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WESTERN

TAKE.COM.PT | ANO 9 | NÚMERO 42


CRÍTICAS

ARTIGOS

14 The Magnificent Seven 16 The Wild Bunch 18 Rio Bravo 20 The Searchers 22 Forty Guns 23 Red River 24 Western Union 25 Heaven's Gate 26 Winchester '73 27 Johnny Guitar 28 The Naked Spur 28 The Alamo 29 The Man Who Shot Liberty Valance 29 High Noon 30 Hondo 30 Stagecoach 31 Seven Men From Now 31 Bad Day at Black Rock 32 Shane 64 Per un pugno di dollari Per qualche dollaro in più Il buono, il brutto, il cattivo 66 C'Era Una Volta Il West 68 E Dio Disse a Caino... 69 Django 70 Lo Chiamavano Trinità 71 Ill Grande Silenzio 82 Unforgiven 84 The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford 86 Slow West 87 Django Unchained 88 The Proposition 89 Fah Talai Jone 90 True Grit 90 3:10 to Yuma 91 Appaloosa 91 Meek's Cutoff 92 Dead Man 92 Estrada de Palha

04 Cavalgada heróica . editorial 06 Western Americano - Uma história de terra, sangue e ambiguidade 08 O mais americano dos géneros cinematográficos 34 Cowboys - Os actores dos Westerns 50 O Western na animação 52 O Acid Western 60 Spaghetti Western 76 Western - O velhinho moderno 94 Ennio Morricone 96 Westerns na TV

Director José Soares. josesoares@take.com.pt Editor João Paulo Costa. joaopaulocosta@ take.com.pt Editora adjunta Sara Galvão. saragalvao@take.com.pt Colaboraram nesta edição António Pascoalinho. Cátia Alexandre. Diana Martins. Filipe Lopes. Hélder Almeida. João Bizarro. João Paulo Costa. Pedro Miguel Fernandes. Pedro Soares. Samuel Andrade. Sandra Gaspar. Sara Galvão. Design José Soares. Ilustração Nelson Baptista Carlos. Imagens Arquivo Take. Alambique. Big Picture Films. Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Columbia TriStar Warner Portugal. Costa do Castelo Filmes. Fox Portugal. Films 4 You. iStock. LNK Audiovisuais. Lanterna de Pedra Filmes. Leopardo Filmes. ZON Lusomundo Audiovisuais. Midas Filmes. Nitrato Filmes. Pris Audiovisuais. Sony Pictures Portugal. Universal Pictures Portugal. Valentim de Carvalho Multimédia. Vendetta Filmes. Imagem de capa Frame do filme ‘The Great Train Robbery’ (1903) © 2016 Take Cinema Magazine - Todos os direitos reservados. As imagens usadas têm direitos reservados e são propriedade dos seus respectivos donos.

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Š Nelson Baptista Carlos


CAVALGADA HERÓICA JOÃO PAULO COSTA

“Bang-bang!” A certa altura da sua vida, qualquer criança nascida aí algures entre os últimos 50, 60 anos, terá soltado pelo menos por uma vez uma onomatopeia semelhante. Tal hábito em muito se deve ao cinema e, em particular, a um dos seus mais populares géneros: o western, que eternizou na consciência colectiva imagens impressionantes de paisagens áridas e montanhosas, palcos de lutas entre índios e cowboys, assaltos a combóios, cavalgadas heróicas, entre muitas outras inesquecíveis (como sempre, numa edição dedicada a um tema tão vasto, muitos excelentes filmes e autores terão ficado por abordar). E é precisamente às cóboiadas que dedicamos com grande paixão as páginas seguintes, uma viagem ao tempo das diligências, contada de formas distintas quer pela assinatura dos seus autores (alguns deles verdadeiros especialistas do género), pelo carisma dos seus actores, quer mesmo pela sua origem, pois apesar de se tratar do género norteamericano por excelência, muitas foram as produções cinematográficas realizadas em diferentes países um pouco por todo o Mundo, ora tentando reproduzir o Velho Oeste americano, ora tentando transportar esses mitos para as suas próprias realidades. Por se tratar de um dos mais empolgantes e universais géneros cinematográficos que ainda hoje continua a produzir obras de grande qualidade, achámos que seria um bom tema para os incansáveis colaboradores da Take Cinema Magazine explorarem. Divirtam-se.


WESTERN AMERICANO UMA HISTÓRIA DE TERRA, SANGUE E AMBIGUIDADE SAMUEL ANDRADE

“For the West is America’s empire” — do prefácio de Aliança de Aço (1939, Cecil B. De Mille)

no Western. Dependendo da visão, o povo nativo dos Estados Unidos foi representado como hostil [Cavalgada Heróica (1939, John Ford)] e infame [Comanche (1956, George Sherman)], um potenciador de ruptura social e familiar [A Desaparecida (1956, John Ford)], um exemplo de heroísmo [A Flecha Quebrada (1950, Delmer Daves)] ou como a vítima expropriada de uma filosofia expansionista de agressão [Um Homem Chamado Cavalo (1970, Elliot Silverstein].

Não existe género cinematográfico mais Americano do que o Western. Através dos seus mecanismos, sons, imagens e protagonistas, encerra-se a mitologia histórica dos Estados Unidos da América, desde a formação da sua identidade enquanto nação até ao surgimento de uma simbologia social e cultural que se perpetuou até aos nossos dias.

A partir da representação cinematográfica deste conflito entre “índios e cowboys”, a qual assenta na atitude histórica dos colonos que ocuparam as terras e os recursos dos nativos norte-americanos, sobressai talvez uma das principais repercussões do Western no imaginário sócio-cultural norte-americano: a glorificação da arma de fogo.

Da sua riqueza visual e temática, a exploração e o povoamento do deserto Americano são elementos primordiais e recorrentes do género. Seja motivado por perspectivas comerciais [O Rio Vermelho (1948, Howard Hawks)], a busca de riqueza [A Terra das Mil Aventuras (1960, Henry Hathaway)] ou pela necessidade de repor ordem e progresso a todo o custo [A Última Caravana (1956, Delmer Daves)], o incessante fluxo (i) migratório das personagens do Western, indissociável de uma noção de expansão territorial, é inegável símbolo, deliberado ou não, daquilo que a História designou de “Imperialismo Americano” — ou, por outras palavras, o Oeste converteu-se, também no Cinema, na “Terra Prometida” do povo Americano. Nessa dinâmica, a figura do índio norte-americano é presença regular

Temática de manifesta e permente actualidade, a violência e “a lei da bala” sempre surgiram como os principais veículos de mediação dos conflitos, num género que não hesitou em referir armas [Winchester '73 (1950, Anthony Mann); Quarenta Cavaleiros (no original: Forty Guns, 1957, Samuel Fuller)] ou em destacar — com algum romantismo — a disputa entre pistoleiros [Duelo ao Sol (1946, King Vidor)] no título dos seus filmes. Como estranhar essa circunstância se uma das primeiras imagens mais memoráveis do Cinema Americano é, precisamente, a do 6


cowboy que abre fogo na nossa direcção em The Great Train Robbery (1903, Edwin S. Porter)?

comunidades tolerantes e providencialistas como a de O Homem Que Matou Liberty Valance (1962, John Ford).

Aliás, de toda a iconografia do Western, é a presença do anti-herói, inabalável e viril, que detém efeito mais duradoiro sobre a mentalidade americana — e tal acontece tanto de um ponto de vista material como psicológico. Das origens históricas de uma nação até ao Marlboro Man, a “autonomia unilateral de acção” do cowboy foi decisiva para a formação do conceito de iniciativa privada, que praticamente rege o espírito empreendedor e económico dos Estados Unidos.

O Oeste, “Terra Prometida” de sangue e disputa, tornou-se, por via do Western, num espelho do espírito americano: pleno de contradições, ânsia, partilha e utopia. E sempre na esperança de um futuro tão resplendoroso quanto o Sol.

Entre a emoção do confronto de rivais numa poeirenta cidade perdida do Oeste e a resistência do índio norte-americano a supostos ideais de expansão territorial, a popularidade do Western nem sempre coincidiu com uma opinião ideológica positiva em seu redor. Pela ambiguidade das suas mensagens, que por vezes aparentam sancionar arrivismos, divisão e belicismo, o consenso surge na própria habilidade do género em sugerir sociedades capazes de rebater agressão e injustiça. Poucas vezes encontramos, no Cinema Americano, maiores elogios ao engenho e sagacidade femininos como em Johnny Guitar (1954, Nicholas Ray), expressões tão humanistas como a encarnada por Gary Cooper em O Comboio Apitou Três Vezes (1952, Fred Zinnemann) ou descrições de 7


O MAIS AMERICANO DOS GÉNEROS CINEMATOGRÁFICOS JOÃO PAULO COSTA

Numa histórica reunião da Associação de Realizadores Americanos (Directors Guild of America), John Ford apresentou-se diante da sua plateia da seguinte forma: “O meu nome é John Ford, e eu faço westerns”. Escusado será dizer que tal auto-denominação é bastante redutora, e não representa a totalidade da carreira de um dos mais geniais realizadores americanos de sempre, que assinou títulos de grande qualidade fora do género. Aliás, a famosa Academia de Hollywood conseguiu premiá-lo com 4 estatuetas de Melhor Realizador ao longo da sua carreira, sem que alguma delas fosse relativa a um western, em mais uma das muitas provas da alergia destes a filmes de género, que pouco mais faz do que cimentar a sua irrelevância histórica. Tal como Ford, muitos foram os realizadores cujas carreiras, apesar de conterem outros filmes de valia, acabaram como um sinónimo de “filme de cowboys”, o mais americano dos géneros cinematográficos clássicos. Gente como Budd Boetticher, Raoul Walsh, John Sturges, Delmer Daves ou Robert Aldrich, entre muitos outros, marcaram o seu nome de forma bem firme no género, e a História tem vindo a ser bastante justa para com eles.


JOHN FORD (1894-1973) Figura emblemática do western, John Ford dedicou grande parte da sua carreira a este género cinematográfico, e foi um dos que mais ajudou a popularizá-lo. Filmes como Cavalgada Heróica (1939, que tornou John Wayne na maior estrela do seu tempo), A Paixão dos Fortes (1946, com Henry Fonda a dar corpo a Wyatt Earp), A Desaparecida (1956, considerado por muitos um dos melhores filmes americanos de sempre), ou O Homem Que Matou Liberty Valance (1962, um dos grandes títulos sobre os mitos do Velho Oeste) são a prova de que durante décadas conseguiu assinar obras extraordinárias e absolutamente marcantes dentro do género, algumas delas tão ou mais relevantes hoje do que já o eram aquando da sua produção. Visualmente, Ford é um dos mais elegantes autores americanos e, ainda que gostasse de passar a imagem de um durão apenas preocupado em fazer o seu trabalho de realização como se de um funcionário de fábrica se tratasse, não se pode negar o cuidado de cada composição, o trabalho de iluminação de cada cena, e a forma económica (em relação ao número de planos utilizados) e sempre absolutamente perfeita de abordar e encenar cada momento. Difícil na sua relação com os actores, sempre descrito como um homem duro e exigente, sem problemas em humilhar as suas estrelas no plateau se assim tivesse de ser, Ford foi também um homem polémico: descendente

de irlandeses, foi educado com os valores americanos mais tradicionais, e é ainda hoje muitas vezes acusado de racismo na forma como retratava os nativos americanos no seu trabalho (e, aquando da estreia de Django Libertado, Tarantino reforçou essa ideia trazendo para discussão o facto de Ford ter trabalhado enquanto actor numa cena do polémico Nascimento de uma Nação, filme de 1915 de D.W. Griffith que dava uma visão heróica do Ku Klux Klan). A verdade é que apesar de alguns dos seus filmes apresentarem uma visão algo polémica dos índios como malvados assassinos, muitos deles reforçam acima de tudo a ideia de que o seu país foi fundado por homens violentos, e a violência nunca é abordada de forma gratuita no seu cinema, carregando a morte quase sempre um grande peso moral. E títulos como O Sargento Negro (1960) mostram claramente que Ford era perfeitamente capaz de abordar de frente o tema do racismo sem pudores. Muito aclamado pelos seus pares, assinou ainda outros filmes magníficos em géneros distintos como O Denunciante (1935, Oscar de Melhor Realizador) A Grande Esperança (1939), As Vinhas da Ira (1940, Oscar de Melhor Realizador), O Vale Era Verde (1941, Oscar de Melhor Realizador) ou O Homem Tranquilo (1952, Oscar de Melhor Realizador), onde imprimiu toda a sua classe.


HOWARD HAWKS (1896-1977) títulos como O Rio Vermelho (1948), Céu Aberto (1952), El Dorado (1966) e Rio Lobo (1970), provam como Hawks se sentia como peixe na água trabalhando dentro do género, que dominava como dominou todos os outros, não fosse ele um dos maiores mestres que alguma vez pegou numa câmara.

Talvez seja justo dizer que poucos realizadores americanos tiveram uma carreira tão diversa, com tantos trabalhos de qualidade em diferentes géneros como o incomparável Howard Hawks. Do filme de guerra (O Sargento York, 1941) às comédias screwball (As Duas Feras, 1938 ou O Grande Escândalo, 1940), passando pelo filme de gangsters (Scarface, O Homem da Cicatriz, 1932) ou pelo film noir (Ter ou Não Ter, 1944 ou À Beira do Abismo, 1946, títulos onde lançou e firmou um dos mais emblemáticos pares da Sétima Arte, Humphrey Bogard e Lauren Bacall), sem esquecer o musical (Os Homens Preferem as Loiras, 1953), Hawks deixou a sua marca com um estilo muito próprio, destacando-se pelos diálogos rápidos e inteligentes, deixando os actores à vontade sem nunca descurar o lado visual. Foi com essas características que assinou igualmente diversos westerns emblemáticos com o principal destaque a ir para Rio Bravo, filme de 1959 com John Wayne, Ricky Nelson, Dean Martin e Angie Dickinson, uma empolgante aventura que combina a mais entusiasmante acção com os habituais diálogos afiados da equipa de argumentistas do realizador – as trocas de palavras entre o par romântico John Wayne/Angie Dickinson são reminiscentes das que já tínhamos visto entre Bogart e Bacall, por exemplo. Mas para além deste, 10


ANTHONY MANN (1906-1967) Este natural da Califórnia talvez não seja hoje em dia tão recordado como Ford ou Hawks enquanto grande cineasta, mas o género deve muito ao trabalho de Anthony Mann, que só na década de 1950 assinou mais de uma dezena de westerns, a maior parte deles protagonizados por James Sterwart. Depois de começar a carreira mais dedicado ao film noir, com Destino em Segunda Mão (1948) ou Border Incident (1949), Mann assinou Winchester 73 (1950), o seu primeiro faroeste com Stewart como protagonista, naquele que permanece como um dos seus mais famosos trabalhos. No mesmo estreou também Almas em Fúria e O Caminho do Diabo, assumindo a sua posição de “realizador de westerns” com uma eficiência bem do agrado dos grandes estúdios. Numa época em que o sistema da indústria se encontrava bem oleado, Mann estava mais do que habituado a assinar múltiplos filmes no mesmo ano, e assim continuou ao longo da década com títulos como Jornada de Heróis (1952), Esporas de Aço (1953), O Homem Que Veio de Longe (1955), Sangue no Deserto (1957), ou O Homem do Oeste (1958), exemplos excelentes do que de melhor se fazia dentro do género clássico. Para além de Stewart, deu a nomes de peso como Henry Fonda ou Gary Cooper papéis bastante interessantes, ele que havia também começado a carreira como actor em

peças de teatro em Nova Iorque, seguindo as pisadas da sua mãe, também ela ligada ao teatro.

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SAM PECKINPAH (1925-1984) Tal como os filmes que assinou, Sam Peckinpah era um homem duro, dado a devaneios de violência, imprevisível e... genial. Tendo começado como realizador assinando episódios de diversas séries televisivas, Peckinpah cresceu no meio rural americano, entre cavalos e ranchos, e terá sido um dos últimos verdadeiros autores cinematográficos a transportar consigo a essência do western através da própria experiência de vida. Em 1961 assinou a sua primeira longa-metragem para cinema, Companheiros da Morte, e a primeira de muitas dentro do género. Seguiram-se Os Pistoleiros da Noite (1962) e Major Dundee (1965) antes daquela que é considerada por muitos a sua verdadeira obra-prima, o violento e melancólico A Quadrilha Selvagem (1969), filme que ao mesmo tempo pegava na tradição dos velhos westerns e parecia anunciar-lhe um fim, se não apenas na sua representação cinematográfica, também no estilo de vida cada vez menos presente num mundo em rápida mudança. A direcção agressiva, a montagem por vezes frenética, alternado disparos trepidantes com mortes em slow motion tornaram-se imagem de marca do realizador, e o filme, produto da Nova Hollywood da época, tornou-se num marco que perdura até aos nossos dias. O estilo de vida excessivo de Peckinpah, mergulhado em álcool e marcado por muitos conflictos

por trás das câmaras com inúmeros colaboradores, nunca permitiu que a sua carreira levantasse realmente voo dentro da indústria, dificultando-lhe cada vez mais a produção de novos projectos. Ainda assim foi a tempo de assinar consecutivamente, dentro e fora do género, filmes de grande qualidade como Balada do Deserto (1970), Cães de Palha (1971), Tiro de Escape (1972), Duelo na Poeira (1973) e Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974) antes de falecer prematuramente de problemas cardíacos provocados por uma vida de excessos, em 1984, com apenas 59 anos.

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CLINT EASTWOOD (1930) Solitário (1985), sempre protagonizados pelo próprio, antes de dizer um adeus aparentemente definitivo ao género com aquela que para muitos permanece a sua verdadeira obra-prima, Imperdoável (1992), que se revelou um sucesso não apenas popular (ainda hoje, aos 85 anos de idade, assina filmes de grande apelo das massas como o recente Sniper Americano, de 2014) mas também crítico e ao nível da Academia, que o reconheceu com os dois primeiros de um total de 4 Óscares arrecadados. Mesmo que leve até ao fim a promessa de deixar o western de lado, Clint Eastwood nunca deixará de ser um dos maiores cowboys do cinema, à frente ou atrás das câmaras.

“O último dos clássicos” como habitualmente é conhecido Clint Eastwood, um dos restantes ícones cinematográficos a transportar o “cheiro” da uma Hollywood que praticamente não existe mais. Nascido na Califórnia, onde foi vivendo até ser encorajado pela professora de teatro a dar uso ao seu carisma e dedicar-se à representação, começou como actor, primeiro em televisão (onde fez sucesso no western com Rawhide, entre 1959 e 1965, entrando em mais de 200 episódios) e depois no cinema, sendo escolhido por um então desconhecido italiano de nome Sergio Leone para estrelar numa versão europeizada do género. Por Um Punhado de Dólares (1964), e as suas mais-ou-menos sequelas Por Mais Alguns Dólares (1965) e O Bom, o Mau e o Vilão (1966) tornaram-no numa estrela quando estrearam aos Estados Unidos, estatuto que consolidou em outros trabalhos como a saga de Dirty Harry, de Don Siegel. Aí, no entanto, já Eastwood se tinha estreado na realização com o thriller Destinos nas Trevas (1971), mas a sua carreira atrás das câmaras ficaria também ligada de forma indelével ao western. O seu primeiro título neste universo foi O Pistoleiro do Diabo (1973), onde protagonizava uma espécie de bizarro anti-herói do Oeste, seguido de outros como O Rebelde do Kansas (1976), Bronco Billy – O Aventureiro (1980) e Justiceiro 13


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THE MAGNIFICENT SEVEN

Título nacional: Os Sete Magníficos Realização: John Sturges Elenco: Yul Brynner, Steve McQueen, Eli Wallach

1960 JOÃO PAULO COSTA

Baseado no clássico de Akira Kurosawa Os Sete Samurais (1954), com a acção transferida do Japão para o Velho Oeste, Os Sete Magníficos tornou-se num clássico por direito próprio. John Sturges, que até então havia já realizado, por exemplo, o excelente A Conspiração do Silêncio (1955), reuniu um elenco de peso que incluía homens de barba rija como Yul Brynner, Eli Wallach, Steve McQueen, Charles Bronson, James Coburn, Robert Vaughn ou Brad Dexter para uma aventura empolgante.

vêem nela uma espécie de paraíso onde podem alcançar a redenção. E se há um ponto emocional em toda a história é precisamente esse: o de um grupo de homens que ganhou a maior parte da vida à lei da bala, e que vê ali uma oportunidade de se manter do lado do bem, de fazer a coisa certa e de tentar, no fundo, contrariar a sua natural tendência violenta – o que confere ao final uma carga emotiva bastante interessante, no que à sua relação com a natureza humana diz respeito.

A história de base é essencialmente a mesma que serviu de inspiração a Kurosawa para o seu épico samurai: uma pequena comunidade fronteiriça (neste caso entre o México e Estados Unidos) composta maioritariamente por camponeses, é atacada periodicamente por um grupo de foras-da-lei que, comandados pelo seu líder Calvera (Wallach), lhes roubam alimentação e mantimentos em grandes quantidades. Fartos das ofensivas dos homens de Calvera, os camponeses decidem deslocar-se à cidade mais próxima com o objectivo de comprar armas suficientes para se defenderem dos próximos ataques. Mas lá encontram dois corajosos e certeiros pistoleiros (Brynner e McQueen) a quem pedem ajuda, e estes recrutam outros cinco homens de coragem que aceitam defender a pequena aldeia por razões distintas.

Não deixa de ser interessante perceber como, apesar do seu moderado sucesso comercial quando estreou em 1960 (onde curiosamente fez mais as delícias do púbico europeu que o tornou num êxito), esta na época grande produção distribuída pelos estúdios da United Artists não caiu nas boas graças da generalidade dos críticos, não resistindo às comparações com o filme de Kurosawa, uma obra-prima ainda muito fresca na memória de muitos. Hoje, claro, é um desses títulos que pertence à memória colectiva de cinéfilos em todo o mundo, aparentemente o segundo filme mais vezes emitido pela televisão americana, atrás de O Feiticeiro de Oz (1939) e que, além de ter inspirado três sequelas menores e uma série de outros filmes e séries de TV ao longo dos anos, se prepara para ter um remake a estrear em 2016, realizado por Antoine Fuqua e com nomes como Denzel Washington ou Ethan Hawke no elenco. Se conseguir captar nem que seja uma pequena parte do espírito de aventura e camaradagem da versão de 1960, então já valerá bem a pena.

Acima de tudo, Os Sete Magníficos destaca-se por assumir sem quaisquer complexos o espírito de aventura que a história pede, e as suas duas horas passam num instante. Sturges imprime um ritmo interessante, e o guião de William Roberts alterna de forma eficaz os grandes momentos de acção com outros de bom humor. Pegando e misturando uma série de elementos dos westerns clássicos, o filme, captado no formato anamórfico pelo director de fotografia Charles Lang, aproveita as paisagens mexicanas onde foi rodado para manter o espectador bem dentro da acção, fazendo-lhe sentir a importância deste pequeno pedaço de terra para os seus habitantes, e mesmo para os heróis forasteiros que 15


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THE WILD BUNCH

Título nacional: A Quadrilha Selvagem Realização: Sam Peckinpah Elenco: William Holden, Ernest Borgnine, Robert Ryan

1969 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Quando A Quadrilha Selvagem estreou, Hollywood estava em polvorosa: os grandes estúdios, antigos reis e senhores do Cinema, estavam em agonia e ansiavam por sangue novo na guelra. Esse sangue viria com os jovens cineastas da chamada Nova Hollywood que tomaram conta da situação durante a década seguinte e, para o bem e para o mal, acabaram por implodir o sistema. Mas os sinais de que algo estava a mudar radicalmente começaram a surgir no horizonte no final da década de 1960. E este western de Sam Peckinpah caiu que nem uma bomba. Violento, com uma violência tão realista como pouco se via à época (apesar de não inédita, basta trazer à memória Bonnie e Clyde, de Arthur Penn, realizado dois anos antes), A Quadrilha Selvagem pegou numa convencional história de western (o argumento centra-se num grupo de fora-da-lei veteranos que preparam o seu último golpe antes da reforma) e trocou as voltas aos códigos do género, num filme onde não há bons, nem maus.

passagem do tempo e como um grupo de homens teima em não aceitar essa passagem do tempo. Por muito que Pike (William Holden), o líder do grupo fale no último golpe antes de se retirarem, todos sabem que isso não vai acontecer. E na realidade, tudo acaba com um brutal banho de sangue (a Batalha do Pátio Sangrento, como a equipa do filme baptizou a desconcertante sequência final durante a rodagem) do qual ninguém sobrevive, minutos depois de pensarmos que o golpe estava terminado e tudo ia correr bem para a quadrilha. Mas uma vez mais, voltam atrás para ir buscar um dos seus. Não fogem da luta inevitável, porque essa luta está dentro deles e é para levar até ao fim. E A Quadrilha Selvagem nunca poderia terminar de outra forma. Na última cena do filme o olhar melancólico de Deke Thornton (Robert Ryan), o antigo companheiro de Pike que se vê obrigado a ir atrás do bando para escapar à prisão, tornando-se assim inimigo da quadrilha, diz tudo. Filmado nos locais precisos onde decorreu a Revolução Mexicana, mais concretamente na aldeia de Parras, palco de violentos confrontos durante o conflito, A Quadrilha Selvagem é também um prodígio na forma como as cenas de acção são filmadas. Há quem lhes chame bailados de morte, e a designação é absolutamente correcta, pois tanto a já referida sequência final como a sequência inicial do primeiro assalto do bando (talvez até mais bem conseguido) são autênticas coreografias, feitas com recurso a uma montagem rápida, furiosa, com planos de curta duração e pequenos apontamentos em câmara lenta que acabam por acentuar a violência do filme. Apesar de estar bem longe do espírito dos títulos mais clássicos do western, A Quadrilha Selvagem cabe na perfeição dentro do género como um dos seus pontos altos. E espelha o final de uma época em todos os sentidos: no próprio filme a quadrilha já não faz parte daquele tempo e em Hollywood, já nada seria como dantes.

À primeira vista é precisamente a violência que salta à vista em A Quadrilha Selvagem, tal é a quantidade de sangue jorrado durante o filme. Mas esse é apenas um pormenor neste que seria apenas o quarto filme de Peckinpah e uma das suas obras maiores. A Quadrilha Selvagem não é filme sobre a violência, antes sobre a amizade entre companheiros de armas que, mesmo numa época em que as regras começavam a mudar (o filme decorre na segunda década do século XX, mais concretamente em 1913, durante a Revolução Mexicana, longe dos tempos do Velho Oeste mais tradicional, representado em westerns mais clássicos e de outras décadas), continuam a lutar pelos seus ideais, mesmo que estes sejam bastante discutíveis, o que pouco interessa ao caso. Aliás, a Sam Peckinpah isso pouco interessava, pois via os fora-dalei do Antigo Oeste como heróis e chegava mesmo a comparar-se a eles na forma como estava em Hollywood. No fundo, A Quadrilha Selvagem mais não é do que um filme sobre a 17


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RIO BRAVO

Título nacional: Rio Bravo Realização: Howard Hawks Elenco: John Wayne, Dean Martin, Ricky Nelson

1959 PEDRO SOARES

Rio Bravo é um dos filmes mais fáceis de recomendar a alguém. Primeiro, por ser o que é: um western do mestre Howard Hawks, com um trio de estrelas constituído por John Wayne, Dean Martin e Ricky Nelson. E segundo, por ter dado origem ao clássico de John Carpenter, Assalto à 13ª Esquadra (e deixar sementes para tantos outros, de Cães de Palha ao The Mist – Nevoeiro Misterioso). A premissa é simples e sem grandes artifícios: o xerife John T. Chance (John Wayne) acaba de prender por assassinato Joe Burdette (Claude Akins), irmão de um dos mais importantes "homem de negócios" do Velho Oeste. Por isso, sabe se trata apenas de uma questão de tempo até este o vir tentar resgatar. O problema é que a sua ajuda limita-se a um velho coxo, Stumpy (Walter Brennan), um alcóolico com a pior ressaca de sempre de um filme de caubóis, Dude (Dean Martin), e um jovem pistoleiro, Colorado (Ricky Nelson).

Nelson colocam todos os actores ao mesmo nível. De propósito ou não, o que é certo é que funciona na perfeição, dando um maior realismo àqueles pobres desgraçados que sabem que vão ser atacados e que a única coisa que podem fazer é esperar. Neste conjunto de protagonistas, ainda há lugar para o comic relief do genial Walter Brennan. Mas o elo mais fraco desta cadeia de protagonistas é a personagem feminina, Plumas (Angie Dickinson). Com o objectivo de não ser um filme essencialmente masculino e de lhe dar um toque de romance (o tal optimismo dos westerns clássicos, sempre com espaço para o amor), a história soçobra aqui, uma vez que o drama pessoal dessa ex-amante de um batoteiro assassinado não convence (ao contrário do problema de alcoolismo de Dean Martin, o qual nos deixa seriamente preocupados). Rio Bravo não é só um clássico dos westerns; é, simultaneamente, o melhor western da lenda John Wayne e de Howard Hawks. O que, tendo em conta os seus extensos currículos no género, tem muito que se lhe diga. E, como se não bastasse, ainda há possiblidade de assistir a um momento musical de Dean Martin e Ricky Nelson - também naquela altura se tentavam essas manobras de marketing. Digo-vos uma coisa: se Ricky Nelson tivesse cantado, como estava previsto, o tema que Johnny Cash compôs, o filme seria hoje lembrado bem mais vezes.

É um western clássico fora do seu género, uma vez que o argumento vai para além das temáticas comuns do nascimento da nação, o confronto com os índios e os laços de sangue e compromissos de honra. Rio Bravo é apenas entretenimento: tiros e cauboiadas. Ou como alguém disse uma vez, kiss kiss bang bang. Howard Hawks filma-o como uma panela de pressão, onde o suspense vai crescendo ao longo do filme, mas cuja tensão se vai dissipando aos poucos devido ao optimismo do filme. É aqui que Rio Bravo se insere na métrica dos clássicos, sendo violento mas ao mesmo tempo algo cheesy, longe da violência gráfica de um western spaghetti. No final das (demasiado longas) duas horas de filme, tudo se resume a um duelo numa casa sitiada, mas que ao contrário de Assalto à 13ª Esquadra, se realiza de fora para dentro. Rio Bravo vive dos seus actores. Apesar de ser a personagem com mais destaque na trama, a lenda John Wayne nunca ganha notoriedade de herói, uma vez que o glamour de Dean Martin (especialmente) e Ricky 19


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THE SEARCHERS

Título nacional: A Desaparecida Realização: John Ford Elenco: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles

1956 PEDRO SOARES

O western para acabar com todos os westerns. É assim A Desaparecida, a quintessência do western clássico, aquele que, juntamente com o jazz, é a única expressão cultural exclusivamente norte-americana. E, mesmo sem ser o último (esse será O Homem Que Matou Liberty Valance, enquanto que outros como Imperdoável são ligeiras excepções que confirmam a regra), representa o princípio do fim do western.

por vezes, um pouco datado, mas é um dos exemplos máximos desse género muito específico que é o western. E no final, quando Wayne carrega ao colo a sobrinha, uma muito fresquinha Natalie Wood, quase que conseguimos ouvir os deuses do Olimpo cinéfilo a abraçarem-se com uma lágrima no canto do olho.

Como todas as cauboiadas, A Desaparecida aborda várias temáticas comuns ao género. O índio como vilão (que aqui tem uma face, a do chefe Cicatriz (Henry Brandon), em vez de ser a habitual massa colectiva de carne para canhão) e como entrave ao progresso, a conquista do Oeste selvagem e, claro, o forasteiro que aparece para salvar o dia. Aqui, esse truque é emoldurado por uma porta aberta (sob a qual já se escreveram mil e uma dissertações e sobre o qual se continuará a dissertar), onde John Wayne (que encarnou este papel vezes sem conta) aparece na primeira imagem do filme e onde se recusa a entrar na última cena, mostrando que o seu lugar não é no lar. Mas A Desaparecida tem um carácter épico poucas vezes visto no cinema clássico norte-americano. A sua história é uma verdadeira epopeia, sobre um ex-soldado que persegue durante anos a tribo de índios que lhe raptaram a sobrinha. Para aqueles que sempre acusaram John Ford de ser um reaccionário, A Desaparecida não ajuda a ressacar essa imagem, já que Wayne - um racista mesmo à bruta - só quer encontrar a sobrinha para lhe pôr uma bala na cabeça - é que ter estado a viver com os peles-vermelha é pior sorte do que a morte. A Desaparecida pode ser comparado à Odisseia de Homero e é-o amiúde, onde até há uma Penélope a servir de barómetro à passagem do tempo, enquanto espera pelo seu amado: o sidekick que acompanha John Wayne na demanda pela sobrinha raptada, Jeffrey Hunter. A Desaparecida é, 21


FORTY GUNS

Título nacional: Quarenta Cavaleiros Realização: Samuel Fuller Elenco: Barbara Stanwyck, Barry Sullivan, Dean Jagger

1957 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Não sendo propriamente um género tipicamente feminino, o western legou-nos algumas personagens mulheres bastante interessantes, que deixaram marcas neste universo cinematográfico. É o caso de Jessica Drummond, a mulher de armas que lidera um exército de 40 pistoleiros e mantém uma pequena cidade a ferro e fogo, uma das figuras fundamentais de Quarenta Cavaleiros. Interpretada por Barbara Stanwick, Drummond é feita da mesma massa de mulheres como Vienna ou Altar Keane, personagens de Johnny Guitar, de Nicholas Ray, e O Rancho das Paixões, de Fritz Lang respectivamente. Mas não é só a presença desta personagem que faz de Quarenta Cavaleiros um dos expoentes máximos dum certo ramo do western que se afasta dos cânones clássicos do género. Ao contrário de muitos westerns, aqui não é a paisagem esmagadora que desfaz e oprime as personagens, apesar de uma das cenas fulcrais ter no centro um furacão que termina na aproximação de Drummond e Griff Bonnell, o

forasteiro que chega à cidade onde parte da acção decorre. São antes os sentimentos internos das personagens, que surgem aprisionados no interior dos cenários fechados de Quarenta Cavaleiros (a começar pelo casarão de Jessica, cujo Cinemascope do filme torna ainda maior do que parece), os responsáveis pela extraordinária força, sempre com os nervos à flor da pele, deste filme. Título fundamental na obra de Samuel Fuller, autor de alguns dos melhores e mais poderosos retratos da Guerra no grande ecrã, Quarenta Cavaleiros acabou por se tornar um dos títulos mais importantes do cineasta, e fonte de inspiração para filmes de dois dos principais realizadores cinéfilos: A Noiva Estava de Luto, de François Truffaut, e Kill Bill, de Quentin Tarantino.

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RED RIVER

Título nacional: O Rio Vermelho Realização: Howard Hawks Elenco: John Wayne, Montgomery Clift, Joanne Dru

1948 PEDRO MIGUEL FERNANDES

O Rio Vermelho é um filme de primeiras vezes: a primeira vez que o realizador fez um western (apesar da experiência A Terra dos Homens Perdidos, assinado por Howard Hughes, mas que contou com o dedo de Hawks, que não surge creditado), a primeira colaboração de Hawks com John Wayne e o primeiro papel de Montgomery Clift em cinema, no mesmo ano em que entraria também em Anjos Marcados, de Fred Zinnemann. Mas estes são apenas três pequenos pormenores de uma das obrasprimas do género, que ficciona a saga de um grupo de cowboys liderado por Thomas Dunson (John Wayne) e o seu filho adoptado Matt Garth (Montgomery Clift), que foi o primeiro a levar com êxito uma manada composta por milhares de cabeças de gado através do chamado trilho de Chisholm, ligando o Texas e o estado do Missouri. Nesta extraordinária saga, pois de uma verdadeira saga do Oeste se trata, os heróis enfrentam tudo e todos, com especial enfoque na natureza, que teima em irromper

pelo ecrã para tentar impedir aquela missão quase impossível. E poucos westerns se podem gabar de uma tão magistral utilização da natureza indomável, como a enfrentaram os verdadeiros conquistadores do Oeste. Mas nem só de fenómenos naturais vive O Rio Vermelho. É a relação entre dois homens (que com um terceiro, mais velho, que podemos comparar ao coro das tragédias gregas, apesar de aqui não estarmos perante uma tragédia, compõem o núcleo central do filme) que faz avançar este primeiro western de Hawks. Complexa e com inúmeras reviravoltas ao longo do filme (nunca Wayne foi tão amado e nunca foi tão detestado), esta relação acaba por ser mais um daqueles exemplos de camaradagem que encontramos nos westerns.

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WESTERN UNION

Título nacional: Conquistadores Realização: Fritz Lang Elenco: Robert Young, Randolph Scott, Dean Jagger

1941 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Segundo de três westerns realizados por Fritz Lang, e feito imediatamente após o sucesso de O Regresso de Frank James (de 1940), Conquistadores parece à partida encaixar na gaveta dos westerns feitos para recriarem os mitos da conquista do Velho Oeste. Neste caso concreto do estabelecimento das redes telegráficas que ligariam o Este ao Oeste através do então território inóspito. E na base deste projecto de Lang, é disso que trata realmente Conquistadores. Mas indo um pouco mais além da superfície, o filme não é só a recriação desse ‘mito’, se é que lhe podemos chamar um verdadeiro mito do Oeste. É a história de um homem (Randolph Scott) que, como muitos dos personagens de Lang, surge em acção com uma certa ambiguidade de comportamento e na sua tentativa de redenção acaba por reencontrar no caminho quem menos espera: alguém que ajudara e acaba mais tarde por ser o seu futuro patrão e um irmão que vem do passado para o fazer lembrar de onde veio e quais as suas raízes.

A juntar a estes elementos, que por si só já dariam pano para mangas, há ainda um triângulo amoroso que percorre todo o filme e a rivalidade entre a personagem de Scott, um fora da lei em busca de redenção, e o homem de estudos que veio do Este, interpretado por Robert Young, que com os seus conhecimentos técnicos e académicos, vem para ajudar a desbravar caminho. Ambos, cada um com o seu feitio (e mais diferentes um do outro não podiam ser), vão lutar pelo coração de Sue, que inevitavelmente acaba por escolher um, escolha essa que no final se revelará trágica. Se muitos acreditam que o western é um género feito por americanos, com este belíssimo filme Fritz Lang prova que quem vem de fora também sabe o que faz.

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HEAVEN’S GATE

Título nacional: As Portas do Céu Realização: Michael Cimino Elenco: Kris Kristofferson, Christopher Walken, Isabelle Huppert

1980 DIANA MARTINS

Tão memorável quanto contestado, Heaven´s Gate é uma obra do cinema norte-americano interpretado por Kris Kristofferson, Christopher Walken, Isabelle Huppert, John Hurt e Jeff Bridges. Baseado na ocorrência intitulada “Guerra de Johnson County”, na cidade de Casper, em Wyoming, em 1890, Heaven´s Gate conta a disputa entre homens ricos criadores de gado já estabelecidos na terra e imigrantes europeus recém-chegados, que por vezes roubam gado para sustentar as suas famílias. Descontentes com a situação, a Associação de criadores de gado traça um plano que consta no assassínio de 125 imigrantes. Cabe assim a Averill, um jovem idealista recém-graduado de Harvard e novo Marshall da zona, impedir o massacre. Para dificultar a intriga, temos Ella Watson, a dividir o jovem Averill entre razões da mente e do coração. Michael Cimino, realizador do polémico The Deer Hunter – O Caçador, criou assim uma obra megalómana e monumental, com todos os

recursos e liberdade criativa dada pelos estúdios, mas que resultou num enorme fiasco, que acabou por levar a United Artists à falência. Mas como se costuma dizer que o tempo acaba por curar todas as feridas, a verdade aqui também parece ser essa, com um gradual conciliar do público e da crítica com a obra. Da versão apresentada em 1980, cerca de uma hora mais curta do que a versão original apresentada aos estúdios por Cimino, estreou em 2012, no Festival de Cinema de Veneza, o diretors cut, versão digitalmente restaurada e com cunho pessoal do realizador, com 216 minutos, juntamente com o lançamento da obra na coleção Criterion. Apesar de ser uma obra de amores de ódios de muitos, incontornável parece ser a palavra consensual de todos.

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WINCHESTER ‘73

Título nacional: Winchester 73 Realização: Anthony Mann Elenco: James Stewart, Shelley Winters, Dan Duryea

1950 SAMUEL ANDRADE

O conflito do filme é, imediatamente, salientado pela escolha como título da própria etiqueta da “arma que conquistou o Oeste Americano”: a carabina Winchester ’73, de que James Stewart obterá um modelo num concurso de tiro onde moedas são os alvos, e que irá potenciar a rivalidade, física e emocional, entre o protagonista Lin McAdam e o forada-lei Dutch Henry Brown (Stephen McNally). Uma contenda que se alastrará pelo deserto do Kansas, cenário onde os méritos da Winchester — sempre a assumir lugar de destaque na acção — privará tanto a Cavalaria norte-americana como tribos de índios norteamericanos de paz e entendimento, e onde até o romance só encontra na forma de uma bala o seu único e potencial redentor. Na obra que assinalou a primeira colaboração entre James Stewart e Anthony Mann (uma dupla actor-realizador que produziria mais quatro westerns de referência), Winchester ’73 camufla, no carácter belicista do seu argumento e pela natureza quase neurótica dos personagens, uma

mensagem pacifista e de reflexão sobre o passado de uma nação forjada, na ordem ou no agravo, à “lei da arma”. Pois, e em retrospectiva, Winchester ’73 é western que, para o observador contemporâneo, necessita de ser encarado como uma dissecação (e esse facto atribui muito de visionário a Anthony Mann) dos impulsos que formaram os Estados Unidos da América. Materialismo, orgulho e sangue, uma “trindade nacionalista” vincada pela aparente vontade própria da arma do título, demonstrativa do direito à propriedade privada (que os americanos tanto privilegiam) e que descarta, em recontro célere e ideologicamente indefinido, a alma do índio expropriado.

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JOHNNY GUITAR

Título nacional: Johnny Guitar Realização: Nicholas Ray Elenco: Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge

1954 SARA GALVÃO

Se há uma coisa errada neste extravagante western de Nicholas Ray, é o título. Johnny Guitar aka Logan (Sterling Hayden) pode salvar o dia no fim, mas o filme pertence à altiva, arrogante e inesquecível Vienna, interpretada por Joan Crawford. A história de uma mulher independente, perseguida pela comunidade que a rodeia por não aceitar as normas sociais, e vítima dos ciúmes e ódio da rival Emma Small (Mercedes McCambridge), Vienna é a verdadeira alma deste western ultrasaturado e cheio de diálogos de qualidade duvidosa. Um dos filmes preferidos de Truffaut, não se pode dizer que tenha envelhecido com dignidade. As performances dos actores, principalmente, fazem-nos arrepios no bom gosto mas, num daqueles casos de é tão mau que não conseguimos desviar os olhos do acidente, os créditos finais rolam connosco a odiar aquela maldita Emma Small e a dizer “hip hip hurra” enquanto Viola e Johnny cavalgam em direcção ao pôr-do-sol. E - pequeno momento de trivialidade - se o ódio entre as

personagens de Crawford e McCambridge parece real, bem, é porque o é: Crawford tinha andado com o marido de McCambridge em tempos e a actriz não conseguia disfarçar os enormes ciúmes e rancor que tinha à estrela, algo que Nicholas Ray até incentivou para poder capturar em todo o seu esplendor. Talvez por isso, ou apesar disso, Johnny Guitar permaneça na memória enquanto outros westerns mais convencionais depressa se esqueçam, a banda sonora de Victor Young ao fundo, uma mulher de calças a ousar ser ela própria...

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THE NAKED SPUR

THE ALAMO

PEDRO SOARES

PEDRO MIGUEL FERNANDES

James Stewart é um caçador de prémios em busca de um criminoso. Contudo, quando o apanha, a situação já se alterou consideravelmente. Porque ele não anda a monte sozinho, mas antes com a jovem Janet Leigh, e porque, entretanto, já fez dois sócios sem querer. O que se iniciou como um jogo do rato e do gato, culmina num jogo a cinco. Esporas de Aço é uma variação de O Tesouro de Sierra Madre, mas com um homem no lugar do tesouro e uma trama de intrigas e manipulação ao longo de uma viagem até à Califórnia. As Montanhas Rochosas por trás criam um contraste apaixonado à tragédia anunciada, com ataques de índios, desavenças pessoais e cenas arriscadas em desfiladeiros. Não ganha a intemporalidade por alguns momentos-chave terem envelhecido mal, mas terminar um filme com um tipo a matar outro atirando a espora das botas como um shurikan ninja é, no mínimo, impagável.

Actor de westerns por excelência, John Wayne aceitou por duas vezes acumular o papel de protagonista e realizador dos seus filmes. Destas duas aventuras, uma delas foi um western: Álamo. A partir de um episódio histórico que ocorreu no Texas em 1836, a estreia de Wayne na realização relata a trágica derrota de um grupo de combatentes que lutavam pela independência daquele estado contra o poderoso exército do General Santa Anna, líder do México. Não sendo propriamente uma obra-prima do western, Álamo revela-se uma interessante curiosidade realizada por aquele que é talvez o cowboy mais icónico da história do género, com cenas de batalha de encher o olho, e tramas secundárias que revelam o espírito de companheirismo bastante presente noutros westerns famosos.

Título nacional: Esporas de Aço

Título nacional: Álamo

Realização: Anthony Mann

Realização: John Wayne

Elenco: James Stewart, Janet Leigh, Robert Ryan

Elenco: John Wayne, Richard Widmark, Laurence Harvey

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THE MAN WHO SHOT LIBERTY VALANCE

HIGH NOON

ANTÓNIO PASCOALINHO

SAMUEL ANDRADE

O Homem Que Matou Liberty Valance marca o fim do western clássico. O velho Oeste, onde imperava a lei do mais forte e tudo se resolvia pela força das armas, morreu aqui. John Ford abandonou Monument Valley e as grandes pradarias, fechou-se em estúdio, numa cidade reticente em aceitar o futuro. Subverteu o habitual triângulo de protagonistas. Um herói, um anti-herói e um vilão. Lee Marvin é o vilão de serviço. Numa cidade que já tem um jornal, onde o progresso vai chegando e onde desemboca pela 1ª vez um homem da lei (James Stewart). Este pensa poder mudar os ancestrais hábitos de violência. Não consegue! Tem que ser o velho pistoleiro (John Wayne) a fazê-lo. Mas, como se diz no filme, “quando a lenda é mais forte que a realidade”, imprime-se a lenda. John Ford assim fez. E a lenda ainda impera na nossa memória!

Western clássico sobre a busca de vingança de quatro cowboys contra o xerife semi-reformado que os aprisionou, a simplicidade de High Noon quase oculta o estatuto mítico alcançado pelo filme. Estreado no auge da perseguição Comunista nos Estados Unidos, permitiu a Fred Zinnemann denunciar a cobarde maioria silenciosa da sua era, num filme que conheceu elogio ou menosprezo conforme a década em que é avaliado. O conflito puro no seu âmago é intensificado pelo frenesim das imagens — a sequência que alterna o angustiado rosto de Cooper, o pêndulo de um relógio e vários “instantâneos” da população é exemplo primordial da influência da montagem Soviética —, sempre em crescendo de tensão, culminando no heroísmo tintado de desprezo do protagonista, abatido pela complacência em seu redor que, por ignorância e egoísmo, só opta pelo trilho mais conveniente de caminhar.

Título nacional: O Homem Que Matou Liberty Valance

Título nacional: O Combóio Apitou Três Vezes

Realização: John Ford

Realização: Fred Zinnemann

Elenco: James Stewart, John Wayne, Vera Miles

Elenco: Gary Cooper, Grace Kelly, Thomas Mitchell

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HONDO

STAGECOACH

PEDRO SOARES

CÁTIA ALEXANDRE

Hondo abre com a entrada triunfal de John Wayne ou não fosse ele o próprio filme. Em uma cena, Wayne personifica simultaneamente um dos códigos essenciais do western - a chegada do forasteiro para impôr a ordem - e toda a sua carreira, em que simboliza o homem, o pai de família e a direita americana. No entanto, este é um filme a uma escala mais pequena e humana. Wayne chega à quinta da bela Geraldine Page, que vive só com o filho, acossada pelos apaches. Wayne demora-se por lá, no seu estilo meio machista meio misógino, cortando lenha e ferrando. Quando abala já está pronto para voltar. Depois, a fórmula do costume: um confronto com os índios, uma rixa no saloon e o ataque final dos apaches às diligências da cavalaria. Pelo meio, uma questão moral para colocar a integridade do herói à prova. Hondo é o western clássico por excelência, replicado vezes sem conta a partir do mesmo molde.

Ainda a dar os meus primeiros passos pelo universo dos western, Cavalgada Heróica é provavelmente o caminho certo para entrar no espirito. História simples, sobre um grupo de estranhos que atravessam território perigoso, sob o domínio indígena. O desconforto entre os tripulantes na viagem é notório, e os mistérios do porquê desta criam tensão. Mas é quando se cruzam com um cowboy em fuga, acusado de assassinato, que as coisas se tornam ainda mais interessantes. Realizado por John Ford, Cavalgada Heróica deu a John Wayne, o seu primeiro papel de destaque. A tensão entre os personagens e a forma como se relacionam, contrastando os vários estereótipos tanto em momentos intensos como em momentos de humor, resultam na perfeição, ao mesmo tempo que entra no território comum e estilo bem conhecido do género.

Título nacional: Hondo

Título nacional: Cavalgada Heróica

Realização: John Farrow

Realização: John Ford

Elenco: John Wayne, Geraldine Page, Ward Bond

Elenco: Vincent Gallo, Emmanuelle Seigner, Zach Cohen

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SEVEN MEN FROM NOW

BAD DAY AT BLACK ROCK

JOÃO PAULO COSTA

JOÃO PAULO COSTA

Outro dos grandes autores do western, Budd Boetticher assinou em 7 Homens Para Matar um dos seus títulos mais célebres, sobre um homem no encalce de um grupo de foras-da-lei que roubaram uma grande quantia em dinheiro e mataram uma pessoa pelo caminho. O argumento parte de uma situação relativamente simples, mas à medida que vai desvendando informação sobre o seu protagonista, vai-nos também fazendo ver com outros olhos a sua relação com as personagens que o rodeiam. Boetticher era um realizador bastante económico e, nos seus curtos 80 minutos de duração, o filme tem tudo aquilo que o espectador precisa para sair do visionamento de barriga cheia: drama, acção e suspense são oferecidos nas doses certas e com uma precisão de mestre.

Uma das grandes curiosidades de A Conspiração do Silêncio é precisamente a de que, apesar de se passar no período imediatamente após a Segunda Grande Guerra, possui todas as características do western clássico. A saber, o estranho (Tracy) que chega a uma terra isolada no deserto com o sugestivo nome de Black Rock e rapidamente se apercebe de que não é bem vindo, pois a sua presença levanta demasiadas questões que se desejam esquecidas. A trama vai-nos sendo esclarecida aos poucos, à medida que este filme recorda que, apesar de ter ajudado a libertar o Mundo das garras do Mal, a América tinha ainda muitos problemas para resolver em solo próprio. Assinado pelo muito popular John Sturges, A Conspiração do Silêncio é um thriller bastante económico e consistentemente empolgante.

Título nacional: 7 Homens Para Matar

Título nacional: A Conspiração do Silêncio

Realização: Budd Boetticher

Realização: John Sturges

Elenco: Randolph Scott, Gail Russell, Lee Marvin

Elenco: Spencer Tracy, Robert Ryan, Anne Francis

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SHANE CÁTIA ALEXANDRE

Num vale isolado do estado do Wyoming, o misterioso pistoleiro Shane aparece vindo do nada e instala-se na pequena fazenda de uma família local. Com uma atitude estranha mas cativante, este homem rápido causa inquietação. Tentando escapar ao seu oculto passado, pede emprego ao fazendeiro e à sua mulher e rapidamente cria laços de amizade com o jovem filho do casal. Um conto de coragem, amizade e lealdade onde os princípios contam e o bem supera o mal. Boas performances, a atmosfera misteriosa e envolvente em torno do personagem principal, e a belíssima e majestosa forma como está filmado, contribuíram muito para o que se seguiu dentro do género. Não admira que por isso, o filme tenha ganho o Óscar de Melhor Cinematografia. Título nacional: Os Brutos Também Amam Realização: George Stevens Elenco: Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin

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COWBOYS OS ACTORES DO WESTERN FILIPE LOPES

Escolher as figuras principais do western no que à representação diz respeito é uma missão ingrata. Foram tantos e tão relevantes os actores que popularizaram o género que, seja qual for a lista que se faça (a não ser que contemple todos os nomes, o que para nós era uma missão impossível), invariavelmente fica alguém importante de fora. Assumindo isso, fizemos uma lista que contempla alguns dos mais importantes nomes do género, desde a época do cinema mudo até à actualidade. Como todas as listas, é subjectiva e nela faltam nomes importantes como Gregory Peck, Yul Brynner, Steve McQueen, James Coburn, Paul Newman, Robert Redford, Dean Martin, Eli Wallach e muitos outros. Mas os que lá estão, estão lá por mérito próprio.

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AUTRY, GENE (1907–1998)

BOND, WARD (1903–1960)

Cantor e compositor, além de actor, Gene Autry está muito ligado aos westerns musicais (por vezes com laivos de comédia), que lhe deram a alcunha de "the singing cowboy". São numerosas as suas participações em westerns para Cinema (sobretudo nos Anos 1930 e 1940) e televisão (onde chegou a ter vários programas seus, com natural destaque para The Gene Autry Show na década de 1950). Sendo um dos cowboys mais amados dos americanos, deixou a interpretação no princípio da década de 1960 e tornou-se multimilionário com os seus investimentos.

Os nomes de John Wayne e de John Ford estarão sempre ligados à carreira de Ward Bond no cinema. Amigo pessoal de ambos, contracenou com um e foi dirigido pelo outro em mais de 20 ocasiões, sempre como actor secundário. Já com 54 anos, atingiu os píncaros da fama ao protagonizar durante três temporadas a série televisiva “Wagon Train”, morrendo de ataque cardíaco durante a quarta temporada. Como fervoroso patriota que era, foi uma das figuras do cinema que mais veementemente apoiou a lista negra da famosa (e de má memória) Caça às Bruxas na década de 1950.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

Sagebrush Troubadour / Vaqueiro Trovador (1935), de Joseph Kane Sunset in Wyoming (1941), de William Morgan Rancho Grande (1940), de Frank McDonald

The Searchers / A Desaparecida (1956), de John Ford Rio Bravo (1959), de Howard Hawks My Darling Clementine / A Paixão dos Fortes (1946), de John Ford

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BORGNINE, ERNEST (1917–2012)

BRONSON, CHARLES (1921–2003)

Ernest Borgnine, filho de emigrantes italianos nos Estados Unidos, é um dos actores desta lista com mais anos de carreira no Cinema (61), apesar de só ter entrado no mundo dos filmes já com mais de 30 anos e após 10 anos de dedicação à Marinha Americana, na qual se alistou aos 18, logo após terminar o Liceu. foi um dos grandes secundários dos westerns, mas o único Oscar que ganhou foi como protagonista do drama Marty (1955), de Delbert Mann.

O “duro” por natureza, ou o vingador por conta própria, ou o homem de poucas palavras e de muita acção: eis Charles Bronson. Filho de um mineiro lituano emigrado na América, chegou a trabalhar nas minas com o pai e lutou na II Guerra Mundial. Só em 1951 se estreia no cinema e em 1954 nos westerns (O Último Apache, de Robert Aldrich). Quase sempre parco em palavras ao longo da sua carreira, como atesta um dos seus papéis mais emblemáticos (“Harmonica” em Aconteceu no Oeste).

Obras a destacar:

Obras a destacar:

The Wild Bunch / A Quadrilha Selvagem (1969), de Sam Peckinpah Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray Jubal (1956), de Delmer Daves

The Magnificent Seven / Os Sete Magníficos (1960), de John Sturges C'era una volta il West / Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone Soleil Rouge / Sol Vermelho (1971), de Terence Young

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CAREY, HARRY (1878–1947)

CAREY JR., HARRY (1921–2012)

Harry Carey foi uma das maiores estrelas dos westerns durante a época do cinema mudo, muito graças a uma profícua parceria com John Ford ao leme da realização, sobretudo entre 1917 e 1921, altura em que um desentendimento os afastou. Com o aparecimento do som no cinema, entrou em muitas produções do mesmo género mas de pequeno orçamento, a que se convencionou chamar western de série B (Western-B, no original). John Ford homenageou-o como um dos maiores cowboys de sempre, dedicando-lhe o filme Os 3 Padrinhos (1947), remake de The Three Godfathers, realizado em 1916 por Edward LeSainte, o western de estreia de Carey.

Filho de Harry Carey, herdou-lhe o nome e o jeito para fazer de cowboy. Curiosamente, só apareceu uma vez num mesmo filme que o pai (embora não tenham contracenado) em The Red River / O Rio Vermelho (1948) e foi uma das figuras principais no remake do filme The Three Godfathers (ver caixa anterior) que John Ford dedicou ao seu pai. Trabalhou quase uma dezena de vezes ao lado de John Wayne e meia-dúzia conduzido por John Ford, numa carreira com mais de 100 longas-metragens para cinema, sendo westerns cerca de metade delas.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

The Three Godfathers (1916), de Edward LeSainte Hell Bent (1918), de John Ford The Shepherd of the Hills / O Escravo da Montanha (1941), de Henry Hathaway

3 Godfathers / Os 3 padrinhos (1948), de John Ford The Red River / O Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks e Arthur Rosson Wagon Master / A Caravana Perdida (1950), de John Ford

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CLEEF, LEE VAN (1925–1989)

CONNORS, CHUCK (1921–1992)

A figura de Lee Van Cleef ficou sempre associada à imagem de vilão (foi mesmo um dos grandes vilões do cinema), pois normalmente era esse o papel que lhe era atribuído e, diga-se em abono da verdade, assentava-lhe bem. Embora fosse americano, acabou por ver ser-lhe concedido mais protagonismo e conseguir ter mais sucesso em spaghetti-westerns do que em westerns rodados no Estados Unidos, sobretudo depois de Sergio Leone o ter chamado para fazer os segundo e terceiro filmes da Trilogia dos Dólares, com Clint Eastwood.

O grande público lembrar-se-á de Chuck Connors sobretudo devido à série televisiva The Rifle Man, que em Portugal obteve o título de O Homem da Carabina. A série teve 5 temporadas e cada episódio demorava cerca de meia hora, começando o genérico a abrir com 5 tiros consecutivos de espingarda e uma voz off roufenha que anunciava: "The Rifle Man! Starring Chuck Connors". A série girava à volta de um rancheiro do Oeste selvagem que tinha um filho pequeno a quem transmitia os ensinamentos da vida, uma destreza particular no manuseio da sua carabina winchester e um apurado sentido de justiça.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

Per Qualche Dollaro in Più / Por Mais Alguns Dólares (1965), de Sergio Leone Il Buono, il Brutto, il Cattivo / O Bom, o Mau e o Vilão (1966), de Sergio Leone La Resa dei Conti / O Grande Pistoleiro (1966), Sergio Sollima

The Rifle Man / O Homem da Carabina (série de TV 1958-1963), The Big Country / Da Terra Nascem os Homens (1958), de William Wyler Ride Beyond Vengeance / A Marca do Vingador (1966), de Bernard McEveety

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COOPER, GARY (1901–1961)

DOUGLAS, KIRK (1916–…)

Gary Cooper entrou no mundo dos filmes (e dos westerns) em 1925, ou seja, no período em que estes não tinham som. Em dois anos chegou ao estrelato e com o aparecimento do som (em 1927) a estrela em que Cooper se tornou ficou ainda mais cintilante, já que a sua voz era uma das suas grandes armas, tal como o carisma e a presença. Participou em mais de 100 filmes (cerca de quatro dezenas eram westerns), acumulou prémios (entre os quais dois Oscares) e um rol de excelentes interpretações que fizeram dele uma das maiores estrelas de cinema de todos os tempos.

Quando Kirk Douglas fez o seu primeiro western – Along the Great Divide / A Caminho da Forca (1951), de Raoul Walsh –, já era uma estrela e já tinha sido candidato ao Oscar de Melhor Actor um ano antes, pelo que começou logo como protagonista. Depois deste, entrou em mais 16, dois deles realizados por si próprio, por vezes dividindo o protagonismo com outros nomes maiores, como Anthony Quinn, John Wayne, Henry Fonda, Rock Hudson ou Burt Lancaster, mas nunca verdadeiramente como actor secundário, o que faz dele um caso pouco usual no género, onde foi muito bom, como em todos os outros géneros.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

The Westerner / A Última Fronteira (1940), de William Wyler High Noon / O Comboio Apitou Três Vezes (1952, de Fred Zinnemann Man of the West / O Homem do Oeste (1958), de Anthony Mann

The Big Sky / Céu Aberto (1952), de Howard Hawks Last train From Gun Hill / O Último Comboio de Gun Hill (1959), de John Sturges Lonely Are the Brave / Fuga Sem Rumo (1962), de David Miller

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EASTWOOD, CLINT (1930–...)

FONDA, HENRY (1905–1982)

Outro dos cowboys por excelência, Clint Eastwood marcou uma geração com os seus papéis de duro, cowboy solitário e anti-herói que começaram na célebre Trilogia dos Dólares, spaghetti-westerns realizados por Sergio Leone em meados dos Anos 1960. Desde 1959 que Eastwood participava, igualmente, na série televisiva Rawhide, para a qual filmou mais de 200 episódios até 1965. A sua sensibilidade e inteligência a filmar trazemnos, já nos Anos 1990, um supremo exemplo do seu talento (como actor e realizador): Unforgiven / Imperdoável (1992), a sua última ligação ao western.

Com quase duas dezenas de westerns no currículo, feitos entre 1939 e 1973, foi de herói a vilão com a mestria dos grandes actores, mas é provável que tenha ficado na memória mais como "mau" do que como "bom da fita", a que não será alheio o seu portentoso papel em C'era Una Volta Il West / Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone. Trabalhou em Cinema às ordens de Fritz Lang, William Wellman, Joseph L. Mankiewicz e John Ford, entre outros e fez, em televisão, o papel de Marshal Simon Fry na série The Deputy entre 1959 e 1961, tendo participado em 76 episódios.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

Trilogia dos Dólares: Por um Punhado de Dólares (1964), Por Mais Alguns Dólares (1965) e O Bom, o Mau e o Vilão (1966), todos de Sergio Leone High Plains Drifter / O Pistoleiro do Diabo (1973), de Clint Eastwood Unforgiven / Imperdoável (1992), de Clint Eastwood

C'era Una Volta Il West / Aconteceu no Oeste (1968), de Sergio Leone The Ox-Bow Incident / Consciências Mortas (1943), de William Wellman My Darling Clementine / A Paixão dos Fortes (1946), de John Ford

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FORD, GLENN (1916–2006)

HART, WILLIAM S. (1864–1946)

Glenn Ford, tal como William Holden, Sterling Hayden ou James Stewart, interrompeu a sua carreira no cinema para combater na 2ª Guerra Mundial. Já tinha feito três westerns, mas após o seu regresso fez mais de duas dezenas, e embora se tenha tornado numa estrela graças sobretudo ao seu trabalho com Billy Wilder, deixou uma marca indelével no género em que ficou conhecido por interpretar homens normais que se vêm colocados em circunstâncias fora do comum.

Considerado como sendo a primeira super estrela do western, William S. Hart foi argumentista e realizador, além de produtor e actor em mais de meia centena de filmes. Começou a estudar interpretação em 1888, sete anos antes do aparecimento do cinema e fez toda a sua carreira no mudo. As suas personagens ficaram conhecidas como sendo francas, directas e honestas, mesmo quando eram as vilãs da história. Mais do que simbolizar, FOI efectivamente o cowboy original, puro e duro do cinema.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

3:10 to Yuma / O Comboio das 3 e 10 (1957), de Delmer Daves The Fastest Gun Alive / A Vida ou a Morte (1956), de Russell Rouse Jubal (1956), de Delmer Daves

The Narrow Trail (1917), de William S. Hart e Lambert Hillyer The Silent Man (1917), de William S. Hart The Patriot (1916), de William S. Hart

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HAYDEN, STERLING (1916–1986)

HOLDEN, WILLIAM (1918–1981)

Sterling Hayden teve, desde muito novo, uma enorme paixão pelo mar que duraria toda a sua vida e foi para poder comprar um barco que se deu a sua entrada no mundo do cinema. Uma entrada que rendeu apenas dois filmes antes de se alistar como marine na 2ª Guerra Mundial, onde foi condecorado. Quando regressou teve papéis de relevo em vários westerns a partir de 1949, sobretudo no magnífico Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray, ao lado de Joan Crawford.

Começou a sua carreira no cinema no mesmo ano que Glenn Ford (1939), com quem co-protagonizou dois dos seus três primeiros westerns e, tal como ele, também interrompeu a carreira para combater na 2ª Grande Guerra. O seu papel mais importante nos filmes de cowboys é o de Pike Bishop no extraordinário e ultraviolento The Wild Bunch / A Quadrilha Selvagem (1969), de Sam Peckinpah, ao lado de Ernest Borgnine e Robert Ryan.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

So Big / Vida da Minha Vida (1953), de Robert Wise Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray Terror in a Texas Town / Terror no Texas (1958), de Joseph H. Lewis

Rachel and the Stranger / Raquel, a Escrava Branca (1948), de Norman Foster The Horse Soldiers / Os Cavaleiros (1959), de John Ford The Wild Bunch / A Quadrilha Selvagem (1969), de Sam Peckinpah

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JOHNSON, BEN (1918–1996)

JONES, BUCK (1891–1942)

Por trabalhar num rancho e fazer rodeos, Ben Johnson foi contratado para ser duplo de grandes estrelas como John Wayne, James Stewart ou Gary Cooper e durante anos assim se manteve, até John Ford o chamar para protagonizar Wagon Master / A Caravana Perdida em 1950. Deixou o cinema em 1953 para voltar aos rodeos e ganhou um campeonato mundial de corda em laço. Ao perceber que ganhava mais e corria menos riscos nos filmes, voltou ao cinema dois anos depois de ter deixado. No total da carreira participou em mais de 300 filmes.

Foi um dos mais populares e bem sucedidos actores de western do período mudo do cinema, que encarnava personagens heróicas e com dignidade, posicionadas algures entre a austeridade das de William S. Hart e a quase brejeirice das de Tom Mix. Entre o mudo e o sonoro protagonizou largas dezenas de westerns de baixo orçamento, que fizeram dele uma estrela. Morreu, juntamente com quase 500 pessoas, num dos mais brutais incêndios de que há memória a irromper num clube nocturno de Boston, onde se encontrava.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

Wagon Master / A Caravana Perdida (1950), de John Ford Rio Grande (1950), de John Ford The Wild Bunch / Quadrilha Selvagem (1969), de Sam Peckinpah

Just Pals (1920), de John Ford The Gunman from Bodie (1941), de Spencer Gordon Bennet Forbidden Trails (1941), de Robert N. Bradbury

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LADD, ALAN (1913–1964)

MCCOY, TIM (1891–1978)

Rejeitado para diversos papéis no cinema por ser demasiado pequeno (1,68m de altura), Alan Ladd desenvolveu uma carreira na rádio, onde se tornou uma estrela. Esteve quase a representar os Estados Unidos nas Olimpíadas de 1932, mas uma lesão acabou por afastá-lo desse propósito. Acabou, no entanto, por conseguir uma excelente carreira também no cinema, tendo participado em quase cem filmes, de entre os quais uma dúzia de westerns, dos quais se destaca a sua maravilhosa personagem de pistoleiro bom em Shane (1953).

Tim McCoy interessou-se desde muito novo pelos povos indígenas americanos, tendo sido um estudioso dos seus idiomas e costumes. Ganhou o respeito de diversas tribos e estabeleceu laços de amizade com elas. Foi convidado para arranjar índios figurantes que entrassem no western The Covered Wagon (1923), de James Cruze. Levou centenas deles para as filmagens e, após a conclusão das mesmas, propuseramlhe fazer um número teatral ao vivo com um pequeno grupo que acompanhasse as sessões do filme. Fizeram-no durante 8 meses em Hollywood e vários meses em Londres e Paris. No primeiro filme em que participou, War Paint (1926), encenou com o realizador W. S. Van Dyke, cenas épicas de índios a cavalo, tendo-os mostrado sempre com dignidade e simpatia e não como selvagens assassinos.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

Shane (1953), de George Stevens The Proud Rebel / O Rebelde Orgulhoso (1958), de Michael Curtiz Branded / A Marca Rubra (1950), de Rudolph Maté

War Paint (1926), de W. S. Van Dyke Two Fisted Law (1932), de D. Ross Lederman The Man from Guntown (1935), de Ford Beebe

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MCCREA, JOEL (1905–1990)

MITCHUM, ROBERT (1917–1997)

Uma das estrelas maiores dos westerns, Joel McCrea participou em mais de três dezenas de títulos do género, tendo sido dirigido por realizadores tão diferentes como Jacques Tourneur, Cecil B. deMille, Raoul Walsh, Howard Hawks ou William A. Wellman. Protagonizou entre 1959 e 1960 uma série televiva de western intitulada Wichita Town, entrando em todos os 26 episódios, sendo que em 22 deles contracenou com o seu filho Jody McCrea.

O estilo de actuar de Robert Mitchum, que emprestava às suas personagens uma aparência preguiçosa e com um olhar de indiferença a tudo e a todos provou ser tremendamente sedutora e eficaz, catapultando-o para o estrelato meia dúzia de anos depois de ter começado no mundo dos filmes. Particularmente no género western, protagonizou quase duas dezenas de títulos, por vezes dividindo o protagonismo com outras estrelas, como John Wayne, Kirk Douglas ou Marilyn Monroe.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

Ride the High Country / Os Pistoleiros da Noite (1962), de Sam Peckinpah Stars in My Crown / Estrelas da Minha Coroa (1950), de Jacques Tourneur Colorado Territory / Golpe de Misericórdia (1949), de Raoul Walsh

El Dorado (1966), de Howard Hawks The Lusty Man / Idílio Selvagem (1952), de Nicholas Ray Pursued / Núpcias Trágicas (1947), de Raoul Walsh

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MURPHY, AUDIE (1924–1971)

MIX, TOM (1880–1940)

Herói da 2ª Guerra Mundial, foi um dos mais condecorados soldados da mesma, tendo inclusivamente aparecido na capa da revista Time por essa razão. Foi o actor James Cagney quem, ao ler a sua história, o levou para Hollywood, onde filmou cerca de três dezenas de westerns, chegando mesmo a declarar que havia feito “o mesmo western umas trinta vezes com cavalos diferentes”.

Tom Mix foi um dos maiores ídolos do western no cinema mudo e foi o reponsável pela introdução do espectáculo no género, um pouco ao estilo circense. Criou personagens perfeitas, normalmente cómicas e heróicas, pouco se importando com a verosimilhança das sequências de acção onde elas entravam, desde que fossem espectaculares. Forjou para si próprio um passado de grandes aventuras, levando a personagem da tela para a vida real, de tal maneira que muitas vezes se confunde, ainda hoje, a ficção com a realidade. Ganhou milhões de dólares, mas o seu estilo de vida fez com tivesse gasto outro tanto.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

No Name on the Bullet / Bala sem destino (1959), de Jack Arnold Night Passage / Duelo de Gigantes (1957), de James Neilson Ride Clear of Diablo / Vidas Turbulentas (1954), de Jesse Hibbs

The Great K & A Train Robbery / Salteadores de Comboios (1926), de Lewis Seile The Queen of Sheba / A Rainha do Sabá (1921), de J. Gordon Edwards The Rider of Death Valley / O Deserto da Morte (1932), de Albert S. Rogell

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PALANCE, JACK (1919–2006)

QUINN, ANTHONY (1915–2001)

Jack Palance foi um vilão aterrorizador como poucos nos westerns, tendo feito um punhado de maus da fita memoráveis. Para quem nunca viu, aconselhamos vivamente, por exemplo, a sua prestação em Shane (1953), onde é o grande pesadelo de Alan Ladd. Esse foi o primeiro western em que participou e o filme que lhe deu a segunda nomeação para o Oscar de melhor Actor Secundário, que só viria a ganhar 38 anos depois em A Vida, o Amor… e as Vacas (1991).

Mexicano de nascimento, Anthony Quinn cresceu em Los Angeles, onde vendeu jornais, engraxou sapatos e estudou arquitectura, antes de entrar em filmes. A sua carreira no cinema foi pautada pela interpretação de personagens de grande multiplicidade de etnias e nacionalidades. Em 1936, no primeiro western em que entrou (The Plainsman / Uma Aventura de Buffalo Bill, de Cecil B. DeMille), por exemplo, fez de índio Cheyenne. Ao longo da sua longa carreira intercalou os papéis secundários e os de protagonista com uma enorme facilidade e extraordinários resultados.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

Shane (1953), de George Stevens The Lonely Man / O Cavaleiro Solitário (1957), de Henry Levin The Professionals / Os Profissionais (1966), de Richard Brooks

Viva Zapata! (1952), de Elia Kazan Last Train from Gun Hill / O Último Comboio de Gun Hill (1959), de John Sturges Warlock / O Homem das Pistolas de Ouro (1959), de Edward Dmytryk

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ROGERS, ROY (1911–1998)

SCOTT, RANDOLPH (1898–1987)

As parecenças entre as carreiras de Roy Rogers e de Gene Autry são evidentes. Tal como Autry, Rogers teve uma carreira recheada de êxitos, quer no cinema, quer na televisão, na qual também teve o seu próprio programa (The Roy Rogers Show) e, tal como ele, foi um dos grandes cowboys cantores do western americano. Participou em cerca de duas centenas de produções dedicadas ao velho oeste, entre o pequeno e o grande ecrã, em muitas delas ao lado seu cavalo Trigger, que ficou quase tão conhecido quanto ele próprio.

Randolph Scott foi uma das maiores estrelas do western de sempre, tendo feito cerca de seis dezenas até deixar os filmes em 1962, após 40 anos de carreira. Trabalhou ao lado de John Wayne, Henry Fonda, Errol Flynn ou Marlène Dietrich e foi dirigido por Henry Hathaway, Budd Boetticher, Michael Curtiz ou Fritz Lang, apenas para dizer alguns. Fazia normalmente de “bom” e era adorado por uma legião enorme de fãs.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

Susanna Pass (1949), de William Witney Melody Time / Tempo de Melodia (1948), de Clyde Geronimi e Wilfred Jackson Romance on the Range / Justiça de Vaqueiro (1942), de Joseph Kane

The Tall T / A Marca do Terror (1957), de Budd Boetticher Seven Men from Now / 7 Homens Para Matar (1956), de Budd Boetticher Ride the High Country / Os Pistoleiros da Noite (1962), de Sam Peckinpah

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STEWART, JAMES (1908–1997)

WAYNE, JOHN (1907–1979)

Um dos melhores actores de toda a História do Cinema e em praticamente todos os tipos de filmes, James Stewart entrou em duas dezenas de westerns, um dos géneros em que foi magnífico. Amigo de Henry Fonda, seguiu-o para Hollywood em 1934, estreando-se no western dois anos depois com Rose Marie (1936), de W.S. Van Dyke. O último western que fez foi The Shootist / O Atirador (1976), de Don Siegel, que tinha John Wayne no papel principal.

Unanimemente considerado o cowboy por excelência, é como que o símbolo da justiça e do heroísmo americanos. Foi o actor que ficou mais associado ao género, facto que lhe granjeou, em alguns circuitos, a alcunha de "Senhor Western". Figura de proa nos filmes de Howard Hawks e de John Ford, trabalhou com os melhores realizadores e entrou em quase uma centena de títulos para Cinema, entre 1926 (ainda como figurante) e 1976 (aqui já com muitas dezenas papéis como protagonista). Ganhou o Oscar de Melhor Actor em True Grit / Velha Raposa (1969), de Henry Hathaway.

Obras a destacar:

Obras a destacar:

The Man Who Shot Liberty Valance / O Homem Que Matou Liberty Valance (1962), de John Ford Destry Rides Again / A Cidade Turbulenta (1939), de George Marshall Winchester 73 (1950), de Anthony Mann

Rio Bravo (1959), de Howard Hawks The Searchers / A Desaparecida (1956), de John Ford O Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks e Arthur Rosson The Man Who Shot Liberty Valance / O Homem Que Matou Liberty Valance (1962), de John Ford Stagecoach / Cavalgada Heróica (1939), de John Ford True Grit / Velha Raposa (1969), de Henry Hathaway 49


O WESTERN NA ANIMAÇÃO

Esta longa introdução serve, precisamente, para introduzir o tema deste texto: o do western no cinema de animação. Os desenhos-animados sempre se alimentaram de arquétipos para passarem a sua mensagem que, normalmente, tem sempre algum conteúdo moral ou social. E o western, carregado de símbolos e códigos, é um género perfeito para a animação se alimentar. No entanto, não deixa de ser curioso verificar mais uma vez que aqueles que são, provavelmente, os exemplos mais famosos de animações de caubois tenham a sua génese no outro lado do Atlântico, nomeadamente na insuspeita Bélgica.

PEDRO SOARES

Clint Eastwood disse certa vez que as únicas expressões culturais genuinamente norte-americanas eram o jazz e o western. No fundo, tem toda a razão, já que são as formas de arte que melhor representam o american way of life e o que é ser americano. No entanto, não deixa de ser curioso que o western esteja ligado a dois mitos urbanos que, afinal, não passam de mentiras que se tornaram verdade por força de terem sido repetidas vezes sem conta. O primeiro é o facto de ser um género que nasceu nos Estados Unidos, quando no fundo a sua génese remonta à Alemanha, nos livros de cordel de Karl May; e o segundo é o facto de ser um género com expressão exclusiva na sétima arte, quando o próprio se estende pelo teatro, pela literatura, pela banda-desenhada e, mesmo dentro do cinema, por outro sub-género, o da animação.

Maurice de Bevere foi o criador de Lucky Luke, o caubói mais rápido que a própria sombra, que ao longo da série de aventuras que encheu os seus livros de banda-desenhada perseguiu os irmãos Dalton, impôs a lei e a ordem no Velho Oeste e defendeu o progresso norte-americano. Lucky Luke foi adaptado ao grande ecrã em imagem real por duas vezes, em títulos menores: o homónimo filme de 1991, com Terence Hill como protagonista (e realizador); e o visualmente (muito) interessante, mas igualmente dispensável filme, também homónimo, de 2009, com Jean Dujardin no principal papel. O que é curioso verificar é que ambos os filmes usam como base a aventura Daisy Town, que motivou a primeira adaptação ao cinema de animação de Lucky Luke, em 1971, e que continua a ser o melhor filme até à data do caubói mais rápido que a 50


própria sombra. É que, se olharmos com atenção, encontramos em Daisy Town todos os temas essenciais do western norte-americano: o mito da fundação, dos colonizadores que vêm construir a cidade de Daisy Town; o forasteiro que surge do nada para impôr a lei, neste caso Lucky Luke e o seu cavalo Jolly Jumper; e os índios enquanto vilões que querem impedir o progresso, de forma egoísta.

Todos os outros exemplos de animações western acabam por girar à volta destes dois modelos. Recentemente, Gore Verbinski trouxenos em animação digital Rango, com a voz de Johnny Depp, numa variação do forasteiro que vem impôr a ordem à "nervosa" Vila Poeira, mas onde recorre a outra tradição dos desenhos-animados, a antropomorfização, que a Disney cristalizou tão bem. Também no universo da antropomorfização, mas com ratos em vez de lagartos, movese a primeira aventura de Steven Spielberg no território dos desenhosanimados, com o filme de 1986, Fievel - Um Conto Americano. Mais uma vez, o mito da fundação, mas também o american dream, sobre um rato russo que emigra para o Novo Mundo. Anos depois, uma sequela abraçava o género de vez: Um Conto Americano 2 - Fievel no Faroeste, em que um já estabelecido Fievel arranca para o Velho Oeste para fazer cumprir o sonho americano.

Outro herói belga das histórias em quadradinhos no Velho Oeste foi Blueberry, o caubói criado pela caneta de Jean-Michel Charlier e pelo pincel de Moebius. Apesar de emular o espírito épico do western norte-americano e de incorporarem os símbolos do género (como o caminho-de-ferro, símbolo do progresso, cuja construção o herói belga defendeu em vários livros), as aventuras de Blueberry bebem muito mais inspiração ao western europeu e ao italiano western spaghetti, com o seu realismo sujo mais próximo de Corbucci do que de John Ford e com o seu herói muito mais anti (moralmente complexo, indisciplinado...) do que moralmente íntegro e porta-estandarte da direita conservadora norteamericana (olá John Wayne!). O caubói chegou ao grande ecrã em 2004, no filme As Aventuras de Blueberry, com Vincent Cassel no principal papel, mas, inesperadamente, o realizador Jan Kounen preferiu adaptar a mais incaracterística fase de Blueberry - a psicadélica, em que se envolve com os efeitos psicotrópicos da ayahuasca.

O óbito do western já foi declarado vezes sem conta, mas surgem sempre filmes, de quando em quando, a provar aos mais cépticos o quão errados estão. Contudo, a animação já nos provou uma coisa: enquanto houver uma cidade no Velho Oeste a precisar de ordem, uma quadrilha de bandidos para capturar ou uma localidade para fundar, os desenhos animados terão sempre espaço para mais um caubói.

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O ACID WESTERN SARA GALVÃO

Se alguma vez deram convosco a ver um western onde personagens caem (literalmente) de paraquedas na história, tomam substâncias ilegais, bebem demasiado café ou, quiçá, dizem ser Deus, o mais provável é terem visto um acid western. O termo para este subgénero foi pela primeira vez utilizado por Pauline Kael em 1971 na sua crítica a O Topo, o controverso primeiro filme de Alejandro Jodorowsky (e não num bom sentido), e recuperado em 1996 por Jonathan Rosenbaum na sua defesa de Homem Morto, de Jim Jarmusch. Duelo no Deserto (1966), de Monte Hellman, é geralmente tido como o primeiro exemplo “oficial”, e O Topo, curiosamente, como o seu expoente. Filmes de culto, geralmente um fracasso de bilheteira, estão normalmente ligados a um certo tipo de realizadores mais ou menos underground - além de Jodorowsky e Monte Hellman, tidos como os “pais” do acid western, temos Jim Jarmuch, Robert Downey Jr e Alex Cox como nomes frequentemente associados ao subgénero que, por não estar associado a um movimento coeso cronologicamente, pode provocar alguns problemas de categorização.

cultura (geralmente contemporânea) na sua narrativa, que podem incluir drogas, rock’n’roll e até vegetarianismo. Em termos de revisionismo, o grande tema do acid western é a autodestruição do Homem Branco, que caminha feroz e a largas passadas no caminho a que chama Civilização, só para acabar a olhar para um monte de cadáveres e ruínas. Apesar das grandes doses de violência (Tarantino, rói-te de inveja), esta não é embelezada, ou gloriosa; pelo contrário, os tiroteios são coisas tristes, embaraçosas e que, longe de fazer heróis, apenas tingem de sangue a poeira do caminho - algo bastante presente em Homem Morto e O Topo, por exemplo. Também a relação com a Morte é peculiar, niilista até - desde a morte do patriarca e indiferença da sua família em A Caminho do Inferno, até às constantes ressurreições de uma das personagens de Greaser’s Palace (tantas, que até a personagem em questão se começa a aborrecer). Não estamos, portanto, perante a clássica, Fordiana luta entre o Bem e o Mal; a morte no acid western toca a todos, e o karma, como podemos aprender com Walker, nem sempre se aplica.

O que faz, então, um western ácido? Sem marcas formais que o distingam de outros subgéneros dados a excessos, como o spaghetti western, um acid western distingue-se, primeiro, pelas suas qualidades revisionistas e, segundo, pela incorporação de elementos de contra-

Claro, se falamos de revisionismo da versão clássica do western, estamos a dizer que o acid western, quando feito por Americanos, questiona e destrói a glorificação do Homem Branco na História dos Estados Unidos, 53


algo bastante óbvio em As Aventuras de Blueberry e até satirizado em Walker. Quando filmados fora da ‘Murica, contudo, o género continua a ser utilizado para incidir em temas tópicos - O Topo, vindo do ultracatólico México, está pejado de símbolos religiosos e apresenta um Deus que faz batota para ganhar; Limonada Joe, de detrás da Cortina de Ferro, goza com o Capitalismo em números musicais deliciosos; e Uma Aventura de Billy the Kid mostra que, realmente, os franceses da Nouvelle Vague nunca deveriam ter sido autorizados a fazer um western, e muito menos uma variante musical.

postas em segundo plano em favor da estranheza da contra-cultura, que se manifesta de várias maneiras: pela música rock e alternativa (uma das mais constantes marcas nas bandas sonoras do subgénero), tomada de drogas (desde o óbvio ácido até aos “inofensivos” cafeína e álcool), ausência de narrativa formal (e muitas vezes de sentido) e exploração dos temas/problemas sociais e espirituais relativos à época em que o filme foi feito (novamente, o exemplo mais gritante é Walker). Muitas vezes divertido (algumas das quais inadvertidamente), o acid western eleva-se acima do simples spoof do western clássico por cuspir veementemente no mito da superioridade civilizacional dos Estados Unidos, e utilizar o género americano por excelência para o fazer. São, assim, excelentes digestivos para toda e qualquer propaganda Hollywoodesca vinda de Spielbergs, Eastwoods ou mesmo Emmerichs. E... já mencionámos que há drogas?

As personagens do acid western costumam ter uma missão (controlar o Nicarágua politicamente, fugir para o México, enfrentar o passado... ), mas a forma como perseguem os seus objectivos é mais parecida com um zigzaguear do que com uma linha recta. À deriva parece o termo exacto para definir a situação dos heróis destes filmes, que tentam sobreviver no meio de uma anarquia surreal povoada de personagens vindas do fundo dos mais psicadélicos pesadelos, onde tudo são símbolos e metáforas.

Segue-se uma pequena lista de acid westerns por ordem cronológica, para as tardes de Domingo em que se quer um bocado de estranheza antes do jantar...

As ambições metafóricas do subgénero sugerem que a estrutura e formalidades do western são muitas vezes apenas um “acidente” na mensagem geral do filme; mesmo as qualidades revisionistas podem ser 54


LIMONADA JOE Apesar da sua classificação como acid western seja discutível, Limonada Joe (Lemonade Joe, 1964, Oldrich Lipsky) ganha certamente um lugar honroso na escala de estranheza na nossa selecta filmografia. Um western musical satírico, feito na Checoslováquia, conta a história de Joe Limonada que vem à cidade apregoar os males do álcool e a excelência de KolaLoka, que o transforma num excelso pistoleiro. Possivelmente o primeiro exemplo de product placement descarado, com uma estranha cinematografia monocromática e um ritmo de comédia alucinante, Limonada Joe é uma pequena jóia cinematográfica que merece ser mais conhecida.

DUELO NO DESERTO Duelo no Deserto (The Shooting, 1966, Monte Hellman) é, como dissemos acima, o primeiro exemplo oficial de acid western. Com Warren Oates e Jack Nicholson a cavalgarem atrás da Mulher (Millie Perkins) em direcção a não se percebe bem o quê, o filme, feito por meia dúzia de tostões, tem qualquer coisa de Beckettiano, uma impressão infelizmente estragada pelo pobre twist final. Hellman realizaria imediatamente depois O Furacão (Ride in the Whirlwind, 1966), narrativamente semelhante, mas sem o fulgor de Duelo. 55


O TOPO O Topo (El Topo, 1970, Alejandro Jodorowsky) não é para ser visto na presença de não cinéfilos. Este filme surreal que inaugurou a carreira cinematográfica do realizador mexicano precisa de uma boa dose de humor e tolerância para ser visto (para não dizer que cogumelos mágicos definitivamente ajudarão ao visionamento) e, apesar de não ser tão bem conseguido como o seu trabalho posterior, foi aquele que definitivamente ficou para a história. Com anões, nudez, gurus, animais mortos e cenas lésbicas, tudo é válido em direcção à iluminação espiritual (pelos vistos).

UMA AVENTURA DE BILLY THE KID Uma Aventura de Billy the Kid (Une aventure de Billy le Kid, 1971, Luc Moullet) é a resposta francesa a O Topo. Numa época em que os realizadores franceses brincavam com a forma e narrativa, pegar num novo subgénero que fazia exactamente isso seria lógico. Infelizmente, há qualquer coisa neste filme (talvez sejam as roupas demasiado estilosas para o meio do deserto; talvez seja a narrativa yo-yo; ou quiçá a voz esganiçada que interpreta o tema principal) que, em vez de nos pôr o queixo no chão como o filme que o inspirou, só nos leva a mão à testa. A história? Billy the Kid (que lembra, talvez não por coincidência, Johnny Depp em Homem Morto) tenta fugir para o México, encontra uma estranha rapariga, apaixonam-se, mas afinal ela quer vingança, mas afinal ama-o mesmo, mas afinal continua a querer fazê-lo sofrer, mas não quer que ele morra, etc etc etc... 56


O CLAMOR DA JUVENTUDE O Clamor da Juventude (Zachariah, 1971, George Englund) , vagamente baseado em Siddhartha de Hermann Hesse, é um hino ao pacifismo e vegetarianismo, onde o protagonista, Zachariah, se apercebe que a violência com que estava tão fascinado em adolescente é uma escolha de vida que só pode acabar em tragédia, e por isso abandona o seu melhor amigo para viver uma vida simples (leia-se, hippie), não antes de conhecer os prazeres da carne no bordel da fronteira. Tudo isto é pontuado pela música rock dos The Crackers, que desafiam as leis de acústica do deserto.

GREASER’S PALACE Em 1972, o Filme Tão Mau que é Bom Greaser’s Palace estreia, realizado por nem mais nem menos que Robert Downey, Senior. Desde a melhor representação de um fantasma no grande ecrã de sempre (um tipo com um lençol e dois furos para os olhos), até ao estranho momento à la Regresso ao Futuro, onde Jesse, que quer ir para Jerusalém para encontrar trabalho como cantor/dançarino/actor presenteia a audiência com um número de sapateado, Greaser’s Palace é a melhor parábola da vida de Cristo que alguma vez agraciou o celulóide. Pontos extra para o cameo infantil de Robert Downey Jr.. 57


A CAMINHO DO INFERNO Os primeiros 10 minutos de A Caminho do Inferno (Straight to Hell, 1986, Alex Cox) parecem mais os Cães Danados de Tarantino do que um western, mas assim que os larápios de serviço fogem para o deserto (com uma Courtney Love muito grávida como companhia) e encontram uma cidade, er, muito muito estranha, onde todos bebem demasiado café, estamos em plena surrealidade do acid western. Um hino à violência gratuita, tensão sexual e cafeína.

OS IMORTAIS É no ano seguinte que Alex Cox espeta a martelada definitiva no género com Os Imortais (Walker, 1987). No século XIX, o americano Walker, brilhantemente interpretado por Ed Harris, vai para a Nicarágua para controlar politicamente a região e civilizar os nativos (muitas vezes através de uma bala na testa). E se a sátira não foi suficientemente clara mesmo depois da última cena (spoiler: há um helicóptero e controlo de passaportes), as imagens de noticiários que rolam com os créditos esclarecem tudo para os mais lentos de compreensão. 58


HOMEM MORTO Homem Morto (Dead Man, 1995, Jim Jarmusch) que, nas palavras do crítico Hoberman, é o western que Andrei Tarkovsky sempre quis fazer, conseguiu sair do armário de “culto” graças ao estatuto crescente de Jarmusch e à popularidade de Johnny Depp. A história de William Blake (não o poeta) que passa a grande maioria do filme a morrer e o seu companheiro Ninguém inspirou toda uma geração a usar suspensórios e a ler poesia inglesa romântica.

AS AVENTURAS DE BLUEBERRY As Aventuras de Blueberry (Blueberry, 2004, Jan Kounen), baseado numa novela gráfica francesa dos anos 60, é, apesar das cenas com alucinogéneos, o filme mais normal da nossa lista. Uma história com pés e cabeça, onde Mike Blueberry (Vincent Cassel), um marechal que tem amigos índios e uma vingança a ajustar com Wallace Sebastian Blount (Michael Madsen), tem de fazer as pazes com o seu passado, talvez não tenha o mesmo fulgor e estranheza dos outros exemplos, mas é um exemplo sólido da visão negra dos Estados Unidos oposta à honra e cultura dos Nativo-Americanos. 59


SPAGHETTI WESTERN FILIPE LOPES

NOME E ORIGEM

LEONE… E OS OUTROS

Considerado originalmente o parente pobre e menor do western americano, o spaghetti western surge de forma massiva na primeira metade dos anos 1960 e prolonga-se até ao início da década seguinte, tendo ficado para a história como um dos subgéneros mais profícuos e interessantes a que o género deu origem. O nome surge de uma forma óbvia, já que grande parte dos seus realizadores, produtores e actores são italianos (por vezes mascarados com pseudónimos americanos) e foi originalmente atribuído de forma depreciativa pelos críticos que achavam que o spaghetti western não passava de uma sombra do western americano. Apesar de existirem vários exemplos de filmes extraordinariamente inovadores e artisticamente inatacáveis, o facto de a esmagadora maioria das produções ser de baixo orçamento contribuiu para que essa ideia de inferioridade generalizasse, até que na década de 1980 a sua reputação se elevou e o termo deixou, finalmente, de ser usado com desprezo para ser associado simples e definitivamente como reconhecimento de um subgénero.

Grande parte da responsabilidade na ascensão do spaghetti western na opinião dos críticos recai desde logo sobre a sua figura de proa, que é, sem qualquer sombra de dúvida, Sergio Leone. Apesar de não ter realizado muitos filmes e passado demasiado tempo a trabalhar como assistente de realização, Leone é o realizador dos melhores e mais consagrados spaghetti westerns da história. No princípio, a sua maravilhosa e aclamada trilogia dos Dólares, composta pelos títulos Por Um Punhado Dólares (1964), Por Mais Alguns Dólares (1965), de onde desponta o genial O Bom o Mau e o Vilão (1966), a que se juntaria a obra-prima Aconteceu no Oeste (1968) e o seu último western Aguentate Canalha (1971). Mais do que definir o subgénero spaghetti, Leone redefiniu o western, com a introdução de novos ingredientes marcantes, como os zooms rápidos para enquadramentos com uma aproximação extrema, nos quais, por exemplo, só se vêem os olhos das personagens; a redefinição do herói, que surge como sendo um cínico de poucas palavras; a música (de Ennio Morricone, pois claro) que é, ela própria um elemento da narrativa; os longos silêncios que desaguam abruptamente numa cena de acção feroz, são tudo imagens de marca de Leone que pautaram todo o universo dos cowboys à italiana. Claro que outros realizadores contribuíram para a popularidade deste 61


subgénero. Nomes como Sergio Corbucci, Enzo G. Castellari, Sergio Sollima, Damiano Damiani, Giovanni Grimaldi, Sergio Garrone, Giulio Questi, Giulio Petroni, Demofilo Fidani, Duccio Tessari, Lucio Fulci, Enzo Barboni, e muitos outros, com mais ou menos humor negro e com mais ou menos violência gráfica, ajudaram a tornar o spaghetti western num subgénero de culto.

a personagem que Nero interpreta, embora se chame Keoma Shannon, é também ela um tributo a Django ou o próprio Django reencarnado. Mas Anthony Steffen também foi Django e por três vezes. Em Poucos Dólares por Django (1967), de León Klimovsky (segundo os créditos no filme, mas que Enzo G. Castellari reclama ter sido ele a próprio a realizar), O Sinal de Django (1969), de Sergio Garrone e A Vingança de Django (1971), de Edoardo Mulargia, creditado como Edward G. Muller. Ivan Rassimov (como Sean Todd), Jack Betts (como Hunt Powers) e Terence Hill foram outros dos variadíssimos actores que encarnaram esta personagem. Outros nomes históricos de personagens a descobrir são Ringo, Sartana, Sabata e Trinitá.

PERSONAGENS RECORRENTES Uma das imagens de marca nos enredos do spaghetti western é a continuidade de certas personagens ao longo de vários filmes, interpretadas, muitas vezes, por diferentes actores. Outras vezes o nome é recorrente, mas a personagem nada tem que ver com a anterior com o mesmo nome. A personagem Django, por exemplo, mais mediatizada nos últimos anos graças ao filme de Quentin Tarantino, Django Libertado (2012), que lhe presta homenagem, tem as duas vertentes. A primeira vez que chegou ao grande ecrã foi encarnada por Franco Nero no incontornável Django (1966), de Sergio Corbucci. O actor voltou a interpretar uma personagem com o mesmo nome em O Homem, o Orgulho e a Vingança (1967), de Luigi Bazzoni e em 1987 no filme Django Ataca de Novo, de Nello Rossati. Em Keoma (1976), de Enzo G. Castellari,

ACTORES Dos actores que fizeram história no spaghetti western há uma enorme quantidade de nomes. Muitos vieram dos Estados Unidos para revitalizar a carreira ou porque foram convidados como estrelas. As razões podem ter sido várias, mas nomes como Clint Eastwood, Henry Fonda, Lee Van Cleef, Eli Wallach, Charles Bronson, Yul Brynner, James Coburn, Anthony Quinn, Rod Steiger, Jason Robards, Burt Reynolds, James Garner ou Jack Palance, entre outros, deram ainda mais sabor aos spaghetti westerns. 62


Outros nomes a ter em conta foram os de Gian Maria Volonté, Klaus Kinski, Tomas Milian, Jean-Louis Trintignant, Mario Brega, Giuliano Gemma, Robert Hossein, Bud Spencer, Terence Hill, Leonard Mann, Tony Anthony, William Berger, Gianni Garko, entre dezenas de outros provenientes de vários países, sobretudo de Itália, Reino Unido, França, Espanha e Alemanha.

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PER UN PUGNO DI DOLLARI PER QUALCHE DOLLARO IN PIÙ IL BUONO, IL BRUTTO, IL CATTIVO

Títulos nacionais: Por Um Punhado de Dólares Por Mais Alguns Dólares O Bom, o Mau e o Vilão Realização: Sergio Leone Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volontè

1964/1965/1966 JOÃO PAULO COSTA

Por Mais Alguns Dólares foi produzido no ano imediatamente seguinte ao primeiro filme, por recomendação dos produtores de forma a aproveitar o sucesso algo inesperado de Por Um Punhado de Dólares em Itália mas também um pouco por toda a Europa. Leone e Eastwood voltaram a juntar-se, acrescentando desta vez também Lee Van Cleef e Gian Maria Volontè, o primeiro como um caçador de recompensas que se junta a Eastwood numa jornada para capturar o segundo, na pele do criminoso El Indio, e o seu bando. A história não é muito diferente de alguns velhos clássicos do género, mas a forma como esta é contada é o que a distingue realmente de outros títulos menores. Cada vez mais à vontade com todas as ferramentas cinematográficas ao seu dispor, o realizador italiano criou uma série de sequências de antologia, conferiu algumas camadas dramáticas inesperadas à narrativa e às personagens, e subiu um patamar em relação ao trabalho anterior.

Depois de uma longa carreira como assistente de realização, argumentista e muitas outras lides cinematográficas, Sergio Leone estreou-se na realização em 1961 com O Colosso de Rodes, uma história de gladiadores. Mas foi 3 anos mais tarde que inaugurou aquela que viria a ser uma das mais marcantes trilogias cinematográficas de sempre, tornando o seu realizador numa lenda, o seu protagonista principal numa estrela planetária (dando corpo a uma personagem que ficou conhecida como “o homem sem nome”) e popularizou o género que passou a ser conhecido como western spaghetti. Em boa verdade, convém começar por reconhecer que Por Um Punhado de Dólares é uma adaptação descarada da história de Yojimbo, o Invencível (1961), de Akira Kurosawa, substituindo os samurais japoneses por pistoleiros no Oeste americano, mas mantendo a narrativa de um estranho (neste caso Eastwood) que chega a uma pequena cidade atormentada pela opressão de dois gangues rivais, e os vira secretamente uns contra os outros. Apesar de avançar com um processo em tribunal por plágio, Kurosawa admitiu ser fã da versão de Leone, e tem todos os motivos para tal: foi com este título que Leone começou a mostrar ao mundo a sua marca autoral, revelando-se um realizador com um cuidado especial no enquadramento e todo o trabalho de câmara, um domínio da montagem que alterna na perfeição o silêncio com a acção, grandes planos com enquadramentos mais gerais e, claro, que anda muitas vezes de mão dada ao ritmo da música do compositor Ennio Morricone, naquela que foi a primeira colaboração entre ambos. E Clint Eastwood revelouse logo à partida como uma perfeita decisão de casting, percebendo imediatamente não só o carisma mas também o humor da sua personagem. Pode dizer-se que, mesmo valendo e muito por si próprio, Por Um Punhado de Dólares foi uma espécie de tubo de ensaio para aquilo que viria a seguir.

E como não há duas sem três, houve ainda espaço para um filme final: exponenciando os elementos que haviam feito o sucesso dos dois primeiros, Leone conseguiu um orçamento maior e lançou-se num verdadeiro épico, pegando em três personagens dúbias, todos eles caçadores de recompensas, em busca de um tesouro escondido que cada um pretende para si próprio. O Bom, o Mau e o Vilão juntou Eli Wallach a Eastwood e Van Cleef, e situou a acção durante o período da Guerra Civil Americana, conferindo um tom mais sério à aventura, que ainda assim preservou o humor como imagem de marca de toda a saga. Com 3 horas de duração, o filme é uma magnífica epopeia cinematográfica em que o realizador leva ao extremo as suas obsessões visuais: os silêncios e a duração dos planos são prolongados quase ao limite do suportável e a montagem surge cada vez mais inseparável da música nas suas grandes cenas, de que é exemplo o grande duelo final entre o nosso trio protagonista. Uma trilogia que começou em grande e seguiu sempre em crescendo até se tornar numa absoluta obra-prima. 65


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C’ERA UNA VOLTA IL WEST

Título nacional: Era Uma Vez no Oeste Realização: Sergio Leone Elenco: Henry Fonda, Charles Bronson, Claudia Cardinale

1968 PEDRO SOARES

Em 1962, John Ford realizava O Homem Que Matou Liberty Valance, o canto do cisne dos westerns clássicos que começavam a cair em declínio. Dois anos depois, os olhares voltavam-se para o cinema europeu, quando Clint Eastwood se torna no novo ícone e os westerns spaghetti se tornam os novos pontos de atenção. Sergio Leone é o nome mais visível, responsável pela trilogia dos dólares, que marcam o género, com um novo estilo de captar o oeste norte-americano: um realismo sujo, de areia e sol, e uma decadência vistosa e iconográfica, aliados a uma grande individualidade humana e violência, muita violência. O Velho Oeste renascia em plena Europa!

musicais com a harmónica o tornam igualmente lendário (tão lendário que Quentin Tarantino pôs David Carradine a tocar flauta transversal em Kill Bill em homenagem directa); os duelos sucedem-se, tal como a violência que nunca desaparece; a busca pelo ouro traduz-se num intrínseco cruzamento entre os quatro personagens; a memorável bandasonora, que como não podia deixar de ser, pertence também a Ennio Morricone; e a máxima de Leone, que continua imutável, em que um olhar vale mais do que mil palavras, continua a fazer distender o tempo como só Trakovsky fez também até aos dias de hoje. Era Uma Vez no Oeste é o maior western spaghetti da história da sétima arte, em termos de escala, em termos de epopeia, em termos de cinema. No entanto, este aumentar de escala, faz perder o estilo que a Leone mostrava de forma mais crua e imediata na trilogia dos dólares. O que faz com que este filme seja aquele em que mais se aproximou de John Ford e dos clássicos norte-americanos e que mais se afastou dos seus outros pares, como Sergio Corbucci.

Depois do sucesso da trilogia dos dólares (Por um Punhado de Dólares, Por Mais Alguns Dólares e O Bom, o Mau e o Vilão), Leone filmou Era Uma Vez no Oeste, que viria também a dar origem a outra trilogia, numa mega-produção de contornos épicos. Era Uma Vez no Oeste é a história de três homens com destinos diferentes, mas todos interligados. São eles Harmonica (Charles Bronson), Frank (Henry Fonda) e Cheyenne (Jason Robards). A eles juntam-se ainda uma mulher, a bela Jill McBain (Claudia Cardinale), que muitas vezes vai ser o ponto de charneira entre os três. O motivo desta demanda vai ser, como não podia deixar de ser, o ouro e os dólares; mas Leone inova, ao aplicar nesta saga a figura feminina, introduzindo o amor nas suas aventuras, coisa que ficava sempre de fora nos seus títulos com o Homem Sem Nome. Mas mesmo o amor de Leone é um amor "sujo": vingança, traição e violação são o Pai Nosso de cada dia. Era Uma Vez no Oeste é ainda um filme mais maduro quando comparado com a trilogia dos dólares, onde encontramos um realizador mais seguro e confiante. Mas não é que este seja um filme diferente, já que há aqui várias semelhanças com os seus antecessores. Charles Bronson é um anti-herói carismático como era Clint Eastwood e cujas habilidades 67


E DIO DISSE A CAINO...

Realização: Antonio Margheriti Elenco: Klaus Kinski, Peter Carsten, Marcella Michelangeli

1970 PEDRO SOARES

Além de ser extremamente violento, E Dio Disse a Caino tem uma aura fantasmática que lhe dá um toque especial. Margheriti queria que esta fosse uma vingança épica de tons bíblicos, mas que acabou por ter um ar sobrenatural, como se Dario Argento tivesse realizado um western gótico. Para isso, contribuem dois aspectos: o tornado que chega ao mesmo tempo à cidade e que o ajuda a aparecer e desaparecer com se fosse um fantasma; e toda uma série de artifícios quase mágicos, como os sinos da igreja que tocam em momentos-chave ou o final numa sala de espelhos, muito Enter the Dragon.

Para quem gosta de western spaghettis, E Dio Disse a Caino não é um título desconhecido. É antes um daqueles que os maluquinhos do género gostam de eleger como o mais violento de todos. Para os outros, é um filme a descobrir como um dos mais singulares do género. Consta que é um plágio de A Stranger in Paso Bravo, o que justifica o facto de o realizador Antonio Margheriti o ter renegado. Esta é a história de vingança de um pistoleiro condenado injustamente a perpétua. Conhecemo-lo no exacto momento em que um indulto presidencial o deixa novamente um homem livre e percebemos pelo seu olhar que agora é payback time. Ele é Gary Hamilton, ou seja, Klaus Kinski, com os seus olhos de boga. E é a ele que vamos seguir, deixando para trás um rasto de corpos mortos, até chegar ao homem que o incriminou e lhe roubou a mulher.

Mas nem tudo são rosas. Margheriti atrapalha-se várias vezes com o tom minimalista, a banda-sonora tenta sem sucesso emular os blaxploitation e falta-lhe dar mais força ao vilão. Isso não implica que E Dio Disse a Caino não seja um dos mais subvalorizados western spaghetties e aquele que mais precisava dum remake.

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DJANGO

Título nacional: Django Realização: Sergio Corbucci Elenco: Franco Nero, José Canalejas, José Bódalo

1966 HÉLDER ALMEIDA

Nos anos 60, o cinema italiano dedicou-se bastante ao Western, criando um sub-género, o Spaghetti Western, que ganhou imensos fãs pelo mundo fora e onde temos ainda a oportunidade de encontrar verdadeiros clássicos dos chamados “filmes de cowboys”. Um dos grandes mestres do Spaghetti Western é o realizador Sergio Corbucci, autor de várias obras do género, sendo este Django um dos mais conhecidos da sua filmografia.

consequências que colocarão a sua vida em risco. Django foi considerado um dos filmes mais violentos do género, onde Corbucci consegue um dos seus trabalhos mais admirados, sempre com um excelente ritmo. Franco Nero é o mítico Django, num trabalho imitado por muitos mas igualado por nenhum. Com o sucesso de Django, o cinema italiano decidiu usar a personagem inúmeras vezes nos anos seguintes, sempre com actores diferentes e sem o envolvimento de Corbucci. Após anos de várias sequelas não oficiais, Nero regressa à personagem no ano de 1987 em Django 2: Il Grande Ritorno. Anos mais tarde, tem uma pequena participação em Django Libertado, de Quentin Tarantino. Um verdadeiro clássico do Spaghetti Western, vindo de um dos mestres do género.

Com o intuito de aproveitar o sucesso de Por um Punhado de Dólares, do lendário Sergio Leone, Django parte da mesma inspiração de Leone, Yojimbo, um clássico de Akira Kurosawa, partilhando assim vários pontos similares: um desconhecido que se coloca no meio de uma guerra e, para servir os seus propósitos, decide ajudar ambos os lados inimigos, sempre de forma secreta. Como será de esperar, e tendo em conta que os Westerns retratam tempos duros e de pouca misericórdia, o plano irá ter

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LO CHIAMAVANO TRINITÀ

Título nacional: Trinitá - Cowboy Insolente Realização: Enzo Barboni Elenco: Terence Hill, Bud Spencer, Steffen Zacharias

1970 HÉLDER ALMEIDA

Trinitá é uma obra divertida e bastante competente que, mesmo deixando o sangue e as doses de violência de lado, consegue ser uma excelente adição ao género. Hill e Spencer têm uma química fabulosa, conseguindo momentos hilariantes e memoráveis, numa obra que se tornaria num dos clássicos absolutos da comédia italiana, bem como um dos seus exemplos mais populares. O seu sucesso deu origem a uma sequela, Continuam a Chamar-me Trinitá, estreada em 1971, e que traz de volta a dupla de actores e o realizador. Anos mais tarde, Clucher voltaria à saga, desta vez com uma sequela centrada nos filhos de Trinitá e Bambino.

Trinitá é um homem preguiçoso que se dirige para a cidade onde o seu meio-irmão, Bambino, se encontra como xerife. Quando um grupo de criminosos surge na pequena cidade e ameaça os agricultores locais, os dois irmãos têm de colocar as suas diferenças de lado e unirem-se para ajudar. Numa altura em que o Spaghetti Western era bastante popular em Itália e um pouco por todo o mundo, num tom sério e violento, o realizador Enzo Barboni (ou E.B. Clucher) decide dar ao mundo uma variação diferente do popular género, dando-lhe um toque mais ligeiro, criando assim um Spaghetti Western que serve de comédia. Para tal, traz dois nomes conhecidos da comédia italiana: Terence Hill e Bud Spencer, que formariam, a partir daqui, uma das duplas cómicas mais populares de sempre, com mais de 10 filmes juntos.

Um dos Spaghetti Westerns mais populares de sempre, Trinitá continua a ser recordado como um exemplo do melhor que a comédia italiana tem para oferecer, com inúmeros fãs espalhados pelo mundo. Um deles é Quentin Tarantino, que usou o tema de Trinitá no seu Django Libertado.

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IL GRANDE SILENZIO

Título nacional: O Grande Silêncio Realização: Sergio Corbucci Elenco: Jean-Louis Trintignant, Klaus Kinski, Frank Wolff

1968 JOÃO PAULO COSTA

Se é verdade que Django (1966) se tornou no mais popular dos filmes de Sergio Corbucci, apetece-nos dizer que O Grande Silêncio é o seu trabalho mais conseguido, e curiosamente terá tido até uma influência maior em Tarantino e no seu Django Libertado do que o primeiro. Com os seus temas de abuso de poder e conflitos sociais e raciais, este é também um dos mais sombrios western spaghetti alguma vez produzidos, pelo menos na sua versão original, uma vez que na época Corbucci foi obrigado a rodar um “final feliz” que deitava por terra os seus intentos iniciais.

Aparentemente desenvolvido por Corbucci como uma espécie de alegoria política em reacção às mortes de carismáticas figuras populares, de JFK a Malcolm X, passando por 'Che' Guevara, o filme mergulha as paisagens cobertas pela neve, e a música de Ennio Morricone numa crueza excitante, oferecendo-nos cenas empolgantes de tiroteios e saques rápidos de pistolas, ao mesmo tempo que nos lembra constantemente de que naquele cenário não há lugar para grandes heróis, e a sobrevivência se sobrepõe a qualquer outra coisa. Ao contrário de muitos títulos do género, O Grande Silêncio deixa o espectador em estado pensativo enquanto rolam os créditos finais, e nunca vende a sua acção de forma gratuita, mas sempre com uma finalidade bastante específica.

Passado durante as grandes tempestades que atingiram o Sul dos Estados Unidos em 1899, O Grande Silêncio apresenta-nos um caçador de recompensas mudo conhecido como Silêncio (Trintignant), que apenas atira a matar em situações de auto-defesa, ao contrário de Loco (Kinski), que dispara sobre qualquer homem que lhe dê direito a uma recompensa.

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EASTERNS

São um dos símbolos mais conhecidos da cultura norte-americana; reconhecemo-los facilmente pela roupa dos personagens, os revólveres e os cavalos. Falamos, obviamente, dos westerns. Ao contrário do que se pode pensar, os westerns não se limitam ao universo cinematográfico; esta expressão artística estende-se a outros campos, da literatura à pintura. No entanto, os seus temas são sempre comuns. Normalmente, são aventuras moralistas no Oeste Selvagem, que decorrem no último terço do século XIX e que abordam a conquista do selvagem e a subordinação da Natureza em nome do progresso e da civilização. Alguns elementos são, inclusive, presença constante como símbolo do progresso: o telégrafo, a imprensa e o caminho-de-ferro.

OS WESTERNS DE LESTE PEDRO SOARES

"Os únicos índios bons que já vi estavam mortos" General Philip Sheridan

Os westerns jogam ainda com outra temática forte; a criação da nação, o que não deixa de estar intrinsicamente implicada à tal transformação do selvagem em jardim. Neste caso, os Índios - sempre representados como uma personagem colectiva - perdem o seu direito sobre as terras, uma vez que a razão moral daqueles que cultivam as terras é mais elevada que a dos Índios. Estes, representados enquanto selvagens e bárbaros, devem perecer, uma vez que são uma ameaça aos colonizadores e, simultaneamente, um obstáculo ao progresso. É a razão acima da lei, outra característica dos westerns que aborda regularmente a temática dos laços de sangue como código de honra.

Originalmente publicado no catálogo do Festróia 2006

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John Wayne, um dos maiores vultos do western norte-americano, afirmou em entrevista, em 1971, que a morte dos Índios foi um mal necessário, uma vez que estes estavam a ser egoístas perante pessoas que necessitavam de terras. Darwin viria a resumir esta temática numa única premissa: progresso, genocídio e lucro.

Desde muito cedo que os livros de Karl May começaram a ser usados com fins políticos. Mesmo não sendo as favoritas de Hitler, as histórias do Oeste Selvagem de May foram usadas durante o Terceiro Reich como progaganda nazi; apesar de não escaparem à censura - as referências ao Cristianismo, por exemplo, eram omitidas - as aventuras e Karl May estimulavam o culto ao Fuhrer, a estratégia militar e a teoria racial.

Geralmente, os indícios históricos apontam o ano de 1883 como a génese do western, com a estreia das primeiras peças de teatro dedicadas ao género. No entanto, ao contrário do que é tido como lugar comum, já muitos anos antes um não-americano andava a escrever sobre aventuras no Oeste Selvagem. Esse homem era o alemão Karl May, que já escrevia westerns desde 1876 e que, para além de ter influenciado fortemente o género norte-americano, foi ainda o principal responsável peo posterior advento do género indianerfilm, ou seja, os westerns de leste. Ou easterns.

Depois, quando a Guerra Fria se instalou no Mundo e a Alemanha de Leste tentou banir a influência ocidental, que considerava prejudicial ao seu idealismo, as obras de May foram adaptadas ao cinema, fazendo valer os seus valores: o patriotismo, os valores cristãos, o antimaterialismo, o anti-capitalismo e o respeito pela Natureza. Nasciam assim os indianerfilm, um novo género cinematográfico que revisitava os westerns norte-americanos e os adaptava a um outro idealismo. Foi no final da década de 60 que a Alemanha de Leste começou a sentirse ameaçada, primeiro pelo cinema de Hollywood, e depois pelo de Itália e o da República Federal Alemã. Os jovens alemães queriam entretenimento e a Alemanha de Leste, mesmo depois da construção do Muro de Berlim, em 1961, não conseguia banir a influência do cinema ocidental - em 1962, quando a RFA estreou o western Der Schatz Im Silbersee, as romarias de jovens até Praga para assitir ao filme sucederam-se.

"Os filmes devem ser uma afiada e poderosa arma... de entretenimento para todas as pessoas do Mundo". Coronel Tulpanov

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A DEFA - Deutsche Film-Aktiengesellschaft -, os estúdios de cinema da RDA, decidiu então realizar os seus próprios filmes e entre 1965 e 1982 assinou doze westerns, adaptados das aventuras de Karl May e sempre com o actor jugoslavo Gojko Mitic como protagonista. Após alguma desconfiança inicial, estes westerns de Leste transformaramse num sucesso no país e durante uma década foi o género com mais espectadores nas salas, até que a temática começou a esgotar.

Leste não deixavam de ser adulterados com a intenção de cumprir os seus próprios objectivos políticos. Estes eram adaptações mais ácidas das histórias de Karl May, levando ao extremo alguns factores sociais, de exploração e anti-capitalismo: ao contrário dos livros, nos filmes não haviam Índios maus, apenas os corrompidos pelos Brancos; também não havia qualquer possibilidade de casamentos inter-raciais; e os finais eram sempre deixados em aberto, qual mensagem política de que a luta continua.

Os indianerfilm, apesar da intenção clara de proporcionarem entretenimento sonoro e visual, utilizando as paisagens da Jugoslávia, da Crimeia, do Uzebequistão , da Mongólia ou de Cuba para reproduzir as da América do Norte, mantinham um objectivo implícito - uma intenção política e, simultaneamente, pedagógica. Estes westerns eram um contra-ataque aos westerns ocidentais, impregnados de ideais imperialistas; a intenção era transmitir um ponto de vista histórico fidedigno, onde as estórias são contadas do ponto de vista dos próprios Índios, longe da representação colectiva e resignada ao destino infeliz que os esperava. Os objectivos eram claros: não mostrar os índios como uma raça inferior e não vulgarizar a morte e o assassinato. Em suma, era a desconstrução da equação dos westerns norte-americanos: os Índios eram os bons e os cowboys eram os maus. Apesar de serem aventuras historicamente mais fiéis, os westerns de

Os indianerfilm são assim interpretações marxistas dos Estados Unidos - filmes declaradamente anti-americanos, em que os alemães se identificavam com os Índios e a sua luta contra a burguesia capitalista do Ocidente, como uma espécie de comunistas primitivos. A DEFA utiliza ainda nos seus filmes, constantemente, a expressão alemã atribuída ao Holocausto, “passado não resolvido”, que atribuída à América não era mais do que uma crítica mordaz. O fascínio dos alemães pelos nativos norte-americanos e a identificação que encontravam neles, aliado à mensagem política consoante o socialismo-realismo e os seus heróis exemplares, transformaram os westerns de Leste durante quase duas décadas; e viriam ainda a antecipar a contra-cultura norte-americana. 74


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WESTERN

O VELHINHO MODERNO JOÃO BIZARRO

Por mais do que uma vez, o Western foi considerado um género ultrapassado ou mesmo guardado num qualquer baú de um sótão cheio de pó e teias de aranha. A verdade, porém, é que depois dos seus gloriosos anos soube sempre revitalizar-se e reinventar-se ao longo das décadas.


Julgo não existir uma data específica para se começar a falar de Western Moderno pelo que vou começar pela década de 90. É um facto que nos anos 80 houve As Portas do Céu, de Michael Cimino (1980), mas este filme, pelo seu fracasso (levando inclusivamente produtoras à falência) dá uma facada no género, afastando os grandes estúdios de apostarem numa boa coboiada. É verdade que os anos 80 ainda se redimem com Justiceiro Solitário, de Clint Eastwood (1985) e Silverado, Lawrence Kasdan (1985) lá pelo meio, mas é mesmo nos anos 90 que o género ganha um novo alento.

como aquele que revitalizou o western e levou os estúdios a não temerem apostar no género. E a verdade é que apenas 2 anos depois um novo western sairia triunfante da noite dos Óscares. Imperdoável (1992) deu a Clint Eastwood o Óscar de Melhor Filme e de Melhor Realizador e a Gene Hackman o Óscar de Melhor Actor Secundário. Haveria um quarto Óscar para a Edição, neste filme que fala de um velho assassino (o próprio Eastwood), já aposentado mas que aceita um último trabalho: matar os cowboys que desfiguraram uma prostituta. O problema é que esses cowboys têm a proteção do implacável xerife local (Gene Hackman). O filme conta ainda com Morgan Freeman e Richard Harris em papéis secundários e mostra um Eastwood a fazer muito bem um trabalho que aprendeu com Don Siegel e Sergio Leone. Estes foram os westerns mais importantes da década de 90, embora durante esse período outros de alguma relevância tenham sido produzidos. O 3º episódio da saga Regresso ao Futuro (1990) mostra-nos Marty McFly e Doc Brown de regresso à época dos cowboys para salvar um amigo. A Vida, o Amor... e as Vacas (1991), de Ron Underwood, um western contemporâneo, daria o Óscar de Melhor Secundário a Jack Palance. Horizonte Longínquo (1992), Ron Howard; O Último dos Moicanos

E começa logo em 1990 com Danças com Lobos, de Kevin Costner, que ainda jovem entrou em Silverado (1985) e deve ter achado que o género tinha pernas para andar e fazer algo de épico podia ser o passo seguinte. E querem algo melhor para um género que tinha sido abalado na década anterior que um filme que ganha 7 Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador? O épico de Costner narra a história de um tenente do exército americano que ao ser enviado para o distante posto fronteiriço acaba por fazer amizade com os índios, o que lhe traz problemas com os próprios camaradas de armas. Com uma excelente fotografia de Dean Semler (que também receberia a estatueta de Hollywood), o filme tem grande parte dos diálogos na linguagem lakota (usada pelas tribos sioux) e não deixou ninguém indiferente, sendo ainda hoje considerado 78


(1992), Michael Mann; El Mariachi (1992), Desperado (1995) e Aberto Até de Madrugada (1996), todos de Robert Rodriguez são igualmente bons exemplos, já dentro de subgéneros do western. E houve, claro, os filmes de Walter Hill, um realizador que sempre teve uma grande paixão pelo género. Já na década de 80 tinha realizado dois filmes: O Bando de Jesse James (1980), uma curiosa incursão ao bando de Jesse James, pelo facto de os irmãos do bando serem interpretados por irmãos na vida real (os irmãos Carradine interpretaram os irmãos Younger, Stacy e James Keach interpretaram Frank e Jesse James e Dennis e Randy Quaid representaram os irmãos Miller) e A Fronteira do Perigo (1987). Na década de 90 não perdeu o ritmo e apareceu nos créditos de três filmes: Jerónimo – Uma Lenda Americana (1993); Wild Bill (1995) e O Último a Cair (1996), este a transportar Yojimbo, o Invencível (1961), de Akira Kurosawa, para a altura da Lei Seca nos Estados Unidos. Ainda nos anos 90 outros filmes despertaram a curiosidade dos cinéfilos. Tombstone (1993), de George Pan Cosmatos, era uma nova incursão ao universo OK Corral mas bem mais violento e sangrento, num filme com um elenco de luxo (Kurt Russel, Val Kilmer, Sam Elliott, Bill Paxton, Charlton Heston, Paula Malcolmson, Billy Bob Thornton, entre outros); Rápida e Mortal (1995), com um habitué de filmes de terror (Sam Raimi) a experimentar outro género e Sharon Stone, Gene Hackman, um ainda desconhecido Russel Crowe e um Leonardo DiCaprio acabado de fazer 20

aninhos nos principais papéis; Homem Morto (1995), de Jim Jarmusch, um western psicadélico, totalmente filmado a preto e branco, com Johnny Depp como protagonista e Robert Michum a fazer o seu último papel no cinema. Na década de 2000 o género típicamente americano ainda se expandiu mais a outros universos e países. Por exemplo, da Austrália surgiram alguns filmes que são autênticos westerns: Ned Kelly (2003), com um Heath Ledger de volta ao seu país de origem depois de já ter feito algumas coisas nos Estados Unidos, ou Escolha Mortal (2005), de John Hillcoat, com argumento do músico Nick Cave. Mas foram os westerns contemporâneos que mais brilharam nesta primeira década do século XXI. Haverá Sangue (2007), de Paul Thomas Anderson, onde Daniel Day Lewis brilhava e a corrida ao ouro era substituída pela corrida ao petróleo. Este País Não é para Velhos (2007), dos irmãos Coen, baseado na obra homónima de Cormac McCarthy; Os Três Enterros de um Homem (2005), de Tommy Lee Jones; e claro, O Segredo de Brokeback Mountain (2005), filme polémico de Ang Lee que fala da relação homossexual entre dois cowboys na atualidade; Também o western clássico foi revisitado com alguma qualidade em filmes como O Assassinato de Jesse James pelo cobarde Robert Ford (2007), de Andrew Dominik, com Brad Pitt e Casey Affleck como 79


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protagonistas; Open Range – A Céu Aberto (2004), novamente Kevin Costner; Appaloosa (2008), de Ed Harris e o remake O Combóio das 3 e 10 (2007), de James Mangold. Os anos 00 até nos trouxeram samurai westerns (Sukiyaki Western Django, de Takashi Miike) e space westerns (Serenity, com Joss Whedon a transportar para o cinema a sua série de TV Firefly).

western clássico (O Atalho, de Kelly Reichardt); um western dinamarquês (The Salvation, com Mads Mikkelsen como protagonista) e mais westerns sci-fi (Cowboys & Aliens), de animação (Rango) e o regresso de personagens que começaram na rádio, nos anos 30 (O Mascarilha, de Gore Verbinski, com Johnny Depp). 2016 começa com o regresso de Quentin Tarantino ao género com Os Oito Odiados. Seguramente um tiro certeiro, permitindo-nos afirmar que, quanto a westerns, continuamos muito bem servidos.

Esta década em que nos encontramos começou, como a de 90, com um western nomeado para os principais prémios do cinema. E se isso nem sempre significa qualidade, traz ao género mais reconhecimento. Só que neste caso a qualidade está lá toda e embora Indomável, dos irmãos Coen, não tenha recebido um único dos 10 Óscares para que estava nomeado, é uma grandiosa adaptação da obra de Charles Portis, que já tinha sido transportada ao cinema em 1969, na altura com John Wayne no papel que agora coube a Jeff Bridges interpretar com a qualidade que se lhe reconhece. Em 2012 Quentin Tarantino resolveu homenagear definitivamente um género que tanto aprecia e com que já tinha polvilhado alguns dos seus anteriores filmes. Refiro-me ao western spaghetti e o filme foi Django Libertado que recriava a famosa personagem criada em 1966 por Sergio Corbucci e Franco Nero. Mas a primeira metade da década trouxe outras boas produções: um 81


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UNFORGIVEN

Título nacional: Imperdoável Realização: Clint Eastwood Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman

1992 FILIPE LOPES

A história do velho pistoleiro que abandonou a vida do crime e das mortes não era propriamente, em 1992, uma história nova no western. A bem dizer, Imperdoável não tem propriamente algo que se possa considerar novo na abordagem ao género. Nem a contratação de pistoleiros a soldo que matem por uma recompensa, nem a existência de um xerife duro e transgressor de regras, nem mesmo a história do novo pistoleiro fanfarrão que quer ser uma lenda no morticínio. Mas, então, de onde vem a sensação de frescura e de actualidade deste filme? Desde logo, das personagens. Todas rigorosamente bem construídas e com substância, cheias de áreas cinzentas e não apenas a preto e branco, que é uma forma de dizer “não apenas boas ou más”. Se virmos bem, praticamente não existem personagens que tenham só uma dessas dimensões, sendo antes boas ou más consoante os momentos, como todos nós somos. Associados indelevelmente às personagens estão, claro, os actores. Todos magníficos. A começar por um Clint Eastwood maravilhoso como William Munny, hoje um pistoleiro envelhecido e entorpecido no uso das armas, transformado em agricultor por obra e graça de uma mulher que dez anos antes o redimensionou para a vida e que a varíola ceifou há três, mas cujo amor não se esgotou com a sua morte. Um assassino que rejeita o passado de alcoolismo e mortandade, que abandonou mas que não renega e que retoma se as circunstâncias o obrigarem a isso. Depois um tranquilo Morgan Freeman como Ned Logan, parceiro ancestral de Munny, agora casado com uma índia e também agricultor a viver isolado do mundo numa pequena casa de madeira. Um homem que nunca foi tão mau e irado como o amigo e que, embora sinta falta do conforto que o dinheiro lhe possa trazer, é hoje uma pessoa cuja consciência tornou incapaz de fazer mal a quem quer que seja. De seguida um extraordinário Gene Hackman como Little Bill Daggett, um xerife duro, por vezes cruel, mas outras demasiado brando (como na decisão que dá origem a toda a história), que tem um sentido de justiça ambíguo mas que consegue ser tão exacerbado ao ponto de não olhar a regras e a meios para atingir os

fins, o que faz dele uma espécie de pistoleiro desregrado, protegido com a estrela da lei. Há ainda um brilhante Jaimz Woolvett como The Schofield Kid, um aprendiz de pistoleiro cheio de bazófia, que se gaba de ter já assassinado cinco pessoas, mas que quando faz aquela que é realmente a sua primeira vítima, percebe que houve parte de si que morreu também e chora com o desconsolo de quem tem a consciência que afirmava não ter. Não nos podemos esquecer do notável Saul Rubinek como W. W. Beauchamp, um escritor que persegue a história de uma vida: a dos pistoleiros, dos duros, dos assassinos e dos protagonistas de relatos cheios de façanhas, de coragem e de morte no velho oeste americano. Temos ainda Anthony James, muito bem como Skinny, o dono do bordel que trata as prostitutas como propriedade sua e, finalmente, as duas meninas da vida que dão origem a toda a narrativa – a bela Delilah, que o vê o seu rosto ser desfigurado por um cliente raivoso, mas que acaba por ser a personagem mais doce do filme (belíssima interpretação de Anna Thomson) e a determinada Alice (excelente desempenho de Frances Fisher), responsável da ideia de oferecer uma recompensa de mil dólares a quem matar o referido cliente. Mas a qualidade de Imperdoável não se esgota nas personagens e nos actores. A história é simples, mas intensa – uma espécie de busca pela redenção mesmo quando esta já não é possível –, a realização é sóbria e sensível ao nível do melhor Eastwood, a fotografia de Jack N. Green é magistral, a música de Lennie Niehaus é soberba e a montagem de Joel Fox é como que a cola que une tudo isto com equilíbrio. O equilíbrio das obras-primas.

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THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD

Título nacional: O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford Realização: Andrew Dominik Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Rockwell

2007 SARA GALVÃO

2007 foi um óptimo ano para o western. Com Este País Não É Para Velhos e Haverá Sangue a disputarem cerradamente todos os prémios do ano, o filme do praticamente novato Andrew Dominik, O Assassínio de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford, baseado no livro homónimo de 1983 de Ron Hansen, passou, infelizmente, despercebido a muita gente, e permanece debaixo do radar. Bob Ford (Casey Affleck) sempre tinha tido uma obsessão pelo gang dos James desde que era criança até aos seus presentes 19 anos, e quando o irmão Charley (Sam Rockwell) se juntou aos bandidos, Bob não perdeu a oportunidade de conhecer de perto o seu grande herói, Jesse James (Brad Pitt). Mas a vida de crime não tinha tanto glamour como Bob esperava, e ao ser constantemente gozado pelo próprio Jesse às custas do seu amor incondicional, Bob decide atraiçoar o ídolo e conquistar a sua própria fama ao matar o homem mais famoso de sempre. Só que ao contrário do que esperava, todos se juntaram para lembrar Jesse e odiar o cobarde traidor Robert Ford... Formal e narrativamente, são óbvias as influências de Terence Malick, no-meadamente Dias do Paraíso, no estilo de Dominik. A narração quase monocórdica sob imagens de paisagens belas e desoladas e o ritmo lento (existe uma versão do filme que dura 4 horas, e que foi mostrada no festival de Veneza) causaram dissabo-res na pós-produção entre o realizador e o estúdio da Warner Brothers. Contudo, após vários visionamentos teste feitos pelos co-produtores Ridley Scott e Brad Pitt, a Warner decidiu escolher a versão de Dominik, numa versão “curta” de 2 horas e 40 minutos. Contudo, apesar da longa duração, o filme consegue ser cativante, muito devido aos jogos de tensão que se desenrolam no ecrã (onde a violência é escassa, crassa e antecedida de crescendos insuportáveis) e ao carisma dos actores. Casey Affleck, que conseguiu o papel de Bob Ford contra Shia LeBouf, é a verdadeira reve-lação deste filme. O retrato e a personalidade com que impregna uma personagem histórica da maior complexidade - que caminha numa linha ténue entre a

paixoneta juvenil e a obsessão psicopata - são dos grandes pontes fortes do filme, o que causa ainda mais admiração pela arte de Dominik de não deixar Affleck se sobrepor a Brad Pitt como Jesse James, a personagem principal por excelência, cujo carisma deveria ser incontestável em todos os momentos, um mito feito carne. Jesse é o Sol à volta do qual gira o mercurial Ford, e apesar dos outros actores, nomeadamente Sam Rockwell e Paul Schneider, irem além da mediana nos seus papéis, são mais do que ofuscados pelos dois actores, que se olham e avaliam numa dança de morte fatal para ambos. Merecidamente nomeada para um Óscar, a cinematografia de Roger Deakins é outro dos elementos fortes do filme. A delicadeza e subtileza de Deakins (opondo-se a outros directores de fotografia que gostam de imagens que gritem Cinematografia!! a todo e qualquer momento) revelase nas composições cuidadas, na paleta de cores, nas lentes que utiliza para distorcer a imagem nas sequências poéticas (a imitar as câmaras da época), e na precisão com que a acção é capturada. A icónica cena do comboio que chega em absoluta escuridão é pura pornografia técnica e estilística, e Deakins tem-na como um dos melhores momentos da sua carreira. Tudo isto pontuado pela fantasmagórica banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis, composta antes mesmo do filme ser filmado. Um filme que faz jus ao “Nunca conheças os teus ídolos”, e mostra como o assassinato pode ser a forma mais sincera de lisonja (ou o supremo acto do amor desesperado), O Assassinio de Jesse James... é, no fim de tudo, a história de um ingénuo que se deixou manipular por um homem paranóico, depressivo e suicida, para o ajudar a permanecer uma Lenda. Porque dos fracos não reza a história, e dos cobardes ninguém se lembra.

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SLOW WEST

Título nacional: A Caminho do Oeste Realização: John Maclean Elenco: Michael Fassbender, Kodi Smit-McPhee, Caren Pistorius

2015 SARA GALVÃO

outros westerns, talvez ande por aqui um cheirinho de Jarmush e Homem Morto... talvez.

A primeira longa-metragem de John Maclean é um western clássico com toques de humor do mais negro que há. Um rapaz sem pelo na barba (Kodi Smit-McPhee) re-solve deixar a Escócia para trás e ir para os Estados Unidos salvar uma moçoila (Caren Pistorius) que não precisa de todo de ser salva, ajudado por Silas (Michael Fassbender), um homem misterioso de moralidade duvidosa, gatilho rápido e uma fixação oral. Estes três actores, cheios de carisma e brilhantemente dirigidos, partilham o ecrã com uma Nova Zelândia luxuriante, que é claramente o cenário perfeito para um duelo de pistolas, capturado em toda a sua magnificência pela câmara do cinematógrafo Robbie Ryan.

Apesar do ritmo lento inicial (que acelera vertiginosamente assim que os primeiros tiros são disparados), A Caminho do Oeste (quiçá uma melhor tradução que Oeste Lento) fala de emigrantes, violência, a arte da barbearia tradicional, amor interracial, o perigo que são mulheres com uma espingarda e boa pontaria, e a idiotice que é espetarmo-nos num barco para o outro lado do mundo por amor, sem termos a cer-teza de ser correspondidos. Uma história com finalidade moral e instrutiva, portanto. Tudo o resto é acidental.

Tudo no filme é feito de acções, não palavras, num drama ironicamente cómico cheio de lirismo. Smit-McPhee funciona como um Buster Keaton perdido num filme de Sam Peckinpah, enquanto Fassbender encarna o seu melhor Clint Eastwood. E para acabar as referências gratuitas a

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DJANGO UNCHAINED

Título nacional: Django Libertado Realização: Quentin Tarantino Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio

2012 JOÃO PAULO COSTA

Depois de diversas piscadelas de olho ao género nos seus filmes anteriores (especialmente em Kill Bill e Sacanas Sem Lei), Quentin Tarantino assumiu definitivamente o western com Django Libertado, construindo um épico de quase três horas de duração sobre um escravo negro do sul (Foxx) que se tornou num caçador de recompensas no período pré-Guerra Civil.

um divertidíssimo filme de acção e vingança mas também um sério olhar para o passado esclavagista dos Estados Unidos da América. Tal como Sacanas Sem Lei era uma espécie de libertação dos judeus da opressão nazi, Django Libertado é-o em relação aos escravos e ao homem branco, e a verdade é que tem muito mais a dizer sobre o tema do que inúmeros trabalhos de prestígio e “bem comportados” que foram sendo lançados nos últimos anos. E é também, simultaneamente, um empolgante western e um típico Tarantino, com diálogos deliciosos prolongados em longas cenas de conversa, tensão a rodos, violência em grande escala e interpretações excelentes.

Fiel ao seu estilo, Tarantino espalhou no filme uma série de referências aos velhos westerns, do clássico ao spaghetti, e com elas construiu algo de único e original. Com uma narrativa essencialmente dividida em duas partes – a primeira, em que Django é libertado por um bem-falante e mortífero dentista alemão (Waltz), e ambos unem esforços e se tornam numa mortifera dupla de caçadores de recompensas, e a segunda, em que partem para libertar a mulher de Django, escravizada pelo dono de uma plantação sulista (DiCaprio) – Django Libertado é ao mesmo tempo

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THE PROPOSITION

Título nacional: Escolha Mortal Realização: John Hillcoat Elenco: Ray Winstone, Guy Pearce, Emily Watson

2005 PEDRO SOARES

Ouvimos dizer várias vezes que o western está moribundo. E depois, de quando em vez, lá surgem títulos que nos vêm provar o contrário, do Unforgiven ao Django Libertado, e outros que ainda têm o desplante de redefinir o género. The Proposition, que chegou do outro lado do mundo (ou seja, da Austrália), é um desses casos. Existem os sinais tradicionais do western - as planícies australianas em vez dos desfiladeiros americanos, oa civilização que impõe o progresso aos aborígenes... - e existe depois todo um cinema novo, com planos simbólicos e poéticos e a banda-sonora de Nick Cave (que também assin o argumento) que fazem dele um requiem.

sobre a família e o valor desta. Depois há também resquícios da sujidade dos spaghetties (pó, muito pó por todo o lado, tanto que por vezes até sentimos a garganta a arranhar) e da agrura de Sam Peckinpah por todos os lados. E, mesmo assim, The Preposition consegue ser um dos mais belos westerns de sempre. 



O filme é história de três irmãos procurados pela justiça, em que o do meio recebe uma proposta do obcecado xerife: se matar o seu irmãos mais velho é absolvido; se não o fizer, o mais novo é enforcado. Por isso, mais do que uma caça ao homem, The Proposition é um drama pessoal

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FAH TALAI JONE

Título nacional: As Lágrimas do Tigre Negro Realização: Wisit Sasanatieng Elenco: Chartchai Ngamsan, Stella Malucchi, Supakorn Kitsuwon

1980 DIANA MARTINS

Para quem pensa que já viu tudo no mundo dos filmes de caubois, sejam eles westerns homossexuais ou westerns com anões, então desenganemse. Falta-vos ainda ver As Lágrimas do Tigre Negro, o primeiro e único western tailandês. É uma homenagem aos clássicos de John Ford, em que as paisagens majestosas do Oeste americano são substituídas por cenários pintados à mão em papel-crepe, como um technicolor avariado, e uma homenagem aos western spaghetti, com a sua violência mais gráfica, filtrada pelo olhar oriental.

desventuras da vida transformaram-no num anti-herói ao serviço do mafioso Fai, o que faz com que seja muito mais difícil a sua relação com a filha do governador e noiva do chefe de polícia local. Esta tragédia romântica, que recua em flashback até à infância do par apaixonado e se desenvolve até à actualidade, envolve ainda honra e muita traição, desconstruindo os cliches dos westerns clássicos e, principalmente, das telenovelas venezuelanas. Pode parecer mentira, mas existem momentos verdadeiramente intensos e cenas memoráveis, como um fantástico duelo sob um pôr-do-sol majestoso pintado em papel-crepe. Quando por vezes duvidamos do valor do cinema e pensamos que já tudo foi feito ou inventado, aparecem-nos estes ovnis cinematográficos, vindos de onde menos se espera, como quem nos diz querem ideias novas? então tomem lá uma soap-opera-martial-artskitsch-western.

Há um certo carácter kitsch no filme, mas o conteúdo é igualmente apelativo, numa tragédia de faca e alguidar que readapta pela enésima vez o Romeu e Julieta. Dum, mais conhecido como o Tigre Negro, é uma fusão da rapidez de Lucky Luke com o estilo de Desperado e a capacidade musical de Charles Bronson em Aconteceu no Oeste. As

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TRUE GRIT

3:10 TO YUMA

HÉLDER ALMEIDA

HÉLDER ALMEIDA

Depois do seu pai ser morto por Tom Chaney, uma rapariga de 14 anos decide contratar Cogburn, um homem da lei resmungão e bêbado, para encontrar e matar o assassino. Este é o ponto de partida para Indomável, escrito e realizado pelos Irmãos Coen e que é a segunda adaptação cinematográfica da novela True Grit, escrita por Charles Portis. Jeff Bridges é o protagonista, na personagem antes interpretada pelo lendário John Wayne, e é acompanhado por um elenco de luxo: a jovem e talentosa Hailee Stenfeld, Matt Damon e Josh Brolin. Os Irmãos Coen trazem-nos um Western raro para os dias de hoje, um filme à antiga que consegue ainda misturar o típico humor negro da dupla de cineastas, num argumento bem escrito e servido por actores de renome e em grande forma.

Um pobre cowboy ganha como missão escoltar um perigoso criminoso até à justiça, de forma a poder ganhar a sua recompensa. Baseado no pequeno conto da autoria de Elmore Leonard, O Comboio das 3 e 10 é um remake do filme com o mesmo nome estreado em 1957. Nesta nova versão, encontramos James Mangold (Cop Land – Zona Exclusiva) na realização e temos um elenco liderado por dois actores de peso: Christian Bale e Russell Crowe. Mangold assina aqui um Western à antiga, apesar de tentar dar um toque mais moderno à obra. O resultado é um filme bastante competente, que em nada desrespeita o género, especialmente numa altura em que o Western se encontra menos popular do que era antigamente. Uma agradável adição à pequena lista de Westerns modernos.

Título nacional: Indomável

Título nacional: O Comboio das 3 e 10

Realização: Ethan e Joel Coen

Realização: James Mangold

Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon

Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Ben Foster

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APPALOOSA

MEEK’S CUTOFF

PEDRO SOARES

JOÃO PAULO COSTA

Curioso cruzamento entre o western de matriz clássica - sempre o carácter fundador da nação americana - e o film noir, Appaloosa é a história de um lugarejo perdido junto ao México, que contrata dois justiceiros (Ed Harris e Viggo Mortensen) com o objectivo de impôr a lei e ordem. Pelo meio há ainda Renée Zellweger, o elemento feminino que é metido à força com um pé-de-cabra.

Seguindo a linha dos seus títulos anteriores, O Atalho revela-se um exemplo fiel do estilo da sua realizadora, Kelly Reichardt, deixando a tensão crescer sobre a sua narrativa de forma lenta até se tornar absolutamente desconfortável. Quando um grupo de colonos parte em busca de terra fértil ao longo das áridas paisagens do deserto do Oregon em meados do séc. XIX, as dificuldades encontradas numa viagem que se começa a prolongar muito para além do esperado, leva-os a duvidar do seu guia, o excêntrico e carismático Stephen Meek (Greenwood), e a temer pelo seu futuro. Aproveitando de forma excelente os cenários naturais onde rodou, Reichardt oferece-nos um pequeno mas ambicioso e desafiante filme sobre um grupo de pessoas desesperadas em condições de extrema dificuldade.

Promete muito, mas um argumento baço cheio de personagens planas e muletas narrativas demasiado fáceis, levaram Ed Harris a queixar-se dos 45m que o estúdio o obrigou a cortar. Mesmo assim, é um regalo aos olhos e tem um duelo que deverá ter lugar entre os melhores da história dos westerns logo a seguir ao de O Bom, o Mau e o Vilão. Título nacional: Appaloosa

Título nacional: O Atalho

Realização: Ed Harris

Realização: Kelly Reichardt

Elenco: Ed Harris, Viggo Mortensen, Renée Zellweger

Elenco: Michelle Williams, Paul Dano, Bruce Greenwood

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DEAD MAN

ESTRADA DE PALHA

FILIPE LOPES

PEDRO SOARES

O mínimo que pode dizer-se de Homem Morto é que não é um western convencional, mas um filme à imagem de um realizador que faz as coisas como quer. Filmado com um magnífico preto e branco da responsabilidade de Robby Müller, um dos colaboradores habituais de Jarmusch (tal como de Wim Wenders), e pautado pela guitarra eléctrica de Neil Young, a história segue William Blake (Johnny Depp) antes e depois de ter morto um homem, numa viagem interior e exterior conduzida por um índio (Gary Farmer) que o vê como se o poeta com o mesmo nome tivesse encarnado nele. Homem Morto é um dos melhores filmes de Jim Jarmusch, que respira poesia a cada fotograma e nos oferece a hipótese de rever actores como Robert Mitchum e John Hurt, mas sobretudo Johnny Depp e Gary Farmer em dois papéis sensacionais.

O cinema português não tem grande tradição no que a cóboiadas diz respeito, daí que Estrada de Palha se apresente como um caso raro na cinematografia nacional. Pegando no conceito simples de um homem em jornada de vingança pela morte do seu irmão numa época muito específica da História nacional, entre o fim da Monarquia e a implantação da República, Rodrigo Areias oferece ao espectador uma viagem contemplativa e uma reflexão sobre a acção opressiva do Estado no Homem, como de forma curiosa indicam as diversas citações que surgem entre cenas. Introspectivo, com a acção reduzida ao mínimo, mas sempre interessante, com um protagonista carismático, uma fotografia muito bela e excelente banda sonora, o filme tem muitos dos ingredientes que fazem as delícias do género e merece ser descoberto.

Título nacional: Homem Morto

Título nacional: Estrada de Palha

Realização: Jim Jarmusch

Realização: Rodrigo Areias

Elenco: Johnny Depp, Gary Farmer, Crispin Glover

Elenco: Vítor Correia, Nuno Melo, Inês Mariana Moitas

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ENNIO MORRICONE ANTÓNIO PASCOALINHO

243 é o número de bandas sonoras compostas por este fantástico músico Italiano, nascido no já longínquo ano de 1928.

nas obras do seu colega e amigo Sergio Leone, mais que nas de qualquer outro. Até os Metallica tocam a música de O Bom, o Mau e o Vilão nos seus concertos. As bandas sonoras de Cinema Paraíso (excepção a Leone para este filme de Tornatore) ou Era uma vez na América são tão poderosas quanto inesquecíveis (conta-se que Morricone só não ganhou o Oscar por esta última porque o produtor não entregou a inscrição a tempo). Até para Samuel Fuller (White Dog. 1982), Polanski (Frenético, 1988) e Almodovar (Ata-me!, 1989), Morricone compôs.

Muitos dirão que as figuras do Oeste valem por si só: solitárias, implacáveis, sujas e sobreviventes. Mas nenhuma delas teria o mesmo impacto sem música. E a de Morricone foi a que melhor captou (e reproduz) o espírito daquela época selvagem. A adoração do mestre pelos sons do trompete e da guitarra clássica. A sua composição por vezes “disfuncional”, com acordes quase incompreensíveis. E mesmo a utilização de vozes femininas em background, como se de instrumentos se tratassem. Tudo isto termina numa harmonia melodiosa, em sinfonias que enriquecem o universo das imagens poeirentas e em bandas sonoras que ficam no ouvido, trauteadas por muitos mesmo sem saber que são de Morricone ou a que filme pertencem.

É de certeza um dos maiores compositores de sempre para Cinema. Devido à sua longevidade, ainda tem muitos projectos para os próximos anos. Os westerns podiam ter existido sem ele? “Poder podiam, mas não era (de certeza absoluta) a mesma coisa!”

Claro que a colaboração estreita de um compositor com o mesmo realizador facilita em muito o trabalho de ambos, já que o profundo conhecimento mútuo quase não permite surpresas (pense-se, entre muitos outros, nas parcerias Fellini/Nino Rota ou Tim Burton/Danny Elfman). E é também por isso que a música de Ennio Morricone sobressai 94


WESTERNS NA TV JOÃO BIZARRO

Desde os anos 50 do século XX até aos dias de hoje o western tem tido presença assídua na TV. De facto, na década em que o género mais se popularizou, foi a loucura nas televisões americanas, com coboiadas para todos os gostos. Os westerns eram mesmo os favoritos das audiências durante o final dos anos 40 e a década de 50 e em 1959 chegou a haver 26 séries a passar em horário nobre. As principais séries eram westerns clássicos embora houvesse algumas que misturavam o género com elementos como dramas familiares, mistério, thriller, etc. Já nos anos 2000, mais propriamente em 2002, Joss Whedon inventou o sci-fi-western com a série Firefly, que apesar da qualidade só durou uma temporada, tendo depois resultado num filme intitulado Serenity. Seguem-se alguns importantes westerns que passaram na TV.


THE LONE RANGER (1949-1957) – 221 episódios / 5 temporadas Série que deu seguimento ao programa de rádio com o mesmo título, com Clayton Moore no papel do Ranger e Jay Silverheels como o índio Tonto. Estas personagens foram-se reinventando através dos tempos e chegariam aos nossos dias com o filme de Gore Verbinski, com Johnny Depp no papel de Tonto. Passava na ABC.

GUNSMOKE (1955-1975) – 635 / 20 temporadas Outra série que veio da rádio e tinha como protagonista o Marshall Matt Dillon, interpretado na TV por James Arness. Foi a série mais longa do século XX. Atualmente ocupa o 4º lugar nesse ranking atrás de Dr. Who (1963-1989; 2005-actualidade), Taggart (1983-2010) e The Bill (19842010).

THE CISCO KID (1950-1956) – 156 episódios / 6 temporadas Cisco e Pancho eram uma espécie de Robin Hood e Little John do faroeste. Tinha Duncan Renaldo no papel principal e teve a particularidade de ter sido a primeira série a cores.

MAVERICK (1957-1962) 124 episódios / 5 temporadas James Garner era Bret Maverick, um jogador de cartas pouco escrupuloso. Ele e o seu irmão corriam o oeste americano e os barcos do Mississipi para jogar poker e acabavam sempre por se meter em encrencas. Após a 3ª temporada James Garner saiu da série e para a 4ª entrou Roger Moore, como um primo de Bret. Em 1994 estas personagens passaram ao cinema, com Mel Gibson a fazer de Maverick e James Garner a regressar como pai de Bret. Robert Altman realizou um episódio da 4ª temporada.

THE ADVENTURES OF RIN TIN TIN (1954-1959) – 164 episódios / 5 temporadas Série para os mais novos que passava na ABC e contava a história de um miúdo que tinha ficado órfão após um ataque de índios e foi criado pelos soldados da cavalaria. Ele e o seu pastor alemão Rin Tin Tin ajudavam a cavalaria a manter a ordem naquela zona. 98


WANTED: DEAD OR ALIVE (1958-1961) – 94 episódios / 3 temporadas Steve McQueen era Josh Randall, um caçador de prémios de coração mole que normalmente doava o seu dinheiro aos que mais precisavam e não tinha problemas em libertar os seus prisioneiros se eles tivessem sido erradamente acusados. Passava na CBS.

LITTLE HOUSE ON THE PRAIRIE (1974-1983) – 205 episódios / 9 temporadas Outra série bem conhecida por cá. Tinha Michael Landon no papel principal e além de western era um drama familiar. Nos Estados Unidos passava na NBC. DR. QUINN, MEDICINE WOMAN (1993-1998) 150 episódios / 6 temporadas Outra série que passou em Portugal e que conta a história de uma médica (Jane Seymour) que sai de Boston à procura de aventuras no Oeste selvagem. Passava na CBS, que ainda produziu 2 filmes para televisão.

BONANZA (1959-1973) – 430 episódios / 14 temporadas Uma das séries mais conhecidas do género e a 2ª mais longa a seguir a Gunsmoke, que conta a história das aventuras e desventuras da família Cartwright que vivia no rancho Ponderosa, perto do Lago Tahoe no Nevada. Lorne Greene, Dan Blocker, Michael Landon e Pernell Roberts tinham os papéis principais.

THE MAGNIFICENT SEVEN (1998-2000) – 22 episódios / 2 temporadas Série da CBS que teve a particularidade de ser uma adaptação para TV do filme de 1960, o qual já tinha sido um remake do filme de Akira Kurosawa, Os Sete Samurais. Do elenco faziam parte Michael Biehn, Ron Perlman e Dale Midkiff.

SHANE (1966) – 17 episódios / 1 temporada Série que transportava para a TV o livro e o filme (1953) com o mesmo título. Na TV, David Carradine dava pele a Shane e Jill Ireland era Marion Starett. 99


personagens que passaram por Deadwood, ou por lá se estabeleceram, e o argumento misturava factos e personagens históricos com elementos e personagens ficcionados. A representar estes famosos do oeste tínhamos Timothy Olyphant, Ian McShane, Molly Parker, Dayton Callie, John Hawkes, Paula Malcomson, Powers Boothe, Keith Carradine e Robin Weigert (entre outros). Em Maio de 2006 a série foi inesperadamente cancelada pela HBO e desde então tem-se falado na produção de um filme que desse um final digno à história. O criador David Milch chegou a concordar fazer dois filmes de duas horas mas isso nunca foi avante devido a incompatibilidades de agenda. Já este ano foi confirmado que vem aí o tão badalado filme, que se espera que tenha alguns dos mesmos actores pois é inimaginável ver o Al Swearengen noutra pele que não a de Ian McShane, que teve naqueles 36 episódios um dos melhores desempenhos de sempre de um actor em TV. Walter Hill foi realizador do episódio piloto.

FIREFLY (2002) – 14 episódios / 1 temporada Sci-Fi-Western criado por Joss Whedon para a FOX, segue a tripulação de renegados da nave Serenity, pertencente à classe Firefly. É passada no ano 2517 onde houve avanço tecnológico mas a sociedade se mantém com os mesmos problemas políticos e éticos actuais. O comandante da nave é Mal (Nathan Fillion) que com a ajuda de outros 8 tripulantes tenta combater a corrupta Aliança. Apesar de ter uma boa legião de fãs a FOX cancelou a série ao fim de 11 dos seus 14 episódios. O sucesso continuou quando a série saiu em DVD, o que levou Joss Whedon a procurar a Universal Pictures para a produção de um filme. Assim nasceu Serenity (2005). O merchandise estendeu-se aos comics e aos videojogos. DEADWOOD (2004-2006) – 36 episódios / 3 temporadas Para mim a melhor série de western. Como o título indica passa-se em Deadwood, no South Dakota durante a corrida ao ouro. Deadwood era ainda um campo, na altura, e vamos acompanhando a evolução até ter chegado a cidade com um vaivém de personagens mais ou menos famosas da história do oeste americano. Seth Bullock, Al Swearengen, Wild Bill Hickok, Sol Star, Calamity Jane, Wyatt Earp, George Crook, E. B. Farnum, Charlie Utter, Jack McCall ou George Hearst foram algumas

JUSTIFIED (2010-2015) – 78 episódios / 6 temporadas Chamem-lhe Neo-western, western contemporâneo, ou o que quiserem mas os elementos estão lá e o inseparável chapéu de cowboy do Raylan Givens também. Não fica atrás de Deadwood em termos de qualidade, com seis temporadas ao mesmo nível. A série é baseada na obra Fire in 100


the Hole, de Elmore Leonard (Jogos Quase Perigosos e Jackie Brown são seus e passaram ao cinema) que também produz. A química entre o Marshall Raylan Givens (Timothy Olyphant) e Boyd Crowder (Walton Goggins) é das melhores coisas da série. Mas não a única. HELL ON WHEELS (2011-2016) 5 temporadas / 57 episódios (ainda não concluída) Outra das boas séries dedicadas ao tema, ainda a decorrer (termina este ano). Centrada no período pós-Guerra da Secessão numa altura em que o caminho-de-ferro transcontinental, que liga o Oeste ao Este dos Estados Unidos, estava a ser construído. Aí encontramos o ex-soldado confederado Cullen Bohannon (Anson Mount), numa primeira fase à procura de vingar a morte da mulher, para depois se tornar no líder dos trabalhadores da Union Pacific Railroad. Hell on Wheels é o nome da cidade móvel que alberga os construtores da linha ao longo do seu trajeto. Um autêntico inferno sobre rodas. Colm Meaney, Common e um surpreendente Christopher Heyerdahl são outros actores que dão corpo a personagens carismáticas desta série.

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