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ansiedade

uma cartilha

Taís Lima com ilustrações de Marcus Rosado


“Inquietação, ansiedade, tensão, preocupação - todas as formas de medo são causadas por futuro demais, e não bastante presente.” Eckhart Tolle


Meninas Malvadas

De Bully Ă Rainha do Baile Aspectos evolucionĂĄrios da ansiedade


no mundo animal , durante

300 milhões de anos, o líder de cada grupo era decidido com a competição agonística - segundo John Price, do Hospital Geral de Brighton, no Reino Unido. Cada indivíduo tem um Resource Holding Potential, uma “estimativa de capacidade de luta”. Antes mesmo que qualquer enfrentamento comece, esse potencial é sinalizado ao oponente, mostrando quanta punição ele consegue suportar.  O conflito acaba quando um dos competidores finalmente submete-se ao outro. Porém, em algum ponto da história, ansiedade, medo e baixa auto-estima somados, embora não substituindo completamente a primeira, fizeram surgir uma nova maneira de eleger seus líderes: a competição de prestígio. Agora usando seu Social Attention Holding Potencial, um “poder para atrair interesse e investimento”, o candidato a líder deveria, em vez de dominar o grupo, conquistá-lo. Ansiedade + medo + baixa auto estima

Procura por segurança

Submissão ao líder

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Como emoção, a ansiedade remonta aos nossos ancestrais mais distantes. Uma das diferenças entre a nossa e a do homem pré-histórico está no habitat de cada um. No ambiente evolucionário, ser ansioso era uma vantagem: estar preparado para qualquer situação poderia ser a diferença entre sobreviver ou morrer. Há também outro fator: esse homem costumava compartilhar cada novidade com os membros do grupo, ao passo que nós, usualmente absorvemos muita informação sozinhos. Más notícias estão apenas entre uma das fontes de ansiedade. Porém com o volume e velocidade com que as recebemos, a sentimos num nível que o homem das cavernas nunca experimentou.

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Os Croods

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“Finas Fatias de Ansiedade”, Catherine Lepage

O problema Fatos e estatísticas sobre ansiedade


ansiedade é normal , até certo ponto:

antes de uma prova ou apresentação faz sentido. Enquanto você toma sol numa ilha paradisíaca não. Na versão atual do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (dsm), a “bíblia” da saúde mental, ansiedade é diferida de medo:

“Medo é a resposta emocional a uma ameaça real ou iminente. Ansiedade é antecipar futuras ameaças.” De acordo com a Associação Psicológica Americana, para pessoas com tais transtornos, preocupações e medos não são temporários. Podem impedir sua habilidade de funcionar no trabalho, escola e em situações sociais. Fatores biológicos, socioeconômicos e ambientais como genética, nutrição, condições de trabalho ou estudo, são os principais fatores contribuintes, segundo o dsm. Entre outros específicos, os principais distúrbios são: Ansiedade de Separação; Mutismo Seletivo; Fobias específicas; Ansiedade Social; Distúrbio do Pânico; Transtorno de Ansiedade Generalizada (tag). A seguir, alguns dados da Organização Mundial da Saúde refletem o atual cenário do transtorno.

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Estima-se que quase 700 milhões de pessoas possuem algum transtorno de saúde mental: 10% da população global. Somente distúrbios de ansiedade, atingem 4%, aproximadamente 300 milhões de pessoas.

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Entre capital e região metropolitana, 29,6% da população de São Paulo possui algum transtorno psicológico, sendo ansiedade o mais comum, responsável por 19,9%.

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Mulheres são quase duas vezes mais afetadas que os homens. Violência, status socioeconômico baixo ou submisso e responsabilidade constante em cuidar de outras pessoas são alguns dos fatores determinantes.

Pelo menos uma em cada cinco mulheres já foram estupradas ou sofreram tentativa de estupro durante a vida.

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A Sociedade Nacional para a Prevenção de Crueldade, no Reino Unido, relata receber 36 chamadas por dia de crianças pedindo ajuda devido à ansiedade. Meninas são responsáveis por sete vezes mais ligações.

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Inúmeros estudos sobre a saúde mental em comunidades LGBT revelam que, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros são, em média, três vezes mais propensos a terem ansiedade e/ou depressão se comparados a heterossexuais. Falta de aceitação, fora e dentro do ambiente familiar, é apontado como uma das principais causas.

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60% dos estudantes de nível superior dos EUA são atingidos (sem obrigatoriamente terem um distúrbio), segundo a Associação Americana de Saúde Universitária. Uma pesquisa da Faculdade Pernambucana de Saúde com alunos de Medicina concluiu que quase 35% tem sintomas de transtorno.

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12% dos americanos nascidos a partir de 2000, também conhecidos como  “millenials”, possuem algum transtorno diagnosticado de ansiedade, afirma a Associação Psicológica da América (APA).

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21 anos, é, em média, a idade com maior pico de ansiedade, de acordo com estudo do Departamento de Psicologia de Crianças e Adolescentes, na Holanda. O começo da vida adulta traz responsabilidades as quais nem sempre, estamos preparados para lidar. Ir bem academica, financeira e socialmente torna-se prioridade, mesmo às custas da nossa saúde física e mental.

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Os monstros Ansiedade, Ansiedade Social e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)


Segundo a AADA, Associação de Depressão e Ansiedade da América, transtornos de ansiedade são as doenças mentais mais comuns entre os norte-americanos.

A Ansiedade Social ocupa o terceiro lugar, atingindo 6,8% da população: 15 milhões de pessoas.

O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), afeta quase 7 milhões de adultos, 3,1%. Mais que Transtorno Obsessivo Compulsivo e Distúrbio do Pânico.

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Ansiedade Sentimento natural até atingir tal intensidade onde não se consegue mais lidar com ela. Dr. Charles Goodstein, Departamento de Psiquiatria da Universidade de Nova York.

Ansiedade Social Medo de situações sociais que envolvem interações com outras pessoas. Associação de Ansiedade Social dos eua.

TAG Preocupação persistente, excessiva e irrealista sobre coisas do cotidiano. Associação de Depressão e Ansiedade da América.

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“Faz você sentir como se um homem  afogando tentasse  se agarrar a você. Quer salvá-lo mas você sabe que ele irá te estrangular com seu pânico.”

Ansiedade

Anaïs Nin


Hildegard E. Peplau, fundadora da enfermagem psiquiátrica,

descreveu os quatro estágios da ansiedade e seus principais sintomas:

Suave Inquietação, irritalibidade, mãos suando, sentidos aguçados.

Moderado Coração acelerado, roer as unhas, dor no estômago, náusea.

Severo Dor no peito, enxaqueca, vômito, sensação de pavor. Pânico Incapacidade de falar e mover-se ou, o contrário, em ficar parado(a). Torna-se muito difícil pensar racionalmente.

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A designer e ilustradora canadense, Catherine Lepage, produziu uma série de ilustrações sobre como é viver com o transtorno:

“Tudo se torna um borrão.”

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“É assim. Quando a ansiedade bate, estou completamente tomada por ela.”

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Ansiedade Social

Apesar de enfrentar seus medos todos os dias, quem vive com ela, na tentativa de se proteger, pode acabar por vezes machucando outras pessoas. Mas é preciso entender: não é de propósito. Para elas, apenas não há escolha.


nos eua quando a pessoa se torna, irracionalmente, ansiosa em situações sociais mas parece melhor quando está sozinha, Ansiedade Social pode ser seu problema. A interação com outras pessoas lhes traz auto consciência, um medo de ser negativamente julgado e avaliado, levando-as, por vezes, a evitar qualquer contato. Algumas situações-gatilho são: segundo o instituto de ansiedade social

Ser o centro das atenções; Ser apresentado a outras pessoas; Ser provocado ou criticado; Ser pressionado a falar, precisar dizer alguma coisa; Conhecer autoridades ou pessoas importantes; Ser observado ao fazer alguma coisa; Encontros sociais, especialmente com estranhos; Relações pessoais em geral, amigáveis ou românticas. Os sintomas podem incluir: medo intenso, batimento cardíaco acelerado, sudorese, rosto “vermelho” ou corar, garganta e boca seca, tremedeira e espasmos musculares particularmente na área do rosto e pescoço.

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a maioria costuma esconder ,

especialmente da família e amigos por medo de serem rejeitados ou vistos de maneira diferente. Elas sabem, a certo nível que as pessoas não estão tentando humilhar ou envergonhá-las. Entendem que seus medos são irracionais mas não conseguem controlá-los. Ir a uma festa requer preparação durante dias. Pedir uma pizza pelo telefone pode tornar-se uma tortura. Segundo a adaa, essa Ansiedade começa por volta dos 13 anos de idade e 36% dos norte-americanos relatam sintomas por dez ou mais anos antes de procurar ajuda. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

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Transtorno de Ansiedade Generalizada

Preocupação persistente e desproporcional, que não precisa de gatilhos. Freud denominou-a como uma “ansiedade flutuante”.


1980 esse transtorno entrou no Manual Diagnóstico e Estatísticos de Transtornos Mentais. De acordo com o dsm, os sintomas são: somente em

Inquietação ou sentir-se “no limite”; Dificuldade de concentração ou mente “dar branco”; Cansar-se facilmente; Irritabilidade; Tensão muscular; Dificuldade em dormir ou sono insatisfatório. O aspecto “geral” refere-se ao fato de que o indivíduo parece se apreender por tudo e nada ao mesmo tempo. Mesmo quando há uma situação ameaçadora, não cessa nem se resolvida e logo outro problema é encontrado para se preocupar - o alvo quase sempre sendo questões como: dinheiro, saúde, vida social, trabalho ou estudos.

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Ansiedade normal

Ansiedade Generalizada

Preocupar-se com motivo. O prazo para entregar um trabalho, por exemplo.

Preocupação crônica, constante e infundada. Quando o estresse interfere na trabalho ou vida social.

Dificulade em relaxar, se concentrar ou dormir ao enfrentar um problema ou situação estressante.

Irritabilidade, insônia. Difícil se concentrar na maioria dos dias mesmo sem ter motivo aparente.

Fadiga ou tensão muscular devido certas atividades mais exigentes, como uma prova de vestibular.

Inquietação e dor muscular não relacionada a algum problema físico ou emocional persistindo por seis meses ou mais. Fonte: AADA

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Tratamento Como viver melhor com ansiedade


ansiedade é altamente tratável .

Porém, raramente existe sozinha: vários estudos mostram que existe uma ligação sinérgica entre estados de ansiedade e distúrbios depressivos. Transtornos mentais não são como problemas físicos, no que diz respeito ao tratamento. Cada pessoa tem sua própria experiência, causas e fatores individuais. Por isso também, qualquer diagnóstico oficial só deve ser feito por um profissional de saúde mental. Existe vários tipos de tratamento para a ansiedade: psicoterapia, medicação, abordagens complementares como técnicas de relaxamento e estresse, entretanto o que se mostra mais eficaz, segundo a adaa, é a Terapia Cognitiva Comportamental (tcc).

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Há TCC’s específicos para cada transtorno mas consiste, fundamentalmente, em: Identificar pensamentos desnecessários; Reconhecer quando se está “catastrofizando” ou “fazendo tempestade em copo d’água”; Reestuturar pensamentos negativos com evidência; Criar espaço para pensamentos racionais e positivos; Superar situações sociais desafiadoras. Uma pesquisa da Universidade de Bochum, na Alemanha revelou que os benefícios desse tratamento podem durar por dez anos em pacientes com Ansiedade Social.

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Pensamentos

Comportamento Ciclo da ansiedade

Sentimentos

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O segredo é quebrar o ciclo, mas não é fácil. Uma vez que os pensamentos começam a se formar fica cada vez mais difícil diferir perigo real de imaginação. Voltar para o momento presente é como tentar sair de um labirinto enquanto um monstro lhe persegue: exaustivo, solitário e sobrepujante. Embora não substituam ou caracterizem-se como tratamento, há técnicas e hábitos que você pode cultivar na tentativa de lidar melhor com ansiedade no dia a dia.

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Aceite-a. Lembre que é uma emoção natural. Não é um monstro. Quanto mais se luta contra, mais ela ganha força. É um medo realista? Qual a pior coisa que pode acontecer?

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Concentre-se na sua respiração. Inspire lentamente, encha seus pulmões de ar e expire, liberando a tensão de seus ombros. Tente deixar sua coluna reta enquanto isso. Repita o processo por quantas vezes achar necessário.

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Fale positivamente consigo mesmo. Evite pensamentos catastrรณficos ou negativos. Visualize uma imagem tranquilizadora, pode ser um lugar, uma lembranรงa ou uma pessoa.

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Externalize sua ansiedade. Converse com alguém sobre o que lhe aflige. Ponha no papel o que você está sentido. Fora da sua cabeça as coisas tomam a dimensão que realmente têm - muitas vezes não tão grandes como você imaginava.

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Criada pela banda Marconi Union em parceria com neuroscientistas e terapeutas sonoros do Reino Unido, a música “Weightless” mostrou-se capaz de reduzir em 65% o nível de ansiedade e é considerada a mais relaxante do mundo.

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Descubra o que lhe acalma. Para cada pessoa é diferente: pode ser um livro, filme, um exercício físico. O importante é que você pare de temê-la, e encontre sua própria maneira de lidar com ela.

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O tabu Quem tem medo de saĂşde mental?


o bastante. Os homens têm medo de serem vistos como fracos e mulheres como loucas. Fazer terapia ou uma simples visita ao psicólogo é vergonhoso, quando deveria ser parte integral da nossa vida - como ir a escola ou ao trabalho pois nos dá as ferramentas necessárias para lidar com os problemas. Quando não é subestimado, falta de saúde mental é até romantizado. De qualquer jeito, quase nunca é abordado adequadamente. Existem também aqueles que não querem ser associados com pessoas “descontroladas” ou “malucas”. Esquecem que todos somos ansiosos em algum grau, e que a ansiedade pode afetar até os mais fortes e imbatíveis. Cabe a nós mudar isso: parar de esconder, alterar o tom da conversa, procurar sentir um pouco mais de empatia. Todo preconceito nasce do medo e já vimos onde ele pode nos levar. Com tolerância e informação, derrubamos esse tabu. não falamos sobre saúde mental

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taislimadg@gmail.com marcusvsrosado@gmail.com


Do medo primitivo à ansiedade Nos estágios iniciais da evolução, a humanidade precisava do medo para garantir sua sobrevivência. Esse sentimento, perfeitamente natural, evoluiu junto conosco e se tornou aquilo que conhecemos hoje como Ansiedade. Aqui você vai encontrar uma breve história da Ansiedade, estatísticas que refletem seu cenário atual e algumas estratégias para ajudar a lidar com ela.

Ansiedade, uma cartilha  
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