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SEGUINDO EM FRENTE Uma chance. Uma nova vida. A descoberta do poder de amar. Parte I


ANGELINE SOPHIE

SEGUINDO EM FRENTE Uma chance. Uma nova vida. A descoberta do poder de amar. Parte I


Capa Caroline da Silva Magnus Revisão Daniela Patrício Editora Bookess Rua Lauro Linhares, 589 - 3ºandar CEP - 88036-001 | Florianópolis | SC

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Sophie, Angeline Seguindo em frente : uma chance, uma nova vida, a descoberta do poder de amar : parte I / Angeline Sophie. - - Florianópolis : Bookess Editora, 2013. ISBN 978-85-8045-563-2 1. Ficção brasileira I. Título. Índices para catalogação sistemático 1. Ficção : Literatura Brasileira 869-93


"O amor ĂŠ nosso verdadeiro destino. NĂŁo achamos o significado da vida sozinhos. NĂłs achamos com o outro." - Thomas Merton


A meu avô Antônio, que me incentivou a lutar por meus objetivos e sempre estará presente em meu coração...


Agradeço a Deus por me proporcionar o fôlego da vida e me sustentar nos meus momentos de fraqueza. Ao meu namorado, Marcílio, pela sua paciência, conselhos e apoio nesse projeto, e por aturar minha compulsão pela escrita, assim como fez a minha família, principalmente meus amados pais. Agradeço também às queridas Elane, Evelise Mariane e Deise pelas primeiras leituras, impressões e sugestões. À ”voz” de Samanta, que não me deixou em paz até que eu escrevesse sua estória. E agradeço principalmente a você, caro leitor, pelo interesse em conhecer minha obra.


PRÓLOGO Querido Diário, Aconteceu hoje. Meu primeiro beijo. Estou tão feliz! É ele. Ele, o Marcelo. Ele gosta de mim, mesmo! Ele pode realizar o meu sonho bobo de ser beijada na chuva como no filme romântico que assisti e acabei me emocionando. Pensei entre risos. Sinto-me uma boba, mas como não ficaria? O Marcelo é lindo e ele disse que gosta de mim. Eu estava no pátio da escola comendo o lanche que minha mãe havia preparado. Estava solitária, distraída como sempre, quando ele se aproximou. - Oi. – Ele disse. Na hora fiquei sem saber o que responder. Ele é bastante charmoso e eu sou tão apaixonada por ele... Achei que estava num sonho e continuei quieta com medo de que acordasse. - Você fala? – Ele perguntou, então nervosa eu, ri. E quando me dei conta ele estava rindo também. Lembro-me rindo agora.. - Você é quieta, mas parece legal. Seu nome é Samanta, não é? - Sim. – Respondi tímida. Ele sorriu e acariciou de leve meu rosto com o dorso de seu dedo indicador. Parei de respirar na hora e senti minhas bochechas queimarem. - O meu é Marcelo. – Ele falou, mas não precisava, eu sabia o nome dele e podia reconhecê-lo até de olhos fechados. – Quantos anos tem? - Treze. – Eu respondi. – E você? - Quatorze. Se eu fizer algo promete que não ficará zangada comigo? - O quê? - Prometa primeiro. – Disse risonho e eu sorri. - Está bem, prometo. – Falei receosa. Então, sem mais delongas, ele me beijou. Foi estranho de início, o estranho causado pela impressão do que é desconhecido, um beijo lento, apenas o roçar dos lábios e depois um molhado, minha língua inexperiente cedendo aos esforços e conquista da dele. Foi maravilhoso.


Ele se afastou aos poucos e mantive meus olhos fechados por mais um tempo. Ouvi o riso dele e abri os olhos. Ele me fitava alegre, satisfeito. O sinal que alertava ao fim do intervalo soou. - Posso te acompanhar até a sala? Não respondi, apenas afirmei balançando a cabeça. Estava extasiada ainda pelo beijo. Pela sensação boa de ter sido beijada por ele, o menino que eu gosto. Bom, papai chegou. Preciso ir. Feliz, muito feliz! Querido Diário, Ele é um monstro. Um monstro. Acabou tudo. Marcelo não irá me querer mais. Acabou tudo. Estou suja. Choro. Ele me tocou. Me tocou! Estou dolorida. Meu corpo dói. Tudo por dentro dói. Ele me tirou sangue. Ele tirou sangue de mim! Eu o odeio. O odeio. Eu quero que ele morra. Eu quero matá-lo. Ele disse que me mataria se eu o denunciasse. Mas eu vou fazer do mesmo jeito. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero... Eu já estou morta. Ele causou minha morte quando me tocou.


CAPÍTULO 1

-N

ão, por favor... Por favor... – Suplico com a voz engasgada quando as mãos fortes e calejadas viajam pelo meu corpo. Eu fecho os olhos com tamanha repulsa ao contato dele, tentando pensar em outra coisa que me tire mentalmente daquele quarto mal iluminado, mas não consigo e tudo o que percebo é o desespero criando asas e se ampliando. - Mamãe, mamãe... – Grito, mas ela não vem ao meu socorro. Por que ela não me defende? Por que ela permite isso? Ele evita meus gritos e as lágrimas escorrem por minha face sem trégua. Soluço e por pouco não me sufoco com a pressão de suas mãos em minha boca, e com a inconstante e exponencial ferida em meu peito que eu sabia que jamais iria curar. Por que isso? Por que me odeia tanto a ponto disso? Minhas lágrimas e súplicas, nada adiantam para fazê-lo parar. Ele delicia-se do meu sofrimento, e cada atitude reativa minha é um acréscimo para seu delirante prazer. - Ei. Querida, acorde. – A sacudida em meus ombros me desperta de mais um dos meus pesadelos. Olho para Cris, minha melhor amiga e uma das poucas pessoas que permiti que entrasse em minha vida, que me encara preocupada. Eu a abraço, ainda mexida, sentindo-me impotente diante do pesadelo que ainda é tão vivo em minha mente e que me assombra há tempos. Durante os anos em que minha vida consistia naqueles abusos estive em escuridão total. Sentia que me tornava um ser deprimente e passível de nojo e escárnio por fora, e mais sujo por dentro, muito sujo por dentro, ainda sou suja. - Acalme-se, eu estou aqui. – Cris sussurra, respondendo ao meu abraço de uma forma protetora, acariciando minha nuca. Cristina é como uma irmã mais velha, às vezes como uma mãe cheia de influência e que adora impor ordens e sempre como uma ótima amiga, cheia de conselhos e palavras de conforto. Nós nos conhecemos na enfermaria de um hospital, onde eu fui internada aos meus dezesseis anos, após ter sido


esfaqueada pelo Michael – que havia descoberto minha gravidez – E ela internada após sofrer um acidente de carro, quando saía de uma festa com amigos. Na época, a pior da minha vida, ela foi a única com quem me senti à vontade para desabafar sobre minhas dores, pois havia em sua expressão compreensão e empatia e não um olhar acusatório, ou que me fazia sentir como um ser digno de piedade, fadado ao sofrimento e fracasso. - Pegarei algo para você beber, tudo bem? – Ela diz ao notar o cessar de meus soluços e que estou mais calma. Concordo e ela se põe fora do quarto. Às vezes penso sobre o que me aconteceu e pergunto-me o que pode ter mais me ferido: se a dor por ter sido violada e quase morta pelas mãos do meu próprio pai, o homem que eu deveria ter como meu herói assim como nos filmes que eu assistia na TV, ou a dor por ter sido odiada e ignorada pela minha mãe, que não deveria me negar proteção e carinho. No início não era assim, Vivian era uma boa pessoa comigo, foi paciente quando me ensinou a ler e a escrever, me levava para a escola e para brincar no parque próximo a nossa casa. Ela até contava histórias para eu dormir. Já Michael sempre foi um homem de poucas palavras, raramente escutava sua voz, a não ser para brigar comigo ou com a mamãe. Ele não gostava dela, não gostava de sua vida tediosa ao lado dela, não gostava de mim, pois fui o motivo principal para que fosse expulso do lar e da proteção de seu pai bancário e de sua mãe pediatra, para que se casasse com minha mãe, assumindo suas responsabilidades como um verdadeiro membro da família Gonzales fazia. Ele, nas poucas vezes que abria a boca, era para resmungar de seu cansaço por conta do trabalho como operário em uma fábrica de automóveis, ou para me culpar por estar numa miséria. A princípio suas palavras me feriam, mas com o tempo fiquei habituada a elas. Minha mãe dificilmente intervia em meio a suas agressões verbais, ela me dizia que era melhor não tentar enfrentar alguém quando ele está irritado demais, pois uma pessoa assim estava fora de seus limites controláveis, mas eu me perguntava quando era


que Michael se apresentaria diferente disso. Nunca soube a resposta. Eu desisti de pensar ou me preocupar com o jeito dele e a reação de minha mãe ao seu comportamento, pois ouvia gritos e choro da vizinha do apartamento ao lado, quando o marido dela bebia demais e a agredia e agradecia a Deus por Michael não ser do tipo. Mas o fato era que se ele tentasse, com certeza eu não iria permitir, não deixaria em apuros a mulher que me carregou em seu ventre e que cuidou de mim com tamanho zelo. Porém, esse meu pensamento foi se tornando incerto com o passar do tempo, pois, à medida que eu crescia, sentia a distância entre mim e minha mãe se acentuar. Papai passou a me olhar de uma forma estranha e, de uma maneira medonha, eu percebia que o excesso de “atenção” que meu pai me dava fazia minha mãe sentir ciúmes de mim. Não demorou muito para que eu, na minha ainda inocência aos 13 anos, descobrisse o porquê papai passou a ser mais atencioso, a tentar se aproximar mais de mim com presentes e passeios supostamente normais entre pai e filha. Foi em uma noite em que ele chegou bêbado e me encontrou sozinha em casa, que eu descobri. Não demorou muito para que eu percebesse que minha desgraça poderia ser usada como exemplo por outra pessoa, para que ela se sentisse melhor quanto a seu próprio problema, como às vezes eu fazia com a situação da nossa vizinha. Não demorou muito para que eu tomasse um golpe duro da realidade e tomasse consciência da tamanha crueldade que existiu na mente e nas atitudes de pessoas dentro de minha própria família. A constatação ainda me deixa enojada, era a filha deles, como ele, sendo meu pai, pode destruir o meu interior, meus sonhos de juventude, minha segurança e esperança quanto a meu futuro? E como ela podia me enxergar com uma oponente? Como ela podia pensar que eu gostava do toque daquele animal sujo e nojento em meu corpo frágil, e que era estranho até para mim mesma? A raiva me consome e choro novamente.


- Espera, Borboleta, não fica assim. – Cris volta a sentar ao meu lado na cama e me entrega um comprimido e um copo com água. – Tome isto, precisa relaxar para dar um passo importante amanhã. Eu engulo o remédio, levando o copo aos lábios enquanto volto meu olhar para o meu vestido bege passado e estendido na cadeira no canto do quarto para ser usado numa entrevista de emprego. - Quer dizer, daqui a algumas horas. – Ela se corrige ao olhar o relógio na minha cômoda. – Já são três da manhã. É melhor voltar e tentar seu sono de beleza para que não acorde com olheiras. Quer que eu durma aqui? – toma o copo da minha mão. - Não, ficarei bem. – A observo por um momento, seus olhos castanhos, bem mais claros que os meus, seu cabelo liso num tom loiro oxigenado, enquanto o meu é também pintado, mas na cor caramelo. Imagino-a como um anjo em minha vida, a pessoa que me apoia sempre como se eu fosse do seu sangue, a pessoa que faz de tudo por mim e por quem eu daria minha vida acima de tudo. É minha única amiga há quase sete anos. - Obrigada. – Agradeço, pondo nessa pequena palavra toda minha gratidão. Em meio a um turbilhão de pessoas de possíveis índoles agradeço a Deus por ter colocado uma como ela em meu caminho. - Bom descanso. – Ela beija minha testa e sai do quarto apagando a luz e deixando a porta entreaberta com um feixe de luz do corredor atravessando o quarto. Eu volto a deitar e tento afastar-me do último pesadelo me concentrando em pensamentos ansiosos sobre o dia que já se inicia e não demoro muito para pegar no sono novamente. *** Acordo com o som do Crazy Frog – Axel F em meu celular. Sinto-me cansada, odeio ter que usar os remédios para dormir, pois sempre me fazem acordar com a sensação de ressaca: a cabeça pesada e a dignidade ferida pela sensação de ter


acontecido algo ruim e que você sabe ter sido impotente diante de tal. Levanto-me e caminho para o banheiro, tomo um banho rápido, passo pomada na ferida do meu antebraço, devido a uma queda que tomei numa corrida pela orla da cidade, e me troco antes da Cris acordar, ocupar o banheiro e demarcá-lo como seu território. Trajo-me com um vestido bege em gabardine de algodão, com manguinhas e zíper nas costas, e calço um sapato da mesma cor de 6 cm pois é o máximo que me permito andar sem tropeçar, quanto a meus crespos apenas prendo-os em um rabo de cavalo. Encontro Cris entrando no banheiro quando saio do quarto a caminho da sala. Ela olha para trás sobre o ombro e recua virando-se para mim. - Fiu, fiu! – Assobia. – Está indo para uma entrevista ou indo negociar uma saída com algum executivo para mais tarde? – pergunta risonha. - Gostou? - Claro. – Sorri orgulhosa. – Fui eu quem escolheu. Agora, tem uma coisa errada. – aparenta preocupação. - O quê? - O que há com seu rosto? – Ela aproxima-se de mim e aperta minha bochecha. – Cadê a maquiagem? - Não, sabe que eu odeio isso. – E odeio tudo mais que faça eu me destacar e ser o centro das atenções. - Ao menos tente colocar um pouco. Venha, eu ajudo. Ela me puxa até o banheiro e me faz sentar na borda da banheira. Passa delineador em meus olhos e sombra branca, um pouco de blush e um batom rosado em meus lábios grossos. Manda eu me olhar no espelho e se gaba ao constatar a diferença do antes e depois que só ela enxerga. Após tomar café, saímos juntas a caminho do prédio sede das empresas Vasquez. Cris estaciona seu Citroën C3 vermelho na frente do edifício. - Obrigada pela carona. – Falo antes de descer do carro, levando comigo a bolsa de ombro branca e meu blazer bege. Maravilhada, observo o edifício de vinte e dois andares, com sua fachada coberta por vidros espelhados. Vejo o movimento de entra e sai de homens vestidos formalmente em seus ternos e


mulheres em conjuntos sociais, caminhando com tranquilidade e familiaridade com o ambiente. Vê-los dessa forma me faz sentir receio, me dá uma grande sensação de impotência, como se aquele ambiente fosse muito estranho para minha presença ali. - Sam? – Ela chama e inclino-me na janela. Ouço o barulho de buzina vindo de um Audi A8 L W12 azul noturno que aguarda atrás do carro da Cris, que olha pelo retrovisor e parece não se incomodar. – Quer que eu passe aqui para te pegar para almoçarmos? - Não, eu não sei que horas tudo terminará. – O barulho da buzina continua insistente. – Eu me viro por aqui. – concluo. - Está bem. É melhor eu ir antes que o imbecil acabe passando por cima da minha filhota. – Refere-se à Bibi, seu carro. – Boa sorte. Liga contando as novidades. - Certo. Afasto-me da janela e aceno ao vê-la partir. Não demora muito para o Audi estacionar onde ela havia parado, à minha frente. Nenhuma porta se abre e eu me pergunto por que de tanto barulho para nada. Observo a janela com vidro fumê e fico um pouco tentada a descobrir a pessoa ansiosa e com muita grana por trás dela, devido àquele estilo de carro. Olho para o relógio e desisto da ideia, sigo caminhando para dentro do edifício. Passo pela porta giratória e fico espantada pela leveza do seu interior. Tudo ao redor é de um branco intenso, exceto pela mesa da recepção que é feita de aço e os pilares do local forrados por metal, do outro lado há um ambiente com sofás e poltronas de couro branco onde algumas pessoas socializam. Em uma das paredes há o nome “Vasquez” com as letras moldadas também em aço inox. Aproximo-me da recepcionista e me identifico, recebendo prontamente um cartão de acesso pela catraca. Passo pelo segurança que me cumprimenta com um aceno de cabeça e lhe dou meu melhor sorriso. Perco um dos elevadores e fico no aguardo para o próximo, observando a fila crescer atrás de mim. O frio na barriga se acentua com a expectativa. Ter sucesso nessa entrevista é um passo importante em minha vida sem


graça. Além da amizade de Cristina, do carinho que recebi de seus pais e do acompanhamento psiquiátrico, o foco nos estudos foi mais um dos meus aliados na busca da superação de meus traumas passados. Senti uma imensa alegria ao me candidatar à vaga de assistente de Júlio Metsumi, o gerente de marketing e vendas do departamento de marketing do Grupo Vasquez e ser aprovada para a última fase da candidatura: uma entrevista com o próprio gerente e o seu chefe, o diretor Jonathan Lewis. Olho para o relógio novamente, ainda faltam vinte e cinco minutos para a hora combinada. Noto um homem parar ao meu lado ignorando todas as pessoas que aguardam atrás de mim. Eu o olho incômoda com a sua atitude. Espreito seu perfil, o nariz retilíneo, lábios medianos, cabelo num tom castanho escuro bem cortado, tratado e úmido, barba feita, alto e de boa aparência física, bem moldada sob o terno preto, a camisa branca e a gravata azul do mesmo tom do Audi que vi estacionado lá fora, aparentemente uns 30 anos ou um pouco mais. Ele é bastante simpático, quer dizer bonito, está bem, muito bonito! e isso é perceptível até para mim, que não me importo muito com aparência masculina, mas sua expressão impassível e seu porte imponente o fazem parecer um homem arrogante. - Licença, mas não sei se você reparou... – Inicio a falar, mas minha coragem some quando seus olhos dirigem-se a mim. Olhos azuis, lindos olhos azuis, do mesmo tom que um oceano e tão profundos e envolventes quanto o mesmo. - Sim? – Sua voz é firme, num tom que infunde respeito, embora educado. Meus olhos param um momento em seus lábios. – Distraída? – Coro e desvio a atenção de seus lábios. - Há uma fila atrás de nós. – Ele olha para trás de forma despreocupada e volta a me fitar com a sobrancelha erguida. - Não deixei de notar. – Retruca em tom seco e volta a olhar para frente. Um dos elevadores abre e caminho para entrar, por um descuido, meu salto se prende na entrada do elevador e acabo tropeçando, sinto uma mão me amparando pelo braço e outra pela cintura. O estranho arrogante evita minha queda e ajuda a


manter-me em pé. Contato próximo demais. Sinto uma sensação boa, um leve choque percorrer meu corpo, e afasto-me imediatamente de suas mãos. - Obrigada. – Respondo envergonhada. - Não há de que. – Dá um sorriso amistoso. Entramos no elevador e ele aperta o botão para fechá-lo. - Espera, há outras pessoas... – Aponto para fora. - Sou muito espaçoso. – me interrompe, aperta o botão do último andar e me olha. – Só vai dar um passeio no elevador ou tem algum andar em mente? – A inflexão de sua voz assim como seu semblante é cheio de arrogância e descortesia. Estico meu braço, inclinando-me em sua frente e aperto o 18º andar. Sinto-me desconfortável por estar sozinha na presença dele e em meio a uma energia desconhecida, enervante dentro do elevador. Aperto a alça da minha bolsa, e tento parecer tranquila, mas fica difícil ao perceber os olhos vigilantes sobre mim. - Nova aqui? – Pergunta. - Sim. - Já vejo. – Diz irônico. – Como se chama? - Samanta. - Samanta. – Repete meu nome baixo, como se o analisasse. – Está aqui para a vaga de assistente do gerente de marketing e vendas? – Arqueia sua sobrancelha. - Sim. – Como ele sabe disso? - Você me parece nova. – e você um intruso, ouso pensar. – Desculpe perguntar, mas quantos anos você tem? - Quase 23. – Fixo a vista no painel esperando que ele se toque da minha falta de vontade por estender o diálogo. - Quase 23? – Zomba, o olho e vejo que sorri preguiçosamente. Ele é muito charmoso. - Sim. – Engulo em seco e desvio de seu olhar. – Farei daqui a uma semana e meia. – Continuo a focar o painel. - Você é de poucas palavras. – Franzo as sobrancelhas. Não, só não gosto quando riem de mim. - Tem experiência? Já trabalhou em algum outro lugar antes de se candidatar aqui?


- Sim. – Olha-me como se esperasse por mais informação, relutante eu prossigo. – Logo no início da faculdade, como coordenadora de vendas numa cooperativa de mulheres artesãs, era algo novo, pessoas de uma comunidade, por isso me deram esse cargo. – fito-o achando que me dará um olhar reprovador, mas ele dá a impressão de estar mesmo interessado no assunto. - E deu certo? - Deu, até que eu e uma colega, que era encarregada em acompanhar a produção, saímos da cooperativa. - E por que saíram? – Indaga curioso. - Quanto à Laura eu não sei, mas quanto a mim, – fico com receio de ter que mencionar uma das concorrentes do Grupo Vasquez no ramo imobiliário, mas seu olhar encorajador me faz dar seguimento. – fui contratada como estagiária na empresa “Lamborgia”. - Que interessante. – Me fita sério. – E por que saiu de lá? - Por que me formei e o lugar que pretendia já estava ocupado, eu não aceitei o que me ofereceram. O salário era até bom, mas as atividades não tinham a ver comigo, e eu não consigo permanecer em algo que não me interessa. - Entendo. – Me encara, prende seu olhar ao meu, fazendome sentir como se a minha parte mais fragilizada pudesse ser descoberta, como se apenas com seu olhar ele pudesse compreender meus receios e pensamentos angustiantes mais profundos, e sou a primeira a ceder quando sinto o rubor crescer em minhas bochechas e meu nervosismo aumentar. E agradeço mentalmente ao ver as portas do elevador se abrirem no meu andar. - Com licença. – Saio do elevador com um sorriso tímido nos lábios. - Pois não. Ah, Samanta? – Me viro para olhá-lo. – Boa sorte, eu estarei torcendo por você. – ele sorri simpático. - Obrigada. – Retribuo com um sorriso largo, sincero. Ele me fita sério, e não tira seu olhar intenso do meu até que as portas do elevador se fecham. Respiro fundo, aliviada pelo distanciamento do estranho.

Seguindo em frente para o issu divulgação 2013  

Uma chance. Uma nova vida. A descoberta do poder de amar. A jovem Samanta Gonzales tenta prosseguir com sua nova vida buscando se livrar de...

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