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FUTEBOL

TAKE.COM.PT | ANO 7 | NÚMERO 35


BOLA AO POSTE CARLOS REIS

As duas grandes paixões do nosso tempo combinam pouco e mal. Pronto, está dito. Um começo certamente decepcionante para uma edição que deveria tentar convencer o leitor do contrário. Que futebol e cinema, cinema e futebol, dois fenómenos contemporâneos com capacidade para nos fazer sonhar e apaixonar, sorrir e chorar, criar autênticos ídolos de multidões e heróis de gerações, nasceram para co-existir. Mas calma, nem tudo está perdido. Escondidos no fundo dos túneis de acesso ao relvado, alguns remates certeiros provam que a vitória, por mais improvável que seja perante desportos técnica e artisticamente dominados como o boxe ou as corridas de automóveis é possível. Nesta edição, tentámos falar de todos: dos penaltis que acabam com a bola fora do estádio, dos que batem no poste e saem pela linha de fundo e, até, de um ou outro golo de meio-campo, completamente inesperado. Das mulheres em campo aos Busby Babes, de Eusébio a Pelé, de Maradona a Zidane, de Garrincha a Tostão, de Cantona a Cruyff, dos hooligans aos árbitros, esta Take dedicada à relação entre o cinema e o futebol, com enfoque óbvio no Mundial que este ano se realiza no Brasil, descobriu e analisou exemplares cinematográficos para todos os gostos e clubismos. E para quem julga que apreciar e vibrar com algo tão "banal" quanto o futebol é um sinal social de falta de cultura, esta edição é um autêntico cabrito que resultará num belíssimo golo de trivela.


ARTIGOS 02 Bola ao Poste . editorial 06 Cinema e Futebol, um casamento impossível? 11 O Leão da Estrela 14 United 18 Eusébio, a Pantera Negra 22 Brasil - Futebol no Cinema 30 O 12º Jogador 38 O Onze Ideal 70 Visão de Mercado vs Mais Futebol 76 Mundial 7.ª Arte 78 Grupo A 110 Grupo E 86 Grupo B 118 Grupo F 94 Grupo C 126 Grupo G 102 Grupo D 134 Grupo H 142 Calendário de Jogos

Director José Soares. josesoares@take.com.pt Editor Carlos Reis. editor@take.com.pt Editor adjunto João Paulo Costa. editor.adj@take.com.pt Colaboraram nesta edição Aníbal Santiago. Carlos Reis. João Paulo Costa. Pedro Miguel Fernandes. Pedro Soares. Samuel Andrade. Sandra Gaspar. Sara Galvão. Tiago Silva. Xico Santos. Design José Soares. Imagens Arquivo Take. Alambique. Big Picture Films. Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Columbia TriStar Warner Portugal. Costa do Castelo Filmes. Fox Portugal. Films 4 You. iStock. LNK Audiovisuais. Lanterna de Pedra Filmes. Leopardo Filmes. ZON Lusomundo Audiovisuais. Midas Filmes.

144 Mike Bassett: England Manager

Nitrato Filmes. Pris Audiovisuais. Sony Pictures Portugal. Universal Pictures Portugal. Valentim de Carvalho Multimédia. Vendetta Filmes.

CRÍTICAS 24 Heleno 25 Garrincha - Alegria do Povo 26 Linha de Passe 27 Pelé Eterno 28 Tostão - a Fera de Ouro 29 O Casamento de Romeu e Julieta 32 Green Street Hooligans 33 The Football Factory 34 Rise of the Footsoldier 35 The Moon is Jewish 36 Cass 37 Fever Pitch 40 Rudo y Cursi 42 Offside 44 Mossafer 46 The Two Escobars

CRÍTICAS MUNDIAL 7.ª ARTE 48 Johan Crujff - En Un Momento Dado 50 The Game of Their Lives 52 Zidane, un portrait du 21e siècle 54 Shaolin Soccer 56 Escape to Victory 58 Maradona by Kusturica 60 Looking for Eric 62 The Damned United 63 L'Arbitro 64 El Penalti Más Largo del Mundo 65 Mean Machine 66 The Miracle of Bern 67 Pelada 68 Purely Belter 69 Días de Fútbol

79 Pixote: A Lei do Mais Fraco 81 H-8... 83 El Topo 85 Muna Moto 87 Todo Sobre Mi Madre 89 Turks Fruit 91 No 93 Mad Max 95 Los Colores de la Montaña 97 Eternity and a Day 99 Au nom du Christ 101 Shichinin no samurai 103 Whisky 105 Gestación 107 Don't Look Now 109 Nuovo Cinema Paradiso 111 La Dentellière 113 Crónicas

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115 Léon 117 No hay terra sin dueño 119 El Secreto de sus Ojos 121 Grbavica 123 Nema-Ye Nazdik 127 Metropolis 129 Vale Abraão 131 Love Brewed in the African Pot 133 Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages 135 The Broken Circle Breakdown 137 Z 139 Battleship Potemkin 141 Virgin Stripped Bare By Her Bachelors


Š Xico Santos


CINEMA E FUTEBOL UM CASAMENTO IMPOSSÍVEL? CARLOS REIS

Dizem-nos os amantes da Sétima Arte um pouco por todo o mundo que o futebol é um animal que resiste ao cinema, mesmo sem perceberem muito bem as razões pelas quais os dois grandes elementos de ócio, convívio e cultura dos últimos cem anos não conseguem dar as mãos e caminhar felizes ao pôr-do-sol. Quando a abordagem ao jogo é feita de forma lateral, dos conflitos entre adeptos às rivalidades de bairro, das metáforas de vida a paixões escaldantes, de dramas a comédias sobre inadaptações sociais, o cinema em si safa-se. O problema é o jogo. A beleza do jogo que ninguém ainda percebeu como filmar. Foram vários os realizadores que nos ofereceram retratos fantásticos associados ao boxe, ao basebol, ao golfe, aos mais diversos desportos automobilísticos, ao futebol americano e, até, ao basquetebol.


Qualquer ângulo de abordagem serviu e são vários os exemplos em que a acção desportiva é filmada de forma, no mínimo, credível. Nada de dez jogadores ao redor de uma bola em meio metro quadrado de espaço, carrinhos fora de tempo, guarda-redes anedóticos ou remates ridículos que acabam no fundo da baliza em situações que Michel Preud'Homme pararia a bola com o peito. No boxe, com tanta pancada física e emocional, chegam mesmo a existir exemplos cinematográficos maravilhosos que até nos fazem sentir incomodados perante tão dura realidade. O cinema nunca encontrou problemas com nada, do futuro ao passado, da imaginação sem limites da ficção científica à realidade crua e dura de um homem a lutar pela vida. Com nada, à excepção do futebol - e, talvez, do ténis. Nem quando é colocado Pelé em campo e John Huston atrás das câmaras, o cinema consegue evitar que o jogo em si seja filmado num tom grotesco, infantil e, acima de tudo, surreal. Quando o futebol entra em acção, o cinema é derrubado. Os adeptos, os árbitros, os jornalistas desportivos, as crianças, as mulheres que sonham ser como Beckham, os dirigentes, todos eles encaixam na sétima arte. O que não encaixa é a maravilha do jogo jogado. Seja pela sua dificuldade de execução, pela sua complexidade, pelo facto de ser um dos desportos mais seguidos em todo o mundo ou porque nasceu na Europa e não nos Estados Unidos da América, a verdade é que o futebol dentro das quatro linhas nunca consegue ser tratado com harmonia e rigor dentro de uma linguagem cinematográfica coerente e cativante. É este o grande Evereste por escalar do cinema, filmar o futebol como este merece. Nós, adeptos das duas artes, continuamos à espera de um alpinista que alcance o cume mais alto de todos. 8


Quando a mítica Cahiers du Cinema, revista cinematográfica francesa associada à nouvelle vague (Truffaut, Godard e tantos outros escreveram na mesma) publicou em Julho de 2002, na sua edição 570, uma tabela de estreias cinematográficas com a opinião dos críticos da casa resumida a estrelas, onde as duas últimas linhas foram guardadas para dois jogos do Mundial de Futebol de 2002 (Brasil vs Inglaterra e Itália vs Coreia do Sul), a K2 cinéfilo-futebolística foi escalada. A importância sociológica e de inclusão cultural do futebol foi reconhecida pela bíblia intelectual e as clivagens entre as classes desapareceram. Os cinéfilos já não tinham de apreciar o futebol às escondidas. Um feito histórico que não foi acompanhado a nível de execução técnica.

multiplicam-se até ao desastre. Não serão os fantásticos anúncios publicitários destinados ao futebol - principalmente os da Nike - a prova que é mais fácil transformar um jogador num actor que o inverso? A esperança surge mesmo nestas novas vias, da publicidade às transmissões televisivas. O dinamismo com que os grandes jogos são hoje filmados, com jogadas e não-jogadas capturadas ao mais pequeno detalhe, na multiplicação das câmeras ao slow motion, das gruas e cabos aéreos aos travellings, tudo isso prova que os realizadores de televisão descobriram a forma ideal de tratar o futebol numa tela, forma essa que os cineastas não podem ignorar. Uma transmissão televisiva de um jogo de futebol tem hoje rasgos de autor, partilha elementos artísticos com o cinema e deixa as imagens falarem por si próprias. Controlar estas imagens é controlar o jogo. Mas mesmo quando não se trata de um jogo a sério, a publicidade - esse ramo tantas vezes denegrido pelo cinema - mostra que é possível transmitir sensações, rivalidades, tradições, heroísmo e uma sensação de aventura através de metáforas associadas ao movimento de uma bola entre jogadores, crianças, heróis e vilões, seja num aeroporto movimentado ou numa arena em pleno inferno. De uma vez por todas, chegou a hora de cinema e futebol encontrarem o seu lugar no meio de tantas possibilidades. Por outras palavras, chegou o momento de aparecer um Raging Bull futebolístico, um Any Given Sunday europeu.

Apesar de todos os avanços tecnológicos, filmar o futebol não é filmar uma paisagem em movimento ou um ecrã verde por trabalhar. É preciso conhecer as entrelinhas do jogo, a sua complexidade e, ao mesmo tempo, a sua simplicidade, para evitar imagens falsas. Porque mesmo que cultura e futebol andem agora de mãos dadas, poucos cineastas são suficientemente "futeboleiros" para saber filmar a modalidade. E, os que o são, sabem que estão perante infinitos handicaps, principalmente aqueles relacionados com os jogadores/actores. A primazia, por respeito e até pela lógica de uma indústria imparável, é dada aos actores; e os inconvenientes com a bola que parece mais quadrada do que redonda 9


O LEÃO DA ESTRELA Carlota) típica dona de casa, que fica em casa à espera do seu marido, enquanto vê a empregada Rosa a efectuar a lida doméstica. D. Carlota (Maria Olguim) vive acompanhada das suas duas filhas, Branca (Maria Eugénia) e Juju (Milú), a primeira uma jovem meiga, a segunda algo ambiciosa, embora ambas apresentem uma dependência enorme em relação às figuras masculinas e estejam longe de apresentarem ideais de independência. A estes personagens junta-se ainda Miguel (Artur Agostinho), o namorado de Rosa, um indivíduo bem-falante e adepto do Sporting Clube de Portugal. No prédio onde habita a família de Anastácio encontramos ainda elementos como o Comandante, uma figura de respeito e muito misteriosa, entre outros que habitam um local onde todos se conhecem e todos se cumprimentam e convivem, ou seja, através do interior do edifício assistimos a uma espécie de comunidade, quase como se fosse um espaço rural, ainda que situado no espaço citadino, algo típico nestas comédias portuguesas da década de 40.

ANÍBAL SANTIAGO

A 25 de Novembro de 1947 estreava em Portugal O Leão da Estrela, uma comédia típica das que marcaram a produção cinematográfica Portuguesa dos anos 40 e início da década de 50, tendo atingido um sucesso considerável, sendo um dos filmes nacionais mais recordados deste período de tempo assinalado. Realizado por Arthur Duarte, através do argumento de João Bastos, Félix Bermudes e Ernesto Rodrigues, o filme apresenta um elenco recheado de estrelas do cinema nacional da época, entre os quais, António Silva, Milú, Maria Eugénia, Curado Ribeiro, Laura Alves, Artur Agostinho, entre outros. Mais do que o pano de fundo futebolístico, O Leão da Estrela apresenta-nos um importante testemunho da representação da sociedade portuguesa na filmografia nacional da época. Logo numa das primeiras cenas temos um elemento que marca várias comédias portuguesas produzidas neste período, a indolência do trabalhador, algo visível quando encontramos um grupo de funcionários a falarem sobre o jogo entre o Porto e o Sporting, em pleno horário de trabalho. Os primeiros cinco minutos do filme acompanham o esforço de Anastácio (António Silva), um indivíduo que se considera “um pobre leão desembolado” que sem a bola não passa de “um gato inofensivo”, em conseguir um bilhete para o jogo. Posteriormente somos apresentados aos restantes personagens, a mulher de Anastácio (D.

Também típicos das comédias estado-novistas são os personagens presentes ao longo do filme, em particular Anastácio, um indivíduo de classe média, representativo do tipo de público que frequentava na época os cinemas, embora idealizado de acordo com os valores pretendidos pelo Regime. Após a apresentação dos personagens, o grande leitmotiv que os move é a ida ao Porto. Quer de Anastácio, que pretende assistir 10


da Estrela expor, ainda que subtilmente, a presença das Colónias algo visível quando Anastácio é avisado de que a fila na bilheteira atingiu umas proporções enormes e o protagonista sugere que “deve ter vindo gente das colónias”, revelando mais uma vez a capacidade mobilizadora do futebol, capaz de mexer com a população, a ponto de chamar elementos que partiram para as províncias ultramarinas.

ao jogo a todo o custo, quer da criada, Rosa, uma mulher com enorme apetência para partir pratos, que pretende aproveitar a companhia de Miguel, que a convidou para ir ao Porto, para passear e conhecer a família deste. Com o bilhete na sua posse, Anastácio decide viajar até ao Porto, indo acompanhado de toda a família, da sua empregada e de Miguel. Estes dois últimos eram para ter ficado “em terra”, mas logo vão com a família de Anastácio, após Miguel oferecer os seus préstimos e transportar o ferrenho adepto do Sporting que temia perder o jogo por não ter transporte. Pelo meio, é de salientar um momento que marcou para sempre a carreira do saudoso António Silva, o "homem das arábias", nomeadamente, quando efectua um relato imaginário a um jogo do seu Sporting, remata na mesa e grita golo de forma eufórica, fazendo saltar o tampo da mesma. Temos ainda uma crítica subtil ao Governo, nomeadamente, quando Anastácio se queixa: “que país é este que não tem bilhetes nem tem comboios para levar os sócios do Sporting ao Porto. Não há comboios, nem carros, nem linhas, nem agulhas”. A crítica não fica por aqui. Veja-se quando na rádio é anunciado falaciosamente que tudo está regularizado e os adeptos já podem ir assistir ao jogo, algo que conduz Anastácio a não conseguir esconder a sua incredulidade perante os “aldrabões”. Esta é uma das poucas críticas encontradas ao Governo e ao País, a juntar à célebre placa “Estado Novo”, em A Canção de Lisboa. Diga-se que esta procura pelos bilhetes permite ainda a Leão

No Porto, instalam-se na casa de Barata, um burguês do Norte, que pensa ter em Anastácio um interlocutor com o mesmo estatuto social e financeiro. Diga-se que Anastácio e Barata nem são relativamente próximos, mas o primeiro aproveita-se do conhecido para que a estadia fique mais “barata”. Na chegada à cidade do Porto, Anastácio e a família dividem-se, com o primeiro a ir para o Estádio e os restantes elementos a dirigirem-se para casa dos Barata. A habitação de Barata e a sua decoração expõem desde logo o estatuto distinto destas famílias, com este a viver numa vivenda, ao contrário da família de Anastácio que habita num apartamento. Mas no Porto, nem só pela casa dos Barata, se ficam os nossos personagens. Somos levados ao clássico, que apresenta imagens dum jogo disputado entre estas duas grandes equipas, com O Leão da Estrela a ser um regalo para quem se interessa por futebol, e pela história do desporto, ouvindo-se falar de lendas como Peyroteo, Jesus Correia, entre muitos outros nomes que encantaram nos relvados 11


Portugueses, utilizando a camisola verde e branca. O futebol surge apresentado como um espectáculo que envolve as massas, onde tanto o grande proprietário Barata, como o pequeno funcionário Anastácio assistem aos jogos, vibrando pelos seus respectivos clubes ao longo desta comédia de costumes. O jogo de futebol conta ainda com a cena clássica, onde o personagem interpretado por António Silva, com o seu estilo descontraído e contestatário, dá outra cor à mesma, com as provocações ao adepto do Porto perante o golo do Sporting. O resultado final foi uma dupla vitória, ou melhor, uma vitória para o Sporting do ferrenho Anastácio e uma vitória para os cinéfilos que tiveram a oportunidade de António Silva numa das cenas mais memoráveis da sua carreira, a par da cena acima mencionada.

Anastácio ao local apresenta uma divergência em relação à formalidade daquele cenário, algo que fica ainda mais exemplarmente demonstrado no seu cumprimento a Barata, após terem trocado “mimos” durante o jogo, quando não sabiam da identidade um do outro. O comportamento informal de Anastácio no Porto apresenta contornos caricatos e plenos de crítica aos valores desta sociedade, apresentando um à vontade que poucos poderiam incutir no protagonista com a mesma naturalidade de António Silva, enquanto os personagens se envolvem numa série de malentendidos até ao previsível desfecho final. O Leão da Estrela apresenta uma história e estrutura típica de uma comédia de costumes, onde a história se deixa levar pelos personagens, apresentando uma enorme simplicidade, um conjunto limitado de cenários (apesar de ser uma das poucas comédias deste período, em que a acção se desenvolve para além do espaço fechado de um bairro/pátio, passando desde o trabalho de Anastácio, à fila das bilheteiras, ao Estádio de Futebol, e até na ida ao Porto, saindo do cenário Lisboeta) e um argumento eficaz apesar de alguns dos seus diálogos estarem claramente datados.

Para além destes personagens, também Miguel e Rosa se encontram pelo Porto, enamorados, relembrando o início do seu romance e as perspectivas de se casarem que, por entre desaguisados e conflitos vários, acabam por terminar o filme apaixonados como o começaram. Na casa dos Barata, somos apresentados à esposa deste e ao filho, por quem as duas irmãs apresentam especial interesse. Este costuma trocar correspondência com Juju, mas será Branca quem lhe tomará o coração, durante a estadia das irmãs pelo Porto. Finalizado o jogo é a vez de Anastácio participar na “invasão” à moradia dos Barata. A chegada de

Apesar de contar com alguns bons momentos, O Leão da Estrela não deixa de apresentar sérios problemas ao longo do seu desenvolvimento, algo visível após o término do jogo, que é o elemento que alavanca o primeiro terço do enredo, com o filme a começar a perder algum fôlego 12


com as constantes tentativas de Anastácio e da família em tentarem parecer de uma classe mais elevada perante a família Barata. Ao utilizarem as malas de viagem do Comandante, acabam por fazer-se passar por pessoas muito viajadas, devido às diferentes etiquetas referentes aos locais por onde este viajou. No entanto, acabam por cair no ridículo ao apresentarem conversas desconexas que nada têm a ver com os locais por onde passaram. Veja-se os comentários de Anastácio sobre Pompeia “tudo ruínas. Nós fomos depois da Guerra, mas antes devia ser uma grande cidade”, entre outros exemplos (aos quais podemos acrescentar os momentos em que Anastácio finge que a casa do comandante é a sua). Existe uma crítica à dicotomia do ser e parecer, a uma classe média-baixa, que pretende fazer passar-se por algo que não o é, sendo que o casamento promete esbater todas as diferenças. Esta é uma temática transversal a muitas das comédias Portuguesas da década de 40 e 50, atravessando obras como João Ratão, O Pai Tirano, entre outras. Diga-se que o filme apresenta uma estrutura muito revisteira, apresentando cenas longas no mesmo cenário, até se passar para um diferente, para além dos comportamentos exagerados dos personagens (os próprios actores contam com interpretações nem sempre convincentes), permitindo a António Silva ser um dos poucos elementos do elenco a sobressair. Quem também sobressai é a ideologia presente ao longo do filme, não faltando a defesa dos valores do casamento,

a benevolência da entidade empregadora para com o trabalhador e o respeito deste último para com o primeiro, os valores familiares, o papel do pai de família, a manutenção da ordem, o espírito de comunidade, servindo como exemplo do Cinema como modo de criar uma ilusão que repercute os valores de uma sociedade, ou melhor, que transmite para a sociedade determinados valores de si própria, ainda que estes não possam corresponder à realidade. Temos assim uma das comédias “à portuguesa” mais memoráveis da década de 40, onde António Silva dá vida a um adepto fanático pelo Sporting, enquanto nos diverte imenso pelo caminho.

Bibliografia: Pina, Luís de, A aventura do Cinema Português, Lisboa, Vega, 1977. Ribeiro, M.Félix, Filmes e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1983. Torgal, Luís Reis (coord), O Cinema sob o olhar de Salazar, Lisboa, Temas e Debates, 2001.

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UNITED ANÍBAL SANTIAGO

A certa altura de United, Jimmy Murphy (David Tennant), o treinador adjunto do Manchester United entre 1955 e 1971, salienta "Old Trafford. This pitch sits in the middle of the largest industrial estate in the country. Over there, that's where the cotton boys stand. There's the joiners, the dockers, the millers. Nothing in common until they're here. We are their pride at the end of the week. We set the world to rights for them. At least till Sunday morning. And we owe them the best". Esta pequena citação demonstra o quão apaixonante e polarizador de sentimentos pode ser o futebol, capaz de fazer sofrer o adepto, de lhe dar alegria mesmo nos piores momentos ou a tristeza da amarga derrota. Aos Sábados ou Domingos, todos podemos por breves momentos ser vencedores ou derrotados, quiçá até empatar, mas durante aqueles noventa minutos do tempo regulamentar (mais compensações) o que importa é o que se passa em campo, onde encontramos onze jogadores contra onze jogadores, tácticas afinadas e muita emoção, enquanto os problemas diários parecem ser temporariamente exorcizados. É um jogo imprevisível e inquietante, com United a revelar-se um telefilme capaz de expressar o que esta modalidade significa para adeptos e jogadores, tendo como pano de fundo a tragédia que assolou a equipa do Manchester United a 6 de Fevereiro de 1958, em Munique, que vitimou oito atletas dos chamados "Busby Babes", um termo cunhado pelo jornalista Frank Nicklin do Manchester Evening News, devido ao facto da equipa ser composta por 15


muitos jovens formados no clube, e contar nessa fase com Matt Busby como manager. Busby chegara ao clube em 1945, tendo trabalhado como Manager do mesmo até 1969, para além de contar com um breve regresso na segunda metade da temporada 70/71, apresentando um currículo invejável a nível de títulos e trabalho no clube, cujo record de longevidade no Manchester United foi apenas ultrapassado pelo não menos mítico Alex Ferguson. O início do telefilme estabelece o ambiente do balneário, a importância do clube para a cidade, mas também a relevância de Jimmy Murphy e a ascensão gradual de Bobby Charlton (hoje uma lenda do clube, interpretado na obra por Jack O'Connell), até surgir a carga dramática do acidente.

mundo de futebol, um jogador que conhece os primeiros dias de glória pouco tempo antes do trágico incidente, com United a explorar a sua complicada recuperação física e mental, ao mesmo tempo que o clube procurava "lamber feridas" e ressurgir das cinzas. Transportando-nos para uma época distinta do futebol, procurando recriar o envolvimento da população da cidade com o clube, o equipamento da equipa neste período de tempo representado, o estádio de Old Trafford, entre outros elementos, United certamente dirá mais aos amantes de futebol do que ao espectador pouco informado sobre este desporto, com o telefilme a parecer tomar como ponto prévio que já estamos informados sobre o clube e estes acontecimentos que retrata. Apesar das várias liberdades históricas e de omitir vários elementos dos "Busby Babes", para além de nem sempre conseguir dar a espessura pretendida a vários personagens secundários, United é brilhante a recuperar algum saudosismo e melancolia em volta deste período futebolístico, em nos apresentar a uma história dramática de superação que ficou guardada para sempre. A perda de atletas relevantes, incluindo nomes como Duncan Edwards (Sam Claflin), não impediram que o Manchester United conseguisse dar um exemplo notável de superação, reorganizar-se e chegar à final da Taça de Inglaterra (FA Cup), superando as expectativas, algo exposto pelo telefilme, enquanto o realizador James Strong dá espaço a David Tennant brilhar. Marcante na série Doctor Who como o personagem do título,

Expostas com algum dramatismo, mas enorme contenção nas interpretações (veja-se por exemplo o momento em que Jimmy Murphy recebe a notícia da queda do avião, encontrando-se de copo na mão, embora o filme evite o cliché do copo a partir-se e opte por uma postura mais discreta), as consequências do acidente sofrido quando a equipa regressava do jogo com o Red Star de Belgrado, após escala em Munique, são notórias para o clube. Essa situação é abordada não só na forma como este acidente abala os adeptos e o clube, mas também aqueles que sobreviveram ao mesmo, algo exposto através da figura de Bobby Charlton. Este surge como um atleta em busca da afirmação no 16


Tennant tem em United mais uma oportunidade de explanar o carisma e a credibilidade que confere aos seus personagens, interpretando Jimmy Edwards com enorme contenção.

Liga dos Campeões na sua fase inicial, apresentando-nos a uma fase distinta de uma competição que hoje é bastante valorizada, revelando uma atenção a pequenos pormenores que muito dizem ao adepto do futebol. Fica a ideia que United tem uma história que poderia ser estendida a uma minissérie ou até série que a sua história beneficiaria imenso do maior tempo na construção da narrativa e dos personagens secundários, embora o resultado final seja bastante satisfatório. O telefilme foi produzido pela BBC, tendo contado com o argumento de Chris Chibnall, um elemento que viria a trabalhar na série Broadchurch com o realizador James Strong, mas também com David Tennant, com estes a recuperarem uma parceria de sucesso, visível ao longo deste telefilme que retrata um episódio trágico da história do Manchester United, um acidente que viria a culminar na perda das vidas de Geoff Bent, Roger Byrne, Eddie Colman, Duncan Edwards, Mark Jones, David Pegg, Tommy Taylor e Billy Whelan. United deixa-nos perante um acidente trágico, mas também uma história de superação, onde a paixão, emoção e imprevisibilidade do futebol se encontram sempre presentes.

Edwards, que se encontrava a treinar a selecção do País de Gales (o único a levar este país ao Mundial), durante a participação do clube na Liga dos Campeões, assume temporariamente a liderança da equipa enquanto Matt Busby recupera do acidente, tendo funções mais alargadas do que o mero adjunto, com United a abordar também essa questão de em Inglaterra o Manager conceder ao seu assistente poderes como comandar os treinos e dar palestras. Não é só Tennant que se destaca em United, mas também Jack O'Connell como (hoje Sir) Bobby Charlton, na época um jovem em ascensão, sedento por conseguir afirmar-se na primeira equipa, tendo na sobrevivência ao acidente um período de dificuldade para se recompor, chegando até a ponderar abandonar o futebol. Charlton regressaria, tendo jogado no Manchester United até 1973 e marcado 249 golos em 758 jogos realizados, uma marca que diz bem do valor desta glória do clube. Diga-se que posteriormente ao acidente, o Manchester United viria a conhecer glórias como a vitória do campeonato em 1965 e 1967, mas também a vitória na Liga dos Campeões em 1968, tendo vencido o Benfica após o prolongamento. O telefilme aborda ainda a questão da relevância algo esbatida dada à 17


EUSÉBIO, A PANTERA NEGRA O FILME ESQUECIDO DE EUSÉBIO PEDRO SOARES

Eusébio da Silva Ferreira, o Pantera Negra, maior futebolista português de todos os tempos e um dos embaixadores de Portugal no estrangeiro. Quando morreu, no passado mês de Janeiro, muito se falou dele um pouco por todo o lado: as façanhas com a águia ao peito, a forma como despedaçou os norte-coreanos praticamente sozinho no mundial de Inglaterra, os seus duelos com Dama ou a sua breve passagem pelos relvados norte-americanos para amealhar uns trocos. Mas pouco ou nada se falou da sua carreira cinematográfica. Carreira cinematográfica?, perguntam vocês. Sim, carreira cinematográfica, respondemos nós.


Eusébio, A Pantera Negra mistura ainda documentário e ficção, lembrando outro filme do género dessa altura: o seminal Belarmino, súmula do Novo Cinema nacional. No entanto, qualquer semelhança entre este e o filme de Fernando Lopes é pura coincidência. E até parece mal estar a comparar os dois. No entanto, é obrigatório fazer esse exercício, não só porque ambos são biopics sobre heróis populares, underdogs da cultura popular portuguesa, como romperam definitivamente com o molde épico dos filmes de época do cinema português, tão comuns durante o Estado Novo, com Leitão de Barros como aríete de serviço.

Em 1973, com o seu joelho direito a fraquejar – resultado de anos e anos de acumulação de entradas assassinas e árbitros condescendentes – e a idade já a pesar nos ombros, o percurso de Eusébio no Benfica aproximase a passos largos do fim. Momento ideal então para imortalizar o Pantera Negra no grande ecrã, com um documentário luso-espanhol encomendado a Juan de Orduña, o Leitão de Barros espanhol, um filme tão bom que pouca gente se lembra que ele existe (ironia, claro). Uma das principais mais-valias de Eusébio, A Pantera Negra é o found footage. Fala-se muito de Eusébio na televisão e na internet, mas normalmente aparecem sempre as mesmas imagens a ilustrar: meia dúzia de lances em jogos contra o Sporting ou o Porto, o resumo da final da Taça dos Campeões contra o Real Madrid (aqui aparece mesmo em resumo alargado) e os golos no Mundial de Inglaterra, em 66, culminado sempre com o golo de cabeça ao Brasil e uma corrida aos esses até ao meio campo (aqui também em resumo super-alargado). No entanto, a acrescentar a isto, encontramos em Eusébio, A Pantera Negra uma final contra o Sporting da Taça de Portugal, um jogo contra o Porto e vários golos e lances a equipas mais pequenas, que permitem a quem não teve a felicidade de ver Eusébio jogar (eu, por exemplo) de comprovar que era uma força da natureza com um pontapé-canhão. Um fora-de-série, portanto.

No entanto, Eusébio, A Pantera Negra não foge muito ao panfletário, já que é um puro exercício de propaganda. Mas propaganda benfiquista, entenda-se. Misturando imagens de arquivo com reconstituições, Juan de Ordeña convoca o próprio Eusébio e a mulher, Flora, para narrar e protagonizar a sua própria história, desde os campos pelados de Lourenço Marques até à consagração mundial, num jogo de despedida no Estádio da Luz, cheio de estrelas internacionais. No entanto, é tudo tão confrangedor que percebemos porque se tornou num filme esquecido através dos tempos: os actores são maus e as cenas dignas de um teatrinho de escola, cheias de zooms despropositados e um problema qualquer no tripé, que parece estar sempre a cair. E felizmente que Eusébio se tornou futebolista e não actor... 20


Quanto aos momentos mais marcantes da vida de Eusébio, poucos estão lá. O "rapto" ao Sporting e a viagem para Lisboa sob nome falso, por exemplo, são completamente omitidos, com Eusébio apenas a desabafar sobre o imbróglio: isto é muito confuso. Deveras esclarecedor (!). No entanto, mal assina pelo Benfica, Eusébio vai logo a uma casa de meninas ver um striptease. Curioso... Depois os auto-elogios vão aumentando cada vez mais, com um aparte para explicar uma das dezenas lesões que lhe desfizeram o joelho, com imagens em plena sala de operações e tudo. Curioso documento histórico sobre um dos homens mais famosos de Portugal, Eusébio, A Pantera Negra é para colocar ao lado da música que os Sheiks dedicaram ao King. E já que falamos de música, não podemos terminar sem realçar a theme song que Vum Vum, um dos nomes maiores da canção popular angolana, compôs para o filme, cheia de coros, afrobeat e loas épicas a Eusébio da Silva Ferreira.

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BRASIL

FUTEBOL NO CINEMA CARLOS REIS

Pentacampeões mundiais, duas vezes vice-campeões e com uma história futebolística repleta de sucessos e jogadores sem igual - Pelé, Garrincha, Tostão, Ronaldo, Romário, Sócrates e tantos outros -, também no cinema os brasileiros deixaram a sua marca além-fronteiras com portentosos filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite, O Beijo da Mulher Aranha, Carandiru ou A Central do Brasil, apenas para citar alguns. Neste artigo, a Take junta o melhor de dois mundos e explora seis exemplos em que o futebol e o cinema brasileiro aliaram-se e ofereceram ao seu povo dignos retratos de um passado desportivo radiante e opulento.


HELENO

Título nacional: Heleno Realização: José Henrique Fonseca Elenco: Rodrigo Santoro, Angie Cepeda, Alinne Moraes

2011 ANÍBAL SANTIAGO

Botafogo. Heleno coloca-nos também perante outros tempos do futebol, diante de um atleta que viveu para o momento, que jogava para si e para o público, estando pouco preocupado com treinos, colegas e treinadores, embora sentisse a camisola do Botafogo como poucos. Rodrigo Santoro convence e dá uma enorme dimensão ao seu personagem, quer quando este se encontra em decadência física e mental, quer no seu apogeu, onde o seu talento e lado temperamental o levavam a ser temido por colegas e adversários. José Henrique Fonseca pode privar-nos de vários momentos desportivos da carreira de Heleno, mas não compromete ao realizar um filme biográfico interessante e informativo sobre esta figura complexa, permitindo a Rodrigo Santoro ter um desempenho magnífico.

Entre os decadentes últimos dias de Heleno de Freitas e os seus tempos de glória como futebolista, Heleno revela-se um filme biográfico mais competente a explorar os elementos ligados à vida particular e personalidade desta irreverente figura do que a abordar os seus feitos dentro de campo. Filmado belissimamente a preto e branco, por vezes a parecer um sonho que ficou perdido pelas areias do tempo, Heleno aborda um conjunto interessante de elementos da vida de Heleno de Freitas, apresentando-nos a uma figura complexa, pronta a errar, com um enorme ego e vontade de vencer. De "Príncipe Maldito" a "Gilda", vários foram os epítetos atribuídos a Heleno, que tem neste filme biográfico um interessante ponto de partida para ficarmos a conhecer um pouco da vida (embora com algumas liberdades criativas e omissões à mistura) deste atleta que no seu tempo chegou a ser o maior ídolo da torcida do

“Filmado belissimamente a preto e branco, por vezes a parecer um sonho que ficou perdido pelas areias do tempo (...)”

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GARRINCHA - ALEGRIA DO POVO

Título nacional: Garrincha - Alegria do Povo Realização: Joaquim Pedro de Andrade Elenco: Heron Domingues, Garrincha

1963 ANÍBAL SANTIAGO

Nascido Manuel Francisco dos Santos, mas conhecido no mundo do futebol como Garrincha, tendo o ainda o epíteto de "O Anjo de Pernas Tortas" devido à sua perna direita ser seis centímetros mais curta que a esquerda e apresentar uma deformação, este antigo craque tem no documentário realizado por Joaquim Pedro de Andrade um interessante retrato sobre o seu talento e popularidade. Lançado em 1962, ainda nos tempos de fulgor de Garrincha no Botafogo, o maior destaque de Garrincha - Alegria do Povo centra-se no aproveitamento das imagens de arquivo. Desde os treinos do atleta no Botafogo, onde foi craque e jogou entre 1953 e 1965, passando pelos trechos dos jogos pelo clube e pela selecção (campeão do Mundo em 1958 e 1962), várias são as imagens em movimento que dão uma noção do enorme talento e relevância de Garrincha. O documentário não pretende problematizar a vida do

atleta, procurando antes realçar o seu talento, mesclando imagens em movimento, fotografias, recortes de jornais, mas também cenas filmadas pelo cineasta (veja-se quando filma as gentes a abordarem Garrincha). Como salienta Carlos Drummond de Andrade, Garrincha "Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas". Um jogador de futebol é um fabricante de sonhos, de alegrias e tristezas, que gera ódios e paixões, emoções fortes, sobretudo os grandes craques, capazes das proezas aparentemente impossíveis e ao alcance de poucos, sendo que Garrincha foi um desses homens. A morte prematura de Garrincha, devido a uma cirrose hepática, não apaga os seus grandes feitos, recordados em parte neste documentário que promete acima de tudo interessar aos fãs da modalidade.

“(...) várias são as imagens em movimento que dão uma noção do enorme talento e relevância de Garrincha.”

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LINHA DE PASSE

Título nacional: Linha de Passe Realização: Walter Salles, Daniela Thomas Elenco: Sandra Corveloni, João Baldasserini, Vinícius de Oliveira

2008 PEDRO MIGUEL FERNANDES

São Paulo é considerada actualmente como uma das cidades brasileiras mais importantes do ponto de vista cultural e imagem de um Brasil cosmopolita, diferente do que é comum vermos nos noticiários quando o tema é o nosso país irmão. Linha de Passe, o terceiro filme assinado a quatro mãos por Walter Salles e Daniela Thomas, vem contrariar um pouco essa imagem de metrópole moderna centrando o argumento na história de uma mulher de origens humildes com quatro filhos a seu cargo. Uma das mais interessantes obras brasileiras dos últimos anos, Linha de Passe é um filme duro, que retrata as condições de vida miseráveis e a luta diária de uma família que tudo faz para conseguir sobreviver ao quotidiano, seja através do trabalho, da procura de uma figura paternal que não existe, da religião ou do futebol. Estes dois últimos casos são retratados como se de um escape das personagens

tentarem encontrar uma vida melhor: no caso da religião, esta é vista como uma redenção de um dos irmãos, enquanto que o futebol é a paixão da mãe e um possível bilhete de lotaria para um dos talentosos irmãos deixar a miséria para trás. Estruturado como uma espécie de filme mosaico, em que as diferentes histórias acabam por se cruzar através laços familiares das personagens e não apenas num episódio comum onde acabam por se reunir, como ocorre normalmente neste tipo de filmes, Linha de Passe é um filme de difícil digestão. A dupla de cineastas não força um final feliz, antes procura explorar os dilemas das personagens, com a distância suficiente para não tomar partido de nenhuma das partes ou julgar os protagonistas, seja qual for a solução que encontram para os seus problemas.

“(...) Linha de Passe é um filme duro, que retrata as condições de vida miseráveis e a luta diária de uma família (...)”

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PELÉ ETERNO

Título nacional: Pelé Eterno Realização: Anibal Massaini Neto Elenco: Celeste Arantes, Assiria, Gordon Banks

2004 ANÍBAL SANTIAGO

Quando Pelé Eterno começa com o narrador a salientar que "O homem mais conhecido de todo o planeta é o brasileiro Pelé" e "Pelé é a figura suprema do futebol" não restam grandes duvidas que o realizador Aníbal Massaini Neto se prepara para nos apresentar um documentário a idolatrar esta lenda do futebol. Sem problematizar de forma assertiva a vida de Pelé e sempre pronto a distribuir elogios, Pelé Eterno apresenta-nos de forma algo completa à ascensão do antigo futebolista, sobretudo a partir da sua chegada ao Santos, onde se viria a tornar ídolo da torcida. A ascensão é rápida, sendo campeão ao Mundo pelo Brasil em 1958, tendo um papel decisivo nesta conquista histórica da sua selecção. Pelé será também decisivo no Santos, com o filme a não poupar na idolatria e reverência ao "rei", enquanto as imagens de arquivo demonstram a genialidade do atleta para a prática de futebol,

marcando golos memoráveis, construindo jogadas, ao mesmo tempo que assistimos à admiração que causava junto dos adeptos do Santos e do futebol em geral. O problema acontece quando temos uma narração completamente maniqueísta e até ofensiva a acompanhar Pelé Eterno, não tendo problemas em chamar os jogadores portugueses de selvagens (Mundial de 66), distribuindo elogios atrás de elogios a Pelé, exagerando na adjectivação, praticamente ignorando a valia dos adversários e descurando os colegas de equipa do jogador. Pelé tem em Pelé Eterno um documentário capaz de expor algum do seu enorme talento dentro de campo e a relevância que atingiu fora deste, embora Aníbal Massaini Neto se perca em demasia numa reverência excessiva para com o antigo atleta, elaborando um filme banal sobre um atleta de eleição.

“(...) as imagens de arquivo demonstram a genialidade do atleta para a prática de futebol (...)”

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TOSTÃO - A FERA DE OURO

Título nacional: Tostão - A Fera de Ouro Realização: Paulo Laender, Ricardo Gomes Leite Elenco: Othon Bastos, Oswaldo De Souza, Gérson

1970 ANÍBAL SANTIAGO

A certa altura de Tostão - A Fera de Ouro, um documentário realizado por Paulo Laender e Ricardo Gomes Leite, encontramos alguns adeptos a compararem o antigo craque brasileiro com Pelé, algo que evidencia paradigmaticamente o que se esperava deste jogador de enorme talento, uma lenda do Cruzeiro, um clube onde participou em 373 jogos e marcou 249 golos. Lançado originalmente em 1970, o documentário foca-se acima de tudo nos feitos deste jogador na selecção, nomeadamente, nos jogos da fase de qualificação para o Campeonato do Mundo de 70 no México, com estes trechos dos jogos a serem mesclados com elementos da vida pessoal de Tostão. Desde o gosto do jogador pelos escritos de Jorge Amado, passando pelos seus tempos no bairro dos operários onde jogava na infância e o seu regresso ao local, até aos problemas que teve na retina, o documentário não poupa em elementos que extravazam as

imagens de Tostão em campo, não faltando ainda depoimentos de alguns elementos que privaram com o jogador e até uma banda sonora digna de realce elaborada por Milton Nascimento. É neste deambular entre a vida pessoal e profissional de Tostão que Tostão - A Fera de Ouro concentra as suas maiores qualidades, sobretudo nas suas imagens de arquivo, quer trechos de jogos e programas sobre futebol, quer recortes de jornais e fotografias, recheadas de interesse para os amantes do "desporto rei". Sobre Tostão, escrevera Roberto Drummond, o argumentista de Tostão - A Fera de Ouro: “A ele bastava um palmo de grama para encantar o mundo com dribles e golos jamais sonhados antes". Bonitas palavras que exibem paradigmaticamente a enorme relevância de Tostão para o mundo do futebol.

“(...) documentário não poupa em elementos que extravazam as imagens de Tostão em campo (...)”

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O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA

Título nacional: O Casamento de Romeu e Julieta Realização: Bruno Barreto Elenco: Luiz Gustavo, Luana Piovani, Marco Ricca

2005 SARA GALVÃO

Se há quezília mais acesa do que a entre Capuletos e Montagues, será claramente a entre adeptos dos Palmeiras e dos Corinthians. Por isso Julieta (Luana Piovani), futebolista e sócia dos Palmeiras desde que nasceu, quando conhece Romeu (Marco Ricca), chefe de claque dos Corinthians, acha melhor que ele finja ser Palmeirense para não incorrer na ira do pai Alfredo Baragatti (Luiz Gustavo). Claro que Romeu se rói dentro da camisola verde, ao ver a mentira levá-lo para cada vez mais longe da sua própria família e do clube do seu coração. Mas tudo vale por amor... certo? Um filme sem grandes pretensões para além de divertir, O Casamento de Romeu e Julieta é mais do que uma adaptação muito livre do clássico shakespeariano (aliás, quando tenta lembrar-nos das suas fontes, tornase embaraçoso). Uma homenagem sentida e cheia de humor aos adeptos

ferrenhos que fazem do seu clube a sua vida, mais do que a história de amor, que peca por falta de realismo (tal como o original, acrescentese...), a grande estrela do filme é o patriarca Baragatti, que parece ser cego a tudo o que não tenha uma camisola verde e branca, o que gera momentos hilariantes - inclusive uma cena de ataque à “ovelha negra” a 10 mil pés de altitude, ou os desmaios de Romeu sempre que Baragatti o tenta fazer assinar o boletim de sócio dos Palmeiras. Bruno Barreto (um realizador experiente por detrás de filmes como Gabriela ou Dona Flor e Seus Dois Maridos) dá-nos a caricatura que, estando tão perto da realidade, nos faz pensar se, afinal, o futebol é mesmo tudo ou se haverá espaço para outras coisas mais importantes. Mas não se assustem - ao contrário do romance homónimo, o filme tem um final feliz, e todas as quezílias são resolvidas ao som do samba.

“Uma homenagem sentida e cheia de humor aos adeptos ferrenhos que fazem do seu clube a sua vida (...)”

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O 12.º JOGADOR CARLOS REIS

Tão necessários quanto a bola, tão importantes como os treinadores e tão motivadores quanto um bom ordenado, os adeptos de claque, os ultra, os hooligans, os hinchas, enfim, o que lhes quiserem chamar conforme a latitude e longitude onde se encontrarem, são uma componente fundamental do jogo, uma sem a qual o futebol perderia muito do seu encanto e da paixão que desperta. Para estes homens e mulheres, o futebol é uma religião e a sua equipa o Deus máximo. Levado ao extremo, este amor sem igual torna-se violento, perigoso e, indiscutivelmente, cinematográfico. A Take apresenta-vos seis filmes sobre esta classe social paradigmática do futebol, tantas vezes difamada por comportamentos individuais exacerbados mas cuja ausência é sempre notada e sentida quando uma equipa é obrigada a jogar à porta fechada.


GREEN STREET HOOLIGANS

Título nacional: Rebeldes do Bairro Realização: Lexi Alexander Elenco: Elijah Wood, Charlie Hunnam, Claire Forlani

2005 SARA GALVÃO

Matt Buckner (Elijah Wood) é expulso de Harvard por causa de algo que o seu companheiro de quarto fez, e resolve visitar a irmã em Londres. Quando ele conhece o irmão do cunhado, Pete, que lidera a “firma” do GSE (Green Street Elite, adeptos fervorosos do West Ham), ele irá descobrir um outro lado da vida que nenhuma universidade lhe poderia ensinar. Fazer um filme sobre hooliganismo quase sem mostrar futebol é obra, mas é mesmo isso que Rebeldes do Bairro consegue fazer. No fundo, tanto podiam ser hooligans como meros membros de gangue - o que Lexi Alexander está mesmo interessada em mostrar são as cenas de luta de punhos e ocasionais barras de metal, e, claro está, o sentimentalismo e sentimento de pertença presente em qualquer elemento externo e estrangeiro quando é a modos que adoptado por um grupo de rufias ingleses incompreensíveis. Embora a escolha de Elijah Wood para

interpretar o Yankee que luta que nem uma menina tenha sido inspirada (afinal, ninguém o consegue ver fora do Shire por estes dias...), e Leo Gregory interprete um convincente Bovver com as razões mais pouco convincentes de sempre, pouco mais há no filme que mereça sobreviver ao teste do tempo. Se o objectivo do filme é, como muitos afirmam, mostrar como pode uma pessoa normal e instruída passar para o lado negro do fanatismo futebolístico, então falha redondamente, porque nunca nos são dados os motivos de Matt para aderir tão prontamente ao seu novo grupo de amigos. Entre os clichés e estereótipos das ideias românticas de pertencer a um gangue, a única moralidade que salta à vista é que a violência só é má, quando é feita contra os teus, mas mesmo isto apenas é explorado superficialmente.

“Fazer um filme sobre hooliganismo quase sem mostrar futebol é obra (...)”

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THE FOOTBALL FACTORY

Título nacional: LSD - Luta, Sexo, Droga Realização: Nick Love Elenco: Danny Dyer, Frank Harper, Tamer Hassan

2004 SARA GALVÃO

Baseado no livro de John King com o mesmo nome, LSD - Luta, Sexo, Drogas (que também merece um prémio pela originalidade e falta de relevância para a tradução portuguesa) tem a dúbia honra de ter como parte da equipa de produção Rockstar Games, os mesmos que nos deram GTA. O realizador Nick Love tinha atraído alguma atenção positiva com o seu filme anterior, Goodbye Charlie Bright, e resolve aqui mostrar o quão bem pode retratar o problema vigente do hooliganismo na Liga Inglesa, neste caso, ligado à “firma” do Chelsea. Claramente filmado em vídeo (se bem que tal não desculpa o terrível trabalho de câmara ao longo de todo o filme), com uma edição que faz jus ao título português e um uso e abuso de freeze frames e voiceover, LSD passa bem por uma tentativa de Trainspotting, incluindo todo e qualquer hit britânico de culto a bombar nos momentos mais despropositados - inclusive sobreposto aos

diálogos, que mal se ouvem - só que onde o filme de Boyle é original e nos apresenta personagens anti-heróicas que nos agarram ao ecrã, o filme de Love apenas nos atira uma amálgama de linhas narrativas com ligações pouco conexas entre si e sem qualquer resolução satisfatória, juntamente com personagens que parecem saídos das traseiras de um filme do Guy Ritchie. Tudo seria desculpado se, pelo menos, houvesse uma boa cena de luta, ou, pelo menos, futebol. Infelizmente, a primeira (singular, sim) é risível, e o segundo está completamente ausente, tirando uma curta cena de... juniores. Há alguns momentos em que a cópia Scorsese/Boyle é por momentos esquecida, e a personagem principal, Tommy, alucina entre realidade e premonições. Nesses momentos, e na excelente personagem do avô de Tommy, podemos vislumbrar a promessa gorada de um bom filme. De resto, é cartão vermelho e já para os balneários.

“(...) uma amálgama de linhas narrativas com ligações pouco conexas entre si e sem qualquer resolução satisfatória (...)”

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RISE OF THE FOOTSOLDIER

Título nacional: Rise of the Footsoldier Realização: Julian Gilbey Elenco: Ricci Harnett, Terry Stone, Craig Fairbrass

2007 CARLOS REIS

Rise of the Footsoldier segue a ascensão impiedosa de Carlton Leach desde um dos hooligans mais temidos do futebol inglês até tornar-se membro de um gangue criminoso que espalhou o pânico e o terror em Londres durante o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa do século passado. Interpretado por Ricci Harnett, Leach é retratado como um criminoso desequilibrado que encontra prazer nos seus actos violentos, os mesmos que, literal e metaforicamente, o irão levar à sua destruição. Realizado por Julian Gilbey, Rise of the Footsoldier custa a arrancar mas rapidamente se torna numa espécie de Goodfellas rasca de série B britânico, visualmente intenso e incómodo, que usa e abusa da violência para chocar (ou conquistar, dirão alguns) o espectador. Sem papas na língua - Scorsese teria vergonha -, não se percebe, no entanto, como é que

numa biografia cinematográfica de Carlton Leach, o mesmo desaparece de cena a meio do filme. Drogas, sexo, pancadaria e mais drogas num filme em que a caracterização das personagens é baseada na quantidade de palavrões que cada um diz e não num aprofundamento lógico das relações entre as mesmas. Algumas referências culturais nostálgicas às saudosas décadas de oitenta e noventa não chegam para compensar outro filme de hooligans que se perde nos clichés do género. Ainda assim, justiça seja feita a algumas interpretações de qualidade, com destaque para Harnett e Craig Fairbrass.

“ (...) a caracterização das personagens é baseada na quantidade de palavrões que cada um diz (...)”

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THE MOON IS JEWISH

Título nacional: The Moon is Jewish Realização: Michał Tkaczyński Elenco: Pavel

2011 ANÍBAL SANTIAGO

Dizer que mudamos ao longo da vida é algo de redutor, mas poucos certamente conhecemos alguém com transformações tão drásticas como Pawel, o caso de estudo de The Moon is Jewish, um cativante documentário realizado por Michał Tkaczyński. Pawel era um adepto fanático do Légia de Varsóvia, um hooligan, skinhead, violento, intolerante para com as minorias, odiando negros, judeus, ciganos e até os semabrigo. Quando Pawel descobre que descende de judeus logo a sua vida muda, sofrendo um "murro no estômago" ao tomar conhecimento que está "no outro lado" que tanto odiava. O que fazer quando nos tornamos alguém que supostamente odiamos? Pawel surpreendentemente começa a procurar compreender os seus antepassados e gradualmente muda o seu modo de agir, pensar, vestir, deixando crescer o cabelo e a barba, assumindo a sua faceta de judeu ortodoxo, algo aprovado pela sua

esposa. Começa a frequentar a sinagoga, procura que os filhos apliquem os seus ideais, considerando ter a sua maior fraqueza no seu amor pelo Légia, embora agora já não possa ir ao estádio devido à intolerância da claque. A violência no desporto e dos Hooligans é também abordada ao longo do filme, indo desde a atitude durante os jogos, passando pelos confrontos com a polícia "no aquecimento" pré-jogo, tudo acompanhado por uma banda sonora que ajuda a ritmar a narrativa enquanto somos apresentados a esta peculiar história de vida. Pawel ainda regressa ao estádio do Légia, embora vazio, outrora o seu espaço de culto, hoje símbolo de um passado violento, onde transgredia as regras, algo que mudou com uma simples mas tão importante descoberta.

“(...) um adepto fanático do Légia de Varsóvia, um hooligan, skinhead, violento, intolerante para com as minorias (...)”

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CASS

Título nacional: Cass Realização: Jon S. Baird Elenco: Nonso Anozie, Gavin Brocker, Leo Gregory

2008 CARLOS REIS

Esta é a história verídica de como um bebé órfão jamaicano adoptado por um casal típico britânico se tornou, numa zona dominada por brancos e com graves problemas associados ao racismo e ao xenofobismo nas suas camadas sociais mais profundas, num dos homens mais respeitados e temidos do submundo londrino. Carol "Cass" Pennant passou de jovem oprimido pela sua cor de pele a líder dos ICF (Inter-City Firm), claque de futebol do West Ham United, um dos grupos organizados de hooligans mais violentos de Inglaterra. E acaba mesmo por ser nesta dualidade de interesses - o ser negro numa altura em que era difícil sê-lo vs a violência sem limites dos hooligans - que o realizador/guionista Jon Baird se perde, não sabendo bem em qual das vertentes se focar. Há uma fase inicial em que parece que o que lhe interessa é o conflito de relevância racial, mas rapidamente deixa-

se levar pelo lado de influência social dos hooligans em gerações de adolescentes, baseando grande parte da narrativa em actos insensatos e desmesurados das claques. E, nesse capítulo, não traz nada de novo ao cinema e, no meio de tanto palavrão, acaba por ser uma repetição quase desnecessária de vários outros títulos britânicos recentes dedicados ao hooliganismo. Interpretações sem grande relevo - o vilão interpretado por Nonso Anozie acaba quase por ser demasiado simpático para ser credível enquanto alguém que racha cabeças por passatempo - fazem deste Cass uma biografia cinematográfica cujo potencial individual desvairou-se no colectivo.

“(...)s er negro numa altura em que era difícil sê-lo vs a violência sem limites dos hooligans (...)”

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FEVER PITCH

Título nacional: Fever Pitch Realização: David Evans Elenco: Colin Firth, Ruth Gemmell, Luke Aikman

1997 JOÃO PAULO COSTA

O romance autobiográfico Febre no Estádio, originalmente publicado em 1992, é uma espécie de bíblia do adepto futebolístico. Nick Hornby, o autor, escreveu uma espécie de diário centrado na sua obsessão pelo Arsenal, que se estende desde os seus tempos de miúdo até à idade adulta, e a forma como a sua vida se gere em torno dos horários dos desafios da equipa. Nesta adaptação cinematográfica de 1997, Colin Firth interpreta Paul, uma versão ficcionada do autor, e o tom de Fever Pitch desvia-se do confessional para se assumir como uma comédia romântica centrada na relação do seu protagonista, um professor primário, com Sarah (Ruth Gemmell), uma das suas novas colegas. Felizmente, esse desvio não se revela problemático porque David Evans, realizador de carreira quase exclusivamente televisiva, percebe que o coração desta história também está no futebol, e Hornby, que escreveu ele próprio o

argumento, quase tratou esta adaptação como um triângulo amoroso entre o jogo, Paul, e Sarah. Dessa forma, os flashbacks nos quais vemos o jovem Paul a deixar-se conquistar pelo Arsenal, assumem uma importância emocional extraordinária – a cena em que este entra pela primeira vez no estádio, onde o cinzento das paredes dos corredores contrasta de forma chocante com o tapete verde no seu interior, provoca um arrepio na espinha de qualquer apaixonado pelo jogo. E essa paixão nunca é tratada como um alívio cómico (embora a comédia, quando existente, funcione na perfeição), mas sim de forma tão séria quanto o adepto a sente. Que o seu final triunfante seja baseado num dos mais entusiasmantes momentos da história da futebol inglês que se imagina ser apenas possível na ficção, eis o derradeiro golpe de asa do filme.

“(...) um triângulo amoroso entre o jogo, Paul, e Sarah (...)”

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O ONZE IDEAL CARLOS REIS

Alguns são melhores que outros, mas é assim mesmo em qualquer equipa de futebol. Uns primam pela força da técnica, outros pela técnica da força, mas todos eles rumam neste plantel em prol do mesmo objectivo: abrir o futebol ao cinema, rasgar uma fronteira que ainda não é de livre (e feliz) circulação. A Take apresenta-vos onze filmes sobre futebol que seriam titulares numa equipa cinematográfica construída para vencer. E, não vá aparecer alguma lesão, expulsão, árbitro corrupto ou mesmo assassinato inesperado (Escobar que o diga), convocámos também seis suplentes, um treinador e um árbitro da casa para levar a esta competição desequilibrada e mal vista entre cinema e futebol.


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RUDO Y CURSI

Título nacional: Rudo e Cursi Realização: Carlos Cuarón Elenco: Gael García Bernal, Diego Luna, Guillermo Francella

2000 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Sete anos depois de conquistarem o estatuto de estrelas do cinema mundial, graças a uma pequena pérola chamada E a Tua Mãe Também, Gael García Bernal e Diego Luna voltaram a surgir juntos numa nova produção mexicana, desta vez assinada por Carlos Cuarón, irmão do mais conhecido Alfonso Cuarón. Mas desta vez a produção foi de certa forma mais ambiciosa, ao retratar a ascensão e queda de dois meios-irmãos cujo talento para o futebol lhes oferece a esperança de deixarem para trás uma vida miserável, como trabalhadores numa plantação de bananas perdida no interior do México. Rudo e Cursi é um daqueles filmes sobre futebol onde o desporto-rei serve de pano de fundo para mostrar uma realidade bem diferente da que povoa os estádios cheios de vedetas. Aqui não encontramos vedetas milionárias, apenas dois jovens que sonham com uma vida melhor e tudo fazem para o conseguir, usando o seu talento para alcançar esse objectivo. Mas saber jogar bem não é essencial, nem mesmo quando ambos conseguem ter uma carreira relativamente estável (um como guarda-redes imbatível e o outro como ponta de lança implacável), pois os problemas à volta dos dois irmãos não terminam no facto de conseguirem dominar bem a bola dentro de campo. Há todo um mundo à volta da dupla que faz questão de entrar no filme. E é aqui, na forma como pretende focar várias questões ao mesmo tempo, que Rudo e Cursi se perde um pouco pelo caminho, tal como acaba por acontecer mais tarde com as duas personagens, cujo destino é traçado em dois momentos chave do filme idênticos: um penalty que tanto serve para o olheiro escolher o irmão que irá levar para um treino de captação como para selar o destino final das duas personagens. Rudo e Cursi quer ser tudo ao mesmo tempo e acaba por não se conseguir focar em nada em específico. Falha no retrato de uma população pobre, que vive em condições memoráveis e mais do que tentar viver tenta

sobreviver em condições bastante difíceis, falha em apresentar o universo corrupto que povoa o futebol mexicano (a personagem do olheiro/agente dos dois jogadores podia ser muito mais aprofundada e fica-se pela rama, por exemplo), e falha até em retratar uma certa cultura de celebridades que se vê nos diversos programas de televisão que vão surgindo a espaços ao longo do filme. Tudo isto está presente mas não é abordado suficientemente bem para nos dar uma boa imagem de conjunto, o que acaba por ser uma bela oportunidade para nos dar uma imagem do futebol e de toda a galáxia obscura que gira à sua volta. Como se em Rudo e Cursi apenas importasse a Carlos Cuarón filmar um conjunto de episódios, esquecendo-se de algo fundamental: dar um pouco de coerência a todos estes blocos, que isoladamente talvez funcionem na perfeição. Salvam-se contudo os dois protagonistas, que têm a cargo a tarefa ingrata de tentar levar o filme a bom porto. Mesmo que carreguem as suas personagens aos ombros, de forma imaculada (tanto Gael García Bernal como Diego Luna têm aqui fabulosas interpretações, cada um no seu estilo e a provar que sabem responder aos desafios de interpretar personagens bastante diferentes), tal não é suficiente para tornar Rudo e Cursi uma obra memorável. Antes um filme de certa forma falhado, que podia ter ido mais longe, mas talvez não tenha ido por ser demasiado ambicioso demais para os seus objectivos. Tudo é demasiado rápido na fulminante carreira de Rudo e Cursi, tão rápido que mal temos tempo para criar alguma espécie de empatia com qualquer um dos irmãos.

“Rudo e Cursi quer ser tudo ao mesmo tempo e acaba por não se conseguir focar em nada em específico.” 41


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OFFSIDE

Título nacional: Offside - Fora-de-Jogo Realização: Jafar Panahi Elenco: Sima Mobarak-Shahi, Shayesteh Irani, Ayda Sadeqi

2006 TIAGO SILVA

dispositivo complexo ou pesado. Offside nunca é sombrio nem se deixa abater pela impossibilidade de alterar o rumo da situação, preferindo antes celebrar os pequenos momentos de bondade e compaixão que se conseguem intrometer por entre as frestas de um sistema tão restritivo e rígido. É o caso dos diálogos inquiridores que se travam entre os seguranças e as mulheres que se encontram detidas à entrada do jogo, nunca representadas enquanto frágeis mártires mas sim determinadas a tentarem mudar algo. Enquanto ali estão, partilham as suas experiências e o modo como tentaram passar despercebidas à entrada, ao mesmo tempo que discutem a razão de lhes ser refutado o direito de usufruir de uma situação tão trivial. E nem os próprios seguranças as sabem esclarecer quando estas os começam a questionar e a apontar contradições quase cómicas no raciocínio, parecendo até concordar com a opinião das adeptas quando finalmente aceitam serem eles a fazer-lhes o relato daquilo que se vai passando em campo. Apesar de colocar o futebol no centro do filme, o que interessa a Panahi não é focar-se exclusivamente no próprio desporto nem analisar a união que este proporciona (apesar do final efusivo em que deixam de existir distinções de géneros ou classes, para a nação agir enquanto um todo e festejar a vitória, ser um belo exemplo disso) mas sim servir-se dele enquanto retrato de uma situação específica entre as muitas com que as mulheres se têm de confrontar no meio daquela nação. Os anseios pessoais e as pequenas reivindicações das personagens correspondem na verdade a desejos colectivos de um Irão que ainda se encontra refém de inúmeras leis que não permitem uma existência realmente livre. E Offside consegue contestar isso com coragem.

Efectuando uma breve retrospectiva sobre todo o trabalho de Jafar Panahi até ao presente, parece possível concluir que o núcleo da narrativa dos seus filmes tem uma forma coerente e precisa, explorando temáticas que se articulam à medida que a sua obra vai crescendo — o modo como as pessoas se movimentam dentro da sociedade iraniana, os desvios que têm de cometer para se orientarem por entre o labiríntico estado da justiça e atropelos à dignidade que ocorrem no país, aquilo de que se vêem privadas sem qualquer esclarecimento óbvio. São sempre as histórias de quem se tenta libertar de um espaço e se vê impedido de o fazer (como em This Is Not a Film, inteiramente rodado na casa do realizador, que, acusado de conspirar contra o regime, se encontrava em prisão domiciliária e proibido de filmar pelo governo) ou de quem tenta ocupar lugares a que vê negado o acesso. No caso específico de Offside, é esta segunda situação que prevalece e o título ostenta um sentido conotativo ao referir-se à situação das mulheres iranianas: são elas quem ficam literalmente “fora-de-jogo”, interditas de entrar nos estádios de futebol do país. A medida é justificada recorrendo ao argumento de que estas não devem ser expostas à violência verbal que desponta constantemente durante os jogos. No entanto, há quem não se conforme com a lei e tente contorná-la. E é por esta hipótese e pelas peripécias que daí resultam que o filme se interessa e ao redor do qual se estrutura. Panahi filmou durante um jogo real de apuramento do Irão para o Mundial de 2006 e isso confere aos acontecimentos uma aparência que entrelaça o documentário e a ficção — como também acontece no cinema de Kiarostami, que partilha consigo não só a nacionalidade como também as preocupações com as inevitáveis desigualdades e contradições que têm de ser resolvidas com urgência no país, fazendo surgir um cinema de denúncia. No entanto, o filme não analisa o problema por intermédio de um

“Offside nunca é sombrio nem se deixa abater pela impossibilidade de alterar o rumo da situação (...)” 43


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MOSSAFER

Título nacional: O Passageiro Realização: Abbas Kiarostami Elenco: Hassan Darabi, Masud Zandbegleh

1974 TIAGO SILVA

É impossível ver Mossafer sem pensar de imediato em Les quatre cents coups de François Truffaut — logo nos primeiros segundos, o filme parece apresentar-se como o seu irmão mais novo e longínquo no modo de olhar a infância enquanto um período de isolamento e decepção, por culpa do ambiente que encarcera os indivíduos dentro daquela comunidade. É uma obra desiludida e sem esperança, que surge de um angustiado desencanto com o mundo e que se empenha em descrever os aspectos cinzentos do quotidiano com uma fidelidade que parece dever muito aos tempos áureos do neo-realismo; algo que Kiarostami manteve constante e aperfeiçoou em praticamente todos os seus trabalhos posteriores. Sendo uma das primeiras longas-metragens do iraniano, insere-se numa fase mais negra e que não consegue igualar a amplitude emocional de colossos como Close-Up (apesar de utilizar a mesma música, fazendo assim um eco curioso das suas origens). Grande parte da acção do filme é passada a acompanhar as incontáveis tentativas de um rapaz para arranjar dinheiro para ir a um jogo de futebol da sua equipa preferida, que ocupa apenas os últimos momentos da narrativa. O enfoque é colocado na pequena viagem que este faz pelas ruas sujas da vila e nos esquemas que inventa para tentar ludibriar habitantes e colegas de escola, e não tanto na finalidade dos mesmos, que até acabam por se traduzir em desilusão apesar dos seus esforços resultarem. Inicialmente, Mossafer parece querer colocar em evidência a irresponsabilidade do comportamento da personagem, sobrepondolhe assim uma intenção moralista e dispensável. Mas felizmente acaba por não cair nesse erro e é algo que se dissipa no decorrer da película, pois quando somos absorvidos pelo universo que nos dá a conhecer, conseguimos compreender os seus actos e sentir empatia por ele. A educação falha e a sala de aula é vista como um espaço opressor onde nada é estimulante e tudo corrompe a individualidade; a casa está quase

sempre escura e vazia, as pessoas são soturnas e vivem no meio de uma pobreza que aparenta não ter solução. Não há nada de verdadeiramente interessante naquela rotina repetitiva e todas as relações que se travam parecem absortas numa torrente de indiferença e censura. Kiarostami filma todos estes detalhes com um cuidado minucioso e contrapõe esta realidade com a da metrópole, para logo de seguida desfazer esse mito ao mostrar que também na cidade (Teerão, neste caso específico) existem desigualdades violentas que têm de ser resolvidas. A viagem nocturna de autocarro onde se sente o entusiasmo pelo novo é substituída pela manhã de luz intensa que invade subitamente a narrativa. E é também neste lugar que se desenrolam os episódios mais oníricos e poéticos do filme, como o estádio completamente deserto, a súbita aparição do vidro que se impõe entre o rapaz e a piscina (não o deixando ouvir o que lhe diz a outra criança) ou o plano em que todos adormecem juntos na relva — sendo este último um dos mais importantes na construção de sentido metafórico do filme, já que os sonhos típicos da infância se materializam aqui num verdadeiro pesadelo durante o sono, que encontra um paralelo real pois deixa antever aquilo que acontecerá quando o viajante voltar para casa. Agarrando-se a um mundo triste e representando-o sem artifícios através de um enredo que tem por base os aspectos concretos de um (aparente) ponto de viragem na vida do protagonista, Mossafer compromete-se conscientemente com o assunto que explora mas deixa em aberto o resultado daquela breve miragem: fará surgir uma resignação associada ao estado actual da sociedade iraniana ou é afinal o início da revolta e da mudança?

“A educação falha e a sala de aula é vista como um espaço opressor onde nada é estimulante e tudo corrompe a individualidade (...)” 45


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THE TWO ESCOBARS

Título nacional: The Two Escobars Realização: Jeff Zimbalist Elenco: Pablo Escobar, Andres Escobar

2010 CARLOS REIS

Andrés Escobar foi um dos jogadores colombianos mais respeitados da história, um cuja alcunha popular "Cavalheiro dos Relvados" dizia quase tudo sobre a sua personalidade e atitude dentro das quatro linhas. Já Pablo Escobar - o apelido que partilhava com Andrés era pura coincidência... mas acabaria por não ser a única que os ligaria - era, além do barão de droga mais conhecido em todo o mundo, dono e presidente do Atlético Nacional, equipa de futebol pela qual Andrés conquistou a primeira Copa Libertadores da história do país, em 1989. Tudo possível graças aos milhões de Pablo, que usava o futebol como estrutura para "lavar" dinheiro e legitimar os seus negócios clandestinos, que todos conheciam mas ninguém ousava colocar em questão. Quem o fez, de árbitros a ministros, de candidatos à Presidência da República a polícias, todos acabavam baleados e mortos. Rei indiscutível e temido do submundo colombiano, Pablo era também um herói dos pobres: foi ele quem generosamente construiu e financiou campos de futebol e moradias para os sem-abrigo, um pouco por toda a Colômbia. E é esta relação entre Pablo e o futebol, entre Andrés e o mundo do narcoterrorismo, que a dupla norte-americana Jeff e Michael Zimbalist estuda e aprofunda em The Two Escobars. Como dois homens de ideias e princípios completamente opostos se viram ligados por um amor comum ao futebol que não só lhes trouxe fama e dinheiro, como uma morte antecipada. Sim, porque foi a exposição que a entrada no mundo do futebol trouxe a Pablo que o tornou num alvo fácil de capturar, e foi também, azar dos azares, um auto golo no Mundial de 94 que acabou por ditar a morte de Andrés às mãos de dois irmãos criminosos que perderam milhões de dólares em apostas com a eliminação da então principal candidata ao título - quem o afirmou foi o Deus Pelé, após a vitória categórica da selecção colombiana sobre a rival Argentina, por 0-5, no jogo decisivo de apuramento. A Colômbia tinha tudo para fazer o Mundial da sua vida; não o fez e a culpa pode muito bem dever-se ao facto de

Pablo já não estar vivo na altura. Esta conclusão é arriscada, todos nós percebemos. Mas os irmãos Zimbalist não têm dificuldades em explicá-la convincentemente. A morte de Pablo em Dezembro de 1993 trouxe o caos ao país. Todos os criminosos reprimidos e controlados antigamente pelo "El Patrón" ficaram livres de fazer o que lhes apetecia. A violência orientada do cartel de Medellín tornou-se desorganizada e descontrolada, elevando o número de assassinatos para índices nunca antes vistos. De treinador a jogadores, quase todos foram ameaçados durante o Mundial de 94, devido às apostas ilegais. E quando Andrés marcou aquele fatídico auto golo, o seu olhar parecia denunciar o seu destino. Deveria ter sido Milão, que esperava pela sua nova contratação, mas acabou por ser um parque de estacionamento escuro junto a uma discoteca em Medellín. "A vida não acaba aqui", disse Andrés à comunicação social após o auto golo. Estava enganado. Em suma, The Two Escobars revela-se um documentário poderosíssimo sobre uma época em que drogas, futebol e orgulho nacional eram ingredientes comuns num cocktail explosivo de poder, dinheiro e brutalidade. Quase como se de um thriller de espionagem se tratasse, somos arremessados para uma história tão surreal quanto o pontapé de escorpião de Higuita, tão eloquente que consegue expressar em duas horas o que uma nação não conseguiu verbalizar durante duas décadas. Não lhe faltam heróis - Andrés, Maturana ou Valderrama - nem vilões - Pablo, Popeye ("com as minhas mãos matei cerca de 250 pessoas a mando de Pablo... mas só um psicopata é que faz essas contas") ou políticos corruptos - em entrevista, bem como imagens de arquivo absolutamente inacreditáveis de ambos os Escobars. O narcoterrorismo e o narcofutebol num retrato arrepiante de um país com severos traumas e estereótipos relacionados com a droga.

“(...) dois homens de ideias e princípios completamente opostos se viram ligados por um amor comum ao futebol (...)” 47


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JOHAN CRUIJFF EN UN MOMENTO DADO

Título nacional: Johan Cruijff - En un momento dado Realização: Ramón Gieling Elenco: Xavier Pitarque, Gemma Folch, Sergi Pàmies

2004 JOÃO PAULO COSTA

Mais do que como um dos melhores jogadores de futebol de todos os tempos, a carreira do holandês Johan Cruijff ficou marcada pela ascensão ao estatuto de ídolo não apenas no seu próprio país, mas também numa região que o acolheu futebolísticamente e o adoptou quase como bandeira simbólica. Enquadremos: em 1973, após ter capitaneado o Ajax de Amesterdão à conquista de 3 Taças dos Campeões Europeus consecutivas e liderar uma selecção holandesa que se tornou conhecida como “A Laranja Mecânica” pela qualidade superior do futebol praticado, Cruijff era uma estrela da modalidade, vencedor da Bola de Ouro e quase unanimemente considerado o sucessor de Pelé como o Melhor do Mundo. Por isso mesmo, após anunciar a vontade de sair do Ajax, foi imediatamente disputado pelos dois colossos do futebol espanhol, Real Madrid e Barcelona. Na época, apesar de riquíssimo, o clube catalão atravessava uma seca de títulos que se estendia desde há largos anos mas o holandês, homem polémico e de convicções, decidiu rumar a Barcelona porque, segundo o próprio, “nunca iria representar o clube do General Franco”. Esta apresentação ao povo catalão, durante anos reprimido pela ditadura franquista, chamou de imediato a atenção, à qual se juntou uma época desportiva de sucesso, com o Barça a sagrarse campeão sem perder um único jogo desde a sua chegada, incluindo uma vitória histórica por 5-0 em casa dos grandes rivais de Madrid. O sucesso enquanto jogador, ao qual mais tarde se viria a juntar sucesso enquanto maior enquanto treinador do clube, tornou Cruijff numa lenda absoluta, de tal forma que os princípios futebolísticos do clube ainda hoje se baseiam no seu trabalho. Mas o que permanece como mais curioso é a sua influência na cultura da cidade.

conhecidos jornalistas desportivos a anónimos pescadores, de artistas a figuras políticas, de cozinheiros a médicos, procurando ficar a conhecer os seus momentos cruijfftianos mais marcantes, e aquilo que o holandês representa cada um e para a região. Desde grandes golos no campo, à capacidade para orientar os companheiros, a pequenos gestos no banco de suplentes enquanto treinador, ou a sua luta pessoal contra os problemas respiratórios e cardíacos que a certa altura chegaram a colocar em causa a sua vida, tudo parece ter tido uma espécie de repercussão social, um significado que se estendeu para além das quatro linhas. Aliás, o título do filme revela também uma interessante ironia numa conferência de imprensa já como treinador, Cruijff lutava com uma expressão em castelhano, saíndo-se de forma algo atabalhoada com “en un momento dado”, derivação inexistente na língua local da expressão inglesa “in any given moment”. O resultado: apesar de errada, tal expressão acabou por se incluir a si própria no quotidiano local, e ainda hoje é usada em Barcelona. E é esta presença quase fantasmagórica (Cruijff aparece nas primeiras cenas a jogar futebol com um miúdo e nos derradeiros minutos quando é ele próprio quem finalmente é entrevistado para contar a sua história, mas na maior parte do tempo existe em imagens de arquivo e nas histórias que os outros contam dele) que domina a narrativa, interessando não tanto as impressionantes conquistas e gestos técnicos maravilhosos dentro de campo, mas o seu significado. Daí que Gieling peça a todos os seus entrevistados para reproduzirem físicamente os seus momentos favoritos de Cruijff em Barcelona, como uma versão alternativa de uma realidade que as imagens televisivas dos jogos imortalizaram. É neste trabalho de interpretação de um legado que ultrapassou fronteiras e se fixou na memória colectiva que En Un Momento Dado se revela absolutamente fascinante.

A delícia deste documentário está precisamente nesse ponto: a ascenção de um ídolo futebolístico a ídolo social e ideológico. O realizador Ramón Gieling partiu ao encontro de diversas personalidades catalãs, desde

“(...) a ascenção de um ídolo futebolístico a ídolo social e ideológico (...)” 49


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THE GAME OF THEIR LIVES

Título nacional: The Game of Their Lives Realização: David Anspaugh Elenco: Wes Bentley, Gerard Butler, Gavin Rossdale

2005 CARLOS REIS

Centrado na histórica vitória da selecção norte-americana de futebol, constituída na sua maioria por jogadores amadores, sobre a poderosa e aristocrata selecção inglesa, então considerada a principal candidata ao título no Mundial de Futebol de 1950 no Brasil, importa começar por afirmar que The Game of Their Lives, enquanto exemplar artístico e técnico desta arte que veneramos e à qual chamamos cinema, é uma miséria. Mesmo a nível factual, quase tudo é romantizado para que uma vitória de um carteiro, dois ou três professores, um lavador de pratos e um director funerário sobre uma mão cheia de jogadores reputados na altura como sendo os melhores do planeta se tornasse numa fábula de David contra Golias, ocultando detalhes, jogos e pormenores importantes no longo percurso dos norte-americanos que ajudaria a perceber um pouco melhor a forma como foi construído este resultado memorável. A maneira como o desporto em si é filmado dentro das quatro linhas, essa, é melhor nem falar; basta imaginarem Gerard Butler como um guardaredes imbatível ou uma dúzia de jogadores à volta da bola na mesma jogada, vezes e vezes sem conta, e está tudo dito. Porque o recomendamos então? Porque o feito norte-americano da década de cinquenta é provavelmente o melhor exemplo de que, no futebol, tudo é possível. E o leitor merece descobrir um pouco melhor o que realmente aconteceu em terras brasileiras a veteranos de guerra como Frank Borghi – que defendeu tudo o que havia para defender nesse jogo -, o caceteiro Gloves – que perto do final do jogo placou um jogador inglês que se isolava como se de um jogo de rugby se tratasse - ou, acima de tudo, o haitiano que nem naturalizado era e que marcou o golo que atirou aqueles onze desconhecidos para o panteão eterno da glória desportiva. É neste homem, Joe Gaetjens, que procuro colocar todas as vossas atenções. Gaetjens, nascido e formado no Haiti, lavava pratos num restaurante em Harlem. No filme, é retratado como um homem negro – na verdade

era mulato – repleto de rituais e crenças voodoos. A família diz ser tudo mentira: Gaetjens era católico não praticante como tantos outros, um rapaz banal sem manias estranhas. Apenas uma das muitas incongruências do filme – omitem os restantes jogos dos EUA no Mundial, colocam a selecção no Brasil por convite quando na verdade tiveram que eliminar Cuba num playoff a duas mãos para garantirem a qualificação, etc. Mas voltemos ao herói da história, aquele que foi carregado em ombros por milhares de brasileiros em Belo Horizonte, o homem que depressa desapareceu e transformou-se num mito. Isto, claro, até a ESPN explorar a sua vida aquando do Mundial de 2010. A glória efémera no Mundial de 50 não levou Gaetjens a um caminho repleto de sorte e fama. Depois de uma passagem sem sucesso pelo campeonato francês, voltou ao Haiti, onde foi recebido por milhares no aeroporto. Assinou pelo principal clube do país - e pela Palmolive e Colgate, já agora - mas lesões recorrentes diversas obrigaram-no a terminar a sua carreira aos 29 anos. Familiarmente relacionado com um candidato à presidência do Haiti, Gaetjens tornou-se uma bandeira política na conquista de votos. Mas não chegou. Perdidas as eleições para o médico François Duvalier, o seu destino ficou traçado: Papa Doc tornou-se um ditador sem escrúpulos e, paranóico com possíveis atentados à sua liderança, pouco demorou a eliminar todos aqueles que sabia serem contra a sua eleição. Gaetjens e o seu irmão foram dois dos que acabaram na prisão de Fort Dimanche, prisão onde todas as noites às 22:00 um prisioneiro era chamado para o pátio e executado. No dia 10 de Julho de 1964, calhou a fava a Gaetjens. Apenas mais um entre os trinta mil que foram assassinados durante o regime de Papa Doc. E é esta história de vida, tanto ou mais que o feito inigualável dos norteamericanos no dia 29 de Junho de 1950, que merece este destaque. Se o fraquíssimo filme de David Anspaugh (Rudy) é o catalisador que precisam para a descobrir, que assim seja. Porque há males que vêm por bem.

“(...) enquanto exemplar artístico e técnico desta arte que veneramos e à qual chamamos cinema, é uma miséria (...)” 51


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ZIDANE, UN PORTRAIT DU 21E SIÈCLE

Título nacional: Zidane - Um Retrato do Século XXI Realização: Douglas Gordon, Philippe Parreno Elenco: Zinédine Zidane, David Beckham

2006 JOÃO PAULO COSTA

Não sendo propriamente um documentário típico, aquilo que os realizadores Douglas Gordon e Philippe Parreno nos oferecem com Zidane - Um Retrato do Século XXI aproxima-se mais da instalação viodeográfica, quase como uma espécie de estudo do movimento e comportamentos de um dos mais extraordinários jogadores de futebol do seu tempo. Cerca de um ano antes do final da carreira, Gordon e Parreno propuseram-se a acompanhar o jogador francês durante uma partida de futebol (no caso um Real Madrid-Villareal). Assim, todas as câmaras da sua equipa estariam centradas apenas em Zidane, acompanhando as suas movimentações pelo terreno de jogo, mesmo quando a bola se encontrava do outro lado do campo. O resultado é algo quase abstracto, que contrasta totalmente com o conceito normal da transmissão futebolística na qual a bola é o centro das atenções durante os 90 minutos. Aqui, os planos abertos nos quais nos habituámos a ver o posicionamento dos jogadores em relação à bola, aos colegas e aos adversários, os enquadramentos fecham-se num único jogador, confundindo as nossas coordenadas habituais e quase nos hipnotizando com a presença de Zidane, jogador de uma elegância futebolística acima da média.

irremediavelmente sozinho? Por ele passam, durante o jogo, alguns dos mais famosos futebolistas do seu tempo (Figo, Beckham, Roberto Carlos, Forlán, e muitos outros), quase sempre desfocados e por apenas alguns segundos de uma interacção demasiado breve, demasiado passageira. Nesse sentido são arrepiantes alguns dos planos em que Zidane é enquadrado num canto inferior do ecrã anamórfico, com as bancadas repletas do Santiago Bernabéu como fundo em contraste com alguns grandes planos do seu rosto inquietante - convenhamos, a fotografia a cargo de Darius Khondji e a música dos Mogwai são perfeitas na exploração dessas sensações. Mais do que a graça dos movimentos do jogador com a bola, são esses momentos de pausa que causam uma reflexão sobre o verdadeiro sentido do filme: a relação do artista com o seu palco, e a ideia de que a arte de um futebolista, tal como de um actor, músico ou pintor, se expressa a partir de sentimentos obscuros profundos. E talvez seja aí que reside a derradeira ironia de Zidane - Um Retrato do Século XXI, a de que essa expressão artística já não se perde na efemeridade do palco onde é representada, eternizando-se através das câmaras que o seguem incansavelmente. Este jogo, quis do destino, ficaria marcado também como uma espécie de premonição do seu final de carreira onde, tal como na mítica final do Mundial de 2006, Zidane perdeu a cabeça, deixou-se levar pelas emoções recalcadas, e acabou expulso nos instantes finais da partida. Num e noutro caso, para a História ficarão as imagens, alguns diriam polémicas, mas que ajudam a explicar a grandeza do seu jogo, e nesse aspecto a construção do filme segue exactamente as mesmas linhas de outras narrativas tradicionais: uma personagem conturbada que cria a partir da dor e da raiva, que ao mesmo tempo que lhe conferem o génio, se tornam na sua perdição. Longe de ser uma proposta fácil para o espectador comum pode, ainda assim, revelar-se bastante gratificante.

Porquê, então, “um retrato do século XXI”? Podemos passar à frente a justificação mais óbvia - a de que as imagens do jogo foram captadas em 2005 - e tentar entender o conceito deste trabalho. Porquê seguir apenas um atleta durante um desporto colectivo, mesmo enquanto este se encontra “parado” a ver o jogo desenrolar-se na outra ponta do relvado? Apetece perguntar: será esta abordagem uma forma de reflexão sobre o lugar do Homem no seu tempo? Um tempo em que o ser humano, mesmo com uma série de câmaras apontadas na sua direcção, com 21 colegas e adversários com quem se cruza durante o jogo, com milhares de adeptos nas bancadas e milhões a segui-lo nas televisões, se sente

“(...) arte de um futebolista, tal como de um actor, músico ou pintor, se expressa a partir de sentimentos obscuros profundos.” 53


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SHAOLIN SOCCER

Título nacional: Shaolin Soccer Realização: Stephen Chow Elenco: Stephen Chow, Wei Zhao, Yat-fei Wong

2001 ANÍBAL SANTIAGO

Com uma história marcada por vários momentos non sense bem ao estilo de Stephen Chow, Shaolin Soccer revela-se um pedaço de entretenimento saudavelmente louco e hilariante, transformando os relvados de futebol em palcos marcados pelas habilidades mais mirabolantes, onde não falta muito kung fu, humor, acção e até algum drama. O enredo é bastante simples, valendo sobretudo pelo estilo incutido por Chow, enquanto nos apresenta a uma peculiar equipa de futebol formada maioritariamente por antigos especialistas em kung fu Shaolin. Um desses especialistas é Sing (Chow), um indivíduo que ganha a vida a recolher lixo. É no início do filme que Sing conhece Fung, uma antiga vedeta de futebol, cuja carreira sofreu um enorme revés ao falhar um penalty decisivo, tendo sido atacado por adeptos que o deixaram coxo de uma perna. Este acto foi efectuado a mando de Hung, um antigo companheiro de equipa, hoje dono do "Team Evil", onde Fung é assistente, sendo sujeito a várias humilhações por parte do proprietário, que o expulsa quando este exibe ambições de assumir o cargo de treinador. Tudo parecia correr mal a Fung e Sing, pelo menos até o primeiro encontrar no segundo uma habilidade inata para jogar futebol. Por sua vez, Sing fica agradado com a ideia de juntar kung fu e futebol, começando a reunir vários elementos peculiares que são especialistas nesta arte marcial. Os vários elementos são figuras algo falhadas, que pouca noção têm do que é futebol, sendo humilhados num encontro inicial contra uma equipa de "sarrafeiros". No entanto, estes logo acabam por mudar o rumo do encontro, conseguindo posteriormente inscrever-se num torneio onde podem ganhar um elevado valor monetário e se preparam para enfrentar vários adversários peculiares, incluindo o temível Team Evil.    Os jogos são marcados pelas habilidades mais mirabolantes, não faltando roupa rasgada com a potência de um remate, saltos humanamente

impossíveis, pontapés de bicicleta, defesas improváveis, com tudo a parecer saído directamente de Captain Tsubasa, ao longo desta típica história dos underdogs que procuram vencer contra as expectativas. Stephen Chow tem um certo gosto por personagens peculiares, algo visível em obras como From Beijing With Love ou o mais recente Journey to the West, tendo em Shaolin Soccer um filme onde não faltam figuras algo à margem da sociedade. O próprio protagonista é uma figura que dificilmente parece encaixar-se no seu tempo. Visual pouco cuidado, fã de Bruce Lee, ténis rotos, Sing tem uma enorme força nos seus pés e uma grande habilidade para o kung fu, mexendo com todos à sua volta, formando uma relação de amizade com Mui, uma padeira marcada por forte acne na cara, que utiliza técnicas de kung fu para confeccionar os seus deliciosos pãezinhos. Shaolin Soccer não descura a apresentação e desenvolvimento dos vários personagens secundários, incluindo os elementos da equipa de Sing, para além de explorar a rivalidade entre Hung e Fung, sempre sem perder o tom marcado pelo bom humor. Stephen Chow por vezes cai em exageros, mas mantém-se fiel a um estilo bastante próprio, pronto a não se levar muito a sério, despertando imensos risos pelo caminho. Se o humor é algo que maioritariamente resulta ao longo do filme, o mesmo se pode dizer dos jogos de futebol, sobretudo a final onde não falta emoção, alguns risos, muitas habilidades e enorme tensão. Por vezes fica a ideia que a banda sonora se torna algo intrusiva, embora não destoe por completo da atmosfera irreverente deste filme marcado por muito CGI, personagens peculiares, jogos emotivos e muito humor. A história é a típica dos underdogs que procuram triunfar, mas explorada com enorme eficácia por Stephen Chow, que pontua a mesma de elementos dos wuxia, filmes de guerra, romance, comédia slapstick e até musicais, envolvendo-nos num pedaço de cinema tão peculiar como os seus personagens.

“(...) uma peculiar equipa de futebol formada maioritariamente por antigos especialistas em kung fu Shaolin (...)” 55


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ESCAPE TO VICTORY

Título nacional: Fuga Para a Vitória Realização: John Huston Elenco: Michael Caine, Sylvester Stallone, Pelé

1981 ANÍBAL SANTIAGO

Sejamos sinceros. John Huston já realizou filmes muito melhores do que Escape to Victory. Michael Caine, Max Von Sydow e Sylvester Stallone também protagonizaram obras mais memoráveis do que esta. De Pelé temos algumas duvidas ou não estivéssemos perante alguém que integrou o elenco de filmes como Os Trapalhões e o Rei do Futebol, embora o seu valor como futebolista seja inquestionável. Todos os presentes em Escape to Victory parecem ter consciência de estar perante uma obra que não se leva demasiadamente a sério, que varia entre o filme sobre a II Guerra Mundial, de futebol e fuga prisional, acabando no final por não explorar devidamente as suas diferentes vertentes, embora conte com algumas doses de escapismo pelo caminho, algo que salva e muito a obra cinematográfica, tornando-a pelo menos suportável. A história desenrola-se durante a II Guerra Mundial e acompanha um grupo de prisioneiros liderados por John Colby (Michael Caine), um antigo jogador do West Ham que se prepara para disputar um jogo amigável com a selecção da Alemanha. O jogo seria inicialmente disputado entre prisioneiros e militares, tendo sido organizado pelo Major Karl Von Steiner (Max Von Sydow), um militar alemão, mas cedo o encontro desportivo é visto como uma forma de propaganda e marcado para Paris, onde se vão defrontar os reclusos e a selecção alemã. Aos prisioneiros são concedidas mais condições, tendo em vista a estarem em forma para poderem competir, juntando-se ainda à equipa Robert Hatch (Sylvester Stallone), um cidadão dos EUA com uma personalidade deveras peculiar que procura fugir a todo o custo, mas também vários presos interpretados por antigos jogadores de futebol, tais como Pelé, Osvaldo Ardilles, Bobby Moore, entre outros. As cenas de treinos são quase nulas, com Escape to Victory a descurar em boa parte o desenvolvimento dos personagens secundários, apresentando ainda pelo meio um plano para a fuga no dia do jogo (com a ajuda da Resistência francesa), embora Colby queira defender a sua honra no campo. O dia de jogo é marcado por enorme

agitação e um árbitro pronto a ajudar os alemães, com a banda sonora de Bill Conti a ritmar um embate de características épicas, onde não faltam os momentos que nos fazem torcer pelos underdogs. John Huston nem pouco mais ou menos procurou dar alguma espessura a esta história que tira inspiração em Két félidő a pokolban, um filme húngaro realizado por Zoltan Fábri, que tinha como base um episódio supostamente verídico e posteriormente desacreditado, no qual os antigos jogadores do Dinamo Kiev e Lokomotiv Kiev enfrentaram soldados alemães num jogo de futebol. Reza a lenda que alguns adversários dos alemães foram assassinados, algo posteriormente desmentido. Escape to Victory tira alguma inspiração desta história, embora esteja longe de contar com alguma tensão ou de apresentar as agruras da guerra e as privações nos campos de forma verosímil. Esta situação atribui alguma leveza ao filme, que ameaça perder-se durante o seu desenvolvimento, mas logo nos conquista com o épico duelo dentro de campo. Stallone raramente convence como guarda-redes, tal como o inglês de Pelé não convence, num elenco em que se destaca Michael Caine e Max Von Sydow, mais pelo carisma de ambos do que pela espessura dos personagens que interpretam. No final fica a sensação que muito mais poderia ser feito, que Escape to Victory procura apenas cumprir os requisitos mínimos para entreter, falhando em momentos chave na construção da narrativa e dos personagens, com a fuga dos prisioneiros a nunca conseguir gerar interesse, os treinos a serem pouco explorados, o contexto histórico a ser desaproveitado, despertando à atenção sobretudo pelas estrelas do mundo do futebol (e do cinema) que integram o elenco. Sabe a pouco, é certo, parecendo que assistimos a um jogo de pré-época entre duas grandes equipas que ainda não se encontram na melhor forma. No caso de Escape to Victory temos alguns executantes de talento, entre os quais John Huston, mas em ritmo de pré-época, pronto a cumprir os serviços mínimos quando se esperava muito mais. 

“Todos os presentes em Escape to Victory parecem ter consciência de estar perante uma obra que não se leva demasiadamente a sério (...)” 57


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MARADONA BY KUSTURICA

Título nacional: Rudo e Cursi Realização: Carlos Cuarón Elenco: Gael García Bernal, Diego Luna, Guillermo Francella

2008 ANÍBAL SANTIAGO

Irreverente, genial, saudavelmente louco, capaz das proezas mais mirabolantes com uma bola futebol e alcançar feitos que parecem saídos das lendas dos Deuses gregos e romanos, Diego Armanda Maradona tem em Maradona by Kusturica um documentário pouco convencional, que raramente faz justiça ao seu enorme talento, mas nem por isso deixa de se revelar uma abordagem interessante e peculiar. Perde-se em demasia nos comentários políticos anti-EUA, anti-Inglaterra e anti-capitalismo, mostrando as facetas de esquerda de Maradona e Emir Kusturica, algo que permite explorar a amizade do antigo jogador com Fidel Castro e o seu ódio a George W. Bush, mas sobressai quando nos apresenta ao que "Pelusa" representa para os adeptos e em alguns depoimentos do protagonista deste documentário. Veja-se quando fala abertamente do que perdeu devido ao consumo de cocaína, passando pelo seu passado em Villa Fiorito (onde regressa após vários anos), até aos seus feitos em campo, incluindo a "Mão de Deus" como ficou apelidado o seu golo com a mão no jogo entre a Inglaterra e Argentina no Mundial de Futebol de 1986, um tento repetido mais do que uma vez ao longo de um filme onde Emir Kusturica não tem problemas em divagar por áreas inesperadas, descurando muitas das vezes o passado do antigo atleta. Nesse sentido, Maradona by Kusturica pode desiludir quem espera ver um documentário exclusivamente centrado no passado futebolístico de Diego Maradona, com Kusturica a estar bastante preocupado em mostrar-nos o alvo de estudo do seu documentário nos anos em que a obra foi filmada, nomeadamente, 2005 e 2007, apresentando-nos à lenda, ao pai de família e ao cidadão politicamente engajado, embora também não descure algumas imagens de arquivo com os seus golos e jogadas.

Blatter, João Havelange, o Príncipe Carlos, entre outros, para além de apresentar algum arrependimento em relação ao consumo de drogas e aos excessos. Isso fica particularmente visível quando fala sobre o que perdeu em relação ao crescimento das filhas, mas também na carreira que poderia ter alcançado. O documentário aborda ainda a relevância de Maradona como ícone, visível na Igreja Maradoniana cujos crentes veneram o antigo jogador, mas também na comoção que provocou no povo argentino quando a sua vida esteve em risco, enquanto Emir Kusturica mescla estas imagens do presente com as do passado e até com filmes que realizou (incluindo o célebre Crna macka, beli macor), sempre sem descurar a presença da música. Temos ainda o plano político, não faltando a menção à Guerra das Malvinas, bem como ao Imperialismo americano, com Maradona by Kusturica a não ter problemas em expor a visão política de Maradona e Kusturica, enquanto nos brinda com alguns momentos marcantes com "El Pibe". Veja-se Diego Armando Maradona a cantar “Maradó”, um dos momentos mais emotivos, comoventes e entusiasmantes do filme, onde o pouco talento do antigo jogador para a cantoria fica latente, mas também a sua genuína paixão pelo jogo, pela luta contra os poderosos, expondo o porquê de ser uma figura tão apaixonante do mundo do futebol. Jogador inigualável, de vastos recursos e personalidade irreverente, Diego Armando Maradona tem em Maradona by Kusturica um documentário pouco convencional, sem medo de arriscar, ou seja, muito ao seu jeito. No final fica a ideia que muito mais poderia ser abordado, ou não estivéssemos perante aquele que é o melhor jogador de futebol de sempre, uma talento nato, cujo maior adversário que encontrou foi ele próprio e o seu vício pela cocaína.

Maradona nunca primou por um discurso politicamente correcto, daí não ser novidade ver a franqueza do mesmo quando é colocado em discurso directo, disparando contra Bush, mas também contra Sepp “(...) um documentário pouco convencional, sem medo de arriscar (...)” 59


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LOOKING FOR ERIC

Título nacional: O Meu Amigo Eric Realização: Ken Loach Elenco: Steve Evets, Eric Cantona, Stephanie Bishop

2009 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Para os fãs de futebol, O Meu Amigo Eric também é um filme curioso pois tece algumas críticas à forma como este desporto se tornou algo para as elites e dominado por uma lógica de mercado, afastando dos estádios os verdadeiros adeptos, de origens humildes, que acabaram substituídos por adeptos mais ricos. Estas críticas só pecam por ser escassas e pouco aprofundadas o que poderá desiludir os críticos do futebol moderno tal como ele se tornou, sendo o futebol inglês um dos exemplos máximos desta transformação, com clubes comprados por milionários sem qualquer ligação ao emblema. No caso do Manchester United, comprado pelo norte-americano Malcolm Glazer, um grupo de adeptos resolveu fundar um novo clube para manter vivo o espírito do clube original, por quem sempre torceram. O episódio é focado em O Meu Amigo Eric numa cena em que os adeptos dos Red Devils têm uma acesa discussão sobre o assunto. A resposta de um dos adeptos à pergunta porque não vai tanto ao estádio (que tipo de carro estaciona no parque do estádio em dia de jogo, interroga de volta o adepto a quem é dirigida a pergunta) é sintomática do actual panorama do futebol inglês. O ‘fantasma’ de Cantona torna-se assim uma forma de libertar a pressão de um filme com uma forte carga dramática. E são inúmeros, para não dizer praticamente todos, os momentos cómicos protagonizados por Eric Cantona, que não deixa de ser alvo das críticas de Eric aos seus defeitos, mesmo sendo o seu maior fã. Além de recordar algumas das mais famosas jogadas e golos do mítico avançado francês, relatados com uma incrível paixão pelo carteiro Eric, O Meu Amigo Eric recorda ainda uma das facetas mais conhecidas do futebolista: a arte de deixar os comentadores dias a fio a pensar nas suas tiradas filosóficas. O Meu Amigo Eric está longe de ser uma obra-prima, mas para os fãs de futebol é uma pequena delícia. Quanto mais não seja para recordar o génio de Eric Cantona.

Não são raros os casos de futebolistas que saem do seu território habitual para fazer uma perninha noutros campos artísticos. O caso de Eric Cantona é paradigmático. Apesar da polémica que sempre rodeou a sua carreira, o gaulês que fez as delícias dos adeptos do Manchester United na década de 1990 e aterrorizou os fãs das equipas adversárias optou por tentar a sua sorte no cinema e no teatro depois de arrumar as chuteiras. Mas ao contrário de outros companheiros que entrarem em filmes e acabaram por provar que o seu talento era melhor para dar pontapés numa bola, Cantona sempre se esforçou mais e chegou a participar num bom punhado de títulos. Mas talvez o filme que mais agrade aos adeptos do futebol seja O Meu Amigo Eric, onde o francês rebelde interpreta nada mais, nada menos do que Eric ‘The King’ Cantona. Lui-même, como surge no genérico final. Não sendo um filme propriamente sobre futebol, o desporto-rei está por todo o lado neste filme. Realizado por Ken Loach, um dos principais nomes do Cinema britânico em actividade, O Meu Amigo Eric é a história de Eric, um carteiro à beira de um esgotamento que encontra em Eric Cantona um amigo improvável, mas ao mesmo tempo ideal, para desabafar e tentar resolver os seus problemas, seja como lidar com dois adolescentes problemáticos que tem em casa ou tentar recuperar um amor de juventude. Desta forma, são os problemas de uma sociedade de classe trabalhadora o centro do filme. A presença de Eric Cantona na história, fruto da imaginação do protagonista, acaba por dar a O Meu Amigo Eric um lado mais leve num filme que bem poderia resvalar para o lado da tragédia. A par dos problemas do carteiro, são vários os aspectos de cariz social focados no filme, como é o caso da gravidez adolescente da filha de Eric, que pode pôr em causa a sua carreira académica, ou as ligações de um dos filhos a um criminoso local.

“(...) são os problemas de uma sociedade de classe trabalhadora o centro do filme.(...)” 61


THE DAMNED UNITED

Título nacional: Maldito United Realização: Tom Hooper Elenco: Michael Sheen ,Colm Meaney, Henry Goodman, David Roper

2009 CARLOS REIS

Apesar de todos estes feitos monstruosos, Maldito United foca-se na curta experiência de Clough no “Dirty Leeds”, em 1974 a grande potência do futebol inglês, em substituição do seu arqui-rival, aquele que o tinha desprezado no primeiro encontro de ambos, Don Revie. Revie tinha sido contratado pela selecção inglesa e, numa jogada arriscada – devido ao ódio que Clough sempre havia admitido pelos jogadores e pelo estilo de jogo dos então homens de Revie -, a direcção decide ir buscar o jovem “especial” – é assim que se descreve, muito antes de Mourinho -, recém-desempregado por exigir um melhor ordenado ao pequeno clube de Derby. Para a posteridade fica o excelente trabalho de articulação de prolepses e analepses do realizador Tom Hooper e a brilhante interpretação de Michael Sheen. Imperdível.

Afinal, Mourinho não foi o primeiro a revolucionar o futebol com o seu estilo arrogante e resultados inquestionáveis nos primeiros anos de carreira. O já falecido, hoje lendário treinador inglês Brian Clough, será para sempre relembrado entre os fanáticos do futebol como o jovem treinador que, num par de anos, pegou em duas equipas da segunda divisão inglesa (Derby County e Nottingham Forest), trouxe-as à liga principal inglesa e, no mesmo ano, conquistou o título máximo do futebol britânico, surpreendendo tudo e todos. Não fosse isso suficiente para a glória eterna, levou ainda o Forest a duas vitórias consecutivas na Taça dos Campeões Europeus. Anteriormente, com o Derby County, tinha-se ficado pela Juventus, nas meias-finais – culpa talvez do Leeds United, que lesionara alguns jogadores fulcrais da equipa alguns dias antes, com o seu jogo “porco e feio”.

“(...) excelente trabalho de articulação de prolepses e analepses do realizador (...)”

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L’ARBITRO

Título nacional: L’arbitro Realização: Paolo Zucca Elenco: Stefano Accorsi, Geppi Cucciari, Jacopo Cullin

2013 ANÍBAL SANTIAGO

Made in Itália, um país onde o Calciocaos tomou de sobressalto o mundo do futebol e conduziu à queda da Juventus para a 2ª liga, efectuando um travessia no deserto até regressar ao seu apogeu, L'arbitro colocanos perante a ascensão e queda do árbitro Cruciani, um indivíduo ambicioso, conhecido pelos seus gestos artísticos (embora longe de utilizar expressões como "meus queridos"), mas também diante da rivalidade entre dois clubes da terceira divisão da Sardenha, o Atletico Pabarile e o Montecrastu. O Pabarile andava em baixo, mas a chegada de Matzutzi, um indivíduo que regressa à sua terra natal após vários anos na Argentina, logo vem mudar o rumo da equipa, que entra numa série vitoriosa e se prepara para lidar com arbitragens menos positivas. Se os atletas do Pabarile actuam na terceira divisão, já Cruciani procura ascender no mundo da arbitragem, mesmo que para isso tenha de

beneficiar as equipas mais prestigiadas para agradar à Fefa, com L'arbitro a não ter problemas em explorar estes jogos de bastidores e corrupção no futebol, sempre com alguma mordacidade à mistura, enquanto nos apresenta a um conjunto peculiar de personagens. Paolo Zucca revela talento na forma como arquitecta e desenvolve esta história marcada por bom humor, aproveitando as características do território e dos seus personagens, filmando a preto e branco como que colocando este espaço entre o presente e o passado, num tempo indefinido onde muito e pouco parece acontecer. Entre jogos apaixonados, árbitros corrompíveis e muitas emoções à flor da pele, L'arbitro passa estes cerca de noventa minutos de duração com poucos motivos para cartões, sejam estes amarelos ou vermelhos, com Paulo Zucca a sair como o grande vencedor deste jogo que nos apresenta.

“(...) a ascensão e queda do árbitro Cruciani, um indivíduo ambicioso, conhecido pelos seus gestos artísticos (...)”

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EL PENALTI MÁS LARGO DEL MUNDO

Título nacional: O Maior Penalty do Mundo Realização: Roberto Santiago Elenco: Fernando Tejero, María Botto, Marta Larralde

2005 CARLOS REIS

Fernando é um zé-ninguém nos seus trintas, um tipo de mau aspecto que trabalha como repositor num supermercado de bairro e que, nos tempos livres, é ainda guarda-redes suplente nunca utilizado num clube local – o Estrela Polar -, equipa que na última jornada do campeonato distrital caso consiga pelo menos um empate em casa, irá garantir pela primeira vez na história do clube uma presença numa divisão superior. Minuto noventa, tudo empatado e, num lance inacreditável em que o avançado derruba violentamente o guarda-redes mas a falta é assinalada ao contrário, penalty para os visitantes. Guarda-redes titular lesionado e, de cerveja na mão no banco de suplentes, Fernando é chamado para entrar e tentar um milagre. Mas eis que uma invasão de campo interrompe o jogo e a execução da falta é adiada para o domingo seguinte. Serão sete dias de angústia em que Fernando passa de um triste sem ambição para herói do bairro, venerado por todos de modo a motivá-lo para um momento que

pode definir o futuro de várias vidas. Comédia espanhola deliciosa sobre um meio social medíocre repleto de ilusões, um campeonato viciado pelo sistema e pela corrupção e, por fim, pela forma como o futebol é capaz de moldar as atitudes e os comportamentos daqueles que vêem no mesmo um tubo de escape às pressões do quotidiano – caso claro o jogador desempregado sem dinheiro para encher o frigorífico para o filho mas que gasta uma fortuna numas chuteiras de elite apenas para disputar meio minuto do jogo suspenso -, O Maior Penalty do Mundo consegue ainda manter-nos presos à narrativa devido à incógnita chave – tornar-se-á ou não Fernando uma lenda -, bem como ao magnetismo da belíssima Marta Larralde, que obrigada pelo pai (treinador) a sair com o monstro (esse mesmo, Fernando), proporciona os momentos mais divertidos da fita. Destaque final para Fernando Tejero, que com o seu guarda-redes escanzelado levou um Goya para casa.

“(...) sete dias de angústia em que Fernando passa de um triste sem ambição para herói do bairro (...)”

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MEAN MACHINE

Título nacional: A Máquina Realização: Barry Skolnick Elenco: Vinnie Jones, David Kelly, David Hemmings

2001 CARLOS REIS

Danny Meehan (Vinnie Jones) é o antigo capitão da selecção inglesa, um jogador de futebol cuja carreira de sucesso foi subitamente interrompida por corrupção desportiva, comprovada num duelo Inglaterra-Alemanha onde Meehan falhou propositadamente um penalty para beneficiar os seus interesses nas apostas ilegais. Sem trabalho nem família, perdese agora pelos caminhos penosos da vodka e do whisky, o que lhe leva a agredir dois polícias que o tentam multar por conduzir alcoolizado. Condenado a três anos de encarceramento, Meehan é recebido na prisão de forma mista: uns nem acreditam que vão poder confraternizar com um ídolo; outros detestam-no e querem que sofra por ter feito a selecção inglesa perder aquele jogo decisivo com os germânicos. Mas quando o director da prisão o convida para treinar a equipa dos guardas prisionais - contra a vontade e ameaças destes últimos -, Danny sugere criar a sua própria equipa de prisioneiros para desafiar os guardas num jogo

amigável. Nesse momento, todos os seus colegas percebem que esta partida será uma oportunidade única de vingar, sem represálias, todas as injustiças de que são alvo diariamente. Remake de um êxito dos anos setenta de Robert Aldrich, A Máquina não tem a criatividade e vitalidade do original dedicado ao futebol americano com Burt Reynolds no papel principal, mas não deixa de ter o seu encanto no desencanto rude do seu protagonista - ele próprio um ex-futebolista na vida real - e na forma surpreendente como o desporto em si é filmado, com actores claramente escolhidos a dedo pela forma como tratam a bola com os pés. À excepção das que envolvem o guarda-redes marcial de Jason Statham, quase todas as jogadas são minimamente credíveis, perdendo-se inesperadamente o guião em gags ridículos de corredores, celas e balneários completamente despropositados. Destaque final para Jason Flemying na pele de um comentador desportivo muito pouco convencional.

“(...) não tem a criatividade e vitalidade do original dedicado ao futebol americano com Burt Reynolds (...)”

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THE MIRACLE OF BERN

Título nacional: O Milagre De Berna Realização: Sönke Wortmann Elenco: Louis Klamroth, Peter Lohmeyer, Johanna Gastdorf

2003 PEDRO SOARES

Temos que ser sinceros quando dizemos que o futebol nunca foi, propriamente, um motivo de grandes filmes. Mesmo quando sejam sobre momentos históricos assinaláveis, como a inesperada vitória da Alemanha no Mundial de futebol de 1954, que este O Milagre De Berna retrata, num drama histórico pós-guerra, patriota e para toda a família. Todos nós precisamos de heróis e os jogadores da selecção alemã foram os heróis que ajudaram o povo alemão a sair da recessão e da crise na Segunda Grande Guerra tinha deixado o país mergulhado. Podemos dizer que O Milagre De Berna está para a Alemanha, assim como Invictus está para a África do Sul ou The Other Dream Team está para a Litu��nia. Ou seja, demonstra como o desporto serviu para unir e emancipar um povo perante uma situação socio-cultural adversa. Mathias Lubanski (Louis Klamroth) é o filho mais novo de uma família que vê o pai, Richard Lubanski (Peter Lohmeyer), voltar a casa depois de onze anos de cativeiro na Rússia. Para além de adepto fanático de futebol, Mathias é ainda o melhor amigo de

Helmut Rahn (Sascha Göpel), um dos seleccionados da selecção alemã para o Mundial da Suiça, em quem encontra a figura paternal até então ausente. Esse regresso vai alterar o rumo daquela família, com a chegada de um pai tradicional, rígido e disciplinador, e afectado psicológicamente com os anos passados na prisão - um drama familiar que encontra o escape no futebol e nos heróis da selecção nacional. Com efeito, trata-se de um filme cujas roupagens são demasiado curtas. Um drama social que nunca consegue atingir a profundidade dramática necessária para ganhar alguma credibilidade para além do mero tearjerker. Credibilidade é também o que falta às cenas de futebol, cujos lances técnicos e tácticos disvirtuam o historicismo presente no resto da história. O realizador, acaba por tornar tudo muito previsível e aborrecido, deixando o filme sem curso por momentos. Vale a tentativa de recriar o jogo final, num estádio em CGI, com meia-dúzia de tabelinhas e remates com perigo. “(...) trata-se de um filme cujas roupagens são demasiado curtas (...)”

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PELADA

Título nacional: Pelada Realização: Luke Boughen, Rebekah Fergusson, Gwendolyn Oxenham, Ryan White Elenco: Luke Boughen, Gwendolyn Oxenham

2010 SARA GALVÃO

Ambos com uma carreira futebolística “interrompida”, Luke e Gwendolyn, um casal que partilha a paixão do futebol, resolve viajar pelo mundo e explorar a paixão da bola que acontece fora dos grandes estádios. Desde prisões na Bolívia, terraços em Kioto, ou mesmo as traseiras do Europeu, há sempre pessoas dispostas a correr atrás de uma bola só pelo prazer de jogar bonito. Enquanto Luke aproveita a pausa e viagem pelo mundo para pensar se está pronto para uma carreira “séria” e entrar no curso de Direito, Gwendolyn está mais presa ao passado. Ela sempre pensou que conseguiria ser a melhor de sempre, e não consegue lidar tão bem como Luke com a falta de adrenalina de um jogo “a sério”, uma tensão que se adensa quando recebe um email a convidá-la para um trial para a equipa feminina olímpica americana. A questão do futebol feminino é tocada levemente - geralmente o casal joga junto, e na América Latina são muitas as mulheres que participam no jogo com eles, mas no caso do Irão, o

último país visitado, as leis proíbem que mulheres entrem em campo. Não que isso pare Gwendolyn, com consequências imprevisíveis para o documentário... Pelada consegue transmitir a paixão pelo futebol, e nesse sentido é extremamente bem sucedido. Talvez fosse bem vinda uma maior exploração da vida fora das quatro linhas das várias personagens encontradas, mas evitando o comentário político e social, o filme concentra-se no desporto e não nas bancadas, o que é refrescante, e não de todo desagradável. A única coisa menos positiva será a voice-over, narrada ao extremo por Gwendolyn, e que mostra muita da sua agrura com a sua carreira. Mas belas cenas de futebol, e momentos fantásticos de tensão real - como serem apanhados com bilhetes falsos para o Espanha-Suécia no Europeu - fazem-nos perdoar o tom algo paternalista.

“(...) há sempre pessoas dispostas a correr atrás de uma bola só pelo prazer de jogar bonito.”

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PURELY BELTER

Título nacional: Na Maior Realização: Mark Herman Elenco: Chris Beattie, Greg McLane, Charlie Hardwick

2000 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Um bilhete de época para ver os jogos da equipa favorita é o sonho de qualquer adepto de futebol que se preze. Sobretudo para Gerry e Sewell, dois jovens desocupados de Newcastle que resolvem estabelecer como missão conseguir dinheiro suficiente para ganhar tão almejado troféu, nem que para tal tenham de enveredar por caminhos menos claros. É a partir desta premissa que surge Na Maior, um filme que aborda a paixão que o futebol desperta nos mais novos, a partir do olhar deste duo de anti-heróis oriundo de uma camada social baixa.

se enganou no clube dos dois miúdos e deu-lhes um bilhete para a última equipa que devia ter dado), as questões mais sérias estão sempre presentes, como uma nuvem negra que paira por cima da cabeça da dupla. Na Maior é um filme bastante simpático, que marcou o regresso de Mark Herman ao mundo do futebol, tema da sua obra de estreia See You at Wembley, Frankie Walsh, onde o desporto rei já estava bastante presente. Mais recentemente, o cineasta britânico foi o responsável pela adaptação ao cinema do romance O Rapaz do Pijama Às Riscas, passado durante a II Guerra Mundial, onde voltou a provar ser um excelente director de actores de palmo e meio.

Assumindo um tom de comédia dramática, Na Maior é um claro exemplo de um certo cinema britânico assente em preocupações sociais. Mesmo partindo de um tom mais leve (e são várias as situações caricatas protagonizadas pelos dois jovens, desde o roubo da bola de penálti logo a abrir o filme à ida ao estádio do clube rival porque a assistente social

“(...) um filme que aborda a paixão que o futebol desperta nos mais novos (...)”

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DÍAS DE FÚTBOL

Título nacional: Dias de Futebol Realização: David Serrano Elenco: Alberto San Juan, Ernesto Alterio, Natalia Verbeke

2003 CARLOS REIS

António, nos seus trintas, acaba de sair da prisão e, devido a algumas sessões de terapia de grupo, está convencido que a psiquiatria é o seu futuro. Sem um curso que lhe abra portas a esse sonho recente e sem dinheiro para estudar, acaba por ter que se render à oportunidade de ser taxista e conseguir deste modo juntar alguns trocos. Infeliz da vida, António julga ainda assim que os seus quatro grandes amigos de infância estão ainda pior do que ele. Jorge foi abandonado pela mulher, Miguel passa a vida a fazer o que a esposa manda, Charlie finge ser um actor de sucesso para impressionar meio mundo e Ramon tem chatos lá em baixo por se ter aventurado com uma prostituta. Decidido a ajudar os amigos a ganharem um novo ânimo - qual psiquiatra de elite -, António reúne a pandilha e convoca-os a participar num campeonato de futebol de sete, defendendo que uma vitória em campo seria a chave para um novo começo nas suas vidas. Decididos a ajudar o pobre António a adaptar-se

à sociedade após o enclausuramento de que foi alvo, os quatro amigos alinham na ideia. Ou seja, no fundo ninguém queria jogar mas todos o fizeram a pensar que estavam a ajudar o próximo. Vencedor de um Goya para Actor Revelação (Fernando Tejero), Días de fútbol tem alguns momentos divertidos e interessantes na sua narrativa, mas perde a sua credibilidade através de sucessivos gags que revelam uma necessidade incompreensível de fazer rir o espectador através da estupidez e do surreal (pioneses no rabo ou telemóvel à cintura durante os jogos, por exemplo). Ainda assim, um elenco equilibrado e competente e um retrato de grupo coeso e engraçado justificam uma oportunidade.

“(...) uma necessidade incompreensível de fazer rir o espectador através da estupidez e do surreal (...)”

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VISÃO DE MERCADO VS

MAIS FUTEBOL De cinema já percebemos pouco, de futebol muito menos. Por isso mesmo, a Take Cinema Magazine decidiu desafiar quem percebe da poda a arriscar os seus prognósticos e favoritos para este Mundial de 2014 no Brasil. De um lado, o blogue desportivo mais lido em Portugal; do outro, o programa televisivo dedicado ao futebol mais bem disposto, criativo e acompanhado da televisão por cabo nacional. Quais serão as equipas qualificadas em cada grupo? Quem será o grande campeão? E quem será coroado com o título de melhor jogador e melhor guarda-redes do Mundial? E, para dar um cheirinho de cinema ao artigo, qual seria a final cinematográfica de eleição para os nossos convidados? E, porque não, quais são os seus filmes favoritos relacionados com futebol? Tudo para descobrir no frente-a-frente entre a equipa pragmática do Visão de Mercado e os mais arrojados Cláudia Lopes e Tomaz Morais do Mais Futebol.


VISÃO DE MERCADO Blog: http://visaodemercado.blogspot.pt Facebook: http://goo.gl/KR0dxn

VISÃO DE MERCADO O Visão de Mercado (VM) é um projecto criado por um grupo de amigos que pretende através deste blog partilhar a nossa opinião pessoal, de modo fundamentada e imparcial, acerca da actualidade desportiva nacional e internacional. O objectivo não passa por substituir os meios de comunicação profissionais, tais como jornais ou agências noticiosas, ou simplesmente por transmitir informação, mas sim por apresentar uma visão diferente sobre os mais diferentes e variados assuntos, de modo a promover discussões e debates construtivos. A pedra base é passar por olhar para cada assunto de um ângulo que ainda não tenha sido explorado, e explorá-lo de modo sério e objectivo, dentro da subjectividade inerente a uma opinião pessoal. Um ponto de honra é que os conteúdos não se centrem demasiado no futebol, e nomeadamente, no futebol que gira à volta dos três grandes: entre a diversidade de temas que compõem o Visão de Mercado, podemos encontrar análise detalhadas sobre ténis, ciclismo, futebol jovem, ou NBA. Até ao momento o projecto tem sido um sucesso; nos últimos 4 anos o VM sido regularmente o blog mais consultado Portugal, tendo uma média de 50 mil visitas diárias. Mas tão ou mais importante é o feedback recebido: quer seja através de textos enviados por leitores (que são posteriormente publicados), quer através de simples comentários. Esta participação não só acaba por enriquecer o próprio blog, mas é acima de tudo a materialização do debate que pretendemos promover. 72


EQUIPA VISÃO DE MERCADO Dois finalistas Argentina vs Espanha

Qual seria a final cinematográfica perfeita (dois filmes de países diferentes, qualquer tema) para o Visão de Mercado? E quem sairia vencedor? O Gabinete do Dr. Caligari (Alemanha) vs A Mulher Que Viveu Duas Vezes (EUA) Os fantasmas neuróticos do surrealismo alemão contra o génio psicanalítico de Hitchcock. As sombras, monstros pincelados nas paredes, e a cadência repetitiva que leva James Stewart à loucura. A obra-prima de Wiener contra a do Mestre do Suspense. Dois filmes profundamente loucos, ardilosos e surrealistas no seu âmago, dois génios em disputa, a ilusão da morte no Cinema alemão e no americano. Talvez só na Sétima Arte a pátria do Tio Sam chegasse à final deste Mundial. Talvez este seja um prenúncio positivo para a Mannschaft de Joachim Löw. O vencedor? Admitimos não resistir à intemporalidade d’O Gabinete e do surrealismo alemão, mas o supremo tour de force do mestre Alfred Hitchcock tem de estar em toda e qualquer prateleira e ser visto e revisto por todos aqueles que amem o Cinema. Vertigo, título original do filme que levou Kim Novak ao estrelato, tem de ser o vencedor.

Vencedor Argentina: selecção com o ataque mais forte do Mundo e até a história lhes dá alguma vantagem (as equipas europeias nunca venceram o Mundial no Continente Americano) 1º e 2º de todos os grupos A – 1º Brasil - 2º Croácia B – 1º Chile - 2º Espanha C – 1º Costa do Marfim - 2º Colômbia D – 1º Uruguai - 2º Inglaterra E – 1º França - 2º Suíça F – 1º Argentina - 2º Bósnia G – 1º Alemanha - 2º Portugal H – 1º Bélgica - 2º Rússia Equipa com mais golos marcados na competição Argentina

Filme favorito relacionado com futebol Maldito United (Inglaterra) - Michael Sheen é Brian Clough, nos seus 44 dias à frente do Leeds United. Como grande actor que é (embora regularmente esquecido ou menosprezado pelo grande público), o britânico que já foi Tony Blair transporta para o ecrã todas as obsessões, arrogância e medos do mítico treinador, por muitos considerado o melhor inglês de sempre mas que, ironicamente, nunca chegou a orientar a Selecção dos três leões. Com Fotografia limpa e cuidada, realização brilhante de Tom Hooper (talvez a sua melhor obra), um argumento típico da melhor sátira inglesa e interpretações a roçar a perfeição, Maldito United é, muito provavelmente, o melhor filme já feito sobre futebol.

Melhor Jogador (Golden Ball) Leo Messi (Argentina) Melhor Marcador (Golden Boot) Neymar Melhor Jovem Jogador (Best Young Player Award) Paul Pogba (França) Melhor Guarda-Redes (Golden Glove) Iker Casillas (Espanha) Grupo com mais golos Grupo F 73


MAIS FUTEBOL Site: http://www.maisfutebol.iol.pt Facebook: https://www.facebook.com/maisfutebol

MAIS FUTEBOL Programa conjunto do jornal online maisfutebol.iol.pt e da editoria de Desporto da TVI, o Mais Futebol tem primado por marcar a diferença no âmbito dos programas desportivos nacionais, apresentando uma procura em discutir futebol (e não só) num ambiente agradável e marcado pelo desportivismo, para além de contar com uma tendência salutar de fugir às cansativas questões relacionadas com a arbitragem. Nesse sentido, foge ao esquema de programas como O Dia Seguinte e Prolongamento, não tendo um conjunto de “paineleiros” prontos a analisar os lances polémicos com as lentes do seu clube, com os elementos da equipa a procurem antes discutir questões relacionadas com o futebol jogado, com o trabalho dos atletas e dos treinadores. Na equipa actual de comentadores temos Pedro Barbosa (antigo capitão do Sporting Clube de Portugal), Pedro Ribeiro (director de programas da Rádio Comercial), Tomaz Morais (antigo seleccionador nacional de Rugby, professor universitário) e Nuno Madureira (Diretor-adjunto e cofundador do Mais Futebol), cabendo a Cláudia Lopes ficar com a apresentação e moderação do programa. Às Sextas-Feiras às 22h30 ou às 22h00, o Mais Futebol começa geralmente com os destaques de cada um dos comentadores, partindo posteriormente para os comentários aos temas relevantes da semana e (se for caso disso) da Champions League, para além de por vezes ainda contar com pequenas reportagens, rubricas (já se sente algumas saudades em relação ao Bola na Barra), entre outros. Em alguns programas contamos ainda com a presença de convidados, existindo a certeza que mais cedo ou mais tarde estes até vão conhecer alguma transferência (veja-se recentemente Marco Silva, transferido para o Sporting, mas também Paulo Fonseca que pouco tempo depois de estar no programa foi para o Futebol Clube do Porto, embora visto assim possa não ser um bom pronúncio para o primeiro). Regra geral, os convidados integram-se facilmente com a equipa residente do Mais Futebol, algo que proporciona alguns bons e

marcantes momentos do programa. Veja-se o humor de Fernando Santos, o episódio memorável de Valdo a falar sobre a sua transferência para o Sport Lisboa e Benfica, mas também o pragmatismo de Tiago Ribeiro, Presidente da SAD do Estoril Praia, para além da calma notória de Nuno Espírito Santo, ou até a personalidade expansiva de Toni, sem esquecer o comentário mordaz de Sérgio Conceição a Manuel Cajuda. Mais recentemente tivemos também a presença de Vitor Pereira, treinador nem sempre consensual e gerador dos sentimentos mais dicotómicos nos adversários, tendo dado pequenas lições de futebol e proporcionado um programa de enorme interesse. Outro dos elementos-chave do programa passa pela sua procura em interagir com os espectadores e os leitores do site Mais Futebol, algo visível com a exibição de alguns comentários feitos no Twitter, onde até o Belenenses surge regularmente representado. No fundo, o programa destaca-se exactamente pela sua capacidade de chegar ao público, de ter uma equipa afinada e oleada, pronta a discutir futebol de forma leve mas profissional, criando uma ligação forte com o espectador, mesmo quando este não concorda com tudo o que se encontra a ser dito. Pelo meio temos ainda direito a algumas "larachas", não só aos tempos de Pedro Barbosa como jogador de futebol (e mais cabelo), mas também a célebre comparação do ciclista a atravessar a meta, efectuada por Tomaz Morais em relação ao Benfica, algum tempo antes da fatídica semana “peseirista” do clube da Luz, algo que não se reflectiu nesta época, entre outros comentários. Perante uma equipa de enorme qualidade só se esperam vitórias, quer a nível de audiências, quer de prémios, com este programa a ter sido eleito pelo CNID em 2010, e pela Liga de Clubes em 2011, como o Melhor Programa de Desporto do Ano. Fica assim apresentado de forma muito breve o Mais Futebol, uma lufada de ar fresco a nível de programas desportivos nacionais, um programa a não perder nas Sextas-Feiras à noite na TVI24.

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CLÁUDIA LOPES

TOMAZ MORAIS

Dois finalistas Portugal vs Brasil

Dois finalistas Alemanha e Brasil

Vencedor Brasil

Vencedor Brasil

1º e 2º de todos os grupos A - 1º Brasil - 2º México B - 1º Espanha - 2º Holanda C - 1º Colombia - 2º Grécia D - 1º Itália - 2º Inglaterra E - 1º França - 2º Ecuador F - 1º Argentina - 2º Nigéria G - 1º Alemanha - 2º Portugal H - 1º Belgica - 2º Russia

1º e 2º de todos os grupos A - 1º Brasil - 2º Croácia B - 1º Espanha - 2º Holanda C - 1º Grécia - 2º Japão D - 1º Uruguai - 2º Itália E - 1º França - 2º Suiça F - 1º Argentina - 2º Nigéria G - 1º Alemanha - 2º Portugal H - 1º Rússia - 2º Bélgica

Equipa com mais golos marcados na competição Argentina

Equipa com mais golos marcados na competição Brasil

Melhor Jogador (Golden Ball) Cristiano Ronaldo

Melhor Jogador (Golden Ball) Cristiano Ronaldo

Melhor Marcador (Golden Boot) Cristiano Ronaldo

Melhor Marcador (Golden Boot) Cristiano Ronaldo

Melhor Jovem Jogador (Best Young Player Award) William Carvalho

Melhor Jovem Jogador (Best Young Player Award) Paul Pogba ou Romelu Lukaku

Melhor Guarda-Redes (Golden Glove) Courtois

Melhor Guarda-Redes (Golden Glove) Thibaut Courtois

Grupo com mais golos Grupo F

Grupo com mais golos Grupo B

Qual seria a final cinematográfica perfeita (dois filmes de países diferentes, qualquer tema) para o Visão de Mercado? E quem sairia vencedor? Tropa de Elite vs A Gaiola Dourada (aquilo que eu acho que vai ser a grande confusão deste mundial vs o sentido de humor refinado do português… que os brasileiros não conhecem…) e claro levávamos nós a melhor

Qual seria a final cinematográfica perfeita (dois filmes de países diferentes, qualquer tema) para o Visão de Mercado? E quem sairia vencedor? Portugal ( qualquer um do Vasco Santana) vs Brasil (novelas muitas e chatas, preferida Gabriela) - vencedor Portugal

Filme favorito relacionado com futebol Maradona by Kusturica

Filme favorito relacionado com futebol Fuga Para a Vitória 75


MUNDIAL 7.ª ARTE CARLOS REIS

O desafio era monstruoso e, por isso mesmo, nem hesitámos em aceitá-lo. Oito grupos no Mundial, oito colaboradores da Take, trinta e duas selecções e, consecutivamente, trinta e dois filmes para escolher, ver e analisar. Eleger o melhor filme de cada nação presente no Brasil 2014 revelou-se uma tarefa tão árdua para países como os Estados Unidos da América, a França ou o Japão, repletos de fitas que já constavam na nossa base de dados intelectual, como para aqueles ao nível da Costa do Marfim, Nigéria, Honduras e Costa Rica, sobre os quais antes da nossa investigação, pesquisa no YouTube ou download pirata nem sequer imaginávamos que existisse qualquer género de indústria cinematográfica. Escolhidos que estão os trinta e dois finalistas da Sétima Arte global, cabe ao leitor escolher agora qual seria o vosso Campeão do Mundo.


GRUPO A

BRASIL

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 1º 11 PROVÁVEL: Júlio César, Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz, Marcelo, Paulinho, Luiz Gustavo, Oscar, Hulk, Neymar, Fred

Principais favoritos à conquista do título, os pentacampeões e organizadores da Copa 2014 querem fazer tudo para finalmente ultrapassarem o trauma de 1950 onde, também na qualidade de anfitriões, os brasileiros perderam a final para o rival Uruguai. Desta vez, a selecção canarinha é comandada pelo “Sargentão” Luiz Felipe Scolari, que já conduziu o Brasil ao título de 2002, e tem em Neymar a principal estrela de uma companhia que, ao contrário de anteriores equipas brasileiras, parece mais física e combativa do que tecnicista e espectacular. Jogadores como Hulk, Oscar ou David Luiz têm tudo para brilhar durante a competição, bem como a certeza do apoio constante de uma das mais empolgantes claques que se pode arranjar. 78


PREVISÃO NA TELA: 1º REPRESENTANTE CINÉFILO:

PIXOTE: A LEI DO MAIS FRACO

Título nacional: Pixote: A Lei do Mais Fraco Realização: Hector Babenco Elenco: Fernando Ramos da Silva, Jorge Julião, Gilberto Moura

1981 SAMUEL ANDRADE

Olhar vazio, rosto que denota simultaneamente inocência juvenil e expressões vincadas de uma existência atribulada, compleição de evidente subnutrição mas intimidante na postura: eis Fernando Ramos da Silva, jovem carteirista dos bairros e becos de São Paulo que o mundo viria a identificar como Pixote, herói da condição social e económica dos protagonistas de Pixote: A Lei do Mais Fraco. Realizado por Hector Babenco, o responsável por um dos primeiros filmes socialmente conscientes do Cinema Novo Brasileiro – Central Do Brasil, Cidade De Deus, Carandiru, Tropa De Elite seguir-se-iam com aclamação internacional – e percursor na abordagem, nos anos 80, àquilo que Glauber Rocha definiu como “estética da fome” (aliás, Babenco parece levar aqui ao extremo a noção de que “aí reside a trágica originalidade do cinema novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida”), Pixote tem a convicção de um documentário e a impetuosidade da ficção emocional, numa junção de registos que credibiliza todos os horrores que desfilam perante os olhos dos espectadores. Colocando a câmara ao nível do olhar dos delinquentes juvenis – na maioria das vezes, encerrados em grandes planos –, Babenco permitenos a identificação com os seus intervenientes sem esboçar um único julgamento do seu comportamento, sem procurar distinguir o que o futuro lhes reserva, aceitando tudo (ou seja, do pequeno crime até à prostituição infantil) o que possa acontecer e surpreendendo-nos através da constatação batida de que esquemas imperfeitos são esquemas condenados ao fracasso. Pelas suas imagens, irredutíveis na apresentação do pior do ser humano e onde o grão da fotografia aparenta intensificar essa sujidade, Pixote é filme de árdua visualização, mas fácil de amar: até na emulação da realidade parece sobressair-se dos demais títulos semelhantes, sobretudo pelo facto de Fernando Ramos da Silva ter regressado à vida criminosa

após as rodagens, acabando por ser fatalmente baleado, em 1987, no seguimento de um tiroteio com a polícia.

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GRUPO A

CROÁCIA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 3º 11 PROVÁVEL: Subasic, Srna, Corluka, Lovren, Pranjic, Rakitic, Modric, Olic, Perisic, Kovacic, Mandzukic

Tendo em Luka Modric a sua principal figura após uma fantástica temporada no Real Madrid onde foi muitas vezes apontado como o cérebro que fazia brilhar as grandes estrelas da equipa, o principal problema da selecção croata será mesmo a inexistência de uma grande estrela que Modric possa fazer brilhar. Ainda assim, há uma mão cheia de jogadores de qualidade como Rakitic, Olic ou Mandzukic à disposição do selecionador Darijo Srna e, caso a máquina se encontre bem oleada, podemos imaginar esta equipa a conseguir uma boa prestação e, quem sabe, tornar-se uma das boas surpresas da competição. Será desta que veremos os croatas a brilhar ao nível do magnífico 3º lugar de 1998? 80


PREVISÃO NA TELA: 2º REPRESENTANTE CINÉFILO:

H-8...

Título nacional: H-8... Realização: Nikola Tanhofer Elenco: Boris Buzancic, Djurdja Ivezic, Antun Vrdoljak

1958 SAMUEL ANDRADE

Considerado como um dos melhores filmes croatas de todos os tempos, H-8... parte de um formalismo aparentemente inspirado em mecanismos neo-realistas para desenhar uma obra de cativante tensão humana. Inspirado em acontecimentos verídicos – um acidente rodoviário numa auto-estrada entre Belgrado a Zagreb, na noite de 14 de Abril de 1957, que envolveu um autocarro de passageiros e um camião de carga, causado pela ultrapassagem perigosa de um automóvel cujo paradeiro ou condutor nunca foram descobertos –, H-8... descreve esses eventos numa dinâmica sequência inicial de sete minutos que nos revela, “prematuramente”, o destino fatídico dos ocupantes daqueles dois veículos. Só depois da percepção da tragédia, é que o realizador Nikola Tanhofer nos apresenta os seus intervenientes. Um a um, vão desfilando perante a câmara – a qual nunca se revelará estática, apesar dos espaços exíguos em que habita – pequenos dramas singulares e pessoais: a menina afectada pelo conflito entre os pais que viajam com ela; o casal da classe alta que projecta os seus defeitos para aqueles que se encontram sentados ao seu lado; o jornalista em crise de fé profissional; o pai e o filho que percorrem aquela auto-estrada numa noite chuvosa que culminará em fatalidade. Nesse processo, o filme acarreta uma tensão dramática derivada não só por sabermos de antemão qual vai ser o desenlace, mas também pelo modo como nos prende às personagens à medida que as vamos conhecendo melhor. Uma cena em particular ilustra a capacidade de Tanhofer em enervar a plateia: o casal desavindo, sentado no fundo do autocarro, procura em vão tranquilizar a filha, até que um dos passageiros convida a menina a sentar-se num banco dianteiro – precisamente um dos lugares que originará uma das vítimas fatais daquela noite. Nessa decisão, é impossível não notar o talento do realizador em infundir o filme de horror, mesmo que sintamos, por momentos, algum alívio por a criança ficar

afastada das constantes quezílias dos pais. Sombrio mas vívido, o filme de Tanhofer é uma preciosa demonstração de tensão cinematográfica, causada pela mera colocação da câmara em algo ou alguém cujo significado não é logo perceptível para as personagens. Ou, claro, pelo modo como a narração nos realça que os lugares mortais daquele autocarro ainda não estão ocupados, obrigandonos a aguardar que alguém tome iniciativa…

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GRUPO A

MÉXICO

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 2º 11 PROVÁVEL: Ochoa, Layún, Márquez, Rodríguez, Moreno, Aguilar, Medina, Jiménez, Giovani dos Santos, Peralta, Hernández

Apesar de uma problemática fase de qualificação, que relegou a selecção mexicana para um playoff com a Nova Zelândia, é preciso não esquecer que muitos destes jogadores são os actuais campeões olímpicos da modalidade. Se o México conseguir reorganizar as suas peças de forma eficaz, e aproveitar o apoio do público que certamente terá no continente americano, pode tornar-se numa equipa bastante interessante de seguir. As muitas mudanças de treinador durante os últimos tempos podem, no entanto, ter abalado o conjunto, e cabe ao seu capitão Rafael Márquez e ao ponta-de-lança Javier Hernández, conduzir os seus jovens talentos rumo à direcção certa. Como sempre acontece com a selecção mexicana, sabemos que o talento existe, resta saber qual o grau de inspiração durante o torneiro. 82


PREVISÃO NA TELA: 3º REPRESENTANTE CINÉFILO:

EL TOPO

Título nacional: El Topo Realização: Alejandro Jodorowsky Elenco: Alejandro Jodorowsky, Brontis Jodorowsky, José Legarreta

1970 SAMUEL ANDRADE

Filme de culto por excelência, El Topo é um western como só a singular e caprichosa criatividade de Alejandro Jodorowsky poderia conceber: existencialista, psicadélico e chocante em doses generosas. Seguindo as desventuras de um pistoleiro barbudo e coberto de cabedal chamado El Topo (interpretado pelo próprio Jodorowsky) e do seu filho (Brontis Jodorowsky) pelo deserto, espaço repleto de imagética inexplicável e memorável, que aqui se transfigura no habitat de cruéis facínoras, de inimigos místicos e de lésbicas munidas de chicotes, El Topo parece ser a resposta – sobretudo, à época da sua estreia – mais irónica ao sucesso financeiro e cultural dos western spaghetti, munido de um protagonista capaz de se assumir tanto com a aura de líder religioso como de caricatura a Clint Eastwood. Com as suas divagações alucinogénicas e devaneios indecifráveis, El Topo teria lugar em algum movimento cinematográfico dos anos 70 – juntamente com, talvez, títulos como António Das Mortes (Glauber Rocha, 1969) ou The Last Movie (Dennis Hopper, 1971) – caso a sua mitologia privada não fosse, de modo tão deliberado, um reflexo do subconsciente do seu realizador. “Sou Deus!”, afirma a certa altura El Topo, e Jodorowsky di-lo com inequívoca convicção: encarnando uma divindade de ambos os lados da câmara, o realizador utiliza o filme como ligação directa para a sua própria mente, e a “explosão” de ideias, imagens e sons que daí resulta é uma genuína miscelânea de momentos que, entre o ridículo e o sublime, desafiam qualquer leitura comum e convidam (dir-se-ia mesmo que exigem) ao envolvimento do espectador através do exercício da interpretação activa. Quer seja encarado como obra vertiginosamente visionária ou o sádico produto de um oportunista que se apropria de toda e qualquer influência artística (de Luis Buñuel às filosofias Zen, de Sergei Eisenstein à pantomima, de Sergio Leone a Russ Meyer), é impossível negar a capacidade de atracção do filme. Mesmo não sendo nenhum 2001: Odisseia No Espaço, El Topo é,

esteticamente falando, um filme concebido para viver tanto no grande ecrã como na memória do espectador, ficando dependente da maior ou menor ligação emocional que conquiste junto da plateia – sendo certo e obrigatório ser merecedor de mais do que a singular visualização.

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GRUPO A

CAMARÕES

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 4º 11 PROVÁVEL: Itandje, Chedjou, Mbia, N’Koulou, Bedimo, Song, Makoun, Enoh, Moukandjo, Webo, Eto’o

Longe vão os tempos em que o clássico Roger Milla fazia as delícias dos adeptos dos Camarões não apenas com o seu faro para o golo como também com as suas danças celebratórias. Depois de uma desapontante participação no Mundial de África do Sul, onde não conseguiram somar qualquer ponto, e de não se ter sequer qualificado para as últimas edições da Taça das Nações Africanas, pouco se espera de uma selecção que, mesmo com talentos como Samuel Eto'o e Alex Song, parece não ter a qualidade colectiva necessária para grandes vôos. Orientados pelo experiente treinador alemão Volker Finke, os Camarões à partida têm muito pouco a perder, e isso pode vezes origina as maiores surpresas... E se Eto'o estiver disposto a uma última grande prestação em mundiais, por que não? 84


PREVISÃO NA TELA: 4º REPRESENTANTE CINÉFILO:

MUNA MOTO

Título nacional: Muna Moto Realização: Jean-Pierre Dikongue-Pipa Elenco: Philippe Abia, Arlette Din Beli, Gisèle Dikongue-Pipa

1975 SAMUEL ANDRADE

Encarado como estandarte quase desconhecido do Cinema da África subsariana, Muna Moto é um espelho dos intensos contrastes socais, económicos e culturais do continente africano, uma obra meditativa sobre as lutas internas de nações que, na época de produção do filme de Jean-Pierre Dikongue Pipa, haviam conquistado recentemente a sua histórica independência e que procuravam, nesse processo, distanciar-se de séculos de inércia e exploração às mãos dos seus anteriores colonos. É nas mais enraizadas tradições dos Camarões que o filme nos situa, nomeadamente nas pretensões de Ngando, jovem lenhador, em casar com Ndomé. Apesar de ela estar grávida do protagonista, este não possuiu o valor do dote que a família dela exige para se levar o matrimónio a bom porto, e existe ainda a ameaça do abastado Mbongo, encarado pelos pais de Ndomé como o pretendente ideal para a filha. Um dia, Ndomé é raptada e forçada a um casamento de conveniência. Desesperado, Ngando recorre a medidas extremas, convertendo-o num mero e desesperado criminoso. No seio do triângulo amoroso encerrado no argumento de Muna Moto, encontramos uma análise aos rituais e laços seculares de família e sociedade no seio de nações há muito divididas entre a resistência à mudança e o anseio de progresso. Tal contexto é apresentado sem intertítulos nem narração, apenas através da exposição de personagens e situações que a câmara (simultaneamente inquieta e íntima, na forma como regista rostos e movimentos) e a montagem (indiscreta na transmissão de um sentido de espaço inequivocamente exótico) delineiam, expondo o drama de Ngando, sedento de encontrar identidade e estabilidade – tal como os Camarões, o seu país natal. Muna Moto é, na sua génese, uma pura história de amor atormentado. Todavia, através da soma dos seus detalhes e nunca dos diálogos, somos confrontados com os dilemas do mundo de Ngando e Ndomé, dois amantes pelos quais vamos torcer, mesmo na eventualidade de um destino pouco sorridente para ambos. 85


GRUPO B

ESPANHA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 1º 11 PROVÁVEL: Casillas, Azpilicueta, Sérgio Ramos, Piqué, Jordi Alba, Sérgio Busquets, Xabi Alonso, Xavi, Iniesta, David Silva, Fábregas Actual campeã mundial e bi-campeã europeia, a selecção espanhola surge naturalmente como uma das principais candidatas ao título no Brasil. Aquela que para muitos é a melhor equipa nacional de todos os tempos, fruto de uma geração de futebolistas formados no Barcelona (que aliam uma enorme qualidade técnica a uma atitude competitiva exemplar) e complementada por elementos de alguns dos melhores clubes mundiais, talvez esteja próxima de um final de ciclo, mas a quantidade de talentos que todos os anos surgem da sua formação não permite que se possa pensar neles de outra forma senão como uma autêntica potência futebolística cuja grande estrela é o colectivo que o seleccionador Vicente Del Bosque tem vindo a gerir com o sucesso que se lhe reconhece, assente no jogo de toque curto que o planeta ficou a conhecer como tiki-taka. 86


PREVISÃO NA TELA: 1º REPRESENTANTE CINÉFILO:

TODO SOBRE MI MADRE

Título nacional: Tudo Sobre a Minha Mãe Realização: Pedro Almodóvar Elenco: Cecilia Roth, Marisa Paredes, Candela Peña

1999 JOÃO PAILO COSTA

Depois de se apresentar ao Mundo como um dos mais excêntricos e escandalosos realizadores europeus dos anos 80, com influências tão distintas como Sirk, Hitchcock, Fassbinder ou a movida madrilena pós-franquista, Pedro Almodóvar conseguiu conquistar um grau de “respeitabilidade” considerável com as suas comédias loucas como Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, mas foram alguns dos seus melodramas na segunda metade da década de 90 que o conduziram ao panteão. Tudo Sobre a Minha Mãe foi o principal responsável por esse salto, filme onde as peculiaridades principais da sua obra se aliaram a um estilo requintado e narrativas de intensidade máxima.

nos Oscares, e excelentes resultados de bilheteira, Almodóvar passou de curiosidade a nome incontornável para os cinéfilos.

Manuela (Cecilia Roth) é uma mãe solteira que, após o atropelamento fatal do seu filho adolescente, decide partir para Barcelona a fim de informar o pai do rapaz (que inclusive desconhecia ter um filho) da sua morte. Pormenor importante: o pai chama-se agora Lola, e é um travesti que se prostitui nas ruas da capital da Catalunha. Por entre uma galeria de coloridas personagens, o filme deambula entre o sofrimento profundo e o humor absurdo típico do autor espanhol. Como protagonista, Cecilia Roth tem aqui uma das interpretações maiores do cinema de toda a década de 90, uma entrega extraordinária à personagem e à sua dor, capazes de comover até as pedras da calçada. Mas no elenco secundário brilham outras actrizes de enorme talento tais como Marisa Paredes ou Penélope Cruz, esta em início de carreira e a começar a confirmar as esperanças que o cinema espanhol nela depositava. Mas é Antonia San Juan como o travesti Agrado que rouba quase todas as cenas em que participa, e a quem são confiados os maiores momentos de humor. Dedicado às mulheres de uma forma geral, são estas quem efectivamente comandam Tudo Sobre a Minha Mãe, e foram elas quem conquistaram o universo cinematográfico de 1999, ajudando a película a tornar-se num sucesso um pouco por todo o Mundo. Com prémios em Cannes, 87


GRUPO B

HOLANDA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 2º 11 PROVÁVEL: Vorm, Van Der Wiel, Vlaar, Janmaat, Willems, De Guzman, Strootman, Wesley Sneijder. Arjen Robben, Lens, Robin Van Persie

Finalista vencida do torneio de África do Sul há 4 anos atrás, derrotada precisamente pela Espanha numa final emotiva decidida a 5 minutos do final do prolongamento, a Holanda é uma dessas selecções históricas que ainda não conquistou o título máximo mas com a qual é sempre preciso contar. Jogadores como Robben, Van Persie ou Sneijder terão aqui a derradeira oportunidade das suas carreiras para corrigir essa falha, contando para isso com a experiência e a qualidade do seu seleccionador, Louis van Gaal, homem habituado a vencer, e que se diz estar a caminho de se tornar no próximo treinador do Manchester United após o Mundial. Contra si poderá estar o peso do falhanço no Europeu de 2012, onde caíram aos pés da Alemanha e Portugal. 88


PREVISÃO NA TELA: 3º REPRESENTANTE CINÉFILO:

TURKS FRUIT

Título nacional: Delícias Turcas Realização: Paul Verhoeven Elenco: Monique van de Ven, Rutger Hauer, Tonny Huurdeman

1973 JOÃO PAILO COSTA

Extremamente popular no seu país de origem e além fronteiras, Delícias Turcas conquistou plateias com os seus excessos de libertinagem sexual, tornando pelo caminho o seu protagonista, Rutger Hauer, numa estrela do cinema europeu posteriormente adoptada pela indústria de Hollywood, tal como o seu realizador, Paul Verhoeven, que mais tarde viria a assinar títulos tão populares como Robocop, Desafio Total ou Institnto Fatal. Com uma energia frenética, Delícias Turcas começa por nos apresentar Eric (Hauer), um escultor talentoso mas sexualmente insaciável, em cuja cama passam muitas mulheres de vários tipos, com as quais vai mantendo relações sexuais mais ou menos excêntricas, embora por mais do que uma vez - primeiro numa fantasia violenta, e depois através de algumas fotografias que mantém espalhadas pelo apartamento - nos seja dada a ver uma mulher que terá ocupado grande parte da vida sentimental do artista. Através de um longo flashback ficamos então a conhecer Olga (a muito sensual Monique van de Ven) e a turbulenta relação de ambos, desde que se conhecem numa boleia fortuita, passando pelo casamento e posterior divórcio. Sem tabus de qualquer espécie na forma como retrata a sexualidade ou os corpos (os nús frontais abundam, assim como referências explícitas, por vezes até visuais, a fluídos e outros excrementos corporais), Verhoeven já neste início de carreira se revelava um provocador por natureza, contrapondo a libertação sexual da época (na Holanda e não só) com os valores tradicionais burgueses num resultado que se revela não raras vezes grotesco, muitas vezes hilariante, mas conseguindo manter de forma constante e surpreendente uma ligação emocional com o seu casal protagonista, algo importante quando no acto final uma reviravolta nos destinos das personagens se reflecte igualmente no tom do filme. Eleito em votação no Festival de Cinema da Holanda como “O Melhor Filme Holandês do Século XX”, Delícias Turcas faz juz à fama e mantém intactas as suas qualidades mais de 4 décadas depois da sua produção. 89


GRUPO B

CHILE

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 3º 11 PROVÁVEL: Bravo, Jara, Mendel, González, Isla, Arturo Vidal, Diaz, Beausejour, Alexis Sánchez, Vargas, Fernández

Tal como aconteceu há 4 anos, quis o destino (ou as bolas frias e quentes, depende do que se acreditar nos sorteios das grandes competições desportivas) colocar o Chile novamente no grupo da Espanha. Na África do Sul, os chilenos apuraram-se em conjunto com os futuros campeões, caíndo depois às mãos do Brasil, ficando na retina como uma das mais agradáveis equipas da competição, então orientada por Marcelo Bielsa. Agora, sob o comando do também argentino Jorge Sampaoli, terão mais dificuldades em conquistar o apuramento para as eliminatórias, mas com jogadores da quallidade de Arturo Vidal ou Alexis Sánchez, serão sempre uma equipa a ter em conta para uma possível surpresa que, a acontecer, não deixaria de ser um relativo choque, mas longe de impossível. 90


PREVISÃO NA TELA: 4º REPRESENTANTE CINÉFILO:

NO

Título nacional: Não Realização: Pablo Larraín Elenco: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers

2012 JOÃO PAILO COSTA

Actualmente, muitas das atenções do cinema chileno parecem centrarse em Pablo Larraín, de 37 anos, cujo último título, Não, acabou por se tornar no primeiro filme do país nomeado ao Oscar. Certamente que a popularidade do seu protagonista, o mexicano Gael García Bernal, terá ajudado a chamar atenções, mas o facto de se focar num dos mais importantes capítulos da história recente do Chile (o fim da ditadura de Pinochet) e a opção estilística de o rodar com equipamento de vídeo do período em que se passa a acção (os anos 80 do século passado) despertam a curiosidade de quem assiste, quase como se estivesse na presença não de um filme de época, mas da época. Quando, em 1988, a opinião pública internacional questionava de forma veemente o regime ditatorial de Augusto Pinochet (cuja chegada ao poder, em 1973, fora tudo menos clara), este aprovou um referendo que deixaria nas mãos da população uma decisão sobre a sua continuidade à frente dos destinos do país. O que o filme nos conta é que em defesa do “Não” à continuidade de Pinochet, um grupo de partidos da oposição elegeu o publicitário René Saavedra (Bernal) como director da campanha, que assim utilizou as suas tácticas publicitárias para “vender” uma ideia política ao país. Não revela-se surpreendentemente leve na abordagem à história, preferindo centrar-se na produção da campanha propriamente dita e, ao fazê-lo, acaba por partir de um ponto altamente específico (o passado do próprio Chile) para falar de algo extremamente actual e global, a saber: a forma como hoje em dia é praticamente impossível separar a informação do entretenimento, onde uma ideia de liberdade (independentemente do grau de realismo ou ficção do filme) é passada às pessoas exactamente da mesma forma como se vende uma marca de refrigerante. Desse modo, acaba por ser uma lufada de ar fresco no cinema político, evitando discursos panfletários e aborrecidos. Créditos para Larraín que conseguiu assim chamar as atenções para o seu trabalho evitando seguir o caminho mais fácil.

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GRUPO B

AUSTRÁLIA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 4º 11 PROVÁVEL: Vorm, Van Der Wiel, Vlaar, Janmaat, Willems, De Guzman, Strootman, Wesley Sneijder. Arjen Robben, Lens, Robin Van Persie

Finalista vencida do torneio de África do Sul há 4 anos atrás, derrotada precisamente pela Espanha numa final emotiva decidida a 5 minutos do final do prolongamento, a Holanda é uma dessas selecções históricas que ainda não conquistou o título máximo mas com a qual é sempre preciso contar. Jogadores como Robben, Van Persie ou Sneijder terão aqui a derradeira oportunidade das suas carreiras para corrigir essa falha, contando para isso com a experiência e a qualidade do seu seleccionador, Louis van Gaal, homem habituado a vencer, e que se diz estar a caminho de se tornar no próximo treinador do Manchester United após o Mundial. Contra si poderá estar o peso do falhanço no Europeu de 2012, onde caíram aos pés da Alemanha e Portugal. 92


PREVISÃO NA TELA: 2º REPRESENTANTE CINÉFILO:

MAD MAX

Título nacional: Mad Max - As Motos da Morte Realização: George Miller Elenco: Mel Gibson, Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne

1979 JOÃO PAILO COSTA

conjunto com os capítulos seguintes: Mad Max 2: O Guerreiro da Estrada (1981), e Mad Max Além da Cúpula do Trovão (1985).

Não há muito a dizer sobre este título de George Miller, e posteriores capítulos do que viria a ser uma trilogia de sucesso, que o leitor ainda não saiba. O seu tom futurista desolador tem resistindo bastante bem ao passar do tempo e ainda hoje o vemos com regularidade em vários canais televisivos, não tivesse este sido o filme que lançou um então desconhecido Mel Gibson rumo ao estrelato e se tenha embrenhado na cultura popular ao ponto de neste momento se estar a preparar um regresso do “Mad” Max às salas de cinema, previsto para 2015. Numa paisagem australiana algures num futuro onde começam a escassear as reservas de combustível, gangues em motorizadas vão ameaçando a paz, provocando ondas de violência, caos e violações. Quando o polícia Max (Gibson) vê a sua mulher e filho assassinados às mãos do mesmo gangue que antes já havia eliminado o seu colega da força, este jura vingança sobre os criminosos, que irá acontecer da forma mais dura possível. Produto claro do seu tempo, Mad Max - As Motos da Morte assume um dinamismo tal que só tem paralelo nas altas velocidades a que se deslocam os gangues nas suas motorizadas. Algures entre a comédia e a violência extrema, o filme prende pela brutalidade não apenas das suas cenas mais violentas mas também de um sentimento que se estende a tudo o resto, como se o desencanto e a fúria dos seus autores sobre o Mundo (em 1979 vivíamos ainda o período da Guerra Fria) se espelhasse na tela. O resto, já se sabe, é uma lição de carisma por parte do seu protagonista que dali a nada se iria tornar numa das personalidades mais poderosas do Cinema mundial, protagonizando e realizando inúmeros sucessos antes de se auto-destruir com uma série de escândalos que fizeram as delícias das revistas cor-de-rosa. Com um orçamento bastante reduzido, o filme iria triunfar de forma clara nas bilheteiras internacionais, e tornar-se num título de referência na cinematografia da Austrália em 93


GRUPO C

COLÔMBIA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 1º 11 PROVÁVEL: David Ospina, Camilo Zuniga, Mario Yepes, Zapata, Pablo Armero, Abel Aguilar, Guarin, James Rodriguez, Juan Cuadrado, Falcao, Jackson Martinez

Finalista vencida do torneio de África do Sul há 4 anos atrás, derrotada precisamente pela Espanha numa final emotiva decidida a 5 minutos do final do prolongamento, a Holanda é uma dessas selecções históricas que ainda não conquistou o título máximo mas com a qual é sempre preciso contar. Jogadores como Robben, Van Persie ou Sneijder terão aqui a derradeira oportunidade das suas carreiras para corrigir essa falha, contando para isso com a experiência e a qualidade do seu seleccionador, Louis van Gaal, homem habituado a vencer, e que se diz estar a caminho de se tornar no próximo treinador do Manchester United após o Mundial. Contra si poderá estar o peso do falhanço no Europeu de 2012, onde caíram aos pés da Alemanha e Portugal. 94


PREVISÃO NA TELA: 3º REPRESENTANTE CINÉFILO:

LOS COLORES DE LA MONTAÑA

Título nacional: The Colors of the Mountain Realização: Carlos César Arbeláez Elenco: Hernán Mauricio Ocampo, Nolberto Sánchez, Genaro Aristizábal

2010 CARLOS REIS

Filme colombiano de 2011 realizado por Carlos Arbelaez e galardoado no conceituado festival internacional de cinema de San Sebastián, Los Colores de la Montaña é um drama bem-disposto, comovente e, de certo modo, politicamente neutro, sobre uma região remota dos Andes – La Pradera -, perdida e despedaçada nas constantes batalhas entre terroristas de guerrilha, barões de droga e tropas governamentais. Tudo visto pelos olhos de um rapaz de nove anos, obcecado por futebol, que vê na bola que recebeu no seu aniversário um escape para situações que a sua mente, apesar de perceber, tem dificuldade em processar – seja um agricultor transformado em pedaços depois de pisar uma mina ou conhecidos da família assassinados pelas tropas do governo, apenas por serem suspeitos de ajudar os rebeldes. Com influências nítidas do cinema iraniano, Los Colores de la Montaña consegue manter-se calmo no meio do caos social que retracta, abordando o desespero tranquilo de um povo de modo a torná-lo acessível e interessante a todas as faixas etárias que possam presenciar o filme. Arbelaez consegue transformar uma cena em que três crianças tentam recuperar uma bola que está num campo de minas, num momento tão divertido quanto perigoso, o que ilustra bem a forma optimista como abordou o assunto. Os desenhos das crianças na escola são a prova final da inocência latente em cada uma delas. Destaque final para o trabalho fotográfico notável de Oscar Jimenez nas verdejantes paisagens colombianas e para um grupo brilhante de jovens actores, tão naturais quanto afectuosos.

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GRUPO C

GRÉCIA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 4º 11 PROVÁVEL: Karnezis, Torosidis, Papadopoulos, Sokratis, Holebas, Katsouranis, Tziolis, Karagounis, Samaras, Salpingidis, Mitroglou

Com vinte e cinco pontos em dez jogos, a Grécia fez o suficiente para ficar em primeiro de cinco dos oito grupos de qualificação europeus. No entanto, acabaram por ficar em segundo no Grupo G (liderado pela Bósnia), tendo que disputar o play-off decisivo com a selecção romena. A sorte acabou por sorrir a Fernando Santos, que viu Konstantinos Mitroglou marcar três golos no conjunto das duas mãos e com isso levar a besta negra lusitana de 2004 ao sol e ao samba brasileiro. Com uma história muito modesta em Mundiais e um futebol pouco atractivo (cinco das oito vitórias no apuramento foram por 1-0), a Grécia é o outsider do grupo. Tal como em 2004. 96


PREVISÃO NA TELA: 2º REPRESENTANTE CINÉFILO:

ETERNITY AND A DAY

Título nacional: A Eternidade e Um Dia Realização: Theodoros Angelopoulos Elenco: Bruno Ganz, Isabelle Renauld, Fabrizio Bentivoglio

1998 CARLOS REIS

Alexander (Bruno Ganz) está prestes a ser internado num hospital, com dores demasiado insuportáveis para se conseguir manter, sozinho, em casa. Este é o dia anterior ao internamento, aquele em que decide arrumar a velha casa à beira-mar onde sempre morou, revisitando velhas memórias através das cartas de Anna, mulher com a qual casou cedo e cedo partiu deste mundo. E é nessas recordações que Alexander vai perceber que o seu tempo está a chegar ao fim. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1998, A Eternidade e um Dia é a obraprima máxima do conceituado realizador grego Theo Angelopoulos, uma que aborda tantos temas fulcrais da nossa existência quanto assuntos sociais e políticos sensíveis dos estados modernos. O tempo, a memória, a perda, o nascimento, a morte, o casamento, a prisão, o espírito aventureiro, tudo é recordado e analisado ao longo de um passeio à beiramar, nas cartas da falecida esposa do protagonista narradas através da insinuante voz de Isabelle Renault, apelos poéticos tão apaixonantes quanto nostálgicos que reconstroem uma vida, a de Alexander, e possivelmente a de infinitos cinéfilos, perdidos e destroçados nas associações que fazem à sua própria existência. O tempo, tridimensional, intemporal, esvanece-se na interpretação fenomenal de Bruno Ganz, actor com uma presença magnética, que ganha força para viver no amor sagrado e secular da mulher da sua vida. A solidão de Alexander transforma-se com a nostalgia dessa paixão e a sua perspectiva existencialista altera-se. Até quando dura o amanhã? Uma eternidade e um dia, responde Alexander, perante o espelho de uma vida, ou como todos chamam, a morte. Um filme intenso, humano e triste, mesmo que belo.

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GRUPO C

COSTA DO MARFIM

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 2º 11 PROVÁVEL: Barry, Toure, Zokora, Bamba, Eboue, Tiote, Die, Yaya Toure, Gervinho, Kalou, Drogba

Os elefantes eliminaram o Senegal no playoff final de qualificação graças a um golo tardio do experiente avançado Salomon Kalou (Lille), assegurando assim a terceira presença consecutiva numa fase final do Mundial. Eliminados há quatro anos por Portugal e Brasil na fase de grupos, os marfinenses voltam com a mesma equipa base, mais experientes dirão alguns, mais enferrujados, dirão outros. Independentemente da elevada média de idades, os ex-Chelsea Drogba e Kalou no ataque, Gervinho e Yaya Touré no miolo e os experientes Zokora, Eboue e Toure na defesa garantem e justificam altas expectativas num grupo sem nenhum tubarão mundial. Será desta que passam a fase de grupos? 98


PREVISÃO NA TELA: 4º REPRESENTANTE CINÉFILO:

AU NOM DU CHRIST

Título nacional: Em Nome de Cristo Realização: Roger Gnoan M’Bala Elenco: Albert Ayatollah, Akissi Delta, Pierre Gondo

1993 CARLOS REIS

Vou ser honesto com o leitor: foi um sacrilégio visionar este Au nom du Christ, ainda para mais numa cópia ranhosa disponível no Youtube, sem qualquer legendagem, onde quase todas as falas francófonas mais complexas ficavam para além do meu entendimento. Torna-se injusto avaliar o que quer que seja nestas circunstâncias, pelo que o melhor que posso fazer para não o induzir em erro será restringir-me ao que entendi da narrativa. Se pelo caminho ficaram várias piadas geniais e uma outra perspectiva do cinema feito na Costa do Marfim, aceitem desde já o meu pedido de desculpas. Parábola em forma de sátira que explora a proliferação do pseudocristianismo nas regiões mais remotas do planeta – obviamente com foco no continente africano -, Em Nome de Cristo (o filme já foi exibido em território nacional em festivais de cinema africano) conta-nos a história de um criador de porcos, ignorado e desprezado por toda a sua aldeia, que ao cair num rio muda radicalmente de vida quando tem uma visão que lhe anuncia que foi escolhido por Deus para salvar o seu povo. Após almejar alguns milagres duvidosos (curar mulheres irritadas é um deles, outros envolvem roubos às escondidas), rapidamente torna-se o líder da aldeia e é seguido por um exército de crentes religiosos que acreditam estar na presença de um Messias. Pouco habituado a tamanhas liberdades, rapidamente o “primo de Cristo” – assim se anuncia – charlatão vai abusar do novo poder que tem e estragar a festa. Vencedor do prémio para melhor filme em 1993 no FESPACO (o maior festival de cinema do continente africano) e nomeado para um Leopardo de Ouro no Festival Internacional de Locarno, Au nom du Christ é uma proposta cinematográfica radical para quem quiser descobrir um produto de características pouco usuais que mistura tradição, humor, modernidade e poder numa mescla de interpretações tão débeis quanto hilariantes, num conjunto de imagens tão amadoras (a realização é terrível) quanto ocasionalmente harmoniosas (algumas paisagens africanas são de cortar a respiração).

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GRUPO C

JAPÃO

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 3º 11 PROVÁVEL: Kawashima, Uchida, Yoshida, Konno, Nagatomo, Endo, Hasebe, Honda, Kagawa, Okazaki, Maeda

Não foi fácil a adaptação dos nipónicos ao estilo de jogo pretendido por Alberto Zaccheroni (duas derrotas contra o Uzbequistão e a Coreia do Norte nos dois primeiros jogos de qualificação) mas depois de integrados na estratégia calculista do italiano, ninguém mais os parou até conquistarem o bilhete para o quinto Mundial consecutivo. Depois de uma eliminação dolorosa nos penalties contra o Paraguai de Oscar Cardoso nos 16-avos-de-final do campeonato realizado na África do Sul, os japoneses regressam aos grandes palcos com esperança que Honda e Kagawa façam esquecer os já reformados Nakata e Nakamura. 100


PREVISÃO NA TELA: 1º REPRESENTANTE CINÉFILO:

SHICHININ NO SAMURAI

Título nacional: Os Sete Samurais Realização: Akira Kurosawa Elenco: Toshirô Mifune, Takashi Shimura, Keiko Tsushima

1954 CARLOS REIS

Shichinin no samurai é um épico de três horas e meia de aventura e drama, intemporal, que confirmou o cineasta Akira Kurosawa, em 1954, como um nome maior da Sétima Arte em todo o mundo. Escrito, editado e realizado por Kurosawa, a narrativa de Seven Samurai remete-nos para uma aldeia nipónica no final do século XVI, onde um grupo de lavradores contrata sete samurais para combater bandidos que recorrentemente assaltavam as plantações para roubar as colheitas de uma temporada, bem como para violar e matar muitas das mulheres da aldeia. Considerado um dos filmes mais influentes da história do cinema, uma das poucas películas asiáticas que durante décadas teve reconhecimento inequívoco além-fronteiras, Shichinin no samurai retracta através dos sete heróis uma classe nobre repleta de valores e ideais que, devido ao passar dos tempos, entra em desuso e arrisca a extinção. Hino à consolidação da amizade masculina, tema comum em qualquer cultura, mas com especial relevância na infância de Kurosawa, Seven Samurai perde o seu peculiar pragmatismo ao longo dos minutos, ganhando uma consciência colectiva em que o individualismo dá lugar à força do grupo e, alegoricamente, um novo Japão é visionado nas acções de sete homens de técnicas tradicionais que mostram que uma nação pode desenvolver-se respeitando o seu passado e, acima de tudo, aprendendo com os seus erros. Com uma pós-produção fenomenal – as imagens fluem ao longo de duzentos e quarenta minutos -, o reconhecimento internacional de Kurosawa surge numa fita em que o seu trabalho artístico, técnico e visual é acompanhado de perto por um elenco brilhante e personalizado, onde o samurai Takashi Shimura e a jovem Keiko Tsushima merecem especial destaque, não esquecendo também, obviamente, o samurai maníaco Toshiro Mifune, que previamente já havia trabalhado com Kurosawa em Rashomon. História simples, detalhes fora-de-série e uma caracterização riquíssima integrados num visual duro, realístico e poético, que consegue dizer tudo por si mesmo, fazem deste capítulo de reconhecimento internacional do realizador nipónico uma

proposta obrigatória para qualquer cinéfilo que se preze.

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GRUPO D

URUGUAI

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 2º 11 PROVÁVEL: Muslera, Maxi Pereira, Lugano, Godin, Álvaro Pereira, Rios, Pérez, Lodeiro, Suárez, Forlán, Cavani Com um quarto lugar no Mundial de 2010 e o título da Copa América em 2011, a selecção celeste era favorita à qualificação sul-americana para o Brasil 2014. Mas o caso rapidamente mudou de figura quando, em 2012, apenas conquistaram 2 pontos em 18 possíveis, deixando-os no fim da tabela com meio percurso feito. Mas, para não variar, lá conseguiram uma recuperação estóica e conquistaram o direito ao play-off intercontinental pela quarta vez consecutiva, onde bateram sem dó nem piedade a Jordânia. Bicampeões mundiais (1930 e 1950, este último realizado curiosamente no Brasil), os uruguaios estão habituados a surpreenderem nas fases finais e depois da Bola de Ouro de Diego Forlan em 2010, também Luis Suarez é apontado como um dos principais favoritos ao troféu de melhor marcador deste verão. Com um ataque venenoso - não esquecer Cavani -, um meiocampo lutador e uma baliza segura por um Muslera que não compromete, Francescoli e Recoba podem estar confiantes do seu legado. 102


PREVISÃO NA TELA: 3º REPRESENTANTE CINÉFILO:

WHISKY

Título nacional: Whisky Realização: Juan Pablo Rebella, Pablo Stoll Elenco: Andrés Pazos, Mirella Pascual, Jorge Bolani

2004 SARA GALVÃO

Whisky é provavelmente um dos mais bem-sucedidos filmes vindo do Uruguai, com um Goya e Un Certain Regard na prateleira dos prémios, e é um vislumbre promissor de uma cinematografia que não tem exposição mundial. Na vida de Jacobo Koller, fabricante industrial de meias, tudo é feito de rotina e repetição. Quando o bem-sucedido irmão Herman vem de visita do Brasil para a colocação da pedra fúnebre da mãe (tendo falhado o funeral um ano antes), Jacobo pede a Marta, uma das suas empregadas, para fingir ser sua mulher durante a estadia de Herman. Marta acede, e leva o papel a peito, apesar de se sentir estranhamente atraída pelo carisma e bom humor de Herman, tão diferente da personalidade de Jacobo, que parece partir tudo e qualquer coisa em que toca. A história complica-se quando Herman convida o “casal” para umas pequenas férias numa estância balnear, onde o orgulho de Jacobo leva a melhor sobre as ofertas de ajuda financeira de Herman, e onde o trio esbarra com um casal recém-casado. Um brilhante retrato sobre rivalidade filial, com raros diálogos, sempre desconfortáveis, Whisky (a expressão uruguaia que equivale à nossa “banana” em momentos fotográficos) é um filme sóbrio, subtil, onde apesar dos planos repetitivos e do ritmo lento, nunca se arrasta, prendendo o espectador ao ecrã desde o primeiro minuto. A verdadeira protagonista é sem dúvida Marta, interpretada por Mirella Pascual, que consegue, apenas com linguagem corporal e pequenos olhares, exprimir o desapontamento com a vida de uma solteirona enfiada num trabalho manual sem grandes expectativas de mudança. A sobriedade estende-se ao final, e somos deixados com uma ruptura drástica na vida de Jacobo, sem nunca saber o que Marta escreveu no papel para Herman, ou para onde ela foi. Com uma cinematografia atmosférica, o mínimo de planos necessário para contar a história, e actores que mostram que menos é mais, em termos de representação, Whisky é uma boa alternativa ao cinema comercial, e uma excelente introdução ao cinema da América Latina. 103


GRUPO D

COSTA RICA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 4º 11 PROVÁVEL: Navas, Acosta, Gonzalez, Umana, Gamboa, Díaz, Borges, Tejeda, Bryan Ruiz, Bolanos, Campbell

Equipa menos batida da qualificação da CONCACAF, aos costa-riquenhos valeu um registo impecável de cinco vitórias caseiras em outros tantos jogos para alcançarem o quarto mundial da sua história. Liderados dentro das quatro linhas pelo talentoso médio criativo Bryan Ruiz (PSV Eindhoven), os Ticos são orientados do banco pelo colombiano Jorge Luís Pinto e, sorteados num grupo com três ex-campeões mundiais, podem apenas sonhar com um ou outro resultado que consiga baralhar as contas lógicas da FIFA e dos seus adversários. Algo que será muito difícil para uma equipa que perde força quando não joga em casa, mas cujos jogadores sabem que não há competição melhor no planeta para saírem do anonimato que esta. 104


PREVISÃO NA TELA: 4º REPRESENTANTE CINÉFILO:

GESTACIÓN

Título nacional: Gestation Realização: Esteban Ramírez Elenco: Adriana Alvarez, Edgar Roman, Natalia Arias

2009 SARA GALVÃO

O tema da gravidez na adolescência é mais do que batido, mas num país que tem tão pouca produção cinematográfica local que se torna quase impossível encontrar um filme de lá, Gestación é das poucas provas de que se pode filmar profissionalmente na Costa Rica. O tema é também explorado do ponto de vista do que significa ficar grávida enquanto estudante de um meio pobre num país extremamente católico - isto não o mundo feliz e avançado de Juno - e como mesmo nessas condições, é possível fugir à norma e ser “uma menina normal”. Jessie e Teo, de mundos diferentes, apaixonam-se tão profundamente como só adolescentes conseguem fazer, e num momento que Jessie descreve como “bonito” à melhor amiga Alba, têm a sua primeira experiência sexual juntos. Só que, claro está, Jessie fica grávida e Teo não reage da melhor maneira - se bem que melhor do que a mãe deste, que se recusa a acreditar que o filho tenha “andado junto” com tal rapariga... Jessie tem outros problemas, porque na escola católica em que anda, só de raparigas, a madre superior concorda em deixá-la continuar vir às aulas, mas em regime “especial” - que inclui entrar pelas traseiras, ter um recreio separado das colegas e ter aulas sozinha com um professor. Aparentemente inspirado em factos reais, as colegas unem-se e conseguem atrair atenções nacionais para modificar as regras da escola, que consideram injustas para com Jessie. Talvez o melhor de Gestación seja mesmo o não querer ser mais do que é, uma história simples com personagens com as quais conseguimos simpatizar. Adriana Alvarez consegue colocar em Jessie não a simples miúda “vítima”, mas uma pequena guerreira que não quer desistir de ser quem é só porque algo inesperado veio na sua direcção. Também há a agradável surpresa de que Jessie, apesar de tudo, compreende que a sua relação com Teo não tem de ser forçada num novo patamar só porque ele é o pai da sua filha - o que num país tão católico como a Costa Rica quase parece heresia. No final de tudo, Gestación é um bom filme, um excelente postal cultural

de um país que raramente aparece no grande ecrã e uma pequena história com nada de novo, mas que não deixa por isso de ser bem contada.

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GRUPO D

INGLATERRA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 3º 11 PROVÁVEL: Joe Hart, Johnson, Cahill, Jagielka, Baines, Gerrard, Wilshere, Rooney, Welbeck, Walcott, Sturridge Depois de conquistarem o título mundial em 1966, em casa, com uma selecção de estrelas comandada por Sir Bobby Charlton no meio-campo e resguardada pelo lendário Gordon Banks entre os postes, os “Três Leões” nunca mais conseguiram brilhar numa fase final, sendo eliminados sempre em fases preliminares da prova, à excepção do Mundial de 1990, onde aguentaram-se até às meias-finais, perdendo apenas nos penalties para os Alemães – os mesmos que venceram na final de 1966. Com uma equipa constituída apenas por jogadores que brilham na liga mais competitiva e rentável do planeta, Roy Hodgson vai tentar equilibrar a experiência de homens como Gerrard, Rooney e Lampard com a irreverência de miúdos como Wilshere, Chamberlain, Welbeck e Sturridge para voltar às luzes da ribalta. Mas é bom que não demorem a aquecer, pois o grupo D não é para brincadeiras. 106


PREVISÃO NA TELA: 2º REPRESENTANTE CINÉFILO:

DON’T LOOK NOW

Título nacional: Aquele Inverno em Veneza Realização: Nicolas Roeg Elenco: Julie Christie, Donald Sutherland, Hilary Mason

1973 SARA GALVÃO

Realizado por Nicolas Roeg, Don’t Look Now (em português, Aquele Inverno em Veneza) é considerado por muitos o melhor filme britânico de todos os tempos, e daí o termos seleccionado como representante inglês. A história de John e Laura Baxter (Donald Sutherland e Julie Christie), que se mudam para Veneza após a morte trágica da filha, e que tentam seguir com a sua vida até serem interrompidos por duas estranhas senhoras, tornou-se numa espécie de marco dos filmes de terror psicológico. Convém avisar, contudo, que, para uma audiência dos dias de hoje, Don’t Look Now dificilmente passa por um filme de terror, apesar de Veneza nunca ter sido filmada de forma tão assustadora. Repleto de simbolismo, premonições e um elemento de sobrenatural que até à última não sabemos se havemos de acreditar ou não, com uma cinematografia cheia de sombras e fumos, e uma montagem experimental que recebeu na altura imensos louvores pela seu carácter de vanguarda, Don’t Look Now continua a ser um filme de relevo, mas a idade pode não ter sido tão benigna para ele como o foi para o contemporâneo O Exorcista. A história sofre de um exagero de red herrings que torna a revelação final muito pouco satisfatória - e dificilmente lhe poderíamos chamar um twist - e os símbolos que povoam todo o filme não conseguem ter o mesmo efeito psicológico que talvez conseguissem nos anos 70, e a insistência e repetição - o tema da água, e da fotografia destruída - conseguem tornar-se mesmo francamente aborrecidos e ridículos. Mesmo assim, continua a ser um filme que prende a atenção do início ao fim, sobretudo com a personagem de Laura, que rapidamente muda de mãe em luto para esposa feliz após saber que o fantasma da filha os segue em Veneza (!!), e que não duvida por um segundo da veracidade das declarações da médium que encontra, coisa que tanto John Baxter como a audiência têm uma certa dificuldade em acreditar. Claro que para John as consequências disto serão terríveis - nota para todos, nunca sigam uma menina de capucho vermelho pelos canais de Veneza à noite,

isto não é A Lista de Schindler - mas para a audiência, preferíamos que nos fossem explicadas todas as linhas de trama que foram usadas para efeito e deixadas penduradas sem resolução...

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GRUPO D

ITÁLIA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 1º 11 PROVÁVEL: Buffon, Abate, Barzagli, Chiellini, De Sciglio, Pirlo, De Rossi, Marchisio, Insigne, Giuseppe Rossi, Balotelli A La Nazionale terminou a fase de qualificação sem qualquer derrota, feito notável num grupo com selecções tradicionalmente complicadas como a Dinamarca, Republica Checa ou Bulgária. E, ao que parece, o seleccionador Cesare Prandelli quer deixar o histórico Catenaccio no passado: “é óbvio que hoje em dia não podemos obter bons resultados sem jogar um futebol atractivo”, defendeu o técnico quando assinou pelo cargo. Os seus jogadores provaram isso mesmo no Europeu de 2012 – perderam na final contra os espanhóis – e um tridente ofensivo constituído por Rossi, El Shaarawy e Balotelli promete um estilo de jogo muito mais ofensivo no Mundial do Brasil do que aquele a que estamos acostumados dos italianos. Mas em caso de alguma emergência defensiva, certamente que os trintões Buffon e Pirlo serão suficientes para tranquilizar o jogo e afastar a pressão. 108


PREVISÃO NA TELA: 1º REPRESENTANTE CINÉFILO:

NUOVO CINEMA PARADISO

Título nacional: Cinema Paraíso Realização: Giuseppe Tornatore Elenco: Philippe Noiret, Enzo Cannavale, Antonella Attili

1988 SARA GALVÃO

O verdadeiro teste para separar os verdadeiros cinéfilos dos ocasionais amantes do cinema será talvez colocá-los na mesma sala a ver Nuovo Cinema Paradiso - aqueles que não conseguirem manter as lágrimas no final partilham com Toto o amor irracional pela película (factual ou digital). Sabemos ser injusto colocar este hino ao amor da Sétima Arte numa lista numerada com quaisquer outros filmes, mas de todos os exemplos de cinema italiano que poderíamos escolher, esta é a história que conseguiu romper fronteiras - apesar de nem todos termos as mesmas experiências que Salvatore Di Vita, a história dele consegue cravar-se no nosso coração. Toto que aprende a arte do projeccionista com Alfredo, Toto que cresce num jovem para se apaixonar por uma mulher do outro lado da sua lente cinematográfica, Toto que deixa a sua pequena vila para trás para se dedicar de corpo e alma à arte que o incendeia por dentro. Há tantos momentos inesquecíveis no filme que se torna difícil seleccionar um em detrimento dos outros. A belíssima música de Ennio Morricone, que fica na cabeça muito depois dos créditos finais desaparecerem, torna este filme sobre infância, cinema e desejo, num fantasma que nos faz a todos nostálgicos por uma época que a maioria de nós não chegou a conhecer. Nuovo Cinema Paradiso é daqueles filmes que, por muitas vezes que o vejamos, o seu poder não é de maneira nenhuma diminuído. Não há maneira de conseguirmos conter as emoções quando vemos a cena final, em que o nosso voyeurismo é finalmente satisfeito com a montagem “pornográfica” de Alfredo de todos os momentos cortados aos filmes pelo padre da vila. Alfredo, o único pai que Toto conheceu (já que o seu verdadeiro pai morreu na guerra), torna-se no seu instrutor pessoal, quer no cinema, quer na vida. Ele é o grande responsável pelo sucesso de Salvatore como realizador (porque o forçou a deixar a pequena vila sem olhar para trás); ele também é o responsável por fazer Salvatore escolher o amor pelo cinema em detrimento do amor por Elena (algo apenas

tornado explícito na versão longa do filme); e, contudo, compreendemos que tudo o que Alfredo fez foi pelo bem de Salvatore. Com uma cinematografia perfeita como só o cinema italiano nos sabe dar, Nuovo Cinema Paradiso é feito da matéria dos sonhos e do que do bom cinema será para sempre feito.

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GRUPO E

SUIÇA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 2º 11 PROVÁVEL: Benaglio, Lichtsteiner, von Bergen, Djourou, Rodríguez, Inler, Behrami, Xhaka, Shaqiri, Stocker, Seferovic

Adaptado do romance homónimo de Pascal Lainé, Uma Rapariga Frágil é um dos filmes que abriu as portas a toda uma série de títulos que se convencionou chamar de chick flick, que vão desde as adaptações dos livros do Nicholas Sparks às comédias românticas com Hugh Grant. Uma Rapariga Frágil é o romance improvável entre a tímida e virginal Isabelle Huppert, de férias com a melhor amiga na Normandia, com o bonitão e intelectual Yves Beneyton. É claro que as diferenças sociais e culturais entre ambos se vão intrometer naquela relação, mas no final é inevitável que o amor tudo vence. Uma Rapariga Frágil não só é um dos filmes suiços mais celebrados de sempre, como é aquele que tem o mais vasto palmarés, incluindo um prémio BAFTA para a então actriz revelação Isabelle Huppert. 110


PREVISÃO NA TELA: 2º REPRESENTANTE CINÉFILO:

LA DENTELLIÈRE

Título nacional: Uma Rapariga Frágil Realização: Claude Goretta Elenco: Isabelle Huppert, Yves Beneyton, Florence Giorgetti

1977 PEDRO SOARES

Adaptado do romance homónimo de Pascal Lainé (que venceu inclusive o mais importante prémio literário francês, em 1974, o Prix Goncourt), Uma Rapariga Frágil é um dos filmes que abriu as portas a toda uma série de títulos que se convencionou chamar de chick flick, que vão desde as adaptações dos livros do Nicholas Sparks às comédias românticas com Hugh Grant –um flagelo que assola as tardes de domingo da TVI quase todas as semanas e os canais de televisão generalistas no dia dos Namorados. Uma Rapariga Frágil é o romance improvável entre a tímida e virginal Isabelle Huppert (que se dava aqui a conhecer ao público internacional, depois de uma bem sucedida carreira nos palcos e de um arranque promissor em França, especialmente após o controverso As Bailarinas, de Bertrand Blier), de férias com a melhor amiga na Normandia, com o bonitão e intelectual Yves Beneyton. É claro que as diferenças sociais e culturais entre ambos se vão intrometer naquela relação, mas no final é inevitável que o amor tudo vence, na enésima variação da história mais antiga de todas, a do boy meets girl. Uma Rapariga Frágil não só é um dos filmes suiços mais celebrados de sempre, como é aquele que tem o mais vasto palmarés, incluindo um prémio BAFTA para a revelação Isabelle Huppert.

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GRUPO E

EQUADOR

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 3º 11 PROVÁVEL: Domínguez, Paredes, Guagua, Erazo, Ayoví, Castillo, Antonio Valencia, Enner Valencia, Noboa, Montero, Caicedo

Qualificados à frente dos actuais campeões Sul Americanos, os jogadores equatorianos marcarão presença no terceiro Campeonato do Mundo da sua História, depois de duas participações consecutivas em 2002 e 2006. Longe de ser uma das potências futebolísticas mundiais, o Equador não será propriamente um valor seguro nas casas de apostas, podendo ainda assim beneficiar de disputar a prova no seu continente, enfrentando um grupo sem um claro favorito à partida (isto porque a França já nos habituou ao melhor e ao pior). Para tal, precisa de tirar o melhor proveito de jogadores algo irregulares como Antonio Valencia ou Felipe Caicedo, e formar uma equipa sólida que esconda as lacunas técnicas de alguns atletas, nomeadamente no sector defensivo. 112


PREVISÃO NA TELA: 3º REPRESENTANTE CINÉFILO:

CRÓNICAS

Título nacional: Crónicas Realização: Sebastián Cordero Elenco: John Leguizamo, Alfred Molina, Leonor Watling

2004 PEDRO SOARES

A primeira coisa que chama a atenção em Crónicas é a lista de produtores do filme: Guillermo Del Toro e Alfonso Cuáron, os dois realizadores que têm posto o México nas bocas do mundo cinematográfico, graças a títulos como O Labirinto do Fauno ou Hellboy e Os Filhos do Homem ou Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. A ideia foi procurar projectar, pela primeira vez, o cinema equatoriano internacional e, de certa forma, o plano resultou. Apesar de não ter sido seleccionado para os candidatos finais, Crónicas foi submetido pelo Equador às nomeações do Oscar para melhor filme estrangeiro em 2004 e integrou a programação do festival de Cannes nesse mesmo ano. Quanto ao filme em si, escrito e realizado por Sebastián Cordero (que já tem algum crédito acumulado, tendo visto o seu nome associado inclusive ao filme que deveria ter retratado as horas seguintes ao assassinato de Lincoln, com Harrison Ford como protagonista), é um thriller policial sobre um jornalista (o conhecido John Leguizamo, de filmes como Moulin Rouge ou Land of the Dead) que tenta descobrir quem é o terrível Monstro de Babahoyo, um serial killer violador de crianças numa pequena terreola perdida no Equador. No entanto, se estão à espera de um O Silêncio Dos Inocentes podem tirar o cavalinho da chuva. Crónicas tem pouco a ver com um super-vilão tipo Hannibal Lector, aproximando-se mais da dimensão humana de um A Raíz do Medo. Além de tudo isso, o filme tem ainda o final mais perturbador de, arriscamos nós, todo o cinema sul-americano desta década, que ainda hoje continua a provocar celeuma nas redes sociais entre espectadores de todo o mundo.

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GRUPO E

FRANÇA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 1º 11 PROVÁVEL: Lloris, Debuchy, Koscielny, Varane, Digne, Matuidi, Pogba, Cabaye, Valbuena, Ribéry, Benzema

O que esperar desta versão da selecção francesa comandada por Didier Deschamps, actual seleccionador e antigo capitão que em 1998 ergueu o único título mundial da nação? O talento à disposição é imenso, tanto que Deschamps nem sequer chamou o talentoso Nasri à competição, aparentemente por motivos disciplinares. Depois da desastrosa participação em 2010 onde se quedaram pela última posição do seu grupo com apenas 1 ponto conquistado, jogadores como Benzema, Ribéry ou Pogba quererão recuperar o prestígio com uma participação meritória, e para isso será fundamental entrar a vencer no primeiro jogo frente às Honduras. A organização e disciplina serão tudo, pois poucas equipas se poderão gabar de reunir um conjunto de jogadores tão bom quanto este. 114


PREVISÃO NA TELA: 1º REPRESENTANTE CINÉFILO:

LÉON

Título nacional: Léon, o Profissional Realização: Luc Besson Elenco: Jean Reno, Gary Oldman, Natalie Portman

1994 PEDRO SOARES

Antes de dedicar a maioria do seu tempo a produzir filmes da cartucha que não interessam nem ao Menino Jesus, o francês Luc Besson assinou um par de filmes que lhe valeram o reconhecimento suficiente para se tornar num dos maiores oligarcas de Hollywood. A cereja no topo do bolo dessa sua filmografia foi Léon, O Profissional. Ainda fascinado com o seu Nikita, Besson criou um rip-off que, em vez de Anne Parillaud, tem Jean Reno. Reno é Léon, um italiano em Nova Iorque que mais parece um argelino daqueles que vai para a América para planear a jihad. Mas León é um assassino profissional. E é o melhor na sua área. Para além disso e do muito estilo (que estes filmes necessitam sempre em doses industriais para se tornarem cool), Léon tem ainda alguns tiques hedonistas que o transportam para um nível superior - o da galvanização do espectador: é viciado em leite, usa uns óculos-escuros que lembram John Lennon e tem uma fixação especial por uma planta. Mas o aparente hit movie dá uma volta quando entra em cena uma pequena prodígio de 12 anos - Mathilde, uma Natalie Portman que fazia a sua estreia na sétima arte. Com a morte dos pais, a pequena Mathilde é adoptada pelo mortífero Léon e ambos vão desenvolver uma estranha relação de cumplicidade. Mas mais do que a relação familiar espécie pai/filha, o que se vai assistir é uma relação de amor entre amantes, com Portman a alternar a sua pose de menina frágil com a de amante promíscua, com tanto de erótico como de devassa. Hit movie misturado de romance; Nikita meets Lolita. Mas o filme vai ainda mais longe, alternando os silêncios e a relação dos protagonistas com a sua costela de filme de acção, onde Luc Besson também é realmente bom: action flick com estilo, câmaras lentas bem usadas e um Jean Reno em grande forma, despachando pelotões de bandidos armados com apenas um cotonete. Léon, O Profissional é tão bom que até tem Björk na banda-sonora (é verdade que também termina com uma canção do Sting, mas eu quero esquecer isso). Mas atenção, que deve sempre procurar a versão director's cut, que conta com mais 25 minutos do que a versão americana. E estes 25 minutos são, exclusivamente, cenas que servem

para consolidar a relação entre Reno e Portman. Ou seja, os americanos levaram com uma versão em que privilegiava sobretudo a actuação matadora de Reno. Típico...

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GRUPO E

HONDURAS

PREVIS��O FUTEBOLÍSTICA: 4º 11 PROVÁVEL: Valladares, Beckeles, Bernárdez, Figueroa, Izaguirre, Palacios, Garrido, García, Espinoza, Costly, Bengston

Participando no seu segundo campeonato consecutivo, as Honduras nunca lograram ultrapassar a primeira ronda em fases finais, ou sequer vencer um único jogo algo que, sejamos francos, não se afigura nada fácil de acontecer no Brasil. Jogadores com experiência em grandes ligas não abundam nas suas escolhas, embora Wilson Palacios ou Maynor Figueroa levem já bastantes anos a jogar em Inglaterra, o que parece pouco para o nível de competição que irão encontrar. Honrar as cores do seu país e quiçá conseguir surpreender num jogo e almejar a tão esperada primeira vitória já poderá ser considerada uma grande participação na prova. Ainda assim, convém lembrar que se qualificaram para o Brasil à frente da selecção mexicana, e que por vezes as aparências podem iludir... 116


PREVISÃO NA TELA: 4º REPRESENTANTE CINÉFILO:

NO HAY TIERRA SIN DUEÑO

Título nacional: No hay tierra sin dueño Realização: Sami Kafati Elenco: José Luis López, Saul Toro, Daniel Vasquez

2003 PEDRO SOARES

Tal como o futebol, também o cinema hondurenho não tem propriamente grande expressão internacional. Mas, se quisermos manter as comparações, podemos dizer que o realizador Samy Kafaty está para o cinema das Honduras assim como David Suazo (esse mesmo, o que passou pelo Benfica de Quique Flores, emprestado pelo Inter de Milão) está para o futebol do país. No hay tierra sin dueño foi a primeira produção cinematográfica das Honduras, um país que não só não exporta, como não produz muitos filmes. Este começou a ser rodado no final dos anos 80, por Samy Kafaty – que estudou em Roma, trabalhou com gente como Raul Ruiz e assinou o primeiro título do cinema das Honduras, a curta de 1962, Mi Amigo Ángel -, mas que faleceu antes de o conseguir terminar. A sua família pôs então mãos à obra e conseguiu levar o filme a bom porto, se bem que apenas em 2003, ano em que estreou no festival de Cannes, depois de muitos investidores. O filme é então uma história com um forte compromisso social, sobre um impiedoso latifundiário que governa as suas terras com sangue e lágrimas. Neste drama social sobre a luta pela liberdade e por melhores condições de vida dos agricultores hondurenhos, Kafaty critica ainda a corrupção, a igreja e a influência escondida norte-americana. Um filme-denúncia e um drama social ao mesmo tempo, que reflecte as Honduras ontem, hoje e amanhã, denotando uma característica do cinema de Kafaty, sempre muito comprometido com o seu país e com a sua gente.

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GRUPO F

ARGENTINA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 1º 11 PROVÁVEL: Andújar, Pablo Zabaleta, Demichelis, Garay, Rojo, Mascherano, Gago, Di Maria, Aguero, Messi, Higuaín

Para muitos, a selecção da Argentina surge como uma das favoritas da competição. Jogando na América do Sul, podem ter neste Campeonato do Mundo a oportunidade única de festejar em território dos seus grandes rivais. A grande dúvida, claro, prende-se com o momento de forma de Messi, o pequeno astro que vem de uma época abaixo das expectativas, mas que para muitos pode ser sinal de poupança física de forma a apresentar-se em pleno no Brasil e se colocar ao nível do grande Maradona. Se o seleccionador Alejandro Sabella conseguir aliar a solidez defensiva à qualidade dos executantes ofensivos - para além de Messi, ainda há Di Maria, Aguero ou Higuaín - podemos esperar grandes vôos por parte de um eterno favorito que nos últimos anos tem deixado muito a desejar. 118


PREVISÃO NA TELA: 2º REPRESENTANTE CINÉFILO:

EL SECRETO DE SUS OJOS

Título nacional: O Segredo dos Seus Olhos Realização: Juan José Campanella Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago

2009 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Nos últimos anos o cinema argentino tem dado algumas cartas, sobretudo no campo do cinema independente, onde nomes como Lucrecia Martel, Pablo Trapero ou Lisandro Alonso surgiram para provar que o cinema feito na Argentina é do mais estimulante que se faz actualmente. Mas o título mais popular a sair da filmografia argentina nos últimos anos não tem origem neste universo, antes de um cinema mais comercial. Realizado por Juan José Campanella, que antes do sucesso mundial que este filme lhe deu já tinha assinado uma interessante longa-metragem no início do século (O Filho da Noiva, nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2002), O Segredo dos Seus Olhos é uma bela história de amor centrada na personagem de um ex-funcionário de justiça que aproveita a entrada na reforma para escrever um livro autobiográfico. Ao mesmo tempo que tenta uma nova carreira, regressa ao passado para recordar um caso que o juntou ao grande amor da sua vida. Mas mais do que uma história de amor, O Segredo dos Seus Olhos é também um excelente filme sobre a memória, não só quando aborda o passado das personagens, que é recuperado durante o processo de escrita do livro por parte de Benjamin Esposito (magnífica interpretação de Ricardo Darín), mas também da própria memória histórica da Argentina. O terror da ditadura argentina surge em pano de fundo quando as autoridades libertam o autor do crime investigado por Benjamin. Neste aspecto, quase que podemos aproximar o filme de Juan José Campanella ao trabalho do chileno Pablo Larraín, que nos seus filmes utiliza a ficção para retratar os anos de chumbo da ditadura de Augusto Pinochet no Chile. Além desta abordagem histórica que é feita pelo cineasta, não podemos deixar de destacar o papel do futebol em O Segredo dos Seus Olhos. É através do desporto-rei que os investigadores chegam ao principal suspeito (a forma como decifram a linguagem das cartas do suspeito fará as delícias dos adeptos da redondinha) e é num estádio que tem lugar

uma das cenas capitais do filme, prodigiosamente filmada num fantástico plano sequência que parte de fora da arena e termina na detenção do suspeito, já no relvado. O Segredo dos Seus Olhos não só é um belo filme, como uma boa porta de entrada para descobrir o cinema argentino.

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GRUPO F BÓSNIA E HERZEGOVINA PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 2º 11 PROVÁVEL: Begovic, Mujdza, Spahic, Bikacic, Kolasinac, Besic, Salihovic, Lulic, Pjanic, Hajrovic, Dzeko

Qualificada à frente da Grécia na zona europeia, a Bósnia tem vindo a desenvolver-se futebolísticamente nos últimos anos, e se recentemente caiu aos pés de Portugal nos playoffs de apuramento, desta vez a nação marca finalmente presença numa grande competição internacional. Também por isso apresentam-se como uma incógnita: será que irão pagar pela sua inexperiência a este nível, ou será que jogadores como Pjanic ou Dzeko irão aproveitar a oportunidade para brilhar a grande altura no mais apetecível dos palcos? Para estreia, a sorte parece ter ditado aos bósnios um grupo acessível que estes quererão certamente aproveitar para escrever o seu nome pela positiva na História dos Campeonatos do Mundo. Estaremos atentos à sua evolução ao longo da competição. 120


PREVISÃO NA TELA: 3º REPRESENTANTE CINÉFILO:

GRBAVICA

Título nacional: Filha da Guerra Realização: Jasmila Zbanic Elenco: Mirjana Karanovic, Luna Zimic Mijovic, Leon Lucev

2006 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Sendo um país relativamente recente, nascido das ruínas da exJugoslávia, a Bósnia-Herzegovina ainda não tem aquilo que se pode considerar uma grande filmografia nacional. Mesmo assim já tem no palmarés um galardão que colocou a Bósnia no palco do cinema mundial: Urso de Ouro em Berlim na edição de 2006 do festival, com Filha da Guerra.

precisamente o contrário. E é um fantástico representante do ainda jovem cinema feito em território bósnio, que provou que tem boas cartas para mostrar no panorama internacional.

Realizado por Jasmila Zbanic, Filha da Guerra é também um filme sobre ruínas. Não as ruínas dos edifícios destruídos nas principais cidades da ex-Jugoslávia durante o conflito que dilacerou a região dos Balcãs no início da década de 1990, que também aqui podem ser vistas, mas as ruínas e cicatrizes que ficaram na população, neste caso de Grbavica, o bairro de Sarajevo palco de sangrentos combates que dá o título original ao filme. Marcas bem patentes não só na história central, de uma mulher que cuida de uma filha a quem não conta grandes detalhes sobre a identidade do seu pai, mas também nos diálogos das personagens. Uma década depois estas cicatrizes ainda estão presentes, como se nota quando uma das personagens secundárias afirma, de forma irónica, que durante a guerra as pessoas gostavam mais umas das outras do que depois de o conflito ter acabado. E é isso que a cineasta pretende mostrar. Sem nunca cair num lado melodramático excessivo, Jasmila Zbanic retrata a vida na Bósnia do pósguerra, de forma simples e assente num belíssimo realismo. O conflito não está presente directamente, mas os fantasmas da guerra vagueiam por Filha da Guerra (uma vez mais a falta de cuidado na tradução dos títulos originais para português falha redondamente, ao tornar o título português num gigantesco spoiler…). Por muito que se pensasse que na primeira década do século XXI as feridas do conflito já estavam sanadas, Filha da Guerra veio provar 121


GRUPO F

IRÃO

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 4º 11 PROVÁVEL: Davari, Beitashour, Hosseini, Sadeqi, Mahini, Nekounam, Haghighi, Dejagah, Shojaei, Jahanbakhsh, Goochannejhad

Depois de atingir os oitavos-de-final aos comandos da selecão portuguesa em 2010, e após uma despedida inglória, Carlos Queiroz comandou a selecção do Irão rumo ao Brasil, que assim regressa a campeonatos do Mundo após falhar o apuramento para a África do Sul. É sabido que muito dificilmente os iranianos terão grandes hipóteses de brilhar, mas o técnico português já fez saber que irá preparar os seus atletas para uma possível surpresa na prova. Sendo esta apenas a quarta presença em fases finais, sem que alguma vez tivessem conseguido ultrapassar a primeira ronda, o máximo a que o Irão poderá aspirar é a uma honrosa participação, especialmente tendo em conta a limitada capacidade individual dos jogadores à disposição. 122


PREVISÃO NA TELA: 1º REPRESENTANTE CINÉFILO:

NEMA-YE NAZDIK

Título nacional: Close-Up Realização: Abbas Kiarostami Elenco: Mohsen Makhmalbaf, Hossain Sabzian, Abolfazl Ahankhah

1990 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Um dia o grande sábio Jean-Luc Godard disse que o Cinema nasceu com D. W. Griffith e acabou com Abbas Kiarostami. Polémico como sempre, foi esta a homenagem feita pelo génio francês à obra de um dos mais influentes, se não mesmo o mais influente dos cineastas originários do Irão, país onde a profissão de realizador não é bem vista pelas autoridades. Recorde-se o caso de Jafar Panahi, proibido de fazer filmes durante largos anos por alegadamente estar a preparar um filme sobre as manifestações que surgiram no país após a reeleição do anterior presidente Mahmoud Ahmadinejad. Mas no campo da Sétima Arte o nome de Kiarostami é sem sombra de dúvida o expoente máximo do cinema iraniano e Close-Up um dos pontos altos da sua carreira. Realizado a partir de um episódio real, protagonizado por um homem que enganou uma família ao fazer-se passar por um realizador bastante popular no Irão, Mohsen Makhmalbaf, Close-Up é um daqueles filmes maiores do que a vida. O filme de Kiarostami é um documentário ficcionado, com imagens do julgamento onde Hossain Sabzian teve de responder por acusações de fraude (além de ter convencido a família de que iria entrar no seu próximo filme, o burlão chegou a ficar com algum dinheiro alegadamente para financiar a produção) e a recreação de alguns dos eventos sobre o caso, interpretados pelas próprias pessoas que os viveram. Mas muito mais do que um simples processo judicial, filmado neste tom hibrido onde documentário e ficção andam de mãos dadas sem que haja conflito entre estes dois géneros tão distintos, Close-Up é um dos melhores filmes de sempre sobre o Cinema, pois é o Cinema o motor do filme: se não fosse a paixão de Sabzian pela Sétima Arte e o seu sonho de querer ser realizador (o facto de ser pobre impediu-o de seguir esse sonho) este não tinha enganado a família e se a própria família Ahankhah não gostasse de Cinema, não teria caído na armadilha de Sabzian. Com esta pequena obra-prima, Kiarostami consegue não só contar uma daquelas histórias onde a realidade é mais surpreendente do que a ficção,

mas ao mesmo tempo ser o autor de um dos raríssimos casos onde documentário e a ficção funcionam na perfeição em conjunto. Close-Up é assim um dos mais belos filmes da história do Cinema e uma das melhores reflexões em torno do próprio Cinema, curiosamente oriundo de um país onde esta arte é altamente controlada e censurada pelas autoridades.

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GRUPO F

NIGÉRIA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 3º 11 PROVÁVEL: Enyeama, Ambrose, Oboabona, Egwuekwe, Elderson, Onazi, Miker, Oduamadi, Musa, Moses, Emenike

Presença regular nas fases finais nos últimos 20 anos (falhando apenas o Alemanha 2006), a Nigéria teve nos anos 90 o seu período mais forte em termos de presenças em mundiais, tendo conseguido a passagem às eliminatórias em 1994 e 1998, e a vitória nos Jogos Olímpicos de 1996, numa altura em que brilhavam jogadores como Amunike, Yekini, ou Finidi. Sem uma grande estrela para comandar a equipa em 2014, a experiência em clubes importantes de jogadores como Mikel ou Moses pode resultar num regresso aos bons momentos de futebol alegre e positivo que tanto caracterizou a Nigéria no passado. Ainda assim, será muito difícil aos comandados de Stephen Keshi ultrapassar o seu grupo, mas com o espírito de equipa certo, poderão pelo menos ter uma palavra a dizer. 124


PREVISÃO NA TELA: 4º REPRESENTANTE CINÉFILO:

NOLLYWOOD PEDRO MIGUEL FERNANDES

Apesar de o Cinema dos EUA ser o mais popular do mundo, tal não significa que Hollywood seja o principal produtor de filmes a nível mundial. A indústria cinematográfica da Nigéria é um autêntico fenómeno e mesmo sendo praticamente desconhecida dos espectadores ocidentais já conquistou um nome próprio: Nollywood. Segundo dados da UNESCO relativos a 2006, os últimos disponíveis, nesse ano foram produzidas 872 longas metragens em Nollywood, um número bastante acima das 485 produções norte-americanas, mas ainda assim aquém das 1091 longas filmadas na Índia nesse ano. Vários especialistas acreditam contudo que esse valor poderá ascender aos cerca de 2500 filmes, caso fossem contabilizadas as produções de baixo orçamento. E são precisamente estas as produções, filmadas em vídeo, que deram fama a Nollywood. Com orçamentos na ordem dos 25 mil euros, estas produções chegam ao mercado em Video CDs, mais baratos do que um DVD normal. O baixo custo das produções faz com que estes filmes sejam também vendidos a preços reduzidos: cerca de 2 dólares cada Video CD, sendo que cada filme vende em média cerca de 50 mil cópias. Este curioso método de distribuição faz com que o visionamento de filmes na Nigéria seja diferente do tradicional e a esmagadora maioria das projecções não tem lugar em salas de cinema comerciais, antes em sessões informais em espaços privados. O grande boom surge a partir da década de 1990, quando as tecnologias digitais começam a ficar mais acessíveis. A partir daqui a indústria local explode e as produções, focadas em temas familiares ou religiosos, ganham popularidade, sendo actualmente mais fácil ver na Nigéria uma produção local do que um blockbuster dos EUA. Mais recentemente Nollywood começou a apostar na língua inglesa para internacionalizar as suas produções, provando que veio para ficar e deixar a sua marca.

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GRUPO G

ALEMANHA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 1º 11 PROVÁVEL: Neuer, Lahm, Hummels, Mertesacker, Boateng, Khedira, Kroos, Schweinsteiger, Reus, Özil, Müller

Absolutamente imparáveis na fase de qualificação – nove vitórias e um empate a quatro bolas -, os germânicos terminaram o apuramento com uma média de 3,6 golos marcados por jogo, provando merecer o estatuto de favoritos ao troféu, a par da selecção da casa. Com três títulos e quatro finais perdidas, a Alemanha é a selecção com mais jogos (99) e golos marcados (222) em fases finais do Campeonato do Mundo e acredita que este ano tem tudo para conseguir conquistar o troféu que Lothar Matthaus levantou pela última vez em 1990. Uma equipa com Neuer, Ozil, Muller, Lahm, Reus, Kroos e Gotze nas fileiras, entre tantos outros, não poderia almejar outra coisa. Ainda para mais quando foi o homem do leme, Joachim Low, que os lançou a quase todos na selecção e conhece-os de ginjeira. 126


PREVISÃO NA TELA: 1º REPRESENTANTE CINÉFILO:

METROPOLIS

Título nacional: Metropolis Realização: Fritz Lang Elenco: Brigitte Helm, Alfred Abel, Gustav Fröhlich

1927 TIAGO SILVA

Encarar Metropolis como sendo apenas o apogeu do cinema mudo é limitá-lo temporalmente e acorrentá-lo a um período artístico específico, correndo assim o risco de o reduzir a mera curiosidade datada ou obscura. Na verdade, estamos precisamente perante o oposto: é uma das maiores obras-primas do cinema enquanto força transfiguradora da luz; um triunfo desmesurado da plasticidade do espaço sem acreditar na existência de qualquer tipo de restrições, pelo que talvez seja correcto falar de um filme com fé — não pela leitura bíblica que pode ser feita da maior parte do enredo mas pela sua capacidade inédita de criar um universo ficcional e decidir elevá-lo a uma escala surreal e quase provocadora. Lang adoptou uma atitude estética que torna impossível inserir a obra numa única corrente, como havia sido feito constantemente com alguns dos seus trabalhos anteriores: é expressionista, futurista, simbolista. Tudo se confunde numa vertigem de proporções épicas e filmam-se as máquinas como feras da própria modernidade; pesadelos mecânicos da classe operária que sustenta impossivelmente todo o luxo sem escrúpulos daqueles que vivem por cima de si na cidade utópica. A visão não difere daquela que Chaplin apresentaria na década seguinte com Modern Times, mas Lang consegue ir ainda mais longe na sua representação aterradora da industrialização através dos elementos fantasiosos e arquitectónicos que o cenário amplifica, muitas vezes inspirados na moderna urbanização americana e na pintura de Brueghel (de que é exemplo directo a enigmática Torre de Babel), promovendo assim uma convergência delirante entre o passado e o futuro e fazendo com que aquela população funcione como sinédoque de toda a humanidade. As fundações da metrópole são um autêntico labirinto que se revela fatal para aqueles que se distraem por instantes — e esta fugaz passagem do tempo é assinalada de forma tão verossímil que nos perdemos invariavelmente nele. Essa sua capacidade torna-o inesgotável e Metropolis oferece sempre novos mistérios que desfilam precipitadamente a cada visualização. É um filme infinito. 127


GRUPO G

PORTUGAL

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 2º 11 PROVÁVEL: Rui Patrício, João Pereira, Pepe, Bruno Alves, Fábio Coentrão, William Carvalho, João Moutinho, Raúl Meireles, Nani, Cristiano Ronaldo, Hélder Postiga Pela segunda vez consecutiva, Portugal precisou de ir ao play-off para chegar à fase final do Campeonato do Mundo. Nessa eliminatória, contra a Suécia, o melhor jogador do mundo marcou quatro golos e atirou Zlatan Ibrahimovic para o sofá durante o Mundial de 2014. Reside aliás em Cristiano Ronaldo toda a fé dos lusitanos para um torneio onde a selecção portuguesa está longe de ser favorita e enfrentará certamente muitas dificuldades para chegar aos 16-avos-de-final. Com Ronaldo em forma, tudo pode acontecer. Sem o madeirense a 100%, dificilmente a solidez defensiva de Pepe e Bruno Alves e a resistência física de William Carvalho e João Moutinho serão suficientes para colmatar a grande lacuna nacional desde a reforma de Pedro Pauleta: um ponta-de-lança que faça a diferença. Ainda para mais quando o rendimento de Nani, depois de uma época lesionado, é uma incógnita. 128


PREVISÃO NA TELA: 3º REPRESENTANTE CINÉFILO:

VALE ABRAÃO

Título nacional: Vale Abraão Realização: Manoel de Oliveira Elenco: Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, Cécile Sanz de Alba

1993 TIAGO SILVA

Se 'Madame Bovary' é toda a literatura de Flaubert, então Vale Abraão é todo o cinema de Oliveira. Por tudo aquilo que representa e contém na sua secreta beleza, é facilmente a sua obra maior e funciona como síntese das características mais singulares do seu trabalho — a narração omnisciente, a melancólica progressão dos acontecimentos, uma noção de amor que se confunde com o luto e leva sempre as suas personagens à derrota. Ao reinventar a mítica personagem em constante busca por algo de contornos absolutos, Oliveira não se limita a oferecer uma visão moderna da história: trata-se de uma apropriação consciente da mesma pela própria realidade do filme, confundindo a literatura com a vida nas suas inúmeras contradições. Ema, essa mulher que rejeita as vagas filosofias que os outros tentam impor e cuja altivez perturbadora desequilibra e destrói tudo em seu redor, tem tanto de encarnação poderosíssima do romantismo doentio como de ser panteísta em tumultuosa comunhão com as paisagens do Douro; faz parte das «flores do mal» que colhe com deleite quase escondido, da luz do luar que entra pela enorme janela do seu quarto e a leva flutuando devagar até Carlos. Vemo-la pela primeira vez na idade adulta sob o signo da morte e sabemos que o seu fim não poderá ser diferente. Esta qualidade premonitória que se mantém ao longo de todo o filme, resulta principalmente porque em Vale Abraão, sítio onde ninguém consegue explicar aquilo que se passa, as sombras dos acontecimentos antecedem-nos através de sussurros e enquadramentos subtis. Oliveira faz um uso maravilhoso da elipse, confiando na «sensualidade do que se omite» para ilustrar as indecifráveis transformações da personagem. Diz-se mais nos planos dos espelhos das paredes velhas da casa e nas pequenas variações emocionais no rosto de Ema do que no vazio que corrompe inúmeros filmes inteiros. Do aspecto pictórico da imagem à exímia banda sonora clássica, Vale Abraão parece um museu onde se expõe aquilo de que mais belo existe no cinema. Se tivéssemos dado apenas este filme ao mundo, já teríamos eterno motivo de orgulho. 129


GRUPO G

GANA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 3º 11 PROVÁVEL: Kingson, Inkoom, Sumaila, Akaminko, Opare, Essien, Muntari, Boateng, Ayew, Asamoah, Gyan

Os “Estrelas Negras” afastaram o Egipto no play-off decisivo de apuramento para o Mundial, com uma vitória caseira de 6-1 na primeira mão que matou logo à partida quaisquer esperanças dos egípcios em alcançarem uma qualificação histórica. Selecção africana com o melhor histórico em mundiais de futebol – quartos-de-final em 2010 onde foram eliminados nos penalties pelo Uruguai, num jogo dramático onde Suarez roubou um golo aos ganeses com a mão no minuto 120, tendo Asamoah Gyan falhado a grande penalidade que daria as primeiras meias-finais de sempre a uma selecção africana -, o Gana volta à competição com esperanças que Essien, Muntari, Asamoah e Kevin-Prince Boateng consigam levar a melhor sobre portugueses e norte-americanos. No calor brasileiro, estará tudo em aberto. 130


PREVISÃO NA TELA: 4º REPRESENTANTE CINÉFILO:

LOVE BREWED IN THE AFRICAN POT

Título nacional: Love Brewed in the African Pot Realização: Kwaw Ansah Elenco: Emmanuel Agebenowu, George Browne, Emmanuel Dadson

1981 TIAGO SILVA

Antes de falar sobre Love Brewed in the African Pot, é importante referir que nunca existiu um verdadeiro cinema de peso e que questionasse a identidade nacional no Gana. Ao contrário do que sucedeu em países como o Senegal ou o Egipto, onde surgiram obras tão importantes como Touki Bouki de Djibril Diop Mambéty ou Cairo Station de Youssef Chahine, a nação seguiu antes o exemplo da Nigéria e das suas rápidas produções em vídeo, fazendo lembrar um registo de recordações pessoais e momentos importantes, mas criado a partir de uma escala industrial ao invés do típico formato caseiro. Talvez isso explique a enorme admiração (não só da parte do grande público como também da crítica) pela primeira longa-metragem de Kwaw Ansah e subsequente sucesso obtido na maior parte do continente africano: foge aos padrões habituais e repetitivos enquanto reclama para o país uma arte que se preocupa em debater as tensões e instabilidades sociais, sem as dissimular com temas escapistas e que ignoram a frágil realidade que o povo tem de enfrentar. Partindo de uma banal história de amor, acima de tudo caracterizada pela comédia e melodrama descomedido, o filme reflecte sobre os efeitos do colonialismo (fantasma que continua a pairar sobre o sentimento nacional, muitas vezes débil e estilhaçado) e os problemas originados pelas diferenças entre classes numa sociedade em que a coexistência entre tradições ancestrais e hábitos de vida modernos é mutuamente preconceituosa e parece impossível de conciliar. Ao mostrar esta difícil adaptação e tolerância entre culturas, Ansah relembra o passado histórico e a herança africana enquanto lamenta a perda de ideais que definiam e unificavam uma comunidade, recorrendo, para isso, ao misticismo e crenças antigas e criando situações onde as personagens se vêem obrigadas a optar por apenas uma das facetas da sua cultura. Longe do melhor que se fez no cinema africano, Love Brewed in the African Pot é no entanto uma importante contribuição do Gana e poderia servir como um ponto de partida para a renovação cinematográfica no país. 131


GRUPO G

E.U.A.

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 4º 11 PROVÁVEL: Howard, Cameron, Besler, Gonzalez, Beasley, Bradley, Jones, Zusi, Dempsey, Johnson, Altidore Com uma mão cheia de experiências em praticamente todos os sectores do campo, Jurgen Klinsmann não teve vida fácil na imprensa norteamericana no final dos primeiros jogos de qualificação da CONCACAF. A rotação de jogadores tocou a novos e velhos e foram várias as tácticas que o alemão experimentou até decidir-se por uma. No final, sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota foram mais do que suficientes para terminar o grupo em primeiro, quatro pontos à frente da Costa Rica, e deixar as expectativas de milhões de norte-americanos nas nuvens. Selecção de má memória para os portugueses – em 2002 foram os EUA os responsáveis pelo início do descalabro lusitano -, esperemos que Altidore, Donovan, Bradley e Tim Howard não voltem a repetir a gracinha num país onde historicamente a sua selecção já surpreendeu meio mundo em 1950. 132


PREVISÃO NA TELA: 2º REPRESENTANTE CINÉFILO:

INTOLERANCE: LOVE’S STRUGGLE THROUGHOUT THE AGES

Título nacional: Intolerância Realização: D.W. Griffith Elenco: Lilian Gish, Douglas Fairbanks, Spottiswoode Aitken

1916 TIAGO SILVA

Aquilo que é verdadeiramente impressionante ao redescobrir actualmente todo o assombroso trabalho de Griffith não é apenas a questão de lhe estar profundamente associada a fundação de praticamente toda a gramática cinematográfica — facto incontornável, que por si só já justificaria a reverência, e também independente das teorias que o tendem a considerar sobrevalorizado ao apontar para o uso de alguns elementos num cinema anterior ao seu (discussão dispensável, já que o americano foi o primeiro a atingir um domínio pleno das formas).

moderno parecem colocar-nos sempre a mesma questão: seremos capazes de olhar com suficiente clareza para o passado impedindo-o de se tornar no nosso presente?

Perturba-nos, acima de tudo, a ressonância intemporal dos seus filmes e aquilo que ainda têm para nos dizer passado um século inteiro de progressos, guerras e revoluções. Isto é particularmente evidente em Intolerance, «drama de comparações» entre diferentes períodos históricos em que se observam as mesmas características humanas: a hipocrisia, a ganância, o ódio. Partindo de temas como a religião, a política e a própria representação artística, Griffith consegue unificar todas as épocas e demonstrar que, no meio de todo o caos e grandiloquência da acção, apenas as aparências mudam. Ao apresentar em paralelo as histórias, eliminam-se as barreiras temporais — passando o tempo a funcionar enquanto matéria cíclica — para dar lugar a uma avareza universal provocada pelos efeitos do «vil metal» que reforçam a natural propensão para a maldade de todas as personagens opressoras no filme. E Lilian Gish, no papel da eterna mãe de todas aquelas gerações, lamenta isso com tanta emoção que é impossível não sofrer também com ela, principalmente porque aquilo que Intolerance, a «única sinfonia em forma de filme», nos mostra é a nossa própria tragédia (ontem como hoje), explicando que toda a História se confunde num movimento incessante ao qual é impossível escapar. No fim, os conflitos em frente dos imponentes portões da Babilónia, a crucificação de Cristo, a intolerância religiosa e o crime do mundo 133


GRUPO H

BÉLGICA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 1º 11 PROVÁVEL: Thibault Courtois, Vincent Kompany, Daniel Van Buyten, Jan Vertonghen, Toby Alderweireld, Axel Witsel, Marouane Fellaini, Moussa Dembele, Kevin Mirallas, Eden Hazard, Romelu Lukaku Provavelmente uma das selecções em quem mais esperanças se depositam para surpreender no Mundial do Brasil, a Bélgica chega a esta competição com uma selecção bastante sólida, com vários craques que cada vez mais estão a deixar de ser esperanças para se tornarem em grandes certezas do futebol mundial. Veja-se Eden Hazard, Romelu Lukaku, Thibault Courtois, mas também nomes como Vincent Kompany e o nosso conhecido Axel Witsel. De Hazard espera-se que seja o comandante desta equipa, apesar de alguns problemas neste final de época no Chelsea, onde quase todos os jogadores pareceram em decréscimo de rendimento. Entre as grandes ausências encontra-se Christian Benteke, sendo que é uma dúvida latente perceber como Fellaini vai chegar ao Mundial após uma época menos conseguida no Manchester United. 134


PREVISÃO NA TELA: 4º REPRESENTANTE CINÉFILO:

THE BROKEN CIRCLE BREAKDOWN

Título nacional: Ciclo Interrompido Realização: Felix van Groeningen Elenco: Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse

2012 ANÍBAL SANTIAGO

Pode existir maior dor para um pai e uma mãe do que a perda de um filho? Em The Broken Circle Breakdown somos apresentados a Didier (Heldenbergh) e Elise (Baetens), desde o período de tempo em que se conheceram até se casarem, terem a sua primeira filha e sofrerem com a dor pela perda desta. Como conviver com a morte de um filho? Será possível superar esta terrível situação? The Broken Circle Breakdown não nos oferece respostas para estas questões, nem pretende, ou melhor, mostra uma visão pessimista, mas bem real da situação. A relação do casal tinha sido marcada pela presença do rebento, a casa ficou mais vazia e também os seus corações, algo evidenciado de forma bastante humana ao longo do filme. Felix Van Groeningen realiza um drama emocionalmente potente, que utiliza paradigmaticamente os flashbacks para desenvolver os personagens e durante a primeira parte da narrativa para desanuviar um ambiente que vai ficando gradualmente mais pesado, com a morte da filha de Elise e Didier a incutir um tom negro ao enredo. A morte é algo sempre complicado de lidar, The Broken Circle Breakdown mostra-nos isso, por vezes de forma algo manipuladora (veja-se a forma como trata a questão religiosa entre a crença de Elise e a não crença de Didier), mas intensa e sentida, onde a música tem um papel fulcral. A música ritma muitas das vezes o enredo, revelando-se uma componente importante, quer a nível diegético, quer não diegético, sobressaindo as canções country que o casal canta, mas também a forma como a música serve para estes expressarem sentimentos. E The Broken Circle Breakdown é magnífico na forma como expõe os sentimentos, envolvendo-nos no romance dos protagonistas e na sua tragédia pessoal, transformando-nos cúmplices destes a um ponto que chega a arrasar a nível emocional, deixando-nos sentir a dor pela perda da filha de ambos e o sentimento de destruição que assola as suas almas. Emociona, comove, faz-nos viver intensamente a sua história e no final ainda nos atira com um murro no estômago, prometendo não ser esquecido com facilidade.

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GRUPO H

ARGÉLIA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 3º 11 PROVÁVEL: Raïs M’bolhi, Carl Medjani, Mandi, Madjid Bougherra, Ghoulam, Yebda, Lacen, Taïder, Sofiane Feghouli, Brahimi, Islam Slimani

Treinada por Vahid Halilhodžić, um técnico com uma vasta experiência, a selecção da Argélia mescla um conjunto de elementos a alinhar em equipas do seu país natal com jogadores a mostrar o seu talento no estrangeiro, tendo em Sofiane Feghouli e Islam Slimani duas referências de quem muito se espera, para além do nosso conhecido Yebda. A qualificação foi relativamente calma, tendo ficado em primeiro lugar no Grupo H, com quinze pontos, mais cinco que o Mali, o segundo classificado, embora tenha encontrado dificuldades em bater o Burkina Faso no playoff. Não se espera grandes feitos desta selecção, embora o seu ataque seja um garante de boas surpresas, tendo um plantel que tem tudo para fazer a vida difícil aos seus adversários e fazer mais do que o mísero ponto conquistado no Mundial de 2010. 136


PREVISÃO NA TELA: 2º REPRESENTANTE CINÉFILO:

Z

Título nacional: Z - A Orgia do Poder Realização: Costa-Gavras Elenco: Yves Montand, Irene Papas, Jean-Louis Trintignant

1969 ANÍBAL SANTIAGO

Z destaca-se desde logo pela eficácia de Costa-Gavras a expor o contexto político fervilhante do final da década de 60, mas também a estabelecer os ideais dos seus personagens, ao mesmo tempo que desenvolve um thriller intrigante, marcado por uma banda sonora adequada, baseado livremente em factos reais, nomeadamente, no assassinato de Grigoris Lambrakis em 1963. No caso de Z, ficamos diante de um deputado (Montand) da oposição que pretende efectuar um comício onde se prepara para efectuar um discurso acirrado contra as armas nucleares. Vários locais são boicotados pelas autoridades lideradas por um general (Dux) conservador, algo que não impede o personagem interpretado por Montand de conseguir levar avante os seus intentos. Tudo termina em tragédia, com uma conspiração a conduzir ao assassinato do político oposicionista, acreditando-se inicialmente que a morte foi provocada pela queda, embora a intrepidez de um fotojornalista (Perrin) e de um magistrado (Trintignant) encarregue do caso, conduzam a que se descubra uma conspiração mais lata. Ácido na representação das ilegalidades cometidas na Grécia durante a Governação da Junta Militar, Z logo avança para a busca dos culpados pelo assassinato e incriminação dos mesmos, embora o tabuleiro de valores esteja invertido e os resultados possam não ser os esperados ao longo desta obra inquietante, que permite ao argumento destacar-se, mas também elementos do elenco como Jean-Louis Trintignant e Yves Montand. Trintignant por dar vida a este magistrado pronto a tudo para descobrir a verdade, embora até seja politicamente neutro, enquanto Montand dá o carisma e credibilidade necessárias ao seu político, numa obra que se dá ao luxo de ter Irène Papas numa interpretação bastante secundária. No entanto, é o contexto político fervilhante que mais sobressai ao longo de Z, enquanto somos colocados de evidência em evidência, de conspiração em conspiração, até a investigação terminar e ficarmos perante um complexo jogo político, onde quem procura fazer cumprir a lei é considerado criminoso. 137


GRUPO H

RÚSSIA

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 2º 11 PROVÁVEL: Akinfeev, Anyukov, Ignashevich, Berezutskiy, Zhirkov, Denisov, Shirokov, Bystrov, Dzagoev, Faizulin, Kerzakhov

Com uma fase de qualificação de grande nível, tendo ficado em primeiro lugar num grupo que tinha selecções como Portugal e uma surpreendente selecção de Israel, a Rússia chega como uma das favoritas para o primeiro lugar deste grupo, embora o seu palmarés recente no Euro2012 nos faça ter alguma parcimónia no favoritismo a atribuir a esta selecção. Conta com um seleccionador de grande nível, Fabio Capello, um plantel relativamente experiente, maioritariamente formado por jogadores a alinharem na Rússia, destacando-se nomes como Igor Akinfeev, Roman Shirokov, Alan Dzagoev e Alexandr Kerzhakov. Tem um plantel com qualidade suficiente para ultrapassar a fase de grupos, embora não pareça apresentar recursos para ambicionar voos muito mais altos do que a qualificação para a fase seguinte. 138


PREVISÃO NA TELA: 1º REPRESENTANTE CINÉFILO:

BATTLESHIP POTEMKIN

Título nacional: O Couraçado Potemkin Realização: Sergei M. Eisenstein Elenco: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov

1925 ANÍBAL SANTIAGO

Dividido em cinco partes, onde somos colocados perante uma rebelião de marinheiros de um navio de guerra, Batleship Potemkin exibe o génio de Sergei Eisenstein para a realização cinematográfica, surgindo como um dos filmes de propaganda mais influentes da História do Cinema. Esta rebelião é baseada num motim que ocorreu em 1905, quando os tripulantes do Couraçado Potemkin revoltaram-se contra os oficiais czaristas, numa demonstração latente da força do poder popular. Mais do que estar preocupado em desenvolver personagens particulares ou as suas personalidades, Eisenstein preocupa-se com as multidões, centrando as suas atenções nos rostos das gentes amotinadas, prontas a lutar pelos seus direitos e combater as desigualdades. O cineasta expõe os ideais da revolução Bolchevique de 1917, de forma algo propagandista e clara, mas sempre com arte. Só assim se explica a magnífica cena da escadaria de Odessa, reveladora desde logo da estratificação social, mas também da violência que permeia todos aqueles momentos, ficando na memória a cena em que uma mãe é fuzilada e o carrinho de bebé cai pelas escadas furiosamente. Tudo é aparentemente simples ao longo de Battleship Potemkin: os marinheiros são representados como alguém tratado de forma desigual e pouco humana, os seus superiores de forma pouco agradável e os soldados czaristas como elementos violentos. Esta simplicidade visa acima de tudo chegar de forma clara e perceptível ao público, passando esta propaganda revolucionária, mas com uma arte notável. Curiosamente, um dos episódios mais conhecidos do filme, nomeadamente, o da escadaria de Odessa, nem aconteceu na realidade, mas acabou por ficar para a posterioridade como algo de muito real, sobressaindo o soberbo trabalho de montagem, uma das imagens de marca de Eisenstein. Existe uma pulsão revolucionária a permear Battleship Potemkin, mas também enorme talento, com Sergei Eisenstein a colocar-nos perante uma das suas obras maiores que conta com um inegável valor histórico.

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GRUPO H

COREIA DO SUL

PREVISÃO FUTEBOLÍSTICA: 4º 11 PROVÁVEL: Kim Seung Kyu, Lee Yong, Hong Jeong Ho, Kim Young Kwon, Park Joo Ho, Ki Sung Yeung, Ko Myung Jin, Lee Chung Yong, Son Heung Min, Yoon Il Rok, Kim Shin Wook Se no cinema a Coreia do Sul continua a dar cartas e a mostrar uma qualidade assinalável, já no futebol temos de recuar até ao Mundial de 2002, de má memória para os portugueses, para recordar alguns feitos dignos de registo. Em 2014 espera-se mais uma vez uma equipa que conta com uma das suas maiores qualidades no colectivo, embora lhe faltem individualidades que possam fazer a diferença. Veja-se que na própria fase de qualificação praticamente ia ficando de fora em detrimento do Uzbequistão (que conquistou os mesmos pontos), sendo na maioria composta por jogadores a alinharem no continente asiático. De destacar Son Heung Min, um jogador que alinha no Bayer Leverkusen e pode trazer algum perigo e criatividade ao ataque da Coreia do Sul. Será uma grande surpresa se conseguir ultrapassar a fase de grupos. 140


PREVISÃO NA TELA: 3º REPRESENTANTE CINÉFILO:

VIRGIN STRIPPED BARE BY HER BACHELORS

Título nacional: Virgin Stripped Bare by Her Bachelors Realização: Sang-soo Hong Elenco: Eun-ju Lee, Seong-kun Mun, Won-hee Cho

2000 ANÍBAL SANTIAGO

Os triângulos amorosos não são propriamente uma novidade a nível cinematográfico, mas com Hong Sang-soo as dinâmicas destes relacionamentos ganham sempre outra cor. O que não deixa de ser irónico se tivermos em conta que estamos a abordar um filme a preto e branco, cujos personagens são complexos o suficiente para encher o ecrã de cor, onde Hong Sang-soo resolve brincar com as convenções narrativas, sejam estás temáticas ou temporais, apresentando-nos a sua história em cinco capítulos, enquanto somos colocados perante alguns elementos e temas transversais às suas obras. Não faltam os personagens movidos pelos desejos, a desconstrução da figura do homem coreano, as cenas sexuais desprovidas de sensualidade, o consumo excessivo de álcool, os personagens aparentemente deslocados da sociedade, os protagonistas ligados ao campo das artes, os diálogos cheios de vida (por vezes aparentemente improvisados), entre outros elementos. Os personagens deslocados da sociedade surgem presentes na figura do trio de protagonistas de Virgin Stripped Bare By Her Bachelors, cujos relacionamentos resumem-se praticamente a momentos entre os três ou dois a dois. No centro deste triângulo está Soo-jung (Eun-ju), uma jovem e bela argumentista de um programa de televisão (a virgem do título), que desperta o desejo de Young-soo (Sung-keun), o produtor do programa, e Jae-hoon (Bo-seok), um indivíduo com algumas posses, procurado pelo segundo para financiar o seu filme independente. A divisão da narrativa em cinco capítulos permite a Hong Sang-soo explorar os relacionamentos através de diferentes perspectivas (com enfoque em Jae-hoon e Soo-jung, o casal principal), sem grandes exacerbamentos emocionais e até com uma banda sonora a condizer com esta atmosfera narrativa marcada por relacionamentos humanos desenvolvidos assertivamente e expostos com uma enorme beleza. Pelo meio temos ainda o típico comentário de Sangsoo sobre a arte, onde um dos seus protagonistas exacerba o cinema independente, aquele pelo qual o cineasta é conhecido, permitindo realizar obras magníficas como esta. 141


CALENDÁRIO DE JOGOS FASE DE GRUPOS 12 de Junho A: Brasil v Croácia, 21h00, São Paulo 13 de Junho A: México v Camarões, 17h00, Natal B: Espanha v Holanda, 20h00, Salvador B: Chile v Austrália, 23h00, Cuiba 14 de Junho C: Colômbia v Grécia, 17h00, Belo Horizonte D: Uruguai v Costa Rica, 20h00, Fortaleza C: Costa Marfim v Japão, 23h00, Recife 15 de Junho D: Inglaterra v Itália, 02h00, Manaus E: Suíça v Equador, 17h00, Brasília E: França v Honduras, 20h00, Porto Alegre F: Argentina v Bósnia, 23h00 , Rio de Janeiro 16 de Junho G: Alemanha v Portugal, 17h00, Salvador F: Irão v Nigéria, 20h00, Curitiba G: Gana v EUA, 23h00, Natal 17 de Junho H: Bélgica v Argélia, 17h00, Belo Horizonte A: Brasil v México, 20h00 , Fortaleza H: Rússia v CoreiaSul, 23h00, Cuiabá 18 de Junho B: Austrália v Holanda, 17h00, Porto Alegre A: Camarões v Croácia. 23h00, Manaus B: Espanha v Chile, 23h00, Rio de Janeiro 19 de Junho C: Colômbia v CostaMarfim, 17h00, Brasília D: Uruguai v Inglaterra, 20h00, São Paulo C: Japão v Grécia, 23h00, Natal

20 de Junho D: Itália v Costa Rica, 17h00, Recife E: Suíça v França, 20h00, Salvador E: Honduras v Equador, 23h00, Curitiba 21 de Junho F: Argentina v Irão, 17h00, Belo Horizonte G: Alemanha v Gana, 20h00, Forteleza F: Nigéra v Bósnia, 23h00, Cuiabá 22 de Junho H: Coreia Sul v Argélia, 17h00, Porto Alegre G: EUA v Portugal, 23h00, Manaus H: Bélgica v Rússia, 23h00, Rio de Janeiro 23 de Junho B: Austrália v Espanha, 17h00, Curitiba B: Holanda v Chile, 17h00, São Paulo A: Camarões v Brasil, 21h00, em Brasília A: Croácia v México, 21h00, Recife 24 de Junho D: Itália v Uruguai, 17h00, Natal D: CostaRica v Inglaterra, 17h00, Belo Horizonte C: Japão v Colômbia, 21h00, Cuiabá C: Grécia v CostaMarfim C3, 21h00, Fortaleza 25 de Junho F: Nigéria v Argentina, 17h00, Porto Alegre F: Bósnia v Irão, 17h00, Salvador E: Honduras v Suíça, 23h00, Manaus E: Equador v França , 21h00, Rio de Janeiro 26 de Junho G: EUA v Alemanha, 17h00, Recifie G: Portugal v Gana, 17h00, Brasília H: CoreiaSul v Bélgica, 21h00, São Paulo H: Argélia v Rússia, 21h00, Curitiba


OITAVOS-DE-FINAL 28 de Junho 49: 1A v 2B, 17h00, Belo Horizonte 50: 1C v 2D, 21h00, Rio de Janeiro 29 de Junho 51: 1B v 2A, 17h00, Fortaleza 52: 1E v 2C, 21h00, Recife 30 de Junho 53: 1E v 2F, 17h00, Brasília 54: 1G v 2H, 21h00, Porto Alegre 1 de Julho 55: 1D v 2E, 17h00, São Paulo 56: 1H v 2G, 21h00, Salvador QUARTOS-DE-FINAL 4 de Julho 58: Vencedor 53 v Vencedor 54, 17h00, Rio de Janeiro 57: Vencedor 49 v Vencedor 50, 21h00, Fortaleza 5 de Julho 60: Vencedor 55 v Vencedor 56, 17h00, Brasília 59: Vencedor 51 v Vencedor 52, 21h00, Salvador MEIAS-FINAIS 8 de Julho 61: Vencedor 57 v Vencedor 58, 21h00, Belo Horizonte 9 de Julho 62: Vencedor 59 v Vencedor 60, 21h00, São Paulo Jogo de atribuição do terceiro lugar 12 de Julho 63: Vencido 61 v Vencido 62, 17h00, Brasília FINAL 13 de Julho 64: Vencedor 61 v Vencedor 62, 20h00, Rio de Janeiro


MIKE BASSETT: ENGLAND MANAGER JOÃO PAULO COSTA

AS ORIGENS NO CINEMA E “O TRABALHO QUE MAIS NINGUÉM QUERIA ACEITAR” Quando ficámos a conhecer Mike Bassett, este havia acabado de se tornar no seleccionador inglês de futebol, dias depois de ter levado o seu clube à conquista de um troféu nas divisões secundárias. Que quase todos os treinadores da Primeira Liga tenham recusado o lugar era apenas um pequeno pormenor que Bassett preferia ignorar, escolhendo carregar consigo as esperanças futebolísticas da nação que viu nascer o futebol. Se o leitor mais atento ao fenómeno desportivo duvida da veracidade daquilo que aqui está escrito, então tem toda a razão: este era apenas o ponto de partida para um filme de 2001, rodado ao jeito de falso documentário, intitulado Mike Bassett: England Manager. Nesta ficção, curiosamente, estávamos próximos de um Campeonato do Mundo a realizar precisamente em solo brasileiro, e o que esta nos propunha era seguir o recentemente apontado seleccionador na sua aventura pelo maior palco do futebol mundial. Sejamos claros, o grande trunfo de Mike Bassett: England Manager era precisamente o seu protagonista, o excelente Ricky Tomlinson (que o público português se recordará da magnífica série televisiva A Família Royle), cuja personagem na realidade simbolizava uma espécie em


vias de extinção (que embora ainda hoje subsista no habitat da Premier League, é cada vez mais rara): o típico treinador inglês para quem o jogo ainda se joga como em 1900, ou seja, esquemas tácticos simples, treinos banais e confiança cega na escolha dos jogadores, enchendo-os de moral na hora de entrar em campo, sejam aqueles com claros problemas disciplinares, sejam pontas-de-lança em evidente crise de confiança e de relações cortadas com a baliza. Divertida comédia recheada de humor típicamente britânico (há no filme uma cena em que as comitivas inglesa, escocesa e irlandesa se cruzam na chegada a um aeroporto brasileiro que por si só justificaria o visionamento), o filme acaba por se posicionar bem no meio dessa questão, de um lado olhando com simpatia para a tradição do desporto em Inglaterra, e do outro percebendo a evolução do jogo para patamares mais sofisticados. Bassett é um homem simples, fala-barato, pouco dado a preparações específicas dos jogos ou ao estudo dos adversários, e representa um pouco a crise de identidade que assolava o futebol inglês naquela época. Mesmo tentando apoiar a sua narrativa num nível mais pessoal - são igualmente engraçadas as cenas em família, especialmente quando os resultados tardam em aparecer e o filho de Bassett é maltratado pelos colegas na escola, uma crítica á paixão desenfreada dos adeptos fanáticos - é o futebol que em última instância toma conta dos acontecimentos. Porque se o filme tinha particulares qualidades, essa seria uma das principais, o disparar, ainda

que num tom ligeiro mas divertido, em todas as direcções possíveis que rodeiam o fenómeno futebolístico, desde egos dos jogadores até às picadelas à imprensa intrusiva sem esquecer, claro, alguns dos episódios mais míticos da História dos mundiais de futebol incluindo, obviamente, essa espinha atravessada na garganta dos ingleses durante anos: a mão de Deus. A SAGA CONTINUA NO PEQUENO ECRÃ Depois do Mundial no Brasil, a carreira de Bassett deu algumas reviravoltas. Abandonou o cargo de seleccionador inglês e voltou a trabalhar sem sucesso em alguns clubes mas, quando estava prestes a abandonar a carreira, acabou por aceitar o convite do Wirral County, equipa das divisões mais baixas das ligas inglesas, como uma última homenagem ao seu pai, antiga figura lendária do clube. A acompanhá-lo terá um ingénuo mas sempre leal adjunto cuja dedicação ao chefe de equipa é total, mesmo quando discorda claramente das suas estratégias de comando do plantel. Rodado num tom completamente diferente do filme que lhe precedeu, Mike Bassett trocou o escuro do cinema pelo conforto episódico da sitcom televisiva, abandonando o formato de falso documentário para 146


dramatizar de forma mais tradicional as desventuras de Bassett pelo fundo do poço do futebol inglês numa série produzida em 2005 que se passou a chamar, de forma ligeiramente mais simplificada, Mike Bassett: Manager. Se há coisa que os seus criadores nunca pareceram interessados em fazer foi glorificar a figura de Bassett, ou seja, fazer dele um messias genial capaz de guiar os seus jogadores a sucessos inesperados. Na verdade, muito pelo contrário. Apesar de longe de ser uma série magnífica, têm particular piada algumas das confusões que se deparam no caminho do treinador, seja a vontade da sua mulher (farta do convívio com a ira de adeptos descontentes) em tornar-se algo mais do que a Sra. Bassett, seja a contratação de uma fantástica estrela escondida do futebol holandês à espera de explodir. Podemos admitir que não são muitos os momentos de génio, e a verdade é que Mike Bassett: Manager durou apenas uma pequena temporada de 6 episódios, mas que se vê bastante bem, desde que o espectador esteja disposto a aguentar um tom mais absurdo que não deixa de satirizar de forma clara alguns dos pontos em que o filme já pegava, juntando outros temas como o simbolismo da tradição dos clubes locais e a sua relevância social, o oportunismo dos empresários desportivos ou a ganância dos donos dispostos a, num abrir e fechar de olhos, acabar com as tradições e vender os clubes a anónimos magnatas estrangeiros. Alguns destes eventos são, claro está, inspirados em acontecimentos

reais nas competições profissionais de futebol inglês. Na verdade, muito do espírito da série está evidente no início de cada episódio onde somos confrontados com citações de treinadores reais cuja excessiva simplicidade reflecte muito do que é a tradição do futebol enraizada em Inglaterra, mas também a própria simplicidade do jogo, em que o adepto comum se concentra: o golo e os resultados. UM FUTURO BRILHANTE… COMO TREINADOR INTERINO Apesar de um percurso muito mais modesto na televisão do que na sua original incursão pelo cinema, Bassett irá regressar em 2015, dez anos depois e, segundo os seus produtores, o regresso voltará a passar pelo cinema, num filme que faz o treinador voltar ao banco da sua selecção, desta feita como adjunto de um seleccionador… alemão! Prometendo adaptar-se à evolução do próprio jogo, Mike Bassett: Interim Manager, poderá ser um regresso em forma de uma personagem que já se embrenhou um pouco na cultura futebolística daquele país, com o nome de Bassett normalmente associado a treinadores a passar por um mau bocado nas suas carreiras. Aguardamos com uma certa curiosidade, quanto mais não seja para ver Ricky Tomlinson a voltar a dar corpo a este bonacheirão que tem tão bom coração quanto más qualidades técnicas.

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