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Foto: Álvaro Motta

HISTÓRIA VIVA

Paixão pelas artes gráficas, pelo Brasil, por novos desafios. Assim Emilio Rodriguez guiou sua longa permanência no setor. Por: Tânia Galluzzi

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Emilio Rodriguez Histórias de paixão

milio Rodriguez chegou ao Brasil em pleno Carnaval. Mas não era qualquer Carnaval. Era o Carnaval de 1960. Ele queria ir para o México. Um colega de trabalho, brasileiro, convenceu-​­o a vir para cá. Aos 27 anos, sobre as costas de Emilio pesava a lembrança da instabilidade política vivida pela Argentina no segundo governo de Juan Perón. Na mala, trazia uma boa ex­pe­r iên­cia como técnico gráfico e muita vontade de recomeçar. Voltemos ao Carnaval. O  Brasil acabara de viver seus Anos Dourados. Como escreveu o jornalista Sérgio Augusto para O Estado de S. Paulo no caderno es­pe­cial sobre 1964, nos primeiros anos da década de 60, vivendo em “democracia plena, otimismo econômico, in­dus­tria ­l i­za­ção acelerada, um presidente (JK) sonhador, sorridente e dinâmico, com a

autoestima turbinada por duas Copas do Mundo, (. . .) o Brasil se descobriu contemporâneo, progressista e culturalmente relevante”. Emilio enamorou-​­se do Brasil. Do Brasil e de uma brasileira, Irene, descendente de es­pa­ nhóis assim como ele, com quem está casado há 51 anos. Ela o ­apoiou e continua apoiando em todas as suas empreitadas. E foram muitas em 67 anos de uma rica vida pro­f is­sio­nal. O portenho guarda com carinho a caderneta de registro no Ministerio de Salud Pública de La Na­ción. Em 1947, aos 14 anos, Emilio era um garoto com feições e responsabilidade de adulto. O pai, Ga­briel, trabalhava em uma grande empresa que mantinha uma gráfica, na qual Emilio entrou como aprendiz. “Peguei gosto e fui estudar na Escola de Artes Gráficas, que, naquela época, já tinha uma offset bicolor”, conta Emilio.


GUNTER

EMILIO

Grupo de funcionários da Pancrom, em frente à sede da empresa, na Rua Silveira da Mota, no bairro do Cambuci, em São Paulo, reunidos durante festa de Natal em 1961. Entre eles estão Emilio e Gunter Murrins que, mais tarde, abriria a Color G

MUDANÇA DE ARES

Formado como es­p e­c ia­lis­t a em offset, em 1956 Emilio decidiu deixar a gráfica. Foi trabalhar com um mecânico que descobriu como lucrar com uma lei baixada an­te­r ior­men­te por Perón limitando a importação de equipamentos, transformando máquinas A4 em duplo ofício. A ex­pe­r iên­cia durou pouco, mas rendeu a so­cie­da­de em uma tipografia. Depois de três anos, vendeu sua parte e cruzou a fronteira. Aportou em São Paulo no dia 5 de fevereiro e, ao ver a cidade, disse ao amigo. “Eu não volto mais para Bue­nos Aires”. Instalado em uma pensão no Centro, depois de conhecer Santos e o Rio de Janeiro, Emilio não teve dificuldade para encontrar trabalho. “O Estadão de domingo pesava 12 quilos, com seis cadernos de emprego”, lembra Emilio. Depois de uma passagem relâmpago por uma encadernadora, respondeu ao anúncio da Pancrom à procura de impressores, sendo entrevistado por Geor­ge Murrins e o filho, Horst. Rapidamente destacou-​­se aplicando o conhecimento adquirido na Argentina. Desmontou máquina, mostrou como era possível usar gesso para melhorar a qualidade do relevo, alterou a ordem da entrada das tintas nas máquinas, acabando por in­ fluen­ciar positivamente toda a produção. Tanto que ao receber seu primeiro 13º‒ , acumulando 159 horas extras, foi sur­preen­d i­do pela atitude de Geor­ge: “Ele disse que, por minha causa, pela primeira vez pagaria o 13 º‒ em dobro. Daria o benefício para todos os fun­cio­ná­r ios, mas o motivo era eu”, conta Emilio emo­cio­na­do.

Mesmo valorizado, Emilio queria mais. Da Pancrom passou por vá­r ias gráficas, alternando a função de orçamentista com o comando da produção. Em 1970 entrou na ­Hoechst, aquela que viria a ser sua maior escola, e, igualmente, a empresa que o seguraria por mais tempo. Um dos responsáveis pela introdução das chapas Ozasol no mercado na­cio­nal, Emilio floresceu na H ­ oechst. Terminou o primeiro ano como supervisor, no segundo passou um mês na fábrica da Alemanha e no terceiro

Emilio ingressou na Hoechst em 1970, onde, no terceiro ano, tornou‑se gerente técnico e foi um dos responsáveis pelo lançamento das chapas Ozasol no mercado nacional

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Entre os dias 24 e 26 de outubro de 1996, Emilio participou do 10 -º Congresso Brasileiro da Indústria Gráfica e 1-º Grafsur, na cidade de Canela (RS)

exibia o cargo de gerente técnico em seu cartão. Mais 12 meses e estenderia sua atua­ção para toda a América Latina. INCANSÁVEL

Na ­Hoechst, no início da década de 1970, Emilio aproximou-​­se da Escola Senai Theo­bal­do De Nigris (ainda com o nome Colégio In­dus­trial de Artes Gráficas), da ABTG e da ABNT, ministrando cursos e participando da elaboração de normas para chapas e tintas gráficas. Escreveu livros ao lado de Mario Carramillo Neto, participou da instalação da fábrica da H ­ oechst em Suzano (SP), em 1975, montou a escola técnica Ozasol, correu o mundo.

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Sempre presente nos mais importantes eventos da indústria gráfica nacional, Emilio acompanhou o 4 -º Congresso Mundial da Indústria Gráfica, realizado no Rio de Janeiro de 6 a 10 de maio de 1989

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Em 1986 aceitou o convite de Luiz Nei ­ rias para assumir a gerência técnica da IBF. A Qua­tro anos depois teve de decidir entre mudar-​­se para o Rio ou sair da empresa. Preferiu ficar na capital paulista, atendendo em seguida ao chamado da gráfica Bandeirantes, que precisava de um diretor técnico. O Plano Collor estimulou-​­o a voltar para o segmento de insumos e ao longo da década de 90 e nos anos 2000 passou por alguns revendedores de chapas, filmes e blanquetas. Em paralelo tocava a empresa própria de consultoria técnica. Foi nessas idas e vindas que conheceu João Benetti, herdeiro de uma fábrica de camisas molhadoras, que pediu para Emilio ajudá-​­lo a introduzir um novo produto no mercado. Ao assumir a representação da Policrom ­Screens SPA , João Benetti entregou a direção técnica da empresa a Emilio. Com a cria­ção da Policrom S­ creens South America, no final de 2012, Emilio tornou-​­se responsável pela área técnica da companhia. Ele tem ao seu lado sua única filha, Mônica, diretora administrativo-​­financeira. Aos 81 anos, os olhos azuis de Emilio con­ti­nuam brilhando ao falar da paixão pelo que faz. “Não dá pra parar. Sabe que quando visitei o Museu de Gutenberg, na Alemanha, fiquei lá dois dias inteiros? Não queria sair, tiveram de me expulsar”, ri Emilio. E não pense que ele está na Policrom para fazer número. Tivemos de interromper nossa conversa mais de uma vez para Emilio responder a consultas de sua equipe. E a entrevista acabou porque ele tinha de entrar em uma reu­nião. Exemplo inspirador.

Emilio Rodriguez - História Viva - Revista Abigraf 270  
Emilio Rodriguez - História Viva - Revista Abigraf 270  

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