Page 7

7

PERNAMBUCO, DEZEMBRO 2017

HALLINA BELTRÃO

dades, analisar as relações entre sujeitos, tempo e espaço, padrões e dissidências de masculinidades e feminilidades, entre consensos e dissensos, afetos, morais, memórias, devires etc. * Tal Brasil, qual romance? Tomo emprestada a pergunta para salientar nossa cartografia de silêncios. Luiz Henrique Silva de Oliveira e Fabiane Cristine Rodrigues no dossiê Panorama editorial da literatura afro-brasileira através dos gêneros romance e conto contabilizam um total de 61 romances de autoria afro-brasileira publicados entre 1859 e 2016, somando 29 autores, entre os quais nove mulheres. As duas pontas temporais são compostas de narrativas de autoria feminina: a primazia pertence a Maria Firmina dos Reis, autora do precursor Úrsula (1859); o mais recente é Bará – na trilha do vento (2016), da escritora paulistana Miriam Alves, uma das fundadoras dos Cadernos Negros. Sobre o pequeno montante de obras, cabe pontuar que a árdua tarefa de mapear textualidades à margem do cânone é uma navegação que muitas vezes precisa reinventar as próprias bússolas, pois as camadas e camadas de silenciamento da história literária diante de tais produções ampliam o desafio de rastreá-las, o que acaba tornando qualquer lista definitiva somente até a conclusão da próxima pesquisa. Não obstante, tais dados, alinhados aos resultados de pesquisas da professora da UnB Regina Dalcastagnè – que salientam que quem fala no romance contemporâneo brasileiro, desde seus autores, narradores e personagens, são majoritariamente homens, brancos, heterosse-

“Para muitos pretos, a desalienação nascerá da recusa em aceitar a realidade como definitiva”, diz Frantz Fanon xuais, urbanos do eixo Rio/São Paulo – oferecem resposta límpida à pergunta acima. Romances de autoras negras brasileiras constituem um corpus de obras notavelmente reduzido. Maria Firmina dos Reis, centelha viva no século XIX, publicou Úrsula e, dentro dele, um modo novo de existência para o sujeito negro, ampliando o imaginário que até então existia socialmente. No prólogo de Úrsula, Firmina se dirige ao público leitor do século XIX solicitando que não despreze seu livro e o ampare “nos seus incertos e titubantes passos para assim dar alento à autora de seus dias, que talvez com essa proteção cultive mais o seu engenho, e venha a produzir cousa melhor,

ou quando menos sirva esse bom acolhimento de incentivo para outras” ... Eis a voz de uma autora negra que escreveu durante a escravidão se dirigindo para a seu próprio presente histórico e literário para requerer a presença de outras mulheres escrevendo. Um romance que se posta como matriz fundadora de uma enunciação negro-feminina no mesmo gesto em que anuncia o seu devir: recusa a invisibilização e projeta futuros em que não será voz única. Um futuro que demorou pra chegar. Depois de Firmina, levou quase um século para outro romance de autora negra ser publicado: Água funda (1946), da escritora paulistana Ruth Guimarães, cujas primeiras páginas dizem assim: “O engenho é do tempo da escravatura. Seu Pedro Gomes, o morador mais antigo do lugar, ainda se lembra quando o paiol, perto da casa-grande, era senzala. A casa-grande pode-se dizer que é de ontem. Tem pouco mais de 100 anos e ainda dura outros 100”. Depois de Água funda, em plena ditadura militar, a mineira Anajá Caetano, que se autonomeava romancista negra, lançou Negra Efigênia: paixão de senhor branco (1966), cujo enredo se passa durante a escravidão, curtocircuitando muitos de seus sentidos fixos. Se olharmos para o passado narrado assim, imaginem só os futuros que poderemos enxergar: “O Coronel percebeu que não poderia insistir. Ficou petrificado, sentido que os negros o envolveram subitamente num círculo estreito, encurralando-o. O medo dominara-o. Não tinha coragem de encarar os escravos. Furtava-se a olhá-los. Mediu as distâncias. Calculou todos os lances possíveis para a fuga, mas, na realidade, estava encurralado. Ficara num beco sem saída. O Coronel sentiu que a situação se agravara e o temor abatia-lhe o espírito. Ficara envolvido por meia dúzia de negros. Perdera completamente o domínio da situação”.

Pernambuco 142  

Suplemento Literário do Estado. Edição 142, dezembro de 2017.

Pernambuco 142  

Suplemento Literário do Estado. Edição 142, dezembro de 2017.

Advertisement