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PÂNICO AO EXTREMO

A luta diária de quem sente medo de ter medo

Taís Dörr Fortes

Era 20 de setembro de 2016. João* estava sozinho em casa, quando começou a sentir falta de ar, a boca seca e uma sensação de sufocamento. Esses sintomas eram seus velhos conhecidos, devido às crises de ansiedade que já havia sofrido. Porém, o que era corriqueiro evoluiu e deu origem a taquicardia, tonturas, tremores em todo corpo e dificuldade de enxergar. Devido à gravidade do quadro, João precisou avisar seus pais, que o acompanharam até o hospital, onde ele foi medicado – única forma encontrada para acalmá-lo – e orientado a buscar atendimento psiquiátrico. Aquilo que inicialmente parecia ser mais uma crise forte de ansiedade ou até mesmo algum problema cardíaco, foi diagnosticado como síndrome do pânico: transtorno que leva as pessoas a sentirem níveis extremos de ansiedade e terem um medo quase insuportável de morrer. De acordo com a psiquiatra Ivone Claudia Cimatti, os pacientes descrevem as crises de pânico como uma situação de pavor, na qual não é mais possível respirar. “É uma sensação de morte súbita”, observa a profissional. Para Pedro*, que também tem síndrome do pânico, o transtorno gera o sentimento de que algo pode ferir a sua integridade física a qualquer momento. “Muitas vezes não tem explicação lógica”, destaca. A psicóloga Gabriela Ballardin Geara explica que depois que as crises de pânico começam, é importante os pacientes lembrarem que o período inicial – de em média 15 minutos - é o pior, pois ele comporta o agravamento dos sintomas. E que, os acessos duram, no máximo 30 minutos, porque devido ao estado de pânico ser tão exaustivo, o corpo não consegue suportar mais tempo. “Ela vai piorando durante 15 minutos e depois diminui a intensidade dos sintomas. Então, a pessoa que tem ataques de pânico precisa lembrar que


passa. É só deixar o tempo passar. O corpo não suporta ficar nessa situação por muito tempo. Mesmo que esse período de duração da crise pareça uma eternidade para o paciente, ele precisa tentar lembrar disso”, frisa. MEDO DE TER MEDO Após a primeira crise de pânico é comum que os pacientes sintam medo de passar pela mesma situação novamente, dando origem a uma reação em cadeia e um conflito interno de luta diária para vencer o pânico de ter pânico outra vez. “No meu caso, esse sentimento veio, sobretudo, após a crise mais forte que tive, no dia 20 de setembro do ano passado. Nos dias seguintes a ela, foram comuns novas crises ou situações de desconforto que antecedem uma crise”, conta João. Com isso, é possível que alguns pacientes comecem a sentir ‘bloqueios’ para desempenhar atividades simples e rotineiras. No caso de João surgiram dificuldades relacionadas ao trânsito, à rotina de trabalho e à vida social. “Houve dias em que tive que sair do trabalho e voltar para casa devido à complexidade de encarar a realidade. Pequenas coisas, as mais simples, passaram a ser difíceis. É como se tudo passasse a se guiar pela síndrome e o temor de novas crises”, compartilha. Para João a síndrome do pânico é um conflito interno para ser vencido diariamente, em especial, porque, após o diagnóstico, a doença proporciona uma perca na qualidade de vida. “É como se tudo se tornasse mais difícil devido ao medo de sofrer novas crises. Com isso, a pessoa passa a evitar determinadas situações, sobretudo relacionadas ao convívio social”, relata João. Entretanto, ele lembra que enfrentando essa realidade e buscando ajuda é possível superar os percalços ocasionados pelo transtorno. “Não se colocando como vítima, mas enxergando esse momento como uma oportunidade de aprendizado, é possível deixar essa fase para trás e voltar à normalidade ou algo próximo disso”, incentiva. O jovem também afirma que é indispensável, em primeiro lugar, que a pessoa diagnosticada com síndrome do pânico procure ajuda médica e não desista de buscar uma melhora, caso os resultados demorem a chegar. “O mais importante é ser positivo em relação ao problema, encarando-o como


uma oportunidade para rever práticas, adotar hábitos de vida mais saudáveis, ser mais flexível consigo mesmo e, a partir de tudo isso, até se tornar um ser humano melhor”, menciona. A psiquiatra Ivone Claudia Cimatti acrescenta ainda que é importante que as pessoas saibam mais sobre a síndrome do pânico e busquem ajuda. “Quando não tratada, ela pode ser a causa de suicídio. Porque a sensação de pavor é tão grande e as pessoas às vezes têm muitas crises seguidas. Assim, elas preferem morrer a viver com o sofrimento”, destaca a profissional, ao comentar que não é necessário ter vergonha de sofrer com o transtorno, porque a pessoa não sente isso porque quer, é fraca ou não é capaz de dominar seus sentimentos. ENTENDIMENTO A compreensão sobre a doença é outro desafio encontrado por quem tem síndrome do pânico e pelas pessoas em geral. Para João uma simples caminhada também gerava desconforto, porque ele tinha receio de sofrer uma crise e não encontrar a ajuda de alguém ou então precisar buscar auxílio de um estranho. “O que pode ser desgastante, uma vez que a maioria das pessoas não tem conhecimento sobre a doença e explicar pode soar incompreensível. Eu tive dificuldade de entender o que estava acontecendo, porque as crises desencadeiam reações físicas, mas que são fruto do psicológico” revela. Ivone Claudia percebe que, com várias doenças psiquiátricas, as quais envolvem

alteração

de

pensamentos,

sensações,

sentimentos

e

comportamentos, muitas pessoas permanecem tendo algum preconceito, “porque ainda acham que tudo depende cem por cento da nossa vontade. Que basta a gente querer, que podemos comandar o nosso cérebro. E sabemos que isso não é verdade. Temos o comando de grande parte do cérebro, entretanto, quando a doença se estabelece perdemos esse comando. Então, algo maior, que é biológico no funcionamento desse órgão não é mais controlado conforme a nossa vontade”, pondera a especialista. *Os nomes são fictícios para preservar a identidade das fontes.

Reportagem em texto - A luta diária de quem sente medo de ter medo  
Reportagem em texto - A luta diária de quem sente medo de ter medo  
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