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PERSPECTIVA

Sumário

# 10 | Abril 2008

Reportagem 6 A Latitude do Olhar - São Tomé - Equador 18 Moda

Indústria do Têxtil e Vestuário: Uma dimensão ignorada Moda Lisboa | Portugal Fashion | Citex: Escola de referência na formação de Designer de Moda

Opinião 32 Isabel do Carmo - Crise? Ou aprofundamento das desigualdades? 64 Padre Maia - Nuvens no Horizonte

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GRANDE ENTREVISTA

António-Pedro Vasconcelos

“Deseja tudo, espera pouco, não peças nada!” O homem a quem fascinam duas coisas na vida: não resistir às tentações... e resistir às tentações.

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DIPLOMACIA & COMÉRCIO

As relações bilaterais entre Portugal e Espanha vistas por quem nelas participam.

QREN 34 Programa Operacional Temático da Valorização do Território 36 Instituto Financeiro para o Desenvolvimento Regional CRÓNICA 38 Será que o povo ainda existe? 61 Má Educação? E-MARKETING 39 O Próximo Google? Não! Muito, muito maior… 41 Platinum Systems 42 5 boas razões e 1 má razão para estar no top dos motores de busca 44 IAB Portugal: Uma realidade digital bem real TECNOLOGIA BIOMÉTRICA 43 Biometria, a segurança do futuro NOVAS TECNOLOGIAS 46 Portugal presente no Cebit 2008 47 Comunicações unificadas: A solução! SAÚDE 48 XXIX Congresso de Cardiologia TURISMO 50 Bernardo Trindade, secretário de Estado do Turismo, revela a estratégia para o progresso

52 Douro como destino de excelência 56 Hotel Rural Convento dos Capuchos 60 Casa Guida Rêgo

DOSSIÊS

Cidades e Mobilidade | Gestão Empresarial

PRODUTOS REGIONAIS 58 Quinta dos Ingleses: A Qualidade da Tradição 59 Quinta da Aveleda: O respeito pela Tradição Cultura - Cinema 62 Um mês de Fantasia

Propriedade: Escala de Ideias – Edições e Publicações, Lda - R. D. João I, 109, RC - 4450-164 Matosinhos NIF 507 996 429 Tel. 229 399 120 - Fax 229 399 128 | www.escaladeideias.pt | geral@escaladeideias.pt Directora-Geral: Alice Sousa - asousa@revistaperspectiva.info Director Editorial: Pedro Laranjeira - laranjeira@revistaperspectiva.info Redacção: Leandro Santos - lsantos@revistaperspectiva.info | Colaboraram neste número: Luísa Barros, Luís António Patraquim, Jorge Castro, Paulo Proença de Moura, Pedro Mota | Opinião: Isabel do Carmo, José Maia | Fotografia: César Soares Director de Marketing e Projectos Especiais: Luís Ribeiro - lribeiro@revistaperspectiva.info Design e Produção Gráfica: Teresa Bento - tbento@revistaperspectiva.info Webmaster: Pedro Abreu - webmaster@revistaperspectiva.info | Edição: Alice Sousa | Contactos: Redacção: 229 399 120 - redaccao@revistaperspectiva.info | Departamento Comercial: 229 399 120 - publicidade@revistaperspectiva. info Tiragem: 70.000 exemplares | Periodicidade: Mensal | Distribuição: Gratuita, com o jornal “Público” | Impressão: COBRHI – Arvato Madrid | Depósito Legal: 257120/07 Internet: www.revistaperspectiva.info Interdita a reprodução, mesmo parcial, de textos, fotografias ou ilustrações sob quaisquer meios, e para quaisquer fins, inclusive comerciais.

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NOTÍCIAS PORTUGAL Numismática Novas moedas, novos valores O governo autorizou, em Conselho de Ministros de 20 de Março de 2008, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A. a cunhar, no âmbito do plano numismático para 2008, cinco moedas de colecção comemorativas alusivas ao Centro Histórico do Porto, ao Alto Douro Vinhateiro, à luta contra a indiferença, aos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 e ao fado, na pessoa de Amália Rodrigues, figura emblemática da cultura portuguesa. A moeda intitulada “Contra a Indiferença”, inicia uma nova série sob o lema “Uma Moeda Uma Causa”, iniciativa que visa associar a numismática à luta pela afirmação de valores de solidariedade social. LB k

Nomeações.... :: O governo nomeou, para um mandato de três anos, Francisco José Cardoso dos Reis para o cargo de presidente do Conselho de Gerência da CP, Caminhos de Ferro Portugueses, E.P. :: Manuel Ramos de Sousa Sebastião é o novo presidente do Conselho da Autoridade da Concorrência. Para os cargos de vogal foram nomeados Jaime Serrão Andrez e João Espírito Santo Noronha. :: Vítor Santos é o novo presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), substituindo Jorge Vasconcelos, que ocupou o cargo durante 10 anos. :: Luís Filipe Costa, que dirigia a empresa de capital de risco Inovcapital, é o novo presidente do IAPMEI.

Filatelia Problema de infertilidade reflectido em selos Os CTT estão a lançar a terceira emissão filatélica 2008, desta vez dedicada ao tema da infertilidade. Concebido originalmente  por Sandra Manuel e com desenho gráfico de João Machado, este selo é a primeira estampilha postal da história dos Correios portugueses idealizada por um cidadão habitualmente não ligado à actividade filatélica. Com o valor facial de 30 cêntimos, o selo terá uma tiragem de 280 mil exemplares. LB k

Bolseiros Portugal entre os países que paga melhor aos Bolseiros Um “Estudo Comparativo de Bolsas de Doutoramento e Pós-Doutoramento”, elaborado a pedido da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) pela empresa Deloitte, revela que as bolsas de doutoramento e pós-doutoramento atribuídas pela Fundação têm um valor superior à média dos montantes concedidos pelas instituições congéneres na Europa e no Canadá. Este estudo incidiu sobre as características e montantes concedidos por parte das instituições congéneres na Europa e na América, num total de 17 instituições, distribuídas por 14 países. Os valores considerados neste relatório compreendem a soma entre o subsídio anual pago aos bolseiros e os subsídios complementares. O conjunto de dados analisado, que permitiu elaborar o perfil de cada uma das entidades, foi validado pelos respectivos países. LB k

Turismo Portugal ocupa 15° posto na competitividade do turismo Numa lista de 130 países avaliados no Relatório de Competitividade do sector do Turismo e Viagens de 2008, divulgado pelo Fórum Económico Mundial (FEM), Portugal ocupa o 15º lugar, tendo subido sete posições. Ao nível da qualidade dos "Recursos Humanos, culturais e naturais", Portugal destaca-se na 11.ª posição - 30.ª no ano passado —, ultrapassando a França e a Itália. No que diz respeito ao sub-índice "Estrutura Reguladora", Portugal está em 14.° lugar, em "Ambiente empresarial e infra-estruturas" manteve a posição do ano anterior - 22.ª -, e no pilar "Infra-estruturas turísticas" ocupa o 13.° lugar. Em 2007, no índice de competitividade do FEM, Portugal ocupou o 22.° lugar, num universo de 124 países analisados. LB k

Tratado de Lisboa Governo lança website informativo O Ministério dos Negócios Estrangeiros lançou, com a colaboração da Representação da Comissão Europeia e do Gabinete do Parlamento Europeu, uma campanha de informação sobre o Tratado de Lisboa, assinado pelos 27 Chefes de Estado e de governo durante a Presidência portuguesa do Conselho da UE. Além da criação do website www.tratadolisboa.eu sob o tema “Saiba Mais sobre o Tratado de Lisboa”, está também prevista a realização de sessões de informação, seminários e debates, de acesso livre, por todo o país. O objectivo é informar o cidadão sobre o Tratado de Lisboa que deverá ser ratificado por via parlamentar. LB k 4

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REPORTAGEM

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REPORTAGEM

A Latitude do Olhar

São Tomé - Equador Equador, zona de calmarias, a vida aqui é lenta, pausada…Dá-se tempo ao tempo… a vida corre de acordo com a expressão local, corre: leve!...leve!... Por Pedro Mota

Perto da localidade de Diogo Vaz, na costa ocidental de São Tomé, o Sol começava a descer, lentamente, alongando as sombras. Um velho olhava-me...os seus olhos, brilhantes como tições, fulgiam por entre as baforadas de fumo azul que puxava, insistentemente, do seu requeimado cachimbo. O velho disse-me: “Anda ver!...”, dirigiu-se vagarosamente para a praia, sentou-se num cepo e ficou a olhar para o mar, esperando… Eu interrogava-me sobre o que pretendia mostrar-me. Sentado a seu lado, remexia-me inquieto, sem saber o que olhar. Só se ouvia o compassado puxar do seu cachimbo, quase em sintonia perfeita com o leve marulhar do mar. Varados na areia a curta distância, descansavam da faina, várias embarcações, deviam ter regressado há bem pouco, pois ainda escorria água dos aprestos e artes de pesca.

Foi então que a poesia aconteceu…

mas dessa poesia lenta…sem pressas, de São Tomé. O sol descia ganhando laivos de carmim, incendiando o ar. As redes que secavam estendidas sobre as canoas escorriam uma fina película de água. De repente, toda a rede ganhou vida, numa explosão de cor irisada, parecia um arco-íris tridimensional. O milagre durou um breve momento, depois feneceu…mas este breve instante irá durar toda a minha vida. É verdade que há momentos eternos!

Aqui, o imaginário é exuberante como as suas florestas e com uma diversidade a afinar pelo mesmo diapasão. Basta levantar uma pedra para encontrar uma história. A simpatia das suas gentes de olho alumbrado convida-nos a ficar a conversar na soleira de uma porta. Estava entorpecido pela mornaça tropical. Por fim amainou a torreira do Sol. Mais um dia findava e os caranguejos de terra começavam a sair das suas tocas nas raízes das palmeiras, mas ainda sentia o corpo elanguescido pelo calor húmido. Esquecido das horas dos relógios, fiquei mais um pouco ouvindo contos tradicionais santomenses no jeito respeitador e tímido que é tão característico deste povo insular. Na nossa frente, abria-se a larga baía como um cartão postal, debruada com alguns renques de estáticos palmares. Ao fundo, contra o anil do mar, passava uma gente atarefada nos seus afazeres quotidianos, uma gente linda como estátuas de ébano.

Iniciei um périplo pela ilha, pernoitando

nas escalavradas casas senhoriais das roças. A selva a invadir as antigas roças arruinadas, lançando as suas lianas tenteantes, aliada à pacatez e ao soturno silêncio, levantava uma aura de mistério. Nas velhas casas das roças, os passos ainda ressoam com ecos de outros tempos, tempos em que o cacau era o ouro da região. Quase que ainda se podia ouvir o ranger dos grilhões de inúmeros escravos estoirados e o ABRIL 2008

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REPORTAGEM acerado zumbir dos chicotes. O chocolate que se comia na Europa naquele tempo era amassado com suor e sangue. Ainda hoje, seria bom que houvesse um cadastro da forma como os produtos são manufacturados, principalmente nos países de mão-de-obra barata, para onde se deslocam muitas multinacionais de grande porte em busca de interpretações mais difusas dos direitos humanos. Os produtos comerciais, são certificados de forma a obedecerem a regulamentações de qualidade, higiene, composição, etc. Para quando, a certificação da qualidade humana na sua produção, a certificação de direitos humanos associada aos processos de fabrico. O que me garante que o bem que estou a consumir, não assenta no sofrimento de alguém. Se vier a existir esse controle ao nível da ética laboral, serão com certeza, muitos os consumidores a olhar para a etiqueta!

Antes de terminar a viagem ainda me estava destinada uma verdadeira pérola. Foi em Angolares… já sabia que aqui se

costumava pescar o grande espadarte, como é feito noutras paragens, usando uma bola de corda desfiada envolta em anzóis e isco. Ao ser engolida pelo enorme peixe, fica presa na garganta, acabando por sufocar por entre estertores e convulsões da asfixia. É uma verdadeira luta de titãs, principalmente a parte final, quando o animal enlouquecido pelas vascas da agonia, se contorce e atira ao ar, fazendo ferver num torvelinho, a água em torno da embarcação.

Consegui ser aceite por um velho pescador franzino e mirrado que se fazia ao mar para pescar. Ajudei a colocar a palamenta na canoa de tronco escavado. A esguia embarcação deslizava pelo imenso espelho d’água que reflectia as constelações até à longínqua linha de simetria do horizonte. O velho seco mas nodoso, manobrava a vela como se fora um instrumento musical, só se ouvia o leve marulhar da canoa a sulcar a superfície lisa do oceano. Quando o dia aclarou, vários peixes voadores cruzavam os ares com breves lampejos prateados. Navegávamos em direcção ao mar aberto. Calado, o velho dava indicações em gestos curtos e precisos. Velejávamos em harmonia perfeita com vento e vaga, qual dança ensaiada…

Que sorte assombrosa! Não é que aquele velho apanhou mesmo um grande espadarte! Dentro do barco, assistimos a uma odisseia de contornos épicos, um confronto de vontades de uma verve inaudita. Vivemos, ao vivo e a cores, uma repetição do célebre romance “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway. Parecia que estávamos dentro do livro, mas com efeitos especiais bastante realistas e catadupas de água. Quando nos despedimos na praia, pensava que o ia ouvir pela primeira vez, mas nada… Tinha aceite a minha companhia, com um breve aceno de cabeça. Quando fazia asneira a bordo, só um leve menear acompanhado dum riso de mofa…na despedida um firme aperto de mão. Fiquei especado na praia, enquanto ele se dirigia para o seu barraco à beira-mar. De súbito parou como se tivesse esquecido alguma coisa, voltou atrás no seu passo vagaroso, deu-me um abraço…dirigindo-se de novo para o barraco, mudo e calado. k 8

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GRANDE ENTREVISTA

António-Pedro Vasconcelos, 69 anos, cineasta, escritor, comentador desportivo, jornalista, professor. Fez o primeiro filme em 1968, o último em 2007. Deu corpo ao chamado "Cinema Novo Português" com o filme "Perdido por Cem" (1973). Assinou alguns dos maiores êxitos do cinema nacional, com "O Lugar do Morto" (1984), "Jaime" (1999), "Os Imortais" (2003) e "Call Girl" (2007). "Jaime" valeu-lhe a "Concha de Prata" do Festival Internacional de San Sebastian e os "Globos de Ouro" para o "Melhor Filme" e "Melhor Realizador", em Portugal. No cinema, trabalhou já como produtor, argumentista, montador, actor e realizador. Fez jornalismo para a "Visão", foi Chefe de Redacção do "Cinéfilo", Provedor do Leitor do "Rekord" e Director da "Semana" (suplemento do Independente). Escreveu "Interesse Público, Interesses Privados" (2002), presidiu ao Conselho de Opinião da RTP, à Associação Portuguesa de Realizadores e ao Secretariado Nacional do Audiovisual. Representou Portugal no estrangeiro, colaborou com o governo e com a União Europeia ("Livro Verde para a Política do Cinema e Audiovisual"), fez conferências e participou em congressos, aquém e alémfronteiras. Leccionou na Escola de Cinema do Conservatório Nacional e é professor da Universidade Moderna. Foi ordenado Cavaleiro pela Ordem do Infante D. Henrique.

António-Pedro Vasconcelos

"Deseja tudo, espera pouco, não peças nada!" …o homem a quem fascinam duas coisas na vida: não resistir às tentações… e resistir às tentações… Uma conversa com Pedro Laranjeira, fotografada por César Soares

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GRANDE ENTREVISTA António-Pedro, costumas dizer que és "um outsider do cinema"… isso significa que não se consegue viver exclusivamente de cinema, em Portugal? Eu não, não consigo. Para viver de cinema tinha que realizar filmes com alguma regularidade. Era necessário um mercado com vitalidade. Há vinte anos que tenho vindo a denunciar que em Portugal nunca os libertamos da tutela do estado, vivemos de subsídios, que são o único financiamento para a maioria dos realizadores. Mesmo para aqueles que tentam alargar um pouco o âmbito do financiamento, com uma visão que lhes permita angariar algum dinheiro fora, o subsídio continua a ser a alavanca vital. É impossível fazer um filme por menos de um milhão de euros Dir-me-ão, mas porque não ir buscar dinheiro aos privados? Simples, Portugal é um país muito pobre, muito pequeno, com um mercado de cinema muito escasso. Qualquer filme tem que lutar contra o cinema americano. O filme é uma coisa cara, é impossível fazê-lo com um mínimo de qualidade por menos de um milhão de euros… O "Call Girl" custou um milhão e trezentos e cinquenta mil - donde veio o dinheiro? 650 mil do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) e o resto lá se conseguiu arranjar, através de um subsídio automático do produtor sobre filmes anteriores, a TVI investiu no filme, o próprio produtor arriscou 200 mil euros, houve uma cooperação com o Brasil, a Lusomundo avançou também algum dinheiro … mas tudo isso são verbas depois retiradas às receitas. Um filme, em Portugal, dificilmente se paga no mercado - e fora do país o cinema português é completamente desconhecido. Alguns passam em Festivais, mas isso não é trampolim para o mercado.

exemplo. É débil, e foi ainda mais debilitado pela forma de intervenção do estado, que é perniciosa. Funciona como um eucalipto: os filmes subsidiados em nome daquilo a que eu chamo uma política do gosto", com critérios estéticos pré-estabelecidos, fez com que o público se afastasse do cinema. Hoje em dia o cinema português não tem credibilidade que justifique o investimento privado. "Política do gosto” é uma aberração Eu defendo que o estado deve intervir, porque é importante que as pessoas vejam cinema na sua língua, mas discordo totalmente da sua forma de intervenção. A "política do gosto" é uma aberração. São cinco iluminados que decidem quem é que merece o subsídio, em que não tens que dar contas dos resultados financeiros nem dos artísticos: podes fazer um filme que tem cem espectadores e no dia seguinte tens outro subsídio e podes fazer um filme que tem duzentos mil e a seguir és chumbado… E depois dá-se esta perversão: tens filmes que foram subsidiados por decisão de críticos, que depois se vêm obrigados a dizer que o filme é bom mesmo quando é mau. Não te vou dar exemplos, mas se vires os filmes que foram subsidiados,

verás que há sempre pelo menos um crítico que estava no júri e esse crítico normalmente tem uma voz muito mais activa que os outros. É um sistema completamente perverso! Mudar de vida ou mudar de País... Se houvesse uma indústria, eu teria condições para filmar com alguma regularidade e sujeitava-me aos resultados da bilheteira. Os filmes que tenho feito têm tido bom acolhimento. Se amanhã deixassem de ter algum impacto junto do público, eu teria que mudar de vida ou mudar de país… Podes perguntar-me porque não o fiz? Porque gosto de uma coisa e doutra: gosto do cinema e gosto de Portugal, tenho alguma dificuldade em abdicar. Sou um realizador bissexto Apesar de tudo, consigo fazer filmes de quatro em quatro anos, é por isso que digo que sou um realizador bissexto… De cada vez que estou para desistir, lá consigo fazer um filme. Sempre quis foi que o cinema fosse a minha profissão. Sou mais pela ideia da profissão do que pela ideia do "artista". Tenho alguma desconfiança das pessoas que se auto-denominam artistas ou mesmo que falam no cinema como uma arte. Acho que há nisso uma pretensão enorme. O meu ofício é contar histórias

Intervenção do Estado é perniciosa O cinema português não tem potencial comercial, como o espanhol, por ABRIL 2008

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GRANDE ENTREVISTA

através de imagens e de sons e serão o público e a posteridade a decidir se os filmes têm algumas condições para ficar na memória das pessoas. A Politização matou o cinema europeu O cinema tem acompanhado os movimentos ideológicos, por exemplo: depois de Maio de 68, em França, surgiu um "cinema militante", que queria "a rotura ideológica com o cinema burguês" ou "o uso da câmara como arma política". Isso teve alguma repercussão em Portugal? Teve e eu acho que foi trágico para o cinema. A politização do realizador transformado numa espécie de "Che Guevara" foi desastrosa, matou completamente o cinema europeu. Os resultados estão à vista: o cinema europeu tinha 65% do mercado, hoje tem 20. Não tínhamos nada que combater o gigante americano pelo método de guerrilha… tínhamos que conviver com ele. O trágico é que o 25 de Abril surge numa altura em que o cinema europeu faz a inflexão e passa a defender o cinema politizado. A meu ver, isso fez com que o cinema português se dividisse entre um cinema militante, que tem um futuro efémero, e um enorme autismo, um cinema virado para o umbigo. Está de costas para o 12

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público e não tem nenhum impacto, não reflecte a sociedade nem reflecte sobre a sociedade. O Estado tem uma visão “Ecológica do cinema” É excessivamente protegido. O estado, seja PS ou PSD, tem uma visão "ecológica" do cinema: considera-o uma espécie em vias de extinção, que é preciso proteger dos predadores industriais, ou seja: "é preciso proteger o cinema português do mercado", o que é um erro colossal. É preciso que o estado crie condições para o que o cinema possa viver no mercado e não retirá-lo do mercado. É um sistema iníquo, que nos debilita. Como foi a experiência de cinco anos, primeiro como Presidente e depois como Vice-Presidente do Conselho de Opinião da RTP? Experiências são sempre positivas. É assim que se cresce. Farei erros até morrer, mas é indesculpável repetir os mesmos. Aprende-se sempre - uma das coisas que aprendi foi que não fazia sentido continuar a perder o meu tempo no Conselho de Opinião. Nunca teve meios para ser aquilo que devia. Por uma atitude revanchista do ministro Morais Sarmento, foramlhe retirados os únicos poderes que tinha e ficou reduzido a um órgão decorativo. Em Portugal nunca se ligou a órgãos

reguladores: a Alta Autoridade foi uma fantochada - hoje a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) tem um bocadinho mais de dignidade mas continua a ter pouco poder. Novo canal de televisão é um suícidio As regras do jogo são muito vagas. Somos o único país europeu que abriu concurso para canais privados sem um claro caderno de encargos. Criouse a noção, que subsiste, quando se fala no Balsemão ou na TVI, de que as televisões são deles. Eles operam por um período limitado, a concurso e por licença. As ondas hertzianas são um bem público, que é concedido, em determinadas condições, a operadores privados. A televisão é um meio demasiado poderoso para ser deixado totalmente à iniciativa privada. Agora prevê-se um novo canal… Que é outra loucura, um suicídio, uma medida completamente irresponsável. É a cedência aos lobbies da comunicação. Filipe Menezes, porta-voz dos privados Logo que soube disso escrevi que a primeira medida que os privados iriam propor era a abolição da publicidade na RTP. Uma semana depois, o putativo primeiro ministro do PSD, o Dr. Luís Filipe Menezes, veio propor, como porta-voz dos privados, que


GRANDE ENTREVISTA se abolisse a publicidade nos canais públicos. É uma medida demagógica e inviável, porque, até 2012, o governo anterior estabeleceu um acordo com um sindicato bancário irlandês para que a dívida colossal que o Guterres deixou crescer fosse paga através da publicidade, portanto ela está cativa até essa altura. O que se tem feito em televisão tem sido por pessoas que não têm a menor noção do que estão a fazer. A televisão sempre foi considerada a voz do poder A televisão está instrumentalizada, na medida em que as administrações são nomeadas pelo governo. A televisão foi um instrumento político de Salazar e Marcello, os telespectadores sempre a consideraram a voz do poder. Depois do 25 de Abril, todos os partidos tiveram a tentação de a controlar. Nunca se livrou disso e nenhum governo se chegou à frente para criar condições para que o serviço público fosse forte, independente e credível. Isso passaria por dar força ao Conselho de Opinião e os próprios jornalistas teriam que ter maior capacidade de resistir à tentação de receber recomendações dos governos. Mas acho que a televisão melhorou, em termos de informação, na credibilidade, na sobriedade e na aparência de não ser uma correia de transmissão das políticas do governo. A informação é uma área sensível, a mais manipulável e a mais manipuladora. A única maneira de o resolver é criar duas coisas: um serviço público forte, independente, e a regulação dos canais privados através de uma instância reguladora e com coimas fortíssimas sempre que houver prevaricação.

eleito pela SIC, ao serviço da SIC. É eleito para rasgar os contratos com a Oliverdesportos e passar a transmissão dos jogos do Benfica para a SIC… só isto! É eleito pela televisão! Curiosamente, depois é apeado também pela televisão… …mas isso não é inédito, a TV Globo elegeu o Collor de Melo e depois retirou-o…. …é verdade, é evidente! Mas as pessoas em Portugal não acreditavam que isso fosse assim. A TV Globo tem um poder enorme no Brasil, provavelmente como nenhuma outra televisão no mundo, a não ser, claro, as televisões públicas nas ditaduras. …e apeado pela TVI Curiosamente, em Portugal, o Vale e Azevedo é eleito pela televisão - pela SIC… e apeado pela televisão - pela TVI. Devemos isso ao "Big Brother" que permitiu à TVI fazer concorrência à SIC e ultrapassá-la, e é graças à subida de audiências da TVI que é possível apear o Vale e Azevedo. A TVI aposta claramente no Vilarinho (há o célebre abraço do Eusébio ao Vilarinho, que é encenado e planeado com a TVI), e isto é um exemplo claro - que não é despiciendo, porque o presidente do Benfica é importantíssimo neste país - é um exemplo claro do poder das televisões.

Se esse poder for deixado à solta é uma ameaça para a democracia. Os telejornais numa televisão privada não servem para informar Há uma promiscuidade que é facilmente aceite pelo povo e que tem que ver com o "Big Brother", porque quando chegou a Portugal tinha já corrido em 27 países, mas este foi o primeiro - e o único - em que o que se passava no "reality show" era transportado para o espaço nobre da informação, o que é uma promiscuidade … Completa. Exactamente! Repara: em todo o mundo, o público tem o "jornal das oito", normalmente de meia hora. Não é por acaso que a directiva da "Televisão Sem Fronteiras" legislou que era proibido a publicidade interromper os telejornais - porque tinham meia hora. Os telejornais numa televisão privada não servem para informar. Servem para duas coisas: para marcar a agenda política, o que interessa defender, que políticas, que pessoas - até a própria hierarquia das notícias. É por aí que as televisões têm o peso que têm no país, inclusivamente político… e servem também para fixar o público ao prime-time, que é o que vende publicidade, é o "core business" das televisões - portanto, se tens o "Big Foto: Rui Moreira

…o que não é o caso?... O que não é o caso! Em Portugal não existe nem uma coisa nem outra. Vale e Azevedo foi eleito pela Sic Nós temos um exemplo: a SIC, no tempo do Rangel, elegeu um presidente. Não foi um presidente da república, mas foi um presidente importante, o presidente do Benfica. O Vale e Azevedo é pura e simplesmente

» APV, Marcelo Rebelo de Sousa e Jorge Gabriel

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GRANDE ENTREVISTA Brother" e o "herói" Zé Maria, tens que fazer o telejornal para o público do Zé Maria… A tragédia de Entre-os-rios marcou a mudança Por exemplo, o Balsemão não poderia fazer um jornal tipo "Expresso" às oito horas, com alguma seriedade, e depois "reality shows" ou novelas brasileiras. Não é possível. Tem que procurar o mesmo público. Penso que uma das coisas que marcou a mudança da televisão, no plano da informação, foi a tragédia de Entre-os-Rios, explorada de uma maneira indecorosa, despudorada. Foi a partir daí que os telejornais passaram a ter uma hora e mais, portanto interrupções de publicidade e auto-promoção. Em todo o mundo, o prime-time é ficção e boa informação - em Portugal são concursos, reality shows e telenovelas… Está envolvido muito dinheiro e criou-se nos privados a noção de que as televisões são deles e não têm contas a dar… há uma promiscuidade, uma invasão de espaços que deviam ser nitidamente separados, que é perigosa. Já percebi que não há nada a fazer! Tenho um lado quixotesco, mas QB…

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O governo perdeu o momento... Houve um momento que o governo perdeu completamente, o da renovação das licenças. Seria precisa coragem e autoridade. Era a altura certa para dizer "meus senhores, estamos dispostos a voltar a dar-vos as licenças, mas com um caderno de encargos muito claro e uma instância reguladora". O problema é que a SIC e a TVI já tinham um espaço tão forte que facilmente fariam demagogia com um governo que tentasse interferir. Têm poder sobre o próprio governo?... Exactamente. Isso aconteceu em Itália. O Berlusconi é dono das três televisões privadas. Quando houve o referendo que poderia fazê-las mudar de mãos, dramatizou a situação. O boletim meteorológico foi alterado e anunciou-se chuva no fim de semana, para as pessoas ficarem em casa … Se as televisões adquirem demasiado poder e não são controladas, a manipulação é de tal ordem que depois é muito difícil aos governos agir. Portanto, o grande momento foi o da renovação das licenças. Manoel de Oliveira Vamos voltar ao cinema. Como é que comentas o fenómeno Manoel de Oliveira? É-me difícil comentar um senhor que vai fazer cem anos e por quem pessoalmente tenho todo o respeito. O Manoel de Oliveira é um caso Guinness… eu digo sinceramente - e peço publicamente aos meus amigos que no dia em que eu já não tiver condições de fazer filmes, me digam, me avisem… Acho que ninguém avisou o Manoel de Oliveira. Houve uma altura em que a sua obra deixou de trazer alguma coisa… eu costumo dizer que há vinte anos que ele faz filmes póstumos… O problema foi ter sido canonizado em vida e perdeu com isso, porque deixou de haver um escrutínio público, um escrutínio crítico - não há um único crítico que se atreva a dizer que os filmes do Manoel de Oliveira não são obras-primas, mesmo antes

de estarem feitos… Para mim, o último grande filme dele foi "Os Canibais". Depois do 25 de Abril, quase todos os meus colegas acharam que ele não devia ser apoiado - e eu andei a bater-me, durante anos, para que ele continuasse a fazer filmes, porque achei que estava na força da sua carreira e era um realizador inovador, que tinha alguma coisa para dizer. Curiosamente, nessa altura ele era completamente atacado em Portugal. Eu e o Paulo Branco fizemos o que pudemos para promover os filmes dele no estrangeiro. O "Cahiers du Cinema", em Paris, pôs um na capa e fez críticas elogiosas, a partir daí passou a ser intocável. Passou a haver uma recepção acrítica à sua obra. Acho que isso deu cabo da carreira dele. Passou a fazer um filme de nove em nove meses, mas isso fê-lo perder a consciência crítica. É pena, mas iludir isto é mentir às pessoas. O que neste momento se está a considerar é a longevidade, mas isso só por si não é uma qualidade. O próprio Bergman em determinada altura achou que tinha dito tudo o que tinha a dizer e retirou-se. Sinceramente, acho que isto é um pouco cruel, mas é também a decepção de alguém que viu o Manoel de Oliveira, quando fez a tetralogia ("O Passado e o Presente", a "Benilde", o "Amor de Perdição", a "Francisca" e mesmo "Os Canibais", que acho que são grandes filmes e mantém todo o vigor) e vê-lo depois cair numa bulimia em que as qualidades se vão perdendo. O cinema europeu faz falta ao americano Como é que reages à afirmação de que és "o cineasta português mais americano"? Reajo bem, porque acho que foram os filmes americanos que me fizeram gostar de cinema. Nos anos 60 havia uma pujança do cinema europeu e o americano estava de rastos, depois quando surgem os cineastas dos anos 70 que renovam o cinema americano, eles reclamam-se do europeu. Este

ano

a

Academia


GRANDE ENTREVISTA atribuiu todos os prémios de representação à Europa… Felizmente. São boas notícias. O cinema europeu faz falta ao americano. Estes prémios são sinais disso. Há uma nova vaga, de uma esquerda americana, que tem muito de europeu, no melhor sentido.

Falemos do "Call Girl": estás satisfeito com o resultado? Bom, já fez carreira. Os filmes hoje em dia têm uma carreira rápida e seguem para outras formas de difusão. Vai passar na televisão e sair em DVD. Mas foi bom. O que eu gostava agora é que tivesse também uma carreira internacional. O sonho de qualquer realizador é ultrapassar as suas fronteiras. Como é que reagiste à crítica, como é que criticas a crítica? Nunca respondi directamente à crítica, acho que é deselegante, a crítica tem o direito de dizer o que quiser. Os meus filmes nunca foram afectados por ela, nem para bem nem para mal. Não é a crítica que leva o público a ver os filmes Com excepção do "Público", que é tradicionalmente o jornal onde os meus filmes são mais atacados, tive muito boas críticas, vá lá… Mas não é a crítica que leva o

público a ver filmes, nem quando os ataca faz com que os não vão ver. No filme há velhas-guardas da representação portuguesa, mas há também novos valores, como o Ivo Canelas. Está aí a aparecer uma nova geração de actores? Sempre houve grandes actores e actrizes em Portugal. O problema está na oferta… que oportunidades tem um grande actor de fazer carreira em Portugal? Nenhuma! A Soraia foi uma grande descoberta Neste filme, trabalhei com actores extraordinários: o Nicolau Breyner, o Joaquim de Almeida, o Ivo Canelas, o José Raposo. Com alguns nunca tinha trabalhado, como o Ivo Canelas, que é um actor fantástico. A Soraia Chaves foi uma das grandes descobertas da minha vida. Quando vestia as roupas da personagem, vestia-lhe também a pele, vestia-lhe também a alma. O problema é que em Portugal não há oportunidades para os actores. Por exemplo, o Nicolau: é um actor do outro mundo, sempre foi, mas se ficasse à espera de ter bons papéis no cinema, para se afirmar, já tinha morrido de fome… e de frustração! A televisão não é saída? Olha, é saída para mim no "Trio de Ataque" a comentar o futebol, isso sim! Prefiro-o a ser obrigado, para ganhar a vida, a fazer obras menores.

Não ganho a vida no cinema, ganho-a como comentador desportivo - se deixar isso para fazer um filme, quando acabar fico desempregado… portanto só posso filmar no defeso e nos anos ímpares, porque nos pares há o europeu e o mundial. Os portugueses gostam de cinema, ou ficam-se pela televisão? Gostam de cinema, mas não de cinema português, pelos vistos… Que falta ao cinema português para chegar aos Óscares da Academia? Falta-lhe ser uma indústria, internacionalizar-se. "Deseja tudo, espera pouco, não peças nada!” É o meu lema, cada vez mais! É uma frase de Stendhal, que adoptei porque sou exactamente isso. Outra afirmação tua: "Há duas coisas na vida que me dão prazer: não resistir às tentações… e resistir às tentações!" Acho que é totalmente verdade: de vez em quando preciso de fazer coisas insensatas, por exemplo comprar algo que me esgota o orçamento e depois

…mas quando se filma ganha-se bem? Não! Ah, há quem ganhe, o Oliveira ganha bem, tudo depende do contrato. Eu normalmente não exijo muito em termos de salário, porque quanto mais ganhar menos há para o filme e o importante é o que se vê no ecrã. O dinheiro não é elástico e consegue-se pouco para fazer cinema, prefiro que isso esteja no ecrã. Ganho a vida como comentador desportivo Eu filmo "no defeso": quando pára o campeonato, até quando começa - só nesse período é que posso filmar.

» Equipa do Trio de Ataque: APV, Rui Oliveira e Costa, Carlos Daniel e Rui Moreira

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GRANDE ENTREVISTA homem de esquerda. Tenho muitas paixões, gosto de ler, de viajar, de estar com os amigos. Gosto dos meus filhos e dos meus netos. Sou um homem de família, mas também sou um vagabundo! …e Deus? Não conheço. Não faz parte da minha vida. Desapareceu do meu horizonte a partir dos 18 anos e da idade da razão. Não quero terminar sem falar da tua fama de "mau feitio", que tem a ver essencialmente com as tuas posições sobre fundamentalismos… Por acaso não tenho mau feitio, até é bom! Mas não resisto a ser polémico e ter opiniões fortes em certas circunstâncias.

ter que apertar os cordões à bolsa… e tenho prazer nisso. Não gosto de uma vida muito regrada. A ideia de um ordenado e uma reforma é coisa que me passa completamente ao lado. Nunca pensei na reforma, porque nunca pensei em não trabalhar… Por outro lado, às vezes tenho orgulho em resistir às tentações. Quando o risco é demasiado, dáme imenso prazer resistir. São dois extremos que equilibram a minha vida. As monarquias estão em crise Além da paixão pelo Benfica, que outras ideologias tens? Sou republicano, mas acho que o problema do regime não passa por aí. A Espanha funciona muito bem, a Inglaterra também, mas as monarquias estão em crise, porque estão muito expostas. A Princesa Diana ou a Letícia vêm nas capas das revistas cor-derosa: isso, a prazo, é letal para as monarquias. Deus?... Não conheço! Sou um democrata convicto, sou um 16

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Um universo em que não quero viver Chocam-me, por exemplo, a ASAE e a Lei do Tabaco. Há muitos restaurantes que decidiram abrir a fumadores, com bons resultados. Eu não sou fumador, mas quero estar com os amigos que são. Interfere-se excessivamente na liberdade das pessoas. No Hospital acho bem, ou numa repartição pública, agora nos restaurantes, nos bares, nos casinos, nas discotecas… é deixar a decisão ao proprietário e ele corre o risco. Agora quer-se regular piercings, tatuagens, esterilizar cães perigosos, na Nova Zelândia os gordos já não entram… isto é um universo em que eu não quero viver! Tem que se responsabilizar as pessoas. Em relação aos cães, o proprietário que tenha um cão agressivo que chegue a vias de facto, deve ser altamente penalizado, eventualmente com prisão. As pessoas devem saber os riscos que correm, mas o princípio da liberdade é absolutamente inatacável. A ASAE é completamente fundamentalista Em relação à ASAE, acho que se passou uma fronteira, entre aquilo que são cuidados com a higiene e a destruição dos hábitos e gostos da

cozinha tradicional. É completamente fundamentalista! Vão destruir os santos populares Outro dia fui a um restaurante no Alentejo, onde gosto de comer bacalhau no forno - de repente ele estava mau e o proprietário disse-me: "É simples, deixei de poder demolhar o bacalhau em casa, tenho que o comprar já demolhado". Outro amigo meu que tem um restaurante alentejano está a pensar ir-se embora de Portugal. Já nem pode fazer açorda, porque não pode guardar o pão da véspera… Isto é uma demência! Se não se podem assar sardinhas na rua, vão destruir os Santos Populares… Isto é sintomático de uma coisa: em Portugal há Estado a menos onde o Estado devia ser forte e Estado a mais onde não devia intervir. Nas áreas onde é fundamental, na justiça, no ensino, na saúde, na segurança… não há Estado! E depois há Estado a mais em situações ridículas, onde não devia meter-se, para disfarçar a sua fraqueza nas áreas onde devia ser forte. Planos para o futuro… Filmar, filmar! Fazer filmes fora de Portugal ou que passem fronteiras e sejam vistos noutros países. Era preciso um primeiro-ministro iluminado Mensagem de despedida… Era preciso um primeiro-ministro iluminado, que percebesse que há tudo a fazer em Portugal em relação à intervenção do estado no cinema e na televisão. Tem-se feito tudo ao contrário, somado disparates, perdido anos de vida, dizimado gerações. A intervenção do estado não pode ser laxista no caso da televisão e totalitária no caso do cinema. É preciso encontrar uma relação entre as duas actividades - e as telecomunicações - e criar uma política que finalmente abra perspectivas aos criadores, com oportunidades à altura dos seus méritos e onde o talento seja premiado. k


MODA Indústria Têxtil e Vestuário

Uma dimensão ignorada A fileira têxtil, uma indústria de capital intensivo, passou, num passado recente, por grandes dificuldades, dificuldades que a própria indústria não criou. No entanto, a relação amistosa que Portugal mantém com nuestros hermanos abriu uma janela à indústria têxtil portuguesa que tem resistido às dificuldades de uma economia mundial moribunda. Orlando Lopes da Cunha e Paulo Nunes de Almeida, presidentes da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção (ANIVEC) e da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) respectivamente, falaram à Perspectiva sobre o estado da indústria portuguesa. » Orlando Lopes da Cunha, da ANIVEC

Perspectiva: Em que estado se encontra a indústria têxtil portuguesa? Orlando Lopes da Cunha: A fileira têxtil e de confecção atravessou um período difícil do qual está a emergir de uma forma que excede as expectativas, como foi reconhecido pelo primeiro-ministro pela primeira vez em referências elogiosas que a este sector. Quando encerra uma fábrica de curtumes diz-se que há uma crise na indústria têxtil, quando esta área não faz parte desta fileira. Esta indústria tem o que de melhor se faz no mundo, sendo Portugal um dos grandes precursores com as apostas nas universidades, maquinaria, tecnologia, etc. A indústria está a emergir mercê da ajuda do AICEP, do IAPMEI e das associações. Não só da nossa associação como das associações congéneres como a Federação das Indústrias e Têxteis Vestuário portuguesas ou a ATP. Que mais-valias tirou Portugal da relação com Espanha? Portugal soube considerar a Península Ibérica como um mercado ibérico, que por sua vez é um mercado interno. A indústria têxtil é de facto a única actividade económica onde existe um saldo positivo nas trocas comerciais com Espanha. As dificuldades que a indústria têxtil e de confecção 18

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passaram devem-se, na minha opinião, a algumas decisões tomadas na Europa. Os avanços tecnológicos reflectem-se no têxtil? Em tempos menorizaram este sector argumentando que, em termos tecnológicos, estava muito aquém de outras actividades económicas. No entanto a realidade é contrária a estas afirmações. Portugal é um país médio, mas no têxtil é de facto um gigante, razão pela qual usufruímos de grande prestígio além fronteiras. É sem dúvida umas das indústrias com mais tecnologia de ponta no Mundo. Portugal tem apostado em exposições internacionais para dar a conhecer os seus produtos. Existe algum apoio do governo? Portugal é um gigante nesta indústria e estamos a sair da crise mercê das exposições e das feiras que tem efectuado em conjunto com o AICEP. Em 2007 foram-nos prometidas ajudas mas ainda não estão concretizadas. As associações desembolsaram milhões de euros e ainda hoje estão em dúvida se vão receber ou não, apesar das promessas efectuadas. Ora este tipo de iniciativas não se podem fazer só uma vez, e se não existem verbas as empresas não podem comparecer noutros certames desta índole.

O comércio chinês veio criar dificuldades à indústria têxtil? O grande argumento para a abertura do comércio de produtos chineses era o de baixar os preços na Europa para beneficiar os clientes. No entanto este argumento cai por terra porque nos últimos anos os preços à saída das fábricas de têxteis baixaram cerca de 45%. Contudo chegaram ao povo ao mesmo preço que anteriormente. Portanto existe alguém a ganhar mais dinheiro. São defensores do livre comércio, mas nós também somos, mas por um comércio justo. Ou seja, as dificuldades continuam com esta concorrência desleal? A crise que vive a Europa não é a crise do subprime. Por cada hora que passa a Europa perde 45 milhões de euros que vão parar à China e não têm reciprocidade, porque o que a Europa


MODA exporta é muito pouco face ao que recebe desses países asiáticos. Daí advém a crise de crédito. A América fechou-se relativamente ao comércio com a China enquanto a Europa não o fez. O nosso ex-primeiro-ministro, e hoje presidente da Comissão dizia aquando da distribuição de electricidade que proteger o mérito não era ser proteccionista. Só queremos que a mesma regra seja aplicada à nossa indústria. Vem aí o REACH um novo programa europeu que visa o ambiente e uma aposta no desenvolvimento sustentável. Em que consiste? O âmbito do REACH é muito vasto. Aplica-se a todas as substâncias químicas fabricadas, importadas, colocadas no mercado ou utilizadas na Comunidade Europeia, quer individualmente, em preparações, ou como componentes de produtos. Algumas substâncias estão excluídas do âmbito geral do REACH como as substâncias radioactivas, os resíduos, intermediários não isolados e as substâncias em trânsito, sujeitas a controlo aduaneiro. Todos os têxteis europeus têm que cumprir as regras do REACH e não tenho dúvidas que vamos cumpri-las. Por vezes as pessoas têm problemas de saúde como alergias e intoxicações e desconhecem a razão. Isto pode derivar de produtos utilizados na confecção de produtos e esta norma vem tentar atenuar este problema. Futuro da indústria têxtil portuguesa? É necessário apostar em mercados externos, ao exemplo de várias empresas portuguesas que estão a triunfar na Europa porque só o mercado interno não é suficiente. A indústria de confecção portuguesa é tão grande que nem o território português por si só, nem o mercado interno constituído por Portugal e Espanha chega para explanar toda a qualidade da nossa indústria. O futuro estratégico de Portugal é estar na África, no Brasil e no Mediterrâneo. Mas é evidente que Portugal terá de se adaptar ao acomodar do gigante asiático no seio das nações. k

» Paulo Nunes de Almeida, da ATP

Plano Estratégico do Sector Têxtil (2007-2013) Com o intuito de defender a viabilidade do sector têxtil português, o governo, através do primeiro-ministro José Sócrates e Manuel Pinho, ministro da Economia, apresentaram o novo Plano Estratégico do Sector Têxtil e Vestuário 2007-2013 no dia 26 de Março em Famalicão, no edifício Citeve.

Um plano que apresenta “novos factores de competitividade” e que “aponta os grandes caminhos que o sector irá trilhar para se manter competitivo no exigente quadro concorrencial do mercado global em que se insere". Solicitado pela Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) e elaborado pelo economista Daniel Bessa e pelo director-geral da ATP Paulo Vaz, apontaram como condicionantes ao desenvolvimento do sector os “condicionalismos do novo QREN, as alterações dos quadros de concorrência internacional juntamente com a globalização do sector e a mudança do padrão económico do país.” Para combater estas vicissitudes do panorama internacional, a “resposta vencedora do sector” implicou a valorização da marca, adjuvada pela constante inovação tecnológica e desenvolvimento dos têxteis técnicos num âmbito mais especializado e vocacionado para determinados nichos de mercado com elevado suporte de serviço ao cliente. Sendo a parceria com Espanha um importante agente para o desenvolvimento económico do sector, o Plano Estratégico visa a criação de um “megacluster” com a Galiza, "aproveitando as sinergias e complementaridade da moda e da tradição da indústria nas duas regiões". "Uma das conclusões do estudo é que temos um sector muito heterogéneo, em que há muitas empresas distintas e muitos subsectores com ritmos de desenvolvimento diferentes", afirmou o director-geral da ATP, Paulo Vaz.

Perspectiva: O sector têxtil atravessa uma fase de mudanças. O que se espera para o futuro? Paulo Nunes de Almeida: Estamos de facto numa fase de grandes mudanças, mas não só o sector têxtil, toda a economia mundial e em especial a indústria. Actualmente a Europa passa por um processo de desindustrialização, uma opção política que implica que grande parte da capacidade instalada da indústria europeia esteja a ser instalada noutros países, em especial países que podem oferecer melhores condições a nível de custo. O sector têxtil português vive do comércio externo ou subsiste com a indústria interna? O sector têxtil é um sector muito aberto ao exterior. As trocas comerciais além fronteiras têm um peso muito grande na nossa produção pois cerca de 2/3 do têxtil português destina-se a mercados externos. O mercado interno tem um peso minoritário relativamente à produção global. No entanto a liberalização dos mercados veio criar novas dificuldades. Com a liberalização dos mercados come��amos a ser confrontados com uma concorrência feroz de outros países. A China aderiu à Organização Mundial de Comércio em 2001, portanto desde 2003 começamos a ABRIL 2008

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sentir essa grande concorrência que nós apelidamos de desleal no sentido que não existe o mesmo cumprimento das regras. Por isso batalhamos para que haja um trabalho transparente nesse sentido por parte dos responsáveis. Pressionamos a Comissão Europeia a fazer um acordo temporário com a China, o qual foi feito, o que permitiu amortecer um pouco as dificuldades que vínhamos sentido. Mas, ainda assim, várias indústrias não resistiram a essas dificuldades. Diria que poderíamos ter seguido dois caminhos. O primeiro seria de desistir, o que aconteceu em alguns países europeus, que hoje não têm praticamente capacidade instalada a nível de indústria têxtil e vestuário, ou seja, grande parte do que consomem é importado ou centra-se apenas em pequenos nichos de mercado. O outro caminho, que foi o que decidimos protagonizar, era dar uma resposta afirmativa às dificuldades, reposicionar o produto na cadeia de valor, passarmos de um produto menos diferenciado e com uma maior componente de mão-de-obra para um produto mais diferenciado incluindo um conjunto de valências que determinam que o produto possa ser vendido a outro preço, desde a questão da criatividade, do design, aplicação de novas matérias-primas, os têxteis funcionais, etc. Apostamos também num trabalho muito forte na área do marketing e da distribuição. Não vale a pena apenas saber fazer mas também saber vender. Este era de facto um problema que a indústria portuguesa enfrentava pois era maioritariamente uma indústria manufactureira, e menos de serviços/ comercial, não só no têxtil, mas numa visão transversal a todos os produtos, nomeadamente nos vinhos. Ou seja, o sucesso e o reavivar da indústria passou pela aposta em novas estratégias? Entendemos de facto que tínhamos que mudar as coisas e não baixamos os braços. Nalgumas 20

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“Por cada hora a Europa perde 45 milhões de euros que vão parar à China.” Orlando Lopes da Cunha, da ANIVEC

áreas específicas, nomeadamente na internacionalização, houve em 2006 e 2007 uma aposta muito forte, onde participamos activamente em acções de internacionalização, feiras, desfiles, acções de imagem e prospecção de mercado. É um trabalho das associações mas as empresas têm que perceber que vale a pena. Concomitantemente houve uma grande aposta na inovação e no desenvolvimento, especialmente a nível do produto, não tanto a nível tecnológico. Existe um centro tecnológico que trabalha muito próximo das empresas e que permite este desenvolvimento. Houve aqui um conjunto de acções, que permitiram reposicionar o sector num nível completamente diferente daquilo que era. Houve um desenvolvimento financeiro nestes últimos anos? Foi graças a esse trabalho que vamos fechar o ano de 2007 em alta, depois de vários anos de declínio

nas exportações. Em 2006 tínhamos conseguido estagnar e, em 2007, até Novembro, temos um aumento de 4,1% de aumento nas exportações, o que é o corolário deste trabalho. Não significa que a situação não se mantenha difícil porque seria falso, a concorrência é grande, há uma pressão muito grande para baixar preços, a capacidade instalada a nível mundial é maior do que a necessidade de oferta, e quando isso acontece há uma pressão para baixar preços. Mas por outro lado há uma tentativa de aumentar preços com o aumento do valor acrescentado. Tem sido isso de alguma forma que temos feito e também uma aposta muito grande no sentido de reduzir a concentração das exportações na EU e tentar abrir novos mercados, quer nos países do alargamento, que entraram recentemente na EU, quer em outros blocos, nomeadamente na própria Ásia, que vai ser um grande mercado de consumo. Tendo isso em conta, há cerca de 2 ou 3 anos que já estamos a participar em feiras em Xangai e a apoiar as empresas nesse sentido. k


MODA

Moda Lisboa Textos: Leandro Santos * Arquivo ModaLisboa | Estoril / Fotografia: Rui Vasco

Trinta anos de história, trinta anos de memórias. Foi esta a epígrafe para mais uma edição do Moda Lisboa | Estoril que decorreu entre 6 a 9 de Março no Casino Estoril, em Lisboa. Trinta anos a mostrar as tendências vindouras e a desvendar a voluptuosidade das mentes dos mais conceituados criadores portugueses.

De Osvaldo Martins, passando por Nuno Gama e José António Tenente, a Ana Salazar e Katty Xiomara, a 30ª Edição do Moda Lisboa apresentou as novas colecções para o Inverno 09 num prenúncio das novas tendências para a época fria. Num misto de cor, materiais diversos e detalhes, várias foram as mostras dos criadores portugueses no Casino Estoril. Katty Xiomara, ao contrário do que aconteceu no Portugal Fashion no Porto, onde apresentou a sua colecção de calçado, fez desfilar a roupa feminina sob o tema “Metropolis”, o visionamento de um futuro projectado nos anos 20, o reflexo e uma miscelânea do que “é o nosso presente, do que será o nosso futuro, e os próprios anos vinte. E a melhor imagem para reflectir essa mistura é o filme ‘Metropolis’”, como refere a estilista, obra cinematográfica que inspirou Xiomara para esta colecção. Os tons, que se destacaram pelas cinzas, pretos e brancos, assentaram num jogo de brilhos e mates em materiais ora volumosos, ora leves e finos, em formas mecânicas mas dóceis na sua apresentação. 22

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José António Tenente, o estilista de Cascais apresentou a interpretação para a sua colecção, “uma percepção do ambiente boémio do início do século XX e das relações que se estabeleciam entre homens e mulheres muito influentes, pelas suas imagens e atitudes, na criação de artistas. Portanto, as mulheres e homens que eram as inspirações desses artistas.” Tons escuros e sombrios numa mescla de universos femininos e masculinos que se juntaram no contraste de volumes e silhuetas. “You Gotta Move” poderia ser o nome de um filme de acção… mas revela-se na acção, coordenação e coexistência empírica de diferentes materiais, cores e formas. Foi este o tema para a colecção de Ana Salazar, que produziu um efeito “clash” que sustenta toda a temática do desfile da estilista lisboeta. Várias outras propostas foram apresentadas nas quatro noites de glamour de Lisboa, com desfiles de Alexandra Moura, Dino Alves, Lidija Kolovrat, Nuno Baltazar, entre outros. Pela primeira vez no certame da moda nacional, o Cascais


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» José António Tenente

Portugal Fashion Fotografia: César Soares

» Katty Xiomara

» Ana Salazar

Moda, representativo de várias lojas de moda da cidade de Cascais, subiu ao palco para apresentar as suas marcas. Nomes como Arrow, Benetton, Lacoste ou ainda Dream Sisters puderam apresentar as suas tendências. Outra estreia em Portugal foi o primeiro desfile sobre tendências de maquilhagem, na forma do Beauty Box by L’Oréal Paris, onde se puderam vislumbrar algumas performances que roçaram o espectáculo artístico numa amálgama de luzes, cores e imagens. k

Depois do sucesso do Moda Lisboa | Estoril Winter 09, foi a vez do norte do país receber o Portugal Fashion Gaia Winter 09. Entre estilistas, convidados e muitas caras conhecidas, a edição deste ano decorreu de 13 e 15 de Março. O primeiro dia, uma quinta-feira, não suscitou o interesse esperado por parte do público, o qual afluiu em pequeno número. Reflexo de um dia de semana e de nomes menos sonantes da moda portuguesa. Um pequeno percalço que em nada ombreou o resto do fim-de-semana. E, quando “realmente começou”, a edição do Portugal Fashion Gaia Winter 09 não deixou os créditos por mãos alheias. Após os desfiles de Marco Mesquita, o Colectivo de Calçado (Aerosoles, Cohibas, Dkode, Eject, Fly London, José Reis Design, Missanga e Nobrand) e Ababela Baldaque, o ponto alto da noite veio com a apresentação da colecção Miguel Viera Jeans Homem. Inspirado na Arquitectura, curso que o próprio estilista confessou que gostaria de ter tirado para enriquecimento pessoal e lúdico, a colecção do criador nortenho apresentou formas muito minimalistas mas ao mesmo tempo com muita harmonia. “Dedico a minha colecção a todas as profissões inerentes à arquitectura, ABRIL 2008

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MODA desde trolhas, pintores, engenheiros, etc., que conseguem edificar estruturas magníficas. É uma colecção dedicada a todas estas pessoas.” De destacar o corte da calça que não se revê numa calça jeans vulgar, dando um efeito curvo e inovador à peça. Para além da roupa, Miguel Vieira apresentou uma colecção bastante rica em acessórios, pois acredita que “o homem actual valoriza cada vez mais os acessórios, gosta de sapatos, carteiras, bonés, óculos… É uma mais-valia para a colecção.” » Miguel Vieira

» Story Tailors

» Fátima Lopes

» Miguel Vieira

» Miguel Vieira

» Fátima Lopes

O último dia do Portugal Fashion contou com centenas de visitantes ávidos para conhecer as tendências do próximo Inverno. Iniciou-se o espectáculo com a apresentação dos Jovens Criadores (Andreia Lobato, Celsus, Jorge Costa e Jordann Santos, Leuna by Elisabeth Teixeira, Odete Barreiro e Tany Calapez), os talentos do futuro da moda nacional, seguidos de Diogo Miranda e Ivo Calado, Rita Bonaparte, Jotex by Luís Buchinho, Katty Xiomara – Calçado, Storytailors Narkë (muito aplaudidos pela plateia com a apresentação de SPOILED BY TOXIC LOVE, uma colecção “recheada de amor e humor retorcido, traduzido em peças de roupa imprescindíveis para a estação vindoura.”), aos quais se juntou a “jóia da coroa” da moda nacional, Fátima Lopes. De um pavilhão bem constituído, passou para um pavilhão a “rebentar pelas costuras”. “Next Step” foi o tema escolhido pela estilista para

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a sua colecção de Inverno, a mesma que há semanas foi apresentada em Paris e recebeu extraordinários elogios da imprensa internacional. Uma colecção futurista com inspiração nos anos 40. Recheada de “degradés” entre branco e preto e com um toque subtil de verdes, a variedade de tecidos culminou num desfile onde não existem duas peças com o mesmo material. Após apresentação inicial de Prêt-à-Porter, a parte final do espectáculo apresentou a AltaCostura com muitos detalhes, trabalho de mão e acabamentos de glamour únicos. “Direi que é a colecção mais sofisticada que alguma vez fiz, é uma viragem, daí lhe ter chamado “Next Step”. Foi o desfile que melhor correu em Paris, depois dos dezoito anteriores que fiz na capital da moda.” k

» Fátima Lopes


MODA

Moda e Beleza: uma dupla indissociável para um look total

L’Oréal Paris

assina maquilhagem da Moda Lisboa Moda e Beleza são dois conceitos indissociáveis na criação de um look total. Por isso, e porque L’Oréal Paris é sinónimo de beleza e glamour, a marca está presente no evento de moda com maior expressão em Portugal, assinando a maquilhagem das centenas de manequins que desfilam nas passerelles da Moda Lisboa. Há já mais de cinco anos que o faz e a 30ª edição do evento, que decorreu no início de Março, não foi excepção.

Nos bastidores, são centenas os produtos L’Oréal Paris a que Antónia Rosa e a sua equipa de maquilhadoras recorrem para criar o look que melhor reflecte o conceito e estilo de cada colecção, trabalhando em estreita colaboração com os estilistas e aplicando desde o fond-de-teint, ao batom, ao lápis de contorno dos olhos, às sombras, às mascara de pestanas… No espaço dedicado aos patrocinadores, L’Oréal Paris marca, igualmente, presença com um stand onde outra equipa de maquilhadoras dá a conhecer o potencial da marca, transformando a imagem de centenas 26

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de visitantes e deixando-lhes conselhos que os ajudarão na criação da sua imagem. Neste mesmo espaço, o destaque desta 30ª edição recaiu sobre um novo gloss que se man-tém intacto durante 6 horas – Glam Shine 6 H – revelado em primeira-mão aos pro-fissionais e convidados da Moda Lisboa, bem como sobre a máscara de pestanas Telescopic Clean Definition e a magica base em pó, True Match Minerals, indispensável para criar a tez perfeita das manequins. Mas nesta 30ª edição, L’Oréal Paris esteve também em destaque


MODA nas passerelles, com um desfile inédito, exclusivamente dedicado à maquilhagem. L’Oréal Paris Beauty Box Pioneiro e único são, aliás, as palavras que melhor definem este primeiro desfile de maquilhagem L’Oréal Paris, uma verdadeira demonstração das mais inovadoras tendências da maquilhagem de moda, com produtos especialmente criados para as passerelles, que só mais tarde estarão disponíveis para as consumidoras. Sob a direcção de arte de Paulo Gomes e com criações exclusivas de Antónia Rosa, L’Oréal Paris Beauty Box reforçou a indissociável relação entre Moda e Beleza, num desfile eclético e estilizado, onde o olhar e o sorriso foram os grandes protagonistas, graças à eficácia de Glam Shine 6 Horas e Telescopic Clean Defenition. Lábios cheios e pulposos, em tons de vermelho e rosa… um olhar enquadrado por pestanas ‘telescópicas’ - longas, curvas e bem definidas, num rosto marcado por cores vibrantes, como que em tributo à Primavera. Moda, cinema, beleza, glamour e L’Oréal Paris A ligação entre L’Oréal Paris e Moda não é, no entanto, um exclusivo nacional, da Moda Lisboa, já que, desde há vários anos, a marca tem sido presença assídua nos grandes desfiles além fronteiras e nos

principais festivais de cinema (que têm Cannes como expoente máximo), consolidando-se num universo de beleza e glamour onde se movem as grandes estrelas internacionais. Esta é uma realidade bem patente também nas embaixadoras da marca

- Cláudia Schiffer ou Doutzen Kroes, Jane Fonda, Penélope Cruz, entre muitas outras - que dão rosto a todas as inovações que L’Oréal Paris desenvolve para tornar mais belas e auto confiantes as mulheres de todo o mundo. k

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MODA CITEX

Escola de referência na formação de

Designers de Moda

O Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil (CITEX) apostou desde a sua constituição, há 27 anos, na formação em áreas criativas, consideradas incontornáveis para a competitividade do sector. Em 1983, lançou o curso de Design de Moda que tem vindo a lançar para o mercado a maioria dos nomes que integram “a Elite da Moda Nacional”: Nuno Gama, Luís Buchinho, Pedro Mourão, Maria Gambina, Júlio Waterland, Osvaldo Martins, Katty Xiomara, Paulo Cravo, Nuno Baltazar, Ricardo Dourado, Lara Torres e mais recentemente Ângela Fontes e Filipe Trindade. Alguns destes Criadores há muito que marcam presença nos eventos mais mediáticos do país, como sejam, a “Moda Lisboa” e o “Portugal Fashion”, onde apresentam as suas colecções. Todos eles, no entanto, estão ligados à indústria e ao desenvolvimento de colecções de marcas no país ou no estrangeiro. O CITEX apresenta-se como a escola de referência na formação de Designers de Moda, dado o seu padrão de qualidade ser reconhecido, inclusive, internacionalmente. O sucesso dos cursos e dos formandos tem por base: a formação centrada na aquisição de competências; a atenção dispensada aos planos curriculares e respectivos conteúdos em constante actualização; a actuação de um corpo de formadores heterogéneo e altamente especializado; a colaboração próxima com a Indústria Têxtil e Vestuário Nacional; o apoio à participação dos formandos em actividades extra-curriculares. Esta dinâmica de envolvimento em projectos extra-formação funciona 28

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como elemento de motivação acrescida para os formandos uma vez que possibilita a aplicação dos conhecimentos adquiridos, bem como, o reconhecimento das suas competências num contexto de competição. Serve, para alguns, como “rampa de lançamento” para um percurso profissional individualizado, ou seja, o desenvolvimento de Colecções de Autor. Através dos seus formandos, o CITEX tem estado sistematicamente representado em vários concursos, contando com inúmeros prémios e distinções, nomeadamente, em acções como: “Sangue Novo”, promovido até 2003 pela Associação Moda Lisboa; “Jovens Talentos” promovido pela feira Mod’tissimo e Associação Selective Moda; “Mittel Moda”, promovido por “Gorizia Fiere” e Mittel Moda International Lab”. k

Formandos do CITEX participam no “Create Europe: The Fashion Academy Award” O Instituto de Alemão seleccionou e propôs ao CITEX uma parceria no sentido de responder ao projecto “Create Europe: The Fashion Academy Award”. Esta competição transnacional tem como promotores o “Goethe Institute”, a “Helenic Foundation for Culture”, o “Polish Cultural Institute Berlin”, em cooperação com a “EUNIC” e com o suporte financeiro “Quelle”. O objectivo é dinamizar o cenário dos jovens criadores de moda, promovendo redes transeuropeias entre colégios, escolas e outras instituições de formação de moda. Neste âmbito, o CITEX apostou em 3 formandos finalistas da 10ª acção que considera terem perfil, potencial e maturidade para responder a este desafio. O desfile de apresentação das colecções finalistas realizar-se-á a 19 de Outubro de 2008.


MODA

Conheça um novo estilo Se a roupa que vestimos é sinónimo de bem-estar pessoal e realização individual, não deixa de ser menos verdade que o corte de cabelo é tão ou mais importante do que os tecidos que usamos. Fomos conhecer um dos mais conceituados cabeleireiros a actuar no não menos emblemático Bairro Alto em Lisboa, a Facto Bairro Alto. Perspectiva: Qual é a história do Facto Bairro Alto? Antony Millard: Tudo começou há cerca de 20 anos em Londres e depois em Portugal com o primeiro salão na Rua da Rosa. O sucesso foi tal que começámos a ter necessidade de um espaço maior para combater as listas de espera e o ‘overbooking’ de todos os nossos stylists. O vosso reconhecido posicionamento no mercado deve-se a que factores? Somos essencialmente reconhecidos pela forma diferente de como eu e o meu staff interpretamos uma experiência no cabeleireiro. Em primeiro lugar damos a todos os clientes uma consulta completa antes de iniciarmos qualquer trabalho. Esta abordagem não é apenas feita de um ponto de vista físico – avaliamos a forma de como o cliente se veste, que tipo de trabalho exerce, lifestyle, se tem filhos, se gosta de sair á noite, que tipo de música ouve, etc. Após a consulta segue-se sempre a massagem shiatsu em cadeiras de lavagem com massagem para posteriormente passarmos ao trabalho final com o stylist

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escolhido. Mas a melhor forma para se compreender este facto é visitarem o nosso espaço ou acederem ao nosso site. Quais são as principais características que   definem a Facto Bairro Alto? Educação e a habilidade de crescer. Nestes tempos onde existe tanta competitividade nós temos a certeza de que é crucial continuar a inovar. A moda muda e também a moda dos cabelos. Cabelo é o acessório pessoal permanente e com mais importância. Tenho trabalhado com a equipa Vidal Sasson nos últimos 10 anos e neste momento tenho o enorme prazer de ser’ Leading Educator’ de Sasson em Portugal. Desta forma tenho acesso directo às ultimas tendências previstas pelas equipas internacionais que mais tarde transmito para a minha equipa e para os meus clientes. É através da constante formação que se estabelece uma das características que mais define a Facto Bairro Alto - a qualidade de toda a equipa técnica! Ser inspirado pela minha própria equipa é sem duvida um dos factores mais fantásticos do meu trabalho.   Como comenta a vossa participação no Moda Lisboa? Preparar a minha Art Team constitui 50% do desafio pois sou bastante exigente no que respeita a eventos de moda e isso tem de transparecer na passerelle. Os outros 50% são o trabalho do próprio desfile. Faço visitas aos ateliers dos designers em questão para discutir ideias e conceitos, e para criar algo em harmonia com as roupas da colecção. É bastante importante compreender que tipo de imagem o designer quer nas suas roupas e na

passerelle e que haja uma harmonia no conjunto total. Este ano tivemos a oportunidade de trabalhar com dois designers que admiro bastante – Aleksander Protich e Lidija Kolovrat. Quais os planos para o futuro? Tendo acabado de participar na Moda Lisboa tenho a apresentação da nova colecção de Sassoon em Maio, em que existe sempre a participação da equipa Sassoon Art Team Inter-nacional. Irei também regressar a Londres para fazer as gravações do programa da BBC ‘ Clothes Show’ no qual faço participações regulares e a partir da próxima temporada serei um dos apresentadores. É essencialmente um programa de moda em que falo das últimas tendências a nível dos cabelos, e mais tarde é montado um salão nas ruas de Londres em que são escolhidas pessoas para fazer uma mudança de visual. A reacção das pessoas quando se vêem ao espelho é o mais gratificante pois não conseguem acreditar em como estão com um visual tão melhor! Outro projecto em Portugal é a participação nas séries do programa Doutor Preciso de Ajuda. k

Facto Bairro Alto Rua do Norte, 40-42. Bairro Alto 1200-286 Lisboa Tel. +351 214 478 821 Tlm. +351 969 846 545 Antony Millard, FactoBA Manager e Artistic Director

ba@factohair.com | www.factohair.com Horário Segunda das 13.30h às 20.30h Terça a Sábado das 11.30 às 20.30 Encerra aos Domingos


OPINIÃO Isabel do Carmo

Crise? Ou aprofundamento das desigualdades? A interrogação que aqui se coloca é se há verdadeiramente uma crise económico-financeira em vários países, entre eles Portugal, ou se o que se passa é simplesmente um agravamento das desigualdades sociais. Portugal tem uma situação particular porque há um problema estrutural histórico. A ligação com as colónias fez deste país um entreposto comercial, não houve industrialização, só tivemos 16 anos de república democrática e apanhámos quase 50 anos de ditadura. Este rescaldo histórico atinge várias gerações. Temos actuais licenciados, cujos pais nunca leram um livro e cujos avós eram analfabetos. Esta lógica decorre do facto de serem 40% de analfabetos no 25 de Abril de 1974. Tudo isto condiciona no dia a dia a capacidade de aprendizagem e a capacidade de ensinar para os que têm que ensinar. Não há literacia, pensamento lógico, pensamento aritmético, que galgue gerações. Depois apanhámos a globalização comercial que é muito boa para os globalizadores e muito má para os globalizados. É o nosso caso. E o país vive com dinheiro emprestado ao estrangeiro. Mas enfim, esse é o nosso caso e é necessário compreendê-lo. O nosso cérebro é igual ao dos outros, mas temos que dar tempo ao tempo. O triunfo dos ricos O problema é que para além desta situação particular, sofremos as consequências duma evolução mundial que se pode intitular “o triunfo dos ricos”. Em Portugal, aqui na finisterra da Europa, passa-se o que se passa no resto da região e do mundo – a desigualdade é cada vez maior entre

os que ganham muito e os que ganham pouco ou vivem da solidariedade estatal ou particular. A questão ultrapassa os clichés que tínhamos no passado. Já não se trata apenas dos “donos dos meios de produção” que exploram e empobrecem os que trabalham, embora por um raciocínio complicado pudéssemos chegar à mesma conclusão. Há uma nova classe social que beneficia da riqueza em termos verdadeiramente escandalosos. Tratase dos gestores das grandes empresas, dos detentores de cargos apenas de título, que nadam na riqueza criada muitas vezes não passando sequer pela produção, mas apenas por mecanismos financeiros. E como o dinheiro não é planta que se semeie e cresça, em algum lado ele falta. É a ONU que o diz: 2% da humanidade detém 50% das riquezas do globo e, inversamente 50% dos seres humanos possuem 1% das riquezas. E 1% dos mais ricos possuem 40% dos bens mundiais (Universidade das Nações Unidas, UNU-Wider, com sede em Helsínquia). A Forbes acaba de publicar a lista dos possuidores. Alguns deles são apenas herdeiros, senhoras e jovens ilustres. Sobre isto o Vaticano acaba de lançar o anátema: é pecado mortal. Mas atenção: é perdoável através da confissão e da oração… Alguns deles farão as obras de caridade respectivas e passa-se uma esponja sobre o assunto. Ética? Qual ética? Mais números. Desta vez os do relatório do PNUD de há três anos: “o património dos 15 mais ricos do planeta ultrapassa o PIB total da África subsahariana”. “Os bens das 84 pessoas mais ricas ultrapassa o PIB da China”. Previsões: daqui a 2016 o número de milionários vai dobrar nos países Do G7. São boas notícias … Qualquer um pode ser milionário… Ou seja, enquanto eles dobram, as desigualdades também dobram. Os banqueiros e os pobres Entre os grandes ganhadores do sistema estão os banqueiros, com salários magníficos, prémios extraordinários e reformas escandalosas.

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Os grandes bancos de Wall Street pagaram a certa camada dos seus “empregados” 66 biliões de dólares em 2007 – mais 9% que em 2006. Para obter estes prémios a manipulação financeira e as taxas de juro são o instrumento. Não fazem nada na produção do país. São as novas “casas de prego”, onde os pobres vão deixar todos os meses o seu dinheiro para pagarem casas e carros que só por ilusão são seus. Os novos ricos ensinaram aos novos pobres que é bom gostar de casa, carro, viagens, roupa … E que para isso têm que se endividar aos primeiros. Não é preciso ir a Wall Street. Não se vê em Portugal o que ganham os banqueiros? Enquanto os pobres têm que deixar ir a casa a leilão porque não têm dinheiro para pagar os juros. E não têm dinheiro porque ficam desempregados, por sua vez porque as empresas têm que ter “rentabilidade” para satisfazer os accionistas. Ou seja: despedir, pagar menos salários, explorar o trabalho sem horas, nem regras. O trabalho precário, o desemprego sazonal, os jovens com instabilidade e salários que impedem a autonomia são a factura da “rentabilidade”. Ou seja, o sofrimento humano é o combustível que alimenta a rentabilidade das acções. Com este clima do salve-se quem puder o trabalhador culpabiliza-se, acha que não vai conseguir, empurra o colega, está em ansiedade todo o dia. A corrupção, os vários casos que são apanhados, a desvergonha com que as elites se enganam entre si e também aos dinheiros públicos e o corolário desta engrenagem. Faz parte do sistema. Em grande pecado vivem algumas pessoas e famílias neste mundo! Mas o que é curioso é que não lhes vai o inferno na alma! São pessoas “normais”, como foram sempre seres humanos “normais” os que fizeram as maiores barbaridades. Riem, sorriem, são simpáticos e dizem mesmo que são apenas uma roda do sistema. As barbaridades actuais fazem-se afinal de mãos limpas e com muita democracia. E a crise é de “falta de valores” dizem eles. É de “falta de responsabilidade das famílias” dizem eles. Mas “lá em casa os piquenos têm todos uma forte formação moral”. Assim seja… Esta é a crise. Nos EUA, na França, na Alemanha, na Grã-Bretanha, em Portugal. Já para não falar de África.

Crise? Qual crise? Os lucros são sempre privatizados e os riscos são sempre distribuídos pelo “povo”. A única esperança é que o sistema em si esteja de facto em crise. Viver na base da espiral financeira pode anunciar um fim. Mas entretanto gozam os predadores e sofrem os outros. Talvez haja uma luz de esperança lá ao fundo. É preciso lutar por ela. k ABRIL 2008

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QREN

Desenvolvimento social e económico do território Helena Pinheiro Azevedo, gestora do Programa Operacional Temático da Valorização do Território (POVT), fala das grandes áreas de intervenção de um programa que até 2013 vai dar um “contributo muito significativo para o desenvolvimento social e económico do território”. O POVT é composto por 10 eixos, quais são as grandes áreas de intervenção? O Programa Operacional Temático Valorização do Território integra-se na Agenda Operacional para a Valorização do Território do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN 2007 - 2013), a qual tem por objectivo dotar o país e as suas regiões de melhores condições de atractividade para o investimento produtivo e de condições de vida para as populações, abrangendo intervenções de natureza essencialmente infra-estrutural e de dotação de equipamentos essenciais à qualificação dos territórios e ao reforço da coesão económica, social e territorial.

O que é que está pensado em termos de reforço da conectividade internacional? O reforço da conectividade internacional do país é um dos objectivos mais relevantes, pretendendo-se atingir em 2015 o seguinte perfil de conectividade do território nacional: operacionalizar as ligações em falta inseridas na Rede Transeuropeia de Transportes; reforçar a posição de Portugal como plataforma de acesso à Europa, no conjunto das principais rotas marítimas e aéreas; suprir as descontinuidades das redes de transportes no território continental e as insuficiências no desenvolvimento da intermodalidade; melhorar a interoperabilidade da rede ferroviária com Espanha. Para se atingirem estes objectivos, prevê-se o financiamento comunitário, através do POVT, dos seguintes projectos: construção da rede ferroviária de alta velocidade (Lisboa/ Madrid, Lisboa/ Porto e Porto/ Vigo); construção de uma linha ferroviária directa para transporte pesado de mercadorias entre Sines e Elvas; construção de troços que vêm completar a rede rodoviária principal das áreas metropolitanas de Lisboa e de Setúbal; criação de infra-estruturas logísticas, físicas e tecnológicas,

» Helena Pinheiro Azevedo, gestora do POVT

associadas aos centros intermodais e às Auto-estradas Marítimas, que estimulem o transporte marítimo, em desfavor do transporte rodoviário. E em termos das acessibilidades e da mobilidade que estão intimamente ligadas à política de cidades? O POVT tem também por objectivo concorrer para a melhoria das acessibilidades e da mobilidade territorial, estando previsto o financiamento comunitário (FEDER) deste Programa à construção/ beneficiação de alguns Itinerários Principais (IP’s) da rede rodoviária, privilegiando o interior do território,

Grandes áreas de intervenção do POVT centram-se nos seguintes domínios e objectivos estratégicos:

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- Desenvolvimento das Redes e Equi-pamentos Nacionais de Transportes; - Reforço da rede estruturante de abas-tecimento de água e de saneamento de águas residuais, na vertente “em alta” e “modelo verticalizado”; - Combate à Erosão e Defesa da Orla Costeira; - Melhoria do sistema nacional de protecção civil e aumento da sua resiliência, através do reforço de infra-estruturas, equipamentos, meios e instrumentos necessários a todas as fases do processo de protecção civil; Recuperação dos passivos ambientais, designadamente a reabilitação de locais contaminados e de zonas mineiras abandonadas; - Desenvolvimento de redes e equipamentos estruturantes nas Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, no que respeita a infra-estruturas de transportes e ambientais que promovam o desenvolvimento sustentável destas regiões; ABRILdas 2008 - Conclusão infra-estruturas da rede Primária de abastecimento de água do Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva;


QREN

destacando-se o caso particular do IP4. No que respeita às redes de infra-estruturas e equipamentos para a coesão territorial e social, o POVT terá essencialmente intervenção nos seguintes domínios: requalificação da rede de escolas com ensino secundário, onde se prevê apoiar a modernização de uma parte significativa do parque escolar constituído por 234 escolas; construção de um número adequado de infra-estruturas e equipamentos desportivos de base, incluindo grandes campos de jogos em relva sintética, pistas de atletismo, pavilhões e outros adequados a uma prática desportiva permanente das populações, em regiões carenciadas; construção de equipamentos colectivos necessários ao completamento e qualificação das redes nacionais com efeitos estruturantes na diferenciação e competitividade dos principais centros urbanos, nomeadamente nos domínios da saúde, da inovação, do conhecimento, do ensino superior incluindo acção social, e da cultura. As parcerias público-privadas são bem aceites? As parcerias público-privadas são bem aceites e até estimulada a sua constituição bem como de outras formas associativas de promotores de

projectos, sempre que se revelar ser este o mecanismo mais eficiente para a montagem financeira dos projectos e para o seu modelo de gestão, uma vez que permite a alavancagem de investimentos importantes para o país que se prevêem realizar nos próximos anos, designadamente no que respeita è rede ferroviária de alta velocidade e às infra-estruturas rodoviárias. A 21 de Dezembro iniciouse o processo de abertura de candidaturas a alguns eixos. Desde essa altura já foram recepcionadas muitas candidaturas? O processo de abertura de candidaturas ao POVT tem sido gradual desde essa data, com a publicação sucessiva de Avisos de Abertura no site deste Programa (www.povt.qren.pt). A partir do próximo mês de Abril teremos todos Eixos do Programa abertos à apresentação de candidaturas, abrangendo quase todos os seus domínios de intervenção e com um nível de financiamento disponível na ordem dos 70%, o que revela bem a perspectiva de abertura deste Programa, a qual tem por objectivo não causar qualquer restrição financeira ao apoio de investimentos de qualidade que se encontrem em

fase de arranque, a aprovar com base em princípios de elevado nível de selectividade. Quais as suas expectativas findo 2013? Considera que teremos um país mais competitivo ao nível infra-estrutural e mais cumpridor em termos ambientais? Porque, no fundo, o POVT visa reforçar a coesão económica, social e territorial? Os objectivos e metas previstos no POVT são muito claros em termos estratégicos, visando dar um contributo muito significativo para o desenvolvimento social e económico do território, através do apoio dos fundos comunitários colocados ao nosso dispor - FEDER e Fundo de Coesão num total de 4,6 Mil milhões de euros - que permitirão alavancar um volume global de investimentos na ordem dos 6,6 mil milhões de euros a realizar no período 2007 – 2013. Trata-se pois de um relevante instrumento de financiamento ao dispor do desenvolvimento sustentável do nosso país. k Leia esta entrevista na íntegra em www.revistaperspectiva.info

- Reforço da conectividade interna e externa do território, através de intervenções de construção/beneficiação de Itinerários Principais da Rede Rodoviária Principal e do desenvolvimento de infra-estruturas logísticas, físicas e tecnológicas associadas aos centros intermodais e às Auto-estradas Marítimas; - Reforço das infra-estruturas nacionais para a valorização de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU); - Desenvolvimento das redes nacionais de equipamentos urbanos, em domínios onde existe uma aposta nacional de aumento da procura, nomeadamente a rede de escolas com ensino secundário e as infra-estruturas e equipamentos desportivos de base e especializados; - Construção de equipamentos de elevada raridade ou dotados de grande área de influência, que contribuam para a afirmação e diferenciação de alguns centros urbanos dos níveis superiores da hierarquia urbana e para o reforço do policentrismo; - Desenvolvimento de projectos-piloto que constituam soluções inovadoras para problemas urbanos, contribuindo para o desenvolvimento de comunidades urbanas sustentáveis ABRIL 2008

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QREN

Política de rigor e transparência O Instituto Financeiro para o Desenvolvimento Regional (IFDR) é responsável pela coordenação financeira dos fundos estruturais comunitários e do Fundo de Coesão. Em entrevista José Soeiro, presidente do Conselho Directivo deste Instituto, fala da estratégia de gestão e deixa uma mensagem: “os fundos existem porque os cidadãos contribuem financeiramente para eles e, portanto, devem ser informados sobre a forma como são geridos e sobre os resultados da sua aplicação”. Qual é a missão do Instituto Financeiro para o Desenvolvimento Regional? O IFDR é um organismo público orientado para a execução da política de desenvolvimento regional, através da aplicação dos fundos comunitários e, em particular, do FEDER e do Fundo de Coesão. Surge num quadro de profunda alteração dos modelos organizacionais dos serviços do Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional, desenvolvida com base nas orientações definidas pelo Programa de Re-estruturação da Administração Central do Estado e nos objectivos definidos no Programa do governo no que respeita à modernização administrativa e à melhoria da qualidade do serviço público com ganhos de eficiência. Sucede à Direcção-Geral do Desenvolvimento Regional, criada em 1986, cuja estrutura orgânica foi sendo alvo de sucessivas adaptações funcionais ao longo do tempo, à medida que foi recebendo novas responsabilidades e exigências. De que meios possui para atingir os seus objectivos? Está dotado de uma estrutura moderna e adequada a novas modalidades de funcionamento e a novos quadros de actuação, possui uma natureza 36

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jurídica de instituto público, integrado na administração indirecta do Estado, dispondo de personalidade jurídica, autonomia administrativa e financeira e de património próprio. A sua natureza jurídica está adequada ao exercício das suas funções, quer no âmbito do QREN 2007-2013, quer no âmbito do QCA III, referente ao período 20002006. O estatuto legal de instituto público confere-lhe o protagonismo necessário para o cumprimento da sua missão e uma capacidade acrescida para determinar os meios a utilizar na concretização dos objectivos definidos. Permite-lhe, também, um maior grau de flexibilidade na gestão dos recursos humanos e materiais, indispensável para viabilizar uma ágil adaptação às necessidades do serviço a prestar, tendo capacidade jurídica de intervenção em todo o território nacional. Quem tutela o Instituto? O IFDR actua sob superintendência e tutela conjunta do Ministro do Ambiente, que tem a tutela do desenvolvimento regional, e do Ministro de Estado e das Finanças. A nossa missão é dar execução à política de desenvolvimento regional, através da coordenação financeira dos fundos estruturais comunitários e do Fundo de Coesão, da coordenação, gestão e monitorização financeira do FEDER e do Fundo de Coesão, e do

» José Soeiro, presidente do Conselho Directivo do IFDR

exercício das funções de pagamento e de controlo das intervenções destes fundos. Como decorre a gestão do FEDER e do Fundo de Coesão? Com efeito, a nossa actuação está focalizada na coordenação financeira global dos fundos estruturais comunitários e do Fundo de Coesão, designadamente na gestão e monitorização física e financeira do FEDER e do Fundo de Coesão e das medidas de assistência técnica destes fundos. Para tal, somos Autoridade de Certificação e entidade pagadora do FEDER e Fundo de Coesão, no QREN, e autoridade de pagamento, no QCA III, relativamente aos mesmos fundos. Cabe-nos também a responsabilidade de exercício da


QREN auditoria das operações, no QREN e de Autoridade de controlo de 2º nível do FEDER e do Fundo de Coesão, no QCA III.

“IFDR vai ser responsável pela regular utilização e pelo pagamento de cerca de 14,5 mil milhões de euros” O QREN vem dar um novo impulso ao desenvolvimento do país. De que forma? O IFDR está orientado para a prestação de um serviço com qualidade que possa gerar um sentimento de satisfação e reconhecimento público desse facto, além de corresponder totalmente às necessidades dos seus utilizadores. Para concretizar este objectivo temos em conta a necessidade de conseguir melhorar sistematicamente os serviços prestados, tentando simultaneamente reduzir os custos totais de funcionamento e os encargos necessários à sua actividade. Aumentos de eficiência e de eficácia serão lemas sempre presentes. Valorizamos também uma herança de mais de 20 anos de experiência nesta actividade, o que representa um activo importante para conquistar a confiança dos parceiros. A definição de uma estratégia adequada, centrada numa visão moderna do serviço público, uma

gestão eficaz dos recursos humanos e materiais, a adopção de procedimentos modernos e inovadores, a aplicação de uma política de rigor e transparência e, acima de tudo, a motivação de uma equipa que dispõe de uma capacidade técnica inquestionável, são as bases para o êxito deste projecto. Esta visão estratégica deverá ter o reconhecimento e o estímulo de uma certificação da qualidade do sistema organizativo, segundo as normas internacionalmente reconhecidas no âmbito da ISO. Este projecto ambicioso constituirá um referencial para a concretização do IFDR desde o seu início. Em termos de futuro, quais vão ser as próximas acções do Instituto? O QREN vai ser concretizado num quadro legal bastante mais exigente, quer em termos das regras comunitárias relativas à boa gestão dos fundos estruturais quer por força das próprias exigências nacionais. No conjunto do QREN e do que ainda falta executar em QCAIII e no Fundo de Coesão II, o IFDR vai ser responsável pela regular utilização e pelo pagamento de cerca de 14,5 mil milhões de euros. A necessidade de prestar contas “aos donos do dinheiro”, que são o contribuinte português e o orçamento comunitário, de modo regular e, também, de demonstrar a existência de organização, métodos de trabalho e práticas em conformidade, são necessariamente as nossas prioridades

de intervenção. Neste novo período de programação o IFDR vai passar a pagar directamente aos promotores dos projectos, o que representa um desafio novo e exigente, uma vez que foi fixada a meta de os pagamentos serem realizados no prazo de 15 dias. Esta nova forma de actuar, que prevê o pagamento no prazo de 15 dias, implica uma maior celeridade em termos processuais? A necessidade de desenvolver um adequado sistema de informação, seguro, fiável e eficaz, é o desafio em que de momento estamos mais envolvidos. De acordo com a nova regulamentação mais exigente, antes da apresentação do primeiro pedido de reembolso à Comissão Europeia, teremos de apresentar uma descrição dos sistemas de gestão e controlo acompanhada de relatório de qual constem os resultados da avaliação dos sistemas criados e uma análise da sua conformidade com as disposições regulamentadas aplicáveis. Até lá estão todavia já assegurados os primeiros pagamentos aos promotores de projectos QREN, a título de reembolso de investimentos realizados e de adiantamentos à sua realização, uma vez que já recebemos o designado pré-financiamento e que totaliza cerca de 240 milhões em FEDER e Fundo de Coesão e, o Governo previu no OE a possibilidade de antecipar o pagamento de fundos comunitários, através do recurso a Operações Especiais de Tesouro, estando para o efeito o IFDR autorizado a mobilizar até 800 M€ nestes fundos. Finalmente, propusemo-nos desenvolver uma ambiciosa estratégia de comunicação destes fundos, com a qual pretendemos criar uma percepção geral positiva sobre o resultado da aplicação do FEDER e do Fundo de Coesão, darlhes notoriedade e criar uma imagem favorável nos decisores e promotores de iniciativas. Esta estratégia e comunicação deve também acentuar a ideia de que os fundos existem porque os cidadãos contribuem financeiramente para eles e, portanto, devem ser informados sobre a forma como são geridos e sobre os resultados da sua aplicação. k ABRIL 2008

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OPINIÃO Jorge Castro

Será que o povo ainda existe? Ao olhar para a inefável máscara da senhora ministra da Educação em entrevista logo após o imenso e nacional protesto indignado dos Professores, para além do constrangimento que o caricato da sua obstinação me suscitou, trouxe-me à colação um poema de Bertold Brecht que assim se inicia: “Todos os dias os ministros dizem ao povo / como é difícil governar. / Sem os ministros / o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima...”, etc., etc.. Recomenda-se, claro a leitura de todo o poema. Debato-me com uma dúvida profunda quanto ao entendimento de tanta cega teimosia perante o povo que governa, por parte dos governantes que o mesmo povo elegeu. O que os moverá? Um secreto desígnio, de inspiração divina, a que apenas os iniciados no Olimpo têm acesso, chafurdando a plebe amorfa no

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pântano da mais abjecta ignorância e sem capacidade de discernimento para se alcandorar ao voo das nuvens? Ou será - em longitude tão mais terráquea – que se trata apenas de governar o povo contra os interesses desse mesmo povo, para favorecimento de toda a casta de outros interesses muito particulares e privados, em subversão assumida do conceito de estado? Admitir-se-á, ainda que sem grande crédito, a possibilidade de se tratar de um desvario colectivo de todo um elenco governamental que aconselha a urgente recurso a consultório psiquiátrico, por razões de tal forma inusitadas que esvaziam culpabilizações por inimputabilidade dos seus agentes… Continuando a leitura de Brecht, deparo com a seguinte afirmação: “Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso.” E, na verdade, enquanto cidadão e observando esta guerra sem quartel movida aos Professores do ensino público, com os resultados que vão do zero absoluto à absoluta catástrofe no que respeita a conteúdos educativos pedagógicos, modelos educacionais, sucesso escolar, condições de trabalho para alunos e professores, numa palavra, ao arrepio do que será a

qualidade do ensino que a todos devia preocupar, receio aperceber-me que (mais) três anos de experimentação espúria ou mal intencionada, por parte de quem manda, resultaram em pura perda, donde ressalta tão só um estado demencial de guerra civil. Ora, se a minha visão não me distorce a realidade, neste enquadramento, a mentira reiterada é criminosa, por ser todo o futuro de um país que está a ser malbaratado por governantes que entendem a sua governação como exercício de espadeirada e cachaporra. Porque não é, pois, o futuro dos Professores que está em causa neste terçar de armas sem fim que opõe o actual Ministério à classe docente. É o futuro de um país todo e mal se entende que alguém não olhe para a dimensão deste conflito com a óbvia preocupação que ele suscita. A demagógica e deliberada máintenção ao centrar o problema num idiota processo trapalhão de avaliação é um sintoma temível da mentira instalada. Nenhum Professor contesta um sistema de avaliação, por si só. Contesta, sim, esta avaliação e com toda a legitimidade, pois se trata de cuidar dos interesses tão mais vastos da cultura de um povo, que não podem estar sujeitos a calendários eleitorais. k


E-MARKETING

O Próximo Google?.... Não! Muito, Muito Maior….

(Parte 1)

Estive recentemente no Mobile World Congress em Barcelona, onde vi o coração de uma indústria que bate como poucas: as comunicações móveis. O “The Next Google” é uma criação de Scott P. Shaffer, da qual decidi fazer uma adaptação e que introduz um tema de referência para o futuro das comunicações, da Internet e …da publicidade. Sei que soa a cliché, falar-se do “próximo Google”, mas penso que quando combinarmos o telemóvel, com comércio e publicidade, o “próximo Google” sairá desta fusão, e será muito, muito melhor. Voltemos 15 anos atrás e tentemos explicar o que é que a World Wide Web teria para oferecer ao comum dos mortais, nessa altura. Ao tentar explicar esta questão, tentemos visionar uma explicação para o que a WWW representava ou o que poderia vir a ser dali a 15 anos. Hum…? Computadores interligados através de uma linha telefónica permitindo ver imagens digitais (sites)? - O que vou fazer com isto? A tendência que emergiu foi, pornografia, ���chats”, consulta de emails e depois o comércio. A WWW parecia tão distante há uns anos atrás e agora não conseguimos sequer imaginar como seria viver sem ela. Peguemos no exemplo do comando da TV. Há muitos anos atrás, tínhamos que nos levantar de cada vez que queríamos mudar de canal. Os anunciantes odiavam o controlo remoto, porque nós já não éramos uma audiência cativa aos 30 segundos de spot publicitário. Agora pensemos nos telemóveis, já NINGUÉM consegue imaginar viver sem um. Com cada uma destas invenções, parece que a capacidade de aceder a informação se está a tornar cada vez mais rápida.... e agora, está a tornarse móvel. E aqui está a grande oportunidade.

Como se acede à informação quando não estamos na nossa secretária a usar o Google? Como havemos de fazer compras no site da Amazon quando não estamos em frente ao PC? Pense numa tecnologia que faz com que um telemóvel seja tão funcional, senão até, mais que o PC. Agora tente encontrar a plataforma que permita as compras e a interactividade com o mundo físico através do telemóvel. Eis o seu próximo Google. O próximo Google será “essa” plataforma que me permite fazer as mesmas coisas que faço no meu PC, só que com o meu telemóvel. (to be continued) O que torna o Ebay, a Amazon, o Yahoo e o Google tão bem sucedidos? Todos eles são portais associados a uma tarefa específica na web. O que faz o Google ter tanto sucesso? Eles são os melhores em permitir que um utilizador pesquise seja o que for e os anunciantes sabem que é para aqui que o tráfego se dirige. Há milhões de pesquisas diferentes efectuadas todos os dias. Isto significa que há milhões de sites diferentes que os anunciantes podem usar. O Google é um portal que nos permite chegar a infindáveis sites, para possibilidades infindáveis de anunciar. Cada pesquisa é diferente e contém diferentes palavras-chave, o que permite a todos os anunciantes a possibilidade de anunciar. Os anunciantes podem anunciar nos motores de busca mais pequenos, mas escolhem fazê-lo onde todos nos encontramos. Com a TV, era um modelo organizado. Era um anúncio de 30 segundos que era colocado no intervalo de um

programa de meia hora. Mas agora com o equivalente a milhões de canais de TV (a Internet), o modelo que define onde colocamos a nossa publicidade está em causa. Há também a questão de termos passado a ver publicidade num écran em 32cm quando a regra anterior era de pelo menos 76cm. E agora, vamos querer ver publicidade através de um rectângulo com pouco mais de 6cm quadrados? Agora com a Net, todos os olhos estão postos no canal Google. Há duas componentes para pesquisa. Primeiro, o utilizador quer encontrar qualquer coisa. Segundo, o anunciante quer captar a atenção dos utilizadores e direccionar tráfego para o seu site. Os motores de busca têm tentado conciliar a pesquisa de informação de cada utilizador com a publicidade relevante a essa mesma pesquisa. O motor de busca é o equivalente ao canal de TV e as possibilidades de pesquisa correspondem aos programas a aceder. É assim que podemos resumir a publicidade na Internet neste momento. O que eu acho espantoso é que ainda é colocado muito mais esforço na construção de um site, do que na forma de conseguir levar as pessoas a acedê-lo. Este é um dos grandes problemas da publicidade na Internet. O modelo deveria ser invertido. Tudo se resume ao tráfego. As marcas têm todos os dias mais tráfego do que QUALQUER motor de busca consegue alguma vez produzir. Pense na próxima vez que for a um Shopping, ou a qualquer supermercado. Todos os DVDs, TVs, embalagem de iogurte ou caixa de Skip podem ser um site. Todos os produtos em todas as lojas são um site. Todos os dias, as ABRIL 2008

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E-MARKETING

pessoas passam pelo seu site e você até agora nunca foi capaz de captar a sua atenção. O tráfego está lá todos os dias, a diferença está em converter o tráfego físico em tráfego nos sites. As marcas encontram-se presentes em ambos os mundos, electrónico e físico. Pergunte a si próprio: Qual é o CANAL a que acede TODOS OS DIAS? Não passa um dia sem que você não o aceda várias vezes. TVI? RTP? SIC Notícias? CNN? Google?.... Não! Este canal é o do seu operador de telemóvel! Sempre que olha para o seu telemóvel, basicamente está a consultar a TMN, a Optimus, o canal da Vodafone… Pense nisso. Não importa se está a navegar, a escrever um sms, a conversar. Você está no canal do seu operador. O seu ecran está sempre ligado, sempre consigo e capta SEMPRE a sua atenção quando se ilumina. EIS O NOVO ESPAÇO QUE A PUBLICIDADE VAI AGARRAR. É UM CAMINHO DEMASIADO VALIOSO PARA NÃO O FAZER. Mas anunciar no telemóvel será bastante diferente de o fazer num PC. O PC é visionado no local de trabalho e em casa, em dois ambientes diferentes. O telemóvel está connosco no carro, ao almoço, no jogo de futebol. Os anunciantes têm uma audiência cativa. Só precisam de uma “permissão”… Terá que ser “permitido”. Ninguém vai querer spam quando está a conversar, a navegar ou a fazer sms. Você também não vai permitir spam interminável (como na TV) que lhe consume o tempo e a bateria do seu telemóvel. Sim, a publicidade nos telemóveis será bastante diferente. Peguemos num objecto, o telemóvel, que toda a gente tem consigo a todas as horas, e tornemo-lo verdadeiramente funcional. A tecnologia tornará um “smartphone” realmente “smart”. Daqui a 5-10 anos, estaremos a dizer: lembram-se de quando nós só 40

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utilizávamos o telemóvel para falar e para escrever sms? As receitas de voz estão a chegar ao seu limite e os operadores estão a ver o ARPU (average revenue per user) a descer. Como é que eles vão aumentar o ARPU? Que tal tornar o telemóvel interactivo? Provavelmente, os operadores deveriam acordar e transformar o telefone num aparelho interactivo. Um aparelho interactivo permite extrair dados, e permite a compra de bens e serviços. Como é que os operadores tornarão os seus telefones interactivos? Há 10 anos atrás, aposto que nunca pensaram que seria possível colocar uma máquina fotográfica num telemóvel. Esse gadget é uma enorme oportunidade para os operadores mas eles ainda não a estão a ver. A enorme oportunidade não está em conseguir tirar fotos engraçadas e enviá-las para os amigos. A câmara é uma aplicação que torna qualquer telemóvel numa máquina de leitura. A câmara, juntamente com um “hiperlink” do mundo físico permite a ligação directa a qualquer site com qualquer item físico no mundo. O “hyperlink” do mundo físico permite a qualquer telemóvel efectuar uma compra com um click, obter um desconto através de um click, fazer um download através de um click, ou chegar a um serviço através de um click. O PWH (physical world hyperlink) dá a um site da Internet uma presença física. Não pense num código de barras como um código de barras, imagine que é um endereço na Internet e que o seu telefone permite uma ligação apenas clicando nele. Não há necessidade de escrever o endereço do site, basta clicar nele. As marcas têm a oportunidade de encaminhar consumidores para os seus sites através de milhões de produtos. Com um PWH, qualquer coisa no mundo físico pode ter um link a um website. A mais valia reside em decifrá-lo com um “browser”. Agora, desde que se possa aplicar um código a um item do mundo físico, pode-se aceder a qualquer site a partir

de qualquer lugar em que estejamos. Nesta perspectiva, o telemóvel passa a ser o rato do mundo físico. Clicando nos items (com um PWH), o telemóvel poderá levá-lo a qualquer sítio ou a fazer qualquer coisa. Um telemóvel é um rato portátil e os códigos de barras são endereços de sites. O “próximo Google” é o “browser” que conecta ambos. Esta plataforma/”browser” tornará um telefone verdadeiramente inteligente. O rato permitiu eliminar o trabalho de teclar comandos num computador. Será que a câmara fotográfica e o reconhecimento da voz farão o mesmo com o telemóvel? O rato simplificou a utilização do computador. Em vez de escrever comandos, hoje clicamos em links. Transportando esta funcionalidade para um telemóvel, será que temos que escrever longos e confusos endereços de sites na barra de pesquisa? Não me parece. Ou será que a câmara fotográfica vai funcionar como o rato para o telemóvel no mundo físico? Não importa se temos um Nokia, um Motorola ou um Blackberry. Não faz diferença se é utilizador de um ou de outro operador. Este protocolo será universal. Não precisará de ir a um website para o usar. Será uma plataforma, incluída no próprio telemóvel. Com o seu telemóvel, você estará a comunicar directamente com um site através do PWH. O telemóvel e o “Physical World Hyperlink” serão o modelo de publicidade interactiva e com permissão para o futuro. Quando passar à prática, isto será uma inovação altamente cobiçada por todos os operadores, pelas marcas e os utilizadores de telemóveis vão querer esta tecnologia. Cada um, retirará algum benefício do PWH. O operador tem um aumento do ARPU. As marcas vão aceder a milhões de potenciais clientes e passam a ter uma interacção directa. O utilizador de telemóvel poderá clicar num CD do Elton John e fazer o download de uma música ou comprar bilhetes para o seu próximo concerto. Sim, isto será “o próximo Google”, mas muito, muito melhor. k


E-MARKETING

Platinum Systems A internet, como a conhecemos hoje, traduz-se numa nova existência para as empresas. Quer vendam produtos, serviços ou até ideias, é uma presença obrigatória para quem procura posicionar-se num mercado de concorrências agressivas e de realidades ainda mais duras. Este novo espaço, que de novo começa a ter muito pouco, e que nos faz repensar a própria ideia de espaço, pode abrir um mundo inteiro de oportunidades a todos os que o compreendam. Cada vez mais, estar na internet está para além de aí ter uma presença passiva. Dada a crescente quantidade e diversidade de páginas existentes em todo o mundo, torna-se imprescindível fazer uso de ferramentas que nos permitam encontrar e ser encontrados. É aqui que o e-business encontra um paralelo estrutural com qualquer negócio de sucesso que sobreviva fora do espaço virtual. A preocupação com a qualidade e eficácia da imagem, a necessidade de tornarmos visíveis e apetecíveis as nossas empresas, produtos e serviços, juntamente com todos os restantes componentes de uma estratégia de comunicação consertada, são inseparáveis da gestão empresarial desde há décadas. O marketing, como acabou por se chamado este conjunto de iniciativas que visam estabelecer uma comunicação eficaz entre as empresas e os seus clientes, continua assim a estar na base de qualquer negócio de sucesso. Da mesma forma, tomamos agora consciência que o e-business é um negócio real, tão ou mais real que qualquer outro – com características

diferentes, é certo, com um potencial inequívoco, aberto 24 horas por dia, 365 dias por ano, com funcionários que nunca se atrasam, enfim... uma loja com espaço extra na montra para todos os seus produtos, com sede em qualquer ponto do globo. Porém, esta nova forma de existir, este novo espaço ainda indefinido e em constante mutação, obriga-nos a recriar estratégias, a repensar a comunicação e a conhecer também os seus novos públicos ciberconsumidores. E, porque a forma de pensar é necessariamente diferente, é necessário também que se acrescente ao marketing o ‘e-’ que o distingue dos meios mais tradicionais. Na PlatinumSystems temos vindo a desenvolver competências na área do e-marketing que permitem aos nossos clientes encontrar na internet o seu espaço, implementando de forma económica negócios autosustentáveis, com resultados visíveis e quantificáveis. Não só através de estratégias de comunicação dirigidas, muitas vezes complementares aos suportes físicos de publicidade mais comuns, mas

Por Paulo Oliveira, executive director

também ao nível da produção e revisão de conteúdos, procuramos garantir que sejam encontrados pelos consumidores e que a eles se dirijam e comuniquem eficazmente. Portanto, quer seja na criação de uma página de internet [web development], na implementação, transferência ou prolongamento do seu negócio para o ciberespaço [e-business] ou no desenvolvimento de estratégias que assegurem o retorno dos seus investimentos neste espaço de características únicas [e-marketing], criamos a solução à sua medida! k

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E-MARKETING

5 boas razões e 1 má razão

para estar no top dos motores de busca São muitas as empresas que ainda não descobriram os benefícios de uma boa estratégia de Search Engine Marketing. Neste texto identifico boas razões para que os gestores das empresas e das marcas tenham em consideração o marketing nos motores de busca, cada vez mais a principal área de investimento no marketing online.

Por Ricardo Freire dos Santos, director-geral Search Marketing

A má razão para estar no top das pesquisas é uma boa razão para investir... Qual é? Quantas vezes já encontrou referências negativas no top das buscas quando se pesquisam nomes de empresas, marcas ou produtos? Certamente algumas. Porque é cada vez mais fácil através de fóruns, blogs e sites de reclamações um consumidor não satisfeito emitir opinião, justa ou injustamente, e assim influenciar a decisão de muitos potenciais clientes. As empresas devem monitorizar o que se escreve na web sobre as suas marcas e produtos, e principalmente estarem atentas ao top dos motores de busca, para minimizarem o efeito das referências negativas e maximizarem o impacto das positivas. Este processo chama-se Online Reputation Management (ORM). Boas razões para estar no top dos motores de busca... I. A Pesquisa é a principal actividade na Web Grande parte dos utilizadores da Internet tem como primeira página no browser um motor de busca ou têm instalada uma Toolbar de pesquisa. Fazem-se 2.000 milhões de pesquisas diariamente em todo o mundo. No estudo Mediascope Europe 2007 da EIAA (www.eiaa.net) confirma-se que a pesquisa é de facto a actividade principal na Internet, à frente do e-mail e com grande diferença em relação a actividades como o messaging ou o download de músicas e vídeos. 42

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II. A palavra ou frase pesquisada indica uma intenção ou necessidade Os motores de busca funcionam como uma base de dados das necessidades e intenções humanas. Aparecer no topo da lista na altura em que um potencial cliente manifesta uma necessidade é garantidamente uma grande vantagem para qualquer empresa ou marca. III. A pesquisa é um factor importante no processo de compra A pesquisa é cada vez mais um factor muito relevante no processo de decisão, seja de uma compra online ou de uma compra tradicional (offline). Comprar um automóvel, uma casa, um telemóvel, um livro ou escolher um médico, uma ida ao cinema, um seguro são decisões que passam pelos motores de busca. Mesmo o poderoso “passa-a-palavra” de conhecidos e amigos é complementado com uma pesquisa. IV. 97% dos utilizadores não passam do top 10 Conquistar um lugar no top 10 nas palavras relevantes para o negócio é essencial e será cada vez mais uma vantagem competitiva. Só 2,7% dos utilizadores passam para a 2ª página de resultados e só muito poucos é que chegam à 3ª página. V. Estar no top das pesquisas significa elevado retorno As visitas geradas nos motores de busca são tráfego muito qualificado, pois sabemos que estão à procura daquilo que o website tem para oferecer. A consequência natural é

que a visita qualificada se converta numa acção valiosa: um registo, um download, um pedido de informação, uma reserva ou uma compra. O retorno de uma boa visibilidade nos motores de busca é elevado! Como chegar ao top dos motores de busca? Existem dois tipos de resultado nos motores de busca, os pagos (links patrocinados) e os não pagos (resultados naturais) que estão relacionados com a relevância dos conteúdos. O marketing nos motores de busca consiste num conjunto de técnicas para um website aparecer bem posicionado tanto nos resultados naturais (SEO), bem como nos resultados pagos (PPC). Só há boas razões para investir em Search Engine Marketing. k Saiba mais sobre a Search Marketing info@searchmarketing.pt www.searchmarketing.pt Tel./Fax + 351 214 194 460


E-MARKETING IAB Portugal

Uma realidade digital

bem real

Evangelização eMarketing, Marketing Interactivo e Marketing Digital. Qualquer uma das designações faz parte do discurso actual dos Marketeers. O número de Agências de Marketing Digital está a aumentar, umas mais especializadas que outras, mas o mercado aprendeu e depressa separou o “trigo do joio”. Ainda em fase embrionária, os anunciantes têm já uma clara noção de que parceiros devem procurar para os auxiliar na comunicação online. As Agências de Marketing Digital gradualmente têm vindo a assumir o protagonismo, deixando de ser meras subcontratadas, passando a ser reconhecidas como um parceiro essencial em toda a estratégia de comunicação. Não é de todo inocente a estratégia dos grandes grupos de comunicação/marketing que têm vindo a adquirir ou a estabelecer fortes parcerias com Agências Digitais, que normalmente têm pequena dimensão, tentando posicionarse da melhor forma para garantir um serviço de marketing global e abrangente. Mercado Os consumidores têm sido a força motriz desta dinâmica, alterando os seus hábitos e ferramentas de consumo. Um jovem europeu, entre os 16 e 24 anos, consome mais horas na Internet do que em qualquer outro meio, conforme referido pela EIAA no Mediascope de 2007. Atentos a esta movimentação, os anunciantes migram gradualmente os seus investimentos publicitários para o sector digital. O aumento anual ronda os 30%, embora ainda distante da proporção real, investimento versus tempo de consumo de cada meio. No entanto é expectável que a curto prazo, o investimento no digital ultrapasse o da televisão, como acontece este ano na Suécia e se prevê que aconteça em 2009 no Reino Unido, de acordo com um estudo recente do Group M.

Fonte: EIAA Mediascope Europe 2007

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Por Ricardo Pereira, business manager Elemento Digital

Mensurar Na Internet, as métricas de eficácia são mais que muitas, e atrevo-me a afirmar que é o meio que apresenta mais dados, com maior nível de detalhe e veracidade. O problema está nas métricas de audiência, ou seja, quais os Sites/Portais com maior tráfego, cliques, visitas ou comunidade activa. O invulgar é que mesmo num país com pouco mais que uma dúzia de Grupos de Media com expressão online, ninguém se entenda para criar um standard que permita uma base comparativa comum. A nível internacional, o IAB anunciou no passado ICOM de Fevereiro, a criação do projecto MIA, que tem por objectivo estabelecer as primeiras bases para a medição online de audiências, recorrendo a sistemas site-centric, user-centric ou uma conjugação de ambos. O objectivo é apresentar os primeiros resultados no Interact 2008, em Berlim, evento IAB que se irá realizar em Junho deste ano. Este é o passo que irá permitir ao mercado do marketing digital, rivalizar com os restantes meios, com informação credível e que sustente o aumento do investimento por parte dos anunciantes. Criação IAB Portugal Com o objectivo de resolver esta e outras questões foi criada uma comissão instaladora do IAB Portugal, contando com o apoio directo do IAB Europe e do seu presidente Alain Heureux. O objectivo é até ao final do ano formalizar esta entidade em Portugal, sentando na mesma “mesa” todas as entidades que directa ou indirectamente estão relacionadas com este mercado: sejam os Meios, as Agências Criativas e de Meios, os Anunciantes ou as Auditoras. Conseguindo congregar esta equipa, a missão deverá defender a evangelização e dinamização do mercado, a sustentação e elaboração de informação estatística, independente e acessível, bem como a regulação do sector. Acedendo a www.iabportugal.com é possível obter informação provisória sobre as intenções da Comissão Instaladora e linhas de orientação propostas para o arranque do IAB em Portugal. Na sequência do sucesso do E-MKT 2007, a 1ª Conferência Nacional dedicada em exclusivo ao E-Marketing, o E-MKT 2008, previsto para Setembro, servirá para informar o mercado nacional digital do IAB Portugal, mas também para estreitar a cooperação entre agências, anunciantes e meios. As oportunidades são imensas, no entanto as resistências e os obstáculos também. O crescimento do canal online é algo que já não se consegue pura e simplesmente escamotear e que nos demonstra que o futuro é mesmo…Digital. k


TECNOLOGIA BIOMÉTRICA

Biometria, a segurança do futuro Criada em 1999 e com um trilho vocacionado para o sucesso, a Netponto, empresa especializada em sistemas e tecnologias biométricas, gestão de assiduídades, dedicou-se inicialmente à comercialização e implementação de soluções tecnológicas, congregando posteriormente serviços de consultoria de sistemas, acompanhamento comercial e assistência técnica, optimizando ao máximo a aplicação dos seus produtos. Com a indispensável necessidade de protecção de sistemas informáticos e controlo de acessos, a Netponto possui vários sistemas de autentificação baseados em tecnologia biométrica, um método que estabelece parâmetros de identificação através de características específicas de diversas partes do corpo humano, concebendo assim sistemas de segurança de alta viabilidade e fiabilidade. Sectores como a banca, e-learning, telecomunicações, vigilância intranets e extranets, podem adoptar sistemas baseados em tecnologia biométrica aumentando significativamente os seus instrumentos de segurança. De forma a facilitar a implementação destes sistemas, a Netponto faculta as ferramentas necessárias para implementar estas soluções em aplicações ou produtos pré-existentes, rentabilizando desta forma anteriores investimentos. Num período em que a área tecnológica sofre, diariamente, profundas mutações, altos valores de fiabilidade e qualidade são

requisitos imprescindíveis para o eficaz funcionamento de sistemas de segurança, premissas nas quais a Netponto assenta os seus serviços no rigor dos serviços prestados e na constante capacidade de inovação e corpo técnico especializado, com produtos e sistemas tecnológicos criados pela própria empresa que buscam o aperfeiçoamento contínuo. Com o intuito de evoluir com as necessidades da sociedade, a Netponto faz da qualidade o principal alicerce das suas ferramentas, de forma a exceder as expectativas dos

seus clientes, oferecendo produtos destinados às necessidades específicas de cada realidade. Com o continuo investimento em tecnologias de ponta a nível de desenvolvimento de produtos e processos, a atitude transversal adoptada pela empresa com os seus fornecedores e clientes, procura aperfeiçoar conjuntamente as soluções e sistemas facultados pela Netponto. Uma atitude aplicada de igual forma aos seus colaboradores através de acções de formação e consciencialização permanente. k

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NOVAS TECNOLOGIAS

Portugal presente no Cebit 2008 Foi com grande prazer que a LVEngine aceitou o convite do INESC para participar na Cebit 2008, a maior feira anual de tecnologia da Europa, uma oportunidade de mostrar ao mundo que Portugal está na linha da frente no desenvolvimento de software. Para esta feira internacional, foram criados dois objectivos principais: angariar novos parceiros europeus e fazer um benchmark à nossa solução. Após a nossa chegada, e olhando para os participantes do nosso mercado, rapidamente percebemos que o software em Portugal equipara-se ao que é produzido internacionalmente. Temos uma tendência negativa para pensar que somos pequenos e que o que se faz "lá fora" é sempre melhor do que é produzido no nosso país. Qualquer empresa de software nacional tem de perceber que as nossas instituições de ensino colocam excelentes programadores no mercado, e tendo os recursos humanos adequados, só necessitam de escolher a direcção a seguir. Apesar de não vendermos directamente, consideramos o feedback dos nossos clientes finais como uma das melhores fontes de inspiração para o desenvolvimento da nossa solução. Acreditamos que este “contacto com a realidade” nos permite manter a direcção certa, e que não extrair esta preciosa informação no volátil mundo do software seria condenar o futuro do nosso produto. A LVEngine surgiu à 10 anos num segmento de mercado que tem crescido exponencialmente. Na fase inicial todas as página criadas eram estáticas e geradas à medida de cada projecto. Em pouco tempo percebemos que criar uma ferramenta que permitisse a cada empresa gerir o seu próprio website, seria uma solução ideal para 46

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ambas as partes. Quando um cliente pretendia fazer alguma alteração, nem que fosse para tirar uma vírgula a um texto, um orçamento tinha de ser apresentado, criavam-se avenças ou pacotes de manutenção, o que inflacionava os valores na proposta final. Na actual solução LVEngine existe apenas o valor inicial de aquisição, as alterações são imediatas e não é necessária a total dependência de terceiros. Uma pequena formação inicial e rapidamente o cliente saberá editar todos os seus conteúdos. Para uma maior distinção no mercado, tivemos de pensar um pouco mais à frente para perceber como dinamizar ainda mais os processos internos de uma empresa, como por exemplo, a integração automática de lojas virtuais com ERPs, poupando muitas vezes o posto de trabalho com a função de introduzir as encomendas que entrariam por correio electrónico, ou a possibilidade de serem consultadas as contas correntes dos clientes online. É tudo uma questão de criatividade e dinamismo. Orgulhamo-nos de ter programadores ao nível dos mais árduos desafios, não descurando a nossa equipa de designers que tem correspondido brilhantemente aos pedidos mais exigentes. Neste mercado em que a imagem tem um peso considerável, desde cedo aprendemos a unir esforços entre estes dois departamentos de forma a

Por Pedro Coelho, sales manager LVEngine

aproveitar o que a há de melhor em cada um. Quando um cliente acede à nossa solução percebe de imediato que toda a tecnologia desenvolvida é acompanhada por um design muito apelativo e dinâmico. Apesar de todas as ideias e avanços, sem dúvida que evoluímos com base na excelente relação que temos com a nossa rede de parceiros e os seus 400 clientes com soluções LVEngine. As características que tornam o nosso software tão competitivo devem-se a um esforço e cooperação entre todas as partes. Após um evento como a Cebit 2008, não podemos deixar de olhar para o futuro com mais optimismo, a internacionalização é o passo que já está a ser concretizado com a ajuda do INESC e as parcerias iniciadas no evento abriram-nos portas para países com grande interesse estratégico na Europa. Contudo, todo o processo será faseado e minuciosamente controlado, pois percebemos que Portugal tem um mercado muito peculiar e que qualquer empresa que comece a trabalhar além fronteiras tem de se mentalizar que não pode manter a mesma estrutura, ou irá descurar certamente os clientes que a fizeram crescer a esse ponto. Após resultados tão positivos, a Cebit pode contar com a presença da LVEngine em 2009. k


NOVAS TECNOLOGIAS

Comunicações Unificadas:

a solução!

Hoje, mais do que nunca, a velocidade do negócio determina e acelera o ritmo a que as organizações devem operar. Agilidade comercial é cada vez mais sinónimo de mobilidade e, consequentemente, de sucesso. Por Ricardo Gomes, software sales da IBM Portugal

Ao vulgo email, portais, sistemas de conversação instantânea e conferências online, juntam-se o telefone e a conferência áudio e vídeo, unificando o ecossistema da comunicação e permitindo uma experiência integrada aos utilizadores. Empresas de todo o mundo têm vindo a reconhecer a importância das comunicações unificadas, como comprovam os indicadores de volume de negócios. Só em 2006, refere a IDC, o mercado mundial contabilizou vendas na ordem dos 19 mil milhões de dólares. As comunicações unificadas marcam assim o ritmo da mudança na sociedade, na política e nos negócios e representam uma mudança de paradigma na gestão das organizações. Contribuem também para uma redefinição não só das práticas de trabalho (mais dinâmicas e flexíveis), como do papel desempenhado pelo próprio colaborador enquanto indivíduo. Com a unificação das comunicações, a colaboração deixa de corresponder a uma gestão de diferentes sistemas e processos típicos de uma complexidade operativa, para estar cada vez mais à distância de um simples “click”.

Desta tendência emergente sobressai a eficiência da colaboração entre a força de trabalho de uma estrutura, seus fornecedores, clientes e parceiros do negócio, traduzida no aumento da produtividade dos profissionais, por um lado, e da satisfação dos clientes, por outro.

Redução de custos, mas igualmente de tempo nas operações, é outra das maisvalias oferecidas pela convergência da comunicação, de que a funcionalidade e compatibilidade são as características mais importantes. No sentido de enfrentar estas mudanças, a IBM Research está a desenvolver um número crescente de projectos de software de colaboração, através dos cerca de 70 investigadores espalhados em oito laboratórios por todo o mundo. Parte deste investimento contempla a expansão de produtos de software IBM Lotus Sametime,

autênticas ferramentas de comunicação instantânea que permitem aos utilizadores responderem aos desafios diários imediata e eficazmente. Assim, num mundo em que a velocidade da informação dita as regras, as comunicações unificadas só podem ser encaradas como uma oportunidade a explorar, na medida em que se assumem como factor de diferenciação e competitividade nas organizações globalmente integradas. k

www.revistaperspectiva.info ABRIL 2008

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SAÚDE

Em nome do coração “Viver o coração” é o lema do XXIX Congresso Português de Cardiologia que irá decorrer entre 20 e 23 deste mês, em Vilamoura. Num país onde cerca de 30 mil pessoas morrem devido a doenças do coração, “o maior fórum da Medicina Portuguesa vai arrumar ideias e debater as mais recentes inovações científicas em todas as áreas da Cardiologia”, diz Miguel Mendes, presidente da Comissão Científica do Congresso. Texto e fotografias: Luís António Patraquim

Os números não são animadores. Nem à escala global nem à escala nacional. Estima-se que cerca de 17 milhões de pessoas morrem todos os anos vítimas de doenças cardiovasculares, a principal causa de morte no mundo. Em Portugal a patologia cardiovascular é responsável por 40 por cento da mortalidade. É com base neste dados estatísticos que o XXIX Congresso Português de Cardiologia abre portas aos cerca de 2500 participantes. “O evento vai ter uma dinâmica enorme. Vão ser quatro dias muito intensos. Vamos abordar a cardiologia toda. Enquadrar e digerir toda a informação que surgiu no ano anterior e arrumar ideias para que a nossa cardiologia seja o mais actualizada possível”, explica o cardiologista Miguel Mendes. Ao todo são 32 sessões de comunicações orais, 28 mesas-redondas, 12 conferências, 10 simpósios satélites, 5 cursos pré-congresso, isto no que respeita ao programa científico. Igualmente 53 empresas vão estar representadas na exposição técnica e 27 convidados estrangeiros irão trocar experiências e conhecimentos. “Estão criadas condições para termos um excelente Congresso”, exclama o cardiologista que destaca a frase e o logótipo do evento. “Pretendemos passar uma mensagem de positividade e dedicação da Cardiologia à saúde cardiovascular da população portuguesa”. 48

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anos não teria acontecido isto. Aliás, nos hospitais já era proibido fumar e as pessoas continuavam fazê-lo nos corredores. A sociedade portuguesa está mais madura e começamos a compreender que temos de mudar certos estilos de vida.”

“A sociedade portuguesa está mais madura e começamos a compreender que temos de mudar certos estilos de vida.” » Miguel Mendes, presidente da Comissão Científica do Congresso.

Política do coração Apesar das doenças cardiovasculares ocuparem o primeiro lugar da causa de morte em Portugal, Miguel Mendes está confiante na redução destes números. “Não vemos mudanças significativas num futuro próximo, mas estamos muito esperançados na nova lei do tabaco. Em países onde existe esta lei há mais de um ano, registou-se uma diminuição de 10 por cento nas doenças cardíacas. Outro factor que me deixou satisfeito foi a forma pacifica com que esta lei passou. Tudo tem o seu tempo. A lei do tabaco foi bem aceite porque era oportuna. Se tivesse sido há 10 ou 15

Cardiologista há 30 anos, Miguel Mendes considera a politica “o maior aliado da Cardiologia. A política tem um papel fundamental na patologia cardiovascular que depende muito de circunstâncias criadas pelos governantes. A qualidade de vida dos cidadãos é fundamental: Terem acesso a casas com qualidade, espaços verdes para se exercitar, criar condições para a diminuição do stress profissional e redução dos níveis de poluição são alguns exemplos do que os sucessivos governos podem fazer para diminuir a maior taxa de mortalidade no nosso país.” Um coração poderoso É sabido que os portugueses são pouco dados à prática do desporto. O


SAÚDE Eurobarómetro, divulgado em 2004, indica que Portugal é o país da União Europeia onde se faz menos desporto/ exercício físico. Neste campo, os escandinavos são os grandes campeões, ao passo que os cidadãos da Europa meridional estão nos últimos lugares. Entre os novos Estadosmembros, curiosamente, verificase que o Chipre e a Eslovénia têm número de desportistas ligeiramente superior à média europeia.

“A política tem um papel fundamental na patologia cardiovascular que depende muito de circunstancias criadas pelos governantes.”

Para Miguel Mendes “os portugueses não são preguiçosos. Têm é falta de espaços verdes onde possam exercitar-se. É visitar alguns parques destinados ao efeito para vermos que estão cheios de gente a fazer desporto. No seguimento da lei do tabaco, a implementação de espaços verdes por parte das autarquias deveria ser o próximo passo para aproximar a população de um estilo de vida mais saudável.” Mas nem só de actividade física se faz um coração poderoso. Miguel Mendes defende “uma alimentação  saudável, que passa pela redução do sal, dos açúcares, das gorduras saturadas, do álcool, preferência ao peixe em vez da carne, consumo de frutas e vegetais, para além da abstenção tabágica. Estes simples conselhos evitam em grande parte a patologia cardiovascular.” k

“Semana da Saúde: Comemorações do dia Mundial da Saúde” As comemorações do Dia Mundial da Saúde, a 7 de Abril, dão o mote para a realização da Semana da Saúde, de 9 a 13 de Abril, no Mercado Municipal de Faro. Uma iniciativa organizada pela Gasin em colaboração com a Câmara Municipal de Faro, Administração Regional de Saúde do Algarve, Hospital de Faro, Escola Superior de Saúde e Grupo de Trauma e Emergência. Durante 5 dias vão realizar-se inúmeros eventos que visam promover junto da população e dos profissionais de saúde do concelho de Faro a educação para a Saúde. O evento desdobra-se em 3 grandes áreas: Sensibilização para patologias crónicas como: Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC), Síndrome de Apneia do Sono, Hipertensão Arterial, Enfarte Agudo do Miocárdio, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) e diferentes abordagens terapêuticas. Promover, também, medidas comportamentais essenciais para a prevenção das referidas patologias: alimentação, exercício fisico, monitorização, tabaco, álcool, etc.; execução de rastreios: rastreios espirométricos para aferição da Função Respiratória, Medição da Tensão Arterial, Glicemia, Colesterol, etc.; Formação aos profissionais de saúde e à população em medidas de suporte básico de vida para situações de paragem cardiorespiratória, formação que será ministrada pelo Grupo de Trauma e Emergência (GTE). Os dias 10 e 11 de Abril serão dedicados ao Idoso e à Criança, respectivamente.

Enfarte e AVC: sinais de alerta “Mais rápido que…” um acidente vascular cerebral (AVC) e um enfarte agudo do miocárdio (EAM) é o slogan de uma campanha, promovida pela Coordenação Nacional das Doenças Cardiovasculares do Alto Comissariado da Saúde, que, desde o início do ano e até há pouco tempo, esteve nas ruas de todo o país. Em vários locais públicos, foram espalhados cartazes e outdoors com o objectivo de reduzir a mortalidade cardiovascular em Portugal. No entender de Miguel Mendes, “as campanhas são fundamentais para colocar os doentes o mais precocemente dentro dos hospitais e alertar a população em geral para os sinais de alarme de um enfarte ou AVC.” Perante uma dor forte no peito, suores, náuseas ou vómitos, o doente não deve ignorar os sintomas, principalmente se os mesmos persistirem por mais de 5 minutos, pois podem ser o princípio de um enfarte. A instalação súbita de boca de lado, a dificuldade em articular palavras e a falta de força num dos membros são sinais que, à partida, podem denunciar a ocorrência de um AVC. Miguel Mendes explica que foram criadas “as ‘Vias Verdes’, mecanismos organizados de diagnóstico, encaminhamento e tratamento expedito, sobretudo na fase pré-hospitalar. Em ambos os casos, deve ser accionado o INEM, através da linha 112. Com as ‘Vias Verdes’, o doente é directamente transportado para as unidades de tratamento  especializado”, completa.

Para mais informações contacte: carvalpf@gasin.com.

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TURISMO

AllPortugal

Um país do mundo Portugal é um país com uma vastíssima variedade de oferta turística. As suas características morfológicas naturais permitem brindar os visitantes com uma vasta selecção de especificidades no âmbito do turismo. Entre norte e sul do país, a variedade cultural dos quatro cantos de Portugal é tão rica como a sua morfologia. Foi, é e continuará a ser uma das principais fontes de rendimento, uma realidade a que ninguém é alheio. Bernardo Trindade, secretário de Estado do Turismo exulta a importância do turismo em Portugal e revela as estratégias para o progresso do sector. Perspectiva: O turismo representa aproximadamente 11% do PIB, tornandose num dos sectores mais importantes de Portugal. Como se traduz esta importância? Bernardo Trindade: O Turismo tem incontestavelmente um peso decisivo na Economia Portuguesa. É um instrumento de coesão económica e social do país, através do elevado dinamismo e do efeito multiplicador de investimentos que o caracterizam. Estudos internacionais têm demons-

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trado que o turismo apresenta uma capacidade superior aos outros sectores de actividade na criação de emprego entre as mulheres e os jovens. Contribui de modo decisivo para a correcção de assimetrias regionais, fixando populações e induzindo investimento em zonas tradicionalmente mais desfavorecidas. Para que os leitores tenham uma noção, em 2006 o país recebeu 11,3 milhões de turistas. Portugal está preparado para receber tantos turistas? Estamos no bom caminho. Em 2007, em resultado de um crescimento de cerca de 9%, Portugal acolheu mais de 12 milhões de turistas internacionais. Considero que o país tem sabido responder com um nível satisfatório às exigências crescentes do mercado, como é evidenciado pelo esforço de adaptação e requalificação da nossa oferta. Nessa perspectiva, numa cultura de exigência e de elevados padrões de qualidade, Portugal tem que continuar a afirmar-se. Estou convicto de que estamos agora melhor preparados do que há três anos e de que, dentro de dez, o nosso paradigma de oferta turística estará já num patamar superior de excelência e, por isso, estaremos mais aptos para

receber os segmentos de turistas mais exigentes e que melhor qualificarão Portugal enquanto destino. Quais são as principais necessidades do país? (problemas) Este Governo tem-se empenhado fortemente em colmatar as lacunas que qualificou como prioritárias: no quadro legislativo, na formação dos recursos humanos, no incentivo ao aumento da oferta hoteleira de cinco estrelas, na requalificação da oferta de 3 e 4 estrelas, na renovação de infraestruturas e no reposicionamento do país ao nível da promoção externa. Grande parte deste esforço tem sido realizado em concertação com as entidades privadas do sector, como é disso exemplo a Lei dos Empreendimentos Turísticos. Considero, todavia, que ainda há um caminho importante a percorrer nesta matéria e que é essencial uma atitude positiva e pró-activa de todos os agentes públicos e privados na concretização do desígnio comum de tornarmos Portugal uma referência no turismo mundial. Por exemplo, na região do Douro existe falta de dormidas. Está a ser tomada alguma medida para supe-


TURISMO rar esta questão? O Douro foi identificado no Plano Estratégico Nacional de Turismo (PENT) como um Pólo de desenvolvimento turístico para os próximos anos. É um sinal inequívoco da aposta do Governo na criação de uma nova centralidade turística. Neste contexto, já identificámos e colocámos em prática um conjunto de políticas que conduz a uma discriminação positiva da região, com reflexo nos vários instrumentos financeiros colocados à disposição do sector público e dos investidores privados, designadamente QREN, Protocolos Bancários e PIT. Para suprir as necessidades de formação em hotelaria e turismo da região abrimos, em 2007, uma Escola de referência em Lamego, que poderá acolher 300 alunos em cursos de formação equiparados ao 12º ano, bem como realizar formação de qualificação, aperfeiçoamento e especialização de profissionais do sector. Por outro lado, consciente da importância e da singularidade da região, o Governo criou a "Estrutura de Missão para a Região Demarcada do Douro" com competências na dinamização de acções de desenvolvimento integrado e de promoção, incentivando a articulação entre todos os intervenientes com responsabilidades naquela área geográfica. Não pretendemos, contudo, que o Douro se torne um destino massificado e não haverá um aumento exponencial no número de camas. Queremos projectos turísticos de pequena e média dimensão com qualidade excepcional e direccionados para um público-alvo com poder de compra médio / alto. Em síntese, considero que da parte do Governo estão a ser desenvolvidas todas as iniciativas para que o Douro se constitua um destino turístico exemplar e muitos privados estão a responder positivamente a esta criação de condições favoráveis. Criatividade, diversificação e qualidade são palavraschave no turismo nacional? São sem dúvida palavras-chave! Permita-me que acrescente mais uma: autenticidade. Da conjugação

destes quatro elementos resulta a afirmação de um país que se quer posicionar na oferta de experiências únicas, sustentadas numa diversidade concentrada que o torna único. São palavras-chave para o poder central, enquanto orientadoras de toda a nossa actividade, mas são-no essencialmente para os promotores privados que deverão constantemente procurar surpreender de modo positivo os seus clientes com propostas criativas, diversificadas e autênticas. Quais as medidas introduzidas através do novo Quadro Regulador da Oferta Turística? O novo quadro regulador da oferta turística pretende reforçar a relação de confiança entre a Administração Pública e o sector privado, no sentido de menor burocracia, maior responsabilização e melhor fiscalização. Para o efeito, apostámos na simplificação do quadro jurídico e do processo de licenciamento; na responsabilização pelo risco inerente ao exercício da actividade; na qualificação da oferta através de um modelo de classificação inovador e da introdução de um novo paradigma de exploração turística. Da conjugação

destas linhas de acção resultará uma maior confiança no mercado e uma melhor satisfação do turista. Em seu entender, qual é o futuro do Turismo em Por tugal? Estou convicto que o futuro será muito positivo. Como já referi, Portugal tem condições naturais, patrimoniais e humanas excepcionais. Quem nos visita, ao deparar-se com a multiplicidade de propostas que temos para oferecer, tenciona voltar e recomendar o destino a outros. O Governo está a criar as condições para que o Turismo continue a crescer de forma sustentável e para que se mantenha uma fonte geradora de riqueza e de bem-estar para as populações. Verifico também que o investimento privado na requalificação da oferta está a crescer a um bom ritmo. Definimos um Plano estratégico que propõe, a par de dez produtos turísticos estratégicos, seis novas centralidades turísticas, objecto de planos de desenvolvimento próprios e que contribuirão decisivamente para uma maior coesão territorial e social. Neste sentido, só posso perspectivar um futuro muito positivo para o turismo português. k ABRIL 2008

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TURISMO

Douro

como destino de excelência No dia 31 de Maio vai ser inaugurada uma unidade hoteleira de excelência nas escarpas do Vale do Douro. Em entrevista, Joaquim Ribeiro, sócio-gerente da Jase, Empreendimentos Turísticos Lda. Douro Palace Hotel Resort & Spa, revela-nos o que vamos poder encontrar neste espaço que, em 10 hectares, alia o contemporâneo ao histórico. Com inauguração agendada para 31 de Maio de 2008, o Douro Palace, construído nas escarpas do Vale do Douro, é a primeira unidade hoteleira da região. Porque é que foi escolhida esta localização? Na Região do Douro existem já algumas unidades hoteleiras de qualidade, no entanto estamos ainda longe de uma afirmação da região como destino turístico, e uma das razões é o número insuficiente de camas. O governo classificou esta região como região estratégica no “PENT” e aponta para a necessidade da criação de cerca de 10.000 camas, neste momento nem 10% desse número estão disponíveis. A escolha da localização teve a ver obviamente com o potencial paisagístico e cultural que esta região oferece, o Douro é sem dúvida um destino único e com grande potencial, como o comprovam os dados recentes de crescimento e 52

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procura desta região. Para a Jase, foi claro que este seria o local adequado para investir, o potencial desta região é enorme e tem sido muito gratificante o interesse e curiosidade que as pessoas têm pelo Douro Palace e pela Região quer nos certames nacionais quer nos internacionais. Pode dizer-se que no Douro Palace o contemporâneo e o histórico se encontram? O projecto criado para o Douro Palace, teve como base a criação de uma unidade com uma atitude diferenciadora em relação às restantes unidades. Não quisemos criar mais uma unidade com decoração romântica e histórica, optamos sim por uma ideia mais contemporânea de decoração, privilegiando o conforto absoluto, mas com grande respeito pela história da região, mantivemos a edificação existente com mais de 120 anos, integrando-a no projecto de uma forma harmoniosa com a nova

» Joaquim Ribeiro, sócio-gerente da Jase, Empreendimentos Turísticos Lda. Douro Palace Hotel Resort & Spa

construção totalmente integrada nos socalcos da propriedade. Quais são as principais valências? O Douro Palace está inserido numa propriedade com 10 hectares, desses, 2 hectares são de vinha e 4 de floresta protegida. A unidade conta com 60


TURISMO quartos, todos com varanda e uma deslumbrante vista para o rio Douro, restaurante, 3 bares, Centro Hípico, parque infantil, piscinas exteriores, contará ainda com um SPA, salas de conferências e banquetes e um inúmero leque de ofertas a pensar no entretenimento e lazer. O Douro Palace Hotel Resort & Spa, fica situado a 70 kms do Porto e conta com via rápida até Baião a cerca de 12 Kms da unidade. Além disso, fica situado a 200 mts da estação ferroviária de Caldas de Aregos e vai contar com um cais para barcos até 80 mts a 250 mts. Estas condições permitem de facto um acesso rápido, confortável e variado à unidade hoteleira. Esta unidade hoteleira está também preparada para receber encontros de empresários ou iniciativas desenvolvidas pelos departamentos de recursos humanos das empresas? O Douro Palace possui capacidade física para a realização de todo tipo de eventos pela múltipla oferta de espaços para essas actividades, para além de se encontrar tecnologicamente equipado para corresponder a todo o tipo de solicitações, permitindo a combinação de reuniões de trabalho com períodos de lazer, no ambiente informal e descontraído. Correspondeu a um investimento de sensivelmente 8,5 milhões de euros. Este investimento é passível de

ser recuperado em quanto tempo? Contamos que o investimento total seja amortizado em cerca de 12 anos Em poucas palavras como define o Douro Palace? O objectivo do Douro Palace é ser lembrado pelos nossos clientes como um espaço único, onde serão tratados de uma forma personalizada e com um elevado profissionalismo. Não pretendemos que se lembrem só da

paisagem, mas fundamentalmente que se lembrem do conforto absoluto que tentamos proporcionar, com uma qualidade de serviço de excelência. Quem nos visitar ficará sempre com vontade de voltar e tudo faremos para que esse regresso seja uma experiência enriquecedora.

No 2º trimestre de 2008 é inaugurado o Douro Palace Hotel Quais são as perspectivas para os anos vindouros? O Douro como destino turístico, está ainda a dar os primeiros passos, alguns pioneiros, ajudaram a colocar o Douro num destino incontornável em Portugal e no mundo, compete-nos a nós contribuir decisivamente para essa afirmação. O Douro tem tudo para ser um destino de excelência e a Jase, Empreendimentos Turísticos Lda. inequivocamente quer fazer parte desse futuro, não só com o projecto do Douro Palace, mas também com os outros que se seguirão. k

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TURISMO

Hotel Rural Convento dos Capuchos O antigo Convento dos Capuchos de Monção abriu finalmente as portas. Outrora local de grandes estórias e acontecimentos, o Convento, classificado como imóvel de interesse público, foi convertido no Hotel Rural Convento dos Capuchos, com 24 quartos, SPA, campo de ténis e piscina. António Pinto Rodrigues, um dos administradores, revela alguns dos segredos deste novo empreendimento. Inicialmente previsto para 2007, o Hotel Rural Convento dos Capuchos foi inaugurado em 2008. Quais os motivos deste atraso? A complexidade do projecto que implicou cuidados especiais para proteger o património classificado especialmente sensível, como os tectos pintados da sacristia da igreja dos Capuchos. A obra foi de tal modo complexa, recorrendo a técnicas inovadoras que foi objecto de artigos científicos publicados em revistas da especialidade. Claro que a morosidade do processo de licenciamento e os trabalhos

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de requalificação da rua do hotel tornaram mais complexo o processo de abertura do Hotel. O turismo rural encontra-se entre os mais procurados pela população nacional e internacional. O que destaca este empreendimento dos demais existentes em Portugal? A história, presente nos aspectos arquitectónicos peculiares do edifício, um Convento de traça conventual típica, com uma planta quadrangular, que se desenvolve em torno de um claustro de proporções especialmente

harminiosas. A decoração, com um toque de design, baseada em peças únicas, muitas delas desenhadas e executadas propositadamente para o Convento, com materiais da região e da própria quinta. A harmonia do espaço no seu conjunto e a sua localização, entre o rural e o urbano; entre Portugal e Espanha, debruçado sobre o rio Minho. As preocupações ambientais, como por exemplo, a utilização e optimização da água proveniente das diversas minas que abastecem a Quinta


TURISMO Em suma, a conciliação do património e da história com uma decoração com requinte e moderna que confere ao hotel um alto nível de conforto e funcionalidade, para quem pretender fazer reuniões de negócios num ambiente acolhedor, preparado com as mais modernas tecnologias de comunicação, ou simplesmente passar uns dias de descanso em contacto com a natureza, saboreando a gastronomia regional, mas também de autor. E ainda um conjunto de equipamentos de lazer sem par no norte do país, como por exemplo o SPA ou o mini-golfe. É, sobretudo, um lugar inspirador. As suas raízes históricas são um dos factores de atractividade para os turistas? Sem dúvida, suas raízes históricas são um dos factores de atractividade para os turistas. O Edifício do Convento dos Capuchos tem uma longa história, parte dela ainda envolta em mistério, que envolve destruições e reconstruções de um edifício que começou por ser religioso, mas que sofreu também intervenções destinadas a adaptá-lo a residência nobiliária, durante o tempo do Barão de S. Roque. A história deste monumento está intimamente ligada à história de Monção, na medida em que, em diferentes épocas, foi afectado a várias funções públicas, como Escola e Tribunal. Foi com esse intuito (historicidade) que espaços específicos foram preservados? Que estórias contam esses espaços? Com o intuito da historicidade foram preservados muitos espaços... Por exemplo, o Claustro, um espaço com características de “intimidade” invulgares, constitui o ex-libris do Hotel. A fonte dos frades, é outro exemplo de um lugar de recolhimento e meditação no jardim do Hotel Convento dos Capuchos , que preserva toda a memória e carácter misterioso do Convento dos Capuchos. . A chaminé do fumeiro e do forno

onde se cozinhava desde o período monástico, é outro exemplo de um espaço que foi também preservado e integrando-a na actual recepção do Hotel. Na realidade, o Hotel Convento dos Capuchos guarda ainda outras surpresas que surpreenderão pelo seu encanto. Se quiser saber mais, terá que vir visitar-nos...

para 200 pessoas que pode acolher reuniões, conferências, exposições e banquetes) tendo ao lado o Bar Criptopórtico - Bambu SPA - inclui sauna, banho turco, piscina de hidromassagem e serviço de massagens - ARF Gymnasium – Ginásio equipado para prática de cardio fitness - Estacionamento privativo

Para além do turismo, o Hotel Rural dos Capuchos procura ter uma atitude transversal em diversas áreas, nomeadamente na oferta de sala de reuniões, conferências, exposições, etc. Que condições estão à disposição dos clientes? O Hotel Convento dos Capuchos dispõe de: - 24 quartos decorados com originalidade e um toque de design. Todos os quartos estão equipados com tv lcd, telefone, internet wi-fi, mini-bar, amenities personalizadas, cofre e ar condicionado. Há seis quartos comunicantes com possibilidade de se transformarem em quartos duplos familiares. - A Cozinha do Convento restaurante de cozinha regional e de autor, O restaurante, que tem capacidade para 60 pessoas, é constituído por dois espaços, um dos quais, pode ser utilizado para refeições de trabalho ou pequenas festas familiares num ambiente reservado, com capacidade para 15 pessoas. - O Claustro – bar principal do Hotel Convento dos Capuchos, que aproveita e valoriza o espaço interior do convento. - Sala Sæculare sala com capacidade

Nos espaços verdes do Hotel Convento dos Capuchos poderá ainda desfrutar de: - Esplanada de Sto António - bar exterior, em pedra - Eira e espigueiro para prática de actividades tradicionais e culturais da região - Mini-golf - Piscina - Campo de ténis - Parque infantil Para além de percursos pedonais e de circuitos de manutenção, o Hotel dispõe ainda de espaços de lazer que convidam ao relaxamento e ao desfrutar da natureza, em especial, a Fonte dos Frades, a Ribeira da Fonte da Vila, o Recanto do poço dos Frades e o Bambual. Um aspecto importante do HCC é a centralidade: as Termas de Monção encontram-se a escassos 200 m do Hotel e o Terreiro, Praça central de Monção fica a menos de 150 m. Existe ainda a possibilidade de prática de desportos de aventura, aquáticos e equitação, nas proximidades. k Hotel Rural Convento dos Capuchos 4950-527 Monção Tel. +351 251 640 090 Fax. +351 251 640 091 Website. www.conventodoscapuchos.com E-mail. geral@conventodoscapuchos.com

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PRODUTOS REGIONAIS Quinta dos Ingleses

A Qualidade da Tradição Desde 1982 que a Quinta dos Ingleses leva à mesa dos portugueses a qualidade dos sabores tradicionais dos queijos. Com um nome vincado no mercado nacional (sendo a ambição além fronteiras já uma realidade), a Quinta dos Ingleses procura introduzir anualmente novos produtos na praça mercante portuguesa. Após um começo auspicioso, há quase três décadas, no concorrido mercado de lacticínios, a Quinta dos Ingleses rapidamente se pautou pela qualidade dos seus produtos mercê de um know how irrepreensível na manufactura dos seus queijos. Com ambições demarcadas dos produtores industriais, o sabor e paladar de um queijo manufacturado tem outras aspirações gustativas até porque “implica muito mais trabalho e os produtos são cuidadosamente seleccionados.”, revela Maria João Pimenta, administradora da Quinta dos Ingleses. O Quinta dos Ingleses, o mais conceituado e mais apreciado pelos consumidores, é um queijo amanteigado de vaca com uma textura singular. Mas várias outras variedades são produzidas pela Quinta dos Ingleses, nomeadamente o flamengo, queijo barra e finalmente o queijo de Azeitão. Com uma vacaria própria,

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a qualidade é o principal argumento deste produtor, com parâmetros elevados e exigências de qualidade, requisito de um produto implementado no mercado há vários anos e de um nome sinónimo de carácter.

Há cerca de seis anos introduziram novos produtos no seu portfolio, com os vinhos Verdisa e Vinha dos Ingleses, pudins de ovos e de laranja, compotas e mel. Ambições que, na voz de Maria João, “reflectem a qualidade dos produtos feitos pela Quinta dos Ingleses, os quais são reconhecidas pelos consumidores e não queremos defraudar as expectativas depositadas nos nossos produtos. Procuramos a variedade para haver uma inovação constante. Este ano vamos lançar no mercado um novo vinho do Douro, e estamos muito optimistas com a qualidade atingida”. Sendo uma empresa de pequena dimensão a Quinta dos Ingleses vê

com bons olhos a actuação da ASAE na busca do controlo e qualidade alimentar. No entanto, sendo uma queijaria pequena e tradicional com produtos manuseados à mão, certas normativas impostas pelos altos responsáveis poderão por em risco algumas actividades económicas de pequenos produtores. “Tentamos sempre cumprir as normas legais, temos o HACCP implementado, mas há certas normas e directivas que a ASAE deve exigir tendo como princípios básicos o bom senso, o espírito informativo e formativo. Penso que se a médio prazo não forem alteradas algumas directivas para os produtores tradicionais portugueses, a tradição poderá perderse. Mas acredito que as coisas possam mudar para bem da cultura histórica portuguesa.” Fica assim patente o pensamento de muitos produtores nacionais que poderão ver a sua actividade ser posta em risco mercê de leis e requisitos levados a extremos, com potenciais consequências para os produtos tradicionais portugueses. k


PRODUTOS REGIONAIS

Quinta da Aveleda:

O respeito pela tradição Velhos documentos do século XVII fornecem a chave da história da Aveleda, uma empresa familiar que há mais de três séculos é dirigida e orientada por gerações da mesma família. Basta um breve passeio pela Quinta da Aveleda para perceber que aqui a qualidade e perfeição são algo de natural... algo que está presente nos mais pequenos detalhes da sua história e que a família Guedes procura aplicar em tudo o que faz há mais de 300 anos. Foi neste cenário que foi encontrado e materializado o conceito das Follies, última gama de vinhos lançada pela empresa. Uma Folly é um impulso criador que não necessita de qualquer justificação lógica, como aconteceu com os autores de algumas das estruturas arquitectónicas existentes na Quinta. Por isso, a Aveleda decidiu associar a cada um dos cinco vinhos da gama Follies uma destas estruturas, representadas por uma gravura diferente em cada um dos rótulos. Estas Follies são: a Janela Manuelina (à esquerda), a Fonte das Quatro Irmãs (em cima), a Torre das » Janela Manuelina

» Fonte das Quatro Irmãs. Finalizada pelo Mestre escultor João da Silva, esta Folly representa as Quatro Estações e o Ciclo da Vida

Cabras, a Fonte de Nossa Senhora da Vandoma e a Casa da Aguieira.

A Aveleda decidiu associar a cada um dos cinco vinhos da gama Follies uma destas estruturas, representadas por uma gravura diferente em cada um dos rótulos. A gama Follies, composta por três vinhos brancos e dois tintos, integra conhecidas castas Portuguesas (por exemplo, Alvarinho e Touriga Nacional) e Francesas (Chardonnay e Cabernet Sauvignon) e não está organizada por regiões, como é habitual no chamado “Velho Mundo”, mas por perfis, sensações e inspirações. É esta a filosofia da gama Follies: satisfazer os caprichos e os devaneios de cada um, no desfrute de um bom copo de vinho. Além da produção de vinhos (da Região dos Vinhos Verdes, Douro

e Bairrada) e da aguardente Adega Velha, a Aveleda produz também, de forma limitada, dois tipos de queijo obtidos a partir do leite da vacaria existente na Quinta desde o século XIX. O respeito pela tradição e o cuidado utilizados no processo de fabrico estão na génese de produtos de grande qualidade e cujo sabor e textura são muito apreciados. Todos os apaixonados pela Natureza e do que dela de melhor se pode extrair, como o vinho e o queijo, podem visitar, de segunda a sextafeira, das 09h00 às 17h00, a Quinta da Aveleda, localizada em Penafiel. Através de uma visita guiada, é possível ficar a conhecer por exemplo os parques e jardins, com magníficos edifícios em granito e raras espécies de flores e árvores, entre outros, bem como realizar provas com os produtos da Quinta, descobrindo assim, e da forma mais prazeirosa, a sua história numa atmosfera única. k

Contactos: Telf.: 255 718 200 Fax: 255 711 139 E-mail: info@aveleda.pt Website: www.aveleda.pt

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TURISMO Casa Senhorial de Rabal, em Bragança

Casa Guida Rêgo

Exemplo de arquitectura ancestral, remonta ao tempo de Fernando Esteves, cavaleiro Fidalgo, reinado de D. Afonso III (1248-1279). Ostenta Pedra de Armas com elmo de besteiros, 1º quartel-Esteves; 2º Figueiredos; 3º Morais; 4º Sarmento. Na sua traça, recentemente reconstruída, tentou manter-se a intemporalidade dos espaços, aliada ao conforto que se pretende dotar, na sua nova vocação de Turismo Rural. Foi residência do General José Alves Pinto de Azevedo (1809-1873) um dos 7.500 liberais que desembarcaram nas praias do Mindelo, da qual, sua filha D. Maria Inês casada com o Major Luiz Ferreira Real se seguiram, sendo ocupada pelo último herdeiro, Joaquim Augusto do Rêgo (1886-1970), cuja 1ª esposa era sobrinha do Abade de Baçal. A casa foi assiduamente frequentada por ilustres figuras, tal como a do Abade de Baçal, figura emblemática da região. Hoje a casa foi restaurada pela legítima herdeira Dª Margarida Rêgo. A casa tem oito quartos e capacidade para 16 pessoas, piscina coberta, jardim, zona de lazer e salão para 80 pessoas sentadas, com equipamento multimédia. Eventos Comunhões, Casamentos, Baptizados, Reuniões e Congressos, Passagens de Ano e outras Festas.

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Actividades Propostas Percursos Pedestres, (rota da Terra Fria), BTT, Jogo de Dardos, Jogo da Patanga, Pesca da Truta (Rio Sabor) e Caça. Pontos de Interesse – Fauna e flora e vegetação (Parque de Montezinho) A grande diversidade de habitats, a pouca perturbação e a integração do homem no ambiente tornam o Parque Natural de Montesinho uma área de elevada importância faunística a nível nacional e europeu, quer pela grande diversidade biológica quer pela ocorrência de espécies ameaçadas. Existem 48 espécies de mamíferos, cerca de 70% dos mamíferos terrestres que ocorrem em Portugal, o que corresponde a 26% de todas as espécies da Europa. Entre várias esp��cies podemos encontrar o loboibérico, o veado, o corço,o gato-bravo, a lontra, a águia-real, a cegonha-negra, a víbora-cornuda, a truta-de-rio, etc. Quanto à vegetação o P.N.M. apresenta uma grande diversidade: sardoais, carvalhais, bosques ripícolas, giestais, urzais, estevais, lameiros, etc., correspondendo a cada um destes tipos de vegetação a sua flora característica. A vegetação no Parque varia de sul para norte com o clima e a orografia. De sul para norte aumenta a altitude e a precipitação, e as temperaturas médias anuais são mais baixas. A sul encontram-se comunidades de plantas adaptadas à secura como os matos de estevas e os sardoais, que vão sendo substituídas com a altitude pelos carvalhais e matos de urze e carqueja. k

Para mais informações contacte: Largo da Fonte, nº2 5300-791 Rabal Bragança • Portugal Telf. 273 919 049 E-mail. geral@casaguidarego.com Website. www.casaguidarego.com Dª Margarida Rêgo Tlm. 917 210 320 Paulo Hermenegildo Tlm. 917 547 348 / 273 919 129


CRÓNICA

Paulo Proença Moura | natural de Caria, de trás da Serra da Estrela, autor do livro “Persuacção - o que não se aprende nos cursos de gestão”, Edições Sílabo | paulomoura@mail.telepac.pt

Má Educação Olá, Não sei onde te meteste nesse dia, que não te vi, mas terias feito bem em ir conversar com as cem mil pessoas que foram desfilar pelas ruas à capital. Decerto concluirias que, ao contrário do que diz a ministra da Educação, os professores sabem do que estão a falar quando dizem que estão cansados e fartos. Já me ouviste dizer isto centenas de vezes desde a nossa infância, mas sabes que gosto sempre de repetir: a minha política é a política do trabalho. Foi uma frase que foi gravada na minha memória pelos meus pais e pela minha avozinha – ai de mim se a chamasse sem este diminutivo gramatical – muito antes do 25 de Abril de 1974. Lembro-me de o meu pai um dia, ao regressar do café, dizerme pedindo segredo aquilo que um amigo lhe contou: a sigla “VMPS” (da água mineral de “Vidago Melgaço e Pedras Salgadas”) queria afinal dizer “Vamos Mandar Prender Salazar”. Lembras-te de te contar quando eu estudava no liceu da Covilhã, logo a seguir à revolução dos cravos, aquele episódio da aula de ginástica em que o professor faltou? Como estávamos equipados, fomos jogar futebol. Havia um colega que queria ir para a baliza. Mas para a outra era sempre um impasse, porque ninguém aceitava ficar ali quieto a levar com boladas enquanto os outros podiam marcar canelas. Um colega mais matulão sugeriu: “Fazemos uma votação para quem deve ir para a baliza”. Ainda mal tinha acabado a frase e disparou logo uma pergunta, colocando o braço no ar: “Quem vota no Paulo Moura para ir para a baliza?” o que levou à unanimidade nos braços levantados… mas no meu caso foi um manguito,

uma declaração de voto – “Porra para a vossa democracia” – e uma corrida para os balneários mudar de roupa. Só ao longo da vida assimilei as várias lições deste dia: uma delas foi que a democracia pode ser perigosa, quando desrespeita as minorias, ao quebrar aquela velha máxima de “a nossa liberdade acaba quando começa a liberdade dos outros”; outra foi que ser franzino não ajuda nada a fazer valer a nossa posição; e a principal foi que eu e o futebol não combinamos. Eu sei, eu sei, é como se estivesse daqui, na Cova da Beira, a ouvir as tuas gargalhadas. Aposto que te estás a recordar dos meus tempos da escola primária em que, mesmo nos dias em que levava eu a bola, não me escolhiam para nenhuma equipa. E pior ainda era quando havia um número ímpar de jogadores e eu ficava para o fim. Até que os dois que escolhiam as equipas chegavam a acordo: “Tu tens a equipa mais forte, ficas também com o Paulo Moura”. A minha alcunha dos tempos de juventude reflectiu tudo isto: Cruijff. Na primeira vez que fomos jogar para o pinhal da cerca do conde, o Zé Papas começou por gritar aos colegas de equipa “não deixem o Cruijff desmarcar-se” mas, ao fim de poucos minutos, já gritava “passem a bola ao Cruijff que ele remata para fora”. Não falando de política nem de futebol, resta-me falar de trabalho. E deixa-me que insista: a malta que manda ainda não se convenceu que os professores do ensino público não têm meios para trabalhar como lhes é exigido. E muito menos ainda para o que desejariam fazer! Se eu pudesse, falaria com cada professor e dizia-lhe para exigir, na sua

escola, os meios para poder exercer a sua actividade. E quando falo em meios é no sentido mais lato possível: ambiente social e respeito pela profissão; enquadramento e protecção legal; formação; equipamentos funcionais (informáticos, multimédia, internet,…); consumíveis; gabinete de trabalho para actualização de conhecimentos, preparação de aulas e de testes, bem como para a sua correcção; apoio administrativo; e, o recurso mais escasso de todos: tempo. Exijam que se cumpra o Estatuto da Carreira Docente: “O direito ao apoio técnico, material e documental exercese sobre os recursos necessários à formação e informação do pessoal docente, bem como ao exercício da actividade educativa”. E nos regulamentos da avaliação: “O docente tem direito a que lhe sejam garantidos os meios e condições necessários ao seu desempenho, em harmonia com os objectivos que tenha acordado”. Ou terão que ser os cônjuges dos professores a cobrar do Estado tudo o que este devia providenciar? Algum professor já apresentou factura dos riscos que lhe são feitos no carro? Do tempo que trabalha em casa fora do horário laboral? Dos tinteiros, resmas de papel e outros materiais que paga do seu bolso? Sabes que mais? Se as coisas se mantiverem como estão, a culpa é dos professores, ao permitirem, com o seu voluntarismo, que o Ministério da Educação continue a fazer omeletas sem ovos, usando o truque de pôr a cabeça de cada professor.... num ovo! Cem mil abraços, Paulo Moura

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CINEMA

Cinema

Um mês de Fantasia “AS CRÓNICAS DE SPIDERWICK”

É uma fantasia com humanos e duendes, monstros e criaturas etéreas. Com influência "potteriana" (até há um "Troll"), não é uma imitação barata, pelo contrário, está feito com minucioso cuidado - e não há feiticeiros, só pessoas comuns, embora com acesso a um "livro de instruções". Conta a história de uma família subitamente rodeada por um mundo que as crianças aceitam de imediato e de que os adultos descrêem… como é hábito. Tratando-se de uma fantasia, não podem ser-lhes apontados erros de lógica, pelo que deve ser bebido como uma hora e picos longe dos

“10.000 AC” Roland Emmerich (realizador) deve ter tido um azar na vida ou então não há futebol lá para os sítios dele (o AntónioPedro Vasconcelos prefere ganhar a vida como comentador desportivo do que ter de fazer maus filmes). Depois do "Independence Day" e do filme magnífico que é "O dia depois de amanhã", Emmerich caiu numa mixórdia pseudo-histórica confusofantasista plantada lá para os fins de uma era glacial sem credibilidade geológico-cinematográfica em que mistura civilizações, povos, bichos e costumes que nunca poderiam ter-se encontrado. É outra fantasia, mas esta protagonizada por uma tribo "rasta62

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fárica" em luta com nómadas caçadores de escravos. A protagonista (Camilla Belle) é luso-descendente e até deu uma entrevista em português à televisão, mas não será com este filme que vai chegar ao estrelato é pena, porque é quem melhor se porta no meio daquela trapalhada toda, incluindo os colegas, o realizador e o argumentista. Oh, passa-se uma hora agradável, porque aquilo é tudo muito bonito, mas no fim, por mais que se esprema deita um suminho de nada e com um travo a decepção.

por Pedro Laranjeira

pensamentos diários de stress e problemas. Genial é o sítio do filme na internet, merece uma visita. O que não a tem merecido como se esperava são as salas onde corre… na sessão a que assisti estavam oito pessoas. Talvez por aí se perceba que, por muito tecnicamente bom que seja um filme, não pode ser "mais do mesmo", o que também é verdade em relação às "Crónicas". Mas vê-se bem. Seguindo a tradição ancestral das histórias infantis (o Capuchinho Vermelho e a Branca de Neve são bons exemplos), também esta é uma história de terror… que acaba bem.


CINEMA

Em intervalo de Harry Potter, a fantasia invade as salas. Longe vão os tempos da "Dama e o Vagabundo", mas a indústria não desarma e vai de Shrek a Patinho Feio, de Rei Leão a Horton, de Nemo a Winx. Há fantasia para adultos e fantasia para crianças, mas o género conquista um público cada vez mais jovem, com uma exigência moderna de qualidade que leva a curiosas misturas de animação e imagem real - foi Mary Poppins que deu um pontapé de saída muito à frente do seu tempo, talvez só igualado 24 anos depois por Roger Rabbit. A era digital, porém, trouxe uma realidade nova: aquilo que só a animação podia mostrar há algumas décadas, é agora reproduzível em imagem real e efeitos de computador. O cinema ganhou novo fôlego, num campo cujo futuro está ainda a começar. “NOME DE CÓDIGO: CLOVERFIELD” Já percebi porque é que a Vodafone fez bandeira com o filme: aquilo é mesmo Yorn! É assim uma espécie de King-Kong século XXI, um monstrusão que dizima Manhattan enquanto vai parindo aracnídeos geneticamente inimiscuíveis com o bicho que lhes dá origem. Tudo é filmado por um rapazinho que não deixa de gravar nem mesmo quando está a um segundo e meio da morte, com uma "handycam" a que nunca acaba a bateria e que nenhum cataclismo danifica. Como convém para dar a ilusão, a imagem é instável o filme todo, com saltos e desconfortos visuais que ao invés de "realidade" transmitem "incomodidade". Como os "reality shows" estão na moda, alguém quis fazer um "reality movie". Nada de novo, as sequências não são credíveis, os personagens seguem padrões de comportamento que não passam pela cabeça de ninguém, as cenas dramáticas são sempre resolvidas com milagres fabricados pelo argumentista, que é mais fértil a criar improváveis que o monstro a parir filhotes. É um jogo de computador em ecrã gigante, para um target etário muito bem definido: ah, isso sim, há uma geração de consumidores para este tipo de entretenimento e não fiquei nada surpreendido por não haver na sala uma única pessoa que aparentasse ter mais de 24 anos… palavra de Yorn!

3 DE ABRIL "CORAÇÕES", (Coeurs) drama/romance, de

Alain Resnais, com Sabine Azéma, Isabelle Carré, Laura Morante, Pierre Arditi, André Dussollier, Claude Rich, Lambert Wilson.

"PONTO DE MIRA", (Vantage Point) drama/

PRÓXIMAS ESTREIAS "INDETECTÁVEL" (Untraceable), thriller, de Gregory Hoblit, com Diane Lane, Billy Burke e Colin Hanks.

"LARS AND THE REAL GIRL", comédia, de Craig Gillespie, com Ryan Gosling, Emily Mortimer e Paul Schneider.

"TUDO O QUE PERDEMOS" (Things we lost in the fire), drama, de Sussane Bier, com Benicio del Toro, Halle Berry e David Duchovny.

"DOOMSDAY", acção, de Neil Marshall, com Bob Hoskins, Myanna Buring e Barry Cameron.

thriller, de Pete Travis, com Dennis Quaid, Matthew Fox, Forest Whitaker, Sigourney Weaver, William Hurt, Bruce McGill.

"[REC]" ([REC]), terror, de Jaume Balagueró e Paco Plaza, com Javier Botet, Manuel Bronchud, Martha Cabonell e Claudia Font.

"27 DRESSES", comédia, de Anne Fletcher, com Katherine Heigl e Brian Kerwin.

"A TALE OF TWO SISTERS", terror, de

17 DE ABRIL

"NIGHTMARE BEFORE CHRISTMAS 3D", comédia/romance/suspense/animação, de

Charles Guard e Thomas Guard, com Elizabeth Banks, David Stratham e Arielle Kebbel.

"RESERVATION ROAD", drama, de Terry George, com Joaquin Phoenix, Jennifer Connely e Mark Ruffalo.

"U2 3D", documentário musical, de Catherine

Owens e Mark Pellington, com Bono, Adam Clayton, Larry Mullen Jr e The Edge.

"DONKEY XOTE" (Donkey Xote), animação, de Jose Pozo, com vozes de Jose Luis Gil, Andreu Buenafuente e David Fernández

"O AMOR E A VIDA REAL" (Dan In Real Life), comédia, de Peter Hedges, com Steve Carell, Juliette Binoche e Dane Cook.

"LIVE", drama/comédia, de Bill Guttentag, com Eva

10 DE ABRIL

Mendes, David Kruholtz, Rob Brown, Eric Lively e Katie Cassidy.

"SHINE A LIGHT", documentário musical, de

24 DE ABRIL

Martin Scorsese e Albert Maysles, com Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Ron Wood e The Rolling Stones.

"PERIGO IMINENTE" - ESPECIAL 25 ANOS (Blade Runner), VERSÃO DEFINITIVA.

"BIG STAN", comédia, de Rob Schneider, com

Ficção, de Ridley ScotT, com Harrison Ford, Rutger Hauer e Sean Young.

"RUN FAT BOY RUN", comédia, de David

"NÓS CONTROLAMOS A NOITE" (We own the night), drama/thriller/crime, de James Gray,

Rob Schneider, Brandon Molale e David Carradine.

Schwimmer, com Simon Pegg, Hank Azaria e Thandie Newton.

com Joaquin Phoenix, Eva Mendes, Mark Wahlberg, Robert Duvall, Alex Veadov e Dominic Colon.

Henry Selick, argumento de Tim Burton, com Danny Elfman, Chris Sarandon, Catherine O'Hara, William Hickey e Glenn Shadix.

1 DE MAIO "O HOMEM DE FERRO" (Iron Man), acção, de Jon Favreau, com Robert Downey Jr, Gwyneth Paltrow e Samuel L. Jackson.

"PATHOLOGY",

drama/thriller, de Marc Schoelermann, com Milo Ventimiglia, Lauren Lee Smith, Johnny Whitworth, Alissa Milano e Keir O'Donnell.

"O SABOR DO AMOR" (My Blueberry Nights), drama, de Wong Kar Wai, cm Jude Law,

Norah Jones, Natalie Portman, Rachel Weisz e Tim Roth.

"BATTLE IN SEATLE", drama, de Stuart Townsend, com Charlize Theron, Woody Harrelson, Ray Liotta e Channing Tatum.

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OPINIÃO Padre José Maia

Nuvens no Horizonte

Há muito que se pressentia, mas agora a coisa foi chamada pelo nome: agenda de modernidade.

Algumas iniciativas já tomadas pelo governo e pelo Parlamento, mais cedo ou mais tarde, farão chegar a factura dos “custos sociais” resultantes da sua aplicação! É claro que nem tudo tem sido negativo. Havia e continua a haver necessidade de introduzir muitas reformas na sociedade portuguesa. As contas públicas, as escandalosas mordomias de milhares de agentes do Estado, a anarquia em muitos sectores da vida pública, entre outras, são situações a que urgia dar respostas adequadas! Houve medidas de política que o bom povo entendeu bem e que ajudam a explicar os bons índices de popularidade do nosso primeiro-ministro. Até as trapalhadas e os sucessivos recuos dos últimos tempos têm merecido a absolvição da generalidade dos portugueses. Até porque, olhando para os partidos do lado, não têm por onde escolher! Mas, entre outras, há uma prática que fugiu ao controle político da governo, a saber: confiar a técnicos, muito bem pagos para emitir pareceres, a tarefa de sugerirem propostas em vários domínios, com especial incidência no sector da Saúde. Provou-se que apresentar soluções tecnocráticas para problemas políticos não tem sido muito boa ideia! É que o povo é paciente, mas não é tolo! E fala, à sua maneira. O Ministro da Saúde, apesar de bem calçado com bons estudos técnicos, dançou! O Ministro “Jamais”, apesar da novela da OTA e do TGV, teve melhor sorte e lá se vai aguentando, até vermos em que vai dar a aplicação do pagamento das portagens das SCUTs! Na Educação a coisa está a ficar negra! Se num primeiro momento, e apesar da manifestação de protesto dos 100 mil, a Ministra tem merecido o apoio da opinião pública, sabendo que o Presidente da República lhe vai dando também um suporte que a vai preservando da falta de confiança política que o primeiro-ministro lhe está a conceder.

Porém, nos últimos tempos, a violência nas escolas desaguou na opinião pública como um torrencial que ameaça fazer estragos “género tsunami”! Um jornal da nossa praça chamou-me a atenção por uma frase onde se podia ler: “a percepção da impunidade é geradora da tentação da  criminalidade”. A nova Ministra da Saúde tem de andar com muita atenção, entre outras muitas coisas, a algumas propostas mirabolantes que por aí circulam no domínio do tratamento a toxicodependentes, não vá repetir-se em várias medidas de intervenção que andam por aí a ser ensaiadas, o que aconteceu na Penitenciária de Paços de Ferreira! Que aconteceu então? Os 1500 detidos a quem ofereceram, de uma forma mediaticamente muito badalada, um programa de troca de seringas, fizeram greve às seringas, negando-se a aderir a este projecto. Questionado sobre esta informação, o notável Ministro Alberto Costa apelidou-a de uma “boa notícia, a provar que os reclusos deverão ter enveredado por acções de desintoxicação”. Mas então não deveria supor-se que os técnicos da prisão conhecessem essa opção dos reclusos pela desintoxicação, preferindo-a à troca de seringas?

Às vezes a tentação da modernidade pode obscurecer o bom senso e o realismo que devem nortear a acção política (e não só)! k

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Conhecimento recíproco

Factor mais dinamizador e enriquecedor da relação Apenas há uns dias tive a satisfação de entregar uma importante condecoração do meu país a uma prestigiada jornalista e analista que, sem dúvida, contribui para que o “Público” seja uma fonte de informação e de interpretação da complexa actualidade internacional muito relevante. Ao condecorar a Dra. Teresa de Sousa quis também exprimir o agradecimento que lhe devemos os diplomatas que trabalhamos em Portugal, as suas análises da actualidade e do papel de Portugal no mundo fornecem-nos códigos de leitura inteligentes e análises profundas sobre os interesses nacionais e a sua interacção com o que acontece neste mundo. Por Enrique Panés, embaixador de Espanha em Portugal

Portugal tem uma classe dirigente e uma opinião pública que também precisa de informação e análises porque este país já tem muitos dos seus interesses ligados aos de outras nações e muitos dos seus pólos de desenvolvimento relacionados com centros de decisão situados mais além das suas fronteiras. Portugal vê-se afectado pelas crises internacionais e interessa-lhe saber o que acontece na política, na economia e na sociedade dos seus principais parceiros. Não me surpreende, portanto, que tenha chegado a bom porto o projecto “Diplomacia & Comércio” da Revista ‘Perspectiva’: as relações entre Portugal e Espanha interessam a muitos portugueses, têm grande relevância desde o ponto de vista económico, com muito conteúdo político - diplomático. Em definitiva, ultrapassam os confins nos que habitualmente se colocam as relações

bilaterais com outro país. São de peso e de alcance superiores ao que é habitual inclusive entre países vizinhos. Espero que esta edição da ‘Perspectiva’ tenha muitos leitores e que encontrem nos diversos artigos informação e análises que os ajudem a avaliar mais exactamente o presente e principalmente o futuro da relação entre os dois vizinhos peninsulares. Sobre o presente escrevemos e falámos muito, fazemo-lo diariamente porque o nosso trabalho consiste precisamente em acompanhar o que está a acontecer, facilitar o diálogo entre agentes de todos os tipos (económico-financeiros, culturais, científicos e profissionais...), defender interesses que se consideram desprotegidos ou indevidamente tratados, informar, conhecer, tratar, dialogar...

Mais de 100.000 portugueses trabalham no país vizinho, aproximadamente dez vezes mais do que os espanhóis residentes em Portugal.

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Foto: Turismo Espanhol

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Este presente tão denso de intercâmbios e de relações está construído sobre a base de uma clara sintonia política entre os dois governos. O

conhecimento pessoal e o diálogo facilitam a procura de soluções para as questões técnicas inclusive as muito complexas, como a regulamentação dos caudais dos rios que partilhamos (já podem ser consultados na Internet, o mercado ibérico da electricidade (sim, visto que o MIBEL não é ainda uma realidade totalmente eficaz e que as empresas espanholas ao não dispor de capacidade de geração aqui, sofrem especialmente as consequências de essa operatividade reduzida), os traçados das linhas dos futuros comboios de alta velocidade (que trazem consigo dinâmicas económicas que a maior parte dos cidadãos não chegam a imaginar), a cooperação entre as forças de segurança no combate contra tráficos ilícitos, cada vez mais eficaz e integrada. E muitos outros âmbitos, falados entre ambos países nos quais se intercambiam conhecimentos e projectos praticamente sem interrupções. Não esqueçamos, por outro lado, que o presente da relação bilateral inclui um aumento considerável de portugueses residentes em Espanha. Os dados mais recentes divulgados pela imprensa indicam que são mais de 100.000 os que trabalham no país vizinho, com um aumento de 60 % nos últimos dois anos. São aproximadamente dez vezes mais do que os espanhóis residentes em Portugal. Ao falar de relações bilaterais, portanto, não devemos esquecer este importante aspecto humano, o que lhe confere um valor especial. Junto com o grande aumento de turismo, os intercâmbios de estudantes e a cada vez maior frequência de contactos entre muitos sectores profissionais, penso que podemos falar de duas sociedades cada vez mais próximas e que, por tanto, se conhecem cada dia mais. O conhecimento recíproco é o factor mais dinamizador e enriquecedor da relação.

Há os que insistem em falar de relação desequilibrada, de um país grande e com mecanismos de auto protecção implacáveis, da assimetria de interesses recíprocos. Os mais drásticos não têm

inconveniente em falar (ainda...) de “invasão e os pessimistas não perdem a oportunidade que oferece a actual fase de incertezas económicas em praticamente todo o Ocidente para alertar para o grande perigo que ameaça Portugal: a diminuição do ritmo de crescimento do país vizinho, que o arrastará para profundidades ainda mais escuras... Para os fatalistas a realidade é com frequência uma contrariedade, porque desmente os seus excessivos temores.

Vejamos uns dados básicos: há umas quatrocentas empresas portuguesas Em Espanha, facturam anualmente uns 11.000 milhões de euros e empregam umas 21.000 pessoas. Podiam ser mais e maiores...Seguramente. Continuarão a crescer em número e em volume e se queremos falar de atrasos teremos que começar a dizer “ talvez se demorou muito a compreender a importância do mercado espanhol...” Os números do vizinho são maiores visto que a sua economia também o é (800 empresas, 80.000 empregos, 15.000 milhões de número de negócios), mas a proporção (e, menos ainda as dinâmicas de evolução) não permite falar de hegemonia). Quase me sinto inclinado a pensar que os empresários espanhóis em Portugal devem recuperar energias e não perder posições, os portugueses estão a crescer muito rapidamente em Espanha. Ainda bem! Nunca ouvi falar de barreiras inultrapassáveis para as empresas francesas ou italianas no meu país: Será que as portuguesas que as sentem (ou pressentem...) deveriam rever as suas estratégias comerciais para chegar a esse amplo mercado e com numerosas particularidades que têm às suas portas?

Há espaços livres para além dos já ocupados pelos grandes grupos? Cabem outros onde já es-

tão a Endesa, Iberdrola, Repsol, La Caixa, BS, BBVA, ... A EDP, BES, CGD, Cimpor...? Antes de mais, um comentário pessoal: é bom que estejam os grandes porque em muitos casos facilitam a chegada de outros menores, além de trazer uma “massa crítica” para a relação que lhe dá estabilidade e a salvaguarda de grandes altos e baixos. Os “novos espaços” serão configurados pelas novas tecnologias, a criatividade dos próprios empresários e, provavelmente, a crescente aproximação de estratégias e de prioridades colectivas. Já não deveria surpreender ninguém que empresas espanholas e portuguesas falem sobre o Brasil, Chile, Angola, Marrocos, China, Rússia. Tenho a certeza que no futuro o farão com cada vez mais frequência e não faltarão os casos de “triangulações” com sucesso nos mercados que hoje em dia são mais importantes para um do que para o outro. Ou demasiado afastados das prioridades de ambos. &

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Dois mercados, duas realidades “Mais do que um aliado no mercado ibérico, pretendemos ser um apoio de confiança”, por isso “dedicamos, naturalmente, atenção mais pormenorizada às PME’s, porquanto sabe-se que as grandes corporações têm acautelados, como julgamos, muitos dos condicionalismos que se lhes possam deparar”. As palavras são de Aureliano Neves, presidente da Câmara Hispano-Portuguesa de Comércio e Indústria.

Podemos olhar para a Península Ibérica como um todo em termos empresariais?

Não nos cansamos de recomendar às empresas portuguesas que o mercado ibérico não pode ser encarado simplesmente como a junção dos dois países. Espanha tem aspectos de geopolítica e mercados que justificam a sua observância como várias realidades distintas. As próprias empresas espanholas têm em consideração estes aspectos quando se pretendem dispersar pelo território. Não esquecer ainda que uma boa parte da introdução em mercados da América Latina se pode iniciar em Espanha, de forma idêntica às relações facilitadas que Portugal tem com o Brasil e alguns países africanos.

Quais as grandes diferenças entre as duas economias?

Numa apreciação fácil, no melhor e no pior, as comparações de Portugal com Espanha tendem sempre a multiplicar por quatro ou cinco. Assim é na dimensão geográfica, na população, no PIB e em quase todos os demais indicadores. Deve, no entanto, salientar-se que a já citada compartimentação administrativa de Espanha não entorpece as decisões empresariais. Pelo contrário, existe uma constante disputa de importância que estimula o desenvolvimento regional e mesmo que gere grandes problemas ao governo central não deixa de elevar o potencial e a riqueza do país. É um conjunto muito pragmático, as instituições decidem e o empresariado sabe normalmente com o que conta, no lugar e no tempo, quando pretende investir. As estruturas de cada Comunidade apoiam os agentes económicos, tratando de lhes facilitar oportunidades e divulgação, que colocam as empresas espanholas normalmente em situação favorável face às concorrentes.

Como caracteriza a relação comercial e industrial entre os dois países? Os números são diariamente mais conclusivos sobre as relações entre os dois países. Portugal cada vez mais beneficia das oportunidades que o

mercado espanhol lhe oferece, tanto nas exportações como nas importações. Porém, como todas as dependências, esta também pode ter aspectos perigosos. Em fases de crise, como está a ocorrer na actualidade, é possível que Portugal se ressinta bastante das turbulências económicas do país vizinho, na produção, no consumo e no desemprego. Esperemos que não tenha consequências muito duradouras.

Qual a importância da recente criação do Tribunal de Arbitragem da Câmara Hispano-Portuguesa de Comércio e Indústria? O Tribunal de Arbitragem que criámos destinase a agilizar a resolução de casos jurídicos decorrentes das relações comerciais. Também em Espanha as demoras na justiça preocupam muito os empresários e foi nesse sentido que optámos por esta ideia. Tratou-se de uma iniciativa muito bem acolhida pelos nossos sócios, apelativa para muitas empresas e na linha de um recurso de resolução de litígios com grande tradição em Espanha. Contamos que seja um marco significativo e desejamos que o actual número de associados, 150, seja substancialmente aumentado pela sua implementação. O período conturbado que se está a atravessar, vai implicar algumas complicações no relacionamento entre empresas, fomentando a procura de apoios desta natureza. & Leia esta entrevista na íntegra em www.diplomaciaecomercio.com A Câmara Hispano-Portuguesa de Comércio e Indústria, com 40 de existência, é uma associação privada, fruto da vontade dos sócios, com a vocação natural de servir de apoio às empresas portuguesas que têm, ou procuram ter, relações com o mercado espanhol. De igual modo, pretende ser útil às empresas espanholas nas suas ligações com Portugal. Organiza seminários, reuniões e almoços temáticos, algumas missões empresariais relacionadas com estes mercados. “Existe, contudo, um trabalho permanente de apoio, perspectivação de oportunidades, introdução em novas áreas de mercado e orientação administrativa, que desde há anos vimos privilegiando”.

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“É preciso afastar o mito da ‘ameaça espanhola’” O alerta é feito por Enrique Santos, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCLILE), numa entrevista que aborda a dinâmica das relações entre os dois países. Quais as oportunidades de negócio em Portugal? As oportunidades de negócio em Portugal são variadíssimas e em sectores muito vastos. Ultimamente temos observado vários investimentos espanhóis importantes em áreas tão diversas como energia, logística, agro-alimentar, petroquímico, materiais de construção e outros, onde aparecem nomes de importantes grupos espanhóis como a Repsol, a La Seda de Barcelona, Roca, Abertis, Pescanova, etc.. Em anos anteriores assistimos aos investimentos na área da distribuição e serviços e no sector financeiro, onde existe também uma participação importante por parte do Santander, BBVA, Banco Popular e várias Caixas de Aforro. O El Corte Inglés e o Grupo Inditex são investimentos com muita visibilidade e êxito. E em Espanha? Há uns meses efectuámos um estudo sobre a presença das empresas portuguesas em Espanha e de certa forma ficámos positivamente surpreendidos pela forte presença de empresas portuguesas em Espanha, algumas delas líderes do seu sector naquele mercado. Vejamos por exemplo, a Sonae que com a Tafisa é o maior produtor mundial de aglomerados; a Sovena é a maior engarrafadora de azeite; a EDP é a nível ibérico o terceiro maior produtor de electricidade; a Galp que já tem mais de 400 pontos de venda em Espanha; a Cimpor com várias fábricas de cimento e centrais de betão. No nosso estudo apurámos também que as 35 maiores empresas portuguesas em Espanha facturam o equivalente a 5.2% do PIB português. Quais são as principais dificuldades apontadas pelos empresários espanhóis a Portugal? As dificuldades são cada vez menores. Penso que onde talvez se encontre alguma fricção é no que se refere à legislação laboral em Portugal, que na nossa óptica é mais rígida e inflexível que em Espanha. Parece-me que neste campo seria con-

veniente haver uma maior flexibilidade por parte das autoridades, organismos patronais, sindicatos e trabalhadores. E pelos portugueses que pretendem investir em Espanha? Há uns anos ouvia-se com alguma frequência queixas de alguns empresários portugueses que em Espanha havia proteccionismo e que dificultavam de alguma forma o investimento naquele país. Pode ser que alguma empresa tenha encontrado dificuldades deste género, mas posso garantir que isto é mais a excepção que a regra. A principal dificuldade que as empresas naturalmente encontram em Espanha é o grau de alta competitividade do mercado, o que obriga as empresas a terem uma estrutura financeira adequada e uma estratégia de marketing adaptada aos condicionalismos de Espanha relacionado em primeiro lugar com a diversidade das regiões geográficas e com a extensão do país. É óbvio que a tecnologia tem que ser de ponta, porque como dizia anteriormente a concorrência nesse mercado é grande, não só por parte das próprias empresas espanholas, mas de outras principalmente francesas estabelecidas em Espanha. Em termos de futuro o que é que pode ser melhorados? As relações neste momento são excelentes tanto a nível governamental, associativo, transfronteiriço, etc. O que é preciso talvez por parte dos portugueses é afastar o mito da “ameaça espanhola”. Estou certo que daqui para o futuro assistiremos a uma integração gradual e sistemática entre as duas economias e é conveniente que como dizia recentemente o Ministro da Economia Manuel Pinho numa entrevista que “cada país olhe para o outro como uma parte do seu mercado natural, são duas economias muito integradas”. &

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Mercado bancário ibérico

Necessidades de investimento são opostas Próximos em termos fronteiriços, mas distintos na forma de agir no sector da banca. Em entrevista, José Araújo, director de Marketing de Empresas do Millenium BCP, fala das diferenças entre o mercado português e o espanhol em termos bancários e traça os principais desafios.

Como caracteriza o mercado ibérico em termos bancários?

O mercado ibérico bancário é extremamente dinâmico e competitivo sobretudo ao nível da Banca de Empresas e de Investimento, já que nestes casos estão em causa mercados transfronteiriços, ou seja, todos os grandes bancos portugueses e espanhóis actuam nos dois lados da fronteira como se de um só mercado se tratasse. O mesmo não se pode dizer da Banca de Retalho, onde a Banca Espanhola está presente em Portugal como se de mais uma província se tratasse, ao contrário da Banca Portuguesa que está representada em Espanha não só em pequeno número mas também em pequena dimensão face ao mercado potencial.

Quais são as principais exigências dos dois mercados? São distintos ou similares?

O nosso mercado é muito mais aberto e menos protegido que o Espanhol para a entrada da  Banca estrangeira, sobretudo do ponto de vista prático de acesso aos vários segmentos de mercado, já que ao nível legislativo as realidades são muito semelhantes. Nós somos um povo e uma nação com clientes de necessidades claras e transversais de Viana do Castelo a Faro. Aqui ao lado, o que um cliente da Catalunha necessita é bem diferente daquilo que um Andaluz necessita. Face à dimensão de cada país e à verdadeira existência de autonomias e regiões em Espanha, as necessidades de investimento para se ter sucesso são pois diametralmente opostas. Como já referi, os espanhóis actuam no nosso país apenas como um centro de distribuição regional, exercendo actividade sobretudo nas zonas populacionais nacionais que se centram nas grandes cidades da costa portuguesa, aproveitando toda a sua estrutura operacional desenvolvida nas casas mãe. Por outro lado, a banca portuguesa se quiser ter sucesso em Espanha, tem

que investir nas diversas regiões espanholas, cada uma delas com os seus hábitos de consumo e necessidades próprias e com uma concorrência local muito específica. O mercado bancário ibérico não existe num todo, uma vez que no mercado espanhol há políticas de mercado muito distintas de acordo com as diferentes regiões autónomas. Uma boa forma de ilustrar este exemplo é o facto do Santander e do BBVA, dois dos maiores Bancos mundiais, não serem, creio eu, primeiros bancos em nenhuma das Províncias Espanholas onde as diferentes “Caixas de Ahorro” têm um papel de destaque no financiamento e captação de poupança das várias comunidades e entidade locais. Em Espanha, as várias Regiões concorrem economicamente entre si...nós concorremos com eles.

Como define a presença do Millennium bcp neste mercado?

A presença do Millennium bcp neste mercado tem sido discreta mas efectiva e cumprindo os seus principais objectivos e missão: servir as empresas

José Araújo, director de Marketing de Empresas do Millenium BCP

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Foto: Turismo Espanhol

Portuguesas que operam nos dois lados da fronteira (export /import) através da sua rede comercial nacional  (Negócios, Empresas e Corporate) e a acordada com os seus parceiros ibéricos, consubstanciada numa alargada oferta de produtos e serviços transfronteiriços bem apoiados por uma equipa dinâmica da Direcção Internacional - o Millennium Trade Solutions; apoiar a internacionalização das PME's e das grandes empresas portuguesas através do representante do Millennium bcp em Espanha (localizado em Madrid) e do serviço PIN (Plataforma Internacional de Negócios), com acções que vão desde encontrar o melhor local e a melhor parceria para a localização de quem quer ir para Espanha, passando por todas as "obrigatoriedades" legais exigidas pela diversa legislação regional espanhola; apoiar as Empresa Espanholas residentes e não residentes que operam cada vez mais com  e no mercado Português, através de uma alargada rede de distribuição nacional (mais de 900 sucursais) e uma equipa especializada de gestores de cliente ibéricos. O Millennium bcp é, igualmente, uma das entidades financeiras preferida pelas grandes multinacionais das mais variadas origens e que têm as suas operações centralizadas na Península Ibérica, sejam elas em Madrid ou em Lisboa. Aqui as soluções de Cash Management, Banca Electrónica  e a grande entreajuda da banca comercial e de investimento, têm dado os seus frutos de forma reconhecida pelo mercado.  

Qual o balanço de 2007?

2007 foi um bom ano para o mercado, em geral, e para o negócio ibérico, em particular. As nossas empresas cresceram de forma significativa no negócio bilateral, Espanha passou a ser o nosso primeiro mercado de exportação, e do outro lado da fronteira, Portugal passou a ocupar o 3º lugar ao nível do negócio extra-portas de Espanha. De salientar, igualmente, os resultados do Millennium bcp. O Banco cresceu em resultados operacionais e em quota de mercado, aproveitando esta dinâmica. O Millennium bcp serve actualmente mais de 2.500 clientes com interesses nestes dois mercados e supera os 25% de quota no negócio bilateral, o que prova a excelência dos seus produtos e serviços para o Mercado Ibérico. Isto, pese a forte concorrência de bancos nacionais com accionistas espanhóis e da banca espanhola a operar em Portugal, com quase duas dezenas de marcas e dos nossos grandes concorrentes nacionais que detêm em Espanha sucursais e bancos de direito local.

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Quais as perspectivas para o ano em curso 2008?

O ano em curso será um ano muito difícil para todos. Os mercados financeiros já acabaram o ano de 2007 em crise, que se tem vindo a acentuar ainda mais no primeiro trimestre de 2008. A nossa Economia e os agentes económicos já estão a sofrer os efeitos desta crise que começou por ser financeira e do subprime que está a afectar o mercado imobiliário espanhol já em grande força. Neste contexto, penso que os restantes sectores também serão afectados, por isso será inevitável que o negócio bilateral abrande ao nível do investimento e das exportações/importações. Por essa via, o mercado bancário também irá ser afectado. No entanto, penso ainda que os bancos mais bem preparados e identificados com estes dois mercados, irão tornarse mais competitivos e dominadores, ganhando contas/clientes, uma vez que serão mais fortes ao nível da captação de liquidez no mercado. Como se sabe, o Millennium bcp vai em breve aumentar o capital, ficando mais forte, podendo assim, ao nível do Mercado Ibérico, trazer novas soluções que sirvam ainda melhor os seus Clientes. Este ano, apesar das dificuldades, só pode trazer novas e boas notícias para todos nós neste mercado cada vez mais exigente e concorrencial. Os nossos clientes merecem-no. &

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Revitalização económica de Valença O Parque Empresarial de Valença tem vindo a dinamizar a actividade económica da região e a criar postos de trabalho. Actualmente emprega 700 pessoas, mas prevê-se que o número de trabalhadores possa ascender os 1500. Conversámos com Vítor Alves, administrador da entidade gestora do Parque, sobre as principais valências deste espaço.

Qual a importância do Parque para a região?

O Parque está a contribuir para a dinamização da actividade económica da região através da realização de investimentos que tem fomentado e da criação de postos de trabalho. Até ao momento, foram realizados directamente pela InterMinho cerca de 10 milhões de euros de investimento directo na aquisição de terrenos e obras de infraestruturação. Tal possibilitou a disponibilização de aproximadamente 20 hectares de lotes para empresas, estando presentemente em preparação mais cerca de 8 hectares. Por outro lado, as empresas que adquiriram aqui espaços para instalação, concretizaram já um investimento global que ronda os 25 milhões de euros. Prevê-se que até à ocupação dos 28 hectares previstos para ocupação por empresas se atinja um total global de cerca de 70 milhões de euros de investimento. Em termos de emprego, estão já a trabalhar no Parque 700 pessoas, estando previsto que, aquando da sua ocupação total, o número de trabalhadores total ascenda a 1500.

Que mais-valias para os empresários?

Além da excelente localização, que por todos os empresários é referida, uma vez que passam na sua proximidade as principais vias ferroviárias e rodoviárias que ligam o Norte de Portugal à Galiza, todos os lotes disponibilizados estão preparados com modernas infra-estruturas, adequadas às necessidades das empresas. Aliado a estas características, que são hoje em dia fundamentais para a generalidade das empresas, também o preço praticado se tem revelado competitivo. Tendo por referência um preço de 40 euros por metro quadrado, que pode variar em função do interesse da empresa em causa para o Parque, a InterMinho disponibiliza aos clientes um preço nitidamente baixo face à qualidade das infra-estruturas e à localização do Parque.

Quais as expectativas em termos de crescimento?

As expectativas de crescimento da actividade económica no local passam pelo impacto esperado

pela construção da plataforma logística nas proximidades do Parque, que está actualmente em fase de projecto, bem como pela evolução que se prevê incrementar com a construção do Edifício Central de Serviços do Parque. Este Edifício vai ter uma área social (com cantina, infantário e berçário, posto médico, etc.), uma área de gestão e a área da Inovação, em que serão criados espaços para a formação profissional e a incubação de empresas. Prevê-se que sejam prestados serviços de apoio às empresas e, com a participação e colaboração de todas as empresas, seja concretizada uma eficiente e eficaz gestão do Parque Empresarial de Valença. & Para mais informações contacte www.interminho.pt geral@interminho.pt ou (+351) 251 825 450

Empresas no Parque As empresas instaladas no Parque são 20, em funcionamento pleno. Destas destacam-se a Dayco-Ensa Portugal, de origem italiana, e a Rodman Lusitânia, de origem espanhola. A primeira dedica-se à fabricação de componentes para automóveis e a segunda é uma marca de construção de barcos de recreio de médio porte, a qual se espera que possa vir a atrair outros investimentos, nomeadamente de fornecedores de componentes para os barcos. As restantes 18 empresas em funcionamento são micro ou pequenas empresas, cobrindo sectores como metalomecânica, mobiliário e carpintaria, actividades na área da construção civil, armazenagem e comercialização de produtos de consumo corrente, artes e serviços especializados, recolha e tratamento de resíduos industriais e restauração.

Leia esta entrevista na íntegra em www.diplomaciaecomercio.com.

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revista perspectiva nr 10