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Texto

Francisco Hélio de Sousa é natural de Piripiri (PI).

Formado em Administração pela UnB, e pós-graduado em Gestão Pública e em Contabilidade Pública, é servidor público federal e autor de vários artigos científicos publicados. Nos últimos anos vem se dedicando a escrever contos infantis.

Francisco Hélio de Sousa Ilustrações

Karina Freitas

Karina Freitas tem um carinho especial por

estampas, tintas, livros e papéis. Coleciona canetas, gosta de viajar e procura sempre ambientes inspiradores para criar. É designer formada pela Universidade Federal de Pernambuco e trabalha com design editorial.

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© 2011 Francisco Hélio de Sousa Companhia Editora de Pernambuco

Direitos reservados à Companhia Editora de Pernambuco – Cepe Rua Coelho Leite, 530 – Santo Amaro CEP 50100-140 – Recife – PE Fone: 81 3183.2700

S725d

Sousa, Francisco Hélio de, A dona Barata (diz que) foi à guerra / Francisco Hélio de Sousa ; ilustrações: Karina Freitas. — Recife : Cepe, 2011. 25p. : il.

1. Ficção infantojuvenil — Pernambuco. I. Freitas, Karina. II. Título.

CDU 869.0(81)-93 CDD 808.899 282 PeR — BPE 11-0451 ISBN: 978-85-7858-076-6

Impresso no Brasil 2011 Foi feito o depósito legal

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Francisco Hélio de Sousa

Ilustrações

Karina Freitas

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Apresentação

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esta história, o menino Joãozinho conta como teve de encarar uma barata que dizia ter superpoderes, conseguidos após escapar de uma grande guerra e ficar exposta à radiação de uma bomba atômica. Joãozinho desconfiava que tudo não passava de uma mentira, inventada para que ele não cumprisse a missão estabelecida por sua mãe: dar uma chinelada na barata. As artimanhas utilizadas pela dona Barata para tentar enganar Joãozinho fazem com que ele se defronte com a necessidade de demonstrar coragem, perseverança e autoestima. As novas situações com que se depara refletem a importância de se manter atualizado, estudar, conhecer a história e os fatos importantes, usar sua capacidade de raciocínio. Servem como experiência de vida.

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1. O enfrentamento1

E

u não sei se é verdade, mas... A dona Barata disse que lá pelos idos de mil novecentos e tanto ela esteve em uma grande guerra e que ela mesma escapou por pouco do grande holocausto2. Contou que esteve em uma cidade onde foi jogada uma bomba atômica, matando todos ao seu redor e que, embora não tenha visto, já que estava escondida no esgoto, suas amigas lhe contaram que viram um grande clarão e ouviram um grande estrondo e, em seguida, tudo se evaporou como num passe de mágica. O céu ficou escuro e coberto de cinzas. Até mesmo algumas baratas que estavam expostas na superfície se desintegraram, outras correram para os bueiros, esgotos e abrigos subterrâneos mais próximos que encontraram, algumas ficaram pelo caminho, outras foram chamuscadas pelo calor intenso e cobertas pelas cinzas da grande bomba atômica... Tudo isso, conforme ela disse. Eu bem que achei que ela tentava usar palavras complicadas demais para alguém da minha idade, tentava demonstrar um certo ar de superioridade. 6

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Enfrentamento: ato ou efeito de enfrentar.

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Holocausto: sacrifício, praticado pelos antigos hebreus, em que a vítima era totalmente queimada.

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Ela contou que não viu ninguém morrer, não ouviu o barulho e nem mesmo viu o clarão ou as cinzas, muito menos as coisas desaparecerem assim, do nada, como se evaporassem. Tudo o que dizia era com base no que “suas amigas lhe contaram”. Ela mesma afirmou que no dia da bomba estava embaixo do chão, nos esgotos. Achei que ela estava querendo me enrolar, desviar minha atenção para que eu não lhe desse umas chineladas. Senão, vejamos, desde o início... O dia amanheceu e eu fiquei na cama até mais tarde, já que era um dia de sábado e eu não teria aula. Aproveitei para descansar da minha estafante rotina de menino de oito anos (e meio). Papai tinha saído para o trabalho e mamãe estava na cozinha, fazendo não sei o quê. De repente, mamãe deu um grito! Estava em perigo. Até então eu não sabia, mas a mamãe morria de medo de baratas. Sobrou para mim. Fui chamado urgentemente para uma missão que, para ela, era impossível: dar uma chinelada na barata. Eu que não sou muito corajoso (e que isso fique entre nós, em segredo), resolvi mostrar que era o homenzinho da casa, que, na ausência do papai, eu era o cara. Corri para o local do enfrentamento. Tendo em vista que a mamãe tinha saído da cozinha enquanto eu ficava cara a cara com a temível fera (no caso a barata, que, a propósito, era das grandes), aproveitei para visualizar o perímetro e as possíveis rotas de fuga, caso a chinelada não fosse certeira (certamente minha coragem era suficiente somente para uma chinelada e pernas-pra-que-te-quero). Cheguei o mais próximo que podia da dita cuja e preparei a chinela... Fui me aproximando... E...

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De repente, ouvi alguém dizendo “pare!” Olhei ao redor, podia ser a mamãe, com pena da barata. Podia ter desistido de me incumbir daquela difícil missão, o que me faria sentir mais aliviado, já que ela é que teria me impedido e não eu desistido e corrido com medo da barata, seria melhor para a minha reputação. Que nada, não era a mamãe, não tinha ninguém por perto. Devia ter me enganado... Então, voltei a encarar a barata para terminar o que tinha começado. Novamente escutei alguém falar: “Pare! Nem tente fazer isso!” Desta vez ouvi direitinho, estava prestando atenção. Para minha surpresa, descobri que a barata sabia falar. Não exatamente a “nossa” língua, talvez os adultos não fossem capazes de entender, mas eu, que até pouco tempo também não falava muito bem a linguagem dos adultos, conseguia, me esforçando muito, entender alguma coisa. Lembro que uma vez a mamãe contou que achava que eu não falaria direito, que até os três ou quatro anos eu tinha a língua presa e que era muito difícil entender o que eu tentava falar. Disse que apelou para todos os santos, me levou a um tal de fonoaudiólogo (eu não sabia o que era isso, mas achei a

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palavra bonita, até decorei como se escreve), também apelou para rezadeiras, semberebas e até chá-de-badalo. Ao que parece, algum desses “remédios” serviu. O fato é que também já falei línguas estranhas, que só eu entendia. Também já estava acostumado a tentar traduzir o que a minha irmãzinha, que ainda é bebê, fala com a mamãe todos os dias. A linguagem utilizada era meio estranha, talvez javanês ou baratês. Não sei que nome se daria àquela linguagem, mas não vem ao caso... Eu entendia (e pronto). Voltando ao que dizia a barata... Para começo de conversa, exigiu respeito, queria ser chamada de dona Barata. Arriscou até me chamar de fedelho, mas eu nem sabia o que era isso, sua tática de intimidação3 não estava funcionando. Então ela resolveu apelar para a história da guerra... Contou que tinha superpoderes, por isso escapou da grande guerra. Falou que todas as baratas são assim (até para evitar que, futuramente, eu desse umas chineladas noutras baratas). Todas são resistentes e conseguem até escapar de uma tal radiação, que mata tudo que chega perto. No caso dela, também teria outros poderes, conseguiria até identificar o medo 3

Intimidação: ato de amedrontar, provocar receio ou temor.

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naqueles que ousavam lhe encarar. Para me convencer de que falava a verdade, arriscou dizer que percebia em mim uma sensação de asco4 e medo. Nem liguei para a tal da história de resistência à radiação (eu nem sabia o que era isso), mas quanto a identificar o medo dos outros, na hora achei muito estranho. Como é que essa barata sabia disso? Só porque as minhas pernas tremiam e porque eu mal conseguia segurar a chinela? Ou será porque eu mantinha uma certa distância dela? O fato é que não mentia de todo, eu realmente estava com um pouco de medo, afinal era a primeira vez que tentava dar uma chinelada num bicho. Tinha que ser logo numa barata? Por que não poderia ter sido no cachorrinho da vovó, que morre de medo de mim só porque eu lhe mordo o rabo? Ou, por que não podia ser no gato da mamãe (era capaz até de nem miar, aquele bicho preguiçoso)? Mas não, tinha que ser na barata. E logo essa que parecia tão esperta. Vai que tem mesmo esses benditos superpoderes... Mas, voltemos ao que interessa. Alguém tinha de fazer o trabalho sujo (por que o papai não voltava logo para resolver esse problema? Com ele não teria conversa, a chinelada era certa). Tinha que ser eu... Enquanto não me decidia, a dona Barata resolveu dar uma de esperta e tentou correr no rumo da porta achando que eu ficaria quieto, com medo. Mas, se enganou. Eu a cerquei, antes que alcançasse a saída. Afinal, quem estava armado era eu: estava com a chinela. Ficamos novamente cara a cara... 4

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Asco: enjoo, náusea, repugnância.

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Francisco Hélio de Sousa é natural de Piripiri (PI).

Formado em Administração pela UnB, e pós-graduado em Gestão Pública e em Contabilidade Pública, é servidor público federal e autor de vários artigos científicos publicados. Nos últimos anos vem se dedicando a escrever contos infantis.

Francisco Hélio de Sousa Ilustrações

Karina Freitas

Karina Freitas tem um carinho especial por

estampas, tintas, livros e papéis. Coleciona canetas, gosta de viajar e procura sempre ambientes inspiradores para criar. É designer formada pela Universidade Federal de Pernambuco e trabalha com design editorial.

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A dona barata diz que foi à guerra