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NEW YORK

TAKE.COM.PT TAKE.COM.PT || ANO ANO 86 | NÚMERO 30 38


CRÍTICAS 40 História(s) de Nova Iorque 42 Gangs of New York 44 The immigrant 45 The age of innocence 46 Once Upon a Time...

ARTIGOS 84 Sidewalks of New York 84 Go Get Some Rosemary 85 2 Days in New York 85 In America 86 Big

04 New York, New York. editorial 06 As mil luzes de Nova Iorque 08 Os reis de Nova Iorque 10 Martin Scorsese 12 Lena Dunham 14 Darren Aronofsky 16 Woody Allen 18 John Cassavetes 20 Spike Lee 22 James Gray 24 Abel Ferrara 26 11 de Setembro 30 That's entertainment 36 Filmes catástrofe em Nova Iorque 116 A cidade da minha televisão

48 Casos de polícia 88 I Love NY 50 The Godfather 90 Annie Hall 52 The French Connection 92 Manhattan 54 Goodfellas 94 Breakfast at Tiffany's 55 Bad Lieutenant 95 The Apartment 56 Dog Day Afternoon 96 When Harry Met Sally 57 Serpico 97 Eternal Sunshine of... 58 Gloria 98 An Affair to Remember 58 Carlito's Way 98 Metropolitan 59 We Own The Night 99 As Good As it Gets 59 Die Hard with a... 99 They All Laughed

60 Sombras de Nova Iorque 100 Baladas de Nova Iorque 62 Rosemary's Baby 102 Saturday Night Fever 64 Taxi Driver 104 West Side Story 66 Rear Window 105 On The Town 67 Cruising 106 New York, New York 68 Black Swan 106 Everyone Says I Love You 69 Summer of Sam 70 Inferno 108 Os Lobos de Wall Street 70 Dressed to Kill 110 The Wolf of Wall Street 71 Eyes Wide Shut 112 Wall Street 71 The New York Ripper 113 American Psycho 114 Margin Call 72 Viver em Nova Iorque 114 The Bonfire of the Vanities 74 Shadows 76 After Hours 78 Shame Director José Soares. josesoares@take.com.pt Editor João Paulo Costa. joaopaulocosta@take. 79 The Royal Tenenbaums com.pt Editora adjunta Sara Galvão. saragalvao@take.com.pt Colaboraram nesta edição Ana 80 Do the Right Thing Cocker. Cátia Alexandre. Diana Martins. Filipe Lopes. João Paulo Costa. Pedro Miguel Fernandes. 81 Midnight Cowboy Pedro Soares. Samuel Andrade. Sandra Gaspar. Sara Galvão. Tiago Silva. Design José Soares. 82 Requiem For a Dream Imagens Arquivo Take. Alambique. Big Picture Films. Cinemateca Portuguesa - Museu do 82 25th Hour Cinema. Columbia TriStar Warner Portugal. Costa do Castelo Filmes. Fox Portugal. Films 4 83 Frances Ha You. iStock. LNK Audiovisuais. Lanterna de Pedra Filmes. Leopardo Filmes. ZON Lusomundo 83 Kids Audiovisuais. Midas Filmes. Nitrato Filmes. Pris Audiovisuais. Sony Pictures Portugal. Universal Pictures Portugal. Valentim de Carvalho Multimédia. Vendetta Filmes.

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© Ana Cocker


NEW YORK, NEW YORK JOÃO PAULO COSTA

Se é verdade que o ditado nos diz algo como "ano novo, vida nova", a primeira edição da Take de 2015 apresenta-se com algumas alterações na sua equipa editorial. Independentemente das razões que levaram a esta mudança, importa sublinhar que um dos nossos principais objectivos passa precisamente por dar continuidade ao excelente trabalho que foi realizado ao longo das 38 edições anteriores. A equipa, essa, irá manter toda a sua dedicação à causa, tal como o tem feito desde o primeiro momento, onde a paixão pelo Cinema continua como a principal fonte do nosso trabalho. E o novo ano principia precisamente com uma viagem: a primeira de muitas que pretendemos fazer em edições futuras, desta vez com paragem numa das metrópoles mais abraçadas pela Sétima Arte, lugar de paixões assolapadas e desastres naturais; de crimes hediondos e fantasias musicais - Nova Iorque, a cidade que nunca dorme. E dormir foi coisa que definitivamente não fizemos na preparação deste número, procurando oferecer ao leitor uma visão tão vasta quanto possível deste "melting pot" onde diariamente se cruzam milhões de vidas de todas as origens, etnias ou extratos sociais. Com um tema tão vasto, sabemos que muito ficou também por dizer, mas temos a certeza de que as próximas páginas irão proporcionar-vos horas de leitura bastante agradáveis, por isso acompanhe-nos nesta jornada que vai dos mais luminosos aos mais sombrios pontos da cidade; do seu épico passado até aos diversos futuros já muitas vezes imaginados por alguns dos mais fascinantes realizadores de todo o Mundo.


AS MIL LUZES DE NOVA IORQUE JOÃO PAULO COSTA

Start spreading the news, I'm leaving today. I want to be a part of it... duvidamos seriamente que algum leitor não saiba como terminar o verso anterior. O que muitos não saberão é que esta canção, apesar de eternizada por uma fabulosa versão de Frank Sinatra, nasceu... no Cinema, mais concretamente em 1977 no filme New York, New York, de Martin Scorsese, pela voz também ela estonteante de Liza Minnelli. É vasta, e praticamente impossível de compilar num único número da Take, a História de Nova Iorque na Sétima Arte. Aquilo que as páginas seguintes irão propor será, acima de tudo, uma visão pessoal da nossa redacção sobre a cidade que nunca dorme, e as suas várias representações no grande e no pequeno ecrã. E se cada realizador tem uma visão muito particular das paisagens e da sociedade desta grande metrópole, em certa medida também decidimos partir de um ponto de vista algo pessoal, ora recorrendo a títulos mais óbvios que não poderiam nunca deixar de figurar nestas páginas, ora trazendo à baila outros não tão imediatamente recordados, mas nem por isso de menor valor. Do policial ao musical, dos mafiosos de rua aos criminosos de colarinho branco de Wall Street, das sombras às luzes espampanantes, seremos o mais amplos possível, sem esquecer a História passada e, em alguns casos, até o futuro... e, claro, prestando o devido tributo àqueles realizadores cuja obra se confunde com a própria cidade. Para citar um deles, numa daquelas escolhas bem óbvias antes de se soltar o fogo de artifício: “Nova Iorque era a sua cidade, e iria sê-la para sempre!”


OS REIS DE NOVA IORQUE Numa cidade cuja população estimada é superior a 8 milhões de habitantes, seria de estranhar que muitos deles não seguissem uma carreira ligada ao cinema, na mais cinematográfica das cidades. Há nomes cuja simples menção nos remete imediatamente para Nova Iorque, mesmo que filtrados por sensibilidades distintas. O ambiente cosmopolita que habitualmente associamos a Woody Allen está a milhas de distância da sordidez violenta de Martin Scorsese. Nas próximas páginas iremos abordar a carreira de alguns desses autores nova iorquinos cuja obra, em grande parte, reflecte também a sua visão da cidade. Estas escolhas da redacção são meramente pessoais, ficando com a noção de que se muitos outros cineastas de talento inquestionável ficaram por abordar, não foi por esquecimento mas sim porque seria impossível recordar todos. Mas a cada um deles, o Cinema estará eternamente agradecido pela forma como pintaram no grande ecrã as luzes da cidade.


MARTIN SCORSESE

Sobre Martin Scorsese, é tentador começar por dizer que “perdeu-se um sacerdote, mas ganhou-se um importante cineasta”. Nascido em Queens, criado num lar de origens italianas e descendente de uma fervorosa devoção religiosa que quase o convenceu a ingressar no seminário, a filmografia de Martin Scorsese carrega a marca de todas estas raízes: identidade italo-americana, conceitos de culpa e arrependimento segundo o cânone católico e a semente do crime organizado oriundo dos lares humildes nova-iorquinos estão patentes ao longo dos mais de trinta filmes que compõem a sua carreira. Nunca preso a um género definido, Scorsese abordou a máfia de ascendência italiana (Os Cavaleiros do Asfalto, Tudo Bons Rapazes, Casino), o thriller psicológico (Taxi Driver, Shutter Island), o musical (New York, New York), o biopic (Touro Enraivecido, O Aviador), a comédia negra (O Rei da Comédia, Nova Iorque Fora de Horas), o terror (O Cabo do Medo), o filme de época (A Idade da Inocência), o épico histórico (Gangs de Nova Iorque) e, até, o conto infantil (A Invenção de Hugo). Em todos estes registos, o estilo próprio do realizador é sempre notório. Os distintivos usos da montagem (slow motion, freeze frames, os cortes frenéticos numa mesma sequência, tudo sob a supervisão de Thelma Schoonmaker, colaboradora de longa data do cineasta), do som, da câmara e da música identificam facilmente um filme de Scorsese, independentemente do contexto histórico (Peter Gabriel na banda sonora

SAMUEL ANDRADE

"I think a lot of it has to do with the nature of the community."

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de A Última Tentação de Cristo, por exemplo) ou do universo narrativo em que o espectador é imerso. Paralelamente a estas notas biográficas e artísticas, subsiste o interesse em analisar a obra de Martin Scorsese pelo prisma da sua observação e dedicação a Nova Iorque. O fascínio pelo nocturno das ruas da cidade é elemento imediatemente discernível em títulos como Os Cavaleiros do Asfalto, Taxi Driver ou Por um Fio: sujas, asfixiantes, indecentes e imponderáveis em proporção idêntica, a imoralidade urbana parece contaminar o homem desde a própria fundação histórica de Nova Iorque – tal como se sugere em Gangs de Nova Iorque –, num “contágio” que só encontrará a cura na redenção ou na perdição. Com Scorsese, a iniquidade de Nova Iorque está, igualmente, representada nos bares que só abrem a porta quando o sol se põe (o Volpe, de Os Cavaleiros do Asfalto; o Terminal, de Nova Iorque Fora de Horas), é o cinema de filmes suecos pornográficos para onde se convida um potencial interesse romântico feminino (o Lyric Theatre, de Taxi Driver), surge na paisagem citadina de prédios famosos com anónimos depreciadores do seu semelhante (a Catedral de Saint Patrick, de Os Cavaleiros do Asfalto; o Washington Square Park, de A Idade da Inocência; o Paramount Building, em O Rei da Comédia)…

Se a Nova Iorque de Martin Scorsese se mostra simbolizada, física e espiritualmente, na imagem dos seus filmes, a verdadeira corporização dessa temática reside nas suas personagens. Robert De Niro, Harvey Keitel, Joe Pesci, Daniel Day-Lewis e Leonardo DiCaprio são intervenientes maiores na representação do herói Scorsesiano: violento, neurótico e agitado, em constante vertigem para a culpa e o delito, nunca totalmente conformado nem estabelecido. Tudo sinónimos que se poderiam aplicar à Nova Iorque de Scorsese, repleta de histórias onde pululam seres como Johnny Boy, Travis Bickle, Jake LaMotta, Rupert Pupkin, Henry Hill e Amsterdam Vallon. É um facto que o realizador tem “trocado”, ao longo dos anos, Nova Iorque por outras localidades cinematográficas (de Las Vegas à Carolina do Norte, passando pelo Tibete de Kundun, provavelmente o seu filme mais atípico). Contudo, todas as suas obras estão infundidas da mesma crueza, luta e paixão que só alguém nado e criado nas ruas dos bairros de Nova Iorque, como Scorsese, alguma vez poderá dominar.

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LENA DUNHAM

Quando pensamos na nova-iorquina Dunham, a primeira imagem que nos vem à cabeça é a de Hannah, a irritante protagonista de Girls, que quando os pais lhe cortam a mesada, declara que eles não podem fazer isso, porque ela é a voz da sua geração. Não, Hannah, o teu narcisismo iludido não é a voz da nossa geração, há um mundo para além de situações sexuais de gosto duvidoso. Mas quando olhamos à nossa volta, à procura de histórias sobre o estranho limbo entre acabar o curso e conseguir um emprego estável, durante a crise económica, bem, não há muitas vozes que se façam ouvir. Esqueçam o que Hitchcock disse sobre o cinema ser a vida sem as partes chatas - Dunham pega nessas partes e faz uma carreira delas, que inclui várias curtas, uma longa metragem e meia, uma série na sua quarta temporada, e agora um livro (autobiográfico, claro): Not That Kind of Girl: A Young Woman Tells You What She’s “Learned”.

SARA GALVÃO

A VOZ DE UMA GERAÇÃO

Filha de um pintor e de uma fotógrafa, Lena, tal como o seu alter ego Hannah, estudou Escrita Criativa. Enquanto na universidade, fez algumas curtas, de onde se destacam Hooker on Campus (2007), The Fountain (2008) e Pressure (2008) (que compara o orgasmo feminino a um espirro). O momento decisivo da sua carreira veio enquanto ela se esforçava para escrever o guião de uma longa-metragem durante o seu último ano de curso. O processo revelou-se complicado para Dunham, que não conseguia encontrar a sua voz pessoal, ou ligar as cenas que 12


passeavam na sua mente, numa narrativa coerente. Até que viu o filme Funny Ha Ha de Andrew Bukalski. Ali estava uma narrativa pessoal sobre o nada, que fez click na cabeça de Dunham. E daqui surgiu Creative NonFiction, a história de Ella, uma estudante de último ano de Escrita Criativa, que escreve um guião como projecto final...

cafés de rua. A quarta temporada de Girls, que está agora no seu início, mostra Hannah na Universidade de Utah, e parece que se é relativamente fácil tirar a rapariga de Nova Iorque, tirar Nova Iorque da rapariga é outro caso. E sim, Hannah, tal como Carrie, é uma escritora, mas enquanto Carrie tem uma carreira de sucesso a escrever sobre sexo e Mr. Big na sua coluna, Hannah vive no meio de rendas atrasadas e sobrancelhas levantadas sobre a legitimidade e bom gosto da sua escrita repleta de “demasiada informação” - os tempos mudaram, é certo. É Dunham uma feminista? Certamente, mas não há “agenda secreta” nas suas histórias - ela apenas as conta sob o seu ponto de vista, feminino sem dúvida, mas muito pouco convencional - para Hannah, a vida não são sapatos de marca e Cosmopolitans. Ela é a primeira a gritar que as raparigas de hoje se recusam a não ser ouvidas, mesmo que não tenham muito para dizer além da sua própria experiência de vida. Porque, afinal, talvez isso seja mais do que suficiente. E talvez isso a faça, afinal de contas, vergonha vergonha, a Voz da nossa Geração.

Creative NonFiction tem todo o aspecto de um filme amador, criado na sala de montagem. Em 60 e poucos minutos de duração, nele encontramos já todos os elementos que se tornariam marcas de autor para a jovem realizadora: a amizade feminina (facadas nas costas incluídas), a semi-interessada relação com o sexo oposto, as atrozes cenas de sexo e os diálogos existencialistas disparados a alta velocidade. Dunham também aprendeu bastante com os erros deste filme e a sua primeira longa-metragem oficial, Tiny Furniture, iria ganhar o prémio de Melhor Filme Narrativo no Festival South by SouthWest em 2010, e catapultar a pós-adolescente obsessiva-compulsiva para a fama e para Girls na HBO, a série que a levaria à ribalta. É Girls uma versão moderna de O Sexo e a Cidade? Bem, tirando o sexo e a cidade propriamente ditos, não há muito mais em comum. As histórias de Dunham estão impregnadas de Nova Iorque, de onde ela é nativa, sobretudo dos (minúsculos) apartamentos de Brooklyn e dos pequenos 13


DARREN ARONOFSKY

Darren Aronofsky é um dos nomes mais reconhecidos do atual panorama do cinema de Hollywood. Com apenas 6 filmes em 17 anos, cada título é uma peça única que nos convida a emergir num universo acutilante de personagens tão reais como complexas. Aronofsky nasceu a 12 de Fevereiro de 1969, em Brooklyn, Nova Iorque. Criado no seio de uma família judaica conservadora, cedo se apaixonou pelo mundo das artes e cinema, entrando na Universidade de Harvard, onde estudou Antropologia Social e Cinema. Em 1991, ano da sua graduação, realiza a sua segunda curta-metragem como tese, apelidada de Supermarket Sweep. A curta foi bem recebida, tendo sido finalista do prémio da Academia de Cinema e Artes Cénicas dos Estados Unidos, uma versão dos Óscares para estudantes de cinema. Foi em Harvard que conheceu Sean Gullette, que viria a participar na sua primeira longa-metragem: Pi (1998). O filme, a preto e branco, conta a história de um génio matemático que acredita que existe um padrão que se repete infindavelmente na natureza. Max vive obcecado no seu mundo, sofrendo crises de paranóia e alucinação, tendo sérias dificuldades em estar com outras pessoas. Esta fixação, esta procura incessante por algo, é aliás um marco da filmografia de Aronofsky, que conduz, na maioria das vezes, a um comportamento maníaco-destrutivo (conforme as personagens A Vida Não é Um Sonho ou o Cisne Negro). Curiosamente, o filme foi financiado por amigos e conhecidos que

DIANA MARTINS

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contribuíram com 100 dólares, sendo-lhes prometido 150 dólares se o filme se tornasse um sucesso, ou uma projeção gratuita, caso a estreia não corresse tão bem. Certo é que o filme estreou no Festival de Sundance, e Darren Aronofsky ganhou o prémio de melhor realizador. Segue-se o reconhecimento pela crítica, com a estreia de A Vida Não é Um Sonho, em 2000, adaptado do livro de Hubert Selby Jr. O New York Times descreveu o filme como “a downer, and a knockout” e Ellen Burstyn foi indicada para o Óscar de melhor atriz. Neste filme está bem presente uma técnica de edição utilizada por Aronofsky nos seus filmes, a chamada “hip hop montage”, que se caracteriza pela passagem frenética de imagens, acompanhada por efeitos sonoros, dando uma sensação do abrupto e de vertigem. Em 2006, Aronofsky apresenta o drama mais discreto e filosófico, The Fountain – O Último Capítulo, que contou com a presença de Hugh Jackman e Rachel Weisz nos papéis principais. Considerado um filme de culto, e longe de conquistar audiências, três histórias em três momentos diferentes são contadas, não-linearmente, como se coexistissem no tempo.

(vencedora do Óscar para melhor atriz), partilham histórias de mentes desequilibradas e vidas sofridas com fins trágicos, mas também de vitórias, de conquistas de espaços pessoais. Já em 2014, Aronofsky realiza Noé, o seu filme mais “hollywoodiano”, com grande marketing associado. Como é possível observar em toda a filmografia do realizador, o fio condutor da sua obra mantém-se, com a interrogação pela condição humana. Não nos espanta que algumas das suas influências cinematográficas incluam grandes nomes como Jim Jarmusch, Akira Kurosawa, Roman Polanski, Terry Gilliam e Spike Lee, senhores de um cinema disruptivo e apelativo. Isto porque, no fim do dia, Aronofsky é, incontornavelmente, duro e desgastante. Os temas que trata são objeto de reflexão e recalcamento psicológico, que nos conduz a um turbilhão de emoções por vezes difícil de digerir. Como o próprio refere “When I go to movies I generally want to be taken to another world.” E nós também.

O Wrestler (2008) e Cisne Negro (2010) centram a sua narrativa em duas profissões tão semelhantes quão distantes: o wrestling e o ballet. Em ambos os casos os protagonistas, Mickey Rourke e Natalie Portman 15


WOODY ALLEN

É impossível pensar em Woody Allen sem o associar de imediato à cidade de Nova Iorque. Nascido em Brooklyn em 1935, Woody Allen começou a mostrar o seu grande talento para a escrita apenas com 17 anos de idade. Quando percorremos toda a sua filmografia, vemos que já deu imensas provas do seu profundo amor pela cidade em que nasceu, retratando-a frequentemente em muitos dos seus filmes. A sua filmografia contém até à data 45 títulos (quase metade deles são passados em Nova Iorque, sendo que alguns deles não no seu todo) sendo assim sem sombra de dúvida o realizador mais produtivo dos nossos tempos e um sinónimo de qualidade. Uma Nova Iorque absolutamente charmosa, romântica e ao mesmo tempo encantadoramente neurótica serve de pano de fundo para que Woody demonstre os assuntos que mais o fascinam nas vidas dos personagens que cria, personagens esses, que lidam constantemente com problemas existenciais. Entre muitas comédias românticas e dramas, o seu foco principal sempre foram as relações entre homens e mulheres, o sentido da vida e também a morte. O inicio da sua carreira está fortemente ligada apenas às comédias, tendo sido bem sucedido e elogiado com filmes como Bananas ou Love and Death, mas é em 1977 com Annie Hall que Woody começa a demonstrar os seus dotes na escrita de algo um pouco mais escuro e dramático sem nunca deixar a comédia de lado. Uma história de amor que termina

CÁTIA ALEXANDRE

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de forma triste, mas onde todos os toques de humor são essenciais, e Annie Hall ficou então marcado como uma das melhores comédias românticas de sempre e a sua modernidade e escrita inteligente serviram de mote para muitas outras que se seguiram. Dois anos mais tarde em 1979, Woody viria então a dar ao mundo uma das suas melhores obras, o absolutamente sublime Manhattan, que diz ser uma fusão de dois dos seus filmes anteriores, Annie Hall e Intimidade, por ter o lado dramático mais acentuado de Intimidade, mas também a descontracção e humor de Annie Hall. Com uma cinematografia a preto e branco, a cidade nunca pareceu tão bela e romântica dando-lhe um olhar divino. E assim, depois da fantástica montagem da cena de abertura, com banda sonora de Gershwin, e monólogo do personagem principal Isaac, Nova Iorque transmite todo o seu encanto. É amor à primeira vista! Manhattan é sem dúvida uma bonita carta de amor, que Woody oferece à sua cidade. “Chapter one. He adored New York City. He idolized it all out of proportion. Eh uh, no, make that he, he romanticized it all out of proportion. Better. To him, no matter what season was, this was still a town that existed in black and white and pulsated to the great tunes of George Gershwin. Uh, no, let me start this over.” – Issac Davis em Manhattan. Podemos também olhar para os seus filmes como um mapa sobre Manhattan. É interessante como estes servem de guia turístico, levandonos a visitar os sítios mais interessantes e emblemáticos da cidade.

Desde as salas de espectáculos, museus, restaurantes ou bairros mais conhecidos, a atmosfera de glamour que Woody faz pairar sobre a cidade é fascinante, e aquele curioso “feeling” de que tudo é possível na “cidade dos sonhos” faz com que fiquemos absolutamente rendidos. Ao longo da sua carreira percebemos também a curiosidade que Woody tem em explorar outras cidades, tendo escolhido nos últimos anos, algumas das mais belas localidades da Europa como pano de fundo para as suas histórias. O que é certo, é que por mais que Woody Allen tente explorar outros horizontes, este volta sempre à sua adorada Nova Iorque, fazendo transparecer para o lado de cá do ecrã toda a sua afectividade pela cidade.

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JOHN CASSAVETES

Considerado o “pai” do “cinema independente americano” e filho de emigrantes gregos nos Estados Unidos, John Nicholas Cassavetes nasce a 9 de Dezembro de 1929 em Nova Iorque, cidade onde passa a sua infância e juventude. Em 1950 acaba o curso de representação na Academia Americana de Artes Dramáticas e rapidamente arranja pequenos trabalhos como actor em cinema e televisão. A primeira vez que viu Gena Rowlands estava, segundo o próprio, na companhia do actor John Ericson e disse-lhe “Esta é a rapariga com quem irei casar”. E casou mesmo, em 1954, dando início a um relacionamento que se estenderia do plano pessoal ao profissional por cerca de 35 anos. Mais do que ser actor, a Cassavetes interessava a realização e foi durante um workshop que dava sobre interpretação, que pegou nos seus alunos, numa câmara de 16mm e começou a filmar a sua primeira longametragem Sombras, que terminaria em 1959 e que receberia, no ano seguinte, o Prémio da Crítica no Festival de Veneza. Sombras deixou o jovem realizador com dívidas no valor de 30 mil dólares, pelo que aceitou, mesmo que a contragosto, a proposta da Universal para fazer uma série de televisão, desempenhando o papel do detective privado e pianista de jazz Johnny Staccato. Rapidamente se cansou dos constrangimentos artísticos impostos pelo canal, mas acabou por realizar 5 e protagonizar todos os 27 episódios até o programa ser cancelado pelos produtores. Após realizar dois filmes em Hollywood (Os Prisioneiros da Noite em

FILIPE LOPES

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1961 e Uma Criança à Espera em 1963), o segundo dos quais veio a revelar-se um verdadeiro pesadelo, já que Cassavetes entrou em conflito com quase toda a equipa, sobretudo com Judy Garland e Burt Lancaster, os dois actores principais, e o produtor Stanley Kramer, que remontou o filme todo à sua revelia. Furioso, gritou para Kramer tirar o nome dele da ficha técnica e posteriormente esmurrou o produtor na cara. A partir daqui continuou a desenvolver a sua carreira como actor, a fim de ter liquidez para pagar os seus filmes enquanto autor independente. Fez inúmeros papéis para televisão e vários para cinema, tendo mesmo sido nomeado para o Óscar de Melhor Actor Secundário pela extraordinária interpretação da personagem Viktor Franko em Os Doze Indomáveis Patifes (1967), de Robert Aldrich. No ano seguinte tem outra extraordinária interpretação em A Semente do Diabo, de Roman Polanski, mas o ano de 1968 marca ainda o lançamento do seu novo e magnífico filme Rostos, que aborda temas como o amor, as crises de meia-idade e os vários contornos das relações homem-mulher. O filme foi nomeado para três Óscares e deu a Cassavetes o reconhecimento de que ele tanto necessitava como realizador e argumentista. Depois daqui, a sua carreira desenvolveu-se nas duas frentes habituais de interpretação e realização. Nesta última seguem-se Maridos (1970), protagonizada pelo próprio Cassavetes e os amigos Peter Falk e Ben Gazzara, e Tempo de Amar (1971), no qual volta a dirigir a mulher após o interregno de Maridos. Em

1974 “oferece” a si próprio a oportunidade de ser nomeado para o Óscar de melhor Realizador, bem como a Rowlands o ensejo da nomeação para o Óscar de Melhor Actriz no magnífico Uma Mulher Sob Influência (1974), designação que Gena voltaria a repetir no extraordinário Gloria (1980). Os brilhantes A Morte de um Apostador Chinês (1976), Noite de Estreia (1977) e Amantes (1984) cimentaram uma carreira incrível atrás e à frente das câmaras do homem que disse considerar-se um realizador amador e um actor profissional. Preferiria ser um actor amador, mas preciso de dinheiro para fazer filmes. Infelizmente é um hobby bastante caro.

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SPIKE LEE

Polémico, activista e voz sempre presente em defesa dos afroamericanos, Shelton Jackson "Spike" Lee é um dos nomes fundamentais do cinema de Nova Iorque. Apesar de ter nascido em Atlanta, Spike Lee é frequentemente associado à Big Apple, pois foi para lá, mais concretamente para Brooklyn, que foi viver bastante novo. E a influência desse bairro nova-iorquino é de tal ordem que se tornou cenário de grande parte dos seus filmes. Filho de um músico (que assinou bandas sonoras para filmes do filho) e de uma professora, Spike Lee regressou a Atlanta para estudar Cinema no Morehouse College e na Clark Atlanta University, ambas instituições bastante ligadas à comunidade artística afro-americana. Em Atlanta surge a sua veia polémica ao realizar uma curta-metragem intitulada The Answer, que assumiu como resposta a O Nascimento de Uma Nação, o épico de D. W. Griffith sobre as tensões raciais. Estávamos em 1980, mas foi em 1983, quando assina a primeira longametragem Joe's Bed-Stuy Barbershop: We Cut Heads, que o cineasta mostra o seu valor, tornando-se o primeiro realizador a apresentar um filme de escola no New Directors New Films Festival do Lincoln Center. Três anos mais tarde, Os Bons Amantes, um filme de baixo orçamento rodado em duas semanas, ao bom estilo independente, singra na bilheteira e ajuda Spike Lee a criar a sua própria produtora. Ambos, filmes e produtora, têm a marca do seu criador no nome: os filmes são

PEDRO MIGUEL FERNANDES

A VOZ DOS SEM VOZ

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apelidados de joints (charros) e a produtora é baptizada de 40 Acres and a Mule Filmworks, que remete para a libertação dos escravos nos EUA, quando foi promulgada uma lei no estado da Geórgia que previa a entrega de terras de 40 acres e uma mula a famílias de antigos escravos. Esta produtora tem ajudado o realizador equilibrar a sua carreira, permitindolhe trabalhar tanto em projectos pessoais e independentes como em produções para grandes estúdios, assim como apoiar novos cineastas. O sucesso de Os Bons Amantes ajudou a catapultar o jovem autor para projectos mais ambiciosos. É esse o caso de Não Dês Bronca, para muitos a melhor obra de Spike Lee, retrato do dia mais quente do ano em Brooklyn, que acaba num motim. O filme conquistou duas nomeações para os Óscares, mas falhou a presença nos nomeados para a categoria de Melhor Filme, que nesse ano foi conquistada por Miss Daisy. No início da década seguinte, já com mais estatuto, Spike Lee assina Quanto Mais Melhor, o primeiro de vários filmes com Denzell Washington. Juntos trabalharam em outros três títulos, com destaque para Malcom X, novo biopic, desta vez em torno do activista dos direitos civis Malcom X, uma das grandes interpretações de Washington. Ao longo da década de 1990 Spike Lee aventura-se por novos caminhos. Passa pelo universo da publicidade, começa a realizar documentários (um deles, 4 Little Girls, chega a ser nomeado para o Óscar de melhor documentário em 1997) e no final da década filma histórias de outras

comunidades de Nova Iorque para além do universo afro-americano. Verão Escaldante e A Última Hora são dois desses títulos, e obras bastante recomendáveis da sua filmografia. Nestas primeiras décadas do século XXI, Spike Lee tem estado longe do grande ecrã, mas a sua voz continua presente. Apesar de ter assinado poucas ficções, o cineasta tem continuado a apostar na área documental e em projectos televisivos, entre os quais o díptico When the Levees Broke: A Requiem in Four Acts e If God Is Willing and da Creek Don't Rise, sobre a situação pós-furacão Katrina. Mesmo não tendo o sucesso e reconhecimento de outros cineastas novaiorquinos, ao longo das últimas décadas conseguiu cimentar o seu nome na história do Cinema, assinando filmes altamente engajados e políticos sobre temas tão diversos como o papel dos Media, racismo ou o crime nas comunidades urbanas. E poucos conseguiram filmar Brooklyn e a comunidade afro-americana como Lee.

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JAMES GRAY

Conheci o cinema de James Gray numa noite de insónia em que Nós Controlamos a Noite passava na televisão. O acontecimento, embora não adquira contornos propriamente líricos ou representativos da importância que a sua obra veio a exercer sobre mim, realça, de um modo algo inesperado, a sua condição de «cineasta nocturno», cujos filmes só existem e só podem existir nesse intervalo entre os dias. Soube estar perante um caso excepcional no actual universo cinematográfico e impossível de enquadrar numa redoma que limitasse a maneira como este pensa a forma e a figuração das suas temáticas através de uma reapropriação moderna dos conceitos que se encontram tanto na literatura (em obras de Shakespeare, Dostoyevsky ou na epopeia e tragédia grega, retomando o aparecimento da mimese) como no cinema que o formou, em que os ensinamentos de Ford ou Visconti são evidentes. A admiração intensificou-se quando surgiu a oportunidade de assistir a uma retrospectiva de toda a sua filmografia no Lisbon & Estoril Film Festival de 2013 por ocasião da estreia de A Emigrante, o seu «filme absoluto» como referi na altura. Neste texto recuperam-se algumas das impressões provocadas pelo seu cinema e considerações sobre o modo como a cidade de Nova Iorque influencia e condiciona o comportamento das personagens. Na sua condição de autor completo, Gray apresenta logo no seu primeiro

TIAGO SILVA

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filme, Viver e Morrer em Little Odessa, um tratado sobre a emoção no cinema e a importância da honestidade naquilo que se filma. A sua sensibilidade quanto ao espaço físico e psicológico e às relações que se estabelecem entre ambos tornam Brooklyn em pesadelo claustrofóbico, não só por uma inadaptação do sujeito em relação ao lugar em que habita — os minúsculos apartamentos nos subúrbios — como por um desajuste, num sentido mais abrangente, quanto à realidade que o envolve, incapaz de aceitar a diversidade cultural e remetendo as personagens (que são sempre estrangeiros numa pátria indiferente) para uma segregação que inviabiliza qualquer projecto de vida que não a espera inútil pelo auxílio de uma força divina ausente. Sendo a religião e a família dois dos principais temas que atravessam a sua obra, em Nas Teias da Corrupção estes são complexificados através da construção de uma família de traços coppolianos em que os valores morais são esquecidos e a corrupção se torna a estrutura sobre a qual a sociedade americana se apoia. Gray filma tudo isso sem mascarar a tensão emocional e sem tornar o seu cinema dissimuladamente irónico, preferindo antes edificar em todos os planos uma sentimentalidade credível que determina o curso da acção. Nós Controlamos a Noite é, nesta espécie de «trilogia acidental» em que crime e cidade se cruzam mutuamente, a obra mais importante para uma reflexão sobre a geografia emocional na modernidade que os filmes de Gray exploram. A tragédia

nasce através de uma fatalidade do quotidiano que se impõe na vida do protagonista e os anos 80 surgem na película, desde o início intoxicante, com uma força que não poderia ser outra que não a do cinema e a de actores como Joaquin Phoenix. Os sujeitos magoados e traídos pela cidade aparecem novamente nos seus dois últimos trabalhos, embora sejam pensados segundo uma lógica diferente. Em Duplo Amor, autêntico ensaio sobre a desilusão amorosa, o enredo quase hitchcockiano é potenciado pela própria organização do espaço: a janela de Michelle no prédio em frente ao de Leonard, estando constantemente num plano superior à da sua, faz com que a câmara de Gray a enquadre sempre num limite inalcançável — o do desejo. Finalmente, em A Emigrante, é curioso que se verifiquem não só as origens das personagens dos filmes anteriores, uma espécie de descendência daqueles que procuravam uma vida melhor na América nos primórdios da imigração, como dessa relação opressiva com a cidade: afinal de contas, a própria estátua da liberdade vira as costas a Ewa e abandona-a.

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ABEL FERRARA

Quem viu o documentário de Rafi Pitts de 2003, Abel Ferrara Not Guilty, recordar-se-à certamente da figura bizarra do realizador nova-iorquino enquanto murmurava histórias e se deslocava freneticamente entre a noite num estado de sobriedade duvidosa, sem quaisquer papas na língua, fosse em conversa com a equipa que o seguia, fosse com perfeitos desconhecidos com quem se cruzava na rua.

JOÃO PAULO COSTA

Pois bem, aqueles familiarizados com a obra cinematográfica de Abel Ferrara, não estranharão de todo a crueza de tal personagem, pois dela vivem muitos dos mais marcantes títulos que rodou precisamente naquelas ruas de Nova Iorque por onde se passeia. Natural do Bronx no seio de uma família italiana e irlandesa de tradição católica que não o impediu de rodar, em 1976 com apenas 25 anos, o filme pornográfico 9 Lives of a Wet Pussy, fazendo da sua companheira da altura a protagonista principal, Ferrara mostrou desde muito cedo que não tinha grandes limites. Seguiu-se então uma carreira “a sério”, que começou com alguns espécimes de exploitation cinema muito peculiares. Confesso que foi com um desses que o descobri quando, ainda adolescente e sozinho em casa com o meu irmão mais velho, algures em meados dos anos 90, apanhámos na televisão este filme com “ar manhoso” onde uma jovem nova-iorquina, depois de repetidamente violada por personagens grotescas, se torna numa máquina assassina de 24


homens que mostrem a menor sugestão de intenções sexuais. Vingança de Uma Mulher (Ms .45 no original, produzido em 1981) cativou-nos precisamente pela rudeza das suas cenas, pela forma (exageradamente) suja como pintava a cidade e, claro, pela beleza da sua protagonista, a modelo Zoë Lund, que viria a morrer tragicamente após uma série de excessos que culminaram numa paragem cardíaca quando contava apenas 37 anos. Lund não nos deixaria sem antes voltar a colaborar com Ferrara na escrita do argumento de Polícia Sem Lei (1992) no qual tem uma pequena participação onde surge a injectar-se com heroína, segundo reza a lenda, sem quaisquer simulações para a câmara. Escrito em duas semanas, rodado muitas vezes nas ruas de Nova Iorque à revelia e sem quaisquer licenças, Polícia Sem Lei é um tratado de cinema-guerrilha, onde um polícia no limite, depravado e viciado em apostas e em todo o tipo de estupefacientes, investiga um caso de violação de uma freira esse conflito entre uma personalidade explosiva e o catolicismo latente parece definir na perfeição o cinema do seu autor. Com uma narrativa muito solta, tudo no filme emana uma extrema crueza, e a interpretação também ela sem limites de um Harvey Keitel na sua melhor forma lunática, tornam-no talvez no ex-libris da obra de Ferrara, a par de O Rei de Nova Iorque, onde Christopher Walken dá corpo a um poderoso traficante de droga recém-libertado da prisão e disposto a tudo para recuperar o seu trono.

Apesar de uma ou outra incursão em produções mais mainstream (desde a realização de dois episódios da série Miami Vice, ou a sequela em ambiente militar de Violadores: A Invasão Continua - onde mostrou que, querendo, poderia adaptar-se na perfeição às exigências dos estúdios), Ferrara foi-se mantendo fiel a este espírito independente. Mesmo quando explora um tema actual como sucedeu em Bem Vindo a Nova Iorque com o caso Strauss-Kahn, fá-lo com as suas próprias regras, sem quaisquer preocupações aparentes que não a de assinar um filme de Abel Ferrara. Entre títulos como O Funeral, R’Xmas - O Nosso Natal ou 4:44 Último Dia na Terra, encontramos se mpre presentes a morte, a violência e mesmo o amor, estórias normalmente ancoradas em interpretações fabulosas dos seus actores e, em última instância, uma visão muito particular de Nova Iorque, distante das indicações de qualquer postal turístico, mais interessado no lado sujo e pouco glamouroso que tem a coragem de explorar como muito poucos.

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na operação de resgate naquele dia. Alguns desses filmes lidam com o aspecto da perda individual, de apenas um membro da família. Em Nome da Amizade, Lembra-te de Mim ou Extremamente Alto, Incrivelmente Perto, são bons exemplos em que conseguimos perceber o impacto emocional pretendido, especialmente em todos aqueles que perderam alguém na tragédia, mas não só, eles pretendem passar ao mundo o trauma e dor vivido pelos americanos durante o período que se seguiu. Uma América em constante alerta e o enorme patriotismo fazem-se também sentir principalmente em vários filmes de guerra (retractando a Segunda Guerra do Afeganistão que teve inicio no mesmo ano dos ataques) onde militares arriscaram a sua vida em missões para capturar Osama Bin Laden e continuam a arriscar-se até aos dias de hoje, naquela que os americanos chamam de luta contra o terrorismo. Vistos como heróis por todo o povo americano, estes homens e mulheres servem de personagens (muitas das vezes baseados em pessoas reais e os seus feitos) para mostrar através do grande ecrã, toda a coragem, por vezes usados como objectos de propaganda, coisa que muitas vezes é bastante criticada pelo mundo exterior. Estes filmes de guerra são por norma os mais controversos, veja-se o exemplo mais recente filme de Clint Eastwood, Sniper Americano, acusado de falso heroísmo e pouca veracidade de factos, alguns deles alterados para fazer do personagem principal um herói de guerra. Ou 00:30 A Hora Negra, o filme sobre a suposta captura de Osama Bin Laden, que ainda hoje gera desconfianças devido ao secretismo criado à volta da história. O lado emocional e psicológico da questão também é importante, pois há que saber mexer com os sentimentos do público, e alguns bons exemplos disso são filmes como Estado de Guerra ou O Sobrevivente, sem nunca deixar de frisar a bravura dos seus Homens e de uma América que honra os que são capazes de dar a vida pela pátria. No que toca a blockbusters passados em Nova Iorque, desde 2001 que existe uma nuvem negra que paira no ar. Em filmes como Nome de Código: Cloverfield ou Os Vingadores a enorme destruição sobre a cidade de forma súbita tem um efeito totalmente devastador, ficando no final o peso da tristeza, mas também um sentimento de prosperidade e força para um novo renascer. Com o passar do tempo é interessante ver que Hollywood começa também a levantar algumas questões e teorias da conspiração acerca do sucedido e começa também a existir um contraste em alguns filmes que também querem passar a mensagem contrária, como por exemplo O Homem Mais Procurado de 2014, que pretende transmitir que não podemos julgar os outros apenas por questões raciais ou de religião. Passados 12 anos o cinema tem dado inúmeras respostas e lidado com o terrorismo de diversas maneiras, mas existe um sentimento de vingança e terror que continua a prevalecer em muitas das histórias.

11 DE SETEMBRO CÁTIA ALEXANDRE

Os trágicos eventos de 11 de Setembro de 2001 afectaram de forma intensa não só o mundo, mas também a indústria cinematográfica norte-americana. Não nos podemos esquecer que o cinema também é o espelho da sociedade, e toda a insegurança e medo do desconhecido, do imprevisível, e de alguma forma medo de uma suposta força do mal que vem para aterrorizar aqueles que são inocentes é algo que passou a ser bastante retratado das mais variadas maneiras. Desde então o terrorismo está presente no cinema de Hollywood, especialmente em filmes passados na cidade de Nova Iorque, onde é raríssimo não haver nem que seja uma só referência aos ataques às Torres Gémeas. Logo depois da tragédia, alguns documentários sobre os ataques terroristas começam a ser feitos, mas só passados 5 anos é que os estúdios lançam dois filmes que relatam os eventos baseados nos factos verídicos passados naquela terrível manhã - parece ter havido um certo período de luto que foi respeitado por Hollywood - o primeiro é Voo 93, de Paul Greengrass, que homenageia e mostra o horrível drama dos passageiros do voo 93 da United Airlines, sequestrado durante os ataques e que teria como efeito atingir a Casa Branca. O único dos quatro aviões que não conseguiu chegar ao alvo pretendido graças à coragem dos seus passageiros. O outro é World Trace Center, de Oliver Stone, que nos dá uma perspectiva do que aconteceu dentro das Torres, seguindo o trabalho de uma de milhares de corporações de bombeiros que trabalhou 27


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THAT’S ENTERTAINMENT! SARA GALVÃO

Desde os seus primórdios que a Sétima Arte tem sido prolífera a retratar as artes que a rodeiam. Desde o óbvio teatro, até às vidas épicas de pintores, escultores e escritores, o cinema não deixou pedra sobre pedra ao providenciar narrativas sobre os dilemas artísticos, morais e humanos que ensopam as seis artes às quais não pode evitar ir buscar inspiração e formalidades. E, claro está, muitas foram as vezes que o cinema virou a câmara sob si mesmo, com filmes tão diferentes em tom e tonalidades que vão de Serenata à Chuva a Crepúsculo dos Deuses. A chegada do som ao grande ecrã em 1929 marcou uma viragem decisiva nos temas que podiam ser capturados pelas câmaras. E, claro está, a possibilidade de juntar música, palavras e imagens, aliada ao crash económico de 1929, criou o jardim perfeito para virar as lentes para a exuberante, colorida e sempre feliz Broadway. Muitos foram os êxitos que após uma longa e bem sucedida vida nos palcos foram para sempre imortalizados em película - e alguns, como Rocky Horror Picture Show e Um Eléctrico Chamado Desejo, são mesmo melhor conhecidos pela versão cinematográfica. Aqui, contudo, não é sobre esses que falaremos. O objecto do nosso (breve) estudo são os filmes que ousaram ir para além das 3 paredes do palco, para trás das cortinas, nos recantos dos bastidores. O número de filmes feitos sobre os bastidores da Broadway é impressionante, e por isso inevitável que tenhamos deixado a maior 30


parte de fora. Os exemplos escolhidos foram-no quer pelo seu lugar na história do cinema ou, exactamente pelo contrário, pelo seu injusto esquecimento. 42nd Street (1933), realizado por Lloyd Bacon e com coreografias de Busby Berkeley, e baseado no livro homónimo de Bradford Ropes, é talvez o filme mais conhecido do género backstage musical, onde a narrativa se centra nos altos e baixos de pôr uma produção em cena. Nomeado para o Óscar de Melhor Filme (que perdeu para Cavalcade), 42nd Street passa-se durante a Depressão e conta a história de Julian Marsh, outrora um director de sucesso na Broadway, mas que devido a um esgotamento nervoso e ao crash económico está agora em sérios problemas financeiros. Pretty Lady, o musical proposto pelos seus produtores, é a sua última hipótese de sucesso e de uma reforma descansada. Com várias voltas e reviravoltas, que incluem as escapadas amorosas da estrela feminina, uma novata que nada sabe sobre Broadway mas que consegue miraculosamente brilhar, e, claro está, Ginger Rogers num papel secundário, 42nd Street tem uma narrativa demasiado simples para atrair gostos pós-modernos (curiosamente, no livro em que o filme é baseado, existe uma relação homossexual que foi substituída por um romance entre Peggy, a novata, e Billy, o protagonista masculino do musical), e apenas escapa ao teste do tempo através dos números musicais coreografados por Busby Berkeley. 31


de uma delas, Brad, aparece com o dinheiro necessário, surgem dúvidas sobre a legalidade dos seus negócios, mas os ensaios começam. Brad, vem-se a saber, é um milionário secreto cuja família não quer ver envolvido com a Broadway. Quando na noite de estreia Brad é forçado a tomar o papel principal na produção, com um êxito estrondoso, a família descobre e envia o advogado para evitar que ele seja explorado pela gold digger...

Berkeley é, aliás, um nome que não pode deixar de ser referenciado quando falamos de musicais cinematográficos desta época. Criador de complexos números de dança para a câmara que utilizam complexos padrões geométricos em efeitos de caleidoscópio, os musicais dos anos 30 não seriam os mesmos sem ele. As suas coreografias tem sido analisadas em detalhe por historiadores, e muitas vezes criticadas pela sua aberta sexualização e objectificação do corpo feminino e ênfase no colectivismo (uma crítica perigosa aquando da caça às bruxas macartista). Além de 42nd Street, Berkeley também coreografou números para os backstage musicals Footlight Parade (1933) e Dames (1934), e esteve envolvido quer como coreógrafo quer como realizador na série Gold Diggers. Gold Diggers of 1933 (com o estranho título em português, Orgia Dourada) é menos inocente que 42nd Street, e a ironia não passa despercebida quando o seu número de abertura, We’re in the Money, é subitamente interrompido pelos credores que fecham o teatro e a produção. Realizado por Mervyn LeRoy e baseado na peça de Avery Hoopwood, Gold Diggers of 1933 foi um dos grandes êxitos de bilheteira do ano. Alguns dos números musicais eram tão escandalosos que o filme foi distribuído com “cenas alternativas” para evitar problemas com a censura. A história gira à volta de quatro actrizes e um produtor que têm tudo para produzir um musical, excepto o dinheiro. Quando o namorado

Os anos 40 foram sobretudo dominados pelo noir, e teríamos de esperar até aos anos 50 para novos exemplos relevantes de filmes de bastidores aparecerem. Curiosamente, ambos os nossos exemplos se centram nas experiências dos actores. All About Eve (título português: Eva) conta como uma jovem aspirante actriz, Eva Harrington (Anne Baxter), se consegue insinuar e destruir a sua inicial protectora, a grande actriz Margo Channing (Bette Davies). Nomeado para 14 Óscares (dos quais ganhou 6, incluindo Melhor Filme), o filme realizado por Joseph L. Mankiewicz foi muitas vezes comparado com Sunset Boulevard, que estreou no mesmo ano, sobretudo devido ao tema comum da “actriz envelhecida”. All About Eve detém ainda o recorde de nomeações para actrizes, duas para actriz principal, e duas para secundária. Tanto Harrington como Davies perderam o Óscar para Judy Holliday, por Born Yesterday. 32


The Band Wagon (1953, título português A Roda da Fortuna), realizado por Vincente Minnelli, é mais alegre no seu retrato dos bastidores, mas isso não significa que seja completamente desprovido de sentido crítico. Tony Hunter (Fred Astaire), é um profissional do teatro musical que começa a preocupar-se com a sua carreira em aparente declínio. Quando os seus amigos dramaturgos Lester e Lily Morton surgem com um projecto que tudo tem para ser bem sucedido, Tony salta de pés juntos na oportunidade. Os problemas começam quando Jeffrey Cordova (Jack Buchanan) entra no projecto como director. A sua interpretação faustiana do que seria apenas um bom pedaço de entretenimento escapista, mais a sua escolha para protagonista feminina da bailarina clássica Gabrielle Gerard (Cyd Charisse), tornam o resultado final numa estranha criatura que recebe críticas horrendas na noite de estreia. Em vez de desistir, Hunter toma as rédeas do espectáculo e reescreve-o, restaurando-o à alegria sem consequências de um bom e tradicional espectáculo musical da Broadway. Tudo está bem quando acaba bem, e todos dançam ao som de That’s Entertainment!, glorificando o prazer de uma boa comédia ou drama sem pretensões, contra a (falsa) intelectualidade de espectáculos mais sérios.

Injustamente esquecido pela História do Cinema está Please Don’t Eat the Daisies (1960, título português Por Favor não comam os Malmequeres), realizado por Charles Walters e com Doris Day e David Niven nos papéis principais. O filme conta a história de Laurence Mackay (Niven), que consegue finalmente entrar na lista exclusiva de críticos de teatro de Nova Iorque, e da sua mulher Kate (Day), que tem de lidar com os quatro filhos insuportáveis e apoiar a carreira do marido. Quando a família é forçada a ir viver para os subúrbios, o casamento de Laurence e Kate começa a sofrer as consequências; Laurence não se consegue concentrar em casa, e passa a maior parte do tempo em Nova Iorque, onde a actriz Deborah Vaughn o tenta seduzir após ele a ter destruído numa crítica; Kate começa a desconfiar que Laurence está embriagado com a fama súbita, e que começou a ser cruel nas suas críticas apenas para entreter os seus leitores. Quando a oportunidade surge para ela ajudar o grupo de teatro local, o padrinho dos filhos (e primeira vítima das críticas de Laurence) Alfred North sugere uma peça que, é revelado no final, é a primeira e única peça escrita por Laurence - e é terrível. Os Produtores (1967), realizado por Mel Brooks, dispensa apresentações. A história gira à volta de um produtor e o seu contabilista (ambos judeus), que descobrem que se pode fazer mais dinheiro com um espectáculo que fracassa do que com um sucesso. Juntos resolvem então criar

Os anos 60 veriam o fim do Código de Produção no Estados Unidos, e lentamente filmes mais ousados começaram a aparecer nas salas. 33


um espectáculo com todos os ingredientes para falhar, para eles poderem fugir para o Brasil com o dinheiro dos investidores. O nome do espectáculo? “Springtime for Hitler”, escrito por um maníaco ex-Nazi. Infelizmente para eles, o público toma o espectáculo como uma sátira e numa estranha reviravolta de so bad it’s good, Springtime for Hitler torna-se num sucesso e os produtores vão parar à cadeia por fraude. Ao contrário da narrativa, o filme não foi bem recebido pela crítica americana aquando da sua estreia, que o considerou de extremo mau gosto. Apesar disso, teve uma boa recepção europeia e ganhou o Óscar de Melhor Argumento, e hoje está entre as listas de melhores comédias de sempre.

Cusack é o dramaturgo idealista que finalmente consegue financiamento para a sua primeira produção. O único senão é que o dinheiro vem de um dos padrinhos da máfia, que exige que a sua namorada tenha uma parte na peça. Os ensaios começam, e é rapidamente claro que não só a rapariga não sabe representar, como se anda a envolver com um dos actores. Entretanto, o dramaturgo/encenador também se envolve com Helen Sinclair, a grande estrela da produção, e começa a receber conselhos e feedback de alta qualidade do guarda-costas da namorada do mobster. Enfim, uma comédia típica de Allen, com um final também tipicamente agri-doce.

Nos anos 90 encontramos mais dois exemplos de filmes sobre os bastidores da Broadway, já não sobre musicais, mas teatro “puro e duro”. Nesta altura começa a surgir o sentimento de que o teatro, apesar de menos popular (ou talvez por isso), é uma arte mais séria do que o cinema, e em vez de meninas de pernas à mostra a Broadway é agora a prova de fogo para dramaturgos e actores.

Noises Off... (1992, título português Apanhados no Acto) é outro filme injustamente esquecido pelo tempo. Realizado por Peter Bogdanovich, e baseado na peça do mesmo nome por Michael Frayn, é dos melhores exemplos de comédia física após a era de ouro com Chaplin e Keaton. Michael Caine é Lloyd Fellowes, o encenador que tenta pôr em cena Nothing On, uma comédia sexual londrina baseada em situações de gosto duvidoso e pratos de sardinhas. Durante o ensaio geral, vemos os actores esquecerem deixas, a misturar entradas e adereços, e, enfim, apercebemo-nos que as relações entre alguns deles são tudo menos profissionais. Apesar do ensaio desastroso, a peça estreia com reacções positivas da audiência, mas quando a troupe começa a tour e Lloyd se

Bullets over Broadway (1994, título português Balas sobre a Broadway) deu um Óscar de Melhor Actriz Secundária a Dianne Wiest e imensas críticas positivas a Woody Allen. Passado nos anos 20, o filme é uma estranha combinação de filme de época com diálogos allenianos. John 34


ausenta para encenar Hamlet em Nova Iorque, as relações fora do palco começam a interferir com a acção nele. Em Miami, quando Lloyd volta para ver a performance incógnito, tudo está num estado miserável. Desde actores a tentarem matar-se fora do palco, até ataques com - adivinharam - pratos de sardinhas - a produção está num estado tal que Lloyd começa a recear que a estreia na Broadway será o fim da carreira dele. Noises Off... é provavelmente das melhores comédias de sempre sobre o teatro, e merece sem dúvida ser redescoberta pelo público moderno.

super-herói. Talvez seja um filme que vive demasiado de uma inside joke para todos aqueles que tiveram oportunidade de trabalhar no teatro e no cinema, ou alguma vez puseram em dúvida a integridade artística pessoal em favor de um cheque chorudo, mas quer se queira quer não, Birdman é o filme perfeito para os tempos modernos - dando ao mesmo tempo as explosões e as conversas filosóficas. That’s all, folks.

E chegados finalmente à presente década (e decerto há esquecimentos e omissões imperdoáveis na nossa lista), temos evidentemente de terminar com Birdman. A Broadway é agora a prova de fogo para actores se afirmarem como Actores com A Maiúsculo. Michael Keaton (que quando leu o guião pela primeira vez pensou que Iñarritu estava a gozar com ele) é o actor de cinema espectáculo, conhecido por dar o corpo e voz ao superherói Birdman. Mas esses dias vão ter de ser esquecidos, porque a sua encenação de De Que Falamos Quando Falamos de Amor, baseada em Tennessee Williams, irá provar, definitivamente, que ele é muito mais do um actor ao serviço dos grandes estúdios. Filmado num aparente one shot wonder (porque a vida real não tem edição), durante duas horas vemos Riggan Thomson (Keaton) lutar entre a triste realidade de ser um actor de teatro frustrado e as explosões e cores saturadas de ser um 35


Cinema e arquitectura sempre tiveram tudo a ver. Do cinema, a arquitectura retirou o sentido de movimento, de montagem e de enquadramento. Da arquitectura, o cinema retirou um meio de exprimir significados silenciosos, de sugerir intenções e um sentido de lugar. Além disso, têm várias coisas em comum. Por exemplo, são as únicas formas de arte que exprimem, ainda que de forma diferente, a quarta dimensão; ou são as únicas expressões artísticas industriais, que exigem processos de criação colectivos, que recorrem a técnicos especializados em determinadas áreas. Uma das colaborações mais recorrentes entre cinema e arquitectura é o uso que o primeiro tem feito do segundo para se situar, tanto geográfica como temporalmente. Ou seja, normalmente os filmes recorrem aos marcos arquitectónicos das cidades para os situarem numa só imagem, de forma rápida e sem necessidade de terem que o dizer. O mais utilizado deverá ser, provavelmente, a torre Eiffel. Não há nenhum filme do mundo em que alguém viaje para Paris e não se veja da janela a torre Eiffel, independentemente da zona em que está hospedado. Além disso, há também o exemplo de filmes como Renaissance: nas panorâmicas da cidade, entre todas as estradas elevadas e prédios altíssimos, destaca-se a torre Eiffel ao centro, como uma âncora visual que ajuda a situar aquela história futurista e que nos leva a identificar-nos com aquela distopia através de um elemento que nos é familiar.

FILMES CATÁSTROFE EM NOVA IORQUE

OU QUANDO ALGO CORRE MAL EM NOVA IORQUE É SEMPRE A ESTÁTUA DA LIBERDADE QUE PAGA PEDRO SOARES

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Outra cidade em que isso acontece várias vezes é Nova Iorque, se bem que neste caso existe mais do que um marco arquitectónico de referência. Um deles era o World Trade Center. No entanto, após o 11 de Setembro, aquele que era o símbolo da alta finança ocidental passou a estar ausente de Hollywood e do nosso imaginário da mesma forma que passou a estar ausente do skyline nova-iorquino. O Empire State Building é outro dos ícones da cidade utilizado amiúde por Hollywood. O exemplo mais famoso será, sem dúvida, o de King Kong. No momento decisivo deste monster movie, Kong escala o arranha-céus novo-iorquino, na altura o edifício mais alto do planeta, num confronto simbólico entre "a oitava maravilha do mundo" e o signo do poderio dos Estado Unidos-potência mundial. Contudo, à medida que edifícios mais altos foram conquistando os céus um pouco por todo o mundo, o Empire State Building foi perdendo predominância, tanto no universo arquitectónico como nos filmes nova-iorquinos. O ícone de Nova Iorque mais utilizado pela sétima arte será, no entanto, a Estátua da Liberdade. Símbolo máximo do mundo livre e do sonho americano, dois pilares fundadores do país, continua a dar as boas-vindas a todos os que chegam aos Estados Unidos pela primeira vez - desde um jovem Robert de Niro, em The Godfather, a Marion Cotillard, no recente The Immigrant, de James Gray - desde que foi erguida em solo americano no final do século XIX. Por isso, sempre que a América está sob ataque -

e, em Hollywood, isso acontece quase todos os meses - a Lady Liberty é a primeira a sofrer. Oficialmente, o primeiro filme-catástrofe a judiar com a Estátua da Liberdade terá sido um tal de Deluge. Mas o primeiro a faze-la "perder a cabeça" terá sido Escape From NY. No clássico pose apocalíptico xunga de John Carpenter , a cabeça de Lady Liberty fez parte do poster do filme, ganhando automaticamente um lugar na iconoclastia da cultura pop. Décadas depois, JJ Abrams repetiria o truque no poster do seu Cloverfield, mas desta vez ao contrário, com o corpo decapitado da estátua em vez da sua cabeca. Também o Disaster Movie faria uma versão de um dos seus posters com a Estátua da Liberdade em apuros, mas não vamos falar disso, ok? Desde Escape From NY que a pobre estátua tem passado as passinhas do Algarve, seja destruída por extraterrestres, por ondas gigantes ou por meteoros caídos do céu. Mas existe uma série de exemplos em que a Estátua da Liberdade tem uma intervenção mais ou menos activa nos filmes. Em Artificial Intelligence, Lady Liberty tem um curto mas extremamente marcante cameo, ao aparecer submersa quando a história avança umas décadas à frente. Sem dizer nada e de forma super-eficaz, Steven Spielberg mostra o que nos arrisca acontecer com o aquecimento global e o respectivo degelo. No ridículo Superman IV - The Quest For Peace, o vilão Nuclear Man arremessa a pobre estátua contra Metrópolis 37


mundo fica oficialmente em perigo. Também em Armageddon a chuva de meteoritos que anuncia a aproximação do meteoro gigante deixa a estátua incólume, apesar de arruinar grande parte do centro da cidade. E no final do Godzilla de 1998 (novamente com o alemão Emmerich aos comandos; será que ele tem alguma coisa contra Nova Iorque?), é o Madison Square Garden, transformado em ninho gigante, quem sofre as consequências. Parece haver uma necessidade irreprimível de destruir a Big Apple no cinema. E 1998 parece ter sido o ano de todos os excessos (olá Deep Impact, olá Godzilla, olá Armageddon). Não é por acaso; é que esse foi o ano em que o mayor nova-iorquino, Rudolph Giuliani, implementou fortes políticas para "limpar" as ruas da cidade. Depois de um ligeiro abrandamento após o atentado da Al-Qaeda, a tendência parece estar a regressar. O último Godzilla já o veio mostrar. Nada que admire. Afinal de contas, Nova Iorque, com tantos monumentos icónicos, é uma das cidades mais reconhecíveis do mundo. A Estátua da Liberdade é que tem que se cuidar; sempre que vir a situação a ficar preta é melhor prepararse, porque a probabilidade de vir a ficar sem cabeça é grande.

e é o Super-Homem, arranhado radioactivamente(!), que a consegue segurar por um dedo antes que pudesse causar estragos, recolocando-a sã e salva no seu pedestal. E em X-Men, a própria estátua é o centro do plano maléovolo de Magneto para controlar a população, numa irónica analogia de utilizar o símbolo da liberdade para escravizar a humanidade. Felizmente, tudo corre bem e a estátua sai do confronto ilesa, apenas com umas arranhadelas das garras do Wolverine. Mas o momento alto da Estátua da Liberdade na sétima arte será, porventura, em Planet Of The Apes. Num dos twists mais brutais do cinema, Lady Liberty - assim como o overacting de Charlton Heston relocalizam o filme, tanto geográfica como temporalmente, ao mesmo tempo. Um truque narrativo perfeito que explica todo um filme sem necessitar de uma única palavra. Mais tarde, no seu remake do filme, Tim Burton daria a sua própria versão dos eventos e trocaria a Estátua da Liberdade pelo Memorial Lincoln. Diferente monumento, o mesmo efeito. Mas Nova Iorque não é apenas a Estátua da Liberdade e, ao longo dos anos, têm havido outros monumentos a sofrer nas mãos dos filmescatástrofe. Antes de The Day After Tomorrow, Roland Emmerich já tinha enxovalhado a Big Apple e sem tocar na Lady Liberty. Em Independence Day é o edifício Chrysler que tem a honra de ser destruído pelo laser de boas-vindas dos extraterrestres que chegam à Terra com intenções de poucos amigos. Mas é só quando fazem o mesmo à Casa Branca que o 38


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HISTÓRIA(S) DE NOVA IORQUE Tal como todo o território americano quando foi “descoberto” pelos europeus, a zona de Nova Iorque era habitada por tribos nativas, sendo que terá sido mesmo uma embarcação espanhola comandada pelo navegador e cartógrafo português Estêvão Gomes, das primeiras a atracar no porto da cidade. Posteriormente, equipas de exploradores holandeses e ingleses bateram-se pela posse do território, tendo este acabado por tomar o nome de New York em honra do Duque de York (futuro rei de Inglaterra). O início da própria História da cidade está marcado por uma crise de identidade que, mesmo depois da independência dos Estados Unidos, se tornou marcante. Ao longo dos séculos, Nova Iorque tornou-se no ponto de chegada de imigrantes em busca de um futuro risonho que não conseguiam encontrar nomeadamente no outro lado do Atlântico. Chegados de todo o lado, desde refugiados europeus a escravos africanos, o território rapidamente ficou marcado por uma heterogeneidade que ainda hoje prevalece. Nas próximas páginas vamos recordar esse passado conturbado, e tentar perceber um pouco melhor como a cidade se tornou naquela tal como hoje a conhecemos.


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Título nacional: Gangs de Nova Iorque Realização: Martin Scorsese

GANGS OF NEW YORK

Elenco: Leonardo Dicaprio, Daniel Day-Lewis, Cameron Diaz

2002 PEDRO SOARES

É uma epopeia familiar da espécie de O Padrinho, mas com americanos do século XIX em vez de italianos. Gangs de Nova Iorque conta a ascensão e a queda de várias personagens, mas no fundo tudo é resumido ao milésimo tributo às mãos que construiram a América, terminando numa epifania de que todos somos iguais e há que lutar em conjunto por ideais semelhantes. Faltou apenas uma bandeira americana defraldada ao vento e alguns violinos na banda-sonora para Michael Bay ficar orgulhoso de Martin Scorsese. Não houve bandeira, mas houve um plano do então já destruído World Trade Center...

Para além de ter sido fundada nas ruas, como indica a tagline que promove este filme, Nova Iorque foi erguida por bandidos, ladrões, aldrabões e demais criminosos, apoiada em pilares como a corrupção ou o tráfico. Toda a gente sabe isso e, se continuar a ser dito, irá transformarse num lugar comum. No entanto, para entender verdadeiramente o alcance destas palavras há que ver filmes como Gangs de Nova Iorque ou então ler livros como Filha da Fortuna, de Isabel Allende, só para mencionar um dos mais acessíveis. Gangs de Nova Iorque é um projecto de Martin Scorsese que se arrastou desde os anos 70 e que, inicialmente, era para contar com os Clash. Sim, esses mesmos! E, tal como a maioria da filmografia do realizador, ambienta-se no universo subterrâneo da sua tão amada Nova Iorque. A diferença é que, em vez da comunidade italiana e da máfia, aqui temos a comunidade irlandesa, num recuo ao século XIX, quando Nova Iorque era (ainda mais) uma miscelanea de culturas e povos, numa mistura intercultural explosiva.

Contudo, não se pense que Gangs de Nova Iorque é uma banhada patriota ou um simples melodrama construído de baba e ranho. Antes de mais é um excelente pedaço de entretenimento: Martin Scorsese sabe criar atmosferas vibrantes e pujantes, como a reconstituição que faz daquela Nova Iorque comandada por várias gangues, sempre ao som marcial de tambores e flautas de guerra, que nos mantêm em guarda. Infelizmente, a história acaba por ser um pouco retalhada por imperativos de tempo. Não é admirar que a versão inicial do filme tivesse uma hora a mais. É que conseguimos praticamente visualizar os metros de película que ficaram perdidos no chão do estúdio de edição. E por falar em retalhar, nada melhor do que terminar esta prosa com um parágrafo dedicado ao magnífico Daniel Day-Lewis (todas as vénias do mundo nunca serão suficientes), na pele de um cruel e desvairado talhante. Psicopata com olhos de louco e um bigode arrebitado nas pontas que lhe dá um ar de artista de circo dos infernos, Day-Lewis é demasiado cruel para o próprio argumento. Vê-se claramente que ele pede ansiosamente por banhos de sangue em todas as cenas em que aparece, mas Martin Scorsese nunca tem coragem de as dar. É pena, Gangs de Nova Iorque teria sido duplamente melhor.

Baseado livremente em factos reais, Gangs de Nova Iorque é um épico melodrama de época e uma espécie de tragédia shakespeariana, que aborda a origem de um conflito mal resolvido entre a comunidade irlandesa nova-iorquina e os nativos americanos. De um lado há Amsterdam (Leonardo DiCaprio), o filho do antigo líder dos irlandeses (Liam Neeson), que tem como único objectivo de vida vingar-se do assassino do seu pai: o carismático, carniceiro e sádico líder dos nativos americanos, Bill Cutting (Daniel Day-Lewis). A sua vendetta pessoal vai transformar-se numa jornada que vai reabilitar esse confronto antigo, num país claramente paradoxal: numa terra fundada por estrangeiros, a xenofobia é o sentimento mais comum.

“(...)milésimo tributo às mãos que construiram a América(...)” 43


Título nacional: A Emigrante Realização: James Gray

THE IMMIGRANT

Elenco: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner

2013 JOÃO PAILO COSTA

Quando Ewa e Magda chegam, em 1921, ao porto de Ellis Island provenientes da sua Polónia natal, Magda fica retida de quarentena devido a uma doença contraída na viagem, deixando Ewa (Marion Cotillard) entregue à sua sorte nas ruas da grande cidade para a qual partiram em busca de um sonho que depressa se ameaça tornar em pesadelo. Sem ter para onde se virar, esta encontra Bruno (Joaquin Phoenix), que lhe oferece amparo mas aos poucos vai revelando as suas reais intenções.

pouco o artifício e a gordura narrativa, preocupando-se acima de tudo com as suas personagens e com aquilo que cada cena acrescenta ao seu filme. É extremamente comovente a forma como este pinta a cidade numa época conturbada do seu crescimento, e acima de tudo como as suas personagens encaixam nessa tragédia - Cotillard e Phoenix são fabulosos enquanto carregam esse peso no olhar: a força dela perante as adversidades (que Gray filma como uma autêntica estrela do cinema mudo), e as contradições de personalidade dele, entre o mais sombrio e o mais afectuoso. Esta será porventura uma das mais pungentes relações que o cinema americano nos ofereceu nos últimos anos, que culmina naquele que é talvez o mais belo plano da carreira do cineasta.

Baseado em parte na História da sua própria família de emigrantes que chegaram de barco a Nova Iorque no início do século passado, James Gray confirma com A Emigrante aquilo que vinha fazendo praticamente desde o início da sua carreira - que é não só um dos principais cronistas cinematográficos de Nova Iorque, como também um dos verdadeiros herdeiros do cinema clássico norte-americano. A Gray interessam-lhe

“(...)uma das mais pungentes relações que o cinema americano nos ofereceu nos últimos anos(...)”

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Título nacional: A Idade da Inocência Realização: Martin Scorsese

THE AGE OF INNOCENCE

Elenco: Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer, Winona Ryder

1993 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Para quem se habituou a um Scorsese mais próximo das ruas sujas de Nova Iorque dos anos 1970-80 a estreia de um filme de época como A Idade da Inocência decerto terá sido uma surpresa e tanto. Mas, apesar de longe do seu habitat natural, o retrato que o realizador faz da alta sociedade nova-iorquina do final do século XIX está ao nível dos seus melhores filmes e não é exagero considerá-lo uma obra-prima.

esses detalhes são filmados, através de uma tão perfeita utilização da Steadicam, que é usada e abusada ao longo do filme sem nos enjoar, torna cada jantar, cada festa, cada espectáculo de ópera um bombom para o olhar. Com A Idade da Inocência Scorsese corre o risco de nos encaminhar para o pecado da gula cinéfila sem darmos por isso. Anos mais tarde, em Gangues de Nova Iorque, o realizador regressaria a este mesmo período histórico, a esta mesma cidade, para mostrar o outro lado da moeda onde o mundo limpo e inocente de uma elite que tenta imitar uma certa ideia de monarquia que não existe é substituído por um feio e sujo submundo onde reinam os restos mais baixos da sociedade nova-iorquina do final do século XIX. Scorsese regressa ao seu barro preferido, mas o resultado não seria o mesmo.

Olhando de perto para os detalhes (e A Idade da Inocência é sem sombra de dúvida um filme onde há muitos detalhes para reparar, basta estar atento a um certo realizador disfarçado de fotógrafo que por lá aparece) constatamos que afinal o universo de Scorsese não anda assim tão longe. A apresentação desta alta sociedade não é feita de forma tão diferente como o método que utilizou para apresentar a trupe de mafiosos de Tudo Bons Rapazes, título realizado três anos antes. E a forma como

“(...)está ao nível dos seus melhores filmes e não é exagero considerá-lo uma obra-prima.”

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Título nacional: Era Uma Vez na América Realização: Sergio Leone

ONCE UPON A TIME IN AMERICA

Elenco: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern

1984 FILIPE LOPES

Era Uma Vez na América é o filme que Sergio Leone levou a vida inteira a querer fazer e que foi adiando quase ad aeternum, por esta ou por aquela razão, acabando lamentavelmente por ser o último trabalho da sua demasiado curta carreira como realizador.

final dos Anos 1960, acompanhando Noodles (De Niro) durante todo esse período e a sua relação com Max (Woods) e restantes amigos, desde que eram aprendizes de bandidos na adolescência, até ao seu estágio final de gangsters do mais selvagem que foi visto no cinema. Era Uma Vez na América é sobre a amizade e a lealdade, mas também sobre a traição e a ganância e, se há um filme do cinema moderno (pode-se perfeitamente chamar “moderna” a esta obra com 30 anos) que conte a história, ou pelo menos uma significativa parte dela, de cinco décadas da Nova Iorque do século XX, esse filme é com toda a certeza este. Um épico com quatro horas a que se assiste com sofreguidão e ao qual a música assinada por Ennio Morricone oferece um brilho ainda mais sublime.

Existem três versões diferentes desta obra. A versão europeia, com 229 minutos, a versão do realizador com 251 minutos e versão americana, com 139 minutos. Esta última, fruto de mutilação por razões puramente economicistas (foram retirados 90 minutos e as cenas mais violentas), não a vou comentar porque considero que não interessa ver, mas qualquer uma das outras mostra um épico brutal e cruel, mas portentoso, genial e complexo na história (foram 16 mãos a escrever o argumento) e na forma como ela nos é apresentada. A narrativa não é linear (há saltos temporais para a frente e para trás), mas situa-se entre o princípio dos Anos 1920 e o

“(...) um épico brutal e cruel, mas portentoso, genial e complexo na história(...)”

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CASOS DE POLÍCIA Polícias bons e polícias maus, mafiosos de origens diversas, políticos corruptos, traficantes de droga, perseguições espectaculares... no cinema não faltam estórias recheadas destes condimentos, e Nova Iorque não poderia ser excepção. As suas ruas densamente povoadas e delimitadas por gigantescos edifícios são o local ideal para contar uma boa narrativa de crime. Historicamente, na chamada era “pre-Giuliani” (mayor da cidade entre 1994 e 2001), muitas dessas ruas eram locais pouco recomendáveis e a criminalidade, infelizmente, ascendia a números preocupantes. Hoje há quem se queixe exactamente do contrário, de que a cidade está transformada num caro e gigante parque de diversões, demasiado higienizado, mas nas próximas páginas iremos recordar algumas das mais tensas jornadas de crime imortalizadas em celulóide – de impérios mafiosos a polícias implacáveis.


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THE GODFATHER THE GODFATHER: PART II THE GODFATHER: PART III

Título nacional: O Padrinho | O Padrinho: Parte II | O Padrinho: Parte III Realização: Francis Ford Coppola Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, Robert Duvall, James Caan Al Pacino, Robert De Niro, Robert Duvall, Michael V. Gazzo, Lee Strasberg, Talia Shire

1972 | 1974 | 1990

Al Pacino, Andy Garcia, Diane Keaton

FILIPE LOPES

Esta é, provavelmente, a melhor trilogia da história do cinema, realizada por um dos nomes, hoje, mais consagrados do cinema americano (Francis Ford Coppola) e com a interpretação assegurada por alguns dos mais geniais actores de pelo menos duas gerações. O Padrinho (1972) mostra-nos um chefe de uma família mafiosa, Don Vito Corleone, em meados do século XX (a acção começa em 1945), no apogeu do seu poder e a pensar na sua sucessão, que acabaria por ser tudo menos pacífica, como convém num filme de gangsters que se preze. A segunda parte, feita em 1974, ramifica-se em duas histórias contadas paralelamente: uma remete-nos à juventude desse mesmo Vito Corleone, o seu crescimento na Sicília e a sua ascensão ao poder em Nova Iorque; a outra acompanha a vida de Don Michael Corleone, filho de Vito e o actual chefe da família do crime, nos Anos 1950, na altura em que este pretende alargar a área geográfica dos seus negócios e poder para o Nevada (Las Vegas), para a Califórnia (Los Angeles) e até para Cuba. A terceira parte, filmada 16 anos depois da segunda, foca-se num já envelhecido Michael Corleone, que criara a Fundação Vito Corleone para fins de caridade e que se esforça para legitimar os negócios da família, enquanto prepara, tal como o pai já fizera na primeira parte, a sua sucessão. No seu caso, porém, através do jovem Vinnie Mancini, um protegido seu que é, ao mesmo tempo, filho ilegítimo do seu irmão Sonny, assassinado no primeiro tomo da trilogia. Isto tudo junto e visto de seguida, é uma saga de contornos épicos com cerca de 9 horas de duração, que abarca grande parte da história nova-iorquina e americana do século XX, com piscadelas de olho, aqui e ali, ao que se ia passando na Europa, sobretudo em Itália (a morte do papa João Paulo I, por exemplo) durante o mesmo período, interligando de forma inteligente eventos reais com ficção. Embora o terceiro filme tenha uma qualidade inferior à dos outros dois (o que não admira porque ambos são obras-primas absolutas), estamos a falar de uma verdadeiramente homérica aventura pelos meandros do crime

organizado e das várias famiglias que lutam pelo poder e pelo lucro, com códigos de honra bem definidos, num mundo onde a traição e a vingança têm a morte como paga e como fim último, respectivamente, perfeitamente legitimado pelas demais. Mario Puzo, escritor do romance original, divide com Coppola a assinatura do argumento, que dá às personagens enorme profundidade dramática e grande complexidade, exigindo bastante dos actores, que, à excepção de Sofia Coppola (claramente um erro de casting e que para nossa felicidade decidiu posteriormente enveredar pela realização), correspondem em absoluto ao que lhes é pedido. Como que a comprová-lo estão, no conjunto dos três títulos, dez nomeações para interpretação – Marlon Brando (que ganhou como actor principal), Al Pacino (duas vezes nomeado, uma como principal e outra como secundário), Robert De Niro (que ganhou como secundário) James Caan, Robert Duvall, Michael V. Gazzo, Lee Strasberg, Talia Shire e Andy Garcia, todos estes nomeados como secundários. Nino Rota, habitual colaborador de Fellini e Visconti, assina uma banda sonora deliciosa, cujo tema principal figura ainda hoje nos compêndios da grande música escrita para cinema; a recriação das várias épocas é praticamente isenta de falhas, quer no que concerne ao guarda-roupa, quer na reprodução dos locais; e, claro, F. F. Coppola dirige a orquestra com mãos de génio, mostrando uma história sobre violência, corrupção e ganância, com muito sangue e mortes à queima-roupa, mas sempre com uma espécie de “ternura negra”, mesmo na mais cruel das cenas. Sobretudo os dois primeiros filmes figurarão, com toda a certeza, por muitos anos, na prateleira das obras maiores do cinema americano de sempre.

“(...)a melhor trilogia da história do cinema(...)” 51


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Título nacional: Os Incorruptíveis Contra a Droga Realização: William Friedkin

THE FRENCH CONNECTION

Elenco: Gene Hackman, Roy Scheider, Fernando Rey

1971 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Quando se fala na estética dos policiais produzidos durante a década de 1970, há vários filmes que podem vir à discussão, mas se há título que consegue resumir toda esse universo, esse é Os Incorruptíveis Contra a Droga. Realizado por William Friedkin, que aqui atingiu o ponto máximo da carreira e que lhe valeu uma boa mão cheia de Óscares numa só assentada, o filme baseia-se num livro de não-ficção escrito por Robin Moore sobre uma dupla de detectives da unidade de luta contra o narcotráfico da Polícia de Nova Iorque. A partir da obra literária homónima, Friedkin segue de perto a investigação de um caso de tráfico de droga cujas pistas iniciais aparentam levar a um beco sem saída. Será a persistência dos dois detectives, sobretudo Popeye Doyle (Gene Hackman), que acabará por colocá-los no encalço de uma rede de criminosos franceses, de onde vem a tal ligação francesa do título original, que caiu por terra na tradução feita para Portugal. O termo French Connection era aliás utilizado à época para aludir ao facto de grande parte da heroína que entrava em território norte-americano ter origem em redes francesas que faziam a ponte do transporte daquele estupefaciente da Turquia para os EUA e Canadá. Apesar de ficcionais, todas as personagens do filme têm origem em pessoas reais que estiveram envolvidas em esquemas de tráfico de droga. Mas não é na história do narcotráfico que se centra Os Incorruptíveis Contra a Droga, antes no trabalho de campo da dupla de detectives cuja representação vai ser fulcral para que o filme se tenha tornado como emblemático dos policiais da década de 1970. E aqui as ruas de Nova Iorque, sujas e violentas, como reconhecemos a cidade daquela época, conquistam por direito próprio o estatuto de ‘actor secundário’, pois é lá que decorre grande parte da acção. São poucas as cenas que têm lugar em interiores, mesmo que estas sejam também fundamentais, como é o caso, por exemplo, do primeiro encontro entre Popeye e o cabecilha

da rede francesa, Alain Charnier, que começa num hotel e termina numa das suas sequências mais memoráveis, numa estação de metro onde finalmente o criminoso se apercebe da presença do rival e lhe passa a perna numa célebre sequência de abertura a fecho de portas. Além deste momento, o metropolitano nova-iorquino é também um dos protagonistas de outra das cenas marcantes de Os Incorruptíveis Contra a Droga: uma fabulosa corrida com cerca de 10 minutos em que Popeye persegue num automóvel a carruagem de metro onde se encontra um dos membros do grupo de criminosos. Apesar de ser uma das mais empolgantes perseguições da história do cinema, esta sequência é simultaneamente bastante polémica, pois diz-se que, na tentativa de tornar o filme mais realista, Friedkin terá filmado a cena com um duplo a conduzir o carro em ruas onde os peões e outros condutores não tinham conhecimento do que estava a acontecer. O resultado é magistral e tornou esta sequência imprescindível para todos os que gostam de um bom filme de acção com os nervos à flor da pele. Para captar este negrume nova-iorquino William Friedkin recorreu a todos os truques do livro de estilo dos policiais da década de 1970, desde a utilização da câmara à mão, método que vai buscar ao seu início de carreira na área do documentário (o realizador admitiu que utilizou esta técnica precisamente para dar uma carga mais documentarista ao filme), até aos populares zooms apertados. Curiosamente a melhor cena com esta última técnica não tem lugar em Nova Iorque, mas antes numa sequência praticamente silenciosa filmada em Marselha. Juntando estas características a um elenco de luxo, que não era de todo o imaginado inicialmente por Friedkin antes de realizar o filme (tanto Gene Hackam como Fernando Rey não foram primeiras escolhas), Os Incorruptíveis Contra a Droga marcou definitivamente uma época e um estilo.

“(...) aqui as ruas de Nova Iorque, sujas e violentas (...) conquistam por direito próprio o estatuto de ‘actor secundário’(...)” 53


Título nacional: Tudo Bons Rapazes Realização: James Gray

GOODFELLAS

Elenco: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner

1990 CÁTIA ALEXANDRE

Goodfellas é uma das mais completas obras cinematográficas de sempre e um dos filmes de gangsters mais conhecidos e elogiados. Com uma realização impecável (do grande Martin Scorsese) e interpretações memoráveis, vinte e cinco anos se passaram e Goodfellas continua a ser um clássico intemporal. Henry Hill (Ray Liotta) narra o decorrer da vida de poder e luxo que adquiriu quando decidiu ser gangster - "As far back as I can remember I've always wanted to be a gangster" - diz-nos Henry na famosa frase de abertura do filme, e bem cedo percebemos que esta será uma fascinante viagem sobre uma vida de sonho que rapidamente passa para o lado negro e obscuro da perigosa hierarquia da máfia italiana. Desde os seus tempos de juventude à ascensão no mundo do crime, vamos acompanhando o seu desenvolvimento, vitórias e fracassos, num argumento inteligente e brilhantemente interpretado.

De uma excelente cinematografia e edição ao uso fantástico de música bem enquadrada a cada uma das situações, Martin Scorsese aplica todo o seu enorme conhecimento e técnicas características, que hoje servem de inspiração a inúmeros realizadores de referência. As performances são mais um dos aspectos que o tornam memorável: Robert De Niro, Joe Pesci e Ray Liotta formam um trio com uma química e cumplicidade de tal ordem que facilmente acreditamos na relação e laços entre os personagens. Cada revisionamento de Goodfellas é como uma nova experiência. O brilho que emana assim permanece e não se quer perder, ajudando-nos a recordar a diferença entre os bons e os maus filmes.

“(...)As far back as I can remember I’ve always wanted to be a gangster(...)”

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Título nacional: Polícia Sem Lei Realização: Abel Ferrara

BAD LIEUTENANT

Elenco: Harvey Keitel, Frankie Thorn, Paul Hipp

1992 PEDRO SOARES

Polícia Sem Lei é uma história crua e perturbadora, mas sem Keitel dificilmente o filme fugiria ao rótulo de pretensioso. Como costume, o actor não se coíbe de arriscar num papel polémico e até duvidoso - a cena em que assedia duas adolescentes num automóvel, enquanto se masturba, é mítica -, entregando-se de corpo e alma, mesmo quando tem de aparecer em nú frontal. E Keitel a chorar é das coisas mais intensas do cinema, mesmo que pareça que está a imitar o Chewbacca.

Antes de andar a reler figuras verídicas, Abel Ferrara construiu uma obra a partir de um cinema independente com influência nos autores europeus, ambientado na sua Nova Iorque natal. Polícia Sem Lei é um desses filmes e um dos mais interessantes da sua filmografia. O polícia de quem fala o título é Harvey Keitel, tão durão quanto corrupto e viciado na coca, no jogo e nas perversões do sexo, em queda livre em direcção ao abismo. Paralelamente, decorre a investigação a uma brutal violação de uma freira, que mais não é que a sua última via de redenção. Ferrara filma com um interesse mórbido e cruel o definhar de Keitel. É a humanização do pecador, temática constante na sua obra, assim como um piscar de olho às regras cristãs - Keitel acaba mesmo num confronto cara-a-cara com o próprio Jesus Cristo. Castigar com a espada de fogo ou dar a outra face?

É ténue o risco que separa a provocação do abuso, mas a diferença entre ambos é abismal. E Polícia Sem Lei consegue o raro feito de provocar sem abusar - mesmo com freiras sodomizadas, igrejas profanadas ou Jesus vilipendiado. E, no final, Ferrara ainda nos tira o tapete, dando-nos um soco em cheio no estômago. Acusado por muitos, desprezado por outros tantos e polémico - é assim Polícia Sem Lei. “(...)Ferrara filma com um interesse mórbido e cruel o definhar de Keitel.(...)”

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Título nacional: Um Dia de Cão Realização: Sidney Lumet

DOG DAY AFTERNOON

Elenco: Al Pacino, John Cazale, Penelope Allen

1975 JOÃO PAILO COSTA

Dois anos depois de Serpico, Al Pacino e Sidney Lumet voltaram a colaborar num projecto novamente inspirado numa história verídica, desta vez sobre o assalto a um banco em Brooklyn, e ambos são claros desde os primeiros minutos ao mostrar-nos as estranhas peculiaridades dos acontecimentos. Rapidamente percebemos que o Sonny de Pacino está longe de ser uma grande mente criminosa, mas sim um homem descontrolado que se colocou numa situação limite sem saber muito bem como lidar com ela. Um dos seus companheiros de assalto abandona-os imediatamente, depois de perceber que não tem estômago para tomar parte da golpada, e o outro (John Cazale) parece pouco preocupado com o resultado final – ou escapa com o dinheiro, ou morre pela própria mão: tudo menos voltar para uma prisão. Toda uma estranha sensação percorre o filme de Lumet, com uma espécie de sentido de humor evidente na incapacidade dos assaltantes, ao mesmo

tempo que o circo montado no exterior do banco (pela polícia, pelos media que procuram explorar ao máximo a situação nos noticiários e, claro, pela população local) parece abafar o espectador de igual forma, construindo uma tensão que vai aumentando gradualmente à medida que melhor ficamos a conhecer o seu protagonista e as verdadeiras razões por detrás do assalto. Sonny vai-se despindo emocionalmente a cada minuto, e aquele que parecia inicialmente um patético fora-da-lei, revela-se uma personagem mergulhada num profundo tumulto interior – a pressão familiar, a relação conturbada com a mulher e as filhas, e uma relação extra-conjugal inesperada que, quando revelada, o conjunto realizaçãoescrita-actores torna numa das mais trágicas do cinema do seu tempo.

“(...)uma tensão que vai aumentando gradualmente à medida que melhor ficamos a conhecer o seu protagonista(...)”

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Título nacional: Serpico Realização: Sidney Lumet

SERPICO

Elenco: Al Pacino, John Randolph, Jack Kehoe

1973 JOÃO PAULO COSTA

Um dos mais marcantes títulos da dupla Al Pacino/Sidney Lumet, Serpico é baseado nos 12 anos de carreira do agente Frank Serpico no Departamento Policial de Nova Iorque, onde foi desmascarando diversos casos de corrupção. Logo na primeira cena, encontramos Serpico baleado enquanto é conduzido até ao hospital, ao mesmo tempo que uma série de cenas paralelas fazem passar a palavra do incidente, dando início a um longo flashback que nos introduzirá à personagem – que, desde cedo, percebemos ter uma verdadeira paixão pelo trabalho e pela vida e uma incapacidade especial para se deixar influenciar ou desviar dos seus objectivos – seja pelas mulheres, seja pela pressão dos colegas do departamento.

do realismo necessário ao ambiente das personagens, mas ao mesmo tempo suficientemente discreta para deixar brilhar os seus actores – não fosse ele um homem do teatro, envolvido desde o primeiro momento no agora famoso Actors Studio – em especial Pacino que domina praticamente todas as cenas com o seu habitual registo explosivo. Grande sucesso de bilheteiras em 1973, com alguns prémios e nomeações à mistura, Serpico permanece, mais de 40 anos passados sobre a sua estreia, como um seminal filme policial de uma época em que o país ainda lidava com o problema Vietname e a cidade de Nova Iorque vivia alguns dos seus episódios mais tumultuosos, no meio de esquemas de corrupção entre forças policiais e políticas, e confrontos raciais.

Tal como habitualmente, a realização de Lumet parece acertar em cheio na decomposição de cada cena, com o seu registo certeiro na captação “(...)realismo necessário ao ambiente das personagens, mas ao mesmo tempo suficientemente discreta para deixar brilhar os seus actores(...)”

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GLORIA

CARLITO’S WAY

TIAGO SILVA

JOÃO PAULO COSTA

Na sua oitava de dez colaborações com Cassavetes, a mítica Gena Rowlands oferece em Gloria uma interpretação que eleva a protagonista, que dá nome ao filme, ao panteão das suas mais carismáticas personagens. Figurando ao lado de Sarah em Amantes ou de Myrtle em Noite de Estreia, esta é alguém em constante fuga e luta pela sobrevivência — da máfia, de Nova Iorque e de si mesma. Pensado inicialmente enquanto guião que venderia a um grande estúdio, Gloria acabou, felizmente, por ser realizado pelo próprio Cassavetes com a sua marca inconfundível a pedido da actriz. Sendo os primeiros filmes de gangsters da Warner Brothers a principal referência que determinou a forma como o filme se organiza, Gloria é figura animada pelo próprio cinema e pelos típicos mistérios do noir em que se envolve.

Tal como Scarface, Perseguido Pelo Passado reúne o realizador Brian De Palma a um Al Pacino em grande forma que dá corpo a um gangster hispânico. Mas ao contrário do trabalho produzido uma década antes, as paisagens exóticas de Miami são trocadas por um bairro porto riquenho do Bronx, e os abusos operáticos abrandam um pouco, dando lugar a uma abordagem (ligeiramente) menos excessiva, mas nem por isso menos estilizada. Obra-prima do cinema de gangsters ainda algo esquecida, o filme conta ainda com um grande desempenho de Sean Penn como um traiçoeiro advogado da máfia, e algumas das mais extraordinárias sequências de toda a carreira de Brian De Palma, conseguindo elevar os níveis de suspense ao limite do suportável, mesmo que o espectador saiba desde início como tudo vai acabar…

Título nacional: Glória

Título nacional: Perseguido Pelo Passado

Realização: John Cassavetes

Realização: Brian De Palma

Elenco: Gena Rowlands, Buck Henry, Julie Carmen

Elenco: Al Pacino, Sean Penn, Penelope Ann Miller

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WE OWN THE NIGHT

DIE HARD: WITH A VENGEANCE

PEDRO MIGUEL FERNANDES

JOÃO PAULO COSTA

Ao terceiro filme de James Gray, o realizador de Nova Iorque volta a centrar-se numa história familiar, meio bastante presente na sua obra. Desta feita Nós Controlamos a Noite leva-nos ao submundo novaiorquino do final dos anos 1980 para contar uma espantosa história de um triângulo familiar que coloca membros dos dois lados da barricada: dois polícias e um gerente de discoteca transformada em gabinete de um traficante de droga russo. Acompanhado de um excelente elenco, encabeçado por Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg e o veterano Robert Duvall, assente numa excelente reconstituição de época (a banda sonora ajuda bastante a recriar as míticas discotecas de Nova Iorque), Gray surge em grande forma e assina aqui mais um dos seus puros dramas familiares em tom de policial.

Ao terceiro capítulo da série, o detective John McClane (Bruce Willis) teve finalmente a oportunidade de mostrar, na sua Nova Iorque natal, a fibra de que é feito - depois de passagens pelo arranha-céus de Los Angeles e pelo aeroporto de Washington. Contando com a ajuda de um comerciante do Harlem (Samuel L. Jackson, reunindo dois actores fresquinhos do sucesso de Pulp Fiction), ambos irão tentar travar as ameaças terroristas de um vilanesco Jeremy Irons que deixam a cidade em polvorosa. Com John McTiernan em grande forma atrás das câmaras, a acção e a comédia fundem-se na perfeição neste blockbuster divertidíssimo, recheado de emoções fortes e um sentido de humor absolutamente certeiro, que fazem de Die Hard: A Vingança, um dos melhores filmes de acção da década de 1990.

Título nacional: Nós Controlamos a Noite

Título nacional: Die Hard: A Vingança

Realização: James Gray

Realização: John McTiernan

Elenco: Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Eva Mendes

Elenco: Bruce Willis, Jeremy Irons, Samuel L. Jackson

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SOMBRAS DE NOVA IORQUE Bebés demoníacos, veteranos de guerra alienados, bailarinas demasiado competitivas, assassinos em série, orgias sinistras... Se Nova Iorque é por muitos considerada a cidade do amor eterno, o Cinema tem feito também por a tornar num espaço propício aos contos mais sinistros. Seja por cineastas conhecidos pelas suas obras de orçamento limitado como Lucio Fulci, sejam reconhecidos mestres da História do Cinema como Alfred Hitchcock ou Stanley Kubrick, as movimentadas ruas da cidade foram sendo vistas ao longo dos tempos também como um espaço de terror e violência. Não faltam exemplos, como aqueles que veremos já de seguida, e muitos outros que ficam por recordar, que confirmam esta esta ideia. Da próxima vez que visitar Nova Iorque tenha cuidado, não vá entrar por engano num covil de bruxas vingativas ou algo do género...


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Título nacional: A Semente do Diabo Realização: Roman Polanski

ROSEMARY’S BABY

Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon

1968 PEDRO SOARES

Quando Roman Polanski estreou A Semente do Diabo, completava assim a sua trilogia dos apartamentos: três filmes ambientados em espaços fechados, caracterizados pela claustrofobia, a paranóia e o clima sufocante e obscuro. O terror psicológico era aqui redefinido, pelo menos até William Friedkin estrear, uma década depois, O Exorcista. E tentar escolher qual dos três é o melhor - A Semente do Diabo, O Inquilino e Repulsa - é como ter que escolher de quem se gosta mais, do pai ou da mãe.

Mia Farrow brilha no papel da empenhada heroína, que tenta a todo o custo salvar o seu bebé, até terminar num final assombroso. A outra presença feminina, Ruth Gordon, também tem os seus momentos altos e ainda hoje continua a ser a idosa mais barulhenta do cinema, fazendo o contraponto perfeito para com a frágil Farrow (que, a meio, tem coragem suficiente para cortar o seu cabelo à rapaz e, mesmo assim, continuar deslumbrante). E o triângulo fica completo com a presença de John Cassavetes, recordado pela sua obra ímpar enquanto realizador (também ele um autor muito ligado a Nova Iorque, como poderemos comprovar noutras páginas desta edição) e muitas vezes esquecido enquanto actor. Polanski agarra no tema do satanismo e trata-o como Hollywood poucas vezes o fez: sem assassinatos sangrentos, possessões assustadoras ou cabeças a andar à roda e a vomitar sopa de ervilhas, como é normal nos filmes sobre o tema, preferindo o realismo ao sensacionalismo gratuito.

Mas vamos então a A Semente do Diabo, que é sobre ele que este texto se debruça. Rosemary (Mia Farrow) e Guy Woodhouse (John Cassavetes), recém-casados, mudam-se para um antigo apartamento recheado de histórias misteriosas de antigos residentes, daqueles que facilmente diríamos estar assombrado. E a rápida amizade com o casal de idosos vizinhos, Minnie (Ruth Gordon) e Roman Castevet (Sidney Blackmer), que começa por ser divertida e agradável, toma um imprevisto caminho, ao acabar por se tornar num pesadelo de contornos de culto satânico, com o útero de Rosemary (e o bebé que daí há de vir) como alvo derradeiro.

A Semente do Diabo é um filme extremamente perturbador, uma obra obrigatória para todos os amantes do cinema de terror, que deu cartas para uma série de títulos posteriores, de O Advogado do Diabo a Birth – O Mistério. Forte e intenso, o filme consolidou um jovem realizador ao mesmo tempo que, qual sinal promonitório, antecedeu uma das grandes tragédias da sua vida (que está cheia delas, incluindo fugas ao regime nazi ou acusações – e condenações – por pedofilia): poucos meses depois, a sua casa era invadida pela Family, a seita de Charles Manson, que, para além de outras pessoas, assassinaram a sua esposa, Sharon Tate, sob contornos macabros e com requintes de malvadez. Não se deve brincar com estas coisas, disse-se na altura...

Polanski é um minucioso contador de histórias. Com uma precisão de filigrana, a narrativa inicia-se muito lentamente e começa a ser polvilhada, lenta e gradualmente, por estranhos excertos de canções cavernosas, misteriosos objectos e inquietantes acções, que vão desaguar numa catarse de rituais assombrosos e de cultos demoníacos. Ainda hoje, quando ouvimos um inesperado bebé a chorar ao longe e sentimos um arrepio, isso deve-se à icónica theme-song de A Semente do Diabo. Lentamente, somos apanhados numa avalanche arrepiante de um complot satânico, em que todos estão virados para o útero de Rosemary. Ou será que é tudo fruto da paranóia da sua cabeça, afectada por passar tanto tempo sozinha naquele aparamento?

“Ainda hoje, quando ouvimos um inesperado bebé a chorar ao longe e sentimos um arrepio(...)” 63


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Título nacional: Taxi Driver Realização: Martin Scorsese

TAXI DRIVER

Elenco: Robert De Niro, Jodie Foster, Cybill Shepherd

1976 CÁTIA ALEXANDRE

Mesmo quem nunca tenha visto Taxi Driver com certeza que se lembra de ter visto algures a famosa cena de Travis Bickle de pistola em punho em frente a um espelho – “Are you talkin’ to me?” – cena essa que define de forma impecável toda a inteligência e metáfora de um dos mais significativos thrillers dos anos 70 e um dos melhores filmes da carreira de Martin Scorsese. Travis Bickle (Robert De Niro) é um homem instável marcado pela guerra. Ele trabalha durante o turno da noite, conduzindo um táxi pelas ruas de Nova Iorque. Aos seus olhos a sociedade está cada vez mais suja e decadente e a sua vontade de mudança alimenta um sentimento violento que cresce mais e mais a cada dia que passa dentro si, sentimento esse que se intensifica quando conhece Iris (Jodie Foster), uma prostituta adolescente que pretende tirar da má vida. Mais do que um mero filme sobre um ex-veterano da Guerra do Vietname, Taxi Driver é um estudo psicológico de um homem mentalmente instável, violento e isolado que se identifica com a solidão da noite e se confunde com as ruas da cidade, perante a escuridão e o mistério da noite. A sua mente confusa e agitada torna-o um personagem interessante e ao mesmo tempo perturbador. O argumento escrito por Paul Schrader é fantástico, fazendo com que todos os detalhes se complementem para que haja uma lógica gradual na transformação daquilo que é o personagem no início e naquilo que ele se torna quando chegamos ao final, com toda a raiva e pensamentos sombrios que Travis tem dentro da sua mente a serem revelados a pouco e pouco de forma arrepiante. Nova Iorque é o cenário perfeito para este tipo de história. A atmosfera realista de uma cidade de encanto e charme, mas que à noite se transforma num sítio selvagem e sujo – “All the animals come out at night”, como diz Travis a determinado ponto, eleva a sua sede de “limpar a escumalha das ruas” fazendo-o acreditar que é um justiceiro. As poucas cenas passadas durante o dia fazem o contraste perfeito do bem vs mal e

todas elas têm um significado, demonstrando como Travis não se sente a vontade perante a parte deslumbrante da cidade. Travis Bickle é sem sombra de dúvida um dos personagens mais desesperados e alucinados do cinema, e foi graças a ele que Robert De Niro confirmou o seu estatuto nas luzes da ribalta. Com uma performance absolutamente marcante, ele faz-nos realmente acreditar que é mentalmente desequilibrado. É um pouco difícil para mim falar dos filmes de Martin Scorsese sem fazer imensos elogios (ele é um dos meus realizadores favoritos, talvez mesmo “o” favorito), e considero-o um dos mais completos. Não tem medo de inovar e atrever-se a experimentar coisas novas (veja-se o exemplo do seu mais recente filme, O Lobo de Wall Street) e marca aqui a diferença em 1976 com um filme bastante inovador e pouco usual para a época. A brilhante cinematografia e a banda sonora memorável da responsabilidade Bernard Herrman são também dois dos seus grandes factores. O final violento e brutal é absolutamente necessário para a sua conclusão e têm o impacto pretendido, permanecendo então a questão se Travis é ou não um “herói” aos olhos de uma sociedade que honra a violência e tolera comportamentos criminais. Estaria afinal a sua visão sobre Nova Iorque assim tão errada? Em 2013 tive o privilégio de o assistir no grande ecrã e se já era fã, fiquei ainda mais. Taxi Driver é sem dúvida uma obra hipnotizante e apaixonante, que marca não só a carreira de Martin Scorsese e Robert De Niro, mas também a história do cinema. Um dos essenciais para quem gosta da Sétima Arte. “Nova Iorque é o cenário perfeito para este tipo de história.” 65


Título nacional: A Janela Indiscreta Realização: Alfred Hitchcock

REAR WINDOW

Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey

1954 FILIPE LOPES

Janela Indiscreta é um dos mais brilhantes e conhecidos filmes, não apenas do mestre do suspense Alfred Hitchcock, mas da história do cinema. Já foram escritas tantas páginas sobre ele que começo este texto a perguntar-me se conseguirei enfiar tudo o que este merece em 1700 caracteres… Não, não consigo. Mas decerto também não conseguiria em 170 mil. Há filmes assim, tão grandes e com tanto para mostrar, que mesmo após dizermos tudo o que conseguimos, percebemos que ainda mais fica por ser dito.

circunscrito a um apartamento e à fachada das traseiras dos vários apartamentos que são visíveis pela janela da sala do primeiro. O protagonista, o fotógrafo L. B. Jefferies, tem uma perna partida, está “preso” a uma cadeira de rodas e não sai do apartamento. Nós, os espectadores, estamos “presos” a ele, à sua personagem, ao seu apartamento e à sua visão das coisas. Também nunca saímos da tela. Ele é um “voyeur”, que sem mais nada que fazer, espia os seus vizinhos com a sua câmara fotográfica de lente possante. Nós somos também “voyeurs”, que espiamos o que ele espia e ainda o espiamos a ele próprio. A dada altura ele acha que viu um homem matar a mulher. Nós também. Mas não temos a certeza até ao fim, se é verdade ou produto da imaginação. Deixamo-nos manipular por Hitchcock, uma e outra vez, até ele querer. E achamos maravilhoso. Porque é!

Cinjamo-nos, então ao “essencial”. Uma vez que este número da Take é dedicado a Nova Iorque, a razão da inclusão deste título nas nossas escolhas acontece porque a sua narrativa decorre precisamente nessa cidade. Mas o extraordinário é que poderia decorrer em praticamente qualquer outra cidade do mundo, já que o que se passa na tela é

“(...)Há filmes assim, tão grandes e com tanto para mostrar(...)”

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Título nacional: A Caça Realização: William Friedkin

CRUISING

Elenco: Al Pacino, Paul Sorvino, Karen Allen

1980 PEDRO MIGUEL FERNANDES

A Caça é uma dura viagem aos cantos mais obscuros e sombrios da noite de Nova Iorque, da qual ninguém sai igual ao que era no início da travessia. Que o diga Steve Burns, a personagem interpretada por Al Pacino, um polícia à paisana que tem de se infiltrar no meio gay novaiorquino para descobrir e levar à justiça um serial killer que se dedica a matar homossexuais de forma demasiado violenta para despertar a atenção de todos: desde a imprensa à política, todos têm interesse no caso. A evolução vai de um polícia dedicado e apaixonado pela sua namorada a um homem perdido e assolado devido à temporada que passa num meio violento de que não se quer aproximar demasiado (de início suspeita-se que o autor dos crimes frequente clubes de sadomasoquismo), mas do qual não pode escapar para cumprir a sua missão. E o final de A Caça é demasiado ambíguo para vermos nele o mesmo homem pacato que viramos na sua primeira aparição no ecrã.

Mas A Caça não é apenas um filme de personagem, apesar de viver muito desse aspecto central que é a progressão de Steve ao longo do filme. É um filme complexo, sobre uma comunidade que na altura ainda não era presença comum nas grandes produções (o título é uma provocação sendo que o termo ‘cruising’ tanto remete para as patrulhas policiais como para o acto de ir à procura de sexo casual), e que nos apresenta um memorável serial killer com muitos esqueletos no armário que o levam a cometer os crimes. E marca também o regresso de Friedkin à Nova Iorque onde realizou Os Incorruptiveis Contra a Droga. Talvez seja em jeito de homenagem que um dos pontos de viragem de A Caça tenha lugar numa estação de metro que nos faz lembrar o filme com Gene Hackman.

“(...)um polícia dedicado e apaixonado pela sua namorada a um homem perdido e assolado(...)”

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Título nacional: Cisne Negro Realização: Darren Aronofsky

BLACK SWAN

Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel

2010 PEDRO SOARES

Foi O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, que Darren Aronofsky utilizou como analogia para contar a história de Nina (Natalie Portman) e a sua passagem de menina a mulher. Os rituais de crescimento são sempre tramados e momento marcante na definição de personalidade, mas no caso de Nina isso é ainda mais complicado. Ela, a nova protagonista de O Lago Dos Cisnes, vive sob a alçada submissa da mãe, que materializa os seus sonhos através da filha e não a deixa crescer.

A solução é descobrir-se a si própria, mas para isso tem que conhecer o seu corpo. Tal como Freud dizia, o sexo é a solução e o problema de todas as situações. Por isso, enquanto não tiver um orgasmo a sério, nunca irá libertar o cisne negro que tem dentro de si. E aqui Cisne Negro tem Roman Polanski escrito em todo o lado, já que a sexualidade reprimida (tal como a duplicidade, aliás) sempre foi tema recorrente na sua obra. Aronofsky filma um thriller perturbador, entre a realidade e a esquizofrenia, rodado com câmara ao ombro, que segue a actriz ininterruptamente. Portman está no ecrã em todo o filme, literalmente, aumentando o nosso desconforto. Além disso, filma ainda as cenas de bailado de forma bastante física, quase dolorosa. Quem não ficar com vontade de ir ver O Lago Dos Cisnes depois disto é porque não se sente.

Apesar do ballet ser omnipresente, Cisne Negro não é um filme sobre tal, mas sim sobre o doppelgänger, que tantos autores tem intrigado. Nina tem que interpretar em palco o cisne branco e o preto; e se o primeiro é fácil, bastando ser ela própria - virginal, inocente e cândida -, o segundo é mais exigente - sensual, violento e cruel.

“Apesar do ballet ser omnipresente, Cisne Negro não é um filme sobre tal(...)”

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Título nacional: Verão Escaldante Realização: Spike Lee

SUMMER OF SAM

Elenco: John Leguizamo, Adrien Brody, Mira Sorvino

1999 TIAGO SILVA

Um dos principais problemas de Verão Escaldante é a ausência de um projecto definido. Na sua tentativa de sintetizar a totalidade dos acontecimentos marcantes do verão de 1977, a acção vai sendo construída aos sobressaltos e o filme torna-se numa estranha amálgama cultural cujo princípio de estruturação e coesão é desconhecido do espectador. É certo que se consegue recuperar, até certo ponto, o ambiente efusivo da década — está lá a ascensão do punk, de que Richie é personificação, e a incompreensão da população em relação ao mesmo, levando inclusivamente à ridícula crença de que este possa ser o assassino; está lá o aparecimento do disco sound e das noites na Studio 54 (lembrando, em certo sentido, as boogie nights de Paul Thomas Anderson) com os excessos associados às mesmas. Mas falta essência e verdade na representação desse clash entre cultura e contracultura, facto que se evidencia sobretudo na sequência musical em que Richie toca

“Baba O'Riley” dos The Who, obedecendo a uma constrangedora estética videoclip com a sobreposição de planos das restantes personagens. Contrariando a típica organização do serial killer film, Lee aborda os assassinatos de modo lateral e apenas como pano de fundo das várias histórias que quer contar — individuais e independentes entre si (ao contrário do que Jimmy Breslin afirma tanto no início como no final do filme) e com resultados diferentes quanto aos efeitos produzidos. Quando Verão Escaldante envereda pelo território da desordem conjugal, por exemplo, torna-se desastroso e desinteressante, algo que o tempo de duração não ajuda a combater, permitindo excursos desnecessários. Ainda assim, é um documento interessante da época.

“(...)estranha amálgama cultural cujo princípio de estruturação e coesão é desconhecido do espectador.”

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INFERNO

DRESSED TO KILL

JOÃO PAULO COSTA

JOÃO PAULO COSTA

Dario Argento prosseguiu a sua saga das Três Mães (logo depois do êxito retumbante de Suspiria e anos antes do fracasso de A Terceira Mãe) com mais este super-estilizado conto de bruxaria e crime, narrando-nos a história de uma jovem habitante de um edifício nova iorquino que esta crê ter sido o covil de uma poderosa bruxa, e do seu irmão que viaja de Roma onde se encontra a estudar, para correr em seu auxílio. A história, aqui, serve como habitualmente de desculpa para o realizador italiano conceber algumas sequências visualmente fantásticas, trabalhando a luz e a câmara de forma a criar uma atmosfera inesquecível, surreal e hipnótica, ao mesmo tempo que encena algumas das mais macabras, violentas e sangrentas mortes que o cinema alguma vez nos mostrou.

Acusado (como tantas vezes na carreira do realizador) de misoginia e depravação, Vestida Para Matar é um dos mais brilhantes “thrillers hitchcockianos” - aqui as referências a Psico são bem evidentes - da carreira de Brian De Palma. Mais do que preocupado com a coerência do seu argumento, De Palma preocupa-se em oferecer-nos cenas espectaculares, com diálogos reduzidos ao mínimo e o suspense esticado ao limite, destacando-se a famosa sequência de cerca de 20 minutos que começa num engate no Metropolitan Museum e termina num brutal assassínio num elevador. Entre mulheres infieis, prostitutas ingénuas e travestis com disturbios de personalidade, Vestida Para Matar é ao mesmo tempo um filme mergulhado numa imoralidade mordaz e cinema no seu estado mais puro.

Título nacional: Inferno

Título nacional: Vestida para Matar

Realização: Dario Argento

Realização: Brian De Palma

Elenco: Leigh McCloskey, Irene Miracle, Eleonora Giorgi

Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, Nancy Allen

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EYES WIDE SHUT

THE NEW YORK RIPPER

PEDRO MIGUEL FERNANDES

JOÃO PAULO COSTA

Último filme de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados pode também ser visto como um regresso às origens do realizador, com a transposição de uma novela de Arthur Schnitzler escrita na Viena do final do século XIX para a Nova Iorque do final do século XX, apesar de recriada em estúdios londrinos. Uma vez mais a maestria de Kubrick resulta em pleno, num filme sobre um casal em crise (Tom Cruise e Nicole Kidman) assombrado por traições não consumadas, dentro de um universo burguês. Notória neste filme testamento é a clara influência que Max Ophüls sempre teve ao longo da sua carreira. Neste caso concreto salta à vista a forma como é filmado o baile do início do filme, cena que bem podia ter saído de um filme de Ophüls.

Ao terceiro capítulo da série, o detective John McClane (Bruce Willis) teve finalmente a oportunidade de mostrar, na sua Nova Iorque natal, a fibra de que é feito - depois de passagens pelo arranha-céus de Los Angeles e pelo aeroporto de Washington. Contando com a ajuda de um comerciante do Harlem (Samuel L. Jackson, reunindo dois actores fresquinhos do sucesso de Pulp Fiction), ambos irão tentar travar as ameaças terroristas de um vilanesco Jeremy Irons que deixam a cidade em polvorosa. Com John McTiernan em grande forma atrás das câmaras, a acção e a comédia fundem-se na perfeição neste blockbuster divertidíssimo, recheado de emoções fortes e um sentido de humor absolutamente certeiro, que fazem de Die Hard: A Vingança, um dos melhores filmes de acção da década de 1990.

Título nacional: De Olhos Bem Fechados

Título nacional: O Estripador de Nova Iorque

Realização: Stanley Kubrick

Realização: Lucio Fulci

Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Todd Field

Elenco: Jack Hedley, Almanta Suska, Howard Ross

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VIVER EM NOVA IORQUE A certa altura, num dos filmes falados nesta edição, uma das personagens refere que existem oito milhões de histórias para contar em Nova Iorque, e aquela era apenas mais uma (falamos de Verão Escaldante, de Spike Lee). Pois bem, se há coisa em que o leitor já terá reparado e irá continuar a reparar ao longo deste número, é que essas histórias se estendem a todos os géneros e estados de espírito. De seguida, apresentaremos aquelas que, sem se prenderem necessariamente a um género específico, desevendam um pouco do dia-a-dia da vida na cidade, desde personagens mais privilegiadas, a outras que vivem num estado de extrema pobreza, a outras que apenas sobrevivem e que com maior ou menos dificuldades, lá conseguem arranjar uns trocos para pagar a renda da casa.


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Título nacional: Sombras Realização: John Cassavetes

SHADOWS

Elenco: Lelia Goldoni, Ben Carruthers, Hugh Hurd

1959 FILIPE LOPES

No final da década de 1950, precisamente no último ano desse período, enquanto a nouvelle vague dava os primeiros passos em França, nos Estados Unidos faltavam ainda mais de 25 anos para começar o Festival de Sundance e o Ben-Hur arrepanhava os Óscares todos. Hoje pode dizerse à boca cheia, sem qualquer pudor ou medo de faltar à verdade, que é precisamente nessa altura que, à margem dos Estúdios e das grandes produções americanas, nasce, em Nova Iorque, o Cinema Independente Americano, assim mesmo, com maiúsculas. O seu pai é John Cassavetes e o filme é Sombras, que por isso é uma daquelas obras maiores do que ela própria, que é mais do que aquilo que é e que vale mais do que aquilo que vale. É esse o custo de ser um símbolo, já que o seu significado se estende para lá do sentido cinematográfico que evoca e extravasa para os domínios imateriais de que são feitas as lendas. Feito com 40 mil dólares, o que correspondia, à época, a menos do que o custo normal de um episódio para uma série de televisão, Sombras é uma filme de ruptura, que apresenta novos caminhos e que beneficia de uma indisciplinada e fortíssima energia na realização, dando liberdade aos actores para criarem dentro do, já de si muito próprio, ritmo da narrativa. É verdade que Cassavetes filma como se filmam documentários, com a câmara a envolver as personagens em close-ups, a captar as suas emoções e a acompanhá-las na sua viagem de descoberta delas mesmas e do espaço envolvente, mas fá-lo como quem toca os instrumentos todos numa jam session de free jazz. Como que a demonstrar isto mesmo, talvez não seja alheio o facto de o realizador ter convidado Charles Mingus, extraordinário músico e compositor, figura de proa da história do jazz, para assinar a banda sonora. Tal como no jazz, aliás, em Sombras a palavra “improviso” surge como fundamental, sobretudo no que concerne às interpretações dos actores e à inexistência de um tema propriamente dito. Claro que em relação à questão do tema, podemos sempre dizer que é um filme que aborda uma questão ainda hoje sensível e fracturante no

panorama social americano e que na altura ainda o era mais: o racismo e as relações inter-raciais; ou que é um filme sobre músicos e artistas vários em plena vivência sôfrega e urgente da geração beatnik. Digamos que os temas são diversos e até se nota que estão lá, mas, tal como não existem protagonistas no usual sentido do termo porque a relevância é dada a diversas personagens ao mesmo tempo, também a proeminência de cada um deles é repartida quase por igual e mesmo esbatida em cada um dos outros. Quem diria, no entanto, que Sombras figuraria no panteão das obras de referência da história do cinema? Certamente não o próprio realizador, que, munido de uma câmara de 16mm agarrada à mão e de uma série de alunos de um workshop de interpretação que dava em 1957, saiu às ruas de Nova Iorque para filmar. Na cabeça tinha a ideia de deixar as coisas acontecerem em frente à câmara, captando a espontaneidade do momento como quem capta a vida a acontecer; fá-lo num preto-e-branco granulado, que lhe dá uns contornos quase etéreos, como se se estivesse a ver a vida para lá dela própria. Nesse mesmo ano faz a primeira versão do filme (que foi considerada perdida e só voltou a ser encontrada quase 50 anos depois, em 2004), mas as coisas não saíram como ele esperava, portanto voltou às mesmas ruas e filmou de novo, completando em 1959 a segunda e definitiva versão, aquela que Cassavetes preferia, a que ficou para a posteridade e a que ganhou o prémio da Crítica em Veneza. Cassavetes fez depois filmes melhores do que Sombras, mas é neste que paira a imortalidade como o símbolo do início de alguma coisa. Devemoslhe o Jim Jarmush, o Hal Hartley e o Todd Solondz. Mesmo que não tivesse mais méritos (e tem), estes chegariam. Como disse anteriormente: uma obra maior do que ela própria.

“(...)nasce, em Nova Iorque, o Cinema Independente Americano, assim mesmo, com maiúsculas.” 75


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Título nacional: Nova Iorque Fora de Horas Realização: Martin Scorsese

AFTER HOURS

Elenco: Griffin Dunne, Rosanna Arquette, Verna Bloom

1985 JOÃO PAULO COSTA

Depois dos já famosos problemas pessoais que deixaram Martin Scorsese de rastos no início da década de 80, e da terapia de choque que O Touro Enraivecido se viria a revelar, o realizador precisava de descansar e, acima de tudo, de se reinventar. O Rei da Comédia, com a sua simplicidade visual feita maioritariamente de planos fixos e uma mise-en-scène menos frenética parecia sugerir uma resposta ao primeiro problema (do descanso), e com Nova Iorque Fora de Horas viria a surgir, então, essa reinvenção.

primeira colaboração com Scorsese depois de muitos anos a trabalhar com os orçamentos limitados e a velocidade de produção de Fassbinder – possuem aquele aspecto realista tão comum na obra do realizador, as personagens e a narrativa parecem bem mais próximas do universo surrealista de David Lynch. Paul (Griffin Dunne), o protagonista, só quer sair do seu aborrecido escritório para passar a noite com uma rapariga gira que acabou de conhecer (Rosanna Arquete), mas de repente o Universo parece ter-se virado contra ele, vítima de uma carga descomunal da mais básica Lei de Murphy – tudo corre realmente mal, ao ponto de a certa altura ter um bairro em peso à caça da sua cabeça.

Na realidade, Scorsese preparava-se na altura para levar ao ecrã A Última Tentação de Cristo, mas o projecto caiu por terra e teria de ficar na gaveta durante mais alguns anos, tendo algures durante esse impasse caído nas suas mãos o curioso argumento de Joseph Minion sobre um jovem que, encantado com a beleza de uma rapariga que acabou de conhecer, se desloca na mesma noite ao seu apartamento no Soho (bairro nova iorquino conhecido pela sua população ligada ao mundo das artes) para o primeiro encontro... até que tudo começa a correr horrivelmente mal. Apesar de um muito jovem Tim Burton estar já comprometido com a realização do projecto, este cedeu sem pestanejar o lugar a Scorsese, admitindo que o material dificilmente poderia cair em melhores mãos. Com um orçamento limitado de produção independente a imaginação teria de se sobrepor aos meios, e assim, num ápice, a energia tão característica deste profundo conhecedor da respiração das ruas de Nova Iorque estava de volta.

Pode não figurar habitualmente nas listas de obras-primas de Martin Scorsese, mas este título tem curiosamente muito em comum com Taxi Driver, servindo como uma espécie de contraponto com o filme realizado precisamente uma década antes: nessa mistura de realismo com surrealismo, uma espécie de submundo escondido prestes a explodir, pelo menos do ponto de vista do seu protagonista central que é assumido desde o primeiro momento. Tudo isto doseado com momentos de humor negro absolutamente irresistíveis, bem como uma série de referências e sugestões sexuais mais ou menos evidentes – poderá, em certo sentido, esta aventura sobre uma noite de sexo com uma desconhecida que acaba frustrada das mais diversas formas e a colocar em risco a vida de Paul, ser também uma referência ao pânico da SIDA que na altura estava no auge? Aquilo que é certamente, é um retrato muito divertido da noite nova iorquina da época, contado com a energia típica de um dos mais brilhantes autores da História do Cinema americano, que para alguns ainda permanece como um tesouro escondido na sua obra, e que urge desenterrar.

Nova Iorque Fora de Horas é um desses filmes particularmente difíceis de categorizar, pois se muito facilmente podemos assumir que se trata de uma comédia, esta surge totalmente mergulhada num negrume pouco habitual, e numa aura da mais profunda bizarria. Se as ruas – captadas pela lente do director de fotografia alemão Michael Ballhaus, na sua

“(...)uma espécie de submundo escondido prestes a explodir(...)” 77


Título nacional: Vergonha Realização: Steve McQueen

SHAME

Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale

2011 CÁTIA ALEXANDRE

Percorrendo o curto mas grande percurso de Steve McQueen como realizador, vemos que o seu trabalho reflecte sempre um estudo profundo do ser humano e das suas emoções. Vergonha é mais um exemplo disso, conseguindo causar um grande impacto sobre o espectador explorando emoções. Brandon é um homem bem sucedido e aparentemente feliz aos olhos de quem o conhece, mas poucos sabem que é viciado em sexo, o que afecta o seu dia-a-dia de forma sufocante. A sua vida fica ainda mais inquieta com a chegada inesperada da irmã Sissy, que fica no seu apartamento por tempo indeterminado. Uma história bem estruturada, por vezes subtil, por vezes explícita, que estuda a vida no presente dos personagens, deixando-nos a tentar desvendar os fantasmas de um passado que os próprios não nos querem revelar.

Michael Fassbender usa todo o seu enorme talento para nos dar uma performance absolutamente verdadeira e arrebatadora de um homem que se encontra perante uma angústia constante e faz-nos sentir isso a cada minuto. Usando as reacções e emoções certas para cada momento ele define o personagem como sendo alguém fascinante mas perturbador ao mesmo tempo. Não nos podemos esquecer também da grande performance de Carey Mulligan, que retrata de forma impecável uma mulher conturbada cujo olhar transparece uma enorme tristeza. A belíssima cinematografia mostra-nos uma cidade de Nova Iorque escura e sombria, como se também ela carregasse sobre si a dor e sofrimento do personagem principal, fazendo com que se crie a atmosfera perfeita para esta história. É essencialmente feito de momentos, momentos esses onde por vezes nem sequer existe diálogo, mas que são mais poderosos do que qualquer palavra. “(...)uma cidade de Nova Iorque escura e sombria(...)”

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Título nacional: Os Tenenbaums Realização: Wes Anderson

THE ROYAL TENENBAUMS

Elenco: Gene Hackman, Gwyneth Paltrow, Anjelica Huston

2001 JOÃO PAULO COSTA

Após se apresentar como a nova e peculiar voz do cinema independente americano na década de 1990, Wes Anderson entrou nos anos 2000 com ambição renovada: depois dos orçamentos modestos de Roda Livre e Rushmore, Wes viu-se de repente rodeado de um elenco de estrelas como Gene Hackman, Angelica Huston, Ben Stiller ou Gwyneth Paltrow a fazerem companhia aos irmãos Luke e Owen Wilson, cujo início de carreira decorreu em paralelo com a do realizador.

quando se vê legalmente destituído de todos os seus bens, engendra um grave problema de saúde para se reaproximar da família e encontrar um lugar para viver. Primeiro grande sucesso comercial de Wes Anderson como realizador, Os Tenenbaums permanece como um dos mais evidentes exemplos do estilo milimétrico e detalhado do seu autor. Nota-se o trabalho no preenchimento de cada enquadramento com posições exactas dos actores, e detalhes minuciosos nos adereços e guarda-roupa, que lhe conferem ao mesmo tempo uma extrema artificialidade e uma surpreendente naturalidade. O mesmo se aplica à própria Nova Iorque, para a qual Anderson (e o co-argumentista Owen Wilson) inventam nomes de ruas inexistentes e a tornam numa persongem tão ou mais peculiar do que aquelas que compõem o imaginário maravilhoso d'Os Tenenbaums.

Os Tenenbaums começaram por ser uma família de sucesso, desde os sofisticados pais aos três jovens filhos-prodígio em diferentes áreas, que as infidelidades matrimoniais do patriarca, bem como os seus negócios obscuros e desleixo com os filhos acabaram por fazer desvanecer. Já adultos, os três filhos tornaram-se depressivos e melancólicos, seguros pela mão da mãe, e distantes do pai, que entretanto os abandonou. Este,

“(...)posições exactas dos actores, e detalhes minuciosos nos adereços e guarda-roupa(...)”

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Título nacional: Não Dês Bronca Realização: Spike Lee

DO THE RIGHT THING

Elenco: Danny Aiello, Ossie Davis, Ruby Dee

1989 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Brooklyn, o dia mais quente do ano. Os ânimos aquecem na pizzaria de Sal, um italo-americano que escolheu aquele bairro tradicionalmente negro para abrir negócio, e o dia acaba mal para a comunidade afro-americana local, num explosivo motim. Tão actual há 25 anos, quando estreou, como nos dias de hoje (basta recuar no tempo alguns meses para recordarmos o incidente de Ferguson, que desencadeou uma vaga de protestos nos EUA), Não Dês Bronca é um dos principais títulos da vasta obra de Spike Lee. Retrato de um dia de verão num quarteirão de um dos bairros mais problemáticos de Nova Iorque, são vários os pontos fulcrais focados pela câmara acutilante de Lee, com epicentro numa comunidade que vive fechada e se sente de certa forma ameaçada pelos que vêm de fora: seja a família de italianos da pizzaria ou os coreanos que gerem uma pequena mercearia, passando por um jovem branco de classe média que comprou uma casa em Brooklyn.

Mas muito mais do que um simples retrato desta comunidade, tema assaz frequente em Spike Lee, Não Dês Bronca assume uma carga de crítica contra a polícia e os meios violentos que os agentes utilizam contra a comunidade quando surge o motim. Daí o ‘faz o que está certo’ (tradução literal do título original) que diz uma figura mais velha ao jovem Mookie, quiçá a personagem central do filme. Filme recheado de cores fortes, que trazem para o ecrã toda a força do calor naquele dia mais quente do ano em Brooklyn, Não Dês Bronca é um dos filmes que melhor retrata a multiculturalidade e as convulsões raciais que existem na cidade que nunca dorme, com a música a soar bem alta no ‘tijolo’, onde se ouve vezes sem conta o hino dos Public Enemy: Fight The Power.

“Retrato de um dia de verão num quarteirão de um dos bairros mais problemáticos de Nova Iorque(...)”

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Título nacional: O Cowboy da Meia-Noite Realização: John Schlesinger

MIDNIGHT COWBOY

Elenco: Dustin Hoffman, Jon Voight, Sylvia Miles

1969 JOÃO PAULO COSTA

Farto de lavar pratos num restaurante da sua pequena vila texana, o ingénuo e mentalmente perturbado Joe Buck (Jon Voight) decide partir rumo a Nova Iorque para, com o seu estilo cowboy, seduzir uma mulher rica e viver às suas custas. Percebendo rapidamente as dificuldades do seu plano, e sem dinheiro para pagar a renda do minúsculo apartamento na grande cidade, Joe muda-se para o degradado edifício de Ratso (Dustin Hoffman), um vigarista local de saúde debilitada com quem acaba por travar amizade, enquanto tenta arranjar uma forma de fazer dinheiro no universo da prostituição masculina.

Nova Iorque e dos recantos mais obscuros por onde se movimentam as personagens, contrasta com qualquer ideia de romantismo preconcebida que se possa ter da cidade - tal como Taxi Driver viria a fazer uns anos mais tarde, muito longe de qualquer postal turístico. Dando-nos pequenas pistas sobre o passado de Joe em flashbacks alucinantes (sugerindo uma relação conturbada com a avó que o criou, e uma violação de que foi alvo) que contrastam de forma perturbadora com o realismo da maior parte das cenas, o realizador John Schlesinger constrói o filme com uma força tremenda, não perdendo nenhum do seu impacto passados mais de 40 anos desde a sua produção, também devido às magníficas performances de Voight e Hoffman, cuja relação faz já parte da História do Cinema.

Um dos produtos fundamentais do início da chamada “Nova Hollywood”, O Cowboy da Meia-Noite surgiu como um valente murro no estômago de uma indústria que na época via o seu precioso sistema de estúdios ruir de forma estrondosa. O retrato decrépito, por vezes aterrorizante que faz de

“(...)retrato decrépito, por vezes aterrorizante que faz de Nova Iorque e dos recantos mais obscuros por onde se movimentam as personagens(...)”

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REQUIEM FOR A DREAM

25TH HOUR

DIANA MARTINS

TIAGO SILVA

A Vida Não é Um Sonho é daqueles filmes que, de tão incómodos e belos, nunca se esquecem. Harry Goldfarb (Jared Leto) e Marion Silver (Jennifer Connelly) são um casal feliz prestes a abrir um negócio. Sara Goldfarb, mãe de Harry, é escolhida para participar no seu programa de televisão favorito. Ty (Marlon Wayans) tem como sonho abandonar as ruas e ser o orgulho da mãe. São 4 vidas, 1 dependência, demasiados sonhos. Darren Aronofsky (Pi, Cisne Negro) tem aqui provavelmente o seu melhor filme, com uma realização concisa e frenética, acompanhada por planos únicos a duas velocidade ou cadências de fast e slow motion. Destaque ainda para a banda sonora de Clint Mansell. “Purple in the morning, blue in the afternoon, orange in the evening.” Porque a vida, não é um sonho.

Quando A Última Hora começa, tudo é noite escura e o único ruído perceptível na «cidade que nunca dorme» é o uivo do cão brutalmente maltratado que Monty resgata. A atmosfera de desolação e solidão acompanhá-los-à durante todo o filme e Spike Lee trabalha-a recorrendo ao isolamento da personagem (que se encontra nas suas últimas horas de liberdade) dentro do plano e ao uso do jump cut em sequências determinantes. Até no fim, o Oeste, que aparece enquanto sonho, revelase um fracasso e acentua a sua falta de lugar no mundo. Neste sentido, o filme assume-se como um dos momentos mais estáveis da obra de Lee na última década — não existindo sequer outro filme por si assinado neste período a que este possa ser comparado — e adquire um fulgor próximo daquele que se verificava em Malcolm X.

Título nacional: A Vida Não é Um Sonho

Título nacional: A Última Hora

Realização: Darren Aronofsky

Realização: Spike Lee

Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly

Elenco: Edward Norton, Barry Pepper, Philip Seymour Hoffman

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FRANCES HA

KIDS

SARA GALVÃO

DIANA MARTINS

O filme que trouxe Great Gerwig à ribalta pode ser definido como o que acontece quando a Nouvelle Vague é aplicada à Nova Iorque dos nossos dias - além da superficialidade do preto e branco, os diálogos parecem escritos por Truffaut e o uso da música em sequências repletas de cortes bruscos dão-nos um calorzinho nostálgico por dentro. Frances (Gerwig), que ainda não é uma “pessoa a sério”, dança pelas ruas monocromáticas de Nova Iorque com a amiga e colega de casa Sophie, mas quando esta se muda para outra parte da cidade, Frances tem de aprender a enfrentar a realidade da vida adulta por ela própria, mesmo que para isso tenha de se desapontar com a mítica Paris. Uma coming of age story num grupo etário pouco usual, Frances Ha pode bem ser o filme de uma geração.

Nova Iorque é o cenário de Kids, um mundo conturbado sobre a juventude dos anos 90. No centro da narrativa temos um grupo de jovens, no seu dia-a-dia de sexo, drogas, festas e violência. Jovens comuns (o realizador selecionou um elenco desconhecido, com as idades dos personagens), uma geração–fantasma, afastada de valores, entregue ao caos. Larry Clark desafia aqui pela primeira vez todos os padrões de decência e apresenta um filme com uma estética crua e dura. Com argumento do excêntrico Harmony Korine (Gummo, Spring Breakers), o filme ganhou alguma projeção mundial tendo como produtor Gus Van Sant mas, apesar de tal nome, suscitou duras críticas devido à violência explícita. Um filme chocante, mas terrivelmente honesto, e que nos faz, intemporalmente, refletir. Para onde vamos?

Título nacional: Frances Ha

Título nacional: Miúdos

Realização: Noah Baumbach

Realização: Larry Clark

Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Adam Driver

Elenco: Leo Fitzpatrick, Justin Pierce, Chloë Sevigny

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SIDEWALKS OF NEW YORK

GO GET SOME ROSEMARY

JOÃO PAULO COSTA

JOÃO PAULO COSTA

Se no seu projecto de estreia, o realizador/argumentista/actor Edward Burns centrou os acontecimentos numa família de classe média de Long Island, em Nova Iorque – Uma História de Amor, este “mudou-se” para Manhattan e contou-nos as aventuras amorosas e conjugais de uma série de casais nova-iorquinos. Com um ritmo e espontaneidade nos diálogos que, na sua mistura de humor e realismo, soam claramente influenciados por Woody Allen, Burns consegue criar um delicioso mosaico das relações humanas modernas, tão romântico quanto cínico e acutilante, e deixa que sejam acima de tudo os seus actores (de onde se destaca Stanley Tucci como um sacana infiel de primeira) a tomar conta dos acontecimentos, resultando num daqueles filmes de que é mesmo muito difícil não gostar.

Escrito e realizado pelos irmãos Josh e Ben Safdie, Vão-me Buscar Alecrim é um conto sério-cómico sobre um pai basicamente irresponsável que, nas duas semanas anuais que tem direito a passar com os jovens filhos, quer dar-lhes tudo o que não consegue durante o resto do tempo. Produzido com um orçamento limitadíssimo, este é um verdadeiro espécime de cinema independente, rodado nas ruas e longe dos estúdios, de câmara ao ombro (talvez demasiado irrequieta) em verdadeiro estilo de guerrilha. A fabulosa interpretação de Ronald Bronstein carrega toda a película às costas, conseguindo uma química excelente com as crianças, ao mesmo tempo que o filme passa ao espectador, de forma particularmente conseguida, a sensação da vida real em Nova Iorque, da azáfama diária às dificuldades financeiras.

Título nacional: Nova Iorque – Uma História de Amor

Título nacional: Vão-me Buscar Alecrim

Realização: Edward Burns

Realização: Ben Safdie, Joshua Safdie

Elenco: Edward Burns, Heather Graham, Penny Balfour

Elenco: Ronald Bronstein, Alex Greenblatt, Sage Ranaldo

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2 DAYS IN NEW YORK

IN AMERICA

JOÃO PAULO COSTA

JOÃO PAULO COSTA

Nesta sequela de 2 Dias em Paris, Julie Delpy retoma os papéis de realizadora, argumentista e protagonista, desta vez colocando a 'sua' Marion em Manhattan. Com um filho fruto de uma relação prévia (da qual pudemos dar conta no filme anterior) e um novo namorado, Marion prepara-se para receber, no seu pequeno apartamento, a família que vem de visita desde Paris. Tal como o seu antecessor, 2 Dias em Nova Iorque é acima de tudo um simpático filme de actores e de diálogos, construindo muito do seu drama e humor em torno dos conflitos culturais entre personagens, percebendo-se perfeitamente que Delpy aprendeu bastante trabalhando com Richard Linklater na trilogia Antes do Amanhecer/ Anoitecer/Meia-Noite (na verdade, o último capítulo desta só foi rodado em 2013).

Uma visão sobre o lado negro de Nova Iorque, Na América é o comovente conto de uma família irlandesa que se muda para a cidade e tenta recomeçar a sua vida, após a morte de um dos filhos. Com tudo para se tornar num choroso e manipulador melodrama moderno, Jim Sheridan, que retirou muito da sua experiência pessoal para escrever e realizar o filme (incluindo a morte do seu irmão com apenas 10 anos de idade), consegue a proeza de apelar a genuína emoção, assinando um dos mais comoventes títulos da década passada. Paddy Considine e Samantha Morton são os excelentes cabeças-de-cartaz do elenco que conta ainda com uma poderosa performance de Djimon Hounsou e as comoventes irmãs Emma e Sarah Bolger, capazes de derreter o coração mais duro.

Título nacional: 2 Dias em Nova Iorque

Título nacional: Na América

Realização: Julie Delpy

Realização: Jim Sheridan

Elenco: Julie Delpy, Chris Rock, Albert Delpy

Elenco: Paddy Considine, Samantha Morton, Djimon Hounsou

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BIG JOÃO PAULO COSTA

Depois de pedir a uma estranha máquina de uma feira de diversões, que realiza desejos a troco de uma moeda, para se tornar grande, o jovem Josh, de 12 anos, acorda na manhã seguinte no corpo de um adulto (Tom Hanks). A premissa aparentemente simples desta comédia é executada na perfeição por Penny Marshall que, valendo-se de um guião divertido e comovente q.b., e uma excelente interpretação de Tom Hanks, assinou um clássico do cinema fantástico do final dos anos 80, com cenas tão emblemáticas como aquela em que Hanks e Robert Loggia dançam em cima das teclas do piano gigante da famosa loja de brinquedos nova iorquina, FAO Schwarz. Um irresistível conto sobre a passagem à idade adulta e, acima de tudo, sobre a criança que sobrevive para sempre em cada um de nós. Título nacional: Big Realização: Penny Marshall Elenco: Tom Hanks, Elizabeth Perkins, Robert Loggia

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I LOVE NY Se há cidade habituada a receber constantes cartas de amor, Nova Iorque será certamente a principal. Num espaço tão povoado, tão recheado de monumentos inesquecíveis, polvilhado de luzes e agitação, o romance parece uma inevitabilidade, e ao longo das décadas o Cinema tem-se habituado a vasculhar cada esquina para nela procurar uma história de amor. Do fogo de artifício em glorioso cinemascope a preto-e-branco de Woody Allen, aos orgasmos fingidos de Meg Ryan. Da paixão ignorada de Jack Lemmon por uma operadora de elevador, aos amores de uma 'boneca de luxo' por um escritor, Nova Iorque tem sido palco de algumas das mais encantadoras histórias de contos de fadas, mais ou menos felizes, mais ou menos trágicas, mais ou menos pontuadas por visitas regulares ao psicanalista.


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Título nacional: Annie Hall Realização: Woody Allen

ANNIE HALL

Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Christopher Walken

1977 DIANA MARTINS

“Life may be sad, but it is always beautiful” já dizia Anna Karina em Pedro o Louco, de Jean-Luc Godard. E se com Godard tínhamos a certeza que a vida era, de facto, bela, com Woody Allen temos a certeza que pode ser corrosivamente divertida. Realizado, escrito e interpretado por Woody Allen, Annie Hall, de 1977, é talvez o filme mais carismático e amplamente reconhecido do realizador. Este conta a história de Alvy Singer, um judeu humorista, neurótico e obsessivo, apaixonado por jazz (interpretado por Woody Allen, imaginese!) que vive em Nova Iorque. Apaixona-se por Annie (Diane Keaton), cantora em início de carreira, que conhece num bar. O filme começa um ano depois da sua separação e tenta perceber o porquê do fracasso da relação, da verdade do amor e de toda a irracional dinâmica das relações amorosas.

A nível de elenco, Woody Allen é majestoso, como sempre. Numa das suas incursões provavelmente mais autobiográficas, Alvy questiona tudo o que o rodeia, observa melancolicamente um mundo que não compreende, é obcecado pela morte e não consegue abandonar a ansiedade que o consome. Já Diane Keaton, com um papel escrito à sua medida, e vencedora do Óscar de Melhor Atriz por esta interpretação, é encantadora e divertida nesta personificação de Annie, desafiando o conceito dos típicos relacionamento e da moda da altura. Outras personagens mais secundárias completam este elenco, como Sigourney Weaver e Christopher Walken. Pautado por momentos de flashbacks, Annie Hall é ainda marcado por tempos desalinhados e personagens que fazem entradas e saídas em cena, sem continuidade de história. Temos ainda alguns momentos hilariantes em que Woody Allen “abandona” o filme e fala diretamente com o espetador, ignorando totalmente o universo ficcional e certificando-se que toda a mensagem é claramente passada – tal leitura de entrelinhas de argumento-, ou quando interage com os colegas de infância, já na vida adulta, como se continuassem crianças. Estes momentos, atípicos e revolucionários para o panorama de cinema da altura, acabam por criar uma envolvência com os atores, criando um espírito de partilha das suas dificuldades e dilemas. O cenário. Com não podia deixar de ser, Woody Allen filma mais uma vez na sua cidade favorita, Nova Iorque, cidade de elites, cidade de jazz, cidade de extremos. Valeu-lhe o Óscar de Melhor Filme, Realizador e Argumento, num ano de filmes amplamente reconhecidos e marcantes como Star Wars e Encontros Imediatos do 3º Grau. A ver e rever, porque todos temos um pouco de Alvy e Annie. Uma obra-prima, bela e intemporal.

A relação entre Alvy Singer e Annie Hall, tão única quão identificável com todos os relacionamentos amorosos comuns, é profundamente comovente, em cenas tão divertidas quão analíticas como a do corte de ténis ou da lagosta. Em plano de fundo, sempre as dúvidas existencialistas, a dificuldade de estar com outros versus a dificuldade de estar consigo próprio, a perseguição do medo da morte. Ao fim ao cabo, o que nos acaba por ser proposto é um exercício de identificação e reconhecimento de vivências próprias, onde encarnamos as personagens e sentimos uma espécie de nostalgia por vivências ou momentos semelhantes. O filme acaba por ser, na sua maneira corrosiva e irónica, mas simultaneamente séria, uma reflexão e uma introspeção sobre o amor, explicando que o seu desvanecimento é inevitável, num misto de irracionalidade e do absurdo. Apesar de ser uma necessidade da própria vida, como Alvy Singer refere a dado momento, o amor só é perfeito no seu estado inicial de “idealização”.

“Alvy, you’re incapable of enjoying life, you know that? I mean you’re like New York City. You’re just this person. You’re like this island unto yourself.” 91


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Título nacional: Manhattan Realização: Woody Allen

MANHATTAN

Elenco: Woody Allen, Diane Keaton, Mariel Hemingway

1979 PEDRO SOARES

Houve dois elementos que nos habituámos a ver na longa filmografia de Woody Allen durante anos a fio: o jazz e Nova Iorque, especialmente a zona de Manhattan. Aliás, para ser mais exacto, vinte e oito dos trinta e tais filmes de Allen passam-se em Manhattan. Por isso, não foi de estranhar que o realizador norte-americano tivesse dedicado um filme inteiro ao bairro nova-iorquino nos já idos anos 70.

Manhattan, onde se passa uma das mais iconoclastas cenas do filme, e a fabulosa sequência na penumbra dos corredores do Planetário. Quanto ao filme em si, Manhattan é um romance simples e bastante característico de Woody Allen: o habitual leque de personagens fellinianas (por falar nisso, Fellini também fez o seu filme de tributo à sua cidade de eleição, Roma), Allen a fazer de si próprio e um filme assente, sobretudo, nos diálogos de humor subtil, escorreito e inteligente, impregandos de referências culturais (o name dropping vai de Ingmar Bergman a Lenny Bruce, passando por Stanley Kubrick ou Scott Fitzgerald). Allen faz de Isaac Davis, um neurótico comediante que conhece Mary Wilkie (a sua musa, Diane "Annie Hall" Keaton), que é uma espécie do seu reflexo, mas em feminino. Ambos estão em relações condenadas ao fracasso - Isaac namora com Tracy (uma penosa Mariel Hemingway), uma adolescente de 17 anos (de onde é que eu me lembro disto?), e Mary com Yale (Michael Murphy), que é casado - e, por isso, vão apaixonar-se naturalmente.

Manhattan é um enorme e assumido tributo à cidade, que se inicia com quatro minutos certinhos em formato de declaração de amor, assinada e tudo - Ele adorava Nova Iorque, idolatrava-a desmesuradamente -, seguindo a tradição das sinfonias da cidade (alguém mencionou Berlim, Sinfonia de uma Cidade ou Douro, Faina Fluvial, do "nosso" Manoel de Oliveira?). No entanto, não se pense que é uma homenagem convencional que Woody Allen faz; é certo que estão lá alguns dos marcos turísticos mais importantes - o Central Park, o Museu de Arte Moderna ou a Broadway -, mas a Manhattan que o mestre quer perpetuar é a sua, a dos pequenos factos mundanos. O trânsito, as pessoas, as longas avenidas ortogonais, os sítios que gosta de frequentar enquanto cidadão novaiorquino... Allen sempre foi um realizador muito arquitectónico e isso ficou provado quando, mais tarde, passou a filmar noutras cidades, tendo captar sempre o espírito do lugar. Londres, Barcelona, Paris e Roma que o digam.

Manhattan é, portanto, o romance típico de Woody Allen: agridoce e com final infeliz. Assim como a vida, como ele gosta de referir e sublinhar. E, no final, a declaração de amor definitiva a Manhattan: posso não ter uma mulher, mas sempre te terei a ti. É como aquela coisa do teremos sempre Paris. Manhattan é um dos Allens maiores, apesar do realizador continuar a afirmar que é o seu filme que mais detesta. Talvez com o tempo venha a mudar de opinião.

Além disso, Woody Allen filma a preto e branco, porque a sua Nova Iorque é a mesma de George Gershwin (cuja música é omnipresente, aliás): a do patine da época de ouro norte-americana. E Allen aproveita o facto para explorar aquela ambivalência das personagens que o preto e branco confere sempre (tal como o film noir, essa outra instituição do cinema norte-americano, pode comprovar) e para filmar algumas das melhores cenas em contra-luz do cinema contemporâneo: a da Ponte de

“O trânsito, as pessoas, as longas avenidas ortogonais, os sítios que gosta de frequentar enquanto cidadão nova-iorquino...” 93


Título nacional: Boneca de Luxo Realização: Blake Edwards

BREAKFAST AT TIFFANY’S

Elenco: Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal

1961 DIANA MARTINS

5th Avenue, Nova Iorque, cinzenta, sólida e solitária. É neste início de manhã que Holly Golyghtly (Audrey Hepburn) chega de táxi e admira a montra da Tiffany´s. Neste momento de contemplação, onde a futilidade preenche o vazio, é possível observar o paradigma nova-iorquino: uma cidade quão fria e cinzenta quão brilhante e fascinante. E é a partir deste momento que nos apaixonámos por Holly, uma acompanhante de luxo que sonha unicamente, mas da maneira mais ingénua possível, em casar-se com um homem rico e tornar-se atriz em Hollywood. Contudo, enquanto perdida em festas da alta-sociedade, conhece Paul Varjak (George Peppard), o seu vizinho escritor, que se afasta completamente do protótipo de homem que procura: preguiçoso e sustentado por outrem. Num misto de sonho e inocência, Holly vê-se dividida entre um querer casar por dinheiro para procurar o seu sentido de existência e de

autonomia e, por outro, o amor que sente por Paul que encerra uma amarra amorosa, uma gaiola sentimental. O sentido da pertença porque se gosta. Realizado em 1961 por Blake Edwards, o filme é adaptado do romance de Truman Capote. Primeiramente, o projecto esteve para ser realizado por John Frankenheimer e protagonizado por Marilyn Monroe contudo, após a desistência de Monroe do papel, Blake Edwards haveria de assegurar a realização, num filme algo suavizado face à narrativa mais crua e realista do livro de Capote. Afinal, e como Hepburn canta, numa das melhores cenas do filme, “moon river, wider than a mile/ i'm crossin' you in style some day/ oh, dream maker, you heart breaker/ wherever you're goin', i'm goin' your way.” E nós acreditamos que sim, com o estilo e o charme nova-iorquino.

“(...)o paradigma nova-iorquino: uma cidade quão fria e cinzenta quão brilhante e fascinante(...)”

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Título nacional: O Apartamento Realização: Billy Wilder

THE APARTMENT

Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray

1960 SARA GALVÃO

Poucos realizadores conseguem resistir ao teste do tempo, e Billy Wilder é um deles. C. C. Baxter (Jack Lemmon), um jovem profissional numa empresa de seguros, solteiro, deixa que o seu apartamento ao pé de Central Park seja usado pelos seus superiores para umas escapadinhas extra-matrimoniais, o que o coloca na curiosa posição de não poder desfrutar da sua própria casa. Eis senão que Fran (Shirley MacLaine), a rapariga do elevador que recusa os avanços de toda a empresa, revela não ser tão certinha como todos pensam, e num arremesso emocional de Natal, engole um frasco de soníferos... para descobrir, ao acordar, que está no infame apartamento de Baxter. Ousado e divertido, O Apartamento é a comédia negra suprema, onde as piadas sobre o mundo do entretenimento (desde a mulher que parece Marylin Monroe até “uma palavra dos nossos patrocinadores”) apenas são sobrepostas pelas tiradas sobre a batalha campal e pau de dois bicos que

são os relacionamentos amorosos. Extremamente realista, a história de amor entre o buddy boy que escorre esparguete com raquetes de ténis e a mulher que apenas se apaixona por homens não disponíveis pode não ter a intensidade de um Casablanca ou de E Tudo o vento Levou, mas apesar disso - ou talvez por isso - conseguimos, em todo o nosso cinismo moderno, adorar O Apartamento. Quem mais conseguiria fazer uma comédia sobre promiscuidade, casos extra-conjugais e suicídio? Wilder vai no fio da navalha entre o filme mais depressivo de sempre (e basta pensarmos nos temas que aborda para perceber que facilmente poderia ir por esse caminho) e uma comédia inteligentíssima onde, spoiler alert, eles acabam juntos. Bem, a modos que.

“Quem mais conseguiria fazer uma comédia sobre promiscuidade, casos extra-conjugais e suicídio?”

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Título nacional: Um Amor Inevitável Realização: Rob Reiner

WHEN HARRY MET SALLY

Elenco: Billy Crystal, Meg Ryan, Carrie Fisher

1989 SARA GALVÃO

Existe uma e apenas uma comédia romântica que ninguém se envergonha de colocar na lista de filmes preferidos, e essa é Um Amor Inevitável, de Rob Reiner. O romance entre dois indivíduos que não podiam ser mais diferentes, mas que o destino insiste em cruzar até que ambos, cabeças duras sobre quaisquer romantismos, se apercebem que não conseguem viver um sem o outro, leva pontos extra pelo orgasmo (falso) mais famoso da História do Cinema (e facto trivial do dia: a senhora que pede “o mesmo que ela” é a mãe do realizador).

te mesmo”. Enquanto seguimos a história de ambos, desde as suas convicções juvenis sobre relações e o final de Casablanca, até à tão desejada maturidade (e cinismo) emocional, temos casais reais que nos contam, em trechos de documentários, como se conheceram, e há quanto tempo estão juntos. Talvez por isso Um Amor Inevitável se distancie do género a que pertence - enquanto a maior parte dos filmes estilo “conto de fadas” acabam no “e foram felizes para sempre”, o filme de Rob Reiner, apesar de nos dar o final feliz (após doze anos e três meses), não deixa de mostrar que nem tudo são rosas, mesmo nas histórias de amor predestinado. E, claro, que homens e mulheres não podem ser apenas amigos, e que o molho de chocolate deve ser servido à parte.

A história de amor entre o depressivo Harry (Crystal) e a optimista Sally (Ryan) pode ter inventado todos os clichés da comédia romântica actual, mas por muitas vezes que se reveja, só um coração de pedra consegue manter uma cara séria na festa de Ano Novo que encerra o filme com a melhor declaração de amor de sempre: “Eu odeio-te Harry. Eu odeio-

“(...)leva pontos extra pelo orgasmo (falso) mais famoso da História do Cinema(...)”

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ETERNAL SUNSHINE OF THE SPOTLESS MIND

Título nacional: O Despertar da Mente Realização: Michel Gondry Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Elijah Wood

2004 SARA GALVÃO

E se pudermos apagar para sempre as más memórias da nossa cabeça, e com elas eliminar todos os nossos desgostos amorosos? E que tal apagar da nossa existência a pessoa que nos partiu o coração? Será que isso nos pode impedir de nos apaixonarmos novamente por ela?

algo muito importante sobre a natureza humana: não há nada que nos dê mais prazer do que a dor que advém da saudade de um passado que já não é presente. São as nossas experiências que nos formam, ou estamos predestinados? Pode o amor ser para sempre? E se tem de acabar um dia, não será melhor gozar o presente e ignorar o futuro?

Um filme que, tal como a passagem de um cometa pela Terra, foi um acontecimento singular de pessoas talentosas a trabalhar juntas num projecto que todos decidimos manter bem presente na memória - desde o argumentista Kaufman e o realizador Gondry, até Jim Carrey a mostrar que é mais do que uma cara de plasticina e Kate Winslet a desbravar caminho para a infame manic pixie girl - O Despertar da Mente vê-se como um sonho (e com o mundo onírico partilha a sua não-cronologia, onde apenas o cabelo colorido de Clementine nos diz em que parte da história estamos). A recusa de Joel em “limpar” Clementine da sua mente diz-nos

Romântico e desiludido ao mesmo tempo, O Despertar da Mente pode não ter sido um sucesso quando estreou nos cinemas - culpa talvez da campanha de marketing que o tentou vender como mais uma comédia com Jim Carrey - mas desde então, o público cresceu emocionalmente (e narrativamente) e aceitou-o de volta. Para nunca mais esquecer.

“Pode o amor ser para sempre? ”

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AN AFFAIR TO REMEMBER

METROPOLITAN

PEDRO MIGUEL FERNANDES

JOÃO PAULO COSTA

Tempos houve em que o melodrama era um género bastante apreciado, e O Grande Amor da Minha Vida é um exemplo perfeito, em fabuloso Cinemascope colorido, e um daqueles casos em que o remake é tão bom ou melhor do que o original. Protagonizado por dois excelentes actores, O Grande Amor da Minha Vida é a história de um casal que se apaixona durante uma viagem de barco (onde trocam o beijo mais incrível da história do Cinema, baralhando as voltas ao conservadorismo vigente), estando noivos de terceiros. Apesar de apenas surgir na segunda metade, Nova Iorque é o pano de fundo perfeito para um dos mais belos melodramas, pois é no topo do Empire State Building (“o lugar mais perto do Céu em Nova Iorque”) que combinam reencontrar-se e casar seis meses depois da despedida e separação no barco.

Durante as férias de Natal, um grupo de jovens privilegiados de Manhattan cumpre o ritual da reunião em festas nocturnas consecutivas antes do regresso à faculdade. Pegando em elementos auto-biográficos, o realizador Whit Stillman teve com Metropolitan uma estreia em grande no cinema com esta dissecação sobre a burguesia e a descoberta do amor entre jovens adultos no final do século anterior, não sendo de todo por acaso que nomes como Buñuel e Jane Austen são por diversas vezes referidos ao longo do filme, que assume ao mesmo tempo essa postura de sátira social e romance adolescente que, por baixo da aparente sofisticação das personagens, é de uma pureza irresistível. Autor praticamente desconhecido do grande público, Whit Stillman é um nome que importa redescobrir.

Título nacional: O Grande Amor da Minha Vida

Título nacional: Metropolitan

Realização: Leo McCarey

Realização: Whit Stillman

Elenco: Cary Grant, Deborah Kerr, Richard Denning

Elenco: Carolyn Farina, Edward Clements, Chris Eigeman

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AS GOOD AS IT GETS

THEY ALL LAUGHED

CÁTIA ALEXANDRE

JOÃO PAULO COSTA

Por obra do destino, um egoísta rezingão obsessivo compulsivo, uma mãe solteira e um artista gay desenvolvem uma amizade improvável. Uma história de pessoas reais, com problemas perfeitamente normais em situações embaraçosas proporcionadas pela vida, que mostra como todos temos o poder de criar a nossa própria felicidade. Com um conceito bastante simples mas original, As Good As It Gets usa os personagens inteligentemente, desenvolvendo-os de forma dinâmica e divertida, fazendo com que nos preocupemos com cada um deles e queiramos saber mais sobre as suas vidas. Jack Nicholson, apresenta aqui um desempenho fenomenal num dos melhores trabalhos da sua carreira mais recente, ao mesmo tempo que Helen Hunt e Greg Kinnear complementam a sua performance, sem nunca perder o destaque individual.

Na época ignorado pelo público e tornado mais famoso pelo trágico destino de uma das suas protagonistas, Dorothy Stratten (brutalmente assassinada pelo ex-marido numa altura em que mantinha uma relação com o realizador Peter Bogdanovich), Romance em Nova Iorque tem vindo a ser alvo de uma reapreciação por parte de gente como Quentin Tarantino e Wes Anderson, que frequentemente o citam entre os seus filmes favoritos. Na verdade, Bogdanovich construiu aqui uma bela screwball comedy com um elenco de luxo (de Audrey Hepburn a Ben Gazzara), sobre os (des)amores de um grupo de detectives privados pouco subtis e as mulheres das suas vidas - mesmo, ou especialmente, aquelas que investigam a pedido de maridos ciumentos. Uma pequena maravilha com actores excelentes debitando diálogos deliciosos.

Título nacional: Melhor é Impossível

Título nacional: Romance em Nova Iorque

Realização: James L. Brooks

Realização: Peter Bogdanovich

Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear

Elenco: Audrey Hepburn, Ben Gazzara, Patti Hansen

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BALADAS DE NOVA IORQUE Das épicas danças de Tony Manero nos clubes de Brooklyn às performances dos alunos da New York School of Performing Arts, Nova Iorque é também palco comum de musicais para todos os gostos. Sejam eles motivo para recontar a história eterna de Shakespeare de Romeu e Julieta mas com gangs mais virados para competições de dança, ou motivo para alguém como Woody Allen procurar um novo rumo para explorar as neuroses colectivas das classes privilegiadas de Manhattan. Não há como uma boa cantoria ou uma dança ritmada para animar os espíritos e exorcizar fantasmas pessoais ou, claro, para seduzir possíveis parceiros. Gene Kelly, Frank Sinatra, John Travolta, Liza Minnelli, Natalie Wood ou, ahem, Drew Barrymore (o seu playback em Toda a Gente Diz que te Amo é um mero detalhe) são alguns exemplos que irão mostrar os seus talentos musicais nas páginas seguintes.


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Título nacional: Febre de Sábado à Noite Realização: John Badham

SATURDAY NIGHT FEVER

Elenco: John Travolta, Karen Lynn Gorney, Barry Miller

1977 JOÃO PAULO COSTA

Uma coisa salta imediatamente à vista quando revemos um dos mais icónicos musicais da década de 1970: a certeza de que Febre de Sábado à Noite nunca seria feito hoje tal como o foi na sua época. Se actualmente não faltam exemplares de clara inspiração no filme que fez de John Travolta uma estrela e Tony Manero uma personagem emblemática das pistas de dança, estes são hoje na sua maioria produzidos com todos os paninhos quentes por forma a não ferir susceptibilidades nem passar maus valores aos adolescentes que vão ao cinema. Ninguém espera sentar-se numa sala escura e ter como heróis de um musical um grupo de tipos broncos, misóginos, racistas, drogados, homofóbicos e mesmo violadores... mesmo que dancem ao som de Bee Gees como ninguém.

apesar de uma narrativa hoje aparentemente banal, muito por culpa dos seus “filhos” recentes, assume uma crueza e uma brutalidade ao nível de muitos outros títulos da época. O seu protagonista está longe de ser uma personagem-modelo, os diálogos são duros e recheados de palavreado colorido, e a sua abordagem ao sexo bastante relaxada, o que parece quase surreal, especialmente se pensarmos que se trata de uma produção de um grande estúdio como a Paramount. Uma das suas mais trágicas personagens, Annette, uma jovem obcecada por Tony que constantemente se oferece a ele física e sentimentalmente, sendo sempre rejeitada, acaba mesmo violada sob o olhar silencioso de Tony. E apesar de esperançoso, o final é deixado em aberto, e o futuro nunca chega a parecer radioso, apenas um bocado menos sombrio.

Tony Manero é um jovem de 18 anos de Brooklyn que, depois de terminado o liceu, recusa a faculdade e vai trabalhar para a mercearia local, onde espera receber o suficiente para todos os sábados espalhar os seus dotes de dançarino nas pistas da discoteca local, onde se torna uma estrela com quem todas as raparigas querem dormir, e como a qual todos os rapazes locais gostariam de ser. É na pista que Tony se liberta das pressões familiares, e esquece o futuro cinzento que a vida naquele bairro tem para oferecer. Até que conhece Stephanie, uma rapariga um pouco mais velha do que ele, mas com ambições maiores de se tornar uma mulher independente de Manhattan, no outro lado da ponte, onde tudo é mais sofisticado. A custo, Tony convence Stephanie a ser a sua parceira num concurso de dança, para o qual começam os ensaios estritamente profissionais, uma vez que esta tem pouco interesse em namorar com um rapaz local sem grandes perspectivas de futuro.

Menos um musical clássico (onde as personagens desatam em danças e cantorias como forma de expressão) do que um drama com cenas de dança, Febre de Sábado à Noite deve ainda assim algo aos seus antecessores do anos 50, nomeadamente os clássicos da MGM, com o realizador inglês John Badham a dar espaço e tempo para que as cenas de dança possam decorrer com o mínimo de cortes (ao contrário dos musicais modernos, onde se prefere colar uma série de planos aleatórios ao ritmo da música que acabam por cortar as pernas às coreografias musicais, tornando-as pouco perceptíveis aos olhos do espectador), e se possam apreciar devidamente os passos de John Travolta que com este filme se lançou para o estrelato, ele que foi o único elemento do jovem elenco a conseguir uma carreira ao nível do sucesso mundial do filme – e, sejamos justos, não será propriamente pelas interpretações, mas sim por ser um marco de uma época de excessos diversos – do guarda-roupa à libertinagem sexual, passando pelo consumo de drogas – que Febre de Sábado à Noite é hoje recordado com tanto carinho pelo mundo cinéfilo.

Poucas vezes referido quando se enumeram os grandes marcos da “Nova Hollywood” dos anos 70, a verdade é que Febre de Sábado à Noite,

“(...)os diálogos são duros e recheados de palavreado colorido, e a sua abordagem ao sexo bastante relaxada(...)” 103


Título nacional: Amor Sem Barreiras Realização: Jerone Robbins, Robert Wise

WEST SIDE STORY

Elenco: Natalie Wood, Richard Beymer, Rita Moreno

1961 SARA GALVÃO

Este filme foi nomeado para 11 Óscares, e ganhou 10. A adaptação do musical da Broadway (estreia absoluta de Steven Sondheim como libretista, e música do incomparável Leonard Bernstein) ao grande ecrã capturou toda uma geração que o elegeu como a grande história de amor de todos os tempos, uma adaptação “moderna” de Romeu e Julieta, filmada nas ruelas e telhados de Nova Iorque. Em vez de Capuletos e Montagues, temos os Jets e os Sharks. Em vez de lutas - pelo menos durante a primeira hora - temos dance-offs (e aqui se criavam as sementes para o franchise Step Up). E, spoiler alert, o final não é tão dramático como na história dos amantes italianos...

pouca distância da perfeição, e só um Scrooge não bateria o pé ao som de “America” ou faria gestos dramáticos com “Maria”. O problema, onde o filme envelheceu terrivelmente mal, é nos momentos entre números musicais, onde as personagens, bem, falam um diálogo que, não sendo Shakespeare, está ao nível dos piores e mais lamechas cartões do dia dos Namorados. Junte-se a isto o terrível sotaque “hispânico” de Natalie Wood e de todos os Sharks, uma cinematografia digna de um filtro de saturação do Instagrama e uma performance terrível de Richard Beymer (o próprio concorda), e talvez seja melhor, em vez de sentar para duas horas e meia de filme, ver uma montagem dos números musicais no Youtube...

Avancemos 40 e poucos anos, e é minha convicção que este filme é o grande responsável por tanta gente odiar musicais. Nada a apontar aos momentos em que eles efectivamente cantam e dançam - esses estão a “(...)uma adaptação “moderna” de Romeu e Julieta(...)”

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Título nacional: Um Dia em Nova Iorque Realização: Stanley Donen, Gene Kelly

ON THE TOWN

Elenco: Gene Kelly, Frank Sinatra, Betty Garrett

1949 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Primeiro de três musicais assinados pela dupla Stanley Donnen-Gene Kelly (e estreia do primeiro na cadeira de realizador), Um Dia em Nova Iorque é uma visita à Big Apple feita por três marinheiros em dia de folga, a partir do musical homónimo de Leonard Bernstein e Roger Edens, que teve um êxito considerável na Broadway dos anos 1940. Contudo, a adaptação ao grande ecrã não foi do agrado de Bernstein que viu as suas composições serem preteridas em prol de novas músicas de Roger Edens, que considerava as peças do seu parceiro demasiado complexas. Polémicas à parte, Um Dia em Nova Iorque foi uma estreia em grande para Stanley Donnen, que conseguiu reunir na tela um dos maiores bailarinos e coreógrafos da história do Cinema (Gene Kelly) e um dos maiores cantores de sempre: Frank Sinatra, a dar os primeiros passos na sua carreira de actor. O papel de Kelly, não contando com a sua interpretação, deixou uma marca de relevo em Um Dia em Nova Iorque

pois foi a sua insistência junto da MGM que permitiu rodar algumas das cenas do filme em alguns locais emblemáticos da cidade, como o Museu de História Natural ou o Rockefeller Center. Esta particularidade tornou este um dos primeiros musicais a ser filmado localmente nas ruas novaiorquinas. Aliando esta característica às cenas em estúdio temos aqui um belo exemplo de um género, o musical, em fase de mudança, depois das caleidoscópicas coreografias de Busby Berkeley que marcaram os anos 1930 e o início da década de 1940. E onde uma vez mais Nova Iorque é homenageada como a cidade centro do mundo, onde tudo pode acontecer, mesmo que seja só por um dia.

“(...)um dos primeiros musicais a ser filmado localmente nas ruas nova-iorquinas(...)”

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NEW YORK, NEW YORK

EVERYONE SAYS I LOVE YOU

TIAGO SILVA

JOÃO PAULO COSTA

Filme que definiu a aura que continua presente na mente de uma geração sempre que o nome da cidade é evocado, New York, New York é, tanto no que essa particularidade tem de positivo como de negativo, um dos filmes que habitam o imaginário comum e que continuam a perpetuar o mito do “american dream”. Por todos conhecido ainda que não o tenham visto, graças ao tema cantado por Liza Minnelli e imortalizado na voz de Sinatra, este apresenta uma cidade que se prepara para entrar numa nova era, com o fim da II Guerra Mundial e o aparecimento de um novo sentimento de esperança, que também se reflecte no início súbito da relação turbulenta entre uma cantora e um saxofonista — que, apesar da restante parafernália que Scorsese introduz no filme, continua a ser o mais interessante de observar.

Depois de ter namorado o género nos seus dois trabalhos anteriores, Woody Allen decidiu abraçá-lo por completo em Toda a Gente Diz Que Te Amo, conseguindo ao mesmo tempo compilar uma espécie de best of da sua obra (famílias sofisticadas em que ex-casais até passam férias juntos; segredos de consultas psiquiátricas ouvidos por elementos exteriores; alguma fantasia surreal…) mas num tom bastante leve e repleto de números musicais rodados à boa maneira clássica, onde a coreografia cuidada se sobrepõe a qualquer ideia de falso dinamismo da montagem. Ao mesmo tempo consegue também ser das mais divertidas comédias puras de Allen que, entre Veneza, Paris e sobretudo Nova Iorque filmada durante as 4 estações do ano com um elenco de luxo, deixam o espectador com um largo sorriso nos lábios.

Título nacional: New York, New York

Título nacional: Toda a Gente Diz Que Te Amo

Realização: Martin Scorsese

Realização: Woody Allen

Elenco: Liza Minnelli, Robert De Niro, Lionel Stander

Elenco: Woody Allen, Goldie Hawn, Julia Roberts

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OS LOBOS DE WALL STREET Para além de ser o centro de muita coisa, Nova Iorque é também um dos principais centros financeiros do planeta. Com cerca de 1 Km de comprimento, Wall Street é a rua onde diariamente os valores do mercado bolsista sobem e descem a um ritmo que escapa ao comum dos mortais. Talvez por isso mesmo seja também território apetecível para os cineastas que adoram explorar o estilo de vida excessivo dos investidores locais. Bret Easton Ellis tornou mesmo um deles num famoso psicopata americano num romance que lhe valeu ameaças de morte, e cuja adaptação cinematográfica teve de esperar na gaveta durante uma década. Mais recentemente, Martin Scorsese chegou aos Óscares por retratar na tela a devassidão de uma figura real que enquanto pôde viveu à grande e às margens da lei. Se é uma das muitas pessoas em quem os efeitos da crise económica se fazem sentir, provavelmente encontrará aqui uns quantos responsáveis pelo seu problema.


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Título nacional: O Lobo de Wall Street Realização: Martin Scorsese

THE WOLF OF WALL STREET

Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie

2013 PEDRO SOARES

Vimos O Lobo de Wall Street em 2014 e percebemos que continua quase tudo na mesma no corpo de obra de Martin Scorsese. Vamos lá então conferir isso: Leonardo DiCaprio continua a ser o seu novo actor fetiche, continua a filmar histórias de mafiosos (entenda-se mafioso como em bandido vigarista e não como em membro da Máfia) e mantém os temas do costume - violência, dinheiro, esquemas, drogas... O que mudou então? Em O Lobo de Wall Street, Scorsese trocou os Rolling Stones do costume pelos bluesmen de Chicago. De resto, a oeste nada de novo.

a inflação e a dívida a entrarem-nos pela vida adentro sem pedir licença, é impossível não fazermos aqui uma comparação entre o ontem do filme e o hoje, mas (feliz ou infelizmente, fica à consideração de cada um) há pouco de sátira em O Lobo de Wall Street. O Lobo de Wall Street lembra Tudo Bons Rapazes, não tanto pela glorificação dos bandidos, mas pela estrutura e pelo ritmo infernal do filme. E, claro, com menos violência, mas com mais drogas (já dissemos que há mais drogas aqui do que em Scarface?). Como se Scorsese tivesse andado a ver Delírio em Las Vegas em loop, antes de se deitar. Há trips fodidas, orgias, lançamento de anões(!), coca snifada do rabo de prostitutas(!!) e muitas mais maluquices, provando pela milésima vez que a realidade é sempre mais estranha que a ficção.

O estilo continua igual - o ritmo mantém-se a cem à hora, se bem que aqui há mais drogas do que em qualquer filme anterior de Scorsese (ou mesmo incluindo o Scarface – A Força do Poder de Brian De Palma na mistura - e nós sabemos o quão difícil isso é), os diálogos atropelam-se e a violência e os excessos fazem parte do pão nosso de cada dia -, mas a banda-sonora tem, pela primeira vez, algumas falhas. Uns Greenday ou uns Foo Fighters lá pelo meio soam demasido aleatórios (leia-se manhosos), mesmo que haja a contrabalançar alguns momentos à Casino, em que há tanta música que é quase um teledisco (e isto é um elogio). Mas essa escolha musical deixa-nos tristes vinda de um autor que sempre nos habituou com o seu bom gosto impecável (c'um raio, estamos a falar do homem que realizou Shine a Light, A Última Valsa ou George Harrison: Living in the Material World).

No entanto, se espremermos do filme todo esse deboche, chegamos à conclusão que o que fica é um biopic algo pálido, à sombra do que Scorsese já fez de melhor. E isso é mau? Não, obviamente que não. Até porque tem 10 minutos geniais de Matthew McConaughey (que se transformou num actor formidável num processo de metamorfose tão rápido quanto imprevisto), um Jonah Hill transformado em actor sério(!), ele mesmo, que ainda há pouco tempo andava obcecado em desenhar pilas (olá Super Baldas) mas agora se sente suficientemente confiante para abanar a sua própria diante das câmaras, e uma tal de Margot *suspiro* Robbie. Ai, a Margot Robbie... Não faz esquecer Casino ou Tudo Bons Rapazes, confessamos, mas O Lobo de Wall Street entretém igualmente.

Mas deixemo-nos de música, mesmo que ela seja sempre um elemento importante nos filmes de Scorsese, e foquemo-nos na história de O Lobo de Wall Street: o relato verídico de Jordan Belfort (encarnado por Leonardo DiCaprio), o corrector da bolsa que dominou Wall Street no final dos anos 90, numa vida de esquemas e excessos. Não confundir com os esquemas de Wall Street de Oliver Stone e Michael Douglas, no filme homónimo de 1987. Devido à actual crise financeira, com a troika,

“(...)os diálogos atropelam-se e a violência e os excessos fazem parte do pão nosso de cada dia(...)” 111


Título nacional: Wall Street Realização: Oliver Stone

WALL STREET

Elenco: Charlie Sheen, Michael Douglas, Darryl Hannah

1987 PEDRO MIGUEL FERNANDES

«A ganância é boa». Este é o principal lema de Gordon Gekko, uma das personagens de Wall Street, filme em que Oliver Stone dá a conhecer os corredores dos arranha-céus do coração financeiro de Nova Iorque, onde o dinheiro corre a rodos, como um rio sem fim.

apenas há lugar à transferência de dinheiro de umas mãos para outras, mas há sempre vítimas nesta espécie de monopólio da vida real. Esta dura crítica ao capitalismo é nos dada a ver através do olhar de um jovem e ambicioso corretor, interpretado por Charlie Sheen, novamente a colaborar com Stone depois do êxito de Platoon – Os Bravos do Pelotão, que para fazer fama e fortuna sem olhar a meios acaba por se aproximar do tubarão Gordon Gekko, um especulador sem escrúpulos que usa e abusa do acesso a informação privilegiada para enriquecer ilicitamente.

A Wall Street de Oliver Stone é um bairro pouco recomendável, não devido à criminalidade violenta, como havia noutras zonas da Nova Iorque da década de 1980 em que decorre a acção, mas devido a obscuros negócios de colarinho branco. Palco de jogadas de bastidores pouco claras que tanto tornam pequenas empresas em balões prestes a rebentar como num ápice destroem imbatíveis impérios financeiros aparentemente indestrutíveis. Como bem explica às tantas Gekko (uma das grandes personagens de Michael Douglas, que lhe garantiu o seu único Óscar enquanto actor) é apenas um jogo, ninguém ganha ou perde dinheiro,

Filmado a um ritmo quase alucinante, como se de uma sessão bolsista se tratasse (a sequência do primeiro ‘ataque’ de Gekko ao seu rival Sir Larry é um bom exemplo desse frenesim), Wall Street é um dos mais poderosos filmes sobre o funcionamento dos mercados. “(...)é apenas um jogo, ninguém ganha ou perde dinheiro(...)”

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Título nacional: Psicopata Americano Realização: Mary Harron

AMERICAN PSYCHO

Elenco: Christian Bale, Samantha Mathis, Willem Dafoe

2000 SARA GALVÃO

Neste brilhante filme sobre a importância de um bom cartão de visita, Christian Bale/Patrick Bateman reflecte sobre a relevância musical de Whitney Houston, Phil Collins e Huey Lewis & the News, fala-nos dos seus rituais de banho pessoais e, claro, mostra como levar a peito a máxima de uma mente sã num corpo são. A sua vida de jovem profissional em Nova Iorque está pejada de emoções e aventuras, que passam por tentar reservar uma mesa no Dorsia, as encruzilhadas amorosas num grupo de amigos profissionais e, claro, assassinar prostitutas louras com motosserras. Baseado no romance homónimo de Bret Easton Ellis, este seria o filme que poderia ser acusado de misógino não fosse o facto de ser realizado por uma mulher. Uma estranha mistura de terror, comédia de identidades trocadas e a sátira suprema do Sonho Americano, onde a psicopatia se estende muito além de Patrick Bateman (que, no fim de

contas, não poderia estar melhor integrado no mundo que o rodeia), Psicopata Americano pode estar temporalmente datado (telefones sem fios do tamanho de pacotes de litro de Compal e jovens de 27 anos com empregos estáveis), mas o espírito continua vivo. Pergunte-se a qualquer cinéfilo qual é a teoria que preferem para o final - foi tudo um delírio maníaco ou são todos loucos - e a discussão resultante pode bem acabar às machadadas. Fora do filme, a única coisa que levou com um objecto contundente no estômago foi a carreira de Mary Harron, a realizadora, enquanto que Bale se tornou Batman e restringiu a lista de assassinatos a directores de fotografia. E agora, se me dão licença, tenho de ir devolver umas videocassetes...

“(...)este seria o filme que poderia ser acusado de misógino não fosse o facto de ser realizado por uma mulher.”

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MARGIN CALL

THE BONFIRE OF THE VANITIES

JOÃO PAULO COSTA

JOÃO PAULO COSTA

Contando com um elenco de luxo, O Dia Antes do Fim marcou a impressionante estreia de J.C. Chandor na escrita e realização de longas-metragens, narrando de forma bastante intensa aquilo que poderá ser descrito como a história da noite que mergulhou o Mundo numa crise financeira da qual ainda hoje tenta recuperar. Infiltrando-se nos bastidores de uma grande companhia financeira de Wall Street que, inesperadamente, inicia um processo de despedimentos em massa, o espectador é colocado na curiosa situação de nunca perceber na totalidade a dimensão económica dos problemas (a não ser que seja um expert na matéria), mas a realização, os diálogos e o excelente elenco deixam-no sempre colado à cadeira, numa constante sensação de desconfortável tensão que se prolonga até ao final.

Apesar da sua reputação como uma das maiores bombas comerciais dos anos 90, cuja rodagem marcada por exigências dos estúdios na escolha do elenco e preocupações com o tom demasiado provocador do material que entraram em conflito com a personalidade irascível do realizador Brian De Palma, A Fogueira das Vaidades pode ser visto hoje a uma distância razoável e permite-nos perceber que, apesar de um tom menos ácido do que o do ultra-popular romance de Tom Wolfe que o inspirou, mantém intactas algumas qualidades satíricas que espalham na lama a reputação de Wall Street e os tentáculos do poder corrupto. E sejamos honestos, nos primeiros 5 minutos da sua duração, De Palma já ofereceu ao espectador mais Cinema do que muitos realizadores são capazes de conseguir numa carreira inteira.

Título nacional: O Dia Antes do Fim

Título nacional: A Fogueira das Vaidades

Realização: J.C. Chandor

Realização: Brian De Palma

Elenco: Zachary Quinto, Stanley Tucci, Kevin Spacey

Elenco: Tom Hanks, Bruce Willis, Melanie Griffith

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A CIDADE DA MINHA TELEVISÃO MIGUEL FERNANDES

Permitam-me começar, a sair. Vou ser breve. É uma história de cinema. Vão ver que faz sentido. Begin Again, a mais recente obra de John Carney (Once), oferece Nova Iorque ao som da canção. Utiliza esta para transformar a outra. A cidade como personagem, construída aos olhos de quem a ouve. Somos nós, nossos leitores, nossas playlists, nossos passos e encontrões que a redesenham num contínuo que nunca fecha. Nunca dorme. Os dois protagonistas andam perdidos pelas ruas, partilhando o som, através de um adaptador, e dividindo pela primeira vez a experiência. No final, sentam-se no passeio e ele desabafa: como a música tem o poder de transformar qualquer cena banal numa pérola. É a arte a roubar descaradamente os espaços e a dar-lhe novos contornos. Furtar à vista de todos Nova Iorque, erguê-la à sua medida. Assim a música, e nossos dias. Assim a comédia, e os mesmos nossos e os mesmos dias. Em concreto a grande maçã no pequeno ecrã. A rimar e a concluir com esperado sucesso este raciocínio, que sim reconhece uma enorme variedade de abordagens, mas que não, não encontra outra casa como o riso. O mar é infindável quando procuramos séries televisivas ambientadas em Nova Iorque, de cabeça ou de teclado. A lista é gorda a cada década que passa. E são claras as sirenes. O policial que aproveita o cinzento para dele descobrir seus casos. Usando nalguns casos, descaradamente o N e o Y como bandeira. NYPD Blue (1993) e CSI: NY (2004) por exemplo. A primeira correu durante doze anos e terminou pouco depois da segunda arrancar. Que por sua vez lá se esticou em nove temporadas. Não existiam nelas dúvidas da sua presença. É ali, gritavam no genérico, nas cores e no tempo, para que fosse impossível pensar na fuga. Movimentos rápidos da pistola à procura do suspeito rimavam com os acelerados desvios da câmara. As sequências aéreas de magnitude que depois se fechavam nos apertados becos chuvosos. Castle, Rescue Me, Law & Order, Elementary, Person of Interest, Without a Trace, Blue Bloods. É difícil descolar com tamanha imposição azul, com a força de intervenção, mas estamos em última instância a falar mais na forma. Não tanto nos vasos sanguíneos. Na incorporação das ruas nas veias, do metro nas artérias. Isso galopamos num único sentido, o da comédia. 117


usualmente os habitantes insensíveis, sarcásticos, cáusticos, perdidos e sem horizontes. Exatamente o oposto do sonho americano, de lá tudo ser possível. Exatamente o oposto da abordagem trinto-quarentona de Sex and the City, onde as quatro amigas passeiam os seus sapatos de salto alto e o seu sucesso, pelas ruas bem mais ficcionadas e coloridas. Saímos do realismo para o consumismo, porém sem nunca sair de lá. É outra vertente, bem mais apelativa a um estilo de vida, ou só ao estilo. À emancipação feminina na forma de notas, carreiras e encontros amorosos. Muitos encontros amorosos. Nova Iorque possibilita o acaso, o anonimato, e as relações em catadupa. A libertação e liberalização do sexo, girl power, como gritavam as Spice Girls. A série da HBO e sua febre já todos nós provámos: seis temporadas, dois filmes e uma série prequela (The Carrie Diaries). Também todos nos lembramos das ousadas cenas de sexo do quarteto, umas com mais sexo que outras, mas todas a despir e a marcar uma época. À imagem da mais recente aventura feminina do mesmo canal, Girls, que viu recentemente um dos seus episódios causar pesada polémica. O número um da quarta temporada ofereceu uma arrojada cena de sexo anal/oral que deixou todos a falar. Longe demais ou na mouche (sem segundas intenções) foram as ondas que se seguiram caindo na areia, sobre o momento protagonizado por Allison Williams e Ebon Moss-Bachrach. A série de Lena Dunham sempre foi desenvergonhada no que toca à nudez, sexo, linguagem.

QUEM ÉS TU MIÚDA? Broad City foi uma das grandes revelações de 2014, presente em qualquer top que se preze, armando ou não os cucos. Revelação, pequena maravilha, hilariante, os adjetivos seguiam em fila indiana, servindo pois para alertar os mais despistados. A série criada e protagonizada por Ilana Glazer e Abbi Jacobson, e produzida por Amy Poehler, estreou no início desse ano no Comedy Central, e dá continuidade à websérie de mesmo nome que arrancou em 2009. Duas amigas, nos seus vinte e tais, em Nova Iorque. É esta a premissa. Minto, é um bocadinho mais citadina: comédia estranha sobre um casal de gajas (broads), melhores amigas, que passeiam os seus vinte anos em Nova Iorque. Falidas e falhadas, não dizem não às situações complicadas que a cidade lhes impõe. Cidade de gaja, cidade das gajas, é por aí, resume bem a situação. E a especificidade necessária para que exista de facto tudo dentro deste enorme nada, natural e realista. O cenário passa a motor essencial, não só na sinopse e título mas na verdadeira orgânica narrativa. É o terceiro elemento, tão vivo e esperto como todos os outros, a colidir incessantemente nas peças que se deslocam baralhadas, e azaradas. Tão ou mais importante que a carne e osso. É que feitas as contas é a sua magnitude e diversidade que tornam possíveis as situações, relações, e consequentemente as características das personagens. Um lugar de tudo e de todos cria 118


Como a casa mãe, alvo de um delicioso vídeo satírico que terminava com a frase “it´s not porn, it´s HBO”. Quatro amigas, a tentar a sorte na cidade grande. Parecido no número a Sex and the City e idêntico nos dilemas geracionais a Broad City, Girls acrescenta algo mais à interface rapariga-cidade. Sai do assumido campo da comédia e mistura-o com o dissimulado campo do drama. A comédia da vida, que às vezes não tem piada nenhuma, atirando para o fundo uma série de ambições e vontades. Passeando mesmo na lama. Constatando demasiado cedo os falhanços e a reação ausente aos mesmos, deixar andar, no dia-a-dia. Egoísmo do grande anonimato mas também os sonhos, a dicotomia campo-cidade, deixar tudo para amadurecer. Como uma velha canção, é a bofetada mais acertada, não apenas sobre raparigas, mas sobre todo um conjunto de seres humanos procurando desesperadamente algum significado.

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AMIGOS (DA ONÇA) Friends será sempre rotina. Por muito que não se queira, onze anos depois a série continua presente. Nos espaços, nas conversas, nas deixas, nas televisões e eternas repetições. Até aqui, ou não tivesse a última Take dedicado acentuado parágrafo aos seis amigos. A propósito da longevidade da mesma, dez aninhos. Agora voltamos à carga, ou não fosse esta uma peripécia nova-iorquina. Muitos cenários, muito estúdio, mas os pequenos separadores levavam-nos automaticamente para a rua. Contexto, como o Washington Square Arch que lá nos indicava mudança de cena. Foi o início do rastilho. Uma abordagem mais ingénua e facilitista, que serviu de percursor aos murros que atualmente levamos. Evoluindo, para o real, como a própria comédia. Não deixa porém de ser o caótico vendaval que permite depois a figura do reencontro, naquele famoso apartamento ou café. Ou no bar, se saltarmos sem misericórdia para How I Met Your Mother, série que se despediu do público em 2014. Isto depois de uma promessa que demorou nove anos a ser cumprida. Uma resposta que foi sendo adiada, adiada, adiada, adiada, para bem da indústria, para mal dos fãs. É difícil manter frescura, mesmo com a cidade na mão. Apesar disso o gangue dos cinco criou momentos lendários, com as histórias dentro das histórias, sendo a aleatoriedade do movimento a funcionar como motor. É o coração do país, e da identidade 120


cultural. Inúmeras as piadas a respeito da personagem canadiana (Robin) ou inúmeros locais icónicos a servir por sua vez de piada (a famosa manobra de Barney no topo do Empire State Building onde se aproximava de uma rapariga sozinha e com ar desesperado e proferia a frase: ele não vem). Uma estirpe de comédia que unificava cada uma das personagens, nas suas idiossincrasias e peculiaridades, que divertia mas que nunca aleijava. O lado melhor, mais ficcionado e artificial. Cheirava mais a cartão que a verdadeira, única e ácida. O grupo nova-iorquino que terá para sempre a estátua, o pódio, o prémio. Seinfeld, claro está. Não é por acaso que o canto do cisne os retira aos quatro da cidade grande e os coloca na cidade pequena. Numa vila, aldeia, noutro lugar, fora do aquário. E também não é por acaso que é lá que eles são presos e julgados, não apenas por não terem ajudado uma pessoa mas por tudo o que fizeram no passado. A lei do bom samaritano, foi essa que eles não respeitaram, que eles nem sabiam que existia. Porque as suas leis são outras: nova-iorquinas. Só a metrópole para produzir tamanho egoísmo, ou melhor, só a metrópole para trazer à tona tamanho umbigo. Porque para além de produzir, há o incomparável fator espelho que nos seduz, que nos envergonha e sinaliza. Somos assim de facto: pobres de espírito, mesquinhos, sovinas, maldizentes, ruins, podres. Mordazes, irónicos, críticos, críticos, críticos e críticos. Era essa a genialidade deste nada: recorrer ao enorme para concretizar o muito pequeno. Os locais,

as peripécias, o saltitante sonoro, são conjunto que definiu não apenas uma década mas uma forma de ver e sentir a cidade. Cada um por sim, prenúncio do fim. No fundo o que Louie já percebeu há algum tempo: que a vida é uma cidade solitária, onde de vez em quando tentamos ter piada.

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Take 38  

New York

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