Page 1


(Oriente)


(Oriente) 3

Humberto AraĂşjo

editora tp


Copyright © 2015 por Humberto Araújo Todos os direitos reservados

Projeto Gráfico Taís Lima e Paula Aurélia

Diagramação Taís Lima

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida, total ou parcialmente, por quaisquer métodos ou processos, sem a autorização do detentor do copyright.

Araújo, Humberto Oriente / Humberto Araújo. - Fortaleza: Editora TP, 2015. - Primeira edição. 104 p. (Que eu Oriente O plagiador) 1.Poesia. 2.Haicais I. Título


Uma longa apresentação para um livro de poemas de 17 sílabas

Desde que aportou no Brasil com os imigrantes japoneses do Kasato Maru, em meados de 1908, e de sua primeira divulgação na literatura brasileira por Afrânio Peixoto, em 1919, o haicai tornou-se uma forma poética de grande apreço por parte dos poetas brasileiros. Dentre os poetas nacionais que se destacaram com seus haicais devemos citar Guilherme de Almeida —que, se não foi o primeiro a escrevê-los em nossa língua, foi pioneiro na popularização do haicai—, Millôr Fernandes e Paulo Leminski. O Ceará também produziu seus haicaístas: Adriano Espínola (com seu livro Trapézio, de 1984), Sânzio de Azevedo (que já publicara haicais em Cantos da Antevéspera, de 1999, e que em 2006 publicou um livro somente de haicais, Lanternas cor de aurora), ambos claramente influenciados por Guilherme de Almeida, e Francisco Carvalho, dentre outros. Mesmo se aclimatando entre nós há quase um século, ainda há muita controvérsia sobre o que é um haicai. Assim, para explicar minha própria produção haicaística, devo primeiro definir o que é o haicai, a

11


partir de sua origem japonesa e de sua aclimatação ao solo brasileiro, para, a seguir, definir o haicai como o entendo e pratico. O HAICAI Origens do haicai O haicai tem sua origem no tanka, poema clássico japonês de 31 sílabas, dividido em duas estrofes. A primeira estrofe composta de três versos, com 5, 7 e 5 sílabas respectivamente, e a segunda de um dístico com versos de 7 sílabas. Nos séculos XV e XVI, surgiu no Japão o haikai-no-renga, passatempo literário (hai “brincadeira, gracejo” + kai “harmonia, realização”) em que um poeta recitava a primeira estrofe do tanka e um outro a segunda, sendo seguido então pelo primeiro poeta (ou outro) que recitava novamente uma estrofe de 3 versos, e assim seguiam construindo uma longa série poemática. Essa atividade, praticada ainda hoje, atualmente recebe o nome de renku ou renga, em português “haicais encadeados”. Com o tempo, essa primeira parte do renku, o hokku, adquiriu autonomia, dando origem ao haiku1 (hai+ku “estrofe”) ou haicai. 1  A forma haiku é normalmente utilizada em textos ingleses, franceses ou espanhóis; é também utilizada em português em textos especializados sobre cultura japonesa.

12

Apresentação


Como o tanka, o haicai normalmente não tem título ou rima. Uma das características desta primeira estrofe do renku que persiste no haicai japonês é que ela deve conter o kigo, isto é, uma palavra ou expressão que faça referência direta (“vento de outono”, “fim do inverno”) ou indireta (uma flor específica ou um animal) a uma estação do ano. Estas palavras e expressões são muitas vezes dicionarizadas e no Brasil há o esforço de grêmios de haicaístas (especialmente em São Paulo e ligados à colônia japonesa) em estabelecer os kigos próprios do nosso país. Nesse esforço se destaca o mestre haicaísta Masuda Goga. Temos assim uma primeira definição de haicai à partir de sua origem japonesa: um poema de três versos, não rimados, com respectivamente 5-7-5 sílabas métricas, tendo como inspiração a natureza, referindose a uma estação do ano através do kigo. Essa definição se aplica aos poemas de Matsuo Bashô (1644–1694), provavelmente o haicaísta japonês mais conhecido no ocidente. Como vemos, nesta definição de haicai é impossível dissociar forma de conteúdo, equívoco que cometeu Mailma de Sousa ao analisar os haicais de Francisco de Carvalho, usando como parâmetro Bashô, mas levando em consideração apenas a métrica2.

2 

SOUSA, 2002a, p. 135-139 e p. 173-180.

Oriente

13


O haicai no brasil Segundo Masuda Goga, o haicai japonês aportou no Brasil junto com os primeiros imigrantes japoneses, mas sua primeira divulgação na literatura brasileira se deu em 1919 no prefácio do livro Trovas populares brasileiras, de Afrânio Peixoto3, com o seguinte haicai numa retradução do francês: Uma pétala caída Que torna a seu ramo: Ah! é uma borboleta! Ainda segundo Goga, é na década de 1930 que começa o intercâmbio entre os haicaístas brasileiros, que recebiam as informações através de publicações norte-americanas ou européias, e os haicaístas de origem nipônica4. Em 1933, Waldomiro Siqueira Jr. publica Haikais, a primeira coletânea de haicais no Brasil, com títulos e sem rima; depois produziria haicais à maneira de Guilherme de Almeida. Em 1937, Guilherme de Almeida publica o artigo

14

3 

GOGA, 1988, p. 21.

4 

Ibidem, p. 34.

Apresentação


“Os meus haicais”, no jornal O Estado de São Paulo. Nesse artigo descreve pontos de semelhança entre o haicai e a trova brasileira e explica a sua fórmula para o haicai: “Eis o meu haikai. Dentro da regra de 5-75 sílabas, o primeiro verso rima com o terceiro. Na segunda linha rimam a segunda sílaba e a última”5. O que posto em gráfico: ––––x ––o–––o ––––x A essa estrofe, Guilherme de Almeida acrescentava ainda um título: O HAICAI Lava, escorre, agita a areia. E enfim, na batéia, fica uma pepita. Essa forma de escrever o haicai em português fez muito sucesso, sendo seguida por muitos poetas. 5 

Apud GOGA, op. cit., p. 39.

Oriente

15


Outros importantes poetas praticaram o haicai: Jorge Fonseca Jr., Oldegar Vieira, Pedro Xisto, Olga Savary, entre outros. Se Guilherme de Almeida foi o primeiro grande divulgador e popularizador do haicai, Paulo Leminski e Millôr Fernandes, nas décadas de 1970 e 1980, levaram muitos jovens a redescobrir a magia do haicai. Leminski traduziu Bashô e também produziu haicais com influência concretista e com uma maior liberdade formal, abandonando a métrica clássica do haicai. Millôr Fernandes escreveu vários haicais a partir do final dos anos 1950, despreocupando-se conscientemente com a métrica, depois publicados em livro. Característica marcante dos haicais de Millôr é o humor que neles transparece. Paralelamente a esse haicaístas, especialmente em São Paulo, surgem os grêmios de haicai (como o Ipê e o Sumaúma), mais ligados às tradições clássicas japonesas. Três correntes de opinião sobre haicai No capítulo “Três correntes de opinião sobre haiku”, do seu já citado livro, o mestre Massuda Goga apresenta três propostas teóricas sobre o haicai que ele identifica no Brasil. Seguiremos aqui as suas indicações e as ampliaremos segundo o que tenho estudado sobre o assunto nos últimos anos.

16

Apresentação


Os defensores do conteúdo do haicai São aqueles que consideram como características peculiares do haicai “a concisão, a condensação, a intuição e a emoção — concepções essas geradas pela inspiração no zen-budismo”6. A ligação do haicai com o zen-budismo no ocidente deve-se a dois fatores: o fato de Bashô ter sido discípulo do mestre zen Bucchô e a influência do livro de Taisetsu Suzuki7, Zen e a cultura japonesa, publicado em inglês em 1940 e que influenciou especialmente o movimento de contracultura, os poetas da geração beat americana, entre outros. Masuda Goga informa que “Neste livro há um capítulo intitulado ‘Zen e Haiku — A Intuição Zen na Base da Inspiração do Haiku’”8. No seu ensaio “Zen e Ocidente”9, Umberto Eco define assim o Zen: (...) avalizada por sua venerável idade, essa doutrina vinha ensinar-nos que o universo, o todo, é mutável, indefinível, fugaz, paradoxal; que a ordem dos eventos é uma

6 

GOGA, op. cit., p. 37.

7  Suzuki teve seu livro Introdução ao Zen Budismo publicado em 1961 pela Civilização Brasileira. 8 

GOGA, op. cit.,p.38.

9 

ECO, 1976, p. 203-225.

Oriente

17


ilusão de nossa inteligência esclerosante, que tôda tentativa para defini-la e fixála em leis está condenada ao fracasso... Mas que justamente na plena consciência e aceitação alegre dessa condição está a extrema sabedoria, a iluminação definitiva; e que a crise eterna do homem não surge porque êle deve definir o mundo e não o consegue, mas porque quer defini-lo e não deve. (p. 206).

Da tentativa de não definição do mundo surge uma das características que nos fazem sentir o haimi, isto é, o sabor do haicai: a sua natureza fragmentária, muitas vezes realizada na simples justaposição de imagens, como vemos nesses haicais de Bashô: voa a lua pingos nos galhos sorvendo a chuva10 gota de orvalho ao sol da manhã precioso diamante11 10  BASHO, 1997, p. 23. 11 

18

Apud MARSICANO, 1997, p. 16.

Apresentação


É importante deixar bem claro que os poetas que seguem essa linha Zen na feitura do haicai não são necessariamente seguidores desta filosofia milenar, mas adotam algumas de suas concepções estéticas, consciente ou inconscientemente, como condição para o seu poetar. Paulo Leminski uniu a influência Zen às teorias concretistas de Haroldo de Campos nos seus haicais. Millôr Fernandes é outro que assume a influência do Zen nos seus haicais a partir de outra característica dessa filosofia: o humor. Ambos poetas, como muitos outros, não consideram a métrica como essencial na composição dos seus haicais. Millôr inclusive acrescenta rimas nos versos ímpares de seus poemas. Os que atribuem importância à forma São aqueles que vêem como característica fundamental na feitura do haicai a métrica 5-7-5 sílabas. Essa é a tese defendida por Guilherme de Almeida, que a essa estrutura acrescentou um esquema rimático próprio, como já tivemos a ocasião de explicar. Além da rima, Guilherme de Almeida acrescenta título aos seus haicais, o que não existe no haicai japonês. Em Guilherme de Almeida, como em Sânzio de Azevedo e Adriano Espínola, assim como em outros que seguem o esquema 5-7-5 na feitura do haicai sem as rimas que lhe pôs o poeta de Poesia vária,

Oriente

19


percebemos a par de uma preocupação com a forma, uma recorrência à natureza como inspiração. Os que atribuem importância ao kigo Com a difusão dos estudos e da cultura nipônica e dos grêmios haicaístas ligados às comunidades japonesas, cada vez mais poetas se voltam para as tradições do haicai original e atribuem importância cada vez maior à palavra ou termo relativo à estação do ano na feitura dos seus haicais. Assim, diz Jorge Fonseca Júnior que o haicai ... deve indicar ou refletir a estação do ano (ao menos indiretamente) em que é elaborado; e caracterizado, portanto, por sua extrema consisão, devendo, ao mesmo tempo, através desta, fluir com naturalidade o conteúdo poético.12

A maior parte dos que seguem esta corrente também se mantêm fiel à métrica.

12  FONSECA JUNIOR, Jorge. Wenceslau de Morais e Outras Evocações. Apud GOGA, op cit. p. 40.

20

Apresentação


Uma definição de haicai Mesmo nessa apresentação sintética até aqui, é possível perceber que as definições de haicai são muitas, conflitantes e/ou complementares. Nos estudos que tenho feito nos últimos anos, limitados pela escassez de fontes em nosso Estado (e também pela minha falta de domínio do japonês, inglês e francês), cheguei a uma definição de haicai, unindo forma e conteúdo, que busco aplicar à minha produção haicaística: O haicai é um poema de três versos, respectivamente de 5, 7 e 5 sílabas, inspirado e referente à natureza. Expressão clara através de imagens, evitando o sentimentalismo. O haicai foge da abstração e do sentimentalismo, nele busca-se que cada coisa seja o que é e plena de sentido, não símbolo de outra. Nessa poesia composta quase que totalmente de denotação, a conotação se dá no não dito, o que é poetizado é a situação que causou a sensação estética no poeta e não a própria sensação poética. A realidade é a essência, a experiência estética é o efeito13. Se o poeta tentar transmitir o efeito ele estará se distanciando do makoto (verdade, palavra-verdade), o que ele deve poetizar é a própria essência, assim o leitor do poema poderá ter a sua própria experiência estética. Não considero a rima essencial, tampouco que ela, mesmo à maneira de Guilherme de Almeida, destrua 13 

FRANCHETTI, 1996, p. 24.

Oriente

21


o haimi, mas que ela pode às vezes inclusive colaborar para o poético. Devemos considerar que vivemos em uma cultura diferente da do berço do haicai, e que os aportes de nossa cultura podem ser contribuições importantes para preencher o espaço deixado pelas características do haicai japonês que não conseguimos transplantar por distantes de nosso modo de viver, ver e pensar. Os haicais apresentados nesse livro fazem parte de meu aprendizado, assim que nem todos, especialmente os primeiros, seguem essa definição elaborada depois de algum tempo praticando haicais. Alguns se enquadrariam em outra definição, o senryu, poema japonês que tem a mesma estrutura do haicai, mas que não considera o kigo. O título do livro, Oriente, reflete esse labor de descoberta e aprendizado desta maravilhosa arte poética, durante a qual pude, de uma forma imperfeita, mas honesta um haicai, encontrar e adaptar a minúscula pérola à realidade que me cerca.

22

Apresentação


Bibliografia AZEVEDO, Sânzio de. Cantos da antevéspera. Fortaleza: EUFC/Casa de José de Alencar, 1999.       . Lanternas cor de aurora. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2006.       . Para uma teoria do verso. Fortaleza: EUFC, 1997. BASHO. Matsuo. Trilha estreita ao confim. Tradução de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano. São Paulo: Iluminiras, 1997. CARVALHO, Francisco. Barca dos sentidos. Fortaleza: Edições UFC, 1989.       . Os exílios do homem. Juiz de Fora: Zas, 1997.       . Raízes da voz: poesia. Fortaleza: UFC/ Casa de José de Alencar, 1986. (Coleção Alagadiço Novo).       . Romance da nuvem pássaro. Fortaleza: UFC/Casa de José de Alencar, 1998. (Coleção Alagadiço Novo).       . Rosa dos eventos: poesia. Ilustrações Solange Botelho.Fortaleza: Edições UFC/Academia Cearense de Letras, 1982. CAMPOS, Haroldo de. A arte no horizonte do provável. 4.ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 16). ECO, Umberto. Obra aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas.

Oriente

23


Tradução de Sebastião Uchôa Leite. São Paulo: Perspectiva, 1976. (Debates, 4). ESPÍNOLA, Adriano. Trapézio: haicais. Illustrações: Geraldo Jesuíno. Fortaleza: Edições Água, 1984. FERNANDES, Millôr. Hai-kais. Porto Alegre: L & PM, 1997. 128 p.; 17 cm.; ilustrado; brochura. (Coleção L & PM Pocket, 27). ISBN: 8525406635. FRANCHETTI, Paulo (org); DOI, Elza Taeko, DANTAS, Luiz. Haikai: Antologia e história. 3.ª ed. Campinas: São Paulo: Editora da UNICAMP, 1996. (Coleção Viagens da Voz) GOGA, Hidekazu Masuda. O haicai no Brasil. Tradução de José Yamashiro. São Paulo: Oriento, 1988. LINHARES FILHO. Poesia. In LINHARES FILHO. Cantos de fuga e ancoragem. Fortaleza: Imprece, 2007. MARTINS, Nilce. Introdução à estilística: a expressividade na língua portuguesa 3ª ed. rev. e aum. São Paulo: T.A. Queiroz: 2000. MARSICANO, Alberto. A trilha errante de Basho. In: BASHO. Matsuo. Trilha estreita ao confim. Tradução de Kimi Takenaka e Alberto Marsicano. São Paulo: Iluminiras, 1997. PAZ, Octavio. La tradición del haikú. In: México en la obra de Octavio Paz II: generaziones e semblanzas.México, DF: Fondo de Cultura Económica, 1987. 696 p.; brochura. (Escritores y letras de México).

24

Apresentação


Assim conto os dias: cada dezessete sĂ­labas, um haicai e um dia.

26


Hoje de manhĂŁ, lendo o verso do Drummond lembrei: tua boca!

27


Amanhã será outra manhã de setembro. Quando ela virá?

28


29


30


ManhĂŁ de setembro do poema do Drummond pela noite adentro.

31


Alegria ĂŠ isso: subindo ou descendo dunas, andar de mĂŁos dadas.

32


33


És pequena como um haicai. E como um deles Ês todo o universo.

34


35


Flor de primavera no meio do meu outono: teu beijo e perfume.

36


Vento na mangueira: embaixo alguĂŠm te espera com um haicai nas mĂŁos.

37


No teu corpo branco, lĂŠpida, a lĂ­ngua do poeta declama haicais.

38


39


40


Brilham os neóns n’algum lugar da cidade teus olhos também.

41


Acordar contigo nesta manhĂŁ de domingo: melhor que sonhar.

42


Sob o sol a pino refresco-me na lembranรงa: tua cor de lua.

43


44


Brilham os teus olhos, sol nas folhas do jardim, luz e sombra em mim.

45


Sol que seca as lรกgrimas de orvalho e feliz saudade: lindo amanhecer.

46


Teus seios, dois montes que a língua percorre em busca das lácteas fontes.

47


Sob a lua pรกlida fujamos. Quarto: crescente confusรฃo de pernas.

48


Segue a lua nova, corpo branco que se nega, crescente desejo.

49


O gosto do beijo, sombra da boca da amada, licor de saudade.

50


Sob teu umbigo, ali, bebe o sedento poeta (a fonte ĂŠ em ti).

51


Quem olha teu olho quando olham estes escritos teus olhos furtivos?

52


Na manhĂŁ de chuva, o poeta nem duvida: de abrigos se abriga.

53


No teu riso, amiga, me banho em lĂ­mpida e clara sonora cachoeira.

54


Um cheiro de chuva Prestes a molhar a terra e os olhos da amada.

55


O vento entre os prĂŠdios. Uma saudade de esperar ao pĂŠ da tua porta.

56


57


58


Um raio de sol rasga o telhado e ilumina o teu rosto ao meu lado.

59


Eu sรณ no meu ninho. Na tarde exausta de sol voam passarinhos.

60


61


Um menino sopra um arco-Ă­ris capturado numa leve esfera.

62


Jå a rÊstia de sol lambe a poeira e as lembranças. Resta uma saudade.

63


64


Finda-se setembro, sabe-se, assim: outro outubro hรก de vir. E de ir.

65


Diz-me um halo rubro: as nuvens a lua escondem na noite de outubro.

66


Mangueira frondosa Estende sombra silente aos pĂŠs desta aurora.

67


SolidĂŁo silente. A lua ilumina a rua e a amada ausente.

68


69


Chuva inesperada. Desejo imenso de ti espreita meu sonho.

70


71


72


Lágrimas do céu no chão. Sigo em solidão caminhando ao léu.

73


Teu cheiro na brisa à noite. Sofro um açoite de melancolia.

74


75


Ah! E se nĂŁo fosse Saudade, em outra cidade, de abacaxi doce.

76


Partilhando o lar do amigo, barulham os grilos. Canção de ninar.

77


Persigo um morcego velho no seu vĂ´o cego com um sorriso aceso.

78


Sopra o Aracati. Lembro o frescor de uns olhos na noite estrelada.

79


As vacas carregam o barulho de seus sinos ao calor da tarde.

80


Vento Aracati, como se pensasse em mim, refresca meu sonho.

81


“São só dez minutos e beberemos o chá.” Disse-me o Zé.

82


Tão grande é o calor que até florescem as flores fora da estação.

83


Fundo da garrafa: lento, o amarelo caju perfuma a cachaรงa.

84


Na amorosa mata, canta alto o beija-flor, se acha o que beijar.

85


Sábado. Domingos foi-se ao céu, olhar do alto belezas telúricas.

86


No meio da mata Traz recado o beija-flor: “estamos em paz�.

87


A Lua Gigante faz o caminho de volta da noite pro dia.

88


Na casa da avĂł o Ăşltimo pingo de chuva se agarra Ă varanda.

89


O cĂŁo amarelo deita-se em sombras azuis num dia de sol.

90


Na pequena concha descubro um segredo ĂĄureo: a lĂ­ngua de Deus.

91


Contra o cĂŠu azul, o capucho de algodĂŁo figura de nuvem.

92


No seu galho, à tarde, lá dormita a lagartixa. Essa é sua arte.

93


No final do dia: mel de engenho, limão fresco, cachaça e gelo!

94


Nas terras do bode, mĂŁos acariciando cactus: barulho de ĂĄgua.

95


Sabor de saudade‌ chupando manga e pensando nos låbios da amada.

96


97


Banhado no açude, calmo, calmo… calma a água lava-me a alma.

98


Quando finda a chuva, últimas gotas ao sol: pérolas de água.

99


No varal as roupas Rรกpido secam ao sol e eu pingo de suor.

100


A brisa da praia varre a areia e os versos desse meu haikai.

101


102


Marulhando o mar um poema intraduzĂ­vel deixando-me pasmo.

103


Este livro foi composto em Garamond Pro, corpo 11 por 12 e impresso sobre papel Pólen Soft 70g/m² para a Editora TP em setembro de 2015.


O haicai é um poema de três versos, respectivamente de 5, 7 e 5 sílabas, inspirado e referente à natureza. Expressão clara através de imagens, evitando o sentimentalismo. O haicai foge da abstração e do sentimentalismo, nele busca-se que cada coisa seja o que é e plena de sentido, não símbolo de outra. Nessa poesia composta quase que totalmente de denotação, a conotação se dá no não dito, o que é poetizado é a situação que causou a sensação estética no poeta e não a própria sensação poética. A realidade é a essência, a experiência estética é o efeito. Se o poeta tentar transmitir o efeito ele estará se distanciando do makoto (verdade, palavra-verdade), o que ele deve poetizar é a própria essência, assim o leitor do poema poderá ter a sua própria experiência estética.

Oriente - Livro de Haicais  
New
Advertisement