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PERNAMBUCO, FEVEREIRO 2010

e celebridades). Apesar da forte pegada na Comunicação (Messeder possui graduação em Ciências Sociais), todos eles analisam as celebridades para além de ideias como a dominação e imposição, percebendo que, ao buscarmos a fama, também procuramos nos inserir no contexto social.

sença e a essa força -, são fenômenos sociológicos sem precedentes, que merecem ser olhados com menos preconceito. Lá fora, o convite foi lançado por Kerry Ferris, professor da Northern Illinois University (EUA), que localiza vários estudos sobre famosos em áreas como a Comunicação e a Psicologia, mas os percebe incipientes dentro das Ciências Sociais. Diz o moço: “Fama e celebridade, são vistas como tópicos triviais, desimportantes para o entendimento do mundo social. Apesar do interesse voraz do público nas celebridades, a sociologia simplesmente as ignora (...) Isto é dolorosamente irônico, desde que os sociólogos são os teóricos originais da desigualdade, e a fama e a celebridade são elas mesmas sistemas hierárquicos”. O que Ferris pede, sucintamente, é por uma verdadeira Sociologia da Celebridade. Vale dizer que o movimento – no sentido de organização e ação, e não no sentido de modismo – vem sendo tocado por vários autores. Nos Estados Unidos, nascedouro do star system, nomes como David Marshall, Joshua Gamson e Neal Gabler, para citar alguns, vêm se empenhando na análise da fama nos últimos dez anos. Na Europa, há também um bom número de pesquisadores que olham para seus celébres de maneira mais sofisticada (com o italiano Alberoni incluido): entre os franceses, o fenômeno de revistas como a Paris-Match levou a academia a se bulir com mais força; já nos anos 1960 e 1970, Claude Frère, Jacques Dubois, Francis Edeline, Jean-Marie Klinkenberg, Philippe Minguet, François Pire, Hadelin Trinon e, o mais afiado deles, Roland Barthes, traduziam o assombro geral com as imagens-mito. Atualmente, nomes como Philippe Marion, da Université Catholique de Louvain, também analisam os “carismáticos”, para usar um termo weberiano. Na Espanha, onde as tardes televisivas são tomadas por programas de entrevistas e as bancas de revistas estão abarrotadas de publicações como a Hola! (a famosa “prensa rosa”), há também esforços nesse sentido, com nomes como o professor Brian Michael Goss analisando revistas femininas, gênero, ideologia e submissão. Ainda no âmbito europeu, não há como deixar de fora o Reino Unido, onde os tablóides têm uma impressionante tiragem - só o The Sun vende cerca de 3,4 milhões de exemplares por dia – e nomes como Madonna, Michael Jackson e, claro,

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Uma celebridade concentra em si uma série de marcadores sociais valorizados no mundo contemporâneo Diana, são consumidos logo no café da manhã ao lado dos ovos com bacon. Ali, David Beer e Ruth Penfold-Mounce (University of York) observam nomes como Miley Cirus para tratar de uma nova imaginação permeada pelo melodrama, enquanto John Harris e Ben Clayton (Southampton Institute e Buckinghamshire Chilterns University College) falam sobre masculinidade e feminilidade a partir da figura de Anna Kournikova e sua aparição na imprensa marrom. Jackie Stacey, Nick Couldry, Jo Littler, Ellis Cashmore e Chris Rojek (este com o livro Celebridade lançado no Brasil) são outros nomes importantes. Foi no Reino Unido, na University of Paisley, que vários estudiosos se reuniram em 2005 numa conferência sobre o tema. No Brasil, onde a telenovela dita modas que vão das roupas aos cabelos e ao repertório linguistico, onde a Globo, o SBT e a Record concentram imensa atenção e a revista Caras vende cerca de 1,3 milhão de exemplares por mês (e cada exemplar é lido por uma média de nove pessoas), a análise sociológica da celebridade é quase nula, enquanto os estudos de comunicação há algum tempo vêm prestando a devida atenção no tema. Nesse sentido, surgem teóricos como Muniz Sodré e Raquel Paiva (autores de Cidade dos artistas – Cartografia da televisão e da fama no Rio de Janeiro) e Micael Herschmann e Carlos Alberto Messeder Pereira (autores de Mídia, memória

VEDETES E OLIMPIANOS Vale dizer que, antes de todos eles, Edgard Morin, Baudrillard, Adorno e Horkheimer, Walter Benjamin, Max Weber e o já citado Roland Barthes trouxeram preciosas análises sobre “vedetes” e “olimpianos”, alguns deles com uma resistência até hoje encontrada nas discussões sobre celebridades. Adorno e Horkheimer, que escreveram sobre uma predatória indústria cultural nos anos 40 (data do famossísismo texto no qual aborda o iluminismo e a “mistificação das massas”), por exemplo, viam os “film stars” como figuras máximas de um capitalismo voltado à individualização do social, como seres que traziam em modo standard a falsa ideia de uma “vida boa”. É fácil entender a oposição dos frankfurtianos naquele momento pré-ascensão do Nazismo (mais fácil ainda entender o horror dos dois após um contato forçado com a América). Mas pensar em uma indústria homogeneizadora, que impõe seus pressupostos de maneira totalitária, já não é possível na perspectiva atual: é impossível, no âmbito específico das celebridades, pensar um famoso sem audiência, e ainda pensar essa audiência como massa sem voz. São muitas as negociações travadas entre os dotados de visibilidade e aqueles que os veem, uma relação finamente observada por nomes como Anita Biressi e Heather Nunn, do Cultural and Media Studies, University of Surrey (Roehampton, UK). As duas analisam a mobilidade social a partir dos celebrity shows: é ótima a maneira como percebem a fama como uma saída para extrapolar os limites impostos pela condição de classe, e ainda como o público adere ou repele aqueles que não dão conta de um comportamento esperado pelo senso comum. Quem exemplificou bem essa realidade foi Jade Goody, “a porca”, como escreveu o The Sun quando a moça participou de uma versão do BBB realizada na Índia. Gorda, desbocada, racista, bissexual e dotada de enorme gosto pela bebida, a moça provocou a ira da imprensa, que pediu (o The Sun) para que o público retirasse do ar aquela personagem tão pouco palatável para ser digerida na sala de estar (aqui, esse público atua quase como uma “co-celebrity”, derrubando uns, elevando outros). Goody, que morreu tempos depois de câncer, não tinha um corpo “adequado”, nem um comportamento ameno: “entregava” sua condição de jovem da classe trabalhadora, sua educação deficiente. Só após anunciar sua doença, já fora da casa, é que a enfermeira foi “absolvida” pela imprensa e pelo público: seus dias midiáticos foram repletos de sol e piedade, com ela sendo assediada por revistas de emagrecimento (o corpo precisou ficar mais leve para se adaptar às demandas sociais) e ainda convidada a participar de talk shows. Foi só o fenômeno Jade ganhar enorme atenção que os jornais “sérios” locais noticiaram sua história, afinal, há também uma hierarquia no momento de noticiar esta ou daquela celebridade - ter uma notícia sobre Woody Allen é uma coisa, sobre Joelma e Chimbinha, outra. A transformação de uma enfermeira pobre em celebridade, bem perceberam as autoras, estava carregada de enorme tensão, com a personagem precisando dar conta de uma esperada “permanência de valores de classe” (“era aqui que Jade costumava comprar pães”) e ainda de um ar de glamour (esta, uma nova necessidade feminina). Mas como Goody, Susan Boyle, e, no caso do Brasil, nomes como Cida (BBB) e Zina (Pânico na TV) podem glamourizar suas existências a partir de um campo tão voluntarioso e mutável como a mídia? Como atender a uma igualmente volátil vontade dos espectadores? Difícil responder assim, de cara: é preciso estudar, dissecar, para ver esses célebres para além das fotos perfeitas, da publicidade sedutora ou dos sites que os detratam. Afinal, stars... not just stars. Right? * Fabiana Moraes estuda o tema sociologia da celebridade no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFPE

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Suplemento Pernambuco #48  

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