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#140 ano XII • ago/12 • R$ 11,00

CONTINENTE

NELSON RODRIGUES JORNALISMO DE GÊNIO

AGO 12

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E MAIS QUINTAIS DE OLINDA BOI DO MARANHÃO SÉRIES DE TV DANÇA DOS ORIXÁS

VENTOS HISTÓRIAS DE AGOSTO

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con memória ti nen te

citações NELSON POR ELE MESMO “Eu comecei minha carreira teatral com uma vaidade homicida. Isto eu confesso: eu tinha ódio do Joracy Camargo, por causa do sucesso de Deus lhe pague, ódio do Raimundo Magalhães Jr., por causa do Carlota Joaquina, tudo anterior a mim. Mas não importa, eu incluía o passado no meu presente, no meu ressentimento. Qualquer sujeito que tivesse, quisesse ter ou tivesse tido algum êxito teatral dava-me uma irritação de extrema malignidade, não perdoava.” “Eu nunca dizia que tinha feito Vestido de noiva tão rápido, senão ia me desmoralizar. Eu dizia que demorava seis meses para escrever uma peça, abismado com meu cinismo.” “Sou o maior dramaturgo do país, mas qualquer um tem, é claro, o direito de me considerar um imbecil.” “Manuel Bandeira era então meu admirador; depois deixou de ser, por exaustão: cansou-se de me admirar.” “Uma das maiores peças do mundo é Um inimigo do povo, de Ibsen. O protagonista diz, no final, que o grande homem é o que está mais só. Por isso brinquei com minha classe teatral, quando andava em comícios, assembleias e passeatas. Sou o que está mais só.” “Nos primeiros 15 anos não escrevi um palavrão e todo o mundo ia para casa certo de ter ouvido trezentos.” “Quando você vê fotografias das passeatas – como é óbvio eram passeatas das classes dominantes – repare que não havia um preto. Não vi uma cara de operário, uma cara de assaltante de chofer, uma cara

de entregador de pão. Nada disso. (…) O que vi foi o Arnaldo Jabor, meu diretor, que dirigiu Toda nudez será castigada, chupando Chicabon. E quando deixava de lamber o Chicabon dizia ‘participação, participação, participação’ e depois dava outra lambida no picolé.” “Nunca houve inteligência coletiva, trezentas pessoas reunidas constituem um bloco monolítico de incompreensão, frequentemente de estupidez.” “Meu amigo socialista disse. Ou, por outra, berrou: ‘Se é preciso matar o inocente, se convém matar o inocente, deve-se matar o inocente!’ (…) Mas quem quer que tenha um mínimo de humanidade sabe que não se mata um inocente. Se a salvação da humanidade

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depender de um inocente, a humanidade deve ser imolada e nunca o inocente.” “Todo amor é a história de uma derrota, porque o homem, há milênios, ama errado. Ainda falta muito tempo para que o homem possa amar certo.” “Eu sempre digo que não é na recepção do Itamaraty que devemos ser perfeitos. Não. Devemos reservar o melhor de nós mesmos, de nossa delicadeza, de nossa cerimônia, de nosso charme, para a mais secreta intimidade do lar. É menos grave chamar de “chato” um embaixador, um ministro, do que o namorado, a noiva, a esposa, o marido. Se respeitássemos o nosso amor, não seríamos tão solitários e tão malqueridos.”


Recortes RAZÕES DE UM POLEMISTA “Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si mesmo vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação (...) Dirá alguém que seria uma inverdade. De acordo. Mas o fato ganharia em poesia, em ímpeto lírico, em violência dramática. E, além disso, ai do repórter no dia em que fosse um reles e subserviente reprodutor do fato.” (Em O passarinho, 31/03/56, Manchete Esportiva). “[Dom Helder Câmara] pede outro cigarro. Fez novas confidências: – Sou um homem da minha época. Na Idade Média, eu era da vida eterna, do sobrenatural. Fui um santo. É o que eu lhe digo: – cada época tem seus padrões. Benjamin Costallat, no seu tempo, era o Proust. O charlestone já foi grande moda. Pelo amor de Deus, não me falem de vida eterna, que é mais antiga, mais obsoleta do que o primeiro espartilho de Sarah Bernhardt. Hoje, a moda não é mais Benjamim Costallat, nem o charlestone. Entende? É Guevara. O santo é Guevara. E acompanho a moda.” (Entrevista imaginária com dom Hélder Câmara, no texto Terreno baldio, de 03/1968, publicado nas Confissões, de O Globo). “Segundo deduzo, o Piauí não entendeu que lhe tenho profunda simpatia. Chamando-o de pobre, tive a intenção óbvia de elogiálo. (...) E, no entanto, vejam vocês: – pela primeira vez, desde que se inventou a cortesia, um elogio é injurioso. Ainda ontem, recebo de São Luís. Desculpem, São Luís é Maranhão. Eu queria dizer Teresina. Ou não é Teresina? É Teresina, sim. Mas como ia dizendo: – recebi um telegrama de lá, ofendidíssimo (...) cujos

os brios estavam mais eriçados que as cerdas bravas do javali (...) Excelente! Já vi que terei de recolher todos os elogios que lhe fiz.” (Em O elogio injurioso, sobre a querela com o Piauí, publicado em 22/03/1969, em Memórias, no Correio da Manhã). “São as perguntas que tornam a estagiária um ser tão misterioso e absurdo como certas imagens de aquário. O leitor há de imaginar que exagero. Nem tanto, nem tanto. Mas uma dessas meninas irreais de redação é bem capaz de atropelar um presidente, um rajá, um gangster, um santo, ou simplesmente, uma dessas velhas internacionais, que embarcam em todos os aeroportos. E perguntar: – “Que me diz o senhor, ou a senhora, de Jesus Cristo, do Nada Absoluto, do Todo Universal ou da pílula?” (Em O Deus numerado, sobre a convivência com as estagiárias na redação, publicado em 04/01/1969, em Memórias, no Correio da Manhã) “(...) A princípio, ainda tentei forçar aquela barreira do silêncio. Mas senti que era inútil e calei-me

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também (...) Éramos dois silêncios que andavam um atrás do outro, dois silêncios que comiam, bebiam, fumavam e se entreolhavam. (...) Saí do aeroporto numa melancolia hedionda (...) Entrei na redação e fui adiantar o serviço. (...) Mas quando comecei a bater as teclas, saiu-me esta frase: – “A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.” (Em O paulista, publicado em 07/08/1968, em Confissões, de O Globo). “Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando de um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro. Veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: – a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas.” (Em Os idiotas da objetividade, publicado em 22/02/1968, em Confissões, de O Globo).


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E MAIS QUINTAIS DE OLINDA BOI DO MARANHÃO SÉRIES DE TV DANÇA DOS ORIXÁS

VENTOS HISTÓRIAS DE AGOSTO

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Nelson por ele mesmo  

Motivada por uma preconceituosa declaração, primeira montagem pernambucana de Senhora dos Afogados investiu em roupagem elisabetana