Page 1

Ensaio - Entrevista a Dinis Costa

14

Entrevista a Dinis Costa


15

Ensaio - Entrevista a Dinis Costa

Dinis Costa, realizador da curta-metragem “Ensaio”, a primeira a ser exibida isoladamente (sem ser acompanhada por uma longa-metragem), conversou com a Metropolis sobre esta obra, cuja estreia mundial aconteceu no Short Film Corner 2012, em Cannes.

Como descreveria este “Ensaio”? O “Ensaio” situa-se algures entre o desejo da realidade se assumir num acto consolidado com o indivíduo e o imaginário remoto daqueles que ousam toldar a realidade sobre a mentira. Numa meia-verdade bizarra e descontrolada, decidi pôr em causa os artefactos cénicos do Cinema, apresentando três actores a interpretar três actores perdidos entre a definição dos seus egos, e a supra-definição das suas personagens. Descrevo o “Ensaio” como um filme atípico sobre a ambivalência da ficção do ponto de vista do actor, assumindo-se como um filme dentro de um outro filme à procura de uma identidade inatingível. É uma obra com fragilidades, mas estas são determinadas pelo próprio Ensaio, pois ele mesmo se coloca em causa ininterruptamente... O que vemos é real? Ou é encenado? Por vezes é uma encenação da realidade, e outras é a realidade que parece encenada. Nunca sabemos ao certo dentro deste estúdio de Cinema onde João (Miguel Nunes), Rita (Cátia Tomé) e Marco (Nuno Gil) lutam por desvendar quem realmente se encontra por detrás dos papéis interpretados. Aqui cria-se um cerco viciado de palavras e de actos, onde tento criar uma claustrofobia narrativa, que gira em torno de si mesma – o olhar da câmara fractura-se no tempo à procura de um significado oculto. A ausência de respostas e a materialização das sombras fascinam-me especialmente nestes contos enredados – a presença da dúvida e o desconforto dos efeitos sem causas. Quais foram as maiores dificuldades na realização desta obra? Penso que a maior dificuldade na

realização do “Ensaio” foi encontrada no instante seguinte à escrita do argumento. Tinha entre mãos um projecto estranho, difícil de explicar, indeterminado... mas com ideias muito concretas. No entanto estas ideias não são fáceis de transpôr para os restantes elementos da equipa, e por vezes nos próprios dias de filmagens não sabíamos bem com que filme estávamos a lidar. Houve um trabalho demorado com os actores, especialmente com o Miguel Nunes, para definir uma personagem indefinível (o João). Trabalhar a ambiguidade e o tom de um filme sem um género preciso e sem referências directas é complicado... Fazer filmes sem dinheiro não é propriamente uma dificuldade para mim, sei com o que posso contar no instante em que estou a escrever o argumento, e reduzo as minhas ideias ao praticável. Não me sinto limitado, ter três personagens e três décors já me dá espaço para me delongar na criação das minhas obras. Sou obrigado a explorar ao máximo os elementos com que trabalho, e isso agrada-me. Lisboa é o palco para “Ensaio”. Porquê a escolha desta cidade? A Lisboa do “Ensaio” é o palco representativo de uma cidade que só existe no imaginário do filme. Existe uma pretensão romântica, derrotista e irrisória de uma cidade fantasma “empurrada para além da morte”. A ideia é reaver o cunho poético da cidade de Lisboa e colocá-lo do avesso para entregar esta faceta libertina feita de trovadores corrompidos pela modernização desesperante e sem futuro de uma geração por vir. Por norma, as curtas estreiam juntamente com


Ensaio - Entrevista a Dinis Costa

16

uma longa. Por que desta vez tal não acontece e quais serão, no seu entendimento, as possíveis vantagens? Eu pessoalmente não gosto de ir ver uma longametragem e ter que aguentar com 15minutos de uma curtametragem que desconheço, ou que simplesmente não quero ver... Da mesma forma que não me desloco ao cinema para ver uma curtametragem antes de uma longa-metragem. Não há plataforma para a exibição de curtas-metragens, a não ser a dos festivais de cinema que são uma entidade à parte do circuito comercial. Aqui as pessoas estão a pagar porque querem ver o “Ensaio” no Cinema, com um preço reduzido obviamente, e propôe uma reavaliação das obras de curta duração, contornando a pouca visibilidade comumente entregue a estes filmes. A curta estreiou mundialmente no Short Film Corner 2012, em Cannes. Como correu esta estreia? O Short Film Corner é uma espécie de mercado de curtas-metragens que ocorre no Festival de Cannes. Esta plataforma permitiu que o filme fosse exibido a compradores e distribuidores de todo o mundo, alargando as nossas possibilidades no mercado internacional. O Short Film Corner assegurou a distribuição digital

(que acontecerá no próximo ano), e deu a conhecer o nosso trabalho a outros produtores que nos aconselharam na projecção futura do filme. Foi uma experiência bastante proveitosa. Quais são as expectativas para a receptividade de “Ensaio” em Portugal? O “Ensaio” já está há uma semana em exibição em exclusivo no Cinema City Classic Alvalade. A resposta está a ser positiva, principalmente se tivermos em conta o risco da colocação de uma curta-metragem portuguesa no cinema desvinculada a uma longa-metragem. É uma obra de 25 minutos, com pretensões de obra de longa duração, e isso sente-se no enredo do “Ensaio” e justifica a sua valorização individualizada. Como vê o panorama actual do cinema português? Nem que seja para contrariar... vejo-o com positivismo e sem grandes receios. Não vou aguardar a resolução de problemas. Nunca obtive financiamento para fazer cinema no meu país, como tal não devo propriamente nada ao actual estado das coisas, nem uma opinião construtiva. Há boas ideias por concretizar e formas de contornar as presentes adversidades. Tatiana Henriques

Profile for Tatiana Henriques

Entrevista a Dinis Costa  

Artigo na revista Metropolis

Entrevista a Dinis Costa  

Artigo na revista Metropolis