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Luiz Vilela

INÉDITOS

PERNAMBUCO, JUNHO 2013

“Estou esperando...” “A Dona Ofélia vai falar com você...” “Sim.” “Boa noite, José.” “Boa noite, Dona Ofélia.” “É só para fazer uma correção: os desertos; a Léa entendeu mal.” “Sei.” “Eu fiz referência aos desertos do Egito.” “Sim.” “Os desertos do Egito em contraste com as geleiras da Patagônia.” “Sim.” A linha caiu. Ele ligou o rádio. Simon e Garfunkel! “Hello, darkness, my old friend”... Ele cantou junto, até o fim. Era mesmo uma noite especial: ligar àquela hora o rádio e dar com Simon e Garfunkel e uma de suas canções prediletas... Tinha todos os discos deles, todos os LPs — mas havia tempos que, por falta de tempo, não os escutava. Então outro bom propósito para o Ano Novo: escutar novamente todos os discos de Simon e Garfunkel. Ah, a década de 60! Quanta coisa... Os sonhos, as lutas, a rebeldia, a coragem, a loucura... O que ficara de tudo aquilo? O que ficara? E ele? E sua vida? O celular. “Amor.” “Quê.” “Eu quero saber se eu já posso colocar o pernil no forno.” “Pode.” “Que hora que você vai chegar?” “Eu já disse: antes da meia-noite.” “Então eu já posso pôr o pernil?” “Pode.” “Então eu vou pôr, hem?...” “Tá.” Ele casara com um par de peitos. Isso: um par de peitos. Depois vira que, por trás dos peitos, não havia

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nada. Ou, melhor, havia, havia sim: havia o nada. O celular. “E aí, campeão?” “Quem?” “O Silva.” “Silva?...” “Sim, meu caro.” “Onde você está, Silva?” “Adivinha...” “Só pode ser na firma.” “Não, na firma, não... Sabe onde eu estou?” “Onde?” “Sentado confortavelmente no sofá de sua casa.” “De minha casa?...” “Sim, senhor. “ “Hum...” “Eu trouxe os relatórios para você ler.” “Mas hoje, Silva?...” “Não, hoje não; claro que não... Mas como amanhã é feriado, eu pensei que você já gostaria de ir dando uma olhada. É só pra agilizar as coisas.” “Hum.” “Só pra agilizar, entendeu?” “Sim.” “A perspectiva é boa, viu?” “É?” “Muito boa. A previsão é de um aquecimento das vendas já a partir de março.” “Sei.” “Está aqui o relatório; quinhentas páginas.” “Quinhentas?...” “É, mas é que estão aqui também os balanços, as planilhas... Está tudo aqui, reunido.” “Hum.” “Você vai ter uma boa diversão para o feriado; estou até com inveja...” “É, né?...” “Ah, Zé, sabe quem está aqui também?” “Quem?” “O Teco.” “Teco?” “O Teco Telecoteco.”

23/05/2013 14:10:57

Suplemento 88  

O preço do poder Ensaio inédito analisa como os personagens subalternos são tratados nos grandes centros de consumo

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