Page 1

Com base nesses estudos e suas repercussões nos diversos ramos da pesquisa acadêmica, gostaríamos de saber sua percepção sobre essas pesquisas e como elas podem estar relacionadas a seu campo de investigação. Para tanto elaboramos o questionário abaixo: - Qual seu nome e formação? Alice Fátima Martins Graduação: Licenciatura em Educação Artística/Artes Plásticas (1983) Mestrado em Educação (1997) Doutorado em Sociologia (2004) Pós-doutorado no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (2010) - O que você sabe sobre as relações entre conexões sinápticas e interface cérebro-cérebro? Qual o impacto na produção científica? Por certo, ainda será necessário compreender melhor as dinâmicas de funcionamento das comunicações de transmissão de informação no sistema nervoso humano – que vai um pouco além do cérebro, estendendo-se por todo o corpo. Toda informação que processamos sobre o mundo à nossa volta, sobre nós mesmos, e nossas memórias, resultam de pulsos elétricos, com frequências que variam, medidas em hertz. Essas frequências é que podem ser captadas nos sistemas de interface que vêm sendo pesquisados por Nicolelis, e que chegam ao formato ICC. O exoesqueleto cuja estreia na grande mídia foi na abertura da copa, com cobertura frustrante, é um modelo de interface cérebro-máquina. Em entrevista posterior, Nicolelis advertiu que as pesquisas não são um filme de scifi de Hollywood, e que o exoesqueleto tem um limite, que já está dado. Ele foi tão enfático na afirmação do limite, que, de alguma forma, pareceu justificar-se ante um ponto em relação ao qual tem sido muito pressionado: a comunidade científica internacional tem a expectativa de que Nicolelis detenha dados bem mais avançados do que os que ele tem divulgado. Em outras palavras, “estaria escondendo leite”. É claro que qualquer desenvolvimento na direção de uma compreensão mais ampliada sobre o funcionamento do cérebro, que supere alguns protocolos baseados num modelo anterior, mais funcional talvez, implicará em profundas mudanças não só nas relações entre as pessoas, como também na compreensão do organismo não só humano, mas dos coletivos humanos. Talvez aí seja possível pensar nas redes de relação entre as pessoas como grandes organismos capazes de compartilhar e produzir informações. - O que você entende por ressonância cibernética aplicada à Brain net? Qual o papel desta nos estudos interface cérebro-cérebro? A também chamada internet cerebral se fundaria exatamente na ressonância entre atividades cerebrais de cérebros localizados em diferentes locais. O princípio da ressonância é quando diferentes corpos começam a vibrar numa certa frequência acompanhando a vibração de outro corpo que emite essa


frequência. Um exemplo disso é o processo de afinação de instrumentos musicais com cordas. Uma corda da nota LA começa a vibrar, mesmo sem ter sido tocada, quando outra corda é vibrada também na nota LA, mesmo que em oitavas acima ou abaixo. Esse é o processo de ressonância. Esse princípio também se aplica ao princípio de comunicação intracelular, no caso das sinapses neuroniais. E é justamente a captação dessas frequências em ressonância que está no centro dos estudos em direção às interfaces cérebrocérebro. Como é o caso do experimento divulgado por Nicolelis envolvendo os dois ratos, um no Brasil, outro nos EUA, e a comunicação que se estabelece entre ambos, para a execução de algumas atividades pré-programadas. - Qual sua opinião sobre as conseqüências sociais destes estudos para a humanidade? É impossível pensar nessas questões sem me reportar ao romance Duna, escrito por Frank Herbert, em 1965. Numa história que transcorre mais de 21000 anos no futuro, quando a humanidade já colonizou muitos planetas, o uso de computadores e inteligência artificial foi proibido há muito tempo. Por essa razão, os seres humanos conseguiram adaptar suas mentes para se tornarem capazes de tarefas extremamente complexas, como a computação mental desenvolvida pela escola Mentat. Senhores de suas capacidades mentais – inclusive para comunicar-se com outras pessoas – a dependência em relação aos equipamentos tecnológicos tem ares de atraso, anacronismo. Não acho que à ficção científica caiba a previsão de futuro... futuros... mas a problematização do presente, em suas potências latentes, em suas virtualidades. Talvez seja isso que, já na década de 60 do século passado, Frank Herbert esteja a fazer, nesse romance épico. É preciso perguntar: a indústria produtora de equipamentos que funcionam dentro de certos padrões atende a quais interesses? Visam prioritariamente à interação efetiva e profícua entre as pessoas, comunidades, coletivos? Ou atendem aos interesses de megacorporações e seus projetos tecnoecômicos? O desenvolvimento de pesquisas científicas e tecnológicas consegue ter autonomia em relação às estruturas hierárquicas tecnoecônimcas com as quais este entrelaçado? Em que medida os resultados de pesquisas como as que Nicolelis tem desenvolvido interfeririam nos interesses tecnoeconômicos vigentes hoje, fundados nos modelos tecnológicos que conhecemos? A quem interessa que esses modelos sejam superados? A quem interessa que outras potencialidades ou possibilidades entrem em vigor? No tocante a consequências para a humanidade, sem dúvidas, a ideia de internet cerebral é ao mesmo tempo assustadora e instigante, sedutora. A imersão numa rede dessa natureza alteraria as noções de pertencimento ao coletivo. Pensar nisso provoca, também, um pouco de medo, e me lembra um filme de ficção científica intitulado Cidade das sombras, Dark city, de Alex Proyas, realizado em 1998. A cidade das sombras é uma cidade artificial, uma espécie de laboratório, criada por seres alienígenas cuja comunidade tem por característica uma consciência coletiva. Todos partilham uma consciência comum ao grupo, além de serem portadores da capacidade de alterar a materialidade das coisas. Essa consciência coletiva, que é seu traço mais potente, é também sua perdição, fonte de enfraquecimento da sua raça. Por


isso eles sequestram pessoas, e interferem em suas memórias e identidades, para compreender a singularidade das identidades humanas. A ideia de rede de cérebros interconectados me fascina mas, ao mesmo, tempo atemoriza... - Nicolelis descreve que o senso de ser de nosso cérebro não termina nos limites do corpo, se estendendo também para as ferramentas que utilizamos e até mesmo para as pessoas com as quais nos relacionamos. Como você percebe as reverberações dessa noção em seu campo de pesquisa? Eu venho, há algum tempo, repensando algumas noções que envolvem aquilo que penso ser eu, a partir de uma noção de ser o corpo todo. Tenho produzido inclusive algumas breves reflexões que tenho publicado no meu blog, a exemplo do texto cujo link segue abaixo: http://blocodenotaserabiscos.blogspot.com.br/2013/06/ter-ou-ser-o-corpo.html Mas intuo que esses rascunhos me mostrem apenas a pontinha de um fio que se entrelaça com muitos outros, num emaranhado do qual sequer temos a mínima ideia. Nesse emaranhado, nos perderíamos entre nossas crenças que envolvem, por exemplo, uma certa ilusão de individualidade, esta a alimentar discursos e práticas fundadas nos processos singulares de subjetivação, de existências dos sujeitos. Enquanto escrevo estas linhas, penso, de fato, em sentidos de organismos-corpos dos quais tomemos parte, sem, contudo, termos noção. As escalas, nesse sentido, servem para nos confundir, e driblar nossa capacidade de compreender nosso estar no mundo. E as possibilidades de estabelecimento de redes conectando cérebros entre si a partir de frequências emitidas pelas atividades sinápticas neuroniais tomariam parte disso. Seria melhor eu escrever um conto de scifi, em lugar de ficar aqui, instigada por essas narrativas, pensando sobre essas questões? - Nicolelis fala ainda que nosso cérebro não funciona nem por meio de gestão hierárquica nem pela recepção unilateral de informações, mas pela realização de múltiplas atividades simultaneamente. Para ele, esse entendimento ocasionaria uma mudança no modo de distribuição do trabalho em diversos setores da sociedade. Qual a sua opinião sobre isso? Penso que a própria noção de sociedade poderia ser profundamente alterada, a partir dessa compreensão do cérebro...

Entrevista Alice Martins  

Curso de Tutoria para Especialização em Inovação em Mídias Interativas - MediaLab - UFG

Advertisement