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 A UM PASSO DA LIBERDADE TALITA LORENZETTI JORNALISMO PUCRS MAIO/2018


O medo, o arrependimento, a repressão: a busca por um novo recomeço. Entre as paredes cor-de-rosa da sua nova moradia, Fabiane* encontra as oportunidades que lhe faltaram para mudar antes da entrada precoce no mundo do crime. Há 1 ano cumprindo medida socioeducativa por ato infracional grave, a adolescente de 18 anos, de olhar cansado e sorriso tímido, relembra diariamente a vida difícil que levava no interior do Rio Grande do Sul. Fabiane não cresceu rodeada de bonecas. Muito pelo contrário. Ainda criança precisou acostumar-se com a fome, a violência doméstica sofrida pela mãe, a vulnerabilidade social e o envolvimento do pai no crime, o que ocasionou a entrada prematura do irmão mais velho no tráfico de entorpecentes. A rebeldia e a revolta fizeram com que a jovem, aos 14 anos, se afastasse definitivamente dos familiares. Nessa mesma época, a adolescente foi posta a duas difíceis situações: reunir a família para enterrar 2 dos 8 irmãos. Um deles, envolvido com o crime por influência do pai; o outro, sem justificativa aparente. Fabiane explica que esse é um dos motivos que a fizeram aceitar sua punição. “Meu irmão morreu na frente da minha mãe, e o rapaz que o matou era menor de idade e ficou impune. Na autoavaliação que precisamos fazer ao chegar aqui, falei que não posso pedir justiça por alguém que matou uma pessoa da minha família sendo que eu quero estar na rua praticando crimes e dando a mesma dor para outras famílias”, declara com os olhos cheios de lágrimas.


Aos 17 anos, pega em flagrante pela Polícia Militar acompanhada do namorado que hoje cumpre pena em outro presídio do Rio Grande do Sul, Fabiane fora encaminhada para a unidade da Fase de Caxias do Sul. O deslocamento para o Centro de Atendimento Socioeducativo Feminino em Porto Alegre causou inquietação e receio. Ao contar sobre os 128 km percorridos dentro do camburão, os olhos da jovem se voltam ao passado. Estava sendo levada para longe da família, mas ainda com a esperança de que seria liberada no dia seguinte, pois acreditava na sua suposta inocência e no falho sistema carcerário brasileiro. No entanto, os dias se passaram e sua Medida Socioeducativa revelou o que mais temia: teria de, então, acostumar-se com as visitas mensais da mãe e o convívio delicado ladeado de garotas violentas.

ENCARCERAMENTO COR-DE-ROSA O Centro de Atendimento Socioeducativo Feminino — CASEF, localizado no alto da Vila Cruzeiro, recebe e abriga adolescentes de todo o Rio Grande do Sul. As grades e cadeados, unidos com a rigorosidade no encarceramento, não negam: a Casa das Bonecas, como é popularmente conhecida, é uma prisão. Mas é lá que inúmeras adolescentes são atendidas e ouvidas — muitas, pela primeira vez. Entre os crimes mais corriqueiros está o roubo (49%), seguido de tentativa de homicídio (18%); o tráfico de entorpecentes ocupa 8% das estatísticas. Para ocorrer a internação, como no caso de Fabiane, o ato infracional deve ser cometido com alta gravidade. Mais de uma década separa o modelo de punição regido pela Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, a Febem, da política de socioeducação da Fase. Ao contrário da preocupação em ressocialização da Fase, a Febem excluía os jovens de toda e qualquer proteção do Estado. Com a criação, em 1990, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), foi possível extinguir o sistema antigo e colocar em prática uma nova forma de reeducação em todo o Brasil. No Rio Grande do Sul há unidades da Fase em Porto Alegre, Caxias do Sul, Novo Hamburgo, Osório, Passo Fundo, Pelotas, Santa Cruz, Santa Maria, Santo Ângelo e Uruguaiana, sendo o CASEF o único espaço exclusivo para mulheres. Mesmo assim, essa é a única penitenciária brasileira que permite que garfos, facas e utensílios de vidros sejam usados. No entanto, não por todas as adolescentes: para conquistar o material considerado de risco, as garotas passam por diversas avaliações e precisam mostrar-se dispostas. Fabiane reconhece que o material confere independência a ela, e hoje, privada dele, percebe a importância de manter uma postura adequada e disciplinada.


O convívio na Casa das Bonecas é penoso. Hoje abrigando 24 meninas, 11 em internação sem possibilidade de atividade externa e 1 delas criando uma filha dentro da instituição — abaixo da capacidade que é de 33 adolescentes, Fabiane afirma que esse não é o melhor lugar, mas é um dos poucos que lhe garantiram segurança e oportunidades de estudo. As regras de convivência são claras: as garotas não podem ficar a sós e não podem falar do passado e do delito cometido. O carinho recebido dos funcionários e monitoras também auxiliou na internação e fez com que ela criasse vínculos que amenizam a saudade diária da família. Com o tempo passando depressa, privada da liberdade, Fabiane tenta distrair-se com os livros e as oficinas de artesanato que são ofertadas na Casa das Bonecas. É durante a internação que a jovem também concluíra o Ensino Médio, fator de extrema importância para quem quer ser a primeira, de uma família de 8 irmãos — que já sofreu a perda de 2 para o mundo do crime, a ingressar no ensino superior. Na instituição poucas são as ações que incentivam o empoderamento feminino e as dificuldades de ressocialização afrontam o destino das jovens internadas. Para Fabiane, um dos momentos mais marcantes dentro do CASEF foi o concurso de beleza realizado entre as detentas, do qual saiu campeã. “Eu pude lembrar como eu era antes de entrar aqui, como eu me sentia bonita e desejada, como eu gostava de usar roupas da moda. Guardo uma foto no meu quarto que tirei dias antes de vir pra cá. Me inspiro nela, na menina que eu era antes de me envolver com coisa errada”, reflete a adolescente que nunca deixou de ser vaidosa.

O corredor do futuro incerto.


“ESTAR AQUI ESTRAGOU A MINHA VIDA, MAS ME FEZ ENTENDER QUE É PRECISO TER CONSCIÊNCIA E FORÇA DE VONTADE PRA MUDAR. ”

A garota sente orgulho ao falar do apoio e perdão da família desde que chegou à capital. Por mais que frustrada, a mãe de Fabiane não abandonou a filha em nenhum momento. “Doeu ouvir minha mãe falando que tinha colocado no mundo um monstro. Hoje fico feliz em saber que ela confia no meu potencial. Todos os dias, ao acordar, mando um bom dia por pensamento pra ela. Sei que ela sente”, fala a jovem emocionada. Sua estadia no CASEF não é longa, mas o medo do julgamento da sociedade é constante e os sonhos são intensos. As jovens sabem que a mudança é difícil, mas compreendem que ter consciência é imprescindível para construir uma nova história. Fabiane cultiva sonhos para o futuro incerto; entre eles, ser tudo aquilo que não foi e viver o recomeço longe das grades.

*O nome usado nesta reportagem foi alterado para preservar a identidade da personagem.

A um passo da liberdade  

Reportagem produzida no mês de maio de 2018, no Centro de Atendimento Socioeducativo Feminino de Porto Alegre.

A um passo da liberdade  

Reportagem produzida no mês de maio de 2018, no Centro de Atendimento Socioeducativo Feminino de Porto Alegre.

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