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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2016

JANIO SANTOS

Raimundo

CARRERO

Já em seu primeiro livro, o autor traz o tom denso que se tornaria a sua marca

Marco Polo

MERCADO EDITORIAL

ROMANCE

Quinto livro da paraibana Marília Arnaud, Liturgia do fim conta a história de um homem atormentado Uma estória de derrocadas. Essa é a vida de Inácio Boaventura, personagem principal do romance Liturgia do fim (Tordesilhas), da paraibana Marília Arnaud (foto). Não é um homem passivo, pelo contrário. Aos 18 anos rompe com a família após um episódio violento e deixa a cidade de interior onde nasceu para se desenvolver com autonomia na cidade grande. Mas, apesar das conquistas

(profissão, família), sente-se acossado pela insegurança, resultado de uma criação moralmente rígida e de uma figura paterna opressora. Termina largando tudo, novamente, dessa vez em direção à sua origem. Escrito em linguagem poética, o livro é o quinto da escritora, que antes se dedicou mais ao conto, com livros premiados pela Secretaria de Cultura e Universidade da Paraíba.

DIVULGAÇÃO

Estreia de Gilvan Lemos em nova edição

Autor de uma obra densa, o escritor pernambucano Gilvan Lemos sempre privilegiou o perfil psicológico dos personagens, que aparecem sempre envolvidos na atmosfera das histórias, cercadas de melancolia e aflição. Veja-se, por exemplo, seu romance de estreia, Noturno sem música —, que chega às livrarias em nova edição da Cepe justamente quando completa 60 anos de lançamento. Seu protagonista, Jonas, carrega o drama interior convivendo com personagens que, na maioria das vezes, não se dão conta de sua inquietação. Percebe-se logo nas primeiras palavras a atmosfera cinza de angústia e aflição, em que nada se afirma, mas que o leitor percebe perfeitamente: “Repus a xícara vazia sobre a mesa. Marta pediu licença e foi à cozinha, Raimundo acendeu o cigarro. O relógio da parede enchia a sala com seu tique-taque constante. Evitei o mostrador de números romanos (“Esse relógio pertenceu a meu avô”), mas o silêncio da noite, a pachorra de Raimundo e o gato que dormia enrodilhado na cadeira encheram-me de inquietude. E compreendi, constrangido, que devia me retirar. Esperei, no entanto, que Marta reaparecesse. Lá da cozinha chegava-nos o ruído

que ela fazia, ocupada em alguma coisa. Raimundo tinha as pálpebras pesadas, escorou o queixo com a mão. O cigarro despontava dos seus dedos, fugindo em espirais. Vasculhei a memória à procura de assunto para tirar Raimundo de sua sonolência. Meu coração batia apressado, impedindo-me de qualquer raciocínio. Voltei-me para o gato num interesse súbito e improfícuo. Raimundo não se mexeu do lugar. “Por que Marta demorava tanto? Receei partir na sua ausência. Raimundo já não se dominava. Seus cochilos eram cada vez mais longos.” Para apresentar essa atmosfera de melancolia e aflição, típica do adolescente tímido e apaixonado, o escritor nada diz. Apenas mostra a devastadora inquietação num parágrafo longo, para depois criar um novo parágrafo somente quando Jonas revela — semelhante a uma respiração — que Marta demora. Então, o leitor percebe a causa de tanta inquietação. A imensa qualidade do texto está justamente neste jogo de sutilizas: Jonas angustiado, com a respiração presa, a observar os movimentos da casa de silêncio perturbado pelo tique-taque do relógio e pelos movimentos de Marta na cozinha.

Pernambuco 127  

Suplemento Literário do Estado, edição 127, setembro de 2016

Pernambuco 127  

Suplemento Literário do Estado, edição 127, setembro de 2016

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