Issuu on Google+

Balada dos Bichos Textos de Tânia Grinberg Ilustrações de Adriana Bento

São Paulo | 2012 e-mail para contato: vacavoa@gmail.com


Texto de Tânia Grinberg Ilustrações de Adriana Bento BALADA DOS BICHOS para ler com as crianças Contos curtos escritos em prosa ou poesia, nos quais os personagens são bichos. As histórias são como baladas, canções, música. E falam de balada também com sentido bem moderno: festa. Os bichos fazem cortejos, discutem, são homenageados pelos amigos, fazem show de mágica, organizam um coral, são uma comunidade vibrante! Quem apresenta os contos é a lontra. Está em todas as aberturas de capítulo como comentadora, menestrel. Ela apresenta também o glossário do livro. Palavras que figuram no texto e que, normalmente, não fazem parte do universo infantil são explicadas em pequenos poemas, ao longo das páginas. A ideia de criar o glossário veio com a vontade de expandir o vocabulário das crianças, atiçar curiosidade nas palavras, sinônimos, metáforas, duplos sentidos... Balada dos bichos convida seus leitores a brincarem com as palavras e a imaginação.


Sobre as Autoras

Tânia Grinberg é escritora, cantora, atriz e educadora. Tem um grupo de world music chamado Azdi e o cd de música brasileira Na Paleta do Pintor, que conta com algumas de suas composições. Se formou em Artes Cênicas na Unicamp e atualmente estuda canto na faculdade Santa Marcelina. Criou o curso: Minha mãe canta pra mim desde a barriga e eu gosto, de canto para gestantes e mães com bebês pequenos. Balada dos Bichos é seu primeiro livro.

Adriana Bento é artista plástica e professora, formada pelo Departamento de Artes Visuais da ECA–USP. Desenvolve livros em aquarela, gravura em metal e a partir de dobraduras. Já ilustrou os livros Savanas, pela Saraiva, e Do Avesso, editado pela Com-Arte. Em 2009 expôs uma série de livros em gravura no Paço das Artes e em 2010 no Clube Literário do Porto, em Portugal.


A seguir, leia as påginas iniciais de cada capítulo acompanhadas pelos esboços das aberturas.


Macaco, borboleta, cachorro e iguana,

tamanduĂĄ, tartaruga e taturana.

Vaca, mariposa, esquilo e elefante,

Morcego, galinha e o pingĂźim elegante.

Pato, avestruz, rĂŁ, coruja e girafa,

abelha zum-zumbindo dentro da garrafa.


Lontra, formiga, tatu, gazela e cavalo,

baleia azul e urso, besouro e galo.

VĂŞm o gato manhoso e o jumento teimoso.

Passa o tigre dengoso afiando sua unha. Tem aranha, ariranha, arara, araĂşna.


A zebra sentida reclama, desanima: “Pôxa, por que é que eu não estou na rima?” A gazela toda convencida palpita: “Você não tem pontudos chifres todos tortos compridos, difíceis de serem esquecidos...” Em sua teia a aranha pensa alto: zebra, zebra, zebra, ebra, mebra, vebra. “–puxa, difícil a rima”– e dá um salto! A galinha Francisca dá seu cacarejo: “Nem todo bicho desfila neste cortejo. Não tem sapo, mosquito, pulga ou percevejo.


Minhoca não vejo, nenhum tipo de peixe, nem o badejo. Sem falar na falta que faz o caranguejo! Ora, sabe qual é agora o meu desejo? Ir para Portugal nadar no rio Tejo!” A zebra escuta muda e fica atrapalhada Alguém me acuda! Por favor, alguém me ajuda! É muito palpite pra uma folha sulfite! A bicharada faz a roda de conversa Papo vai, papo vem, cantam, contam e dançam. Escrevem as ideias na lousa com giz: “–Como ajudar a zebra a ficar bem feliz?”


O Urso, grande e sabido, escritor famoso, salta no meio da roda todo animado. Fala alto a redação por ele criada, bela canção na amiga zebra inspirada: “Listras ilustres correm, riscam a savana. Veloz desfila a zebra com sua família. Fotografadas ou desenhadas são belas, mas de perto é que as grandes zebras são elas. Deslizam como no mar vão as caravelas e sua rapidez é quase a das gazelas!”


Todos escutam, batem palmas para o urso, mesmo não tendo entendido todo o discurso. Finalmente, a zebra dá um passo à frente: “–Puxa vida, que maravilha! Eu tenho amigos!” E aproveitando o momento, ela discursa: “– Fora do cortejo, ganhei um conto inteiro. Para cada um de vocês, todos queridos, faço um gracejo: mando um queijo e um grande beijo!”


Vaca voadora! Parece muito grande, Parece muito gorda, Mas quando menos se espera, quando a atenção borboleteia, a vaca já subiu montanha inteira! Tranqüila toma sombra debaixo da árvore de copa larga, no meio do pasto. Mastiga e remastiga grama e feno. Água e sal. Parece parada, calada, pesada. Mas é ágil e delicada! Quando lhe dá vontade Levanta-se sobre as quatro patas e caminha

até correr.


Salta o c贸rrego, salta a pedra e finalmente

voa!


Joga as patas traseiras para trás e estica as dianteiras à frente. Então sobe, sobe, plaina. Linda, bela, leve. Malhada. A vaca voando

contente,

espalhando seu leite. Olhos gigantes, a boca

aberta rindo livre!

Rodopia e até bóia de costas no ar! Vaca faceira. Mu-musa do caipira. Garota propaganda dos leites de caixinha. E as asas? Com que asas voa a vaca?


Precisamos pensar Ou sonhar Ou calcular Ou desenhar Ou desejar Olhar pela janela e torcer para enxergar! E se for impossível, inviável,

invisível?

Cutuque a imaginação e descubra: Criar é bom!


O mágico era o morcego Silvio usando gravata borboleta, boleta de verdade, amarela e preta. A mosca azul apresentou os artistas, olhos brilhantes na noite da floresta. Com assobio sibilante, convocou os ajudantes vagalumes: multiplicaramse as luzinhas. Piscantes, surgiram no ar carregando a pequena caixa. Caixinha iluminada, teatro escuro. Dos bichos que assistiam só se viam sombras. Ao farfalhar de suas asas, o morcego Silvio fez surgir esquisita mesa de madeira, com pernas compridas e tortas. Vagalumes pousaram a caixa na mesa e espalharam-se pelo ar como centenas de estrelas no céu. Em seguida, dançaram em movimento rodopiante: encontraram-se novamente criando anel de Saturno sobre o mágico e, finalmente, uniram-se todos em uma bola, holofote do espetáculo. A caixa ficou ali, imóvel como as caixas costumam ser. Silêncio. De repente ela tremeu.


Do público veio o mugido assustado de uma vaca sensível (talvez tenha voado muito, dia de sol forte, sem protetor solar). O mágico anunciou: “Não me responsabilizo pela saúde de quem tiver coração fraco, falta de coragem ou mais medo do que um pouco de medo! Se alguém estiver assim, pode sair de fininho!” A vaca hesitou, tossiu. Encheu o peito de ar e decidiu ficar. Duas abelhas saíram voando, não porque fossem covardes, mas tinha acabado o intervalo do trabalho delas, que era produzir mel lá na colméia! Quem saiu apavorada mesmo foi a lesma, “Já pensou se de dentro da caixa sair um monstro que queira me esmagar?” Enquanto todos esperavam para ver o que ia acontecer, o mágico Silvio esticou e fechou as asas, cobrindo-se todo com elas. Ao abrí-las novamente, deu um sorriso bem grande, mostrando seus dentes pontudos. Todo mundo tremeu. No momento seguinte, a gravata borboleta voôu e deu três voltas ao redor da caixa. A tampa se moveu e de dentro saiu a rã! Pulou, parou e olhou para cada rosto do público.


Demorou um pouco, porque tinha muito bicho no teatro. Cada um que a rã olhava ficava boquiaberto, ou seja, com a boca aberta de espanto: “ –Oooooooooh!” “ –Não acredito no que estou vendo!” “ –Fantástico! Fabuloso! Incrível!” Quem viu o espetáculo nunca mais se esqueceu! O que será que aconteceu? Ah, aquela rã era muito especial. Sabia olhar de verdade, nem piscava. Mas não era só isso. Quem esteve no teatro, descreveu sua experiência com dificuldade, pois às vezes, palavras não são suficientes para explicar o que a gente sente. Alguns bichos falaram que dentro da bocona da rã tinha um espelho que mostrava, dentro dos olhos de quem via, uma


palavra acesa flutuando. E apesar de entenderem o que viam, nenhum deles conseguia falar a palavra. Outros disseram que a rã guardava grande tesouro. O besouro carrega até hoje uma moeda valiosa que diz ter tirado de lá. A verdade é que os bichos foram todos engolidos pelo anfíbio. Um a um, dos grandões aos pequenininhos. Morcego e gravata também sumiram na boca da rã e, por último, os vagalumes. O teatro ficou vazio, porque a rã acabou de comer o pessoal e sumiu: passe de mágica. O espetáculo acabou em grande estilo e Silvio provou ser um dos maiores mágicos do mundo. Eis o final da apresentação: O dentro da rã era também fora dela: Os bichos engolidos chegaram em enorme clareira da floresta. Lá, acabava de começar a festa!


O CORAL DE SAPOS

Grande festa, tão grande que não coube inteira em um dia só. Foram muitos dias. Maravilha! Festejar e estar com amigos é bom, quando dura bastante então é ainda melhor. Nesta festa da floresta dos bichos tinha um coral de sapos que começou desafinado. O avestruz tentou ajudar a saparada com exercícios de aquecimento de voz. Não deu certo, só funcionavam para pescoços longos. Ele não aguentou mais escutar os cantores se esgoelando e enfiou a cabeça dolorida em um buraco. O desafino continuou até chegarem os músicos esquilo e tatu, dupla de sanfona e violão. Botaram o coral para ensaiar.


Os sapos contentes gritaram: “Com acompanhamento ficou mais fácil!” Fizeram solfejos, vibrações, escalas, exercícios de língua, lábio, de sorrir e fazer bico (dá pra imaginar sapo com aquele bocão fazendo bico?), improvisos cheios de melismas, de coachados e miados. Miados? Sim, miados! O coral foi ficando tão bonito que atraiu alguns gatos! No fim da noite estavam cantando, coachando, miando, mugindo, latindo, uivando, gorgojeando, trinando, grasnindo, zunindo e foi aquela boa cantoria!

O coro foi ficando cada vez melhor durante a festa. Existe até hoje com o nome “Canta brejo”. Famosíssimo, todo mundo conhece na floresta. Tem até coral infantil para girinos, o “Canta brejinho”. (eu me pergunto: como canta um girino?)


Vamos procurar outro lugar para olhar? O que mais acontecia na festa?

CANTINHO DA CONVERSA Ora, tinha o cantinho da conversa debaixo da jaboticabeira. Era um banco bem grande no qual bichos que gostavam de conversar e conhecer novos bichos se sentavam. Nada mais gostoso do que papear comendo frutinhas do pé. O lugar era distante do lago onde cantava o coro, sabe por quê?Para a bicharada não ter que conversar aos berros. Tinha pouco bicho sentado, mas uma turma de alta qualidade: a girafa, o avestruz (ainda com dor de cabeça), dois cisnes (um branco e um cinza) e a siriema. Foi a conversa mais pescoçuda que já se ouviu. Cada um falava do alto de seu pescoço e ouvia também nas alturas. Eram esguios e falavam baixinho! Que discrição, que elegância!


Uma conversa de gente elevada mesmo. Bonito de ver. Sobre o que falavam? Como tratar um torcicolo, diferentes maneiras de amarrar o cachecol, onde comprar gravatas compridas, os horrores das dores de de garganta, entre outros assuntos. Uma hora começaram a brincar de caracol das palavras e foi assim: o cisne cinza falou “azul” e a siriema disse “baleia”, que para ela lembrava “azul”. Então o avestruz (coitado, morrendo de dor de cabeça) disse “rabo”, “– é o que eu imaginei quando ouvi “baleia””. A girafa falou “gato”, “–“rabo” de gato”. Cada pescoçudo foi falando palavras que lembravam as anteriores e assim foi criado o “fio de palavras”. O jogo tem nome de caracol porque depois de formado o fio os bichos tiveram que desenrolá-lo: da última à primeira, do rabo à cabeça, foram lembrando de cada uma das palavras que tinham sido ditas. Inacreditável. Experimente fazer em casa, funciona mesmo.

(...)


A bicharada desfila para um grande rei! Mas quem é o rei? Onde ele está? Será que é invisível? Ou vive escondido? As corujas e os morcegos, que dormem de dia e passeiam de noite, dizem que enxergam o rei no escuro. Os martim-pescadores juram que ele voa e que mergulha nas lagoas! Os pingüins viram o rei pescando perto do iglú e o jacaré disse que ele tem um bocão cheio de dentes pontudos. Quem está certo? Quem será que tem razão? As formigas acham que o rei é bem pequenininho, mas o tigre


bonitão diz que ele é grande, rápido e que tem o pelo bem cuidado. A galinha, a lontra e a vaca gritam em coro: “– Este rei não é um rei, ele é ela, uma rainha!”. Que confusão, tá ficando complicado, tanto que o rato reclama: “Deste quilo de discussão não estou entendendo nem um grama!” Chega o coelho, a raposa, a taturana, um montão de bichos e se sentam na relva. Gritos e opiniões. O porco espinho até carrega uma tábua na qual escreveu tudo o que pensava. De repente soa uma trompa: “túú túú túúúúúúúúúú!”. E pára de tocar.


Ninguém duvida, neste instante, que quem reina é o silêncio. Depois o vento sopra, sopra e sopra. Eis que surge lá de longe todo pomposo, bonito e poderoso, o leão. Os bichos exclamam maravilhados: “–Óóóh, é ele o rei então!”. Mas não,não! “ – Shhhhh, silêncio!”, pede o leão. E ruge: “–Grrau! Amigos e amigas, bichos da floresta, do mar, dos céus, dos pântanos, do gelo e das fazendas! Que alegria vê-los todos juntos aqui na mata. Gostaria de dizer algumas palavras importante que aprendi com os pássaros.


Uma vez sonhei que era um leão voador. Acordei e decidi voar de verdade. Pulei bem alto, corri e saltei, mas não consegui, caí no chão. Fiquei chateado e bravo, tive inveja dos pássaros, donos do céu. Quando passou a braveza, parei de sentir inveja e resolvi que eram eles, os pássaros, os verdadeiros reis do meu reino, pois só eles podiam fazer o que eu não podia e queria mais do que tudo: voar. Mais tempo se passou e comecei a perceber outras coisas importantes. Os passarinhos voavam, mas não corriam, nem caçavam, nem rugiam como eu. Tinham penas e penachos, ao invés do meu pelo dourado e macio. Botavam ovos ao invés de darem leite. Descobri que eu, o leão, também fazia coisas muito legais.


Puxa vida, fiquei contente! Descobri que o meu rei verdadeiro era eu, o leão. E digo mais: o rei de cada bicho é o próprio bicho e seus conselheiros são todos aqueles que ele ama e admira. Somos todos e cada um, reis e rainhas!”. Quando o leão terminou seu discurso os bichos estavam perplexos, boquiabertos. Foram se agitando até começarem a bater palmas, patas e pés... urravam, uivavam, latiam, mugiam e miavam.


E a partir daquele dia os bichos comeรงaram a fazer cortejos e festas para os reis que eles mesmos eram.


Glossário A lontra não entendeu um montão de palavras. Pensou, olhou, perguntou, se divertiu com nomes engraçados, esquisitos, complicados, diferentes dos que conhecia. Marcou cada um deles e anotou as explicações. Cortejo é desfile chique,

Conto é história pequena,

Rodopiante é quem rodopia.

como se faz para os reis.

cabe até em meia folha.

Continua sempre e sempre

Grande tapete vermelho,

Mal você começa a ler,

a dar mil voltas pelo ar.

Trombetas, sinos, tambores.

já descobre o seu final.

Gira tanto que fica tonto.

Discurso é quando alguém diz. Sibilante é som de sopro,

Holofote é no teatro,

Fala alto e em bom som

assim como um assobio

ilumina só o palco.

sobre assunto importante

É agudo e bem fininho.

Lanternona que aponta

do qual é conhecedor.

Vento pelo bambuzal.

o que tem que aparecer.

Ilustre é gente importante

Farfalhar é um sussurro,

Covardes tem tanto medo

conhecida das pessoas.

bem baixinho é seu ruído.

que se escondem, até fogem.

É famoso cavalheiro

Som de asas de borboleta,

Uns ficam alí parados,

que se acha muito bom.

som de folhear o livro.

nem conseguem se mexer.


Faceira é moça bonita,

Esguios são seres altos,

Poedeiras são galinhas

palavra de antigamente.

boa postura e retos.

muito boas de botar

O meu avô chamava assim,

Compridos como uma régua

Botam ovos noite e dia

seu amor, a minha avó.

como o I que está aqui!

contei um, botaram três.

Inviável é o que não.

Discrição vem de discreto

Inspirar é quando ideias

Não dá certo, não funciona

quem não é aparecido.

vão chegando na cabeça.

não é, não dá pra fazer

Entra e sai de um lugar

Parece que nem pensamos

não se pode e não combina.

de fininho, sem ser visto.

e ficamos cheios delas.

Solfejo é cantar notas

Irrequietos nunca páram,

Perplexos ficamos quando

do re mi fa sol la si

estão sempre se agitando.

estamos muito surpresos,

si do la si do re mi

Se mexem como quem tem

vemos coisa bem estranha

cante já isso daí.

formiguinhas pelo corpo.

que não dá pra acreditar.

Escalas e vibrações

Rasante é tipo de vôo

são aqueles exercícios

que passa perto do chão

feitos antes de cantar.

ou da cabeça de alguém,

Ginástica para cantores.

pertinho, quase raspando.

Improviso se faz quando

Algazarra é gritaria,

não tem nada combinado,

um berreiro ou confusão.

fomos pegos de surpresa.

É uma palavra antiga

Cada vez é uma vez.

Pra falar: “mas que bagunça!”


Balada dos Bichos Textos de Tânia Grinberg Ilustrações de Adriana Bento

www.taniagrinberg.com.br e-mail: vacavoa@gmail.com telefone: (11) 98245-2818 e (11) 3816-7447


Balada dos Bichos