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ACAIACA Monumento moderno à beira-mar Com quase meio século de construção, edifício residencial, projetado por Delfim Amorim, introduziu na cidade preceitos construtivos de Le Corbusier TEXTO Danielle Romani FOTOS Breno Laprovitera

Pernambucanas

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os frequentadores

da praia de Boa Viagem, no Recife, certamente já agendaram um encontro próximo, em frente ou no próprio edifício Acaiaca, localizado à beira-mar. Ícone do modernismo local, o prédio que completa 50 anos de existência em 2010 é referência histórica, point da balada praiana, e imóvel especial de preservação, defendido por lei municipal. Um monumento da arquitetura pernambucana. “O Acaiaca não é só um edifício. É um marco referencial da cidade. Não tem apenas um valor arquitetônico, tem também valor urbanístico e sociocultural. É como o Marco Zero, no bairro do Recife, pois serve de referência e de ponto de encontro”, explica o arquiteto-urbanista Luiz Amorim, professor

da Universidade Federal de Pernambuco e PHD em Advanced Architetural Studies pela University College London. Construído para ser um prédio de veraneio, pois em 1956, quando começou a ser erguido, Boa Viagem era utilizada apenas como balneário; o projeto esboçado pelo arquiteto português Delfim Amorim pretendia oferecer conforto aos veranistas que podiam pagar pelo luxo. À época, muitas famílias aderiram à novidade. “Compramos o apartamento ainda na planta e recebemos o imóvel pronto em 1960. Morávamos na rua Fernandes Vieira, na Boa Vista, e passávamos os verões e finais de semana no Acaiaca”, recorda Leda Pessoa de Melo, que decidiu morar definitivamente no prédio há 18 anos, quando ficou viúva.

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HALL

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ÁReA De SeRViÇo

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eStiLo

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AZULeJoS

À entrada social do edifício observamse os pilotis, projetados para permitir a circulação de pessoas e do ar em áreas livres Delfim Amorim considerou a localização do prédio para utilizar recursos como cobogós e elementos vazados Assunção mora em apartamento de dois quartos, repleto de obras de arte Elemento construtivo típico de Portugal, o azulejo foi usado na fachada para atenuar os efeitos do calor e da umidade

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“Sempre gostei daqui, adoro o Acaiaca. As janelas, com ampla vista para o mar, são o meu mundo”, diz a simpática senhora de 82 anos, que ocupa dois apartamentos, transformados em um, decorado com móveis antigos e peças coloniais. A paixão de Leda pelo prédio não se limita à bela vista e às boas recordações que o imóvel lhe traz. Detalhes arquitetônicos do projeto desenvolvido por Delfim Amorim, como os armários embutidos (no período, uma inovação); o peitoril ventilado, uma espécie de fenda na parede frontal do edifício, que permite a passagem de ar em dias chuvosos; e as largas janelas horizontais em todos os cômodos também tornam o Acaiaca exemplar único. “Em dias de chuva é possível ter ventilação sem que a água entre em casa. Esse é um dos pontos positivos do edifício”, diz o aposentado Virgílio Tavares, que desde 1966 é morador, e que hoje ocupa três apartamentos – transformados em um – no prédio. “Meus pais moraram aqui. Hoje moramos eu, minha irmã e minha filha, cada um no seu imóvel, só que

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em andares diferentes”, explica o senhor de 85 anos. Lúcia Helena, 53 anos, filha de Virgílio, foi uma privilegiada: teve a praia de Boa Viagem e as dependências externas do edifício como quintal para brincadeiras de infância e de adolescência. “Jogávamos vôlei, futebol, brincávamos, principalmente, na área externa do

prédio. Todo mundo solto, sem medo, e sem correr risco”, recorda a arquiteta, que adora o local, mas lamenta a atual falta de segurança no bairro.

noVoS MoRADoReS

O ambiente familiar e a relativa tranquilidade do prédio de número 3232 da avenida Boa Viagem também

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contam pontos a favor. “O Acaiaca é especial, ocupado por famílias que estão aqui há décadas e por pessoas de uma faixa etária mais velha. Todos se conhecem e se dão bem”, conta Assunção Bandeira de Melo, 72 anos. Encantada pelo prédio, Sunca, como é conhecida, ocupa atualmente um apartamento de dois quartos, repleto de almofadas, plantas, pinturas, onde o destaque é um piano no qual se exercita diariamente. “O lugar tem minha cara”, garante. O arquiteto Isnaldo Reis, 56 anos, é outro que só tem elogios ao local. “Além de ser um prédio à beiramar, tem um projeto arquitetônico fantástico: uma boa área de jardins e recreação, embora não tenha piscina; as garagens são amplas e, principalmente, as paredes são largas, impedindo que o barulho venha da avenida”, ressalta. Com quase meio século de vida, o Acaiaca atualmente tem nova configuração, com imóveis oscilando entre dois e sete dormitórios. Quando inaugurado, em 1960, tinha 52 apartamentos – de dois ou três quartos

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DecoRAÇão

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oRiGinAL

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LUMinoSiDADe

O proprietário Isnaldo Reis destaca o valor histórico do imóvel, sua vista e o silêncio – possível pela espessura das paredes O banheiro do apartamento de Isnaldo mantém as características do projeto, com azulejo azul, banheira e armários A proprietária desse apartamento reside no imóvel há 18 anos, quando se mudou de vez para lá, já que desde 1960 usava o local para veraneios

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– espalhados pelos seus 13 andares, que reformados somam hoje 33 unidades. As mudanças, entretanto, não comprometeram a qualidade do projeto original. Os imóveis continuam ventilados, luminosos e funcionais.

eScoLA Do ReciFe

Para os que desconhecem o projeto moderno, amplamente difundido no Recife pelo arquiteto Luiz Nunes, que atuou como diretor de Arquitetura e Urbanismo do governo estadual na década de 1930, um esclarecimento: o Acaiaca é um dos principais exemplares do movimento que alguns estudiosos convencionaram chamar de Escola do Recife, só que representante da sua segunda fase, na década de 1950, quando à capital pernambucana chegaram os jovens arquitetos Acácio Gil Borsoi e Delfim Amorim. Ambos traziam na bagagem as teorias difundidas por Charles-Edouard Jeanneret-Gris, francês de origem suíça, conhecido como Le Corbusier. Também traziam na formação os ideais

defendidos por dois brasileiros que já se projetavam no mundo afora: Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. “Na década de 1950, Borsoi executou prédios importantes, como o edifício União, próximo ao Parque 13 de Maio, e o Califórnia, também em Boa Viagem. Delfim Amorim se destacou com o Acaiaca, que, ao contrário do que muitos pensam, não foi o primeiro arranha-céu do bairro (título que cabe ao Pontual), mas foi criado numa perspectiva de transformação da praia de Boa Viagem”, explica o arquiteto Luiz Amorim, que, além de estudioso do conjunto arquitetônico modernista recifense, é filho do idealizador do edifício, o português Delfim Amorim. Para a construção do Acaiaca, que em tupi significa madeira de bom polimento e resistente a cupim, baseou-se em cinco preceitos de Le Corbusier. Os três primeiros eram a criação de pilotis, algo inédito à época, projetados para permitir a circulação de pessoas e do vento em uma área aberta; a construção do plano livre – teoria revolucionária que permitiu

a concepção e o arranjo das plantas, independentemente das estruturas de sustentação; e a fachada livre, igual conceito, só que aplicado à área externa. O quarto ponto dizia respeito às janelas horizontais, que, ao contrário das antigas verticais, permitiam maior entrada de luz e vento. O quinto versava sobre o teto jardim, área coletiva construída na cobertura do edifício e aberta a todo condomínio. Mas o Acaiaca não se limitou à aplicação desses princípios. “Delfim também lançou mão de soluções próprias para o local, no caso, a orla do Recife”, destaca o arquiteto, elencando o peitoril ventilado, que alguns atribuem ter sido criado por Delfim e ter sido aplicado arquitetonicamente, pela primeira vez, no Acaiaca; e o uso de azulejo nas superfícies do prédio, que atenuam os efeitos do calor e da umidade tropical. “Como português, ele manteve a tradição luso-brasileira de revestir os edifícios de azulejo, prática secular que foi adotada pelos modernistas, trazendo o material para a fachada do edifício”, destaca o arquiteto.

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