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surge #31

2015 - 2016 dezembro/janeiro Bimestral Distribuição gratuita

S K A T E B O A R D

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Pedro Raimundo “Roskof” editor

Os quarenta são os novos 12 Nunca ouviram dizer? Pois, acredito, acabei de inventar este ditado… mas deixem-me explicar. Parece que quanto mais o tempo passa, mais novo me sinto… mas nem sempre foi assim. Bem me lembro de ter 15 anos e chorar por nunca mais ter 18 para tirar a carta e ganhar a minha independência. Nessa altura os dias pareciam uma eternidade, tinha tempo para inventar tudo e mais alguma coisa e ainda sobrava... mas depois dos 18, vêm os “vintes”, os “trintas” e aqui mesmo à minha porta estão os “enta”, estou literalmente a meses de me tornar um “cota”. Tempo, então, para refletir e olhar para trás. Sim, até aos 12 anos, idade em que me pus pela primeira vez em cima de um skate. Será que na altura tinha ideia do que iria estar a fazer quando chegasse aos 40? É claro que não fazia a mínima ideia! Na altura, se bem me lembro, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande respondia coisas como advogado, médico, astronauta, dependia do dia da semana e do estado de espírito, acho. Mas nunca me lembro de ter dito ”quero fazer uma revista de skate”, ou quero andar atrás de skaters pelo mundo fora a tirar fotografias. De fato, na altura pensava que os 40 eram tão distantes que nessa idade já estaria reformado, ou algo do género. Se na altura me tivessem dito o que iria andar a fazer nesta fase da minha vida, eu, sem dúvida, lhes diria que estavam a alucinar. Afinal, a meses de entrar oficialmente na meia-idade, o skate continua a ser uma das coisas mais importantes na minha vida. Continua a dar-me experiências únicas, como a viagem que fiz com o Bruno Senra aos Estados Unidos, ou como contribuir para documentários sobre skaters para a NBC, ambos artigos que podes ver nesta edição. Mas, mais importante que isso, continua a deixar-me, aos 40, ver o mundo pelos olhos de um miúdo. Hoje já ninguém me pergunta o que quero ser quando for grande, mas se perguntassem também não lhes responderia médico, piloto ou astronauta, responderia apenas que me deixassem ser o que sou agora. Talvez a única coisa que desejasse fosse o meu cabelo de quando tinha 12…


C U R R E N C A P L E S | GREYSON FLETCHER


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Ficha Técnica Propriedade: Pedro Raimundo Editor: Pedro Raimundo Morada: Rua Fernão Magalhães, 11 São João de Caparica 2825-454 Costa de Caparica Telefone: 212 912 127 Número de Registo ERC: 125814 Número de Depósito Legal: 307044/10 ISSN 1647-6271 Diretor: Pedro Raimundo roskof@surgeskateboard.com Diretor-adjunto: Sílvia Ferreira silvia@surgeskateboard.com Diretor criativo: Luís Cruz roka@surgeskateboard.com

número 30 disponível online em www.surgeskateboard.com

Fotógrafos residentes: Luís Moreira João Mascarenhas Publicidade: pub@surgeskateboard.com Colaboradores: Rui Colaço, Renato Laínho, Paulo Macedo, Gabriel Tavares, Luís Colaço, Sem Rubio, Brian Cassie, Owen Owytowich, Leo Sharp, Sílvia Ferreira, Nuno Cainço, João Sales, Rui “Dressen” Serrão, Rita Garizo, Vasco Neves, Yann Gross, Brian Lye, Bertrand Trichet, Jelle Keppens, DVL, Miguel Machado, Julien Dykmans, Joe Hammeke, Hendrik Herzmann, Dan Zavlasky, Sean Cronan, Roosevelt Alves, Hugo Silva, Percy Dean, Lars Greiwe, Joe Peck, Eric Antoine, Eric Mirbach, Marco Roque, Francisco Lopes, Jeff Landi, Dave Chami, Adrian Morris, Alexandre Pires, Vanessa Toledano, Nuno Capela, Ruben Claudino, Rui Miguel Abreu, Telmo Gonçalves. Tiragem Média: 8 000 exemplares Periodicidade: Bimestral Impressão: Printer Portuguesa

Duplas Quando estás somente tu e o teu skate a receita pode funcionar, mas quando adicionas um amigo, o skate parece um daqueles robots de cozinha tão em moda... só que de borla e nem sequer precisas de carregar no botão.

Tahiti

Presos na Califórnia

Antiz Portugal – Into The Van

Tens o direito de não te manter calado, tudo o que disseres pode ser usado a teu favor numa revista e tens direito a ligar para casa para dizer que lavaste os dentinhos antes de ir para a cama... ó Bruno Senra, não é assim que eles dizem nos filmes de Hollywood?

Assim naquele estado, não sabemos como é que a carrinha deles chegou a Portugal, mas que os rapazes passaram cá “o tempo da vida deles” é uma certeza. Os mais famosos vagabundos da Europa por terras lusas.

David Rosado

Epopeia a Saturnan...

Do skate à musica, tudo é arte, o “enfant terrible” da Não sabes onde fica? Não te preocupes, nós também cena artística nacional fala-nos das suas origens, não, mas parece-nos que é dentro da cabeça de alguns aventuras e do que é ser artista plástico hoje em dia skaters... neste nosso cantinho.

Morada:Edifício Printer, Casais de Mem Martins 2639-001 Rio de Mouro • Portugal Interdita a reprodução, mesmo que parcial, de textos, fotografias ou ilustrações sob quaisquer meios e para quaisquer fins, inclusivé comerciais. www.surgeskateboard.com Queres receber a Surge em casa, à burguês? É só pedir. Através de info@surgeskateboard.com assinatura anual em casinha: 15 euros

Não estás a pensar ir de de lua-de-mel ao Tahiti? Ou tens medo de entrar na água em Teahuppoo? Não te preocupes, a partir de agora já vais poder ir lá andar de skate e desfrutar daquele paraíso.

Capa: Tudo o que nos faz vibrar também é, por vezes, capaz de fazer-nos perder a cabeça. Gonçalo “Pico” Maia, a meio da sua relação amor-ódio com o skate fotografia, Luís Moreira


Jon Dickson

PHOTO: DOMINICK

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Visit awards.brightskateboarding.com & freeskatemag.com on January 22nd for full results and edit of the Award Ceremony evening.


11 ANTIESTÁTICO

Sempre que aparece um spot novo, esta malta do Porto está lá primeiro que toda a gente. Morcões de um raio! Deixem alguma coisa para a malta! João Neto – Frontside Flip por cima do rail fotografia, Luís Moreira


12 ANTIESTÁTICO

Nesta imagem achamos melhor nem sequer colocar legenda, o melhor é mesmo apreciar, certo? Raios, afinal sempre está aqui a legenda!! Edu Machado, Flip – Fonte Luminosa fotografia, Ruben Claudino


14 ANTIESTÁTICO

Como sabemos, o Mouga anda sempre à procura de spots diferentes. Mas, raios, também não precisa de exagerar... blunt-drop. fotografia, Renato Laínho


Enquanto de um lado, as pessoas entram no Museu do Mar, em Ílhavo, no outro o Kiko sai... e logo de smith flip-out. Felizmente para ver manobras destas não é preciso pagar bilhete sequência, Luís Moreira


16 ANTIESTÁTICO


Este spot no Monte é dos poucos sítios onde os residentes não só aplaudem, como também ainda nos vêm perguntar quando é que levamos lá mais pessoal para skatar! Wladimir Hoppe a retribuir a simpatia com um backside ollie fotografia, Hendrik Herzmann


18 ANTIESTÁTICO

O Tiago Pinto tem os pés tão leves que, para ele, até o que é a subir parece que é a descer... confusos? Pois, nós também! Front-board Pop-Out. Aveiro. fotografia, Jorge Matreno


As probabilidades de o Gui ter ficado espalmado como um inseto no para-brisas deste carro eram altas, felizmente um ollie a alta velocidade ĂŠ mais rĂĄpido que qualquer inseto voador fotografia pelo pendura, Renato LaĂ­nho


20 ANTIESTÁTICO

O Zenildo Guilherme agora está em Angola. Para matarmos saudades deste nosso amigo aí esta um crooked bem encaixado. Vê lá se vens aí visitar a malta, amigo. fotografia, Jorge Matreno


Quando forem ao mercado do Bolhão beber um copo ao Café da Gina, já podem dizer ao Nuno Gonçalves: “Pá, curti tótil o teu fakie ollie switch back tail ali nos Clérigos” fotografia, Luís Temos que admitir que há campeonatos e campeonatos, masMoreira no caso de o’Marisquiño, em Vigo, achamos sinceramente que deviam arranjar outro nome. Não que deixe de haver a competição de skate, nada disso, mas que arranjem outro nome. “Festival” também já está cansado, mas por exemplo arraial. É isso! Arraial parece-nos bem, mais que bem. Ora vamos lá ver o que acontece num arraial: a malta da terra junta-se, - em Vigo também -, skaters e amigos do skate de toda a Europa juntam-se, há música, comida e bebida, - ora em Vigo isso é o que não falta. Num arraial, claro, também não podem faltar as personagens locais: pois em Vigo há-os para todos os gostos; no fim do arraial alguém tem de apanhar as canas, em Vigo apanhámos as “canhas” é quase a mesma coisa. Ok, já perceberam a coisa, certo? O fim de semana de o’Marisquino é uma autêntica festa e, claro, “aqui” ao lado não poderíamos faltar. Já lá vão 15 anos deste evento que continua sem paralelo na Península Ibérica e a única pergunta que colocamos aqui na Surge é “como é que os skaters portugueses não vão todos a Vigo nestes dias?” Bom, agora que a prova faz parte do calendário do World Cup Skateboarding pode ser que a coisa mude de figura. Mesmo assim, fomos poucos mas bons: os irmãos Ribeiro estiveram bem, o Jorge Simões, assim como o Bruno Senra, o Pedro Fangueiro, o Kimpas e mais alguns skaters da zona norte. E acreditem que no leque de skaters que participaram nesta edição não era fácil destacarem-se. Afinal não é todos os dias que podes competir com Pat Duffy, Danny Cerezini, Scott Decenzo ou Alex Mizorov. Mas na final com os melhores dez, fomos, com a França, os únicos países com 2 representantes na derradeira fase da prova. Esperem, mas já estamos na final? Ainda falta falarmos de muita Os miúdos de agora… dão estas manobras só para aquecer os coisa, vamos lá voltar atrás, ao início do fim de semana. pés… Pedro Fangueiro 360 lipslide, só porque sim… A viagem Pois claro, faz sempre parte alguma aventura, mas neste caso não foi muito agradável: depois de um pneu explodir – literalmente - na autoestrada e depois de uma noite passada no carro à porta da Norauto em Coimbra, cortesia dos nossos amigos da Assistência em Viagem, quando, finalmente,


22 ANTIESTÁTICO

Gostamos sempre quando os seguranças aparecem e dizem “só mais esta”. É que assim a malta tem de dar corda aos sapatos. No caso de Hélder Lima isso nem é preciso, é que ele tem sempre o motor ligado. Backside Lipslide – Olaias. fotografia, Roskof


24 ANTIESTÁTICO

Depois do Marc Bengan acertar este switch crooked em Setúbal, o segurança veio pedir-lhe identificação para lhe enviarem a conta do arranjo do curb para casa. Ele, simpático, disse que ia buscá-la ao carro e já vinha… até hoje! fotografia, Craig Dodds


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D

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texto e fotografia Renato Laínho

Mouga e Gui, frontside e backsid Mesmo quando se sente como se vivesse debaixo da ponte, um skater nunca está sozinho. Eddy e Esfómia num momento de partilha e no skate, claro...

A

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S

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Nós, skaters, com o nosso poder criativo de aproveitamento da urbanidade que nos rodeia, libertamo-nos das maneiras comuns e entediantes de viver. Ao contrário de muitas pessoas, que nunca encontram meio que expresse tão profundamente aquilo que lhes vai na alma. Quando skatas com alguém mais na tua onda, acabas sempre por criar algo. E quando skatas com alguém com uma estilo/abordagem diferente, também! Porque o skate é mesmo isso, desigualdade e união!!


28 DUPLAS

Mouga e Gui, frontside e backside no skate, claro...


Somos junkies de adrenalina, tanto na euforia de um grande concerto de Punk, como a trepar paredes de skate. Esta comparação entre gostos que partilhamos vai, até, mais longe, pois como um bom álbum de punk não precisa de qualidade sonora ou de uma sala com boa acústica para passar a sua mensagem, o skate também não precisa de um spot todo xpto, mas sim de atitude, criatividade e a pica do próximo!! Esta série de duplas surgiu com o intuito de retratar estes valores que o skate cria em nós e que triunfam mais do que os que nos são ensinados pela atual maneira de pensar da sociedade. - O quê?! - O significado de amizade, partilha de conhecimento, importância de ideias novas e da exploração daquilo que já ‘dominamos’ em cooperação principal com o planeta Terra. O skate faz-nos  querer olhar pelo outro! Existe no nosso meio uma consciência de grupo que nos une e que será necessária, presente e futuramente, de maneira a desenvolvermos um pensamento coerentemente positivo, em prol da evolução da Humanidade.


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DUPLAS

Seja na dica para acertar a manobra ou na troca de material usado, a camaradagem é resultado de um objetivo em comum: diversão e ânsia por um maior conhecimento em cima da tábua. Como Robert A. Heinlein diz e com razão ‘’When one teaches, two learn’’

Quando dás uma manobra igual à do teu melhor amigo, sabes que é uma amizade para durar. João e Filipe Cruz


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PRESO NA CALIF texto e fotografia Roskof

Não, escusam de estar aí com ideias que ninguém foi visitar o famoso sistema prisional do grande estado da Califórnia. Preso foi, de certeza, como o Bruno Senra se sentiu nesta sua primeira viagem à costa Oeste dos Estados Unidos, a Meca do skate mundial. E preso porquê, perguntam vocês? Imagina que entras para o team da RVCA, em Portugal, e logo a seguir a marca te proporciona estares no local onde sempre sonhaste estar, perto de todos os spots que te preencheram dias e dias a ver vídeos de skate, e não poderes fazer nada a não ser estar ali a olhar para eles sem poderes skatar! Mas a vida é assim, tem destas coisas e também só tens duas maneiras de encará-las, ou te resignas e passas os dias a queixar-te como uma madalena em lágrimas, ou te rendes e tiras proveito do que podes, aprendes as tuas lições e preparas-te para lá voltar ainda com mais vontade.


FÓRNIA…


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Preso na Califórnia

Se bem que aqueles primeiros momentos depois de o Bruno se ter lesionado na primeira skatada nas ruas de Los Angeles parecia que iriam ensombrar o que à partida seria uma viagem de sonho, no dia seguinte as coisas começaram imediatamente a melhorar. Não porque a lesão se tenha curado miraculosamente, mas porque ambos percebemos que o melhor a fazer seria desfrutar dos dias, esperar que o pé melhorasse e não pensar muito no que poderia acontecer. E até tínhamos a oportunidade perfeita para relaxar e esquecer um bocado a nossa missão nos Estados Unidos, afinal não estávamos sós, o Francisco Lopez e os gémeos Ribeiro estavam também em L.A. para a etapa final do Volcom Wild in the Parks no “The Berrics” e assim já tínhamos programa para esses primeiros dias: íamos fazer de claque aos irmãos Ribeiro. Para este 50-50 pop-out foi preciso voltar a este spot umas 3 vezes. Não porque ele não o quisesse dar, mas porque sempre que mal punha os pés no skate aparecia a polícia. O que vale é que ao domingo devem estar de folga.


Nem imaginam o contente que fiquei em ter sobrevivido a este spot, não ao de skate, mas àquele onde que tirei a foto, pendurado no tripé, a uns bons metros do chão. Felizmente o Bruno deu o wallie board bigspin antes que as vertigens tomassem conta de mim.


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Preso na Califรณrnia


Claro que quando chegámos pela primeira vez ao Berrics senti o nervoso miudinho nos músculos do Bruno... com aquele skate parque ali à mão de semear e não poder andar… ui! Mas portou-se como um homem grande, não se deixando levar pela euforia. Claro que isso não o impediu de no dia do campeonato propriamente dito ainda ter dado umas voltas só para matar o bicho. Quem, mais do que matar, assassinou o bicho foram o Gustavo Ribeiro e o seu irmão, Gabriel. Os dois irmãos deram cartas nesta que foi a sua primeira prova de skate nos States: o Gustavo só não venceu o campeonato porque um miúdo do Japão se lembrou de dar Mctwists na run, deve ser de comer sushi desde pequenino. E atenção que estamos a falar da categoria de sub14. O Gabriel deu alguns dos maiores abusos do dia, como o backsmith no curb das big 7 e também impressionou os “camones”. Para festejar, fomos pela 230ª vez ao In n Out. Para quem não conhece é uma cadeia de Fast Food que só existe na Califórnia (felizmente) e que consegue fazer as melhores batatas fritas do mundo.

O Gabriel Ribeiro ainda está no liceu, mas estes backsmiths estão ao nível de um mestrado.


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Preso na Califórnia

Se não estivesse lá, não acreditava no golpe ninja que o Bruno fez, minutos antes deste Noseblunt, quando o skate saiu disparado direito ao rio ali ao lado. Salvou o skate e salvou o dia. Que senhor!

A refeição ideal para nos preparamos para o primeiro domingo em Los Angeles. Sim, porque aqui os domingos são tudo menos dias de descanso, pelo menos para os skaters. As escolas estão fechadas, o que quer dizer livres para skatar as suas clássicas mesas de pic-nic. O Pedro Dylon já nos tinha convidado para ir ter com ele a uma, mesmo perto de Echo Park e, claro, assim que chegámos teve lugar a clássica cena de saltar grades com malas e skates às costas. Felizmente ninguém deixou as “bolas” no arame farpado e lá passámos a tarde num verdadeiro “playground”. O único percalço foi mesmo termos que nos esconder do helicóptero da polícia, quando nos descobriu em patrulha. Esteve 20 minutos literalmente às voltas por cima do pátio da escola, como se naquela metrópole gigante o maior problema fossem meia dúzia de skaters numa escola. Foi um bom dia e assim decidimos desta ver não ir ao In n Out e fomos a um autêntico dinner americano comer umas belas omeletes e três quilos de hasbrowns. Quando saímos, o Bruno disse que o empregado não lhe tinha pedido o dinheiro da refeição, ainda pensámos voltar para pagar mas, caraças, esse dinheiro já dava pelo menos para mais 3 menus no In n Out, e, de qualquer maneira, haveríamos de lá voltar e deixar uma gorjeta choruda ao empregado com problemas de memória. E seria aqui que nos iríamos separar do resto comitiva tuga, eles estavam de volta a Portugal e eu e o Bruno íamos embarcar numa aventura com o nosso anfitrião. Ah, ainda não vos tinha falado dele, certo?


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Preso na Califórnia

O Pedro Dylon levou-nos a este spot, por isso é justo que ele também apareça na foto, certo? Bruno, bem encaixado no overcrooked


O Marty trabalha como filmer para a HUF e, gentilmente, cedeu-nos o escritório onde edita todos aqueles vídeos com o Dylan, Austyn e companhia. Como também tinha acabado de chegar de uma tour de 3 semanas da HUF, atravessando os Estados Unidos, com teras e teras de imagens para ver e selecionar, já estava a dar em maluco com tantas horas em frente ao computador. Assim, decidimos arrancar os 3 para o meio do nada. Sim, literalmente para o meio do nada, mais especificamente para o deserto do Mojave onde iríamos acampar num local recomendado por um amigo dele. Mal saímos de L.A. em direção ao deserto, eu e o Bruno parecíamos dois putos a ver aquelas paisagens. Já há uns anos tinha ido de Los Angeles a Las Vegas, mas esta zona, muito perto do Death Valley (o local mais quente do planeta terra) era completamente surreal. Enquanto o Martin aproveitava a viagem para limpar a cabeça de skate, eu e o Bp já só pensávamos em Cascavéis, Escorpiões, todos os animais que poderiam atacar-nos enquanto dormíamos ali no meio do nada. Felizmente durante a noite e como nos abastecemos, e bem, na última cidade antes dos Alabama Hills, nem tivemos tempo de pensar na fauna selvagem (que por certo nos via ali a rir que nem uns perdidos no escuro). E quando digo escuro é mesmo escuro a sério, nunca tinha visto tantas estrelas na minha vida mas, lá está, se calhar foi das duas grades de cerveja, 2 garrafas de vinho e uma de Whisky que nós os 3 bebemos. A última coisa de que me lembro foi de estar a saltar a fogueira à boa maneira portuguesa e quando abri os olhos já era de manhã. Clássico! Depois desta aventura e de voltar ao mundo real, o Marty tinha que acabar o vídeo da Tour da HUF para o site da Thrasher e o pé do Bruno dava sinais de melhoras, tempo para aproveitar e skatar os últimos dias em Los Angeles. Ah, já vos disse que em L.A. para andar de skate num spot perdes um dia inteiro no trânsito e talvez meia hora no spot? Por isso quando levarem com 45 minutos de trânsito na estrada e estiverem a bufar, pensem assim: se for em L.A., 45 minutos é para ir ao supermercado na esquina da rua.

Depois do homem bala há o homem canhão, Francisco Lopez, Cannonball para a assistência


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Preso na Califรณrnia


No dia antes de continuarmos a nossa aventura até à mítica São Francisco, ainda tivemos um bónus: a malta da LRG tinha-nos arranjado convites para a estreia de “1947” e, claro, não poderíamos faltar. Estava lá toda a gente e mais alguma e o programa prometia, com afterpartys e mais não sei quantas coisas. Mas, claro, estávamos a esquecer-nos de que o Bruno só tem 18 anos e com essa idade nos Estados Unidos estás literalmente proibido de te divertires. Podes comprar 3 lança rockets, 4 kalashnikovs, 5 M16 e 20 granadas, mas beber uma cerveja num bar aos 18 anos, isso é um autêntico perigo! Que se lixe, no dia seguinte arrancámos para São Francisco e, claro, escolhemos a estrada panorâmica. Um conselho: se alguma vez forem de L.A. a S.F. de carro, sigam pela 101 através do Big Sur, é uma das estradas mais espetaculares do mundo. Perdi a conta da quantidade de vezes que dissemos WOW nesta viagem de 9 horas, à 2789387ª vez. Chegados a S.F. de noite, a manhã deu logo para vermos os míticos montes da cidade, com as suas descidas alucinantes... e a única coisa que nos vem à cabeça é: como é que estes malucos descem estas ruas? Uma coisa é veres num vídeo, outra é estares ali. E mesmo para um miúdo bem destemido, como é o Bruno, aquilo não era fácil. De fato, nada em São Francisco é fácil, nem mesmo viver. A cidade, a braços com o boom das empresa tecnológicas, é hoje a cidade mais cara da América, onde um apartamento de dois quartos vai facilmente aos 4000 dólares por mês e uma ida ao restaurante pode deixar-te na falência.

3thr and Army é dos poucos spots em São Francisco onde podes skatar sem seres corrido. Além disso, a malta que ali para para almoçar durante o dia ainda te dá conselhos de como encaixares backside noseblunts. O que é que queres mais?


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Preso na Califórnia

Felizmente ainda lá existem In n Outs e um amigo nosso, o Justin Carlson, antigo filmer da Think e DVS, também tinha um quarto extra. Para skatar na cidade também precisas de paciência. Passámos dias a ser corridos de spots, algumas vezes por malta simpática, outras vezes por gajos com ferros nas mãos, mas conseguimos manter-nos focados e ainda produzir alguma coisa... e, claro, provar os míticos Tacos e Burritos. Caso não saibas, nos Estados Unidos toda a gente diz que a melhor comida mexicana é em São Francisco. Felizmente, como estamos habituados às “roulottes” de bifanas, o picante não nos fez muito mal. No aeroporto, à espera do embarque para Lisboa, eu e o Bruno falámos um pouco destes dias passados e chegámos a uma conclusão: quando embarcas numa aventura destas tens que estar disposto a usar o que a vida te dá. É como naquele ditado, “se a vida te oferece limões, faz limonada”, no meu caso até curto limões, não me importo nada, mas aposto que o Bruno queria que a vida lhe oferecesse um In an Out em Almada…

O último dia devia ter sido o primeiro. A horas de deixar os “States”, o pé do Bruno finalmente voltou ao normal. Este front crooked fakie em Fort Miley é a prova disso.


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S B U O C P

O L M N O A

M E U E .

L I K E I T . . P A S S E I O Í R I C O N O R A Ç Ã O D O C Í F I C O


Recital e fotografia Kévin Metallier

Pequena pérola terrestre que emerge como por magia do azul profundo do Pacífico, a mais de 15 000 kms da metrópole, o Tahiti não para de fascinar o imaginário coletivo. Não faltam superlativos para qualificar este destino, nos arredores do paraíso na terra. Embalado pelos caprichos da ondulação e do vento, o Tahiti procura manter as suas promessas...

Poética Desde o final do século XVIII e da sua descoberta por um tal de Samuel Wallis, que o Tahiti desenvolve uma dimensão idílica no imaginário coletivo. A ilha de rasgos paradisíacos rapidamente se tornou um território misterioso, onde nasce o sonho: “Vénus está aqui, a deusa da hospitalidade, o seu culto não tem qualquer mistério (...)”. É nestes termos que Louis Antoine de Bouganville retrata a ilha em “A viagem à volta do mundo”. Inúmeros filósofos e outros artistas continuarão a alimentar o mito Tahitiano, como as célebres pinturas de Paul Gauguin, que mostram uma imagem idealizada do Tahiti, como a encarnação utópica da vida selvagem e do pecado original, exangue de todas as restrições materiais e artificiais. Aqui o tempo parece suspenso na doçura da vida...

Jordan Taylor Bs tail slide Punaauia (Tahiti)


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SOME LIKE IT BLUE... UM PASSEIO ONÍRICO NO CORAÇÃO DO PACÍFICO

Inebriante... Depois do terraço em madeira exótica colado à colina sobre as alturas de Punaauia, abraçamos toda a majestade das diferentes localidades. Com vista privilegiada sobre uma outra jóia, a ilha de Moorea. A pequena irmã surge do grande azul como uma miragem. Intrigante. O sol é esmagador, mas pouco a pouco o céu ensombra-se mesmos antes de escurecer ao som do rugido de um trovão, como que subitamente manipulado por algo místico. O vento afasta-se do largo a assobiar; o céu começa a chorar tanto que o seu pranto faz com que as palmeiras comecem a bater e a criar notas insuspeitas. Mais abaixo, o barulho surdo das poderosas ondas que fracassam perante o recife, acabam de juntar-se numa formidável sinfonia de todos os elementos...

Jarne Verbruggen Beanplant to bs bluntslide Taapuna (Tahiti)


Selvagem O sol já vai bem alto. Parece imperturbável no trono do imaculado azul celeste, por cima da pequena ilha solitária no meio de um outro azul, este do Oceano Pacífico. A temperatura parece enlouquecer à medida que a taxa de humidade do ar atinge os 95%. As condições estão longe de ser as ideais para uma performance em cima de uma tábua com rodas. No entanto, cada um de nós parece não ligar a estas considerações meteorológicas, relegando-as ao estatuto de informações negligenciáveis. Aqui a vegetação hiperbólica subjuga-nos, de tal forma que nos invade. Ironicamente, o asfalto tenta sobreviver e a nossa busca por betão liso não é tarefa fácil. Um simples parque de estacionamento com um pequeno bump revela-se um bem precioso aos nossos olhos...

Ryan Spencer Bs flip Taravao (Tahiti)


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SOME LIKE IT BLUE... UM PASSEIO ONÍRICO NO CORAÇÃO DO PACÍFICO

Frágil... Nesta ilhota quase fora do tempo, o estigma de uma crise económica sem fronteira extirpa-nos subitamente de um sonho estranho. Mesmo no fim do mundo, neste pequeno recanto paradisíaco, o mercantilismo exacerbado dita a sua lei e injeta o seu vírus. Uma realidade que, dura como os poderosos raios U.V. que se cravam nas nossas peles ainda brancas, apanha-nos quase tão rapidamente como nos havia deixado. Diminuição da biodiversidade ligada à urbanização galopante, sobre exploração dos recursos piscatórios, introdução de espécies invasivas... demasiadas variáveis que ameaçam um ecossistema frágil. Desilusão. Sob os coqueiros e o calor tropical, aqui também é tempo de falências, desemprego, corrupção...

Adrien Coillard Boardslide pop out Paea (Tahiti)


Preocupante... Isolados no coração de uma imensidão azul, perdemos as nossas referências, esquecemos os pontos cardeais. Damos meias voltas perigosas, seguimos um caminho, depois outro, deixando-nos guiar por escolhas sem certezas; a errância é o nosso guia. Tentamos encontrar a jóia, conduzidos pela floresta tropical, densa e intensa, cheia de riquezas preservadas e de plantas com formas alucinadas. Longe de ser muda, presenteia-nos com cantos esotéricos. É tempo de parar, de aproveitar as curvas que se nos oferecem...


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SOME LIKE IT BLUE... UM PASSEIO ONÍRICO NO CORAÇÃO DO PACÍFICO

Philipp Schuster Fs Rock Toahotu (Tahiti) Sumptuosa À volta da ilha, as preciosas lagoas cor turquesa enfileiram-se como jóias de um colar de pérolas. Com a luz dourada da aurora, quando o ar ainda está morno, as praias de areia dourada de Papara, vestígio vulcânico, são um convite à contemplação. Um pouco mais a sul, no início da estrada que conduz à península, revela-se o famoso Teahuppoo. Dez minutos de barco são suficientes para o oceano presentear-nos com uma das suas mais belas danças. As ondas atiram-se do recife de corais em intervalos regulares, quase metronómicos, oferecendo um espetáculo majestoso, quase hipnótico. Não longe dali, sobre a colina, um velho hotel em mau estado revela-nos o seu segredo, uma piscina abandonada, que apenas esperava a nossa chegada...

A nossa equipa tem a agradecer particularmente aos locais, pelo seu acolhimento caloroso, a sua ajuda preciosa e a sua inquebrável motivação: Manu e Killian, Frenchie, Toxic, Yohann e a toda a Mata Crew, um grande obrigado. Obrigada também à Air Tahiti Nui e à Red Bull, sem os quais este projeto não teria chegado a ver a luz do dia.


www.niobo.pt


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ou lá perto. texto Ciso, Henrique, Miji, Sales, André e Cinda fotografia Luís Moreira

O Gargamel deixou-nos nas mãos o relato da epopeia a Saturnan. Queres saber mais sobre esta história? Toma... Mas tu que vais, de esquizofrenia, paranoides, ou quê? A ideia foi pegar no team da Korner skate shop e viajar entre os spots construídos pela Wasteland. Recrutámos o Gargamel, aka Luís Moreira, para registar as marambas que íamos preparando. Curtes, sim, ou não? Pois, curtisses mais...


João Sales, No comply, stalefish pole jam… c’um raio! Isto é o que se chama “tree ein one”


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EPOPEIA A SATURNAN... OU LÁ PERTO


5 dias bastaram para ter de tudo o que um bom tour pode proporcionar. Começámos no concerto que os Mr. Miyagi deram em Alvalade. Seguimos para a Lagoa de Albufeira, para a casa do Carlos “Guelas” Viegas, mesmo à ministro. Esvaziámos a água do bowl como se se tratasse de uma pool abandonada, a que se seguiu uma session descontraída e animada. A paragem seguinte foi no Boobie trap, no Barreiro. O flow do parque e o ambiente do jardim proporcionaram mais uma boa session para todos.

Com um bowl em casa, a skatar o bowl feito por ele na casa de um amigo, será que o Ciso gosta de bowls? Sim, é uma pergunta retórica! Nosegrab, Lagoa de Albufeira


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EPOPEIA A SATURNAN... OU LÁ PERTO

Embora não tenha sido construído pela Wasteland, o skate parque da Quicksilver, na Ericeira, foi paragem obrigatória. Chegados à zona centro do país acampámos na Cerâmica para provar do DIY puro e duro. Estudasses mais e serias doutor... Ainda em Leiria fizemos mais uma visita ao skate parque das Figueiras, um pequeno parque que tem um pouco de tudo para qualquer miúdo se divertir em plena aldeia. Terminámos em grande, em casa do Ciso, no Greenside.

Adriano Alves, boneless


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EPOPEIA A SATURNAN... OU LÁ PERTO


Queremos a agradecer a todos os parceiros da Skate for the Devil Distribution, Korner Skate Shop e Wasteland Skateparks pelo apoio que temos sentido. Continuaremos a fazer aquilo de que mais gostamos. Sabes, nĂŁo?

JoĂŁo Sales, backside hurricane


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EPOPEIA A SATURNAN... OU LÁ PERTO

A Skate for the Devil surge de uma ideia minha (enquanto dono de uma skate shop) e do João Sales (enquanto skater) em tentar fazer algo que ambos achávamos que cada dia perdia mais força. A nossa prioridade é trabalhar apenas marcas lideradas por skaters, tendo uma política de vendas que assenta numa espécie de moeda de troca entre toda a comunidade, dando às skate shops todo o apoio possível para que possam trabalhar o skate para os skaters, proporcionando aos skaters material de qualidade e, por outro lado, fazer os seus investimentos reverter a favor de construções de spots... esse continua a ser o grande objetivo da Skate For the Devil, enquanto distribuidora.

O Henrique estava a dormir na casa da árvore, de repente levantou-se, deu um backsimth e voltou para o ninho


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EPOPEIA A SATURNAN... OU LÁ PERTO

A junção nesta tour da Wasteland Ramps, Skate For the Devil e da Korner Skate shop reflete um pouco aquilo que procuramos fazer, ou seja, uma das formas de retribuir aos skaters o apoio que eles nos dão todos os dias... era algo que há muito queríamos e, finalmente, conseguimos fazê-la com o pessoal que sempre nos apoiou desde o início... Resta-me agradecer a todos os skaters e skate shops que nos apoiam todos os dias e nos ajudam a fazer cada vez mais pelo skate... Bruno Machado

Este frontside 50-50 grab do Miji na Ericeira foi tão agressivo, que a seguir tiveram de ir todos para aulas de controlo de raiva


SINCE 1922 Distribuição marteleiradist.com 212 972 054 - info@marteleiradist.com


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texto e fotografia Fabien Ponsero

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Como todos sabemos, os ingleses sentem-se bem à vontade nas Canárias. Tão à vontade que até andam aos saltos por todo o lado… Harry Lintell - ollie

A primeira parte do novo vídeo da Antiz, “Out of the Blue” saiu na primavera, faltava encadear-se-lhe a segunda parte “In to the Van”. Para esta última faltava-nos filmagens fresquinhas. Estando a trabalhar nisso há já algum tempo, o team acabara de redefinir o seu foco, tendo agora em conta o deadline. Portugal foi o destino escolhido para cumprirmos esta tarefa. Curiosamente, a maioria de nós nunca tinha posto os pés neste belo país e estávamos super entusiasmados com a ideia de descobrir este novo destino. De tal forma que tivemos que recusar riders para evitar que tivéssemos 15 pessoas ao mesmo tempo em cada spot. Aqueles que ainda precisavam de fazer mais filmagens pularam a bordo da “carrinha azul” da Antiz para seguirem nesta aventura.

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O Peter Molec é de Praga, este crooked é no Porto. Numa viagem a Portugal, quase que dava uma canção: trá lá lá Peter, Praga, Porto!

Remy Taveira, Crooked pop-over num céu de Matosinhos tão bonito que nos pôs todos aqui a chorar

O team era composto por Juju, o boss, uma bateria de franceses, de nome Sam Partaix, Hugo Liard, Rémy Taveira, Robin Bolian, o novato Ludo Azémae, o nosso filmer Vince, amigo de longa data e palhaço de serviço. O trajeto estava mais que aprovado por todos. Partimos de Lyon, a terra-natal da marca, para atravessar a França até Bayonne e apanhar o Sam e o Rémy. Uma pequena noitada e seguíamos em direção ao Porto. Após termos atravessado as magníficas montanhas espanholas, parámos na terra dos pais do Rémy para apanhar a nossa segunda viatura. E... surpresa, uma enorme Mercedes esperava por nós na garagem. Mais habituados a carrinhas podres e malcheirosas, a nossa excitação foi ainda maior por seguirmos numa viatura digna de qualquer bom dealer dos subúrbios parisienses. Óculos de sol, sistema de som a bombar e seguimos para o Porto.

Robin Bolian, Beanplant bluntslide


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ANTIZ EM PORTUGAL

Estás a pensar para onde é que Remy Taveira está a dar este nollie flip? Pois, nós também estávamos até irmos a este spot na Ericeira. Só vos dizemos uma coisa, se tivesse falhado poderia ser a última manobra da sua vida!


Depois de 16 ou 17 horas de estrada em dois dias, chegámos ao Porto e junto dos nossos compadres Michel Mahringer e Peter Molec, que estavam à nossa espera. O novo distribuidor da Antiz, o Jorge, recebeu-nos num pequeno restaurante local e acompanhou-nos durante o resto da tour.. Como podem imaginar, esta “tour deadline” não pode dizer-se que pudesse ser categorizada como turismo de luxo. Não tendo contactos para alojamento, lavámos connosco todo o nosso material de bons campistas. Felizmente. Porque passámos os melhores momentos da tour a acampar em pequenas praias e falésias da costa portuguesa. O verão tardio sorria-nos e nós aproveitámo-lo ao máximo. Despertar nestes pequenos paraísos naturais mudou a tour. Acordar um pouco bêbado numa tenda, sobre um colchão podre, sem tomar duche quente desde o início do tour pode significar um revés para quem quer skatar e recolher imagens, mas a vista destas praias cheias de turistas, o mergulho matinal nesta água límpida e os pequenos cafés locais deram um boost à nossa motivação e fizeram-nos esquecer as dores recorrentes.


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ANTIZ EM PORTUGAL

A nossa descida até Lisboa foi, portanto, alternada entre boas banhocas, skate e bons repastos nos pequenos restaurantes locais. No caminho cruzámo-nos com aquele que foi considerado o lugar mais louco da tour, ao desembarcar num terreno privado e abandonado nas colinas de Cascais. Uma enorme Villa com um jardim soberbo onde se encontrava a maior piscina privada que eu alguma vez vi. Contrariamente ao habitual nas piscinas europeias, esta era skatável, idêntica às que encontramos na Califórnia. Skatável, mas não fácil. Para começar, ganhar velocidade ali não era tarefa fácil. Era preciso fazer a piscina em full speed para conseguir chegar ao muro e, mais ainda, ao coping. O novato Robin foi o melhor sucedido. Achou que era ali o melhor local para o seu fs smith stall pop in. Acreditem, conseguir chegar ao muro a esta velocidade e ainda com energia suficiente para ter pop não é para qualquer um. E chegado lá acima ainda tens que lidar com a forte possibilidade de te espetares de tromba no muro. Foi, de resto, o que aconteceu ao Robin. Danado da vida, voltou a desafiar a besta até conseguir a manobra perfeita, 1:30h mais tarde.


Robin Bolian, drop para o bank no spot de Chelas, onde a malta mais vibra com skaters. Estamos a falar a sério, se lá forem aproveitem para levar umas lembranças para a malta.

Robin Bolian, Ollie para smith na parte mais alta. E acreditem quando dizemos “a parte mais alta”.


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ANTIZ EM PORTUGAL

Hugo Liard, Frontside Ollie para wallride

Outro spot mágico desta tour foi um bowl DIY privado, construído pelos locais no jardim da casa de família. Quando chegámos, nem queríamos acreditar. No meio de nada, no campo, apresentava-se-nos um bowl perfeito, rodeado de arvoredo e verdura. A proximidade com o mini mercado local e o preço das cervejas só vieram melhor o cenário. Infelizmente, depois de uma hora e de uma boa dose de manobras, a chuva veio interromper a festa. Algumas cervejas mais tarde e para fechar o dia ainda tivemos direito a uma sessão de douradas grelhadas. Mais uma vez, obrigado aos locais pela receção!


Que simpรกticos em porem ali um sinal a dizer bem-vindos, skaters! Julien Bachelier, Backsmith, Porto


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ANTIZ EM PORTUGAL

O resto da tour foi passado tão auspiciosamente quanto até aqui. Uma tour até bastante calma, conhecendo a capacidade dos Antizinos para fazer a festa. Penso que estávamos todos mais focados em conseguir as filmagens finais para o vídeo, do que em festejar noite dentro. Deve ter sido por isso que o regresso a França foi tão agitado. Depois do último pequeno almoço com o Jorge e com a sua namorada, fizemo-nos à estrada. O problema foi a cerveja que ainda restava ao fundo da carrinha. O Hugo, que não tinha bebido uma gota durante toda a tour, deu o mote e os outros seguiram-lhe logo o exemplo. Bastou pouco até que a carrinha parecesse uma discoteca de sábado à noite. As cervejas iam alternando com vinho e Vinho do Porto, que tínhamos trazido para oferecer à família. Depois de uma vintena de litros de cerveja, alguns litros de Vinho do Porto, 4 ou 5 garrafas cheias de mijo, um bom filme porno, uma revista à carrinha pela polícia espanhola e 10 horas de estrada, 7 das quais a ouvir Heavy Metal, chegámos a Bayonne. Deixo à vossa imaginação, a horda de animais enraivecidos que saíram da carrinha para se dirigir ao bar mais próximo, de forma a terminar da melhor forma esta bela aventura portuguesa e festejar a chegada do novo vídeo. Saúde!!! Mickael Germont, Truckmuck Plant. Este foi o nome que ele nos pediu para dar à manobra, a sério!


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texto e fotografia surge

PRÉMIÈRE

Diogo “Spanky” tinha dois croquetes nos dedos, mas enquanto

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O Né veio da Noruega especialmente para este megaevento.

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Parece que estes gajos contribuíram com qualquer coisa para o filme.

Trouxe amigos, amigas, bacalhau, tudo e mais alguma coisa. 3

Depois de o mágico lhe ter limpo 20€, o Ivan Vicente ainda continuava bem-disposto!

olhava para a máquina alguém os roubou.

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Castella e o seu melhor amigo.

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O Nikita também veio de blazer, mas gajas nada!

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A brigada do reumático a lembrar histórias do século passado.

mas aguentou-se até ao final do filme. Respect!

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Hey! O Diogo não tirou nenhuma foto e levou vinho à mesma!

Temos de começar a usar blazers como o Rapha, vejam só

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A malta do skate sempre gostou de Roque! E do Marco também!

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Almada Chocolate, Gandulos... c’um raio, tanta designação.

O “Mágico” Emídio e um amigo chamado João que lá foi fazer uns truques com cartas.

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Pois, comida à borla, toda a gente aparece!

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O Vilardebó estava apertadinho para ir à casa de banho,

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as miúdas giras à volta dele. 7

Não podem arranjar um nome só?

Thaynan, Bp e Emídio, mesmo com a boca cheia não se calavam. Estes novos putos têm pilhas até nas amígdalas. 19

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A Lenda Viva, ou quase... Jorge Miguel foi dos que mais trabalhou nesta noite

Pelo Daniel Pinto o filme da Ementa não morre na Arena trespassado por nenhuma espada 20

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“Este vinho está delicioso”! Conversa do Ruben Claudino e amigos

10 A Cátia e a Érica estiveram a fotografar a noite toda, não admira que para o fim já pusessem a língua de fora

Esta menina disse-me que me enchia o copo se lhe tirasse uma fotografia, ora aqui está.


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Não sei qual é a vossa ideia de um Banquete, mas a nossa está bem em consonância com o que foi proporcionado pela Ementa SB a todos os presentes na estreia do seu último vídeo. Quando chegámos ao Teatro da Luz sentimo-nos logo como os fura-casamentos. Estava ali um autêntico festim, com pompa e circunstância e nós vestidos como uns pilantras. Felizmente que os únicos a importar-se com isso éramos mesmo nós, porque todas aquelas miúdas giras que lá estavam à entrada a oferecer-nos copos personalizados da Ementa não pareciam-se ralar-se nada com isso. Welcome drink numa estreia de um vídeo de skate? Aprovado! Ouviram, amigos de marcas que queiram fazer prémières? Mas adiante, vamos falar do que nos trouxe até este belo espaço Lisboeta. Banquete, a primeira longa-metragem da marca nacional Ementa, já há muito que era aguardado pelos skaters, público em geral e pelos amigos do Jorge Miguel! Não sabes quem é o Jorge Miguel? Então é melhor ires ao site da Ementa assim que possível, para cultivares essa cabeça no ar! Depois do tal drink lá entramos para a sala de projeção, onde a expectativa era grande. Para criar ainda mais suspense a malta da Ementa convidou o mágico João a fazer um pequeno show antes do filme e o nosso amigo levou a casa abaixo com truques de outro mundo e com a maneira como despachou o Gorev do palco quando percebeu que ele não tinha notas de 20 para os truques. Eis, então, que chegava o esperado momento: música clássica, animação 3D produzida pelos estúdios mais avançados de Hollywood, desculpem, da Amadora, e aí estavam os skaters, amigos, conhecidos e uma carrada de personagens que ninguém sabe quem são, mas que abrilhantam sempre qualquer vídeo de skate. Poderíamos estar agora aqui a escrever linhas e linhas sobre as manobras, os cortes de cabelo e os pelos do nariz que aparecem no filme, mas achamos mesmo melhor verem o vídeo no conforto das vossas casas, preferencialmente de prato bem cheio na mão. Quanto a nós, já lá vão uns dias e ainda estamos a fazer a digestão de toda a comida que a mata da Ementa ofereceu aos convidados depois dos créditos finais. Sim, porque em Portugal quando somos convidados para um Banquete é mesmo para encher o bandulho!

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texto Rui Miguel Abreu fotografia LuĂ­s Moreira

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O rapper atravessou 2015 registando assinalável sucesso com o seu trabalho “Family First”. Agora, garante que 2016 vai “Valer a Pena” Tudo vale a pena, de acordo com o poeta, se a alma não é pequena. E se há coisa que Jimmy P deixou claro é que possui, de facto, uma alma gigante: é isso que o faz cantar como canta, é isso que lhe traz o carinho dos fãs para perto, é isso que faz da sua música uma original mistura de soul e hip hop e algo mais que se traduz em originalidade e frescura. Jimmy P soa singular. “Valer a Pena” é o título do seu mais recente single que antecipa novo álbum em nome próprio para 2016. Será o terceiro na sua conta pessoal, que já é significativa: o percurso de Jimmy P é longo e sólido e recua mais de uma década até ao projeto Crewcial, que editou na pioneira Matarroa, em 2003. Em nome próprio, “Family First” foi o segundo trabalho com que este rapper cimentou a sua carreira a solo, depois da edição de #1 através da estrutura independente Story Tellers. O segundo trabalho de Jimmy P mostrou-o com um novo som, com uma maior percentagem de R&B na fórmula final do som. E isso refletiu um desejo de ir mais longe. Apontando referências como Boss Ac ou Lauryn Hill, Jimmy P está de facto a olhar para cima, para um círculo mais vasto do que aquele em que deu os primeiros passos. E daí um desejo confesso e assumido de ir ao encontro das pessoas, quer seja em programas de televisão, em concertos de grande impacto de massas, ou, até, em apresentações em estações de comboio, procurando o seu público sem a mediação de um cartaz de um qualquer festival. Jimmy P gosta de falar em retribuição, por sentir que nos últimos anos o seu nome tem crescido junto do país real, graças a um trabalho incessante nos palcos e nas redes sociais. Foi essa a receita de 2015. Esse trabalho garantiu-lhe crescimento sustentado por um público devoto. 2016 poderá ser ainda maior... Com um instrumental de J-Cool, “Valer a Pena” volta a meter Jimmy P a rimar sobre sentimentos, a falar de velhas cicatrizes e a manifestar desejos. São palavras assim que lhe garantem a devoção do seu público. Jimmy rima e canta sobre uma moderna paisagem rítmica que lhe garantem o presente e muito provavelmente o futuro. Os próximos episódios desta aventura já não demoram.


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A dupla formada por Taseh e Slimcutz tem dado cartas a partir da sua base do Norte. E promete não acalmar em 2016. Há um ano colocava-se uma pergunta sob a forma de mensagem codificada em cassete: Who Is Roger Plexico? Esse primeiro registo de uma enigmática figura de que apenas se conhecia um desenho de perfil colocou no mapa uma nova força de produção: Taseh e Slimcutz pegavam num recorte conceptual de margens abertas – Roger Plexico é um tipo que se passeou por alguns dos momentos fulcrais da história da música – e adotavam uma perspetiva ampla para através dos seus samplers cozinharem um hip hop algures entre a memória boom bap e o presente que emana de Los Angeles e afirmaram logo aí uma identidade distinta. Depois veio o vinil “No Man’s Land”, uma vez mais com selo da Monster Jinx: banda sonora para míticos locais abandonados pelo homem, mas repletos de memórias e fantasmas, exatamente o tipo de paisagem que quem passa a vida a alinhar sons assombrados pelo passado na memória de um sampler bem conhece. Esse registo deixava claro que a dupla Taseh/Slimcutz conseguiu em pouco tempo erguer uma personalidade própria para os seus beats e definir fronteiras claras para o espaço emocional/conceptual que ocupa. Ao vivo, na curadoria Ciência Rítmica Avançada, que o Rimas e Batidas (www. rimasebatidas.pt) assinou para o Vodafone Mexefest, Roger Plexico mostrou ser igualmente capaz de rockar uma pista, provando ser uma entidade com impacto para lá das paredes do estúdio. A noite fechou com a sua brilhante e irresistível reinvenção de “Hotline Bling” de Drake. Entretanto, novo passo: Roger Plexico & Ace. Seguindo a tradição dos registos que colam um produtor com um MC (Buckshot com 9th Wonder, DOOM com Madlib, etc.), Roger Plexico juntou forças com Ace, homem dos Mind Da Gap que nunca se importou de sacudir a poeira da veterania em favor da frescura de novas ideias. E o resultado, desta vez editado em CD, é, uma vez mais, dos mais interessantes que 2015 produziu dentro de portas. E mesmo antes do ano terminar, uma novidade: “Sistema” é o single com que Bezegol faz saber que vai fazer barulho em 2016 e a assinatura da produção pertence a Roger Plexico. Já tinham reinventado Capicua, colaborando no trabalho de remisturas “Medusa”, agora colam-se a uma das mais carismáticas vozes que o Porto já produziu. Taseh e Slimcutz são duas cabeças, mas quando vestem a pele Roger Plexico parecem transformar-se numa só entidade, um misterioso e híbrido ser que soa moderno e clássico e que se está rapidamente a afirmar como séria força de produção. em 2016, vamos estar todos a olhar para o boneco, certamente.

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C texto Rui Miguel Abreu fotografia LuĂ­s Moreira

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25 maneiras de não te dar um treco!

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1 - Thunder Lo 145 Marc Johnson Hollow Lights - 33,30€ | | 2 - Thunder Hi 147 Donnelly Save it Lights - 33.30€ | | 3 - Thunder Hi 147 Screaming Mainliner - 33.30€ | | 4 - Thunder Psonoradelic Hi 147 - 30,30€ | | 5 - Thunder Hi 149 Paradise -30,30€ | | 6 - Silver Ryan Gallant Lager - 23,80€ | | 7 - Silver M Class Blue - 23,80€ | | 8 - Silver Brandon Biebel Plate - 23,80€ | | 9 - Silver Josh Kalis Victory - 23,80€ | | 10 - Silver Cody Mcentire Sheriff-23,80€ | | 11 - Destructo Artoo Saari Side Mission Magnesium - 35,90€ | | 12 - Destructo Black Black - 35,90€ | | 13 - Destructo Superlite V White-35,90€ | | 14 - Destructo CervantesLocos-Railkiller 35,90€ | | 15 - Destructo Black Grey - 35,90€ | | 16 - Independent Leo Romero 139 Hollow-37€ | | 17 - Independent Forged Titanium 139-37€ | | 18 - Independent Forged Hollow 149 - 37€ | | 19 - Independent Omar Salazar 159 - 37€ | | 20 - Independent Grant Taylor 159 - 37€ | | 21 - Venture Blaze Wizard Red - 26,10€ | | 22 - Venture Toxic Marquee Shocker Green -26,10€ | | 23 - Venture Vide Black Chrome -26,10€ | | 24 - Venture Union Gloss White Blue -26,10€ | | 25 - Venture Gloss Red Base -26,10€


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entrevista DĂŠbora Marita fotografia Roskof


Do rock para o design, como do design para as artes plásticas, David Rosado (L´ enfant terrible) deixa a sua marca em tudo o que se mete... No seu trabalho, David Rosado finge a colagem de figuras e cenas quotidianas, como que num transplante do muro publicitário para a tela. As imagens que mistura têm uma forte componente do modo de fazer: a tinta que sobra, os fundos que escorrem, mas vivem de uma promiscuidade cínica, ou sarcástica. Esta obra é claramente lúdica para o nosso olhar, para o nosso ver e para a ginástica de ordem intelectual a que os trânsitos visuais e os respetivos reconhecimentos nos obrigam. Mas isso arrasta um outro lado de pesquisa, a avaliação dos dados da representação dos cidadãos, a par da configuração dos bonecos animados ou gestos parietais; e, por outro lado, o deslizamento da imagem em termos de referência histórica, limite no tempo, século XX em salpicos de verdade, insinuação e mentira: a mentira que nos dá a ver o real e por isso o torna efetivamente visível.


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DAVID ROSADO

Conta Plásticas de Évora e andar por lá, meio ao engano. Acho que me perdi no 3º ano de -nos um pouco como foi o teu início nas artes plásticas? Tudo começou após ter frequentado o curso de Artes

faculdade, entre os concertos da banda a que pertencia, os PRIME, e as artes plásticas. Para te ser sincero nunca pensei nesta realidade e em fazer disto vida, aconteceu naturalmente, apesar de ter na família pessoas

que me apresentaram este mundo, não com o incentivo de ser artista mas de experienciar as múltiplas possibilidades do desenho e da pintura. Os 5 anos de curso foram suficientes para desejar não ser artista, (Lol), e após ter o canudo na mão fiz-me à estrada, perseguindo o sonho do rock and roll. Muitas chamas e álcool foram o prato do dia, bons tempos ;) Nas tuas pinturas habitam muitas personagens de filmes e animais, pixéis, etc… quais os temas que abordas e porque é que utilizas esses personagens? Os temas são um pouco ecléticos, tento por vezes direcionar as coisas

para ramificações do tema geral, como por exemplo “Heidelbergensis”, que se designava a aprofundar as nossas raízes enquanto contadores de estórias desde o período Heidelbergensis, que existiu

na nossa evolução 250.000 anos, até aos dias de hoje, fazendo comparações com a linguagem Pixel – que na minha adolescência foi uma das bases das minhas primeiras abordagens informáticas. Esses temas podem pairar sobre o tema de estudo principal que é o da estratificação social e marcação territorial, abordando o graffiti e a arte contemporânea... logo serão extensos e muito ramificados os temas que .

uso nas pinturas ou esculturas

ou medo?

Como artista em Portugal e a viver profissionalmente disso, tens algum receio, receio, a vida é o que é… Temos de saber encontrar pontos de foco no meio deste caos em que vivemos hoje em dia. Não há tempo para nada, ninguém quer ser desconhecido ou invisível, logo descarregamos as nossas frustrações em plataformas sociais

Não tenho nenhum

para podermos viajar e pensar que somos alguém, alguém diferente do que realmente somos, achando que isso nos coloca com melhores perspetivas de vida ou com mais amigos e não vendo a realidade que é o isolamento de cada individuo. Isto tudo acontece com uma rapidez vertiginosa e imparável. Na minha posição tento reproduzir o que acontece hoje em dia aplicando outros elementos da minha vida nessa equação. Se tenho medo de me perder, ou que as pessoas não gostem do que faço... é

algo que me transcende e não posso controlar, apenas sei que dou o meu melhor e se esse não for o mais correto ou o suficiente para me integrar na sociedade, assim seja, vou continuar a fazer o que gosto e a tentar achar o meu caminho sem

medos ou receios. A figuração é uma parte determinante nas tuas pinturas,

sentes a necessidade de te manter nesse caminho, ou preferes diversificar? Eu na pintura nunca planeio as coisas com antecipação, deixo tudo no que corresponde ao corpo de trabalho, deixo as coisas fluírem naturalmente tendo em conta a linha que tento desenvolver e aprofundar. É quase como

se as imagens me fossem reveladas segundos antes de as pintar, um pouco por impulso ou feeling, no imediato. Há um certo descontrolo controlado, onde tudo é possível acontecer, desde a

utilização de diversos materiais às escolhas de imagens que antecedem as próprias pinturas. Como se diz em bom português, uma confusão para os olhos de muita gente (Risos)

de um trabalho teu? Acho que já me disseram de tudo sobre a minha pintura, (risos), as de que mais gostei são: “O teu trabalho é uma Merda”… (dita por um galerista) (5 estrelas) “O teu trabalho não é igual ao do artista x!!!” (colecionadores) “Não tens cara de artista”… (pessoa interessada no trabalho) (Pergunto: que tipo de cara é a dos artistas???? lol) “Gostei do teu trabalho mas à volta da figura esta tudo sujo, é mesmo assim?” (colecionador) “Pintas-me um gato? A minha namorada gostava de ter o nosso gato pintado, fazes-me um rabisco?” (amigo) Qual seria a pior coisa que poderia dizer


Não é fácil aceitar alguns comportamentos menos éticos no decorrer das

primeiras mostras do trabalho nas galerias e mesmo dos nossos amigos, mas nem todos compreendem o que é estar nesta profissão, é quase um estado de espírito, (Risos), há que filtrar para Em Portugal existe a perceção de que o que vem de fora é melhor do que os nossos produtos, talvez seja um complexo de inferioridade implícito

continuarmos a fazer o nosso trabalho. no “ADN” português que me recuso aceitar, mas sei também que se continuarmos o nosso caminho as pessoas acabam por aceitar o trabalho e começam a valorizar um pouco mais. (Risos) Mundo cão… Por isso não desistam de fazer aquilo que Amam e com que se sentem confortáveis. Mesmo que isso implique ouvir uma crítica menos construtiva, ou que ninguém goste, continuem. Sei que já passaste e estás em várias galerias em diversos países, desde o Brasil, Holanda, Suíça, Alemanha e Portugal, entre outras. Qual a grande diferença entre trabalhares nestes mercados exteriores e o mercado de arte Português? Não só passei, como continuo a trabalhar com essas galerias e nesses mercados. Não há assim tantas diferenças, as galerias estrangeiras amadores que sejam, logo essa é a grande facilidade, o que não quer dizer que consigas algo. Mesmo quando consegues, o facto de não teres apoio no que toca a transportes para as peças torna tudo um pouco complicado e dispendioso. Tem de haver um controlo face às despesas de envio e ao preço de

os artistas, por mais

estão mais habituadas a receber

obra que será acordado com cada galeria. O artista terá de fazer sempre uma análise profunda do mercado e do seu funcionamento para efetuar o envio das peças e colocá-las nas galerias com que se comprometeu.

quanto tempo?

Trabalhas em arte há Trabalho profissionalmente há cerca de 15 anos, mas a minha primeira exposição foi há 22 anos.

ouves quando estas no atelier? Carcass, Slayer, Emmure, Cradle of Filth, U.s Girls, Bring me the Horizon e outros, até ao electro indie, lounge, acid jazz… tenho no meu computador uns 500 álbuns a rodar constantemente. Que tipo de música Eu ouço desde os

Sem música não sei se conseguia produzir seja o que for… lol

Em 2007 ganhaste o terceiro lugar num prémio de renome, “Ariane de Rothschild”. O que sentiste ao ganhar esse prémio? Achas que foi determinante para a tua carreira? 2007 foi um ano muito conturbado para mim. Não me conseguia encontrar e situar no panorama nacional e senti que o acesso às galerias era demasiado complicado. Acabei por entrar numa galeria e nesse mesmo ano fui dispensado por falta de vendas (hahaha), “that´s life”, mas como acredito que o trabalho compensa, a insistência dessa procura veio a dar-me frutos uns meses mais tarde, com o prémio Ariane de Rothschild, que incluía um júri de renome internacional a que pertenciam revistas e outros nomes importantes da arte contemporânea, nomeadamente o português Cabrita Reis. Acredito cada vez mais que o que é nacional é bom.

tipo de censura neste

Achas que existe algum meio? Existe uma censura total e silenciosa, desde os galeristas, artistas, aos compradores, que mesmo não percebendo nada de arte querem o que lhes foi dito que é bom, ou o que o amigo tem em casa, impossibilitando aberturas de novas linguagens visuais e pictóricas. Somos um povo que

gosta do que parece ser bom e não do que é realmente bom. Até a conduta do artista sofrido tem de ser seguida e quem não segue

arrisca-se a não ser encarado como tal. Parece que temos de ser todos suicidas e de andar a pedir esmola para sermos encarados como bons artistas por algumas mentes neste país, irónico! Mesmo quando estamos a falar de algo por que muitos lutaram e se manifestaram para que fosse livre de preconceitos e é que existe censura e pode ser pesada.

verdade

censuras, a


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DAVID ROSADO

profissional. Como é que isso é possível no nosso país? plásticas. Posso dizer-te que é duro e que por vezes as pessoas não compreendem o que é trabalhar nesta e noutras áreas criativas, pensam que por estar a pintar ou a desenhar só o fazes de vez em quando, ou quando os lobos uivam em cima do monte e aí te surge algo criativo (Lol). Pois para esses aqui vos digo (Fu%$%&Y””## OFF) porque qualquer artista trabalha muitas horas a tentar encontrar um equilíbrio e a fazer uma triagem do

És pintor Sim, sou um profissional das artes

que realmente é importante para o seu corpo de trabalho.

o sábado e no meio artístico relato factos de falta de apoios e um trabalho de pouca dinâmica

Faço 7 a 8 horas diárias de trabalho, incluindo

nas Galerias de Arte Contemporânea em Portugal. É necessário que todos os que queiram trabalhar na área tenham uma atenção redobrada e se esforcem mais para continuar a desenvolver os seus registos e

dinâmicas pessoais. Acabei por ter de trabalhar com outros países, porque me é muito mais fácil a comunicação e abordagem, trabalhar com essas galerias ajuda na fluidez de registo e de continuação da linha marcante do trabalho desenvolvido,

permitindo conseguir expor em feiras e estar em contacto com outro tipo de colecionadores e críticos, que podem abrir portas a novas perspetivas de trabalho... não deixando de ser arriscado.

crise transversal que nos

O certo é que é nestes momentos de aparecem as coisas mais importantes. Até na crise as coisas positivas acontecem, acredito que a nossa mudança e saída da crise passa um pouco pelas pessoas, acho que a condição de sociabilização entre nós tem de ser aplicada de uma forma mais natural e

não tão desprendida como tem sido, com as novas tecnologias a barrarem-nos tudo. Apesar de parecer que nos facilitam os caminhos, penso que nos afastamos uns dos outros enquanto pessoas e passamos ao lado do que realmente interessa. Se te pudesses descrever como o farias? Como uma mistura teu artista favorito? Era o Flash Gordon mas mudei para o

improvável (citando Avilez). (risos) Qual o Krusty the Clown, estou mais nessa onda. O que te continua a mover todos os dias para pintares? A surpresa de encontrar o que ainda não encontrei, sou alguém muito insatisfeito e perfeccionista, no que toca à pintura e a tudo o que faço.

projetos e exposições e onde podemos encontrar essas informações? As próximas datas são:

Quais os teus próximos

- 19 Fev a 8 Mai 2015 PERIPLOS / Arte portugués de hoy / Colectiva / Centro de Arte contemporânea de Malaga CAC Málaga (Espanha). http://rosadodavi.wix.com/davidrosado Galeria Presença www.galeriapresenca.pt


Distribuição www.marteleiradist.com

212 972 054 - info@marteleiradist.com


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A JANELA INDISCRET Desde que vi pela primeira vez o clássico “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock, que a ideia de passar dias à janela a ver o que se passava no mundo me despertou uma curiosidade inquietante... mas nunca pensei vir a passar quase 3 semanas no Porto, colado a uma janela enquanto lá fora chovia a cântaros. Foi o que aconteceu e não só a mim. Tive o prazer de partilhar a dita janela com os meus amigos Josh Mathews, Martin Riguel e Dan Plunkett. A ideia inicial destes dias seria terminar as filmagens para o “Push Project”, do “The Berrics”. Com deadlines a apertar e com a novidade recente de que a produção iria passar na cadeia de televisão norte-americana NBC, a pressão estava no ar e esta seria a última hipótese de recolher imagens. Depois de duas semanas em Barcelona que não tinham corrido muito bem, - o Josh magoou-se logo no primeiro dia -, esta viagem pelo Porto também não começava famosa. Primeira skatada, a câmara RED do Marty, que custa mais do que a minha casa e a vossa juntas, lembrou-se de não funcionar, o que o levou a passar 3 horas a andar pelas matas perto da nave de Espinho, pálido como a cal e com as mãos na cabeça. Felizmente ele é um caixa de óculos. Deixe-me explicar, a ventoinha da máquina não rodava, depois de 3 horas em desespero, o Marty lembrou-se de usar as hastes dos óculos para ver se a ventoinha mexia e... milagre! A máquina voltou à vida e voltámos ao Porto ainda a tempo de ver o Josh partir o dedo mindinho na Praça dos Leões. Sim, leram bem, o mindinho. Para ajudar, a chuva voltava ao norte e lá voltámos nós para o apartamento alugado, na ribeira do Porto. Logo nesse primeiro dia elegemos o nosso sítio favorito da casa, aquela janela da sala com vista para o rio e para a casa de pelo menos umas 30 pessoas, parecia-nos um bom spot para relaxar, enquanto lá fora a chuva tornava este apartamento cada vez mais acolhedor.


A ETA

texto Roskof fotografia Roskof / Martin Rieguel


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A JANELA INDISCRETA


A cafetaria da Casa da Música tem os melhores salgados do Porto e como se isso não bastasse, podes estar a encher o bandulho a ver a malta a skatar ao mesmo tempo. Que classe! Josh Mathews, 360flip

Isso, e também a nossa mais importante descoberta destes dias, o Dalva. Não, não é nenhum membro da aristocracia, mas sim o nome de um vinho tinto que descobrimos à venda no minimercado, que existia no rés-do-chão do prédio, dos nossos amigos do Bangladesh. Estes nossos amigos foram, sem dúvida, mais que nossos vizinhos nestas 3 semanas. Todos os dias lá passávamos de manhã para comprar águas e fruta e todas as noites lá passávamos para apanhar o Dalva. Curiosamente, a qualquer hora do dia e da noite estava sempre a tocar o mesmo álbum do Bob Marley. Quando lhes perguntámos o porquê, responderam que era assim que faziam, punham o mesmo álbum a tocar durante um mês inteiro até que se fartassem, depois mudavam de CD. Que senhores! De certeza que por esta altura já sabem as letras aí de uns 20 álbuns de cor! Mas, voltando à nossa missão, os dias de calma estavam a terminar. Depois de um período em que conseguimos skatar mais ou menos tranquilos, as coisas estavam para mudar. A equipa do “The Berrics” estava a chegar com (apenas) 6 cameramens, 1 fotógrafo, sonoplastia, produção e mais sei lá quanta gente, tudo exclusivamente para filmar o Josh no Porto. Mesmo sendo ele um skater profissional, quando tens 7 câmaras apontadas para ti a toda a hora e um microfone escondido na t-shirt que te ouve quase 24h por dia, as coisas não são muito fáceis.


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Depois deste nosegrind em Famalicão, o jardineiro veio agradecer ao Dan por ter lavrado ali a parte de cima do bank. É que assim já era fácil plantar lá umas flores para embelezar o spot.


Pelo menos duas ou três vezes o ouvimos no microfone a dizer que estava farto daquelas câmaras todas. Felizmente a malta ria-se e, claro, depois dos dias de trabalho tínhamos sempre a nossa janela à espera para desabafarmos uns com os outros, ou com as vizinhas, ou com o belo copo de Dalva. Outro dos nossos escapes foram os dias de folga que tirámos. Deixem-me explicar como funcionam as coisas nestas tours mais longas: ao décimo dia de qualquer viagem há sempre trampa. Faz parte. Basicamente, depois de 10 dias a levar com o chulé e tudo e mais alguma coisa de todos os companheiros, qualquer pessoa precisa de um tempo a sós. Esta regra está escrita praticamente em tudo o que são manuais de conduta de tours de skate, acreditem! Por falar em conduta, também deveriam arranjar uma para as conversas de vizinhas à janela, foram vários os dias em que fomos brindados com autênticas pérolas da língua portuguesa entre as moradoras.

Ao fim da primeira-semana no Porto a levar com Bob Marley, o Josh Mathews decidiu mudar de ares e fomos até Braga, onde deu este boardslide pop-out


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“Porca badalhoca”, “putéfia” e afins eram as palavras mais leves ouvidas. Quando eles me perguntavam o que elas estavam a dizer umas às outras eu respondia que estavam a falar de culinária... afinal, não queria que esta malta tivesse uma ideia errada das donzelas do Porto. Depois de passados vários dias a comer francesinhas e tripas, com 6 câmaras nas fuças, chegava, finalmente, altura de relaxar um pouco. A equipa do “Berrics” seguia para Barcelona para filmar o Cody Cepeda e a chuva voltava em força.

Nos últimos 3 dias não saímos da janela e, curiosamente, também não falávamos muito uns com os outros. Limitámo-nos a ficar ali a olhar, a ouvir as nossas amigas e o Bob Marley que vinha do rés-do-chão... o que me leva a uma última questão: que álbum estarão os nossos amigos do Bangladesh a ouvir agora? Espero que não seja Adele… Hello!!

Dan Plunkett, frontside 50-50


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SURGE Skateboard Magazine, 31st issue: "Esbanja aí"  
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Destaques: "Duplas"; "Presos na Califórnia"; "David Rosado"; "Tahiti"; "Antiz Portugal - Into the Van"; "Epopeia a Saturnan";

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