Gussie e Betsy nos estertores da sua terrível agonia, e recordar o alívio que sentira quando Bennett aparecera para a ajudar. Na altura era tão ingénua que não se apercebera de como era extraordinário ter aparecido um médico. Foi, claro, a intervenção de Mary Carpenter que o tornou possível, mas mesmo assim, uma vez no St. Peter’s depressa percebeu que nem a intervenção daquela benfeitora dos pobres em particular teria sido o suficiente para convencer qualquer outro médico a ir a Lewins Mead. Mais tarde, tinham-lhe dito que apenas um punhado de médicos de Bristol usara os seus conhecimentos para ajudar as vítimas da epidemia de cólera. Muitos tiveram tanto medo de serem eles próprios contagiados que tinham abandonado despudoradamente a cidade com as mulheres e os filhos e só voltaram depois de tudo acabado. Bennett não parecia um herói. Na realidade, com os seus modos corteses e a sua esbelta constituição física, poder-se-ia julgá-lo um escriturário ou o empregado de uma livraria. Mas tinha qualidades escondidas; a sua coragem era discreta, fazia o que sabia que tinha de fazer, usava os seus conhecimentos médicos não para se enaltecer a si mesmo mas para o bem da humanidade. Era, além disso, amável, generoso e divertido, e, como ela ficara a saber, um excelente amante. Hope pensava que se alguma vez voltasse a ver Albert lhe diria que lhe estava agradecida por a ter expulsado de casa para conhecer um homem tão maravilhoso. Naquela manhã, deitada na cama a contemplar o marido adormecido, sentiu-se excitada e curiosa a


respeito do género de vida que iam fazer juntos. No fim da semana de lua de mel, voltariam para o quartel do regimento em Winchester e ela passaria a ser a mulher de um oficial. Alice tratara de lhe preparar o guarda-roupa, e Hope achou-o extravagante. Quatro vestidos novos para usar durante o dia, dois vestidos de noite, sapatos, montes de saiotes e outras peças de roupa interior, tudo guardado num baú de viagem novo e brilhante. Mas Alice, com a ajuda e o beneplácito de Bennett, insistiu que era muito importante que ela projetasse a imagem certa. Não tão magnífica como a das outras mulheres de oficiais, porque embora Bennett fosse tecnicamente um oficial, sendo um não combatente era um ser inferior, mas tinha de se distinguir das mulheres dos de outras patentes. E uma vez que em Winchester teria uma criada, precisava de aprender a comportar-se como se isso fosse algo a que estava habituada. Hope rira ao ouvir isto. Não conseguia imaginar-se a ordenar a outra pessoa que lhe lavasse a roupa, lhe cozinhasse as refeições ou lhe limpasse a casa. Mas Alice ralhara-lhe e recordara-lhe que a criada seria a mulher de um soldado, e que se não aprendesse a ser firme, o mais certo era a mulher aproveitar-se dela, tornando-a o alvo da chacota de todo o regimento. Hope já tinha a ideia de que as mulheres dos soldados deviam, pelo menos na sua maioria, ser um pouco como Betsy, coloridas, desbocadas e um tudo-nada loucas, mas Betsy sempre se orgulhara do facto de ela ser instruída e mais senhoril. Teria ficado horrorizada se soubesse que se tornara enfermeira? Hope quase conseguia imaginá-la a abanar a cabeça, espantada, e a afirmar que a amiga não devia estar boa da cabeça! Mas teria de certeza ficado encantada, e Gussie também, por ela ter casado com Bennett. Betsy têla-ia olhado com aquela expressão de quem sabe e ter-lhe-ia dito que já não era uma rapariga, e sim uma mulher a sério.

Nos dias seguintes, Hope sentiu que estava de facto a tornar-se uma mulher adulta. Sentia-se confortável com as suas roupas novas elegantes, e os modos requintados e discretos próprios da mulher de um médico pareciam fazer parte da sua natureza. No entanto, foi um choque descobrir-se tão lasciva. Mesmo quando estavam a comer uma refeição num restaurante ou a desafiar o vento forte num passeio à beira-mar, quase não conseguia pensar noutra coisa senão em fazer amor. Fora das vistas dos transeuntes, parava a cada passo para pedir a Bennett que a beijasse, apertava-se contra ele de uma maneira descarada. Um dia, quando passeavam pelo alto de uma falésia, pegou na mão dele e enfiou-a debaixo da saia. Se Bennett a tivesse possuído ali mesmo, na erva, teria ficado encantada. A verdade era que tanto ele como ela mal podiam esperar para voltar ao quarto e se devorarem um ao outro. * – Achas que todos os casais são assim? – perguntou a Bennett na última noite da lua de mel. Teriam de voltar a Winchester na manhã seguinte e estavam relutantes em ir dormir, como se pensassem que não voltariam a ter oportunidade de fazer amor. – Penso que alguns devem ser – responde ele, com um grande sorriso. – Mas não me parece que muitos dos oficiais que conheço tenham tanta sorte como eu. As mulheres deles têm o ar de quem o evita a todo o custo. – Bem, talvez esses oficiais não sejam tão bons como tu a fazer amor – disse ela, sentando-se às


cavalitas dele, pegando-lhe na mão e levando-a aos seios. – Talvez o façam como aquele comandante da Marinha de que a Betsy me falou. Tirou-lhe a vontade de voltar a experimentar! Bennett riu-se. Ao longo daquela semana, Hope deliciara-se a repetir muitas histórias licenciosas que lhe tinham sido contadas por pacientes na maternidade, por mulheres que conhecera em Lewins Mead e por Betsy. Excitava-a poder partilhar aquelas coisas com um homem. Bennett divertia-se a ouvi-las, e em troca falava-lhe de alguns homens que conhecia. – Mas não te ponhas a dar instruções a respeito destes assuntos em Winchester – disse ele, com fingida severidade. – A maior parte das mulheres dos oficiais é muito puritana, e não as quero a coscuvilhar a teu respeito. – Então é melhor esperarmos que não nos deem uma cama com molas que façam barulho – respondeu ela, inclinando-se para a frente e cobrindo-lhe o rosto de beijos. – Porque, meu querido marido, tenciono abusar de ti todas as noites!

De pé junto à amurada do navio e a olhar para o mar, Hope recordou a Bennett aquele comentário. Ficara horrorizada ao ver como os beliches do camarote eram minúsculos, embora não fizesse a mínima tenção de dormir sozinha num deles. – Achas que nos vão dar uma cama lá para onde vamos? – perguntou. – Ouvi alguém dizer que vamos dormir em tendas! – É bem capaz de ser verdade – respondeu ele. – Vi embarcarem uma quantidade enorme delas, e tomei a precaução de embalar duas camas de campanha. Mas a verdade é que toda esta expedição é uma confusão de todo o tamanho, nem sequer os oficiais parecem saber exatamente para onde vamos. Já ouvi falar de Malta e de Constantinopla, mas o que faremos quando lá chegarmos é coisa que ninguém sabe. Havia meses que os jornais estavam em efervescência por causa dos problemas entre a Turquia e a Rússia. Tanto quanto Hope conseguia perceber, tudo começara em Belém, por causa de uma igreja que tinha sido construída no sítio onde Jesus nascera. Tanto os católicos como os ortodoxos russos a reivindicavam, e então os turcos, que andavam a espicaçar os russos havia anos, tinham-se juntado ao barulho. Já antes de Bennet ter voltado a casa, em janeiro, se dizia que a Inglaterra e a França apoiariam a Turquia em caso de guerra. A Inglaterra não queria que a Rússia passasse a controlar o Mar Negro, que era uma importante rota comercial. Mas, sobretudo, parecia haver a opinião generalizada de que a Rússia estava a precisar de uma boa tareia e que qualquer pretexto serviria. Durante a lua de mel, Bennett dissera que era muito possível que a Brigada de Fuzileiros fosse mandada para o Oriente, e ele com ela. Mas não estava à espera que acontecesse tão depressa. Mal tinham chegado a Winchester quando lhe anunciaram que o regimento partiria de Portsmouth dentro de poucos dias.

– Achas que vai mesmo haver guerra? – perguntou Hope. Estava demasiado empolgada para ter medo. Antes da lua de mel, tudo o que conhecera foi Bristol, e o mais parecido com o mar que vira era o Bristol Channel. Parecia-lhe incrível estar naquele momento a bordo do Vulcan, juntamente com mais cerca de oitocentos homens sob o comando do tenente-coronel Lawrence, a contornar as


costas de França e de Espanha para entrar no Mediterrâneo. – Espero muito sinceramente que possa ser evitada – respondeu Bennett, com a testa franzida num expressão de preocupação. – Waterloo foi há quarenta anos, o duque de Wellington está morto, e duvido muito que os oficiais inexperientes que vão dirigir este espetáculo saibam grande coisa a respeito de estratégia, ou façam sequer ideia do que é preciso para travar uma guerra. Os homens da Brigada de Fuzileiros são mais do que competentes, todos eles excelentes atiradores, e tiveram a guerra dos cafres para os afinar. Mas com palhaços aristocratas como Lord Cardigan e Lord Lucan... Calou-se, talvez por sentir que não era bonito estar a dizer mal de oficiais de cavalaria. Hope sabia exatamente ao que ele estava a referir-se. Lord Cardigan não saía das páginas dos jornais. Era de um modo geral considerado o mais arrogante oficial de toda a Inglaterra, e o mais estúpido. Já fora repreendido por travar um duelo, mandar chicotear os seus homens e perseguir outros oficiais, mas, por ser quem era, conseguira sempre escapar ao castigo. Lord Lucan era seu cunhado, um homem tão desprovido de sentimentos humanos que mandara encerrar o asilo de Castlebar, na Irlanda, durante a fome, para poupar o pouco alimento distribuído aos desgraçados que não tinham mais ninguém que os socorresse. Ainda por cima, os dois homens nutriam um pelo outro um ódio de morte, o que não augurava nada de bom para aqueles que iam servir sob as suas ordens. – Mas os homens em Winchester estavam tão desejosos de lutar – disse Hope, a recordar a atmosfera de excitação que reinava no aquartelamento. Era uma neófita absoluta na vida militar, mas emocionara-se ao assistir a uma parada dos Fuzileiros. Como os uniformes verde-escuros com alamares pretos eram tão elegantes, as botas muito bem engraxadas e os canos das espingardas a brilharem ao débil sol de inverno. Todos a compasso, a marcharem orgulhosos ao som da banda, tinham-lhe parecido formidáveis. – Talvez – respondeu Bennett. – Que se passa? – perguntou ela, sabendo que quando ele franzia os lábios, como estava a fazer naquele momento, era porque tinha mais qualquer coisa a ocupar-lhe o espírito. – As mulheres e os filhos deles – explicou Bennett, conciso. – Sabias, Hope, que não foram tomadas quaisquer medidas para lhes garantir o sustento enquanto os maridos estiverem em campanha? Aquele bando de esfarrapadas que correram atrás do regimento em Portsmouth, a tentarem acompanhá-lo para conseguirem uma última palavra ou um último beijo dos seus homens antes do embarque, estará reduzido à miséria dentro de um ou dois dias. – Mas isso é horrível! – exclamou Hope. Bennett assentiu com a cabeça. – Vão ter de recorrer à paróquia para sobreviverem, mas como muitas delas são canadianas, serlhes-á negado até o pequeno conforto que lá poderiam receber, pois, como sabes, só se consegue obter ajuda da paróquia onde se nasceu. – Estás a dizer que vão morrer de fome? – perguntou Hope, horrorizada. – Sim, a menos que tenham parentes a quem recorrer, ou decidam vender o corpo. Que mais se pode fazer quando se tem filhos pequenos para alimentar? Bennett calou-se. Não queria dizer a Hope o que tinha visto quando fora convocado na noite anterior. Sabia, claro, que era costume as mulheres que desejassem acompanhar os maridos serem escolhidas à sorte, na noite anterior à entrada do regimento em serviço ativo. Só podiam ir seis mulheres por companhia, e todas as que fossem mães ficavam excluídas à partida.


Ele e Hope estavam a dormir quando o cabo Mears bateu à porta do quarto deles para dizer a Bennett que os seus serviços eram necessários. Convencido de que não se trataria de mais do que aplicar alguns pontos na sequência de uma zaragata de bêbedos, disse a Hope que continuasse a dormir e seguiu o cabo. Mears, porém, levou-o até às traseiras de um barracão onde, à luz de uma lanterna, viu o sargento porta-estandarte John Wagner caído no chão no meio de uma poça de sangue e com uma navalha ainda na mão. Quando lhe tocou, verificou que estava frio como um bloco de gelo: aquele homem morrera havia já algumas horas. – Saiu quando estavam a fazer o sorteio – explicara Mears. – Sabíamos que estava preocupado por a mulher e a filha não poderem ir, mas nunca esperámos isto. – Mas era um bom soldado, com quinze anos de serviço! – exclamou Bennett. – Deixar a mulher e a filha abandonadas à fome foi demasiado para ele. – Mears encolheu os ombros. – Embora saiba Deus como é que ele achou que isto as ia ajudar.

– O que foi, querido? – perguntou Hope, interrompendo-lhe o devaneio. – Nada, tirando o facto de pensar que este país não trata muito bem aqueles que o defendem – disse Bennett, sentindo-se incapaz de matar o entusiasmo de Hope com aquilo que julgava que ia ser uma maravilhosa aventura contando-lhe o que tinha visto na noite anterior. – Mas é melhor dares uma vista de olhos às mulheres a bordo e falares com uma para ser tua criada. Todas elas ficarão contentes por poderem ganhar algum dinheiro extra, mas certifica-te de que escolhes uma que seja limpa e honesta.

O mar agitado sacudiu e balouçou o navio durante todo o percurso ao largo da costa francesa e na travessia da baía da Biscaia, e muitos dos que iam a bordo sucumbiram ao enjoo. Hope e Bennett aguentaram-se notavelmente bem, o que deu a Hope uma oportunidade de ouro para conviver com os soldados e as respetivas mulheres que estavam doentes, levando-lhes primeiro araruta e depois caldo de carne para os ajudar a recuperar forças uma vez passadas as náuseas. Queenie Wayson foi a mulher que escolheu para criada, mas não foram a limpeza nem a honestidade a distingui-la, e sim a coragem. Queenie e o marido, Robbie, tinham gizado um plano para o caso de ela não ser escolhida no sorteio. Robbie treinara-a a fazer ordem unida e ela passara a noite anterior no aquartelamento, de cabelo cortado curto e fardada, a fazer-se passar por soldado. Tão bem se saíra que passara na revista, na manhã seguinte, e marchara com as tropas até ao navio sem ser detetada. Só fora desmascarada já a bordo, mas felizmente para ela Lady Errol, a mulher do conde Errol, comandante de uma companhia dos Fuzileiros, e duas das suas amigas que tinham ido despedir-se dela, a marquesa de Stafford e a duquesa de Sutherland, tinham achado graça à aventura de Queenie e persuadido Lord Errol a deixá-la seguir viagem. Mal soubera da história, Hope tivera a certeza de que ia gostar da mulher, e não ficou desiludida. Queenie tinha cabelo ruivo, feições afiladas e modos desafiadores. Além de coragem, Hope descobriu que tinha também um grande sentido de humor. Se ia ter de aguentar a companhia de outra mulher por longos períodos, queria uma que fosse ao menos divertida.


Chegaram a Scutari, na Turquia, a 7 de abril, seis semanas depois de terem partido de Inglaterra. Tinham passado algum tempo em Malta e depois seguido para Gallipoli, onde foi anunciado que a Inglaterra e a França tinham declarado guerra à Rússia. Continuavam a não saber qual era o seu destino final. Quase todos os dias começava a correr um novo boato que podia situar a ação em qualquer lugar entre Odessa e o Danúbio. Mas Hope já fora iniciada em algumas das provações a que podia estar sujeita a mulher de um militar em campanha. Em Malta tinham-lhes dado um quarto no aquartelamento que não era muito melhor do que o de Betsy e Gussie em Lewins Lane. Em Gallipoli foi uma tenda, a dormir no chão porque ninguém conseguia descobrir as camas de campanha que Bennett trouxera. Faltava a água e a lenha para cozinhar tinha de ser apanhada a uma grande distância e carregada para o acampamento. Além disso o calor era insuportável, e muitos homens desmaiaram. Na marcha para Scutari, tinham tido direito apenas a uma mula para carregar a bagagem, apesar de outros oficiais terem podido dispor de duas mulas e um cavalo. Mas Hope não se importou com a marcha, apesar do calor. E também nunca se queixaria fosse do que fosse, pois Bennett receava que o obrigassem a recambiá-la para Malta juntamente com as mulheres de outros oficiais, para aguardarem lá o fim da guerra. Hope acreditava já ter provado a sua utilidade cuidando de alguns soldados que tinham adoecido em Gallipoli e tratando de um golpe feio que Lady Errol fizera numa mão. Esperava que se abrisse uma exceção no seu caso, mas não podia ter a certeza. A primeira vista do aquartelamento turco que ia tornar-se o quartel-general das divisões dos Guardas e da Cavalaria Ligeira foi favorável. Era um edifício antigo, com três pisos, com um pátio no meio e com uma torre em cada canto. A sua localização numa elevação de terreno sobranceira a um pontão de desembarque, as figueiras que o rodeavam e o mar turquesa ali tão próximo eram muito agradáveis. Alguns soldados do regimento de Bennett enviados para fazer uma primeira inspeção voltaram a correr segundos depois, tão verdes como os uniformes que vestiam. Disseram que era a pior coisa que alguma vez tinham visto e Bennett, sabedor de que alguns deles vinham de lugares tão maus ou piores do que Lewins Mead, percebeu que devia ser verdadeiramente horrível. Como cirurgião do regimento, tinha o dever de acompanhar a inspeção formal, e quando voltou disse a Hope que os homens não tinham exagerado. Era absolutamente assustador: o pátio estava alagado pela água dos esgotos entupidos, a carcaça de um cavalo apodrecia na cisterna, o edifício estava cheio de todo o género de detritos putrefactos e infestado de pulgas e piolhos. Não se punha sequer a questão de a brigada se alojar num lugar daqueles, de modo que foi preciso montar acampamento a uma distância suficiente para que o fedor não chegasse lá. Bennett não parecia o mesmo naquela noite. Não quis comer, não sorriu quando Hope fez notar que a tenda de Lord e Lady Errol ficava completamente transparente com um candeeiro aceso no interior e que os homens andavam por ali fingindo desinteresse enquanto Lady Errol tirava o espartilho. Nem sequer olhou quando ela lhe recordou aquela vez, no início da sua relação, em que ele dissera que gostaria de ir acampar. – Diz-me o que se passa – pediu ela. – Estás com medo de que me mandem embora? – Sim, estou preocupado com isso – respondeu ele. – Mas preferia que estivesses em Inglaterra


com o meu tio e a Alice do que saber-te presa em Malta. – Mas não é só isso, pois não? – Não. – Bennett suspirou. – Aquele lugar imundo vai ser o principal hospital de campanha. Os homens podem limpá-lo, mas não temos camas, mantas nem medicamentos, e receio que os doentes e os feridos o encham muito antes de aquela gente em Inglaterra achar adequado mandar-nos o equipamento e as provisões de que precisamos. – Achas que vai haver uma batalha em breve? – perguntou Hope. Não conseguia evitar sentir-se alvoroçada; muitos soldados tinham-lhe confessado estarem desejosos de que a luta começasse, e tinham-na contagiado com o seu entusiasmo. Bennett encolheu os ombros. – Ouvi dizer que têm a esperança de tomar Sebastopol, na Crimeia. – Desenhou no chão um tosco mapa do Mar Negro para lhe mostrar onde ficava Sebastopol. – Mas é preocupante. Sou apenas um cirurgião, mas se fosse o comandante, a primeira coisa que faria seria mandar reconhecer o lugar. Poucos entre nós sabem sequer dizer onde fica, e ninguém sabe como está defendida. Os uniformes dos nossos homens não são adequados a este clima quente, não me parece que tenhamos provisões suficientes, temos apenas uma pequena parte do material médico necessário e até agora não vi nada que se aproximasse sequer de poder ser usado como ambulância. – Preocupas-te demasiado – disse Hope, aproximando-se para o abraçar. – Lady Errol disse-me que iremos em breve para um lugar chamado Varna, e que mais tropas se juntarão a nós. Tenho a certeza de que todo o outro equipamento também irá lá ter.

A 25 de maio, o dia do aniversário da rainha, Lord Raglan, o comandante-chefe, chegou a Scutari para passar revista às tropas. Hope achou-o muito velho, por muito nobre que parecesse com o seu chapéu emplumado e os seus muitos galões dourados, e ainda por cima só tinha um braço. Ouvira dizer que tinha sido ajudante de campo do duque de Wellington em Waterloo, de modo que supunha que era o homem certo para comandar. Poucos dias depois, a 29, Hope e Bennett estavam de novo no mar, desta vez a bordo do Golden Fleece e a caminho de Varna, na Bulgária, onde se lhes iriam juntar mais tropas, bem como o exército francês. Ninguém dissera a Bennett que mandasse a mulher para casa, e Lady Errol, com quem Hope estabelecera uma hesitante amizade, disse que se surgisse alguma dificuldade ela própria falaria com Lord Raglan do assunto. – Não parece bonito! – exclamou Hope, quando entraram no porto búlgaro. Embora fosse verdade que as casas ao longo do cais eram decrépitas construções de madeira, achou-as muito pitorescas. Mas à medida que o navio se aproximava da margem, um cheiro nauseabundo chegou até eles e Bennett suspirou. – Nunca mais me queixarei seja do que for em Inglaterra – disse, inclinando-se para sussurrar ao ouvido ela. – Nem da porcaria nas ruas, nem dos asilos, nem dos mendigos ou sequer dos hospitais. E quando voltarmos para lá, arranjarei uma casa junto ao mar e só tratarei pacientes ricos. A cidade era fétida e tinha uma população suja de cerca de quinze mil gregos, turcos e búlgaros que pareciam não reparar nos esgotos entupidos e nas fossas a céu aberto. Mas a Brigada de Fuzileiros desembarcou e, com a banda a tocar «Cheer, Boys, Cheer», marchou rapidamente até um


lugar situado a curta distância e montou acampamento perto de um lago. Nos dias que se seguiram, sentada no topo de uma colina atrás do acampamento, Hope viu chegar uma série ininterrupta de navios que transportavam tropas e maravilhou-se com o espetáculo dos vários regimentos. Ficou particularmente fascinada pelos Highlanders, com os seus kilts axadrezados a marchar ao som lamentoso das gaitas de foles, que era diferente de qualquer outro que alguma vez tivesse ouvido. A infantaria, com as suas casacas vermelhas e calções brancos, era imponente, tal como os franceses, com as suas casacas azuis. Na manhã daquele mesmo dia tinha ouvido um soldado do regimento dizer mal do uniforme dos russos; disse que vestiam de cinzento e pareciam um bando de ratazanas. Afirmou que quando vissem os vistosos uniformes dos aliados, fugiriam a correr. Então, quando já pensavam que não era possível haver soldados mais bonitos, chegaram os hussardos. Era difícil decidir quais eram mais magníficos, se os belos e nervosos cavalos ou os respetivos cavaleiros, com os calções vermelho-cereja muito justos e os dólmans azuis adornados com entrançados de fio de ouro. Havia várias bandas a tocar. Havia muito barulho, com gritos, cavalos a galopar, equipamento a ser descarregado. Havia carretas, carros de bois carregados de munições, tendas e material de campanha, mulas carregadas com cargas pesadas, e mais cavalos, que provocavam nuvens de pó. Hope notou que os franceses pareciam mais bem organizados e equipados do que os ingleses. Só eles pareciam ter um verdadeiro plano, e as suas tendas foram montadas com rapidez e eficiência. Bennett apontou-lhe Lord Cardigan e Lord Lucan e explicou-lhe que havia já uma furiosa disputa entre os dois, porque Cardigan pensara que ia ser ele a estar no comando mas Lord Raglan decidira que seria Lucan. Ao que parecia, acabara por ser decidido que Lord Lucan ficaria com a Brigada Pesada e Lord Cardigan com a Brigada Ligeira, mas uma vez que Lucan teria o comando geral, esperava-se que houvesse problemas. Hope não pensava grande coisa daqueles dois homens, dos quais tanto ouvira falar em Inglaterra. Eram ambos muito velhos, com cinquenta e cinco anos ou mais. Cardigan tinha um ar tão arrogante como ouvira dizer, e não era nem de longe tão atraente como lho tinham descrito, com aquelas suíças hirsutas que lhe desciam de ambos os lados da cara. Além disso, tinha maus dentes. Quanto a Lucan, tinha uma expressão azeda, como se estivesse a chupar um limão, e dizia-se que era tão picuinhas que andava a medir com uma régua o espaço entre as tendas, e se não fosse exatamente o regulamentar, mandava os homens desmontá-las e mudá-las. Durante dias, porém, Hope ficou demasiado impressionada com a enorme quantidade de soldados – alguém disse que eram mais de setenta mil – e o caos e a intensa atividade à sua volta para poder fazer uma ideia de como estavam a ser organizados, se é que estavam. Tão depressa os homens, de uniforme completo, estavam formados em parada enquanto as tendas e equipamentos eram inspecionados, como se sentavam no chão a fumar ou a beber, para daí a instantes, como que galvanizados por uma força invisível, moverem tendas, descarregarem canhões ou apanharem lenha. Ouvia os risos das mulheres daqueles soldados enquanto lavavam roupa no rio, e quando as viu a chapinhar como crianças sentiu-se tentada a juntar-se-lhes, porque estava muito calor, mas sabia que tal comportamento seria notado, e reprovado. Sem a companhia de Queenie ter-se-ia sentido terrivelmente só, pois Bennett fazia parte da equipa de médicos ingleses e franceses que supervisionavam a limpeza do hospital de Varna. Dizia-se que estava ainda em pior estado do que o de Scutari, cheio de pulgas e outros parasitas, sem esgotos,


mais próprio para gado do que para doentes e feridos. Mas Queenie tinha muitos dos atributos de Betsy, era tão atrevida, opiniosa e cheia de vida como ela fora. Os seus conhecimentos de cozinha eram inexistentes e não fazia ideia do que fosse higiene, mas era ótima a descobrir coisas, capaz de desencantar praticamente tudo o que Hope quisesse ou precisasse. E além disso, era divertida.

– A água está a ficar muito lamacenta – disse Hope quando ela e Queenie se aproximaram do rio para lavar algumas peças de roupa. Estavam em Varna há já um mês, e embora ao princípio tivesse parecido um lugar muito agradável para montar o acampamento, com tantos milhares de homens a viver ali estava a tornar-se muito depressa inabitável. – É natural, com todos aqueles cavalos grandes a espezinhar tudo – respondeu Queenie. – Com certeza não estava à espera que fizessem fila como cavalheiros para beberem um de cada vez. Hope riu. A vozinha esganiçada de Queenie divertia-a mesmo quando ela não estava a tentar ter graça. – Não, não estava, mas podiam ir beber um pouco mais abaixo e deixar este pedaço de rio limpo para nós. E o que é aquilo a flutuar além? – perguntou, a apontar para o que parecia ser as entranhas de um animal levadas pela corrente. – Parece que alguém matou uma ovelha, ou coisa que o valha – respondeu Queenie. – O porco atirou as tripas para o rio! Bennett já fizera notar que a localização do acampamento, perto de lagos e rodeado por terras pantanosas, era pouco saudável devido aos enxames de mosquitos que à noite levavam toda a gente à beira da loucura. Agora que o rio, de águas límpidas e cristalinas quando tinham chegado, estava tão sujo, tanto ele como Hope receavam que os soldados começassem a adoecer, porque com aquele calor bebiam grandes quantidades de água. – De futuro, vamos buscar a nossa água ali acima. – Hope apontou para montante, onde ninguém tomava banho e os cavalos raramente iam dessedentar-se. – E passamos a fervê-la antes de a beber. Queenie revirou os olhos, num ar de impaciência. – Ora, deixe-se disso, Mrs. Meadows. Não tou pra caminhar a toda a hora até ali com este calor! A água é igual em todo o lado. – Não, não é – disse Hope, num tom firme. – Já temos homens suficientes a queixarem-se de diarreia, não queremos ver qualquer coisa pior a aparecer por aí.

Mas um mês mais tarde tinha aparecido uma coisa muito pior. Cólera. Até então só no acampamento francês, e as tropas inglesas já se tinham deslocado para mais longe dos pântanos como medida de precaução, mas a preocupação era geral. Hope, que provavelmente conhecia melhor aquela doença do que qualquer outra pessoa do seu círculo mais próximo, estava muito assustada. Sabia que podia dizimar um regimento inteiro, e embora todos os soldados soubessem que podiam cair em combate, isso era ao menos uma maneira nobre de morrer. Ao longo daqueles meses, tinha acabado por conhecer muitos dos homens que ali estavam; tratara as costas dos que tinham sido chicoteados por embriaguez, admoestara alguns por se terem


empanturrado de fruta verde e ficado com dores de barriga. Escrevera cartas para dois ou três que não sabiam ler nem escrever e, com rogos e lisonjas, conseguira convencer muitos a ajudar na limpeza do hospital. Não eram rostos desconhecidos como as vítimas que tinham morrido no St. Peter’s; eram amigos e camaradas, e quase todos muito novos. Com a subida da temperatura, em julho, subiu também a taxa de mortalidade, e a doença estava agora também no acampamento inglês e entre os turcos. Um grupo de homens, anunciado como Corpo de Transporte Hospitalar, chegou a Varna. Deveriam ser maqueiros e serventes, mas na realidade eram todos demasiado velhos ou fracos e sobretudo demasiado bêbedos para serem de qualquer utilidade. Não tardaram a apanhar cólera e a morrer. Os homens já estavam a ficar desencorajados muito antes de a doença se ter insinuado no acampamento. O calor, as tempestades de pó, os exercícios constantes, a má alimentação e a espera interminável estavam a minar-lhes o moral. Agora, porém, a mais pequena pontada na barriga, um ligeira febre ou uma dor de cabeça podiam ser o início da cólera, e o medo refletia-se em todos os rostos. Hope trabalhava incansavelmente ao lado de Bennett e dos outros médicos. O hospital de Varna continuava infestado de pulgas, de modo que usavam uma grande tenda para instalar os doentes. Mas o calor sufocante e a escassez de láudano e outros medicamentos tornavam difícil proporcionar sequer um pouco de conforto, quanto mais ajudá-los a recuperar. Em julho morreram quase quatrocentos homens, e em agosto esse número duplicou. Só o segundo batalhão da Brigada de Fuzileiros tinha perdido trinta homens. Hope conhecera muitos deles durante a viagem até ali, e vêlos morrer fora quase tão mau como ter perdido Gussie e Betsy. – Hoje tens de descansar – disse-lhe Bennett bem cedo numa manhã de finais de agosto. Estava ajoelhado ao lado da cama de campanha dela, a pôr-lhe uma mão na testa. – Não conseguiria aguentar se também tu adoecesses. Quando a Queenie chegar, procura um lugar à sombra e passa lá o dia. – Mas sou precisa – protestou Hope, tentando pôr-se de pé para preparar o pequeno-almoço. – Sabes tão bem como eu que eles morrem com ou sem os nossos cuidados – respondeu ele num tom mais duro, empurrando-a para baixo. – Mas eu não posso viver sem ti, e tu estás com um ar tão cansado que insisto que repouses. Hope sabia que quando ele tinha aquela expressão severa estava a dar-lhe uma ordem, e era melhor não desobedecer. Além disso, a perspetiva de um dia inteiro sem fazer nada era agradável. Pensou que talvez ela e Queenie pudessem levar um piquenique para o bosque.

– Conte-me como conheceu o doutor – pediu Queenie, mais tarde nessa manhã. Tinham saído do acampamento pouco depois das oito, antes que o sol aquecesse demasiado, e com um pequeno piquenique num cesto, uma manta para se sentarem e uma grande garrafa de água encaminharam-se para os bosques, a poucos quilómetros de distância. Continuavam a ouvir o barulho – com tantos milhares de homens ali reunidos, teriam de se afastar para muito longe para conseguirem um silêncio absoluto –, mas abafado e distante, e estava muito mais fresco debaixo das árvores. Deitada na manta ao lado de Queenie, Hope quase podia fingir que estava de novo com Betsy, pois apesar de a voz dela ser muito diferente, e de ser mais baixa e muito mais espinhosa do que a sua


antiga amiga, tinha um à-vontade semelhante, uma esperteza aguçada pelas dificuldades e uma linguagem muito colorida. Hope pôs Queenie a falar da sua família. – A minha mãe era puta – disse ela, sem a mais pequena ponta de embaraço. – Não sei quem foi o meu pai, um marinheiro qualquer, suponho. Ela teve tantos que acho que já nem se lembra. Mas tratou de nós, e tínhamos comida e essas coisas. Tenho uma irmã mais nova, e a minha mãe vive com o meu irmão mais velho, o Michael, porque já tá demasiado velha para aquela vida. O meu irmão é ferreiro e governa-se bastante bem. Os outros foram todos servir. Eu trabalhava numa taberna quando conheci o Robbie. Robbie, ao que parecia, era também de Portsmouth, como Queenie. Conheciam-se de vista desde crianças, mas só quando ele voltou do Canadá, de licença, é que voltaram a ver-se. Apaixonaram-se e casaram. – Tentei ir com ele quando foi a guerra dos cafres – explicara Queenie. – Mas não me escolheram. Mas desta vez não ia ficar em casa, custasse o que custasse. Pedi-lhe que me ensinasse aquelas coisas que eles fazem, com a arma e tudo, durante dias. Devia ter-me visto nas chamadas; enganei um monte deles. Só foi pena ter de cortar o cabelo, não me sinto a mesma sem ele. Hope riu-se. Achava que Queenie ficava muito bonita com o cabelo curto. – Há alturas em que de boa vontade cortava o meu – disse ela. – É muito incómodo com este calor. – O seu cabelo é lindo – exclamou Queenie, com admiração. Costumava escovar o cabelo de Hope, examinando-o à procura de sinais de piolhos. – Mas a verdade é que tudo em si é bonito, a maneira como fala, a sua cara, a maneira como é. Toda a gente fala dessa tal Mrs. Duberly que apareceu no acampamento, mas a senhora é muito mais bonita. Hope sorriu. Mrs. Duberly era a mulher do tesoureiro da cavalaria, uma loura delicada que montava a cavalo tão bem como qualquer homem. Era muito admirada por todos, exceto por Bennett, que a achava uma cabeça oca e suspeitava que era na realidade amante de Lord Cardigan, pois parecia que estavam sempre juntos. Por isso era agradável saber que Queenie a preferia a ela. Queenie perguntou-lhe de novo como conhecera Bennett e Hope contou-lhe uma versão abreviada da verdade; que o conhecera quando trabalhava como enfermeira. – Não sei como consegue suportar pessoas doentes – disse Queenie, e estremeceu. – A mim não me apanhavam a limpá-los, nem nada dessas coisas. Adormeceram depois do piquenique, e Hope foi acordada de repente pelo som de uma voz masculina. Ficou desorientada por um instante, a pensar que era a voz de Bennett, e nem se deu ao trabalho de se mexer. Mas quando ouviu uma segunda voz e o estalido de um ramo pisado ali perto, abriu os olhos e viu dois homens a olhar para elas. Eram turcos, a julgar pela cor morena da pele e pelas calças vermelhas de balão, apesar de não usarem o habitual fez. Hope não percebia o que diziam, mas o tom excitado das vozes e a luxúria nos olhos escuros bastavam. – Acorda, Queenie – disse, dando uma cotovelada na companheira e sentando-se. – Inglesa – disse, apontando na direção do acampamento. – Meu marido oficial no Exército. Queenie acordou, percebeu no mesmo instante o que se passava e levantou-se de um salto. – Sumam-se – gritou. – Vamos, desapareçam! Um dos homens disse qualquer coisa e olhou para Hope com um sorriso lascivo. Hope pôs-se de joelhos como que para arrumar o cesto do piquenique e, com um gesto hábil, enfiou uma faca na


manga antes de se levantar. Entretanto, Queenie gritava insultos aos dois homens, que recuaram um passo. Mas, talvez por terem compreendido algumas das invetivas mais suculentas, de súbito os seus rostos escureceram e saltaram ambos para a frente. Um deles agarrou Queenie, prendendo-lhe os braços contra os lados do corpo, enquanto o outro, mais lento, prendia o braço esquerdo de Hope com dedos que pareciam uma garra e a empurrava contra o tronco de uma árvore. De repente, Queenie estava caída no chão, e o seu captor por cima dela. Havia poucas dúvidas quanto ao que tencionava fazer-lhe, e tudo indicava que o que segurava Hope se preparava para assistir primeiro e fazer-lhe o mesmo depois. Queenie berrava a plenos pulmões, lutando como uma gata assanhada para sair de baixo do homem. Mas apesar de não ser muito alto, o indivíduo era muito bem constituído, e os esforços dela só estavam a conseguir excitá-lo ainda mais. Também Hope gritou, mas não atacou com a mão livre porque estava a tentar tirar a faca de dentro da manga. Quando o homem lhe agarrou a saia, lha puxou para cima e lhe empurrou as costas contra a árvore, já ela tinha o cabo bem seguro entre os dedos. Esperou apenas o tempo suficiente para ele se endireitar, e então cravou-lhe a lâmina no flanco. A expressão de choque dele foi quase risível. Recuou a cambalear, com os olhos a revirar enquanto tentava arrancar a faca com a mão. Durante um ou dois segundos, foi como se tudo acontecesse muito lentamente. O homem em cima de Queenie tentava afastar-lhe os joelhos, o seu atacante tentava tirar a faca do corpo, e poderia consegui-lo a qualquer momento e atacá-la com ela, enquanto Queenie seria violada. Até àquele instante, Hope estivera muito assustada, mas de repente o medo transformou-se em fúria. Não tinha vindo de tão longe para ser violada e morta por um dos turcos que estavam a defender. Com um grito de raiva, correu para o homem, arrancou-lhe a faca do flanco e derrubou-o com um pontapé. – É assim mesmo, senhora! – gritou Queenie, com a voz um tanto abafada pelo homem que tinha em cima. – Agora espete este filho de puta! Hope correu para ela, agarrou o homem pelos cabelos e encostou-lhe a lâmina ao pescoço. De súbito, ouviu o som de passos a abrir caminho por entre o mato. Ainda a agarrar o homem, ergueu a cabeça e viu três cavaleiros, de calções vermelho-cereja, correrem na sua direção. Os recém-chegados assumiram o controlo da situação. Um esmurrou o atacante de Queenie, o segundo examinou o que continuava caído no chão, agarrado ao flanco e a gemer, e o terceiro, alto e de cabelo escuro, ajudou Hope a pôr-se de pé. – Vamos acompanhá-las de volta ao acampamento – disse a Hope. – Mas importa-se de baixar primeiro essa faca? Está a deixar-me um pouco nervoso. O homem alto, que se apresentou como soldado Haynes, fez-lhes algumas perguntas no caminho de regresso ao acampamento. Os outros dois empurravam os turcos, presos pelos braços, alguns passos mais atrás. Foi Queenie que se encarregou das explicações. Hope estava demasiado em choque para falar. Custava-lhe acreditar que espetara uma faca num homem e talvez tivesse cortado o pescoço de outro se não tivesse sido interrompida. – O melhor é levá-la ao nosso capitão – disse Haynes, quando chegaram à primeira linha de tendas. – Eles tratam dos turcos – acrescentou, com um gesto de cabeça na direção dos outros dois


soldados. Hope estava a esforçar-se por conter as lágrimas, a querer falar com Queenie a sós, e o que menos lhe apetecia era contar o que acontecera a um desconhecido. Mas sabia o suficiente da vida militar para compreender que um incidente daqueles tinha de ser devidamente comunicado. Haynes levou-a por entre duas filas de tendas até um oficial que escrevia sentado a uma mesa baixa. Estava de costas para eles, mas voltou-se quando Haynes falou, e ao ver-lhe o rosto Hope sentiu as pernas cederem. Devia ter perdido os sentidos apenas por um ou dois segundos, pois quando voltou a si ainda estava caída no chão. Ouviu Haynes explicar o que tinha acontecido no bosque, e ele estava ajoelhado a seu lado, a pôr-lhe qualquer coisa macia debaixo da cabeça. – Fique quieta – disse ele, com os olhos escuros fixos nos dela. – Sofreu um choque muito grande e desmaiou. Sei que o seu marido é cirurgião; vou mandar alguém chamá-lo. – Se não se importa que lho diga, senhor, o que lhe fazia bem era uma pinga de brandy ou de rum – disse Queenie, fora da linha de visão de Hope. – A mim sei que fazia. Era exatamente do que Hope sentia que estava a precisar. A última coisa que alguma vez esperara encontrar em Varna, tão longe de casa, era uma recordação de Briargate. Ver-se cara a cara com o capitão Angus Pettigrew era um choque ainda maior do que descobrir-se capaz de espetar uma faca nas costelas de um homem. Pensava muitas vezes em Nell e na sua aldeia natal, mas as recordações de Briargate há muito que se tinham tornado imprecisas. No entanto, ver o rosto do capitão fê-las voltar em catadupa. Continuava tão bonito e garboso como sempre fora, apesar de o cabelo negro começar a ficar grisalho. Como mulher, compreendia agora porque fora que Lady Harvey arriscara tanto por ele. Porque fora que não lhe passara pela cabeça que ele podia estar ali? Ao fim e ao cabo, sabia que era oficial de cavalaria. – Já estou bem – disse, sentando-se. Queria sair dali, receava que ele a reconhecesse. Mas enquanto pensava isto deu-lhe vontade de rir de si mesma. Homens como ele não reparavam em criadas, e muito menos em serventes de cozinha com doze anos. Ele estendeu a mão para a ajudar a levantar-se, e então insistiu que se sentasse na sua cadeira. O criado saiu da tenda com dois copos de qualquer coisa para ela e para Queenie, qualquer coisa que lhe queimou a garganta quando bebeu o primeiro gole. Pensou que devia ser brandy, pois quando olhou para Queenie viu-a estalar os lábios, deliciada. Queenie explicou tudo ao capitão, porque ela estava demasiado aturdida para dizer fosse o que fosse. – Não foi esperta ao tirar a faca do cesto? – dizia Queenie, excitada. – Vi-a enfiá-la na manga pelo canto do olho, mas nunca esperei que a usasse nele. – Foi bem pensado, sem dúvida – disse o capitão, e sorriu a Hope. – Mas a verdade é que já tinha ouvido dizer que o cirurgião da Brigada de Fuzileiros tem uma mulher muito capaz. Creio que tratou de um dos meus homens, o soldado Jacks. E ele não se cansa de contar a toda a gente como escapou à cólera. – Foi um dos que tiveram sorte – respondeu Hope em voz baixa, mantendo os olhos no chão. – Não são muitos os que o conseguem. – Ela trabalha de mais – interrompeu Queenie. – Está lá todos os dias, de manhã, à tarde e à noite. Foi por isso que o Dr. Meadows disse que hoje podia descansar. Mas se quer que lhe diga, quanto


mais depressa sairmos daqui melhor será para todos. Não é um lugar saudável. Ao olhar para o rosto animado de Queenie, Hope percebeu que ela já tinha ultrapassado o choque do que acontecera no bosque. Mas, tal como Betsy tentava sempre usar qualquer incidente em proveito próprio, Queenie estava a fazer o mesmo. Mesmo que significasse apenas um segundo copo de brandy, para ela aquilo era uma oportunidade. O capitão riu-se do comentário de Queenie, e Hope recordou porque simpatizara com ele há todos aqueles anos. Não era altivo, falava com todos os criados de Briargate como se fossem seus iguais. Pensou que a maior parte dos oficiais, sobretudo os de cavalaria, teria mandado calar alguém como Queenie. – Acho que é melhor irmos. – Hope pôs-se de pé. – Fará o favor de agradecer por mim aos homens que nos ajudaram? Nem quero pensar no que poderia ter acontecido se tão tivessem aparecido. – Não, é melhor esperar pelo seu marido – disse ele, voltando a empurrá-la para a cadeira. – O Haynes foi chamá-lo, deve estar a chegar. Sei que não há de querer que a mulher vá sozinha até tão longe depois de tão grande susto.

Hope contava que Bennett demorasse a chegar. Pediu um pouco de água para lavar o sangue que lhe manchava as mãos e arranjou o cabelo, mas acabava de voltar a sentar-se com uma caneca de café à frente quando o marido apareceu, transportado pelo soldado Haynes numa pequena aranha. O capitão tinha-se afastado para tratar de outros assuntos, deixando as duas mulheres ao cuidado do criado, Mead, mas voltou no instante em que Bennett saltava da aranha com uma expressão de profunda preocupação estampada no rosto. – Mrs. Meadows foi muito corajosa – disse, apresentando-se e trocando um aperto de mão com Bennett. – Penso que os turcos subestimaram as mulheres inglesas. Mas certificar-me-ei de que são castigados. Não me parece que sejam soldados, é mais provável que sejam homens da cidade à procura de qualquer coisa para roubar. – Já estou bem – disse Hope, enquanto Bennett lhe media o pulso e se afadigava à sua volta. – Foi a Queenie que passou o pior bocado. Mas agora gostava de voltar para a nossa tenda, por favor. Queenie declarou que nunca se sentira tão bem, e o rosto iluminou-se-lhe ainda mais quando o capitão perguntou a Bennett se aceitava um copo de qualquer coisa. – Em condições normais aceitaria – respondeu Bennett, a olhar para Hope. – Mas tive um dia esgotante no hospital e tenho de levar a Hope de volta ao nosso acampamento antes que escureça. – Hope! – repetiu o capitão, e ficou pensativo, a olhar para ela. – Aí está um bom nome para uma enfermeira! Não me disse de onde é, Mrs. Meadows. Deteto um sotaque do Somerset? – Sem dúvida que sim – disse Bennett, respondendo por ela. – Obrigado por ter cuidado das senhoras. Agora temos de ir.

Na manhã seguinte, Bennett estava no dilapidado hospital da cidade a ver que melhoramentos tinham sido feitos quando o capitão Pettigrew apareceu no seu cavalo castanho. – Como estão Mrs. Meadows e a criada? – perguntou enquanto desmontava. – Estão as duas bem – respondeu Bennett, lisonjeado pelo facto de o imponente hussardo ter tido a delicadeza de ir perguntar. – A minha mulher estava um pouco retraída ontem à noite, mas isso é


normal depois de um tão grande choque. O homem que ela feriu recebeu cuidados médicos? – Os que merece! Infelizmente, não foi um ferimento mortal – disse o capitão, com um sorriso rasgado. – Vim à cidade procurar alguém com autoridade. A opinião geral é que devia ser chicoteado quase até à morte, mas é um civil e vamos quase de certeza ter de o entregar. – É triste quando duas mulheres não se podem afastar do acampamento sem serem molestadas – declarou Bennett, indignado. – Graças a Deus não ficaram magoadas. Mas agradeço muito o seu interesse por elas. – A pergunta que vou fazer-lhe pode parecer estranha e impertinente – disse o capitão, de repente. – Mas diga-me, Mrs. Meadows esteve alguma vez ao serviço em Briargate, no Somerset? Bennett olhou com atenção para o homem, com o cérebro a trabalhar a toda a velocidade face à inesperada pergunta. – Porque pergunta? – respondeu, cauteloso. – Porque tenho uma governanta chamada Nell Renton que tem uma irmã a quem perdeu o rasto. O nome da irmã é Hope. Abalado, Bennett sentiu que precisava de se sentar para pensar naquilo antes de responder. – Perturbei-o – observou o capitão Pettigrew, olhando para ele com curiosidade ao não obter resposta. – Não é minha intenção meter-me onde não sou chamado nem arranjar problemas. Mas gosto muito da minha governanta, que está comigo há sete anos, desde que deixou Briargate. O seu maior desgosto é ter perdido a irmã, o que foi sem dúvida obra do homem com quem a Nell estava na altura casada. – A Nell já não está com ele? – Bennett sentiu o coração dar-lhe um salto no peito, e apercebeu-se demasiado tarde que acabava de admitir a identidade de Hope. – A sua mulher é então irmã da Nell! – O sorriso do capitão era de pura delícia. – A Nell deixou o Albert Scott no dia em que descobriu que a irmã tinha desaparecido de Briargate. Estava convencida de que ele a tinha matado. Pessoalmente, nunca partilhei essa opinião; sempre achei que era muito mais provável que tivesse obrigado a jovem Hope a partir. Mas quando ele pegou fogo a Briargate e matou Sir William... – Pegou fogo a Briargate? – interrompeu-o Bennett. – Não leu nada nos jornais? – Pettigrew parecia espantado. – Foi no início deste ano. A polícia procura-o desde então. Bennett fez mais algumas perguntas e descobriu que tudo aquilo acontecera quando ele e Hope estavam em lua de mel, um período em que nem sequer olhara para um jornal. Então, tendo partido para a Turquia tão pouco tempo depois, pouco ou nada ligara a outras notícias que não tivessem a ver com a guerra. – Estou num dilema – disse, com a cabeça a andar à volta com tantas notícias dramáticas que, bem o sabia, iam abalar Hope. – Sei tudo o que aconteceu entre a minha mulher e o cunhado, e houve razões muito fortes que levaram a Hope a recear entrar em contacto com a irmã. Mas não posso revelar-lhe nenhuma dessas coisas sem o consentimento dela. O capitão Pettigrew assentiu, num gesto de compreensão. – Não é o momento nem o lugar apropriado para nenhum de nós – disse, enquanto se preparava para voltar a montar. – O doutor tem muitos doentes para tratar, e eu estou à espera de ordem de marcha para a minha companhia. Fale com a sua mulher, e se ela concordar envie-me uma mensagem e poderemos combinar um encontro.


Bennett ficou algum tempo a ver o capitão afastar-se. Alimentava uma desconfiança natural por todos os oficiais de cavalaria, pois toda a gente sabia que eram, sem exceção, aristocratas arrogantes e desdenhosos, e os que conhecera até então só tinham confirmado a opinião generalizada. Pettigrew, no entanto, parecia ser diferente, e não saberia, e muito menos se preocuparia, dos problemas familiares da governanta se não fosse um homem bondoso. Havia, porém, mais qualquer coisa no coração de Bennett, o receio de que quando Hope soubesse que a irmã já não estava com Albert quisesse voltar para casa. Envergonhava-se deste egoísmo, mas na verdade era o ânimo de Hope que o sustentava. Tivera um mau pressentimento a respeito daquela campanha desde o início, mas esperara ser colocado num hospital-base, onde permaneceria. Em vez disso, mal acabavam de se instalar num lugar tinham de mudar para outro, e naquele momento não fazia a mínima ideia de onde iriam acabar. Sempre contara com dificuldades, fazia parte do trabalho, mas nunca imaginara que houvesse tão pouco equipamento ou medicamentos. Como podia qualquer médico ajudar os doentes e os feridos sem as coisas mais básicas? Até as camas de campanha que levara para si e para Hope só tinham aparecido há um mês. Parecia que, como acontecera a outros equipamentos e provisões, tinham regressado a Inglaterra, para serem de novo despachadas. Tinham morrido centenas de cavalos nos navios durante a viagem, mas agora parecia não haver forragem suficiente para os restantes. Nenhum dos soldados estava de boa saúde; além da cólera, havia disenteria e malária. A menos que fossem levados, e depressa, para um lugar mais saudável, em breve não restariam homens suficientes para travar uma guerra. Era o caos total! Hope parecia não se importar com a falta de conforto, o pó, a porcaria, o calor e a má alimentação. Dizia alegremente que já tinha visto pior. Enquanto ela ali estivesse, Bennett sentia que também seria capaz de aguentar, mas se ela se fosse embora a história seria outra, muito diferente.


CAPÍTULO 20

favor, diz qualquer coisa! – pediu Bennett. – Só te pude dizer da forma como o capitão –P orPettigrew me disse, mas talvez tenha sido demasiado brusco. Durante todo o dia, as novidades a respeito de Nell tinham andado a queimar-lhe a língua. Esperara que Hope saltasse de alegria e lhe fizesse centenas de perguntas a que não saberia responder. Ele forçara-se a guardá-las até que voltassem à tenda, naquela noite, porque não queria que os interrompessem. Mas as coisas não tinham corrido como esperara; Hope ficara sentada na cama de campanha, com os olhos escuros fixos na cara dele, sem dizer uma palavra. Seria o choque de saber que o cunhado era um assassino? Ela estendeu a mão para pegar na dele, e por fim houve a sombra de um sorriso. – Eu é que devo pedir desculpa, não és tu – disse. – Fiquei incapaz de falar por causa do choque; é quase demasiado para assimilar. Nunca pensei que a Nell deixasse o Albert, nem sequer nas minhas mais loucas fantasias. – Achas o facto de Nell o ter deixado mais extraordinário do que ele ter incendiado Briargate e assassinado Sir William? – perguntou Bennett, incrédulo. Então ela riu-se, e o seu rosto animou-se finalmente. – Bem, isso foi muito chocante, mas eu sempre soube que o Albert era um homem mau. Mas a Nell! Sempre tão correta; para ela, os votos do casamento eram invioláveis. Não consigo imaginá-la a fazer uma coisa tão radical. – O Pettigrew disse que ela estava convencida de que o Albert te tinha assassinado! O rosto de Hope ensombreceu. – Pobre Nell, nunca imaginei que pensasse uma coisa dessas, ou que saísse de Briargate. Não podes fazer ideia do que aquele lugar significava para ela! Venerava Lady Harvey, e se a abandonou, e ao Albert, deve ter provocado um falatório enorme na aldeia. Albert franziu a testa, ainda intrigado por a quebra dos votos matrimoniais e a coscuvilhice da aldeia parecerem ter tido muito mais impacte nela do que o assassínio e o facto de a mansão ter ardido até aos alicerces. Hope pegou-lhe na mão e beijou-lhe as pontas dos dedos, olhando para ele com um brilho maroto nos olhos. – Calculo que ninguém na aldeia conseguisse dormir com um escândalo destes. Agora imagina o que seria se soubessem o que o Albert e Sir William eram um para o outro. Mas conta-me mais do que o capitão Pettigrew te disse a respeito da Nell. Como acabou ela por se tornar a governanta dele? Está bem? Há outras notícias a respeito do resto da minha família? Bennett sorriu. Aquilo estava mais de acordo com a reação que esperara da parte de Hope,


perguntas e mais perguntas. – Não, não me disse mais nada, mas falou com tanto carinho da Nell que tenho a certeza de que terá muito gosto em falar contigo dela. E eu gostaria de saber mais a respeito dos meus parentes por afinidade! Ao ouvir isto, Hope apercebeu-se de que Bennett não só sabia apreciar o que aquelas notícias sobre Nell significavam para ela como também estava encantado com a ideia de aceitar a sua família como sendo dele, e isso tocou-a no mais fundo do seu ser. Com este conhecimento, porém, veio também a culpa. Porque não teria sido capaz de dizer a Bennett, na noite anterior, que já conhecia o capitão Pettigrew e que era ele o autor da carta para Lady Harvey? – Há outra razão para eu estar tão aturdida com tudo isto – disse. – É que já tinha visto o capitão Pettigrew em Briargate. – A sério? – Bennett arqueou uma sobrancelha, numa expressão inquisitiva. – E porque foi que não mo disseste ontem? – Não sei. Talvez por a Nell estar sempre a dizer-me que não devia falar de nada que visse ou ouvisse naquela casa. É que, sabes, o capitão Pettigrew era o amante de Lady Harvey. Foi o que me fez desmaiar quando o reconheci. – Santo Deus! – exclamou Bennett. – E eu a pensar que era por causa do choque do que aqueles homens te tinham feito a ti e à Queenie que estavas tão ansiosa por sair do acampamento da cavalaria! – Ele fez-me recordar coisas que queria esquecer – disse Hope, em sua defesa. Bennett olhou para ela, pensativo. – O que é que sentes então em relação ao homem, agora que sabes que a tua irmã é governanta dele e que Briargate já não existe? – Não sei, a sério, Bennett – respondeu Hope, com um suspiro. – Mas o capitão Pettigrew falou da Nell com tanto afeto... ela deve ter uma vida melhor com ele do que com o Albert. – É bem verdade. Mas se não fosse pela carta que ele escreveu, eu não teria ido à casa do guardaportão naquele dia e visto Sir William e o Albert. Foi o capitão que iniciou a cadeia de acontecimentos que terminou em tanta infelicidade para mim. Bennett manteve-se silencioso durante algum tempo. – Quem me dera que tivéssemos sabido do incêndio antes de sairmos de Inglaterra – disse, por fim. – Posso escrever ao Matt – sugeriu Hope, veemente. – E posso juntar uma carta para a Nell. Quando ela se levantou de um salto para ir buscar papel e pena, Bennett estendeu uma mão para a deter. – Primeiro é melhor pensares bem no assunto, minha querida – disse, num tom gentil. – Continua a haver a questão do que viste na casa do guarda-portão. Sir William pode estar morto e o Albert ser um homem procurado, mas o Rufus e a mãe continuam bem vivos. Antes de começares uma carta, convém que saibas muito bem o que vais revelar. Hope voltou a sentar-se na cama de campanha, desanimada. – Raios! – explodiu. – Se não posso falar ao Matt da carta do capitão, nem do Albert e de Sir William, que razões posso dar para me ter vindo embora?


Bennett puxou-a para si e abraçou-a com força. – Penso que o melhor é esperares até teres falado com o capitão Pettigrew – disse. – Vais ter de escolher com muito cuidado o teu caminho e tentar descobrir como estão as coisas em Inglaterra. «O Pettigrew pareceu-me um bom homem... não teria vindo procurar-me a menos que se preocupasse com a Nell, e portanto contigo também. Mas temos de recordar que não foi uma coisa muito honrada fazer amor com a mulher de outro homem.» – Talvez ele sempre tenha sabido aquilo que Sir William era? – sugeriu Hope. – Ao fim e ao cabo, é um homem com experiência do mundo. Talvez até tencione casar com Lady Harvey agora que ela está livre. Bennett assentiu. – Verdade. Mas não podes presumir seja o que for, e não podes esquecer que o conhecimento que possuis a respeito de Sir William é, nas mãos erradas, potencialmente tão perigoso como um barril de pólvora. Tens de ter o cuidado de não seres tu a acender o rastilho.

Hope foi para a cama naquela noite com tanta coisa em que pensar que não conseguiu dormir. Por muito chocante e triste que fosse o facto de Sir William estar morto e Briargate ter desaparecido, estava encantada por Nell já não estar com Albert. E ficaria ainda mais feliz se soubesse ao certo onde estava a irmã, como reagira Rufus à morte do pai e o que estava a fazer. Mas pelo menos podia perguntar estas coisas ao capitão sem ter de divulgar mais nada. Infelizmente, uma vez que Nell continuava convencida de que Albert a tinha matado, era natural que Pettigrew a interrogasse a respeito do que acontecera no dia em que ela desaparecera de Briargate. Deveria admitir que sabia que era ele o amante de Lady Harvey? Iria ele acreditar que a carta roubada fora a única razão que levara Albert a obrigá-la a partir?

No dia seguinte, Hope sentia-se mais calma e cheia de uma nova determinação. Não ia preocuparse com as perguntas que o capitão Pettigrew pudesse fazer-lhe. O mais importante era descobrir onde estava Nell, e escrever-lhe. Não era necessária, por enquanto, uma explicação completa; Nell ficaria feliz só por saber que ela estava viva e bem. Mais tarde nesse mesmo dia, foi dada ordem para que todas as unidades estivessem prontas para partir de Varna para a Crimeia até ao fim da semana, e isto afastou temporariamente Nell e o capitão Pettigrew dos seus pensamentos. A notícia foi recebida com alívio geral e veio trazer às tropas um renovado ânimo, que muita falta estava a fazer. Os soldados achavam que tinham ido até ali para travar uma guerra, e o que queriam era tratar do assunto, derrotar os russos e voltar a casa antes do Natal. Bennet e os outros médicos eram de opinião que uma viagem por mar contribuiria para melhorar o estado de saúde dos homens. O nível de mortalidade devido à cólera tinha subido ainda mais durante agosto. Os funerais convencionais tinham sido postos de parte havia muito, por haver demasiadas vítimas e serem demasiado deprimentes para os vivos. Os cadáveres eram agora levados em carroças para valas comuns, sem quaisquer cerimónias. Havia, no entanto, outros milhares a sofrer de febres, complicações intestinais e outros problemas atribuídos à insalubridade das terras pantanosas à volta de Varna e a uma alimentação deficiente. A


verdade era que tanto no acampamento francês como no inglês não havia muitos homens que pudessem ser descritos como aptos para combater. Entre fazer as malas e organizar o encerramento do hospital, Hope não teve oportunidade para fazer a viagem até ao acampamento da cavalaria. Acabou por concluir que o capitão Pettigrew enfrentava os mesmos problemas, pois não voltou a aparecer no hospital. De repente, o porto estava pejado de navios e o embarque começou. Mas quando já tinha todos os seus objetos pessoais e os de Bennett prontos para serem levados para bordo, Hope ouviu dizer que, por ordem de Lord Raglan, as mulheres dos oficiais não seriam autorizadas a acompanhá-los. Ficou horrorizada, pois, segundo parecia, não tinham sido estabelecidas quaisquer provisões alternativas em relação a elas. Na realidade, muito poucas mulheres de oficiais tinham ido até Varna, e destas a maior parte estava tão desanimada que de boa vontade apanharia um navio de regresso a Constantinopla ou a Malta. Lady Errol e Mrs. Duberly, a mulher do tesoureiro, queriam ir com os maridos, mas essas tinham amigos nas altas esferas e arranjariam quase de certeza maneira de contornar a ordem. Hope, porém, não dispunha dessa influência. Bennett pediu conselho ao comandante do regimento, o tenente-coronel Lawrence, cuja sugestão foi que Hope fosse de imediato levada, às escondidas, para o camarote de Bennett no Pride of the Ocean, o navio onde a companhia dele iria embarcar, e de lá não saísse até que o navio zarpasse. Na opinião de Lawrence, desde que Raglan não a visse, não haveria problema. Hope foi portanto obrigada a suportar vários dias fechada num sufocante camarote sem ter sequer a companhia de Queenie, uma vez que as mulheres dos soldados só se lhes juntariam na data da partida. Passou o tempo a escrever tudo o que lhe tinha acontecido desde que saíra de Briargate, na esperança de um dia, em breve, poder fazer o relato a Nell.

Na madrugada de 7 de setembro, o Pride of the Ocean deixou finalmente o porto de Varna, e Hope pôde enfim subir ao convés e respirar um pouco de ar puro. Foi bom voltar a ver Queenie e ouvir as divertidas histórias que ela contava a respeito do caos dos últimos dias em Varna, e ainda melhor ver homens que lhe tinham parecido doentes quando os observara à espera no cais já a recuperar a vitalidade graças à brisa marinha. Bennett, no entanto, estava mais preocupado com as ambulâncias. Ao que parecia, tinham sido deixadas em Varna.

Ao fim de um dia de viagem, deram por si integrados numa vasta armada. As centenas de navios a vapor e à vela constituíam um espetáculo magnífico e impressionante. As âncoras foram lançadas, os oficiais andavam para trás e para a frente a visitar outros navios em barcos a remos, e embora ninguém parecesse saber do que estavam à espera, supunha-se que de um modo geral os comandantes continuavam a planear as suas táticas. Finalmente, a 14 de maio, as âncoras foram içadas e a armada retomou viagem. A primeira visão da Crimeia não foi animadora. Parecia um lugar inóspito, feio e árido, sem sinais de pessoas ou sequer de animais. Em Eupatória, dois oficiais foram a terra receber a rendição do porto, mas aparentemente não era


adequado para base de operações. Foi decidido que, no dia seguinte, todas as tropas desembarcariam um pouco mais a sul na baía de Calamita. Dali, marchariam sobre Sebastopol para tomar a cidade. Bennett esteve em reunião com o tenente-coronel Lawrence durante algum tempo naquela tarde, e quando voltou para junto de Hope parecia perturbado. – Vais ter de ficar no navio enquanto eu acompanho o regimento – disse, com um suspiro. – Parece que temos pela frente uma longa marcha e o coronel acredita que podemos encontrar cossacos. Hope percebeu que, apesar de preocupado com ela, Bennett estava ainda mais preocupado com a saúde e o bem-estar dos homens do regimento. Bennett gostava de ordem, e era evidente para ele que os seus superiores tinham pensado muito pouco no que aconteceria às baixas que o exército sofreria caso fosse atacado durante a marcha. Ele e os outros cirurgiões estariam presentes, claro, para tratar os ferimentos, mas sem ambulâncias nem um hospital preparado para os receber, o mais certo era acabarem por morrer. – Não te preocupes comigo – apressou-se Hope a dizer. – Calculo que me levarão para o acampamento-base, fique ele onde ficar, e não duvido de que haverá um hospital montado quando vocês lá chegarem.

No dia seguinte, de pé junto à amurada do navio, Bennett viu os franceses desembarcarem com a habitual eficiência. Um grupo deles estava já a erguer a bandeira na areia. Quando os seus navios se afastassem, seria a vez dos ingleses. A baía de Calamita era uma longa faixa costeira com uma estreita praia de areia, para lá da qual havia um grande lago. Caía uma chuva miudinha, pelo que a visibilidade era má, mas Bennett calculava que Sebastopol ficaria a quarenta ou cinquenta quilómetros para sul ao longo da costa. Parecia um lugar esquecido por Deus, apenas uma extensão de erva fraca batida pelo vento que se prolongava por quilómetros e quilómetros. Perguntou-se, distraído, quanto tempo teria de esperar para ver o seu primeiro russo. Pensou que, com os seus uniformes cinzentos, não seria fácil avistálos. Os seus pensamentos voltaram-se para Hope. Tinha ficado no camarote a arranjar a costura de uma camisa que se tinha descosido. Não tivera coragem para lhe dizer que não poderia levar uma muda de roupa. Só serviria para a preocupar. Fora abençoado ao encontrá-la. Não conseguia pensar num único homem que tivesse uma mulher igual a ela. Era corajosa, adaptava-se a tudo, nunca se queixava, tinha todas as virtudes necessárias à mulher de um oficial do Exército. Mas era também muito mais do que isso; era divertida, apaixonada, generosa, temível se a empurravam para lá de um certo limite, e também bonita. Aqueles ardentes olhos escuros, os lábios cheios e a pele suave e impecável tinham-no cativado desde o primeiro instante; achava que nunca se cansaria de olhar para ela. Era uma experiência nova, ser invejado por outros homens. Quase os ouvia pensar: «Como conseguiu ele arranjar uma mulher como ela?» No colégio e na universidade, fora quase sempre ridicularizado pelos seus pares. Não era bonito, não era grande desportista nem grande cavaleiro, estudava demasiado e nunca fora capaz de adquirir sofisticação no trato com as senhoras. Felizmente para ele, ninguém esperava que um cirurgião do Exército possuísse estes singulares talentos, mas era bom ver os outros homens suporem que os tinha por causa de Hope. Hope era excecional: a sua dignidade inata, o seu encanto e a sua competência como enfermeira


tinham-lhe granjeado o respeito até dos maiores snobes entre a classe dos oficiais. No entanto, a sua verdadeira beleza residia no facto de não ter consciência de quanto valia. Não fazia a mais pequena ideia de que, em Varna, metade do regimento se apresentava no hospital com queixas triviais só para conseguir um ou dois minutos da sua atenção. Sorriu ao recordar como ela trepara para o beliche de cima para se deitar ao seu lado antes do raiar da aurora, naquela manhã, sem uma peça de roupa no corpo. Pelo menos essa recordação ia dar-lhe alento durante alguns dias! * A tarde chegava ao fim quando Bennett desembarcou, um dos últimos a abandonar o navio. Ficou na praia a acenar e a soprar beijos para Hope enquanto o Pride of the Ocean se afastava. Passara o dia a fingir entusiasmo pela marcha, a fazer piadas a respeito de como se aborrecera no navio e de como estava a precisar de exercício. Mas na realidade o desânimo dominara-o. E agora ela tinha partido e ia ser muito difícil continuar a fingir confiança e otimismo. Continuava a chover e muitos dos homens sofriam de diarreia, e Bennet não acreditava que um único deles estivesse em condições de enfrentar uma longa marcha.

Uma hora mais tarde, quando os navios eram apenas pequenos pontos no horizonte, descobriu-se que as tendas não tinham sido descarregadas. O lago era de água salgada e não havia água doce em parte alguma. Então a chuva miudinha transformou-se num dilúvio e os homens, obrigados a deixar as mochilas a bordo, tinham apenas os capotes e uma manta para se protegerem. Não havia abrigos. Os homens apertavam-se uns contra os outros como gado sob a chuva torrencial, incapazes de dormir encharcados e gelados como estavam. Bennett ficou aliviado quando a aurora despontou, porque aquela noite fora a mais terrível de toda a sua vida. O facto de uma coisa tão básica como os abrigos ter sido esquecida era inacreditável. Bennett achava que os oficiais responsáveis deviam ser levados a tribunal marcial. O sol nasceu quando começaram a caminhar, secando rapidamente as roupas, mas continuava a não haver água e os homens tinham de beber de poças deixadas pela chuva. Pior ainda, Bennett percebeu que a cólera os seguira até ali. Viu homens dobrados ao meio pela dor mas mesmo assim a tentarem continuar a marchar. Não podia fazer nada por eles, porque não havia transportes para os levar de volta para um navio, nem sequer um hospital de campanha onde pudessem ficar. Ele e os seus ajudantes eram os responsáveis por proporcionar cuidados médicos a todo o regimento. O equipamento de que dispunham consistia num par de cestos de verga com pensos, ligaduras e uma variedade de instrumentos cirúrgicos num dos alforges do cavalo de carga. Esperava que os russos não estivessem à espera, prontos para atacar. Não duvidava da coragem dos homens, nem da sua capacidade de dar luta, mesmo doentes e exaustos. Do que duvidava era da sua capacidade de tratar ferimentos graves com meios tão limitados.

Hope foi acordada na manhã de 22 de setembro pelas pancadas que Queenie desferia na porta do camarote, a exigir que a deixasse entrar.


Depois de os homens terem desembarcado na baía de Calamita, o navio regressara a Eupatória com o resto da armada e lançara âncora à entrada do porto. Se não estivesse tão preocupada com Bennett, e tão frustrada por não ter conseguido falar com o capitão Pettigrew a respeito de Nell, Hope teria achado a situação idílica, porque o tempo estava perfeito – quente, com um mar muito calmo. E havia também muito sossego, pois só restava um punhado de pessoas a bordo, sobretudo pessoal administrativo do Exército e alguns civis ligados aos abastecimentos. Hope passara a maior parte do tempo a dormitar no convés, ou a jogar cartas com Queenie. Queenie devia ter ido na marcha com as outras mulheres dos soldados, pois eram necessárias para cozinhar e lavar a roupa de todos os homens, mas Robbie pedira a Bennett para a deixar ficar no navio com Hope por recear que não conseguisse aguentar o esforço. Bennett concordara de imediato, por não lhe agradar nada a ideia de deixar Hope sozinha a bordo sem uma companhia feminina. – Que se passa, Queenie? – resmungou Hope, enquanto se levantava do beliche para abrir a porta. Queenie entrou de rompante, com o rosto húmido de lágrimas e os olhos marejados de mais. – Houve uma terrível batalha e milhares de mortos – disse, a atropelar as palavras. – Acha que o meu Robbie está bem? Por um ou dois instantes, Hope ficou mais chocada pelas lágrimas de Queenie do que pelas notícias que ela trazia, porque a rapariga era sempre tão viva e alegre, independentemente do que se passasse à sua volta. – Tenho a certeza de que sim – disse, e abraçou-a com força. – Diz-me, onde foi que obtiveste essa informação? Tinham ouvido o estrondear de canhões alguns dias antes, mas o capitão Kyle dissera que eram os russos em Sebastopol, provavelmente a disparar contra um navio turco que se aproximara demasiado. Queenie estava a soluçar tanto que não se conseguia perceber o que dizia, de modo que passados alguns instantes Hope vestiu-se e saiu para ir falar com o capitão do navio. – Sim, houve uma batalha – confirmou ele. – Ainda não sei nada a respeito de baixas, mas não acredito que sejam tão elevadas como lhe disseram.

Foram vários dias de uma tensão terrível até que o Pride of the Ocean entrou no porto de Balaclava, que fora escolhido como base operacional dos britânicos. Eupatória fervilhara de rumores. A dada altura, constou que toda a cavalaria fora aniquilada e que Lord Errol, dos Fuzileiros, tinha morrido. Queenie continuava chorosa, a andar de um lado para o outro no convés enquanto torcia as mãos, e Hope só conseguia pensar em como iam os cirurgiões poder fazer face à situação se houvesse na verdade um tão grande número de baixas. Afinal a cavalaria não tinha sido aniquilada, e Lord Errol fora apenas ferido numa mão, o que lhe custara um dedo amputado. Mas houvera uma batalha. Fora no rio Alma, a cerca de quarenta quilómetros da baía de Calamita, e a 1.ª e 2.ª Divisões de Cavalaria Ligeira tinham estado envolvidas. Apesar de ter sido uma vitória, na medida em que as tropas britânicas tinham atacado e tomado os redutos e defesas russos, as baixas tinham sido muito elevadas: mais de dois mil britânicos mortos ou feridos, e um número ainda maior de franceses. Balaclava pouco mais era do que uma rua aninhada numa fenda entre duas íngremes e altas montanhas. Mas era um porto bom e seguro, ainda que pequeno, com a entrada escondida dos navios


que passavam por altas falésias. Ao que parecia, tinham sido disparados alguns tiros esporádicos contra o grupo que desembarcara para o tomar, mas depois disso não houve mais resistência, e o padeiro da povoação aparecera com um peru assado e pães para os soldados. Quando o Pride of the Ocean entrou no pequeno porto, traçando uma cuidadosa rota por entre dezenas de outros navios, Hope estava na proa, a examinar, frenética, os militares reunidos no cais, à procura de Bennett. Via muitos uniformes verdes da Brigada de Fuzileiros no meio das casacas vermelhas, mas ele não, e ficou horrorizada pelo número de feridos capazes de andar que ali estavam. Alguns tinham a cabeça envolta em ligaduras, outros coxeavam com os calções cortados a expor ferimentos horríveis que nem sequer tinham sido pensados. Quando o navio conseguiu por fim encaixar-se num espaço no cais, Hope já tinha visto algumas macas serem levadas para um edifício um pouco recuado em relação à rua principal. Tinha o aspeto de uma escola, o que significava que daria um bom hospital. Saltava de um pé para o outro, numa espera impaciente de que os marinheiros pusessem no devido lugar uma prancha de desembarque que lhe permitisse correr para ir procurar Bennett. – Mrs. Meadows! – chamou o capitão Kyle. – Aquilo está um caos. Duvido que o seu marido consiga encontrar alojamento para os dois tão depressa. Hope percebeu que o capitão estava preocupado com ela, e por muito desesperada que estivesse por encontrar Bennett sentiu que tinha a obrigação de parar e falar com ele. – Hei de arranjar qualquer coisa – disse, encaminhando-se para a prancha. – Não, não vai, pelo menos hoje – insistiu ele. – A senhora e o seu marido vão precisar de descansar como deve ser depois de cuidarem de tantos feridos. Venham dormir ao navio enquanto não encontrarem outra solução. – É muita gentileza sua – disse ela, agradecida. – Sei que o meu marido também ficará grato pela oferta. – Viu Queenie a correr a toda a velocidade para ir à procura de Robbie, e não conseguiu adiar nem mais um instante. – Agora tenho de ir. Mas voltarei. O cais e a pequena povoação tinham parecido pitorescos vistos do navio. A água refulgia ao sol, e as casas de pedra de um ou dois pisos, a igreja e as escarpadas e altas colinas sugeriam um lugar sonolento mas seguro e saudável para instalar uma base operacional. No entanto, quando Hope e Queenie se misturaram com a confusão de soldados, carroças e abastecimentos que estavam a ser descarregados dos navios, tudo aquilo ganhou uma dimensão de pesadelo. Até homens que pareciam incólumes vistos de longe tinham um ar aturdido, como que assombrado. Estavam sujos, com os uniformes cobertos de terra e de nódoas, e todos eles com a barba por fazer. Se a rua era assustadora, a cena que se deparou aos olhos de Hope quando conseguiu passar por entre as macas e chegou à porta do hospital, era nada menos que aterradora. Apesar da luz do sol lá fora, o interior estava escuro, e a primeira coisa que lhe assaltou os sentidos foi o som dos homens numa terrível agonia, a pedir ajuda, a gemer em delírio, alguns até a gritar. Não havia camas, e os homens estavam estendidos no chão ou sentados tão apertados uns contra os outros que não havia espaço para passar pelo meio deles. Muitos tinham sofrido amputações recentes e as ligaduras estavam vermelhas de sangue fresco. Outros tinham feridas abertas no peito, no ventre ou nas pernas, tão horríveis que o primeiro impulso de Hope foi fugir, pois nem sequer fazia ideia de


por onde começar. Queenie fugiu, a tapar a boca com a mão, mas Hope tinha avistado Bennett no canto mais afastado daquele lugar dantesco. Estava de joelhos a ligar uma perna amputada, com o casaco branco que usava sempre por cima do uniforme empapado em sangue. Mesmo com a escassa luz, Hope viu que estava pálido e exausto. No mesmo instante, ficou horrorizada ao pensar que ficara deitada no seu beliche naquela manhã, a perguntar-se se devia usar o vestido cor-de-rosa com rufos à volta do pescoço, ou o azul, com gola e punhos de renda, para ir ao encontro de Bennett. Só a preocupara saber qual dos dois lhe ficava melhor, e acabara por decidir que tinha de ser o cor-de-rosa. Estava vestida como se fosse para um piquenique com o namorado. Até pusera fitas no cabelo! Mas Bennett não precisava de uma namorada naquele momento, nem de uma mulher tola e vazia cujos pensamentos não iam além de uma noite de amor. Do que precisava era de alguém capaz de o ajudar a tratar daqueles heróis que tinham sido retalhados por balas, para que talvez pudessem um dia voltar para as mulheres e namoradas. Fez meia-volta e correu colina abaixo, evitando os maqueiros e abrindo caminho à força por entre a multidão que enchia o cais. No camarote, tirou do baú o velho vestido cinzento e o avental branco. Cinco minutos mais tarde, estava de novo a subir a colina. Levava o cabelo preso na nuca, os saiotes tinham desaparecido, o sóbrio vestido cinzento e o avental tinham substituído o frívolo corde-rosa. Enquanto corria, ergueu aos céus uma prece silenciosa a pedir que um instinto qualquer lhe dissesse como tratar ferimentos de bala, pois sabia que nada do que fizera até então fora um treino adequado àquele horror.

Quando chegou ao hospital, Bennett tinha passado para outro ferido e estava de costas para a porta, pelo que não a viu entrar. – A enfermeira Meadows apresenta-se ao serviço, senhor – disse ela em voz baixa, quando se aproximou. Ele voltou-se ao ouvi-la e esboçou um débil sorriso. – É bom ver-te, mas não me parece que tenhas estômago para isto. – Tenho – respondeu ela, firme. – Diz-me só o que fazer.

Já era noite quando Bennett insistiu finalmente que já tinham feito o suficiente por um dia. As suas roupas estavam tesas de sangue seco, doíam-lhes as costas de estarem sempre dobrados, e até os olhos lhes doíam de os esforçarem na pouca luz. Todos os médicos tinham trabalhado como possessos; não houvera pausas para refeições ou sequer para beber. Músicos das bandas transformados pela necessidade em serventes levavam o homem que se seguisse na fila para uma área onde havia alguma luz e ali, em cima de uma tosca mesa, balas eram extraídas, ferimentos eram cosidos e ligados. Muitas vezes, era necessária uma amputação. Hope achava que nunca conseguiria esquecer o horror da primeira amputação de uma perna a que ajudara. O soldado de infantaria não teria mais de dezoito anos, com uns grandes olhos azuis de criança cheios de medo. Não havia clorofórmio para o anestesiar, mas mesmo assim ele arranjara coragem para sorrir e manter os olhos fixos nos dela enquanto o membro era serrado, sem gritar uma


única vez. O som da serra a cortar o osso era tão horrível, com tanto sangue, e aquele corpo jovem sempre a contorcer-se numa incontrolável agonia. Tudo o que ela pudera fazer fora limpar-lhe o rosto com um pano molhado, dizer-lhe que era muito corajoso e rezar por ele. Sabia que ele e muitos dos seus camaradas deviam ter vindo de lugares como Lewins Mead. Para homens como ele, alistarem-se no Exército era uma maneira de fugir à miséria, e um belo uniforme era sempre melhor do que andrajos. Infelizmente, porém, defendiam um país que não sentia nada pelos seus pobres e necessitados. Se sobrevivesse à amputação, seria mandado para casa para coisa nenhuma. Talvez lhe dessem uma medalha, mas de que serviria uma medalha se não pudesse trabalhar? Não compraria pão nem carne. Ouviu dizer que muitos dos feridos tinham ficado caídos no campo de batalha, entre os mortos, toda a noite, sem receberem sequer uma gota de água. Diziam que tinham visto os cirurgiões encharcados em sangue cortar membros e atirá-los para o lado. As baixas da Brigada de Fuzileiros eram poucas em comparação com as de outros regimentos. Dois sargentos, um cabo e sete soldados morreram. Outros vinte e cinco tinham ficado feridos. Mas Bennett vira Robbie em Balaclava naquela manhã, e era evidente que Queenie o encontrara, pois não voltara ao navio.

– Conta-me como foi no rio Alma – pediu Hope a Bennett quando, depois de terem comido, estavam os dois no camarote. – Os homens foram incrivelmente corajosos, diria até que formidáveis – disse ele numa voz fraca, com o rosto marcado pelo cansaço. – É tudo o que precisas de saber. – O que estava a perguntar é como foi para ti. Bennett deixou-se cair para trás no beliche e fechou os olhos. – Muito parecido com o que viste hoje – disse. – Com a diferença de que não tínhamos uma mesa onde operar, não tínhamos sequer um hospital de campanha. Tive de examinar os homens no chão, à luz de uma vela. Não havia macas e durante a noite ouvia os gritos dos feridos a pedir ajuda, mas estava tão escuro que era impossível encontrá-los. Tivemos de usar carroças de camponeses como ambulâncias. Foi um caos. Hope notou o sentimento de culpa dele por não ter conseguido salvar mais homens, e a sua ansiedade por aquela ter sido de certeza a primeira de muitas mais batalhas sangrentas. – Não vai voltar a ser assim – garantiu-lhe ela. – Hão de conseguir compor as coisas a tempo da próxima batalha. Bennett abriu os olhos e olhou para ela com uma expressão triste. – Duvido, Hope. Há demasiados obstáculos. Agora vamos pôr cerco a Sebastopol. Mas ainda não há tendas, e muito poucas provisões ou medicamentos. Hoje de manhã passaste por Sebastopol. Não é um lugarejo como Balaclava, é uma cidade grande e fortificada, cheia de canhões e de russos que lutarão até à morte para a conservar. «Além disso, todos os abastecimentos para o exército serão desembarcados aqui, e a única maneira de os fazer chegar aos nossos rapazes em Sebastopol é um íngreme trilho de montanha. Seria fácil agora, enquanto o terreno está seco, desde que tivéssemos cavalos ou mulas. Mas quando chegarem as chuvas de outono? Ou com o frio do inverno? Como é que vão trazer os feridos para


aqui?» – Nessa altura já terá acabado – disse ela, cheia de esperança. – Duvido – respondeu ele, sombrio. – Os generais nem sequer conseguem chegar a acordo sobre como e quando atacar.

Na manhã de 27 de outubro, Hope acordou e descobriu que Bennett tinha saído sem a despertar. O Pride of the Ocean, que lhes servira de casa, tinha partido para Scutari duas semanas antes, levando muitos dos feridos para o hospital de lá. Agora, e até que conseguissem encontrar melhores acomodações, tinham uma tenda. Estava montada a poucas centenas de metros do hospital, atrás da rua principal, e a suficiente altura na encosta para ficar longe da imundície e da agitação do cais. O pequeno porto tinha agora mais em comum com Lewins Mead do que com a bonita e pitoresca povoação que Hope vira ao chegar. As centenas de feridos podiam ter desaparecido, mandados de barco para Scutari, onde, de acordo com os rumores, morriam mais depressa do que se tivessem sido deixados ali no cais. Mas uma esqualidez diferente, menos compreensível, viera substituí-los. Montes de caixotes descarregados atravancavam o cais, porque ninguém sabia para onde os levar. Muitos deles continham alimentos que, após alguns dias à torreira do sol ou à chuva, apodreciam. O gado trazido pelos navios era abatido e as suas entranhas atiradas ao mar. Havia carcaças a flutuar no porto, a balouçar à superfície porque os pesos que lhes tinham amarrado não eram suficientes para as manter no fundo. Com os dejetos produzidos por uma população humana enormemente aumentada e os excrementos de cavalos, mulas e bois, o mau cheiro era avassalador e a água tornara-se castanha. Parecia estranho a Hope, que sabia tão pouco a respeito de campanhas militares, que todas aquelas dezenas de milhares de soldados que tinha visto em Varna estivessem agora algures ali na Crimeia e ela não soubesse onde nem a que distância do porto. Dizia-se que a cavalaria estava acampada numa planície acima de Balaclava. Tinha visto alguns cavaleiros na povoação, mas não o capitão Pettigrew. Estava muito frustrada por não conseguir falar com ele a respeito de Nell. Trabalhar no hospital ocupava-lhe todos os minutos do dia, mas os seus pensamentos iam constantemente para a irmã, e daria tudo para ter qualquer espécie de imagem positiva de Nell para a ajudar a ultrapassar o infindável horror a que estava sujeita diariamente. Sabia que milhares de homens tinham marchado para Sebastopol para pôr cerco à cidade. Vira pás e picaretas serem carregadas e levadas pelo caminho da montanha, sem dúvida para abrir trincheiras, tal como notara a incrível quantidade de munições e peças de artilharia que se tinham seguido. O exército francês estabelecera a sua base operacional num lugar chamado baía de Kamiesch que, ao que sabia, se situava um pouco mais para norte, mais perto de Sebastopol. Não fazia a mínima ideia de onde estavam os turcos acampados. Apesar de haver menos feridos, o hospital continuava quase tão cheio como o encontrara no primeiro dia, e agora os pacientes eram na sua maioria casos de cólera. Se o porto de Balaclava tivesse uma divisa, Hope achava que deveria ser «Não é Suficiente». Porque possuíam finalmente camas no hospital, e arrastadeiras, bacias e alguns medicamentos também, mas não eram suficientes. Já tinham ampliado o hospital, construindo anexos, alpendres e toldos, mas continuava a não haver espaço suficiente. Todos os dias chegavam navios carregados de abastecimentos, mas a maior parte das vezes esses abastecimentos não eram as coisas de que


precisavam. Não havia madeira suficiente para queimar ou para os trabalhos de construção. Não havia remédios suficientes, nem médicos suficientes, nem comida suficiente. Tinha chegado um grande carregamento de botas, mas eram demasiado pequenas para a maior parte dos homens que precisavam delas. Continuava a haver poucas tendas, e não havia maneira de levar até às trincheiras os bens de que necessitavam desesperadamente. Chegou o outono, que trouxe consigo um tempo muito instável. Podia chover torrencialmente e fazer muito frio durante vários dias seguidos, e depois de repente o sol voltava a brilhar, tão quente como em pleno verão. Tal como Bennett previra, o caminho da montanha, que era a única maneira de chegar às tropas, transformara-se num lamaçal depois das chuvas. O iate de Lord Cardigan, o Dryad, estava encostado ao cais e ele dormia lá rodeado de luxo enquanto os seus homens ficavam ao relento, embrulhados nos capotes. O Dr. Mackay, um homem que Bennet muito admirara, tinha morrido de exaustão em consequência do seu esforço para salvar vidas na batalha de Alma. Tudo o que Bennett e Hope sabiam dos progressos da guerra era obtido em segunda ou terceira mão, porque raras vezes tinham oportunidade de sair de Balaclava. Desde que os soldados tinham começado a cavar trincheiras frente a Sebastopol, que os russos não paravam de disparar contra eles. Mas só a 17 de outubro o exército aliado ficou por fim em condições de responder ao fogo. Desde as seis da manhã até ao escurecer, uma barragem ininterrupta de obuses e metralha abatia-se sobre as batarias e fortificações. No dia seguinte, os feridos eram levados para baixo num fluxo constante, mas muitos sangravam até à morte durante a difícil viagem. Tinham ouvido uma enorme explosão, e todos em Balaclava se tinham alegrado pensando que eram as muralhas de Sebastopol a cair. Infelizmente, o estrondo viera de um paiol francês que fora atingido, matando quarenta homens e destruindo quinze canhões.

Hope levantou-se e vestiu-se à pressa, pois sabia por que razão Bennett saíra tão cedo para o hospital. Na noite anterior constara que vinte e cinco mil russos, sob o comando do temível general Liprandi, se estavam a reunir a poucos quilómetros de Balaclava, com a intenção de retomar o porto. Balaclava era a única linha de abastecimento do exército britânico; era por lá que passavam as provisões, as munições, e todas as peças de equipamento. Como Lord Raglan não podia dispensar tropas para a defender, a sua guarnição resumia-se ao 93.º Regimento, formado pela junção dos Argyll e dos Sutherland Highlanders, cem homens do Batalhão dos Inválidos e mil e duzentos turcos. O acampamento da cavalaria ficava a um par de quilómetros da povoação. Mas não havia nem de longe homens suficientes para a defender. A manhã estava enevoada e fria, e quando Hope chegou ao hospital encontrou, como esperava, Bennett a examinar os pacientes, para escolher os que mandaria para Scutari. Adivinhou-lhe a ansiedade, apesar de ele se ter voltado e lhe ter sorrido. Uma semana antes, num momento de abandono, comparara a sua atividade ao julgamento de Salomão. Sabia que a viagem por mar e as terríveis condições em Scutari iriam quase de certeza matar os seus pacientes. Mas não lhe restava alternativa, porque também sabia que se não libertasse camas não haveria espaço para as novas baixas. Se houvesse uma batalha naquele dia, o número de feridos seria enorme. E se os russos se apoderassem do porto, de qualquer modo acabariam por ser mortos ou abandonados às portas da morte.


– Quero que vás com este grupo – disse, agitando a lista que tinha na mão. – Não, Bennett – disse ela. – Fico aqui. – Faz o que te digo – foi a seca resposta. – É uma ordem. – Não és o meu comandante – declarou ela, erguendo a cabeça num gesto de desafio. – És só o meu marido, e eu fico aqui contigo. – Por favor, Hope. – O tom dele tornou-se suplicante. – Duvido que aqueles cossacos tenham grande respeito por mulheres. Não aguento pensar no que fariam a uma mulher tão bonita como tu. – Então não penses – ripostou ela. – E agora diz-me, que navio vai levar os pacientes para Scutari?

Os britânicos tinham construído, na planície por cima da cidade, seis redutos em semicírculo e tinham lá instalado canhões navais de doze libras. A sua missão era defender a estrada de Woronzoff, que ia do porto às montanhas, a única linha de comunicação com as tropas que cercavam Sebastopol. Os redutos eram guarnecidos por soldados turcos, e pouco depois de as primeiras salvas terem sido ouvidas no porto naquela manhã, alguns desses homens, desesperados e aterrorizados, chegaram à povoação, a gritar: «Navio! Navio!» Bennet acabava de acompanhar os últimos doentes até ao navio que os levaria a Scutari quando os turcos apareceram e, calculando que o número de baixas seria enorme, dado que só havia quinhentos e cinquenta homens do 93.o e cem dos Inválidos entre Balaclava e os russos, decidiu pedir um cavalo emprestado e galopar até à planície para ficar com uma ideia mais clara da situação. A névoa matinal tinha-se dissipado e a meio da manhã o sol brilhava escaldante no céu, permitindo ver com perfeita nitidez a uma distância de quilómetros. Quando Bennett deteve o cavalo emprestado numa elevação de terreno junto à estrada, ficou abalado pela cena que se lhe deparou. A cavalaria, a artilharia, os Highlanders com os seus kilts e as suas casacas vermelhas, ofereciam um espetáculo quase irreal. O silêncio era tal que ouvia o tilintar dos sabres, o barulho dos cavalos a morderem os freios e as ordens gritadas com tanta clareza como se estivesse lá em baixo com eles. Para alguém que a visse do alto, a planície, que tinha cerca de cinco quilómetros de comprimento e três de largura, rodeada por colinas, parecia lisa, mas na realidade era dividida ao meio por aquilo a que em Inglaterra se chamava um «lombo de porco». Esta espécie de crista arredondada criava dois vales, e foi evidente para Bennett que as tropas que se encontravam num deles não conseguiam ver nem ouvir as que estavam no outro. No vale norte, uma nutrida força de cavalaria russa avançava lentamente, enquanto no vale sul a cavalaria britânica permanecia imóvel, ambas alheias à presença da outra. Lord Raglan e o seu séquito de oficiais, no alto de uma elevação, possuíam uma vista perfeita de toda a planura, mas Bennett depressa percebeu que não tinham consciência de que os dois grupos não se avistavam um ao outro nem de que, na realidade, o seu posto de observação era muito perigoso. Bennett olhou na direção do pequeno grupo de Highlanders que tinham ocupado uma posição defensiva para impedir que os russos tomassem Balaclava, e um frémito de medo desceu-lhe pela espinha. Quinhentos e cinquenta homens não eram pura e simplesmente suficientes, mesmo que fossem comandados por Sir Colin Campbell, que, dizia-se, era o melhor oficial de todo o exército britânico. Tinha ordenado aos seus homens que se dispusessem numa linha dupla, uma posição difícil de manter, sobretudo quando se encontrassem debaixo de fogo.


Enquanto Bennett observava, uma força equivalente a aproximadamente quatro esquadrões separou-se do corpo principal da cavalaria russa e começou a galopar em direção aos Highlanders. Bennett viu, incrédulo, Sir Colin Campbell percorrer com toda a calma a sua pouco densa linha de homens, e as palavras que ouviu gelaram-lhe o sangue nas veias. – Homens, lembrem-se de que daqui não há retirada. Têm de morrer onde estão. Bennett tinha o coração na boca, não só porque estava a ser exigido àquele punhado de homens que dessem a vida pela pátria, mas também porque eles eram tudo o que se erguia entre a formidável força russa e Balaclava. Se a base operacional caísse, a guerra estaria perdida e dezenas de milhares morreriam – civis, os doentes e a sua preciosa Hope. Sabia que se estivesse no lugar dos Highlanders fugiria tão depressa como os turcos tinham feito pouco antes, pois parecia impossível que conseguissem reunir coragem para se manterem firmes, quanto mais para vencer o inimigo. Porém, ao observar com mais atenção o avanço dos russos, Bennett apercebeu-se de repente de que eles ignoravam que a colina de que se aproximavam estava ocupada por soldados ingleses. Num súbito movimento, os Highlanders surgiram no cume. Tendo-lhes sido dito que iam morrer ali, era evidente que estavam decididos a vender cara a vida, pois enfrentaram o inimigo com fria determinação e atiraram a matar. Bennett segurou as rédeas do cavalo e preparou-se para fugir, pois parecia inevitável que o confronto terminasse numa matança. Mal conseguia olhar, mas estava como que fascinado e paralisado pelo espetáculo dos Highlanders a apontarem e dispararem com calma e certeira pontaria, sem qualquer preocupação aparente pela sua própria segurança. Foi talvez esta fria coragem, aliada ao aspeto formidável daqueles soldados de kilt e casaca vermelha, que fez os russos vacilar à segunda descarga; mas estavam a vacilar, e os Highlanders, sentindo-o, avançaram, claramente desejosos de chegar ao combate corpo a corpo. A voz de Sir Colin Campbell fez-se ouvir, nítida e severa: – Noventa e três, noventa e três! Maldita seja essa pressa! Os Highlanders detiveram-se, dispararam mais uma salva e então, para admiração e surpresa de Bennett, os russos fizeram meia-volta e regressaram ao grosso do corpo de cavalaria. Os escoceses aplaudiram e gritaram, e os sons da vitória puseram um nó na garganta de Bennett. O corpo cobriu-se-lhe de pele de galinha e teve de limpar do rosto as lágrimas de emoção, pois não conseguia imaginar nada mais corajoso do que o que acabava de presenciar. Aquilo era heroísmo a uma escala gigantesca, uma coisa que esperava poder vir a contar a filhos e a netos.

Bennet não pôde ficar para assistir a mais atos heroicos, pois via as ambulâncias serem carregadas e ia ser necessário para tratar dos feridos. Mas de momento Balaclava estava salva.

Aquele seria um dia de coragem incrível. O general Scarlett, da Brigada de Cavalaria Pesada, ia, com quinhentos homens, a caminho para apoiar os escoceses de Sir Colin Campbell quando, de repente, se viu frente a frente com a cavalaria russa, que descia a colina na sua direção. Os russos eram mais de três mil, mas, a despeito da desproporção de números, Scarlett mandou tocar à carga e rompeu pelo meio deles, com os irlandeses dos Inniskillings a gritarem como loucos.


Os que assistiram à cena da segurança dos seus postos de observação contaram mais tarde que viram os britânicos serem tragados pela imensa massa de russos e que se convenceram de que seriam exterminados até ao último homem. No entanto, no meio das agitadas hordas de uniformes cinzentos, surgiam flamantes casacas vermelhas, a brandir sabres, a espetar e a retalhar e a cortar sob a luz do sol. Chegou então uma segunda linha de cavaleiros britânicos, empolgados pela raiva da batalha, a gritar ferozmente enquanto se atiravam para o coração da refrega. Por fim, receando que todos eles se perdessem, Lord Lucan mandou avançar o 4.o Regimento de Dragões da Guarda. Entraram na batalha pelo flanco, e de repente os russos vacilaram, fizeram meiavolta e fugiram. Bennett estava com Hope no hospital quando ouviram os clamores de vitória e presumiram que a batalha tinha terminado por aquele dia e que em breve começariam a chegar as carroças com os feridos. As primeiras chegaram uma hora mais tarde. Mais uma vez, foi como reviver o primeiro dia de Hope em Balaclava enquanto, umas atrás das outras, as macas eram levadas para dentro, não tardando a extravasar para as tendas e os anexos à volta, e até para o cais. Bennett e os outros cirurgiões moviam-se por entre os feridos, amputando quando necessário, removendo estilhaços e cosendo golpes de sabre. Hope, que trabalhava onde fazia mais falta, distribuindo água, limpando feridas, cortando roupas para expor outras, não compreendia como era possível homens tão gravemente feridos, por vezes mortalmente feridos, mostrarem-se tão alegres e otimistas. Quando eles diziam que os britânicos tinham posto os russos em fuga, ela acreditava. Mas os triunfos da manhã depressa se transformaram em choque e horror à tarde, quando chegaram as notícias da carga da Brigada Ligeira. Os soldados turcos, cobardemente fugidos da batalha, que procuraram refúgio no porto foram a primeira indicação de que qualquer coisa correra mal. Ao que parecia, Lord Raglan vira que os russos tentavam apoderar-se dos canhões britânicos deixados nos redutos abandonados e ordenara à Brigada da Cavalaria Ligeira que interviesse. O que terá levado Lord Cardigan a conduzir setecentos dos seus homens para uma armadilha montada pelos russos que pouco antes tinham fugido da Brigada Pesada foi coisa que ninguém compreendeu. Bennett, tendo reparado nos dois vales formados pelo espinhaço na planície e que obscureciam a visão dos soldados no campo, achava que era aí que estava a explicação. Nas semanas seguintes, seriam aventadas as mais diversas teorias e a culpa seria de um modo geral atribuída sobretudo a Lord Lucan. No entanto, a explicação mais lógica era que Lord Cardigan não tivesse visto os russos que esperavam no vale a norte da sua posição, ou que tivesse interpretado mal a ordem que lhe fora transmitida. Fosse qual fosse a verdadeira razão, porém, o resultado foi uma carnificina, porque a Brigada Ligeira foi emboscada por três lados sem possibilidade de fuga. O fogo russo choveu sobre eles. Só cento e noventa e cinco homens voltaram, incluindo Lord Cardigan, e foram mortos cerca de quinhentos cavalos. No hospital, estavam todos demasiado ocupados a cuidar das baixas dessa manhã para darem muita atenção ao estrondear dos canhões. Só algum tempo depois da carga, que durara apenas vinte minutos, chegou um mensageiro com a terrível notícia. Quando os feridos começaram a ser levados


para a povoação era quase noite, a escuridão adensava-se e estava frio. Um punhado de homens, a oscilar nas selas, desceram a estrada montados nos seus cavalos, apesar dos estilhaços enterrados nos membros. Uns poucos vinham a pé, a cambalear, apoiados por camaradas, e os mais gravemente feridos eram transportados em carroças. Tinham os rostos enegrecidos pelo fumo e sujos de sangue, o azul e o vermelho antes vivos dos uniformes estavam embaciados pelo pó e por mais sangue, furados e queimados por balas. Pela segunda vez desde que chegara à Crimeia, Hope teve vontade de fugir. O pequeno hospital estava já a rebentar pelas costuras, o ar carregado do cheiro a sangue, os gemidos dos que agonizavam eram terríveis de ouvir. Naquele dia, já tinha visto mais de trinta homens morrerem devido aos seus ferimentos. A maior parte era muito jovem, rapazes de dezoito ou dezanove anos, e era injusto terem morrido por uma causa que nem sequer compreendiam muito bem. Mas de pé à porta do hospital, a ver as luzes do cais refletirem-se na água, soube que teria de ir buscar forças onde fosse preciso enquanto Bennett continuasse a trabalhar. – Deixem-me aqui para esperar a minha vez. Há muitos outros pior do que eu. Sobressaltou-se ao ouvir a voz familiar e percebeu que vinha de uma das carroças que enchiam o cais. A escuridão viera acrescentar mais um problema. Mais cedo, à luz do dia, tinham podido examinar os feridos, escolhendo os casos mais urgentes para os fazer passar à frente. No escuro isso tornara-se impossível, e era horrível pensar que alguém podia morrer de perda de sangue por falta de um simples torniquete. Pegando num candeeiro pendurado na parede, ordenou a dois serventes que a acompanhassem. Então, indo de carroça em carroça, examinou rapidamente os feridos, indicando aos seus dois ajudantes quais os que deviam ser levados de imediato para dentro. Foi na quarta carroça que encontrou o dono da voz que tinha reconhecido. O capitão Pettigrew. Não voltara a vê-lo desde que desembarcara ali, para sua grande frustração, porque queria muito falar com ele sobre Nell, e não tivera tempo nem oportunidade para ir procurá-lo. – Onde é que foi ferido, capitão? – perguntou, erguendo a lanterna para poder vê-lo melhor. – Esta agora, Mrs. Meadows! – exclamou ele, com alguma surpresa. – Pensava que a tinham deixado em Varna! – A mim não – disse ela, a sorrir. – Sempre fui desobediente. Onde é que foi ferido? – É só um golpe de sabre – respondeu ele, a apontar para a coxa. – Pode esperar. Mesmo no escuro, Hope viu o brilho da carne branca no sítio onde os calções vermelho-cereja tinham sido rasgados. Também a manga do dólman azul estava cortada, e o tecido à volta escuro de sangue. – Levem este homem – ordenou aos dois serventes. – Não, deixem-me, há outros mais urgentes. – Permita que seja eu a julgar nesta matéria – disse ela. – Um golpe limpo, se cosido a tempo, sara num instante. Se ficar aqui, sangrará até à morte. Não discuta comigo. Ele sorriu e fez-lhe uma brincalhona continência. Mas apesar dos modos joviais Hope viu que tinha o rosto alarmantemente pálido e gotas de suor a perlarem-lhe a testa. Quando acabou de passar revista às outras carroças e voltou ao hospital, o capitão Pettigrew tinha sido deitado numa enxerga e ela viu que já estava a ficar fraco devido à perda de sangue. Tirou a tesoura do bolso do avental e cortou a manga do dólman e a perna dos calções, e em seguida lavou os dois ferimentos. Uma vez limpos, viu que eram fundos, mas que alguns pontos


seriam suficientes. Chamou Bennett para lhe pedir uma opinião. Ele tinha acabado de amputar uma perna e preparavase para começar a trabalhar no braço de outro homem. – Pode tratar disso, enfermeira – disse, olhando de soslaio para ela, talvez a adivinhar que estava nervosa por coser um oficial. – São golpes mais compridos do que aqueles que já tratou, mas limpos. Penso que o capitão apreciará um trago de rum antes de começar. Pettigrew tentou sorrir, mas foi mais uma careta. – A sua mulher cose tão bem como a irmã? – Melhor – disse Hope. – E também sirvo doses mais generosas de rum. Agora fique quieto. Demorou uma hora a coser os dois ferimentos, e apesar de ter feito muitas caretas, Pettigrew não gritou. Hope tinha os joelhos doridos de estar tanto tempo ajoelhada no chão de pedra, os olhos doíam-lhe do esforço de tentar ver com aquela luz, e estava tão cansada que houve momentos em que pensou que não seria capaz de completar o trabalho. Mas por fim o último ponto foi atado e ela pôde ligar as feridas. – Pode arranjar alguém que me leve para o acampamento? – pediu Pettigrew, com uma voz que se tornara fraca e trémula. – Certamente que não – retorquiu ela, indignada. – Andar aos saltos naquela estrada só servirá para reabrir as feridas. Vai continuar aqui e ficar quieto. Ainda não está safo. Lavou-lhe a cara e as mãos, e depois foi buscar outra manta e aconchegou-lha à volta do corpo. O olhar que ele fixava no seu rosto era tão intenso que a fez corar. – O que foi? – perguntou. – A cor dos seus cabelos é igual à do resto da sua família – disse ele. – Mas as suas feições são diferentes. – Conhece-os todos? – perguntou ela, surpreendida. – Claro – respondeu ele. – Já há muito tempo que não vejo o James, mas lembro-me dele em Briargate. Uma agradável sensação de calor correu pelas veias de Hope. – Há tanta coisa que quero perguntar-lhe a respeito deles – disse, veemente. – Mas agora não posso. O senhor precisa de repousar e eu tenho outros feridos para tratar. – A Nell vai ficar tão orgulhosa de si – disse ele, e pousou uma mão no braço dela para reforçar a sinceridade das suas palavras. – Escrevi-lhe a dizer que a tinha encontrado. Espero que não se importe. – Não, fico contente, mas amanhã vai ter de me dar a morada para eu poder escrever também. Temos muita conversa para pôr em dia. – O Albert obrigou-a a escrever aquela carta? – perguntou ele. Hope assentiu com a cabeça. – Como conseguiu ele garantir que nunca mais voltaria? – Chantagem – disse ela simplesmente. – Mas basta por esta noite. Tente dormir.

Três horas mais tarde, Hope estava finalmente a deixar o hospital. Apesar de estar à beira do esgotamento total, deteve-se por um instante para olhar para o capitão Pettigrew. Uma lanterna pendurada ali perto dava luz suficiente para o ver bem, e no sono o rosto dele parecia jovem e


bonito. Compreendia que Lady Harvey se tivesse apaixonado por ele, não só por ter feições bem desenhadas e fortes, ou aquele ar de masculinidade que faltava a Sir William, mas qualquer coisa mais. Não conseguia defini-la, mas sentia-a dentro de si. Uma estranha sensação de ternura, não muito diferente da que Bennett lhe provocara quando o vira pela primeira vez.


CAPÍTULO 21

pensa que vai? – perguntou Hope num tom indignado quando chegou ao hospital de manhã –E onde cedo e encontrou o capitão Pettigrew a vestir um uniforme novo. Tinham passado dois dias desde que fora levado para o hospital e os ferimentos já começavam a sarar, mas ainda não estava suficientemente forte para andar de um lado para o outro. – Não posso ficar aqui, enfermeira – disse, e fez-lhe um radioso sorriso. – Preciso de ir ver os meus homens e os cavalos. Além disso, não lhe faltam doentes a sério para tratar. A maior parte das vítimas do dia trágico já tinha morrido em consequência dos ferimentos, mas mesmo assim o hospital continuava sobrelotado, e no dia que há pouco começara mais homens teriam de ser amputados se a gangrena lhes invadisse as feridas. Olhando em redor, Hope pensou que aquele lugar tinha mais em comum com um esquálido abrigo para velhos e estropiados do que com um hospital. Havia homens por todo o lado, apertados como sardinhas nas camas, debaixo das camas, em todos os espaços possíveis e imagináveis. – Vai deitar-se e deixar-me mudar esses pensos – disse num tom autoritário, tirando-lhe das mãos os calções e o dólman novos. – Só o esticar-se para vestir estas roupas pode ser o suficiente para reabrir as feridas. Ou quer uma infeção, e depois uma amputação, para poder andar aos saltinhos por aí só com uma perna e um braço? – Ora aí está um pensamento agradável – respondeu ele, a provocá-la. – É ainda mais mandona do que a Nell. Mas obedeceu, e nem sequer pestanejou quando ela tirou os pensos e lavou as feridas. – Não há sinais de infeção – disse ela, depois de ter examinado os ferimentos e enquanto começava a refazer os pensos. – Mas isso não significa que já esteja em condições de andar ou montar. Mas penso que devia ser transferido para outro local para convalescer. É preciso ter um estômago forte para ficar aqui. – Não se atreva a sugerir que vá para Scutari – protestou ele, com alguma indignação. – Prefiro ficar aqui estendido a olhar para si a ir para esse buraco infernal. Hope ouvira dizer que no dia anterior circulara um exemplar do The Times em que aparecia uma reportagem sobre o horror do hospital de Scutari. A história era de tal modo assustadora que a maior parte dos feridos ficara com medo de ser mandada para lá. – Nesse caso pergunte a Lord Cardigan se pode ficar no iate dele – ripostou. O facto de Cardigan ter sobrevivido à carga raiava o milagre. À parte um pequeno golpe feito por um sabre, escapara incólume. Retirara-se para o seu iate e ordenara ao cirurgião do regimento que o tratasse lá. Dizia-se que passava o tempo bêbedo, e bem podia, porque havia muitos que o consideravam culpado pela carnificina.


– Ele não gosta de «oficiais indianos» – disse Pettigrew, jovial. – O mais certo é estar na esperança de que eu tenha batido a bota. Hope sorriu. Era difícil não sorrir perto de Pettigrew; era corajoso, desempoeirado e encantador, por vezes parecia uma rapazinho mal comportado. Ao que parecia, Lord Cardigan gostava de menosprezar os oficiais que tinham servido na Índia, o que era ridículo, considerando que eram os únicos com experiência de combate recente. – Podíamos pô-lo numa tenda, lá atrás – sugeriu. – Se o seu criado não puder vir cuidar de si, posso eu trazer-lhe uma tigela de sopa de vez em quando, para continuar a ganhar forças. Ele riu com gosto, mas a dor no braço provocou-lhe uma careta. – Nada de rir, nada de andar, nada de coisa nenhuma – decretou ela, com fingida severidade. – Já gastou toda a sorte que tinha, de modo que se tiver um mínimo de juízo vai ficar quietinho. – Acha que vai poder dispensar algum tempo para vir falar comigo hoje? – perguntou ele. – Há tantas perguntas que lhe quero fazer. – E há muitas que eu lhe quero fazer a si – respondeu ela, seca. – Mas entretanto tenho coisas mais importantes que fazer. Era meio-dia quando Hope acabou de mudar pensos. A maior parte daqueles feridos abandonaria o hospital em breve, mas não tardariam a ser substituídos por outros trazidos de Sebastopol. Os bombardeamentos continuavam, apesar de ela já mal ouvir os canhões por cima dos gemidos. Só esperava que Robbie estivesse a salvo. Tinham-no mandado para lá com a companhia no dia seguinte a ela e Queenie terem chegado. Queenie acompanhara-o e Hope tinha saudades da amiga porque ali quase não havia mulheres e com nenhuma se sentia tão à vontade como com ela. O seu grande medo era que Bennett fosse enviado para o cerco. Em condições normais, deveria lá estar com o regimento, mas talvez os seus superiores se tivessem apercebido de que tinham poucos médicos com tanta experiência de cirurgia como ele e achassem que fazia mais falta em Balaclava. O certo era que o Exército não dava qualquer valor aos vulgares soldados. Para eles não havia abrigos, quase não tinham comida, e quando chovia ficavam atolados na lama até aos joelhos dentro das trincheiras. Estava toda a gente muito preocupada com o que aconteceria quando chegasse o inverno. * Hope arranjou tempo para ir ver o capitão Pettigrew nessa tarde. O cirurgião que tratara o ferimento de Lord Cardigan arranjara-lhe lugar numa pequena casa junto ao cais que estava a ser usada por oficiais do 93.o Regimento. Foi acompanhada até um quarto nas traseiras pelo mesmo criado que conhecera no acampamento da cavalaria, em Varna. Era um homem magro mas vigoroso, com cerca de trinta anos, os dentes todos estragados e a cabeça completamente calva. – Fez um excelente trabalho com o capitão – disse, bem-disposto. – Cheguei a pensar que nunca mais voltava a vê-lo. A rude franqueza do comentário fez Hope sorrir. – Trate bem dele e não o deixe fazer esforços – disse. Pettigrew parecia muito bem instalado no seu novo alojamento. A cama era talvez demasiado pequena, mas estava recostado numa almofada e tapado por uma manta colorida. O dólman rasgado desaparecera e fora substituído por uma camisa solta, de linho branco.


– Espero que o tenham ajudado a tirar a roupa – disse, com falsa secura. – O Mead despiu-me tão ternamente como se eu fosse um bebé – respondeu ele, a sorrir. Então, olhando para Mead, que continuava à porta, pediu-lhe que lhe fosse buscar café. – Já comeu? – perguntou a Hope. – Se não comeu, o Mead arranja-lhe qualquer coisa. É um excelente cozinheiro. Capaz de envergonhar muitas mulheres. – Comi qualquer coisa com o meu marido – respondeu ela. – Só passei por cá para o ver. Não posso demorar-me muito tempo. – O Dr. Lewis disse que a minha costura era a melhor que via desde há muito tempo – comentou Pettigrew. – Desconfio que gostaria que tivesse sido a Hope a coser os ferimentos do «nobre guerreiro do iate». Hope riu. – Penso que era capaz de deixar escorregar a minha tesoura – disse. – A tesoura é então a sua arma preferida? Hope sentou-se numa cadeira ao lado da cama. Ardia um lume na lareira, o candeeiro a óleo pintava em tons de mel as paredes toscas e nuas, e depois do hospital e da tenda, aquilo parecia-lhe luxuoso, quase acolhedor. – Poderia tornar-se – respondeu, em tom de brincadeira. – Mas deixemos isso, quero que me fale da Nell e de como acabou ela por ser sua governanta. Bebeu-lhe as palavras enquanto ele explicava como encontrara Nell, quando andava a passear a cavalo, numa manhã do início da primavera de 48 e lhe oferecera o lugar de governanta. Quando ele disse que a tinha encontrado na ponte de Chewton, Hope conseguiu visualizar a represa do moinho, os salgueiros a vestirem-se de folhas, o som da água a correr. Ele não foi sentimental nem brusco, e apesar de parco nos pormenores, conseguiu mesmo assim dar-lhe uma ideia muito nítida de como tudo tinha acontecido. Referiu por alto o estado de espírito de Nell depois de descobrir que ela tinha desaparecido, mas atenuou qualquer ansiedade que Hope pudesse sentir descrevendo com entusiasmo como Nell se ocupara dele e da sua casa e explicando que estava agora segura e satisfeita. Foi o relato de um homem que compreendia bem o desgosto; um homem compassivo mais do que consciente de como a vida podia ser dura e injusta para as mulheres na situação de Nell. Nesse aspeto, era muito parecido com Bennett, e Hope deu por si a gostar mais dele a cada minuto que passava. Pettigrew prosseguiu o seu relato, contando como ele e Nell tinham sabido do incêndio, como Nell levara Lady Harvey da quinta de Matt para casa dos Warren e falou também do funeral de Sir William, onde estivera presente. – Foi o funeral mais perturbador a que alguma vez assisti – disse, com um suspiro. – De um modo geral, há apenas uma profunda tristeza, sobretudo se a morte foi inesperada. Mas aquilo foi espanto e incredulidade. As pessoas da aldeia pareciam incapazes de aceitar que um homem que conheciam, que tinha rezado com elas na igreja, fosse capaz de pegar fogo a uma casa sabendo que havia pessoas lá dentro. «A pobre Nell ficou desfeita, apesar de terem passado muitos anos desde que deixara o Albert e de ter falado contra ele a quantos quisessem ouvi-la. Penso que se sentia em parte responsável.» – É natural – concordou Hope. – Achava sempre que a culpa era dela se um de nós fazia qualquer coisa errada. Mas como se portou o Rufus no funeral?


– A raiva dele era palpável. Fez a leitura da Bíblia durante o serviço religioso e a sua voz foi firme, mas estava a tremer, e os seus olhos eram como gelo. Segundo sei, tinha afirmado durante anos que o Albert era perigoso... disse-me que tinha recusado ir a casa no Natal por não gostar das liberdades que o homem tomava com os pais. Tornou-se um belo jovem, Hope. Alto, atlético e muito bem parecido. É tão parecido com o William quando tinha a mesma idade que me recordou os tempos em que eu lhe infernizava a vida a pedir-lhe que me levasse a sair a cavalo. Hope não sabia que Pettigrew conhecia Sir William desde criança e encorajou-o a falar disso. – Eu tinha seis anos e ele dez quando nos conhecemos. O meu pai também era militar. Estava em casa dos meus tios em Chelwood quando recebemos a notícia de que os meus pais tinham morrido de febres. Desconfio que os pais do William lhe disseram que tinha de ser bondoso para comigo por causa daquilo. E ele foi muito bondoso, como um irmão mais velho. Calou-se de repente, de olhos semicerrados, e Hope calculou que estava a sentir-se culpado por causa de Lady Harvey. – Mas basta de falar a meu respeito – continuou Pettigrew. – Conte-me o que aconteceu no dia em que saiu de Briargate. – Foi a sua carta para Lady Harvey – começou ela. Abreviou a história, dizendo apenas que tinha ido até à casa do guarda-portão esconder a carta e que Albert a apanhara lá. Mas mesmo enquanto lhe contava como Albert lhe batera e a obrigara a escrever a carta de despedida sentia a fraqueza do relato e hesitava a cada instante. – Disse que se não me fosse embora levaria a carta a Sir William e Lady Harvey ficaria desgraçada, e que a Nell seria despedida por ter encoberto o caso – explicou, a corar sob o olhar intenso de Pettigrew. – Disse-me que se eu me fosse embora e nunca mais voltasse guardaria segredo. – Mas se a Nell fosse despedida ele também teria de sair. – Isso teria sido ainda pior – disse Hope em voz baixa. – A Nell teria ficado sozinha com ele, sem amigos. – Porque não foi para casa do Matt? – perguntou ele, com uma expressão severa. – Ou para a da Ruth, em Bath? Hope não sabia porque foi que de repente começou a chorar. Talvez por ele conhecer aquelas pessoas de que tinha tantas saudades, ou talvez de raiva por Albert estar uma vez mais a obrigá-la a calar o que sabia. – Disse-me que não os procurasse, e que se o fizesse transformaria a vida da Nell num inferno – soluçou. – Bateu-me, empurrou-me para a chuva sem um penny, não pode imaginar o que passei. – Acho que posso – disse ele, numa voz repassada de gentileza. – Bristol não é um bom lugar para alguém jovem e sem amigos. Falei de si ao Rufus depois do funeral e ele disse-me que sempre soubera que o Albert tinha sido o responsável pela sua partida e que o odiava por isso. Também me disse que tinha a sensação de que o homem sabia qualquer coisa que lhe permitia controlar o pai. – Claro que sabia. Sabia do seu caso com Lady Harvey. – Ao princípio pensei que fosse isso. Mas o Rufus foi muito específico a respeito do pai e do Albert. Sabia que, ao longo dos anos, o William tinha dado muito dinheiro ao Albert. Tenho a minha opinião a respeito do que poderia ser o trunfo dele, mas não tenho provas. Embora acredite que a Hope tem.


Hope ergueu a cabeça, e viu que ele sabia a verdade. – Nunca teria dado voz às minhas suspeitas. Nunca. E agora que o William morreu, o segredo deve morrer com ele, para bem do Rufus – continuou ele em voz baixa. – É um belo rapaz, Hope, sem nenhuma das fraquezas dos pais. A Nell disse-me como vocês os dois eram próximos quando crianças. Foi essa a razão mais forte que a levou a obedecer ao Albert, não foi? Porque não podia pedir ajuda a ninguém sem revelar o que sabia. Não fazia sentido negar, pelo que ela assentiu com a cabeça. – Entrei no quarto e vi-os juntos – murmurou, com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto. – Mas não foi só por causa do Rufus, foi também por Lady Harvey e pela Nell. Todos eles teriam ficado cobertos de vergonha. Ele estendeu a mão e pegou na dela. – A sua lealdade faz-lhe honra, Hope – disse, e a voz prendeu-se-lhe na garganta. – Acho que a maior parte das pessoas pensaria apenas em si mesma. Mas não tema, nunca revelarei aquilo que me contou. – Tenho de ir – disse ela, pondo-se de pé e limpando os olhos. – Fiquei demasiado tempo e o Bennett há de estar preocupado. Mas o que é que digo à Nell? – Fale-lhe só da carta, será o bastante. A Nell não é tão desconfiada nem tão conhecedora do mundo como eu. Não pense mal do William, porque ele não tinha culpa de ser como era. Conheci muitos homens como ele desde que estou no Exército, homens bons e corajosos que tentam reprimir a sua natureza. Por vezes não conseguem continuar a fazê-lo. Eu fiz tudo o que podia para lutar contra o meu amor pela Anne, mas não fui capaz. De certa maneira, é a mesma coisa. – Nunca senti ódio por Sir William – disse ela, com os olhos marejados de lágrimas. – Só pelo Albert, e nem sequer por causa disso, mas por causa da crueldade dele para com a Nell e por querer separar-nos. Pettigrew olhou para ela durante muito tempo, e então sorriu. – Sabe uma coisa? A Hope é tudo o que a Nell disse que era, e ainda mais. Escreva-lhe para minha casa, Willow End, Bath Road. Vai ver, há um Deus, mesmo neste lugar onde Ele parece ter-nos abandonado. Entretanto ela já deve ter recebido a minha carta, mas é de si que quer ter notícias. Num impulso, Hope inclinou-se e beijou-o na testa, e então correu para a porta e saiu sem mais uma palavra.

No dia seguinte à batalha de Balaclava, houvera outra, mais pequena, travada nas imediações de uma aldeia abandonada chamada Inkerman. Pouco depois da grande batalha, os russos tinham sido vistos a concentrarem-se nos montes Fedioukine, e tornou-se evidente que estavam a planear para breve um novo e mais poderoso ataque. Mas por muito preocupante que isso fosse, enquanto os canhões continuassem a disparar em Sebastopol, enviando um fluxo constante de soldados doentes e feridos para o hospital, havia demasiado que fazer para pensar em como conseguiriam lidar com um número ainda maior de baixas. A 4 de novembro choveu torrencialmente e os homens destacados para vigiar os movimentos das tropas russas deram nota de uma noite sossegada, mas quando estavam a sair de serviço, na madrugada do dia 5, aconteceu o ataque. Um denso nevoeiro cobria tudo, e as tropas aliadas estavam em inferioridade numérica e com


escassez de munições, mas compensavam o que lhes faltava em homens e meios com coragem e iniciativa, e a meio da tarde os russos tinham sido obrigados a retirar. A notícia da vitória depressa chegou ao hospital, mas ninguém se sentia com disposição para festejar, com dois mil e quinhentos soldados britânicos e mil e setecentos franceses mortos ou feridos. E não tinham dúvidas de que as cerca de doze mil baixas russas podiam também acabar por ir parar-lhes às mãos. No entanto, todos fizeram o que tinham de fazer, arregaçaram as mangas e prepararam-se para a avalancha o melhor que puderam. Nessa noite, e nas três noites seguintes, Hope teve apenas algumas horas de sono. Sabia que os cirurgiões tinham razão quando diziam que fariam mais mal do que bem tentando operar sem luz e compreendia por que razão iam para a cama à noite, mas não conseguia afastar-se com os gritos dos que sofriam a ressoarem-lhe nos ouvidos. Estava muito frio, e muitos dos feridos jaziam a tiritar nas carroças que os tinham levado até ali, porque não havia espaço para os levar para o interior. Tudo o que podia fazer era tapá-los com uma manta, ajudá-los a beber um gole de brandy ou apenas lavar-lhes o rosto. Mas pelo menos perguntarlhes o nome, dizer-lhes que seriam examinados logo que possível e mostrar-lhes que se preocupava com eles ajudava-os a aguentar a noite. O capitão Pettigrew apareceu no hospital na madrugada do quarto dia, quando ela estava sozinha com os feridos mais graves. Caminhava com a ajuda de uma muleta improvisada e, quando o viu, Hope correu para ele, para o admoestar. – É estúpido? – sibilou. – Vai abrir essa ferida! – Está ótima – respondeu ele. – Nada que se compare com esses que aí estão. Vim ver se há alguma coisa que possa fazer. Era evidente que falava a sério, e Hope viu o horror refletir-se-lhe nos olhos quando reparou num caixote cheio de membros amputados que os serventes ainda não tinham levado. Apressou-se a tapálo com uma manta, mas nada podia fazer para disfarçar o número de homens com pensos empapados em sangue, ou os gemidos de um soldado deitado num canto. Para onde quer que Pettigrew olhasse havia horror, e até para alguém sem quaisquer conhecimentos era óbvio que a maior parte daqueles feridos ia morrer. – É muita bondade sua oferecer-se para ajudar – disse, mais calma. – Mas não devia estar aqui. Talvez dentro de um ou dois dias possa falar com alguns dos feridos menos graves... muitos não conseguem escrever para casa e ficam gratos a quem o faça por eles. Mas agora vá, antes que caia e rebente os pontos. Ele agarrou a muleta com força, mas estendeu a mão e escondeu debaixo da touca dela uma madeixa de cabelos que se tinha escapado. – Nem com toda a boa vontade do mundo conseguirá salvá-los a todos – disse, com a ternura da compreensão. – Sei que tem estado aqui pelo menos vinte horas por dia, e acabará por adoecer se mantiver esse ritmo. Precisa de descansar, de comer e provavelmente de um banho. Venha a minha casa, quando sair daqui, e terá tudo isso. – Um banho? – exclamou ela, espantada. O capitão acabava de referir a única coisa pela qual venderia a alma. – Têm uma banheira? – Temos. – Pettigrew riu do espanto dela. – E o Mead enchê-la-á para si. Leve o Bennett, porque sei que tem trabalhado tantas horas como a Hope. – Mas... – começou ela a protestar.


– Nada de mas – atalhou ele, perentório. – A Nell havia de querer que eu a forçasse a ter juízo. E recebi uma carta dela. Se não for, não a deixarei lê-la. – O que é que ela diz? – De repente, Hope voltava a ser uma rapariguinha, com a excitação a borbulhar-lhe no peito, porque aquela carta tinha de ser a resposta à que ele escrevera a contar que a tinha encontrado em Varna. – Ficará a saber depois de uma refeição e de um banho. Antes disso, nem uma palavra.

Bennett sorriu quando Angus lhe tocou com o cotovelo e apontou para Hope. Estivera sentada na cama, a passar os dedos pelo cabelo para o secar, mas naquele momento deixara-se cair na almofada e mergulhara num sono profundo. – É melhor levá-la para a tenda – disse Bennett, pondo-se de pé. – Não fará nada disso, ela pode ficar aqui – disse Angus, num tom que não admitia réplica. – E quanto a si, pode ir para junto dela. Parece à beira de se ir abaixo. Bennett pegou na manta que estava aos pés da cama e tapou Hope, após o que ficou de pé junto à cama a olhar para ela por um momento. Ficara tão feliz por tomar um banho, apesar de serem apenas quinze centímetros de água quente numa banheira onde mal caberia uma criança. Naquele momento, adormecida e com o cabelo húmido a emoldurar-lhe o rosto, não parecia mais velha do que da primeira vez que a vira. – É uma mulher muito bonita – disse Angus, em voz baixa. – É, não é? – concordou Bennett. – Mas é muito mais do que uma cara bonita. Conheci-a quando ela estava a cuidar de dois amigos que tinham contraído cólera. Tinha só dezassete anos, mas já era tão forte, capaz e cheia de compaixão. – Hoje foi um dia bom para ela – disse Angus, pensativo. – Aquelas palavras da Nell foram muito importantes, não foram? Bennett assentiu com a cabeça e voltou à cadeira. Tinham chegado a casa de Pettigrew ao meiodia, e o criado preparara-lhes um delicioso e robusto guisado com bolinhos de ervas aromáticas. Depois tinham tomado banho, e vestido roupas lavadas. Só então Pettigrew – ou Angus, como insistira que lhe chamassem – fora buscar a carta de Nell. Bennett ficara bastante surpreendido ao ver que Nell não escrevia tão bem como Hope. Redigira apenas algumas linhas, e percebia-se que as cuidara num longo e duro esforço. Mas nem o maior escritor de Inglaterra, nem Charles Dickens ou Thomas Hardy, teria sido capaz de concentrar tanto sentimento e alegria em tão poucas palavras. «Deu-me as Joias da Coroa», era como começava. Ainda não consegui parar de chorar de alegria. Imagine-se, a minha Hope casada com um médico! E aí, onde pode mantê-la debaixo de olho por mim. Este é o dia mais feliz da minha vida. Mas quanto mais chorarei e rirei quando ela estiver em casa. Beije-a por mim. Digalhe que se mantenha afastada do perigo. E obrigue-a a escrever em breve. – O destino escolhe na verdade caminhos bem misteriosos – disse Bennett, a rir. – Imagine-se, termos de atravessar a Europa para chegar a isto. – Podiam ter metido por um atalho e ido até à aldeia, lá em Inglaterra – disse Angus, com um


sorriso triste. – Diga-me, Bennett, porque foi que o não fez? – E quando acha que podia tê-lo feito? Não é o único a estar no Exército! Cheguei a casa em janeiro, casámos, tivemos uma curta lua de mel e viemos para aqui. – Sim, compreendo que teve pouco tempo. Mas quando decidiu casar com a Hope, sabendo o que sabia a respeito da situação dela, não teria sido a altura adequada para fazer algumas averiguações? Podia ter ido às tabernas locais, feito algumas perguntas e ficado a saber por si mesmo que a Nell estava comigo. – Isso é fácil de dizer agora, a posteriori. Mas a Hope não queria por nada deste mundo que eu fizesse perguntas. – Não acredito que o tenha sequer sugerido – respondeu Angus. – Queria tê-la só para si, não foi? – Ouça... – exclamou Bennett. – Não, ouça o Bennett – interrompeu-o Angus. – Bem vi a sua cara enquanto a Hope lia a carta. Estava emocionado, mas também com um pouco de medo, com medo de que a Nell e o resto da família lha roubassem. – Claro que não tenho medo – bufou Bennett. – Tem, sim. E não admira. Ela é um grande prémio, e sendo você a única pessoa na vida dela pode tê-la só para si. Mas aceite um conselho meu, não a prenda numa gaiola. Deixe-a voar! – E eu devo acreditar que sabe alguma coisa a respeito do amor conjugal? – disse Bennett, com gélido sarcasmo. – Por vezes, os que estão de fora conseguem ver com mais nitidez do que os que estão dentro. Mas, Bennett, já disse o suficiente para um dia, e está tão cansado como a sua mulher. Vá para a cama antes que caia para o lado. Bennett sentiu-se muito tentado a pegar em Hope ao colo e levá-la para a tenda, só para mostrar a importância que dava às opiniões e aos conselhos do capitão Pettigrew. Mas estava demasiado exausto para protestar, e Hope parecia demasiado confortável para ser importunada. – Mas onde vai o Angus dormir? – perguntou. Angus esboçou um sorriso desprovido de alegria. – Não se preocupe comigo, hei de arranjar outra cama.

Nos dias frios e chuvosos que se seguiram, a euforia que se apoderara de Balaclava depois da retirada dos russos em Inkerman depressa se desvaneceu. O troar quase constante dos canhões em Sebastopol e as notícias recebidas de que poucos ou nenhum estragos tinham sido causados nas defesas da cidade tornavam cada vez mais claro que não seria facilmente tomada. A dura realidade era que as tropas passariam quase de certeza todo o inverno nas trincheiras. No hospital, a ansiedade não parava de crescer. Todos os dias, quarenta ou cinquenta homens adoeciam e eram enviados para lá. Outros vinte ou trinta eram feridos. Na realidade, do contingente inicial de trinta e cinco mil homens, restavam apenas dezasseis mil e quinhentos aptos para o serviço. A cólera continuava presente, juntamente com o tifo, a febre tifoide e a malária, ainda que as três últimas fossem por norma incluídas na classificação geral de febres. Com poucos medicamentos e insuficientes alimentos nutritivos e fáceis de digerir disponíveis para os doentes, as hipóteses de recuperação eram muito fracas. Bennett tinha sucessivos ataques de fúria, porque os tão necessários abastecimentos e provisões


chegavam ao cais, mas os meandros da burocracia impossibilitavam o seu envio para os destinos apropriados. Estava a ser construída uma via-férrea para um comboio de cerco que, quando ficasse concluída, tornaria muito mais fácil o transporte de e para a frente. Mas o trabalho inumanamente duro era o suficiente para matar homens já enfraquecidos pela doença e pela fome. Se não fosse uma negra jamaicana a que os homens chamavam Mãe Seacole, muitos dos feridos que esperavam horas deitados em macas no cais gelado que os levassem para bordo do navio com destino a Scutari teriam perecido. Fazia parte da horda de homens e mulheres que tinham surgido não se sabia de onde para vender os seus produtos aos soldados. Mas embora estivesse na Crimeia para fazer negócio e tivesse nos arredores da povoação uma loja onde vendia de tudo, desde refeições quentes a botas novas, era uma mulher genuinamente generosa e dotada de bons conhecimentos de enfermagem, e passava a maior parte dos seus dias no cais, a distribuir chávenas de chá e outros pequenos confortos. Na frente, havia uma necessidade desesperada de roupas quentes e mantas, a comida era escassa, monótona e quase intragável, e não era fácil encontrar combustível para as fogueiras. Os feridos que de lá chegavam falavam de noites passadas sentados nas trincheiras cheias de água gelada para depois terem de regressar às tendas esburacadas sem uma muda de roupa para vestir. Hope e Bennett podiam não ter de passar a noite inteira à chuva, mas também eles tinham descoberto como uma tenda podia ser um lar miserável com mau tempo. Sem cadeiras, mesa ou outros confortos, tinham de se desenvencilhar com caixotes vazios, e quando chovia não podiam sequer acender um lume para cozinhar qualquer coisa para comer.

Na noite de 14 de novembro, Bennett tinha conseguido metade de um frango no talho e tinham-no frito e assado algumas batatas na fogueira. Com rum e água a acompanhar, sentiram que tinham tido um banquete. E para variar, em vez de caírem de imediato no sono vencidos pela exaustão, conversaram, a respeito da boa recuperação do capitão Pettigrew, de quanto tempo passaria até que Hope recebesse uma carta de Nell e se Alice lhes enviaria as comidas e as roupas quentes que Bennett lhe tinha pedido. Foram acordados em sobressalto pelo uivo do vento que repuxava a tenda, ameaçando fazê-la em pedaços, e quando espreitaram cuidadosamente para fora viram aquilo que só podia ser descrito como um furacão. Eram seis da manhã e ainda não havia luz, mas mesmo assim conseguiram ver tendas, tábuas, baldes, cafeteiras e peças de roupa a voar pelos ares. – Deus nos ajude! – exclamou Bennett. – Vamos ser levados pelo vento? – E os feridos que estão nas tendas nas traseiras do hospital? – arquejou Hope. – O lugar é mais exposto do que aqui. Podem estar deitados à chuva! Bennett estava agarrado ao poste da tenda, com medo de que se partisse ao meio. – Veste-te enquanto eu seguro isto! – disse, num tom de urgência. – Guarda todas as nossas coisas soltas em caixas e depois vamos. – O que é este barulho? – perguntou Hope, enquanto enfiava o vestido e calçava as botas. – Devem ser os navios no porto a chocarem uns contra os outros – respondeu Bennett. – Não me admirava nada que se partissem. Deixaram a tenda o mais segura que lhes foi possível e dirigiram-se para o hospital. O vento era


tão forte que Hope teria sido atirada ao chão se Bennett não estivesse a agarrar-lhe a mão. Mas no instante em que saíram da proteção dos edifícios, o vendaval que soprava do mar apanhou-os aos dois e atirou-os contra a parede. Apareceram outros para os ajudar a levar para dentro os doentes das tendas mais expostas, pela porta das traseiras do hospital, mas era um esforço demorado e difícil, com o vento a atirar-lhes lixo para a cara enquanto trabalhavam. Já passava das nove quando tiveram um momento para chegar às janelas da frente e observar os estragos no porto. O espetáculo que se lhes deparou era verdadeiramente assustador. As ondas do outro lado do paredão eram tão grandes que a água subia até ao topo das falésias e abatia-se sobre a enseada como um dilúvio. Os navios, muito apertados no cais, roçavam uns contra os outros e os seus flancos desfaziam-se pouco a pouco. O Star of the Sea já perdera a maior parte da popa e muitos tinham perdido os mastros, que ao cair provocavam estragos nos do lado. O mar fervia e agigantava-se como se quisesse engolir todos os navios que ali estavam. – E os navios que estão lá fora? – perguntou Hope a Bennett. Ainda poucos dias antes, com vento forte, vários capitães de navios tinham pedido autorização para entrar no porto interior, mas fora-lhes negada. Continuavam ancorados ao largo, e numa situação de verdadeiro perigo.

Foi o mais negro dos dias. Às dez da manhã, correu palavra de que o Prince se tinha afundado fora do porto, com todos os que estavam a bordo. Outros navios tinham sofrido danos terríveis e tinhamse perdido muitas vidas. Quando, mais tarde, o vento amainou, começou a nevar. O dia seguinte foi muito frio, mas limpo, e só então foi possível avaliar a verdadeira extensão dos estragos causados pelo furacão. No cerco, um local muito mais exposto do que Balaclava, tendas, roupas e equipamentos tinham sido levados pelo vento para não voltarem a ser vistos, incluindo as tendas que estavam a ser usadas como hospitais de campanha, e os feridos e doentes que lá se encontravam tinham ficado expostos à intempérie. O porto estava juncado de destroços, telhados e janelas tinham sido arrancados dos edifícios e não havia praticamente um navio a balouçar nas águas de novo calmas que não tivesse sofrido danos avultados. Foi, porém, a perda do Prince que pôs muitos homens feitos a chorar. Porque o navio estava carregado com todas as coisas de que tanto precisavam: roupas quentes para as tropas, medicamentos, brandy, mantas, enxergas, chá e açúcar. Ironicamente, um dos passageiros que perdeu a vida no naufrágio foi o Dr. Spence, inspetor-geral dos hospitais, que tinha lá ido para efetuar uma inspeção na sequência de rumores difamatórios sobre as condições médicas na Crimeia.

– Dr. Meadows! Bennett ergueu a cabeça ao ouvir alguém gritar o seu nome e viu Angus Pettigrew a acenar-lhe de trás de um grupo de carros de bois pesadamente carregados. O cais estava tão apinhado e caótico como sempre – nem sequer a ordem recente para retirar o lixo, construir um novo local para o abate dos animais e rebocar para o mar alto as carcaças que apodreciam na água, fizera grande diferença. Continuava a ser uma desgraça.


Bennett não estava ansioso por falar com Angus. Apesar de terem passado três semanas desde que o capitão mostrara a Hope a carta que recebera de Nell, continuava ressentido por causa do que então fora dito. Sabia que Angus tinha razão. Se fosse um verdadeiro homem, havia muito que teria ido a Compton Dando e descoberto que Nell deixara Albert. Mas na altura ainda não era um verdadeiro homem, continuava, na essência, a ser o mesmo rapaz que era alvo de todas as piadas na Faculdade de Medicina. Ainda lhe doía pensar que permitira que o tio Abel lhe impusesse a sua vontade e que não mexera um dedo para evitar que Hope fosse mandada trabalhar para o St. Peter’s. Escolhera o Exército apenas por ser uma maneira de se livrar da tutela do tio, não por ser corajoso. Na altura não lhe passara pela cabeça a possibilidade de ser enviado para um campo de batalha, e se tivesse passado teria fugido a sete pés. Criara uma imagem cor-de-rosa de si mesmo como oficial médico adido a um regimento e, passados alguns anos, em condições de casar com Hope e criar três ou quatro filhos. O que nunca esperara fora encontrar o seu nicho no Exército. Os homens doentes não precisavam de mais um primeiro-sargento duro a gritar com eles, queriam alguém que os ouvisse e tivesse os conhecimentos suficientes para lhes devolver a saúde. E nem os oficiais nem os soldados queriam saber das suas origens ou da sua situação financeira ou social. Para eles, era um médico de primeira classe que tinham a sorte de ter no regimento. Sentir-se apreciado, ver as suas opiniões valorizadas e as suas competências admiradas fizera-o perder a timidez. Descobrira que era capaz de se insurgir contra a injustiça e as práticas médicas erradas. O rigor da vida militar na África do Sul endurecera-o, e o cirurgião de regimento Meadows que tinha regressado para casar com Hope Renton era um homem muito diferente daquele que quase morrera de medo da primeira vez que entrara em Lewins Mead. Dissera, quando tinham partido em lua de mel, que achava que era tempo de Hope contactar a família, e fora sincero. Mas, claro, na altura não sabia que duas semanas mais tarde estariam a caminho do Mar Negro. Se soubesse o que os esperava, não teria deixado Hope ir. Mas o que estava feito feito estava, e ela provara ser inestimável. Tudo o que podiam fazer agora era seguir em frente e esperar que as coisas melhorassem. Supunha que também ia ter de se habituar à ideia de que o capitão Pettigrew continuaria a ser irritante como um piolho. – Como estão os ferimentos? – perguntou, quando chegou suficientemente perto de Angus para ser ouvido sem ter de gritar. – Curados, graças a si, embora esta perna continue um pouco rígida – respondeu o capitão, com um sorriso. Vestia o uniforme completo, e devia ser quase novo, porque os galões dourados ainda não tinham perdido o brilho, e o dólman azul e os calções vermelho-cereja não tinham manchas nem remendos. Só as botas gastas revelavam que já tinha combatido. – É o homem mais elegante do cais – disse Bennett, com mais sarcasmo do que admiração. – Felizmente para si tinha um segundo uniforme. – Sinto-me demasiado bem vestido – respondeu Angus, e o sorriso morreu-lhe nos lábios quando olhou para um par de soldados de infantaria que passavam com os uniformes reduzidos a farrapos e sujos de lama. – Mas vou para o acampamento e, sabe... – Calou-se, talvez com vergonha de dizer em voz alta que os seus superiores o admoestariam se não estivesse corretamente fardado. – Foi um golpe terrível, o afundamento do Prince – comentou Bennett. – Os doentes que vêm da


frente dizem que os homens que lá estão têm as botas a desfazer-se e usam as mantas por baixo dos capotes para tentarem manter-se quentes. Mas estou certo de que sabe disso. Tenciona ir a cavalo até ao acampamento? – Sim. O Mead trouxe o meu para baixo esta manhã, apesar de estar num estado lastimável. Dei-lhe um punhado de aveia, mas do que ele precisa é de um balde cheio. Já não há forragem para os cavalos. Ouvi dizer que Lord Raglan está a fazer pressão para conseguir mais. Se não chegar em breve, vamos ter de abater alguns. – Diria que alguns dos homens que estão a morrer de frio e de fome também gostariam que lhes acabassem com o sofrimento. – Bennett suspirou. – Não vai haver muita alegria neste Natal. – Esperava poder dar-lhes um pouco de alegria a si e à Hope perguntando-lhes se gostariam de ficar com o meu quarto – disse Angus, a apontar por cima do ombro com o polegar para o edifício atrás deles. – Vou ficar no acampamento, e vocês os dois não podem continuar a viver numa tenda com este frio. – É muita gentileza sua. – Bennett sentiu de repente o coração mais leve. Nas duas ou três noites anteriores a temperatura tinha caído abaixo de zero. – A Hope nunca se queixou, mas há um limite para a resistência de qualquer pessoa. – A Hope é das duras – disse Angus, com um sorriso. – Já recebeu alguma carta da Nell? Bennett abanou a cabeça. – Passa os dias a olhar para o porto, à espera do barco do correio. E já deve ter escrito uma dúzia de cartas para casa. Mas há duas semanas que ninguém recebe nada, de modo que já não deve tardar. – Podem mudar-se hoje – disse Angus. – As minhas coisas estão todas emaladas e prontas para serem levadas. Contratei uma mulher tártara para fazer uma limpeza e acender a lareira. Chama-se Rosa, ou pelo menos é assim que lhe tenho chamado. – É na verdade muita bondade sua. – Bennett sentiu-se de repente um pouco envergonhado dos seus pensamentos a respeito do homem. – Deviam ter-lhes dado um alojamento decente desde o primeiro dia – disse Angus. – Todos os médicos merecem uma medalha pelo que aqui têm feito, nestas condições. Fico furioso quando leio nos jornais ingleses que o público em geral está a ser encorajado a acreditar que alguns de vocês estão a ser negligentes no vosso trabalho. Por minha vontade, enforcava todos os verdadeiros responsáveis por este caos. E alguns oficiais que não são sequer capazes de limpar o próprio rabo, quanto mais de comandar homens. Bennett sorriu. – Acalme-se, Angus, olhe que ainda rebenta os pontos. – A Hope fez um trabalho demasiado bom para que isso aconteça – respondeu o capitão, com uma gargalhada. – Mas agora tenho de ir. Posso visitá-los da próxima vez que vier até cá? – Ficaríamos desapontados se não o fizesse – disse Bennett.

– Tem a certeza de que não estou a atrapalhar, Nell? – perguntou Rufus. – É só dizer e vou-me embora. Faltavam poucos dias para o Natal e estavam os dois na cozinha de Willow End. Rufus aparecera quando Nell estava a fazer maçapão para cobrir o rico bolo de frutas que queria enviar a Hope. – Ora essa, menino Rufus. – Nell sorriu-lhe. – Claro que não está a atrapalhar, é um prazer tê-lo


aqui comigo. Deixe-me só acabar o bolo e já vou buscar as cartas da Hope para que as leia. Na opinião de Nell, Rufus era o mais perfeito cavalheiro que alguma vez conhecera, e o mais bonito. Herdara o melhor dos pais: o cabelo muito louro, os brilhantes olhos azuis e a elegância. Mas gostava de pensar que tinham sido os Renton a moldar-lhe o caráter, porque era firme, desembaraçado e tinha bom coração. Quanto à determinação e coragem, deviam vir-lhe do avô paterno, pois dizia-se que fora um homem forte. Rufus regressara a Oxford depois do funeral do pai, deixando a mãe com os Warren em Wick Farm. Mas na Páscoa voltara a casa e informara a mãe de que não ia regressar a Oxford e que tencionava explorar os terrenos de Briargate em vez de os vender como toda a gente esperava. – Diga-me, senhor, como está Lady Harvey a aguentar-se? – perguntou Nell. A antiga patroa ficara horrorizada quando Rufus lhe dissera que viveriam na casa do guarda-portão. A primeira coisa que perguntara foi onde iria morar a governanta! – Não me trate por «senhor», Nell – pediu ele, com um sorriso. – Nem por «menino Rufus». A partir de agora é apenas Rufus. Quanto à minha mãe, continua a queixar-se da mobília, da pequenez das divisões e de ter tanto que fazer, mas penso que é só por hábito. Parece um pouco menos infeliz, e tornou-se uma excelente cozinheira. – Pegou num pedaço de maçapão e mordiscou-o, pensativo. – Diga-me, Nell, acha que fui cruel ao obrigá-la a viver lá? – Se quer que lhe diga, acho que ela teve muita sorte por ter um lugar onde viver – respondeu Nell, num tom duro. Os anos passados longe de Briargate tinham-na feito ver a antiga patroa a uma luz diferente. Por muita pena que tivesse de Lady Harvey por ter perdido o marido e a casa, pensava que ninguém, nem sequer os bem nascidos, tinha o direito de esperar que os outros o sustentassem. Se a deixassem, teria ficado em casa dos Warren indefinidamente. As irmãs tinham deixado bem claro que não a queriam em suas casas. E ela não tinha dinheiro para viver noutro lado. – Por vezes penso que devia ter vendido a terra e comprado uma pequena casa num sítio qualquer como Bath. Sei que a mãe teria preferido. – Rufus suspirou. – Mas teria tido de arranjar um emprego, e que poderia eu fazer exceto tornar-me escriturário ou coisa assim? Tive de usar a maior parte do dinheiro que o meu avô me deixou para pagar as dívidas do pai, e senti que era errado desbaratar o que restava ficando em Oxford enquanto a minha mãe vivia como uma parente pobre em Wick Farm. Desta maneira, pelo menos, ainda somos os donos da terra, e se as coisas correrem bem talvez consiga reconstruir a casa e um dia os meus filhos possam ter todas as vantagens que eu tive. – Fez o que devia – declarou Nell, perentória. – O nosso Matt diz que nasceu para ser agricultor, e não acredito que Lady Harvey fosse mais feliz em Bath, sem as boas roupas, um coche e criados. Pelo menos tem amigos na aldeia, pessoas que gostam dela. Se fosse meu filho, orgulhar-me-ia muito de si. – É engraçado como as coisas são – disse ele, com um sorriso triste. – Quando era pequeno, invejava as crianças da aldeia. Parecia-me que elas se divertiam muito mais e eram mais livres do que eu. Agora que tenho de trabalhar para ganhar a vida, parece tudo muito diferente. Nell acabou o seu trabalho no bolo e levou-o para a despensa. – Todas as nossas vidas foram viradas de pernas para o ar – disse, quando voltou. – Só queria que a polícia encontrasse o Albert e o enforcasse. É como ter um dente estragado. Sabemos que a dor vai continuar a aparecer até que o arranquemos. – Ele não vai atrever-se a aparecer por estes lados – observou Rufus, confiante. – Pode ser muita coisa, mas não é estúpido.


– Não, mas está obcecado pelo jardim de Briargate, e penso que é muito capaz de voltar cá para ver o que lhe aconteceu – respondeu Nell, num fio de voz. – Nesse caso morrerá de choque quando vir que desapareceu. – Rufus riu-se. – Lavrei o relvado de baixo em novembro passado e tenho porcos onde estavam os roseirais. Tem de ir lá dar uma vista de olhos, Nell. Não só à quinta, à casa do guarda-portão também. As cortinas que fez para nós são muito bonitas. Nell abanou a cabeça. – Não sou capaz, Rufus, traz-me demasiadas más recordações. Talvez quando a Hope e o capitão voltarem seja diferente, mas duvido. * Rufus lia as cartas de Hope enquanto Nell mexia a sopa. De vez em quando ria de qualquer coisa engraçada, e ela olhava para ele e perguntava-se como reagiria se alguma vez descobrisse que Hope era sua meia-irmã. Por muito feliz e orgulhosa que estivesse por Hope se ter saído bem e ter casado com um médico, o segredo da sua verdadeira filiação afligia-a quase tanto como a perspetiva de Albert reaparecer um dia. Hope falava muito do capitão Pettigrew nas suas cartas. Nell, claro, não tinha dado a Rufus a primeira, em que ela explicava como Albert a tinha apanhado com a carta do capitão para Lady Harvey e fazia várias referências ao caso entre os dois. Mas da leitura das subsequentes era fácil perceber que criara uma forte ligação ao capitão enquanto cuidara dele. As cartas de Angus mostravam que essa ligação era recíproca, e embora o senso comum dissesse a Nell que isso se devia provavelmente à relação que ambos tinham com ela, sentia que havia mais qualquer coisa. Por um lado, dizia a si mesma que talvez devesse contar-lhes a verdade. Hope não tinha outro pai, agora; o capitão não tinha outros filhos. Seriam um conforto um para o outro. Mas por outro lado havia Rufus. Era possível que ficasse tão encantado por saber que a amiga de infância era na realidade sua meia-irmã que minimizasse a infidelidade da mãe. Mas duvidava que achasse muita graça a descobrir que o capitão Pettigrew, o homem que conhecera e admirara toda a sua vida, era o mau da história. Quando Nell recebeu a notícia maravilhosa de que o capitão tinha encontrado Hope em Varna, correra direita à casa de Matt para partilhá-la com ele. Matt passara-a a Rufus, que por sua vez contara a Lady Harvey. Lady Harvey conseguira que um homem a levasse de caleche até Willow End no dia seguinte, e estava muito empolgada. Era difícil saber o que na verdade sentia: se era alegria por Hope estar viva e bem, terror por o seu segredo estar à beira de ser revelado ou apenas ciúmes por Nell estar a receber cartas de Angus e ela não. Talvez fosse um pouco de tudo isto. Naquele dia, Nell não fora muito simpática para com a antiga patroa. Estava tão cheia de alegria por a sua espera de sete anos ter chegado ao fim que não ia permitir que ninguém lha estragasse. Lady Harvey voltara a sair pouco depois, mas não sem antes ter chorado a dureza da sua vida e o facto de ser tão mal compreendida. Poucos dias mais tarde, a Inglaterra inteira foi abalada pela notícia da chacina da Brigada de Cavalaria Ligeira em Balaclava. Nell andara fora de si enquanto esperava por novas do capitão Pettigrew, e mesmo depois de saber que ele se contava entre os feridos, não conseguia deixar de se


preocupar com a possibilidade de vir a morrer mais tarde em consequência dos ferimentos. Mas, por fim, chegara a carta em que ele lhe anunciava que tinha sido levado para o hospital onde Hope lhe cosera as feridas e que estava bem. Devia ter lido aquela carta cem vezes, e de todas elas chorou. Deixara de ir à igreja depois de o reverendo Gosling lhe ter dito que era um pecado abandonar Albert, sem mostrar a mais pequena preocupação por Hope. Mas naquele dia foi à igreja de Keynsham e agradeceu a Deus. Agora, com mais duas cartas do capitão e cinco de Hope, continuava firmemente convencida de que fora a mão de Deus que os juntara, e que isso acontecera com um propósito que Ele a Seu tempo revelaria.

– Imagine-se, a Hope a coser as feridas do capitão Pettigrew! A exclamação de Rufus arrancou Nell ao seu devaneio. Rufus tinha uma expressão de incredulidade, de olhos muito abertos e cheios do romance da guerra. – É verdade! E pensar que fui eu que a ensinei a coser – riu Nell. – Mas pelo que ela diz aquilo tudo deve ser tão sujo. Se é assim tão mau, não sei como consegue aguentar. – Ela só está a dizer-nos como na realidade é. Parece não achar que Lord Cardigan seja o herói que temos sido levados a pensar – disse Rufus, a olhar pensativo para uma das cartas. – Ou Lord Raglan um tão grande general! É terrível estarem tantos soldados a morrer de doença, passarem fome, não terem roupas quentes e nem sequer abrigos decentes. – A Hope sempre foi um coração mole – comentou Nell. – Mas muito verdadeira, Nell – lembrou-lhe Rufus. – A mim parece-me que nos tem sido dada uma imagem falsa. Como se atrevem a atribuir as culpas de tantas mortes aos médicos quando na verdade a culpa é do governo porque não planeou a campanha como devia ser desde o início? – Bem, suponho que lê os jornais todos e compreende o que dizem – disse Nell. – Para mim é tudo uma grande baralhada. – A mim parece-me que estão a glorificar a guerra. Não nos falam, como a Hope faz, dos homens que caíram vitimados pelo calor durante a marcha até Balaclava porque os seus uniformes eram demasiado quentes, nem que não tinham nada para beber. Imagine, deixarem-nos morrer por não haver carroças para os transportar! – Não gosto das partes das cartas dela em que fala dessas coisas – disse Nell, a franzir o nariz. – Nesse caso é tão má como a minha mãe – replicou ele, trocista. – Essa só se interessa por soldados quando estão em uniforme de gala numa parada, com a banda a tocar. Nell voltou-se para a panela da sopa para que Rufus não lhe visse a cara, pois tinha medo de trair os seus sentimentos. Tinha a certeza de que Lady Harvey estaria muito ansiosa por ouvir todas as notícias a respeito do capitão Pettigrew que ele tivesse para contar quando voltasse a Briargate. E de que veria no facto de ele ter sido ferido a desculpa perfeita para lhe escrever e tentar reconquistarlhe o coração. Se o conseguisse, em que situação ficaria ela?


CAPÍTULO 22

1855

H

ope limpou o gelo que se formara no interior da janela do hospital com uma ponta do avental e não pôde deixar de sorrir ao ver o espetáculo que se lhe deparou. Tinha nevado durante a noite e agora, ao nascer do dia, o porto parecia um quadro. Os navios tinham sido transformados em naves fantásticas de um conto de fadas, cada cabo, trave e amurada polvilhados de neve. Nenhuma pegada estragara ainda a virginal brancura dos conveses; até as pranchas que os ligavam a terra ostentavam uma espessa alcatifa branca. Toda a terrível fealdade, toda a imundície, toda a esqualidez do cais desaparecera sob um alvo manto. Caixotes, carroças, barris e outros objetos tinham sido transformados em incríveis esculturas de neve. As altas e escarpadas falésias do outro lado do porto faziam lembrar um gigantesco merengue. A cena evocava recordações de nevões da sua infância. Quase conseguia ver Joe e Henry, entusiasmados, a puxar o trenó para fora da arrecadação e a disputar numa acalorada discussão o direito à primeira descida. Costumavam descer até à aldeia, ela agarrada à cintura de Henry, sentado à frente, Joe a empurrálos até que o trenó ganhasse velocidade suficiente para ele poder saltar para o lugar de trás, e deslizavam pelo caminho tão depressa que gritavam, cheios de uma inebriante mistura de terror e alegria. Hope passara a noite inteira no hospital e no dia anterior tinham sido feitas várias amputações. Dois dos pacientes tiveram tantas dores ao despertar da transitória paz do clorofórmio que não quisera deixá-los entregues aos cuidados menos ternos dos serventes. Mas, como todos os outros, estavam agora a dormir, e a enfermaria enchia-se do som de homens a ressonar, com o hálito que lhes saía da boca a formar penachos de fumo no ar frio. Voltou costas à janela ao ouvir, do outro lado da porta, alguém bater com os pés no chão para sacudir a neve, e viu que era Bennett que entrava. – Não está tudo tão bonito lá fora? – perguntou. – Foi divertido ser o primeiro a pisar a neve? Ele lançou-lhe um olhar furibundo. – Desculpa ter-me atrevido a dirigir a palavra ao eminente cirurgião – disse ela, sarcástica. – É por causa da noite que tiveste de passar sem mim para te aquecer? Ou será que te habituaste tanto à fealdade que já não reconheces a beleza? – Se tivemos esta neve toda aqui em baixo, imagina o que terá sido nas montanhas – retorquiu ele, num tom duro. A ideia não lhe tinha ocorrido e Hope sentiu-se justamente admoestada por os pensamentos dele


terem sido para os homens nas trincheiras e os dela para os alegre tempos da sua infância. Não era, porém, grande apologista de pedidos de desculpa, de modo que começou a contar-lhe como Pitt e Moore tinham passado a noite. – Dei-lhes umas gotas de ópio por volta das duas – concluiu. – Depois disso acalmaram. Ele assentiu com a cabeça, e ela teve de contentar-se com isso como confirmação de que aprovava a administração do único remédio de que dispunham que resultava. – Vieste muito cedo – observou Hope. – Só te esperava daqui a mais uma hora. – Não conseguia dormir – respondeu ele. – E há umas coisas que preciso de fazer. O tom foi tão gelado que Hope olhou para ele com mais atenção e notou que tinha os olhos pesados, como tantas vezes ficavam quando passava a noite em claro. Mas não era só isso... tinha os lábios cerrados numa linha dura e estreita, sinal seguro de que alguma coisa o preocupava. – O que foi? – perguntou. – Que aconteceu? Bennett tirou o barrete e passou os dedos pelo cabelo, num gesto distraído. Hope soube que estava a tentar ganhar tempo. – Vá lá, desembucha – exigiu, perentória. – O coronel Lawrence falou comigo ontem à noite – disse ele, com um suspiro. – Por recomendação do Dr. Anderson, vou juntar-me ao regimento em Sebastopol. Para Hope, foi como se lhe tivessem tirado o tapete de baixo dos pés. O Dr. Anderson era o diretor do hospital e sempre simpatizara com Bennett e gostara do seu trabalho. – Porquê? – arquejou. – Não compreendo. Para quê mandar um cirurgião experiente lá para cima. Bennett encolheu os ombros. – Não me deu uma razão, mas é quase certo que é por alguém achar que eu tenho estado a ser privilegiado ficando aqui. – Privilegiado! – exclamou ela. – A trabalhar mais de dezoito horas por dia! Bennett soltou uma pequena gargalhada desprovida de humor. – Fazem o mesmo lá nas montanhas. Suponho que estou a ganhar fama de incómodo, sempre a queixar-me da falta de medicamentos e de comida para os doentes. – O coronel Lawrence disse isso? – Não de uma maneira tão explícita, mas deu a entender. – Suponho que não podes recusar? Hope sabia a resposta para aquela pergunta. As ordens eram para ser cumpridas. Sentia-se quase a desmaiar de choque. Os três meses passados desde o furacão tinham sido terríveis para os homens empenhados no cerco. Apesar de as trocas de tiros terem sido esporádicas, poder-se-ia quase dizer que limitadas a uma espécie de formalidade, e não tivesse havido assaltos nem surtidas durante o período, o frio fora muito intenso, com chuva, granizo e neve. O afundamento do Prince, com as roupas quentes, botas novas e outros abastecimentos tão desesperadamente necessários, fora uma tragédia monumental que se tornara ainda mais evidente à medida que o inverno se instalou. Podiam ter tido menos feridos em combate durante aqueles três meses, mas o número de doentes aumentara muito. Tanto os médicos como os oficiais tinham apresentado queixas constantes pelo facto de os homens serem obrigados a passar uma noite inteira encharcados até aos ossos nas trincheiras e depois não terem uma muda de roupa seca para vestir. Todos eles estavam enfraquecidos pela falta de alimentação e pelo esforço de cavar trincheiras, construir fortificações e


levar pesados equipamentos até aos cumes, que os deixava exaustos. Obrigá-los a, depois disto, dormir no chão gelado tendo apenas um capote esfarrapado e ensopado em água para os proteger era desumano. Todos nos hospitais se sentiam ofendidos por saberem que os jornais ingleses insinuavam que a elevada taxa de mortalidade entre os doentes e os feridos se devia à sua negligência. A muito publicitada chegada de Florence Nightingale e das suas enfermeiras a Scutari, e os seus relatórios a respeito das terríveis condições que lá vigoravam, pareciam ter transformado qualquer escrevinhador de um jornal em especialista em hospitais. Muitos dos médicos mais graduados do hospital de Balaclava estavam furiosos por ter sido preciso a intervenção de uma senhora com boas relações e escassos conhecimentos de medicina para levar o governo a melhorar as condições, quando as suas opiniões profissionais, relatórios e pedidos de abastecimentos tinham sido ignorados. Mesmo assim, todos continuavam a dar o seu melhor, apesar de cada dia ser uma batalha que nunca conseguiriam vencer. Os doentes e os feridos eram, em sua opinião, embarcados para Scutari demasiado cedo, precisamente quando estavam mais vulneráveis. No entanto, por muito difíceis e de um modo geral frustrantes que fossem as condições no hospitalbase, não se comparavam ao que acontecia nos hospitais de campanha da frente. Hope fizera por duas vezes, desde o Natal, a viagem até lá com Bennett para levar material cirúrgico e medicamentos, e o que tinham visto deixara-os horrorizados. A erva, os arbustos e as árvores tinham desaparecido, deixando apenas um vasto lamaçal salpicado de tendas. Os hospitais eram tendas maiores, os feridos e os doentes estavam estendidos no chão e recebiam apenas os cuidados mais básicos até ser possível arranjar um transporte qualquer que os levasse encosta abaixo até Balaclava, a dez ou onze quilómetros de distância. Por vezes, quando o tempo estava muito mau, eram transportados às costas de camaradas. Já nenhum daqueles homens parecia um soldado. Eram criaturas magras, emaciadas, infestadas de piolhos com espessas e hirsutas barbas que usavam chapéus bizarros e outras peças de roupa civil por cima dos esfarrapados e enlameados uniformes. Havia capotes e botas russas roubados aos mortos em Inkerman e alguns casacões comprados a marinheiros, ou trocados por outra coisa qualquer. Muitos tinham as pernas e o corpo envoltos em jornais velhos atados com cordéis, para combater o frio. Muitos não tinham sequer botas, apenas sacos de serapilheira enrolados à volta dos pés. A higiene pessoal era impossível, pois a água tinha de ser transportada de uma grande distância, e para ir buscá-la era preciso enfrentar a neve, o gelo e a chuva. O único combustível disponível era raízes, mas podia ser necessário um dia inteiro para desenterrar as suficientes para fazer uma fogueira onde se pudesse cozinhar. Em consequência, a carne salgada era muitas vezes comida meio crua, o que era sem dúvida responsável pelo aumento de casos de doenças intestinais. O escorbuto tinha feito a sua aparição, juntamente com a pneumonia e outros problemas respiratórios, e havia também muitos casos de queimaduras causadas pelo frio. A cólera desaparecera, de momento, mas as outras febres continuavam a grassar. O moral estava no seu ponto mais baixo. Muitos dos homens levados para o hospital diziam que prefeririam arriscar a vida num assalto frontal a Sebastopol a prolongar aquele interminável e aparentemente inútil cerco. Tinham dito a Bennett que por vezes as rações não eram distribuídas, e quando eram a carne de porco salgada e os biscoitos eram tão intragáveis que não conseguiam comêlos. Hope sentira o desespero em todos os homens com que falara.


– Vais ficar aqui – disse Bennett, com o tom severo a sugerir que não admitia discussão. – Ao menos no hospital a tua ajuda é apreciada. – Não posso ficar na casa com todos aqueles homens – protestou ela. – A Crimeia está cheia de homens, para onde quer que vás – respondeu ele, impaciente. – Pelo menos conheces os que estão na casa. Não posso consentir que morras gelada ou apanhes um tiro. – Vou contigo – declarou ela, obstinada. Detestava a ideia de ir, mas detestava ainda mais a ideia de separar-se dele. – Não, Hope. Deus sabe que bem gostaria de te ter a meu lado, mas não lá em cima. Não é lugar para uma mulher. – Mas a Queenie está lá, e outras mulheres de soldados também – argumentou ela. – Não. – O rosto dele ensombreceu. – Aqui fazes um trabalho inestimável. Eu poderei vir até cá de vez em quando e preciso de te saber a salvo no nosso quarto para aguentar o que me espera. Hope percebeu então o que fora que o mantivera acordado toda a noite. A preocupação por ela. O seu próprio conforto não lhe importava – provavelmente sentia que tinha a obrigação de estar com os homens do seu regimento. Soubera que ela insistiria em acompanhá-lo, mas não ia permitir que se pusesse a si mesma numa situação de risco. – Já fiz a mala – disse Bennett. – Só vou ficar até transmitir aos outros médicos os pormenores dos homens que tenho estado a tratar. Por favor, não tornes isto ainda mais difícil para mim. Hope inspirou fundo e engoliu as lágrimas. Era, ao fim e ao cabo, a mulher de um soldado, e tinha de se comportar como tal. – Quem vai lavar a tua roupa? – perguntou. Bennett esboçou um meio sorriso. – Tu. Trá-la-ei comigo quando vier visitar-te. Tenho a certeza de que conseguirei arranjar maneira de vir sempre com os feridos. Agora dá-me um beijo antes que os homens acordem. Foi um beijo agridoce, e Hope agarrou-se a ele, tentando afastar o medo. O inverno podia ter interrompido os combates, mas havia sempre o perigo dos disparos dos atiradores furtivos. Vários médicos tinham já morrido de doenças contraídas a tratar de pacientes, devido à falta de higiene. Além disso, sabia que Bennett não calaria a sua indignação pela maneira como o Exército tratava os soldados. Não seria capaz de se conter. Ao medo que sentia por ele sobrepunha-se, no entanto, a fúria por os oficiais superiores terem permitido que invejas mesquinhas lhes toldassem o julgamento. Bennett era um dos cirurgiões mais experientes e hábeis do hospital, e na sua ausência morreriam muitos homens que poderiam ser salvos. Qualquer dos jovens médicos saídos da faculdade e recrutados à pressa era capaz de aplicar um torniquete, ligar um ferimento ou pôr talas numa perna partida, porque isso era tudo o que se lhes exigia nos hospitais de campanha. Hope tremia só de pensar que um daqueles jovens inexperientes podia ser mandado para ali para o substituir.

No início de março, um mês depois de Bennett ter sido enviado para a frente, Hope deu um passeio pela povoação para ver como estava a progredir a construção da via-férrea. Era de uma importância vital, pois acabaria com a necessidade de carregar e arrastar até aos montes munições e armas pesadas, e tinham sido enviados trabalhadores para ajudar na obra. Hope estava contente por os terem trazido de Inglaterra, e era bom ver homens grandes, robustos e


saudáveis, para variar, mas, como muitas outras pessoas, criticava o tratamento especial de que beneficiavam. Não era justo eles receberem grandes quantidades de carne fresca todos os dias ao passo que os soldados não recebiam nada. Como não lhe parecia bem o facto de os soldados, fracos e doentes, terem de construir cabanas para aqueles trabalhadores enquanto eles próprios continuavam a viver em tendas esfarrapadas. Em todo o caso, agradou-lhe ver que tinham sido feitos grandes progressos. Os carris já tinham passado a aldeia de Kadikoi, a cerca de dois quilómetros e meio da povoação e perto do acampamento da cavalaria. Em breve chegariam ao quartel-general. O último mês fora um período de total infelicidade. Tinha saudades de Bennett, temia por ele e sentia-se terrivelmente sozinha. Quando Bennett estava com ela, havia pessoas que apareciam para uma visita, eles próprios iam por vezes visitar amigos. Agora, porém, tinha de ter muito cuidado. Não podia receber visitantes do sexo masculino, por medo dos mexericos, e as poucas mulheres que viviam em Balaclava ou eram tão aborrecidas que preferia ficar a olhar para a lareira a estar com elas, ou tão presumidas que só tinha vontade de lhes bater. Bennett só conseguira descer dos montes duas vezes, e de ambas estava tão exausto que adormecera logo a seguir a um banho. As cartas de casa eram a única coisa que iluminava esta tristeza. Nell escrevia todas as semanas, e embora as cartas dela se caracterizassem por uma frustrante falta de pormenores a respeito da sua vida quotidiana, bastava-lhe olhar para aquela caligrafia grande e infantil para se sentir amada. Matt escrevera três vezes, a pedido de Joe e de Henry, e Amy acrescentava sempre no fim um pouco de coscuvilhice local. As duas cartas de Ruth tinham sido as mais divertidas. Escrevia bem, com uma boa caligrafia, a respeito dos três filhos, do marido e das duas enteadas, e a respeito da sua vida em Bath. Achava muito excitante e aventuroso Hope estar na Crimeia e dizia que se gabava dela às amigas. Via Nell com muita frequência e dizia que parecia desabrochar, agora que sabia onde ela estava. Mas eram os pequenos pormenores que Ruth incluía na suas cartas que mais lhe agradavam – como estava a ficar com o cabelo grisalho e a ganhar ares de matrona, ou o que cozinhara para um jantar especial, e pequenas coisas engraçadas que os filhos diziam. Na segunda carta terminara dizendo que tinham muita conversa para pôr em dia quando ela voltasse e que haveria sempre espaço para ela e para Bennett na sua casa. James escrevera uma carta apressada mas cheia de ternura, com promessas de outra logo que tivesse tempo. Expressava a sua alegria por saber que ela estava bem e de saúde e contava que estava casado com Joan, que fora criada de quarto em Littlecote. Viviam numa pequena casa na propriedade, a filha tinha quatro anos e estavam à espera de mais um bebé para breve. Esperava que ela e Bennet fossem visitá-los quando voltassem a Inglaterra. Alice e Toby tinham escrito uma única carta conjunta, e Hope ficara com a impressão de que só o tinham feito porque Nell os obrigara. Embora isto a fizesse sentir-se um pouco triste, era compreensível. Tinham entrado para o serviço doméstico juntos, em Bath, quando ela era ainda uma criança, e depois disso tinham feito a sua vida separados do resto da família. Nenhum dos irmãos e irmãs a interrogara a respeito do seu desaparecimento. Se era por Nell já lhes ter explicado ou por serem pouco curiosos, não saberia dizer. Mas era bastante estranho, depois


de tantos anos a perguntar-se qual teria sido a reação deles, descobrir que não tinham tido nenhuma. * O comboio de cerco tinha um aspeto impressionante. O grande motor que ia puxá-lo durante a parte mais íngreme do percurso já estava instalado no cume. Hope só esperava que os que diziam que aquilo ia apressar o fim do cerco tivessem razão, tal como esperava que a notícia de que o czar Nicolau I morrera no dia anterior pudesse trazer a paz. As flores que cresciam na berma da estrada fizeram-na deter-se para olhar com mais atenção. Eram parecidas com as do açafrão, e como eram o primeiro sinal tangível de primavera, e também as primeiras flores que ali via, inclinou-se para apanhar uma. – É quase tão bonita como a Hope! Sobressaltada ao ouvir o seu nome, Hope voltou-se e viu Angus a sorrir-lhe do alto da sela. A última vez que o vira fora em janeiro, quando ele estava desesperado por causa dos cavalos que corriam o risco de morrer de fome. Vira-o coxear estrada acima em direção ao acampamento, carregando às costas um pesado saco de aveia. Naquele momento, porém, parecia em perfeita forma e muito atraente, apesar de os calções vermelho-cereja estarem desbotados, gastos e salpicados de lama. O cavalo castanho estava muito magro, uma sombra do que fora ao chegar a Varna, mas foi um alívio verificar que não tinha morrido durante aquele terrível período. – É um prazer vê-lo – disse ela, e fez uma festa no focinho do cavalo. – E é bom ver que o Brandy voltou a ter alguma coisa para comer. Como estão os seus ferimentos? – Que ferimentos? – perguntou ele, desmontando. Hope riu-se. – Bem, não posso mandá-lo baixar os calções para ver a cicatriz. Mas é evidente que não o incomoda. – Graças a si, dedos de anjo – disse ele, pegando-lhe na mão e beijando-a. – Porque é que não está lá em baixo a coser um qualquer jovem soldado que se lembrará do seu rosto até ao fim dos tempos? – Não admira que Lady Harvey tenha perdido o tino – riu Hope. – Mas porte-se bem, se faz favor. O Bennett foi mandado para junto do regimento, no cerco, e não quero atrair mexericos. Angus acompanhou-a na descida até ao cais, levando o cavalo pela rédea, e conversaram a respeito da transferência de Bennett, da morte do czar e do enorme aumento do número de doentes em janeiro e fevereiro. – O moral das tropas está muito em baixo – disse ele, com um suspiro. – Devíamos ter atacado logo que aqui chegámos, o ano passado. Lord Raglan é uma velha, não consegue tomar decisões a respeito de coisa nenhuma. Adiar só deu aos russos mais tempo para construir melhores fortificações e reunir mais abastecimentos. Agora quase não temos um único homem em condições de combater em todo o Exército. Até os novos que chegaram em janeiro já estão tão mal como os veteranos. Mas a Hope, pelo contrário, parece resplandecente! Porque será? – Pareço? – perguntou ela, surpreendida. – Sem a mais pequena dúvida. – Angus observou-a com uma expressão atenta. – Está mais cheia. Descobriu alguma fonte de boa comida que está a guardar para si? Ou será que podemos esperar um acontecimento feliz? Hope arrepiou-se toda e olhou para ele, horrorizada.


– Não será então um acontecimento feliz – continuou ele, mas ao ver que ela não falava, o sorriso morreu-lhe nos lábios. – Oh, céus, presumi demasiado! Peço desculpa, Hope, é que acabei por considerá-la quase da família. Perdoa-me? O que ele queria dizer, claro, era que um homem não devia falar de coisas como gravidez. O choque dela não fora, porém, provocado pelo comentário, e sim pela súbita compreensão de que podia estar grávida. Bennett fora muito cuidadoso sempre que faziam amor, pois seria claramente uma calamidade engravidar num lugar daqueles. Retirava-se sempre antes de derramar a sua semente, muitas vezes para desapontamento dela. Mas na véspera de Natal não o fizera. Estava uma noite tão bonita, quase amena, com uma lua cheia muito grande e brilhante. Alguns músicos das várias bandas regimentais tinham-se juntado no cais para tocar os seus instrumentos. Os gaiteiros dos Highlanders tinham descido do seu acampamento. Durante aquela noite, o cerco fora esquecido. Os russos tinham tocado e cantado dentro das muralhas de Sebastopol, os franceses tinham feito o mesmo no seu acampamento, e nem um tiro fora disparado de qualquer dos lados. Um grupo de turcos abatera e assara um boi. Houvera garrafas de vinho, de porto, de brandy e de rum em quantidade, e Hope dançara com dezenas de homens, por haver tão poucas mulheres. Tinha tomado um banho e envergado o vestido cor-de-rosa que usara na lua de mel, e Bennett ficara muito elegante no seu uniforme de gala. Hope lembrava-se de ter pensado que o cingido dólman verde dos fuzileiros lhe dava um encanto atrevido e lhe realçava a cor dos olhos. Estavam os dois um pouco tocados quando finalmente tinham ido para a cama, e a cautela fora esquecida. Naquela noite, Bennett transportara-a a lugares com os quais nunca tinha sequer sonhado. Só recordá-los fazia um frémito de prazer descer-lhe pela espinha. Por muito mágica que a noite tivesse sido, no entanto, não tinham tardado a ser atirados de volta à realidade. Janeiro fora um dos piores meses no hospital, um tempo de dor e desespero com doentes a chegarem às dezenas todos os dias. Não admirava que não conseguisse lembrar-se se naquele mês tivera ou não as regras. – Hope? Diga-me que estou perdoado. O pedido de Angus fê-la voltar ao presente. – Claro que está – apressou-se a responder. – Uma rapariga do campo como eu não tem cheliques por ouvir um homem falar dessas coisas. – Mas empalideceu um pouco – insistiu ele, preocupado. – Oh, mudemos de assunto – disse ela, com alguma irritação. – Conte-me o que tem andado a fazer. Já passou tanto tempo desde a última vez que o vi. A Nell mandou-lhe mais encomendas com comida? Angus recebera um grande bolo de frutas no Natal, do qual levara metade para ela e Bennett. Nunca nada lhe soubera tão bem, pelo menos até ter chegado outro para ela, em meados de janeiro, juntamente com boiões de fruta picada, vários géneros de conservas e luvas e xales de lã. – Penso que receberei uma um destes dias – respondeu ele, no seu habitual tom brincalhão. – Mas, claro, agora que ela a tem a si para mimar, deixei de ser tão bem tratado. Continuaram a caminhar, com Angus a comentar os melhoramentos feitos na povoação. A dada altura, as condições tinham-se tornado absolutamente execráveis, pois além da habitual barafunda, centenas de turcos tinham erguido um horroroso bairro de barracas atrás da rua principal. Os desperdícios e os animais mortos eram deixados ao abandono, e terríveis doenças grassavam no


acampamento. Além disso, não enterravam os seus mortos como devia ser, o que chegara a constituir um grave problema de saúde pública. Agora, porém, a rua principal fora limpa e macadamizada. Tinham sido construídos novos armazéns, e cabanas de madeira pré-fabricadas enviadas de Inglaterra tinham aparecido um pouco por todo o lado nas últimas semanas. Também o hospital fora ampliado com novos anexos, e havia outros em construção perto do velho forte genovês, no alto da falésia, para os convalescentes. Angus falou-lhe das suas proezas de caça na planície com alguns dos outros oficiais. À falta de raposas, caçavam os muitos cães selvagens que rondavam os acampamentos. Disse também que um dia tinham encontrado um pequeno grupo de cossacos e corrido com eles. A maneira como falava dava a impressão de que fazia parte do bando de oficiais que Bennett tanto desprezava; homens estúpidos, privilegiados, ricos e arrogantes que continuavam a viver como se ainda estivessem em Inglaterra. Mas Hope sabia que não era nenhuma dessas coisas. Conhecera mais alguns dos seus soldados no hospital e sabia que todos dariam a vida por ele, porque cuidava mais do bem-estar deles do que do seu. Chegava até a partilhar com os seus homens as encomendas que recebia de casa. Entristecia-a pensar que ele achava conveniente esconder a sua verdadeira personalidade atrás da de um fanfarrão. Separaram-se e Hope foi a casa mudar de roupa para ir para o hospital. Mas uma vez no quarto, sentou-se na cama e tentou lembrar-se de quando tinha tido a última menstruação. Lembrava-se de estar tudo normal no início de dezembro, porque fora quando se tinham mudado para ali. Mas não recordava nada de janeiro e fevereiro. Mais preocupante ainda, agora que andava à procura de provas, era aperceber-se de que Angus tivera razão ao dizer que estava mais cheia, pois as roupas não lhe ficavam tão largas como em finais do ano anterior. Até ao momento, atribuíra a mudança ao facto de comer mais por causa do frio. O padeiro entregava-lhe com frequência uma carcaça inteira, que ela devorava com um pouco da geleia de Nell. A verdade era que, ultimamente, andava sempre com fome. E depois havia a sua reação a certos cheiros! O oficial do quarto ao lado fumava charutos, um cheiro de que ela em tempos gostara mas que agora não conseguia suportar. Até os excrementos de cavalo – uma coisa com que convivera desde que se lembrava – de repente a incomodavam. A ansiedade pôs-lhe o estômago às voltas. Se tinha engravidado no Natal, isso significava que já estava com mais de dois meses! Quando se tornasse visível, enviá-la-iam para casa, e Bennett não seria autorizado a acompanhá-la. E se ele fosse morto ou ficasse doente e morresse? Que seria dela? Afastou estes pensamentos. Nell ajudá-la-ia, e o tio Abel e Alice também. Mas não queria ficar longe de Bennett. Já era bastante mau como as coisas estavam de momento, e, ao fim e ao cabo, ele estava a poucos quilómetros de distância. Quem cuidaria dele se a mandassem para casa? Pegou no pequeno espelho que Gussie lhe dera há tantos anos e posicionou-o de maneira a poder ver como estava. O ventre continuava tão liso como sempre fora, de modo que talvez não passasse de um engano. Não ia pensar mais nisso. * Enquanto março avançava a passo de caracol, Hope descobriu que não era possível continuar a ignorar o seu problema. Cada dia que passava tornava mais evidente que estava de facto grávida, e não sabia muito bem se devia encarar isto com terror ou alegria. Adorara os recém-nascidos quando


trabalhara na enfermaria da maternidade no St. Peter’s. Só pensar em ter nos braços um que fosse seu fazia-a derreter-se por dentro. Mas permanecia o facto de ser a altura errada e o lugar errado para ter um filho. Outros homens podiam não mostrar o mais pequeno interesse pelos filhos até que eles fossem capazes de andar e falar, mas Bennett era diferente. Havia de querer ser ele a fazer o parto, estar com ela do princípio ao fim. Detestaria a ideia de ter de mandá-la para casa sozinha, mas teria demasiado medo de deixar a criança nascer ali por causa das doenças. Se ela lhe dissesse que estava grávida, ele ficaria tão preocupado que isso afetaria o seu trabalho Acabou por decidir não lhe dizer nada, por enquanto. Dizia-se que no início de abril seria finalmente desencadeado um bombardeamento maciço contra Sebastopol, no qual participariam o Exército e a Marinha. Hope tinha visto grandes canhões serem descarregados, e enormes quantidades de munições. Com sorte, o cerco terminaria e eles poderiam voltar a casa. Passava o tempo a sonhar acordada com voltar a casa. Não era só rever a família ou a Inglaterra na primavera. Queria voltar à ordem natural, saber com o que contar todos os dias, pois ali era tudo desorganizado e confuso. Em finais de março, quando o tempo recomeçou a aquecer, as roupas de inverno que tinham permanecido guardadas nos armazéns durante semanas começaram enfim a ser distribuídas às tropas, e cabanas de madeira substituíram finalmente as tendas dos hospitais de campanha. Bennett contoulhe que os homens tinham ficado encantados por receberem botas, camisas, meias e ceroulas novas, mas confusos ao verem os capotes pesados e quentes de que já não precisavam. Chegaram também camas para o hospital, enxergas e até alguns lençóis. Hope teria ficado muito satisfeita com estes melhoramentos se não a tivessem de repente transferido para uma das cabanas novas nas traseiras do hospital. Quase todos os doentes que lá estavam eram estrangeiros: turcos, polacos, arménios, croatas e alguns russos, e sentiu que tinha sido mandada para ali pela mesma razão por que Bennett o fora para o regimento. Quase logo após a partida dele, reparara que alguns médicos se tinham tornado desagradáveis para com ela em pequenas coisas – não respondiam quando fazia uma pergunta, voltavam-lhe as costas quando entrava na enfermaria, chamavam um servente para os ajudar quando antes a teriam chamado a ela. Era, claro, possível que sempre se tivessem ressentido da sua presença; ao fim e ao cabo, não era uma senhora da sociedade como Miss Nightingale, ou uma vulgar mulher de soldado a que pudessem mandar fazer os trabalhos mais duros. Mas se isso era verdade, tinham-no disfarçado bem enquanto Bennett lá estivera. Parecia-lhe que ao mandarem-na para uma enfermaria onde não podia comunicar com ninguém, e onde poderia sentir-se assustada, esperavam levá-la a abandonar o hospital. Assustadora era a única palavra para descrever a nova enfermaria, pois os pacientes eram homens dos mais rudes, na sua maioria condutores de mulas ou trabalhadores manuais. A maior parte sofrera um qualquer acidente de trabalho ou tinha adoecido e, sendo civis, não podiam ser enviados para Scutari. Como não falavam inglês, o médico de serviço tinha de se fazer acompanhar por um intérprete quando fazia as suas rondas. Mas se por trás daquilo estava de facto inveja mesquinha ou preconceito contra as mulheres, Hope não fazia a mínima tenção de deixá-los ganhar a sua patética cruzada. Apesar de os hábitos imundos de alguns daqueles homens a ofenderem, e de a maior parte deles estar infestada de parasitas, não eram piores do que muitos pacientes que tivera no St. Peter’s. Desenvencilhava-se bastante bem


falando por gestos, e muitas vezes ficava até contente por não ter de fazer conversa, pois tinha muito mais a ocupar-lhe o espírito. Era uma enfermeira, e continuaria a fazer o seu trabalho até que chegasse a altura em que decidisse ir-se embora. Os doentes eram mais importantes do que um punhado de hipócritas. Bennett não ficou muito satisfeito quando viu para onde a tinham transferido, mas como só ia a Balaclava uma vez por semana com os doentes que seguiriam para Scutari e tinha de regressar no mesmo dia, não lhe sobrava tempo para investigar fosse o que fosse. Estava mais feliz, agora que tinha os seus pacientes em cabanas de madeira, e mais otimista a respeito de conseguir lidar com os surtos de escorbuto porque tinha conseguido um fornecimento de sumo de lima. A cólera voltara a surgir, mas estava convencido de que com a melhoria do tempo e das rações, também a saúde geral das tropas melhoraria. Uma tarde, quando se preparava para regressar aos cumes num cavalo emprestado, Hope perguntou-lhe se podia ir também. Tinham visto escadas de assalto e ganchos de abordagem serem descarregados de um navio nessa tarde, pelo que parecia evidente que, além do planeado bombardeamento, haveria também uma tentativa de assalto às fortificações de Sebastopol. Hope não tentou argumentar nem pedir, limitou-se a fazer notar que seria muito mais útil num hospital de campanha do que ali. – Não posso concordar – disse ele, pegando-lhe numa madeixa de cabelo e enrolando-a à volta do dedo. – Vai ser demasiado perigoso, quando começar. A doçura do tom e a maneira como olhava para ela eram prova de que vacilava. Talvez não tivesse assim tanta certeza de que ela estava a salvo ali, nem numa enfermaria cheia de rudes estrangeiros. Por um instante, Hope sentiu-se tentada a suplicar, a dizer-lhe como se sentia só e isolada, como os dois serventes da sua enfermaria eram homens sombrios, que não conseguia dialogar com os pacientes e que tinha a sensação de estar a ser vitimizada, tal como ele. Mas deteve-se a tempo. Se começasse a dizer-lhe uma parte, o resto seguir-se-ia inevitavelmente, e quando ele soubesse do bebé, nunca mais teria um instante de paz de espírito. O bombardeamento significaria muitos feridos, e ele ia precisar de estar concentrado no seu trabalho. Não era justo sobrecarregá-lo com outras preocupações. – Tens razão, claro – disse, a aparentar mais coragem do que sentia. – Devo continuar aqui. É só porque tenho tantas saudades tuas. Ele abraçou-a, apertando-a com tanta força que ela mal conseguia respirar. – Também eu tenho saudades tuas, minha querida, mas não será por muito mais tempo. Com o poder de fogo de que dispomos agora, Sebastopol não tem hipóteses.

A 8 de abril, Hope estava a lavar o ferimento de um operário croata. O homem cortara a mão a descarregar um navio e só procurara ajuda quando a ferida infetara de tal modo que a mão tivera de ser amputada. Sentiu o paciente ficar rígido e olhar para a porta, e quando se voltou para ver quem era, descobriu que era Angus. – Dê-me só um momento – disse ela. Ele ignorou o pedido e aproximou-se. – Está aqui sozinha? – perguntou, com uma expressão de extrema preocupação nos olhos escuros. – Sim, por enquanto – respondeu ela. – Os serventes foram buscar as rações.


Angus ficou a vê-la lavar o coto ensanguentado em silêncio; então, quando ela começou a fazer o penso, aproximou-se mais e disse qualquer coisa ao homem, presumivelmente na sua língua nativa, que lhe provocou uma expressão de medo. – O que foi que lhe disse? – perguntou Hope. – E como é que sabe falar croata? – Sei algumas frases úteis em muitas línguas diferentes – respondeu ele, com um seco sorriso. – Esta foi um aviso: se alguém a incomodar, terá de se haver comigo. – Não era necessário – protestou ela, indignada. – É sempre necessário avisar os homens quando uma mulher bonita parece estar sozinha. De quem foi a ideia de a mandar para esta enfermaria, Hope? E porquê? Hope encolheu os ombros. O rosto dele escureceu. – Não admira que os jornais ingleses estejam cheios de histórias de caos e de má gestão nesta guerra! Qualquer servente bastaria para cuidar destes homens. A Hope devia estar onde é importante. – Estes homens também são importantes – replicou ela, severa. – Na minha opinião deviam estar na fila para serem tratados, atrás dos nossos – declarou ele, sombrio. – Mas não foi para o bem deles que a mandaram para cá. O cretino que tomou a decisão, seja ele quem for, fê-lo por maldade. – Pode ser que tenha razão. – O tom dela foi seco. Estava muito consciente dos vinte e cinco pares de olhos que os observavam atentamente, e esperava que nenhum daqueles homens fizesse ideia do que estavam a dizer. – Mas agora estou aqui, e farei o melhor possível até que o Bennett me deixe ir juntar a ele no cerco. – Não pode ir para lá! Nunca! – exclamou ele com uma expressão alarmada. – O baile começa amanhã. Hope riu da maneira como ele descrevia o bombardeamento. – Não estava a planear ir ao baile. Pensei que poderia ajudar a fazer a limpeza. – Fique aqui em Balaclava – decretou ele, perentório, a reforçar a ordem de dedo esticado. – A Nell matava-me se lhe acontecesse alguma coisa! * O bombardeamento começou, como estava planeado, na manhã seguinte. Estava um dia chuvoso e triste, que o conhecimento de que em breve os feridos começariam a chegar tornava ainda mais deprimente. Hope, relegada para as traseiras do hospital, ouvia as detonações, silvos e explosões com um receio crescente, a desejar ter alguém com quem partilhar a sua preocupação por Bennett.

Dia e noite, dia após dia, o bombardeamento prosseguiu, implacável. Todos os dias era feita uma trégua de duas horas, para permitir que os mortos fossem recolhidos e enterrados, mas de acordo com os feridos que chegavam ao hospital, Sebastopol continuava incólume. Correu o rumor, confirmado dois dias mais tarde, de que o general russo, o príncipe Menshikov, tinha morrido, e todos se convenceram de que isto ia pôr fim à guerra. Mas os russos continuaram a disparar os seus canhões, os feridos continuaram a chegar, e começou a falar-se de um assalto em grande escala contra a cidade. A convicção geral era que se os obuses por si só não conseguiam


submeter Sebastopol, o trabalho teria de ser feito com baionetas. Hope estremecia só de pensar nisso, porque o combate corpo a corpo significaria uma carnificina ainda maior. Entretanto os jornais ingleses diziam-lhe que Lord Cardigan regressara a casa e fora recebido como um herói. Mal queria acreditar no que lia: que o retrato dele estava em todas as montras, a sua biografia em todos os jornais. Até tinham copiado o seu casaco de lã, a que chamavam «cardigan». Aquele era o homem que vivera num iate enquanto os seus homens tiritavam em tendas e os cavalos não tinham qualquer espécie de abrigo. Quando os cavalos estavam a morrer de fome e a Intendência lhe dissera que não havia transportes para lhes levar a forragem e que tinha de arranjar maneira de ir ele próprio buscá-la ou levar os animais para a planície para que pastassem, Cardigan recusara fazer qualquer das coisas. Insistira teimosamente em manter os seus homens e respetivas montadas prontos para repelir um ataque russo. Os soldados tinham tido de ver os cavalos tentarem comer as correias das cabeçadas e as caudas uns dos outros enterrados na lama até aos curvilhões enquanto o vento lhes fustigava os corpos esqueléticos. Não podiam sequer matá-los para lhes acabar com o sofrimento, pois Cardigan ordenara que só seriam permitidos abates em caso de ossos partidos. Por vezes, os animais demoravam três dias a morrer, a agonizar caídos no chão, porque ninguém ousava desafiar as ordens de Cardigan e arriscar o chicote. E no entanto as pessoas em Inglaterra pensavam que aquele cretino pomposo, cruel e egocêntrico era um herói. Hope sabia que os verdadeiros heróis daquela guerra ainda ali estavam, infestados de piolhos, magros e exaustos, a combater nas trincheiras ou estendidos na vasta enfermaria do hospital de Scutari com membros a menos.

À medida que os dias passavam, via que os médicos da enfermaria principal estavam a atingir o ponto de rutura face à avalancha de feridos, e a sua frustração crescia. Como Angus fizera notar, os serventes poderiam sem problema cuidar dos homens da sua enfermaria, mas por mais que tentasse não conseguia autorização para os deixar e ir ajudar onde fazia falta. E o pior era não ter modo de descobrir quem era que estava tão determinado a mantê-la afastada. Via nas caras dos médicos esgotados que queriam a sua ajuda, mas, sem exceção, todos afirmavam que tinham recebido ordens no sentido de que só pessoal militar podia trabalhar nas enfermarias dos combatentes. Num dia do início de maio, Hope tinha chegado à sua enfermaria às seis da manhã e às oito já fizera tudo o que tinha para fazer. As visitas regulares dos médicos eram uma coisa do passado, agora que reinava no hospital uma atividade frenética, mas tendo descoberto um paciente, um polaco, com um ferimento infetado, foi à procura de um médico, deixando os serventes a distribuir as papas do pequeno-almoço. Quando entrou no hospital principal, deparou-se-lhe uma cena que lhe recordou o seu primeiro dia em Balaclava. Era o caos total: houvera claramente um enorme afluxo de feridos ao mesmo tempo. Os homens transportados em macas tinham sido pousados no chão porque já não havia camas para eles, todos os pensos que viu estavam ensanguentados, homens vomitavam no chão, outros contorciam-se e gritavam com dores. Quase todos tinham os rostos enegrecidos pela pólvora. Quatro cirurgiões trabalhavam afanosamente na pequena sala contígua à enfermaria principal, a remover balas e estilhaços e a amputar membros, enquanto os ajudantes ministravam clorofórmio.


Mas era evidente que a maior parte dos serventes não fazia ideia do que devia fazer. Hope hesitou um ou dois segundos. Sabia que obedecer a ordens se sobrepunha a tudo no Exército, mesmo quando essas ordens chegavam ao ponto da loucura, como acontecera no caso da fatídica carga da Brigada de Cavalaria Ligeira. Mas considerando que era na realidade uma voluntária, pareceu-lhe que ninguém tinha o direito de lhe dizer o que podia ou não podia fazer. Inspirou fundo e assumiu o comando. Começou por ordenar aos serventes que transferissem os homens que tinham sido admitidos alguns dias antes e já tinham sido operados para uma das enfermarias menos sobrelotadas. Em seguida, mandou deitar os feridos recém-chegados nas camas disponíveis, libertando a maior parte do espaço no chão. Enquanto um servente limpava a porcaria, ordenou aos outros que dessem água aos feridos, lhes despissem os uniformes sujos e os lavassem. – Talvez não possamos tirar-lhes as dores – explicou. – Mas lavando-os e dando-lhes um pouco mais de conforto estamos a garantir-lhes que em breve serão vistos por um médico e que nos preocupamos com eles. Os médicos passaram por ela toda a manhã, a maior parte reconhecendo a sua presença com um aceno de cabeça ou uma breve saudação, mas também houve muitos sorrisos calorosos e agradecidos. Hope continuou a lavar feridos, a dar-lhes de beber, a ajudá-los quando vomitavam. Quando os pacientes voltavam da mesa de operações, ia vê-los com regularidade, oferecendo arrastadeiras e garrafas de água. Às duas da tarde estava de novo tudo sob controlo, e depois de deixar algumas instruções aos serventes, Hope voltou à sua enfermaria. Quando abriu a porta sentiu o coração cair-lhe aos pés, pois o cirurgião Truscott estava a examinar o homem para o qual ela tinha ido procurar ajuda naquela manhã. O médico voltou-se e lançou-lhe um olhar furioso. – Onde esteve metida? Truscott chegara a Balaclava semanas depois da instalação do hospital-base e por isso não se habituara a vê-la ajudar os feridos em Varna, como era o caso de muitos outros médicos. Hope sempre soubera que ele não aprovava a presença de mulheres em hospitais de regimentos; no passado fizera várias vezes comentários depreciativos a seu respeito. Com cerca de sessenta anos, era um homem grande e autoritário, de bigode retorcido, convencido de que a extensão de cuidados médicos ministrados nos tempos da Guerra Peninsular era perfeitamente adequada àquela. Bennett considerava-o um cirurgião competente, mas muito ultrapassado nos aspetos técnicos. Nos últimos meses, raras vezes fora visto no hospital; segundo os rumores, preferia passear a