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Os dogmas do terror A atração dos intelectuais por sistemas explicativos completos, livres das armadilhas da ironia histórica e da volubilidade humana, torna-se uma obsessão na mente de terroristas Daniel Piza


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terror e a teoria sempre andaram juntos. Talvez, porque até o mais frio dos terroristas sabe que está fazendo o mal – ainda que para supostamente atingir o bem –, sente a necessidade de se armar não só de bombas, mas também de dogmas. Não é preciso fazer esforço para lembrar o caso de Unabomber, ou Theodore Kaczynski, um matemático, formado em Harvard e Michigan, que construiu todo um aparato ideológico para justificar seus atentados – basicamente, o de que a sociedade tecnológica oprime a expressão dos instintos individuais, deixando como única opção de resistência o ato revolucionário. O principal credo político de Unabomber era o de que reformas são sempre insuficientes: apenas as revoluções valeriam a pena. A atração dos intelectuais por sistemas explicativos completos, livres das armadilhas da ironia histórica e da volubilidade humana, se torna uma obsessão na mente de terroristas, uma obsessão tão mais ilimitada quanto mais ele se considerar vítima da sociedade, como uma criança que não aceita as decepções e decide salvar o mundo. Examine a mente de qualquer terrorista e você verá alguém com profundas dificuldades de se relacionar socialmente e amorosamente e que, por isso, culpa o universo e não a si mesmo. Não que em cada intelectual durma um Unabomber, embora gente como Gore Vidal elogie um Timothy McVeigh, mas certamente em cada Unabomber dorme um intelectual. Alguns dos melhores ficcionistas enxergaram o fato. Joseph Conrad – de quem Kaczynski, de origem polonesa, parecia perfeitamente um personagem – mostrou em O Agente Secreto, por exemplo, que o grau de rejeição que o terrorista sente pelo mundo moderno, o qual constantemente provoca nossos instintos e testa nossas capacidades, é diretamente proporcional à sua dificuldade de se relacionar com esse mundo. Ou seja, o terrorista pode até mesmo enxergar com clareza muitos dos problemas da realidade atual que a maioria das pessoas não enxerga; e não é o sujeito frio, “inumano”, que

Foto: Corbis

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Foto: Mohammed Saber/Ag. Lusa/O Globo

O terrorismo se vale do inesperado e do incontrolável e usa o argumento de que não há saídas

Não que em cada intelectual durma um Unabomber, embora gente como Gore Vidal elogie um Timothy McVeigh, mas certamente em cada Unabomber dorme um intelectual

Continente novembro 2003

mata pessoas como se matasse mosquitos, como nos vilões de trejeitos sofisticados que Hollywood vem desfilando desde sempre (pense em Silêncio dos Inocentes, em que Anthony Hopkins é um refinado estudioso de Dante em Veneza), e sim um homem atormentado, incapaz de mascarar seu deslocamento social. “O terrorismo é a fúria dos literatos em último estágio”, escreveu o grande intelectual Burckhardt. Mas a esquizofrenia paranóide dos terroristas toma uma forma conhecida: a sensação de um outro tomando conta de si, o crescente, mas não linear, aprisionamento da consciência por uma idealização – por uma voz que seduz por sua promessa de auto-suficiência, como se o indivíduo pudesse se tornar bastante independente dos outros. Antes de Conrad, Dostoievski já descrevera isso em Os Possessos; ou melhor, em quase todos os seus livros um personagem tenta ir ao extremo da indiferença, a um ponto em que a sociedade não o afeta e, se a interação social se fizer necessária, será como instrumento. O narrador de Notas do Subterrâneo, por exemplo, persegue esse desligamento moral-afetivo como um Graal. No entanto, jamais o obtém. Camus também sempre se interessou por personagens que se apaixonam de tal forma pela solidão absoluta que, como em O Estrangeiro, já nem se importam com a morte da mãe. O ideal do exílio, da marginalidade e da invulnerabilidade é o tema central de Camus; novamente, porém, seus personagens jamais conseguem a vitória final da quietude, como em sua peça Os Justos, inspirada na história de um terrorista russo que não via barreiras morais para sua revolução. (Não é à toa, por sinal, que não existem terroristas mulheres. O vínculo afetivo da mulher com a vida não a deixa se iludir com esquemas salvacionistas, que reduzem seres humanos a peças abstratas.) Não é estranho, por tudo isso, que atentados terroristas como o de 11 de setembro, que derrubou as torres gêmeas do World Trade Center de Nova York, sejam tão tentadores para as


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justificações teóricas, para os exercícios intelectualóides. O “inimigo” é um poço sem fim de combustível para a paranóia: os EUA e sua política externa arrogante, unilateral, bradada com voz de pato por George Bush II. A “finalidade” seria alertar para a necessidade de ampliar a ajuda dos países ricos para os pobres. E as diversas reações – como Bush prometendo, em linguagem de John Wayne, pegar Osama vivo ou morto – pareceram comprovar o “ponto” dos terroristas. Afinal... e aí seguem as “razões”: o apoio americano a Israel faz desigual o conflito entre judeus e palestinos; os EUA só estão interessados em dinheiro (petróleo), como qualquer império a explorar suas colônias; a globalização, representada pelo centro comercial gigante no coração de Manhattan, empobrece os subdesenvolvidos etc., etc. Ou, na frase de Saddam Hussein à época (ainda sem saber que seria o alvo seguinte), “os EUA colheram o que semearam” – o que seria repetido por inúmeros intelectuais, de Susan Sontag a Stockhausen, de Robert Kurz a Oscar Niemeyer. Mas o que se esquece é que os terroristas não fizeram apenas uma espécie de “ato simbólico” para denunciar o neocolonialismo americano (até mesmo porque, como sabiam, só o fizeram ressurgir com mais força) ou o que intelectuais do ocidente chamam de “terror de Estado” (como se o governo americano fosse igualmente uma organização terrorista, e não apenas belicista ou unilateralista). Como é característico dos terroristas, islâmicos ou não, seus sonhos vão um pouco além: o que desagrada a eles é a própria civilização ocidental moderna, liberal, tecnológica e consumista – ela sim o Satã a combater, o Mal a expurgar do mundo, o lixo a exilar da história. Como Unabomber ou McVeigh, o que esses terroristas querem é uma revolução profunda e imediata, não essas intoleráveis discussões e licenciosidades da vida contemporânea, com suas TVs e suas mulheres diabólicas.

O Agente Secreto, de Conrad: rejeição pelo mundo moderno

Foto: Eric Miller/Reuters

Os Possessos, de Dostoievsky: consciência aprisionada

O matemático Theodore Kaczynski, o unabomber: aparato ideológico Continente novembro 2003


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Claro, pode-se acusar Bush de ser tão intolerante e maniqueísta quanto esses terroristas, ou Berlusconi por dizer que “a civilização cristã é superior à islâmica” (um pensamento em bloco, quase tão reducionista quanto o ódio fundamentalista ao Ocidente), mas Bush e Berlusconi não representam totalmente a cultura ocidental moderna, e sim uma vertente reacionária dela. Alguém talvez replique: mas a civilização islâmica também não é representada pela Al-Qaeda ou pelo partido de Saddam, o Baath. Sim, e essa é a questão central: não cair em generalizações grosseiras, em rotulações discriminatórias. Só que não se pode esquecer que boa parte das nações islâmicas, por misturarem Estado e religião e ainda não terem consolidado uma democracia pluralista de verdade, alimentam um caldo de cultura onde o fanatismo não é ingrediente exótico. Nem mesmo os Unabombers nascem fora de um contexto. A discussão mais complicada, e que incomodava particularmente Camus, é sobre os eventuais limites morais que uma guerra pode ou deve ter. Há um consenso de que vidas civis inocentes, em especial crianças e mulheres, devem ser poupadas. Ao mesmo tempo, há a Continente novembro 2003


Nova York, 11 de setembro: justificativa teórica está no “inimigo”

Foto: Hubert Michael Boesl/Ag. Lusa/O Globo

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observação de George Orwell: as guerras ceifam a fina flor da juventude masculina, o que já é o próprio horror. No entanto, enquanto a utopia de um mundo pacífico não deixar de ser isso, uma utopia, e enquanto existirem, sobretudo, crimes contra a humanidade praticados em determinados países, as guerras continuarão – e continuarão matando homens jovens, crianças inocentes etc. Assim, pode-se abrir um campo de justificativa moral para certa dose de violência, especialmente quando se trata de evitar uma violência ainda maior. Mesmo as guerras têm leis, têm limites. Já o terrorismo, que se vale do inesperado e do incontrolável, usa sempre o argumento de que “não há outra saída”. Quer, na verdade, jogar o mundo todo em seu beco moral. Mas há uma diferença entre adotar a violência como última alternativa e como única alternativa. Diferença pequena, mas fundamental. • Daniel Piza é jornalista e escritor. Continente novembro 2003

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Os dogmas do terror  

A atração dos intelectuais por sistemas explicativos completos, livres das armadilhas da ironia histórica e da volubilidade humana, torna-se...

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