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Colecção SABER

por V. GORDON CHILDE Antigo director do Instituto de Arqueologia na Universidade de Londres

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA 45, RUA DAS FLORES LÍSBOA-2


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ia obra foi traduzida ãa cãkão original, com o título A Sliorí Introduetzon to Areliaelogy.

Tradução c prefácio Macedo.

de Jorge Borges de

Copyright by Frederielr Muller, Ltd. Todos os direitos reservados para a língua portuguesa por Publicações Europa-América, LM

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PREFACIO Uma intenção de divulgar obras e historiadores centrais da cultura contemporânea não podia esquecer V. Gorãon Ghilãe, cujos trabalhos aliam a rara preocupação de tirar conclusões úteis para a cultura histórica, no sentido da procura de uma evolução inteligível, a uma rigorosa técnica de pesquisa. Entre nós, muitas das suas ideias e conclusões estão, de há muito, ao alcance do público, pois datam de 19k1 as primeiras traduções das suas obras. E o próprio grande pré-Mstoriaãor conhecia o nosso país, que, mais de uma vez, visitou. Só agora, porém, se divulga em língua portuguesa uma obra metodológica sua sobre a ciência da Arqueologia, que, com tanta profundidade e tão fecundamente, soube cultivar. Livro essencialmente prático este, feito no sentido de disciplinar interesses dentro de uma técnica sólida, sem a qual eles não serão mais que simples curiosidades desprovidas de alcance científico. É também, julgamos, a primeira vez que, em Portugal, se publica um livro com esta finalidade. Carácter propedêutico, que a sua formação de especialista —no sentido superior do termo — não deixa transformar em má divulgação que escamoteia as reais dificuldades da ciência. Proveitosa leitura para quem deseja iniciar trabalho


u,.n,uão

pela mão segura do pesquisador comprovado; "cvisão crítica, e sintética dos métodos próprios âa Arqueologia para quem dela se ocupa e conhece as dificuldades da sua especial metodologia. Aliás, não são frequentes os trabalhos com esta dupla vantagem, e só é possível fazê-los, após uma longa vida de investigação, nos seus aspectos práticos e interpretativos. É de salientar o facto de o Autor se limitar ao campo tradicional das técnicas de observação directa e de síntese imediata, sem abordar métodos instrumentais mais complexos, como que a advertir, lucidamente, que os primeiros instrumentos que o jovem pesquisador deve saber utilizar são os olhos e as mãos. Passado este «exame» da perícia natural, poderá entrar então nas técnicas especiais, cuja aprendizagem e estudo não podem fazer-se era obras de divulgação ou de propedêutica: Há em Portugal um inc mtestável interesse pelas pesquisais arqueológicas, tanl.< históricas como pré-históricas, e não são poucos os problemas ãa história portuguesa, que aquelas podem resolver. Motivo mais que suficiente para se procurar pôr ao alcance do maior, número este útil livro de Gordon Chilãe. Seja a sua difusão a nossa homenagem à sua memória. O TKADUTOK


CAPÍTULO

I

ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA

I — Testemunhos arqueológicos A arqueologia é uma forma de história e não u m a simples disciplina auxiliar. Os dados arqueológicos são documentos históricos por direito próprio e não meras abonações de textos escritos. Exactamente como qualquer outro historiador 1 , um arqueólogo estuda e procura reconstituir ò processo pelo qual se criou o mundo em que vivemos — e nós próprios, n a medida em que somos criaturas do nosso tempo e do nosso ambiente social. Os dados arqueológicos são constituídos por todas as alterações no mundo material resultantes da acção humana, ou melhor, são. os restos materiais da, conduta humana. O seu conjunto constitui os chamados testemunhos arqueológicos. Estes apresentam particularidades e limitações cujas consequências se revelam no contraste bem visível entre a história arqueológica e a outra forma usual de história, baseada em documentos escritos. Nem toda a conduta humana se conserva registada materialmente. As palavras que se pronunciam e alguém ouve, enquanto ondas sonoras, são, sem dúvida alguma, alterações que o homem realiza no mundo material e que podem ter grande significado histórico. No entanto, não deixam qualquer indicação arqueológica, a menos que sejam captadas por um dictafone ou registadas por um


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escriba. O movimento de tropas no campo de batalha pode «mudar o curso da história», mas, sob o ponto de vista arqueológico, também é efémero. Além disso (o que talvez agrave a situação), a maior parte dos restos materiais orgânicos são perecíveis. Tudo o que é feito de madeira, couro, lã, linho, vegetais, cabelo ou materiais semelhantes,- quase todos os alimentos animais e vegetais, etc, se .decompõe, desaparecendo em anos ou séculos, a não ser em condições excepcionais. Num espaço de tempo relativamente curto, os vestígios arqueológicos reduzem-se a meros pedaços de pedra, osso, vidro, metal, cerâmica, vasos vazios, gonzos sem portas, vidraças partidas, sem caixilho, machados sem cabo, buracos de poste sem postes. Pode avaliar-se a amplitude deste desgaste dos materiais observando superficialmente as galerias de etnografia de qualquer museu. Ainda se poderá ver melhor consultando o catálogo de um depósito geral — do Exército ou da Marinha, por exemplo — e retirando todas as páginas referentes a substâncias alimentares, têxteis, artigos de papel, mobiliário de madeira e outros produtos semelhantes: o grosso volume ficará reduzido a um delgado folheto. Não nos devemos esquecer que, mesmo na Inglaterra, há alguns séculos atrás, eram de madeira não só os carros de transporte, mas também máquinas de complicadas engrenagens, feitas de madeira e couro, não tendo sequer pregos metálicos, ao mesmo tempo que, numa herdade, se usavam recipientes feitos de madeira ou de couro em vez de porcelana e de cerâmica. Apesar de tudo, a moderna arqueologia, aplicando técnicas apropriadas e métodos comparativos, ajudada por alguns curiosos achados em turfeiras e em desertos ou regiões geladas, é capaz de completar uma boa parte destes vazios. O que irreparàvelmente desapareceu foram os pensamentos que não se exprimiram nem as intenções que não se executaram. Ora, tem-se dito que toda a história 6 a história do pensamento. Acaso este ponto de vista inva-


INTRODUÇÃO

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ARQUEOLOGIA

lidará a afirmação de que a arqueologia é uma fornia de história? De modo nenhum. Um pensamento ou uma intenção só poderão ter significado histórico quando se exprimem numa acção pública. Por muito extraordinária que seja a visão atribuída a um projecto, por muito engenhosa que seja a criação concebida por um inventor, o seu significado histórico é perfeitamente nulo se não for expresso ou comunicado a alguém —- a menos que tenha podido inspirar discípulos no sentido de os fazer aceitar ou difundir a mensagem, ou que tenha preparado aprendizes no sentido de reproduzir a sua invenção e de induzir os clientes a usá-la. Na verdade, qualquer historiador só pode ter em consideração pensamentos objectivados no consenso da sociedade ou que" tenham siãeadoptados, aplicados e realizados por um grupo de conceptualizadores que são também os agentes. Todos os dados arqueológicos constituem expressões de pensamentos e de finalidades humanas e só têm interesse como tal. ÍÊ este facto que diferencia a arqueologia da filatelia ou de uma colecção de arte. Selos e gravuras têm valor em si, enquanto os dados arqueológicos só servem pela informação que fornecem sobre o pensamento e o rnodo de vida de quem os fez ou usou. Os resultados mais correntes da conduta. humana, os dados arqueológicos mais vulgares, podem chamar-se artefactos, coisas feitas ou desfeitas por uma deliberada acção humana. Os artefactos incluem utensílios, armas, ornamentos, vasos, veículos, casas, templos, canais, fossos, túneis de minas, poços de refúgio, e mesmo árvores derribadas pela acção do homem, ossos intencionalmente quebrados para extrair o tutano ou quebrados por uma arma. Alguns são objectos móveis que podem ser recolhidos, estudados num laboratório e porventura expostos num museu; costumam ter a designação de restos. Outros há que ou são demasiado pesados e volumosos para poderem ter um tratamento daquele tipo, ou estão inteiramente ligados à terra, como, por exemplo, as galerias


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V. GORDON CJIILDE

das minas: são designados por monumentos. Mas há muitos dados que, estritamente, nem são artefactos nem restos ou monumentos. Uma concha mediterrânica num campo de caçadores do mamute existente no Médio Don ou numa aldeia neolítica do Reno é um precioso documento na história do comércio, embora não seja um artefacto. A deflorestacao do Sudoeste da Ásia e a transformação do solo das pradarias de OMahoma em massas de poeira resultaram de acção humana. Tanto um como outro desses factos são acontecimentos historicamente significativos e, por definição, dados arqueológicos. Contudo, os seus autores em nenhum dos dois casos pretenderam conscientemente ou prepararam deliberadamente qs seus lamentáveis resultados. Se um sistema de irrigação é um artefacto, já o não é um deserto produzido por um acidente. O público, ao que suponho, considera como monumentos as ruínas cobertas de erva, blocos de pedra esculpidos ou com inscrições. Para muitos outros, restos são as moedas soltas, objectos de sílex apanhados nos campos, lavrados ou em escavações ou ainda recordações pessoais — um botão do fato do príncipe Carlos, a falange de um mártir, um dente de Buda. Nenhum deles, porém, pelo menos do último grupo, pode ter qualquer significado como dado arqueológico. Para que um objecto tenha um significado decifrável por um arqueólogo, é preciso que tenha sido encontrado dentro de um contexto. TJm arqueólogo pode classificar ruínas e dar-Ihes assim um sentido histórico porque nem estão vazias nem isoladas. Contém —também fragmentariamente— restos deixados pelos seus construtores e ocupantes; normalmente, em qualquer zona arqueológica, as várias ruínas estão, de uma forma mais ou menos rigorosa, ajustadas a um mesmo plano e, neste caso, podem considerar-sé pertencentes a um conjunto de vestígios semelhantes. Quando assim é, da distribuição dos monumentos pode extrair-sa um plano estratégico ou administrativo.


INTRODUÇÃO

A ARQUEOLOGIA

II — Os tipos

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Ê evidente que se um monumento apresentar a inscrição «John Doe, falecido em 1658», poderá ser classificado, pelo menos, cronologicamente. O mesmo se dirá de um objecto onde está indicado o nome do fabricante e a data do fabrico. Mas, em compensação, um utensílio isolado ' de ped~a só terá significado se estiver estreitamente relacionado com outros utensílios encontrados num contexto significativo, pelo qual se qualifiquem tecnicamente, a menos que esteja de acordo com um tipo j á definido. Como se pode ver, pela observação do conjunto de u m a ; colecção, os utensílios de pedra, apresentam um.'número enorme de formas e dimensões diferentes. U m dado íipe aparece na Grã-Bretanha em sepulturas situadas debaixo de elevações circulares, e é muitas vezes acompanhado de pequenos obectos de cobre ou bronze; um outro tipo aparece, por vezes, em elevações sepulcrais dispostas nc sentido do comprimento, nunca contendo objectos metálicos; um outro, ainda, pode encontrar-se em eavomas. junto com ossos de rena ou de animais desaparecidos; e assim sucessivamente. Se o utensílio isolado se relaciona com qualquer destes tipos referidos, poderá o arqueólogo localizá-lo cronologicamente, dentro" de um período relativo, indicando também que os homens viveram perto do local do achado, num determinado período. Mas at o utensílio for único, não constitui um dado p a r a a arqueologia. Não passa de uma simples curiosidade até que um utensílio semelhante, isto é, do mesmo tipo, possa ser, observado num contexto arqueológico significativo. Nestas condições, a definição dada n a p. 9 pode ser agora reformulada da seguinte forma: o testemunho arqueológico é constituído por «tipos» encontrados em «associações» significativas. Mas tanto o termo «tipo» como «associação» exigem uma explicação mais profunda. Â arqueologia começa por ser uma ciência classificadora, corno a botânica ou a geologia. Só depois de


V. GOBDON CHILDE

classificar os dados é que o arqueólogo os começa a interpretar, para lhes extrair a história. Ora uma classe é uma abstracção, e, deste modo, os arqueólogos tratam com abstracções, tal como, afinal, os outros cientistas. TJm zoólogo, por exemplo, pode estudar cavalos — classes c espécies de cavalos—, mas não os cavalos individuais. Partindo dos seus estudos, pode fazer generalizações e, em seguida, previsões acerca da conduta provável de qualquer tipo representativo de uma determinada subespécie (casta), quer dizer, sobre as suas probabilidades de eficiência a puxar um arado ou a transportar cargas nas altas montanhas. Mas já nenhum zoólogo pode prever que cavalo ganhará uma corrida de obstáculos. Os cálculos do apostador das corridas não são deduções sobre generalizações científicas, mas baseiam-se em estimativas subjectivas sobre a «forma». O arqueólogo deve imitar o zoólogo:-estuda abstracções — tipos de vestígios, de monumentos e de acontecimentos arqueológicos; o papel do «apostador em cavalos de corrida» assemelha-se ao de um avaliador de obras de arte. Certamente que não há dois produtos de trabalho manual humano absolutamente iguais. Até num automóvel montado com elementos feitos em série se podem encontrar desconcertantes diferenças no fabrico. As diferenças entre várias cadeiras ou pares de sapatos, feitos por um mesmo artista, podem ser ainda mais acentuadas. No entanto, todos os sapatos fabricados pelo Sr. X. estão perfeitamente de acordo com o padrão médio que satisfaz aos seus clientes, e, no conjunto, esse padrão conserva uma semelhança tão estreita com a moda de sapatos para homem usados no bairro londrino de West End cm 1950 que os seus clientes, ao usá-los, não se consideram ridículos nem estranhos nos seus clubes. De facto, apesar das pequenas diferenças no corte e no acabamento, os sapatos usados na cidade peia camada mais elevada da classe média londrina são de tal modo semelhantes que qualquer sapato poderia ser imediatamente reconhecido


INTRODUÇÃO A ARQUEOLOGIA

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como próximo de um dos três ou quatro tipos de calçado. Da mesma maneira, embora a moda mude com o tempo, todas as facas usadas na Inglaterra em determinada data (seja em 1950, 1750, 1250, 250 d. C. ou 250 a. C.) reproduzem exactamente uma ou outra espécie de um grupo muito limitado de padrões. Os arqueólogos têm que ignorar as pequenas particularidades individuais de uma dada faca e tratá-la como um exemplo de um ou outro destes tipos-padrão, uma unidade Ce uma detex*minada classe de facas. Só assim é possível reduzir a espantosa variedade da conduta humana a proporções ajustáveis ao tratamento científico. Um arqueólogo, portanto, renuncia a alguns dos objectivos usualmente pretendidos pelos historiadores. Um" arqueólogo, como tal, pode estudar as características gerais da pintura de um vaso grego, traçar o seu desenvolvimento estilístico e distingui-lo da arte cerâmica fenícia ou egípcia. Não seria já próprio de um arqueólogo, mas de um historiador de arte, procurar atribuir determinado phiale * mais a Euphronios do que a Euthimedes ou fazer a apreciação estética sobre uma qualquer idiossincrasia do pintor. Assim também um arqueólogo, sem outro qualquer auxílio, poderia pretender determinar aproximadamente onde e quando foi inventado o carro de rodas ou a locomotiva. Mas só com a ajuda de documentos escritos é que provaria que a Rocket I 2 foi realmente a primeira locomotiva; e, como os carros foram inventados antes da escrita, nunca logrará identificar qual foi o primeiro. Em cada caso, só quando o modelo original foi copiado e reproduzido é que se tornou ura tipo e deste modo um dado arqueológico normal.

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Prato grego. (N. do Tj Refere-sé à locomotiva inventada por Stephenson em 1827 e que recebeu essa designação diferencial. (N. ão T.) 2


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V. GORDOK CEILDE

A limitação da arqueologia aos tipos significa, evidentemente, a exclusão, na história arqueológica, de actores individuais. Uma história deste tipo não pode aspirar a ser biográfica e os arqueólogos estão excluídos da escola histórica que estuda a acção do «grande homem». Vere^ mos mais adiante que, numa história arqueológica, os actores são as sociedades e o desaparecimento das per* sonae individualmente consideradas não tira interesse humano ao drama estudado nesta ciência. Mas torna-se necessário explicarmos primeiro o significado do termo «associação». Diz-se que os dados arqueológicos estão associados quando se verifica qt.e ocorrem conjuntamente em condições que revelam UF. O contemporâneo. Um enterramento pagão é um exemplo clássico de associação. Tomemos um guerreiro, com ornatos e insígnias, acompanhado de alimentos e bebidas, provido de um serviço completo de mesa e deitado de costas num ataúde escavado num tronco de carvalho, depois coberto por um monte sepulcral. Neste exemplo estão associados o esqueleto, o ritual do enterramento, e as várias partes do equipamento funerário constituem aquilo a que podemos chamar um «conjunto». Da mesma maneira, todos os objectos deixados no chão de uma casa abandonada à pressa, juntav mente com a própria casa e os respectivos móveis, consideram-se associados e são também chamados um «conjunto». Mas este termo só com reservas poderá ser aplicado a tudo o que foi encontrado no local de uma casa, num monte de entulho ou num depósito aluvial na margem de um rio. Se a casa foi ocupada por várias gerações, esses objectos podiam ter sido enterrados no chão ou ficado alojados nas fendas e. aberturas, tendo assim diferentes idades. O conteúdo de um monte de entulho pode também ser variado. Em ambos os casos, as técnicas modernas permitem a um investigador distinguir e formar vários "conjuntos consecutivos, extraídos de um monte de entulho ou do local onde existiu uma casa; já


INTZiODUÇÃO À ARQUEOLOGIA

O mesmo não poderá fazer com um depósito aluvial. O mesmo leito de cascalho de um rio pode conter utensílios feitos e perdidos por homens em dada altura instalados junto do curso do rio, juntamente com outros utensílios que já se encontravam em depósitos formados cerca de cem mil anos antes de as águas das cheias o terem = apanhado e levado para o depósito aluvial das margens. Num agregado assim formado nenhuma escavação, por muito habilmente dirigida que fosse, seria capaz de distinguir conjuntos de tipos associados. Não obstante, o exame do «estado de conservação» dos utensílios podia ter. alguma utilidade para esse efeito. IH — Coitaras Ora, verificou-se que numa determinada área ou região, num certo número de estações distintas aparecera associados os mesmos tipos. Assim, nos nossos dias e na Inglaterra, nos lugares das cidades bombardeadas, verificaríamos que a maior parte das casas arruinadas tinham sido construídas, em quase todos os casos, segundo o mesmo plano, com o mesmo tipo de tijolos, e continham fragmentos de espécies semelhantes de bules, caçarolas, chaleiras, cutelaria, peças soltas, garrafas de cerveja, válvulas de rádio, etc. A mesma uniformidade, pelo menos, se poderia observar nas ruínas das cidades do Norte da Rússia bombardeadas pela mesma altura, mas as casas seriam de madeira e não de tijolo e os planos de construção, mobiliário e conteúdo seriam profundamente diferentes dos ingleses. Ao conjunto de tipos semelhantes que em diferentes estações aparecem sempre ligados chamam os arqueólogos uma cultura. Desde que se possam pôr em contraste dois ou mais desses agregados, como, por exemplo, os conjuntos próprios das cidades russas e das inglesas, a expressão também pode ser usada no plural. De facto, tal como os antropologistas, I. A.—2


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os arqueólogos empregam em sentido parlitivo esto teimo de bem difícil uso. Neste sentido, o termo «cultura» é usado com frequência em literatura arqueológica e o seu sentido é tão especial que precisa ser mais bem analisado e justificado, mesmo ã custa de um pequeno desvio. Os antropologistas e os arqueólogos empregam o termo para designar tipos de conduta comuns a um grupo do pessoas, a todos os membros de uma sociedade. Essa conduta é ensinada quer pelos mais velhos âs crianças, quer por uma geração à geração seguinte. De facto, quase toda a conduta humana é aprendida deste modo. Os homens herdam, em número muito'reduzido, instintos inatos, ou antes, instintos muito generalizados, aos çjiais a educação dã forma, se acaso se destinam a garantir ou a satisfazer a acção. Ao contrário âos cordeiros ou dos gatos, as crianças humanas têm que ser ensinadas quanto ao que hão-de comer, e o efeito deste antigo treino é tão forte que muitas pessoas não podem realmente digerir um alimento são e nutritivo se a ele não estiverem habituadas. Em consequência disso, não há um único padrão de conduta com que todos os membros da espócie humana se conformem, na mesma amplitude que, por exemplo, se verifica com um carneiro ou um bacalhau. Por outro lado, cada sociedade humana impõo aos seus membros uma estreita conformidade com padrões ou normas de conduta mais ou menos rígidos. Pelos mesmos motivos, todos deveríamos falar a mesma linguagem. Não inventamos as- palavras que usamos nem as regras de gramática e de sintaxe que regulam o seu uso. A sociedade apresenta-no-las completamente elaboradas e nós não temos que as escolher, mas que as aceitar. Até a nossa escolha de roupas está muito limitada. Não ocorreria ao inglês médio sair à rua em roupa interior ou com um fato sem mangas em vez de o fazer com o seu habitual par de calças e casaco. Mas, mesmo que o quisesse, não poderia comprar semelhante vestuário Bum alfaiate de Londres. Se ele convencesse um alfaiate


B«iw e w*Wíws»Fr e ' w ^^ INTRODUÇÃO Ã ARQUEOLOGIA

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a fazer-lhe um tal fato especialmente para si, sentír-sê-ia ridículo c pouco ã vontade quando entrasse num autocarro. Ê evidente que são peimitidos certos desvios individuais. Não há duas pessoas que pronunciem as palavras da mesma maneira nem que usem exactamente o mesmo vocabulário. Apesar da instrução compulsiva e da B. B. C, muitas pessoas preferem dizer «eu» a «para mim» e «seu» cm vez «dele», e possivelmente estes últimos vestígios de declinação virão a ser eliminados da linguagem corrente, como já o foram no inglês o conjuntivo e o dativo. Noutros domínios, torna-se possível nos povos civilizados uma escolha mais ampla e uma maior liberdade para os caprichos individuais. Mas quanto mais pequena foi' a sociedade menos liberdade eia concede ao indivíduo para se desviar das normas de conduta aprovadas. Num atol do coral do Pacífico ou num vale do uma montanha da Nova Guino, a conduta é infinitamente mais uniforme do que em Manchester ou em Zurique. Por um lado, dificilmente se apresentará a ura ilhéu do Pacífico ou a um tribal papua qualquer alternativa de conduta, tais como as que se apresentam a um inglês letrado, que, pelo menos, tem um conhecimento de leitura sobre hábitos curiosos de estrangeiros e pode ter visto chineses comerem com pauzinhos. Por outro lado, a força da opinião pública é muito mais compressiva numa pequena comunidade. Numa grande cidade, as excentricidades no vestuário não provocarão vaias de censura ou demonstrações hostis; numa aldeia, as crianças escarnecerão de qualquer anormalidade e os adultos poderão fazer sentir a sua reprovação de maneira ainda menos agradável. Os padrões tradicionais de conduta são mais divergentes nas sociedades pequenas do que nas .grandes. Contudo, mesmo no nosso mundo contemporâneo da mecanização e da transmissão rápida das normas de conduta, os padrões de correcção e de beleza são diferentes entre Russos, Ingleses e Norte-Americanos. E muitas destas divergências de tradição exprimem-se, como

II


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V. GORDON GHIL.DE

se viu, em diferenças referenciáveis em objectos materiais, capazes de se tornarem dados arqueológicos. As diferenças nas modas de vestuário ou de arquitectura domestica reflectir-se-ão em vestígios arqueológicos e não em diferenças dialectais. Para distinguir as várias culturas, os arqueólogos utilizam as tradições divergentes que se revelaram materialmente em resultados diversos, ou melhor, em que são diferentes os resultados materiais dos actos inspirados por essas tradições. E os arqueólogos consideram que cada uma destas culturas representa uma sociedade. Uma cultura —importa lembrar— é justamente um conjunto de tipos que se encontram constantemente juntos num certo número de estações. Ora dá-se o nome de tipo ao resultado de uma série de acções distintas inspiradas por uma e mesma tradição. Os tipos estão associados porque as várias tradições neles expressas são conservadas e aprovadas por uma única sociedade. E o mesmo conjunto de tipos aparece num certo número de estações, porque todas as estações foram oeupatlas pelos membros de uma e mesma sociedade. Que espécie de unidade essa sociedade apresentava — se uma tribo, uma nação, uma casta, uma profissão — dificilmente se poderá conhecer através de dados puramente arqueológicos. Mas as sociedades — embora não possam receber designação própria— constituem, para os arqueólogos, os actores do drama histórico.

IV — O tempo arqueológico A conduta tradicional pode alterar-se no decurso do tempo. Os tipos expressivos dessa conduta podem variar, iiâo sô quando são produzidos por diferentes sociedades, mas também quando as modas se modificam dentro de «ma mesma sociedade. Consequentemente, podemos pôr cm contraste a cultura inglesa de 1945 tanto com a


INTRODUÇÃO

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ARQUEOLOGÍÁ

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cultura inglesa de 1585 como com a cultura russa do 1945. O plano de uma cidade Tudor e os edifícios qu© a formavam, assim como o mobiliário e o restante conteúdo, são diferentes do plano, mobiliário c conteúdo do u m a cidade inglesa contemporânea, tal como esta é diferente de uma cidade russa. Concretamente, portanto, cultura significa o mesmo em ambos os casos: um conjunto de tipos quí. constantemente se e n c o n t a m juntos. Mas, no segundo sentido, no que se refere à interpretação, o caso é diferente. Dos testemunhos escritos, inferimos (e, porventura, poderíamos inferir o mesmo dos dados arqueológicos) que .'i cultura inglesa actuai, com todos os seus elementos componentes, se desenvolveu a p a r t i r da cultura inglesa Tudor. num contínuo processo de progressão científica e tecnológica, mudanças económicas •e políticas, sem qualquer quebra n a tradição e sem qualquer substituição da sociedade que realiza essas tradições por outra com uma constituição genética diferente ou de diferente ancestralidade cultural. Aquilo que nós queremos dizer com «cultura Tudor» é a «cultura inglesa de período Tudor». E de facto seria melhor dizê-lo dessa forma, pois as expressões não são sinónimas. Ora nos sucessivos níveis de uma estação estratificada, os arqueólogos observam conjuntos de diferentes tipos em que uns se seguem aos outros. Por outras palavras, observá-se uma sucessão de culturas; dizemos então que existe, nessa estação, u m a sequência cultural. Desde que os mesmos conjuntos s e apresentem n a mesma ordem em diferentes e s t a ç õ e s — e n u m a região natural é o que « m regra se verifica—, a expressão é inteiramente correcta. N a verdade, um período arqueológico em qualquer zona ou em qualquer estação dessa zona é realmente constituído pela cultura, ou antes, pelos tipos característicos que, nas diferentes camadas, a distinguem daqueles que os precedem ou seguem. Podem surgir confusões se aplicarmos o mesmo termo tanto ã divisão cronológica de' um dado conjunto arqueológico como aos elementos


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F. GOBDON CRILDE

característicos dessa mesma divisão. No caso da «cultura Tu dor» não há qualquer ambiguidade; ninguém pensa que o termo designa uma fase de cultura francesa, russa ou qualquer outra que não a inglesa. Mas deve desde já advertir-se o estudioso de que uma aplicação semelhante aos conjuntos pré-histórieos tem suscitado tremendas confusões (p. 47). Temos que aprender a distinguir entre «períodos de cultura», isto é, fases gerais de cultura, e «culturas», que resultam de divergências da tradição social num mesmo período arqueológico. A terminologia deveria reflectir esta distinção, mas, infelizmente* nem sempre assim sucede. Finalmente, há certos tipos que mudam mais depressa que outros, assim como há muitos padrões tradicionais de conduta comuns a várias sociedades distintas. Nos últimos cinquenta anos, os tipos de automóvel mudaram quase a ponto de se tornarem irreconhecíveis, enquanto as carroças permaneceram praticamente inalteráveis. No mesmo período a moda do calçado masculino quase se não modificou, enquanto o gosto dos chapéus se alterou muitíssimo. No mesmo sentido, as lâmpadas eléctricas e os pires de uma cidade russa bombardeada serão muito mais parecidos com os congéneres ingleses do que os fogões ou bules. Os conjuntos arqueológicos específicos das divisões cronológicas ou outras diferem habitualmente entre si num número muito escasso de tipos. Os que são usados para distinguir culturas ou fases de culturas têm a designação de tipos-fósseis — pois o conceito é importado da geologia. Qualquer conjunto, sempre que nele se encontra um tipo pelo qual se pode distinguir um período, fica «datado» e atribuído ao período a que tal tipo-fóssil pertence. Na classificação cronológica, portanto, um único exemplar de um tipo-fóssil bem definido é o suficiente para datar o conjunto em que está integrado. No entanto, para poder definir uma cultura, o tipo-fóssil tem que aparecer com frequência e em várias estações. Mas, evidentemente, aquele não caracteriza nem


INTRODUÇÃO Ã ARQUEOLOGIA

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constitui a cultura, embora, muitas vezes, 03 pré-historiadores procedam como se assim sucedesse. Sc assim fosse, as lâmpadas eléctricas seriam constituintes tão significativos da cultura russa como os fogões. Há cerca de meio milhão de anos que o homem vive e age na Terra. Durante todo este tempo provocou alterações no mundo material, deixando assim testemunhos arqueológicos. A história arqueológica apreende ou tenta apreender o conjunto destes quinhentos mil anos. Ká pouco mais de cinco mil anos, algumas sociedades —os Egípcios e os Sumérios — inventaram sistemas de escrita e começaram a registar nomes e acontecimentos, iniciando os testemunhos escritos. Subsequentemente, outros pevas — os habitantes do vale do Indo, os Hititas da Ãsia Menor, os Minóicos de Creta, os Micénios da Grécia continental, os Chineses— começaram também a escrever e esta prática difundiu-se, até que, actualmente, a maior parte (mas não a totalidade) dos grupos humanes conhece a escrita ou, pelo menos, dispõe de pessoas que sabem ler e escrever. Evidentemente que os.textos escritos se acrescentam aos testemunhos arqueológicos c enriquecem-nos, sem que os ponham de parte ou os tornem supérfluos. Além disso, o enriquecimento do conteúdo da história por meio de testemunhos escritos tem um significado tão dramático que se tomou habitual f aser do início da escrita a base para uma divisão nos testemunhos arqueológicos. A parte que não dispõe de textos escritos é convencionalmente chamada arqueologia prô-Mstórlca; quando começam os testemunhos escritos, em qualquer região, começa então a arqueologia do período histórico. Esta divisão não tem um significado muito profundo nem envolve qualquer mudança fundamental de método. Todos os processos para verificação, classificação e interpretação dos dados pré-históricos são igualmente aplicáveis aos períodos históricos do testemunho arqueológico.


V. GOBDON CIÍILBE

Clai-o está que a existência de fontes escritas torna desnecessários alguns desses dados e introduz outros. Mas os conceitos arqueológicos mais puros e as mais refinadas técnicas de escavação têm sido aperfeiçoadas para estudo dos testemunhos pré-históricos. A falta de datas escritas, teve que se inventar um sistema específico de cronologia arqueológica, baseado exclusivamente em dados não escritos, mas é claro que muitas vezes não se pode aplicar esse processo a períodos mais recentes. Além disso, os testemunhos deixados pelos nossos antepassados pré-letrados — para não falar dos homens do pleistooénio mais antigo •— são tão raros e pobres, era comparação com os deixados pelos Romanos, Gregos, Egípcios ou Sumérios, que os pré-historiadores têm que reunir escrupulosamente è estudar minuciosamente cada vestígio que chegou até nós e pensar nas maneiras de determinar e reconstituir traços que se haviam obliterado quase por completo. Pelo contrário, a arqueologia mesopotâmica foi, durante muito tempo, uma caçada às placas com inscrições e aos objectos ãe arte, enquanto as casas particulares, a cerâmica doméstica, as armas e utensílios de metal e outros testemunhos humildes eram estouvadamente destruídos ou postos de parte como não-significativos. No entanto, os mais antigos documentos literários da Mesopotâmia, assim como do Egipto, são fragmentários, muito limitados e de conteúdo escasso. Só nas duas ou três últimas décadas, por meio da aplicação às estações sumérias e babilónias das técnicas de escavação e dos conceitos interpretativos elaborados pelos pré-historiadores é que foi possível conceber a actual perspectiva sobre o Próximo Oriente antigo. Mesmo a respeito da cronologia, foram-se buscar dados puramente arqueológicos para corrigir as ambiguidades e erros doa antigos testemunhos escritos; um dos resultados foi diminuir em cerca de duzentos e cinquenta anos a data da existência de Hamurabi, o primeiro legislador.'


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Assim, também, durante muito tempo, os arqueólogos da época clássica de tal modo concentraram a sua atenção nos aspectos aquitectónicos dos edifícios públicos, n a estatuária, mosaicos, e nas gemas gravadas, que, até 1935, não se sabia como era realmente uma casa grega do período clássico! Enquanto os historiadores gregos a romanos nos deixaram volumosos relatos sobre os acontecimentos políticos e militares, foram, em compensação, lamentavelmente omissos em matérias mundanas como o comércio, a densidade da população e a tecnologia. O volume e extensão do tráfego grego com os Bárbaros — todos os não gregos, incluindo os Egípcios e os Babilónicos, eram assim chamados — está sendo reconstituído pelos arqueólogos, através do estudo dos vasos gregos da vinho recolhidos no Sul da França e da Rússia, no Irão e em outras regiões «bárbaras», indicando-se em mapas os locais dos achados. Os cálculos sobre a população de Atenas — a cidade mais bem conhecida da antiguidade clássica—, baseados em referências escritas, faziam-na variar entre 40 000 e 160 000 habitantes. A completa escavação de uma cidade como Olinto, revelando o número total de casas, forneceu os elementos fundamentais p a r a «um cálculo razoável. Mesmo para a história militar, a que os autores clássicos dão t a n t a . proeminência, 03 dados arqueológicos têm aumentado e até corrigido o seu testemunho. O entulho resultante das destruições e reconstituições dos fortes e campos legionários do Norte da Grã-Bretanha revela vicissitudes dos sucessos romanos e flutuações n a política imperial a que se não referem as fontes literárias. N a verdade, todos os ramos da história, tal como esta actualmente é compreendida, têm que estar baseados em dados arqueológicos não escritos. P a r a a história da ciência, por exemplo, as aplicações da arqueologia do estudo da tecnologia são, pelo menos, tão importantes como as especulações dos teólogos ou dos metafísicos. No entanto, até ao século xvi a tecnologia é virtual-


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mente ignorada nos textos escritos. A história das maquinas que utilizam a rotação está sendo gradualmente escrita através das descobertas arqueológicas de moinhos de braços e das azenhas ou pelas suas representações em desenhos e mosaicos. Assim, continua a ser conveniente distinguir a pré-história dos outros ramos de arqueologia, havendo toda a razão em dar àquele ramo da arqueologia um lugar proeminente no conjunto dos estudos arqueológicos.

BIBLIOGRAFIA

V. G., Piccing togeíhcr the past (Londres, 1956): exaustiva discussão dos termos e conceitos aqui expostos nos capítulos i e n.

CHILDE,


CAPITULO H A CLASSIFICAÇÃO

I — A tríplice base Para fazer história com os dados de que dispõe, o arqueólogo tem que os classificar. Para esse cfeitof emprega três diferentes bases de classificação, que podem ser designadas, respectivamente, por funcional, cronológica e corológica. Por outras palavras, a respeito de qualquer dado, o arqueólogo faz sempre três perguntas: Com que fim foi feito? Quando foi feito? Quem o fez? E perfeitamente natural que o leitor fique alarmado com a complexidade destas perguntas. Para o ajudar a compreender as suas implicações, consideremos um exemplo — não totalmente imaginário— aplicado ã classificação cronológica, ainda usada para os dados pré-históricos e actualmente utilizada para dispor as espécies num museu. :•;:. Imaginemos o director de um museu bastante raro que precisasse de classificar, para exposição, uma massa de espécies excepcionalmente variada, obtida na- Inglaterra e nos vários países e regiões da Europa, da Ãsia e mesmo da Austrália, e de preparar os dísticos elucidativos. A colecção está limitada a artefactos —objectos feitos pelo homem—, mas compreende não só espécies autênticas, mas também fotografias, planos e desenhos;


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CIIILDE

de facto, uma igreja ou um castelo são artefactos, exactamente como um cachimbo ou um dedal, embora t e n h a m menos possibilidades de serem expostos em vitrina. O objectivo de um museu é apresentar a vida dos povos e d a s sociedades nos diferentes períodos da sua história, isto 6, nos sucessivos estádios das suas culturas (no sentido em que a palavra é empregada na p. 17), c 6 evidente que os monumentos fazem parte dessa cultura, exactamente como os simples vestígios. O museu tem a função de apresentar o desenvolvimento da cultura e de ser, de uma forma visualmente concreta, uma história cultural no sentido em que aquela expressão ê hoje compreendida. Em consequência disso, o director terá que apresentar, em conjunto, os objectos u s a d o s — n u m a dada época e por um dado povo (p. 22). U m a vez que a história é um processo no tempo, u m a sequência de acontecimentos, a enorme massa da colecção distribuir-sé-á por uma série de galerias, cada u m a das quais se dedicará a um só período, ficando tudo distribuído por ordem cronológica. O nosso imaginário director tem a sorte de ter à sua disposição uma arranha-ecus, uma autentica Torre da História. Assim, pode dedicar a cada época um piso inteiro. O visitante subirá desdo a s jazidas pré-históricas através dos pisos romano, anglo-saxónico, normando, Tudor, jacobita *, jorgiano, vitoriano, até atingir, no topo, o piso contemporâneo nco-isabelino. Se a colecção for tão completa como imaginamos, p a r a a alojar será, evidentemente, necessária uma série do arranha-céus paralelos e inter-relacionados — como que com asas. O indiano actual, p a r a não citar o papua, usa fatos muito diferentes do inglês deste mesmo período. Embora os fatos sejam usados na mesma época, terão que estar expostos em diferentes «asas» no mesmo piso, 1

Da época, de Jahno I.. (N. do T.y


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se bem que, no entanto, ocupem galerias diferentes. Notaremos situações semelhantes nos pisos inferiores. Na verdade, quanto mais baixo descermos, maiores diferenças locais haverá. Felizmente, como na realidade sucede com os arranha-céus, o nosso museu imaginário é mais largo na base do que no topo. Entretanto, podemos notar que a mera disposição geográfica, das «asas» do arranha-céus não é suficiente para atender à diversidade das culturas • existentes em qualquer período, isto é, em qualquer piso. Dentro de uma mesma região podem existir dois ou mais grupos do povos c'!3 culturas tão diversas que necessitem salas díferent» s. Mesmo em Inglaterra, no piso vitoriano ou no jorgiano, pelo menos, os ciganos necessitarão de um grupo separado de vitrinas. Na «asa» indiana será preciso fazer uma divisão ainda mais completa; mesmo qua os artefactos feitos e usados pelos Indus, Maometanos e Partas não diferissem tanto entre si que não precisassem de salas diferentes, haveria ainda as tribos pagãs, como os Todas 1 e os Oranis 2 , cujo modo de vida é de tai forma diferente da maioria «civilizada» e tão diferente entre si que exigiriam, com toda a razão, uma sala própria. Felizmente para o nosso director, a conduta dessas tribos deixa um número de vestigios fossilizados muito menor do que outros povos. Um simples recanto será o suficiente para alojar, à vontade, 0.3 objectos ilustrativos de cada uma delas. Nos primeiros tempos, numa pequena área encontravam-se sociedades inteiramente diferentes. Na Idade da Pedra, por exemplo, numa região tão pequena como 3 Dinamarca podem distinguir-se três grupos distintos. No entanto, embora uma parte importante da conduta de cada uma delas se tenha fossilizado, de forma a não ' Tribo quase extinta das montanhas Nilgivi, zona de Madrasta, e que ainda pratica a poliandria. (N, ão T.) 2 Ou Oraons, população dravldica do Nordeste da índia (Tchota Nagpur); vivem ainda ém regime do recoleegão (N. do T.}


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deixar ao pré-historíador qualquer dúvida de que estava perante três tipos inteiramente diferentes, todos os elementos puderam ser convenientemente expostos em três pequenas vitrinas. Cada uma destas sociedades —quer os três grupos anónimos da Dinamarca pré-históríca, quer os Indus e os Todas da Índia, ou os Ingleses e os ciganos— criou uma cultura própria, e esta cultura evoluiu ou, pelo menos, modificou-se no decorrer do tempo, de modo a ter que estar representada em mais de um piso. De facto, o nosso museu imaginário não pretende ilustrar o desenvolvimento da cultura, pois isso seria impossível. Tudo quanto pode documentar é o desenvolvimento das culturas, os padrões alteráveis do conduta das sociedades humanas diferentes. E por essa razão que o edifício tem muitas «asas» laterais. Cada uma das inúmeras divisões por piso constitui um departamento e necessitará de um conservador próprio para organizar e classificar o seu conteúdo. II — A classificação funcionai O director e os conservadores que com ele colaboram terão evidentemente que etiquetar cada espécie, de forma a informar os visitantes de como ela era usada e para que servia, numa palavra, a função que desempenhava na vida da sociedade que a fez e a usou. Deste modo, a direcção do museu terá que escolher as espécies, apresentando e agrupando os ornamentos pessoais, os processos de cortar, os meios de transporte, os objectos e construções usadas para o culto, jogos e campos de exibições, etc. Dará a cada objecto exposto um número adequado que possa ser chamado a sua coordenada funcional e escreverá uma breve legenda para explicar a sua finalidade. Sucede que esta etiquetagem não é tão fácil de fazer como se pode supor. Além dos conhecimentos necessário^


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que tomam aspecto de enciclopédicos, para compreender o uso das inúmeras miudezas usadas nas indústrias modernas e mesmo nas antigas, o significado dos símbolos dos vários grupos, ordens ou lojas rivais e as subtilezas dos jogos populares, a apresentação dos objectos referentes às fases mais antigas suscita problemas especiais. Pelas razões expostas na p.. 9, as espécies arqueológicas de grande antiguidade têm todas as probabilidades de serem incompletas. Assim, as espadas e estoques mais antigos não têm já os copos. Dos arpões, só chegaram até nós os dentes de osso d'is pontas. Os machados de pedra lascada em nada se p? .recém com os machados que hoje usamos. Sem dúvida que os. seus cabos desapareceram, mas é evidente que estes não passavam por um orifício aberto no corpo da lâmina, porquanto os machados mais antigos não eram perfurados. Durante a Antiguidade clássica e na Inglaterra medieval supunha-se que esses instrumentos caíam juntamente com os raios \ O seu verdadeiro uso só foi conhecido quando se viram os peles-vermelhas da América do Norte usar instrumentos de pedra muito semelhantes, como sejam, por exemplo, as suas machadinhas. Da mesma forma, também, as pontas de seta em osso recolhidas nos remotos povoados dinamarqueses e suecos foram sempre chamadas harpões até se verificar que eram muito mais parecidos com os forcados de ferro ainda hoje; usados pelos pescadores escandinavos. Veremos adiante de que modo esses vestígios arqueológicos sobreviventes podem ser completados com se* gurança. Os dois exemplos há pouco referidos mostram bem de que modo a função de certas espécies arqueológicas de uso desconhecido se pode esclarecer quando as relacionamos com o folclore e a etnografia.

_ * Essa convicção ê ainda corrente em Portugal, sobretudo na Alentejo e em Trás-os-Montes*. (N. do T.) -


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Nas aldeias ainda não industrializadas da Europa, nas; ilhas ocidentais da Escócia, nas profundidades das florestas finlandesas ou ao longo dos vales balcânicos menos acessíveis, os camponeses e pescadores conservam intactas tradições que remontam à Idade da Pedra, revelándo-as em utensílios e produtos comparáveis a vestígios e monumentos de há mais de quatro mil anos. No Árctico e no deserto do Kalahari, as populações ainda vivem de maneira semelhante à dos Europeus ou dos seus contemporâneos Africanos na época glaciar. As semelhanças do equipamento que chegou até nós permitem considerar estes modernos selvagens, em certo sentido, como representantes das sociedades da Idade da Pedra Lascada. Logo que os vestígios foram assim arrumados em grupos funcionais, o nosso director pode ficar embaraçado ao verificar que, em muitos grupos, vai' ter que expor grande número de objectos na sua, ainda que espaçosa, Torre da História. Poderá reduzir estes grupos a proporções aceitáveis, desprezando as diferenças menores entre as espécies individuais. Considera-se que alguns deles pertencem ao mesmo grupo; portanto, basta exibir um só objecto, podendo o resto ser enviado para o armazém ou posto de parte. Por exemplo, a Bulby Motor & C° desde 1925 que fabrica anualmente mil dos seus democráticos carros de 5 cv que diferem somente no motor e nos números colocados nos chassis. O nosso director adquiriu quarenta espécies do modelo de 1928 que se distinguiam entre si, principalmente no entalhe do guarda-lamas. Para a sua finalidade, esse aspecto tem tão pouca importância como o número do chassis. Apresentará assim um dos seus exemplares como um tipo específico e guardará trinta e nove. Noutro aspecto, a sua colecção pode compreender trinta e nove fatos de homem, diferentes nas dimensões e no tecido, mas todos de acordo com o mesmo corte em moda. Bastará um fato para representar esse tipo. Os fatos de senhora podem causar


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maior embaraço e as criações da «alta costura» mostrar-se-ão ainda menos subordináveis a este tratamento. Mas os fatos de uma aldeia britânica, muitas vezes de uma província inteira, são todos estritamente idênticos ao modelo, com excepção dos desenhos neles inscritos; mas estas diferenças podem ser ignoradas; poderá apresentar-se um só fato, como o tipo corrente, por exemplo, na província de Split. Aplicando assim o conceito de tipo, j á exposto na p. 13, o director poderá expurgar a sua colecção e reduzir cada um dos seus grupos funcionais a um conjunto de exemplares não fundíveis entre si. Poderá distribuir os tipos seleccionados : pelos vários conservadores departamentais. Cada um destes terá então que os reunir numa sala apropriada, juntando a cada objecto um segundo número-índice, com a correspondente cronologia.

I I I — A classificação cronológica A primeira operação do conservador de cada departamento poderia ser a de agrupar, segundo uma ordem cronológica, as espécies que lhe foram atribuídas. A sua intenção, conforme estamos lembrados, era apresentar conjuntamente objectos de uso contemporâneo. Assim, com o seu modelo popular de 1928, apresentará o fato que o condutor podia usar, a casa construída havia pouco, que ele poderia comprar ou habitar, um jazigo semelhante ao que poderia t e r mandado fazer para sua esposa, etc. A volta de uma diligência, o conservador reunirá um conjunto com elementos da mesma natureza, embora diferentes no vestuário, n a habitação, nas pedras tumulares, etc. U m carro de guerra podia constituir o centro de um grupo menor de peças, se bem que menos uniforme do que aquele que acompanhava o automóvel, etc. A finalidade do conservador é elaborar o plano das

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sucessivas mudanças que a cultura, britânica sofreu: uma série de cenas ou de quadros, cada um dos quais num andar diferente e representando uma fase significativa daquilo que, na realidade, era um processo contínuo. Cada cena representa uma dessas fases, cada apartamento constitui um período. O conservador pode pôr, em cada período, uma etiqueta qualquer — «Vitoriano», «Jorgiano», «Tudor», «Romano-Britânico», «Neolítico Secundário», e marcar, desse modo, os objectos expostos. Na sua finalidade imediata, estes nomes só significam posições numa série; números fariam exactamente o, mesmo efeito. E, de facto, • muitas das suas espécies mais recentes apresentam já esses números indicativos. O automóveis e as pedras tumulares terão, sem dúvida, algumas datas, o que provavelmente já não sucede com os fatos. Todos os numerais indicam uma posição na série natural: 1926 vem depois de 1852. As datas indicam o número de anos que passaram, isto é, o número de vezes que a Terra andou â volta do Sol, entre o início convencional da era e o acontecimento datado — seja, por exemplo, a construção do túmulo. (Deve notar-se que os anos podem ser contados desde o zero inicial, para diante ou para trás.) Para o departamento «Inglaterra», o ponto inicial da contagem será o «nascimento de Cristo». Outros departamentos n£„ Torre da História usarão outras eras — por exemplo, a Hégira, ou seja, a fuga de Maomé de Meca, em 622 d. C. As datas, antes ou depois de uma era, não servem só para indicar as posições relativas de dois acontecimentos, na sequência que constitui a história da Inglaterra; colocam também cada acontecimento na posição que ocupa na sequência de acontecimentos referente a toda a superfície da Terra — a posição num sistema de referência universal ou, pelo menos, terrestre. Este sistema do datação é chamado a cronologia absoluta, em contraste: com a cronologia relativa: Podemos saber que a lâmpada de arco voltaico precede a lâmpada de incandescência


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(isto é, na cronologia relativa), sem. que se saiba há quantos anos foram inventadas. Numa linguagem mais técnica, sabemos a idade relativa de dois acontecimentos, não a sua idade absoluta. Na medida em que o conservador expõe por ordem as espécies existentes no seu departamento, poderá contentar-se com a cronologia relativa. A necessidade de uma cronologia absoluta só o preocupará quando tiver que decidir qual o piso do museu em que deverá ser instalada determinada saía referente a determinado período. Ao mesmo tempo, uma data em anos é também a medida da antiguidade de um acontecimento; seja, por exemplo, a manufactura-de um carro. Agrupando as «spécies no seu próprio departamento para representar períodos sucessivos, um conservador não precisa de se preocupar com a •duração dos diferentes períodos assim representados. Enquanto se mantiver dentro do seu próprio departamento, só precisa saber a ordem em que os períodos se sucedem uns aos outros: podemos dizer qua só necessita de determinar o tempo arqueológico; na verdade, este refere a sucessão, mas não a duração. A ordem dos acontecimentos pode ser determinada por métodos puramente arqueológicos. Mas sem o auxílio da física, da astronomia, da geologia ou de testemunhos escritos a arqueologia não poderá dizer há quanto tempo se deu um acontecimento, qual a idade de um edifício, ou o tempo que durou um período. Para a sua exposição planificada, o conservador precisa conhecer as espécies de uso contemporâneo. O nosso homem pode evidentemente ver as datas inscritas nos obejctos e juntar os que apresentam datas mais ou menos semelhantes ou pode ainda consultar narrações escritas. Nenhum dos processos é inteiramente satisfatório e só são aplicáveis, na melhor das hipóteses, a uma pequena parte da colecção. Talvez fosse melhor elemento de ligação o princípio arqueológico da associação. Afinal, •a melhor garantia de que os exemplares eram de uso


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contemporâneo é a de que poderiam t e r ficado associados nas circunstâncias referidas na p. 16. (Quando existem, as gravuras do período em causa podem fornecer tão bons elementos sobre o uso contemporâneo como as observações feitas no decurso de uma escavação.) Só por si, a associação não dá nenhuma indicação sobre o andar onde deveria ser colocado um dado conjunto de tipos. No projectado arranjo cronológico, a colocação de um conjunto no piso próprio depende da posição relativa desse conjunto na sequência dos outros. Evidentemente que se numa ou em duas das espécies associadas a cada conjunto estivesse inscrita a data, seria fácil a colocação conveniente de todo o grupo de tipos associados — m a s só à luz dos elementos escritos. N a verdade, muitas vezes, as datas referem-se não ao ano* dentro de uma determinada era, mas, antes, sob a forma de «5.° ano do reinado do rei Jorge III», ou no ano «tal» do consulado de Crasso, ou «no ano em que o rei...». E s t a s formas de datar só podem ser transpostas em anos da nossa era quando se dispõe de testemunhos escritos completos. Mas tudo/o que neste momento o nosso conservador necessita conhecer é a idade relativa dos vários objectos. Precia saber se esse automóvel é mais velho do que aquele e contemporâneo desta outra pedra tumular. A cronologia relativa pode ser determinada por processos puramente arqueológicos, sem qualquer referência às investigações dos historiadores que se baseiam em documentos escritos. Podem utilizar-se dois princípios: o estratigráfico e o tipológico. Este último, embora menos seguro, é utilizado com mais facilidade e o conservador pode aplicá-lo sem mesmo sair do museu. As locomotivas do caminho de ferro podem servir de exemplo. Ninguém considera o tipo «Royal Scot» mais antigo do que o «Rocket»; o facto é evidente por uma simples observação, e uma troca n a relação entre as duas é perfeitamente inconcebível. Poderia arranjar-se u m a série de


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desenhos e de fotografias p a r a mostrar como os melhoramentos cumulativos estabeleceram uma sequência entre a locomotiva Rocket, relativamente primitiva e.. ineficiente, e o expresso moderno. Conhecendo os dois termos extremos, poderia encontrar-se, sem dificuldade, uma série de tipos intermediários, n a sua ordem exacta, sem referência à s datas que o fabricante obrigatoriamente põe nos seus produtos. U m a sucessão de tipos de eficiência crescente constitui aquilo a que se chama uma série tipológica. Essas fases intermediárias podem ser usadas p a r a determinar as posições relativas dos conjuntos que lhes estão associados. Os conservadores dos museus gostam de se sentar confortavelmente, nos seus gabinetes, arrumando as suas espécies — o u os cartões que as r e p r e s e n t a m — em séries tipológicas bem determinadas. Mas, por muito belas que sejam, pouca confiança se pode ter nelas, a menos que sejam corroboradas ou por autoridades literárias ou por outro teste arqueológico — a estratigrafia. P a r a aplicar este teste, o conservador tem que deixar o seu museu e ir p a r a a terra suja ou, pelo menos, tem que ler cuidadosamente os aborrecidos relatórios dos escavadores! A arqueologia copiou da ciência geológica o conceito de estratigrafia. O seu princípio diz-nos que, em quaisquer depósitos não alterados, as camadas mais baixas são mais antigas e a s mais altas são mais recentes. O princípio é tão importante que teremos que voltar a estudar a s suas aplicações no capítulo seguinte, contentando-nos agora com um simples esboço. Se uma caverna ou uma povoação foi habitada,-durante sucessivas gerações, acumular-se-ão camadas de terra ou de entulho no chão, da caverna, n a s ruas ou num poço de entulho que conterão dados arqueológicos, incluindo tipos de artefactos não deterioráveis, botões, garrafas, louça de barro partida, bocados soltos de carros, etc. Alguns desses tipos, pelo menos, passarão de camada para camada. O princípio da estratigrafia diz-nos que os tipos mais anti-

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gos são os que se encontram nas camadas mais baixas, a menos que o depósito tenha sido violado. Se os ocupantes mais recentes abriram um poço no chão da caverna, podem encontrar-se ai objectos recentes abaixo dos mais antigos. Se uma estação assim estratígrafada (isto é, assim disposta em camadas) for sistematicamente escavada, identificar-se-ão um ou dois tipos próprios a cada camada e que se não encontram nem acima, nem abaixodela, em que aparecem outros tipos específicos. São, por exemplo, considerados próprios da camada C os tipos que lhe estão limitados. Com uma certa sorte, encontrar-se-ão noutras estagões, dentro da região, esses mesmos tipos em camadas correspondentes, ocupando a mesma posição relativa. Podem então ser chamados tipos-fósseis (como foi explicado na p. 22) e utilizados para definir um período arqueológico, uma divisão dos elementos arqueológicos locais. Todos os depósitos em que esses tipos aparecem conterão dados contemporâneos — em tempo arqueológico — e serão atribuídos ao mesmo período, ao qual, possivelmente, pertencerão todos os outros tipos com eles associados. A posição relativa do período assim definido, na sequência dos períodos arqueológicos, o seu lugar nos vestígios arqueológicos locais, estabeleee-se pela posição estratigráfica dos tipos-fósseis. Deve o leitor notar, com especial atenção, dois pontos. Em primeiro lugar, o período definido pelos tipos-fósseis não ó uma divisão do tempo sideral, mas somente uma divisão do tempo arqueológico local, limitado à região em que esses tipos específicos eram correntes: os samovares podiam definir um período da arqueologia russa, mas não a inglesa. Em segundo lugar, nem todos os* vestígios arqueológicos podem constituir tipos-fósseis. Voltaremos ao primeiro ponto. O segundo já foi tratado na p. 22. Se o nosso conservador dirigisse um museu de antiguidades locais, a estratigrafia e a tipologia dar-lhe-Iam


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todas as informações de que necessitava para organizar as suas colecções por ordem cronológica. Mas se dirigisse o departamento de um museu misto, os tipos contemporâneos não só na Inglaterra, mas também na Grécia, Iraque, Índia, Nova Zelândia e noutros lugares, teriam que ser expostos no mesmo piso. Devemos lembrai*, de novo, que o visitante deveria poder deslocar-se não só verticalmente de uma fase de cultura inglesa ou indiana para a seguinte, mas também horizontalmente, de forma a saber o que se passava, em dado tempo, na Inglaterra, índia, Nova Zelândia e r, outros lugares. Ora as etiquetas dos períodos — «Tudor», «Normando», «Romano-Britânico», «Neolítico Secundário»— nãc ajudam o conservador do departamento «Inglaterra» a determinar o piso exacto em que se deverão colocar os objectos assim etiquetados e correspondendo àqueles onde estão expostos os objectos contemporâneos no Iraque ou na Índia. Estes terão etiquetas inteiramente diferentes — «Otomano», «Abácida», «Parta», «Arcádico» ou «Mongol», «Gupta», «Greco-Bactriano», «Harapano». Quando estas etiquetas puderem ser transpostas para datas numéricas, em termos da era cristã, maometana ou outra qualquer, ou seja, na medida em que a cronologia relativa puder ser transformada em cronologia absoluta, as cifras resultantes indicarão o piso correspondente em qualquer «asa» da Torre da História. Mas essa transposição em termos numéricos depende principalmente de dados provenientes dos testemunhos escritos. Ora os Maoris da Nova Zelândia eram analfabetos quando desembarcou o capitão Cook, proveniente do período jorgiano da arqueologia inglesa; assim como os peles-vermelhas do Canadá não deixaram vestígios escritos, quando na arqueologia inglesa se estava no período Tudor, e a Inglaterra estava ainda na prê-história "quando Júlio César desembarcou e mesmo quando Cláudio César fez a anexação da Grã-Bretanha ao Império Romano. Assim, para além destas datas, a história

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escrita não pode fornecer qualquer indicação aos vários conservadores; em compensação, a geologia e a física nuclear podem dar alguma ajuda. É ao director que competirá decidir em que piso hão-de ser' apresentadas ao público as diferentes colecções. Pelo menos em certa medida, o problema de colocar nos mesmos pisos a s espécies contemporâneas nas regiões representadas n a s várias alas podia ser resolvido por meios puramente arqueológicos. Os tipos correntes n a Inglaterra Tudor foram transportados através do Atlântico e comerciados com os peles-vermelhas da América, enquanto alguns artefactos ameríndios vieram p a r a a Inglaterra como curiosidades. Algumas colecções d a América do Norte podem ser assim identificadas como contemporâneas do grupo Tudor da Inglaterra e confiadamente colocadas no mesmo piso. De uma maneira parecida, ainda que um pouco mais surpreendente, houve manufacturas inglesas que a t i n g i r a m . a Grécia Micénica, enquanto a Inglaterra importou armas e contas fabricadas na Grécia durante aquele período. Deste modo, um modelo de Stonehenge, e outros vestígios, considerados contemporâneos desse santuário, podem, com razão, ser apresentados no mesmo piso em que está um modelo da P o r t a dos Leões de Micenas e as réplicas dos tesouros dos Túmulos de Colunas, datados de 1550-1400 a. C.

I V — A classificação corológica Ao explicar a classificação cronológica, devemos partir do princípio' que o director sabia a que departamento deviam ser atribuídas a s espécies e entregava aos conservadores a tarefa de a s classificar cronologicamente. Empregando a linguagem técnica, o director j á havia feito a classificação corológica da colecção, antes de o seu conteúdo ter sido classificado cronologicamente. N a prática, nada se poderia ter feito sem uma fonte externa


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cie informação. No entanto, era possível ao director, por meio de processos puramente arqueológicos, distribuir a s espécies, não efectivamente em departamentos regionais, tais como nós temos considerado, mas, pelo menos, em culturas, no sentido indicado no capítulo I, desde que fossem conhecidas as espécies associadas. Mas, primeiro, seria preciso classificá-las cronologicamente. E quase todos conservadores têm que assim proceder em relação a' parte das suas colecções. J á se esboçou, a p. 34, o processo adoptado. Dentro do mesmo grupo ou do mesmo período cronológico, há ainda diferentes tipos, que realizam funções idênticas. Como deverão ser consideradas as diferenças? O tipo americano de motor de comboio é, sem dúvida, diferente do inglês; a locomotiva norte-americana é, por exemplo, provida de um salva-vidas, uma campainha e um holofote. E s t e s elementos não melhoram a eficiência da locomotiva nos caminhos de ferro britânicos. Não podem, portanto, surgir como melhoramentos realizados sobre o modelo britânico mais antigo. Assim, estas diferenças não são devidas a discrepâncias de idade — a diferenças cronológicas. A explicação deve provir antes de diferenças de natureza corológica, resultantes da divergência de tradição entre duas sociedades distintas (a vedação dos caminhos de ferro ou o uso de estradas p a r a linhas de caminho de ferro são, evidentemente, questões de tradição social, de modo algum inerentes à natureza dos caminhos de ferro). Ora há tipos que aparecem constantemente associados não só por serem contemporâneos, mas também por serem fabricados e usados pelo mesmo povo. Reciprocamente, a razão de divergência entre tipos dentro de um mesmo grupo funcional está ligada ou a melhoramentos e alterações de moda no decurso do tempo ou a divergências tradicionais de actuação e de gosto entre os diferentes povos. A divergência entre a Rocket e a Royal Scott resulta da primeira causa, enquanto a diferença entre aquela última e a locomotiva Boston re-


sulta da segunda. Usando as locomotivas como tipos-íósseis, tudo o que pode ser associado com a Royal Scott — não só as carruagens de passageiros e os sinais, como até as casas de lavoura, os fatos dos passageiros, os sttcks do ericket e as facas de mesa — está ligado a uma cultura e representa um povo, quer esteja associado com a «Bostoniana» \ quer com outras locomotivas. Evidentemente que haveria muitos aspectos comuns a ambos os conjuntos, mas, vistos como conjuntos, torna-se patente o contraste entre as duas culturas. Com este exemplo, tirado das culturas contemporâneas, pode facilmente ve« rificar-se a diferença regional e justíficar-se empiricamente a explicação apresentada. Além disso, a cada cultura podem dar-Si) nomes políticos e étnicos e o mesmo sucede com as culturas de que temos referências escritas e podem fazer-se inferências sobre as diferenças entre os conjuntos pré-históricos. Mas, neste último caso, não se pode pôr qualquer etiqueta política. Muito excepcionalmente, com o auxílio da toponímia e de fontes escritas pode aplicar-se uma etiqueta linguística (celta ou ibérica, por exemplo), a culturas pré-históricas mais recentes. Mas o mais vulgar é designar o conjunto estabelecido por um nome convencional que se pode ir buscar ã designação de um tipo-fóssil ou a uma característica especial; temos assim as culturas do machado dê guerra, do túmulo de laje, ou do vaso campaniforme. Por vezes; aplica-se a uma cultura 6 nome da região onde ela está mais representada, como, por exemplo, o Lusaciano; mais raramente, dá-se um nome geográfico qualificado por um adjectivo cronológico: Tessalense Neolítico A, Idade do Ferro Inglesa A (mas num livro exclusivamente dedicado à pré-história inglesa pode omitir-se o indicativo geográfico. Porém, a prática habi-

1 Nome do tipo das locomotivas norte-americanas íabricadr.^.em Boston. (N. do T.)


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tual consiste em designar uma cultura pela estação onde, pela primeira vez, foi encontrada ou onde aparece representada de uma forma mais característica. Infelizmente, usam-se, por vezes, os mesmos termos gerais p a r a a divisão de vestígios arqueológicos locais, isto é, de períodos locais. A s culturas e os períodos pré-hístóricos têm que ser identificados com o auxílio de tipos-fósseis e tanto u m a s como outros são constituídos por conjuntos de tipos. Os dois conceitos apresentam-se perfeitamente distintos; m a s podem facilmente confundir-se, caso lhes seja dada a mesma designação. P a r a ajudar o estudiosa a compreender os manuais mais antigos e evitar as a r m a dilhas inerentes à ambiguidade da terminologia pré-Iii?:tórica, encerraremos este capítulo com uma breve digressão histórica.

V — Períodos e culturas pré-hístóricos A s divisões locais do tempo arqueológico, os sucessivos capítulos nos vestígios arqueológicos locais, p r e cisam ter u m a determinada designação. N a pré-história, a indicação do ano, a data em anos, não é, em princípio,, possível. Desde 1815 que se tornou habitual dividir a s épocas pré-históricas dos vestígios arqueológicos em t r ê s «idades», sistema imaginado por Thomsen, ao organizar o Novo Museu das Antiguidades Nórdicas, de Copenhaga. Thomsen decidiu expor os objectos de cada período como se tivessem estado todos em uso ao mesmo tempo. A colecção incluía muitos conjuntos descobertos associados nos corcheiros, n a s turfeiras; nos túmulos megalíticos e nos barrows. Deste modo, sabia que tipos poderia expor conjuntamente, m a s não a ordem em que o deveria fazer. Mas, tal como o poeta romano Lucrécio, considerou que os homens, antes de conhecerem o uso do ferro, haviam feito em bronze os seus utensílios de corte e a r m a s e„


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muito antes, desconhecendo qualquer metal, haviam utilizado a pedra, o osso e a madeira. Assim, Thomsen reuniu o s objectos de ferro, e os tipos que sempre se encontravam associados, e deu-lhes a designação de Idade de Ferro, qualquer que fosse o material em que eram feitos. P e z o mesmo para os objectos de bronze; os objectos de pedra, osso, madeira ou os tipos de cerâmica que se encontravam ligados aos objectos de bronze for^m in•cluídos nessa designação garal de Idade ão Bronze. Ó resto preencheria a galeria da Idade da Pedra. Subsequentemente, as escavações estratigráficas forneceram u m a justificação objectiva à ordenação de Thomson e revelaram que esse sistema era também aplicai ú à Suíça, Itália, França e Grá-Bretanha: tem, de facto, aplicação universal. As três «idades» são realmente três fases tecnológicas •consecutivas que se seguem sempre umas às outras, na mesma ordem, em qualquer parte onde apareçam. Teria -sido mais sensato ter-lhes chamado «fases». Mas embora ocupem sempre a mesma posição n a sequência — o u , por palavras tecnicamente mais precisas, sejam homo~ •axiais—, uma «idade» não surge em toda a parte na m e s m a secção de tempo sideral, isto é, as suas manifestações não são, em toda a parte, contemporâneas. A Idade 'da Pedra, na Austrália, acabou com o estabelecimento do u m a colónia britânica em Botany Bay; na América Central, com o desembarque de Córtez; na Dinamarca, por volta de 1500 a. C ; no Egipto, muito antes de 3000 a. C. A palavra «idade» só pode sugerir a ideia de um espaço de tempo absoluto, de uma divisão n a cronologia absoluta, enquanto que o termo «fase» sugere u m a sequencia. As eras, épocas e períodos geológicos são considerados contemporâneos em toda a Terra e, deste modo, pertencem ao domínio da cronologia absoluta. As eras arqueológicas são divisões de tempo arqueológico e pertencem ã cronologia relativa. De qualquer modo, o sistema das trós


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«idades», na sua forma original, fornecia uma ordenação satisfatória, dentro da qual se podia construir uma estrutura cronológica da pré-história. As tentativas p a r a o melhorarem levaram os pré-historiadores a confusões intermináveis. Depois de 1859, quando sé reconheceu a existência do homem no Pleistoceno e se recolheram utensílios de pedra nos depósitos geológicos desse tempo ou mesmo anteriores ao período glaciário, verificou-se que a primeira Idade da P e d r a era desproporcionadamente longa. E em 1863 estabeleceu-se a separação entre a antiga e a nova Idade da Pedra, entre o Paleolítico e o Neolítico. © p e r í o d o mais antigo era constituído pelos utensílios de pedra lascada achados nos depósitos pleistocénicos, juntamente com vestígios de animais extintos provenientes exclusivamente d a caça. No Neolítico estavam incluídosos artefactos, incluindo instrumentos lascados e aguçados por fricção e polimento que haviam sido encontrados nas habitações lacustres da Suíça e nos dólmenes dinamarqueses, associados com fauna recente, ossos de animais domésticos e vestígios de agricultura. A divisão era assim baseada em três critérios:, 1) geológico •— Pleistoceno antigo ou recente; 2) tecnológico — afiamento por Ias* cagem ou por polimento, e 3) económico: uma economiade frutos silvestres (economia de simples recolecção) ou lavoura (economia de produção alimentar). Supôs-se que as três coincidiam, mas, de facto, não sucedia assim. Deste modo, a p a r t i r de 1921, veio acrescentar-se à Idade da Pedra uma terceira divisão: o Mesolítico. Hoje, Paleolítico é equivalente a Pleistoceno, e todas as culturas pós-pleistocénicas que mantêm intactas a antiga economia de caça, pesca e colecção são chamadas mesolíticas; ou antes, deveriam sê-lo. N a prática, o termo não é aplicado aos recolectores nossos contemporâneos da Austrália, África do Sul ou T e r r a do Fogo, nem mesmo às últimas culturas pré-históricas das zonas eurasiáticas de coníferas

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e de tundra. As três divisões forneciam uma base lógica •e sem ambiguidades para uma classificação cronológica ou, pelo menos, sequente. Com as cinco «idades» (Paleolítico, Mesolítico, Neolítico, Cobre e Ferro) já não sucede o mesmo. Todavia, mesmo que representem, em qualquer região, fases sucessivas, continuam a ser divisões de tempo arqueológico; são divisões locais. Têm sido propostas outras «idades», mas felizmente nenhuma foi adoptada na generalidade, e mencioná-las-emos como mera informação para o investigador, que as pode encontrar nas suas leituras. Alguns autores propuseram que entre a Idade da Pedra e a do Bronze se inserisse um período calcolítico (em italiano eneoMico, em francês énéolithique); tal como foi usado originalmente pelos pré-historiadores italianos, referia-se a uma fase ou idade em que os utensílios e as armas de cobre eram usados juntamente com tipos semelhantes feitos de pedra. Este facto verificou-se, em toda a parte, durante as fases mais antigas da Idade do Bronze, uma vez que os metais eram muito caros e portanto só acessíveis a um número escasso de membros das comunidades. O cobre era quase sempre usado para as armas de arremesso ou utensílios aplicados a materiais duro§. Não se pode portanto fazer a comparação que geralmente se estabelece «ntre esta fase e a «Antiga Idade do Bronze». Podia ser mais útil distinguir uma fase em que só se -empregava cobre natural, usado como produto superior ã pedra, e moldado pelo calor. Por vezes, emprega-se o termo «Calcolítico» para designar esta fase tecnológica. Mas, sendo o cobre natural muito raro \ nem sempre essa

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Deve dizer-se, porém, que não está provado que tivesse sido Eempre assim: muitos pró-historiaàores so inclinam para a hipótese da abundância inicial de cobre natural. (N. ão T.)

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idade deve ter precedido a do Bronze, e portanto não representa uma fase geral do progresso tecnológico. A «Idade do Cobre» é o termo habitualmente aplicado a esta época, mas é mais frequente aplicá-lo ao período em que era usado cobre simples em vez de bronze, liga de cobre e estanho. Este critério é difícil de aplicar, pois, 'sem análise, química, nem sempre é possível distinguir os vestígios de cobre dos de bronze. Fora da Europa, quando a análise é possível, verifica-se que a maior parte dos utensílios e armas tradicionais atribuídos à Antiga Idade do Bronze erAm, na realidade, feitos só de cobre. O termo «Idade do Bronze» é portanto quimicamente inadequado e poderia ser substituído, com vantagem, pelo termo «Paleometálico». Mas tentar distinguir nele uma Idade do Cobre independente suscita mais confusão. Os arqueólogos turcos, mal orientados p.or um investigador alemão, usaram, com pouca felicidade, os termos «Calcolítico», «Cobre» e «Bronze» para designar as fases sucessivas da pré-história anatólica. De facto, a sua Idade de Cobre é tipològicamente equivalente e, em larga medida, contemporânea da chamada Antiga Idade do Bronze da costa do mar Negro e da Síria-Palestina. A expressão «Calcolítico» parece sobretudo homo-axial do Neolítico da Grécia, embora talvez se sobreponha também à Antiga Idade do Bronze do mar Egeu. Assim, o Calcolítico e a Idade do Cobre ainda se podem fragmentar. O Mesolítico está suficientemente bem estabelecido para que seja possível anulá-lo. O estudioso tem que suportar a divisão em cinco «idades». Mesmo cinco fases dão uma estrutura demasiado grosseira para reflectir satisfatoriamente o progresso da cultura humana. No fim do século xix, Mortillet parcelou a primeira e mais longa Idade da Pedra: o Paleolítico. Apoiado na estratigrafia observada nas várias •estações da França, distinguiu seis conjuntos ou culturas •que, nas estações pré-históricas, se seguiam umas às


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outras e na mesma ordem. Considerou que estas estações representavam períodos do Paleolítico, por analogia com o Devónico, Câmbríco, etc, da nomenclatura geológica. Cada período foi designado pelo nome. da estação em que primeiro foi encontrado ou em que estava mais bem representado —• Chelles, Saínt-Acheulle, Moustier, Aurignae, Solutré, La Madeleine (os acontecimentos estão aqui deliberadamente simplificados). Ora, na medida em.que as séries de Mortillet reflectem essa sucessão estratigráfica (inicialmente não sucedia assim), as seis culturas referidas representavam divisões cronológicas dos vestígios arqueológicos em França e as fases do desenvolvimento da cultura em França. Mas, sob a influência da então recente teoria evolucionista, procuraram representar fases - evolutivas na cultura humana e períodos de tempo • absoluto universalmente contemporâneos com os períodos geológicos! > Na realidade, o Aurinhacense, o Madalenense ouqualquer outro dos nomes atrás referidos exprimem um conjunto de tipos que, numa área específica, estão constantemente associados. Fora dessa área, nem todos esses tipos se encontram associados, pois nem todos são universais. Assim, é errado falar-se de um «período aurinhacense» para a Sibéria ou África do Sul. Não obstante, muitos historiadores têm cometido esse erro. Os livros ingleses anteriores a 1938 e os trabalhos russos até 1950 empregam os termos de Mortillet para designar divisões de tempo absoluto (geológico, se não mesmo sideral), aplicados a conjuntos que os escritores em questão pensavam que ocupariam uma posição na sequência local semelhante à que tinham na sequência francesa. A verdade é que o Aurinhacense, o Madalenense, etc, se referem a culturas —unidades da classificação corográfica—, e empregar o mesmo termo para designar divisões cronológicas estabelece grande confusão.


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O abuso não se limita às divisões da Idade da Pedra. Continuam a aplicar-se nomes de culturas, isto é, das divisões corográficas, às divisões cronológicas da Mesopotâmia, da pré-história egípcia e às subdivisões da Idade do Ferro europeia. Mesmo na Inglaterra, a etiqueta de Hallstatt é aplicada a um conjunto de tipos, nenhum dos quais se encontra na estação epónima ou em estações semelhantes da Europa Central e da França Oriental, por essa altura equiparada às culturas de La Tène. A confusão resulta, evidentemente, de que uma divisão ~de tempo arqueológico, ou «período», e uma divisão coro gráfica, ou «cultura», são constituídas por um conjunto de tipos especiais expressos por um só nome. Esta ambivalência não provoca qualquer ambiguidade quando a divisão cronológica cai dentro dos tempos históricos. Se falamos da cultura do tempo de Jaime I, não estabelecemos o contraste com a cultura europeia francesa ou com a Índia, mas com a cultura Tudor ou jorgiana, isto é, com a cultura da Inglaterra Tudor ou jorgiana. Quanto à primeira comparação, podemos traduzir, graças aos documentos escritos, a cultura do tempo de Jaime I em «século xvii». Muitas vezes, numa obra sobre história arqueológica local, é conveniente e quase inevitável usar uma designação cultural para referir uma divisão cronológica dos vestígios locais. Numa obra sobre história universal deve preferir-se uma designação independente. Mesmo em pré-história, essas divisões são ainda úteis. As culturas paleolíticas podem ser assim atribuídas a convenientes divisões geológicas marcadas pelos avanços e recuos dos glaciares e às correlativas regressões e transgressões do mar (isto é, a períodos de alto e de baixo nível marinho). O único motivo para falar de um período «moustíerense» ou «madaienense» seria a falta de confiança nas correlações vulgarmente estabelecidas entre estas culturas e fases da época glaciar. Neste caso, seria, então, melhor falar de Paleolítico Inferior, i. A. — 4


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Médio e Superior e dividir este último em fases transpostas para números. O «Solutrense» seria substituído por um período designado por «Paleolítico Superior II da Europa Ocidental». Nos tempos pós-pleistocénieos é menos fácil encontrar substi :utos para as designações culturais. Tentou-se fazer uso de termos descritivos — designações de tipos-fósseis. Assim, os prê-hístoriadores dinamarqueses costumavam chamar do «Dólmen», de «Túmulo de Passagem» e de «Adaga' aos períodos do Neolítico local, e os Alemães ehamair actualmente â última fase da I Idade do Bronze na Europa Central o período do «Campo de Urnas». Estes termos, quando qualificados por um adjectivo geográfico — dinamarquês, Sudoeste Alemão—, têm a vantagem de indicar francamente o seu significado. Mas a verdade é que os túmulos de passagem ou os campos de urnas são efectivamente característicos de uma só das várias culturas que floresceram no período assim designado. Os pré-historiadores dinamarqueses preferem portanto falai* de Neolítico Antigo, Médio e Recente e os pré-historiadores ingleses têm a mesma orientação. Para a Idade do Bronze tem sido aplicada uma divisão tripartida semelhante à que de há muito é usada para a Europa Cisalpina e para a Síria-Palestina, enquanto que em Creta, Grécia, Cidades e Chipre o termo «Idade do Bronze» foi substituído por designações, respectivamente, de «Minóico», «Heládico», «Cicládico» e «Cipriota». Pedia, na verdade, ter sido melhor dispor em conjunto as «idades» e referir a números os períodos sucessivos da cultura em cada região. O ideal, evidentemente, seria correlacionar as várias séries locais determinadas pelos meios arqueológicos atrás referidos (p. 40), de modo tal que o conjunto da pré-história pudesse ser coberto por um simples esquema de divisões numeradas. Tornava-se assim possível transpor as várias datas relativas para as datas absolutas definidas com o auxílio da física e da astronomia.


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BIBLIOGRAFIA

§ 1: CHII.DE, op.

cit.

J- G. D., Archaeology anã Society (Londres, 1939). Prehisioric Europc: The Economic Basis (Londres, 1953). SOLLAS, W. J., Ancicnt Hunters anã Their Moãern Representatives (Londres, 1921). § 4: CLARK,

G. E., A hunãreã years of Arcliaeology 1950).

DANIEL,

(Londres.

V. G., «The Constitution of Archaeology as a Science», in Ashworth Underwood (ed.). Science, Medicine, ffisíory (Londres, 1953).

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CAPITULO III AS ESTAÇÕES ARQUEOLÓGICAS B A SUA ESTRATIGRAFIA Podem-se encontrar objectos antigos â superfície de um terreno, no decurso de uma lavra ou da abertura de uma vala. Esses objectos só potencialmente ê que são dados arqueológicos; mas, em compensação, a sua localização ê um dado arqueológico, embora não seja um monumento. Os vestígios e monumentos só se transformam em dados quando se ajustam a tipos já classificados, à luz dos conjuntos em cujo contexto foram encontrados. A informação histórica só pode ser conseguida com exemplares encontrados, juntamente com outros, em estações. Estas são de natureza muito variada — habitações,' túmulos, fontes, minas, santuários, poços, ete. Analisemos algumas delas, visando em especial os elementos cronológicos que nos podem fornecer. I—•Cavernas"'- ' As habitações humanas mais antigas ocupadas desde o princípio da Idade da Pedra Lascada foram as cavernas, frequentadas até ã actualidade por caçadores, pastores, passeantes e refugiados, ermitas ou bandidos, contrabandistas e pescadores. Formadas por processos naturais, as cavernas, em si, não são dados ou monu-


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mentos arqueológicos, embora muitas delas apresentem nas suas paredes pinturas ou gravações, inscrições ou representações que ás podem levar a essa categoria. Para o arqueólogo, as cavernas têm uma vantagem especial: os seus ocupantes não são (e quase nunca o foram) asseados. Ê frequente deixarem atrás de si grande quantidade de restos, latas abertas e garrafas partidas, facas estragadas e ossos roídos. O lixo assim disperso pelo chão foi conservado e coberto pela terra da caverna ou pelas rochas que ruíram. Por outro lado, com excepção dos tempos muito remotos, os ocupantes das cavernas são pessoas de proveniência social relativamente humilde. Deste modo, o lixo deixado no chão refere-se ao nível médio da prosperidade e das realizações técnicas da sociedade a que pertencem os utilizadores das cavernas. Se um arqueólogo esquece este facto, ao analisar vestígios deixados no século xix corre o risco de tomar uma família de vagabundos ou um bando de contrabandistas como característico do inglês médio desse período. Mas esta restrição é contrabalançada por outras vantagens. A caverna pode conservar um registo estratigráfico claríssimo (1) \ Suponhamos que acampou, numa delas, um certo número de pessoas; as cinzas do fogo que acenderam espalharam-se pelo chão; os restos dos seus alimentos e os vasos e utensílios quebrados constituem uma camada de ocupação. Abandonada a caverna, esta superfície cobrir-se-á, em determinadas condições, de uma camada estéril de estalagmitcs, terra, excrementos de animais ou pedras caídas do tecto, com o que ficam protegidos todos esses restos de ocupação, isolando-a dos novos materiais deixados sobre a nova superfície estéril quando alguém voltar a ocupar o abrigo. Nas condições geladas da época glaciar, as camadas estéreis

1 Os números entre parêntesis insertos .neste capítulo e no imediato referem-se à bibliografia indicada no final iíòs mesmos.


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íormavam-sc rapidamente, tornando-se geralmente duras e impenetráveis. Assim, nas cavernas calcáreas da Europa Ocidental, as camadas de ocupação do Moustierenso, Aurinhacense, Gravetense, Solutrense e Madalenense estratifícam-se umas a seguir às outras, perfeitamente isoladas entre si por um leito estéril, fornecendo assim uma prova irrecusável da sequência existente nessas indústrias. Infelizmente tais condições nem sempre se verificam e nos períodos mais recentes raramente ocorrem, fs frequente que o chão da caverna seja constituído por terra solta, facilmente removida pelos animais que nela procuram abrigo, ou pelos habitadores humanos; noutros casos, o chão é constituído, por grandes blocos de pedra por entre os quais os utensílios podem resvalar ou ser levados pelos ratos. Noutros casos ainda, como os homens, muitas vezes, abrem túmulos ou outros orifícios no chão da caverna e os animais de toca frequentam o abrigo com tanta assiduidade como o homem, a estratigrafia altera-se. Nenhuma conclusão se pode tirar da profundidade èm que foram encontrados os vestígios, a menos que o perito escavador possa provar que são provenientes de camadas intactas. Desde meados úo Pleistoceno que as cavernas têm sido usadas para túmulos. Cronologicamente, os túmulos são mais recentes do que a camada em que se encontram; os corpos pertencem, na melhor das hipóteses, aos homens que deixaram os depósitos de ocupação imediatamente acima deles, mas também podem ser muito mais recentes. Se as sucessivas camadas estiverem bem definidas, será possível determinar quantas foram atravessadas para escavação do túmulo, que pertencerá cronologicamente à camada a partir da qual se iniciou a escavação. As cavernas são muitas vezes veneradas como locais sagrados. A famosa gruta de Lourdes é um exemplo recente de uma prática que remonta, pelo menos, a cinco mil anos atrás. Os visitantes piedosos costumam depositar


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ofertas votivas nesses locais sagrados e é natural quo algumas delas sobrevivam, como, por exemplo, imagens de barro e ornatos de metal, que poderão ter chegado até nós. Normalmente, porém, não se verifica uma sequência ordenada nas ofe'rtas. Mas se estas incluírem exemplares cuja data seja conhecida pela estratigrafia de outras estações, a mais antiga indicará a data em que deve ter começado o culto. Finalmente, as muralhas de muitas cavernas são decoradas, veneradas ou modificadas por pinturas, gravações, esculturas ou raspagens deixadas por visitantes ou residentes. Desde o século vi a. C. que o hábito de raspar ou garatujar o nome e a data é corrente nos povos letrados. Por muito que hoje censuremos essa prática, os arqueólogos estão prontos a saudar como um precioso documento histórico as mais antigas inscrições, ainda que tenham sido feitas por motivos fúteis. As pinturas, gravações e baixos-relevos paleolíticos nas cavernas da Dordogne, Pirenéus e montanhas cantábricas são conhecidas em todo o mundo; fornecem ao historiador uma informação única, tanto sobre a arte como sobre a psicologia, as ideias e o ambiente do homem paleolítico; mesmo para o zoólogo é um indispensável suprimento às magras ilações que se podem tirar dos ossos fossilizados, a respeito do aspecto de animais actualmente extintos, como sejam o mamute e o rinoceronte piloso. Bastante menos instrutivas são as gravuras pintadas ou gravadas nos sombrios abrigos rochosos do Sudeste da Espanha, Norte e Sul da Africa, e a incerteza quanto à sua antiguidade diminui o valor das informações que daí se poderiam tirar. De épocas mais recentes e de culturas mais adulteradas, obtêm-se inapreciáveis informações com os elementos fornecidos pelas paredes das cavernas, desde as soberbas pinturas- budistas de Arjanta, na índia, até aos rudes «símbolos pictos» e às «antigas inscrições cristãs», nas cavernas costeiras da Escócia.


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A idade arqueológica das pinturas ou das inscrições não datadas existentes nas paredes das cavernas pode, por vezes, ser directamente determinada ou, pelo menos, delimitada. Há estações francesas (2) em que as cenas murais estão cobertas pelos depósitos resultantes da ocupação das cavernas. Em duas outras caíram da parede fragmentos de pintura que se misturaram com depósitos provenientes da ocupação do solo. De qualquer modo, a gravura deverá ser tanto ou mais antiga do que ò depósito que a cobre ou do que os detritos entre os quais se encontram os fragmentos caídos. Estes depósitos apresentam, felizmente, tipos que podem, ser classificados cronologicamente com, precisão e assim datados. Usualmente, porém, para determinar a antiguidade da arte parietal e da pintura na rocha, temos que nos apoiar em comparações de armas, fatos, ornamentos e outros artefactos que nelas aparecem representados com tipos já arqueologicamente datados ou através de fontes escritas. No entanto, a cronologia relativa das pinturas de uma só caverna ou região pode ser determinada por via directa. E frequente verificar-se o facto de a superfície de uma c mesma rocha ter sido usada para «tela» em diferentes períodos arqueológicos. Se os vários desenhos foram pintados, a s . suas idades relativas podem ser estratigràficamente determinadas. Uma observação cuidada pode revelar camadas de cor sobrepondo-se umas às outras, constituindo elementos de pinturas distintas. A camada do fundo pertence ao desenho mais antigo e as que sobre ele estão pintadas devem ser mais recentes. Foi por este meio que Breuil estabeleceu uma sequência regular de estilos de pintura na região franco-cantábrica. Mas, quando sé trata de gravações, a estratigrafia não tem qualquer valor. E quando numa mesma superfície rochosa se sobrepõem duas ou mais gravuras, é, muitas vezes, possível determinar qual a linha que passa por outra jâ desenhada, pertencente à mais antiga das duas.


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I I — Casas e povoados ' Desde o Paleolítico Superior, a maior parte d a população vive em abrigos artificiais feitos de turfa, lama, tijolo, madeira ou pedra. É certo que, antes de 1940, se acreditava e se repetia em livros de divulgação, sem suscitar dúvidas, que os homens pré-histó ricos, incluindo os «antigos bretões. > contemporâneos da invasão de Júlio César, viviam em «abrigos de poço» total ou parcialmente cavados no chão. De facto, as casas de habitação subterrâneas ou semi-subterrâneas constituem protecção contra os excessos do calor e do frio. sendo utilizadas na actualidade tanto n a zona polar como nos desertos subtropicais. N a Rússia e na Morávia têm sido identificadas estações constituídas por estas habitações cobertas, utilizadas durante a época glaciar. Mas a maior parte dos «abrigos de poço» {Wohngruben, fonas ãe cabane), referidos pelos antigos escritores, quer abertos no calcário argiloso (de greda), quer mergulhados nos Jõss da Europa Central, são agora considerados pelas autoridades competentes como não tendo sido mais que silos, poços de argila, poços de entulho, pocilgas ou, quando muito, oficinas de tecelagem. Neste último caso, alojariam as pontas inferiores dos fios da urdidura pendurados num t e a r vertical e esticados pelas pedras ou pesos de gesso encontrados no fundo dos poços, e pelos quais se identificou a função destes. Ás paredes das casas, tanto pré-históiicas como mais recentes, sobem normalmente acima da superfície do solo e a sua existência seria reconhecível pelos arqueólogos, mesmo que tivessem sido arrasadas ou tivessem desaparecido; os seus vestígios diferem conforme o material com que foram construídos — adobe, madeira, pedra ou tijolo. O chão das casas varia menos, m a s o seu reconhecimento é fundamental n a escavação de uma habitação doméstica, quanto mais não seja pelas implicações cronológicas. E certo que se pode dar o caso de


o chão estar pavimentado com lajes, azulejos, tijolos ou mosaicos, mas mesmo as lajes eram parcimoniosamente usadas no passado e os azulejos ou o pavimento.de mármore ou de mosaico são próprios dos povos civilizados, das sociedades letradas; mesmo aí, estão, em regra, confinados às mansões dos ricos ou aos estabelecimentos públicos. O chão de madeira era muito menos corrente na antiguidade do que hoje, e nos tempos pré-históricos não há vestígios desse processo de cobertura do solo; o chão das habitações lacustres era de calcário, embora este assentasse sobre uma plataforma de toros horizontais (não tábuas). Tal como nos povoados mais antigos, as casas actuais dos camponeses da Irlanda ou dos Balcãs continuam sendo de terra batida. Numa escavação 6 muito difícil identificar este chão de terra ou de argila. Quando é duro pode, com alguma sorte, ser sentido por um pesquisador que trabalhe com uma colher de pedreiro, mas uma pá atravessá-lo-á sem o notar. Se o chão não está bem varrido, uma fina camada de cinzas ou migalhas pode permitir que a sua superfície se distinga, revelando-a num corte vertical. Nas aldeias dos pântanos à volta dos Alpes, onde, devido à humidade, o chão das casas tinha que ser constantemente renovado, deitava-se, como isolante, casca de vidoeiro por baixo do chão. Um corte vertical pode revelar a*, existência de uma dezena de chãos de greda, uns sobre os outros, cada um deles nitidamente separado do anterior por uma fina camada de vidoeiro. A formosa estratigrafia assim obtida não tem sido muito usada para a classificação cronológica dos vestígios. Na verdade, os aldeãos dos pântanos não só varriam o chão, como ainda raspavam a superfície suja antes de colocar a camada do vidoeiro para o chão seguinte (3). No entanto, à volta da lareira parece que o chão ficava com a superfície cozida. Em consequência disso, a dura superfície vermelha assim resulíande dá uma indicação do nível geral do chão.


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Mas pode obter-se um guia ainda melhor, pelos objectos dispostos no chão ou pelas construções que sobre ele se levantaram. Com excepção dos países quentes, uma sala de j a n t a r contém, quase sempre, um fogão pavimentado com lajes ou pedras e coberto por uma estrutura de cerâmica moldada ou por um amontoado de pedras. Nos climas muito frios o fogão de cerâmica cozida pode estar assente no chão. A sua base é u m meio pelo qual se pode conhecer o nível do solo. Este também se pode inferir da posição da pedra ou do tijolo que servia de soleira, ou seja da pedra de apoio sobre a qual girava a porta. (Os gonzos foram u m a invenção muito recente; antes desse invento, uma saliência de u m dos topos d a porta rodava sobre um socalco n a soleira, enquanto a correspondente saliência do topo superior d a porta estava metida num buraco de couro ou de metal.) P a r a fazer a s paredes das casas, a lama batida, misturada geralmente com pedrisco ou palha, é um admirável material de construção num clima seco e as ruínas das casas dessa forma construídas deixam aos arqueólogos um registo estratigráfico claríssimo. Durante a construção, é evidente que o material terá que estar húmido p a r a se moldar e permitir que as sucessivas filas se segurem umas às outras; expostas ao sol, endurecem e solidificam. Este material assim fabricado é chamado adobe. Quando os blocos de adobe são primeiro moldados à mão n a sua forma apropriada e, em seguida, endurecidos ao sol, antes, de utilizados n a construção, conservam o nome de tijolos manuais. Obtêm-se melhores resultados, se os blocos tiverem todos o mesmo formato, metendo o material, enquanto moldável, dentro de formas de madeira. São chamados tijolos de adobe, para, se <listinguirem dos tijolos cozidos no forno. Foram, de facto, usados por volta de 3000 a. C , mas só em palácios e templos. Num clima quente e seco, os tijolos secos no forno constituem um luxo desnecessário, con-


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CO

sumindo, sem vantagem, trabalho c combustível quo eram escassos. Os tijolos de adobe assentam sobre argamassa húmida também de adobe e a superfície das paredes é geralmente coberta com uma massa de adobe que pode, em seguida, ser caiada ou pintada. Em clima seco, e desde que o topo das paredes esteja protegido por largas goteiras de colmo, lajes de pedra ou telha, uma casa de adobe ou de tijolos de adobe pode durar um bom par de gerações, talvez mesmo dois séculos. Na Ásia Sudoeste e Central, o tijolo de adobe continua sendo o material usado na construção das casas. Onde, porém, a chuva é mais pesada, como em cerí;as regiões da Turquia e •da Península Balcânica, os alicerces das paredes tom que ser formados por duas ou três fieiras de pedra que .suportam a massa dos tijolos.

Fig..-1 .1) Tijolo plano-convexo;

2) r Disposição de peixe

ãos tijolos

em

espinha

Alguns tijolos antigos, embora feitos em molde, têm uma forma muito diferente dos actuais. Os mais antigos, usados na Mesopotâmia, eram estreitos como telhas. Em seguida,' . no período chamado dinástico Antigo, entre 2750 a. C. e 2350 a. C., -foram substituídos pelos cha-


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mados tijolos plano-convexos, direitos numa face, mas em forma de almofada na outra. Estes tijolos aparecem, muitas vezes; dispostos, não horizontal, mas obliquamente, tendo cada série, alternadamente, uma direcção oposta. à anterior. Um par de filas parece-se assim com uma espinha de peixe. As vezes, as pedras são também dispostas da mesma maneira, dando origem à alvenaria em espinha ãe peixe que se encontra em redor do mar Egeu durante a Antiga Idade do Bronze e que ainda se pode encontrar nas represas da Espanha e da Cornualha. Mas a disposição dos tijolos em forma de espinha de peixe não se destinava a ser vista, pois era coberta por uma camada de adobe. Um conjunto de construções feitas com massa ou tijolos de adobe e ocupado durante muitas gerações é um exemplo clássico de uma estação estratigrafada (4). As.paredes feitas com estes materiais desfazem-se e transformam-se em poeira. Nesse caso, o nível do campo em que as povoações estavam construídas sobe pela acumulação dos restos, habitualmente atirados para as estreitas ruas que separam as casas. As paredes em ruínas podem então ser arrasadas e postas ao novo nível das ruas e os restos (que mais não são do que terra) espalhados sobre o chão anterior e aplanados. A superfície assim preparada serve de chão a novas construções cujas paredes se levantam sobre o novo nível da rua e, mais ou menos verticalmente, acima da primeira casa. A repetição deste processo produz uma colina artificial, vulgarmente designada pelo termo árabe tell, mas chamado «hiiyiik» na Turquia, «tepe» no Irão, «maghoula» ou «mogila» nos Balcãs e «kurgan» na Ásia Central; mas os dois últimos são também termos designativos de elevações funerárias. As planícies dos Balcãs, Sudoeste da Ásia, Paquistão e Ásia Central aparecem assaz densamente matizadas de montes representativos de cidades, vilas e povoados, e ainda hoje se pode assistir à sua formação no Iraque


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o n a índia. Alguns atingem imponente altura: Tepo Gawra, no Kurdistão, levanta-se 30 m acima da planície. I\To entanto, alturas como esta são r a r a s e os seus topos, habitualmente, passam a ser ocupados por cidadelas ou locais sagrados. Um arqueólogo pode encontrar num tell, apresentando com nitidez, n a ordem exacta da sequência, vestígios e monumentos próprios dos períodos que se sucederam. Massas consecutivas de vestígios arqueológicos são dispostas em ordem estratigráfica. A recuperação destas massas de materiais, por meio de escavações, apresenta, contudo, interessantes dificuldades e armadilhas. Não sendo as paredes e tijolos de adobe mais que terra, torna-se extremamente difícil distinguir a terra do tijolo d a não trabalhada, com que foram feitos, em que se tornaram e onde foram encontrados. Só a experiência pode revelar a s subtis diferenças de textura e de cor que pode levar a estabelecer essas diferenças. Numa superfície nivelada e desbastada, onde perfeitamente se veria o plano de uma casa de madeira, poderá não ser possível encontrar as ruínas de adobe, se uma ou ambas a s faces da parede não tiverem sido pintadas. Neste caso, o topo d a parede seria marcado por uma ou duas linhas brancas ou coloridas muito ténues, só discerníveis num corte horizontal bem definido. Poi desta forma descoberto, em Uruk, na Mesopotâmia, o antiquíssimo «Templo Branco» e o seu antecessor. E m segundo lugar, a t e r r a com que são feitos os tijolos de adobe ou com que se enchem os troços de parede pode apresentar vestígios deixados pelos ocupantes anteriores e que passam assim p a r a u m nível histórico superior àquele a que cronologicamente pertenciam. P o r exemplo, os antigos fizeram e partiram milhares de vasos pintados, podendo encontrar-se um grande número dos seus cacos nos lugares .onde havia povoados. Alguns deles misturaram-se com o adobe usado em edifícios muito mais recentes — o Templo Branco, em Uruk, 6


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um desses casos; foram aí encontrados restos de cerâmica em camadas referentes a períodos muito posteriores, quando essa cerâmica já se não usava. Finalmente, em relação a um téll, mais do que sobre uma caverna, um investigador não se deve esquecer de que os homens podem —neste caso precisam mesmo de assim proceder—• ter abertos poços, depósitos do lixo, canais ou túmulos abaixo da superfície do solo em que vivem; caídos nesses buracos, certos vestígios de objectos utilizados pelos homens desse tempo podem assim passar i a estar no nível dos objectos há muito cobertos de terra. Em princípio, o pesquisador (5) deveria seguir os níveis do solo, reconhecer as aberturas dos poços ou túmulos e atribuir o seu conteúdo ao nível que lhe pertencia. Mas este método de escavações consome muito tempo e dinheiro. Podem obter-se algumas informações de uma forma muito mais barata e rápida, abrindo um poço-teste (6), perfurando os vários níveis de um téll, conservando juntos os vestígios encontrados à mesma profundidade (em regra, encontrados 0,5 m abaixo de um ponto de partida convencionado). Só se podem tirar conclusões de uma escavação, tal como numa sequência estratigráfica, quando se parte de vestígios suficientemente numerosos, isto é, desde que cada conjunto estratigráfico esteja representado por algumas centenas de espécies. Suponhamos, por exemplo, que três tipos de cerâmica, A, B c C, foram sucessivamente usados, em quantidade, pelos ocupantes de um lugar. Podem ter sido encontrados cacos de cerâmica A em todos os níveis, mas 80 % deles estarão concentrados no nível-base. Da mesma maneira, alguns cacos de cerâmica C desceram do topo para baixo, podendo encontrar-se cerca de 5 % na base, enquanto no nível do topo foram encontrados 75 %. Da cerâmica B foram encontrados 10 % no nível mais elevado, 70 % no nível médio e 15 % no nível mais baixo. Estas cifras fornecem uma prova estratigráfica satisfatória de que os

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três estilos se seguiram uns aos outros na ordem A, B e c. Graças aos grandes números disponíveis, foi possível descontar o deslocamento individual dos diferentes objectos. Para um simples selo ou para um alfinete encontrado, por exemplo, no nível médio, não há qualquer garantia de não ter sido incorporado num tijolo com o entulho das ocupações anteriores ou de ter caído num corredor ou abertura feitos por um rato. Nas zonas onde há chuva bastante para provocar o desenvolvimento da floresta, a madeira é o material de construção mais vantajoso. Mas a madeira só sobrevivo em excepcionais condições, como seja em desertos (onde. no entanto, quase não existem árvores) ou em pântanos. Pelo menos, nos solos normais, os planos das casas de madeira podem ser reconstituídos por meio de técnicas especializadas. As paredes e o tecto podiam ter estado apoiados em postes, firmemente assentes no subsolo. Mesmo que a madeira tivesse apodrecido, os buracos onde estiveram os postes podem ter ficado cheios de uma camada de solo virgem (quer dizer, o subsolo abaixo do húmus e desprovido de raízes de ervas e de arbustos); é muito mais difícil encontrar buracos ãe postes no solo remexido, como seja, por exemplo, um depósito. Num campo liso, os buracos apresentam sinais escuros, ou, pelo menos, sinais donde saem raízes, enquanto o campo envolvente está limpo delas. Normalmente, podem encontrar-se, no fundo do buraco, alguns pedaços de madeira carbonizada, ao mesmo tempo que, à volta, se acumulariam pedras. Quanto à terminologia, de «buraco jtfara poste», será o buraco aberto para receber um poste; a marca de um poste cravado verticalmente na terra é chamada soco ãe poste. Os socos de poste mais delgados podem chamar-se buracos ãe estaca. As cavidades dos postes são suficientes para definir o plano de uma construção, embora os que suportam a cimalha do telhac'o


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nem sempre se possam distinguir dos que suportam as paredes de u m a divisão. O espaço entre os barrotes de suporte pode ser tapado com turfa, adobe, tijolos de adobe, um entrançado de adobe (isto é, vimes entrelaçados e argamassados com adobe ou estrume), ramos ou plantas colocados topo a topo ou troncos dispostos horizontalmente. O sistema de construções horizontais feitas com troncos recebe, muitas vezes, w designação de arquitectura de barrotes. O entrançado (onde as varas ou troncos de árvore estão dispostos em vertical) é normalmente colocado numa estreita trincheira que pode se/ determinada pelo processo a t r á s referido para a determinação dos orifícios dos postes. Se as paredes tiverem sido feitas ou cobertas de barro, só poderão ser definidas se a casa tiver ardido: o barro cozeu, e tornou-se tão imperecível como a cerâmica ou os tijolos feitos ao forno. As traves das paredes involuntariamente queimadas podem ter ficado de pé, espalhando-se pelo chão fragmentos da argamassa de barro assim cozido e tendo as marcas das traves ou do entrançado. N a verdade, chegaram até nós bocados cozidos do telhado de barro, fragmentos das moldagens que adornavam os remates, como cabeças de touro em barro e até sinais do encruzamento das vergas! Nas cabanas de madeira, a trave da base pode ter deixado uma m a r c a pouco profunda no solo, podendo mesmo não terem existido traves que. nele tivessem sido cravadas: em vez de estarem metidos n a t e r r a d o s suportes verticais das paredes e do tecto podem ter sido encaixados numa sólida viga horizontal chamada viga de suporte. Quando a viga de suporte assenta no solo ou está metida nele, numa trincheira própria, a s linhas gerais da construção ainda são recuperáveis por uma cautelosa técnica. N o entanto, podem também assentai (como sucede, por exemplo, com as casas norueguesas contemporâneas) sobre blocos de pedra. Quando assin? acontece, a menos que as pedras estejam dispostas cor» I. A., —5


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perfeita regularidade e sem interrupção, pouca esperança há na reconstituição do plano de construção ou até no reconhecimento da sua existência. Quando as casas de madeira foram sucessivamente levantadas no mesmo local, as suas ruínas nunca constituem camadas sobrepostas semelhantes às que se formam com as casas de adobe. Nas zonas arbóreas da Eurásia, ao norte do Pó e na planície húngara não há tclls. Quando uma sequência de casas assentes em postes cx'avados na terra permanece muito tempo no mesmo lugar, nada mais resta do que um labirinto de orifícios no chão. Uma observação cuidada dos seus planos discriminados pode revelar grupos de buracos formando um mcdelo-padrão — o plano de uma casa—, pertencente, portanto, a um determinado período. Mas, como os orifícios estão todos no mesmo nível, a estratigrafia não fornece qualquer informação sobre a sequência destes períodos arquitectónicos. Uma observação minuciosa do campo pode revelar casos em que os .orifícios dos postes se cruzam uns com os outros e cortam as trincheiras de alicerce. Neste caso, é possível determinar-se a ordem das construções a que pertencem os respectivos orifícios. As tendas ou cabanas cónicas de turfa podiam estar apoiadas num simples barrote colocado ao centro e que não precisava estar enterrado na terra, assentando numa pedra lisa que, por seu turno, não deixava qualquer indicação de existência. As colunas soltas de madeira podem também assentar em bases de pedra. A função dessas pedras revela-se em relação com outros aspeetos —por exemplo, quando uma delas ocupa o centro de um arco de pedras podia ter servido para segurar os panos de uma tenda; quando aparecem quatro pedras à volta do mesmo centro, estariam geometricamente à volta de uma lareira. Ou, então, as pedras de apoio podiam ter sido cuidadosamente preparadas para servir de base às colunas, como sucede nos palácios minóicos e micénicos.

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A pedra só era um material de construção económico nas regiões rochosas e sem árvores. Mas a sua maior duração e outras considerações menos racionais deram-Ihe um tal prestígio que as sociedades, convenientemente equipadas com utensílios adequados, passaram da arquitectura de madeira ou tijolo para a de alvenaria na construç��o de templos e palácios. Estes eram copiados pelas' habitações privadas por quem se podia permitir um tal luxo. Para fazer paredes, o pedreiro podia usar calhaus apanhados do chão ou lajes e blocos de faces paralelas — cubos ou paralelepípedos —- tirados das pedreiras. Algumas rochas, como o calcário de Cotswold ou a ardósia de Caithness, cindem naturalmente em lajes finas, que se podem encontrar numa praia ou junto a rochedos, já partidas e em pequenas - dimensões. Quando estes materiais não são suficientes ou não existem no local nas formas e dimensões utilizáveis, poderão ser encontrados em pedreiras das proximidades. Estas lajes planas podem ser colocadas umas sobre as outras, com ou sem argamassa de barro, construindo-se muros com a altura de 3 m ou mais. A aldeia neolítica de Skara Brae, em Orkney, foi assim construída, na sua quase totalidade, com blocos já afeiçoados e apanhados numa praia próxima. Os diques de Drystone foram também construídos com lajes não trabalhadas, embora os seus construtores dispusessem de bons utensílios de ferro. Qualquer construção deste tipo em que se não emprega argamassa é chamada alvenaria de pedra vã. 32 evidente que o uso de argamassa não só ajuda a anular as correntes de ar e a humidade como ainda aumenta a estabilidade e a duração da parede. No entanto, em Skara Brae podem ver-se paredes de pedra, com cerca de 2,5 m de altura, que se conservaram durante três mil e quinhentos anos; a torre de 12 m, também de pedra vã, que se eleva em Mousa, nas Shetland, tem, pelo menos, vinte séculos.


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Com boa argamassa é possível construir paredes robustas e estáveis, usando seixos irregulares ou calhaus em bruto de rocha refractária. As igrejas de East-Anglia feitas de pedaços de sílex mostram bem a duração paredes. Mas sem argamassa não é possível levantar um muro com seixos rolados não preparados, a menos que seja excessivamente largo. Obtêm-se os melhores resultados dispondo de grandes pedras na orla da parede ou na base, como anteparo. Uma fila de calhaus-rolados, ou, melhor ainda, duas filas paralelas, dispostas na orla e com cascalho a encher as gretas e a ajustar o topo, podem suportar perfeitamente .massas de seixos mais pequenos formando uma cabana baixa. Quando os grandes blocos estão colocados verticalmente sobre a base podem chamar-se ortostatos, checando a ter tamanho suficiente para atingirem o telhado sem quaisquer acrescentamentos suplementares de pedras menores. Mas como os rudes ortostatos não têm a mesma altura e pouco mais "têm do que um perfil rectangular, podem-se colocar entre eles pedras mais pequenas para enchei- os intervalos e aumentar as paredes, constituídas pelos blocos mais baixos. A construção ortostática era principalmente usada nos túmulos, tendo sido chamada construção megalítica. Embora etimologicamente esta designação se refira à dimensão das pedras, convencionou-se restringi-la aos monumentos sepulcrais; para as construções seculares feitas com grandes pedras, como por exemplo as muralhas de Tirinos. ou de Bogaz-Kõy, é preferível usar-se o termo «ciclópico». Podem construir-se paredes seguras sem argamassa quando os blocos que estão junto uns dos outros forem preparados para que as margens adjacentes se ajustem. Em geral, a faço externa é também aplanada. Os blocos talhados não apresentam os lados necessariamente paralelos: as muralhas das cidades arcaicas gregas eram feitas com blocos poligonais. No entanto, as muralhas de pedra mais duradouras e económicas eram feitas com blocos talhados úo


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modo que as faces fossem paralelas. Estas pedras dispõem-se em filas horizontais, conservando normalmente a mesma largura, ao longo da parede; ê o chamado trabalho ou alvenaria silhar. Como muitos dos blocos têm as mesmas dimensões e são intermutáveis, pode fazer-se a produção em formas-padrão, enquanto que na alvenaria poligonal cada bloco exige; um complemento Individual vizinho para que fique bem ajustado. Tanto na alvenaria silhar, como nas construções em pedra vã com pequenas lajes, como ainda no trabalho em tijolo, as linhas de contacto entre os blocos de uma fila nunca devem coincidir com as linhas de contacto das filas imediatamente superiores ou inferiores. Uma linha ãe contacto contínua, isto é, uma linha de contacto . seguindo verticalmente através de várias filas, revela do forma inequívoca que houve acrescentos ou alterações. As paredes de pedra, e de tijolo têm usualmente a espessura de duas filas paralelas dos elementos componentes. Uma forma adequada para dispor as duas filas paralelas consiste em fazer uma alternância na disposição do comprimento com a largura nos elementos componentes. Os blocos ou tijolos colocam-se em filas paralelas, alternando os que as dispõem em comprimento com os dispostos em altura. Muitas vezes, põe-se uma massa de entulho entre as duas faces interiores da parede. S perfeitamente possível encontrarem-se paredes de pedra assentes sobre rocha. Este facto exige a abertura de uma trincheira de apoio, de forma que a base da parede esteja um pouco abaixo do nível do solo. Os primitivos construtores, porém, desprezavam muitas vezes esta precaução. As paredes das casas de Skara Brae (P. 67) estão assentes na areia, embora algumas delas tenham a altura de 2,5 m e se conservem levantadas desde há três mil anos. Mas quase todas as muralhas de pedra assentam; numa espécie de plinto, isto é, sobre uma ou mais filas de lajes planas mais largas que a parede nelas


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assente, passando, deste modo, para fora da linha da parede. A derrocada de uma construção de pedra ou de tijolo leva à formação de uma pilha irregular de blocos, tornando o lugar impróprio para nova construção. Se esta tivesse que se levantar no mesmo sítio, seria preciso retirar todo aquele material, os blocos intactos voltariam provavelmente a ser usados na nova construção e sobre o antigo nível assentar-se-iam novos alicerces. Quando os restos das bases das antigas paredes se conservaram, os espaços abertos têm que ser cheios com entulho que pode conter objectos anteriores à nova construção. Não devo confundir-se o entulho assim colocado com um deposito de ocupação. Além disso, as construções de pedra é tijolo podem ter caves —adegas, armazéns, criptas ou masmorras — construídas abaixo do nível do solo, e sobretudo abaixo do nível do solo na altura em que foram construídas. As caves tendem a conservar-se, mesmo quando foi inteiramente arrasada a construção propriamente dita. ffi por isso que os mais importantes vestígios dos palácios de Creta minóica são filas de estreitas divisões de armazenagem, sendo possível encontrar quase intacta a cripta de uma antiga igreja, mesmo quando a nave e as capelas desapareceram. Estas estruturas subterrâneas ou semi-subterrâneas não são de modo algum só construções de alvenaria silhar ou de tijolos cozidos no forno. As casas térreas da Escócia, os fogous da Cornualha e os subterrâneos da Irlanda e da França são adegas e refúgios subterrâneos feitos com paredes de pedra vã e cobertos com pedras ou lintéis de madeira ao nível do solo e que se encontravam junto das débeis habitações da Idade do . Ferro que, normalmente, não sobreviveram. . í Três mil anos antes, já tinham sido abertas e pre? paradas caves muito semelhantes na aldeia pré-dinástica | de Maadi, perto do Cairo. Os vestígios encontrados no chão destes anexos subterrâneos devem ser contempo-


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rtoeos das construções a que pertencem. . Mas também é frequente que essas construções subterrâneas tenham sido propositadamente entulhadas; sendo assim, o material utilizado pode conter objectos mais recentes do que aqueles que se poderiam encontrar no chão da habitação anexa. As estações domésticas consistem num certo número de construções diferentes. .Mesmo uma herdade isolada ou separada de outras compreende, além da casa de habitação, um estábulo dè vacas, um celeiro, uma casa de tecelagem e outros adicionais. Normalmente, as habitações agxupam-se em lugarejos, aldeias, vilas e cidades. Pelo menos nestes últimos aglomerados, além das casas de habitação há um ou mais templos ou igrejas, um palácio ou um edifício da «edilidade» e outros edifícios públicos. Além disso, uma povoação pode estar rodeada de defesas, ou, pelo menos, de valados, para afastar as feras, e necessita de ruas e travessas calcetadas, pavimentadas (com lajes) ou feitas com toros de madeira (finos ou grossos dispostos horizontalmente). A escavação completa de um povoado com a indicação das habitações é das funções dos vários edifícios pode dar-nos informações sobre a demografia económica é a sociologia dos habitantes. As instalações habitacionais, incluindo as caves, fornecem os melhores elementos para uma divisão , estratigráfica dos vestígios arqueológicos locais é, era condições favoráveis, fornecem excelentes indicações sobre a vida quotidiana do grupo social em causa. Mas podem muito bem não fornecer objectos inteiros ou espécies cuja exibição não interesse aos museus. Os objectos para esse efeito devem procurar-se nos túmulos.

III — Locais de enterramento Os achados arqueológicos mais sensacionais, as espécies mais espectaculares que os museus apresentam, provêm dos túmulos pagãos. O leitor deve ter lido, visto


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ou ouvido falar dos tesouros do barco tumular saxónieo de Sutton-Hoo, do túmulo de Tutankamon, dos Túmulos de Colunas de Mícenas e do cemitério real de Ur. Talvez não saiba que a imensa maioria dos vasos gregos e das fig-uras chinesas de porcelana, para não falar das espadas pré-liistóricas de bronze, dos mais humildes vasos beafcer e das urnas cinerarias, são, na sua imensa maioria, achados funerários.. Sem eles, os arqueólogos quase só conheceriam os cacos encontrados nos locais de habitação..Além disso, alguns achados funerários constituem a melhor prova de «associação» (p. 16). Em contrapartida, é raro obterem-se dados estratigráficos nos depósitos sepulcrais. 28 conveniente fazer a distinção entre sepultura e túmulo e entre ambas estas ;designações e os monumentos funerários de superfície. Embora esta divisão não seja muito lógica e não possa ser. mantida com rigidez, terá que ser seguida neste capítulo. As sepulturas são, essencialmente, aberturas no chão — poços, covas ou covais. Podem ser forradas de esteiras ou entrançadas de vime, de madeira, tijolo ou lajes de pedra. Uma sepultura forrada de lajes tem tecnicamente o nome de urna, ou melhor, de urna de pedra, porque a expressão «urna de tijolo» é vulgarmente aplicada às sepulturas forradas de tijolo. Nas Ilhas Britânicas, é corrente disting-uir-se entre urnas curtas e urnas longas. As primeiras são normalmente forradas de quatro lajes dispostas topo a topo e cobertas por outra. Têm as dimensões suficientes para alojar um esqueleto contraído (acocorado) e, em Inglaterra, pertencem, g-eralmente, à Idade do Bronze. As urnas longas eram destinadas a conter o cadáver estendido ao comprido, de forma que, para as construir, tornava-se necessário um certo número de lajes dispostas lado a lado. As urnas long-as mais características nas Ilhas Britânicas pertencem aos primeiros tempos do Cristianismo e algumas à Idade do Perro.


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As escavações mais profundas destinadas a sepultura podem chamar-se covaís. Muitas vezes há nelas uma saliência nas paredes laterais 60 cm acima do fundo para segurar uma cobertura. No Sul da Rússia, nas sepulturas de coval é frequente a existência de estacas de madeira que constituem as vigas de suporte para a cobertura do túmulo, ficando as bordas da laje assentes nessa saliência. No fundo da campa, numa das paredes laterais, pode estar aberto um nicho, sendo o lugar que verdadeiramente serve para enterramento. A esta escavação chamamos habitualmente covql ãe nicho. Mas um coval de nicho é já um túmulo, poit qualquer receptáculo especial mais elaborado do que--v .na simples cavidade vertical tem essa designação. Os túmulos podem ser ou escavados ou construídos, no todo ou em parte, acima do nível do solo. A maior parte deles consiste numa ou mais câmaras onde se entra por uma espécie de vestíbulo, muitas vezes precedido por uma passagem. Um túmulo era,, afinal, a habitação do morto e podia imitar uma casa ou um palácio. Mesmo nos cemitérios cristãos e nos princípios do século xix, é frequente encontrarem-se nos túmulos réplicas de frontarias de prédios. Os túmulos de um faraó ou de um nobre egípcio eram uma reprodução, talhada na rocha, viva, de um palácio, e provida de uma série de divisões, incluindo as latrinas e um harém! Este túmulo era feito para alojar os restos mortais de um só indivíduo, pois nesse tempo considerava-se que as esposas, as concubinas e os criados podiam ser magicamente fornecidos. Mas havia também outras séries complicadas de câmaras subterrâneas, como, por exemplo, o hipogeu neolítico de Hal Saflieni, em Malta, muitos túmulos da Idade do Bronze em Chipre e as catacumbas de Roma. Entre estas mansões ou labirintos subterrâneos e o simples coval de nicho há toda uma série de formas intermediárias. Os túmulos subterrâneos de câmara, cujas paredes e tecto


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não foram montados, são considerados como talhado;-; na rocha, mesmo que a «rocha» seja barro endurecido. As portadas dos túmulos talhados na rocha são, muitai vozes, laboriosamente trabalhadas, procurando, por exempio, imitar uma porta de madeira. Aqueles podiam ser fechados por uma pedra pesada ou por uma autêntica porta. A menos que o túmulo fosse talhado na face de uma rocha em escarpa, vertical, o acesso tinha que ser feito por um ãromos (passagem em declive ou rampa) ou por uma escada. Na l. a dinastia egípcia construíram-se lances regulares de degraus talhados na rocha para acesso aos túmulos. Noutros casos, como em Chipre, havia só que sustentar um tecto de rocha que bastava um poço vertical com uma única saliência servindo de degrau para nos fazer chegar à câmara sepulcral. A abertura da entrada ou da escada podia tomar a forma de um portal. Estava quase sempre cuidadosamente escondida e toda a passagem ou escada bloqueada com entulho. Quando o subsolo ou a existência de rochas não permitiam a escavação de câmaras subterrâneas, podia' construir-se um túmulo na extremidade de um grande coval ou do um largo valado aberto na encosta de uma colina. No cemitério real de Ur (7), o túmulo do «rei» ou da «rainha» era construído numa semicâmara em tijolo de adobe ou em calcário, no fundo de um enorme fosso e para onde se entrava por uma rampa .descendente. Os corpos dos servidores, assim como o esquife e outros acessórios, eram deixados no chão do fosso, fora da câmara funerária; em seguida cobria-se tudo com terra. Também se fizeram casas mortuárias de madeira para os chefes hallstatianos da Europa Central, para os reis citas do Sul da Rússia e para os príncipes no Altaí (8), Instalados muitas vezes em solos húmidos, estes túmulos chegaram até nós quase intactos; o mesmo sucedeu nos lugares onde o gelo conservou quase toda a estrutura, juntamente com os tapetes e as colgaduras. (Ao mesmo tempo esses túmulos mostram-nos as construções de


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madeira onde então se alojavam os seres vivos.) Mas na Inglaterra e Sul da Rússia os únicos vestígios que chegaram até nós, para nos mostrarem que os restos mortais de' alguns chefes eram colocados em tendas ou cabanas mortuárias, foram os orifícios deixados pelas estacas espetadas no chão. A direcção dos orifícios mostra-nos que as estacas convergiam num ponto central. As casas mortuárias eram também feitas de madeira e acima do nível do solo; de facto, encontramos vestígios de que assim sucedia nos harrows da Holanda, da Suíça c da Escócia. Reciprocamente, algumas das câmaras de pedra, cuja descrição se fará a seguir, foram, de facto, construídas em valas, covais ou campo aberto na encosta de uma colina. Algumas destas câmaras de pedra são vulgarmente consideradas como urnas e estão de acordo com a definição dada na p. 72, salvo se forem dotadas de porta ou de entrada. Mas quando são subterrâneas mas não dotadas de quaisquer ãromos ou poço de acesso, as «entradas» são justamente «portais dos mortos», sendo os cadáveres introduzidos levantando as lajes do tecto ou as lajes de topo, tal como numa urna vulgar. Os túmulos de pedra mais célebres e importantes são chamados megalíticos (9). Este termo, inicialmente aplicado às câmaras de enterramento de paredes e tecto constituídos por blocos gigantescos de pedra n u a — a que agora podemos chamar ortostatos (ver p. 68), também tem sido usado para designar câmaras cobertas, de plano semelhante, mas com as paredes feitas com filas de calhaus e cobertas por uma falsa cúpula. Parte-se do princípio de que os túmulos em questão foram artificialmente colocados abaixo da linha do solo e cobertos por um monte de terra ou por uma pilha de pedras, embora em muitos casos não existam vestígios dessa cobertura,. Os túmulos megalíticos têm sido tradicionalmente divididos, conforme o seu plano, em dólmenes simples (em dinamarquês, ãysser), dólmenes de galeria (em francês,'


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V. GORDON C3ILDW1

ãolmens à galerie, em alemão, Ganggriiber) e túmulos em corredor coberto ou em galeria de lajes (em francos, allées convertes, em sueco, hãUMsior).

1) Dólmcnj 2) Túmulo de passagem; 3) Dólman ãc galeria com pedra ãc escotilha

Os dólmenes são constituídos por quatro pedras de suportfe e uma simples laje de cobertura, e, deste modo, só diferiam das urnas pela dimensão das pedras. De facto,


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imcialmente, os dólmenes dinamarqueses (ãyners) eram destinados a conter um só corpo estendido. Os dólmenes são a forma mais simples de monumento megalítico, mas só na Dinamarca é que parecem ser mais antigos do que os outros tipos. Nos dólmenes de galena, a câmara é mais larga e mais alta do que a passagem por onde eram introduzidos os corpos. Nos túmulos de corredor coberto, a câmara, em si, é comprida e estreita, precedida somente por um átrio baixo ou antecâmara, normalmente da mesma largura. Não deverá exagerar-se o significado destas diferenças, e a determinação de um túmulo como pertencente a um ou outro grupo é, muitas vezes, uma questão de preferência pessoal, como sucede, por exemplo, como os «dólmenes de galeria indiferenciada» ou os «dólmenes de galeria transeptada» propostos por Daniel. Ambos os tipos de túmulo podem apresentar nichos ou celas abertos na câmara principal. Pelo menos, algumas vezes, os nichos eram autênticos receptáculos de corpos, também depositados numa cavidade aberta no chão da câmara.

Fig. 3

Corte ãe uma cúpula falsa (1) e verdadeira (2)


V. GOBDON CH1LDL

Numa forma especial de dólmen de galeria, clássica em Portugal e que Daniel designa por «dólmen de galeria paviana», em virtude do nome da vila onde a|jareceu, a câmara é um polígono regular. Quando feita de alvenaria, uma dessas câmaras tornava-se circular; com o seu telhado em cúpula, tomava a forma de uma colmeia. Estes túmulos em forma de colmeia são habitualmente chamados tholoi'—palavra grega originalmente aplicada às câmaras com essa forma ou a rotundas cujas funções não eram sepulcrais. Existem tholoi em Portugal e na Espanha, juntamente com túmulos ortostáticos de galeria. Mas os mais célebres tholoi encontram-se na' Grécia mi cénica. A maior parte deles é construída num perfeito f trabalho de alvenaria silhar, e alguns deles, como o -. «Tesouro dos Atrídas», de Micenas, apresentavam portais \ ornados. (Parte do portal deste último foi retirado por t Lorde Elgin e está actualmente no Museu Britânico.) Na Sicília, também se encontram, abertos na rocha, túmulos em colmeia de plano idêntico ao tholoi. Na verdade, têm-se encontrado, reproduzidos em câmaras talhadas na rocha, quase todos os tipos de túmulos megalíticos. As diferentes escolas de pré-historiadores atribuem prioridade às câmaras talhadas na rocha, aos tholoi em urna, aos dólmenes ortostáticos de galeria, ou ainda procuraram mostrar que o método de construção foi condicionado pelas formações locais. Nenhuma destas teorias conseguiu aceitação geral. Os túmulos de galeria não são, de modo algum, exclusivamente pré-históricos,* e o próprio Santo Sepulcro não era mais que um túmulo cavado na rocha. Nos tempos clássicos, helenísticos e romanos foram construídos muitos túmulos em colmeia em alvenaria silhar ou em tijolo cozido, tais como eram provavelmente construídos na Antiga Grécia, na Etrúria, na Trácia Anatólica e à volta âo mar Negro. A própria construção ortostática foi utilizada nos tempos históricos, embora os povos conhecedores da escrita fossem geralmente capazes de Ievan-


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INTRODUÇÃO

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ARQUEOLOGIA

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lar ortostatos, megalíticos pelas dimensões mas não pela rudeza das formas. As paredes dos túmulos megalíticos eram, por vezes o em especial na Bretanha e na Irlanda, embelezadas com esculturas, gravuras ou pinturas. Os temas são apresentações altamente esquematizadas de rostos, seios, machados, adagas, etc./ ou então padrões puramente geométricos», como, por exemplo, espirais e losangos. Aos tempos históricos, as paredes tumulares eram decoradas com pinturas mais vivas ou esculturas mais realistas. No Egipto são vulgares as pinturas tumulares. Os túmulos etruscos, trácios e citas apresentam também belas e elucidativas cenas. _ Como vimos, o portal de um túmulo de câmara era oDjecto de atenção especial. Neste livro não teriam sentido descrições pormenorizadas; no entanto, merece referencia especial um tipo de entrada associado aos túmuda B r i t í í i f Í ° t\e( Í n C lFUrÍannd S° a °SSU 1-th0M) Suécia,-Ilhas d aEs anha e SfTrtt ^ ' P Portugal, Sul da Itália, Bulgária, Cáucaso, Síria e índia PeninsularZn A ^ e s c o t i I h a instituída por uma laje está colocada num dos topos do túmulo megalítico ou inter' S S L * gãlerÍã d e p a s s a ^ m ; n e ^ foi aberto um buraco câmara r T / ? C t a ^ U l a r P e l ° •*** se tinha acesso à n o ™ T r í U a m - ( E S t a a b 6 r t U r a P ° d e s e r instituída por uma fenda espaçosa na base de uma laje, semelhante

ou Zr 17* feZer ^ 6 n t r a d a d e u m t o c a d * cão par de ^ f ^ e m i c i r c u I ^ e s feito* .nas bordas de um orffioio 1 J ° ^ E U r ° P a 0 c M e n t a I > e s t a s P edr ^ com í r ; C e m M a t e t a r a d 0 ^esso em qualquer fapo de tumulo megalítico, embora sejam mais frequentes r " em f a t T * ^ ^ n 0 CáUCaS° e »a M i a " a P mas r G ^ S S m e g : a I í t i c a s <«P° dólmen). Nestas úítitâ0 T e um S ^ abCrtUraS Sã°' e m ^ Pequenaa

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pessoas conduzindo corpos para o interior

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Contrapor túmulos a monumentos é, evidentemente, ilógico. Um barroto —que pode ser um amontoado de terra ou de pedras — é indiscutivelmente um monumento. Mas a maior parte dos túmulos de câmara estão cobertos por um barrow, que vulgarmente faz parte integrante do túmulo e desempenha um papel específico no ritual funerário. Nas Ilhas Britânicas, por exemplo, a entrada para um túmulo megalítico abre muitas vezes para uma antecâmara semicircular, delimitada por uma muralha ou um arco de ortostatos que constituem simultaneamente fachada e o revestimento interior do montículo de terra. No entanto, para fins de exposição, podemos, em geral, descrever os barrows sem referência aos túmulos que cobrem. A maior parte dos barrows, de facto, não cobrem um túmulo no sentido em que estamos empregando o termo, mas uma simples campa ou mesmo um corpo deitado à superfície do solo, ou refere o sítio onde foi levantada a pira funerária. Os barrows, incluindo neste termo tanto os montes de terra como as pilhas de pedras, podem ser redondos ou compridos, embora a imensa maioria deles sejam do primeiro tipo. Alguns «barrows» longos têm exactamente o tamanho suficiente para cobrir uma câmara alongada, como que um túmulo de galeria, mas na Grã-Bretanha e na Polónia sãó muito mais compridos do que seria necessário para esse fim, enquanto que na Dinamarca e no Norte da Alemanha foram enterrados debaixo de túmulos rectangulares alongados dólmenes simples. E possível que nunca tivesse havido barrows constituídos só por um monte de terra ou por pedras empilhadas. As escavações mostraram que muitos deles foram construídos com cuidado e cerimonial segundo um plano prévio. A própria elevação pode ter sido sustentada por uma parede de turfa, pedras ou tijolos, por uma série de ortostatos de pedra ou por vigas de madeira ou ainda por duas ou mais linhas concêntricas de paredes ou paliçadas. Ê matéria de discussão saber-se, em cada caso,


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ARQUEOLOGIA

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se na forma final do monumento as paredes ou os suportes eram ou não visíveis: actualmente, em regra,, aparecem cobertos de terra ou de entulho. O arco de suporte constituído por pedras verticais tem a designação técnica de pe?"isíáZiío («peristaxil» deveria ser o termo aplicável às vigas de madeira, mas nunca foi usado) e a parede de suporte, em pedra, chama-se crepis. O crepis em torno da base dos túmulos históricos é geralmente feito cm alvenaria silhar que pode estar aperfeiçoada com pilastras ou mesmo com um friso escultural. O monte, mesmo quando formado principalmente por terra, pode estar coberto por ca"1 naus de quartzo branco, por uma camada

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V. GOBDON

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de pedras ou um revestimento em alvenaria silhar. O cume pode ser coroado por um pilar de madeira, uma pedra levantada ou uma construção escultural. Um stupa budista reproduz, numa cobertura de pedra ou de tijolo, a aparência superficial de um barrow redondo ornado, embora a concavidade da sua cúpula cubra somente um pequeno fragmento ou o símbolo de um cadáver. Um barrow de terra pode estar rodeado completa ou parcialmente por um fosso ou vala. Esta servia para fornecer material para o monte, mas também devia ter, sem dúvida, significado ritual. Na verdade, à volta do túmulo central encontra-se, por vezes, um fosso em arco coberto pelo barrow. Alguns arqueólogos ingleses (10) distinguem várias espécies de fossos. Um «barrow» em taça (fig. 4, 1) começa directamente no bordo interior do fosso circundante. Num «barrow» campanular (fig. 4, 2) aparece um pequeno espaço vazio, a berma, entre o fosso e o pé do "barrow, ao mesmo tempo que pode aparecer um banco de terra fora do fosso. Num «barrow» em disco (fig. 4, 3), a terra ão fosso forma um banco externo, enquanto um ou mais pequenos montes cobrem campas na zona plana cercada pelo fosso. Finalmente, um «barrow» em tanque (fig. 4, 4) não é um simples monte, mas uma escavação em forma de travessa pouco profunda feita no calcário mole, e o material tirado é disposto em monte à volta da borda para formar um banco baixo circular de pedra (fig. 4). Depois de ter sido levantado um barrow sobre a primeira campa podem fazer-se nele enterramentos secundários. O mais recente costuma estar, em regra, num nível mais elevado do que o primeiro ou está mais afastado do centro do monte. Os barrows tiveram muitas vezes que ser ampliados, a fim de poderem receber novos corpos. A determinação das relações entre o enterramento primário e os secundários e destes últimos entre í i é o meio principal para o estabelecimento da crono-


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A ARQUEOLOGIA

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íogia relativa que se pode obter da escavação de uma estação funerária,. No entanto, não deve deduzir-se daqui que um barrow apresenta uma sequência estratigráfica linear. A cova para um chefe rico e influente pode ter sido feita mais funda do que a de um seu antecessor mais pobre e pode afastar da parte central do barrow os restos mortais deste último. P a r a melhorar e corrigir deduções feitas a partir da relação espacial entre as sepulturas, o pesquisador deve observar as intercepções dos covais e procurar determinar a partir de que nível terão sido escavados. Os acrescentamentos a um barrow aparecerão, evidentemente no corte das camadas sobrepostas ao monte original e uma vez por outra n;; sequência estratigráfica. Dificilmente poderá acontecer que um túmulo seja mais antigo do que a camada em que foi encontrado, mas pode ser mais recente. A excepção das simples pedras tumulares, o barrow é o tipo mais vulgar e quase universal de monumento funerário. Pelo contrário, os mais famosos são incontestavelmente as pirâmides do Egipto (11). N a sua origem, a pirâmide não é um barrow engrandecido e imponente (embora tenha sido emitida a opinião de que os monumentos faraónicos de pedra ou de tijolo inspiraram os quernes e túmulos dos bárbaros); são antes o desenvolvimento de uma estrutura completamente diferente. Sobre os covais tumulares dos mais antigos faraós e seus nobres levantaram-se construções rectangulares em tijolo de adobe, actualmente chamadas mastabas, abrangendo a câmara provida de equipamento funerário do morto. As paredes exteriores não tinham qualquer porta autêntica^ estando decoradas com saliências e reentrâncias alternadas, imitando possivelmente a fachada de madeira do palácio do faraó. Um nicho pintado com um falso portal servia de capela mortuária, onde eram feitas a s oferendas. O conjunto era rodeado de uma parede de tijolo de adobe. Durante a 3." dinastia, a mastaba de tijolo de adobe passou a ser feita de alvenaria e incluía


V. GOBDON CHILL

geralmente a capela funerária ampliada e a parede original de.vedação. A «Pirâmide de Degraus» destinada a Zozer, último rei daquela dinastia, pode ser considerada como quatro mastabas de dimensões" que, progressivamente, iam diminuindo, e eram colocadas umas sobre as outras. O seu sucessor, Cheops, da 4.a dinastia, estabeleceu a forma clássica. Barcos cerimoniais eram enterrados em túmulos especialmente construídos, tanto junto das mais antigas mastabas como das pirâmides. Assim como uma mastaba servia de dispensa para os alimentos destinados ao túmulo e era sua parte integrante, o mobiliário nele contido é contemporâneo do qué foi depositado na câmara subterrânea quando do enterramento. Esta afirmação não se deve estender ao conteúdo da capela funerária, porquanto as oferendas aí colocadas podem ser mais recentes do que as do enterramento. Aplicam-se as mesmas observações às várias espécies de monumentos de superfície, onde as funções da lápide "do altar e até mesmo do próprio sepulcro estão combinadas, tal como sucede no período greco-romano e nos seguintes. As sepulturas e os barrows, as câmaras tumulares talhadas na rocha ou construídas, agrupavam-se muitas vezes em cemitérios. Mas em certas comunidades o morto era, muitas vezes, enterrado dentro ou perto das casas onde vivera. Usualmente, nestes casos, o enterramento era feito em simples sepulturas, mas no Sudoeste da Ásia construíram-se câmaras tumulares ou talharam-se na rocha, por baixo das casas dos ricos citadinos. Quando assim era, bastava levantar uma laje no chão para se estar com os antepassados. A prática de enterrar as crianças no chão da própria casa era mais corrente. Quer fossem enterrados em túmulos ou em barrows, os corpos podiam ser envolvidos em esteiras ou peles e metidos num caixão de verga ou madeira, na casca oca de um carvalho, num sarcófago de pedra ou num grande vaso de cerâmica (qualquer grande vaso tinha na


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Grécia o nome de pithos, mas os arqueólogos aplicam esse termo só a vasos funerários). Habitualmente, mas nem sempre, os ossos queimados eram metidos num vaso, mais pequeno, de cerâmica, metal ou pedra, chamado uma cineraria. Um cemitério de urnas cinerarias tem a designação de campo ãe umas. Um caixão de madeira de carvalho encontrado num barrow da Idade do Bronze em Loose Howe, no Yorkshire Oriental, estava escavado à maneira de canoa, e alguns outros caixões de carvallo apresentam a forma de um barco, se acaso não são mesmo barcos. Muito depois, nã Suécia, o túmulo propriamente dito era rodeado por uma construção em forma de barco ou por um parapeito de pedras. Finalmente, no período migratório e no período Viking, que se lhe seguiu, os chefes e nobres eram enterrados em autênticos barcos com toda a sua aparelhagem. São mundialmente conhecidos os barcos funerários encontrados em Oseberg, na Noruegu, o em Sutton-Hoo, em Norfolk. Os barcos eram usualmente cobertos com um barrow, mas, com a corrupção da madeira, o monte aluía, e a sua aparência actual não tem qualquer imponência. Se um mesmo barrow cobre várias campas, é em geral possível determinar a ordem relativa dos enterramentos (p. 82). Normalmente, num cemitério de campas rasas não há estratigrafia. Por outro lado, cada campa (esteja ou não sob um barrow) contém um só corpo. Portanto, quando, na mesma campa, se encontram reunidos dois esqueletos, ambos em posição normal, é porque foram enterrados simultaneamente. Os esqueletos masculinos e femininos assim justapostos são geralmente considerados casos de sataísmo 1 . Em consequência da simultaneidade do enterramento, os artigos encontrados num só túmulo são todos arqueologicamente contempo-

1

Costume de algumas tribos indus de matar a esposa par altura da morte do marido. (N. do T.)


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râneos e constituem um exemplo clássico de associação. Os túmulos de câmara podem, também,.. conter os restos mortais de uma só pessoa, e, então, o seu conteúdo também se considera associado. Noutro aspecto, a maior parte dos túmulos de câmara são «jazigos de família» e contêm enterramentos Colectivos, tendo sucessivamente recebido, durante muitas gerações, os elementos mortos de uma mesma família, linhagem ou mesmo de um agregado mais vasto. Assim os túmulos de câmara podem conter os esqueletos de cem ou mais indivíduos, tal como sucede em certas cavernas, pois estes acidentes naturais foram, muitas vezes, utilizados ^omo sepulturas colectivas. Os vestígios encontrados nesses túmulos não são, evidentemente,, contemporâneos i só raramente as posições ocupadas pelos materiais funerários aí encontrados revelam uma sequência relativa na sucessão dos enterramentos. Além disso, os antigos, túmulos de câmara foram, por vezes, transformados em lugares de culto. Assim, os gregos do período arcaico instituíram o culto dos heróis em alguns túmulos micénicos, enquanto os gauleses do período romano depositavam oferendas votivas nos túmulos neolíticos de galeria e de corredor existentes na Bretanha. Finalmente, o saque dos túmulos constituía uma indústria rendosa e regular no Egipto, e desde o início da história escrita, em toda a parte, os barrows chamaram a atenção dos salteadores. Escaparam as campas baixas e os túmulos talhados na rocha de entrada habilmente escondidos. Mas," por esta mesma razão, a descoberta de campas intactas tem sido meramente acidental. Se o pesquisador não tiver sorte, deve-se contentar com os vestígios deixados pelos antigos salteadores. BIBLIOGRAFIA

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n-TTRODUÇÂO A ARQUEOLOGIA

87

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88 .~ (8)

(10)

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OSlLDi,

V. G., «Megraliths», i n Ancicnt índia r-r , v Delhi, 1948). Cf. D A S M I > a . E . , « T he D ^ ^ ^ ^ of tho Mégauthlc C o l o n k t i o n , i ^ ^ SÍ0 rio Bociely, V I I (Cainbrhjge, 1841) '" " fesar., L. V., Tho Ancient Burlai Mounãs of r * 7 to«d (Londres, 1953). ^

COILDE,

d l ) E » s , I. E. S„ r ; i e P^-amicfe of EaVPt P „ , , P (Londres, 1947). - ^ « W , Pehcan


CAPITULO IV ALGUMAS IDEIAS SOBKE A DESCOBERTA DE MONUMENTOS NO CAMPO hm-

O3 arqueólogos ouvem com frequência esta pergunta: «Mas como sabem onde têm de fazer escavações?» E, na realidade, muitas, se não a maior parte, das estações arqueológicas (à excepção das paleolíticas) apresentam aspectos de superfície que um observador pode notar: montes, orifícios no terreno, etc. Estas indicações de superfície podem ser apreciadas sem escavações no sentido de orientar um perito sobre a espécie de monumento a que se referem e, deste modo, sobre o que a escavação •poderá encontrar. Assim, há vantagem em dar algumas indicações sobre as inferências que podem tirar-se dos fenómenos arqueológicos mais correntes que o leitor pode apreender. As obras cm terra relativamente solta, muitas vezes 'com saliências e depressões cobertas de relva, têm tradicionalmente sido postas em contraste com os amontoados de pedras que podem indicar o lugar de uma estrutura de alvenaria ou de quernes. Será conveniente seguir o processo (embora não seja muito lógico), começando, portanto, pelas obras em terra. Estas podem ser divididas em simples montes, montes alongados numa direcção ou bancos e valas.

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I — Montes Um monte 'aproximadamente circular pode ser uni cômoro natural deixado pelos glaciares e lençóis de gelo que, em tempos, cobriam a Escócia, o País de Gales e a maior parte do Norte da Inglaterra. Se é artificial, poderá ser um monumento funerário, um barrow. Mas a ambiguidade dos termos nativos, «kurgan», «maghoula» e «mogila» (p. 61), revelou já ao leitor que, à primeira vista,' um tell formado por sucessivas camadas .de ocupação é pouco diferenciável de uma sepultura tumular. Na prática, um tell pode ser relativamente baixo e de superfície menos regular e, se não estiver muito coberto do vegetação, encontra-se certamente juncado de cacos de cerâmica e outros artefactos semelhantes. Os verdadeiros tells não existem nas Ilhas Britânicas. Mas, ao nível de superfície turfosa dos pântanos drenados, como, por exemplo, perto de Glastonbury, os pequeninos montes que aí se vêem marcam talvez lugares de cabanas circulares pertencentes às aldeias dos lagos (1). O chão das cabanas era de barro aplicado sobre uma plataforma de barrotes ou ramos que, por sua vez, assentavam sobre turfa mais ou menos esponjosa. Como o solo ia abatendo gradualmente ou o nível das águas ia gradualmente subindo, o chão e a respectiva infra-estrutura necessitavam de renovação periódica. Por este processo acabava por se levantar um monte que podia chegar a ter 1,80 m de altura. Quando o nível da água subia a ponto -de cobrir a infra-estrutura de madeira, esta conservava-se. Quando todos esses elementos ficavam acima do nível da água, só sobreviviam as sucessivas camadas de barro e estas ficavam perfeitamente conservadas, sendo mais espessas ã volta do forno central, onde o barro cozeu. Não se devem confundir estes pequenos amontoados ou moites com os barrows, embora as mottes se parecessem muito com barrows grandes e recentes. Estes


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INTRODUÇÃO

A ARQUEOLOGIA

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estão, geralmente, rodeados de valas, o que não acontece cora os lells; as motlcs, por seu turno, estão sempre rodeadas por um fosso. Motte (2) é a corrupção do termo latino «monte» e significa uma elevação artificial; a designação está certa, tal como sucede com o tell. U m a motte. tem sempre o topo liso, pois no alto havia u m a torre de madeira rodeada por. uma sólida paliçada. O monte é inteiramente composto, por terra mexida e' sem estratificação. Contudo, no topo, um perito escavador, em condições favoráveis, pode encontrar os orifícios - das estacas que sustentavam a torre e a paliçada. Muitas vezes o trabalho em madeira foi substituído por alvenaria. Estas mottes foram construídas pelos Normandos, e são as precursoras imediatas das torres ãe menagem de pedra que ainda se podem ver a coroar certas mottes. Quando existem vestígios da torre, a classificação funcional de motte não oferece dúvidas; de outro modo, pode facilmente confundir-se com um grande barrow. Mas u m a motte nunca se encontra isolada. N a sua base havia sempre uma vedação maior chmada pátio, onde se pode descobrir o parapeito e o valado que a rodeavam, embora possa estar coberto ou danificado pela lavra da terra. Os monumentos ingleses são tanto montes circulares como compridos; aliás, estes últimos assemelham-se a verdadeiros barrows longos (p. 80). Estes montes variam entre 27,5 m e 92 m e são constituídos com os materiais retirados dos grandes valados que correm paralelamente às suas longas partes laterais. Este aspecto ajuda a diferenciar os barrows longos das ruínas dos parapeitos para archeiros, muito mais recentes. Ora um monte quando prolongado toma o nome de banco. Ao contrário de um monte, u m banco pode rodear uma superfície. I I — Vedações Toda a área delimitada por u m banco pode ter o nome de vedação. Normalmente, h á um valado seguindo ao


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V. GOBDON CB;:L:.,

longo do banco. J3 possível que o primeiro tivesse fornecido o material necessário para a construção do banco, mas, em regra, a sua função era servir de obstáculo adicional à entrada no interior. Quando, portanto, o valado é exterior ao banco, pode ser classificado de «defensivo», destinado a afastar os animais ferozes ou c conter o gado, se não mesmo inimigos humanos. Há, porém, na Grã-Bretanha, um certo número do monumentos onde o fosso se encontra no interior do banco. Nestas condições seria prejudicial a quaisquer defensores. Normalmente esses monumentos são considerado«rituais». São quase todos circulares e compreendem oa barrows em campânula, em disco (p. 82) e os henges (3). Nestes últimos, a área central é plana, a menos que e. sua superfície tenha sido interrompida por um ou mais círculos verticais (como em Avebury) ou de estacas (como em Arminghall, perto de Norwich). Ao contrário dos monumentos funerários, o banco e o valado são interrompidos por uma ou mais aberturas simples ou calcetadas servindo de entrada. Atkinson divide os monumentos henges em dois tipos: ou com uma ou com duas entradas. As escavações feitas nos primeiros revelam que as comunidades do Neolítico os usaram como cemitérios crematórios. Embora a sua função original possa não ter sido funerária, alguns campos de urnas da Idade do Bronze Inglesa recente estavam cercados por um valado e um banco mais curto e estreito do que os henges neolíticos. Os adrop circulares das igrejas podem acaso ter perpetuado uma tradição nativa que remonta a uma Idade da Pedra pagã, como desde há muito tem sido"sugerido por Hadrian Allcroft. Os henges do segundo tipo são atribuídos ã I Idade do Bronze Inglesa, mas a sua função exacta ainda é menos conhecida. As estações romanas de sinalização, construídas nr-t planície, são muito parecidas com os henges do primeiro tipo. Apresentam-se no terreno como um fosso circular quase fechado, cuja terra foi amontoada no exterior.


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^INTRODUÇÃO Ã ARQUEOLOGIA

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Collingwood supunha que o fosso se destinava inicialmente à drenagem. Não apresenta imponência. A área rodeada tem uma largura entre 9 m e 12 m. Ao centro, existia uma torre quadrada de madeira ou de pedra. Quando assim sucedia, ainda se podem ver os alicerces ou encontrar vestígios deles. Os restos de um anfiteatro romano, acessório indispensável a qualquer municipalidade autónoma em todo o Império Romano, já não são susceptíveis de confusão. Na verdade, e"m Dorchester (Dorset), um monumento pré-histórico henge foi adoptado a anfiteatro local (Maumbury Rings),- tendo sido previamente tapado o fosso interior. Mas, em regra, os anfiteatros não eram circulares como os henges, mas ovais, com aberturas nos topos e diâmetros da ordem dos 80 m por 67 m. Um banco em arco quase fechado (isto é, um círculo interrompido por uma simples entrada), desacompanhado por qualquer fosso e com 6 m a 12 m de diâmetro, tem muitas probabilidades de ter sido uma cabana circular. O banco representa o muro baixo de turfa, barro ou terra e pedras, sobre o qual assentava um telhado possivelmente cónico. As escavações feitas sobre essas estruturas revelam uma lareira central, um canal subterrâneo de drenagem, correndo a partir do centro, através da abertura de entrada, ou uma trincheira de drenagem debaixo ou ao lado do banco (tais como as que hoje se abrem em redor das tendas) e orifícios para as ombreiras das portas e outras traves. As cabanas circulares mais bem conservadas encontram-se nas regiões rochosas e as suas paredes são, em parte, feitas de pedra. A face exterior do banco, e muitas vezes também a face interior, ê coberta com seixos, dispostos lado a lado e suportando uma massa, central de entulho misturado com terra e turfa. Não há a certeza de estas cabanas circulares serem, mais antigas do que a Idade do Ferro; algumas mesmo devem ter sido medievais.

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V. GOIiDON CEiLD;

O termo rath i*efcre-sc a massas circulares do terra semelhantes a cabanas circulares e a henges de uma entrada, mas diferentes dos primeiros pelas suas maiores dimensões —15 m a 1500 m de diâmetro — e de ambos pela existência de um fosso exterior que devia ter tido funções defensivas. Alguns raths são rodeados por dois ou mesmo três arcos concêntricos de bancos e valados. Os. raths são muito vulgares na Irlanda e, encontram-se também nas terras baixas do País de Gales, da Escócia e da ilha de Man. A sua localização parece ter sido escolhida tendo em vista a defesa, mas são, em geral, baixos, e, por vezes, dominados até por terras mais altas. Torna-se, portando, possível considerar que o rath sé destinava a rode.? r e proteger a habitação de um próspero lavrador ou rancheiro que podia ser um chefe local, ou mesmo um rei, no * sentido irlandês do termo. De facto, no interior de muitos raths irlandeses têm sido descobertos alicerces de casas (p. 70), ou, pelo menos, um subterrâneo possivelmente relacionado com uma habitação de superfície, ' No entanto, o Dr. Bersu (4), baseado nas escavações feitas em vários raths da ilha de Man (com diâmetros de 21 m a 27 m) e de Lissue, no Ulster (diâmetro: 45 m), é de opinião que o banco circular interno não era a muralha de uma fazenda, mas uma autêntica parede exterior da própria casa e onde assentavam os topos dos barrotes destinados a suportar o telhado que cobria o interior. A vala externa teria servido inicialmente de pedreira para obter a pedra da parede, para drenagem, mas não para defesa. Os especialistas ingleses e irlandeses não estão inclinados a aceitar generalizações a partir destas observações feitas em três ou quatro estações, especialmente depois que Jope fez o esboço de uma casa independente dentro de outro rath no Ulster. Alguns raths irlandeses parecem remontar à Nova Idade do Bronze local, mas, na sua maioria, são pré-romanos ou cristãos primitivos. Na Dinamarca e na Suécia têm-se


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encontrado construções circulares em terra, muito semelhantes, sendo consideradas como defensivas. Uma estação, explorada em Trelleborg", na ilha dinamarquesa de Zealand, apresentou-se como um campo fortificado onde os jovens marinheiros da frota Viking- eram alojados em casas em forma de barco, acomodando-se em cada uma a tripulação de um grande barco. As construções rectilíneas em terra eram mais vulgares e mais variadas e são, consequentemente, mais difíceis de determinar por observação externa. Algumas delas, apesar do valado exterior que apresentam, só podem ser consideradas como casas rituais. Os mais curiosos são os chamados cursiis (5). Parece que só existem nas Ilhas Britânicas. Na verdade, até 1955, não apareceu ainda qualquer exemplo ao norte da zona sul da Escócia. No vocabulário arqueológico britânico, cursus significa uma linha de terra longa, mas relativamente estreita, ladeada .de ambos os lados por bancos paralelos com fossos exteriores que voltam a encontrar-se em cada topo. Aquela designação foi aplicada por Stukley a Stonehenge, que, durante muito tempo, foi o único caso conhecido e que aquele autor interpretou como sendo um estádio onde se realizavam corridas cerimoniais de carros. Embora se não conheçam os carros que existiam na Grã-Bretanha, quando se construíram os cursus, ainda se não encontrou explicação mais satisfatória. O cursus de Stonehenge em 2800 m de comprido e 100 m de largura, mas no de Dorset, embora só tenha 18 m de largura, foi possível fazer-lhe o traçado, seguindo regularmente as cristas e os cumes, durante cerca de 10 km! Evidentemente, uma construção em terra desta natureza só podia ser considerada uma «vedação» por meio de prospecção aérea. A luz dos escassos achados de duas pequenas escavações e das suas relações com os barrows longos, julga-se que os cursus pertencem ao mesmo período; dos henges do primeiro tipo, isto é, ao Neolítico Secundário.


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Limitado, ao que parece, a Wessex, onde pertencem à. Nova Idade do Bronze, encontram-se vedações trapezoidais distintas e muitas vezes relacionadas com os caminhos em vala (p. 101). Parece terem sido inicialmente currais para gado, mas em algumas das estações exploradas encontraram-se alicerces de frágeis cabanas redondas. As vedações rectangulares com uma entrada ao moio de um dos lados mais extensos ou com duas entradas situadas ao meio de dois lados opostos são também consideradas como campos protectores de gado, pertencentes à época romana. A sua forma rectilínea deve íer-se inspirado na arquitectura militar romana. As tribos célticas ainda livres fizeram construções de terra muito semelhantes, tanto na Gália como na Europa Central, e que em alemão receberam o nome de VierecTcschanse. Assim, é possível que a ideia tenha sido ítalo-céltica e introduzida na Grã-Bretahha, muito antes da sua anexação por Cláudio, conservando-se durante a dominação romana. As granias ãe fosso da Baixa Idade Média fazem lembrar o plano -destas vedações para gado, mas como o fosso estava, muitas vezes, cheio de água, constituíam uma autêntica vedação líquida. As mais imponentes construções rectilíneas em terra são constituídas pelos monumentos de engenharia militar romana — campos de marcha, campos semipermanentes, fortalezas e fortes. Idealmente, todos deveriam ser de plano . rectangular com cantos arredondados, mas em relação a este modelo de campo e fortaleza as diferenças são frequentes, ditadas pelas condições naturais do lugar. Em todos eles, os lados são rectilíneos e as entradas, em número de quatro, estão sempre situadas ao meio de cada um dos lados. Todas estas construções são protegidas por um valado (fosso) separado da elevação de terra por um espaço, a berma, e por um banco, agger, que servia de base a uma palanca, o vallum. Muits?


INTRODUÇÃO À ARQUEOLOGIA

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vezes, há mais do que um valado, e em Ardocli, em Perthshire, há nada menos que seis valados paralelos a proteger o lado mais exposto. A protecção das entradas é, muitas vezes, reforçada pelas clavículas, eminências colocadas para vedar o acesso directo à entrada e para obrigar, quem quer que se aproximasse, a fazer rodeios, expondo o seu flanco à acção militar. Teoricamente, construíam-se acampamentos sempre que o exército romano, em campanha, acampava durante uma noite. As obras eram portanto mais superficiais e é natural que tenham desaparecido os vestígios de muitos deles. Os acampamentos semipermanentes eram ocupados durante uma campanha inteira ou um cerco (como aqueles que se encontram à volta do oppiãum nativo de Burnswark, em Dumfriesshire). As fortalezas eram instalações para guarnição permanente de um destacamento, enquanto os fortes alojavam uma legião inteira. Na Grã-Bretanha, os fortes ocupavam entre 2,5 e 9 acres de terreno. Em ambas as construções há vestígios de artilharia {ballistce) ao longo dos parapeitos das plataformas. Estes são, por vezes, construídos de pedras e argamassa, mas, não havendo escavações, a alvenaria é pouco visível. Nos fortes existiam construções importantes — celeiros, balneários, departamentos de comando, escritórios —, que, no entanto, não são visíveis nos vestígios da superfície. Os castros apresentam um completo contraste com a estrita regularidade das obras militares romanas e com os círculos rituais britânicos. A sua situação era, evidentemente, escolhida tendo em vista a defesa, e os trabalhos de protecção eram feitos aproveitando inteiramente os acidentes do terreno, com vista a aumentar as dificuldades de um assalto. Por outras palavras, acompanham os acidentes do terreno, com o que se explicam as irregularidades do plano. Dentro deste tipo, é útil distinguir entre castros ãe promontório e castros ãe I. A, — 7


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colina. Os primeiros têm uma área de defesa que ocunt a extremidade de um contraforte, onde os lados são em precipício e virtualmente inacessíveis. As únicas construções cie terra necessárias são valados e bancos construídos através da garganta, ligando essa extremidade ao cume principal. Nos outros casos, este tipo de defesa não difere na estrutura e disposição das entradas dos tz-abalhos que rodeiam completamente o alto do monte. As defesas compreendem tanto o banco ou contirforte como o valado ou fosso exterior. Quando o fosso extezior não existe, o contraforte apresenta uma muralha de pedra, mesmo que já se não vejam vestígios de alvenaria através da turfa. ~ Mas ainda, que o contraforte seja só em terra, não se deve supor que se apresentasse ao assaltante como um obstáculo tão fácil de transpor como a sua actual aparência faz parecer. Muitos parapeitos de terra eram construídos com um revestimento de madeira seguro por sólidos barrotes cujos vestígios se podem encontrar por escavação abaixo da superfície actual da massa de terra. Na verdade, em alguns casos, o parapeito era constituído por uma série de casamatas (câmaras ou grandes caixas) seguras por barras horizontais e cheias de terra. Em ambos os casos, o assaltante encontraria uma muralha feita de madeira e quase vertical que uma grande massa de terra sustentava e reforçava. Ao longo desta palanca corria um passeio protegido por uma paliçada de sólidas traves, que continuava, na parte superior, a linha da muralha. Mesmo quando o parapeito não era assim revestido, a construção tomava a forma de uma plataforma fortificada, coroada por uma paliçada. Tanto o castro de promontório como o castro de colina podiam ser defendidos por dois ou mais parapeitos ou valados paralelos. Neste caso, as fortificações são chamadas de valados múltiplos. Ora uma série de obras exteriores pode dividir ioda a vedação envolvente numa sucessão de defesas, culminando numa cidadela.


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Um ou mais portais (que se apresentam agora como aberturas nos bancos, com as correspondentes interrupções no fosso) davam acesso ao forte. A porta estava sempre bem guardada, embora sem escavações seja impossível apreciar as precauções contra as surpresas. Principalmente nos fortes de um só fosso, a entrada deve ter estado rodeada por um valado. Os parapeitos não se cortam imediatamente de ambos os lados da passagem, fazem antes uma inflexão para trás e para dentro e prolongam-se 6 m ou 9 m para o interior do forte. A entrada é assim transformada numa passagem, flanqueada de & mbos os lados por construções de terra, laqueadas de madeira e barradas de ambos os extremos por sólidas portadas. Esta entrada pode realmente ser mais parecida com um túnel, visto que a possível plataforma no parapeito deveria certamente ter sido continuada por uma ponte sobre a passagem e talvez transformada em torre barbacã. Nos fortes de múltiplos valados (mas não ratlis, onde as aberturas e calçadas estão normalmente em linha recta), a abertura no banco exterior nunca aparece directamente em frente da abertura interior, mas está de tal modo disposta que, passada a entrada externa, quem se aproximasse tezia que dar uma volta para a esquerda, ficando com a sua direita desprotegida e exposta aos projécteis atirados do parapeito interior, antes que a nova entrada pudesse ser atingida. Certos trabalhos defensivos exteriores eram muitas vezes construídos em frente <Ja passagem para lhe controlar o acesso de uma forma ainda mais eficiente. Na Grã-Bretanha, a maior parte dos castros foram construídos na Idade do Ferro, mas há um certo grupo de fácil referenciação, atribuível ao Neolítico. A característica específica destes fortes (6), ou campos, neolíticos é que os fossos eram frequentemente interrompidos por passagens com as respectivas aberturas nos parapeitos. Em consequência disto, estas construções de terra têm


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a designação de campos calcetados. Também se encontram campos neolíticos calcetados na Franga e no Reno. mas no continente há fortificações neolíticas sem os característicos valados interrompidos. A maior parte dos grandes fortes da Europa Temperada pertencem ou à Idade do Ferro, tal como sucede na Grã-Bretanha, ou à fase final da Idade do Bronze. A volta do Mediterrâneo e na Idade do Bronze construíram-se também, sem dúvida, imponentes fortalezas, enquanto pela mesma altura, no Oriente, as cidades' dos povos conhecedores da escrita eram contornadas por formidáveis muralhas.

III—Construções rectilíneas em terra Nem todos os. sistemas de bancos e valas cercam uma área bem definida. Tanto nas Ilhas Britânicas como no continente pode o leitor encontrar um banco de terra, mais ou menos importante, tendo de cada um dos lados um valado, e poderá segui-lo, durante muitos quilómetros, sem encontrar qualquer indicação de fechamento ou contacto com outra ponta. Essas obras são possivelmente limites territoriais ou defesas de fronteira e pertencem a períodos arqueológicos muito diferentes. Os exemplos mais remotos da Grã-Bretanha pertencem â Nova Idade do Bronze; outros são medievais. As obras mais antigas, ou, pelo menos, as menos imponentes, são descontínuas. Ao observar o seu curso e cotejando-o com os mapas geológicos vemos que as interrupções encontradas são realmente resultantes de obstáculos naturais, zonas pantanosas ou densas florestas. As várias construções em terra, conhecidas com à designação de dique de Grlm, que atravessam as terras baixas de Wessex, devem, talvez, ter marcado os limites de grandes granjas ou de territórios tribais. O imponente dique de Bokerley


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era, na sugestão de Hawkes, a estrema de u m a herdade imperial dos séculos II ou III. O dique de Offa (7), nos pântanos de Welsh, é uma verdadeira, obra de fronteira ' do século v i u atribuível aos Mercianos *. As mais importantes construções em t e r r a de carácter defensivo foram levantadas pelos Romanos p a r a proteger e definir as fronteiras do seu império. U m a vez por outra, foram transformadas em muralhas de pedra, mas a muralha antonina de jtTorth até Clyde e a mais antiga versão da conhecida muralha de Adriano, do Tync ao Solway, eram verdadeiras obras em terra. N a generalidade, a «muralha romana» era constituída por irm fosso defensivo, seguido de uma parte plana, ou berma, e depois de um parapeito maciço de terra-. Por trás do parapeito passava u m a estrada militar e, de espaço a espaço, construíam-se ou fortalezas para alojar as guarnições permanentes ou castelos mais pequenos, os «castelos de milha,». As estradas e caminhos são também construções lineares de terra. U m a estrada romana pode àpresentar-se como um banco baixo e largo, flanqueado, de ambos os lados, por estreitos valados, correndo paralelamente e por longos espaços em linha recta. O banco m a r c a a via empedrada {agger), sendo os valados simplesmente drenos como os que hoje bordejam também uma estrada moderna. Muitas vezes, numa aldeia podem ver-se pequenos orifícios, seguindo paralelamente à linha da estrada. E r a m os poços de pedreira que forneciam material p a r a o agger. U m caminho em vala é, num certo sentido, a impressão negativa de uma estrada romana. Apresenta-se como um fosso flanqueado por bancos paralelos,' mas a via escavada nunca segue tanto a linha recta como u m a estrada romana. O «fosso» é simplesmente a pista usada pélas patas dos rebanhos, animais de carga e homens, enquanto os bancos, tais como as cercas dos caminhos de ferro, são as protecções colocadas de cada lado. 1

I>o antigo reino inglês de Márcia., (N. ão T.)


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IY — Campos, Jaerdades e minas de sílex No campo, os caminhos em vala conduzem ao centro dos campos cultivados, a aldeias ou herdades. Sigamo-los. Os antigos campos cultivados aparecem com mais facilidade nos declives onde há terraços descontínuos, tecnicamente chamados lynchets (8) (fig. 5). Quando uma zona inclinada de campo foi muitas vezes lavrada, a terra qie assim se perde vai para o fundo do terreno, indo parar às partes mais baixas. Com o tempo,, a parte superior da courela fica sem terra, que vai formar um banco no fundo do terreno. Ora, normalmente, entre dois eamóos ficam bocados de terreno por cultivar, para oncl-- c natural que o lavrador atire as pedras e outros materiais inúteis que for encontrando na terra que cultiva. Os lynchets formam-se, assim, ao longo dos obstáculos dispostos paralelamente ao perfil do declive; apa-

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Fig 5 — Formação dos lynchets A) Duas courelas lavradas num declive; B) Desgasto do solo, após vários anos ãc lavra


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rece um «lynchet» negativo na base do obstáculo mais elevado, enquanto os outros materiais deslocados vão ficando na parte não lavrada do fundo do campo, como um «lynchet» positivo, O obstáculo que acompanha o declive continuará a acentuar-se perto do topo do terreno, mas apresenta-se ligeiramente mais reduzido n a base. N a Inglaterra foram postos a descoberto por este processo dois tipos de campo cultivado. Alguns têm a forma aproximada de um quadrado e são tradicionalmente designados por campos célticos; pela sua datagão pertencem ao período entre a Nova Idade do Bronze e os primeiros tempos romanos. Os outros são longos e estreitos e apropriadamente chamados «lynchets» em fita. Todos os campos anglo-saxões e medievais estão de acordo com este plano e medem quase todos 200 m po1* 18 m. Mas os «lynchets» em fita remontam aos tempos pré-romanos, pelo menos n a s partes da Inglaterra ocupadas pelos belgae; n a Dinamarca e na Holanda dessa mesma altura também se- identificaram campos semelhantes, longos e estreitos. Ê natural que os campos célticos estivessem adaptados ao arado leve, em latim chamado aratrwm e em dinamarquês arã, que se limita somente a a r r a n h a r a superfície do solo; com este instrumento havia vantagem em fazer duas lavras que se cruzassem, o que seria-desnecessário com um verdadeiro arado provido de uma relha e de uma aiveca p a r a poder voltar a relha; este modelo era assim mais prático num terreno comprido. Os terraços ãe cultura (9) que se podem ver no lado sul do «Arthur Seat», em Edimburgo, e em várias Outras encostas inglesas são funcionalmente próximas dos «lyn~ chetsi em fita, mas geneticamente diferentes. Embora longos e estreitos, acompanhavam, normalmente, o perfil das colinas. O lado da encosta de cada lado da faixa de terra é um autêntico terraço, um banco formado de pedras e barro sistematicamente acumulado. Estes ter-

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raços esíão muitas vezes associados a vedações escavada a (p. 105) e devem ser medievais. "Um outro tipo de campo cultivado muito diferente e muito mais regular é proveniente do sistema romano de divisão da terra designado por centuriação. Segundo as regras prescritas nos manuais latinos de agrimensura, fazia-se um tabuleiro em grade a p a r t i r de duas estradas principais — o ãecurio maximus, com 12 m de largo, e o carão maximus, com 6 m, que se interceptavam em ângulo recto. De cada uma dessas linhas principais saíam, em ângulo recto também, linhas secundárias, cada uma com 2400 pés romanos de comprimento; estas últimas tinham 2,5 m de largo, mas estava preVista uma faixa de 3,5 m de cinco em cinco linhas. As Unhas secundárias serviam p a r a limites dos lotes (centúrias) e para vias de acesso. Parece que todas as estradas estavam lajeadas e bordejadas de ambos os lados por valetas. Estas últimas características têm possibilidade de ser observadas no campo e revelam-se com clareza n a prospecção aérea. Encontraram-se traços primitivos de centuriação na Itália e, depois, em todo o império. Também podem ter chegado até nós os bancos baixos que serviram de demarcação aos antigos campos de pasto, mas que, mais frequentemente, delimitavam antig a s fazendas. Podem também provir ou de caminhos com vala ou de construções de herdades. N ã o é possível dar aqui u m a visão de conjunto dos variadíssimos tipos destes vestígios que chegaram até nós, mesmo só n a Inglaterra. Torna-se porém necessário explicar ó que se entende por vedações em vala (10). Nas encostas das colinas da Escócia e de Gales, os camponeses medievais abriam, por vezes, um fosso largo mas pouco: profundo, horizontalmente cortado no declive, colocando a t e r r a e as pedras tiradas em frente do barranco aberto, p a r a formar uma plataforma. A parede vertical da plataforma e o fundo assim aberto constituíam a base p a r a as casas existentes no valado.


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Além dos bancos levantados acima do nível do campo circundante, também podem aparecer poços cavados, depressões em forma de cratera, possivelmente provenientes das valas para extracção de sílex, de u m a c â m a r a subterrânea ou qualquer outro monumento semelhante que tenha aluído. Qual tivesse sido a sua função só pode resolver-se por meio de escavações. Mas um conjunto dessas crateras semelhantes numa zona pedrosa tem todas as possibilidades de ser uma ruína de sílex semelhante às que foram abertas no Neolítico e n a época do Bronze. Nas regiões metalíferas, a existência de profundas trincheiras pode provir de minas de cobre, p r a t a ou chumbo escavadas em campo aberto. Pilhas de escórias encontradas nas proximidades fixarão melhor a natureza dos vestígios. Por vezes, essas pilhas distinguem-se de outras constituídas por restos de rocha naturais, por terem menos vegetação. Mas n a generalidade, e especialmente no campo, só uma inspecção pode indicar se qualquer abertura revela um poço antigo ou uma escavação mineira, e não u m a pedreira ou um poço de cal mais recente. Do mesmo modo, os trabalhos feitos no próprio veio de sílex não se podem distinguir com facilidade das pedreiras donde foi retirada a pedra para construir um dique ou um campo para gado. Mas quando se não encont r a qualquer destas construções nas proximidades exclui-se esta segunda interpretação, o que não quer dizer que a primeira fique provada.

V — Construções em pedra Uma grande pilha de pedras, mais ou menos circular, tanto podo constituir um empedrado funerário, com ou sem câmaras, como simplesmente as ruínas de um pequeno forte ou de u m a construção doméstica de alvenaria sem argamassa: os quernes de Caithness apresentam-se-nos, geralmente, como montes de pedras cinzentas, nuas;


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as construções domésticas arruinadas cobrem-se normalmente de erva, transformando-se assim em «monte? verdes». Se encontramos uma parte de um peristálito (p. 81) ou distinguimos um parapeito na base dess" amontoado, torna-se plausível a determinação de um querne. Mas o peristálito pode não existir ou não ser visível no meio das pedras caídas ou da turfa invasora. Com a derrocada de uma construção redonda, como seja por exemplo, um pequeno montículo, podia ficar, ao centro, uma pequena cratera; num querne sepulcral, o facto é verificável tanto pelo ruir natural da câmara de enterramento como pela actuação dos ladrões. Numa casa ou num forte circulares, a entrada é indicada por uma depressão que sobe pela elevação em direcção ao centro; mas essa depressão também podia resultar da derrocada da passagem que, na pirâmide, conduzia a câmara de enterramento. As fiadas de pedras que se esboçam na superfície da muralha em ruínas sugerem um pequeno forte circular, um montículo ou um brocli. Mas alguns túmulos com câmara são rodeados de duas ou mesmo três paredes de pedra vã cuja superfície, em alguns casos, é visível; as paredes destes túmulos são autênticos revestimentos, com fachada de um só lado. Sc um monumento que se supõe ser um querne não tiver cobertura de túmulo de câmara, é mais natural que seja um pequeno forte circular, ou ãún. Os exemplo..-; que foram escavados mostraram que eram constituídos por uma sólida muralha de alvenaria em pedra vã com a espessura de 2,5 m a 3,5 m e aparelhada tanto na parede interior coma na exterior e cheia de entulho no espaço livre entre elas. Mesmo em ruínas, através das pedras soltas, podem distinguir-se uma ou ambas r.-> paredes, assim como a linha de entrada. Esta últimn pode ter sido talhada entre paredes bem faceadas que, mais ou menos ao meio, se estreitavam nos umbrais que sobressaíam de ambos os lados da parede. Exactamente na pax*te dos umbrais, 60 cm ou 90 cm acima do solo <•


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de ambos os lados, podem ver-se por vezes orifícios para barras. Um deles é profundo e cavado na espessura da parede, podendo conter uma viga de madeira que segurava a porta quando estava fechada. Para trancar a porta, a trave saía, deslizava até ao outro extremo, enfiando num orifício menos profundo, na parede oposta. Este método de barrar uma porta não era, de modo algum, só pré-histórieo; nos castelos medievais ainda se encontram os buracos das traves e até as próprias traves; esse mesmo processo aparece empregado na aldeia neolítica de Skara Brae. ' N o s fortes circulares, na espessura das paredes, em vez de entulho, podia haver câmaras. Essas constituem um aspecto de um tipo especial de construção, específico à Escócia, conhecido pelo nome de broch. Nas paredes de um broch deveria haver, ao nível do solo, perto da câmara de guarda, à entrada e à esquerda desta última, uma cela intramural onde começava unia escadaria que, entre as duas faces da parede, subia no sentido dos ponteiros do relógio, chegando, pelo menos, até ao primeiro andar do baluarte. Mas em alguns brochs (11), se não em todos, a parede maciça constituía a base donde subia uma torre oca, que em Mousa (Shetland) atinge a altura de 12 m. A escadaria devia continuar à roda, entre as paredes exterior e interior, unidas por lajes horizontais juntas umas às outras è formando o chão de «galerias». Essas torres não eram muito estáveis. Quando caíam, a grande massa de pedras enchia o pátio central, de modo que as ruínas se assemelham a um grande túmulo circular de pedras. Os brochs que se concentram em Caithness, Orkney, Shetland, Sutherland e Hébridas parece terem sido construídos nos primeiros anos da nossa era, mas alguns, pelo menos, continuaram a ser ocupados, após consideráveis reconstruções, até 600 d. C. ou mesmo depois. Há outros pequenos fortes de pedra impossíveis de datar com rigor, devendo muitos deles pertencer aos primeiros tempos do Cristianismo.

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Certos pequenos fortes circulares com um diâmetro interior de 9 m ou menos — todos os brocha escavados, com uma única excepção, estão dentro deste limite . podem parecer quernes arruinados. Mas os fortes circulares, como, por exemplo, os raths, existem em todas as dimensões. As ruínas de um dos maiores fortes pare» cem-se com um banco circular de entulho, rodeando um orifício central, normalmente coberto de vegetação. Mas um sheepree (termo escocês referente a um «redil circular») em ruínas também lhe é muito semelhante. Se o banco de entulho pertence ao baluarte de um «forte», apresenta aspectos semelhantes à parede de uma cons-sjÊ trução mais pequena — faces interior e exterior, pas-IB sagem de entrada com umbrais e orifícios e, excepcionaI-|B mente, celas intramurais; mais raramente ainda, escadas.U Os fortes circulares de pedra chamados na Irlanda casIielslM são os correspondentes num país rochoso aos raths, des-;{• critos na p. 94, e devem J ser interpretados da mesma W maneira. De facto, a maior parte das vedações defensivas descritas na secção li deviam' ter sido (e assim sucedia nas regiões rochosas) constituídas por muralhas de pedra em vez de bancos de terra ou diques. Se a parede era de pedra vã, a sua derrocada levava à formação de um banco de pedra que, às vezes, se podia cobrir de relva. A parede, naturalmente, terá sido faceada de um ou ambos os lados, mas as faces sõ estarão de pê, na medida em que ficaram seguras por .restos caídos das partes mais altas, que, acumulando-se junto delas, as seguram. Essas faces podem, por vezes, ser encontradas sem necessidade de escavações. As faces das paredes podem ser só compostas por séries irregulares de lajes semelhantes à parede de um forte circular. Mas o trabalho de pedra pode ter sido reforçado com traves de madeira ou combinado com construções de madeira, turfa ou tijolos. Deste modo, a parede de pedra vã seria sustentada por traves ver-


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ticais colocadas de espaço a espaço, de uma forma muito semelhante às que existiam p a r a segurar o revestimento de madeira de um parapeito de t e r r a (p. 98). Os. toros de madeira apodreceram, evidentemente, mas é possível verem-se as cavidades verticais ou os seus nichos interrompendo as pedras da alvenaria. Filas de traves ao longo das paredes exteriores e interiores ligados entre si por vigas transversais formavam uma excelente estrutura para uru parapeito seguro. Ora as duas faces da parede de alvenaria podem ser ligadas por vigas dispostas horizontalmente e umas a seguir à s outras. .Na superfície das paredes uma observação experiente pode encontrar os encaixes que, em tempos, seguravam os topos dessas vigas de ligação, procurando as fieiras de |* intervalos regulares que a obra em pedra apresenta de duas em duas ou de três em três filas. Estas paredes &ão correctamente chamadas «de madeira ligada» (12) 1 , e erradamente designadas por «paredes gálicas», munis gallicus. O murus gallicus referido por César era, n a realidade, um tipo especial de parede «de madeira ligada» onde foram tomadas precauções p a r a isolar os materiais de madeira entre elementos de pedra, de forma a impedir a difusão do incêndio, caso uma das traves ardesse. Qualquer combinação de madeira e alvenaria, e, em especial, uma simples parede de madeira ligada, era susceptível de se incendiar, por acidente ou por acção inimiga. Quando assim sucedia, o espaço entre a s faces da muralha podia transformar-se n u m a espécie de forno onde se poderia g e r a r uma temperatura suficientemente alta para fundir as pedras mais fungíveis, como, por - exemplo, o basalto. O resultado era aquilo a que hoje se dá o nome de forte vitrificado. Tendo-se derretido as pedras mais fungíveis, uniam-se com bocados de rochas mais refractárias, formando massas vitrificadas de diferentes dimensões. Estas constituem os mais importantes vestígios de um parapeito que pode ter chegado até nós como uma muralha contínua de material fundido.


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Em consequência disso, supôs-se que essas muralhas eram assim construídas, embora se não pudesse explicar como se procedia para tal. Hoje pensa-se que são o resultado da destruição pelo fogo das paredes «de madeira ligada». Mesmo sem escavações, uma observação mais cuidada apresentou nalguns casos, sob a estrutura vitrificada fiadas de pedras na base da parede e até os próprios orifícios das traves. A combustão desses parapeitos construídos também pelo processo «de madeira ligada», mas utilizando pedras mais refractárias, não conduzia à vitrificação, mas só as calcinava, efeito menos fácil de reconhecer. Nas Ilhas Britânicas, os fortes vitrificados estão limitados à Escócia. Julga-se que a sua vitrificação resultou da acção das legiões romanas de Agrícola em 84 d. C., mas tem sido muito discutida a data da sua construção. Na Europa Ocidental, alguns fortes vitrificados são também atribuídos à Idade do Ferro pré-romana, embora pertencendo à sua primeira fase, a de Hallstatt. Mas, a leste da Europa Central, a maior parte indica fortalezas eslávicas dos séculos viu e ix. No entanto, encontramos sinais de calcinação mesmo nos fortes neolíticos da França. A verdadeira muralha gálica parece ter sido inventada pelos Gauleses, talvez mesmo pelo temível inimigo de César, o próprio Ver cinge torix, como defesa contra a invasão romana de 60 a. C. As ruínas das construções históricas construídas em alvenaria silhar com a ajuda de argamassa não cabem no âmbito deste capítulo. Por um lado, porque, se fossem visíveis, explicar-se-iam por si. Por outro lado, os lugares onde se encontravam têm sido, com frequência, utilizados como pedreiras pelos construtores que vieram depois. Os blocos mais sólidos e bem cortados eram tirados e usados noutras construções. Na melhor das hipóteses, só ficava o entulho interior. Ora o entulho com boa argamassa é extraordinariamente durável e pode perfeitamente conservar-se muito tempo depois de


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os blocos aparelhados terem, sido retirados. Muitas vezes, de . uma grande muralha feita de alvenaria silhar só ficam as trincheiras da fundação. Neste caso, evidentemente, só por escavação poderia ser encontrada, até porque o interior do entulho está actualmente abaixo do nível do solo.. Acima deste (com algumas excepções) há muito menos vestígios de u m a vila romana ou de um templo céltico primitivos do que de túmulos neolíticos de câmara ou de brochs pré-romanos!

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V. GORDON

CHILDE

A., «Cultivation Terraces in S. E, Scotland» Proc. Soe. Ant. Scot., i,xxui (1938-39). (10) Fox, A., «Early Welsh Homesleads on Gclligaer Commnon», Arch. Cambrensis (1939); Stevenson R. B. K.,„ in Proc. Soe. Ant. Scot., LXXV (1941) pp. 92-115, LXXXI (1947), pp. 158-68. (11) CHILDE, V. G., Prehistory of Scotlanã (Londres, 1935), (12) COTTON, M., «Bri.itish Camps with Timber-laeed Ramparts», in Arch. 3., cxi (1954; cf. Weeller, «Earthwork since Hadrian Allcroft», ibiã., evi Supplement (1952). GIUIIAM,


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CAPÍTULO V INTERPRETAÇÃO DOS DADOS ARQUEOLÓGICOS: TECNOLOGIA ELEMENTAR

Um arqueólogo, para interpretar os objectos que recolhe, para os classificar e mesmo para correctamente os descrever, deveria, em princípio, ser capaz de os fabricar. Devia, pelo menos, saber aproximadamente como se fazem. O necessário conhecimento só poderá ser adquirido pela prática efectiva e obtido pelo exercício. De modo algum se pretende aqui ensinar o'leitor como se fazem pontas de seta ou se fundem estátuas de bronze. O modesto objectivo deste capítulo é explicar alguns dos termos técnicos sempre usados na descrição dos processos usados para manufactura dos tipos mais vulgares de testemunhos arqueológicos. Esperamos assim que o leitor seja capaz de acompanhar com mais facilidade os exercícios a que assista e possa observar nos vestígios aspectos significativos que, de outro modo, poderiam passar-Ihe despercebidos.

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I — Trabalho em sílex I Não se dispondo de metal, podem com facilidade fai zer-se utensílios muito cortantes com pedras criptoeristalinas, como o sílex e a ciFsidiana (cristal vulcânico natural). Sendo o sílex o mais corrente, será o objecto

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I. A. — 8


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V. GORDON CBILBE

de estudo nas linhas seguintes, embora as mesmas noções se possam aplicar, sem que o seu sentido se altere à obsidiana ou ao cristal. O sílex aparece, na natureza cm grandes pedaços irregulares ou, mais vulgarmente, em .placas —sílex em placa—, no meio do barro e de certos calcários e em nódulos provenientes destas formagões. Pode, muitas vezes, encontrar-se no cascalho dos rios ou dos glaciares. Os nódulos são normalmente cobertcs por uma espessa crosta opaca, chamado o córtex («a casca»). Por baixo dela, o sílex é cintilante e translúcido tornando-se muitas vezes opaco, branco ou sem lustro — patinado—, por certas reacções químicas' ainda não ' bem conhecidas. Os nódulos, na sua forma natural, não poderiam ser utilizados como utensílios. Podem, porém

Fig. 6

1) Cone de percussão formado num bloco de sílex; 2) Bolbo ãe percussão provido ãa$. marcas ãe ondas, ãe uma lascai ãe «ífca?

fazer-se utensílios com ele, quebrando-o de uma certa maneira, de acordo com o processo natural de lascagem do sílex.'

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INTRODUÇÃO A ARQUEOLOGIA

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Dando uma pancada vertical precisamente no centro de um bloco de sílex ou de cristal, a onda de choque propaga-se em cone pela massa, sendo o seu vértice a ponta de percussão (fig. 6, 1). Teoricamente, o cone ?„ssim formado cai fora da parte inferior do disco e mostrará na sua superfície marcas ãe ondas, exactamente como as que se dispersam na água de um tanque, quando nele se deita uma pedra; mas, no caso do sílex, as ondas são a três dimensões, como se a água tivesse gelado. Se a pancada for dada perto da borda de um disco e num ângulo conveniente, separar-se-á uma lasca com a forma de uma secção cónica. No ponto de aplicação da pancada aparece o vértice do cone um tanto distorcido c que recebe a designação de bolbo ãe percussão, foco de marcas ãe ondas mais ou menos elípticas (fig. 6, 2). A face interior da lasca que contém a protuberância bulbar chama-se superfície bulhar. No bloco donde se destacou a lasca vér-se-á o seu leito •— a marca da lasca — e uma reentrância mais profunda — o bolbo negativo —, correspondente â saliência na lasca e rodeada também por marcas de ondas. O bloco donde se tiraram as lascas — neste caso, o disco imaginário— é tecnicamente chamado o núcleo & a superfície plana em que foi dada a pancada de separação é designada por plataforma ãe percussão. A observação dos bolbos e das marcas de rugas num utensílio de sílex revela a posição e direcção dos golpes por meio dos quais o objecto foi feito. Essa observação é especialmente útil para distinguir os utensílios feitos peia mão do homem dos calhaus naturalmente fracturados. Na verdade, o bater dos seixos uns nos outros numa praia ou o toque da relha do arado num campo podem fazer saltar lascas com ondulação e bolbo de percussão, exactamente como a pancada de uma pedra que serve de martelo, mas as direcções das pancadas assim aplicadas são fruto do acaso. Para fazer um bom utensílio a partir de um nódulo, torna-se essencial um certo trabalho preliminar,


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V. GOBBON CIIILDjj

em especial a preparação de superfícies lisas para servirem como plataformas de choque que se intersectariam num ângulo com menos de 90°. Com este rebarbamento preliminar, fica preparado o núcleo do qual se podem obter utensílios de duas maneiras. A primeira consiste em tirar sucessivamente lascas até o núcleo ficar na* forma desejada; o que resta do núcleo é o instrumento desejado, ou, pelo menos, um instrumento grosseiro, propriamente chamado utensílio de núcleo. A segunda consiste em utilizar as próprias lascas no fabrico de utensílios a que podem dar-se o nome de utensílios ãe lascas. Após o trabalho inicial acima referido, os utensílios de núcleo ou de lasca em bruto SSÍO submetidos a operações secundárias ou de retoque para melhorar a forma ou o fio. Os mais conhecidos utensílios de núcleo (alguns, de facto, constituídos por grossas lâminas) são os chamados machados ãe pedra lascada (coups ãe poíng) das indústrias. do Paleolítico Inferior abevilense, chelense e acheulense. Os machados de pedra lascada foram feitos destacando, alternadamente lascas em redor de ambas as faces do núcleo. Podem ser assim considerados como trabalhados bifacialmente, e, na verdade, a tecnologia francesa chama-lhes bifaces. A primeira operação deixava um fio muito ondulado e a segunda pretendia diminuir essas ondulações arrancando pequenas lascas. Os coups ãe poing eram utensílios muito vulgares destinados a todos os fins e que, possivelmente, nunca serviram como machados. Mas os machados de -sílex do Neolítico eram, muitas vezes, esboçados da mesma maneira. Um processo especial para "produzir um machado ou uma machadinha, a partir de um núcleo ou de uma grossa lasca, é o chamado golpe de tranchet. O golpe faz destacar de um extremo do utensílio uma lasca transversal (nos ângulos rectos) ao eixo principal do núcleo ou da lasca. O resultante tem o nome de tranchet, em francês, e os arqueólogos ingleses usam o mesmo termo. Os trancheis são muito vulgares no Mesolítico e Neolítico primitivo na


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A ARQUEOLOGIA

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Europa Noroeste, mas aparecem também no Egipto, Palestina e mesmo no arquipélago de Salomão. As lascas podiam ser muitas vezes utilizadas sem retoque, mas p a r a obter uma lasca de uma forma especial e de dimensões determinadas impunha-se uma preparação cuidada do núcleo, pela qual uma grande parte delo pode ter sido reduzida com o trabalho de afeiçoamento. Por meio da técnica le valloisence, muito popular nas indústrias do Paleolítico Médio, partindo de um «núcleo em' tartaruga» podem obter-se duas ou três lascas de forma semelhante mas de crescentes dimensões. Toda uma série de lascas longa.j e estreitas, de fios mais ou menos paralelos, poderão ser obtidos a partir de um núcleo cónico ou prismático. O termo lâmina aplicar-se-ia exclusivamente às lascas destacadas desse núcleo. A produção regular de lâminas começou n a Europa Ocidental no Paleolítico Superior, de forma que as características específicas desta fase são por vezes tomadas como gerais. No entanto, as indústrias contemporâneas, por exemplo em África, seguem ainda a tradição levalloisence, enquanto as verdadeiras lâminas aparecem n a Palestina em horizontes geologicamente mais antigos e continuam a ser produzidas no Mesolítico e nas fases subsequentes. As lascas e as lâminas podem ser trabalhadas de novo por meio de retocagem e transformadas em lâminas de faca, raspadeiras, furadores e outros utensílios. N a produção de lâminas de faca, o trabalho secundário visa geralmente o «embotamento da retaguarda», isto é, de um dos fios da lasca, de forma que esse fio não corte a mão nem p a r t a o cabo de madeira, ao usar-se o outro fio para cortar ou serrar. Lâminas rebatidas, ou simplesmente rebatidas e embotadas, são a designação apropriada a todos os utensílios fabricados desta maneira. O trabalho secundário é geralmente realizado a partir da superfície bulbar, e assim as marcas que deixou aparecem n a superfície superior ou dorsal da lâmina. No entanto, os buris (em francês, burin) são feitos tirando


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V. GOBDON OHILDbl

pequenas lascas ao longo do fio da lâmina com uma pancada ou impacto feito de uma forma determinada. Assim se obtêm um cinzel ou uma goiva assaz toscos com um fio que pode facilmente voltar a ser afiado; pára isso tiram-se novas lascas fazendo novo fio. Os buris são utensílios admiráveis para abrir entalhes em osso, chifre de rena, marfim e pedra, tendo sido usados para fabricar utensílios de osso e gravagões nas paredes das cavernas (p. 55). Na Europa Ocidental, a sua manufactura irregular começou no Paleolítico Superior e continuou por todo o Mesolítico, mas não foi além deste período. Para retocar as lascas e,. lâminas, pode usar-se a pressão em vez da percussão. Por esta maneira, podem desíacar-se lascas relativamente longas mas estreitas que se estendem a todo o comprimento da lâmina. A pressão era muitas vezes usada para remover lascas de ambas as faces de uma lasca, dando origem a um pequeno utensílio classificável como biface (p. 116). Na Europa Ocidental, a técnica de pressão foi pela primeira vez usada no período solutrense para a produção de pontas de dardo ou de seta bifaciais em forma de folha de loureiro. A mesma técnica era usada para a manufactura de pontas de seta em todos os períodos seguintes e é a qun usam os habitantes actuais da Austrália e da América. Desenvoiveu-se no Egipto pré-dinástico para produzir a« soberbas facas de lâminas onduladas e no Norte da Europa para fabricar as famosas adagas, assim como na obtenção de formas fantasistas." Os microlitos são artefactos pequeníssimos de dimensões inferiores a 25 mm. Alguns deles não são mais do que finíssimas lâminas tiradas de minúsculos núcíoos prismáticos ou cónicos, mas a maior parte apresentam pequenos retoques e devem ter sido pedaços de lâminas maiores. As pequenas aparas irregulares e sem retoque, produzidas aos milhares como subproduto do trabalho rso sílex, não devem confundir-se com os microlitos. O objectivo da operação secundária de ajustamento nestes íJíi-


/ WTRODUÇÃO A ARQUEOLOGIA

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mos poderá ser embotar a parte de trás do instrumento ou dar-lhe forma particular ou uma ponta. Deste modo se reduziram alguns microlitos a formas regulares — triângulo, trapézio, rombo ou segmento de círculo (meia-lua), e são portanto chamados geométricos. Os microlitos eram usados ou individualmente para pontas de setas ou ligados entre si para farpas de projécteis; separando-se do projéctil no interior de uma ferida, tendiam a conservá-la aberta, provocando assim a morte da presa. Os utensílios de sílex apresentam, muitas vezes, tragos indicativos dos elementos naturais a que estiveram expostos e do uso que lhes foi dado. A simples exposição ao ar pode produzir a patina, que o ferro ou outras soluções nas águas do subsolo fazem manchar de castanho ou de cor de laranja. A rolagem, isto é, o batimento por outros calhaus, entre os quais podem estar os utensílios, quer na praia ou no leito de uma torrente, embota os fios e cristas, fazendo sair da sua superfície pequenas aparas. Um embotamento semelhante é obtido pelo uso de uma pedra como percutor ou como base. A lascagem por pressão era muitas vezes efectuada comprimindo a lasca a rebarbar na borda de um taco de sílèx — a base. Dás bordas do taco deveriam também saltar pequenas lascas até aquele ficar embotado. Batendo com um pedaço de ferro —um minério dé ferro como» & pirite podia também servir— num taco de sílex produzir-se-ia uma faísca que pode queimar uma mecha, mas que ao mesmo tempo embota os fios do taco de sílex. O uso dos utensílios poderá produzir pequenas bocas no fio da lâmina. A serragem da madeira produz uma estreita fita lustrosa ao longo do fio, mas o corte de palha deixa uma fita muito mais larga e de brilho cintilante. As lâminas de sílex que mostrem este brilho foram provavelmente utilizadas para armar foices de madeira usadas na ceifa de cereais, e, assim, podem ser chamadas foices ãe sílex.


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V- QORDON GHILJJvi

II — Pedras de grão fino As rochas cristalinas podem ser mais facilmente preparadas pelos mesmos métodos utilizados com o sílcx, mas os fios obtidos nestas pedras são menos cortantes e menos duradouros do que nos instrumentos de sílex. Para dar a esse utensílio um fio de corte eficiente, torna-se necessário afiã-los por meio de moinha ou polimento, O sílex também podia ser afiado por meio de polimento; mas embora o fio assim obtido seja mais resistente, deve, no entanto, considerar-se que as facas e os machados de sílex foram polidos em grande parte por razões estéticas ou de prestígio. • Os utensílios de rochas cristalinas que aparecem com mais frequêacia são os celta, utilizados como machados, machadas, cinzéis ou goivas. Antes do polimento, o celt era esboçada em tosco por meio de lascagem num núcleo de pedra como para fazer um biface de sílex (p. 115), batendo e desbastando o calhau com um martelo de pedra —isto é, picando-o— ou serrando-o. Quando a forma preparatória foi feita por picagem, a parte não polida do celt é furada por martelagem. O celt feito por serragem apresenta uma cruz rectangular ao centro. As pedras moles podiam ser serradas com uma Iâmím: de sílex, mas, em regra, utilizava-se um pó abrasivo, normalmente areia, cuja acção podia ser apressada por um pedaço de couro. ou um pau. Afiava-se o celt esfregando-o vigorosamente para baixo e para cima ixc-. superfície mole de um arenito ou Outra rocha granulada. São numerosos os lugares da Europa onde aparecem superfícies rochosas com buracos ou estrias resultantes de tais operações; encontramos, por exemplo, perto de Paris, essas pedras, que têm o nome de polidores. Os machados são normalmente cravados num cabo de madeira, mas a pedra pode estar perfurada: conhecem-sc machados de pedra tendo ao centro um orifício para o cabo, como sucede com os machados modernos. Para


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A

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perfurar um bloco de pedra de forma j á definida, podem empregar-se dois ou três métodos: 1.°) Percussão: martelando, repetidas vezes, com um martelo de pedra e um cinzel, num ponto escolhido, escava-se gradualmente um orifício em forma de taça. Quando a profundidade deste orifício era cerca de metade da grossura do bloco, este era virado e o processo repetia-se, n a outra face, até que a pedra ficasse furada. O resultado final é um orifício na parte central em forma de ampulheta. Regra geral vêem-se as marcas dos golpes de martelo à volta da perfuração. 2.°) Perfuração directa: o orifício começado por percussão, como no 1.° caso, é continuado, com um perfurador desílex ou de metal, ou, mais frequentemente, com um abrasivo cuja acção é melhorada por uma pua, que pode ser de um material mais macio. A pua pode ser ou segura na mão e forçada a rodar .-—processo chamado de perfuração — ou segura a um moitão e por ele levada a rodar, e temos então a brocagem. Também neste método, o bloco era geralmente voltado quando a perfuração atingia a metade da massa de pedra, repetindo-se o processo no lado oposto. A perfuração é então bicónica. N a s suas paredes, são geralmente visíveis as riscas ou estrias espirais deixadas pelos grãos do abrasivo. Em ambos estes métodos, a pedra que ocupava o orifício é reduzida a pó pela força muscular do operador. 3.°) A perfuração por tubo economiza uma grande parte deste labor físico. A ponta da p u a é u m tubo oco que pode ser de metal (uma folha de cobre em forma de tubo), mas podia fazer-se a mesma operação com u m a haste oca de madeira, embora não durasse tanto tempo; o verdadeiro desgaste é feito pelo abrasivo. N a perfuração por tubo só é desfeito o veio d a pedra sujeito à acção da areia e d a pua. Quando o tubo penetrou bastante no bloco, separa-se dele um cilindro de pedra de diâmetro ligeiramente inferior ao da perfuração. É o chamado núcleo ãe perfuração (na prática, é um verdadeiro cilindro, embora uma das bases eeja maior do que


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v, GOTÍDON OHIL&J:

a outra). Todo este núcleo teria sido reduzido a pó no processo por broeagem ou por percussão. Em certas estações onde se perfuravam pedras aparecem, por vezes, esses núcleos inteiros ou truncados por se terem partido antes de a perfuração estar completa. Os mesmos métodos usados para a perfuração podiam ainda servir para cavar vasos num bloco de pedra. Para a percussão, o artífice punha normalmente um cinzel entre o martelo e o bloco. Mas, à excepção do fabrico de vasos muito simples e primitivos, empregava-se uma espécie de broca. Mesmo com uma pua de sílex e tendo a areia como abrasivo poderia facilmente perfurar-se um vaso cilíndrico. Para perfurar vasos redo/idos ou mais estreitos na abertura do que no interior, os Egípcios inventaram há cerca de cinco mil anos, no tempo dos primeiros faraós, um método simples mas engenhoso. Empregavam pontas de sílex em forma de crescente, cujo tamanho e distância entre as pontas ia gradualmente aumentando. O eixo da pua, com a forma de forquilha, segurava na ponta o crescente de sílex quando estava em posição de trabalho. Mas tinha que ser metido perpendicularmente no interior do vaso, pela sua estreita abertura, e só depois girava. Caton Thompson encontrou em Fayum centenas de sílices destinados a esta utilização, assim como vasos em todas as fases do seu fabrico. Mais tarde, quando o metal se tornou mais frequente, apareceram as brocas tubulares. Estas podiam ser inseridas em qualquer ângulo, através da abertura do vaso, mas deixavam nas paredes do vaso uma série de núcleos de perfuração, depois arrancados a* cinzel.

III — Trabalho em metal O cobre, o primeiro metal a ser usado pelo homem, como- é maleável, pode ser moldado por martelagemf sem alterar o seu estado natural. Mas esta, quando cons-


INTRODUÇÃO A ARQUEOLOGIA

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íante, torna o cobre muito duro e quebradiço, sem poder tomar novas formas, a frio. A maleabilidade, contudo, é restaurável por fusão, isto é, aquecendo o metal até ficar vermelho-baço. Por martelagem repetida e fundição pode dar-se a um pedaço de cobre a forma que se quiser. Na Europa pré-histórica e na Ásia Interior, nos primeiros tempos históricos, fabricavam-se, a quente, lâminas de machados, pontas de dardo e adagas. Por vezes, são visíveis nesses objectos as marcas dos golpes de martelo. Na América pré-columbiana, o cobre nativo da região dos Grandes Lagos costumava ser batido para formar folhas largas e delgadas. A mesma técnica de batimento foi usada no Velho Mundo para a fabricação de caldeirões, baldes e outros vasos, elmos e outras pegas de armadura e outros artigos, desde o início da Idade do Bronze, e é ainda hoje empregada pelos serralheiros de toda a Ásia. Esses objectos de metal martelado são, evidentemente, fabricáveis em bronze, prata ou ouro, assim como em cobre. Sem fundição e por martelagem, usando utensílios apropriados, é possível fazerem-se, pòr meio do processo chamado de bate-chapa, grandes e complicados objectos a partir de uma pequena quantidade de metal. Fazem-se objectos maiores e mais complicados ligando, por rebitagem, fundição ou soldagem, várias folhas dé metal. Estas também podem ser facilmente ornamentadas com relevos ou desenhos gravados. Se os desenhos são feitos em relevo, martelando pela retaguarda, temos o processo chamado repoussé. Mas o efeito do relevo também se obtém desenhando por gravação, isto é, trabalhando sobre a folha com um traçador ou um cinzel fino. A grande vantagem do metal —pelo menos do cobre ou do bronze— sobre a pedra é ser fundível. Assim, na Idade do Bronze, a maior parte dos utensílios, armas e ornamentos, e mesmo de alguns vasos, eram feitos por fusão. O cobre funde a 1083 °C e o bronze (liga de


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V. GORDON CHILDE

cobre e estanho) a uma temperatura mais baixa, podendo ser vasados num molde cuja forma é tomada pelo metal quando arrefece. A forma mais simples de realizar esta fusão é fazer um molde do objecto pretendido num material mole de barro ou em pedra. Quando se usa o barro, o molde faz-se cobrindo convenientemente de barro o objecto cujo modelo se pretende" tirar; retirado o objecto, deixa-se depois endurecer o barro, que servirá para nel-i ser lançado o metal. Este método é chamado fundição em molde de secagem livre. Evidentemente que só é aplicável à manufactura de objectos planos numa face e sem ângulos reentrantes na outra. No início da Idade dos Metais, a fundição em molde de secagem livre era empregada na produção de machados planos, adagas e artigos semelhantes e continuou a ser empregada na fundição de simples barras ou discos com os quais se podiam forjar ou fabricar outros objectos. Moldes de pedra para essas fundições simples aparecem com frequência nas estações arqueológicas. Para objectos mais complicados precisava-se, pelo menos, de um molde em peças. Este compreende, pelo menos, duas peças ou metades, cada uma das quais apresenta o negativo da respectiva parte do objecto. Para fundir um objecto sem reentrâncias em ambas as faces, podia fazer-se facilmente um modelo, colocando cada metade do volume desses objectos num respectivo bloco de barro mole. Em seguida, depois de se ter coberto o modelo e a superfície aplicada do bloco com carvão ou gordura, para impedir que se pegue à outra metade, juntam-se ambas as partes do molde. Quando o barro está duro, separam-se os dois blocos e o modelo é retirado. Cada um dos blocos apresenta agora uma cavidade correspondente a metade do modelo. Voltam a juntar-se, são envolvidos numa cobertura de barro e o metal líquido é vasado na cavidade, através de um orifício que se deixou num dos extremos e conhecido pela designação de


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entrada. Para extrair o objecto fundido tem que se partir o molde. Em Jarlshof, nas Shetland, e noutras estações da Nova Idade do Bronze, foram encontrados muitos fragmentos desses moldes. Por alguns deles foi possível conhecer-se a madeira de que era feito o modelo. Os elementos do molde são, muitas vezes, feitos de pedra ou mesmo de metal, em vez de barro. Podiam ser separacos para extrair o objecto fabricado, voltando a ser usados; os exemplares que chegaram até nós sáo numerosos. Alguns desses modelos europeus remontam à Antiga e Média Idade do Bronze, mas usaram-se muitas vezes mo)des de pedra juntamente com os de barro na Nova IdaJe do Bronze e subsequentemente. Na fundição de cadeiras de bronze e outros objectos mais complexos deviam empregar-se moldes de três e até de quatro partes. * ••"'.•* A manufactura de celts ocos ou de pontas de dardo trazia uma nova complicação. É necessário fazer um corpo de barro ou de pedra de diâmetro e largura igual ao orifício destinado ao cabo de. madeira, e preso âs partes do molde, mas de modo tal que o metal possa passar à volta dele; a colocação dessa peça no interior pode fazer-se ou por meio de varetas compridas vindas da extremidade do molde em direcção a sua abertura ou perfurando a peça com um par de finos fios metálicos que, fundindo-se, serão absorvidos pelo metal em fusão quando entra no molde. O processo é chamado de fundição com núcleo. Embora as partes do molde tenham que estar bem juntas, alguns bocados de metal fundido entram na zona de junção. Ao esfriar, quando se retira o molde aparecerá essa massa extravasada seguindo ao longo do objecto como uma pequena espinha, a que se dá o nome de costura e que era frequentemente eliminada pelo serralheiro; mas, em geral, podem descobrir-se vestígios de costura em sítios pouco visíveis da peça, como, por exemplo, dentro dos ganchos que, muitas vezes, existem

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na ponta dos dardos c nos cclts. A existência de costura prova o uso da técnica de molde, mas a sua ausência não prova o contrário. Pode acontecer que as entradas não deixem escoar bem o metal ou se entupam durante a fundição. Não raro aparecem bronzes, com as consequentes distorções, podendo fornecer úteis informações sobre o processo usado. O processo de cire perãue («cera perdida») é o terceiro método para fundição de objectos de bronze. Neste caso, o modelo ê a reprodução em cera de um determinado objecto. Esse modelo é depois completamente coberto de barro, com excepção de um orifício de entrada. Depois de o barro ter secado, coze-se, conservando-se voltado para baixo o orifício de entrada. Desta maneira, o barro fica cozido e a cera derretida corre para fora. O invólucro vazio com o orifício de entrada é depois voltado para cima, vasando-se no interior vazio o metal fundido, que assim adquire, naturalmente, a forma do modelo de cera. Para tirar o objecto já fundido quebra-se o molde; como esses pedaços resistem com facilidade ao tempo> são das indicações mais vulgares sobre a actividade metalúrgica em qualquer estação. Ainda se usa o processo da cire perãue na fundição de estátuas de bronze, e a sua utilização remonta à Idade do Bronze. Mas alguns objectos que se julgava terem sido feitos pelo processo de cire perãue devem realmente ter sido obtidos em moldes de barro pelo processo indicado na p. 12á. Era, evidentemente, muito fácil delinear belos modelos de cera que a fundição reproduzia fielmente. Tem-se dito, talvez sem razão, que a rica decoração marcada nas armas e ornamentos da Idade do Bronze do Norte da Europa e da bacia do Médio Danúbio era feita por este processo. Qualquer objecto fundido, depois de sair-do moído, exige acabamento. Em especial, o fio dos utensílios cortantes precisa ser afiado por uma martelagem que, ao mesmo tempo, o endurece. O arqueado da lâmina de um


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INTRODUÇÃO A ARQUEOLOGIA

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machado de cobre ou de bronze resultava, em parte, desta martelarem e começou por não ser deliberadamente procurado, sendo o afiamento o principal objectivo. Com o tempo, a arqueação do fio passou a ser feita propositadamente, dando-se mesmo ao molde uma forma trapezoidal, em vez de rectangular. Além .da fundição "pela cire perãue, é também necessário limar ou serrar a costura ou quaisquer restos de metal que ficam à entrada (o .chamado «jacto») ou outras excrescências acidentais. As limas metálicas não eram conhecidas até ao final da Idade do Bronze, mas a superfície dos objectos era polida com pedra-pomes ou areia. A's pequenas serras de bronze são características do ferro mental dos fundidores do fim da Idade do Bronze. Até à Idade Média, não se deve ter fabricado ferro fundido. Anteriormente só havia ferro forjado. Os processos de fabricar ferro forjado empregados na pfé-históría, pelos serralheiros orientais e pelos greco-rornanos, eram substancialmente os que ainda se usam nessas mesmas aldeias metalúrgicas actuais e não é necessário fazer-Ihes aqui referência. Os antigos armeiros conheciam também os processos de embutimento, incrustamento ou semelhantes, mas a sua complexidade torna desnecessária uma referência num capítulo sobre tecnologia elementar. Salvo em solos desfavoráveis, como, por exemplo, os que predominam na Mesopotâmia, os objectos de cobra e bronze podem durar milhares de anos. O ferro está muito mais sujeito à corrosão e pode desaparecer por completo, num processo que alterações da humidade aceleram; a camada de ferrugem que cobre um objecto de ferro quando há humidade cai quando o objecto seca. Por isso, se acaso acontecer ao leitor encontrar no solo húmido da Grã-Bretanha um objecto de ferro, deverá conservá-lo metido em água ou envolvido num pano húmido, até que possa ser convenientemente tratado. Reciprocamente, se o objecto for achado na areia seca do deserto egípcio, deverá ficar hermeticamente fechado,

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sendo preferível que tenha junto (mas sem lhe tocar) um agente desidratante, como, por exemplo, cal viva ou soda cáustica. O tratamento dos metais é uma operação delicada que só deve ser levado a efeito num laboratório e por especialistas. IV — Cerâmica Quimicamente, cerâmica é barro depois de aquecido a uma determinada temperatura — superior a 400° — suficientemente elevada para poder provocar uma alteração química, ou seja, a expulsão da água das moléculas da argila. Mas não se pode fazer um vaso com barro puro. Deve misturar-se-lhe uma certa quantidade de matéria arenosa, tecnicamente chamada têmpera, se esta não existir na matéría-príma. A têmpera pode ser constituída por palha ou pó de areia, de pedras, conchas ou mesmo cacos reduzidos a pó. A natureza da têmpera pode fornecer indicações úteis sobre a antiguidade e proveniência do vaso e sobre as condições culturais dos seus fabricantes. • Há duas —ou, antes, três — maneiras de fazer um vaso de argila convenientemente temperada: a) modelada ou feita à mão; b) em roda de oleiro; c) por meio de molde. . 1) O fabrico à mão comporta, de facto, vários processos cuja aplicação mesmo um profissional dificilmente pode discernir num artigo já fabricado. Um vaso pode ser feito aos arcos ou enrolado. Neste último processo, o barro é amassado num rolo comprido que depois é disposto em espiral, de maneira a formar a parede do vaso. Na construção por arcos fazèm-se arcos de tiras finas com a circunferência desejada e são em seguida colocados uns sobre os outros. Em ambos os casos, o rolo ou os sucessivos arcos devem ser fortemente comprimidos com as mãos molhadas, de forma a provocar a sua ligação, e o resultado assim obtido é depois coberto de barro


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húmido. Por outro lado, cada rolo ou arco deve ser feito de tal maneira que tenha resistência suficiente para suportar os outros que sobre ele vão ser postos. Tudo isto torna o fabrico de um único pote uma operação longa e incómoda e traz para o vaso uma causa de quebra: torna-se susceptível de quebrar ao longo das junturas, o que de facto acontecia. Quando num vaso grosseiro lhe cai a orla de remate, a que ficou parece uma orla mal acabada e pode facilmente considerar-se a própria orla, embora seja possível determinar na falsa borda alguns vestígios do arco que caiu. Com uma cuidadosa amassadura, aparamento e batedura, os vasos feitos à mão podem alcançar uma surpreendente perfeição tanto pela simetria como pelas paredes extremamente finas. Mas as marcas dos dedos ou dos utensílios de ultimação nunca são estritamente paralelas. A sua irregularidade (mais do que a rudeza ou carência de simetria do vaso) é o melhor critério para distinguir um vaso feito à mão de outro feito em roda de oleiro. 2) Na roda de oleiro, o barro húmido é seguro a uma haste colocada precisamente ao centro de um disco que se pode mover livremente. Quando a roda gira a mais de cem rotações por minuto, a força centrífuga a que o barro em movimento fica sujeito permite ao oleiro dar-Ihe a forma que desejar, sem necessidade de nenhuma outra força física que não seja uma ligeira pressão com os dedos, cujas marcas nas paredes do vaso, embora leves, são estritamente paralelas ou concêntricas. Estas são a prova mais saliente do uso da roda. Infelizmente, o oleiro esforçava-se muitas vezes por apagá-las retocando ou batendo as superfícies onde apareciam. Distinguem-se com mais facilidade nas paredes externas ou na base. Com a roda pode fazer-se em poucos minutos um vaso que, feito à mão, levaria horas: a roda de oleiro permitiu assim a produção em massa de mercadorias baratas. Só um artífice altamente especializado a pode utilizar com vantagem; em regra, é um profissional ou um especial. A. — a


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lista que só conhece osso trabalho. Torna-se portanto necessário um mercado local que lhe g a r a n t a o sustento, dado que os vasos são demasiado frágeis p a r a se export a r e m em massa enquanto o sistema de transportes sê não tiver aperfeiçoado. P o r outro lado, fazer um vaso à mão é tão fácil como tecer pano ou fazer uma peca de vestuário. Assim, entre as sociedades não industrializadas da Africa ou da América, os vasos caseiros e os vestuáros familiares são feitos. pelas mulheres nas suas funções domésticas. Deve ter-se dado o mesmo nos tempos pré-históricos da Europa e da 'Ásia. A roda de oleiro, inventada antes de 3000 a. C , uçada nos grandes aglomerados populacionais existentes 1:0 Sudoeste da Ásia e no vale do Indo, antes de- 400 a. C (isto é, até à Idade tío Ferro I I ) , nunca- foi empregada ao norte dos Alpes, e os habitantes mais atrasados da Escócia e Norte da Europa continuavam a usar vasos feitos à mão alguns milhares de anos depois daquele invento. 3) No processo ãe moldagem, põe-se \o barro húmido no interior de um molde pré-preparado, feito também de barro cozido. Tal com nos metais, o molde pode ser composto por duas ou mais peças; quando o barro secou, o molde pode ser desmontado, voltando a s peças a serem usadas depois de retirado o vaso moldado. O interior do molde pode ser gravado ou ^esculpido com on e g a t i v o de um modelo que aparecerá ou em relevo ou escavado no vaso que se fabricou. Ê um processo que não deixa estrias e é muito usado na manufactura, de vasos decorados, incluindo a terra sigillata ou vaso de Samos dos períodos helenístico e romano. • ' - '• Depois de fabricado pelo primeiro ou segundo método, o vaso era. geralmente coberto por u m a fina camada do mesmo barro (engobe, úberzug) com a consistência de um creme de forma a escorrer pela superfície. Antes da sua aplicação podia juntar-se-lhe óxido de ferro ou qualquer outra substância corante a que verdadeiramente so chamará pintura, A cobertura melhora a aparência do


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vaso e torna-o menos poroso, mas pode cair; só neste caso se conhece com facilidade a sua existência. Dá-se o nome de barreia a esta cobertura finíssima feita com uma mistura quase líquida de argila e água. Quer seja ou não coberto com essa barreia, a superfície do vaso pode ser polida, esfregando-a fortemente com,uma pedra ou um osso liso, antes de estar demasiado seca. O polimento não só melhora a aparência da superfície, dando-lhe brilho, como diminui a porosidade; pode levar a formar-se uma mais fina cobertura superficial de barro, semelhante â formada com a barreia; tem o nome de cobertura mecânica e não se descasca. A decoração do vaso faz-se antes de este ir ao fogo e tanto antes como depois do polimento. A decoração pode ser por raspagem da superfície ou por impressão de um cunho {decoração impressa); por aplicação de outras faixas ou rolos de barro {em relevo) repuxando ou enrugando de qualquer forma a superfície {por ennigamento) aplicando uma cobertura colorida disposta em tiras {por pintura). Quando se risca com uma ponta de sílex ou de metal a superfície do vaso depois de este ter ido ao fogo, temos a chamada gravação; quando se faz a aplicação espessa de cor, depois de o vaso ter ido ao fogo, tem-se a chamada cerâmica coberta (ao contrário do que sucede com a decoração por pintura, atrás referida, a cor desaparece com facilidade). Na cerâmica helenística {megárica) e na de Samos do período romano a decoração fazia-se esculpindo no vaso o negativo do molde. Depois destes preliminares o vaso estava pronto para a cozedura, isto é, para a sua transformação em peça de cerâmica. Nesta operação é que se efectua a alteração química crítica e, além disso, altera-se a cor do produto. Está última depende tanto das impurezas contidas na argila ou que deliberadamente se lhe acrescentaram como da temperatura e condições da cozedura. Os vasos podem ser cozidos em «fogo ao ar livre» (embora a cozedura


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possa realmente ser feita num poço) ou num forno, em que se pode regular a temperatura e a chegada do ar. Em geral, com a cozedura ao ar livre, a uma temperatura normalmente baixa, obtém-se um cinzento escuro ou uma cor de lodo. Mas se o barro contiver uma grande quantidade de compostos de ferro ou se lhe for aplicada uma cobertura nas mesmas condições (isto é, ferruginosa), a superfície do vaso ficará vermelha quando cozida ao ar livre; ficará preta se, durante a cozedura, não existir ar no recinto. Mas também se consegue cor negra se o barro contiver muitas substâncias orgânicas e se a cozedura for feita a baixa temperatura até a matéria orgânica se ..queimar — ou ainda cozendo-a num fogo com muito fumo, depositando-se a fuligem nos poros do barro. A cerâmica pálida — amarelo-creme, cinzento-acastanhada ou esverdeada — só poderá produzir-se quando o barro é cozido a uma temperatura relativamente, alta —1000 °C ou mais — num forno ou. num grande fogo ao ar livre. As cores das pinturas, que, em grande parte, também são de argila, sofrem (tal como o vaso em que são feitas) a influência da cozedura. Assim, uma pintura ferruginosa tornar-se-á preta ou vermelha, conforme a quantidade de Oxigénio que tem acesso ao vaso enquanto este. coze. Além disso, os silicatos fundíveis existentes na pintura podem vitrificar parcialmente, tornando brilhantes as superfícies pintadas. Estas pinturas espelhadas são, com razão, chamadas lustrosas, por oposição às cores baças ou mates. São, muitas vezes, incorrecta* mente designadas por pinturas vidradas ou polidas quando aplicadas numa fina camada ou, por meio de banho, sobre toda a superfície do vaso. Mas esse vidrado é, de facto, vidro; polir significa, neste caso, cobrir ou transformar a superfície do vaso numa fina camada de vidro. O brilhante vidrado negro dos vasos clássicos gregos e o vidrado vermelho da cerâmica de Samos nos tempos romanos parece realmente terem sido fabricados


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por uma cobertura de barro, com ingredientes fundíveis e materiais corantes, pois não deixam uma fina camada do vidro ã superfície do vaso. A designação correcta deveria ser a de cobertura vítrea. Os verdadeiros vidrados e pinturas vidradas só podem resultar bem quando aplicados a vasos já cozidos. Torna-se então necessária uma segunda cozedura para fazer fundir e vitrificar a cobertura. Os Assírios fabricaram, a partir de 1250 a. C, autênticas pinturas vidradas, mas não foram usadas em grande escala antes dos primeiros tempos de Roma,

V —Vidro Quimicamente, o vidro é um silicato facilmente fundível; vulgarmente é composto de soda, potassa, cal ou chumbo. Líquido quando em fusão, é duro e quebradiço quando frio, mas entre estes dois extremos permanece, durante um período considerável de tempo, em estado viscoso. Na prática, pode fazer-se vidro aquecendo areia de quartzo (isto é, sílica), natrão, um sal natural de sódio ou potássio e cal ou calcário em pó. Estes elementos produzem um material sem cor e transparente, mas que se pode tornar azul, vermelho, castanho, amarelo, etc, ou ainda opaco,' se lhe acrescentarmos pequenas quantidades de compostos de cobre, ferro, manganésío ou cobalto ou outras substâncias apropriadas. O vidro era já conhecido no Egipto por volta de 3000 a. C. é, provavelmente, não muito mais tarde, na Mesopotâmia. Mas até 500 a. C. nunca foi trabalhado para, por meio de sopro, tomar formas várias. Inicialmente, o vidro era trabalhado por moldagem ou pressão, enquanto viscoso. Com um cadinho de vidro fundido não é difícil fabricar rolos e tiras (como as pérolas de melaço que caem de uma concha), que depressa endurecem, mas manipulados podem fazer-se objectos simples, como

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contas, arcos e braceletes. O fabrico dos próprios vasos de vidro resultava de uma simples modificação deste processo. Assim, por exemplo, fabricavam-se jarros e garrafas dispondo faixas de vidro viscoso à volta de um núcleo de sal, moldado na forma conveniente sobre um vaso de cobre. A decoração era feita comprimindo empolas, fios de vidro de diferentes cores, na superfície ainda mole do vaso ou das contas ou envolvendo aquele com faixas de várias cores. Depois de 1200 a. C, pouco mais ou menos, os vasos e outros artigos de vidro passaram também a ser feitos em moldes. O vidro, porém, não era lançado em estado líquido nos moldes, como no fabrico de objectos de bronze, mas enquanto viscoso, comprimindo-o, como se estivesse fabricando vasos de barro. A subsequente invenção do sistema de sopro não eliminou as técnicas mais antigas. Assim se passou a usar o vidro' na manufactura dos vasos e seus ornamentos e para cobrir e decorar objectos de outros materiais. Faz-se faiança por meio de um núcleo opaco coberto de um vidrado colorido. O núcleo parece ser uma massa de areia (sílica), misturada com alguma água e uma certa quantidade de adragante. O objecto desejado, uma conta, um vaso ou uma pequena figura, era primeiro fabricado com essa substância por modelação ou por molde e mergulhado depois num cadinho contendo vidro fundido convenientemente colorido. No Egipto, antes de 3000 a. C, e na Mesopotâmia, pouco mais ou menos pela mesma altura, já se fabricavam pequenos artigos de faiança, como, por exemplo, contas. Depois o processo foi usado por todo o, Próximo Oriente, para a manufactura de pequenos vasos, ornamentos e figurinos, incluindo os familiares ushabtis egípcios; já em 1500 a. G. se exportavam contas de faiança para a Inglaterra e Polónia. A esmaUagem é um invento destinado a decorar superfícies metálicas aplicando misturas de vidro colo-


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rido opaco. U m método primitivo consistia simplesmente em aplicar massas de esmalte n a superfície a ornamentar. N a maior parte dos casos havia duas maneiras de colocar n a s cavidades o esmalte, muitas vezes de cores variadas — vermelho, branco, azul, amarelo c verde. No processo do champlevé,. as cavidades que se devem cobrir de massa colorida f i c i m abaixo do nível geral da superfície. No processo cloisonnê os compartimentos baixos são dispostos e divididos por fios de arame soldados ou fundidos à superfície, A arte de esmaltar pelo processo de champlevé atingiu .'magnífica perfeição entre os celtas da Europa Ocidental no período de L a Têne. Continuou a florescer durante o Império Romano e, maio especialmente n a Irlanda, nos primeiros tempos do Cristianismo.

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V. GORDON

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CAPITULO VI INTERPRETAÇÃO DOS DADOS ARQUEOLÓGICOS: A RECONSTITUIÇÃO

Para interpretar uma espécie arqueológica é mais importante saber para que servia do que como foi feita. No entanto, como já se disse na p. 10, a maior parte dos utensílios que sobrevivem são simples fragmentos dos objectos autênticos, donde desapareceram as partes feitas em material perecível. Na verdade, pode muito bem pedir-se a um arqueólogo que faça a reconstituição de todo um carro a partir de duas cavilhas metálicas e que ficou no varal. Nesta introdução só podem dar-se algumas indicações sugerindo como, nos casos mais correntes, se devem reconstituir as partes desaparecidas, com vista a determinar-se como era realmente usado o utensílio. I—Machados e machadas — «Celts» Os machados e as machadas de pedra, e também, muitas vezes, os de metal, eram normalmente presos ou metidos numa peça de madeira ou cabo que não estava enfiado nem metido num orifício do corpo do instrumento. O método mais simples mas o menos eficiente consistia em atar o corpo do machado à ponta de um cabo direito, melhorando essa ligação com uma goma.


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Este método era usado pelos aborígenes australianos, nica não existem indicações do seu uso nos vestígios de povoados da Eurásia Neolítica ou da Africa. que tenham chegado até nós. Uma juntura ligeiramente mais segura era obtida quando se fendia o topo do cabo e o corpo dapedra era atado e gomado entre as duas hastes feitas pela fenda. Também não há indícios pré-históricos deste processo. Por último, os machados podiam ser atravessados ou colocados numa cavidade existente ou aberta num sólido pedaço de madeira. Nas habitações lacustres dos Alpes e nas turfeiras das Ilhas Britânicas, Norte da Europa e Rússia (fig. 7, 1) encontraram-se muitos celts de pedra assim montados. Em vez de se meter directamente o celt no cabo de madeira, este podia ainda ser colocado na cavidade interior de um chifre ou de uma ponta de rena, e esta manga de chifre ãe rena {gaine) era, por seu turno, metida num cabo de madeira (fig. 7, 2). O cliífre de rena, levemente arqueado, actua como um amortecedor para o cabo e reduz o risco de este se quebrar com o choque do golpe. Além disso, o chifre de rena pode ser cortado com mais facilidade do que a pedra para ser solidamente ajustado ao orifício aberto no cabo de madeira. Cortando o bocado da armação na junção de um dos seus galhos, este último pode ser adaptado de modo a formar um tacão que absorve a vibração, eliminando o perigo de o machado entrar, cada vez mais, dentro do cabo, ató que sairia pela parte de trás! Noutra forma, pode abrir-se com facilidade um orifício num. chifre de rena para fazer passar por ele o cabo (fig. 7, 3). Essa manga perfurada (gaine perforée), com uma lâmina de pedra metida numa ponta, corresponde, em princípio, ao machado de ferro contemporâneo. As mangas de chifre de rena são um dos achados mais frequentes nas palafitas alpinas e nos povoados neolíticos correspondentes. Mas as mangas perfuradas eram vulgares no período mesolíticc da Pinamarca e aparecem em Franga na zona exterior à


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FJgr. 7 Montagem ãe machados ãe pedra; 1) directamente; 2) como manga ãe chifre ãe rena; 8) em. manga perfurada ãe chifre de rena; 4) num cabo ãe cotovelo; 7) num cabo ãe cotovelo com manga escavada; 5) cabo de cotovelo para machado; 6) maohaão montado ivwm cabo


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área, alpina num contexto neolítico recente. Os Melanésios empregavam tubos de- bambu p a r a cabos dos celts, semelhantes aos tipos simples de m a n g a de chifre de rena. Os celts podem ser montados em mangas p a r a serem utilizados como lâminas de machadinha (em que a lâmina forma ângulo recto com o cabo); neste caso, a montagem é semelhante à que é feita p a r a o mackado. N a verdade, algumas, tribos melanésias montavam os machados numa manga móvel encastoada n a cavidade de um cabo, de modo a poderem transformá-lo em machadinha, desde que a m a n g a rodasse 90°. .'• Os celts também podem ser montados como machac* as, usando os chamados cabos de cotovelo, também utilizáveis em cabos de machado. É fácil obter-se um cabo de cotovelo cortando um tronco alguns centímetros acima do ponto em que h á um ramo que faça um ângulo de 75° a 90°. O ramo servia de cabo e o célt prendia-se à parte do tronco que ficou acima da junção. Quando o celt se destina a ser usado como machada, basta abrir uma fenda no cepo que ficou ligado ao ramo. N a superfície lisa assim obtida o celt pode ser simplesmente atado (fig. 7, 6); noutros casos, a parte do tronco presa ao ramo podia ser aberta ao meio e o celt encravado n a fenda. Resulta daí um machado, quando a abertura é paralela ao ramo (fig. 7, 4), e u m a machada, quando a abertura é perpendicular. Finalmente, o cabo em cotovelo podia ser usado em combinação com uma manga de chifre, feita com parte de uma haste de veado cujas extremidades foram escavadas. O cabo não é fendido, mas adelgaçado, e a sua extremidade entra no topo oco da haste de veado, enquanto o outro topo segura o celt (fig. 7, 7). Este processo pode ser chamado de manga escavada; aparece nas habitações lacustres dos Alpes do Neolítico Médio. Nos lagos alpinos e num túmulo da Alemanha Central e noutros lugares foram encontrados celts de pedra,


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montados cm cabos acotovelados de topo fendido. Os cclls e os palstaves metálicos de franja e de asa da Antiga e Média Idade do Bronze na Europa devem ter sido montados precisamente da mesma maneira, e nas minas de sal e cobre dos Alpes Orientais foram encontrados cabos de cotovelo fendido a que se prendia um machado de abas.. Os celts rebatidos que caracterizam a Nova. Idade do Bronze da Eurásia Interior, desde a China ã Irlanda, assim como os seus descendentes da I Idade do Ferro, só,podem ser montados nas mangas escavadas referidas no parágrafo anterior. Assim, com excepção talvez dos mais antigos celts planos de cobre, todos os celts de bronze e ferro ao norte dos Alpes foram montados em cabos de cotovelo. Quanto aos celts planos de metal, ighora-se o modo como eram montados, no. Sudoeste da Ãsia e na índia, e não se conhecem outros tipos. No Egipto, a parte direita do cclt plano, típico do local, alargava-se de ambos os lados em orelhas salientes. Tiras de couro metidas nessas orelhas ligavam a cabeça do machado ao cabo. As machadas eram colocadas em cabos curtos de cotovelo.

II — Pontos de projécteis. Os cabos das setas eram, claro está, de madeira, mas normalmente tinham a ponta em sílex, osso, ardósia ou metal. Na verdade, as pontas de seta. constituem a parte mais importante e atraente de. muitas colecções de instrumentos de pedra. A ponta de seta em sílex era normalmente posta no cabo de madeira, fendendo o topo deste último; era presa com • resina, BirTcenteer (resinado bétula, goma tirada da casca de vidoeiro ou outra cola natural). Em regra, apertava-se o cabo na base da fenda, para impedir que abrisse mais. No caso das vulgaríssimas pontas de seta com farpa e espigão, só este é que mergulhava na madeira da haste. Quando se trata


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de pontas de seta em forma de folha, triangulares ou de base escavada, metade ou dois terços delas sobressaem de ambos os lados da ponta do cabo, em forquilha. Tanto as pontas de seta triangulares cortadas sobre lâminas metálicas como as de espigão feitas de hastes metálicas podiam ser montadas no cabo como as de sílex. Mas algumas antigas pontas sumérias eram providas de um encaixe, um tubo metálico ligado ã base do triângulo. As pontas de seta farpadas com encaixe fundido são já da Nova Idade do Bronze e da Idade do Ferro. Nesta última fase, as pontas de seta com encaixe usadas pelos Citas tinham três farpas, de forma que no cruzamento assemelhavam-se à letra Y. Este tipo parece derivado das pontas de seta em osso já mencionadas. Eram também usados como pontas de seta alguns dos pequeníssimos sílices chamados microlitos (p. 118). Nas estações do Norte da Europa do final do Paleolítico Superior apareceram pequenas pontas assimétricas com duas partes laterais salientes cravadas em cabos de madeira; essas partes salientes serviam de farpa. Acharam-se também pontas em forma de meia-lua, montadas de maneira que uma extremidade formava uma ponta, enquanto a outra, junto ao cabo, funcionava como farpa. As pontas em meia-lua e trapezoidais eram, muitas vezes, montadas de forma que o arco exterior ou o lado mais largo do trapézio, colocado em ângulo recto em relação ao topo do cabo, formavam uma lâmina transversal ou um cinzel; o arco menor ou o lado menor do trapézio mergulhavam no cabo. Esses projécteis têm a designação de pontas de seta transversais, ou em corte de cinzel. Numa turfeira mesolítica da Dinamarca foi encontrada uma ponta trapezoidal montada dessa maneira; pontas de seta montadas em cinzel aparecem referidas nos documentos faraónicos do Egipto e nas esculturas mesopotâmicas e, mais tarde, nos selos minóicos de Creta. Actualmente ainda há tribos de caçadores que as usam.


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Os microlitos eram também aplicados como farpas das setas ou dardos, sendo colados nos encaixes num ou mais lados do cabo de madeira; o cuidadoso trabalho da parte posterior dos microlitos teria sido feito para impedir que a madeira abrisse, adaptando-os melhor à aplicação do adesivo. Na Suécia foi encontrado recentemente um miCvXilito seguro ao cabo com resina de bétula e não entalhado. Neste caso, o retoque procurava provavelmente formar um viés para ajustar o microlito à superfície curva do cabo. Podem ter sic/o utilizadas como pontas de seta simples lascas de osso tornadas cilíndricas por polimento. •• No Neolítico e em períodos mais recentes, o osso era trabalhado desse modo a produzir uma ponta com uma secção triangular ou rômbica donde saía uma ponta que se ia adelgaçando. A ponta seria ajustada não à extremidade fendida de um cabo de madeira, mas a uma cavilha oca que ou já pertencia ao corpo da seta ou servia de antecabo, a cuja ponta inferior se ajustava o cabo propriamente dito. O feitio das pontas de seta em osso era, por vezes, copiado em pontas de ardósia, sílex ou metal montadas num cabo da mesma maneira. Um harpão é um projéctil provido de uma cabeça farpeada destacável e ao qual está firmemente ligada uma linha: quando a ponta do harpão mergulha na carne do animal, este fica preso. Geralmente, o cabo do harpão é de madeira; a cabeça pode ser de osso, chifre de veado, marfim ou metal. Para que um arqueólogo possa, com toda a confiança, considerar uma ponta farpeada como sendo um harpão, tem que encontrar na extremidade um orifício ou um dente para segurar a linha. Na Europa, os harpões devidamente identificados como tais e, feitos de chifre de rena são muito característicos da cultura do Paleolítico Superior. Durante o período aziíense e em algumas culturas neolíticas da Eurásia aparecem harpões de chifre de veado. 28 muito provável que sejam pontas de harpão as peças farpeadas feitas em osso dos Natu-


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fienses Rlesolíticos da Palestina e do Neolítico de Fayum, assim como as pontas de marfim do Egipto pré-dinástico e do Sudão. Mas também é possível que a grande maioria das pontas de osso farpeadas ou denteadas, frequentíssimas nas culturas mesolíticas florestais: do Norte da Europa, tradicionalmente designadas por «harpões», tenham antes sido forcados preensores de, peixe • ou forquilhas. Ligavam-se duas ou três pontas farpeadas a um cabo convenientemente preparado de tal maneira que as farpas das extremidades ficavam voltadas uma para a outra; a farpa do meio, quando existia, estava entalhada de ambos os lados. Quando passou a ser feita em metal, a forquilha transformou~se em tridente, símbolo de Neptuno; os três forcados podem ser fundidos ou forjados numa só peça.

III — Os arreios Os animais de tiro podem ter sido arreados com cordas ou correias que não deixaram vestígios arqueológicos. Pouco depois de 3000 a. C, os Sumérios dirigiam os bois de tiro com anéis de cobre aplicados ao focinho (tal como ainda se faz hoje com os touros), tendo chegado até nós alguns desses anéis. Os cavalos eram também dirigidos por uma corda aplicada ao nariz ou por um cabresto; os mais antigos freios devem ter sido feitos com um pedaço' de madeira ou% de couro entrançado, passando entre os dentes do animal; esses primeiros exemplares desapareceram. Mas, para impedir que o freio escorregasse para os lados, segurava-se-lhe cada uma das pontas a um terminal, que podia ser de madeira mas muitas vezes era de chifre de rena. Neste último caso havia probabilidades de subsistir, e só neste caso uc poderá conhecer o sistema de arreios, o que constitui, na verdade, a única prova autêntica da domesticação de cavalos. O terminal em chifre de rena é uma ponta do


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armadura do animal onde se fizeram três buracos; dois deles estão no prolongamento um do outro, mas o médio pode fazer ângulo recto com os outros dois. Os terminais eram, evidentemente, usados aos pares no freio propriamente dito (ou ferro de boca), passando ou prendendo-se ao orifício médio. Os outros orifícios seguravam as extremidades dos arreios, que assim se conservavam na cabeça do cavalo. Pouco depois de 1500 a. C. e no Próximo Oriente, o freio e os terminais passaram a ser de metal, mas este só substituiu realmente o couro e o chifre quando se começou a usar o ferro. O freio passou a ser constituído por uma sólida barra de metal ou de liga metálica, sendo geralmente torcido, imitando a forma de freio anteriormente usada, terminando sempre num gancho para as rédeas; os terminais passaram a ser constituídos • por * barras de metal curvas ou, mais raramente, por estreitas tiras metálicas também providas de três orifícios ou de ganchos. Mesmo quando o freio é fundido, como sucede . nalguns casos encontrados na Ãsia Interior, o freio constitui uma só peça juntamente com os terminais; estes possuem ganchos correspondentes aos olhais do freio. Os cavalos eram primeiro empregados para puxar carros e carroças e usados sempre aos pares, ficando cada animal de cada lado de uma barra central e não entre varais. Nestas condições, os túmulos e tesouros apresentam sempre dois freios e quatro terminais. A cada freio podem estar associados cinco discos ou rosetas ornamentais de bronze, providas de uma presilha na parte interior. Serviam para ornar e, ao mesmo tempo, reforçar, as ligações das várias correias necessárias a um arreio. Uma dessas rosetas estava presa, de cada lado, no sítio onde a correia do cabeção se dividia em duas para se prender às duas extremidades do freio. Outras duas decoravam talvez a junção de cada terminal com uma correia que rodeava o focinho. O quinto ornamento, talvez maior que os outros, ornava a tesI. A.—10 ...-


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tada do cavalo, possivelmente no sítio onde uma correia da testada se ligava à correia do focinho para ir passar entre as orelhas. Com o melhoramento dos arreios, os terminais passaram de moda, mesmo nos cavalos de carro. Na Europa, durante a II Idade do Ferro (La Tène), foram substituídos por grandes argolas (muitas vezes de ferro, cobe./to de bronze) que passavam através das pontas furadas do freio, e a que se prendiam as rédeas. Ao mesmo tempo, colocava-se, por vezes, entre as duas já referidas, uma terceira junção — que podia ser um bocado de arame torc/do em 8. Esses freios de três ligações aparecem esporadicamente nos túmulos L.a Tène, em França; daí foram introduzidos na Grã-Bretanha por invasores celtas, provavelmente os Parisii, para se desenvolverem em linhas originais. Na Inglaterra, cada uma das duas junções exteriores do freio acabou por ser fundida numa só peça, juntamente com a argola, que, ao princípio, se movia livremente na sua presilha. Aquilo que anteriormente era o topo do freio tornou-se uma saliência sem função dentro do arco terminal e um elemento decorativo. Mas, como os freios continuavam a usar-se para dominar os cavalos que se atrelavam aos pares, só se ornamentava a extremidade exterior. Assim, os freios britânicos são assimétricos, sendo uma extremidade mais ricamente ornamentada do que a outra.

XV—Veículos Por volta de 1600 a. C, os carros ligeiros puxadospor cavalos, tal como os carros pesados, os de carga ou as charruas que os bois e onagros puxavam há cerca de mil e quinhentos anos, eram feitos com materiais inteiramente perecíveis — madeira e couro. Sobreviveram cerca de uma dúzia, metidos ern pântanos ou na terra,


INTRODUÇÃO A ARQUEOLOGIA

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mas tudo o mais desapareceu sem deixar o mínimo trago. Normalmente, só é possível determinar a remota existência de um veículo quando alguma das suas partes foi reforçada ou* embelezada com trabalhos em metal. Essas partes não são as que seriam previstas por um motorista contemporâneo ou mesmo um cocheiro do tempo de Eduardo VII. Por ordem de antiguidade, os exemplos que nos restam são os seguintes: argolas de rédeas, «fiadas de pregos», cavilhas de rodas, adornos de remate dos cubos das rodas e estojos do eixo. Nenhum destes inventos é necessário aos automóveis, de modo que interessa explicar, pelo menos, os que não existem nos carros de cavalos actuais. Na verdade, mesmo actualmente, não é necessário viajar fora da Europa para ainda ver cavalos puxando veículos! Como os animais de carga eram atrelados aos pares ou em quadrigas, metade de cada lado de uma vara, as rédeas deviam ser combinadas de forma que o condutor pudesse puxá-las simultaneamente aos dois ou aos quatro cavalos que ligavam, ao mesmo lado, as bocas dos animais de tiro, qualquer que fosse o lado do varal em que se encontrassem. O cruzamento era feito por uma argola de rédea ou porta-rédeas, presa ao varal. Na Ásia Ocidental, no 3.° milénio, usavam-se porta-rédeas compostos por um par de orifícios encimados por uma mascote. Uma decoração predilecta na cultura La Tène britânica e nas suas sobrevivências do período romano eram uns orifícios de bronze com a forma de um feijão, encaixando, por vezes, um núcleo de ferro. Um espeque é uma cavilha fixada no topo externo do eixo da roda para impedir que esta salte. Podia ser feito de madeira, mas, cerca de 2000 a. C, no Elam, a cavilha de madeira passou, muitas vezes, a ser substituída por uma de bronze, ornada de uma cabeça decorativa. Na Idade do Ferro eram feitas de metal. Os celtas do período La Tène, particularmente na Grã-Bre-


148

y- GOBDON GHILD1S

tanlia, fabricavam-nas também em bronze, ornamentando-as. Por volta de 3000 a. C, as bordas das rodas dos veículos sumérios e elamitas tinham muitas vezes cravos cie cobre para as proteger, e também, talvez, para as tornar mais velozes, apresentavam virolas de couro. A partir de 2000 a. C, no Elam, passaram também a ser aplicadas às rodas virolas de cobre. Nas esses elementos metálicos só durante a Idade do Ferro passaram a ser de uso geral e feitos invariavelmente de ferro. Prendiam-se âs pinas por meio de longos pregos de ferro, cujas cabeças, em alguns veículos assírios e europeus, eram em chapa, para reforço adicional <!o aro das rodas., e o mesmo se dava com os pregos de cobre dos Sumérios. No final da Idade do Bronze e depois, os topos dos eixos eram protegidos e ornamentados com remates metálicos, Em alguns tesouros desse período apareceram discos de bronze com cerca de 7 cm de diâmetro, tendo uma elevação circular numa das faces (e que aparecem também em alguns túmulos da Idade do Ferro) provavelmente usados como remates do topo dos eixos. Os cubos das rodas são também cingidos de arcos metálicos ornamentais.


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ÍNDICE DE NOMES PRÓPRIOS Abingcr — 111. Africa —- 55, 130, 138. Africa do Sul — 45, 48. Agrícola — 110. Alemanha — 80, 140. Alentejo — 31. Allcroft (Hadrían) — 92, 112. Alpes — 58, 138, 140, 141. Aliai — 74, 87. América — 118, 130. América Central — 44. América do Norte — 31, 40. América prõ-columbiana — 123. Árctico — 32. Ardoch — 97. Arjanía — 55. Arminghall — 92. Arthur Seat — 103. Ásia — 12, 27, 60, 61, 84, 113, 123, 143, 145, 147. Agia Menor — 23.

Atenas — 25. Alkinson CR.) — 92, 111. Atlântico — 40. Aurisrnac — 48. Austrália — 27, 44, 45, 11S. Avebury — 92. Balcãs — 58, 60, 61. Bate (D.) — 86. Berpu (Dr.) — 94, 111. Bogaz-Kõy — 68. Bordignera — 87. Borkerley — 100, Boston —- 41, 42. Botany Bay — 44. Brca — 87. Bretanha — 79, 86. Brouil - - 56. Buda — 32. Bulby Motor & C° — 32. , Bulgária — 79. Eulleid (A.) — 111. Burkitt — 87. Burnswarfc — 97.


..-irrigo

Cairo — 70. Caithness — 67, 105, 107. Câmbrico —'48. Cambridge — 87, 88, 111. C a m b r i d g e (Massachusets) — 87. Canadá — 39. Candide (Arene) — 87. Carlos (príncipe, filho de Isabel II) — 12. Cáucaso — 79. César (Júlio) — 39, 57, 109, 110. Chelíes — 48. Cheops — 84. Chicago — 87. CMÍde (V. G.) — 26, 51, 88, 1.12. China — 141. Chipre — 50, 73, 74. Cidades — 50. Citas — 142. Clark (J. G, D.) — 51. Cláudio — 96. Cláudio César — 39 Clyde —- 101. Coghlan (H. H.) — 135. Collingwood — 93. Cook —- 39. Copenhaga — 43, Cornualha — 61, 70. Córtez —• 44. Cotswold — 67. Cotton (M.) — 112. Crawford (O. G. 3.) — 111. Creta — 23, 50, 70, 142.

V. GOBDON

CHILDE

Cristo —• 34. Curwen (E. C.) — 111. Daniel (G. E.) — 51, 77, 78, 88. Danúbio — 126. Devónico •—• 48. Dinamarca —• 29, 30, 44, 77, 80, 94, 103, 138, 142. Doe (John) — 13. Don — 12. Dorchester — 93, 111. Dordogne —• 55. Dorset — 93, 95, 111. Drystone —• 67. Dumfriesshire —• 97. East-Anglia —• 68. Edimburgo —• 103. Eduardo VII -— 147. Edwards (J. E. S.) — 88. Egeu (mar) —• 47. Egipto — 24, 44, 79, 83, 86, 88, 117, 118, 133, 3.34, 141, 142, 144. Elam — 147, 148. Eigin (Lorde) -•— 78. Escócia — 32, 55, 70, 75, 90, 94-, 95, 104, 107, 110, 112, 130. Espanha —• 55, 61, 78, 7S. Estugarda — 87. Etrúria — 78. Euphronios —• 15, Eurásia — 66, 138, 341, 143. Europa —- 27, 32, 47, 100, 117, 123, 126, 130, 138,


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INTRODUÇÃO

Ã

ARQUEOLOGIA

141, 142, 143, 144, 146, 147. Europa Central — 49, 57, 74, 96, 110. Europa Cisalpina — 50. Europa Ocidental — 50, 54, 79, 110, 118, 135. Euthimedes — 15. Eutresis — 87. F a y u m — 122, 144. Filadélfia — 87. . Forbes (R. J.) — 135. Forth — 1 0 1 . Fox (C.) — 111, 112. Franga — 44, 47, 48, 49, 70, 79, 100, 110, 138, 146. Frankfort (H.) — 87. Gales (País de) — 90, 94, 104, 111. Gália — 96. Garrod (D.) — 86. Glastonbury — 90, 111. Goldman (A.) — 87. Grã-Bretanha — 13, 25, 39, 44, 80, 92, 95, 96, 97, 99, 100, 127, 146, 147. Granam (A.) — 112. Grandes Lagos — 123. Gray (G.) — 111. Grécia — 23, 39, 40, 50, 78, 85. Grim — 100. Grinsell (L. V.) — 88. Hal Saflieni — 73. Hall — 135.

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151

H

Halstatt — 49, 110. Hamurabi — 24. Harrison (H. S.) — 136. Hassund (Tell) — 87. Hawkes (J.) — 101, 111. Hébridas —107. Hégira — 34. Heurtley (W. A.) — 87. Holanda — 75, 103. Holmyard — 135. Hope-Taylor (B.) — 111. libas Britânicas — 72, 79, 80, 90, 95, 100, 110, 138. Índia — 39, 55, 02, 79, 88, 141. Indo — 23. Inglaterra — 15, 27, 29, 31, 34, 39, 40, 48, 72, 75, 88, 90, 103, 104, 111, 134, 146. Irão — 25, 61. Iraque — 39. Irlanda — 58, 70, 79, 103, 135, 141. Itália — 44, 79, 104. Jaime I — 28, 49. Jarlshof —- 125. Jope — 94. Jorge III (de Inglaterra)— 36. Kaíahari — 32. Kurdistão — 62. La Madeleine — 48 Lamb (W.) — 87.

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152

Lane (A.) — 135. La Tono — 49, 135, 146, 147. Lcakey (L. S. B.) — 135. Leipzig —- 136. Leninegrado — 87. Lesbos — 87. Líssuo — 94, 111. Lixrerpool — 87. Londres — 18, 26, 51, 87, 88, 111, 135, 130. Loose Iíovvo — 85, Lourdes — 54. Loyd (S.) — 87. Lucas (A. M.) — 136. Lucrécio — 43. Maadi — 70. Macedónia — 87. Ivíahomé — 34. Mailowen (M. K L . ) — 87. Malta — 73. Man (ilha de) — 94, 111. Manchester —• 19. Maoris — 39. Maryon (H.) — 135. Maumbury Kings — 83. Meca — 34. Mediterrâneo (mar) —100. Mércia — 101. Mesopotâmia — 24, 49, 60, 62, 127, 133, 134. Micenas — 40, 72, 78. Monte Carmelo — 86. Morávia — 57. Mortillet — 47, 48, Moscovo — 87.

V, GOBDON

CHILDE

Mousa — 67, 107. Mousticr — 48. Museu das Antiguidades Nórdicas — 43. Negro ( m a r ) — 47, 78. Neptuno — 144. Norfolk — 85. Noruega — 85. Norwich — 92. Nova Delhi — 88. Nova Guino — 19. Nova Iorque — 111. Nova Zelândia — 39. Oakley (K.) — 135, Offa — 101, 111. Oklahoma — 12. Oldcberg (A. E.) — 136. Olínto — 25. Oranis — 29. O' Riodaín — 111. Orkney — 67, 107. Oseberg — 85. Oxford — 86, 111, 135. Pacífico — 19. Palestina — 117, 144. Paquistão — 61. P a r e t . í O . ) — 87. Paris — 120. Parísii — 146. Península Balcânica, (Vide «Balcãs».) Perthshire — 97. Pcyrony — 87. Piggot (S.) ~ 111. Pirenéus — 55.


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ABQUEÒLOQIA 15£

Pó — 66. Polónia — 80, 134 Porta dos Leões - 40 Portugal _ s i , 78, 79' Próximo Oriente — 24 87 134, 145. ' ' Reno — 12, 1 0 0 Roeket - a 5 | 3 0 f 37> 41 Roma — 73, 133. Royal Scott - _ 36; 41 Rudenko (S. J.) — .g 7 ,' RÚSSia —

17

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138 Safar (p.) . g7 Samos — i 3 0 ) 1 3 L Saint-Acheulle ~ . ^ s . Santo Sepulcro — 78. Scott (Lindg-ay) — i 3 6 Shetland — 67, 107, 125. Sibéria — 48. Sicília — 78. Singer — 135. Síria — 79, Síria-Palestina — 47 5 0 Skara Brae - 67> 6 g 1 0 ? Sollas (W. J.) __ 5 a Solutré — 48. Solway — i o i , Speiser (E. A.) — 87 Split — 33, Stephenson — 15, Stevenson (R. B . K.)—112. Stoneheng-e — 40, 95 Stukley — .95, Sudão — 144.

42

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Suécia — 79, 85, 94, 143, Suíça — 44, 75. Sutherland — 107. Sutton - Hoo — 72, 85. Tope Gawra — 62, 87. Terra do Fogo — 45. Tlr-rmi — 87. Thompson (Caton) — 122. Thomsen — 43, 44. Tirinos — 68. T o b k r — 87. Toda : — 29, 30. Trácia Anatólica — 78. Trelleborg — 95. Turquia — 60, 61. Tuiankamon — 72. Tyne — 101. Ulster — 94, 111. TJnderwcod (Ashworth) — 51. Ur — 72, 74, 87. Uruk — 62. Vcrcingáíox-ix —• 110. Weldi — 101, 112. Wessex — 96, 100. West End — 14. Woolley (L.) — 87.

Yorkshire — 85. Zealand — 95. Zozer — 84. Zurique — 19.


ÍNDICE E GLOSSÁRIO DE TERMOS TÉCNICOS Todos os termos e expressões técnicas utilizados com um sentido arqueológico especializado vêm indicados na lista abaixo mencionada. O número aposto a seguir refere-se à página onde é explicado ou definido o uso arqueológico do termo ou expressão. Assim, o índice, reconduzindo ao texto, servirá de glossário. abrigo de pogo — 57. acampamento — 97. adobe — 59. agger — 96, 101. agregado — 17. alvenaria em espinha de peixe — 61. alvenaria de pedra vã—67. antecabo —• 142. antecâmara do túmulo—80. arco de suporte — 81. argola de rédeas —• 147. arqueologia histórica — 23. arquitectura do barrotes — 65. artefactos — 1 1 . associação — 16.

banco em arco quase fechado — 93. barreia — 131. barrow — 80, 82. base de percussão — 119. berma — 82, 96. bifaces — 116. boíbo de percussão — 115. brocagem — 121. broclis —• 107. Bronze (Idade do) — 44. buracos de postes — 64. cabana circular — 93. cabo de cotovelo — 140. calcolíticc -— 4G.


INTRODUÇÃO

caminho em 101.

A

ARQUEOLOGIA

vala — 96

campos calcetados — 99 100. campos célticos — 103. campos de urnas —- 85. casamatas — 98. casas térreas 70. cashels — 108. castros — 97. castros de promontório — 97, 98. cavilhas de rodas — 147. celts — 120, 121, 138. centuriação — 104. cerâmica coberta — 131. cerâmica moldada — 131. champlevé 135. ciclópico — 68. Çire perãue — 126. classificação corológica — 40. classificasão cronológica— 33. classificação funcional — 29. clavículas — 97. cloisonné •— 135. cobertura mecânica — 131. cobertura vítrea — 133. Cobre (Idade do) — 47' conjunto — 16. contemporâneo — 44. contexto — 12. ' corologia — 40, 48. córtex — 114. costura — 125.

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co vai — 73. coval de nicho —• 73. cozedura — 131. crepis — 81. crescente •—• 122. cronologia — 34. cronologia absoluta — 34. cronologia relativa —• 34. cultura —• 17. cursus —• 95. decoração por enrugameato — 131. decoração impressa •—• 131. dólmen — 76. dólmen de galeria — 77. ãún — 106. eneolítico —• 46. engobe —• 130.' enterramento colectivo — 86. enterramento estendido — 72. enterramento em grandes vasos (pithos) — 85. enterramentos s e c u n d á rios — 82. entrada do molde — 124-, 125. entrada valada — 93. entrançado de adofte — 65. esmaltagem — 134. espeque —• 147. estações de sinalização - 92.


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V. GOBDON

CHILDE

estrada romana — 101. estratigrafia — 37, 53, 62.

lynclict negativo ou positivo — 103.

faiança — 134. Ferro (Idade do) — 44. ferro de boca. (V. «freio».) fogous — 70. foices de sílex — 119. folclore — 31. fontes romanas — 96. fontes vitrificadas — 109. forquilhas — 144. ' fósseis. (Vide «tipos».) fosso — 96. freio —• 144. fundição — 123. fundição com núcleo —125. fusão —• 123.

machado de pedra' lascada -— 116. madeira ligada (paredes de) — 109. manga de chifre de rena — 138, manga escavada — 140. "manga perfurada — 138. marca da lasca —• 115. marca de ondas — 115. m a s t a b a — 83. megalítico — 68, 75. mesolítico — 45. microlito — 118, 143. minas de sílex — 105. moldes em peças — 124. monumentos •— 12. moiles — 90, 91. muralha gálica — 109. murus gallicus — 109.

granjas de fosso — 96. gravadores — 117. Hallstatt (período de) — 49. harpão —• 143. henge (monumentos) — 92, 93. homoaxial — 44. idades — 44. lâminas de dorso abatido— 117. lascas — 117. linha contínua de contacto — 69. lynchet — 102. lynchet em fita — 103.

natrão — 133. neolítico — 15. núcleo de perfuração—131. obras em t e r r a — SS. ortostato —• 68, 75. palanca — 96. Paleolítico — 45. pátio — 91. pavimento — 58. pedra de escotilha — 73. Pedra (Idade da) — 44.


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INTRODUÇÃO

A ARQUEOLOGIA

percutor — 119. perfuração — 121. perfuração por tubo — 121. período cultural — 22, 47, 48. peristálito — 81. pintura — 130. pintura lustrosa — 132. pintura mate •—• 132. •piso. (Vide «adobe».) piílios (vasos) —• 85. plataforma de percussão — 115. plinto •— 69. poço-teste — 63. ponta de seta — 141. ponta de seta transversal 142. •'••'. porta-rédeas — 147. portal dos mortos — 75. pré-Mstória (conceito)—23. primeiro enterramento—82. ; querne — 105, rath — 94. redoque — 116. roda de oleiro — 129. xolagem — 119. Samos (cerâmica de)—130. secagem livre — 124, sequência cultural — 21. séries tipológicas — 37. silhas (alvenaria) — 69. subterrâneos — 70. superfície buibar — 115.

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157

tell — 63. têmpera — 128. tempo arqueológico — 35. terminal — 144. terra sigillata — 330. terraços de cultura — 103. t e s t e m u n h o s arqueológicos —• 9. tholoi — 78. tijolos —• 59. tijolos de adobe — 59. tijolos manuais --• 50. tijolos plano - convexos — 60, 61. tipos — 13, 16, 20. tipos fósseis— 22. torre de menagem — 9 i . tranchet — 116. três idades — 43. túmulo .de câmara, — 73. túmulo escavado n a rocha — 73. urna cineraria — 85. urnas curtas — 72. urnas longas — 72. .utensílio de núcleo •— 116. valados múltiplos — 98. vallum — 96. vasos de cerâmica fabricados aos arcos — 128, 129. vedações —• 91. vedações em vala — 104. vestígios — 11. vidrados —- 132. viga de suporte — 65.


ÍNDICE

GERAL

PliEFÁCIO

(

7

I — Arqueologia, e história I—•Testemunhos arqueológicos I I — O s tipos I I I —Culturas IV — O tempo arqueológico

9 9 13 17 20

I I — ' A classificação I — A tríplice base I I — A classificação, funcional I I I — A classificação cronológica IV-—-A classificação corológica V—'Períodos e culturas pré-históricos ......

27 27 30 33 40 43

I I I — A s estações arqueológicas e a. sua estratigrafia I — Cavernas I I — Casas e povoados I I I — Locais de enterramento

52 52 57 71

IV — A l g u m a s ideias sobre a descoberta de monumentos no campo I —Montes I I — Vedações I I I — Construções rectilíneas em t e r r a IV — Campos, herdades e minas de sílex ...... V — Construções em pedra

89 90 91 100 102 105

CAPÍTULO

CAPÍTULO

CAPÍTULO

CAPÍTULO

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INTRODUÇÃO

A ARQUEOLOGIA

159

V — interpretação dos dados arqueológicos: tecnologia, elementar I — Trabalho em sílex I I — Pedras de grão fino I I I — Trabalho em metal IV—Cerâmica : V—Vidro

113 113 120 122 128 133

VI — Interpretação dos dados arqueológicos: a reconstituirão I — Machados e machadas — «Celts» I I — Tontas de projécteis I I I — Os arreios IV—Veículos

137 137 141 144 148

CAPÍTULO

CAPÍTULO

ÍNDICE DE NOMES PRÓPRIOS ÍNDICE E GLOSSÁRIO DE TERMOS TÉCNICOS

149 ICVÍ


Edição n.° 1073 Este livro foi composto e impresso na Sociedade Astória, Lda., para . Publicações Europa-Améríca, Lda., e concluiu-se cm Dezembro de 1061


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