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CEGUEIRA Susane Matos

Capa não Oficial. Imagem retirada da Internet só para mera ilustração.


Cegueira

Susane Matos Dias

Capítulo 1 Escuridão. Suor na testa por conta do forte calor. Meu relógio digital apita e diz “8 horas”. Passos dados de forma cautelosa. Movimentos contidos com a bengala. Respiração ofegante da minha cadela da raça Golden Retrivier chamada Bete, em homenagem a personagem do desenho Os Flintstones que adorava quando criança. Bete é minha parceira há exatos nove anos, e me foi dada por mamãe logo quando tudo aconteceu. Logo quando meu mundo se inundou em completa escuridão. E antes que você se pergunte: sim, eu posso sonhar! Pouquíssimas pessoas têm coragem de vir até mim e conversar, dentre elas a maioria são crianças, e depois de tantas outras indagações, as sobre sonhos são que ganham disparado no ranking curiosidade. Bom, respondendo vossa dúvida: logo quando perdi toda minha visão, eu sonhei com imagens visuais por certo período, mas com o tempo as imagens foram se apagando da minha memória. Tudo o que se passa agora em meus sonhos são imagens auditivas, táteis, olfativas e gustativas, que com certeza provocam uma sensação similar a você, indivíduo que lê. Por me atentar a pessoa desconhecida, meu nome é Cecília, tenho 24 anos. Prazer! Segundo o que minha mãe descreve como sendo minhas características: tenho 1,70m de altura, morena clara, cabelos castanhos escuro, cheios e cacheados, de cumprimento até o meio das costas, magra, com as gorduras em seus devidos locais, seios pequenos, quadril e bumbum de tamanho considerável, nariz pequeno e retilíneo, lábios com notável volume, sobrancelhas pretas, cheias, mas bem delineadas segundo a mulher que as molda. Enfim, segundo ela eu sou uma jovem bonita, mas retirando a menção da gordura e o tamanho do cabelo, as outras características podem ser até de caráter duvidoso já que, como disse inicialmente, é conforme a visão da senhora de nome Soraia, a mãe coruja. Bete rosna. É sinal de que algum estranho que ela não foi com a cara está perto de mim. Prendo a bolsa mais forte debaixo do braço. Aguardamos o sinal fechar para os carros. Escuto os motores dos mesmos, alguns passos tranquilos atrás de mim, duas mulheres conversam sobre a novela da noite de ontem, alguém mexe no celular fazendo o barulho irritante das teclas, um homem boceja, outra pessoa estala os dedos... Os cheiros são inconfundíveis em minha mente, no momento doce e que insinua a presença de mulher, também cítrico, amadeirado e forte, que relatam a aproximação de seres masculinos, odor da tremenda gordura da barraca de pastéis a menos de um minuto da faixa de pedestres, o cheiro de lavanda do novo shampoo da Bete... Muitas pessoas parecem temer algum contato comigo. Sinto suas presenças, ás vezes seus receios são tão manifestos que parecem exalar um cheiro que me provocam tal evidência. Tenho vontade de gritar e dizer: ‘não pedirei que me ajude a atravessar a rua porque sei que com certeza está muito atrasado’, ou ‘me xingue por ter esbarrado em você porra, enquanto você está muito


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apressado para se incomodar em se atentar a quem passa ao seu lado’, ou até ‘não estou disposta a ouvir sua cantada barata, deve ser muito fácil transar com uma cega e não se preocupar em ser reconhecido depois’! Mas eu, como um ser gentil que sou, nunca ousei pronunciar tais acusações. Imagina, justo eu! O sinal abre. Bete se põe em movimento e a sigo sobre a faixa. Fazemos nosso ardiloso trajeto até as escadarias do metrô. O barulho é intenso na plataforma e tem dias que me provocam dor de cabeça. Hoje não é diferente. Murmúrios e passadas por todas as direções que me desconcentram até do meu mapa mental criado até o guichê. Um ser rígido, com um casaco de algodão se esbarra rispidamente em mim. Ele tem um cheiro inusitado, que mescla cigarro e hortelã. Seguro meu óculos instintivamente, para que seja quem for não veja minhas cicatrizes ao redor dos olhos, e por descuido solto a coleira de Bete. - Desculpa. – peço. - Não observa por onde anda? – a voz de um homem. Uma voz elevada em arrogância por sinal. - Já pedi desculpa. Um doce de pessoa você não? – abuso do meu famoso sarcasmo. - Bete? – bato a bengala no chão para tentar chamar a atenção dela... E nada. – Bete? - Desculpa. – a voz dele soa atrás de mim, mais branda agora. Viro meu corpo em direção ao som emitido. - Pela sua grosseria ou por eu ser cega? - Assim você não ajuda. – seu tom esconde um traço de humor. – Fique aqui parada, acho que já encontrei a Bete. - Nossa incrível o quanto minha cegueira gera sua gentileza. – resmungo, mas ele não responde. Fico frustrada com a possibilidade de que ele não tenha ouvido minha provocação. Permaneço imóvel, incerta se o estranho apenas se mandou ou de fato está trazendo a Bete até mim. - Calma garota. – ouço-o novamente. Diz como se tentasse acalmar uma criança da qual havia roubado doce. Sorrio. - Vem aqui Bete. – a chamo dando tapinhas em minha calça social. Ela prontamente me obedece, e sinto suas patas sobre minhas pernas. – Você abandonou a mamãe, sua ingrata. – me agacho e acaricio seus pelos antes de tomar posse novamente da coleira. - Você é uma garota muito boazinha. – ela lambe minha bochecha, rio sentindo cócegas, e escuto um riso contido do estranho. – Isso foi ironia Bete. – digo e levanto ciente de que o desconhecido ainda está perto de nós.


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- Eu te desculparia se ela lhe desse uma boa mordida, mas que bom que ao contrário de você ela é tão educada quanto à dona. - Você é ótima para fazer as pessoas se sentirem melhores. Rio. - Obrigada. Foi um prazer te conhecer estranho. – estendo a mão e fico por segundos a mais do que de costume com ela no ar, até que sinto o aperto forte da mão com pouca calosidade e longos dedos. - Idem. – ele responde. - Adeus. – me afasto em direção ao guichê. - Ceci! – ouço em meio a distintas vozes a minha amiga e colega de trabalho Lúcia. Paro e escuto seus saltos em minha direção. - Oi Lu. – ela beija meu rosto, e depois, como sempre, esfrega seu dedo tentando limpar a mancha do batom. - Oi Bete, olha o que trouxe para você. – diz animada. - Não Bete. – dou uma leve puxada de advertência na coleira. – Não a acostume com esses biscoitos gordurosos Lúcia. Não desvirtue minha menina. – a repreendo. - Tudo bem. – fala risonha. - Cara de pau, eu sei que acabou de dar. - Foi só um. Vamos. – pega meu braço e continuamos a andar. – Você se atrasou. Quem era o cara que estava com você? - Um bastante educado que me fez perder a Bete. - Ele é exótico. Gostoso. E está parado olhando em nossa direção. - Mais um que gostou de você. – brinco com ela, que ri alto. Lúcia é bastante paquerada lá no trabalho. Ela sempre reclama de seu peso, mas toda vez que a abraço sinto suas curvas em seu devido lugar, ao menos para meu critério de proporções ela está mais para o nível de gostosa enquanto eu estou para uma garota saída da adolescência e iniciante em seu corpo de mulher. Conhecemo-nos faz três anos. Logo que entrei na editora de livros ela foi a primeira a me acolher de forma verdadeira, e no instante soube que seria uma amiga em potencial. Lúcia me acompanha na compra dos tickets de embarque e seguimos para o vagão.


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- Há um lugar a sua direita. Três passos compridos. – ela diz. Sigo suas instruções e sento. Acaricio a cabeça de Bete após me certificar de que ela está sentada e confortável a minha frente. Lúcia se posiciona ao meu lado e escuto o barulho do embrulho da padaria, o cheiro de pão de queijo fresco me inebria. Ela me dá um dos pães, o provo com deleite. Bete choraminga, e tenho certeza que mantem sua língua para fora e respira ofegante, como se fosse uma tortura ver a dona comendo. - Coitadinha. – Lúcia lamenta num tom evidentemente falso. - Está bem. Mas só um. - Soube do imbecil do James? - Não, o que tem? – James é um dos nossos colegas na empresa. Ele é o advogado que a representa na verdade, e Lúcia já teve um caso com ele. - Disse que voltará para a mulher. Lembre-me de esfregar outro cara no focinho dele. - Mais ainda? – rimos. - Como está sua mãe com a perda do novo namorado? - Deve estar muito bem, melhor do que eu com certeza. – falo com desgosto. Não gostava do comportamento promíscuo dela. – Não vai demorar a pintar outro querendo dar uma de mandão em sua casa. - Hm. – ela murmura mastigando outro pedaço de pão. – E quanto a você? Quando vai arranjar um para poder expulsá-lo de sua cama? – me questiona zombeteira. - Muito engraçado. – resmungo sorrindo. Silenciamo-nos e devoramos os quitutes da padaria durante a viagem até o outro lado da cidade. Tento-me abstrair de todos os sons incômodos e agradeço a Lucy quando ela põe um de seus fones no meu ouvido. - Ele era bonito por sinal. – ela fala de repente e viro a cabeça em sua direção. - Quem? - O cara que ficou te encarando. - Hm. – murmuro com desinteresse voltando a me concentrar nas batidas violentas da banda de rock. - Tem cabelos pretos, e parecia ter olhos castanhos. Pele levemente bronzeada. Lábios finos, nariz imponente e reto. – pronuncia devagar como se estivesse


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recapitulando a cena em sua mente. – Era charmoso, sério, a cara do perigo e de sexo animal. - Acabou? – a pergunto frustrada. Não havia lembrança sobre tonalidade ou traços em minha mente, e saber sobre isso é totalmente chato. - Desculpa, mas se você esbarrar com ele novamente e não quiser conta, ao menos faça amizade e me ofereça ele de bandeja. – faço careta. - Sabe, ás vezes te acho mais parecida com minha mãe do que eu. Ela gargalha descaradamente. - Cara de pau. – murmuro.

Meu trabalho na editora consiste em traduzir o texto original de um autor, seja ficção ou didático, para o Braille com a ajuda de um computador personalizado. Não é um dos melhores lugares para se trabalhar por conta de algumas pessoas com quem sou obrigada a conviver – James é uma delas, bem desagradável a propósito –, mas foi um dos poucos locais que ofereceram oportunidades para mim e instrumentos que facilitam minha inclusão. Além disso, sinto-me satisfeita em oferecer a oportunidade de leitura e cultura para aqueles que foram privados da visão assim como eu. Pego minha caneca sobre a mesa e levanto da minha estação de trabalho e caminho com a Bete até a copa. Paro com ela na entrada e a deixo próxima à porta. - Fique aqui. – a ordeno e entro na copa. - Já disse que não. – ouço a voz sussurrada de Lúcia. – Ah, oi Ceci. - Não sabia que estava aqui. – digo e caminho até a cafeteira. - Cuidado, está quente. – ela me alerta. - Ela sabe disso. – ouço a voz de escárnio do verme. – Ela sabe de muitas coisas aqui. Ás vezes eu desconfio de que não é cega coisa alguma. Ignoro o comentário do James. Não sei por que, mas desde que iniciei a trabalhar aqui, nunca, eu disse nunca, fui com a cara, ou melhor, com a voz desse homem. Ele me parece um ser inescrupuloso, maldoso e daqueles que não ousaria apresentar nem a minha pior inimiga. O cheiro dele é bem forte, daqueles que ficam impregnados no ar e que a qualquer momento pode lhe


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instigar irritação às narinas e espirro. E pelo que parece ele deve saber que não suporto nenhum pedaço dele, ao menos eu já deixei claro isso muitas vezes, por isso nem me afeto com seu comportamento hostil. Lúcia começou a se envolver com o mesmo depois de um relacionamento frustrado. Ele a paquerou quando ela ainda estava em frangalhos, o que deu um espaço para ele em seu altar. E toda vez que ela pensa em dar um basta no caso acaba recuando, pois se atém aos malditos pensamentos sobre os dias e as noites de consolo e apoio dele. Segundo ela, ele é um semideus, mas segundo nossa colega Jane, ele tem quase a mesma altura que Lúcia, estica os cabelos de trás para frente a fim de esconder sua recém-calvície, é magricela, e ainda tem uma relação conturbada, de amor e ódio com quem ele afirma ser sua exesposa. Apresso-me com o café e volto para minha mesa deixando para trás o clima de amor da copa e concentrando-me novamente na tradução. Algumas horas se passam quando ouço o barulho do meu relógio indicando a hora do almoço. O som de saltos torna-se elevado a cada passo orientado a mim. - Ceci. - E aí, vamos almoçar? – pergunto a Lúcia. - Hm, na verdade. – ela sussurra ao meu ouvido. – James me chamou para conversar. Você se incomoda? Sim. Eu ia dizer, mas, embora o destino que ela quer e a forma como no futuro ela pode ser tratada por ele me interesse, eu não tenho o direito da intromissão. - Claro que não. – minto. - Brigadão amiga. – beija meu rosto e dessa vez se retira sem limpar a sujeira. - Só você e eu Bete. – dou batidinha na cabeça dela.


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Capítulo 2 Saio do edifício com a Bete após cumprimentar o segurança, que mais uma vez se oferece para me ajudar a atravessar a rua, a qual do outro lado há um grande e bom restaurante. Recuso educadamente a gentileza e caminho para a faixa. Aguardo paciente a sinaleira fechar quando sinto o cheiro inusitado novamente. Quantas pessoas passariam por mim com esse cheiro hoje? Bufo em pensamento. - Senhorita educação em pessoa. – a voz do homem desconhecido me provoca um largo sorriso que não consigo controlar ou explicar o porquê eu tê-lo dado. - O que quer agora estranho? Não diga que se encantou com a pobre moça aqui. - A rua é pública e não seja tão convencida. – diz bem humorado. - Claro que não. - O sinal fechou. – ele avisa e sem esperar pega possessivamente em meu braço me assustando. – Calma, sou estou ajudando. – fala ao perceber meu receio. - Tudo bem. – me permito ser auxiliada por ele. - Passeio. – diz. Ergo o pé e subo na calçada, sendo abandonada por sua mão logo em seguida. - Acho que a Bete gostou de você. Ela geralmente rosna quando um estranho se aproxima além dos limites de mim. - E quais seriam os limites? – sinto-o dar um passo a frente, eu recuo. – Deixou cair alguma pulseira? Coloco a bengala debaixo do braço e toco meu pulso direito e constato a ausência de minha pulseira prata com meu nome traçado nela. - Sim. – ele pega meu pulso me fazendo sobressaltar novamente. - Não vou machucar você. – sua voz é baixa e tentadora. Estendo meu pulso para ele, que o pega e coloca a pulseira. – Para onde está indo agora? – traça círculos em meu pulso com seu dedo, e sinto meus batimentos se acelerarem. Caramba, esse estranho está mexendo comigo. - Almoçar. – engulo seco. Ele afasta sua mão, fazendo meu braço pender ao lado do corpo. - Eu sei que está morrendo de vontade de me convidar para te fazer companhia, mas lhe pouparei do convite e irei por espontânea vontade com você. - Claro que sim. – digo irônica. – Já sei que pelo visto sabe meu nome, mas e quanto a você? Como se chama? - Mark. E então, vamos?


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- Posso te fazer uma pergunta? – ele sugere após algum tempo que desfrutamos dos nossos pratos. - Sim, qual a próxima? – digo antes de levar mais um pedaço de bife a boca. - Quando perdeu a visão? - Aos quinze. – respondo automaticamente. - Auge dos hormônios. - É, foi complicado. - Quantos anos têm agora? - Vinte e quatro. E você? - Trinta e dois. – ele dá uma pausa. Ouço tilintar dos talheres, sinto o aroma íntimo do vinho que ele toma. – O que você faz? - Traduzo livros para Braille na editora bem aqui na frente. Afinal, como me achou ali mesmo? - Há um banco próximo daqui. Estava nele quando te vi saindo do edifício. - Hm. – murmuro assentindo e deslizo minha mão cuidadosamente pela mesa a procura de meu copo com suco. - Eu te ajudo. – ele tenta pegar minha mão novamente, eu o impeço. - Por favor, não me trate desse jeito. Posso me virar. - Tudo bem. – seu tom é de pura insatisfação. Demoro mais um pouco até que encosto a ponta dos dedos na superfície gelada do copo e o pego levando à boca. - Será que a Bete está bem ali? – me indaga. Bete sempre ficava do lado de fora do restaurante, com sua coleira presa no ferro de uma das portas de entrada. A maioria dos clientes do restaurante são funcionários do edifício, e todos já a conheciam, por isso não corria o risco de algum esperto tentar levá-la. - Sim. Não a deixaria ali se não estivesse. Ela custou caro à minha mãe e eu daria um colapso se a perdesse. Há mais um instante de silêncio entre nós. - Você mora sozinha? – subitamente inquere. – Quer dizer, eu olho para você e me parece tão indefesa. - Você não é o único. E sim, moro sozinha. Mas não sou tão indefesa, ainda posso ouvir, bater e gritar quando estiver em perigo.


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- E o que você faz nos tempos livres? - É sério isso? Quer mesmo os detalhes de minha vida? - Isso incomoda você? - Um pouco. É meio assustador. Eu não conheço você e até agora não sei nada a não ser seu nome. Isso se esse for seu nome de verdade. - Não acredita que lhe falei meu nome de verdade? – ele ri. – Tudo bem, me diz o nome de algum garçom de sua confiança. - O quê? - Apenas diga, confie em mim. - O que está nos atendendo: Miguel. - Tudo bem. Estou levantando a mão. Ele está vindo. – sorrio diante da descrição das ações dele. – Vou mostrar a ele minha identidade na carteira. - Pois não senhor. - Miguel certo? - Sim. - Diga a essa senhorita aqui qual o nome que consta na minha carteira, por favor. - É Mark, Ceci. – Miguel diz. - Obrigada. – ele aperta carinhosamente meu ombro e se afasta. – Está bem. Desculpa. - Tudo bem. Balanço a cabeça sorrindo. - Você tem um belo sorriso. – me bajula. - Sei. – bem que eu podia revirar os olhos para isso. - Não, não sabe. – fala e meu sorriso se desfaz. - É, eu não sei. – admito com certa mágoa. Nunca mais desejei tanto ver o rosto de alguém como o faço agora. - Desculpe, foi grosseiro da minha parte.


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Apenas balanço a cabeça. - Como você é? Digo, eu posso tocar o seu rosto? Ele não responde. - Este silêncio é um não? - Sim. – diz lacônico. - Então tudo bem. – retruco sem graça. – Olha não tenha receio de me dizer um não só porque sou deficiente visual. - Por que sempre associa a forma como lhe trato ao seu estado? - Não é questão estar e sim de ser. Enfim, só acho que não teríamos esse entrosamento caso eu não fosse cega. - Por que não? Você é bonita. Sorrio. - Sabe geralmente os homens se aproximam de mim com más intenções. Já caí duas vezes na lábia deles, um era ladrão e o outro arrasou meu coração. Seria mais fácil descobrir e evitar esses tipos se pudesse ver seus olhos, mas com você parece diferente. - Como pode saber? - Porque eu sinto isso. Quando escuto sua voz tenho a impressão de que já te conheço. - Nossa isso soa romântico e meloso demais para mim. – debocha e eu rio. Procuro o copo novamente e esbarro na mão dele, que prende seus dedos aos meus. Paraliso sem saber como reagir. - Você tem alguém? – ele pergunta. Seu polegar acaricia o dorso da minha mão. Nego com a cabeça, e mexida demais com o afago. – Quer sair hoje à noite comigo? - Não sei se é uma boa ideia. – não sai tão firme quanto eu planejava. – A gente se conheceu hoje. - Então o que espera? Que eu experimente me esbarrar com você por mais dias ao invés de tentar imediatamente o que de fato eu quero? Pelo que sei deixar de ser um estranho para você independe da quantidade de dias que a gente passe conversando entre um encontro inesperado e outro.


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Absorvo por um momento suas palavras. - Posso busca-la em sua casa. – insiste implacável. – Pode levar uma amiga, ou até um amigo caso não se sinta segura. Eu quero me encontrar com ele novamente, e admitir isso é algo muito fora do comum. Seria mais seguro em um ambiente conhecido. - Tá. – sorrio nervosa. – Mas que tal um jantar na minha casa? - Tem certeza? - Claro. Só um jantar. - Ótimo. – guia minha mão aos seus lábios e planta um beijo. Deus, ele mexe muito comigo! – Quer que eu te acompanhe até seu trabalho? Sabe como é, um caminho muito longo. – fala arrastado e soa sedutor. Apenas afirmo. Se com a voz e o mero roçar de seus lábios e dedos em minha pele eu fico desse jeito, imagine se... Não, nem quero imaginar.


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Capítulo 3 - Não acredito nisso. Não acha que é um erro leva-lo para aí? – Lúcia protesta ao celular. – E se ele for ladrão? Ou até um assassino em série? - Peraí, você queria que eu o apresentasse a você, e agora está com receio porque o chamei para jantar comigo? – prendo o celular entre meu ombro e o ouvido, enquanto pego os pratos no armário. - É diferente. Eu poderia descrever as características dele à polícia caso o mesmo tentasse algo. - Poxa Lúcia, sua sinceridade ás vezes é reconfortante. Não me magoa em nada. Coloco os pratos cuidadosamente na ilha da cozinha. - Desculpa amiga, mas me preocupo com você. - O meu vizinho do lado está avisado. Assim como o porteiro. – pego os talheres na gaveta. – Minha mãe fez questão de obriga-los a isso. Ela ri. - Hm. E o que está vestindo? - Calça jeans e uma camisa de mangas. - Qual é! Aquele gato vai para sua casa e é assim que vai recebê-lo? - Primeiro reclama do convite, agora protesta por conta da roupa que pode ou não agradá-lo. Você percebe o quanto é frustrante? - Falo sério. Não pode receber nem mesmo um possível maníaco vestida assim. - Muito ruim? - Péssimo! - Ah merda. – ela ri do outro lado. – Depois te ligo tá? - Certo. E cuidado. - Tá. Tchau. – desligo e caminho até meu quarto. Passo pela porta e sigo a esquerda. Encosto minha mão na porta do closet e a empurro. Primeira parte superior: calças jeans, inferior: calças sociais. Segunda parte: camisas para o trabalho e sequência de gavetas. Terceira: vestidos para sair. Deslizo a mão por alguns deles até que sinto uma textura de algodão. Retiro-o do cabide e passo a


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mão por suas partes. Manga curta, detalhe em V no busto e zíper na parte de trás. Será esse mesmo! Retiro minhas sapatilhas, minha calça e minha camisa, evitando que leve o óculos junto. Deixo as peças jogadas ao chão, pego o vestido. Coloco-o sobre a cabeça na tentativa de evitar o uso do zíper, mas sem efeito. Abro o zíper e ponho o vestido deslizando minhas pernas por dentro dele e o subindo pelo corpo. Coloco os braços nas mangas e faço um tremendo esforço para fechar o zíper, mas só o consigo até a metade do caminho. Lembrar-me de comprar apenas vestidos com zíper lateral, faço minha anotação mental. A campainha toca. - Ah merda! – me agacho no chão na tentativa de encontrar as sapatilhas debaixo das peças no chão. A campainha toca mais uma vez. - Já vou! – grito. Calço as sapatilhas e saio afobada do quarto tocando as paredes. Ouço os latidos da Bete próximo á porta. - Shhh. Quer que eu seja expulsa do prédio? Sai daí Bete. – ordeno e abro a porta. - Oi Mark. - Oi. Está linda. – Mark me surpreende com um beijo no rosto. Sinto o cheiro de sua colônia, muito diferente da mescla de cigarro e hortelã ao qual havia me perseguido ao longo do dia. - Obrigada por ter vindo. Entre. – espero ele passar e fecho a porta. - Olá Bete. - Me dá um minuto. Fique à vontade. – caminho para a cozinha. Ando até o fogão e desligo o forno. - Posso te fazer um favor? – o escuto falar próximo a mim. - O quê? – pergunto curiosa. - Isso. – ele toca meu ombro e termina de fechar meu zíper nas costas. - Obrigada. - Precisa de ajuda com outra coisa? - Está vendo os pratos e talheres na ilha? - Sim. - Coloque-os na mesa, por favor.


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- Claro. E quanto ao forno? - Sei lidar com isso aqui. - Tudo bem. – diz e escuto seus passos se distanciarem no piso de madeira maciça. Pego dois panos e retiro o refratário com a lasanha. Sigo devagar até a mesa de jantar e coloco-o sobre ela. - Espero que goste. Ouvi você pedindo espaguete no restaurante, então supus que gostasse de massa. - Sim. – fala risonho. – Você quem cozinhou? - Felizmente para você, não, – sorrio. – odeio cozinhar. Minha mãe fez para gente. – digo e volto para a cozinha. - E cadê ela? - Saiu há algum tempo antes de você chegar. – procuro a salada na mesa da cozinha. – Mark, pega para mim o suco na geladeira, por favor. - E os copos? - Segundo armário, acima da pia. Sua direita. – coloco a salada sobre a mesa e afasto uma cadeira para sentar. - Por que ela não ficou? – escuto o arrastar da cadeira ao meu lado. – Não percebeu que haveria um estranho com a filha dela? - Ela sabe que não colocaria alguém que considero suspeito dentro de minha própria casa. - Agradeço pelo voto de confiança. - Só não abuse. - Pode deixar. – sorrimos. Permito que ele nos sirva e desfrutamos do jantar em meio a risos e questionamentos feitos por ele em relação a mim. E não demora a habitual pergunta vir à tona. - Como ficou cega? Sorrio, levando o copo com suco à boca. - Quer mesmo saber isso?


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- Sim. – responde convicto e noto apenas seriedade em sua voz. - Meu pai era um habilidoso lutador. Dificilmente perdia nas lutas, até que um dia aconteceu. E depois desse dia, ele não voltou a ganhar mais nenhuma. Ele perdeu patrocínio. O empresário dele havia lhe passado a perna. E diante disso ele arriscou o pouco dinheiro que a gente tinha num jogo de azar. Ganhou um bom dinheiro da primeira vez, e a sorte de principiante o cegou. Ele se viciou, e quanto mais jogava, mais perdia, e consequentemente mais crescia a sua dívida. Respiro fundo e continuo. - Meu pai ficou devendo muita grana a alguns caras muito perigosos. Um dia eles foram até nossa casa, mas meu pai não estava. Então eles resolveram deixar um recado para ele... Eu estava com quinze anos, assistia a meu seriado predileto e minha mãe empolgada na cozinha preparava uma torta de morango cujos ingredientes eu havia comprado após ter ganhado um trocado cuidando do bebê de uma vizinha. – sinto as lágrimas anunciarem sua presença, mas não paro de falar. – Eles arrombaram a porta da sala. Vi dois encapuzados entrando e indo diretamente a minha mãe. Ela gritou pedindo que eu fugisse, mas não percebi quando um terceiro se aproximou de mim e me segurou... Cecília se debate nos braços do homem negro, encapuzado, com uma tatuagem de aranha no dorso da mão. Soraia grita desesperada quando um quarto homem, aparentemente o líder deles chega mais perto de sua filha com um pequeno frasco nas mãos similar a um colírio. - O que é isso? – Cecília pergunta amedrontada. - É só um recado para seu pai. – o quarto homem fala. – Toda vez que ele te olhar se lembrará do quanto foi um cara mau que não honrou com sua dívida. - Não! – Soraia grita. – Socorro! O homem da tatuagem de aranha senta no sofá, levando Cecília consigo e a imobilizando com suas pernas, envolvendo seu tronco com um braço, e com sua outra mão segura fortemente seu queixo. Ela chora e se engasga com o soluço. - Não. Por favor, não! O quarto homem se inclina na direção dela, e mantem suas pálpebras abertas enquanto derrama gotas do pequeno frasco em seus olhos. - Nããããooo! – Soraia grita.


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- Aaah! – Cecília brada e o tatuado a abandona no chão. Ela se debate nos móveis enquanto um ruído áspero sai das profundezas de sua garganta e de seu ser, e ecoa no cômodo de sua casa devido a inconstante e exponencial dor que a assola. - Eu não sei o que havia dentro daquele pequeno frasco, mas foi a pior dor que senti em toda a minha vida. - E quanto a seu pai? – Mark me indaga e sua voz demonstra certo incômodo. - Meu pai conseguiu sanar a dívida aos poucos, mas evitou contato comigo por culpa. Eu e minha mãe nos mudamos de cidade e só reencontrei meu pai no momento de sua morte. – digo com um fio de voz, ainda atormentada pela perda do convívio com ele, da destruição de nosso laço familiar. - Não há um meio de reverter isso? - Alguns médicos disseram que sim, mas o custo é alto e não tenho dinheiro nem paciência para isso. Talvez seja difícil concordar porque é algo novo para você, mas estou a quase dez anos desse jeito e aprendi a conviver com toda essa escuridão. - Mas se houvesse uma possibilidade em mãos, você arriscaria? Balanço a cabeça negativamente. - Por favor, não trate isso como um problema, senão eu serei vista como um problema para você. Isso já faz parte de mim e me incomoda colocar sempre minha cegueira como assunto principal. - Tudo bem. Desculpe. Há uns instantes de silêncio na mesa. Toco nervosamente a borda da toalha de mesa. - Hoje só falamos sobre mim. Quando irá me contar sobre você? Ele continua calado. Mordo meu lábio inferior sem jeito. - Eu odeio seu silêncio. É tão complicado ter a vontade e não poder te ver... Por favor, não me maltrate dessa maneira. Eu quero e preciso te ouvir. – praticamente lhe imploro. Ele dá um suspiro frustrado. - Talvez eu seja egoísta em estar tentando me aproximar de você. Acho que você pode querer muito mais do que eu posso te oferecer. Talvez eu não seja uma boa companhia e não esteja pronto para dividir tudo sobre minha vida. Por mais que eu fale, explique, sempre irei lhe parecer um estranho.


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- Uau. – falo desanimada. – Já me arrependi de te pedir para falar. – a cadeira ao meu lado fricciona a madeira do piso, e sei que ele se levanta. – Se for esse o momento de ir embora me fala ‘adeus’ e desliga as luzes, mas não sai de fininho, pois eu penso ter me batido com um homem de verdade. Não desfaz a imagem que eu tenho de você. Silêncio. Sinto o aroma da colônia dele. - Eu não vou embora. – sussurra ao meu ouvido, fazendo arrepiar positivamente meu corpo. – Vou lavar as louças. Assinto e escuto ele pegar os pratos, talheres e copos da mesa. Sorrio aliviada quando ele se afasta. Ele é maravilhoso. A energia que exala me enfraquece e me atrai demasiadamente, anulando por vezes meu senso crítico e de segurança. As linhas estão tênues com esse desconhecido e preciso criar um muro imediatamente.


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