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PERNAMBUCO, DEZEMBRO 2017

HALLINA BELTRÃO

condição lhes subtraía a possibilidade de formular projetos de futuro. Kindred, Ponciá Vicêncio e Amada são romances que conjugam tempo, sujeito, experiência em uma espiral de (des)continuidades que se chocam, libertando os acontecimentos da vida de uma narrativa linear. São narrativas que se voltam para o tempo da escravidão, ressignificando o passado para que ele possa ser produtivo no presente, ou ainda, partindo do presente para construir tessituras que (re)configuram o passado. Essas obras, de uma maneira ou de outra, vertem o provérbio africano que diz “Exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje” – são ficções que não estão empenhadas em reviver o passado, mas antes em criar narrativas alternativas desde o próprio presente. Como disse Franz Fanon na conclusão de Peles negras, máscaras brancas: “Serão desalienados pretos e brancos que se recusarão a enclausurar-se na Torre substancializada do Passado. Por outro lado, para muitos outros pretos, a desalienação nascerá da recusa em aceitar a atualidade como definitiva”. Eis um princípio dilatado do Afrofuturismo. * Em 1981, a escritora Aline França publicou A mulher de Aleduma, um romance afrofuturista, quase uma década antes de Mark Dery oficialmente cunhar o termo Afrofuturismo em seu artigo Black to the Future, de 1993. Aleduma, um negro quase divino, gesta no planeta Ignun, onde reina a Deusa Salópia, uma população negra de pessoas nascidas com os pés

O Afrofuturismo abre espaço para que surjam histórias que reescrevem o passado ao imaginarem futuros para trás, à semelhança dos dele. Só com o passar das sucessivas gerações vivendo na Terra, os pés de seus descendentes se voltam para a frente. Nos passos do criador, ir para a frente ou voltar para trás é uma questão de perspectiva: “O velho Aleduma pisava com firmeza aquela areia de brancura infinita, deixando seus pés nela impressos. Alguém que observasse aquelas pegadas jamais imaginaria que a direção indicada pelos retratos daqueles pés não correspondesse à direção verdadeiramente seguida pelo velho”. O Afrofuturismo propõe exercícios criativos partejantes de histórias alternativas que recom-

põem o mundo imaginando futuros que, por serem concebidos, acabam realinhando o passado. São ficções especulativas que guardam contornos de uma epistemologia capaz de reescrever a história do passado para gerar um futuro humano viável. O primeiro texto literário comumente considerado afrofuturista é de autoria de W. E. B. Du Bois – escritor, sociólogo, historiador e ativista dos direitos civis, graduado em Harvard, onde se tornou o primeiro afro-americano a obter um doutorado. The Comet, publicado em 1920 na obra Darkwater, Voices from within the Veil, é uma narrativa distópica de Nova York do início do século XX, na qual um homem negro e uma mulher branca são os únicos sobreviventes de um veneno liberado pela passagem de um cometa pela Terra. O cometa gera um mundo pós-apocalíptico e, para permanecer existindo enquanto espécie, os dois são forçados a ultrapassar as fronteiras que os separam e a se enxergar como seres humanos. Um mundo gerado a partir de dois seres que precisam saber-se iguais para continuar existindo. Assim como no conto de Du Bois, Aline França também recria o casal fundador de uma nova humanidade. No romance da autora baiana, os dois primeiros negros chegaram à Terra depois de provarem estar preparados para tal, pois tiveram que vencer um desafio em Ignum, seu planeta original. “Eis o vosso novo lar, dai-lhe frutos e cuidai bem do vosso solo. O casal extasiado percorria com os olhos todos os cantos. Estavam nus e mostravam os seus órgãos genitais que, curiosamente, tinham formas bem diferentes. O pênis

Pernambuco 142  

Suplemento Literário do Estado. Edição 142, dezembro de 2017.

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