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SEXTA-FEIRA, 27 DE ABRIL DE 2018

LEITE

Saída de produtores do setor impressiona

N

os últimos anos 5,5 mil produtores dei xaram a atividade leiteira em duas microrregiões atendidas pela Emater. Porém, recente pesquisa da própria empresa mostra que os índices de produtividade são os mesmos, com tendência de aumento. Um dos fatores para esta queda é a “produção em escala”, termo utilizado pela indústria, e que exige uma produção diária de, pelo menos, 300 litros da matéria prima. A exigência já foi menor (150 litros/ dia). A atual determinação teve força suficiente para empurrar para fora do setor milhares de agricultores que faziam do leite uma alternativa de renda. A culpa é da logística. Não compensa às fábricas pagar pelo transporte de pequenas produções. O reflexo social e financeiro é forte. “Para manter uma vaca dentro do rebanho, são necessários de 13 a 15 litros de leite por dia. E não é só a vaca que precisa viver. Você tem que criar uma terneira, uma novilha e tudo isso resulta em custo, só que este dinheiro gira no comércio, ou seja, para a vaca produzir ela precisa de pasto, precisando de pasto carece de adubação, será acompanhada tecnicamente, necessitará de máquinas, materiais de construções e ordenhadeiras, além de outros aspectos”, comenta Ivar Kreutz, engenheiro agrônomo vinculado ao Escritório Regional da Emater, que monitora o setor em 45 municípios das microrregiões Fronteira Noroeste e Missões. E reforça: “o leite é uma atividade altamente dinâmica e gira dinheiro no local, nada vem de fora.”

Produção de leite entra na era da profissionalização, da gestão empresarial A explicação de Kreutz torna fácil a avaliação do quanto é importante que as lideranças políticas, empresariais e de classe lutem pelo maior número possível de produtores no setor. “As cooperativas continuam estimulando o aumento da produção e recolhendo leite daqueles que produzem abaixo dos 300 litros/dia. Porém, as indústrias selecionam os grandes para baratear o transporte, ganhando na logística”, detalha Ivar. Apesar do estímulo das cooperativas, as reações foram variadas no campo. Alguns produtores deixaram a atividade para investir em gado de corte, opção que Ivar Kreutz contraria. “É um setor que projeta um cenário extremamente complicado pela frente. Está chegando em breve o inverno e o animal está gordo, pronto

para abate. E se o agricultor não vendê-lo? Vai fazer o quê?”, questiona. Existem outros empreendedores que teriam potencial para permanecer e responder ao aumento de produtividade, mas deixaram o leite de lado. “O setor está entrando num estágio de profissionalização, que exige gestão empresarial. No entanto, são agricultores que estão chegando à faixa dos 60 anos e não têm sucessor. Então eles se perguntam: para que tanto esforço agora?” comenta. Isso significa que propriedades estruturadas também estão abandonando o leite. Existem outros elementos complicadores: mesmo com esforço, o custo de produção é alto (insumos e mão de obra), somado à concorrência de leite em pó importado do Uruguai. Mas nem tudo é negativo no quadro de retirada que a região convive. Em São José do Inhacorá, de acordo com dados da Emater, uma pesquisa indicou que havia 150 produtores de leite no passado. Hoje está próximo de 100. O aspecto positivo: saíram cerca de 40, mas a produção no município aumentou 5%. “Eu pergunto: vai faltar leite?”, questiona Ivar. Na região, mesmo com a saída de 5,5 mil produtores, a produtividade é igual a de quando estes atuavam no segmento. Ivar Kreutz deixa sua opinião sobre o tema: “o processo é claramente de exclusão e todas as atividades passaram por isso. Quem quiser, precisa entender o que está se passando e a partir daí se organizar para os desafios que estão postos. É uma caminhada boa pela frente, desafiante”, concluiu.

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Noroeste na Fenasoja  
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