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APOCALIPSE

TAKE.COM.PT | ANO 6 | NÚMERO 31


WE’LL MEET AGAIN CARLOS REIS

Escrita em 1939, "We'll Meet Again" foi a música escolhida por Stanley Kubrick para encerrar de forma tão irónica quanto optimista o maravilhoso Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb. Nessa histórica cena, vemos o planeta ser destruído por várias explosões nucleares, tudo culpa da intolerância humana perante uma situação de conflito eminente entre, nesse caso, os Estados Unidos da América e a antiga União Soviética. Esta foi apenas uma das muitas formas que, ao longo de décadas, o cinema inventou para mostrar o fim da Terra e/ou da humanidade. Nesta edição dedicada exclusivamente ao cinema apocalíptico e pósapocalíptico, recordamos dezenas de filmes obrigatórios para qualquer interessado na temática, antevendo ainda várias estreias próximas que fazem deste Verão de 2013 um autêntico cataclismo global na tela e aproveitamos a onda de destruição em massa para entrevistar três figuras de relevo neste género cinematográfico: Neil Marshall, realizador de Doomsday; Samuel Hadida, produtor de filmes como Resident Evil ou Silent Hill; e, dentro de portas, Filipe Melo, responsável por aquele que é provavelmente o único filme português apocalíptico, I'll See You in my Dreams, a celebrar este ano dez anos de existência. Mas como se tratava de uma hecatombe planetária, decidimos ainda que valia a pena dar um salto a Madrid e visitar o novíssimo "Nocturna Film Festival", festival de cinema fantástico onde o espanhol Al Final Todos Mueren estaria presente e não poderia deixar de ser analisado numa edição da Take dedicada ao fim do mundo. Da cobertura geral do festival, a vários artigos de relevo sobre o cinema apocalíptico e ainda, uma incursão pelo alfabeto televisivo do tema, eis mais um exemplar literário cinematográfico para mais tarde recordar. Desfrutem... enquanto o mundo não acaba.


ARTIGOS

ANTEVISÕES

02 We'll meet again . editorial 06 2013: Verão apocalíptico 22 Cinema e guerra fria 34 A influência do 11 de Setembro no cinema apocalíptico 36 Nocturna 2013 . reportagem 42 À conversa com Samuel Hadida 46 À conversa com Neil Marshall 50 O que é feito de Richard Kelly 60 O fim do mundo em 15 filmes 82 Cinema no séc. XXI 86 Mad Max apocalípse 96 Kaiju 104 À conversa com Filipe Melo 112 Roland Emmerich: Destruir é com ele 120 ABC do apocalípse na TV

18 Batalha do Pacífico 19 Elysium 20 R.I.P.D. - Agentes do outro mundo

CRÍTICAS 08 WWZ: Guerra mundial 10 Depois da Terra 12 Isto é o fim 14 Para além da escuridão: Star Trek 16 Homem de aço 40 Al final todos mueren 62 The day the earth stood still 63 Seeking a friend for the end of the world 64 Terminator 2: Judgment day 66 The road 67 District 9 68 War of the worlds 70 Cloverfield 71 28 Days later 72 La jetée 74 Dr. Strangelove ... 76 Melacholia

77 Knowing 78 A torinói ló 80 Armageddon 81 Deep impact 116 Independence day 117 Godzilla 118 The day after tomorrow 119 2012

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Apocalipse Š Xico Santos


2013: VERÃO APOCALÍPTICO Os últimos anos foram pródigos em filmes que espelhavam o fim do mundo ou da humanidade nas mais diversas formas e feitios. No entanto, quem julgava tratar-se de uma moda passageira resultante da histeria mediática global sobre o fim do calendário Maia certamente sentiu-se aliviado - ou defraudado, quem sabe - pela continuidade revelada neste ano de 2013, especialmente nesta temporada quente de blockbusters que invade e domina as nossas distribuidoras. Seja Brad Pitt a ser perseguido por incontáveis zombies esfomeados ou Seth Rogen e James Franco num divertido "rally das tascas" durante o apocalipse, o que não faltam são alternativas no género para todos os gostos. A Take Cinema Magazine apresenta-vos agora algumas análises e antevisões para que, acompanhados de um balde de pipocas ou de um geladinho fresquinho alguém falou na trilogia do Cornetto? -, este Verão seja digno e merecedor da expressão "foi o fim do mundo em cuecas" quando saírem da sala de cinema.


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WWZ: GUERRA MUNDIAL

Título original: World War Z Realização: Marc Forster Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, James Badge Dale Ano: 2013

ANÍBAL SANTIAGO

Os problemas que rodearam o desenvolvimento de World War Z, a adaptação cinematográfica da obra literária homónima, foram sobejamente noticiados, tendo culminado no caricato episódio de ter visto o seu último terço refeito devido ao facto do mesmo não ter agradado ao estúdio. Infelizmente, World War Z raramente consegue manter o nível de interesse da novela dos bastidores. A ideia surge relativamente interessante, com Marc Foster a procurar dar uma escala global à epidemia, a tentar explorar a atmosfera de paranóia que envolve a história de Gerry Lane (Pitt), um elemento ao serviço das Nações Unidas que procura uma possível cura para o vírus que está a contaminar e dizimar a população mundial, viajando com a sua equipa por vários locais ao redor do Mundo, enquanto espera que a organização mantenha a família em segurança. World War Z não é o típico filme de zombies onde estes surgem como seres lentos, sanguinolentos e visceralmente violentos, tendo sido elaborado para ser um blockbuster de sucesso e chegar a um público alargado, ou seja, a violência que surge associada a estas obras é trocada por cenas de acção grandiosas, mas relativamente inconsequentes, cujos efeitos raramente são sentidos. Sim, algumas cenas são impressionantes e contam com alguns planos que ficam na memória, mas será que causam algum impacto a nível emocional? Sentimos dor pela perda de algum personagem? Nem por isso, até porque as mortes em World War Z raramente surgem acompanhadas por uma carga emocional que nos faça preocupar com os personagens. Diga-se que não é apenas nas mortes que World War Z causa uma impressionante indiferença. É sobretudo na sua incapacidade em desenvolver os relacionamentos humanos, em estabelecer a dinâmica da família, em dar a dimensão política e social que promete, com o argumento a não conseguir dar o escopo grandioso que as imagens em movimento e os efeitos especiais conseguem oferecer.

No entanto, no último terço da narrativa esta “grandiosidade” global conhece algumas alterações para as quais não devemos ficar alheios ao contexto da elaboração do filme. Deixamos de ter a grandiosidade dos espaços abertos, para passarmos a ter um laboratório, ou seja, o "terror" à escala global é trocado por um espaço fechado, com o bom trabalho de fotografia a adensar o clima sufocante em volta das cenas, mas a não esconder o facto de parecer que estamos no interior de uma obra diferente. O cimento que acaba por unir todas estas diferenças é Brad Pitt. Este dá uma enorme credibilidade e intensidade ao seu personagem, procurando que o mesmo cause impacto no espectador, mesmo quando o argumento faz "o favor" de nem sempre conseguir explorar as temáticas e os personagens secundários que o envolvem. A incapacidade de desenvolver devidamente a maioria dos personagens secundários é o paradigma da falta de capacidade de World War Z em dar tudo aquilo a que se propõe. Quer ser um thriller mesclado com terror e muitos zombies velozes e furiosos mas esbarra na sua censura PG13 (EUA). Quer apresentar uma jornada à escala global, mas não aproveita as idiossincrasias culturais entre os diversos países, ou seja, falha em várias das suas pretensões, sobretudo a explorar uns EUA em paranóia, em explorar a falta de uma estrutura política no país que conseguisse lidar com uma ameaça. Ao terminarmos de ver World War Z percebemos que o filme não é o desastre que se anunciava, mas também não consegue atingir todo o seu potencial. Poderia ser um dos grandes filmes de zombies da década, mas prefere ser apenas mais um para agradar a "Gregos e Troianos", resultando numa obra com grandes objectivos e intenções, que cedo são cerceadas pelo poder controlador do estúdio, um argumento problemático e um desenvolvimento rocambolesco que resulta numa obra bem intencionada, com uma excelente interpretação de Brad Pitt, mas incapaz de alcançar a grandeza que almeja. “(...) incapaz de alcançar a grandeza que almeja.” 9


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DEPOIS DA TERRA

Título original: After Earth Realização: M. Night Shyamalan Elenco: Jaden Smith, Will Smith, Sophie Okonedo Ano: 2013

ANÍBAL SANTIAGO

Arrasado pela crítica norte-americana e algo ignorado pelo público que não parece disposto a dar novas oportunidades a M. Night Shyamalan, Depois da Terra prepara-se para ser um dos poucos fracassos a nível de bilheteira de Will Smith, que não saiu incólume ao "veneno" que o cineasta simboliza para as bilheteiras. Mas será Depois da Terra um desastre assim tão grande? Embora não seja uma obra-prima, Depois da Terra procura dar algo que nem todos os blockbusters que estreiam durante o Verão se preocupam: contar uma história centrada nos personagens e não no CGI. Por vezes perde-se no seu argumento algo atabalhoado, em redundâncias narrativas, explicações em doses excessivas, flashbacks enfiados a martelo e um Jaden Smith sem estofo para o papel que o pai lhe deu, mas nota-se toda uma procura genuína de construir uma mitologia própria em volta deste universo narrativo e personagens que nos apresentam. Este universo narrativo desenrola-se mil anos depois da humanidade ter sido obrigada a abandonar a Terra devido a um conjunto de desastres, que arrasaram com o planeta, partindo em direcção a Nova Prime, um local que aos poucos se tornou hostil, devido a uma raça de extraterrestres ter enviado uma raça mortífera de monstros, para eliminarem os humanos. A proteger a população encontra-se Cypher (W.Smith), o líder dos Ranger Corps, uma organização com elementos altamente treinados, que desenvolvem um método para esconderem o medo das criaturas, visto que estes seres encontram os humanos devido a sentirem o medo. Quando conhecemos Cypher, este encontra-se de regresso de uma expedição e logo mostra alguma desilusão pelo facto de Kitai (J.Smith), o seu filho, ter chumbado no exame para Ranger. Os dois apresentam uma relação algo afastada, que esperam melhorar durante uma expedição. No entanto, a viagem logo corre pelo pior, com uma tempestade de asteróides a atingir a nave e a obrigar a uma aterragem forçada, que deixa Cypher gravemente ferido e imobilizado, obrigando o

filho a mostrar o que aprendeu no treino para ser um ranger, enquanto explora um planeta Terra hostil e procura por um transmissor, sendo guiado à distância pelo pai, algo que contribui para o nascimento de uma certa cumplicidade entre ambos. Se é bastante eficaz na construção do relacionamento de Kitai e Cypher, bem como na construção de um planeta Terra pós-apocalíptico e numa criação de regras para a sobrevivência humana neste território hostil, Depois da Terra não consegue manter o mesmo nível no argumento atabalhoado, efeitos especiais pouco conseguidos e redundâncias narrativas. No entanto, um dos maiores problemas do filme trata-se da escolha de Jaden para protagonista. Compreende-se que Will Smith, um dos mentores deste projecto, como produtor e argumentista, pretenda alavancar a carreira do filho, o problema é que este ainda não tem unhas para tocar a guitarra que o pai lhe dá, algo que ainda fica mais notório quando ambos contracenam. Will Smith atribui uma aura de enorme dureza ao seu personagem, explorando um lado mais enigmático do seu personagem. Já Jaden surge como o típico personagem adolescente, que tem de ultrapassar os seus medos e enfrentar a passagem para a idade adulta num meio adverso, enquanto procura a aprovação do seu pai, um personagem complexo, que se perde na inexpressividade do seu intérprete, numa obra que está longe de ser desastrosa. Entre o melodrama da relação entre pai e filho e a construção de um futuro distópico credível, Depois da Terra esbarra num argumento inconstante e num Jaden Smith ainda sem estofo para estas andanças para dar algo mais do que um filme de ficção-científico irrelevante. No entanto, o elemento fulcral para After Earth ser arrasado é Shyamalan, com a crítica e o público a atacarem-no com uma ferocidade surpreendente, num filme algo injustiçado, cujo valor apenas poderá ser reavaliado com o passar dos anos. Um filme algo injustiçado. 11


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ISTO É O FIM!

Título original: This is the End Realização: Evan Goldberg, Seth Rogen Elenco: James Franco, Jonah Hill, Seth Rogen Ano: 2013

SARA GALVÃO

Depois, diz-nos Franco) e fazer a sequela do Pinnapple Express. Este filme é para nós. Se tivermos de escolher dois actores que nos agradaram particularmente, o destaque vai para James Franco e Danny McBride. A tensão entre eles - que chega a um final, err, escabroso - põe na sombra a história principal, da amizade “perdida” entre Jay e Seth. Mas tudo está bem quando bem acaba - se por acabar estamos a falar, exactamente, do Acabar Supremo e assim que o “bromance” de Franco e McBride chega a um fim de comer e chorar por mais, voltamos ao que interessa - se o que interessa for o momento de CGI mais anatomicamente e grandiosamente correcto (e tão, tão incorrecto) de sempre. Poderia fazer-se aqui uma interpretação de alto valor narrativo sobre o que significa para a comédia actual termos actores a interpretar versões caricaturadas deles próprios, trazendo para o filme um nível extra de conhecimento sobre as personagens que numa comédia mais tradicional não aconteceria - e assim piadas como Jonah Hill, o Nomeado para um Óscar, ou a ironia da reacção de Rihanna às tropelias de Michael Cera são cerejas no topo do bolo para aqueles da audiência que conseguem apanhar a referência e assim são recompensados pelo seu conhecimento de cultura popular contemporânea. E todos sabemos que comédias que nos fazem sentir inteligentes são uma espécie em vias de extinção e devem por isso ser protegidas a todo o custo. Por fim, há duas lições a tirar deste filme: a primeira, não comam a Milky Way do James Franco. A segunda, o Paraíso parece-se bastante com os anos 90.

Se sempre quiseram ver coisas horríveis acontecer ao Michael Cera e ao Jonah Hill, gostam de Milky Ways e pensam que a vida de um actor de Hollywood é um não acabar de festas e drogas, vão já ver Isto é o Fim! - a tradução exclamativa do último filme de Seth Rogen. Mas se não gostaram de Pineapple Express, ou se acham que a carreira do Craig Robinson tem vindo a descarrilar desde que ele fez aquele famoso episódio do PG Porn, bem... é melhor escolher outra coisa para ver. Não, as melhores piadas não estão no trailer. Este é um filme com Seth Rogen! O homem que interpreta sempre a mesma personagem, como somos lembrados nos primeiros cinco minutos do filme! História: É o Fim do Mundo. Há sítios piores para estar do que numa festa em casa do James Franco... ou haverá mesmo? Inspirado na curta Jay and Seth vs The Apocalypse de Jason Stone, This is the End põe o Apocalipse na verdadeira perspectiva do evento: a humana. Que fará o homem comum face à destruição da Humanidade? Mais importante, que farão actores como Jonah Hill? Porque, todos sabemos, pessoas que não são celebridades passam um bocado ao lado. Que o diga Jay, que ao vir passar o fim-de-semana com o velho amigo de infância Seth Rogen vê aquilo que seria uma festa de meninos de Hollywood - todos muito mais bem sucedidos que ele - rapidamente transformar-se numa luta pela sobrevivência. Para perceber a genialidade de This is the End há que recordar que esta é uma geração para quem fazer filmes na garagem com os amigos é a norma e não a excepção. Todos as histórias mirabolantes em que nos imaginámos com os nossos amigos enquanto adolescentes? Imaginem terem o orçamento e o elenco para fazer um verdadeiro filme disso, temperá-lo com todas as referências cinematográficas possíveis e imaginárias e, ao mesmo tempo, homenagear a cinefilia dos que não têm medo de pegar numa pequena câmara (a mesma que filmou 28 Dias

“Nobody puts Jay in the corner” 13


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ALÉM DA ESCURIDÃO: STAR TREK

Título original: Star Trek Into Darkness Realização: J. J. Abrams Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Benedict Cumberbatch Ano: 2013

SARA GALVÃO

Quando reencontramos Capitão Kirk, ele está a fugir de um grupo de aliens pré-civilizacionais enquanto Spock tenta parar uma erupção vulcânica... de dentro do próprio vulcão. Mais uns minutos que nos dão o mais estranho (e genial) lugar para esconder uma nave espacial, e vemos Kirk a quebrar regras da Starfleet para resgatar o seu antigo Vulcan desfavorito. E assim nos é dado o grande tema de Além da Escuridão - o tão esperado florescer do bromance entre Kirk e Spock. Agora que sabemos que J. J. Abrams irá ao lado do “inimigo” fazer o sétimo episódio da saga Star Wars, as expectativas não podiam estar mais altas para a nova aventura da USS Enterprise. Junte-se o teaser que deixou os fãs mais ferrenhos à beira de um ataque de coração - pelo “regresso” de um dos mais famosos vilões do universo Star Trek - e temos um dos filmes mais esperados do ano. Mas está longe de ser uma tarefa fácil, a de servir tanto o novo público (muito dele vindo pelo efeito Cumberbatch), como os que se iniciaram no filme anterior, até aos verdadeiros Trekkies que, bem, têm mais de 40 anos de material onde basear qualquer indignação. Principalmente quando este filme lida com o bebé querido de muitos fãs hardcore. E como se safa Abrams, no meio de tanta pressão? Surpreendentemente bem. Começa o filme a lançar-nos no meio da acção e só pára quando os créditos finais rolam. Ao ponto de por vezes a acção se sobrepor a tudo o resto, e o ritmo da edição e a quantidade de coisas que voam na nossa direcção (em glorioso 3D) abafar o próprio som dos diálogos. Mas os melhores momentos em Além da Escuridão são os que a câmara pára por momentos, e nos deixa rever as personagens que tão bem conhecemos, a comportarem-se de formas tudo menos familiares - se Kirk se mostra disposto a sacrificar tudo pela segurança da sua equipa, o intelectual e aparentemente insensível Spock tem a seu cargo a mais excitante sequência de luta de todo o filme... e ainda tem tempo para verter uma lágrima noutro momento chave.

Tal como no Star Trek original, a temática não se acanhou de piscar o olho à actualidade - e se temos o claro vilão, interpretado por Benedict Cumberbatch (Sherlock), a mostrar que até as incarnações do mal tem razões para o ser - o facto de Kirk ter de pela primeira vez (em termos de prequela) questionar a agenda política da Starfleet, reminescente da actual situação política dos Estados Unidos, mostra que, tal como nos “gloriosos” dias da Guerra Fria, a ficção científica continua a ser uma parábola pouco subtil da contemporaneidade. Desta vez, há menos flares para dar lugar ao 3D - se bem que os estúdios, inteligentemente, resolveram também lançar uma versão 2D simultânea. Tal como em todos os filmes onde o 3D é um pensamento pós-filmagens, desenhado mais para o lucro do que para desenvolver qualquer mérito artístico, Além da Escuridão pouco ou nada ganha ao ser visto através das escuras lentes maravilhas - pelo contrário, suspeitamos que o contrário estará mais próximo da verdade. Além do final um pouco previsível e talvez demasiado hollywoodano para certos gostos - os mesmos que estão agora habituados à impiedade de certas séries televisivas - Além da Escuridão peca por não fazer mais uso da brilhante interpretação de Cumberbatch, que rapidamente se tornou um dos actores mais promissores dos nossos dias. Há quem também acuse o filme de jogar pelo seguro, baseando-se bastante de perto na série e filmes originais, e não ousando criar ou acrescentar nada de novo à mitologia. Estará J. J. Abrams a jogar pelo seguro? Ou a criar uma homenagem sentida às suas fontes? Seja como for, mesmo com o efeito de dejà vu para alguns mais entendidos do universo Star Trek, e mesmo com os malditos óculos 3D, são duas horas excelentemente passadas a ir onde onde nenhum homem foi antes.

“Flare me up Scotty!“ 15


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HOMEM DE AÇO

Título original: Man of Steel Realização: Zack Snyder Elenco: Henry Cavill, Michael Shannon, Russell Crowe Ano: 2013

ANÍBAL SANTIAGO

Com uma campanha de marketing intensa, Man of Steel foi publicitado como um dos filmes-evento do ano, embora não tenha colhido unanimidade junto da crítica. Man of Steel não surge como uma obraprima, nem um desastre completo, sendo apenas mais um filme de super-heróis, que respeita uma estrutura narrativa muito semelhante em relação às outras obras do género, que visam arrecadar um número generoso em receitas e proporcionarem alguns momentos de escapismo ao espectador. Realizado por Zack Snyder, o novo filme do icónico super-herói tem o triplo desafio de abrir caminho para o filme da Liga da Justiça, fazer esquecer o desastre de Superman Returns e manter o sucesso da trilogia de Batman realizada por Christopher Nolan. Snyder consegue passar o teste com algum sucesso, embora esteja longe de algum brilhantismo, perdendo-se num último terço cheio de cenas de acção bem coreografadas mas excessivas, que banalizam o que de bom foi apresentado. Muitas foram as vozes que se levantaram contra Bryan Singer por este ter cerceado Superman Returns de cenas de acção. Snyder parece tê-los ouvido e proporciona doses de pancadaria e destruição em massa, ao colocar o Super-Homem frente ao General Zod (Shannon) e os seus fiéis seguidores. Zod surge pela primeira vez no grande ecrã no prólogo que nos apresenta a Krypton e ao contexto que envolve a vinda de Kal-El para a Terra, após ter sido enviado pelos pais, Lara (Zurer) e Jor-El (Crowe). Com o planeta destruído, Zod e a sua equipa presos na zona fantasma, a narrativa logo avança no tempo e somos transportados para a Terra, onde encontramos o protagonista como um estranho que anonimamente procura salvar seres humanos em perigo, um anonimato que é colocado em perigo quando conhece a intrépida jornalista Lois Lane. A inesperada chegada de Zod à Terra logo traz a destruição, conduzindo Clark a ter de tomar uma posição clara em relação às suas pretensões.

Apoiado por um argumento escrito por David Goyer e com o auxílio de Christopher Nolan (produção e argumento), Man of Steel surge como uma nova história de origem do icónico personagem da DC Comics, procurando adequá-la ao público dos dias de hoje, deixando de lado algum romantismo e ingenuidade de Superman (1978). Snyder dá um tom mais sombrio ao herói, aproveita a herança e colaboração de Nolan e desenvolve uma obra cinematográfica com mais acção e violência, que é capaz de construir a mitologia em volta do personagem, até partir para a acção desenfreada. Não falta o dilema do extraterrestre que se sente um estranho no interior da sociedade que o acolheu, o dilema de Clark entre pender para o lado humano ou kryptoniano do seu ser, a importância de Jonathan e Martha Kent na formação de Clark, a metáfora messiânica associada ao herói, ou seja, existe todo um conjunto de elementos que procuram construir a identidade do personagem junto dos espectadores. Se esta procura em estabelecer a mitologia resulta, dando espaço a elementos como Henry Cavill, Russell Crowe e Michael Shannon sobressaírem, o mesmo não acontece quando Snyder surge com toda a sua ânsia de exibir pancadaria, com longas e impressionantes cenas de acção, mas igualmente repetitivas e redundantes, por vezes a fazerem lembrar Dragon Ball Z e as obras de Michael Bay, que impressionam do ponto de vista visual, embora nem sempre acrescentem algo à narrativa. Juntamos a tudo isto uma incomodativa câmara inquieta, um argumento com alguns plot holes e uma incapacidade em desenvolver a relação amorosa entre Clark e Lois, e percebemos que as pretensões de grandeza do filme não passam disso mesmo. Recheado de acção, uma eficaz construção do protagonista e uma banda sonora portentosa, Man of Steel marca o regresso do Super-Homem ao grande ecrã, numa obra demasiado irregular para atingir a excelência, mas que nos deixa com uma enorme curiosidade em relação ao próximo filme da saga.

“(...) uma obra demasiado irregular para atingir a excelência, mas que nos deixa com uma enorme curiosidade em relação ao próximo filme da saga.” 17


BATALHA DO PACÍFICO

Título original: Pacific Rim Realização: Guillermo Del Toro Elenco: Idris Elba, Charlie Hunnam, Ron Perlman Ano: 2013

ESTREIA 18.07.2013 ANÍBAL SANTIAGO

Depois de ter abandonado o cargo de realizador de The Hobbit e de ter visto a adaptação de At The Mountains of Madness ser cancelada durante a pré-produção, Guillermo Del Toro regressa às salas de cinema com Pacific Rim, um filme de ficção-cientifica que promete fazer as delícias dos fãs do género. Tendo como pano de fundo um futuro próximo, onde criaturas monstruosas chamadas de Kaiju saem das profundezas do Oceano Pacifico e atacam a Terra, Pacific Rim acompanha um grupo de humanos que procuram combater os invasores, com auxílio de robôs gigantes controlados por dois pilotos, os Jaeger. Como se pode verificar pela premissa e pelo material promocional, fica a promessa de muita acção e emoção ao longo de Pacific Rim, enquanto Del Toro procura desenvolver um intrincado filme de ficção-cientifica, que utiliza o legado dos clássicos filmes de monstros japoneses para proveito

próprio, ao mesmo tempo que parece tirar inspiração de obras como Evangelion e Transformers. Ao longo das entrevistas que concedeu, Del Toro tem procurado afastar a ideia de que Pacific Rim é um mero pastiche, tendo salientado a importância de dar algo novo ao espectador, de apresentar efeitos especiais de bom nível, de atribuir uma noção de fisicalidade nos combates para criar uma sensação de verdadeira destruição, para além de todo um cuidado na conversão para 3D. Diga-se que Pacific Rim não foi desenvolvido para ser lançado em 3D, algo que tem levado a alguma especulação sobre as verdadeiras razões para Del Toro ter alterado a sua opinião. No entanto, com um currículo onde consta Hellboy e O Labirinto do Fauno, Del Toro merece no mínimo o benefício da dúvida e expectativas bastante positivas.

“(...) um filme de ficção-cientifica que promete fazer as delícias dos fãs do género.”

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ELYSIUM

Título nacional: Elysium Realização: Neill Blomkamp Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley Ano: 2013

ESTREIA 15.08.2013 ANÍBAL SANTIAGO

Depois de ter surpreendido o público e até a crítica com District 9, Neill Blomkamp prepara-se para apresentar ao Mundo mais um filme de ficçãocientifica que partiu de uma ideia original, embora desta vez conte com um orçamento mais elevado e um elenco recheado de caras conhecidas, onde não faltam nomes como Matt Damon e Jodie Foster. A premissa é deveras interessante, com Elysium a ter como pano de fundo um futuro não muito distante onde o mundo é dividido em dois grupos: os muito ricos, que vivem numa estação espacial chamada Elysium, e os outros, que vivem num planeta Terra superpovoado e arruinado. A secretária Rhodes, uma dura governante vai procurar fazer de tudo para preservar o estilo de vida luxuoso dos cidadãos de Elysium, algo que vai ser colocado em causa por Max, um herói improvável que pode trazer a igualdade entre estes dois mundos polarizados.

Com uma premissa a fazer lembrar a estrutura da sociedade dual apresentada em Metropolis de Fritz Lang, Elysium coloca-nos perante um mundo distópico onde ricos e pobres se encontram separados, prometendo efectuar um comentário às discrepâncias sociais e económicas da sociedade contemporânea, através da representação de um futuro apocalíptico idealizado por Blomkamp. A esse comentário social, Elysium promete ainda muita acção, tecnologia avançada, naves, corpos humanos modificados, um Matt Damon com uma espécie de fato biomecânico e muita emoção, apresentando elementos que parecem bem semelhantes a obras como District 9 e Mad Max, enquanto Blomkamp tem a difícil tarefa de confirmar os bons indicadores deixados na sua primeira longa-metragem. Uma obra de ficção-cientifica a ter em atenção.

“(...) Elysium coloca-nos perante um mundo distópico onde ricos e pobres se encontram separados(...)”

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R.I.P.D.: AGENTES DO OUTRO MUNDO

Título nacional: R.I.P.D. Realização: Robert Schwentke Elenco: Ryan Reynolds, Mary-Louise Parker, Jeff Bridges Ano: 2013

ESTREIA 05.09.2013 CARLOS REIS

Aventura sobrenatural a três dimensões em tom de comédia de acção, R.I.P.D. é um acrónimo para "Rest in Piece Department", nada mais nada menos que o nome do departamento policial para o qual o... falecido detective Nick Walker (Ryan Reynolds) vai trabalhar após uma morte inesperada. Proteger e servir os vivos continua então a ser o seu lema, já que comandado pelo veterano Roy Pulsifer (Jeff Bridges), Nick vai proteger o seu antigo mundo de várias almas destruidoras que não aceitam lá muito bem a transição para este outro lado do limbo. Estes espíritos monstruosos estão muitas vezes disfarçados de pessoas normais e pouco tardará até à dupla descobrir uma conspiração destes defuntos criminosos para terminar com a vida como a conhecemos no nosso querido planeta dos vivos. Não vai restar outra hipótese a Walker e Pulsifer que não restaurar o equilíbrio cósmico no universo e evitar assim

um apocalipse entre os vivos. Por mais que se tente evitar, seria uma ilusão escapar à comparação mais do que óbvia que todos usaram quando saiu o primeiro trailer de R.I.P.D.: o filme de Robert Schwentke (Red) é uma mistura descarada de dois históricos blockbusters do cinema norte-americano; falamos, claro, de Men in Black e de Ghostbusters. Diversão não deverá portanto faltar ao espectador, ainda para mais com Jeff Bridges a parodiar o seu papel e estilo em True Grit, numa adaptação de uma banda-desenhada relativamente desconhecida que foi lançada pelo primeira vez em 1999. Na química entre o velho e resmungão e o bonito e inexperiente, certamente não irão faltar uma mão cheia de momentos para soltar umas gargalhadas e justificar uma ida ao cinema.

“(...) é uma mistura descarada de dois históricos blockbusters do cinema norte-americano (...)”

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CINEMA E GUERRA FRIA FICÇÃO CIENTÍFICA NORTE-AMERICANA NA DÉCADA DE 50 ANÍBAL SANTIAGO

Com o final da II Guerra Mundial, o panorama internacional conheceu algumas alterações notórias. A Europa encontrava-se devastada pela Guerra, “física” e psicologicamente, deixando definitivamente de ser a grande potência Mundial, passando a estafeta para os Estados Unidos da América. Os EUA tinham o seu território intacto após o conflito, as baixas que sofreram não atingiram tanto a demografia nacional como na Europa, e encontrava-se com uma pujança económico-financeira assinalável. O final do conflito trouxe também o adensar das divergências entre os Estados Unidos e União Soviética, algo que vai conduzir ao início da Guerra Fria, onde o mundo é ideologicamente dividido entre Bloco Capitalista (associado aos EUA) e Bloco Comunista (associado à URSS). Esta "paz armada" entre EUA e União Soviética decorreu entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e a extinção da União Soviética (1991), um período no qual EUA e USSR esgrimiram argumentos, investiram na tecnologia sobretudo associada ao armamento, patrocinaram vários conflitos ao redor do Mundo, com ambas as nações a protagonizarem episódios nem sempre felizes. Nos Estados Unidos da América, este conflito traduziu-se não só numa procura de superiorizarem-se ideológica, tecnologicamente, militarmente e culturalmente à União Soviética, mas também numa paranóia interna que teve no Macartismo alguns momentos menos felizes, que resultaram


numa "caça às bruxas" à procura de traidores e espiões ao serviço da USSR no território dos EUA, mesmo que para isso tivessem de contornar a lei e efectuar actos menos recomendáveis. As temáticas relacionadas com a Guerra Fria surgiram representadas num vasto conjunto de obras cinematográficas, que variavam de géneros como drama, guerra, comédia, ficção-científica, entre outros. Numa edição da Take Cinema Magazine dedicada ao Apocalipse e às temáticas relacionadas com o mesmo, decidimos elaborar um breve artigo, relacionado com os filmes de ficção científica norte-americanos lançados durante a década de 50. A escolha desta década não foi ao acaso. Estávamos num período de grande fulgor produtivo de obras de ficção científica nos Estados Unidos da América, que traduziam e bem o clima de paranóia da Nação e ideologicamente transmitido à mesma, ou nesta década não estivéssemos perante a chamada "Segunda Ameaça Vermelha" (1947-1957) ou Macartismo. Associada a esta "paranóia", tínhamos ainda a participação dos EUA na Guerra da Coreia, em defesa da Coreia do Sul, contra a Coreia do Norte e os seus aliados (entre os quais a União Soviética), a intrincada divisão do território alemão, entre outros elementos que indicam uma crescente influência dos Estados Unidos da América na diplomacia internacional da época. Todo este contexto histórico intrincado e complexo acabou por influir nas temáticas das obras cinematográficas, que entroncam no ambiente

político, social, económico e cultural dos EUA durante este período. No caso das obras de ficção-científica, não faltam as invasões extraterrestres simbolizadoras do clima de paranóia em relação a um inimigo que vem de fora, as experiências nucleares que resultam em catástrofes como a criação de monstros destruidores, viagens no espaço, o receio em relação às armas nucleares, entre outras temáticas. Para melhor dividir as temáticas relacionadas com os filmes e agilizar a leitura das mesmas, decidimos dividir as obras em três subunidades: "O Invasor de Outro Planeta ou o Representante da Ameaça Externa?", "A Ameaça Nuclear plasmada nas figuras Monstruosas" e "A Corrida ao Espaço", tendo sido escolhidos um conjunto de filmes para visionamento. As obras cinematográficas foram seleccionadas devido a serem consideradas adequadas e pertinentes para as temáticas abordadas, embora muitos filmes tenham ficado de fora, algo que se deve ao carácter aberto do artigo, que pretende não só abordar um conjunto de temas relacionados com os filmes de ficção científica, o período histórico no qual foram elaborados e aquilo que representam, mas também servir de janela de abertura para muitos outros artigos sobre o tema. Nenhum artigo é definitivo, este também não o será, embora pretenda explorar algumas das possibilidades temáticas oferecidas pelas obras.

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mas eram claramente desastrosos para a humanidade ao trazerem os mortos de volta à vida para dominarem os vivos. O filme foi recordado para sempre pelas piores razões, ou não tivesse Ed Wood granjeado o epíteto de "pior realizador de sempre", embora com o tempo tenha conquistado um certo estatuto de clássico trash, onde não falta uma memorável apresentação e encerramento de Criswell, efeitos especiais completamente manhosos (mesmo para a época), um Bela Lugosi no ocaso da sua carreira (seria o seu último filme, tendo falecido na época das filmagens), Vampira e Tor Johnson em papéis embaraçosos, diálogos de qualidade duvidosa, entre outros "tesourinhos deprimentes".

O INVASOR DE OUTRO PLANETA OU O REPRESENTANTE DA AMEAÇA EXTERNA? Uma das temáticas transversais a vários filmes de ficção científica da década de 50 centra-se na chegada de extraterrestres à Terra. Estes poderiam tentar consciencializar a população da Terra para abdicarem de utilizar as armas nucleares como Klaatu em The Day the Earth Stood Still (caso contrário sofrem represálias) ou pura e simplesmente serem um conjunto de seres destruidores que se preparam para arrasar com o nosso planeta, algo representado em obras como The Thing From Another World, onde encontrávamos uma figura monstruosa pronta a drenar o sangue daqueles que dela se aproximam, no entanto, quase todos apresentavam uma temática transversal: o medo em relação ao estrangeiro que chega de fora. A esta situação não podemos ficar indiferentes não só à tensão entre Estados Unidos da América e União Soviética, mas também devido a toda a propaganda inerente a este conflito ideológico, e ao Macartismo. Durante o período do Macartismo, nomeadamente, desde o início da Guerra Fria até 1958, foram vários os cidadãos norte-americanos (ou em solo americano) acusados de ser comunistas, tornando-se alvo de investigações e acusações sem grande recolha de provas, numa espécie de "caça às bruxas", que atingiu inclusivamente a área cultural, com vários actores, actrizes, realizadores e argumentistas a terem vários problemas.

A mensagem anti-nuclear está presente ao longo do filme, embora surja extraviada devido à incapacidade e incompetência de Ed Wood em conseguir transpor para o ecrã as suas ideias. Diga-se que o epíteto de "pior filme de sempre" não assenta que nem uma luva ao filme. Ao longo dos anos temos assistido a obras bem piores e sem o estilo naïve e bem intencionado de Wood, que nutria um enorme amor pelo cinema, embora fosse incompetente. Se Plane 9 From Outer Space é um clássico trash, já The Thing From Another World surge como um clássico pelo seu inestimável valor. Realizado oficialmente por Christian Nyby, embora conste que Howard Hawks tenha realizado a obra (ou pelo menos boa parte da mesma), The Thing From Another World é paradigmático na representação da ameaça externa, através de uma criatura monstruosa que ameaça as vidas de todos aqueles que se aproximam de si, com os militares a procurarem eliminá-la, enquanto o cientista procura proteger a criatura em nome da ciência. Esta representação do cientista como uma figura que apenas pretende os avanços da ciência, mesmo que para isso coloque em causa a vida humana, surge representativa do clima de suspeição em volta dos avanços tecnológicos, em particular na tecnologia nuclear e na sede dos cientistas em avançar, mesmo que as invenções possam colocar em perigo a humanidade.

O termo remete para o senador Joseph McCarthy do Wisconsin, enquanto a atmosfera de paranóia surge bem presente ao longo dos filmes abordados neste artigo, onde até o lendário Ed Wood apresentou uma obra representativa deste clima de suspeição, nomeadamente Plan 9 from Outer Space, onde um conjunto de extraterrestres dirigiu-se em direcção à Terra para evitar que os humanos destruíssem o sistema solar com uma arma de destruição maciça. Os propósitos destes extraterrestres até podiam ser simpáticos para com o sistema solar, 25


A figura do cientista surge expressa através da figura do Dr. Arthur Carrington (Robert Cornthwaite), que não tem problemas em salientar "There are no enemies in science, only phenomena to be studied" e "We owe it to the brain of our species to stand here and die... without destroying a source of wisdom", afirmações que representam paradigmaticamente a mensagem que o filme procura transmitir. Se o cientista aparece como uma figura meio nebulosa, já o exército norte-americano aparece pronto a defender a humanidade, um elemento simbólico, sobretudo se tivermos em conta que os soldados dos EUA se encontravam a participar na Guerra da Coreia, a supostamente defender a Coreia do Sul da Coreia do Norte (e da aliada desta, a USSR). Diga-se que as mensagens do filme não se ficam contra as possibilidades negativas da ciência e dos avanços científicos, procurando ainda avisar os espectadores dos inimigos que podem chegar vindos do céu: "And now before giving you the details of the battle, I bring you a warning: Everyone of you listening to my voice, tell the world, tell this to everybody wherever they are. Watch the skies. Everywhere. Keep looking. Keep watching the skies". A mensagem tanto pode ser vista como uma ameaça extraterrestre, mas também a ameaça do inimigo Soviético, que pode inesperadamente atacar o território dos EUA pelo ar e causar graves transtornos ao mesmo. Se The Thing From Another World apresenta um monstro destruidor vindo do espaço, já The Day the Earth Stood Still apresenta-nos a Klaatu,

o icónico extraterrestre interpretado por Michael Rennie, que chega à Terra para avisar a humanidade que a organização para a qual trabalha pretende destruir a Terra se os humanos continuarem a avançar com a corrida ao armamento e desenvolvimento de armas nucleares. Pelo meio encontramos o habitual clima de suspeição, associado à Guerra Fria e à ameaça do inimigo que vem de fora, não um soviético, mas sim um extraterrestre. No entanto, The Day the Earth Stood Still é bem eficaz em separar os cidadãos norte-americanos do seu Governo, fazendo uma certa auto-crítica que rompe com a apologia ao papel do militar apresentada em The Thing From Another World. A estes exemplos podemos juntar muitos outros. Veja-se o caso de Zombies of the Stratosphere, um serial dividido em doze capítulos, que contava com Judd Holdren como Larry Marty, um indivíduo com um fato que lhe permite voar, tendo de enfrentar uma ameaça extraterrestre, cujos elementos (um deles interpretado por Leonard Nimoy) pretendem destruir o nosso planeta com uma bomba atómica, contando com o apoio de um cientista humano que não se importa de trair a humanidade para poder salvar a sua vida. No entanto, nem todas as ameaças extraterrestres eram visíveis, que o digam os personagens de Invasion of the Body Snatchers (1956), em particular o Dr. Miles Bennell (Kevin McCarthy), que têm de lidar com 26


uma perigosa ameaça extraterrestre, cujos seres parecem semelhantes aos seres humanos de quem copiam o formato corporal, embora não contenham as suas memórias e sentimentos. Esta obra realizada pelo lendário Don Siegel é talvez a que melhor se insere no âmbito deste artigo, reflectindo vários dos pontos abordados. Não falta a invasão externa que invade os EUA, a desconfiança em relação ao outro e acima de tudo a representação da ameaça invisível. Bastava trocarmos extraterrestres por espiões russos, que logo encontrávamos toda esta paranóia em relação aos agentes soviéticos infiltrados no interior da sociedade norte-americana, que se confundiam no interior dos comuns cidadãos norte-americanos.

em que a 30 de Outubro de 1938, pelas 20h00, Orson Welles anunciava aos seus ouvintes na rádio algumas notícias que geraram o pânico: um meteorito vindo de Marte tinha caído em Nova Jersey e trazia consigo um exército de extraterrestres prontos a massacrarem a humanidade. Os ouvintes entraram em pânico, pensando que a história contada por Welles era verdadeira, um efeito que o filme nunca causou, embora consiga expressar de forma bastante efectiva um ataque extraterrestre à Terra, bem como a curiosidade inicial dos humanos e o posterior pânico quando os invasores destruidores começam a atacar de forma implacável. As invasões extraterrestres surgiam assim como uma das temáticas mais utilizadas pelos filmes de ficção científica do período de tempo em análise, diferindo na forma como estes seres eram representados e nas suas intenções, bem como na maneira como os humanos lidavam com estes seres vindos de outro planeta, embora tenha sido quase transversal o clima de paranóia que envolveu os mesmos. Este clima de paranóia reflecte e muito a ameaça sentida no interior dos EUA em relação ao inimigo externo, uma temática que reflecte bem a convulsão deste período. Quem também reflecte elementos ligados à história do seu tempo é a próxima subunidade temática "A Ameaça Nuclear Plasmada nas Figuras Monstruosas".

As obras cinematográficas sobre ameaças que vinham do espaço não se ficam pelos filmes acima mencionados. Casos como The Man From Planet X (1951) de Edward G. Ulmer, Invaders From Mars (1953) de William Cameron Menzies, Killers From Space (1954) de W. Lee Wilder, It Conquered the World (1956) de Roger Corman, I Married a Monster From Outer Space (1958), The Blob de Irvin Yeaworth, Teenagers From Outer Space (1959), e o incontornável War of the Worlds (1953) de Byron Haskin abordavam estas temáticas do invasor vindo do exterior. No caso de War of the Worlds, a adaptação do livro homónimo de H.G. Wells, a fama do filme muito dificilmente consegue ultrapassar o célebre episódio 27


Árctico, cujos efeitos secundários preparam-se para ser arrasadores ao despertar um dinossauro que se encontrava em hibernação, o (ficcional) Rhedosaurus. O dinossauro logo parte para a destruição no caminho até chegar a Nova Iorque, deixando atrás de si um rasto enorme de devastação, enquanto os efeitos especiais do lendário Ray Harryhausen sobressaem, bem como a mensagem anti-nuclear transmitida pelo filme. Não nos podemos esquecer que o monstro despertou após uma experiência militar, causando uma enorme destruição pelo caminho, embora levante uma enorme curiosidade junto dos elementos representantes da comunidade científica.

A AMEAÇA NUCLEAR PLASMADA NAS FIGURAS MONSTRUOSAS: O ataque a Hiroxima e Nagasáqui permitiu dar bem uma ideia do poder destruidor das armas nucleares. Se hoje em dia ainda continuam temidas, na época assistia-se ainda a um enorme desconhecimento em relação à energia nuclear, algo que se traduz em encontrarmos a mesma a ter efeitos como causar mutações em criaturas que se transformam em monstros. Diga-se que este não é um fenómeno exclusivo ao cinema, veja-se os casos dos livros de banda desenhada, onde não falta um Incrível Hulk, que surge depois de Bruce Banner ter sido sujeito a enormes radiações. No caso das obras de ficção-cientifica do período em questão, não faltam uma série de criaturas que surgem devido à radiação. Desde dinossauros a caranguejos gigantes, passando por monolitos perigosos e aranhas gigantes, várias foram as criaturas que surgiram, despertaram ou foram transformadas graças à radiação.

Se em The Beast From 20,000 Fathoms encontramos um dinossauro que desperta graças aos testes nucleares, já em obras como Them! (1954) de Gordon Douglas, Tarantula (1955) de Jack Arnold, It Came from Beneath the Sea (1955) de Robert Gordon tínhamos animais que se transformaram em criaturas destruidoras graças à radiação. Assim, tínhamos em Them! uma formiga gigante que atira ácido em direcção às suas vítimas, um ser que conheceu mutações provocadas pela energia atómica, devido a um conjunto de testes atómicos no deserto do Novo México. Em Tarantula, encontrávamos, como o título indica, uma tarântula... gigante, tudo graças ao contacto com tecnologia atómica. Já em It Came from Beneath the Sea os personagens tiveram de lidar com

Um dos primeiros exemplos da presença destas figuras monstruosas nas obras cinematográficas no período inicial da Guerra Fria é The Beast From 20,000 Fathoms, uma obra de ficção científica realizada por Eugène Lourié, que mais tarde viria a ser uma das fontes de inspiração de Godzilla. Lançado originalmente a 13 de Junho de 1953, o filme logo nos apresenta a um teste de uma bomba atómica no Circulo Polar 28


um polvo ameaçador, tal como os personagens de Attack of the Crab Monsters (1957) de Roger Corman tinham de lidar com caranguejos de proporções gigantes e ameaçadores.

efeitos especiais, maus diálogos e Bela Lugosi em plena decadência e doses homeopáticas, onde não falta a presença de um polvo com super poderes que ameaça aqueles que dele se aproximarem. O polvo ganha poderes graças a um raio atómico criado pelo Dr. Eric Varnoff (Bela Lugosi), uma tecnologia que tentou aperfeiçoar em humanos, tendo efeitos destruidores num polvo que surge em toda o esplendor dos ridículos efeitos especiais do filme. Ed Wood era bem intencionado, mas as suas obras eram bastante limitadas pela sua enorme falta de talento, embora, analisando com rigor os vários filmes mencionados no artigo, possamos afirmar que as suas obras nem eram do pior que podíamos encontrar nesta década.

A exploração dos possíveis efeitos da radiação e o jogo do medo da população em relação à energia atómica não se ficou apenas pela apresentação de animais irracionais gigantes. Em The Amazing Colossal Man (1957), de Bert I. Gordon, o enredo centrava-se em Glenn Manning, um oficial do exército norte-americano, que é colocado em contacto com uma enorme dose de radiação graças à explosão de uma bomba. Esta situação provoca-lhe um crescimento desmedido e um comportamento que aos poucos começa a colocar todos em perigo, incluindo aqueles que o querem curar (não falta uma seringa gigante espetada contra um dos humanos que o pretendia curar). Este é o exemplo de uma obra que resolve utilizar um humano como criatura monstruosa devido ao efeito da radiação, uma temática menos comum, em relação às obras com animais mutantes monstruosos com força fora do comum, algo que até Ed Wood resolveu abordar.

Estas obras de ficção-científica obtiveram algum sucesso junto do público, provocavam algumas doses de entretenimento e ainda conseguiam (consciente ou inconscientemente) retratar o clima de paranóia em relação às armas nucleares e aos efeitos nem sempre positivos dos avanços científicos, através destas criaturas. Num artigo sobre os filmes de ficção-científica elaborados e lançados durante a década de 50, não podíamos ainda deixar de abordar os filmes que contam com temáticas relacionadas com idas ao espaço. É neste contexto que avançamos para o subcapítulo "A Corrida ao Espaço".

Também Ed Wood teve a ideia de desenvolver o seu filme com seres modificados com energia atómica, nomeadamente em Bride of the Monster, uma obra cinematográfica desastrosa, recheada de maus 29


A CORRIDA AO ESPAÇO: Durante a Guerra Fria, as duas potências destacaram-se ainda na procura de atingir a supremacia na exploração e tecnologia espacial, com invenções e avanços pioneiros na exploração do espaço, vistos como fulcrais para a segurança nacional e para a afirmação tecnológica e ideológica de cada nação. O cinema norte-americano também não ficou indiferente a esta situação e assim encontramos obras como Destination Moon (1950) de Irving Pichel, Rocketship XM (1950) de Kurt Neumann, Red Planet Mars (1952) de Harry Horner, Abott and Costello go to Mars (1953) de Charles Lamont, Cat-Women of the Moon (1953) de Arthur Hilton, Conquest of Space (1954) de Byron Haskin, Forbidden Planet (1956) de Fred M. Wilcox, entre outras. Se Abott and Costello go to Mars leva as viagens ao espaço num tom leve, já obras como Destination Moon, Rocketship XM e Forbidden Planet tinham mensagens bem claras. Destination Moon destacou-se desde logo por ser um dos primeiros filmes de ficção-científica norte-americanos a procurar apresentar com algum rigor científico a possível ida do ser humano à Lua (algo que só viria a acontecer 1969).

empreendedorismo dos empresários norte-americanos. Junta-se ainda a presença da desconfiança em relação ao inimigo externo que pode estar a tentar sabotar a tentativa dos EUA chegarem à Lua e temos uma mensagem clara anti USSR e pró-tecnologia, que surge ainda alicerçada numa procura em atribuir algum rigor científico e didatismo à narrativa, não faltando um trecho de animação protagonizado por Woody Woodpecker, onde o famoso pica-pau apresenta o funcionamento da nave.

A obra realizada por Irving Pichel começa por nos apresentar a um teste com um foguetão falhado, algo que conduz ao findar dos fundos concedidos pelo Governo para o projecto. Perante esta situação, o General Thayer (Tom Powers) consegue convencer o magnata de construção aeronáutica Jim Barnes (John Archer) a desenvolver e aperfeiçoar o projecto que o primeiro se encontra a trabalhar com o Dr. Charles Cargraves (Warner Anderson). Após alguns percalços, o foguetão é enviado para a Lua com uma equipa, que conseguiu chegar ao seu destino final e pisar pela primeira vez o solo lunar, dando a desejada sobremacia aos EUA. Visto nos dias de hoje, o filme representa claramente a ideia partilhada pelos EUA e USSR, de que a primeira nação a conseguir a chegar à Lua e dominar a tecnologia espacial, conquistava uma superioridade científica, militar e ideológica em relação à outra potência. É nesse sentido que chegamos a encontrar uma mensagem bastante directa de incentivo ao investimento privado no desenvolvimento da tecnologia espacial, com o filme a mostrar o seu jingoísmo arreigado e uma propaganda directa onde não faltam frases de efeito como "(...) o primeiro país que utilizar a Lua como base para lançamento de mísseis controlará a Terra" ou "A indústria Americana deve colocar mãos a obra", ou seja, Destination Moon não esconde a procura de incentivo ao investimento na tecnologia espacial e ao

Com temáticas relativamente semelhantes a Destination Moon, embora com um orçamento reduzido e menos rigor científico, Rocketship XM apresenta-nos a uma expedição formada por uma equipa intrépida em direcção à Lua. No entanto, a viagem à Lua não corre como o esperado e a equipa logo vai parar em direcção a Marte, onde encontram um território devastado devido à utilização de armas nucleares. Rocketship foi desenvolvido num curto espaço de tempo e com um orçamento baixo mesmo para a época para fazer concorrência a Destination Moon e estrear antes do filme de Irving Pichel, um desiderato atingido, embora o filme de Kurt Neumann surja com um argumento bem mais simples, pouco preocupado com o rigor científico e com uma clara mensagem anti-nuclear. O filme conta com o argumento de Donald Trumbo, um indivíduo que se encontrava na Black List dos americanos ligados ao 30


Comunismo, embora tenha desenvolvido um argumento que inicia uma onda mais pacifista de obras de ficção-científica, de consciencialização perante os perigos das armas nucleares, mesmo num ano (1950) em que era uma atitude pouco consensual no interior dos EUA.

como clara inspiração a peça "The Tempest" de William Shakespeare, Forbidden Planet destaca-se pela exploração dos personagens e do planeta ao invés da acção, embora não falte uma criatura monstruosa e algumas reviravoltas que incrementam o valor de entretenimento do filme.

Apesar das boas intenções das obras já sugeridas neste subcapítulo, importa salientar que poucas conseguiram apresentar a ambição e os valores de produção de Forbidden Planet de Fred M. Wilcox. Forbidden Planet foi um dos primeiros filmes a apresentar a deslocação de um grupo de humanos numa nave espacial em direcção a outro planeta, nomeadamente, a Altair IV, tendo ainda servido de inspiração para outras obras e séries de ficção científica, em particular, Star Trek, no que diz respeito à exploração de diferentes planetas. No caso de Forbidden Planet, o enredo tem como pano de fundo um futuro próximo, nomeadamente, o ano 2200, no qual os seres humanos procuram explorar outros planetas, após terem aperfeiçoado naves capazes de se deslocarem à velocidade da luz. O filme centra-se numa equipa liderada pelo Comandante John J. Adams (Leslie Nielsen), que procura investigar o que aconteceu a uma equipa enviada para uma expedição há 20 anos. No local, estes deparam-se apenas com o Dr. Edward Morbius, o robô Roby e a filha de Morbius, a bela Altaira (Anne Francis), devido à restante tripulação ter sido eliminada por uma espécie de força planetária. Tendo

Estas obras mencionadas têm em comum o facto de abordarem a chegada do homem ao espaço, reflectindo um pouco a procura que se assistia na época do desenvolvimento tecnológico a nível espacial, com alguns filmes a conseguirem aliar o valor de entretenimento com uma procura de apresentar elementos que dão alguma veracidade científica. Existia a noção de que a primeira potência a chegar à Lua e colocar em solo lunar o primeiro ser humano ganhava vantagem a nível ideológico, político, militar, cultural e tecnológica, algo paradigmaticamente representado em Destination Moon. No caso de Destination Moon tínhamos uma procura de mostrar com algum realismo a possibilidade do ser humano chegar à Lua, embora aliada a uma mensagem jingoísta e propagandística, diferindo de obras como Forbidden Planet que se concentravam mais na exploração de um planeta distinto, na forma como este afecta os personagens e nos relacionamentos destes, para além de ainda contar com um ser destruidor que se encaixa perfeitamente nesta temática apocalíptica. 31


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50 isso é algo relativamente fácil de discernir no conjunto de obras seleccionadas. Veja-se o caso do subcapítulo das figuras monstruosas, onde encontramos um conjunto de animais que se transformaram ou acordaram graças à energia nuclear. No entanto, mesmo no interior de temáticas semelhantes, podemos encontrar abordagens algo divergentes, algo visível no subcapítulo dos invasores vindos do espaço, onde tanto poderíamos encontrar invasores que procuram despertar as consciências dos seres humanos, como os invasores que vinham para destruir tudo levando os humanos a terem de combater.

CONCLUSÃO: Neste artigo pretendemos analisar algumas temáticas relacionadas com os filmes de ficção científica norte-americanos desenvolvidos e estreados durante a década de 50, sempre tendo em conta a temática apocalíptica da revista e o contexto político, social e cultural que integrou a elaboração das obras cinematográficas. Este foi um período bastante profícuo na elaboração de obras de ficção científica, tendo proporcionado alguns clássicos como The Day the Earth Stood Still, The Thing From Another World, The War of the Worlds, Forbidden Planet, bem como alguns "clássicos trash" como Plan 9 From Outer Space, ou seja, um vasto conjunto de filmes que utilizam muitas das vezes a ficção para apresentar pequenos comentários sobre a realidade política, económica e social da época, uns com maiores doses de fantasia, outros que procuravam incutir alguma veracidade científica, e ainda tínhamos o extraterrestre Ed Wood cujas mensagens que pretendia passar esbarravam na sua crónica incompetência.

Ao longo dos anos 50, assistimos assim a um conjunto bastante lato de obras cinematográficas de ficção-científica, que entroncavam nas temáticas próprias do seu tempo. Os filmes de ficção-científica não começaram nem terminaram no período de tempo deste artigo, no entanto, ao longo dos anos 50 assistimos a um número generoso de obras cinematográficas, cuja popularidade foi considerável aquando do seu lançamento, sendo importantes documentos históricos de um período conturbado da história norte-americana e até do Mundo, contendo temáticas ainda bastante relevantes nos dias de hoje. Foi exactamente essa relevância e proficuidade aliada à forma como as suas temáticas casam com o período de tempo em que foram produzidas que levaram à elaboração deste artigo, cujas ambições não passam por conquistar o Mundo ou destruí-lo com armas atómicas, mas sim abordar e dar a conhecer algumas obras cinematográficas que podem e devem ser alvo da nossa reflexão.

Como é possível verificar, as obras de ficção-científica deste período não ficaram indiferentes à realidade que englobava a sua elaboração, algo notório na abordagem das temáticas relacionadas com a invasão externa, viagens a planeta distantes, ameaça nuclear, o papel relevante dos militares e dos cientistas (para o bem e para o mal) mas também na repetição das mesmas. Hollywood repete as suas fórmulas de sucesso e no caso dos filmes de ficção científica dos anos 33


antes, um final feliz como o de Armageddon contentava o público; hoje teria sido um flop reactivo, pois são vários os testes de audiência recentes que revelam frequentemente total frustração para desfechos "irreais". E, por "irreal", o público demonstra que hoje é impensável pensar em guerras ou cataclismos globais sem incontáveis - senão mesmo irreversíveis - perdas humanas e materiais. E, deste modo, Hollywood e a indústria cinematográfica em geral não puderam ignorar esta nova realidade, bem como adaptar-se a ela.

A INFLUÊNCIA DO 11 DE SETEMBRO NO CINEMA APOCALÍPTICO

Assim, qualquer vilão é hoje visto na mente do receptor como um terrorista - até porque é trabalhado pelos guionistas nesse sentido. As teorias da conspiração entram em quase todas as narrativas de forma minimamente credível, porque elas próprias tiveram o seu espaço em todos os acontecimentos que assombraram os Estados Unidos da América nesse período negro da sua história. Os próprios filmes de superheróis ficaram mais negros, baseando-se em sentimentos de vingança contra o mal e não apenas de justiça e moralidade para com o que é correcto. E, como nunca antes, os vilões super-heróis ganharam tanta ou mais importância nas bases estruturais da história que os protagonistas do bem.

CARLOS REIS

Poucos serão os que duvidam que todos os eventos que tornaram o dia 11 de Setembro de 2001 um dos mais negros da história da Humanidade e todas as guerras que nasceram em sua resposta, influenciaram de forma inolvidável uma geração de realizadores, dando origem a um novo movimento cinematográfico: o movimento pós-9/11.

Mas o que hoje é uma certeza, logo após o 11 de Setembro foi uma dúvida. Hollywood mandou adiar as estreias iminentes de filmes como Collateral Damage ou Gangs of New York, ambos com cenas comprometedoras que poderiam relembrar acontecimentos que muitos tentavam esquecer, mas a verdade é que não havia necessidade disso: o público, principalmente o norte-americano, estava sedento por vingança e via em obras como estas a sua resposta aos maus da fita.

O planeta passou abruptamente de um local tranquilo para uma jaula perigosa, instável e cruel. A insegurança aumentou, o perigo passou a espreitar a cada canto (Madrid ou Londres foram apenas algumas das vítimas seguintes do terrorismo) e a venda de armas e munições bateu recordes nunca antes vistos. De um momento para o outro, o público em geral demonstrava maior empatia com a guerra, a violência e o desejo de vingança. Por isso, não é de admirar que filmes pré-9/11 pareçam hoje muito mais naif e optimistas quando comparados com os títulos e géneros dos nossos dias, onde thrillers vingativos, obras de guerra e sci-fi apocalípticos revelam-se quase sempre campeões de bilheteira, batendo um lugar que antes era quase sempre ocupados por comédias, romances ou dramas intimistas.

Em suma, sejam produções milionárias de puro entretenimento e zero preocupações moralistas como os da saga Transformers ou blockbusters com mais conteúdo intelectual como The Day After Tomorrow, que nos deixam preocupados com o futuro do planeta e com o poder dos nossos actos, os super desastres globais tornaram-se populares no cinema. Não há ano que passe sem uma mão cheia deles a dominar as bilheteiras e não há dúvidas que o seu sucesso a muito se deve à credibilidade que ganharam no fundo da nossa consciência quando demos conta que um ataque organizado com milhares de mortos como aconteceu a 11 de Setembro de 2001 é, de facto, algo possível de acontecer. Mesmo no coração da maior e, supostamente, mais bem protegida nação à face da Terra.

Esteja presente por metáforas, simbolismos ou quebra-cabeças, o efeito pós-9/11 mudou inclusive a percepção e a necessidade dos espectadores em relação ao desfecho de qualquer blockbuster destrutivo que apareça: 35


NOCTURNA 2013

CTHULHU, GREMLINS E GAME OF THRONES NUNO REIS

O trio de cinéfilos que se uniu para o fazer merece todo o nosso respeito. Luis Rosales, director do grupo SciFiWorld, José Luis Alemán, produtor e realizador, e Sergio Molina, produtor e filho do maior nome do cinema fantástico espanhol. Entre eles tinham a vontade, os contactos em Madrid, e a destreza no mundo do cinema para fazerem algo. Mesmo Sitges deu a sua benção marcando presença no júri e tendo reservado uma sessão para exibir o vencedor desta edição na Catalunha em Outubro.

Nos anos 80, Madrid tinha um evento do fantástico que rivalizava com o pioneiro Sitges. Chamava-se IMAGFIC (Imaginário e Ficção-Científica) e por lá passaram Roger Corman, Russ Meyer, Shinya Tsukamoto, Jim Henson, Christopher Lee... Honestamente, o festival morreu com o seu dinamizador, Jorge Lluesma. Tentaram mantê-lo, mas definhou até acabar em 93 e desde então ninguém tentou reerguê-lo. É verdade que Sitges se tornou intocável, fazendo com que muitos achassem inútil fazer algo para competir. Contudo, eventos como Málaga, a Semana do Terror de San Sebastian (junta-se outra enorme sombra, a do festival da cidade) e o Fest de Bilbao, mostraram que é possível fazer algo bom, longe da sombra de Sitges. E Madrid continuava a ter imensos festivais divididos pelas inúmeras salas da cidade que vão fechando a uma velocidade preocupante. Então, como é que em vinte anos, não surgiu um festival do fantástico em Madrid? A Mostra SyFy na última década tornou-se num evento ímpar onde a produção espanhola e os blockbusters americanos do fantástico se apresentam para prazer dos habitantes da capital. Mas uma feira de vaidades não é um festival, e era disso que Madrid precisava. Um espaço onde os novos e os velhos talentos se cruzassem numa enorme troca de experiências e criação de oportunidades. E eis que surge o NOCTURNA.

Dizem que a ideia nasceu no Fantasporto de 2010, mas só em Setembro de 2012 tiveram a confiança e a certeza para a tornarem pública. E por pública, entenda-se a um grupo reduzido de pessoas. A ideia era fazer algo decente, mas conseguiram mais do que isso. Conseguiram muito mais do que isso. Comecemos pelos filmes. Sendo a evolução natural do SHOTS - festival da SciFiWorld apenas para as curtas-metragens e com duração de um dia - tinha as curtas garantidas. Em competição directa pelas longas com Sitges, o objectivo de qualquer produtor informado para o seu filme, conseguiram roubar Gallowwalkers com Wesley Snipes, The Complex de Hideo Nakata, os fenómenos indie I Am A Ghost e Resolution, e as

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estreias mundiais de Siren e The Conjuring. Estamos a falar de um festival na primeira edição! E foram dos poucos na Europa a apostar em Jug Face, que acabou duplamente premiado. Quanto aos convidados, dizer que ia ter gente como Colin Arthur (2001, Neverending Story), Joe Dante (Piranha, Gremlins), Mick Garris (The Stand, Masters of Horror) e Samuel Hadida (True Romance, Resident Evil), bastou para Neil Marshall (The Descent, Centurion) também se fazer convidado. Tal figura é sempre bem-vinda. Entre os que passaram despercebidos ao público, destacaria Jesse Peyronel, argumentista da próxima série NBC - Dracula. Apesar de algumas notícias em praticamente todos os meios, a imprensa local não pareceu muito interessada ao início. Só estavam por lá os habituais deste género de festivais, na sua maioria de plataformas digitais. Isso foi excelente, pois permitiu que tivessem condições excepcionais para entrevistar quem quisessem, algo que raramente acontece pois, apesar de serem cinéfilos fervorosos, são trocados pelo jornalistas dos meios tradicionais, raramente mais entendidos no assunto. Os espectadores no primeiro dia não estavam a aderir e havia alguns problemas na projecção - os que se divertiam com a situação culpavam os gremlins - mas o evento Game of Thrones do segundo dia mudou tudo. A partir desse dia acabaram os problemas técnicos

e as salas começaram a encher tornando-se irreconhecíveis. Quando apresentaram os autênticos Gremlins, em 35mm, já o espírito do festival estava enraizado como se tivesse décadas. Em cada sessão centenas aplaudiam o spot e dezenas entoavam cânticos em homenagem a Cthulhu, a “mascote” do festival. Foi assim inclusivamente na cerimónia de encerramento, onde os muitos convidados ilustres supostamente diluiriam os fanáticos do oculto. Só que mesmo os convidados tinham sido contaminados com o bichinho do NOCTURNA. Terá Madrid, finalmente, um festival? Não, agora Madrid tem O festival. Não há volta a dar, em 2014 é preciso fazer outro. Pode ser melhor? Diria que não, mas esta equipa já demonstrou que não há impossíveis. Sendo a segunda edição igualmente boa, é bom que Sitges tenha cuidado. Claro que, apesar de vistoso, em termos logísticos ainda é um festival pequeno. Haverá passos arriscados no futuro, como, por exemplo, avançarem para mais salas em simultâneo, ou extensões para outras regiões. Mas há muito tempo para isso. Tempo que chega para aprender ou melhorar o castelhano. É que o país vizinho está cada vez mais apelativo. O jornalista viajou a convite do festival. 38


Palmarés Melhor Curta Espanhola: Human Core (vários) Melhor Curta Não-Espanhola: Compartido entre L’Heritage de Michael Terraz (França) e Death of a Shadow de Tom Van Avermaet (Bélgica/ França) Melhor Banda Sonora: Johan Söderqvist por Insensibles (Espanha) Melhores Efeitos Especiais: Wither (Suécia) Melhor Fotografia : Wedigo von Schultzendorff por Forgotten (Alemanha) Melhor Argumento: Chad Crawford Kinkle por Jug Face (EUA) Melhor Interpretação: Lauren Ashley Carter em Jug Face (EUA) Melhor Realização: Sonny Laguna e Tommy Wiklund por Wither (Suécia) Prémio Dark Visions: A Little Bit Zombie de Casey Walker (Canadá) Prémio Madness: Resolution de Aaron Moorhead e Justin Benson Melhor Filme: Wither de Sonny Laguna e Tommy Wiklund (Suécia) 39


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Realização: Javier Botet, Javier Fesser, David Galán Galindo,

AL FINAL TODOS MUEREN

Roberto Pérez Toledo e Pablo Vara

[ NOCTURNA PREMIERE ]

Elenco: Javier Botet, Manuela Vellés, Elisa Mouliaá, Macarena Gómez

NUNO REIS

Morrem todos. Não é um spoiler, já Mark Twain dizia que a morte é uma das duas coisas que temos como certas na vida. A outra são os impostos, mas não falemos de coisas tristes. Pelo menos sobre a morte podemos ver filmes interessantes, algo que os anúncios de novos impostos nunca serão. Um dos grandes filmes do ano sobre a morte, o apocalipse, é Al Final, Todos Mueren. Assim, fatalismo directo e cru, mas, ao mesmo tempo, com algo de convidativo. O fascínio pelo sangue levará enchentes ao cinema como se pôde verificar no NOCTURNA onde, além de ter tido sala cheia, ocorreu uma situação de overbooking. E ninguém arredou pé ou esperou pela sessão extra que foi proposta para resolver o problema. Ficaram sentados nas escadas, no chão, em bancos dobráveis, ao colo uns dos outros, mas permaneceram até ao fim do mundo para ver como iriam morrer aquelas pessoas. O trailer revela que a morte física é pelo impacto de um meteorito, mas a verdadeira morte é a da alma. O que importa é como vivem os últimos momentos. A narrativa está dividida em quatro instantes. São vinte vidas. Cada uma dessas pessoas consciente que, acabando a Terra, se acaba tudo. Não só estarão mortos, como não haverá ninguém para os lembrar. Enquanto uns sofrem, outros divertem-se e outros enlouquecem. A forma como deixam a vida é o derradeiro teste à Humanidade. História um: terror. Dois: romance. Três: thriller. Quatro: comédia. Esta combinação improvável representa a humanidade: medo, paixão, sofrimento, diversão. Resumir o fim do mundo a um único estado de espírito seria como considerar todas as pessoas iguais. Cada espectador decerto terá a sua curta preferida lá no meio, o seu género predilecto, mas passará bons momentos assistindo ao filme como um todo. Aceitando os outros como eles são. Projecto colectivo de vários realizadores, será das propostas mais interessantes sobre o apocalipse. A ideia era fazer um filme de antologia, mas com elementos comuns para terem continuidade. Por exemplo,

há personagens que aparecem em mais de um filme, o fim do mundo é igual para todos... Cada um trabalhou de forma independente, com equipas diferentes, fazendo um filme curto e barato. Combinados, são um dos filmes mais importantes do cinema espanhol recente. Quando perguntamos se aceitariam dividi-lo novamente em curtas para se espalharem por mais festivais e conseguirem prémios e divulgação, dizem logo que não. Agora é uma longa e isso é irreversível. O que tem o apocalipse espanhol de novo para oferecer ao cinema? Concordaram que a crise trouxe resignação. Não há nenhum Bruce Willis para os salvar, ninguém tenta evitar o inevitável. Não há um raio de esperança como no cinema de Hollywood. Nesta “ressaca de 2012” o cinema apocaliptico pode parecer fora de moda, mas o medo do inevitável permanece e por isso não rejeitam a ideia de sequelas. Convidando mais quatro realizadores, dando-lhes como enunciado vinte minutos para contar uma história passada x horas antes do fim do mundo, como seriam as abordagens a tal problema? Quantas mais histórias merecedoras há por esse planeta fora? Olhando para o elenco conseguiram reunir uma equipa de sonho do cinema espanhol. Muitos reencontros e muitas novas experiências. Enquanto os realizadores falavam de novos projectos colectivos e se descobria online os encontros passados de tantos deles, nota-se que o cinema espanhol não tem ilhas. Funcionam como uma enorme comunidade. Isso permite que cresçam como profissionais, como indivíduos e como cinematografia. Aqui provaram que são capazes de transformar qualquer tema numa obra de arte que apenas espanhóis poderiam fazer, mas todo o mundo quer ver. Quando anunciarem o fim do mundo têm duas soluções. Ou esperam que o Bruce Willis nos salve, ou vêem este filme para aproveitarem ao máximo as últimas horas. Apesar de tudo, prefiro a segunda opção. Não tem como falhar.

“Esta combinação improvável representa a humanidade: medo, paixão, sofrimento, diversão.” 41


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"O zombie tem de ser encarado como um vírus, uma ameaça, como o mal da sociedade. É isso que se combate."

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SAMUEL HADIDA NUNO REIS

Em Resident Evil a praga começou local, e depressa atingiu uma dimensão mundial. Os espectadores estavam a pedir mais emoções, mais acção, do que o survival horror podia oferecer? Hoje em dia a acção e os zombies combinam muito bem. Antigamente os zombies andavam lentamente e as pessoas tinham de eliminar os zombies enquanto a ameaça se aproximava, e a acção estava em dar-lhes um tiro na cabeça, como nos filmes de Romero, era aí que havia o gore. Hoje os zombies são mais rápidos, com mais acção e gore. É uma nova tendência. Aliás, acho que o The Walking Dead tornou os zombies num tema cinematográfico, levou o género a um novo patamar.

Samuel Hadida é um dos produtores mais importantes da actualidade. Bastaria dizer que a sua primeira aposta foi True Romance que ninguém mais quis adaptar. Era de um jovem chamado Quentin Tarantino que viria a ser famoso. Nos anos 90 ainda ajudou as carreiras de Roger Avary (Killing Zoe) e Christophe Ganz (Crying Freeeman) a descolarem. Ultimamente tem trabalhado com Brian de Palma, David Cronenberg, Lasse Hallström, Terry Gilliam, Tom Tykwer e Tony Scott entre muitos outros. Tem um fascínio pela adaptação de videojogos como se pode notar por títulos como Silent Hill e, brevemente, Castle Wolfenstein. O seu produto com maior longevidade é a saga Resident Evil onde um vírus transforma a humanidade em zombies. Se nos dois primeiros filmes o horror estava limitado a Racoon City, depressa o mundo tombou, vítima dessa mortal mutação genética. Entre 2002 e 2012, entre o primeiro e o último filme, muito mudou no cinema apocalíptico. A visão de um produtor é fundamental para perceber como a indústria interpreta o fenómeno e o rentabiliza. Por isso, eis Hadida.

Então há uma nova forma de filmar zombies? Não é isso. Nos nossos filmes os zombies movem-se depressa, mas respeitam o género. O primeiro jogo Resident Evil é uma homenagem ao George Romero e aos velhos filmes de zombies, mas demos-lhe uma nova visão com os efeitos visuais e a câmara lenta. Toda a componente de acção foi melhorada. Só que hoje em dia, quando temos o star power de um Brad Pitt a combater zombies, atingimos um novo nível. Fazer filmes de zombies está na moda.

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E ficou mais caro? Se o pudermos fazer com um bom orçamento e um nível que permita aos espectadores ficarem entretidos com a acção e os efeitos, tudo bem. Se voltarmos à receita original, mesmo com zombies rápidos e gore, temos horror, mas não a extravagância de um apocalipse. Apenas matamos zombies no centro comercial. É divertido, mas não é assim que são os filmes do presente. O zombie tem de ser encarado como um vírus, uma ameaça, como o mal da sociedade. É isso que se combate.

Spartacus: um contra todos. E neste caso temos uma nova Sarah Connor, Alice [Milla Jovovich]. No jogo havia uma panóplia de personagens distintas, mas aqui parece haver uma fixação com uma só. Há também uma razão pessoal (o realizador é casado com a protagonista)… Quando o meu amigo Paul [W.S.] Anderson criou Alice, não estavam numa relação. Foi algo que surgiu a partir daí. Os filmes têm sempre personagens masculinas fortes. Acho excelente que um filme crie uma personagem feminina forte. James Cameron fê-lo, nós também o conseguimos. É excelente que haja uma voz feminina forte, e uma personagem feminina forte porque as pessoas querem ver as mulheres a dar porrada, mas a indústria não lhes dava oportunidades suficientes para o fazerem. Agora podem pontapear os zombies, não são uma ameaça para os homens, e isso apela a que o público feminino vá ao cinema.

Então temos uma crítica social nos seus filmes? É o motivo do sucesso destes filmes. As pessoas compreendem aquele ambiente. Todos os filmes fazem crítica social, os filmes de género apenas são diferentes na abordagem. Em Resident Evil, World War Z, Walking Dead, é um ambiente claustrofóbico expandido. Quando estamos lá dentro, temos de sobreviver. Temos de lutar contra a sociedade que toma controlo.

De que forma? Os estúdios queriam saber como levar as mulheres a ver filmes de acção. Elas querem romances e assim, mas se a personagem principal for uma mulher, talvez não se importem de ver um filme sobre zombies, lobisomens ou vampiros. Quando o par perguntar “queres ver este?”, ela já diz que pode ser, porque se pode colocar no lugar da personagem. Foi assim que começou a mudança em Hollywood. Queriam abarcar o público feminino. Quando estava com o Christophe Ganz a fazer o Crying Freeman, fizemos um filme para o público masculino, mas no centro disso estava uma história de amor para o público feminino. É uma extensão do cinema que conhecíamos. Já não é apenas uma pessoa em perigo que se apaixona, agora a mulher faz o que é necessário fazer.

A Umbrella opera na área das armas biológicas. É a mesma mensagem que vimos em Terminator contra a Skynet na área da tecnologia? Seja na literatura ou nos jogos, há sempre uma luta contra uma corporação guarda-chuva maligna. Pode tomar qualquer forma, mas ninguém gosta de totalitarismo, ninguém gosta que haja uma só voz. É uma questão de sobrevivência. Temos isso no Terminator, temos na ficção-científica, na acção, no tempo dos gladiadores, ninguém quer que haja um único no controlo. É preciso continuar a lutar pela liberdade. Para ter liberdade é preciso combater o mal, e para combater o mal, como em Resident Evil e World War Z, há diferentes actos que dão ao indivíduo a sensação de ter a sua liberdade intacta. Seja na literatura de “1984”, nos videojogos, ou nos filmes, todos combatem o poder. E é igual desde 44


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"O zombie tem de ser encarado como um vírus, uma ameaça, como o mal da sociedade. É isso que se combate."

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NEIL MARSHALL NUNO REIS

Quando fez Doomsday tinha algum propósito? Foi devido à aproximação de 2012, foi pela situação política… Não havia nenhum motivo concreto para fazer esse filme. Tinha acabado de fazer The Descent e não queria fazer um novo filme de terror, não queria ficar classificado como realizador de terror. Tinha uma oportunidade para fazer algo de diferente. Continuaria dentro do que me era familiar, teria muito gore e terror, mas não seria um filme de terror. E era uma oportunidade para fazer algo a uma escala muito maior. Quando os produtores vieram ter comigo a perguntar se tinha ideias para outro filme e lhes apresentei esta, tinha a certeza que iam recusar, era gigantesca. Mas disseram que sim. Pude divertir-me a fazer explodir muitas coisas.

Neil Marshall é um nome habitual do cinema fantástico. Vencedor do festival de cinema fantástico de Bruxelas e Méliès d’Argent no do Luxemburgo, realizou títulos como Dog Soldiers (Fantasporto 2003) e Centurion (MOTELx 2010), mas é especialmente recordado por The Descent (2005). A Take foi ao seu encontro em Madrid para conhecer uma visão singular do apocalipse. Depois dos lobisomens em Dog Soldiers e das claustrofóbicas grutas de The Descent, Neil Marshall tinha créditos para fazer o filme que bem desejasse. A sua escolha foi um argumento próprio onde se mistura a sociedade dum futuro próximo, com uma medieval e uma pós-apocalíptica num festim de sangue, explosões e velocidade, onde a morte tanto pode vir numa bala, num vírus incontrolável ou num cavaleiro a cavalo com armadura completa. Doomsday - Juízo Final tem uma perspectiva única sobre o que pode ser o futuro (ou o fim) da humanidade.

A aprovação dos produtores pode ter sido motivada pelo sucesso de Children of Men? Quando esse filme saiu já estávamos a filmar. Fi-lo como uma homenagem a filmes que me marcaram, um conjunto de filmes pósapocalipticos que vi como adolescente como Mad Max, Escape From NY, esse tipo de filmes, e o vídeo The Wild Boys dos Duran Duran. Todo esse sentimento pós-apocalíptico andava no ar, ao fazer o filme quis deitar para fora os anos 80.

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Então este apocalipse é à moda antiga? Tentei que fosse um filme série B divertido. Da mesma forma que Tarantino e Rodriguez fizeram Grindhouse, prestando homenagem a um determinado género de filmes, quis fazer algo que fosse bom encontrar num videoclube dos anos 80, ao lado de After the Fall of New York.

entretenha, continuarão a ir ver. Porque é melhor ver no cinema do que vivê-lo. Haverá sempre espaço para filmes apocalípticos, desde que não sejam demasiados ao mesmo tempo. Que tal foi a sensação de passar de algo claustrofóbico para um filme assim? Foi como trabalhar pela primeira vez sem constrangimentos. Foi magnífico. Como ter uma pista de comboios para brincar. Tinha os veículos, as perseguições, as explosões, as metralhadoras, e tinha liberdade para as usar. Adorei ter a oportunidade para fazer algo em grande escala.

Em 2012 e 2013 saíram muitos filmes do apocalipse. Acha que ainda seria possível fazer um filme sobre o tema ou estará esgotado? Desde que se traga uma perspectiva nova e refrescante podemos sempre. O meu é apenas um semi-apocalipse. Só a Escócia é destruída, não é global. É um começo. Sim, é um começo. Mas o fim chegará de alguma forma. Seja um vírus, um desastre natural, ou um cometa, um destes dias algo vai acontecer. Os cineastas querem ser aquele que acertou. Vão fazer um festejo muito breve “ei, eu acertei”, e depois morrer.

Colocou o destino da humanidade num grupo muito pequeno de pessoas. É o habitual. E também tem sido comum uma mulher salvar o mundo. Não foi por nenhuma razão em particular. Tinha criado esta personagem enquanto estava a trabalhar em The Descent, e a ideia estava na minha cabeça. Não tinha um propósito, só achei que ficaria bem como heróina de um filme de acção. Estava a fazer uma homenagem a filmes centrados no masculino como

E o público está mais receptivo a qual desses finais? Causas naturais, monstros, armas químicas… O apocalipse trata de destruição numa escala épica. Todos parecem gostar de destruição épica. Desde que seja original, divertido e 48


Mad Max e Escape From New York, mas porque não ter uma mulher?

As pessoas infectadas podem ser a nossa evolução natural? A minha ideia é que não há uma cura, há apenas pessoas imunes. Esse é o próximo passo. Talvez a epidemia seja apenas uma forma de controlar a população. Quando formos demasiados, corta-nos de volta para números aceitáveis e recomeçamos. Caso contrário, destruiremos o planeta apenas pela quantidade. Não nos poderá suportar por muito mais. Estou fascinado pelo tema.

E porquê a Escócia? Porque não a Irlanda que é uma ilha? Foi apenas porque existiu mesmo uma muralha. Os romanos construíram a Muralha de Adriano há dois mil anos para separar a Inglaterra da Escócia. Parecia ficção-científica fazê-lo novamente. Há poucos locais no mundo em que se consiga separar dois países com um muro. É que são apenas cem quilómetros de terra. E foi onde cresci. Nasci de um lado da antiga muralha, vive algum tempo do outro lado… Durante anos andava para a frente e para trás por uma antiga estrada romana, que acompanha a muralha, e ainda permite ver as ruínas - alguns bocados da muralha ainda lá estão passados dois mil anos - e comecei a pensar que circunstâncias seriam precisas para reconstruir uma muralha. Tendo visto o Muro de Berlim e barreiras modernas, não me parecia completamente impossível. Porque não a Escócia? Foi a forma de pensar dos romanos. Os bárbaros incontroláveis a norte, a civilização a sul. Essa é a teoria. Muitos escoceses levaram a mal. “Porque nos odeia assim tanto?” Não é nada disso! De certa forma estava a preservar a Escócia. Nunca digo que o que se passa a norte é melhor ou pior do que o que se passa a sul. 49


O QUE É FEITO DE RICHARD KELLY? JOÃO PAULO COSTA

Já foi considerado um dos meninos prodígio do cinema indie americano, mas em menos de uma década passou de visionário a proscrito por uma indústria que não soube encontrar um lugar onde colocar um realizador cuja obra desafia qualquer classificação. Com uma apetência especial para a ficção científica apocalíptica, há quem jure que a sua carreira poderá também ela caminhar para um final trágico digno das suas personagens.


diálogos particularmente inspirados, sempre polvilhados por uma pitada de humor e referências várias à cultura popular da época ajudavam o espectador mais desprevenido a sobreviver a uma trama densa e a espaços algo difícil de descortinar. Além de colocar em campo uma série de teorias sobre viagens no tempo e universos paralelos, o filme preocupa-se sempre em primeiro lugar em lançar questões na direcção do espectador e não tanto em oferecer-lhe respostas óbvias, dando ainda hoje muito espaço para debate entre os fãs mais acérrimos.

O FIM DO MUNDO SEGUNDO RICHARD KELLY Nascido em meados da década de 1970 no estado de Virgínia, o jovem Richard Kelly ganhou da mãe (professora de liceu) o gosto pelos livros e do pai, um investigador da NASA envolvido no desenvolvimento do Projecto Viking, o gosto pela ciência. Anos mais tarde, quando se formou na USC juntou essas duas paixões à do cinema e apresentou-se com um dos mais intrigantes filmes da década passada. Donnie Darko contavanos a história de um adolescente dos subúrbios que, crescendo nos anos 80, era visitado durante os seus ataques de sonambulismo por um coelho gigante que o alertava para o fim do mundo iminente. Entre o drama do crescimento, o thriller e a ficção científica, Donnie Darko cativava especialmente pela qualidade da sua escrita.

No entanto, entre a sua produção e o sucesso de que este título goza hoje em dia, muita coisa se passou, nomeadamente aquando da sua estreia que ocorreu, algo sinistramente, na pior altura possível: o filme que anunciava o fim do mundo e cuja narrativa arrancava com a queda do motor de um avião em cima de uma casa deveria chegar às salas americanas em Setembro de 2001, mas os atentados ao World Trade Center fizeram o estúdio alterar o seu plano de distribuição, lançando-no de forma discreta um mês mais tarde. Os resultados de bilheteira foram eles próprios um desastre e o seu lançamento internacional parecia irremediavelmente comprometido, mas aquando da sua chegada ao mercado de vídeo, a palavra começou a espalhar-se sobre este estranho filme de produção independente, dando nova vida a uma pérola que caminhava para o esquecimento. A partir daí, a chegada às salas de

O argumento da autoria de Kelly ancorava-se acima de tudo em personagens sólidas, e o ambiente familiar vivido por Donnie, o protagonista, e a sua família e amigos parecia genuíno como poucos, ao qual não seriam alheios dois aspectos fundamentais: por um lado a química do elenco onde, entre outros, Jake Gyllenhaal (Donnie Darko) contracenava com a sua própria irmã Maggie; por outro lado, ao situar o filme numa comunidade familiar durante os anos 80, Kelly recuperou muita da sua própria adolescência e espelhou-a diante das câmaras. Os 52


cinema de todo o mundo não tardou, conquistando Donnie Darko o estatuto de culto que ainda hoje se mantém. Para além das evidentes qualidades na escrita e na realização, também se tornou célebre a sua banda sonora que recuperava algumas pérolas musicais dos anos 80 e deu a conhecer ao mundo a comovente versão de Gary Jules de “Mad World”, um original dos Tears For Fears, utilizada com grande efeito na misteriosa mas ainda assim extremamente tocante sequência final.

mais bizarros biopics que Hollywood lançou em muito tempo, que Tony Scott dirigiu com Keira Knightley no papel principal, filme que confirmou a tendência do seu autor para o bizarro, mesmo quando pegava em factos reais. Assim sendo, o então jovem prodígio pegou numa ideia que havia desenvolvido antes dos atentados de 11 de Setembro e que tinha a indústria cinematográfica como principal alvo, reescrevendo-a e enquadrando-a no mundo actual, construindo uma narrativa tão ambiciosa como absolutamente caótica que fazia Donnie Darko parecer uma brincadeira de crianças.

Anos mais tarde, foi lançada uma sequela, S. Darko, centrada na irmã mais nova de Donnie, e que continuava a explorar algumas temáticas em suspenso que Kelly havia desenvolvido, embora este não tenha tido qualquer espécie de envolvimento no projecto que estreou directamente no mercado de vídeo.

Pegando novamente em temáticas complexas de ficção científica envolvendo universos paralelos, em Southland Tales o Apocalipse surgia pela via da destruição nuclear, e a acidez do seu tom remetia claramente para um Dr. Estranhoamor (que poderá encontrar em análise nesta edição). Mas enquanto a narrativa do filme de Kubrick é clara e relativamente simples, a de Southland Tales é decididamente rebuscada e dispara em todas as direcções, de tal modo que Kelly escreveu uma saga-prequela em banda desenhada, lançada pouco antes da estreia do filme em sala para situar um pouco melhor o espectador no seu universo muito peculiar. Tal libertinagem transformou a generalidade dos elogios recebidos pelo seu trabalho anterior em autênticas vaias que se estenderam um pouco por todo o lado onde foi apresentado,

DO FENÓMENO DE CULTO ÀS VAIAS NA CROISETTE Com a estreia e a aclamação de Donnie Darko, Richard Kelly tornou-se de imediato no realizador a seguir no panorama do cinema independente americano e sobre ele estavam centradas todas as atenções. Munido de uma série de projectos escondidos na gaveta, Kelly ia também escrevendo para outros realizadores, como foi o caso de Domino, um dos 53


começando com uma recepção muito pouco feliz no Festival de Cannes de 2006 e terminando numa distribuição quase nula nas salas de cinema (em Portugal, por exemplo, não há tão pouco notícia de uma edição em DVD). Se nos seus filmes a chegada do Apocalipse parece iminente, não faltou quem desse por destruída a carreira cinematográfica de Richard Kelly ao segundo take. De um orçamento de cerca de 20 milhões de dólares, facturou apenas 300.000 nas bilheteiras americanas e tudo o que o realizador havia conquistado com uma inspirada primeira obra desmoronava-se agora a olhos vistos, não tendo sequer valido a Kelly o elenco aparentemente apelativo ao público adolescente (de Sean William Scott a Sarah Michelle Gellar, passando por Dwayne Johnson, Mandy Moore e toda uma trupe da escola do Saturday Night Live).

do calibre de Cameron Diaz, um actor rodado em blockbusters como James Marsden e um veterano consagrado e recentemente nomeado aos Oscares como Frank Langella teria tudo para dar certo. The Box Presente de Morte seria, muitos esperavam, o filme maduro através do qual o seu autor iria finalmente agarrar um lugar firme na grande máquina de Hollywood. Nada mais falso, no entanto. Se os primeiros 30 minutos prometem esse suspense mais rotineiro, Kelly depressa tira o tapete debaixo do espectador e, num piscar de olhos, estamos uma vez mais envolvidos numa trama apocalíptica que envolve uma experiência de origens alienígenas, missões a Marte e inúmeras personagens caricatas. Mesmo adaptando o argumento de um pequeno conto moral de Richard Matheson, Kelly construiu aquele que é porventura o seu filme mais pessoal (o casal protagonista é directamente baseado nos seus próprios pais, também aqui uma professora e um investigador da NASA) mas tão indecifrável quanto os restantes. Sem quaisquer problemas de consciência, o que Richard Kelly fez foi pegar pela primeira vez nos mais sofisticados meios que a indústria do cinema tinha para oferecer, e produzir uma obra sem concessões de qualquer espécie. De certa forma, Presente de Morte é mesmo o seu filme mais conservador, fazendo lembrar alguns dos thrillers paranóicos dos anos 1970 (época onde, de resto, se passa a acção) e confirma

UMA DISFARÇADA INVESTIDA NO MAINSTREAM Depois de um fiasco que deixou reticências na cabeça de muita gente, o próximo passo de um realizador preocupado com o sucesso da sua carreira deveria ser simples: abraçar um projecto comercial e apelativo para o grande público, capaz de gerar as receitas que faltavam na sua filmografia. E à partida, pegar num thriller de terror baseado num episódio de uma das mais míticas séries televisivas do passado, e numa estrela 54


muitos dos temas que são mais próximos ao realizador, nomeadamente o envolvimento de pessoas normais nas malhas de misteriosas organizações secretas que mandam no mundo. Com casos como o do muito recentemente falado Edward Snowden que revelou sinistros programas de espionagem americanos, é caso para dizer que Richard Kelly, mesmo acusado de se encontrar perdido na sua própria ambição, se revela um observador muito atento do mundo que o envolve.

sido associado frequentemente a alguns projectos: desde uma aventura rodada integralmente em stop motion, a um thriller supostamente mais convencional chamado Corpus Christi e, mais recentemente, a adaptação da história real de um advogado envolvido numa trama macabra de homicídio (Amicus que, ao que tudo indica, conta já com o envolvimento de Nicolas Cage). Uma coisa é certa: seja o que for que venha a seguir na sua filmografia, sabemos que carregará uma marca de autor bem distinta, e que Kelly irá continuar a provocar os espectadores, tentando levá-los além das convenções cinematográficas ao mesmo tempo que alimentará o seu apetite pela destruição. Goste-se ou não, a sua irreverência faz muita falta ao cinema actual.

O resultado de tudo isto: nova decepção entre os críticos que o haviam consagrado enquanto dava os primeiros passos, e mesmo nas bilheteiras sofreu para recuperar o investimento inicial. Para muitos, este terá sido o último prego no caixão onde ficará em descanso a carreira cinematográfica de Richard Kelly, pouco havendo quem ainda confie no reavivar da chama que muitos consideram perdida. Muitos acusam-no de autismo, de ser um autor hermético incapaz de se conectar com os espectadores. Por exemplo, Holes, filme de Andrew Davis de 2003 teve uma primeira versão do argumento escrita por Kelly e veementemente rejeitada pelos estúdios devido à sua excessiva audácia. E há anos circulam rumores de um projecto de sonho até ao momento irrealizável intitulado Bessie, que gira em torno de... uma vaca geneticamente alterada com capacidades intelectuais fora do comum. De resto, a sua carreira pouco tem avançado desde 2009, embora o seu nome tenha 55


DONNIE DARKO 2001

Estamos nos subúrbios americanos no ano de 1988 quando, após uma das suas habituais sessões de sonambolismo que o levam durante a noite até um campo de golfe, o adolescente Donnie Darko (Jake Gyllenhaal) é avisado por um coelho gigante chamado Frank de que o fim do mundo se aproxima rapidamente: mais concretamente dali a 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos. Nesse mesmo instante, o motor perdido de um avião cai sobre a sua casa, atingindo precisamente o quarto onde Donnie deveria estar a dormir, não tivesse este sido atraído ao encontro de tão misteriosa personagem. Quem é Frank e o que vai provocar o Apocalipse por ele anunciado? De onde caiu o motor de um avião do qual aparentemente não existe rasto? Será Donnie Darko, jovem problemático dado a acessos de raiva e aparentes ataques esquizofrénicos, um protagonista merecedor da nossa confiança? À medida que Donnie, agindo sob as ordens de Frank (figura que apenas ele consegue ver), leva a cabo acções que agitam a aparentemente pacata existência da sua comunidade, vamos sentindo enquanto espectadores que alguma coisa se aproxima perigosamente da implosão. Será o fim do mundo uma ameaça real, ou apenas uma metáfora da situação do país na época, entre o final da era Reagan e o início do mandato de George Bush? Foi desta forma que em 2001 um jovem Richard Kelly, então apenas com apenas 26 anos, se apresentou ao mundo. Destemido, o realizador

misturou diversas memórias da própria adolescência (desde a vida nos subúrbios à música da época, ao crescimento durante a Guerra Fria com a iminência da destruição nuclear pairando sobre a sua vida) com uma série de conceitos e teorias físicas sobre viagens no tempo, polvilhando-a com as doses certas de ficção científica e ofereceu-nos uma das mais inesperadas e ao mesmo tempo agradáveis surpresas da década passada. Inesperada porque seria de supor que toda esta amálgama de influências que o argumento da sua assinatura não se preocupa em explicar com especial detalhe, dificilmente resultaria num produto coerente. Agradável porque mais do que coerente, Donnie Darko consegue ser também um comovente retrato da adolescência, mergulhado numa melancolia triste onde o Apocalipse não parece mais do que a morte de uma certa inocência juvenil. A certa altura, a professora de inglês de Donnie (excelente Drew Barrymore num pequeno papel) queixa-se de que o mundo está a perder a sua juventude para a apatia. Apesar de se ter tornado hoje num fenómeno de culto que catapultou a carreira de Jake Gyllenhaal, foram poucos aqueles que há mais de uma década atrás disfrutaram em sala das suas qualidades. E a verdade é que para um estreante na matéria, Kelly conseguiu de forma hábil segurar as pontas soltas de uma narrativa demasiado ambiciosa, ancorando-se 56


acima de tudo em personagens bastante ricas a quem os seus actores conferiram doses certeiras de humanismo. Partindo dessa base sólida, o autor deixou-se levar pela habitual tendência das primeiras obras onde se tenta experimentar ao máximo todas as possibilidades criativas. E aí o realizador mostrou qualidades deveras empolgantes, quer no à vontade com que mexe a sua câmara e coordena todos os movimentos (da câmara, dos actores) com a excelente banda sonora, como nos momentos em que deve dar um passo atrás e deixar o talento do elenco vir ao de cima. Há quem jure que gente como Patrick Swayze ou Drew Barrymore nunca esteve tão bem como em Donnie Darko, onde até há lugar para uma pequena participação de um Seth Rogen então em início de carreira. Mas é sobretudo na escrita ambiciosa e sem compromissos de Kelly que o filme floresce e, navegando entre as águas tão distintas da comédia à tragédia, se torna numa experiência cinematográfica inesquecível.

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SOUTHLAND TALES 2006

O que é que um actor amnésico (Dwayne Johnson), um polícia e o seu duplo/irmão gémeo (Sean William Scott), uma actriz porno e ídolo da música pop (Sarah Michelle Gellar) e um veterano de guerra no Iraque (Justin Timberlake) têm em comum numa América mergulhada no caos nuclear após dois ataques terroristas no Texas ocorridos num futuro próximo que é agora passado (a acção de Southland Tales, estreado em 2006, passa-se durante as eleições presidenciais de 2008)? Francamente, gostávamos muito de ter uma explicação para o leitor, mas a realidade é que o segundo filme de Richard Kelly é praticamente inexplicável. As personagens anteriormente referidas são apenas a ponta do iceberg, e a tentativa de sinopse do enredo serve apenas para nos localizar no centro de uma história que envolve ainda a busca por uma fonte de energia alternativa, uma Terceira Guerra Mundial, organizações terroristas neomarxistas, universos paralelos e o ocasional número musical... sim, isso mesmo. Se o caos parece ser a palavra de ordem em Southland Tales a verdade é que, de forma bastante retorcida, tudo parece funcionar de alguma maneira. O tom recorda um Dr. Estranhoamor sob o efeito de ácidos, uma sátira que aponta em todas as direcções e não pretende poupar ninguém, desde a indústria descartável de Hollywood aos interesses económicos que lucram com a guerra, passando por ambos os espectros do panorama político norte-americano. É muito fácil entender o fracasso crítico e comercial do projecto aquando da sua estreia, mas se olharmos para o filme com o distanciamento e a paciência adequados, seremos capazes de conseguir extrair dele alguns prazeres escondidos que Richard Kelly tratou de forma visualmente exuberante.

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THE BOX 2009

Baseado num conto do recentemente falecido Richard Matheson, que por sua vez já havia dado origem a um episódio da popular série The Twilight Zone, The Box conta-nos a história de um casal americano de classe média em 1976 a quem é oferecida, por um homem misterioso, uma caixa com um botão que, quando pressionado, tem duas consequências: o casal ficará imediatamente 1 milhão de dólares mais rico, mas alguém no mundo irá morrer de seguida. Se à partida os primeiros 30 minutos nos levam a pensar que estamos perante o típico universo do thriller de terror, Richard Kelly vai-nos trocando as voltas muito lentamente. De tal forma que a certa altura o espectador se encontra embrulhado novamente em múltiplas narrativas com pontas soltas, nas quais a NASA convive com portais para outras dimensões e o fim do mundo espreita, mais uma vez, em cada esquina. Tal como acontecia com os anteriores trabalhos do realizador, explicar o argumento de The Box é uma tarefa complicadíssima e os grandes méritos do seu filme estão precisamente na forma como nos consegue envolver neste universo tão inexplicável. Plasticamente, é muito provavelmente o mais trabalhado filme do realizador, que consegue ainda arrancar excelentes interpretações de James Marsden e Cameron Diaz, embora se torne como sempre inevitável que o veterano Frank Langella (e o seu rosto deformado) roube o espectáculo. Com uma envolvente banda sonora de Win Butler, Régine Chassagne (dos Arcade Fire) e Owen Pallet, The Box parte da intimidade familiar para nos contar uma história numa escala muito maior, terminando em força numa sequência final que consegue comover como os melhores momentos de Donnie Darko. 59


O FIM DO MUNDO EM 15 FILMES De 1951 (The Day the Earth Stood Still) a 2012 (Seeking a Friend for the End of the World), das geniais sátiras (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb) aos tradicionais blockbusters de infindáveis milhões de dólares (Armageddon) ou dos meteoritos (Deep Impact) aos destrutivos extra-terrestres (War of the Worlds), os colaboradores da Take Cinema Magazine escolheram quinze filmes de várias formas e feitos sobre o fim do mundo para comentar e apresentar/ relembrar aos seus leitores. Não são obrigatoriamente os melhores - este não se trata de um Top 15 -, mas representarão certamente todos, de uma forma ou de outra, o tema que deu vida a esta edição da revista. Maluquinho por películas de destruição em massa? Então aqui tem uma bela lista de recomendações para os próximos tempos.


THE DAY THE EARTH STOOD STILL

Título nacional: O Dia em que a Terra Parou Realização: Robert Wise Elenco: Michael Rennie, Patricia Neal, Hugh Marlowe, Sam Jaffe, Lock Martin

1951 ANÍBAL SANTIAGO

Filme de ficção-científica bastante directo nas mensagens que pretende transmitir, The Day the Earth Stood Still é paradigmático na representação do medo em relação à ameaça proporcionada pelas armas nucleares e à ameaça exterior nos EUA durante a Guerra Fria, avançando com uma mensagem anti-guerra que se mantém bastante actual. Essa ameaça e mensagem surgem expostas através de Klaatu (Rennie), um extraterrestre que pretende expressar o seu desagrado pela utilização humana de armas nucleares. Perante a impossibilidade de falar com os líderes políticos, Klaatu procura reunir os elementos da comunidade científica internacional, para que estes transmitam a sua mensagem antiGuerra, cujo incumprimento pode gerar graves represálias para a Terra. Lançado originalmente em 1951, The Day the Earth Stood Still pode não ter envelhecido bem em termos de efeitos especiais, mas continua

a apresentar uma história relevante e bem construída, onde existe a coragem de efectuar uma crítica clara à diplomacia internacional no período da Guerra Fria, às armas nucleares e à guerra. Talvez, por essas razões, o filme continua a manter um valor inestimável nos dias de hoje, algo que a juntar a uma realização inspirada de Robert Wise, uma banda sonora pungente, um argumento acima da média e uma interpretação eficaz de Michael Rennie, a obra se tenha tornado um clássico, que contrasta em relação a diversos filmes de ficção-científica contemporâneos. Não temos um extraterrestre pronto a dominar a Terra ou a exaurir os seus recursos, mas sim um ser com aspecto humano, que pretende a paz universal e a concórdia, numa obra clássica, cujo visionamento é obrigatório para os fãs do género.

“(...) continua a manter um valor inestimável nos dias de hoje”

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SEEKING A FRIEND FOR THE END OF THE WORLD

Título nacional: Até Que o Fim do Mundo nos Separe Realização: Lorene Scafaria Elenco: Steve Carell, Keira Knightley, Adam Brody

2012 CARLOS REIS

Até que o fim do Mundo nos Separe é uma metáfora de hora e meia em forma de filme, num tom tão melancólico e depressivo quanto romântico e divertido, alternando o absurdo com o sentimento e um sorriso com uma lágrima com uma comodidade espantosa, o que o torna uma comédia romântica moderna para todos aqueles que não suportam o inevitável final feliz. Longe do blockbuster mainstream da Hollywood apocalíptica, o filme de Lorene Scafaria quebra várias convenções do género, nunca parando de surpreender na sua simplicidade, mesmo quando falha em explorar a quantidade inimaginável de alternativas que um cenário como o fim do mundo possibilitava. Ironicamente, em termos cinematográficos trata-se de um cordeiro em pele de lobo, o que irá levar muita gente enganada até si. E, infelizmente, afastar muito boa gente de uma aflitiva - no melhor sentido - história de amor.

Um asteróide de tamanho suficiente para exterminar com toda a vida no nosso planeta está a três semanas de atingir a Terra. Falhada a derradeira missão para o destruir, resta agora a Dodge e a todos os outros humanos consciencializarem-se que o fim está próximo. Se para uns é a oportunidade para cometerem todas as loucuras para as quais nunca tiveram antes coragem, para Dodge é a triste altura para entrar numa crise existencial e amorosa, ou não tivesse a sua esposa fugido a sete pés mal a apocalíptica notícia saiu. Mais eis que, por mero acaso do destino, conhece Penny, jovem vizinha britânica a viver semelhantes emoções. Entre aventuras absurdas e desventuras amorosas, os dois desenvolvem uma amizade inesperada que irá alterar as suas perspectivas sobre a vida. Estreia na realização da guionista de "Nick and Norah's Infinite Playlist",

“(...) o filme de Lorene Scafaria quebra várias convenções do género (...)”

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TERMINATOR 2: THE JUDGMENT DAY

Título nacional: Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento Realização: James Cameron Elenco: Linda Hamilton, Arnold Schwarzenegger, Edward Furlong, Robert Patrick, Earl Boen, Joe Morton

1991 ANÍBAL SANTIAGO

Sequela digna do seu antecessor, Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento surge como um filme de ficção-científica recheado de acção, violência, tiroteios, frases memoráveis, momentos de enorme tensão e um Arnold Schwarzenegger mais carismático do que nunca. É verdade, Arnie cumpriu a promessa de regressar efectuada em Exterminador Implacável, embora desta vez interprete um cyborgue transportado para o passado por John Connor para salvá-lo na sua juventude, fruto da ameaça causada pelo T-1000 (Patrick), um exterminador enviado pela Skynet para assassinar Connor (Furlong), o líder da resistência contra as máquinas em 2029. Sem se limitar a repetir a fórmula do primeiro filme, Exterminador Implacável 2 expande o universo da saga, apresentanos a cyborgues com características distintas e mais evoluídas, uma Sarah Connor marcada pelo destino e pela responsabilidade, um John Connor na sua infância, enquanto se afirma como uma das obras mais memoráveis da franquia. A vida não anda fácil para Sarah Connor. Depois de ter de lutar pela sua vida contra o Exterminador e perder Kyle Reese em Exterminador Implacável, Sarah encontra-se internada num hospício, enquanto o seu filho, John tem a vida em perigo devido à presença do T-1000. John é um jovem rebelde, que vive junto de uma família adoptiva, afastado da mãe e a cometer pequenos delitos, que apenas acredita que a mesma não está louca quando o Exterminador regressa do futuro para o salvar. Enquanto Sarah procura fugir do hospício, John tenta resgatá-la ao lado do Exterminador, ao mesmo tempo que procuram escapar do T-1000. No entanto, o confronto é inevitável e promete trazer consigo muita tensão, violência, perseguições, tiroteios, enquanto o T-1000 revela um arsenal de novidades que permitem explorar os efeitos especiais de nível superior ao primeiro filme. Se o Exterminador de Arnie assume um aspecto mais humano em relação a Exterminador Implacável, procurando perceber as emoções

dos seres humanos, ao mesmo tempo que forma uma simpática ligação de afecto com John, já o Exterminador de Robert Patrick surge com um arsenal impressionante de recursos. O T-1000 consegue mudar de forma, atravessar objectos de metal, moldar o seu corpo, surgindo impassível e temível na obtenção do seu objectivo: assassinar John Connor. Tal como no primeiro filme, os protagonistas têm de lidar com a perseguição de um cyborgue impiedoso, apesar desta fuga estar associada a questões mais dramáticas, em particular a conturbada relação entre Sarah e John Connor, enquanto este começa a assumir características de líder e tem no Exterminador uma estranha figura paternal. Beneficiando dos bons desempenhos de Linda Hamilton e Edward Furlong, a relação entre Sarah e John surge conturbada devido ao período de afastamento a que foram sujeitos, com a actriz a surgir soberba como esta mulher que é mãe, protectora, mentora e amiga do filho, mas não consegue inicialmente cuidar do mesmo. A relação entre estes dois personagens surge como um elemento fulcral, enquanto procuram libertar-se da ameaça do T-1000 ao lado do Exterminador interpretado por Arnie, uma missão complicada, que surge adensada pela capacidade de James Cameron em criar uma tensão enorme em volta dos personagens, em levar a que o espectador sinta que estes estão em perigo nesta memorável obra de ficção-científica. Não falta um argumento bem elaborado, um conjunto de boas interpretações, falas que ficam na memória, muita acção, tensão, reviravoltas, algum humor, enquanto somos apresentados a uma cidade de Los Angeles negra, onde o perigo parece espreitar a qualquer lugar. Com um orçamento record para a época, Exterminador Implacável 2 expande o universo apresentado em Exterminador Implacável, faz evoluir os personagens, apresenta-nos a alguns momentos inesquecíveis, estabelecendo aquela que é uma das obras mais memoráveis da franquia. “(...) uma das obras mais memoráveis da franquia.” 65


THE ROAD

Título nacional: A Estrada Realização: John Hillcoat Elenco: Viggo Mortensen, Kodi-Smit McPhee, Charlize Theron

2009 JOÃO PAULO COSTA

Um pai e um filho vagueiam por uma estrada em direcção ao sul, na esperança de encontrar algo mais do que aquilo que os vem rodeando: um mundo praticamente destruído (por uma catástrofe nunca devidamente explicada), onde a vegetação se reduziu a cinzas, os animais desapareceram gradualmente e os humanos que restam fazem o que for preciso para sobreviver – do roubo ao canibalismo. Nunca seria fácil adaptar o romance de Cormac McCarthy ao grande ecrã, especialmente porque a sua prosa peculiar, o tom mais seco do que emotivo e a falta de um claro fio narrativo não o tornam num objecto particularmente apelativo para grandes audiências. O grande mérito da visão cinematográfica de John Hillcoat passa precisamente por essa resistência a ceder a qualquer eventual pressão para amenizar o material de origem. Não sendo especialmente violento, A Estrada é ainda

assim soturno o suficiente para fazer juz a uma das mais deprimentes visões apocalípticas da ficção recente. Se há quem diga que o futuro é radioso, esse alguém não é decerto Hillcoat, que juntamente com o director de fotografia Javier Aguirresarobe banha a película em tons de um cinzento desesperante, pouco mais restando do que as cinzas de um inferno que parece espreitar por cima do ombro a todo o instante. Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee são excelentes a criar esse laço pai-filho que representa aquilo que resta de bom no mundo. Como já acontecia no anterior filme (Escolha Mortal, 2005) do realizador, muitas caras conhecidas surgem em papéis secundários ao longo das suas quase duas horas de duração. Longe de ser uma obra prima, A Estrada é de uma dureza sem compromissos e deve ser percorrida pelo menos por uma vez.

“(...) uma das mais deprimentes visões apocalípticas da ficção recente.”

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DISTRICT 9

Título nacional: Distrito 9 Realização: Neill Blomkamp Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt

2009 CARLOS REIS

serve de base aos acontecimentos de District 9, o realizador também ele sul-africano Blomkamp orquestra uma obra habilidosamente política, original q.b. e, acima de tudo, soberanamente cativante. Com influências óbvias de filmes como Invasion of the Body Snatchers ou Starship Troopers, enquanto falso documento, District 9 é brilhante; enquanto drama de acção, não há nada que o faça realçar dos padrões e desenvolvimentos narrativos típicos do género. Mas quando a ideia central é tão espirituosa, as falhas acabam por ser naturais e não são suficientes para arruinar o projecto no seu todo. Abordando assuntos tão díspares como os conflitos raciais, a moralidade de experiências laboratoriais à Dr. Mengele ou a fragilidade da condição humana, são essas preocupações que o tornam numa das mais interessantes obras no seu género.

Já lá vão vinte anos desde que uma nave espacial repleta de extraterrestres semelhantes a camarões gigantes “estacionou” nos ares de Joanesburgo, capital da África do Sul. Foi o seu primeiro contacto com o planeta Terra e a dimensão assustadora da nave prometia um ataque iminente e uma espécie hostil e mortal para os humanos. Mas nada disso acabou por se confirmar. Antes pelo contrário: sem poderes e inadaptados, os seres de outro mundo tornaram-se refugiados na Terra, depois das grandes forças políticas que governam e regulam o planeta terem decidido ostracizá-los num campo de concentração: o famoso Distrito 9, que dá nome ao filme. Numa alegoria óbvia, clara e descarada – o que por si só contraria a essência indirecta da forma de estilo – ao Apartheid, o regime de separação e exclusão social que vigorou durante gerações no país que

“(...) enquanto falso documento, District 9 é brilhante (...)”

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WAR OF THE WORLDS

Título nacional: A Guerra dos Mundos Realização: Steven Spielberg Elenco: Tom Cruise, Dakota Fanning, Tim Robbins

2005 JOÃO PAULO COSTA

Na sua génese, A Guerra dos Mundos, baseado no romance de H.G. Wells é uma história muito simples: a terra é invadida por criaturas alienígenas munidas da mais avançada tecnologia e, no espaço de poucos dias, pouco resta da civilização que conhecemos, reduzida a cinzas pelas gigantescas máquinas de destruição vindas do espaço. Na versão cinematográfica de Steven Spielberg, a invasão é abordada sob o ponto de vista de uma família em luta pela sobrevivência e, como muitas vezes acontece na sua filmografia, com um pai ausente no centro das atenções. Se os primeiros 15 minutos são passados de forma pausada a estabelecer as devidas relações familiares, a partir daí o filme arranca para uma sucessão de cenas de acção que figuram entre as melhores da carreira do realizador americano, conseguindo aliar um certo espírito de série B aos meios mais avançados que a indústria tem para oferecer. Um dos seus grandes trunfos, que o diferencia de grande parte de produções do género, é a insistência em manter a câmara ao nível humano. Ou seja, o espectador apenas vê e sabe aquilo que as suas personagens vêem e sabem, assistindo à destruição que ocorre diante dos seus olhos sempre de baixo para cima. E aquilo que vêem os mais atentos é que Spielberg arranjou nesta história de destruição do planeta uma metáfora para o mundo que o rodeia. Trata-se, entre outras coisas, de um olhar sobre a paranóia global pós -11 de Setembro, e as referências aos terroristas que vamos ouvindo não surgem aqui por acaso mas sim como uma abordagem actual sobre os temas que Wells escreveu em 1898. No fundo, uma parábola sobre o lugar do ser humano no Mundo que deve proteger não de uma ameaça exterior mas de si próprio. As cenas de tumultos entre multidões desgovernadas são do mais desencantado que o olhar de Spielberg alguma vez teve sobre o Homem, compreendendo sempre que em circunstâncias extremas de sobrevivência, tudo se torna mais complexo do que uma mera disputa entre bons e maus.

Estreado em 2005, ano em que também nos ofereceu Munique, A Guerra dos Mundos marcou uma espécie de ponto final numa das melhores fases da carreira de Steven Spielberg, iniciada poucos anos antes com Inteligência Artificial, e da qual fazia também parte o excelente Relatório Minoritário, naquela que foi a primeira colaboração entre duas das mais poderosas figuras do cinema contemporâneo: o próprio Spielberg e Tom Cruise. Aqui, o actor nada estranho a estas lutas pelo destino da humanidade, assume uma dimensão claramente mais terrena, não funcionando como a derradeira esperança da humanidade, mas acima de tudo como o homem comum, neste caso um pai de uma família que está prestes a perder. Com Cruise destaca-se também a muito jovem Dakota Fanning cujos enormes olhos azuis funcionam como um reflexo perfeito do medo perante algo que não percebe. Depois, é deixar que Spielberg nos maravilhe com a forma como cria o tensão e suspense em cenas de cortar a respiração, assumindo também ele uma herança (mais pomposa) de Hitchcock que na realidade domina desde a sua estreia em Duelo na Estrada. O único verdadeiro problema de A Guerra dos Mundos passa mesmo por uma conclusão algo precipitada e demasiado limpa em oposição a tudo o que ficou para trás, com o realizador incapaz de resistir à habitual tendência para finais luminosos. Ainda assim, a excelência cinematográfica é tanta que se torna impossível ser demasiado duro com o filme, e desafiamos qualquer leitor a não ficar arrepiado com a espectacularidade de algumas sequências, nomeadamente quando os invasores se erguem do solo e iniciam o seu ataque de destruição em massa, um daqueles exemplos flagrantes daquela vitalidade cinematográfica que tanta falta fazem nas ocasionais incursões de Spielberg pelo academismo insosso de projectos como o mais recente Lincoln.

“(...) Steven Spielberg oferece-nos inesquecíveis sequências de acção e suspense que fazem deste um dos seus grandes filmes” 69


CLOVERFIELD

Título nacional: Nome de Código: Cloverfield Realização: Matt Reeves Elenco: Odette Yustman, T.J. Miller, Michael Stahl-David

2008 CARLOS REIS

Nova Iorque. Um grupo de jovens organiza uma festa de despedida para Rob, um amigo de longa data que vai trabalhar para o Japão nos dias que se seguem. Hud, o melhor amigo de Rob, está de máquina de filmar em punho a documentar tudo o que se passa, desde os testemunhos de despedida, à melancólica discussão entre o seu amigo e a ex-namorada. De um momento para o outro, um súbito e violento estrondo - como se de um tremor de terra se tratasse - acaba com a animação. Dirigem-se ao topo do edifício e dão conta que Nova Iorque está sob ataque. Do quê? Não fazem ideia, mas sabem que podem nem sequer conseguir sobreviver para o descobrirem. Mas haverá ameaça neste planeta que suplante o amor de Rob por Beth? Cloverfield é uma junção do estilo artístico de The Blair Witch Project e da essência destrutiva de Godzilla. Apesar da mescla, Cloverfield

conseguiu provar que a indústria de massas não esgotou a sua criatividade e originalidade, produzindo um produto que origina o seu próprio sub-género, reinventado conceitos e concepções, repetindo fórmulas - monstro ataca, pessoas morrem, todos fogem, alguns escapam - de modo inovador, segundo novas perspectivas. Com uma evidente conexão ao 11 de Setembro - tanto pela desorientação das pessoas perante o impossível, como por alguns dos diálogos e imagens que marcam a incapacidade de qualquer império ou nação perante o imprevisível, Cloverfield é, nas suas bases, um contra-senso tão colossal como delicioso, que junta a suposta balbúrdia e algazarra da destruição maciça e dos seus milhões de dólares à intimidade sublime de qualquer produção independente de Sundance. E, do nada, eis que nasceu o primeiro blockbuster da geração Youtube. Cloverfield é, nas suas bases, um contra-senso tão colossal como delicioso.

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28 DAYS LATER

Título nacional: 28 Dias Depois Realização: Danny Boyle Elenco: Cillian Murphy, Naomie Harris, Christopher Eccleston, Megan Burns, Brendan Gleeson

2002 ANÍBAL SANTIAGO

Em 28 Days Later, Danny Boyle embrenha-se no género de terror e apresenta-nos a uma cidade de Londres pós-apocalíptica destroçada por um vírus oriundo de símios, que contagia grande parte da população. A capital inglesa surge como uma cidade deserta, claustrofóbica, anárquica, onde não existe um governo, não existem leis, nem forças da autoridade, restando aos poucos humanos não contaminados lutar pelas suas vidas. Quando acorda do estado de coma, 28 dias depois de ter sido internado, Jim depara-se com um cenário apocalíptico, enquanto encontra um conjunto de seres humanos distintos, que vão desde a sua co-protagonista, Selena, passando por um pai e uma filha que se querem salvar, até um grupo de militares com uma agenda muito própria, no interior de um espaço urbano pouco recomendável para o lazer.

A cidade que Boyle nos mostra não é das mais aprazíveis. O cinzentismo a que é associado a cidade de Londres surge exponenciado pela atmosfera negra e pessimista com que Boyle povoa a narrativa, adensada por um trabalho de fotografia magnífico, que é capaz de exponenciar a atmosfera de paranóia que envolve os protagonistas, bem como, a natureza claustrofóbica dos cenários. Não faltam planos desconcertantes, uma boa utilização da iluminação e muita inquietação, numa obra bem estruturada, que consegue explorar a sua premissa e os seus personagens, enquanto aborda temas como a ética humana, anarquia, paranóia, Darwinismo Social, entre outros elementos. Inquietante, violento e entusiasmante, 28 Days Later surge como um filme de zombies recheado de reviravoltas, tensão e emoção, onde Danny Boyle mostra a sua versatilidade na realização cinematográfica. “(...) Danny Boyle mostra a sua versatilidade na realização cinematográfica.”

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LA JETÉE

Título nacional: La Jetée Realização: Chris Marker Elenco: Hélène Chatelain, Davos Hanich, Jacques Ledoux

1962 TIAGO SILVA

Servindo de inspiração a toda uma geração de realizadores ávidos de se aventurarem no terreno da ficção-científica moderna (sendo 12 Monkeys de Terry Gilliam aquele que é provavelmente o exemplo mais óbvio e que cita directamente o filme como a sua base de concepção), La Jetée ocupa conjuntamente com o magnífico Sans soleil os lugares cimeiros e detentores de maior influência até à actualidade em toda a filmografia de Chris Marker. Com uma acção situada temporalmente numa paisagem devastadora pós III Guerra Mundial, o filme é composto recorrendo apenas ao suporte fotográfico acompanhado de uma narração em voz-off efectuada de um modo quase kafkiano e interrompida esporadicamente por breves sussurros amedrontados, dando deste modo origem a uma foto-reportagem futurista. Numa Paris onde só restam escombros, aqueles que conseguiram sobreviver vão-se acumulando nos subterrâneos de uma cidade que nada conserva da sua realidade e ambiência anterior, servindo grande parte da população para experiências científicas que procuram encontrar eventuais soluções para a aparente situação irresolúvel. Apesar de bastante usual no género, a viagem no tempo é abordada em La Jetée de maneira excepcional e talvez como em mais nenhum filme até à data, não só pelo constante efeito de suspense e sobressalto que consegue provocar até ao fim da película como também pela atenção privilegiada que é concedida à dimensão individual e densidade psicológica de quem é exposto forçosamente e de maneira desumana a tal acontecimento. Se existem temas que atravessam toda a obra de Marker, o esforço de preservação da memória é um dos mais importantes e notáveis, sendo que no caso específico de La Jetée se observa principalmente o poder destrutivo que esta pode representar, levando um indivíduo a um estado de obsessão e alienação absoluta (e num nível mais completo

e abrangente da narrativa, à destruição de todos os valores do código moral). A ambição desmedida de procurar respostas no futuro e no passado para tentar compreender o tempo presente e aceder a uma realidade mais significante onde o conceito de civilização volte a existir, acaba por se revelar, na verdade, o principal motivo para o desastre e a impossibilidade de empenhar esta tarefa. Conjugando esta conjuntura com a ânsia perturbadora que a personagem sente de voltar a reviver o episódio que o assombra desde os tempos mais remotos da sua infância na plataforma de observação do aeroporto, relega-se para segundo plano a hipótese de recuperar a dignidade da vida humana em função de concretizar o seu desejo mais profundo e ver o enigma enfim solucionado. Estão assim reunidas todas as condições necessárias para a ocorrência do Deus ex machina na curta-metragem, criando um final soberbo que tem sempre a capacidade de surpreender, mesmo após inúmeros visionamentos. O mais interessante neste exercício fílmico do realizador francês e talvez a explicação para o fénomeno de culto que continua a representar, não é apenas a manipulação da imagem em que este assenta nem o modo como a montagem é realizada. No início da década de 60 e numa mera meia hora, Marker concretiza a sua visão de um mundo onde a guerra nuclear arruinou irremediavelmente a Humanidade e cria um fotoromance de desfecho impossível e de uma profundidade ímpar. La Jetée impressiona então pela sua estrutura mutável: aquilo que no início parece aparentemente simples, torna-se cada vez mais labiríntico com o suceder das imagens. O confronto chocante com a própria morte, a confusão que advém de fragmentos de lembranças dispersas e a acção repressiva que o próprio pensamento inconsciente tem sobre a atitude humana são temáticas que o filme consegue dissecar utilizando uma técnica arrojada e quase profética.

La Jetée impressiona pela sua estrutura mutável: aquilo que no início parece aparentemente simples, torna-se cada vez mais labiríntico com o suceder das imagens. 73


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DR. STRANGELOVE OR: HOW I LEARNED TO STOP WORRYING AND LOVE THE BOMB

Título nacional: Dr. Estanhoamor Realização: Stanley Kubrick Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden

1964

JOÃO PAULO COSTA

Em 1964, no auge da Guerra Fria, Stanley Kubrick decidiu levar um passo mais longe a ousadia que já marcara o seu projecto anterior (Lolita, 1962) e avançar com uma história provocadora sobre o fim do mundo pela via da guerra nuclear. Nada disso seria estranho para a época, e a ameaça vermelha originou filmes para todos os gostos (alguns dos quais, de resto, são abordados nestas páginas), mas ao adaptar o livro de Peter George ao grande ecrã, Kubrick percebeu que a paranóia reinante sobre a possibilidade real do extermínio da raça humana por si própria pedia uma abordagem satírica e não um dramalhão como tantos outros. Assim, em conjunto com o próprio George e o escritor Terry Southern desenvolveu um argumento ácido sobre a situação política da época que além do sucesso crítico e comercial, originou também ondas de protesto que reclamavam da irresponsabilidade do realizador ao brincar com coisas sérias. Temendo um ataque sub-reptício das forças russas que entre outras coisas podem “destruir os preciosos fluidos corporais americanos”, o insano General Ripper (Sterling Hayden) envia uma ordem de bombardeamento nuclear em território soviético, que irá iniciar uma cruzada contra o tempo a fim de impedir uma Terceira Guerra Mundial envolvendo o dedicadíssimo piloto responsável pelo bombardeamento (Slim Pickens), um general de grande vivacidade sexual (George C. Scott) e um presidente dos EUA, um capitão indefeso e um cientista nazi tresloucado (todos eles interpretados por Peter Sellers) bem como outras figuras caricaturais num enredo deliciosamente negro e paranóico onde a regra mais importante a reter é a de que não se pode lutar na Sala de Guerra. Se Kubrick se tornou unanimemente celebrado pelo rigor visual e pelo perfeccionismo com que abordava cada área da produção cinematográfica, Dr. Estranhoamor não é excepçao, e mesmo tratandose do que à primeira vista pode parecer uma ideia completamente

absurda, o americano não se afastou um milimetro dos seus princípios, e pelo caminho fez uma das mais preciosas comédias de sempre. Em boa verdade, Kubrick terá abordado a pesquisa de todos os detalhes do universo militar de Dr. Estranhoamor com a mesmo minúcia com que o fez com a época vitoriana em Barry Lyndon ou com a investigação espacial em 2001: Uma Odisseia no Espaço, e é precisamente a seriedade na forma e no tom que torna a comédia ainda mais hilariante. O mesmo se passa com o elenco que por vezes consegue debitar as maiores barbaridades com uma sisudez inesperada (exceptuando precisamente o Dr. Strangelove do título, personagem com a qual o genial Peter Sellers tem rédea solta). À medida que passam os minutos torna-se cada vez mais difícil resistir aos encantos ácidos de Dr. Estranhoamor, e quando no final uma personagem se lança montada numa bomba nuclear rumo ao fim do mundo agarrado ao seu chapéu, percebemos que mais do que qualquer outra coisa, o que Kubrick quis fazer foi uma cóboiada irresponsável sobre uma civilização cuja sobrevivência desde a entrada na era nuclear estava dependente do simples premir de um botão e da sanidade de quem o controlava. Que o tenha feito explorando de forma mais ou menos subtil alguns temas da masculinidade e os jogos de poder daí provenientes é apenas mais uma prova do génio absoluto do seu autor, que consegue ser tão mordaz quanto sempre foi, mesmo enquanto nos mostra a destruição do planeta iluminada por gigantescos cogumelos atómicos ao som da melancólica canção de Vera Lynn, “We'll Meet Again”. Diz a letra que “iremos encontrar-nos novamente/não sei onde/não sei quando”. Tudo o que Kubrick sabe, pela forma como a raça humana é representada ao longo da sua filmografia, é que quando isso acontecer, arranjaremos maneira de explodir com tudo uma vez mais, portanto mais vale ir rindo sobre o assunto enquanto cá estamos.

“Só mesmo o génio de Stanley Kubrick conseguiria fazer do fim do mundo uma das mais deliciosas comédias cinematográficas de todos os tempos” 75


MELANCHOLIA

Título nacional: Melancolia Realização: Lars von Trier Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland

2011 TIAGO SILVA

Extrapolando a designação primária e redutora de mera narrativa que se debruça sobre o fim apocalíptico do planeta, Lars von Trier introduz em Melancholia uma alegoria que expõe a desintegração gradual de uma mente e a dissolução do núcleo familiar. Na verdade, a “dança da morte” que o corpo celeste efectua em redor da órbita terrestre, não é mais do que a trajectória feita até à ruptura final de qualquer vínculo que ainda pudesse existir entre as personagens. Esta ideia fica bem presente desde a maravilhosa sequência inicial em câmara lenta, acompanhada de “Tristan und Isolde” de Wagner, deixando antever a tragicidade dos acontecimentos futuros. Apesar da divisão em duas partes coincidente com o maior enfoque em cada uma das irmãs, Justine (interpretada na perfeição por Kirsten Dunst, vencedora do Prémio de Melhor Actriz em Cannes) funciona

como personagem-chave. Enquanto Claire se assume como sinédoque da Humanidade perante a hipótese do seu fim, a segunda, dada a sua condição mental, tem um papel de destaque e quase sobrenatural no desenrolar dos acontecimentos. Aquilo que apavora as restantes personagens, é recebido com calma e aceitação por parte da mesma; o fim do mundo como dádiva que pode enfim pôr cobro ao seu sofrimento. Melancholia é também um filme sobre transgressão, não só dos limites morais como daqueles que definem até onde estamos dispostos a ir para assegurar a sobrevivência. Refere-se enfaticamente ao longo da acção que o campo de golf tem apenas dezoito buracos, mas momentos antes do fim, Claire é vista a ultrapassar o 19º. Também o cinema de Trier consegue ir para além daquilo que conhecemos, lançando-se para fora de pé e sucedendo-se magnificamente.

Melancholia aborda a transgressão, não só dos limites da moral como também da sobrevivência.

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KNOWING

Título nacional: Sinais do Futuro Realização: Alex Proyas Elenco: Nicolas Cage, Rose Byrne, Chandler Canterbury

2009 CARLOS REIS

Alex Proyas é conhecido na indústria cinematográfica por ser um visionário e um homem apaixonado pela transposição para o cinema de apocalipses humanos e planetários. Em Knowing, o realizador natural do Egipto explora uma narrativa que envolve Nicolas Cage no papel de um professor astrofísico que tenta evitar que futuras calamidades de nível global aconteçam, à medida que interpreta e resolve combinações numéricas, descobertas numa cápsula enterrada durante décadas na escola do filho. Inicialmente destinado a Richard Kelly, Sinais do Futuro, sem deslumbrar ou convencer por absoluto, revela-se uma obra interessante, desenrolada numa atmosfera profética e misteriosa de excepção. Sempre a bom ritmo, Proyas leva o filme com sucesso para territórios perigosos – não é fácil tentar justificar filosofias como o determinismo ou o livre arbítrio – e,

apesar das muitas lacunas a nível interpretativo e gráfico, constrói uma história fluída que frequenta lugares pouco comuns no género. O final ambicioso, que fecha um ciclo que começara na conversa inicial entre pai e filho, será certamente o elo de ligação à fita que levará o espectador a adorar ou abominar o filme. Roger Ebert, por exemplo, considerou-o um dos melhores filmes de ficção científica que já viu. Outros, afirmam que não passa de uma mistura barata entre A Guerra dos Mundos e Encontros Imediatos de Terceiro Grau. Independentemente do julgamento feito por cada cinéfilo, a componente religiosa, científica e simbólica de Sinais do Futuro merece uma oportunidade. E Proyas, magnânimo a criar terror onde ele nem sequer existe, a nossa confiança.

Proyas leva o filme com sucesso para territórios perigosos.

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A TORINÓI LÓ

Título nacional: O Cavalo de Turim Realização: Béla Tarr Elenco: János Derzsi, Erika Bók, Miháli Kormos

2011 TIAGO SILVA

Nos primeiros segundos que dão início a O Cavalo de Turim, quando ainda nos encontramos na escuridão absoluta, é narrado o episódio em off em que Friedrich Nietzsche, antes de se despenhar no abismo de loucura muda em que permaneceria cerca de dez anos até à sua morte, se abraça a um cavalo enquanto chora compulsivamente, impedindo-o assim de ser chicoteado. Seja este o mesmo cavalo que invade a película no assombroso travelling inicial ou não, o certo é que no seu filme final, Tarr cria um mundo demente e niilista homólogo à ideologia do filósofo alemão. Percorrendo um trajecto bastante semelhante aquele que é feito em As Harmonias de Werckmeister ou O Tango de Satanás (experiência inigualável com cerca de sete horas de duração), é feita uma descrição exaustiva do ambiente torturado e tempestuoso que asfixia pai e filha num dos piores invernos de que há memória. No entanto, o filme consegue ir ainda mais longe do que os trabalhos anteriores do realizador húngaro no que diz respeito ao seu propósito final e na sensação de vazio que corrompe o espectador sem que este esteja consciente disso. Por esse mesmo motivo, o ritmo hipnótico, lento e repetivo da cinematografia em que O Cavalo de Turim se desenvolve é mais do que justificável e necessário, estabelecendo um paralelo com a sua própria acção principal e ilustrando o peso da mesma; nas palavras de Tarr, “peso da existência humana”, peso de uma rotina sem esperança, de dias sempre iguais uns aos outros, de movimentos repetidos de forma mecânica vezes sem conta, sem qualquer significado ou ânsia que não a mera sobrevivência. Esta ideia crua e desapaixonada da realidade é conseguida através do uso recorrente da banda sonora composta por Mihâly Vig, da escassez de diálogos e dos vagarosos takes (apenas trinta, no total de duração do filme) em que personagens e objectos são engolidos pelas sombras do interior claustrofóbico da sua habitação, fazendo com que todo o

filme fique coeso numa estrutura quase coreográfica. Lá fora, o vendaval ininterrupto quebra o silêncio e anuncia a catástrofe de proporções bíblicas que está prestes a abater-se sobre a família. O solo árido e em erosão, o poço seco e a ausência de luz (há apenas fugazes vislumbres da mesma ao longo do filme) são tudo símbolos de um mundo decadente e de uma humanidade culpada e incapaz de reencontrar o seu rumo, perdida no negrume dos seus pecados, da indiferença e da miséria, alimentando-se de crenças infundamentadas e deturpadas. A simbiose conseguida entre som e imagem aliada a uma direcção de actores feita de forma magistral, contribui para o acentuar desta atmosfera, dividindo audiências e preconizando para muitos críticos a morte do cinema (pelo menos de como o conhecemos). Béla Tarr tem a capacidade de filmar o vazio como mais nenhum realizador consegue (ou alguma vez conseguiu) no universo cinematográfico, de realizar uma meditação metafísica sobre a pobreza e sobre o cansaço que tem o poder de aterrorizar e fazer reflectir verdadeiramente. Por todas estas razões, O Cavalo de Turim é um filme que pertence indubitavelmente a outros tempos (um filme do outro mundo - um filme do fim do mundo) mas que se consegue destacar como uma das obras mais fascinantes e exigentes da década, sendo um pesadelo apocalíptico elevado à perfeição. Torna compreensível a visão e postura que o realizador tem sobre a vida e sobre a arte, explicitando a atitude deste quando afirma que tem de se retirar do mundo cinematográfico pois “não sabe o que poderá dizer mais”: o filme transcende e contém todo o cinema. Se há sensação maior do que o desespero e confusão logo após o seu visionamento, só a gratidão de poder assistir a tão singular fenómeno.

Um filme que pertence indubitavelmente a outros tempos (um filme do outro mundo - um filme do fim do mundo) mas que se consegue destacar como uma das obras mais fascinantes e exigentes da década. 79


ARMAGEDDON

Título nacional: Armageddon Realização: Michael Bay Elenco: Bruce Willis, Ben Affleck, Liv Tyler, Steve Buscemi, Peter Stormare, Michael Clarke Duncan

1998 CARLOS REIS

Um asteroide de dimensões monstruosas está em rota de colisão com o nosso planeta. Chamada a intervir pelo governo norte-americano, a NASA decide juntar uma equipa com os melhores profissionais de perfuração petrolífera do país e treiná-los de forma expedita para, em menos de dezoito dias, conseguirem "aterrar" no meteorito, plantar uma bomba atómica e salvarem a humanidade da extinção. Vamos começar pelo óbvio: para apreciar Armageddon, é fundamental o espectador abstrair-se das inúmeras implausibilidades do filme, dos erros físicos e científicos, do facto de a maior nação à face da Terra considerar que seria mais fácil treinar uma mão cheia de saloios para serem astronautas do que pegar nestes últimos e ensiná-los a furar buracos ou, pura e simplesmente, o facto de tal algazarra planetária sim, o apocalipse estava a dias de acontecer e algumas cidades foram destruídas pelo caminho - não merece uma única abordagem psicológica

ou social aos efeitos do fim eminente na população humana. Esqueçam isso tudo e Armageddon é possivelmente um dos guilty pleasures mais difíceis de revelar de milhares de cinéfilos em todo o mundo. Cocktail de adrenalina, humor e testosterona, Michael Bay constrói uma obra de puro entretenimento, onde inteligência e lógica são conceitos irrelevantes. Realizador de momentos e não de cenas, Bay filma e edita a uma velocidade estonteante, sendo o grande trunfo deste seu trabalho a forma como caracterizou todo um elenco de excelência: Buscemi e Stormare revelam-se estratosféricos e Willis, Affleck, Duncan ou mesmo Liv Tyler nunca se perdem no meio de tanta bandeira americana. Milionário em todos os sentidos, Armageddon revelou-se um espetáculo áudio-visual único, acompanhado por uma banda sonora inesquecível liderada pelos Aerosmith. “Cocktail de adrenalina, humor e testosterona (...)”

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DEEP IMPACT

Título nacional: Impacto Profundo Realização: Mimi Leder Elenco: Robert Duvall, Morgan Freeman, Elijah Wood

1998 SARA GALVÃO

Conhecido como “o outro filme com um cometa que vem na direcção da Terra”, Impacto Profundo é daqueles filmes que vemos num pachorrento domingo de chuva. Centrado mais no drama humano do que nos efeitos especiais, peca pelo excessivo melodrama televisivo, mas há que apreciar, pelo menos, duas coisas. A primeira, coloca um presidente negro na Casa Branca dez anos antes das eleições americanas. A segunda - spoiler alert - não tem medo de matar umas quantas personagens. Porque se há coisa que irrita num filme apocalíptico, é quando as personagens chegam ao fim sem um único arranhão. Infelizmente, para um filme com tantas personagens a pulular pelos cantos, não há nenhuma com quem nos preocupemos verdadeiramente. Os dois actos heróicos de sacrifício - em diferentes escalas - falham em impressionar. E o mais próximo que chegamos de sentir tensão é na

sequência em que os astronautas tentam colocar as bombas no cometa antes que o sol os atinja. De resto, damos por nós a ter uma atitude bastante semelhante à da maioria das personagens no filme: não há salvação possível, logo, é escusado preocuparmo-nos em demasia. Também não ajuda que Impacto Profundo pareça, em 2013, uma amálgama de filmes diferentes. Temos o cometa, os astronautas, a jornalista curiosa, o casal de jovens apaixonados, o presidente, o tsunami, a escolha de sobreviventes... tudo elementos dos quais foram feitos pelo menos meia dúzia de filmes de cada. Mas se quiserem ser entretidos durante duas horas sem grandes sustos, há pior que ver Robert Duvall numa excelente performance. Para verdadeira tensão, contudo, talvez ir ao Youtube ver o meteoro de Chelyabinsk seja uma melhor opção. Apocalipse Remix

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Š m4tik


CINEMA NO SÉCULO XXI: O FIM DE UM MUNDO TAL COMO O CONHECEMOS SAMUEL ANDRADE

No passado mês de Junho, durante um evento promovido pela USC School of Cinematic Arts em Los Angeles, Steven Spielberg e George Lucas despertaram a nossa atenção com as suas declarações sobre a “implosão da indústria cinematográfica”, num cenário negro e quase perturbador da forma como iremos viver o Cinema nos anos vindouros. Frases como «os filmes de grande orçamento vão ser irremediáveis fracassos», ou «vamos acabar por ter salas muito maiores, e uma ida ao cinema irá custar 50 ou 100 ou 150 dólares – tal como os eventos da Broadway ou um jogo de futebol custam hoje em dia», proferidas pelos dois cineastas, afiguraram-se, à primeira vista e junto das comunidades cinéfilas, como mais especulativos do que proféticos. No entanto, analisemos alguma da realidade que já nos rodeia e coloquemo-nos uma importante questão: estaremos mesmo assim tão distantes de vatícinios tão radicais — e, para a essência de observar um filme tal como o conhecemos, “apocalíptico” — como os formulados por Spielberg e Lucas?


© m4tik

O CINEMA JÁ NÃO É O QUE ERA

O FIM DO MUNDO PASSA NA INTERNET

Em diversos aspectos, a Sétima Arte atravessa uma considerável evolução (ou “revolução”, dirão alguns) no seu âmago num reduzido espaço de tempo. Nenhuma outra mudança terá sido mais paradigmática e debatida como a relativa à projecção nas salas comerciais.

Das previsões avançadas por Steven Spielberg e George Lucas, aquela que se aparenta menos “futurista” será, sem dúvida, a de existirem menos estreias em sala. Com passos tímidos mas convictos, plataformas como o Hulu ou o Netflix demonstram a margem de manobra que a exibição Video On Demand (VOD) tem no campo da exibição de cinema na Internet. Dos exclusivos assegurados, pelas duas empresas, junto das grandes produtoras de Hollywood até ao rápido crescimento de subscritores (3 e 36 milhões, respectivamente) destes serviços, passando por ofertas premium de home cinema que possibilitam, para quem possuir os meios e a intenção, visionar em casa as estreias (inclusive, as em 3D) mais recentes, o VOD pode muito bem constituir o caminho que Spielberg e Lucas apontaram, em Junho passado, na USC School of Cinematic Arts.

A veloz adopção, tanto na produção como para a exibição, do digital em detrimento da película pela indústria, é um dos cenários que mais debate tem suscitado junto de profissionais e espectadores de cinema, onde se sucedem os argumentos em prol das vantagens técnicas, económicas e estéticas do formato sobre o acetato de celulose. O resultado é um panorama actual de maior produção, mais estreias semanais, mais recursos técnico-criativos para realizadores e mais formatos de projecção (2D, 3D, IMAX, IMAX 3D). E para os irredutíveis — com Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson na dianteira —, trata-se de uma oportunidade de continuarem, tal como Django Libertado ou O Mentor demonstraram, a expandir os limites da película numa época de predominância digital.

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OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE

E NO FINAL, O QUE SOBRA?

Os sinais do fim, no seio da própria actividade intelectual cinematográfica, são igualmente distintos mas, paradoxalmente, não têm merecido suficiente atenção. Centremo-nos no mais notório: a saber, o incremento de “desapegos” pelo Cinema por parte de realizadores cujos nomes são quase sinónimos da própria expressão artística. Steven Soderbergh está definitivamente rendido ao pequeno ecrã (não obstante o enorme “pedido de dissuasão” que constituiu a escolha de Behind the Candelabra para a Selecção Oficial do Festival de Cannes), David Lynch, que agora concentra o seu talento na pintura, na música e na realização de videoclips, afirmou arrojadamente que «a Televisão, hoje em dia, é muito mais interessante que o Cinema» e até Quentin Tarantino confessou a vontade de apenas fazer televisão quando atingir uma fase tardia da sua carreira. A captação de talentos do Cinema para a Televisão está longe de ser um dado novo, mas é, contudo, um assegurado prenúncio da constante frescura e renovação criativas para os formatos das séries e miniséries, em contraste com a aposta, aparentemente planeada durante as últimas décadas e largamente criticada por espectadores e imprensa especializada, em sequelas, remakes e spin-offs do cinema de grande orçamento.

Alterações profundas no modo de ver um filme, descrença no Cinema demonstrada por talentos singulares, diminuição de originalidade: sinais do fim de um “mundo” tal como o conhecemos? Todavia, no meio de todo este processo de reformulação, permanece a esperança de que, dos “escombros”, renasça uma cinefilia revigorada e inevitavelmente transfigurada, cimentada no poder do vox populi potenciado pela Internet — sites, blogs, redes sociais de crítica e divulgação cinematográfica — e por novas e futuras gerações que serão o reflexo das sociedades contemporâneas. Restará a dúvida sobre que trigo e joio deverão ser separados nesta análise sobre os novos percursos trilhados pelo Cinema; mas essa não é a intenção presente. Estamos perante uma mutação técnica, temática e estética permanente, num “apocalipse” mais revelador da reinvenção de uma arte do que do seu fim.

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MAD MAX APOCALIPSE ANÍBAL SANTIAGO

Quando foi lançado a 12 de Abril de 1979, poucos esperavam que Mad Max se tornasse numa obra icónica, tivesse direito a duas sequelas (e já conta com duas prequelas a caminho), alcançasse resultados de bilheteira muito positivos, contribuísse para alavancar a carreira de George Miller (estreante na realização de longas metragens) e Mel Gibson, e passasse com tanta distinção a passagem do tempo. Mad Max simboliza com algum sucesso o "Oxploitation", um subgénero inserido no interior da chamada "New Wave do Cinema Australiano", albergando um conjunto de filmes australianos de baixo orçamento, lançados entre os anos 70 e anos 80 (quando a censura passou a permitir maiores liberdades), marcados pela violência, sexo, algum mau gosto, nudez e baixo orçamento, filmes nem sempre bem vistos pela crítica e pelos académicos, que ganharam alguma exposição com o documentário Not Quite in Hollywood: The Wild, Untold Story of Ozploitation! de Mark Hartley. Mad Max é provavelmente um dos casos mais populares do Oxploitation, ao apresentar-nos a um futuro pós-apocalíptico, onde os gangues dominam as estradas, o petróleo escasseia e a humanidade vive uma enorme crise de valores, a violência está sempre presente, numa sociedade marcada por um enorme Darwinismo Social, onde impera a lei do mais forte. Numa edição da Take Cinema Magazine dedicada aos filmes apocalípticos é impossível deixar de lado esta famosa trilogia

protagonizada por Mel Gibson, na época um actor em ascensão na carreira, embora nos dias de hoje esta tenha conhecido o seu Apocalipse com alguns comportamentos pouco recomendáveis a revelaremse verdadeiras armas de destruição maciça para as suas ambições profissionais. Gibson interpreta o protagonista dos três filmes da saga, Max Rockatansky, um indivíduo que é perseguido pelo perigo e pelo destino, um personagem icónico, caracterizado pelas poucas falas, pelo seu casaco de cabedal preto e por simbolizar uma réstia de esperança num mundo pós-apocalíptico marcado pelo crime e anarquia. Este é um futuro que marca uma regressão nos comportamentos da sociedade, que parece saída de um western, embora o cavalo tenha sido substituído pela mota e as diligências pelos carros, onde inicialmente as autoridades têm de combater os criminosos com enorme violência, e posteriormente assistimos a uma sociedade sem lei nem autoridades, onde os seres humanos são deixados ao seu próprio destino. George Miller é bastante eficaz na criação deste futuro distópico, onde recursos naturais como o petróleo escasseiam, o crime domina as ruas e as estradas, a violência paira pelo ar com a mesma facilidade que a poeira do deserto levanta com o vento e Mel Gibson brilha com um dos personagens mais icónicos da sua carreira, numa saga que se conseguiu refrescar de filme para filme. Se em Mad Max, ainda podíamos encontrar as forças das autoridades a procurarem defender o pouco que restava da 87


lei, onde se inseria Max, em Mad Max 2: The Road Warrior encontramos uma sociedade marcada por pequenos grupos, onde a única lei que parece existir é o da sobrevivência do mais forte. Max também está mudado. No primeiro filme este é um polícia que decide abandonar o ofício, após a escalada de violência que resulta na morte do seu colega, mas logo acaba por perder a mulher e o filho, assassinados pelo gangue. Na continuação, Max surge solitário, aparentemente calmo, com uma certa amargura pelos caminhos reservados pelo destino, enquanto inesperadamente se vê envolvido num confronto entre um grupo liderado por um conjunto de saqueadores com um aldeamento que guarda algumas reservas de gasolina. Mais uma vez Max lida inadvertidamente com um grupo de criminosos, que têm como actividades roubar, pilhar, violar, assassinar, entre outras actividades pouco recomendáveis, sendo liderados por Lorde Humungus, um antagonista que varia entre o visual punk e o lutador de wrestling. Max não é o herói, bem pelo contrário, este apenas vagueia em busca de gasolina, mas acaba por assumir o manto do herói improvável, algo que lhe acontecerá um pouco no terceiro filme. O terceiro filme (como poderemos verificar nas análises mais adiante) destaca-se pela capacidade de expandir e explorar o universo cinematográfico de Mad Max, ao mesmo tempo que faz evoluir o personagem e permite a Mel Gibson sobressair ainda mais. Este foi um dos filmes da saga que mais dividiu a crítica, embora o prestigiado


e malogrado crítico Roger Ebert não tenha tido grandes problemas em atribuir quatro estrelas em quatro ao filme e salientar que "It's not supposed to happen this way. Sequels are not supposed to be better than the movies that inspired them. The third movie in a series isn't supposed to create a world more complex, more visionary and more entertaining than the first two. Sequels are supposed to be creative voids. But now here is Mad Max Beyond Thunderdome, not only the best of the three Mad Max movies, but one of the best films of 1985". Palavras sábias e que dizem muito sobre a evolução que Mad Max Beyond Thunderdome apresenta em relação aos anteriores filmes da saga, curiosamente, o único que não é exclusivamente realizado por George Miller, tendo sido realizado a meias entre este e George Ogilvie. A decisão prende-se sobretudo com a morte de Byron Kennedy, o produtor do projecto e amigo pessoal de Miller, com quem este começou a desenvolver o projecto. Miller ficou responsável pelas cenas de acção, enquanto Ogilvie ficou com as restantes cenas. O facto de Miller realizar as cenas de acção diz muito do papel fulcral deste na elaboração das mesmas ao longo dos filmes anteriores, onde não faltaram alguns momentos memoráveis, que vão desde perseguições pelas estradas (os veículos são elementos importantes na narrativa da saga), tiroteios, boomerangs cortantes a esvoaçarem pelos ares, entre outros, enquanto elaborou um conjunto de filmes icónicos, que conquistaram o público e inspiraram várias obras cinematográficas e

cineastas. Desde Guillermo Del Toro, passando por David Fincher, Robert Rodriguez até James Wan, vários foram os cineastas influenciados pelos filmes da saga, para além dos inúmeros episódios de séries e filmes que efectuaram referências às obras da franquia, mostrando a relevância da mesma ao longo do tempo, apesar de inicialmente não ter reunido consenso junto da crítica. Com três filmes icónicos e com alguma relevância na história do cinema, a saga Mad Max continua a desafiar o tempo e a proporcionar bons momentos aos cinéfilos, sendo um dos destaques desta nova edição da Take Cinema Magazine, cujos filmes serão analisados mais pormenorizadamente já de seguida.

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MAD MAX 1979

Obra marcante do final da década de 70, Mad Max marcou uma geração, lançou a carreira do realizador George Miller e apresenta momentos memoráveis de cinema. Não que a sua história seja a mais elaborada, mas tudo é apresentado de forma extremamente apelativa, enquanto somos colocados perante uma história de vingança marcante, tendo como pano de fundo um futuro não muito distante que parece saído dos westerns. Não temos o xerife a cavalo, nem temos os saloons, mas temos os agentes da autoridade de mota, casaco preto de cabedal, grande estilo, enquanto combatem os criminosos num planeta Terra pouco agradável e marcado pelo crime e violência. Tendo como pano de fundo uma Austrália distópica, Mad Max apresenta-nos a um território quase anárquico, onde autoridades e criminosos digladiam-se como se estivessem em plena guerrilha, numa fase em que o planeta se encontra exaurido de recursos como o petróleo. Para combater os criminosos que roubam os cidadãos, vandalizam os seus bens, agridem-nos e violam as leis, foi criada a Main Force Patrol (MFP), uma unidade de polícia que procura travar o crime a todo o custo. No outro lado da moeda encontram-se os Zed Runners, um grupo de criminosos liderados por Toecutter (Hugh Keays-Byrne) e Bubba Zanetti (Geoff Parry). Mad Max não poupa tempo a apresentar-nos ao violento contexto que rodeia a narrativa do filme, sobretudo quando o criminoso Crawford "Nightrider" Montizano, um dos elementos dos Zed Runners, assassina

um polícia e inicia uma fuga pelo asfalto até despistar-se perante a perseguição de Max Rockatansky (Mel Gibson), um dos mais brilhantes agentes da autoridade, que surge ao volante do seu turbinado Interceptor. A morte de "Nightrider" leva a que os elementos do gangue surjam para o seu funeral, prometendo trazer muita confusão pelo caminho, acabando por perseguir um casal, do qual vão violar a mulher. Quem encontra o casal é Max e o seu colega, Goose, descobrindo também a presença de Johnny, um dos elementos do grupo de criminosos, cujo excesso de consumo de drogas impede-o de conseguir conduzir a mota e entrar em fuga. Johnny é preso, mas logo é solto em tribunal, trocando juras de vingança com Goose, um conflito que termina em desgraça quando o agente é assassinado de forma violenta, ao ter o seu corpo imolado. Perante este escalar de violência, Max decide abandonar as suas funções e dedicar-se à sua esposa (Joanne Samuel) e filho, procurando uma vida calma e longe da violência do seu quotidiano como agente da autoridade. No entanto, esta tarefa complica-se quando Max e a sua família são perseguidos pelos motoqueiros, algo que promete terminar em desgraça. Se a história de Max parece fadada à desgraça, já a história de Mad Max está destinada ao sucesso e à conquista da imortalidade cinéfila. Com um conjunto brilhante de cenas de acção, onde não faltam emotivas perseguições onde os carros e as motas beijam o asfalto e avançam de forma violenta, enquanto são conduzidos, quer pelas autoridades, quer 90


pelos criminosos, Mad Max apresenta-nos a uma história simples mas marcante, onde a violência, criminalidade e vingança pairam pelos seus poros. Uma violência que surge representada através das figuras das autoridades e dos criminosos, numa sociedade onde a lei pouco parece valer, num futuro distópico, recheado de elementos do presente e do passado, onde recursos como o petróleo se encontram a escassear. No meio deste universo perdido de valores temos Max Rockatansky, um personagem carismático da carreira de Mel Gibson, uma figura da lei marcada pela honra, que destoa no meio da imoralidade que o rodeia, algo que o promete conduzir à desgraça e ao intenso e memorável último terço da narrativa. O desempenho de Mel Gibson é praticamente irretocável, no entanto, o grande destaque é o universo narrativo criado por George Miller. Com um orçamento baixo, mesmo para a época, Miller apresenta-nos a uma Austrália marcada por um clima de malaise, onde o crime e perversão parecem dominar, parecendo muitas das vezes estarmos perante um recuo civilizacional, em que parece que regressámos ao velho oeste. Saiu o cavalo e entrou a mota, saíram as diligências e entraram os carros, enquanto somos apresentados a um mundo pós-apocalíptico marcado por algum nihilismo e muita violência, onde os criminosos são sacanas do pior, excêntricos, quase caricaturais, que se preparam para causar o choque no espectador e no protagonista. O que não causa choque é a

popularidade alcançada por Mad Max e a influência que esta obra teve junto do público e de outros cineastas, tendo gerado duas sequelas, uma legião de fãs e tornando-se um símbolo da cultura pop do seu tempo. A história de vingança do protagonista não é uma novidade, bem como muitas das temáticas apresentadas, mas George Miller e a sua equipa técnica conseguem criar um universo narrativo que facilmente capta a nossa atenção, arrastando-nos para o interior de uma obra icónica, que continua a marcar gerações. Violento, entusiasmante, dramático e inquietante, Mad Max começa com chave de ouro a icónica saga protagonizada por Mel Gibson.

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MAD MAX 2: THE ROAD WARRIOR 1981

Sequela do icónico Mad Max, Mad Max 2: The Road Warrior não perde tempo e começa desde logo a apresentar-nos o contexto que engloba a narrativa. Estamos perante um futuro pós-apocalíptico, onde os recursos petrolíferos estão praticamente esgotados, as quadrilhas lideram as estradas e os homens honrados encontram dificuldades em sobreviver. Este é um futuro ainda mais desolador do que o do primeiro filme, não faltando um planeta Terra devastado devido a um confronto bélico entre duas potências mundiais, uma devastação que afecta não só o território, mas também os valores, onde os seres humanos digladiam-se por recursos como a gasolina e pela sobrevivência. O próprio aspecto de Max, o protagonista, indica essa mudança em relação a Mad Max, com este loner a apresentar uma imagem mais descuidada, enquanto surge acompanhado pelo célebre casaco preto de cabedal, a companhia do seu cão e as dores pela morte da esposa e do filho no primeiro filme. Max vagueia com o seu Interceptor, um Ford Falcon V8, pelas terras áridas, acabando por se envolver num confronto com um gangue que tem como actividades primordiais roubar gasolina, devastar, pilhar, violar mulheres, assassinar e tudo o que envolve o crime. Se em Mad Max tínhamos um planeta Terra devastado e exaurido de recursos, em Mad Max 2: The Road Warrior encontramos uma terra recheada de terrenos áridos, ainda mais dominada pela anarquia, pelo crime, pelo nihilismo dos comportamentos, onde o bom senso entre os seres humanos parece ter sido trocado por um selvagem Darwinismo social. É neste contexto pérfido e inquietante, marcado pela poeira e pelas areias vermelhas dos cenários circundantes às estradas, que se encontra Max Rockatansky, um personagem marcado pela crueldade do destino, que procura sobreviver num mundo onde o crime é a palavra de ordem, os gangues dominam as estradas, os seres humanos vestem-se de maneiras muito peculiares e nada parecem dizer ao protagonista. Max apresenta

uma aparente desilusão em relação a tudo e todos que o rodeiam, embora mantenha aquela centelha de humanidade que o permite tornar-se num anti-herói capaz de aglutinar os seres humanos à sua volta e enfrentar (novamente) um perigoso gang, que o promete colocar em problemas. Os problemas e as adversidades parecem perseguir Max Rockatansky. Foi assim em Mad Max, quando foi alvo da perseguição de um gangue, após abandonar as forças das autoridades, algo que culminou na morte da esposa e do filho. E é assim em Mad Max 2: The Road Warrior, onde tem de enfrentar um perigoso gangue liderado pelo caricato Lord Humungus, o "ayatollah do rock-and-rollah", uma espécie de gladiador dos tempos modernos, que conta com um corpo musculado, pouca roupa e uma máscara a cobrir a cara, contando com uma equipa de seguidores igualmente caricata, que variam entre o visual punk, vestimentas à lutador de luta livre, preparando para saquear e matar para conseguirem roubar combustível. Os antagonistas são do mais unidimensional possível, bem como vários dos personagens secundários, destacando-se sobretudo pelo seu guarda roupa pouco comum, com George Miller a exacerbar o estilo em detrimento da substância ao criar uma narrativa envolvente onde a destruição e o pessimismo parecem rodear todos os cenários, incluindo o território do grupo que Max vai ter de proteger. Este é um grupo muito peculiar, onde não falta uma criança (Emil Minty) que parece saída das cavernas pré-históricas enquanto tem a companhia 92


do seu boomerang capaz de cortar cabeças e dedos, uma mulher guerreira (Virginia Hey), um líder idealista (Michael Preston), entre outras estranhas figuras, incluindo um condutor de um autogiro que forma uma estranha ligação com Max. O terreno que estes personagens habitam é precário, próximo de uma pequena aldeia, uma cidade que parece saída do Velho Oeste, habitada por população desconfiada enquanto temem os criminosos e anseiam por um salvador. Max apenas procura gasolina, mas cedo ajuda estas gentes, qual cavaleiro solitário saído de um western, e procura mostrar que ainda existe alguma esperança na humanidade no interior de um cenário marcado pelo pessimismo. Dizer que o pessimismo rodeia os cenários é ser extremamente simpático. Não faltam criminosos que violam, roubam, matam, torturam, extorquem, enquanto a humanidade parece ter regredido até aos seus tempos mais anciãos. Esqueçam as regras, esqueçam as leis, quem manda em Mad Max 2: The Road Warrior é o mais forte, aquele que se revela mais apto. Darwin ficaria orgulhoso, mas Max Rocktansky tem alguns problemas em viver num mundo assim. Max é o exemplo de uma réstia de esperança na humanidade, um personagem icónico na carreira de Mel Gibson e na história do cinema, numa obra que surge algo datada nos dias de hoje, embora não perca o seu estatuto de clássico. Este estatuto deve-se não só à sua história que facilmente fica na memória, mas também

devido à enorme perícia de George Miller, que realiza mais uma obra memorável da sua carreira, onde não falta um protagonista icónico, muita violência, emoção, perseguições estonteantes, enquanto Max continua a sua jornada aparentemente sem rumo pelas estradas. Seja a conduzir o seu Interceptor, seja a conduzir uma carrinha com gasolina, Max encontra nas estradas o conforto e o perigo, a adrenalina que lhe falta e entusiasma, a possibilidade de encontrar um desafio onde pode ser bem sucedido ou encontrar a morte e assim poder ir ter para junto da família, proporcionando alguns momentos entusiasmantes. George Miller surpreendeu tudo e todos com Mad Max em 1979 e confirmou os bons indícios ao elaborar uma sequela que em nada fica a dever ao filme original, desenvolvendo o universo em volta de Max Rockatansky e transformando-o numa figura icónica que dificilmente conseguimos esquecer.

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MAD MAX BEYOND THUNDERDOME 1985

Ao terceiro filme, a saga Mad Max revela uma vitalidade pouco comum para as franquias cinematográficas que, regra geral, costumam perder fôlego de filme para filme, ao apresentar-nos a um universo narrativo bem construído, que marca uma evolução em relação aos anteriores filmes da saga e permite explorar novas facetas do protagonista. Continuamos a ter um planeta Terra pós-apocalíptico, Max continua a sua jornada solitária qual nómada sem poiso fixo, mas somos apresentados a duas realidades distintas que nos levam quase a termos dois filmes no interior de Mad Max Beyond Thunderdome, que logo se unem para nos dar um emocionante final. O primeiro cenário primordial é a cidade de Bartertown, um local governado pela impiedosa Aunty Entity (Tina Turner em plenos anos 80, ou seja, mais carismática do que nunca), muito marcado por uma enorme precariedade, onde a electricidade e a tecnologia dependem do gás metano, que é criado a partir de fezes de porcos, que se encontram no submundo da cidade, um espaço inferior onde trabalha um indivíduo diminuto chamado Master e um indivíduo de grandes proporções que o protege, chamado Blaster. Logo aqui encontramos uma dicotomia interessante entre os dois trabalhadores que no espaço inferior colocam a cidade a funcionar, enquanto as classes governantes, no caso, Aunty, lideram no plano superior. Max chega a este local devido a procurar pelo seu famoso carro e por peças roubadas. Claro está que a estadia de Max no local não vai ser agradável. Perante o crescente poder de Master, que é protegido por Blaster, a soberana logo pede a Max que assassine o protector do primeiro, algo que permitira a Aunty dominar o indivíduo e dar ao protagonista os objectos que este pretende. Se pensa que a riqueza deste mundo acabou por aqui, engane-se, pois ainda muito está para vir, sobretudo: a Cúpula do Trovão. Qual arena de gladiadores romanos sem glamour, esta cúpula é o local onde decorrem os duelos, onde apenas um pode sair vivo, caso

contrário é sujeito a uma roda da sorte, que pode tratar de dar destinos tão "fofos" como a morte, amputação, ida para o "gulag" aka deserto, entre outros. Mas já lá voltamos a esta roda. Max é colocado a combater contra Blaster, perante uma enorme multidão vibrante. George Miller e George Ogilvie, a dupla de realizadores, orquestraram aqui uma luta emotiva, intensa, dura, que termina com os valores mais altos de Max a levantarem-se. Mais uma vez, quando os valores da humanidade parecem ter desistido, logo Max mostra o contrário, algo que o leva a ficar sujeito à "Roda da Sorte" (não aquela apresentada por Herman José) e a ser enviado para o deserto por não ter assassinado o rival. Com um belíssimo trabalho de fotografia, que é capaz de explorar a solidão e aridez do deserto, a jornada longa do protagonista, o filme logo parte para uma segunda metade que transporta Max para o interior de uma espécie de Terra do Nunca de "Peter Pan". Max é salvo por um conjunto de crianças liderado por Savannah Nix, uma jovem mulher, que, tal como os restantes elementos do grupo, pensam que Max é uma espécie de salvador. Este grupo atribui uma certa ingenuidade e candura à narrativa, explorando uma faceta diferente do protagonista, um indivíduo sem rumo que simboliza a esperança de um conjunto de crianças abandonadas. No entanto, logo os dois mundos narrativos se encontram e Max voltar a ter de assumir o papel de herói improvável em tempos de dificuldade, ele que apenas queria manter-se vivo no 94


meio do deserto australiano, um território árido, recheado de poeira, aparentemente infinito, mas que apenas adensa a interminável busca de Max em encontrar um destino, numa obra que tem o condão de mostrar que as sequelas não servem apenas para fazer dinheiro, mas também para expandir os universos das sagas e até superar os filmes originais. Uma das grandes forças de Mad Max Beyond the Thunderdome passa pela sua capacidade de explorar os universos narrativos que apresenta e, em simultâneo, conseguir evoluir Max Rockatansky, de forma a dar ao espectador mais do que uma réplica dos filmes anteriores. As diferenças são visíveis desde logo pelo protagonista. No primeiro filme, Max Rockatansky surge como um agente das autoridades que decide abandonar o cargo e logo tem de lidar com um gangue que eliminou a sua mulher e o seu filho. Em Mad Max 2, o protagonista surge no interior de um cenário apocalíptico ainda mais desolador, envolvendo-se num confronto com uma quadrilha especializada em pilhar, matar, violar, destruir, enquanto procuravam por petróleo num ambiente de quase total anarquia. Em Mad Max Beyond Thunderdome voltamos a ter o cenário apocalíptico, mas somos apresentados a duas mini sociedades, que contam com estruturas hierárquicas, sendo que até encontramos uma cidade em reconstrução, que procura no metano um substituto para o petróleo, enquanto Max vagueia sem aparente rumo, ao mesmo tempo que Mel Gibson brilha num dos papéis mais icónicos da sua carreira.

Gibson explora as diferenças comportamentais do seu personagem, mostra o seu lado cínico e o seu lado mais frágil, tendo na antagonista interpretada por Tina Turner uma oponente temível, mas que nunca parece estar à sua altura nesta obra elaborada com grande argúcia e engenho por George Miller e George Ogilvie. Sem a produção de Byron Kennedy (a quem é dedicado o filme) devido a ter morrido num acidente de avião, o filme esteve para não contar com a presença de Miller, que posteriormente aceitou realizar as cenas de acção, tendo efectuado uma colaboração bem sucedida com Ogilvie, numa obra marcante da saga, onde não faltam as célebres corridas na estrada, diálogos bem construídos, violência física e emocional, drama, algum humor, uma banda sonora memorável, mas também uma história digna de toda a nossa atenção. Estes elementos aliados a uma boa montagem, um trabalho de fotografia digno de atenção e um conjunto de cenários marcantes levam a que Mad Max Beyond Thunderdome consiga algo que parece impossível, que passa por uma saga chegar ao seu terceiro filme e ter a desfaçatez de desafiar os filmes anteriores sobre o estatuto de "melhor filme da saga". Se não podemos afirmar peremptoriamente que Mad Max Beyond Thunderdome é o melhor filme da saga, a verdade é que podemos afirmar que, até existir um episódio apocalíptico e existir memória cinéfila que o preserve, o terceiro filme da saga Mad Max nunca irá ficar perdido pelas areias do tempo. 95


KAIJU

DE GODZILLA A PACIFIC RIM ANÍBAL SANTIAGO

Este Verão estreia nas salas de cinema portuguesas Pacific Rim, com o título Batalha do Pacifico (se nos estiverem a ler do Brasil, Círculo de Fogo), um filme realizado por Guillermo Del Toro (Hellboy) que pretende homenagear os kaiju, que é como quem diz, os clássicos monstros japoneses dos kaiju-eiga. O termo kaiju remete para "besta estranha" ou "monstro estranho" ou simplificando "monstro", sendo que kaiju-eiga remete para os filmes de monstros japoneses (embora seja possível aplicar esta designação a outros filmes de monstros), um subgénero que se pode ainda integrar no interior dos tokusatsu (obras cinematográficas e/ou televisivas japonesas com efeitos especiais). Se em Pacific Rim os monstros prometem invadir a Terra através de um portal no Pacífico (local de onde surgiam vários monstros da Toho), a verdade é que estes começaram a atacar as salas de cinema com Godzilla (Gojira) em 1954. Estes monstros tinham em comum a sua dimensão gigantesca, uma enorme capacidade destruidora e um aspecto próximo com o de animais ou criaturas mitológicas. No caso de Godzilla, encontramos uma espécie de dinossauro gigante, que surge fruto da radiação provocada pela bomba atómica. Godzilla simboliza o receio japonês em relação a estas armas que dizimaram Hiroshima e Nagasaki, após o ataque norte-americano no final da II Guerra Mundial, bem como ao célebre episódio do Lucky Dragon 5,


um navio de pesca japonês que foi contaminado por um teste nuclear norte-americano que correu da pior forma, com a bomba Castle Bravo a desencadear uma explosão de 15 megatons, tendo contaminado os tripulantes desse navio, bem como territórios das proximidades. Durante o processo de criação de Godzilla, estávamos em plena Guerra Fria, um período onde o receio em relação à utilização da bomba nuclear e os seus efeitos devastadores pairavam um pouco por todo o Mundo, enquanto Estados Unidos da América e União Soviética procuravam desenvolver ao máximo a sua tecnologia, em particular a militar, na "paz armada" que envolvia as duas potências da época. Diga-se que este receio não é exclusivavemnte japonês, ou não tivessem os criadores de Godzilla também tirado imaginação de filmes como The Beast From 20,000 Fathoms, de Eugène Lourié, que exploravam a temática dos monstros e do receio em relação à ameaça da bomba atómica. Realizado por Ishirō Honda, um cineasta que ficou bastante ligado à saga por ter realizado filmes como King Kong vs. Godzilla (1962), Mothra vs. Godzilla (1964), Destroy All Monsters (1968), All Monsters Attack (1969), entre outros, Godzilla marca o início de uma franquia de sucesso que tem no trabalho do cineasta um importante contributo para o fenómeno em volta deste monstro destruidor que é Godzilla, ao desenvolver uma obra que hoje em dia surge algo datada, mas tem uma relevância significativa para a história do cinema. Como realizador do primeiro filme da saga, Honda teve um papel de relevo na criação do personagem, ao lado do produtor Tomoyuki Tanaka, do especialista em efeitos especiais Eiji Tsuburaya e do compositor Akira Ifukube (o célebre som emitido pelo personagem), uma criação que se revelou acertada, tendo neste primeiro filme uma obra de ficção científica kaiju capaz de transmitir paradigmaticamente a ameaça nuclear, ao mesmo tempo que coloca o Japão perante a ameaça de um monstro destruidor que viria a marcar a história do cinema. Godzilla teve um grande apelo junto do público japonês e estrangeiro (foi um dos meios fulcrais para dar a conhecer um pouco da cultura pop japonesa no período do pós-II Guerra Mundial no estrangeiro), tendo iniciado uma franquia de sucesso (embora conte com alguns flops) que contou com vinte e oito filmes produzidos pela Toho Studios, um remake norte-americano (outro está a ser filmado), séries de animação, jogos de computador, brinquedos, entre vários outros elementos. O filme não só iniciou uma franquia em torno do monstro, mas também popularizou o kaiju-eiga, um subgénero que surge associado aos filmes de ficção científica japoneses que envolvem criaturas gigantes, tais como Gamera, Rodan, Mothra, King Ghidorah, Mechagodzilla, Gezora, todos estes produzidos por estúdios como Toho Company Ltd. (Godzilla, King Gidorah, etc), Daiei Motion Picture Company (Gamera), entre outros. Se Godzilla apresenta uma aparência próxima de um dinossauro gigante, 98


já os restantes kaiju apresentam as mais variadas formas. Rodan surge como um monstro voador com a forma de um Pterodáctilo, Mothra como uma Mariposa gigante, Gamera é uma espécie de Tartaruga gigante com enormes dentes, King Ghidorah é um dragão gigante voador com três cabeças, Mechagodzilla é um duplo de Godzilla com corpo metálico, entre outros elementos que contam com uma enorme facilidade em destruir.

Estes representavam não só o receio pela ameaça nuclear, mas também um gosto pelas figuras mutantes, pelo mundo apocalíptico, pela representação de um Japão em clima de suspeição, por estas figuras que subliminarmente representavam os ataques estrangeiros ao Japão (em particular os EUA). Diga-se que, com o avançar dos anos, os filmes foram mudando as suas características iniciais, tal como o Japão foi recuperando economicamente, quase que se podendo estabelecer um paralelo entre as mudanças económicas, sociais e culturais do Japão com as mudanças de monstros como Godzilla, algo que explica uma certa "domesticação" do monstro com o passar dos anos (por vezes chega a ser representado como um anti-herói, algo que começa a ser apresentado em Ghidorah, the Three-Headed Monsters, quando Godzilla se une a Mothra e Rodan para vencer King Ghidorah).

Estes monstros tanto podiam surgir isoladamente como em conjunto. Filmes como Mothra vs. Godzilla (1964), Ghidorah, the Three-Headed Monster (1964), Gamera vs. Gyaos (1967), Destroy All Monsters (1968), Godzilla vs. King Ghidorah (1991), Godzilla vs. Destoroyah (1995), Godzilla, Mothra and King Ghidorah: Giant Monsters All-Out Attack (2001), Godzilla: Tokyo S.O.S. (2003), Godzilla: Final Wars (2004), entre outros, apresentam alguns monstros em conjunto, muitas das vezes em confronto, enquanto outros apresentam-nos isoladamente. Apesar desta plêiade de figuras gigantescas ter atingido uma popularidade considerável ao longo dos anos (embora os efeitos e as histórias genéricas dos filmes que protagonizam), nenhum dos monstros conseguiu atingir a popularidade de Godzilla, o monstro cujo sucesso ditou alguns cânones da cultura pop japonesa no período pós II Guerra Mundial, algo visível nos monstros que posteriormente foram sendo apresentados.

Com uma popularidade capaz de rivalizar com o seu poder de destruição, Godzilla surge no primeiro filme da saga como uma criatura destruidora e animalesca que ameaça tudo e todos, sendo notável o sentido de timing do realizador Ishirō Honda ao saber criar os momentos de tensão para o aparecimento do monstro no primeiro filme da saga, ao criar todo um universo narrativo que embora seja bastante simples consegue gerar o interesse do espectador em volta dos personagens e adensar o pânico pelo aparecimento do monstro. Vale a pena realçar que se este 99


aparecimento de Godzilla em doses cirúrgicas não deve ser alheio ao facto dos efeitos especiais não serem os melhores, mesmo para a época. Ao invés da técnica de stop-motion, de filmes como The Lost World (1925) e King Kong (1933), Godzilla conta com um homem no interior de um fato (no caso Haruo Nakajima), que anda por um cenário construído à escala para ser destruído, ou seja, temos um homem a partir um conjunto de "brinquedos gigantes", algo que dá um tom bastante datado aos efeitos do filme, sobretudo se comparados com muitos filmes de ficção científica contemporâneos.

1967). Ao longo dos seus 28 filmes, Godzilla deambula entre o monstro destruidor e o salvador, mantendo um apelo incrível junto do público, apesar de encontrar algum desgaste com o passar dos anos, algo que explica que desde Godzila: Final Wars (2008) não tenhamos um filme de Godzilla efectuado no Japão. Godzilla aos poucos transformou-se num símbolo da cultura pop japonesa do pós-Guerra, uma figura de um soft power japonês, que procurava seduzir as culturas externas numa fase onde o Japão era ainda visto como um dos derrotados da Guerra, tendo na diplomacia cultural um forte aliado. Embora a nível interno Godzilla fosse inicialmente visto como um monstro ameaçador, que simboliza o inimigo externo no Japão e a ameaça nuclear (os primeiros filmes exemplificam um pouco da paranóia e suspeição que rodeia o território), a verdade é que a nível externo os filmes nem sempre eram levados tão a sério, chegando ao ponto de verem os seus títulos alterados, as suas histórias devastadas com as dobragens americanas, embora qual Japão a lidar com represálias, os estúdios tivessem de acatar esta decisão. Este apelo de Godzilla no estrangeiro, em particular nos Estados Unidos da América, levou não só ao desenvolvimento de outros kaiju-eiga, mas também a que se possa considerar um percursor de outros elementos da cultura pop japonesa que posteriormente alcançaram grande popularidade

Esta situação atinge proporções caricatas em filmes como Godzilla vs. King Kong, onde encontramos dois actores vestidos de Godzilla e King Kong a lutarem como se estivessem num combate de wrestling, algo hilariante, que dá um valor kitsch ao filme, mas tira-lhe toda a credibilidade (embora consiga divertir com a sua história completamente absurda). Essa junção de Godzilla com King Kong marca uma procura não só de internacionalizar Godzilla, mas também de refrescar a franquia com a presença de outros monstros, distanciando a mesma da sua génese. Veja-se os filmes já citados, que se distanciam e muito daquele ideal do receio em relação ao monstro destruidor que simboliza os efeitos secundários da utilização de armas nucleares, com Godzilla a muitas das vezes aliar-se a outros monstros e até a ter um filho (em Son of Godzilla, 100


no estrangeiro (veja-se hoje em dia a popularidade de Dragon Ball, Pokemon, Naruto, entre outros), tendo ainda influenciado a própria cultura americana, como se pode ver com o desenvolvimento de Pacific Rim, ou seja, Godzilla não só foi inspirado em elementos da cultura americana, como também acabou por influenciar a mesma. Não nos podemos esquecer que, aquando dos lançamentos dos primeiros filmes de Godzilla, o Japão encontrava-se a exportar excelentes filmes de cineastas como Akira Kurosawa, mas Godzilla apelava a um público mainstream, gerando sentimentos dicotómicos na crítica. Se Kurosawa encantava a crítica com Seven Samurai, Rashomon, entre outros, já Godzilla apelava às massas, apresentava temáticas do Japão contemporâneo que contrastavam com os filmes de época, apelando sobretudo ao público mainstream, embora estes gaiju-eiga fossem muitas das vezes arrasados pela crítica. A popularidade de Godzilla junto do público permitiu não só que tivéssemos uma plêiade de filmes de monstros no Japão, mas também que este influenciasse no estrangeiro, não só a nível do público, mas também nas produções cinematográficas. Um bom exemplo disso é o clássico Pulgasari, um genérico de Godzilla que surge directamente da Coreia do Norte. É verdade, o então líder da Coreia do Norte, Kim Jong Il, obrigou o realizador sul coreano, Shin San-Ok, a realizar Pulgasari (1985), um kaiju-eiga que conta com as suas limitações, mas serve acima de tudo para mostrar a influência de Godzilla e deste subgénero de filmes, que tanto parecem herdar das figuras folclóricas da História do Japão. Se quisermos abordar casos mais recentes de filmes que contam com o seu kaiju, não faltam obras como The Host (2006) de Joon-ho Bong, Cloverfield (2008) de Matt Reeves, entre outros. Em comum estes têm os monstros destruidores, mas poucos alcançaram o carisma e relevância de Godzilla, um monstro que mudou de aspecto físico, de comportamento, mas continua a ser mundialmente conhecido. Entre filmes com enredo no presente e no futuro, Godzilla foi apresentando algumas variações ao longo do tempo, quer a nível do aspecto físico, quer a nível do comportamento. A saga apresenta várias flutuações na representação do monstro. É verdade que Godzilla mantém-se quase sempre com um monstro com um incrível poder destruidor que lança radiação destruidora da sua boca, mas o seu comportamento não obedece a uma estrutura rígida. Em Godzilla, Godzilla Raids Again, Godzilla Vs. King Kong este é um ser destruidor, em Ghidorah, the ThreeHeaded Monsters, Godzilla surge como um ser que, em última instância, acaba por salvar a Terra de King Gidorah, aquele que será no futuro um dos seus grandes rivais. Temos ainda Son of Godzilla, um filme que surge bem mais infantil, com o monstro a trocar alguns momentos de ternura com o seu petiz, numa obra onde a Toho mostra a sua cedência ao capitalismo, à necessidade de fazer dinheiro e à procura de atrair novos 101


públicos, bem como a tentativa de adiar o inevitável desgaste junto do público. Son of Godzilla marca também uma procura em estabelecer Godzilla como um monstro apetecível para o público de quase todas as idades, algo que posteriormente ainda veio a conhecer exageros como Destroy All Monsters (1969) e Godzilla: Final Wars, onde encontramos uma série de monstros pronta a causar destruição em vários locais ao redor do Mundo. No caso de Godzilla: Final Wars não faltam seres humanos mutantes, uma raça alienígena pronta a dominar os monstros e claro está, Godzilla a salvar o dia, não faltando até a presença do seu rebento (parece que chegámos à fase dos exageros da saga James Bond, quando tinha Roger Moore como protagonista). Godzilla: Final Wars é o último filme da saga no Japão, até ao momento, e pretende comemorar uma época dourada da franquia, mas é também, um exemplo de todos os exageros e da descaracterização a que foi sujeito o personagem ao longo dos diferentes filmes. Em comum partilha os efeitos especiais pouco conseguidos de vários dos filmes anteriores, com as lutas a parecerem saídas de um episódio da série infantil, Power Rangers. Se no primeiro filme Godzilla é um monstro destruidor, na última obra em solo japonês, este é uma das poucas esperanças da Terra, uma mudança entre o primeiro e o último filme, que diz muito das alterações a que o 102


personagem foi sujeito ao longo dos filmes que protagonizou. Várias foram as mudanças conhecidas por Godzilla ao longo dos vinte e oito filmes, tendo conhecido muitas das vezes a companhia de outros kaiju, embora estes nunca ultrapassassem a sua popularidade. Estes kaiju-eiga surgem em alguns meios divididos em três períodos: Shōwa Era (desde Godzilla [1954] até Gamera: Super Monster [1980], quando estrearam monstros como Godzilla, Mothra, Rodan, Kamacuras, King Caesar, entre outros); Heisei Era (desde The Return of Godzilla [1984], um filme que ignora toda a mitologia posterior ao primeiro Godzilla, até Gamera 3: The Awakening of Iris [1999]); Millennium Era (desde Godzilla 2000 [1999] até Gamera the Brave [2006]). Este enquadramento traz consigo várias limitações, sobretudo devido a indicarem eras que nem sempre correspondem a balizas temporais dos Imperadores japoneses, embora seja interessante verificar como no início da Heisei Era se procura efectuar uma ruptura com alguns filmes da saga menos felizes, que conduziram a um intervalo de quase 4 anos em relação ao final da Showa Era. Essa ruptura é verificada com The Return of Godzilla, mas logo é procurada uma tentativa de criar uma linha de narrativa contínua que acaba por cair em alguns desses excessos, contando novamente com a presença de outros kaiju. Se o valor destes filmes encontra-se sempre mais centrado do no seu valor histórico, do que no seu valor a nível narrativo e artístico, não

deixa de ser curioso que estes kaiju-eiga cedo geraram uma enorme sedução junto do espectador, algo que explica o longo filão de filmes produzidos ao longo de várias décadas. Não existe uma explicação única para esta situação, mas podemos conjecturar hipóteses como as suas histórias simples e acessíveis, o apelo destes monstros destruidores, as suas temáticas contemporâneas, o seu valor a nível de marketing e merchandising, entre outros elementos, que levaram ainda a influenciar outras obras contemporâneas. Essa situação é visível com Pacific Rim, que se prepara para explorar o filão da cultura pop japonesa, apresentando como antagonistas os kaiju (Del Toro já prometeu monstros com várias características fisionómicas diferentes e habilidades diversas), mas também pela utilização de tecnologia a fazer lembrar o popular manga e anime Evangelion. No entanto, destes kaiju, o mais popular foi e continua a ser Godzilla. Este pode ter sido criado tendo como inspiração alguns filmes de monstros dos EUA, mas poucos conseguiram rivalizar com a sua popularidade e papel fundamental para o desbravar da cultura pop japonesa no Ocidente. Godzilla não foi o único elemento contribuir para essa situação, mas atingiu uma popularidade considerável, sendo conhecido mesmo por aqueles que não viram os filmes, tendo-se transformado um ícone que desafiou as barreiras do tempo e merece uma ampla atenção e reflexão.

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© Paulo Muiños


"Adoro fazer de monstro e de estar rodeado deles. Gostava que isso acontecesse todos os dias, e recomendo vivamente a experiência a toda a gente!"

À CONVERSA COM

FILIPE MELO JOÃO PAULO COSTA

Dez anos depois da produção de I'll See You in My Dreams, como recorda essa aventura? Foi uma época muito especial: alcançar um estado de espírito em que sentimos que estamos fazer aquilo que mais gostamos da melhor forma que conseguimos é muito difícil e raro. Foi isso que aconteceu há dez anos atrás.

Verdadeiro homem dos sete instrumentos, Filipe Melo é o músico de formação, cinéfilo por vocação e autor de banda desenhada (Dog Mendonça & Pizzaboy) que há uma década atrás foi o principal responsável pela primeira incursão do cinema português no universo zombie. O resultado: a curta-metragem I'll See You in My Dreams, que o próprio descreve como “uma porcaria de 20 minutos que mete zombies em Tondela” mas a qual recorda com um carinho muito especial. Com um elenco repleto de actores populares na nossa praça, claramente divertido por entre as doses consideráveis de sangue que pulula a tela, a verdade é que nesses minutos que passam a correr, é possível descobrir de forma evidente um produto que nasce acima de tudo da paixão pelo cinema de género.

O Filipe surge nos créditos como produtor e co-argumentista, embora a realização tivesse ficado a cargo de Miguel Ángel Vivas. Houve uma colaboração muito próxima entre ambos ou foi-lhe dada total liberdade criativa? Na altura eu sentia que não saberia realizar um filme, então pedi ajuda ao Miguel Ángel, que era irmão de um colega de escola. Queria muito aprender, e de facto, aprendi imenso - aprender com os meus próprios erros e aprender a trabalhar em equipa. Tento sempre dar o máximo de liberdade criativa às pessoas com quem trabalho, porque estou muito habituado a ser "sideman" enquanto músico, e também gosto de ter essa liberdade.

Assim sendo, a Take não poderia deixar de recordar este pequeno marco do cinema nacional através das palavras do seu produtor e co-argumentista onde se fala, entre outras coisas, do amor pelo cinema zombie, das colaborações com o elenco e a equipa técnica, e da crise que afecta o cinema e a cultura portuguesas.

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Os zombies de I'll See You in My Dreams são muito diferentes dos que estamos habituados a encontrar dentro do género. Não são nada lentos nem burros, e se for preciso safam-se bem à porrada. A ideia era mesmo procurar afastar-se dos estereótipos? Não especialmente. Era, no fundo, uma grande dose de ingenuidade e de amor ao género, porque queria homenagear todos os realizadores que me influenciaram com esse tipo de filmes. O Romero e o Fulci, com os seus zombies pachorrentos, e o Sam Raimi, com zombies agressivos e velozes. No fundo, gosto muito dos clássicos.

Apesar da excelente recepção entre os fãs do género, o cinema português continua a não parecer muito virado para o fantástico... É verdade. É uma pena, porque no fundo, está provado que com uma boa ideia é possível fazer um filme verdadeiramente exportável e sem ter de ser falado em inglês. Os filmes de terror / fantástico mais originais que vi nos últimos tempos não são americanos o Serbian Film (2010, de Srdjan Spasojevic), A Descida (2005, de Neil Marshall)... e com actores desconhecidos. Ainda tenho fé que, em breve, aparecerá um filme que vai revolucionar o nosso meio e a nossa indústria. Ficarei muito feliz quando isso acontecer.

Nota-se claramente essa paixão, não exclusiva pelo filme zombie mas pelo cinema de género em geral, e pelo horror italiano em particular. A começar no nome do protagonista que é Lúcio como o Fulci, ao ambiente e cores que recordam Mario Bava e Argento. Essas homenagens foram assumidas logo à partida ou foram algo subconsciente que acabou por encontrar o seu lugar no filme? Sublinho que é completamente assumido. Durante os meus tempos de estudante, ia à Tower Records à secção "Midnight Movies" e fiquei fascinado com a estética do cinema de terror italiano. O I´ll see you in my dreams foi um tributo directo e assumido a esse género, na concepção e na fotografia. Especialmente a um filme chamado Dellamorte Dellamore (1994, de Michele Soavi), que acho que é uma obra prima e que veio a influenciar também o que faço na banda desenhada.

Tal como num filme de Argento também não podia faltar música por uma banda de black metal. O que recorda da colaboração com os Moonspell? São também fãs do género? Eu sou músico de jazz, então nunca fui propriamente um metaleiro. Quando pensei na banda sonora do filme, ouvi o "Butterfly Effect" dos Moonspell e ocorreu-me convidar o Fernando Ribeiro e a banda para fazerem uma versão do standard bem antigo que dá o nome ao filme. Foi um prazer enorme trabalhar com eles. São muito profissionais, de uma simpatia e generosidade raras. Não é à toa que são uma das bandas de metal mais conceituadas do mundo. É completamente merecido. Em I'll See You in My Dreams Manuel João Vieira faz parte do elenco, ele que mais tarde seria também o protagonista da série Um Mundo Catita (criada e realizada por Filipe Melo e João Leitão). Trabalhar com ele está mais perto do caos apocalíptico que aparenta ou, pelo contrário, trata-se de um profissional exemplar? Conheci o Manuel João Vieira há muitos anos, quando fazia a primeira parte dos concertos dele no teatro "A Barraca" e andava com um piano

Como apresentaria o filme ao leitor que nunca teve oportunidade de o ver? É uma porcaria de vinte minutos que mete zombies em Tondela, que tem algum interesse porque reflecte o esforço gigante de uma equipa que acreditava verdadeiramente naquilo que estava a fazer. 106


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© Paulo Muiños 108


eléctrico às costas. Somos amigos há 20 anos. A nossa primeira colaboração foi a campanha dele à presidência, em 2001. Foi também a primeira pessoa a contratar-me como arranjador para um disco. É uma sorte trabalhar com ele, porque é uma das pessoas mais talentosas e metódicas que conheço. Para ele, é tudo fácil. Nunca fiz um take a mais por causa dele. Espero continuar a colaborar com ele durante muitos anos.

permita continuar a fazer estas coisas, ou pelo menos uma delas. Numa edição da Take dedicada ao apocalipse, era inevitável falarmos da crise económica que afecta o país no geral mas também a cultura em particular. O cinema em Portugal atravessa momentos muito complicados... Toda a cultura atravessa um momento muito complicado, porque quem gere o orçamento do nosso país tem a convicção de que a cultura não tem um papel fundamental na qualidade de vida e no bem estar das pessoas. É vista como algo secundário, e não existe uma preocupação em mudar essa situação. Em breve, teremos um Portugal cinzento, triste e desmotivado, sem esperança e sem criatividade. A factura que pagaremos será dramática.

E quanto ao restante elenco? Apostamos que todos queriam ter a oportunidade de se maquilhar de zombie. Há quem sofra ataques de stress por causa dos moldes faciais. Eu adoro. Adoro fazer de monstro e de estar rodeado deles. Gostava que isso acontecesse todos os dias, e recomendo vivamente a experiência a toda a gente!

E ainda...

O que acha deste boom actual do género zombie, nomeadamente com o sucesso televisivo de The Walking Dead? A série ficou uma seca a partir da terceira temporada, quando chegam à prisão - como os livros, aliás. Perdi o interesse. É sempre divertido, mas acho que falta alguma poesia que existia nos filmes do Romero. Tornavase um terror muito profundo e verdadeiro. A série é quase uma mistura do Dancing days com um shoot-em-up. Os fãs que me desculpem. Mesmo assim, vejo os episódios todos... Mas não gosto de sub-produtos mais recentes. Falta-lhes alguma da magia das criações originais. Para o futuro está previsto um regresso ao cinema, ou continuar a explorar novas formas de expressão artística? O que faço é música, banda desenhada e filmes. São as coisas que mais gosto e as únicas que realmente me motivam. Espero que o futuro me 109


Se tivesses que escolher apenas 4 filmes sobre o tema “Apocalipse” quais seriam? Dawn of the Dead, The Road, Children of Men e Mad Max. Não é possível escolher quatro filmes sobre o apocalipse sem deixar muitos fora da lista. Escape from New York, The Mist, e tantos outros. É ainda mais complicado escrever um texto a explicar porque é que os escolhi. Cada dia mais tento evitar analisar as coisas, a música, os filmes e todos os objectos artísticos - utilizo a frase do Duke Ellington para me defender: "There are only two kinds of music; music that sounds good and whatever you want to call that other stuff." Isto aplica-se também a estes filmes. São bons porque são bons, e não é preciso explicar porquê. Escolhi-os porque me parece que, em qualquer um deles conseguimos, durante duas horas, perceber mais ou menos o que seria viver durante o fim dos tempos. E transmitir essa sensação não parece uma tarefa fácil.

© Paulo Muiños 110


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ROLAND EMMERICH: DESTRUIR É COM ELE PEDRO MIGUEL FERNANDES

Há cineastas que gostam de se especializar num determinado género ou tema. Para Roland Emmerich o fim do mundo é o seu habitat natural. Desde invasões extra-terrestres ao aquecimento global, passando pelas profecias maias, todos os pretextos são bons para destruir o planeta Terra. E com isso solidificar o seu nome como um dos especialistas em filmes catástrofe do final do século XX e início do século XXI, título que o coloca ao lado de Michael Bay como especialista em destruir o mundo em filmes feitos para as massas, com os efeitos especiais a tomarem conta das suas obras.


Van Damme e Dolph Lundgreen), e mais tarde com Stargate, um projecto pessoal e um dos grandes clássicos de ficção científica daquela década. Mas foi preciso chegar a 1996 para Emmerich rebentar (literalmente) o mundo, com a estreia de Dia da Independência, o grande blockbuster de Verão nesse ano e até à data o principal sucesso de bilheteira do cineasta germânico que começa sintomaticamente com alguém a ouvir a canção It’s The End of The World, dos R.E.M. Protagonizado por Will Smith, que começara a cimentar a sua carreira no grande ecrã um ano antes num filme do outro mestre da destruição chamado Michael Bay (Os Bad Boys), o filme relata uma invasão extra-terrestre onde gigantescas naves espaciais destruem várias cidades do planeta com recurso a raios azuis. Para a história dos filmes catástrofe ficam as imagens da destruição da Casa Branca ou do Empire State Building, em Nova Iorque, cidade que é alvo frequente da fúria de Emmerich, que por estes dias, segundo os mais recentes rumores, poderá estar a preparar uma sequela do filme.

Nascido na Alemanha em 1955, Emmerich resolveu estudar Cinema depois de assistir a Star Wars. Mas ao contrário do que se fazia no cinema alemão da altura, liderado por uma geração onde encontramos nomes como Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog ou Wim Wenders, o jovem cineasta inspirou-se num cinema mais popular para fazer carreira. O próprio já admitiu em entrevistas no passado que faz cinema para as massas e não tem qualquer problema em assumi-lo. A sua estreia no grande ecrã tem lugar em 1984 com Das Arche Noah Prinzip, um filme de ficção científica considerado uma das produções mais caras quando se fala num filme de escola na Alemanha (cerca de 1,2 milhões de marcos de orçamento na altura). O filme teve oportunidade de ser mostrado no Festival de Berlim, onde competiu pelo prestigiado Urso de Ouro, e já dava mostras de que o cineasta tinha dedo para destruir o mundo. A história decorre no final do século XX, quando as armas de destruição massivas fazem parte do passado, mas uma estação espacial está prestes a ser utilizada para desencadear algo que poderá resultar na III Guerra Mundial. Um ensaio para o que estava para vir mais tarde, quando Emmerich parte para os EUA, a convite do produtor Mario Kassar.

Não contente por utilizar uma raça extra-terrestre para dominar e destruir o mundo, Roland Emmerich resolve no seu filme seguinte homenagear um dos monstros sagrados do cinema fantástico: Godzilla. Arrasado pela crítica, o filme volta a ter algum sucesso junto do público, que adere ao estilo destruidor do realizador, adepto dos melhores efeitos especiais que consegue utilizar para pôr em prática a sua missão de criar produtos

E foi precisamente nos EUA que o cineasta tem feito carreira desde o início dos anos 1990, ao ganhar fama primeiro com Máquinas de Guerra, que junta duas super-estrelas dos filmes de acção da altura (Jean-Claude 114


de entretenimento puro e duro centrados em grandes catástrofes. Mas apesar dos lucros alcançados, esta recuperação da mitologia de Godzilla, com o monstro recriado através de CGI, é considerada por muitos como um dos pontos mais baixos da carreira de Emmerich, que acabaria por se virar para um drama histórico com a Revolução Americana em pano de fundo no seu filme seguinte (O Patriota).

bênção das bilheteiras. A última vez que lemos as expressões Roland Emmerich e fim do mundo na mesma frase foi por volta de 2009, quando o cineasta alemão realizou 2012, filme inspirado nas profecias maias que davam conta do fim do mundo para o dia 21 de Dezembro de 2012. Nova produção com efeitos especiais a tomarem conta de uma narrativa mais pobre e com um tom um pouco mais leve do que os anteriores, segue a fórmula dos anteriores filmes do realizador para mostrar um novo recomeço para a Humanidade. E, também como anteriormente, Emmerich conquista o coração do público e das bilheteiras, sem contudo agradar à crítica.

O regresso aos filmes catástrofe tem lugar seis anos após a estreia de Godzilla, quando Emmerich se inspira nas teorias do aquecimento global para o seu novo projecto: O Dia Depois de Amanhã. Neste caso os extraterrestres já não são os responsáveis pelo fim do mundo, como aconteceu em Dia da Independência, mas inúmeros fenómenos meteorológicos adversos que trazem uma nova idade do gelo ao hemisfério norte. O filme tem um forte pendor político, com algumas críticas ao poderio dos EUA e ao Ocidente, que se vêem obrigados a pedir ajuda aos países do Terceiro Mundo. Para complementar a destruição da Terra, Emmerich aposta numa história familiar, com um pai a atravessar os EUA para reencontrar o seu filho, preso numa Nova Iorque transformada em iceberg gigante. Mesmo tendo procurado inspiração em inúmeros artigos científicos sobre o tema, o realizador não deixou de ser acusado por diversos especialistas de ser pouco fiel nas previsões sobre as alterações climáticas e os seus possíveis efeitos. O público não pensa o mesmo e volta a dar-lhe a

Por estes dias Emmerich está prestes a estrear Ataque ao Poder, filme onde coloca a Casa Branca na mira de um grupo de paramilitares, em mais um daqueles projectos gémeos que de vez em quando aparecem em Hollywood (ainda este ano chegou às salas Assalto à Casa Branca, que parte de uma premissa semelhante). Ainda não se sabe o que vai sair dali, mas já se começa a falar nos próximos projectos do destruidor de mundos. Um dos mais aguardados pelos seus fãs será sem dúvida uma possível sequela de Dia da Independência. Se o ataque à residência oficial do Presidente dos EUA não correr bem, o realizador poderá dar asas à sua imaginação para fazer o que sabe fazer melhor: destruir o mundo. Outra vez. 115


INDEPENDENCE DAY

Título nacional: Dia da Independência Realização: Roland Emmerich Elenco: Will Smith, Bill Pullman, Jeff Goldblum

1996 PEDRO MIGUEL FERNANDES

Se houve blockbuster que marcou o Verão de 1996, esse título vai direitinho para Dia da Independência, de Roland Emmerich. Ancorado numa enorme campanha de marketing global, que prometia o fim do mundo para o principal feriado norte-americano (o 4 de Julho, Dia da Independência dos EUA), esta foi a produção mais ousada do cineasta alemão à altura, realizada após o sucesso alcançado com Stargate e Máquinas de Guerra. Em Dia da Independência um conjunto de gigantescas naves controladas por uma civilização extraterrestre sobrevoa dezenas cidades de todo o mundo. Aos poucos estas naves começam a destruir tudo o que encontram pela frente e a salvação acaba por estar nas mãos dos americanos, personificados por um presidente que foi piloto de caças (Bill Pullman), um geek (Jeff Goldblum) e um piloto experiente que é o único sobrevivente da primeira investida contra a armada extraterrestre

(Will Smith em início de carreira no grande ecrã depois de ter sido um dos protagonistas de Os Bad Boys, de Michael Bay, outro especialista em destruir o planeta Terra). Tal como prometia a campanha da altura, o prato forte de Dia da Independência foi criado pelo departamento de efeitos especiais (quem não se recorda dos mortíferos raios azuis que destruíram a Casa Branca em poucos segundos, imagem mais do que emblemática do cinema mais comercial da década de 1990?), que garantiu um Óscar ao filme nesta categoria. Para a história fica um produto de entretenimento puro e duro, vangloriando o poder norte-americano (há mesmo quem diga no filme que aquele 4 de Julho será o dia em que o mundo celebrará o seu Dia da Independência), que curiosamente não envelheceu mal depois de quase duas décadas.

O blockbuster que marcou o verão de 1996 e ajudou a cimentar a carreira de Emmerich enquanto especialista em destruir o mundo.

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GODZILLA

Título nacional: Godzilla Realização: Roland Emmerich Elenco: Matthew Broderick, Jean Reno, Hank Azaria, Michael Lerner, Maria Pitillo, Kevin Dunn

1998 ANÍBAL SANTIAGO

Por vezes quando um aparatoso acidente de viação acontece, é possível encontrarmos um grande amontoado de pessoas curiosas com o acontecimento. O interesse que Godzilla de Roland Emmerich começa por nos despertar passa exactamente por aí: temos um filme tão devastado pela crítica que cedo ficamos curiosos por saber as "causas" deste acidente. Embora não seja uma obra-prima e esteja longe de apresentar um argumento coerente e bem construído, Godzilla é o paradigma da procura constante de Roland Emmerich em partir e destruir tudo nas suas obras de pendor apocalíptico, num filme que pede constantemente para desligarmos o lado mais pragmático do nosso cérebro. Desta vez Godzilla não ataca o Japão, mas sim Manhattan, numa obra que tem como destaque o icónico monstro a partir tudo (e deitar ovos), enquanto coloca os militares e o cientista Tatopoulos

num alvoroço para o travar, e Emmerich estoira o orçamento em efeitos especiais. Diga-se que os efeitos especiais são relativamente eficazes, embora o monstro gigante nem sempre tenha as mesmas proporções e fisionomia, numa obra que tem como o maior calcanhar de Aquiles um problema que afectou várias das sequelas do filme original: perdeu-se a paranóia relacionada com a ameaça nuclear simbolizada por Godzilla e ficou apenas o monstro destruidor. É verdade que Godzilla é um monstro carismático, mas sem uma história interessante e forte que o integre, torna-se apenas mais uma criatura destruidora, algo que a juntar a um protagonista pouco interessante interpretado por Matthew Broderick e uma história pouco elaborada, leva a que Godzilla nem sempre seja das experiências cinéfilas mais interessantes e desafiadoras.

“(...) um filme tão devastado pela crítica que cedo ficamos curiosos por saber as “causas” deste acidente.”

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THE DAY AFTER TOMORROW

Título nacional: O Dia Depois de Amanhã Realização: Roland Emmerich Elenco: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Emmy Rossum

2004 PEDRO MIGUEL FERNANDES

A fórmula seguida por Emmerich em O Dia Depois de Amanhã não difere muito da utilizada em Dia da Independência, com algumas diferenças. Os efeitos especiais espetaculares utilizados para destruir cidades (imagem de marca do realizador) voltam a estar presentes, mas desta feita servem para alertar para os efeitos do aquecimento global, o que torna este um dos filmes catástrofe sobre o tema mais bem sucedidos no que toca a resultados de bilheteira. E, ao contrário de Dia da Independência, desta vez o tal poderio norte-americano que tinha sido apregoado aos sete ventos no filme protagonizado por Will Smith leva uma lição de humildade, que acaba por destoar no universo dos blockbusters de Hollywood. Mas talvez não seja à toa que nem o mítico sinal situado em Los Angeles escape à fúria de Emmerich, num dos seus mais críticos filmes face aos EUA.

Depois de um drama histórico protagonizado por Mel Gibson e Heath Ledger (O Patriota), Roland Emmerich voltou a um terreno que conhecia bastante bem com O Dia Depois de Amanhã, onde as alterações climáticas servem de pano de fundo a mais um filme onde o fim do mundo está perto. Uma vez mais a acção decorre nos EUA, quando um cientista especialista em questões do clima prevê uma nova era glaciar, resultante de fenómenos relacionados com o aquecimento global. Ninguém dá ouvidos às palavras da personagem interpretada por Dennis Quaid até que violentas tempestades vão destruindo várias cidades do hemisfério norte, que em breve se tornará uma enorme massa de gelo. No meio da catástrofe global, o cientista parte rumo a Nova Iorque para tentar salvar o filho, que ficou retido na cidade durante uma viagem para participar num concurso.

Um dos mais críticos filmes de Emmerich sobre os EUA, marcou o regresso do cineasta ao universo dos filmes catástrofe com algum sucesso.

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2012

Título nacional: 2012 Realização: Roland Emmerich Elenco: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor

2009 PEDRO MIGUEL FERNANDES

personagem de John Cusack salvam 2012 de ser o filme catástrofe mais fraco da carreira do cineasta alemão, que aqui começa a entrar no universo dos realizadores que parecem fazer sempre o mesmo filme. No meio da destruição, mais exagerada do que nunca num filme de Emmerich, resta enfatizar a presença de dois secundários bem conseguidos: Woody Harrelson, no papel de um adepto das teorias da conspiração, que recebe o fim do mundo de peito aberto (literalmente), e Danny Glover, que encarna um presidente dos EUA bastante solidário que opta por estar junto da população para ajudar até ao último minuto em vez de procurar a salvação à semelhança do que acontece com um conjunto de eleitos. A escolha perfeita para o papel, se repararmos que nesse mesmo ano de 2009, ano de estreia do filme, Barack Obama chegava à Casa Branca.

A Terra está em perigo. Outra vez. Partindo das profecias da civilização Maia, que apontavam o dia 21 de Dezembro de 2012 como a data do fim do mundo, 2012 é o filme onde Roland Emmerich vai mais longe na sua especialidade: destruir o mundo no grande ecrã. Mas o que há em demasia em efeitos especiais, mais uma vez impressionantes (e sequências como a destruição da cidade de Los Angeles ou do Vaticano são deveras impressionantes), falta noutros aspectos do filme, o que acaba por se notar sobretudo num argumento pobre, quase decalcado dos anteriores filmes de Emmerich, em que as personagens vagueiam mundo fora à procura de salvação. Nem as inúmeras referências bíblicas (as arcas que vão salvar a Humanidade depois do dilúvio provocado pelos tsunamis ou um navio chamado Genesis, por exemplo) ou o tom mais cómico introduzido pela

Inspirado nas profecias da civilização Maia sobre o fim do mundo, 2012 é o filme catástrofe mais fraco da carreira de Roland Emmerich.

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A – ALIENÍGENAS Uma das apostas da ABC para a temporada televisiva 2012/2013 foi uma série intitulada The Neighbors. Nela, uma família de humanos muda-se para uma nova casa, num bairro povoado de alienígenas. É uma espécie de Third Rock from the Sun mas em mau. Houve mesmo quem desmaiasse a tentar encontrar uma deixa engraçada. Porém, o apocalipse do espaço longínquo não vem normalmente nesta forma, até porque boas almas que se tentam integrar – como o ALF – não fazem mal a ninguém. Na maior parte dos casos a destruição chega porque lá em casa já não há nada para partir ou então escasseiam recursos. Seja como for o nosso planeta tem de ser rebentado, ou pelo menos limpo, e quando digo limpo é mandar o Homo sapiens para perto do Diogo Morgado (Jesus Cristo).

O ABC DO APOCALIPSE NA TV MIGUEL FERREIRA

Há quem se queixe, de comando na mão, que todos os começos são iguais. Porém, não existe voz que lance tal calúnia aos expansivos e destrutivos finais. De facto quando se trata de rebentar, aniquilar, extinguir, exterminar, estamos sempre dispostos a mais uma volta. Seja com seres de outros mundos, vírus mortais, mortos que regressam à vida ou máquinas que não gostam da nossa vida. Temos ainda bombas, poluição, falta de energia, arrebatamentos divinos, meteoros e mentes apagadas. Vamos ligar a televisão e conhecer, então, o alfabeto da destruição.

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B – BATTLESTAR GALACTICA

C – CLEOPATRA 2525

Sei bem que todos, todos, queriam nesta letra um fundo da Tricia Helfer como veio ao mundo mas por questões editoriais tenho mesmo de vos oferecer um pequeno texto sobre a série. Pode ser? Battlestar Galactica tem muitas histórias dentro da história ao longo da história. Versões originais nas décadas de 70 e 80 que deram origem a uma magnífica reinvenção no novo milénio. Séries, minisséries, telefilmes e até a miragem de uma aventura cinematográfica juntam-se na mesma ideia: numa galáxia longínqua os seres humanos dividem-se por doze planetas, dozes colónias e vivem em aparente paz com seres cibernéticos, os cylons, outrora criados por eles. É, então, que a criação se vira contra o criador, destruindo todas as colónias. Os únicos sobreviventes deste apocalipse fogem numa velha nave chamada Battlestar Galactica e têm agora de tentar encontrar a décima terceira colónia, um sítio a que chamam Terra.

Gina Torres, eu perdoo-te. Não só por Serenity mas porque Cleopatra 2525 (2000) tem talvez a melhor premissa de ficção erótico-científica de sempre: Cleopatra, uma bailarina exótica, é congelada criogenicamente durante uma cirurgia de aumento mamário e acorda 500 anos depois. Ano 2525 e como seria de esperar está tudo de pantanas. A superfície da Terra é controlada por umas terríveis criaturas robóticas voadores intituladas Baileys que escorraçaram a humanidade para o subterrâneo. Apesar de muitas pessoas já terem perdido a esperança, algumas, em especial jeitosas com pouca roupa, continuam a luta: Hel e Sarge que juntamente com Cleopatra vão formar um trio de guerreiras e tentar reconquistar o seu lugar no planeta. Sugiro vivamente que procurem a canção do genérico, é contagiante.

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D – DEFIANCE

E – “EPITAPH TWO: RETURN”

Dizer que Defiance era a série mais esperada de 2013 não é exagero, sendo que, também não estamos a hiperbolizar se dissermos que é a maior desilusão do ano. Era não só o regresso da ficção científica de alto orçamento e larga escala, como assentava num novo conceito de entretenimento: metade série, metade jogo. Sim, o que pode ser visto, pode também ser jogado. A tudo isto uma premissa gulosa, onde, depois de uma guerra entre humanos e sete raças alienígenas, a Terra sofreu transformações profundas e na cidade de Defiance tenta-se viver em harmonia. Porém, o que veio à luz naquele fatídico abril foi mais novela do que aventura, mais xarope do que frescura. A juntar ao casting mais ao lado do ano – até os alienígenas com 4 kg de caracterização na cara estão mal – chega-nos uma história salpicada dos clichés mais gastos: famílias rivais, amores proibidos...muito mais TVI, muito menos Syfy.

Joss Whedon queria levar outra tampa da Fox, então fez Dollhouse (2009). O criador da intemporal e incompreendida coboiada espacial Firefly seguiu, 7 anos depois, para esta casa de bonecas, onde cada um pode ser muitas coisas. Suspiro porque agora lembrei-me de Pretender. Nada a ver, aqui a história gira em torno de uma entidade secreta, de seu nome Dollhouse, que programa indivíduos para serem determinadas pessoas, para terem determinadas habilidades, consoante os pedidos da clientela. Gente bonita, más atrizes e Eliza Dushku que é um íman das duas coisas. Tirada a ferros, a série lá conseguiu ter uma segunda temporada mas não conseguiu fugir ao cancelamento. O último episódio, com o nome de “Epitaph Two: Return”, acontece num futuro pós-apocalíptico onde 90% da população, depois de um ataque global, foi transformada num grupo de zombies sem mente. Assim, resta a um pequeno grupo de sobreviventes salvar a humanidade da extinção.

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F – FALLING SKIES

G – GOVERNADOR

Falling Skies, da TNT, orgulha-se de ter lugar num futuro pós-invasão extraterrestre. Ou seja, eles já estão, estão bem, nós é que não. Pronto, é tudo muito diferente tirando o resto que é igual: quase a totalidade da população mundial falecida, pequeno grupo de sobreviventes a dificultar a vida à bicharada, homens bonitos, mulheres ainda mais bonitas (Moon Bloodgood para sempre) e guerreiros que foram outrora pessoas normais. Com outras profissões. Muito recorrente em dias de apocalipse, o não fazer ideia do que o teu par fazia antes do fim. Como no Lost mas sem flashbacks. Por falar na ilha temos direito a Terry O'Quinn na segunda temporada. Em que pé estamos agora? Na terceira - nada a ver com os Açores - e com uma legião de fãs considerável a piscar olho a um futuro risonho. E os céus continuarão a cair.

O Governador é o vilão principal da terceira temporada de The Walking Dead, a série de sucesso da AMC baseada numa banda desenhada com o mesmo nome. A premissa é muito simples e assenta nas aventuras de um pequeno grupo de sobreviventes a um apocalipse zombie. Os zombies, a carne e o sangue não trazem nada de novo. A chave do sucesso está no verdadeiro inimigo do ser humano, ele próprio, e aí os mortos vivos acabamos por ser nós, aí a série ganha. Feita de altos e baixos, de mudanças nas mais altas patentes criativas, The Walking Dead continua a bater recordes de audiência e a ser um estrondoso sucesso daquele canal. A terceira temporada foi capaz do melhor (primeira metade) e do pior (segunda metade) e marcada por este sádico governante de uma aldeia que entra em conflito com Rick, xerife e líder do grupo de protagonistas. Com tudo em aberto e com perspectiva de uma vida longa estes serão de certo anos de ouro para a comunidade zombie.

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H – H+

I – ISAAC MENDEZ

H+: The Digital Series, como o próprio nome indica, é uma websérie produzida por Bryan Singer e criada por John Cabrera e Cosimo De Tommaso. Estamos no futuro, claro, e 33% da população mundial tem implantado no seu cérebro um computador, o H+, que conecta o seu sistema nervoso à Internet. Até aqui tudo bem porque dá bastante jeito aceder ao Google enquanto se descascam as batatas ou se aspira o carro. O pior é depois, quando um vírus afeta este mesmo implante. A humanidade fica offline mas a sobrevivência continua, diz o trailer. E, assim foi durante os 48 pequenos episódios da primeira temporada que podem ser vistos em hplusdigitalseries.com. Em caso de vício, é sossegar porque vem uma segunda leva a caminho.

Isaac Mendez é um artista que quando está sobre o efeito de drogas consegue pintar o futuro. Fica com os olhos brancos e faz uma banda desenhada profética. A personagem era interpretada por Santiago Cabrera e era um dos muitos seres especiais que habitavam Heroes (2006), a série de super-heróis de Tim Kring. Vou falar dela como se só tivesse existido a primeira temporada porque a minha cabeça ainda não consegue processar o que aconteceu depois. Apocalipse? Sim, de facto. Mas não é esse e sim o de uma explosão nuclear que pode destruir Nova Iorque, quiçá o resto. A primeira temporada é, então, à volta desse fim de mundo eminente tão bem desenhado pelo cavalheiro drogado. Na altura vibrava-se com esta espécie de X-Men cosmopolita e todos diziam, uns para os outros: salvem a cheerleader, salvem o mundo.

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J – JEREMIAH

L – THE LAST TRAIN

Uma das muitas variações do cenário vírus é: todos os adultos morreram. Sem explicação aparente todas as pessoas com idades acima da puberdade falecem e sobram apenas as crianças. É esta a interessante premissa de Jeremiah que tem lugar no ano 2021, 15 anos depois deste evento, quando os pequenos são agora jovens adultos que têm de tentar sobreviver nos restos de um velho mundo. Luke Perry dá corpo ao protagonista, que dá nome à aventura, acompanhado por Malcom-Jamal Warner e Sean Astin, já depois de ser hobbit. A série da Showtime, transmitida durante 2002 e 2004, não foi a única a abordar este tema, a série canadiana 2030 CE e a série neozelandesa The Tribe também fizeram a folha aos graúdos. Esta última teve uma esperança de vida acima da média contando com um total de 5 temporadas e 260 episódios! Terminou porque o elenco estava a ficar muito velho. Irónico.

Quantas vezes chegamos à estação todos pimpões para comprar bilhete e o senhor da bilheteira diz: o último comboio já foi. Pode chegar a ser o fim do mundo. Mas The Last Train não é sobre este género de peripécias. A série britânica da ITV acompanha um grupo de passageiros que são postos acidentalmente em animação suspensa e acordam anos mais tarde. Acordam para constatar que são os últimos sobreviventes num mundo feito de cacos. Motivo? Preparados? Meteoro. Por esta que não estavam à espera. O que podem esperar, ainda este ano, é uma história muito parecida com esta mas no grande écran. Comboio com os sobreviventes de uma nova era glaciar. Chama-se Snowpiercer, é realizado por Joon-ho Bong, tem Chris Evans e Tilda Swinton, nos principais papéis e promete imenso. Toca a comprar bilhete.

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M – MAX

N – NUCLEAR

Da Jessica Alba retenho com carinho meia dúzia de frames de Sin City, quando ela está agarrada ao varão. Tirando isso, pouco mais, mas a verdade é que o trabalho dela não se resume às extravagâncias de Rodriguez – não estou a falar do músico. Quando era mais nova, interpretou em Dark Angel, durante duas temporadas, o papel de Max Guevera, uma criança melhorada geneticamente e treinada para ser um super-soldado, que foge juntamente com outros iguais desse sítio governamental super secreto. Pouco tempo depois um grupo terrorista rebenta uma bomba eletromagnética que destrói todos os sistemas de comunicação, lançando os EUA para o caos. A história salta 10 anos, para uma altura em que já é legal ter pensamentos pecaminosos acerca da protagonista e quando esta procura desesperadamente os seus “irmãos”. Depois também combate o mal claro, com pontapés e biqueiradas.

O nuclear é normalmente em grande. Guerra, conflito, conspirações, levam a que uma ou mais bombas rebentem numa ou mais zonas do mundo. Podem matar milhares, podem matar milhões. Certo é que criam um cenário distinto do que estava, pós-apocalíptico. Em 2006, a história ficou mais íntima. Jericho contava a vida de uma pequena aldeia no Kansas, com o nome do título, que fica isolada do mundo após um aparente ataque nuclear. Completamente às cegas, os habitantes têm, então, não só de descobrir o que aconteceu mas também de conseguir sobreviver nesta nova realidade. A pequena série da CBS conseguiu sobreviver ao apocalipse do cancelamento e foi renovada, graças a uma inventiva campanha dos fãs – que enviaram milhares de nozes para a estação devido a uma frase do protagonista “Nuts” - para uma segunda temporada mais curta. Depois disso sim, o fim e um pequeno culto que ainda hoje persiste.

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O – OBSERVADORES

P – POLUIÇÃO

Os Observadores são uns indivíduos carecas, sem sobrancelhas e de chapéu. Povoam o universo Fringe desde o seu primeiro episódio. Apareciam normalmente em segundo plano, como figurantes fixos que se tinham de descobrir e procurar. Um puzzle complexo, descoberto aos poucos, à medida que a série caminhava para o fim. E o fim foram eles. A quinta e última temporada desta fantástica aventura de ficção científica foi num universo onde os Observadores tomaram conta da história. Da nossa história. Dando continuidade a um episódio de seu nome “Letters of Transit” – que tem o Desmond e tudo! – saltamos para um tempo onde estes seres humanos do futuro, depois de destruírem o planeta com o seu fumo, decidem regressar para o passado e conquistá-lo à força. Ou pelo menos tentar. Vá, não posso contar como acaba por estão aqui pessoas que não viram e querem ver.

O que sucede é o seguinte: estão a ver aqueles discursos inesgotáveis sobre desenvolvimento sustentável? Os calotes polares e o Al Gore? Pronto, isso afinal era mesmo verdade e o planeta foi ao ar. Que é como quem diz ficou impróprio para consumo. O ser humano, sempre esse malvado a estragar todo e qualquer futuro. Então, uma vez que para frente já não serve, temos de recuar para trás, milhões e milhões de anos para trás e colonizar de novo o planeta quando ele era virgem. Salvar a nossa espécie de nós próprios. É esta a premissa de Terra Nova a quase “grande nova série” da temporada 2011/2012 que se deixou cair em novelas, más interpretações e dinossauros feitos numa versão free do After Effects. Obviamente cancelada ao fim da primeira temporada, resta agora perceber para onde foi todo o dinheiro investido? Será que está lá no passado ao pé da bicharada?

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Q – QUINTO ELEMENTO

R – REVOLUTION

Esqueçam por momentos o filme do Luc Besson. O Robocop está mais velhinho mas não é por isso que deixa de fazer ficção científica. Peter Weller, de quando em vez lá regressa ao género, seja com pequenos cameos ou aparições mais compostas. Em 2002 embarcou então numa viagem intitulada Odyssey 5. A série canadiana, transmitida pela Showtime, conta a história de um grupo de cinco astronautas que assiste impotente à destruição do planeta Terra. Desalojados, são enviados cinco anos para trás no tempo de forma a descobrirem quem é o responsável por tamanha maldade. Apesar do esforço titânico para nos salvar foi a própria série que não conseguiu fugir a um negro destino, correndo apenas por uma temporada.

Ainda me lembro daquelas noites de fim de ano com os meus pais em que, por volta das 22h lá faltava a luz. Um clássico da EDP que obrigava a rádio a fazer as maravilhas cá da casa. Revolution é como se fosse um desses fins de ano, só que sempre. De um momento para o outro o planeta Terra vê-se sem energia nenhuma. Nada funciona e o mundo como o conhecemos desaparece. Os EUA dividem-se e estamos num futuro governado por várias repúblicas, pequenas grandes ditaduras que se fazem valer da força das milícias para manter a ordem. Claro que a esperança em voltar a trazer a luz reside escondida nuns misteriosos pendentes – tipo umas pens cheias de estilo para usar ao pescoço – e assim partimos à aventura. Criada por Eric Kripke e produzida por J.J. Abrams, Revolution manteve a saga de séries que prometem muito mas dão pouco, que tentam preencher o vazio do mistério mas que simplesmente não conseguem. Porém, e ao contrário das suas antecessoras The Event e Terra Nova, conseguiu a renovação para a segunda temporada. Se calhar porque tem pessoas mais bonitas e mais bem penteadas, mesmo sem luz.

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S – STAN

T – TERMINATOR: THE SARAH CONNOR CHRONICLES

“Rapture’s Delight” é o nono episódio da quinta temporada de American Dad!, a série de animação criada por Seth MacFarlane, Mike Barker e Matt Weitzman. Nele, o seu protagonista e pai de família, Stan Smith apanha um enorme desgosto quando constata que não foi arrebatado para o céu como todos os bons cristãos. Fica, então, na Terra para assistir ao regresso de Jesus que acaba por lhe roubar a mulher, Francine. Sete anos depois, damos por nós num cenário pós-apocalíptico, ao estilo Mad Max, onde um Stan maneta e em modo guerreiro do asfalto tem de ajudar o homem que lhe roubou o amor no combate ao anti-cristo, que é um maluco muito parecido ao Enigma. São vinte minutos de puro apocalipse, com um sem número de referências e sem nenhum pudor. Humor, puro e duro, para cumprir a tarefa divina de nos arrebatar.

A história é a velha conhecida do tio Cameron. Vir do futuro para o passado de modo a salvar o presente. Ou será ao contrário? Os tempos confundem-se, mas o certo é que, passada após os acontecimentos do segundo filme, surge a incursão televisiva do universo Terminator com o nome de Terminator: The Sarah Connor Chronicles (2008). John Connor, o salvador da humanidade na luta contra as máquinas, passava agora para segundo plano e era a sua mãe, interpretada pela excelente Lena Headey – que hoje em dia se passeia loura por Westeros (Game of Thrones) – a assumir o comando. A história tinha então lugar nos dias de hoje, o chamado pré-apocalipse, e contava os esforços da progenitora para proteger o seu rebento contra a constante incursão dos vilões robóticos da Skynet. Com um sucesso relativo e apesar de ter a Summer Glau como exterminadora a série não sobreviveu mais que duas temporadas deixando a história nas mãos de uma sequela terrível intitulada Terminator Salvation. Salve-se, então, quem puder.

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U – UNIVERSO PARALELO

V – VÍRUS

Eu, muitas vezes, penso como seria melhor o mundo se a Buffy nunca tivesse existido. É que depois também não havia Angel e quem sabe Bones e por aí fora. Qual não é o meu espanto quando descubro que não fui o único com esta lógica de pensamento: no episódio “The Wish”, da famigerada série da caçadora de vampiros, a Cordelia deseja que a Buffy nunca tenha ido para Sunnydale. Claro, que o que parece inicialmente um cenário idílico acaba por virar um verdadeiro apocalipse na medida em que existem vampiros por todo o lado, na escola, em casa, na rua. A cidade está infestada e mesmo os seus mais próximos estão do outro lado. Altura então, única exceção, para dizer: volta Sarah Michelle Gellar estás perdoada.

Se fosse tão simples como – Ah, um vírus mortal dizimou 98% da população humana e agora um grupo de resistentes luta pela sua sobrevivência – não fazia sentido continuar este parágrafo. De facto é assim tão simples mas há variações que merecem destaque: o vírus pode ser natural, resultado do cruzamento de um macaco com uma arara que tenha sido mordida por um bicho-pau, ou criada em laboratório, com propósitos nada amigáveis. Às vezes, até são, mas depois há um acidente e segue-se o descontrolo. Reino do caos a ser controlado pelo Reino Unido: Survivors da BBC, fala, surpreendentemente, de um grupo de sobreviventes de uma praga que dizimou a maior parte da humanidade. Teve duas versões, uma em 1975 outra em 2008, ambas com boas críticas. Saltando o oceano e indo para 1994 encontramos The Stand, minissérie da ABC baseada no romance homónimo de Stephen King, onde depois de uma devastação global os sobreviventes têm de travar uma batalha entre si, bem e mal à batatada para ver quem manda.

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X – X-MEN: DAYS OF FUTURE PAST

Z - ZOMBIES

Antes da Jennifer Lawrence andar a mostrar os seus seios azuis já cá eles andavam, os mutantes. É verdade que não conseguimos tirar os olhos da adaptação cinematográfica de Bryan Singer desta história originalmente lançada em 1981 pelos famosos quadradinhos, mas a verdade é que ela já esteve no ecrã. Mas no pequeno: X-Men: The Animated Series e Wolverine and the X-Men abordaram variações da história original que gira em torno de um futuro alternativo, onde os mutantes são perseguidos por uns robôs denominados sentinelas e presos em campos de concentração. Uma versão futura vem avisar uma versão presente para que os acontecimentos que levaram ao apocalipse possam ser evitados. Pequeno animado entretenimento que serve de aperitivo para aquele que promete ser um dos grandes blockbusters de 2014.

Estão na moda, os zombies. Talvez nunca tenham estado assim tão na berra, com direito a rebuscadas histórias de amor e tudo. Porém na sua base, encontra-se sempre um apocalipse: os seres humanos morrem e voltam à vida na sua forma mais elementar, sem nada, apenas invólucros sedentos de sangue para destruir, rasgar, matar e consumir. Ah e infectar, pois assim que se é mordido por um fica-se um. Existem regras e Zombieland, perito nas mesmas, bem tentou ser série, mas sem sucesso. O filme de 2009 era um louco e hilariante parque de diversões com um quarteto protagonista que fez as delícias de quem queria descontrair enquanto zombies eram dilacerados. Melhor cameo daquele ano tinha de ter continuação. Sequela? Não, série de televisão. Porém, os fãs do original não deram qualquer hipótese ao produto da Amazon, que cheirou a cópia barata e assim mais uma regra para se juntar às outras: no que toca a zombies vejam séries britânicas como Dead Set ou a mais recente In the Flesh.

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Director José Soares. josesoares@take.com.pt Editor Carlos Reis. editor@take.com.pt Editor adjunto João Paulo Costa. editor.adj@take.com.pt Colaboraram nesta edição Aníbal Santiago. Carlos Reis. João Paulo Costa. Miguel Ferreira. Nuno Reis. Samuel Andrade. Sandra Gaspar. Sara Galvão. Tiago Silva. Design José Soares. Imagens Arquivo Take. Alambique. Big Picture Films. Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. Clap Filmes. Columbia TriStar Warner Portugal. Costa do Castelo Filmes. Fox Portugal. Films 4 You. iStock. LNK Audiovisuais. Leopardo Filmes. ZON Lusomundo Audiovisuais. Midas Filmes. Pris Audiovisuais. Sony Pictures Portugal. Universal Pictures Portugal. Valentim de Carvalho Multimédia. Vendetta Filmes. Imagem de capa CGI do filme 2012 de Roland Emmerich © Dylan Cole © 2013 Take Cinema Magazine - Todos os direitos reservados. As imagens usadas têm direitos reservados e são propriedade dos seus respectivos donos.

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