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PERNAMBUCO, DEZEMBRO 2017

ENTREVISTA

Raimundo Carrero

Sobre os 70 anos de um criador literário obsessivo Prestes a lançar um novo livro, em que fala das memórias da sua infância e do começo da adolescência, Carrero reflete sobre algumas das ideias fundamentais de sua obra FOTO: DIVULGAÇÃO

Entrevista a Schneider Carpeggiani Em 2007, quando Raimundo Carrero completou 60 anos, passamos a trabalhar diariamente numa mesma redação. Juntos, criamos o Suplemento Pernambuco num momento bem especial da sua carreira: o escritor vivia um período de ascensão e de reconhecimento nacional de um legado literário sui generis, iniciado na década de 1970. Foi curioso acompanhar de perto o fascínio que ele tinha pelos seus personagens recém-criados, como era o caso de Matheus, protagonista do romance O amor não tem bons sentimentos. De tão obcecado por sua criação, em alguns momentos parecia que Carrero virava um pouco Matheus. O mesmo ocorreu com Minha alma é irmã de Deus, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura. Tinha vezes que ele

Quando se fala da sua produção, inclusive na academia, temas como sexo, religião e loucura sempre são lembrados. São a partir deles que sua obra costuma ser estudada. Mas talvez seja preciso ter um olhar político para sua produção. Você começou a escrever no auge da ditadura e obras como Maçã agreste trazem esse tema, ainda que não frontalmente, mesmo que o romance não costume ser lembrado como um romance político. Você se considera um autor atravessado pela política de forma deliberada? Se sim, em que termos isso acontece?

quase chorava ao lembrar a vida trágica da personagem Camila. Dez anos depois, Carrero mantém a obsessão por sua obra intacta. Nem mesmo o AVC que sofreu há alguns anos, que o levou a um doloroso processo de recuperação, estremeceu a relação canina que mantém com sua literatura. Escreve todos os dias. Sob quaisquer condições. Não acredita em inspiração, apenas em trabalho árduo e num Deus que o faz se benzer cada vez que entra numa sala. Para marcar os seus 70 anos,decidi lhe enviar por e-mail uma série de perguntas. Tentei fazer Carrero falar sobre o Brasil tumultuado de hoje, sobre sua relação com a militância, sobre suas obras esquecidas e, vejam só!, consegui arrancar uma derradeira confissão sua: qual mesmo é o grande tema do homem que nos ensinou que o amor nem sempre tem bons sentimentos?

Você tem razão, acontece que a crítica literária brasileira só conhece minha obra pela metade, porque só me tornei um autor reconhecido nacionalmente a partir de Somos pedras que se consomem, que em 1995 chegou à finalíssima do Prêmio Jabuti e ganhou os prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional. Por isso o livro foi muito resenhado, criticado, analisado, e meu nome começou a ter destaque. Quando isso aconteceu, já escrevia há duas décadas. O romance Maçã agreste faz uma longa reflexão sobre o sexo no Brasil. Mas tem, também, uma grave preocupação com o social e com os fatores políticos que estavam se desencadeando. A temática sexual sempre chama mais a atenção pelo que tem de belo e de sedutor, mas é inacreditável como os estudiosos não costumam questionar o sexo a partir de uma manifestação política, embora isso tenha acontecido frequentemente nos textos que escrevo. Se o sexo for analisado, por exemplo, como uma manifestação de quebra da moralidade cretina e social e dos padrões de domínio sociopolítico, é perfeitamente possível questionar minha obra nessa direção. Muda-se o enfoque e, portanto, muda-se a reflexão. Basta isso.

Quando de uma homenagem para seus 70 anos, neste ano, na programação do Sesc durante a última Flip, notei em vários momentos da sua fala uma questão

Pernambuco 142  

Suplemento Literário do Estado. Edição 142, dezembro de 2017.

Pernambuco 142  

Suplemento Literário do Estado. Edição 142, dezembro de 2017.

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