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Aníbal Parodi Rebella, Fernando Martínez Nespral, Ignacio Ros de Olano, Ruth Verde Zein, Rafael E.J. Iglesias, Juan Lázara & Mario Sabugo, Roberto Fernández e Marcelo Corti DESIGN GRÁFICO

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Donn S.A. – editora da revista Summa+ – é responsável exclusivamente pelas assinaturas que se realizam com Donn S.A.

DIREITOS AUTORAIS

Publicado na Argentina Nº 948468. Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião da revista. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida sem autorização de DONN S.A.

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Capa: Edificio Cruz del Sur. Luis Izquierdo e Antonia Lehmann Foto: Cristóbal Palma

NO PRÓXIMO NÚMERO. SUMMA+ 140. JANEIRO 2015 ESPECIAL CASAS. Angelo Bucci, Wiel Arets, Johnston Mark Lee, Brasil Arquitetura, Nido Lab RELATÓRIO - Clássicas modernas remodeladas. Marcel Breuer por Lacroze - Miguens - Prati; Vilanova Artigas por Marcos Bertoldi; e Rafael Viñoly por Silberfaden & Wolter


editorial

UMA NOVA OBJETUALIDADE

por fernando diez

O avanço de uma nova objetualidade pode ser atribuído a seu

exteriores para produzir uma superfície totalmente contínua. Estes

efeito icônico e à maneira como este incrementa as qualidades

invólucros de vidro produziram também prismas lisos, que pareciam

comunicacionais do edifício, enquanto o apresenta como uma imagem

ser de apenas uma peça, como os edifícios United Nations Plaza em

única. No atual contexto de rapidez comunicacional, é a simplicidade

Nova Iorque, de Roche e Dinkeloo (1969-1975), ou o Pacific Design

e a simultânea raridade de uma forma o que a torna mais efetiva.

Center em Los Angeles (1975), que projetou César Pelli. A identidade

Mesmo que a objetualização da arquitetura torne-se visível em uma

do edifício não descansava já tanto no tratamento da superfície,

série de manifestações recentes, é um caminho que começou a ser

como no tratamento do volume.

percorrido tempos atrás. Não se trata apenas da manifesta vocação

Do mesmo modo que o curtain wall tornou-se uma textura capaz de

que o edifício urbano moderno mostrou por se separar de seus

conferir unidade, os sistemas estruturais podem ter uma capacidade

vizinhos até se converter em um edifício de perímetro livre, isolado.

semelhante. Assim o refletiam as Torres Gêmeas de Yamasaki,

Trata-se de que os edifícios contemporâneos (se não todos, muitos)

estrutura e curtain wall ao mesmo tempo. Uma ambiguidade

crescentemente buscaram estabelecer uma diferença radical com seus

semelhante é oferecida pela estrutura periférica da torre de Izquierdo

vizinhos e, ainda mais, com os precedentes conhecidos. É a busca

e Lehman em Santiago, enquanto a estrutura é invólucro e matriz de

de uma identidade baseada já não na variação, como havia acontecido

uma forma singular.

nas tradições passadas, inclusive a moderna, senão exclusivamente na

Não somente a torre é por natureza um edifício-objeto, também

diferença.

os edifícios baixos que contêm um grande recinto principal o são.

Os arranha-céus Art-Déco de Manhattan ainda pertenciam ao sistema

A unanimidade entre forma e estrutura é neles oportunidade para

da variação. Ocupando quarteirões inteiros ou grande parte deles,

uma identidade eminentemente objetual. Assim foi entendido por

separavam-se naturalmente de seus vizinhos para se constituir em

Oscar Niemeyer na Catedral de Brasília, a Oca de São Paulo, o Museu

verdadeiros marcos urbanos, como o Chanin ou o Chrysler, ao mesmo

de Caracas e em tantos edifícios de planta central, com os quais

tempo de perímetro livre e solidários com o espaço urbano. No impulso

explorou quase todas as formas elementares, convertendo-os

pela diferenciação, em troca, a objetualização do edifício descansa

virtualmente em objetos. A unidade estrutural das cascas de concreto

principalmente no unitário de sua forma. Persegue-se a dissolução

coincide com a unidade do próprio edifício. Não existem partes,

dos elementos componentes no todo e a exaltação das qualidades

somente totalidade. Já não se trata unicamente da aparência objetual,

volumétricas. As partes construtivas de que, por seu grande tamanho,

senão que a própria concepção e fabricação do edifício obedecem

necessariamente os edifícios estão feitos, dissimulam-se até se

à lógica do objeto. Com o tempo, chegamos a ver edifícios estendidos

assimilar a superfícies, faces neutras de um todo. A unidade do edifício

que utilizaram esse mesmo conceito. O Rolex Center de SANAA em

é, então, literal, não descansa na coerência ou articulação entre suas

Lausanne é uma lâmina perfurada e dobrada, como tivesse sido feita

partes, mas em carecer de partes. Em se apresentar como uma só

com uma massa de pastelaria. Os engenheiros de construções foram

massa monolítica, como se fosse talhada de uma única pedra. Efeito

aqueles que tiveram que resolver a cocção – a cura, neste caso – de

que naturalmente desafia a lógica da escala, assimilando o aspecto

uma estrutura de concreto de uma só peça de um metro de espessura

de grandes edifícios à forma unitária dos objetos manuseáveis,

e centenas de metros de extensão. Uma vez finalizada a fundição,

onde a unidade de forma e material pode ser totalmente recíproca.

que foi realizada dia e noite sem parar, a unidade do edifício é literal,

A nova objetualidade é também a culminação de um processo de

trata-se de um objeto gigantesco de uma só peça.

crescente abstração que percorre a arte e a arquitetura modernas

Multiplicadas uma e outra vez, no século XXI as formas mais simples

no século XX. Se este processo começou afetando os “elementos”

esgotaram já sua singularidade. Em busca de uma forma distintiva,

da arquitetura clássica, fazendo desaparecer os capitéis e outros

a nova objetualidade explora outras fronteiras. Essa busca faz-se

aspectos das colunas até as converter em perfeitos cilindros,

complementar do interesse pelos sistemas de controle paramétrico.

uma segunda fase consistiu na abstração, não já de seus elementos

Com sua ajuda, explora complexas formas inéditas que, portanto,

constitutivos, mas dos próprios volumes edificados. O curtain wall

podem investir de identidade e diferença os últimos exercícios

foi um instrumento deste processo porque, mediante a repetição

de isolamento e autonomia urbana. Trabalho tanto mais difícil

seriada, transformava em textura as partes individuais de que estava

em um contexto no qual a variedade dos edifícios-objeto aumenta

composto. Ao se aplicar indistintamente sobre qualquer das faces

geometricamente. Já sabemos que, em um contexto onde tudo é

dos corpos prismáticos regulares dos edifícios dos anos 60 e 70,

diferente, finalmente tudo se vê igual. Pois a diferença é uma função

contribuiu para que fossem percebidos como formas unitárias de

da regularidade e da homogeneidade do fundo. A inflação da diferença

uma nova e radical autonomia. Na distância, o curtain wall foi apenas

começa a fazer com que reconsideremos a sutileza e complexidade

a textura dos grandes arranha-céus do SOM. Porém, nas últimas

da variação como recurso de caracterização. A nova objetualidade

décadas do século XX, o curtain wall evoluiu para uma textura muito

possivelmente já atingiu um ponto de inflexão enquanto o objeto

mais uniforme e neutra, enquanto foi possível prescindir dos perfis

irrepetível requer um esforço cada vez maior.

summa+139

1


Torres

6  PILHA DE BLOCOS   Edificio 360°   Isay Weinfeld Este “Jenga” de escala comparável à de São Paulo introduz grandes volumes de vazios em todas as unidades de apartamentos. A proporção de cheios e vazios cria porosidade no empilhamento e ao mesmo tempo consegue singularidade na forma resultante.

14  LÓGICA de ponta-cabeça   Edifício Cruz del Sur   Luis Izquierdo e Antonia Lehmann

Este prisma piramidal invertido adquire sua forma icônica modificando a lógica do empilhamento e a estabilidade estrutural.

22  OPOSTOS COMPLEMENTARES   Torres Porta Fira   Toyo Ito & Associates, Architects + Fermín Vázquez Arquitectos-B720

139 OBJETUALIDADE Torres TriangulaçÕes Círculos Follies

Estas torres são complementarmente gêmeas: a forma exterior é uma metáfora arborescente da torre-hotel que se corresponde com a forma interior simbolicamente orgânica do núcleo de serviços da torre de escritórios.

30  TRANÇA DUPLA   Torres Absolutas (Absolute Towers)   Mad Architects

Nestas torres “quase gêmeas”, a torção acontece em diferentes níveis, como se uma tivesse começado a girar antes que a outra, incorporando a ideia de tempo de rotação. Triangulações

40  CAIXA DE LUZ   Galería Lygia Pape   Rizoma

Um cubo sofre uma rotação na parte superior, fragmenta o edifício e, assim, descobre a instalação “Ttéia” da artista Lygia Pape, em seu interior.

48  ORIGAMI DE AUSÊNCIA   Capela do Entardecer   Bnkr Arquitectura

Com o propósito de lamentar a morte, um volume retangular triangula-se, gerando, assim, uma “rocha” que se apoia no terreno sobre uma de suas arestas.

52  FRAGMENTOS DE CRIAÇÃO   Torre Estudio   Saunders Architecture

Uma pequena torre contém o recinto criativo de um artista. A partir de uma rotação na planta consegue-se um volume irregular quebrado, inclinado para frente e para trás enquanto que se retorce para cima. Círculos

58  METÁFORA CIRCULAR   Memorial da Imigração Japonesa no Brasil   Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho

Uma sala de meditação cilíndrica eleva-se sobre um espelho d’água . Lá nascem pontes que representam a união de dois povos.

64  CURVA ABERTA   Adega Finca Áurea   Busnelli Arquitectura

Um círculo recortado em um campo semeado que parece infinito abriga dois edifícios circulares (um em construção e o outro finalizado).

70  CÍRCULOS ESPACIAIS   Ksevt: Centro Cultural de Tecnologias Espaciais Europeias   Bevk Perovic arhitekti, Dekleva Gregoric arhitekti, OFIS arhitekti, Sadar Vuga arhitekti

Vários círculos sucessivos se extrudem sem um centro comum. Os cilindros resultantes, por sua vez, também se inclinam.

76  ANÉIS DESLOCADOS   Centro Cultural do Distrito Akiha   Chiaki Arai Urban And Architecture Design

Círculos deformados contrapõem-se a um entorno de lados retos. Círculos sucessivos extrudem-se em diferentes alturas e se inclinam gerando terraços.

44  FOLHAS DE REFLEXÃO   Church(ita)   Supersudaka

Em um lote pequeno e irregular, um volume retangular é submetido a uma torção única para o tornar um objeto facetado de superfícies triangulares.

14 22

Follies

84  LÂMINAS QUE MULTIPLICAM   Breath Box   Nas Architecture

30


Um pequeno mirante na costa tem painéis de espelho que conformam uma de suas faces e geram múltiplos reflexos da paisagem e de seus próprios visitantes.

40

48

88  BARRAS QUE SE ENCAIXAM   Pavilhão para a Feira das Culturas   Productora

No Zócalo da Cidade do México, um pavilhão de madeira convoca a formar parte de uma experiência museográfica relacionada com as migrações a essa urbe.

52

92  PELE QUE CONVOCA   Percurso de visitas da fábrica de chocolates Nestlé   Metro Arquitetos Associados

As duas torres de vidro de cor vermelha que conformam o percurso de visitas de uma fábrica de chocolates em São Paulo transformam o circuito das pessoas que se aproximam do lugar em um museu e conseguem ser um ponto de referência na paisagem.

96  CUBOS QUE conTÊM   O Observatório   Atelier 56S + Daniel Concha

58

Localizado em uma área natural protegida na França, este edifício, que se esconde entre as árvores, pode ser um lugar de armazenagem, um refúgio, um observatório. As superfícies que conformam seu volume geram reflexos da natureza permitindo que o edifício se dilua nela.

100  Brinquedos, brincadeiras, cores e coisas Entrevista com Paul Preissner

70

Por Paula De Falco

108  Edifícios e objetos Por: Aníbal Parodi Rebella

FRAGMENTOS

116  Projetos: UM AUTÊNTICO CÂMPUS   Novo campus da Universidade Germano-Vietnamita (VGU)   Machado & Silvetti Por Inés Molinari

118  Notícias 120  Leituras.  Ejitaaaaliano… Por: Fernando Martínez Nespral

84

121  Cadernos de viagem.  La Boca do Riachuelo em papel Texto e desenho por Ignacio Ros de Olano

122  INSINUAÇÕES.  Museu dos outros Por Ruth Verde Zein

124  DISQUISIÇÕES.  A luz e a sombra Por Rafael E.J. Iglesia

126  REVELAÇÕES.  As igrejas-tendas dos Massa Lynch Por Juan Lázara & Mario Sabugo

127  TEXTURAS.  Arquitetura Neutra Por Roberto Fernández

128  POST SCRIPTUM.  Peter Hall percorre Buenos Aires POR MARCELO CORTI

88

96


Objetualidade  | Torres

SILHUETAS ESCULTURAIS por: martín di peco

Isay Weinfeld, Edifício 360º, São Paulo, Brasil, 2013 Imagem baseada na foto de Fernando Guerra

4

Luiz Izquierdo e Antonia Lehmann, Edifício Cruz del Sur, Santiago, Chile, 2009 Imagem baseada na foto de Cristóbal Palma

O que pode dar mais valor a um ambiente do que uma escultura?

único, assim como um corpo moldado. Da mesma forma, quando

No contexto urbano atual, em que a demanda por edifícios-ícones

mudamos de escala e os observamos em maiores detalhes, surgem

não parou de crescer, é cada vez mais difícil diferenciar uma referência

operações formais, ajustes construtivos e configurações espaciais

da outra. Sobressair-se com contornos especiais implica juntar em

complexas. O prisma piramidal invertido de Izquierdo-Lehmann

uma mesma figura todo o conteúdo de uma obra: uma quantidade

na cidade de Santiago de Chile sustenta sua vocação de referência ao

enorme de volumes com funções altamente díspares, construídos com

inverter a lógica da estabilidade estrutural. O senso comum exigiria

tecnologia e técnicas diversas. Apesar de saber que a arquitetura está

uma base maior com seu peso nos andares mais baixos. Apesar

configurada em módulos (não somente construtivos ou estruturais,

disso, a rentabilidade do metro quadrado que a estação do metrô

mas também de composição), estes edifícios devem deixar a

proporciona indica que os andares superiores são os mais valorizados.

identificação de tais fragmentos para poder ser observados como

O edifício Cruz del Sur justifica seu esforço estrutural para alcançar

um único objeto. Assim como Alan Colquhoun afirma, “a efetividade

um maior aproveitamento econômico do projeto através de uma

das figuras reside no seu poder sintético” (Oppositions Nº12, 1978,

concepção que atribui um valor referencial à obra. A estrutura combina

IAUS), esta forma de aglutinação deve ser de fácil reconhecimento,

um tronco central que recebe os núcleos de serviço com uma rede

quase sedutora ou que pelo menos chame a atenção e intriga.

de hastes exterior que se expande conforme os andares vão subindo.

Estes edifícios parecem, à primeira vista, feitos misteriosamente

Isso permite que a planta esteja livre de pilares, o que é significativo

de uma só peça, talhados como um objeto, criados como uma

para o aproveitamento do subsolo e a otimização do estacionamento.

escultura. Foram construídos como se definitivamente amalgamassem

Os volumes vazios da torre de Isay Weinfeld, em São Paulo, remetem

o conjunto de partes que os compõem para se tornarem um volume

a um jogo de blocos e introduzem espaços que permitem os

summa+139


MAD Arquitects, Torres Absolutas, Mississauga, Toronto, Canadá, 2012 Imagem baseada na foto de Iwan Baan

Toyo Ito & Associates, Arquitects + Fermín Vázquez Arquitectos-B720, Torres Porta Fira, L’Hospitalet de Llobregat, Barcelona, Espanha, 2010 Imagem baseada na foto de Roland Halbe

apartamentos terem um quintal independente do andar em que estão

As torres Porta Fira de Toyo Ito e Fermín Vázquez, na Espanha, devem

localizados. Como é muito custoso levantar cada um dos metros

dar identidade ao novo setor em desenvolvimento de L’Hospitalet

cúbicos construídos, as torres costumam ser elaboradas de forma

em Barcelona. Essas torres completam-se como se fossem gêmeas.

compacta e uniforme, além de obter o máximo de área construída

A forma exterior como a metáfora de uma árvore que há na torre

possível. Por isso, o que é raro de se ver nos empreendimentos

do hotel se corresponde à forma interior simbólica do núcleo

residenciais ou comerciais é uma boa oferta de espaços semiabertos.

orgânico que há no edifício comercial. Tal complemento se faz

Por meio da proporção generosa de cheios e vazios, cria-se uma

presente na fachada do edifício de escritórios já que o núcleo não

torre porosa e a singularidade da forma resultante. Isso se amplifica

está totalmente em seu interior e sua forma se manifesta ao exterior.

com o espelho d’água em sua base que duplica a imagem do edifício

A não ser por esses detalhes, o edifício comercial é “regularmente

por meio de seu reflexo.

prismático”, enquanto o seu gêmeo não idêntico é “irregularmente

Já as Torres Absolutas dos arquitetos MAD, do Canadá, conseguem

orgânico”.

adquirir seu nível de referência ao “contorcer” dois cilindros.

Grandes projetos demandam um grande nível de viabilidade. Na sua

Com a ideia de serem duas torres gêmeas, o contorcionismo se dá

maior parte, todas estas torres cumprem o papel de alcançar uma

em diversos níveis, como se uma tivesse começado a girar antes

forma única, mas também de dar lugar ao desenvolvimento do

que a outra. Tal desenho acrescenta dinamismo à composição e

interior das obras, colocando em conjunto conceitos arquitetônicos

incorpora a ideia de tempo de rotação. Para ressaltar tal recurso,

diversos. Apesar disso, todos estes detalhes meticulosos poderão

as sacadas estão desenhadas como se fossem uma fita contínua e

passar despercebidos àqueles que as observam superficialmente.

sem interrupções em toda a fachada.

No final das contas o que ficará será somente as silhuetas esculturais.

summa+139

5


PILHA DE BLOCOS ISAY WEINFELD | EDIFICIO 360°

6

summa+139

fotos: fernando guerra

TORRES  | Brasil


ISAY WEINFELD EDIFICIO 360° Colaboradores: Domingos Pascali e Marcelo Alvarenga Coordenador do projeto: Elena Scarabotolo Equipe de projeto: Gabriel Bicudo e Manoel Maia Localização: São Paulo, Brasil Área: 15.898,77 m² Ano: 2013 http://isayweinfeld.com

O Edifício 360º foi construído em São Paulo,

pois são projetados como espaçosas

a maior cidade do Brasil, onde atualmente há

e iluminadas áreas de vida. Apresentam-se

mais de dez milhões de pessoas vivendo

também sete modelos diferentes de

em uma área de 1.525 km . Nessa realidade,

apartamento, com 130, 160, 250 ou 415 metros

o “normal” é que se viva mal, amontoados uns

quadrados. Eles são combinados em grupos

sobre os outros, passando diversas horas no

de três ou quatro unidades por andar em seis

trânsito entre a casa e o trabalho e outros

arranjos distintos.

compromissos, seja de carro, de ônibus ou

Ao sair à rua, um pouco mais adiante da

de metrô. O tempo que as pessoas possuem

recepção, há uma passarela suspensa que

para o ócio é raro e há poucas opções para

nos leva à entrada do edifício, margeada

atividade ao ar livre.

por um espelho d’água. Um andar mais abaixo,

Conscientes de qual é realidade da cidade de

no térreo, estão as área de lazer e serviços,

São Paulo, do mercado imobiliário local e do

como academia, salão de festas, lavanderia

nosso cliente, nós pretendemos introduzir

e área do zelador. Já no subsolo, encontram-se

com o Edifício 360º uma alternativa ao modelo

três níveis de estacionamentos, e no nível

típico de moradia multifamiliar vertical que,

mais inferior há depósitos e salas de máquinas,

na sua forma mais comum, simplesmente

além da piscina, na parte externa, e os

empilha unidades de apartamentos compactas

vestiários. Devido ao terreno ser bastante

e fechadas. O Edifício 360º está erigido sobre

íngreme, os andares inferiores são somente

o espigão que separa o bairro de Alto de

semi-enterrados, o que mantém a circulação

Pinheiros e o de Alto da Lapa e oferece uma

de ar e luz o tempo todo.

vista privilegiada da região e do resto da cidade.

Acima do nível da rua, o edifício apresenta

Nele encontram-se 62 “casas verticais

quatro fachadas distintas, o que leva a não

completas com quintal”. Sua concepção é de

diferenciar entre face principal das secundárias.

quintais verdadeiros e não apenas varandas,

do memorial do autor

2

Corte AA

8

summa+139

foto: fernando guerra

TORRES  | Brasil


summa+139

9


fotos: fernando guerra Planta do 4Âş subsolo

Planta do tĂŠrreo

10

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1. Entrada principal 2. Passarela 3. Lobby 4. Espelho d’água 5. Hall 6. Academia 7. Terraço 8. Salão de festas 9. Lavanderia de comunitária 10. Sala de estar 11. Área do zelador 12. Jardim 13. Pátio de brinquedos 14. Salão de jogos 15. Caixas d’água 16. Sala de máquinas 17. Área de empregados 18. Sauna 19. Deck 20. Piscina

Planta primeiro andar

summa+139

11


12

fotos: fernando guerra

TORRES  | Brasil

Planta das coberturas

Mezanino das coberturas

Planta tipo A

Planta tipo A1

Planta tipo B

Planta tipo B1

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Planta tipo C


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13


Lógica de ponta-cabeça LUIS IZQUIERDO e ANTONIA LEHMANN | EDIFICIO CRUZ DEL SUR

14

summa+139

fotos: cristóbal palma

TORRES  | Chile


O projeto é composto por uma torre de

tentamos combinar de forma sintética a análise

b) Reduzir o ângulo de apoio diagonal

escritórios com um centro comercial localizado

da gravidade do conjunto com a condição da

que permite suportar a série de lajes

no cruzamento da avenida Apoquindo, o eixo

perspectiva da percepção do espaço, no qual

sobrepostas.

principal de Santiago, e a avenida Américo

ambos são determinantes para a experiência

c) Aumentar a área vendável nos andares

Vespucio, que funciona como um anel viário

arquitetônica.

superiores, onde os preços são mais elevados;

da cidade. O terreno está próximo a uma das

Nossa primeira decisão do projeto foi deixar

d) Criar um ponto de referência arquitetônica

entradas da estação Escuela Militar do metrô

o térreo o mais livre possível de forma que o

bem no eixo da avenida Apoquindo.

que concentra o maior volume de passageiros de

interior do terreno se tornasse uma extensão

Por outro lado, ao deixar a estrutura do edifício

todo o sistema. Para sua construção, unificamos

do espaço público. Isso tornou-se possível ao

resumida ao eixo das colunas e as colunas

cinco lotes dos quais fizemos toda a gestão

aterrar grande parte da área comercial

do perímetro externo, os andares ficam livres de

de compra. Em sua maior parte, apresenta uma

programada e colocando o resto das lojas ao

pilares interiores. As janelas do piso ao teto

forma quadrada que se abre em três frentes

fundo do terreno. Além disso, percebemos

foram colocadas em posição vertical a 90 cm

paras as ruas do entorno. Com tal localização,

que era possível estruturar a torre para que

do limite da laje, o que proporciona a sombra de

a torre funciona como um complemento visual à

somente o eixo das colunas verticais tocasse

um beiral contínuo, e entre uma trama de pilares

concentração de escritórios da região.

o solo ao considerar a proporção da altura e a

que deixam a estrutura mais evidente vista

As torres são mais bem vistas por baixo. O triunfo

base do edifício e o fato de que o mesmo está

desde o exterior do conjunto. Essa configuração

da estrutura sobre a gravidade se faz mais

centrado em plantas quadradas, o que evitaria

combinada com o uso de vidros serigrafados

evidente quanto mais nos aproximamos do

tensões produzidas por forças sísmicas na

e diferentes películas refletivas que variam

conjunto que se eleva até que o mesmo

estrutura. Por outro lado, ao ter a fundação

com a necessidade térmica e de luminosidade

desaparece da visão. A percepção das

centrada em suas colunas verticais outras

de cada fachada, acabou por proporcionar uma

dimensões muda com a sensação de perigo,

estruturas se tornam dispensáveis e é possível

economia de energia de aproximadamente vinte

assim como em uma situação de vertigem.

melhorar a distribuição dos estacionamentos.

e cinco por cento em comparação a edifícios

O formato em trapézio das fachadas e a malha

Assim, obtivemos um ótimo rendimento de vinte

similares da mesma região.

de colunas de aguda verticalidade que apoiam

metros quadrados por vaga.

O custo final da construção resultou ser menor

os cantos das lajes buscam realçar a condição

A redução do volume da base na altura do

do que estimado e em comparação com outros

básica da arquitetura como formadora de

quarto andar é compensada pela ampliação

edifícios da mesma categoria. Acreditamos

objetos imóveis, estáticos. O entendimento de

crescente dos andares superiores a fim de

que a economia que o projeto alcança mostra

uma ordem ortogonal da forma irregular acaba

manter a superfície total edificada.

sua engenhosidade e purifica o discurso

por induzir o observador a equivocar-se com

Isso permite:

arquitetônico. Afinal, a eficiência com que

relação à sensação de verticalidade e isso varia

a) Diminuir a área de sombra da base suspendida

os meios se ajustam é a condição infalível

de acordo com o ponto de vista com o qual a

da torre, o que melhora a proporção do espaço

da beleza.

pessoa se aproxima do edifício. Neste projeto

exterior.

do memorial dos autores

Planta de acesso (térreo)

16

summa+139

fotos: cristóbal palma

TORRES  | Chile


summa+139

17


fotos: cristóbal palma

TORRES  | Chile

Planta cuarto andar

Planta primeiro subsolo

O entendimento de uma ordem ortogonal da forma irregular acaba por induzir o observador a equivocar-se com relação à sensação de verticalidade e isso varia de acordo com o ponto de vista com o qual a pessoa se aproxima do edifício.

18

summa+139


summa+139

19


LUIS IZQUIERDO E ANTONIA LEHMANN EDIFICIO CRUZ DEL SUR Arquiteto colaborador: Juan Hurtado Cliente: Paz Corp Projeto estrutural: Santolaya Ingenieros Consultores Construção: Echeverría Izquierdo Orçamento: US$ 472 m2 ou UF 12,27 m2 Localização: Avenida Apoquindo 4501, Santiago de Chile, Chile Área do terreno: 3.987 m2 Área construída: 43.129 m2 Anos de projeto: 2006-2007 Anos de construção: 2008-2009 http://www.izquierdolehmann.com/

Corte por halles

01 02 03 62.1 x 3 cm

0,03

04 05 06 07 08 09 0,05

11

0,02

10 13

12

EJE COLUMNA 0,25 0,25 0,5 0,13

0,12

0,25

14 15 16 17

0,08

0,06

29

+10.268m

22 23 24 25 26 27 28

0,21

0,6

0,04

0,04

61.1 x 3 cm

18 19 20 21

33 0,48

0,16

30 31

0,06

+9.896m

34

Detalhamento construtivo

20

summa+139

32

0

0,05

0,15

0,25

01. Granito cinza sardo pulido e = 30 mm 02. Argamassa 03. Impermeabilização 04. Chumbador com jaqueta de aço HKB 3/8 x 3 1/2” 05. Sapata de alumínio 76,2 x 76,2 x 6,35 móvel 06. Baker rod pe c. cel diâmetro 25 mm 07. Selante de silicone estrutural módulo médio cor preta 08. Viga am 05 09. Sleeve de alumínio entre módulos L: 75 mm MLF 10. BC 02 material PVC flexível dureza 65 más/menos 5 shores de cor preta 11. Perfil de aluminio 20 x 30 x 2 12. Termopanel CR 1 Evergreen 6 mm 13. Cantería cortagotas 14. Piso de granito 15. Camada de impermeabilização 16. Argamassa 17. Calha 6 x 6 mm 18. Drenagem 5 x 30 mm 19. Silhar AM 01 20. Sapata de alumínio 76,2 x 76,2 x 6,35 fixo 21. Perfil de aluminio 20 x 20 x 2 mm 22. BC01 Material: PVC flexível dureza 65 más/menos 5 shores cor preta 23. Isolamento de lã mineral, densidade 80 kgs/m3 24. Foil 25. Zócalo eléctrico 26. Chumbador de aço para fixação de sapata 3/8 x 3” hex. 27. Selante de silicone 28. Chumbador com jaqueta de aço ou similar 3/8 x 3 1/2” 29. Peça de concreto armado aparente 30. Cola epóxi 31. Molde com HDPE Duratec 32. Eixo de coluna inclinado 33. Viga de laje 34. Calha 2 x 2 cm

fotos: cristóbal palma

TORRES  | Chile


summa+139

21


OPOSTOS COMPLEMENTARES TOYO ITO & ASSOCIATES, ARCHITECTS + FERMÍN VÁZQUEZ ARQUITECTOS-B720 | TORRES PORTA FIRA

22

summa+139

fotos: roland halbe

TORRES  | Espanha


TOYO ITO & ASSOCIATES, ARCHITECTS + FERMÍN VÁZQUEZ ARQUITECTOS-B720 TORRES PORTA FIRA Equipe de projeto Toyo Ito & Associates: Toyo Ito, Takeo Higashi, Atsushi Ito, Wataru Fujie, Keisuke Sawamura, Shûichi Kobari, Florian Busch*, Andrew Barrie*

Localizadas na Plaza de Europa, duas torres

se contrastam por suas formas, há harmonia e

���gêmeas não idênticas” fazem parte do

complementaridade entre as duas.

projeto de recuperação da área urbana de

A capacidade do hotel é 350 quartos e em sua

L’Hospitalet, cidade próxima a Barcelona.

área do térreo há, além do hall de entrada,

O local está a apenas oito quilômetros do

um restaurante e um salão de eventos que serve

(* ex-funcionários)

aeroporto internacional El Prat, a caminho da

como espaço para conferências, exposições e

Colaboradores externos de Toyo Ito & Associates: Kenichi Shinozaki, Usted Hama Equipe de projeto de Fermín Vázquez-b720: Fermín Vázquez, Alexa Plasencia*, Cristina Algás, Ana Caffaro*, Laia Isern, Peco Mulet, Pietro Peyron*, Andrea Rodríguez*, Gaëlle Lauxerrois, Magdalena Ostornol*, Mirko Usai*

metrópole. Devido a essa condição, o projeto

banquetes. Na área do mezanino há pequenas

também está inserido na ampliação da Sede

salas de reunião e outras salas de conferências

Barcelona Gran Via Fair e serve como porta de

que podem ser subdivididas em quatro espaços

entrada dos visitantes da feira. No térreo das

menores por meio de divisórias móveis.

duas vigorosas torres vermelhas, o hall de

O edifício comercial conta com 22 andares de

(* ex-funcionários)

entrada que projetamos estende-se por

escritórios, dois andares de lojas e um lobby

Área construída total do hotel: 34.688,10 m2 Área construída da torre comercial: 45.419,59 m2 Anos do projeto: 2004-2006 Anos de construção: 2006-2010 Localização: Plaça Europa 45-47 (Hotel), 41-43 (Edifício Comercial), 08908 L’Hospitalet de Llobregat, Barcelona, España

uma superfície de 240 mil m2 e conecta-se à

de entrada no térreo. Um movimento vertical

passagem de circulação contínua, o Eixo

é orientado desde o hall de entrada até o

Central.

último andar por meio de formas orgânicas

O conjunto é constituído por três partes:

em vermelho que podem ser vistas na fachada.

um hotel, um edifício comercial (ambos com

Dependendo do nível em que estamos é

aproximadamente 110 m de altura) e uma base

possível ver o Mont Juic e a costa do mar

com terraço e jardim que conecta as duas

Mediterrâneo quando saímos dos elevadores.

torres. O hotel possui uma fachada curva 3D

Da mesma forma, a partir dos andares de

de tubos de chapa de alumínio, formando uma

escritórios, que podem ser divididos em quatro

trama vermelha. O volume expande-se e

grande espaços, desfruta-se a vista panorâmica

contorciona-se gradualmente à medida que

das ruas e montanhas de Barcelona.

o edifício se eleva. As grandes suítes do

O metrô da cidade foi recentemente inaugurado

hotel estão localizadas nessa parte superior.

e conecta os principais pontos de recuperação

A torre comercial, por outro lado, possui um

urbana que está sendo promovida. Enquanto

núcleo “líquido” vermelho dentro de uma

isso, outros edifícios de grande e médio porte

“caixa” de cristal transparente. Como o núcleo

estão em construção na mesma área. As Torres

funciona como um conector entre os dois lados

Porta Fira chamam a atenção como o novo ponto

da torre, é possível ver seu corte pelo lado de

de referência de Barcelona e L’Hospitalet.

fora do edifício. Apesar de que as duas torres

do memorial dos autores

http://www.toyo-ito.co.jp/ http://b720.com/es

Implantação

24

summa+139

fotos: roland halbe

TORRES  | Espanha


summa+139

25


Planta do 23º andar do hotel

fotos: roland halbe

TORRES  | Espanha

Planta 14º a la 22º andar do edifício comercial

Térreo 1. Hall de entrada do Hotel /  2. Lobby de recepção /  3. Bar /  4. Restaurante /  5. Lounge /  6. Salão de eventos /  7. Hall de entrada do Edifício Comercial /  8. Lojas

26

summa+139


summa+139

27


Corte

28

summa+139 fotos: roland halbe


01

02

03

01 02 04

05

03

06

Detalhamento na planta (apartamentos de janela - Hotel)

01

07

09

08

10

04 05 06 07 08 09

06

04

11

12 10

Detalhamento na planta (área interna – Hotel) 1. Tubo de alumínio diâmetro 110 mm / e = 1,7 mm / 2. Tubo de alumínio recortado com tampa de PVC / 3. Estrutura de tubo recortado. Chapa de aço e = 12 mm / 4. Painel sanduíche e = 35 mm / 5. Esquadria da janela em alumínio e = 2 mm / 6. Sistema de paineis. Caixilhos de alumínio / 7. Junta dos tubos de alumínio / 8. Chapa de aço e = 12 mm / 9. Parapeito de alumínio / 10. Divisória anti-incêndio / 11. Divisória em gesso. Acabamento de parede vinílico

Detalhamento em corte (Edificio Hotel)

11

1. Luz indireta fluorescente /  2. Placa de gesso com pintura acrílica /   3. Cortinas /  4. Pedra natural ou piso com textura de madeira /   5. Estrutura de tubo recortado. Chapa de aço e = 12 mm /  6. Estrutura de chapa de aço e = 12 mm /  7. Junta de tubo de alumínio /  8. Divisória anti-incêndio /  9. Tubo de alumínio diâmetro = 110 mm / e = 1,7 mm. Pintura de resina com acabamento metálico /  10. Painel sanduíche e = 35 mm /  11. Amortecedor de vibrações

summa+139

29


TRANÇA DUPLA MAD ARCHITECTS | TORRES ABSOLUTAS (ABSOLUTE TOWERS)

30

summa+139

fotos: iwan baan

TORRES  | Canadá


MAD ARCHITECTS TORRES ABSOLUTAS (ABSOLUTE TOWERS) Diretores: Ma Yansong, Yosuke Hayano, Dang Qun Equipe de projeto: Shen junio, Robert Groessinger, Florian Pucher, Yi Wenzhen, Hao Yi, Yao Mengyao, Zhao Fan, Liu Yuan, Zhao Wei, Li Kunjuan, Yu Kui, Max Lonnqvist, Eric Spencer Arquitetos associados: BURKA Arquitectos INC. Engenheiro estrutural: Sigmund, Soudack & Associates INC. Engenheiro mecânico: ECE Group Localização: Mississauga, Toronto, Canadá Área Torre A: 45.000 m2, 56 andares / 170 m de altura Área Torre B: 40.000 m2, 50 andares / 150 m de altura Ano: 2012 http://www.i-mad.com/

Implementação

32

summa+139

O modernismo possui um famoso lema: “Uma

bem à importância de estar localizado no

casa é uma máquina de viver”. Mas, enquanto

cruzamento de duas ruas principais, elevando

a era das máquinas fica cada vez mais distante,

sua condição de referência e atuando como

algumas perguntas começam a aparecer.

um portal para a entrada da cidade. Fez-se algo

Qual deve ser a mensagem que a arquitetura

humano, escultural e lindo.

quer transmitir? Como devemos conceber as

Mesmo com o objetivo de construir uma

moradias do nosso tempo?

referência para a cidade, a altura do conjunto

Assim como outros subúrbios que tiveram rápido

não foi a maior preocupação em sua concepção.

crescimento na América do Norte, Mississauga

Nosso projeto inclui uma sacada que circunda

está à procura de uma nova identidade. Tal busca

todo o edifício, eliminando as barreiras verticais

torna-se uma oportunidade para responder às

que tradicionalmente são usadas na arquitetura

necessidades de uma cidade em expansão,

de torres. O edifício inteiro gira sobre o próprio

de criar um ponto de referência que proporcione

eixo, dando uma visão total da paisagem ao

uma conexão emocional de seus habitantes

redor. O objetivo é oferecer vistas de 360o

com seu ambiente.

em cada uma das unidades residenciais para

No lugar da lógica simples e funcional do

que seus moradores possam estar em contato

modernismo, o nosso projeto expressa as

com os elementos naturais e voltar a apreciar

necessidades da sociedade contemporânea,

sua beleza.

que está cada vez mais complexa e

Os moradores de Mississauga apelidaram o

diversificada. Este edifício é muito mais do

edifício de “Marilyn Monroe”.

que uma máquina funcional: ele corresponde

do memorial dos autores

fotos: iwan baan

TORRES  | Canadá


summa+139

33


Plantas

34

summa+139

fotos: iwan baan

TORRES  | Canadá


summa+139

35


fotos: iwan baan Planta do apartamento padr達o

36

summa+139


Top of Parapet

175.550 m

157.850 m

149.450 157.850

175.550

Top of Parapet

8.400 m

8.400

3rd Floor

Ground Floor

18.875

Ground Floor

Parking -18.875 m Level 6

0

10

20

Corte

summa+139

37


OBJETOS NÃO TÃO RETANGULARES

por: constanza llorente

­Em geometria, denomina-se “prisma regular” ao corpo que possui duas bases paralelas de polígonos regulares, sendo as mais comuns os quadrados e os triângulos, e tantas faces retangulares como lados tenham as bases. Em escultura, talhando um volume geométrico simples pode-se obter um objeto irregular mais complexo. A “triangulação” é um dos métodos utilizados em topografia para descrever em planos o relevo de um terreno. Os quatro casos desta seção vinculam técnicas topográficas e

diagramas por constanza llorente baseados na documentação da obras

Objetualidade  | Triangulações

operações formais para obter uma forma singular a partir de um prisma regular. A operação é similar nos quatro casos: uma extrusão seletiva de sua base geométrica mediante diferentes operações, transformando o sólido num objeto mais irregular e complexo, ainda que geométrico. A obra encomendada a Saunders Architecture é uma pequena torre que contém o recinto criativo de um artista, seu lugar de trabalho num remoto sítio no Canadá. A partir de uma rotação de 180 graus da planta superior com respeito à inferior se alcança um volume irregular quebrado, inclinado para a frente e para trás enquanto se retorce para cima. Sua condição escultural se acentua mediante o uso de tábuas pretas verticais que revestem as faces exteriores, e que a distância nos dão a impressão de um volume cego. A Capela do Entardecer, encarregada ao ateliê BNKR com o delicado propósito de lamentar a morte dos seres queridos, imita formalmente as pedras existentes no rochoso terreno das montanhas de Acapulco, México. Um volume retangular deforma-se e triangula-se gerando, desta maneira, esta escultural “rocha” que se apoia no terreno sobre uma das suas arestas. Church-ita, uma capela no bairro Villa La Paz, no Chile, é o encargo que recebem Juan Pablo Corvalán e Gabriel Vergara, autores que assinam com o nome do coletivo Supersudaka. No lote pequeno e irregular, um volume retangular é submetido a uma torsão única para convertê-lo num objeto facetado de faces triangulares. Seu revestimento, irregular e rústico, alcança aparentar o edifício com as condições do bairro. A galeria Lygia Pape, encomendada ao estúdio Rizzoma, trabalha sobre um cubo cujas medidas (21 x 21 x 6 m) estavam prédeterminadas pela obra de luz “Ttéia”, da artista brasileira Lygia Pape, que devia alojar-se em seu interior. Para conseguir que o edifício tivesse as mesmas características que a obra que acomoda, a parte superior do cubo sofre uma rotação para que sua volumetria, originalmente regular, simule uma rocha cinzenta sobre o terreno, contrastando com seu entorno selvático. Neste grupo de obras utilizam-se operações formais que, mediante a geometria do triângulo como principal ferramenta de desenho, produzem edifícios facetados de modo a conseguir uma forma escultórica e a fazer-nos ver o edifício como um objeto. Estes procedimentos têm como propósito e resultado produzir objetos extraordinários que contrastam com o entorno no qual se encontram.

38

SAUNDERS ARCHITECTURE – Tower studio. Fogo Island, Canadá


BNKR ARQUITECTURA – Capela do Entardecer. Acapulco, México

SUPERSUDAKA – Church(ita). Villa la Paz, Chile

RIZOMA – Galeria Lygia Pape. Inhotim, Brasil

summa+139

39


fotos: leonardo finotti

TRIANGULAÇÕES  | Brasil

CAIXA DE LUZ RIZOMA | GALERIA Lygia Pape

Arquitetos: Maria Paz, Thomaz Regatos Equipe de projeto: Virginia Paz, Inácio Luis and Sara Fagundes Iluminação: La Lampe Localização: Inhotim, Brumadinho, MG, Brasil Área total construída: 441 m² Anos: 2010-2011 www.cargocollective.com/rizomaarq

Planta entorno

40

summa+139

A Galeria Lygia Pape foi projetada logo após o

para descobrir a obra gradualmente. O edifício

pedido da equipe de curadoria de Inhotim de ter

devia ter as mesmas características – algo que

um edifício para abrigar a instalação “Ttéia”, da

se logrou – no seu exterior mediante a rotação

artista brasileira Lygia Pape. Para esta instalação,

da parte superior do cubo. No seu interior, a

era necessário que o edifício cumprisse com uma

triangulação da fachada pode ser percebida na

série de requisitos. As dimensões da galeria

circulação que leva o visitante até a sala

foram pré-estabelecidas pelo tamanho da

principal. Esta é escura e tortuosa, causando

instalação: um cubo de 21 x 21 x 6 m que devia

desorientação e criando as condições ideais

ser, além disso, hermeticamente fechado e

para uma experiência introspectiva. Neste

escuro, já que “Ttéia” é uma obra de luz.

trajeto, a percepção espacial muda do visual ao

A instalação carece de uma direção rígida,

sensorial e aproxima o indivíduo à arquitetura.

o que convida o visitante a circular em torno

da memória dos autores

0

1

3

5


summa+139

41


0

1

3

5

fotos: leonardo finotti

Cortes e vistas

42

summa+139


summa+139

43


fotos: susuka

TRIANGULAÇÕES  | Chile

FOLHAS DE REFLEXÃO SUPERSUDAKA | Church(ita)

Arquitetos: Juan Pablo Corvalán e Gabriel Vergara / Supersudaka Equipe de projeto: Pablo Sepúlveda, Jaime Pavez Engenheiros: Cesar Moreira / Sigma Ingenieros Localização: Villa la Paz, Talca, Chile Orçamento: US$ 60.000 Área total construída: 200 m² Anos: 2006-2009 www.projects.susuka.cl

1. Banheiros 2. Sala 3. Sala de usos múltiplos 4. Biblioteca 5. Depósito 6. Sala A 7. Sala de reuniões 8. Sala de catequese 9. Biblioteca existente 10. Comedor 11. Serviços 12. Acesso 13. Capela 14. Altar 15. Sacristia

Em bairros difíceis, uma capela é mais do que

praça coberta que um edifício: um sinal de

um lugar de culto. Ampara um programa social.

otimismo em condições severas, uma luz de

Agrega-se, neste caso, que o orçamento

esperança na escuridão…

destinado é muito baixo (55.000 euros para

Considerando que pedras (e outros objetos) são

uma capela de 200 m2) e que o lote é muito

lançadas constantemente, um acabamento em

pequeno e irregular.

revestimento de mosaico foi proposto como

Três propostas evoluíram para um volume de

uma envolvente “pré-quebrada”: econômica e

torsão única que evita uma fachada frontal e

fácil de reparar, e que, ao mesmo tempo, faz

outra traseira, como também entra em sintonia

referência a uma técnica religiosa milenária.

com a geometria reinante, propondo mais uma

memória dos autores

7 5

6

5

8

4 8

3 9

1 A

13

14

15

A

10

12 2

11

1

Planta 0

44

summa+139

0

1

3

5

5


summa+139

45


fotos: susuka Corte

46

summa+139

0

0

1

2

2


summa+139

47


fotos: jaime navarro

TRIANGULAÇÕES  | México

ORIGAMI DE AUSÊNCIA BNKR ARQUITECTURA | Capela do Entardecer

Estúdio: BNKR Arquitectura Arquitetos: Esteban Suárez (sócio fundador) e Sebastián Suárez Equipe de projeto: Mario Gottfried, Rodrigo Gil, Roberto Ampudia, Javier González, Óscar Flores e David Sánchez Colaboradores: Jorge Arteaga e Zaida Montañana Localização: Acapulco, Guerrero, México Áres total construída: 120 m² Ano: 2011 www.bunkerarquitectura.com

Recebemos a proposta e encomenda da

bloqueava a vista principal do entardecer. Para

Capela do Entardecer com o delicado propósito

evitar tais obstruções (fazer voar essa

de lamentar a morte dos entes queridos.

gigantesca rocha era completamente impensável

As instruções do cliente eram muito simples,

por razões éticas, espirituais, ambientais e, sim,

quase ingênuas: em primeiro lugar, a capela

também econômicas), o nível da capela devia

devia aproveitar ao máximo as vistas

elevar-se a pelo menos cinco metros. Posto que

espetaculares; em segundo lugar, o sol devia

apenas vegetação exótica e pitoresca rodeia

pôr-se exatamente atrás da cruz do altar

esse oásis virgem, esforçamo-nos para causar o

(o que só é possível duas vezes por ano,

menor impacto possível no terreno, reduzindo

nos equinócios); e, em último lugar, mas não

o desplante da capela a menos da metade da

menos importante, devia incluir uma seção

planta do nível superior.

com a primeira fase das criptas no exterior,

As colinas de Acapulco estão formadas por

em volta da capela. Em linguagem metafórica,

enormes rochas de granito, umas por cima de

o mausoléu devia estar em perfeita sincronia

outras. Num esforço mimético, lutamos por

utópica com o ciclo celeste de renovação

fazer com que a capela se virasse como “outra”

contínua.

rocha colossal que jaze na cúspide desta pilha

Dois elementos obstruíam as vistas

de pedregulhos: a capela como um rochedo

predominantes: grandes árvores, abundante

culminando a montanha.

vegetação e um monumento megalítico que

da memória dos autores

03

03

Planta de acesso

48

summa+139

0

1

3

5

03

03

Planta alta


summa+139

49


fotos: jaime navarro

1. Bancadas 2. テ》rio 1.95

1 2

Corte longitudinal

Cargas geomテゥtricas em verdadeira forma e magnitude

50

summa+139

0

1

3

5


foto: esteban suรกrez

summa+139

51


fotos: bent rené synnevaag

TRIANGULAÇÕES  | Canadá

FRAGMENTOS DE CRIAÇÃO SAUNDERS ARCHITECTURE | TORRE ESTUDIO

Equipe: Attila Béres, Ryan Jørgensen, Ken BeheimSchwarzbach, Nick Herder, Rubén Sáez López, Soizic Bernard, Colin Hertberger, Christina Mayer, Olivier Bourgeois, Pål Storsveen Localização: Shoal Bay, Fogo Island, Newfoundland, Canadá Área total construída: 50 m2 Ano: 2011 www.saunders.no

1. Acesso 2. Kitchenette 3. Banheiro 4. Estúdio 5. Galeria 6. Vazio

A Torre Estudio é um dos seis estúdios xpara

está equipado com uma pequena cozinha,

artistas e escritores localizados sobre uma série

um banheiro e uma lareira a lenha de madeira.

de sítios remotos dispersos pela Ilha de Fogo,

No segundo nível encontra-se o estúdio,

Canadá. A escultural silhueta do estúdio,

iluminado naturalmente por uma generosa

implantada num tramo de costa rochosa na baía

claraboia inclinada apontando a norte. Um

de Shoal, inclina-se para frente e para trás

entrepiso penetra-se no volume de duplo

enquanto que se retorce para cima. Esta torre

pé-direito do estúdio ao qual se acede por

escura e preta sem janelas costuma gerar no

uma estreita escada (também pintada de

visitante a inquietude de: “Que é isso?”.

branco) que conduz ao terraço da açoteia

À medida que uma pessoa vai se aproximando

onde se pode disfrutar da vista do mar e o

do estúdio pode ver que a área de entrada,

terreno rochoso.

orientada a sul, está retraída. Em cima, uma

Para além da complexidade geométrica

seção triangular da parede inclina-se 30º para a

do espaço, a segunda característica que se

frente para acomodar a porta de acesso de

soma a uma sensação de desorientação é

vidro. Ambas as caras encontram-se recobertas

a eliminação dos detalhes arquitetônicos

com tábuas horizontais pintadas de branco,

e o facto de todas as superfícies verticais,

alcançando um grande contraste com o resto do

horizontais e inclinadas, vestidas com

exterior cego de tábuas negras verticais.

contra-chapado liso, estarem pintadas de

A Torre Estudio compõe-se por três níveis

um branco brilhante.

com uma altura total de 9,75 m. O piso térreo

da memória dos autores

6

1

4

5

2 3

Piso térreo

52

summa+139

0

1

2

Segundo piso

Terceiro piso (entrepiso)


summa+139

53


fotos: bent renĂŠ synnevaag Fachada sul

Fachada norte Corte

0

0

54

summa+139

1

1m

3

5

5


summa+139

55


OBJETUALIDADE  | Círculos

OPERAÇ ES CÍCLICAS

por: valeria matayoshi

Memorial da Imigração, Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho

Bodega Finca Áurea, Roberto Busnelli

56

As formas mais comuns em arquitetura são os polígonos, não só

o distingue claramente da paisagem e condiciona outros aspectos

porque se referem a formas ideais, mas porque são mais fáceis de

funcionais. A resposta simbólica ou metafórica é a representação

resolver com a tecnologia industrial da qual dispomos. No entanto,

de uma ideia através da forma. O Panteão romano, entre outros

existem outras formas puras e ideais: os círculos. Estas figuras

templos religiosos, ou a biblioteca de Asplund, representa a ideia de

tão pregnantes parecem anteceder à resolução programática e

unidade ou comunhão.

arquitetônica nas decisões do projeto.

O memorial da imigração japonesa de Gustavo Penna e Mariza

A eleição do círculo por parte do arquiteto pode ser uma resposta

Machado Coelho simboliza a união entre duas culturas. A bodega

funcional, formal, estrutural ou simbólica. A resposta funcional

Finca Áurea propõe uma resposta formal e deixa uma marca clara

pode resultar de uma necessidade, como nos anfiteatros romanos

na paisagem ininterrupta das plantações: um círculo onde se inserem

ou estádios esportivos, onde todos os espectadores estão

os dois edifícios. No Centro Cultural de Tecnologias Espaciais da

separados por uma distância similar da parte central. A resposta

Europa, de quatro estúdios eslovenos, o círculo da planta provém

formal através dos círculos, assim como sua expressão deformada

de uma metáfora: alude à primeira base aeroespacial pensada por

em três dimensões, a helicoide, pode surgir do desejo de emular a

Noordung. No Centro Cultural de Chiaki Arai predomina a resposta

natureza como carapaças de caracóis, flores, troncos, frutos; ou de

formal. Um círculo que alcança recordar o caráter do lugar: um antigo

um desejo de diferenciação do entorno imediato. O mesmo pode

campo de beisebol.

verificar-se no caso do Guggenheim de Nova Iorque, onde a forma

O círculo, pela sua própria morfologia, impõe uma nova configuração

summa+139


desenhos por valeria matayoshi baseados na documentação dos autores

Centro Cultural de Tecnologias Espaciais Europeias, Bevk Perovic, Dekleva Gregoric, OFIS, Sadar Vuga

Centro Cultural do Distrito Akiha, Chiaki Arai, Ryoichi Yoshizaki, Tomonori Niimi, Akira Sogo

em relação ao entorno e se destaca tanto pela sua forma como

inclina a cinta perimetral e repete o motivo circular em vazios

pela sua cor. Nestes edifícios, contudo, o círculo não se mantém

interiores.

como uma figura pura em planta senão que sofre operações no espaço

A relação entre os espaços interiores e a circunferência pode seguir a

que se podem deduzir: equidistância, extrusão, subtração,

mesma lógica circular – subdividindo-se ou conservando sua unidade.

deslocamento, inclinação. Esta nova e mais complexa configuração

Pode também organizar-se alheia à circunferência exterior, gerando

que parte do círculo confere ainda mais identidade à forma resultante

um tema a resolver ao chegar ao borde. No caso do Memorial, o espaço

na paisagem.

central é único e também circular. Na bodega, uma galeria com forma

Do espaço central do Memorial surgem duas fitas curvas,

de aro rodeia um pátio circular. Pode-se ingressar ao anel e percorrê-lo

parecendo-se a pontes que enlaçam o edifício com a paisagem.

sem aparente final. Em contrapartida, no Centro Cultural de

A Bodega Finca Áurea de Busnelli Arquitectura joga com o tema

Tecnologias Espaciais existem anéis circulares não concêntricos

circular também no entorno: apresenta um vazio central num

que ajudam a configurar as divisões entre locais. No caso do Centro

campo com vegetação. Aí incorpora outros dois círculos de

Cultural, é uma combinação de ambas lógicas.

diferentes alturas que serão as volumetrias dos edifícios e subtrai

O círculo como figura pura e ideal propõe jogar com ideais como a

um círculo-pátio gerando um anel-galeria. O Centro Cultural de

unidade simbólica, o cíclico, o infinito. Edifícios claramente delimitados

Chiaki Arai se extrai desde o terreno com forma helicoidal e desloca

e que se distinguem da sua envolvente. Edifícios que em si mesmo

os centros desde onde estes círculos se geram. O Centro Espacial

não têm vértices nem esquinas. Edifícios sem princípio nem fim.

summa+139

57


METÁFORA CIRCULAR Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho | MEMORIAL DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL

58

Arquitetos: Gustavo Penna e Mariza Machado Coelho Concepção Artística: Paulo Pederneiras Equipe de Arquitetura: Arquiteto Ricardo Gomes Lopes, Arquiteto Norberto Bambozzi, Arquiteta Laura Resende Penna de Castro, Arquiteta Letícia Carneiro, Arquiteta Priscila Dias de Araújo Localização: Parque Ecológico Promotor José Lins do Rego – Pampulha – Belo Horizonte Minas Gerais – Brasil Área construída: 500,00 m² Data do projeto: 2007 Data de conclusão da obra: 2009

O museu a céu aberto celebra a amizade

Celebrando o Japão e Minas, foram ainda

entre o Japão e o Estado de Minas Gerais e

dispostas, a cada lado, paredes curvas alusivas

o que essa relação foi capaz de construir

às duas bandeiras: o círculo e o triângulo

de concreto e imaterial.

vermelhos.

O projeto é uma ponte sobre um lago.

É uma feliz analogia que fala da síntese e

A ponte liga metaforicamente territórios,

concisão comum aos dois povos.

tempos, ideias e ideais.

Sobre esta parede estarão impressos em

O lago é como o mar entre as nações, e,

baixo relevo os nomes de japoneses e mineiros

também, aquele dos desafios, das conquistas,

que participaram da construção deste tempo

dos tempos vividos.

de solidariedade.

As ações e obras tornam-se visíveis por meio

A forma da ponte simétrica e com curvas que se

www.gustavopenna.com.br/

de datas marcantes que emergem à flor da

entrelaçam evoca, ao mesmo tempo, coesão,

água, e os espaços submersos representam as

movimento contínuo e interdependência, e gera

regiões do inconsciente do sentimento e da

um percurso museológico de recursos

memória.

multimídia e linguagem acessível para contar

O percurso parte do Japão simbólico plantado

histórias de abertura, grandeza e amizade.

de cerejeiras para a Minas dos ipês-brancos.

memória dos autores

summa+139

fotos: jomar bragança

CÍRCULOS  | Brasil


Os braços curvos da ponte unem-se num espaço central de 17,5 metros de diâmetro sobre o lago: a sala de meditação. Mesmo que parecer flutuar, tem uma distância entre os suportes de 30 metros. Esta área completamente vermelha representa a união cultural entre mineiros e japoneses com alguns poucos elementos: o fato de tirar sapatos fora para entrar (Japão) e do uso de almofadas inspiradas pela planta aquática “vitória Amazonica” (Minas Gerais).

summa+139

59


5 7

2

8

8 3

1 7 4

Planta

0

3 5

1. Jardim / 2. Arbustos / 3. Cerejeiras / 4. Painel com bandeira de Minas Gerais / 5. Painel com bandeira do Japão / 6. Espelho d’água / 7. Rampa-acesso público /  8. Sala vermelha de meditação

60

summa+139

10


CÍRCULOS  | Brasil

Corte

fotos: jomar bragança

Vista

Cortes-Elevações

0

3

5

10

summa+139

61


CÍRCULOS  | Brasil

0

3

5

10

Estrutura

62

summa+139


summa+139

63

fotos: jomar braganรงa


CÍRCULOS  | Argentina

CURVA ABERTA BUSNELLI ARQUITECTURA | BODEGA FINCA ÁUREA

Neste projeto, a natureza e a arquitetura

pedra e os distintos cultivos (cores) configuram

um simples sistema de grades reguláveis,

nascem juntas. Uvas e edifícios começam

a vista arquitetônica da construção. A vista

permitirão manobrar a ventilação passiva nas

ao mesmo tempo e com uma mesma filosofia:

do edifício é apenas uma linha (a cobertura)

distintas épocas do ano. Os terraplenos de

boas práticas de manipulação no uso do solo,

contra o horizonte, o terrapleno e os cultivos.

pedra contribuem para o arrefecimento da

livre de resíduos, traçável e sustentável.

O “edifício Oeste” conterá a bodega. Aí

massa de ar que circula por estes condutos

A filosofia da produção orgânica e biodinâmica

encontramos um centro coberto com meio nível

e evitam que os muros da fachada aqueçam.

impactará definitivamente nas características

enterrado, “o segundo pulmão” do projeto,

Ambos os projetos preveem aquecer a água

do vinho, nas condições arquitetônicas dos

os barris de roble que contêm o vinho. No resto

de consumo e de calefação mediante sistemas

edifícios e na qualidade de vida de todos

da planta encontramos os espaços de limpeza

solares.

os envolvidos neste projeto.

da uva, os tanques de concreto para o primeiro

Seguindo o desenho do yin e do yan, a represa

Dentro do “vórtex”, as duas circunferências

repouso do vinho e os escritórios do enólogo

recorrerá às duas edificações enquadrando-as

definem a “pisada” da arquitetura.

e da administração. No piso superior poderão

contra a Cordilheira e aumentando a umidade

O denominado “edifício Este” foi o

ser desenvolvidos um petit restaurante, uma

graças à ação dos ventos predominantes da

primeiro a construir-se e abriga a moradia

área de hospedagem e terraços com uma

zona.

do encarregado e as áreas de produção.

magnífica vista para a Cordilheira dos Andes.

O projeto constrói a vista dos vinhedos e

Aí encontramos um centro liberado a céu

A vista deste edifício será o terrapleno, a água

as montanhas. A vista é aumentada por

aberto, onde se realizarão as tarefas de

e um tamis de madeira e pedra que dialogará

memórias ou reflexos de um sitio que parece

dinamização, um dos “pulmões” do projeto.

com o horizonte.

maior. A arquitetura está intimamente

Uma galeria perimetral gera a fachada dos

Em ambos os edifícios se utilizarão muros com

vinculada à experiência do lugar.

distintos locais e funções. Os terraplenos de

câmaras de ar (muros Trombe) que, mediante

da memória dos autores

foto: mario toso

64

summa+139


foto: damian verzini e carolina dottori

BODEGA FINCA ÁUREA Produção de vinhos orgânicos e biodinâmicos Projeto e direção: Roberto R. Busnelli, arq. Colaboradores Buenos Aires: Florencia Forcinito, Lautaro Pereyra, Alejandra Curuchet, José María Santiago, Martín Nicolini, David López, arqs. Colaboradores Mendoza: Magdalena Toso, arq. Cálculo estrutural: AHF S.A., Alberto Fainstein, eng. Assessor bioclimático e solar: Sursolar S.A., Fabián Garreta, arq. Assessor instalações: Enrique Viola, arq. Assessor envolventes: Fernando Domenech Localização: Município de San Carlos, Luján de Cuyo, província de Mendoza, Argentina Área: 1.000 m2 Edifício Este Ano de projeto: 2010 Anos de construção: 2011-2012 Edifício Este

A

A

www.barquitectura.com.ar

0

10

20

Edifício Oeste - a construir-se

Edifício Este

Planta de tetos

summa+139

65


CÍRCULOS  | Argentina

7 6

5

2

9 10

9

4 1

8

1. Sala de tanques 2. Depósito reposições 3. Depósito ferramentas 4. Zona preparados 5. Oficina 6. Dormitório 7. Cozinha e lavadouro 8. Living 9. Dormitório 10. Garagem 11. Combustíveis 12. Acesso de serviço 13. Depósito 14. S.U.M. 15. Galinheiro 16. Curral

11

3

12 A

12

13

16

15

14

0

3

5

10

Piso térreo

foto: damian verzini y carolina dottori

66

summa+139


Edifício Oeste - a construir-se

Edifício Este

Corte Geral

Edifício Oeste - a construir-se

Edifício Este

Vistas

fotos: roberto busnelli

summa+139

67


CÍRCULOS  | Argentina

1

1. Gárgula 2. Ladrilho cerâmico 11 x 41 x 25 3. Vigota concreto pré-esforçado 4. Canas de bambu 5. Estrutura de madeira 6. Viga de H° de 100 x 30 7. Coluna tubo de ferro 8. Muro de tijolo maciço 30 x 15 x 5 com câmara de ar 9. H° Betonilha afagada 10. Contrapiso de H° de entulho 11. Viga de encadeamento de H° 12. Leito de pedras

2

3 4 5 6 7

8

9

10 11 12

0

68

summa+139

0,5

1

fotos: roberto busnelli

Detalhe A


1. Gárgula 2. Vigota concreto pré-esforçado 3. Canas de bambu 4. Estrutura de madeira 5. Tabique de H° 6. Coluna tubo de ferro 7. H° Betonilha afagada 8. Leito de pedras 9. Viga de encadeamento de H° 10. Contrapiso de H° pobre

1 2 3

4

5

6 7 8

9

10

Detalhe B 0

0,5

1

summa+139

69


CÍRCULOS ESPACIAIS Bevk Perovic arhitekti, Dekleva Gregoric arhitekti, OFIS arhitekti, Sadar Vuga arhitekti KSEVT: CENTRO CULTURAL DE TECNOLOGIAS ESPACIAIS EUROPEIAS

70

O Centro Cultural de Tecnologias Espaciais de

O edifício do Centro Cultural de Tecnologias

do outro lado dá uma conexão com seu entorno

Europa (KSEVT) está localizado em Vitanje,

Espaciais da Europa (KSEVT) é uma estrutura

imediato. As singularidades espaciais dão a

cidade da Eslovênia que foi o lar de Herman

de concreto monolítico, posicionada livremente

esta obra o efeito da gravidade artificial de

Potocˇnik Noordung, o primeiro teórico do

entre a estrada principal de um lado e um

flutuação e rotação.

espaço. Este centro terá uma importância

arroio com um interior verde no outro. O exterior

Além da especial localização e programa, a

pública e gerará atividades sociais, culturais

e o interior do edifício estão formados por dois

colaboração de quatro estúdios de arquitetura

e científicas, com exposições permanentes e

cilindros baixos. A parte inferior é maior e

no desenvolvimento do projeto também o

temporárias, conferências e atividades do

eleva-se de norte a sul, enquanto o cilindro

torna único. A ideia da colaboração surgiu

clube/estúdio.

superior é menor e une-se à maior no sul,

na primeira reunião, quando o investidor

O conceito de projeto deriva da roda habitável

ao mesmo tempo em que cresce para norte.

convidou quatro atelieres a competir por um

da primeira estação espacial geoestacionária

O cilindro inferior está suportado pela

projeto vencedor. Os diretores dos estúdios,

descrita em 1929 no livro de Noordung.

superfície transparente da entrada de cristal.

em contrapartida, preferiram fazer o projeto em

Depois de várias décadas de reflexões sobre

Desde o exterior, vê-se um efeito dinâmico

conjunto. A ideia surgiu a partir de uma série

como habitar o espaço, esta ideia continua sendo

entre os cilindros, que está acentuado por anéis

de ateliês; posteriormente, o projeto foi

a mais revolucionária ainda não realizada.

de vidro em torno de todo o edifício. Este parece

compartido em diferentes etapas de

Na roda giratória habitável, a construção circular

flutuar e girar em seus lados sul e oeste para a

desenvolvimento por todos os escritórios.

cria gravidade artificial com a força centrífuga.

estrada. A consolidação do edifício na superfície

da memória dos autores

summa+139

fotos: tomaz gregoric

CÍRCULOS  | Eslovênia


Implantação

summa+139

71


CÍRCULOS  | Eslovênia

7

5 4

6

14 2

1

13 11 10 6

4

0

Planta -3.55

3

5

10 6

12

3

10

Planta +0.00

fotos: miran kambic

1. Hall de entrada / 2. Hall de eventos / 3. Biblioteca / 4. Espaço de exposições / 5. Sala de áudio visual / 6. Armazenagem / 7. Saída de emergência em caso de incêndio / 8. Sala de club KSEVT  / 9. Espaço vazio por cima do espaço de eventos / 10. Sala de computação  / 11. Sala de ensaios / 12. Clubes da comunidade local / 13. Arquivo /  14. Sala técnica

72

summa+139


7 5

4

8 9

Planta +3.80

Fachada

0 1

5

10

15

summa+139

73


CÍRCULOS  | Eslovênia

SECTION A-A

KSEVT: CENTRO CULTURAL DE TECNOLOGIAS ESPACIAIS EUROPEIAS Oficinas de arquitetura (em ordem alfabética): Bevk Perovic arhitekti, Dekleva Gregoric arhitekti, OFIS arhitekti, Sadar Vuga arhitekti Equipe de projeto de Bevk Perovic: Matija Bevk, Vasa Perovic, Gerrit Neumann, Andreja Pikelj, Gonzalo Piqueras, Josef Kalcik Equipe de projeto de Dekleva Gregoric: Aljosa Dekleva, Tina Gregoric, Daniel Schwartz Equipe de projeto de OFIS architects: Rok Oman, Spela Videcnik, Andrej Gregoric, Janez Martincic, Christian Gheorghe, Rastislav Udzan, Kiki Marien, Janja Del Linz Equipe de projeto de Sadar+Vuga: Jurij Sadar, Bostjan Vuga, Vanja Gortnar, Sven Kalim, Siim Johan Alexander Cliente: KSEVT, Vitanje Community and Ministry of Culture, Eslovenia Localização: Cesta na vasi, Vitanje, Eslovênia 46° 22’53.98 N 15° 17´47.71 E Área construída: 2.450 m2 Anos: 2009-2012

0 1

5

10

Corte

www.bevkperovic.com/ dekleva-gregoric.com/ www.ofis-a.si/ www.sadarvuga.com/

74

summa+139

Corte

0 1

3

5

15


summa+139

75

fotos: tomaz gregoric


Anéis deslocados CHIAKI ARAI URBAN AND ARCHITECTURE DESIGN | CENTRO CULTURAL Do DISTRITO AKIHA

Localizado num distrito famoso pela indústria

a pedidos dos mesmos. Da etapa de concurso,

estruturais atuam como refletores do som,

ferroviária na cidade de Niigata, o Centro

inumeráveis transformações mudaram o

gerando uma acústica extraordinária pela

Cultural do Distrito Akiha é um teatro público de

contorno do edifício de uma exata circunferência

força da sua gravidade específica. A cobertura

três mil m2 com 496 assentos. Este edifício está

a uma forma circular composta por 46 arcos

e a parede, sólidas e pesadas, podem refletir

projetado para ser a incubadora cultural para

diferentes. O diagrama de organização

o rango de sons mais baixos, que são

os aldeões, os quais o estiveram esperando por

está estratificado desde a circulação exterior,

absorvidos por materiais convencionais.

muito tempo.

vestíbulo de entrada, salas de serviço,

Isso produz experiências especiais, como se

Situado num antigo campo de beisebol de

a passarela entre bastidores e o hall principal.

se estivesse escutando o concerto numa

17 mil m , a estrutura, a paisagem e o

Devido à diagramação simples, várias áreas,

caverna, e não num edifício.

estacionamento estão organizados ao longo

como as salas de ensaio e os vestiários,

Para otimizar o efeito acústico, a estrutura

do seu arco para evocar a memória do lugar.

podem ser usados de outra maneira: como

de concreto está perfurada como uma rede,

A área circundante é um distrito residencial

vestíbulo de entrada e circulação entre

e as folhas porosas de alumínio estão

numa vasta planície com algumas pequenas

bastidores, por exemplo. Para adaptar a

instaladas nos buracos como absorventes

colinas. Seguindo algumas características

diferença entre a volumetria geral proposta

acústicos. A terminação interior da estrutura

topográficas, a construção geral do edifício

e o esquema acordado com os vizinhos,

de concreto do hall está acondicionada

é uma paisagem ondulada onde as pessoas

as paredes de concreto estrutural estão

para a difusão do som. Através de efeitos

podem disfrutar da vista panorâmica.

inclinadas e torcidas até alcançar o ponto de

de luz, o concreto parece às vezes uma massa,

A planificação foi desenvolvida através

equilíbrio com as lousas da cobertura.

às vezes leviano, e implica a calidez da mão

de ateliês com os vizinhos. Várias salas

A sala principal é como uma caverna de concreto

do homem.

e serviços foram agregados em resposta

debaixo de uma colina. Os mesmos elementos

memória dos autores

2

76

summa+139

fotos: taisuke ogawa

CÍRCULOS  | Japão


0

5

10

15

Implantação

summa+139

77


CÍRCULOS  | Japão

L 2 1 0D

11.

PR AA0 E4 LS

L 2 1 0D

10.

9.

8.

15.

7.

3.

14.

13.

2. 3.

1.

10.

12. LSE40AAPR

4.

CF S4 6 9 V N S

11.

16. L548U

SK22A

5.

C FS 4 6 9 V NS CFS469VNS

CFS469VNS

C F S 4 6 9 V NS

C F S 4 6 9 V NS

C F S4 6 9 V N S

C F S 4 6 9 V NS

CFS469VNS

CFS469VNS

L548U T112CL10

T112CL10

YH701

YH701

YH701

YH701

YH701

YH701

L548U

YH701

YH701

YH701

YH701

YH701

C F S 4 6 9 V NS

L548U LSE40AAPR L548U L548U

L548U

YH701

L548U

YH701

SK 2 2 A Y H 70 1 SK22A

CFS469VNS

CFS469VNS

CFS469VNS

CFS469VNS

L548U

L 5 48 U

C F S 4 6 9V N S

YH701 T112CL10

C F S 4 6 9 V NS

C F S 4 6 9 V NS

UFS800C UFS800C

6.

T112CL10

Y H 7 01

CS20AB UAS71LDB T 1 1 2 C U2 UFS800C

U F S8 0 0 C

UFS800C

7H 121 T U FS 8 0 0 C

1L0 C2 1 T1

C S2 0 A B

SK22A U F S 8 0 0C

UFS800C

T112CU2

U F S 8 0 0C

L548U

L548U

L548U

L548U

L270CM

7.

17. 18.

21. 22.

Piso Térreo

VNS CFS469

19.

20.

0

5

10

15

fotos: taisuke ogawa

1. Hall de acesso / 2. Recepção / 3. Oficina / 4. Camarins / 5. Sala de gravação / 6. Sala de controle / 7. Sala de ensaio / 8. Sala de lactância / 9. Sala de reuniões / 10. Depósito (piano) / 11. Depósito / 12. Passagem atrás do palco / 13. Entrada de serviço / 14. Sala verde / 15. Despensa / 16. Palco / 17. Câmara de ar / 18. Foyer / 19. Cafeteria / 20. Cozinha /  21. Guarda-roupa / 22. Espelho d’água  / 23. Terraço / 24. Sala de máquinas / 25. Passarela / 26. Sala de iluminação

78

summa+139


23

23.

24.

24

1

ďźľďź°

5

10

15 16

17

20

25

30

33

25 23.

24.

23

24.

25

26 26

6.

Planta primeiro piso

Vista Norte

Planta de passarelas

Vista Oeste 0 1

5

summa+139

79


CÍRCULOS  | Japão

CCHIAKI ARAI URBAN AND ARCHITECTURE DESIGN CENTRO CULTURAL DO DISTRITO AKIHA Equipe de projeto: Chiaki Arai, Ryoichi Yoshizaki, Tomonori Niimi, Akira Sogo Engenheiro estrutural: TIS&PARTNERS Co., Ltd. Assessor em acústica: Nagata Acoustics Assessor em teatro: Theatre Workshop Interiores: Chiaki Arai Urban and Architecture Design Paisagismo: Chiaki Arai Urban and Architecture Design Destino: Teatro com 496 assentos, sala de ensaios, estúdio Comitente: Cidade de Niigata Localização: 4-23 Shineicho, Akiha Ward, Niigata, Japão Área do terreno: 17.165,34 m2 Área cobertura total: 2.997,36 m2 Anos de projeto: 2009-2011 Anos de construção: 2011-2013 www.chiaki-arai.com

fotos: taisuke ogawa

Axonometria

80

summa+139


4.

8.

4.

8.

4. 1.

1.

9. 1. 6. 2.

3.

5.

10.

11. 12.

7.

Corte

0

1

3

5

1. Terraço / 2. Hall de acesso / 3. Depósito / 4. Sala de máquinas / 5. Passagem atrás do palco / 6. Palco / 7. Câmara de ar / 8. Sala de iluminação / 9. Sala de controle / 10. Foyer /  11. Cafeteria / 12. Espelho d’água

summa+139

81


OBJETUALIDADE  | Follies

ARTEFATOS QUE FASCINAM

82

Imagem baseada em uma foto de Paul Kozlowski

Imagem baseada em uma foto de Luis Gallardo

NAS Architecture, “Breath Box”. La Grande Motte, França.

Productora, Pavilhão para a Feira das Culturas. México D.F., México.

Pequenas construções eram erguidas nos jardins europeus do século

As obras acomodadas nestas seções compartilham com as follies esta

XVIII com o objetivo de ressaltar a paisagem, de assinalar pontos

característica objetual, cujo destino principal é ser um acontecimento

no parque, reorientar o olhar e servir, muitas vezes, como lugares de

na paisagem. Nestes casos, também existe outro propósito: ser refúgio

onde contemplar a natureza, “o próprio projeto do parque devia ser

e observatório, acesso a um percurso para visitas de um museu,

resolvido com apoio de construções que acentuavam um determinado

sala de exposições, mirante na costa do mar. Cada um deles constrói

caráter da cena, cujo nome estendeu-se logo após na França como

uma relação nova com a paisagem natural ou urbana, modifica-a.

folies”. [1] Conforme sua localização, podiam construir sequências de

Duas destas construções permitem obter novas imagens da natureza

imagens diferentes dentro de um percurso cuidadosamente planejado

através dos reflexos produzidos por suas peças componentes.

para oferecer variações nas percepções da paisagem. Por sua condição

Na “Breath Box” de NAS Architecture, os painéis que conformam

de elementos isolados, podiam ser apreciados com um só golpe de

um espelho movem-se com a passagem do vento e oferecem uma

vista e a partir de muitos pontos diferentes. Ao conter um espaço

variedade de figuras diferentes da costa, do mar e de seus visitantes.

interior, permitiam, além disso, que fosse possível se mover dentro

Atelier 56S, junto a Daniel Concha, propõem “O Observatório”, um

deles e conseguir vistas mutantes enquadradas da paisagem. Assim,

pavilhão que tenta se diluir na natureza, um artefato aparentemente

estes diminutos edifícios, também presentes em pinturas e gravuras

comum que aparece como uma complexidade de imagens de pessoas,

da época, construíam um novo imaginário a seu redor.

objetos e gradientes de brilho. O Pavilhão para a Feira das Culturas

summa+139

desenhos por inés molinari baseados na documentação dos autores

por: inés molinari


Imagem baseanda em uma foto de Leonardo Finotti

Imagem baseanda em uma foto de Jeremías González

Metro Arquitetos, percurso de visitas da fábrica de chocolates Nestlé. São Paulo, Brasil.

Atelier 56S e Daniel Concha, “O Observatório”. Muttersholtz, Alsacia, França.

do Productora e o Percurso de visitas da fábrica de chocolates

pela ação do vento quanto pelos mesmos visitantes que interagem

Nestlé do Metro Arquitetos são edifícios que se apresentam como

com eles. Em “O Observatório”, as peças com as quais está construído

objetos peculiares na cidade, que demandam atenção. São pontos

variam pelas sombras e reflexos das árvores que o rodeiam.

de referência na paisagem urbana, edifícios que convocam e

O percurso de visitas da fábrica de chocolates Nestlé introduz um

enfatizam o lugar. Ambos comprometem-se com a participação

efeito particular em seu interior a partir do uso da cor e da

coletiva e a memória.

transparência. Outras variações derivam da mesma construção do

As construções que estão exibidas neste grupo são únicas, singulares.

objeto na articulação de suas partes. O Pavilhão para a Feira das

Quanto ao seu aspecto material, estão compostas pelas repetições

Culturas oferece um universo de luzes e sombras devido aos diferentes

de uma peça (ou conjunto de peças) que geram diferentes efeitos.

tipos de peças que o compõem. Em todos os casos, estas construções

Diversas texturas, reflexos, transparências, luzes e sombras

provocam uma multiplicidade de imagens que estimulam a visão e

aparecem como produto dessa organização material e se manifestam

inspiram constantemente novos pensamentos.

tanto no exterior quanto em seu interior. Por acumulação, os elementos estão dispostos em uma sequência ordenada e sofrem

[1] SILVESTRI, Graciela; ALIATA, Fernando. El paisaje como cifra de armonía.

modificações suscitadas pelo ambiente natural. No “Breath Box”,

Relaciones entre cultura y naturaleza a través de la mirada paisajística.

a variação de efeitos que os espelhos produzem é provocada tanto

Buenos Aires: Edições Nueva Visión, 2001

summa+139

83


fotos: paul kozlowski ©photoarchitecture

FOLLIES  | França

LÂMINAS QUE MULTIPLICAM NAS ARCHITECTURE (HADRIEN BALALUD DE SAINT JEAN, GUILLAUME GIRAUD, JOHAN LAURE) BREATH BOX

Cliente: Festival of Lively Architecture (FAV) Localicação: La Grande Motte, França Área: 20 m2 Ano: 2014 www.nasarchitecture.com

A parede principal da Breath Box (“uma caixa

queimada brinca com nossas sensações.

para respirar”) é refletora, para o horizonte.

Um efeito de luz acontece ao longo do dia,

Não somente recria a imagem do mar; também

enfatizado pelo movimento dos espelhos.

se transforma por seus próprios atributos.

A sensualidade descrita é considerada

O vento levanta os módulos refletores

uma conquista visual. O prazer de seguir a

produzindo uma dualidade entre a experiência

passagem do flutuante e pulsante vento,

visual e o reflexo.

criando um mosaico da paisagem da cidade

A Breath Box permite diferenciar, ver a

da cor de Grande Motte. A Breath Box oferece,

passagem da brisa, e sentir além de apreender

portanto, uma experiência imediata e mutante.

fisicamente. O espelho recomposto deforma-se

Não se pode escapar, enquanto se passeia

com a influência do vento, fazendo com

pela costa marítima, à atração dessas faces

que interaja com os elementos da natureza

mutantes que oferecem uma variedade de

e dos sentidos. A experiência continua dentro

imagens diferentes.

do pavilhão. A cobertura feita de madeira

memorial dos autores

Planta de telhados 0

84

summa+139

1

2


summa+139

85


FOLLIES  | França

Axonométrica

Planta

0

1

2

Axonométrica em corte

0

86

summa+139

1

2

0

1

3

5


fotos: paul kozlowski ©photoarchitecture

Fachada de espelhos

0

1

2

Diagrama da ação do vento 0

1

2

3

Axonométrica explodida

summa+139

87


BARRAS QUE SE ENCAIXAM PRODUCTORA (Carlos Bedoya, Víctor Jaime, Wonne Ickx, Abel Perles) Pavilhão para a Feira das Culturas, Cidade do México, México

Projeto arquitetônico: PRODUCTORA (Carlos Bedoya, Víctor Jaime, Wonne Ickx, Abel Perles) Colaboradores: Diego Escamilla, Lucrecia Sodo, Gerardo Aguilar Construção: Factor Eficiencia (Fermín Espinoza) Engenharia estrutural: KALTIA Museografia: Alberto Odériz Localicação: Zócalo Capitalino, México D.F., México Tipo: pavilhão temporário Área: 90 m2 cobertos (triângulo), 150 m2 (passarela) Ano: 2014

O pavilhão da Cidade do México para a Feira

Como referência aos barcos de madeira com

das Culturas 2014 trata o tema das migrações

os quais chegaram os primeiros imigrantes

que chegaram a essa urbe. A expressão

ao México, todo o pavilhão está construído

arquitetônica desta migração está representada

em madeira. O espaço interior está coberto

no pavilhão através de uma longa passarela

por um grande telhado composto de

que eleva os visitantes para oferecer uma vista

triângulos equiláteros que desviam a carga

do Zócalo Capitalino e que volta a baixar para

para os três lados do volume. A estrutura foi

criar uma experiência que simboliza a chegada

pré-fabricada na oficina e montada em apenas

ao Centro Histórico.

oito dias no Zócalo Capitalino. O pavilhão

Este jogo de rampas, varandas e corredores

permaneceu em seu lugar durante 15 dias

www.productora-df.com.mx

envolve um triângulo equilátero de oito

– a partir de sua inauguração no sábado,

metros de altura que abriga em seu interior

17 de maio, até o dia 1 de junho, quando

uma experiência museográfica relacionada

começou sua desmontagem.

com o tema, curada por Alberto Odériz.

memorial dos autores

1. Praça da Construção 2. Catedral Metropolitana 3. Palácio do Governo 4. Feira das Culturas Amigas 5. Pavilhão CDMX 6. Fórum

2.

6. 3.

1. 4. 5.

0

88

summa+139

30

50

100

Implantação

fotos: luis gallardo

FOLLIES  | México


summa+139

89


fotos: luis gallardo

FOLLIES  | México

1

1

3 3

2

2

4

Térreo

0

1

3

5

1. Acesso à rampa / 2. Módulos de informação / 3. Espaço de exibição / 4. Saída de rampa

Planta Nível 1 1. Acesso à rampa / 2. Varanda / 3. Espaço de exibição 0 1

90

summa+139

5


Vista noroeste 0

1

2

3

Vista nordeste

0

1

5

summa+139

91


PELE QUE CONVOCA Metro Arquitetos Associados | PERCURSO DE VISITAS DA FÁBRICA DE CHOCOLATES NESTLÉ

Autores: Metro Arquitetos Associados Anna Ferrari, Gustavo Cedroni e Martin Corullon (autores), Paloma Delgado, Paula Noia, Ricardo Canton, Alfonso Simelio (arquitetos), Felipe Fuchs, Bruno Kim, Marina Ioshii e Pedro Mesquita (estagiários) Localização: Rodovia Presidente Dutra, Caçapava, São Paulo, Brasil Área: 1.850 m² Ano: 2011 www.metroo.com.br

A fábrica de chocolates Nestlé, construída nos

A intervenção resolve um problema importante de

anos 60, foi projetada para receber o público em

organização entre o fluxo de visitantes e o fluxo

geral, porém de maneira muito precária e sem

de produção, transformando o simples circuito de

nenhum atributo museológico.

visitas em um museu com conteúdo interativo e

A intenção principal do pedido para o projeto de

brindando una marca característica ao edifício.

áreas de visita da fábrica era criar um ponto

A geometria estrutural e os materiais utilizados

de referência na paisagem genérica da rodovia

foram projetados para provocar uma

que conecta São Paulo ao Rio de Janeiro,

experiência sensorial e perceptiva, além de

revelando a existência de um espaço público

contribuir para uma compreensão mais clara

e acessível.

da história e da produção de chocolates em toda

Esta visibilidade é alcançada com a instalação

a visita. Foram criadas duas torres exteriores

de duas torres de vidro vermelhas com marcos de

e passarelas. Cada torre contém escadas e

aço, que estão conectadas a passarelas para

um elevador, a passarela mais curta serve como

pedestres e caminhos que envolvem o edifício

entrada e a mais longa como saída, ambas

existente, brindando acesso à passarela elevada

paralelas à rodovia.

dentro da fábrica.

do memorial dos autores

Implantação

92

summa+139

fotos: leonardo finotti

FOLLIES  | Brasil


Torre 1

summa+139

93


FOLLIES  | Brasil

fotos: leonardo finotti

Torre 1

0

Vista Torre 1 (estrutura)

94

summa+139

Corte Torre 1

0

1

2

3

Planta Torre 1

1

2

3


Torre 2

Planta Torre 2

Torre 2

summa+139

95


fotos: jeremías gonzález

FOLLIES  | França

CUBOS QUE CONTÊM Atelier 56S + Daniel Concha | “El Observatorio”

Equipe: José Prieto, Fanny Landeau, Daniel Concha Localização: Muttersholtz, Alsácia, França Área: 20 m² Ano: 2012

Este projeto, realizado para o concurso da

e se destaca como um objeto visual. Do ponto

Archi<20, consiste em um pavilhão de 20 metros

de vista econômico, a estrutura permite uma

quadrados localizado em uma área natural

planta livre no interior. Visto do exterior, o

protegida na comuna em Muttersholtz, Alsácia,

pavilhão tende a se misturar com a natureza,

http://www.atelier56s.com

França. Com um orçamento limitado, a comissão

um objeto que parece comum revela-se como

http://danielconcha.com/project/el-observatorio/

do concurso buscou uma arquitetura econômica

uma mistura complexa entre luzes, imagens,

e relacionada com seu entorno. A primeira

pessoas e objetos…

intenção foi criar um edifício que pudesse

memorial dos autores

resolver com um gesto várias possibilidades. Esta intenção foi traduzida em um sistema

O observatório conta com dois níveis interiores:

estrutural que cumpre diferentes funções: luz,

saindo por um alçapão, entra-se em um terceiro

sombra, ventilação e espaço de armazenagem

nível-terraço-mirante.

temporário.

O invólucro está composto por módulos iguais

A segunda intenção foi conceber uma arquitetura

de placas de madeira compensada cujo

que pudesse destacar e diferenciar a relação

fechamento é às vezes cego, às vezes espelhado,

entre o visitante e o pavilhão com seu entorno.

às vezes vazio. Estes módulos e sua variação

O pavilhão age como um meio onde se reduz

geram entradas e saídas na fachada.

Implantação

96

summa+139


summa+139

97


fotos: jeremías gonzález

FOLLIES  | França

Térreo

98

summa+139

0

0,5

1

Pavimento superior


Corte

summa+139

99


BRINQUEDOS, BRINCADEIRAS, CORES E COISAS O humor objetivado de Paul Preissner, arquitetura que não se vê como arquitetura

por paula de falco

100

summa+139


fotos: cortesia paul preissner architects

PERFIL  | Paul Preissner

Paul Preissner é arquiteto e professor formado pela Universidade de Columbia. Sua prática profissional incluiu referências como Philip Johnson, Bernard Tschumi e Peter Eisenman. Em seus projetos, as estridências estratégicas, o senso de humor e a sensibilidade artística substituem a hegemonia do uso, da função, do propósito e da transcendência.

Paul Preissner deu seus primeiros passos no mundo da arquitetura através dos algoritmos e dos códigos binários. Sua arquitetura paramétrica propunha uma lógica orgânica, complexa e rebelde, um inapelável produto das possibilidades dos novos softwares. Em pouco tempo, perdeu interesse por estas formas e começou um processo de pesquisa e autodescobrimento que decantou no desenvolvimento de uma arquitetura independente da alta tecnologia e mais própria dos frutos do humor, da arte objetual e da teoria da cor. Experimentando com padrões e geometrias, decidiu empreender um caminho criativo que envolveu, como primeira aproximação, subverter algumas leis preestabelecidas do conceito de edifício trabalhando, por exemplo, com a sensação de grande peso e tamanho que, inclusive na pequena escala, a arquitetura tem normalmente incorporada. Esta forma de contradição busca tornar a arquitetura um objeto, um corpo reconhecível e que se assemelha com morfologias que bem poderiam ser parte de um repertório de globologia (decoração com balões), com um brinquedo, algo pequeno, leve e simpático, mas, ao mesmo tempo, estranho. O efeito é, sem dúvida, provocador, principalmente nos projetos maiores, fingindo pequenez minúscula para um volume maiúsculo. Sua ideia é que quanto maior for um projeto, mais deve aparecer como algo “alcançável”. Isso é trabalhado, em parte, através do “caráter” do edifício, desenvolvendo formas que não tentam ser impressionantes, nem delicadas, nem belas, e muito menos heroicas ou sublimes, senão coloridas, “termo médio”, ou mesmo “bobinhas”. No entanto, a autoconsciência deste “defeito” leva a certa forma de sofisticação, presente em toda a produção de Preissner. Representativos desta postura são projetos como a Ópera de Busan. Projeto: “Clumsy Forms” Autores: UIC Ateliê de Pesquisa de Pós-graduação sob a responsabilidade de Paul Preissner Anos: 2011-2012

Trata-se de um corpo listrado que está pousado sobre o limite da costa da Coreia do Sul, cujo padrão separa o opaco do envidraçado, organizando programaticamente o edifício de acordo com a permeabilidade visual que cada uso requer. Em muitas de suas propostas, os padrões gráficos aplicados aos edifícios mantêm sua própria lógica, independentemente de seu

summa+139

101


PERFIL  | Paul Preissner

Vista norte

Projeto: Ópera de Busan Autores: Hamish Dickson, John Dillon, Paul Preissner, Warren Weaver e Michael Wolff Localização: Busan, Coreia do Sul Área: 60.000 m² Ano: 2011

substrato: duas figuras justapostas que resultam ser uma arquitetura

Paul Preissner perguntado

maior que a soma das partes. Outros projetos de Preissner trabalham a relação que é gerada entre

Paula De Falco: Qual é a relação que você encontra entre os objetos

objetos diversos. A creche para adultos Beer Sheba, em Israel, é um

e a arquitetura? É possível conceber um objeto da mesma maneira

projeto de peças autônomas implantadas, em aparência,

que se projeta um edifício?

erraticamente, porém com o propósito de aproveitar ao máximo

Paul Preissner: Para mim, a arquitetura pode ser um objeto enorme.

a orientação e a conformação de pátios semiprivados. Em linha

Acredito que é possível criar um objeto da mesma maneira que um

com a conjugação de objetos morfologicamente diferenciáveis,

edifício. Gosto de projetar edifícios como se na realidade fossem

encontra-se o projeto para a estação de ferries de Kinmen, em Taiwan,

coisas pequenas sobredimensionadas.

no qual associa peças triangulares de diversas cores em tom pastel. Cada fragmento tem um uso particular e o todo conforma um perfil

PDF: Qual é o papel que o humor tem em sua arquitetura? Pode existir

permeável que não obstaculiza a conexão visual nem pedestre

uma arquitetura produtivamente “engraçada”?

da cidade com o mar. Seu mais recente projeto é a Praça CCB,

PP: Considero que parte de meu trabalho consiste em desenvolver

projetada para ser materializada integralmente em um terraço cor

coisas mais “light”, ou “raras”, ou “curiosas”. Porque tudo em

azul. A proposta articula, em disposição aparentemente anárquica,

arquitetura tende a ser muito sério, não é? Como se o mundo

objetos como plataformas, escadas e bancos, estes últimos emulando

fosse desaparecer se não existisse um arquiteto fazendo uma nova

rabiscos. Humoristicamente, as luminárias aparentam ser balões

fachada de metal supercara. Sinto muita rejeição por estes edifícios

elevados, propiciando um passeio público com constante clima festivo.

pretensiosos, presumidos, caros, “vanguardistas”. A enorme produção

Preissner ambiciona reversar a arquitetura, ou aquilo que nós

dessas arquiteturas empurrou para buscar valor em trabalhos menos

chamamos arquitetura e que ele denomina brinquedos, brincadeiras

pretensiosos, e inclusive “demodé”. De todos os modos, não se

e objetos. Trata-se de uma arquitetura que não se leva muito a sério e

trata de tentar ser engraçado, não acredito que se tenha que fazer

que depois de tudo busca simplesmente capturar aquilo que nos torna

projetos para que as pessoas riam, mas o que me interessa no humor

humanos: o peculiar, o excepcional e o imperfeito.

é gerar um trabalho que não tome parte desse mundo tão sério de grandes orçamentos, altas pretensões e edifícios monstruosos. Estou contente com ambições mais modestas, fazendo coisas mais ao alcance da mão, explorando contrastes e relações mais “reais” e cotidianas, porém não por isso menos divertidas ou inesperadas ou fascinantes. PDF: Você pensa que “a forma segue à função” perdeu vigência? Quais são os temas principais da arquitetura atual que você considera? PP: Acredito que a arquitetura tem forma e função, mas também muitas coisas mais: peso, custo, volume, cor e a lista pode continuar e todas são igualmente importantes. No entanto, as pessoas são tão elásticas que a função pareceria não ter muito sentido na maioria das vezes, talvez a arquitetura seja por si muito mais flexível do que

102

summa+139


Vista sul

fotos: cortesia paul preissner architects

Projeto: Creche para adultos Beer Sheba Autores: Brandon Biederman, Julia Di Castri, Brett Gustafson, Don Kalant Jr., Katie LaCourt, Paul Preissner e Katherine Simson Localização: Beer Sheba, Israel Área: 1.560 m² Ano: 2013

summa+139

103


PERFIL  | Paul Preissner

pensamos. Obviamente, tudo tem que ter uma forma. Eu mesmo fui

caras, pretensiosas, exclusivas e sem sal que para mim é complicado

um grande “fã da forma”, mas a verdade é que já não entendo esta

dizer o que é a arquitetura contemporânea. Do que tenho certeza é que

competição sem sentido para ver quem projeta o edifício mais

não tem senso de humor sobre si mesma, e o mesmo se aplica para a

presumido, com as formas mais “loucas”, e caras, obviamente.

maioria dos arquitetos contemporâneos, especialmente os do star system. Todos parecem estar muito contentes com a mera satisfação

PDF: Como você definiria a sua maneira de pensar a arquitetura?

de fazer coisas complicadas, e, ao mesmo tempo, evitam se arriscar

PP: De maneira aberta, suponho. O modo como trabalho agora é

realmente -- refiro-me a riscos criativos ou conceituais. De qualquer

bastante livre e sem muitas expectativas. Está aberto a críticas.

maneira, também existem muitos projetos muito bons, ou trabalhos

Igualmente, não acredito que sejam necessárias grandes ambições,

que valem a pena, ou inclusive alguns trabalhos que não são tão bons,

a arquitetura não é o mais importante do mundo.

mas são um pouco estranhos e então gosto deles também. Pensando em voz alta, sempre estou atento ao que Alex Lehnerer, Junya Ishigami,

104

PDF: Qual é a sua opinião sobre a arquitetura contemporânea?

Peter Zellner, Tatiana Bilbao, Neil Denari, Johnston-Marklee, Andrew

Quais arquitetos você mencionaria como suas referências?

Zago, MOS, Paul Andersen, Jeanne Gang, Farshid Moussavi, Nikken

PP: Eu gosto da arquitetura que está sendo feita agora e ao mesmo

Sekkei, Adamo Faiden, Juan Rois, Jennifer Bonner, Kelly Bair, SO-IL, NL

tempo não gosto, ou seja, acredito que estou um pouco confuso.

Architects, Smiljan Radic, Sou Fujimoto, Kazuyo Sejima, Alexander

Existem alguns projetos, ou partes de projetos dos quais gosto

Brodsky estão fazendo. De qualquer forma, a verdade é que a maior

e são interessantes; porém, regra geral, a maioria das coisas que

parte das minhas referências vem de outros lados, mas a lista seria

vejo são tão deprimentemente anônimas, autossimilares, brilhosas,

muito longa. Pessoalmente, não me reúno com arquitetos.

summa+139


fotos: cortesia paul preissner architects Projeto: “Clumsy Forms” Autores: UIC Ateliê de Pesquisa de Pós-graduação sob a responsabilidade de Paul Preissner Anos: 2011-2012

Vista sudoeste

summa+139

105


Vista sul

PDF: Conte-nos algo sobre o seu trabalho. Você tem um escritório,

PDF: Que conselho você daria para os estudantes de arquitetura?

dá aulas?

PP: A arquitetura não é tão difícil e ainda existe um montão de coisas

PP: Dou aulas e também tenho meu próprio escritório. Comecei a dar

para pesquisar. É importante trabalhar em escritórios já estabelecidos

aula muito jovem, antes dos 30 anos, quando ainda trabalhava em

para aprender como desenvolver projetos reais, porém depois é

outros escritórios. Entre 2006 e 2007 fui me tornando independente

importante construir seu próprio caminho. Eu trabalhei um tempo

até montar meu próprio escritório. Apesar de que leve meu próprio

em vários escritórios grandes e importantes, mas fiquei entediado

nome (Paul Preissner Architects), as ideias de todos os que trabalhamos

com o trabalho que se fazia ali, e tampouco era estimulante para mim

aí se compartilham e se combinam no mesmo nível. Começamos

ter que aguentar um chefe gritando-me se fazia algo supostamente

apresentando-nos em grandes concursos, porém recentemente o

mal quando na realidade estava tratando de o ajudar. Então, é

escritório está mais voltado a trabalhos menores, em escala e

importante encontrar uma maneira de financiar o seu próprio escritório

orçamento, para nos dedicar a aspectos inclusive minúsculos ou

para poder fazer coisas que lhe interessem, sem importar se os demais

“menosprezados” da arquitetura, e trabalhar com ideias sobre o espaço

gostam ou não. Inclusive, acredito que provavelmente o pior que

e o projeto que talvez não sejam o suficientemente espetaculares como

possa acontecer a uma pessoa é se tornar muito popular. É muito

para ter superclientes. Se bem que antes, quando o ateliê era pequeno,

melhor ser moderadamente reconhecido. De qualquer forma, acredito

tinha um espaço físico “standard” com uma planta aberta e várias

que todos nós aconselhamos que seja feito mais ou menos o mesmo

mesas, agora foi relocalizada a nenhum lugar. Todos nós temos nossos

o que fizemos, assim que eu tampouco acreditaria muito no que acabo

laptops e quando é preciso reunimo-nos nos lugares mais diversos.

de dizer.

Todas as maquetes, mostruários e livros são mantidos em um depósito, e os consultamos quando necessitamos.

Projeto: Praça “City-County Building” Autores: Jesus Corral, Paul Preissner (Paul Preissner Architects), Paul Andersen, Kevin Hirth, Jason King (Indie Architects) Localização: Indianápolis, Indiana, Estados Unidos Ano: 2014

Vista

106

summa+139


PERFIL  | Paul Preissner

PROJETO: PUERTO DE KINMEN, TERMINAL DE FERRIES PARA PASAGEIROS Autores: Team Jesus Corral, Julia DiCastri, Brett Gustafson ePaul Preissner Localização: Kinmen, Taiwan Área: 42.000 m² Ano: 2014

fotos: cortesia paul preissner architects

Vista norte

summa+139

107


PESQUISA  | Escala

EDIFÍCIOS E OBJETOS

por aníbal parodi rebella

ENTIDADES EM DIÁLOGO O homem é responsável pela criação de um amplíssimo espectro de

Os objetos são percebidos desde o exterior. Sua superfície pode

construções e produtos que abrangem gamas dimensionais igualmente

chegar a ser contínua e unitária. Podem ou não envolver um espaço

vastas. A arquitetura e o design, como protagonistas principais da

em seu interior. Não são habitáveis. São manipuláveis e

materialização de nosso habitat, estruturam dois universos familiares

transportáveis. Sua produção pode ser desde artesanal a totalmente

em permanente interação com o homem: os edifícios que este habita

industrializada. Podem ser duráveis, mas também efêmeros e

e os objetos que auxiliam suas atividades. Edifícios e objetos

descartáveis. Suas dimensões guardam em maior ou menor medida

possuem identidades próprias, mesmo que laxas em múltiplos

relação com partes do corpo humano. Seu vocabulário formal também

aspectos, o que permite que eventualmente interfiram entre si,

utiliza pautas históricas específicas de cada tipo de objeto,

fundem-se ou permutem-se.

interpretadas, reinterpretadas e desafiadas quando é necessário.

Os edifícios são percebidos por dentro e por fora. Têm telhados,

Sua composição costuma ser muito menos complexa, envolve

paredes e pisos que configuram um invólucro físico que define

habitualmente um número menor de variáveis, componentes e materiais,

e protege um espaço interior. Têm entradas, aberturas e fechamentos

podendo chegar a ser unitária em relação com a maior parte delas.

permeáveis que regulam sua relação com o espaço exterior.

Cumprem um número reduzido de funções e inclusive com frequência

São habitáveis. Não são manipuláveis nem transportáveis. São

apenas uma. Estas funções, além disso, costumam ser explícitas. Podem

construídos “artesanalmente”, são duráveis e não descartáveis,

funcionar exclusivamente através de mecanismos eletromecânicos e

apesar de todas as exceções que possam confirmar a regra. Suas

sistemas automatizados. Sua qualidade integral é a objetualidade.

dimensões guardam, em uma maior ou menor medida, uma relação com a proporção do corpo humano. Utilizam um vocabulário formal pautado historicamente que é interpretado, reinterpretado e desafiado, porém está sempre presente. Sua composição é complexa, envolve um grande número de variáveis, componentes e materiais. Cumprem muitas funções simultaneamente. Estas costumam ser explícitas. Podem incorporar algumas instalações eletromecânicas e sistemas automatizados. Sua qualidade integral é a tectonicidade.

TECTONICIDADE Todas as palavras, independentemente de sua eventual precisão semântica “de dicionário”, costumam seguir rumos particulares nos quais seu uso navega em águas nem sempre transparentes. Tectonicidade… O dicionário não nos diz grande coisa sobre esta palavra. De fato, tectonicidade não é um termo reconhecido pela Real Academia Espanhola (ou pelos dicionários da língua portuguesa). O vocábulo tectônico/ca devolve-nos como primeira acepção: “adj.

Frank O. Gehry, Claes Oldenburg, Coosje Van Bruggen: agência de publicidade Chiat-Day-Mojo, Los Angeles, 1985-1991. Acesso principal.

108

summa+139


pertencente ou relativo aos edifícios ou outras obras de arquitetura”.

também a tectonicidade associada à expressão da condição

Caso adotemos esta definição, o adjetivo poderá ser aplicado a um

matérico-arquitetônica, a que aflora nos detalhes, no modo como

grande número de substantivos, dando como resultado diferentes

a matéria está articulada e se sintetiza com os demais aspectos do

tipos de “tectonicidade”.

projeto. É a tectonicidade articuladora do vidro, do aço e da pedra; da

Porém, existe a tectonicidade “pura e simples”?

ordem sistemática e da fluidez espacial da obra de Mies van der Rohe;

Conforme Helio Piñon, a tectonicidade é “uma condição da forma

da leveza visual do concreto aparente de Tadao Ando; das dobraduras

arquitetônica que contribui com uma ordem material […]. Garante

laminares metálicas de escala incerta de Frank O. Gehry. Construção,

verossimilhança física do artefato e se rege por critérios de

materialidade e articulação e síntese projetual, a arquitetura não

autenticidade”. [1]

será nunca uma expressão direta do ato construtivo, senão sua

Em sua opinião, o construtivo define os atributos da matéria sobre

representação. Com um sentido amplo e compreensivo, “Semper

os quais a ação formativa do sujeito atuará. O tectônico seria sua

trata sobre a noção de tectonicidade como relação orgânica,

manifestação visual: o tectônico é para o construtivo o que o formal

inter-relacionada e articulada sobre as diversas decisões técnicas

é para o estruturante. [2]

que conformam um edifício. Conforme Semper, existem diferentes

Alude-se a um sentido de tectonicidade que valoriza a condição

artes e técnicas tectônicas, sendo a arquitetura a técnica da arte do

tangível, sensual, não abstrata, táctil, ligada à construção, aos

espaço”. [4] Em qualquer caso, a tectonicidade parece ser, por

detalhes da execução física da arquitetura. A importância deste papel

definição, a qualidade identitária essencial da arquitetura. Aquela que

é tal que, caso se faça abstração da realidade física, com seus

a diferencia do resto dos fenômenos e realidades. Seu lugar é o lugar

atributos corpóreos e cromáticos, a concepção corre o risco de se

natural da fricção entre a estrutura física e a visual, aquela que Piñon

tornar uma incursão engenhosa nos domínios de Euclides, alheios,

reconhece como o problema central da criação autêntica.

em si mesmos, ao território da arquitetura. [3] Existe uma tectônica firmemente vinculada à tradição que reconhece nos componentes construtivos e estáveis sua lei fundamental. É a tectônica do inconsciente coletivo, da experiência acumulada ao longo da história. A do pórtico, do arco, da abóbada, da cúpula, da transmissão rápida e eficiente das cargas ao solo e da autenticidade material. Existe

1

OBJETUALIDADE Se a tectonicidade tinha amplas margens de interpretação e envolvia uma complexa síntese de variáveis, a objetualidade, como qualidade intrínseca das coisas, não parece ficar atrás. Objetos há muitos, e muito diversos. Portanto, a precisão de uma iconografia socialmente

2

3

4

1] 2] 3] e 4] Rem Koolhaas-OMA: Centro de exposições e convenções Ras al Khaimah (RAK), Dubai,

5

6

projeto original, 2007. 5] Death Star: nave e arma super poderosa que aparece na saga cinematográfica Star Wars, dirigida por George Lucas e cujo primeiro longa-metragem estreou em 1977. 6] Rádio portátil Panasonic, Panasonic, 1972.

summa+139

109


compartilhada da representação dos objetos é um terreno pantanoso

como macro-objetos e os objetos como micro-arquiteturas quando

do qual emergem muito poucas certezas. O primeiro que podemos

trocaram qualidades fundamentais para suas respectivas identidades,

afirmar é que os objetos – principalmente os contemporâneos – não se

de acordo com o imaginário coletivo do que um edifício ou uma coisa

regem, como regra geral, por pautas análogas às estabelecidas pela

“devem ser”. A identidade de objetos e das arquiteturas costuma

tectonicidade para a arquitetura.

com frequência hibridar-se e, neste processo, entre outras qualidades,

Atualmente, seu caráter está fortemente pautado pelos hábitos de

a escala está sempre envolvida. As arquiteturas podem experimentar

consumo que requerem do objeto uma particular sedução que

transformações que paulatinamente as objetualizem até se tornarem

amalgama: uma lógica expressiva industrial, uma imagem unitária

autênticos objetos colossais, enquanto que os objetos podem ir

e utilitária, pregnância de forma e cor, fácil apreensão comunicacional,

desenvolvendo processos graduais de arquiteturização até se

originalidade, exclusividade e valor agregado como portador de status.

converter em verdadeiras miniaturas arquitetônicas.

Apesar de ser uma qualidade essencialmente do produto industrial,

Considerando nossa hipótese básica que afirma que a manipulação

cada vez mais as obras de arquitetura estão começando a aceitar

da escala costuma ser detonante – ou pelo menos catalizadora – dos

premissas consumistas – em termos de imagem de produto – em todos

processos de projeto, analisaremos como em muitas oportunidades

seus níveis de aplicação. Os objetos, à diferença dos edifícios, são com

os objetos aumentam seu tamanho para dar vida a novos objetos,

certa frequência transformáveis e, quando é assim, costumam

e como em muitas outras as arquiteturas reduzem suas dimensões

incorporar mecanismos e automatismos que regulam os movimentos

para alimentar novas arquiteturas.

e funções incorporados. As peças móveis ou os componentes

Deste modo, as duas metamorfoses formuladas dos objetos em

transformáveis, que na arquitetura são geralmente pequenos em

miniaturas arquitetônicas e das arquiteturas em objetos colossais

relação ao tamanho do edifício, nos objetos podem chegar a ser

podem se conceber integradas em um ciclo contínuo de troca

proporcionalmente muito maiores. Os adjetivos da transformação

de identidades e de escalas. Dentro deste ciclo contínuo podem

são de aplicação predominantemente objetual. Retrátil, dobrável,

se reconhecer operativamente dois segmentos encadeados que

extensível, deslizante, inflável, telescópico, compactável etc. podem

habilitam a transformação de objetos em arquiteturas, e de

ser aplicados a objetos inteiros, porém, na arquitetura, costumam

arquiteturas novamente em objetos. Ambos estão alimentados por

referir-se tão somente a elementos secundários da composição.

transformações na identidade de objetos e arquiteturas, comprometendo intimamente suas gamas escalares intrínsecas.

TROCA DE QUALIDADES A tectonicidade e a objetualidade que nos interessam neste momento, mesmo que não exclusivamente, referem-se a qualidades aparentes que nos permitem identificar os produtos de cada disciplina e os associar com as dimensões esperáveis de seus fenômenos e circunstâncias. O que faz com que percebamos uma arquitetura como um objeto gigantesco? O que faz com que percebamos um objeto como uma arquitetura em miniatura? A resposta pode parecer óbvia, porém não por isso é menos verdadeira: as arquiteturas são percebidas

NOTAS [1] PIÑÓN, Helio: La forma y la mirada, Buenos Aires: Editorial Nobuko,

2005, p. 100. [2] Ibid., p. 102. [3] Ibid., p. 103. [4] MONTANER, Josep Maria: Arquitectura y Crítica, Barcelona: Gustavo Gili,

1999. Conceitos compilados pelo autor em: SEMPER, Gottfried: Der Stil in den technischen und tektonischen. Künsten, 1860-1863.

Luis M. Mansilla+Emilio Tuñon: Centro Internacional de Convenções da Cidade de Madri, 2007. www.mansillatunon.com/ Gráficos e maquete apresentados para o concurso integrados com fotografia de uma das 12 medalhas. Costellazioni Zodiacali por Bruno Munari para Ricci, Brescia, 1975. Composição: Aníbal Parodi Rebella.

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PESQUISA  | Escala

ESCALA ARQUITETÔNICA E EXPRESSÃO OBJETUAL Assim como algumas arquiteturas contemporâneas reencontram,

Um cubo enferrujado flutua no meio do lago a certa distância.

após muito tempo, o prazer da figuração das iconografias explícitas,

É grande, ainda que não saibamos quanto. Não há na imensidão da

dentro do dominante ecletismo linguístico atual também há espaço

superfície lacustre referências dimensionais claras. Para piorar,

para arquiteturas que exploram, cada vez com maior radicalismo, a

o volume geométrico aparece puro e hermético ante nós. Não há

objetualização de sua expressão.

aberturas, não há evidência de escala humana. É um imenso objeto

Ausência ou minimização absoluta de aberturas ou de qualquer

na paisagem, “... uma miragem... templo?... plataforma técnica?...

outro signo que desafie, a partir da sua expressão histórica

observatório? ” [1] (NOUVEL, Jean. Monolito. Suíça: Morat, 2002).

e intrínseca, a marca objetual do edifício. Peles recorrentemente

Outro cubo, branco, liso e de 12 metros de lado é projetado por Aldo

contínuas e homogêneas que definem imensos volumes em

Rossi como Monumento à Resistência de Cuneo, em 1962. “O imenso

ausência de juntas aparentes. Caixas mudas e anônimas empilhadas

objeto não está fixado na terra senão somente apoiado nela; não

umas sobre as outras. Perfurações e arcos cujas dimensões

foi edificado, senão colocado ali, transportado à sua nova situação

desafiam a tectônica estrutural natural e esperável. Equilíbrios

desde o ignorado lugar no qual foi concebido”. [2] Seu idealismo

instáveis que rivalizam com as leis da gravidade. Exageros

objetual de perfeita geometria e hermética clausura lembra o design

dimensionais: maior, mais extenso, mais alto, mais fino, mais caro

de um lindo e prático cinzeiro criado por Bruno Munari. Uma vez dentro

etc. Gadgets colossais que ostentam virtuosismos tecnológicos,

do monumento, o tempo parece se deter, e a noção de realidade,

inovação material, automatização de movimentos, originalidade e

espaço e escala parece se diluir.

status de consumo.

A janela, ou, melhor dizendo, o espaço enquadrado, é o motivo

Embalar, envolver, cobrir, tampar, atar são ações unitárias e

central de alguns projetos de habitação coletiva do escritório MVRDV.

cotidianas que praticamos sobre objetos, mas que é muito improvável

Por um lado, o edifício “El Mirador” em Madri (2005) e, por outro,

aplicar a componentes da paisagem natural ou urbana.

o edifício “Parkrand” em Amsterdam (2006). Em ambos, a

Quando Christo e Jeanne Claude embalam edifícios e pontes,

interpretação coletiva do espaço individual da janela é realizada

cobrem rios e cercam ilhas, equiparam automaticamente suas imensas

a partir de uma ampliação súbita e inesperada de suas dimensões

presenças com as dos objetos. Jogam com suas escalas sem tornar

habituais. Não é, certamente, a única vez que esse escritório desafia

vulnerável seu tamanho, transformando a improbabilidade em

a definição de componentes e estruturas arquitetônicos tradicionais.

possibilidade certa.

A configuração aporticada mínima tipo mesa do edifício para a Coleção

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1] e 2] Christo & Jeanne Claude: Wrapped Telephone, desenho, 1984. Wrapped Reichstadt-Project, instalação, Berlim, 1995. <www.christojeanneclaude.net/>. 3] Bruno Munari: Cinzeiro Cubo, 1957. 4] e 5] Aldo Rossi: Monumento a Sandro Pertini, Milão, 1988-1990. (Foto Toni Nicolini). 6] Jean Nouvel: The Monolith, Morat, Suíça,

2002. <www.jeannouvel.com/>. 7] Aldo Rossi: Monumento à Resistência, Cuneo, projeto, 1962. Corte longitudinal e maquete.

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Boijmans, o empilhado instável de “caixas e equipamentos” díspares

como pontes, apoiam seus extremos uns sobre outros, configurando

da Ópera de Oslo [1.14/42], são exemplos claros de leituras objetuais

uma trama planimétrica e espacial de base hexagonal (Urbanização

introduzidas no processo de projeto a partir da manipulação escalar

The Interlace, Rem Koolhaas - OMA, Singapura, 2008).

de arquétipos formais.

Os Emirados Árabes são a terra prometida da desmesura e dos

Como cogumelos depois da chuva, surgem projetos concebidos

excessos: o edifício mais alto, as figurações mais caprichosas

a partir do empilhamento mais ou menos estruturado, mais ou menos

para terrenos aterrados ao mar com fins turísticos, a possibilidade

informal, de caixas. Caixas de embalagem como as que Sejima

insuspeitada de imensos oásis, exclusivos e verdes, em meio

brincava em sua infância e que, junto à normativa histórica de

do deserto, à força de irrigação forçada de água e dinheiro,

escalonamento das construções em altura de Nova Iorque, inspiraram

um novo éden onde Rem Koolhaas tem a possibilidade de criar

a articulação volumétrica do Novo Museu de Arte Contemporânea

sua Manhattan pessoal, trinta anos depois da primeira edição de

da cidade (2007). Caixas que balançam com liberdade em torno de

Delirious New York.

um eixo central como as do edifício do Banco Central Europeu em

Neste lugar, Koolhaas concebe também um altíssimo edifício-placa

Frankfurt (Dominique Perrault, 2003). Caixas inseridas de forma

capaz de girar como um imenso radar em meio a um espelho d’água

alternada a um e outro lado do eixo e núcleo central do projeto

(Dubai Renaissance, 2006). Nouvel projeta aqui uma imensa

de arranha-céus situado no 80 South St. de Nova Iorque (Santiago

cobertura circular de 180 metros de diâmetro, que filtra a intensa

Calatrava, 2003), estrutura compositiva ensaiada previamente em

luz como a copa de uma improvável e gigantesca árvore (Museu do

suas esculturas e que pode ser interpretada como uma operação

Louvre, Abu-Dhabi, 2006). Tadao Ando cria para o Museu Marítimo

de salto escalar a partir de uma luminária de Frank Lloyd Wright

(Abu-Dhabi, 2006) uma peça de aparência monolítica perfurada

(Luminária de pé Taliesin 2, 1955). Caixas empilhadas e afetadas

em sua parte inferior por uma imensa abóbada que emula, abstração

por um gesto unitário de torção, imaginável somente à escala

geométrica mediante, a arquitetura natural das grutas.

de um objeto (Santiago Calatrava, Turning Torso, Mälmo, 2005). Caixas cuidadosamente superpostas e cujas superfícies refletem

NOTAS

texturas diferentes como os usos mistos que integram o projeto

[1] Pequeno fragmento da descrição do próprio Jean Nouvel de sua obra

de Koolhaas para a torre de 52 andares em Jersey City (2006),

“Monolito”, erguida em Morat em 2002, com motivo da Exposição

frente a Manhattan e na margem oposta do Rio Hudson. Uma

Internacional Suíça. Disponibilizado em: <www.jeannouvel.com/>

construção de gigantescos blocos didáticos froebelianos composta

[2] LAHUERTA, Juan José. “Personajes de Aldo Rossi”, em Carrer de la

por dezenas de enormes caixas-blocos de habitação coletiva que,

ciutat 12, 1980.

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1] 2] e 3] Santiago Calatrava: escultura e arranha-céu Turning Torso, Malmö, Suécia, 2005. 4] Santiago Calatrava: arranha-céu 80 South Street, Nova Iorque, 2003. Perspectiva do projeto e 6

detalhe de modelo 3D. 5] Rem Koolhaas-Oma: torre de 52 andares, Jersey City, 2006. 6] Rem Koolhaas-Oma: urbanização The Interlace, Singapura, 2008. 7] Dominique Perrault: Banco Central Europeu, Frankfurt, 2003. <www.perraultarchitete.com/>. 8] MVRDV: conjunto habitacional El Mirador, Madri, 2005.

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PESQUISA  | Escala

ARQUITETURAS OBJETUALIZADAS WoZoCo & Dosmasuno O projeto de habitações sociais WoZoCo do MVRDV (1994-1997) [1.14/50, 51] tem janelas e portas como qualquer outro edifício de seu tipo. Os materiais que afloram resultam familiares. Está claro que se trata de um edifício, de uma arquitetura. Porém, sobre a fachada norte projeta-se uma extensa série de volumes de grandes dimensões. O que de certa distância era anunciado como varandas, de perto são prismas do tamanho de completas unidades que aparecem acopladas milagrosamente como se estivessem imantados sobre a superfície do bloco regular que estrutura a composição. Esta hipótese estrutural, verossímil na escala dos pequenos objetos, torna-se altamente improvável na escala arquitetônica. Mesmo que saibamos que “existe truque”, não podemos deixar de perceber o conjunto com a liberdade compositiva de quem brinca com blocos didáticos. A fusão de códigos visuais tectônicos e objetuais instala uma sugestiva ambivalência de identidade e escala. Um recurso formal análogo é utilizado pelo escritório madrilense Dosmasuno para o conjunto residencial de Carabanchel (2003). Enquanto a fachada externa do bloco habitacional está resolvida com uma superfície plana e uma textura visual regular e uniforme, a face interior está eriçada de volumes de diferentes tamanhos e proporções que, como gavetas de um arquivo, projetam-se fortemente para fora do volume principal do edifício.

1

LIVING ROOM Um projeto singular do Escritório Seifert + Stöckmann ergue-se na pequena cidade de Gelnhausen, na Alemanha. “Living Room” (1999-2004), de igual modo que a “Casa Rudin” (1997) de Herzog & de Meuron recorre à volumetria arquetípica da casa como imagem e registro inconfundível de sua função. Seu invólucro está pautado pela textura regular de um tabuleiro de xadrez de cheios e vazios que reformula a estrutura tradicional esperável de aberturas e reveste toda sua superfície, cobertura incluída. Se bem que as “janelas” apareçam individualmente com o tamanho habitual, o sistema não hierárquico e sua disposição regular e extensiva fazem com que o volume apareça como um pedaço de queijo geometricamente perfurado. De repente, e sem prévio aviso, um setor na parte superior da fachada principal, em frente a uma pequena pracinha, começa a se mover. Uma grande “gaveta” emerge, deslizando a partir do interior do volume, e projeta um cômodo inteiro em direção ao exterior, a céu aberto. Camada sobre camada, signo sobre signo, acumula-se informação que desafia a tectonicidade da obra e é pouco menos que inevitável percebê-la como um artefato subitamente aumentado de tamanho em meio da textura urbana tradicional do bairro. Poucos elementos encontram-se tão indissoluvelmente ligados à imagem do móvel como a gaveta. Poderíamos dizer que basta que algo tenha gavetas para que seja identificado como uma peça de mobiliário. As imagens recorrentes de Salvador Dalí nas quais

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1] A coluna em ruínas na paisagem. François Barbier: pavilhão em forma de coluna em ruínas para François Nicolas Henri Racine de Monville, Jardins du Désert de Retz, 1771. 2] Frederic Passy e família, donos entre 1856 e 1936. Foto de 1910 com conjunto de janelas no quarto andar e a incorporação de uma cobertura plana. 3] Thomais Kemmer: modelo 3D da proposta para o concurso do Edifício do Chicago Tribune, 1922. <www.workshop-archiv.de/kemmer/kemmer_t.html>. 4] Seção transversal conforme registro em Jardins anglo-chineses de George Le Rouge, 1785. 5] Agya Dinami: século XVI, Atenas. A pequena igreja ficou localizada sob o atual Ministério de Educação e Cultura da Grécia.

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alguns de seus personagens estão cheios de pequenas gavetas entreabertas, como símbolo de sua essência interior, são eloquentes deste fato (e, além do mais, as gavetas sempre escondem algo em suas entranhas).

AGIA DYNAMI Quando se decide a construção do atual edifício do Ministério de Educação e Cultura da República da Grécia, no terreno previsto no centro de Atenas, erigia-se, desde o século XVI, uma pequena igreja, a Agia Dynami. A nova torre decide “se arregaçar” e liberar parcialmente sua planta inferior para conservar a relíquia arquitetônica e cultural. O resultado ostenta um contraste dimensional e expressivo extremo entre a preexistência e o novo edifício, que modifica completamente a percepção da igreja, que hoje brilha como uma miniatura, um souvenir agigantado, um pequeno objeto em meio a um entorno cuja escala e textura espacial urbana são absolutamente estranhos a ela. A descontextualização extrema, a ausência total de referências originais isola a construção e a transforma – embora, apesar de sua evidente figuração – em um pequeno objeto “perdido” entre as extremidades de seus maiores, assomando entre os pilares da torre, em meio da paisagem que a arquitetura nos devolve hoje.

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FUSTE A coluna é um componente inerente à linguagem da arquitetura, e pelo mesmo motivo tectônico por natureza. Elemento essencial da tradicional estrutura de pórticos com associações antropomórficas, sua presença refere-se a conteúdos semânticos, formais, construtivos, estruturais e estáveis, funcionais e históricos. Em troca, sua presença isolada esvazia boa parte de seus conteúdos e os condensa no signo, na imagem sintética e representativa “do arquitetônico”. Transforma-o em um objeto icônico. Caso, além disso, a coluna seja habitada, como no pavilhão (ruína colossal) que François Barbier projeta para o Barão de Monville (Jardins du Désert de Retz, 1771) ou na proposta para o edifício do Chicago Tribune de Adolf Loos (Chicago, 1922), então teremos como resultado um componente arquitetônico transformado em objeto e através de sua função devolvido novamente ao universo arquitetônico. Seu valor comunicacional e autonomia de signo são tais que, apesar de estar cumprindo um papel essencialmente arquitetônico, como o de refúgio ou moradia, as propostas de Monville e Loos não podem, neste caso, deixar de ser percebidas como objetos colossais “arquiteturizados”(ou como arquiteturas fortemente objetualizadas). As escrivaninhas, aparadores ou móveis de uso misto que combinam superfícies de apoio e espaços para guardar costumam incluir em

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1] e 2] Joe Colombo: Mini-Kitchen, 1963. Reedição revisada, 2007, Boffi. 3] Salvador Dalí: “Vênus de Milo com gavetas”, 1936, detalhe. 4] e 5] Hans Peter Wörndl: Pavilhão Güklhupf, Viena, Áustria, 1993. Série fotográfica: Paul Ott. 6] Eileen Gray: móvel auxiliar com gavetas pivotantes para escritório de arquitetura, 1925.

121 x 205 x 49 cm. Coleção particular, Bruxelas. 7] Steven Holl + Vito Acconci: Storefront Gallery for Art and Architecture, Nova Iorque, 1993. 8] Combinado: rádio-tocadiscos décadas de 1950-1960. 9] e 10] Dominique Perrault: Centro Olímpico de Tênis, Madri, 2009.

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PESQUISA  | Escala

sua composição muitos elementos móveis: portas de abrir ou

Aníbal Parodi Rebella é doutor em Arquitetura pela

corrediças, planos de apoio ampliáveis, gavetas deslizantes,

ETSAM-UPM, Espanha, e arquiteto pela Universidade

elementos basculantes ou rebatíveis. Algumas vezes esta qualidade

da República, Uruguai, onde desempenha seu

flexível e transformável, característica das peças de mobiliário,

trabalho docente.

é reformulada em projetos de arquitetura aproximando identidades estéticas e lógicas de funcionamento. Caso confrontemos algumas peças de equipamento de rara beleza, como a escrivaninha que Eileen Gray projeta para si mesma em 1925 ou o carrinho-minicozinha de Joe Colombo (1963) [1], com a renovação da fachada da Galeria Storefront em Nova Iorque (Steven Holl e Vito Acconci, 1993), o Pavilhão temporário GuckHupf (Hans Peter Wörndl, 1992), ou inclusive com a Caixa Mágica de Dominique Perrault (Centro Olímpico de Tênis, Madri, 2002-2009) [1.14/67, 68], para tomar alguns exemplos de arquiteturas de dimensões bem diferentes, poderemos constatar como a marca objetual própria do móvel está presente em todos eles.

NOTAS [1] A minicozinha é um dos componentes apresentados sob a

denominação de Total Living Units na 13ª trienal de Milão de 1964, obtendo a medalha de ouro. O projeto original em aço e madeira foi reeditado recentemente em Corian branco. 3

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4 1] Dosmasuno: conjunto habitacional em Carabanchel, Madri, 2003. <www.dosmasunoarquitetos.com/>. 2] Salvador Dalí: “Cidade de gavetas”, ou “ O contador antropomórfico”, 1936. Óleo sobre madeira, 25,4 x 44,2 cm. 3] e 4] Seifert+Stöckman: Living Room, 1999-2004 <http://www.formalhaut.de/>. De repente e sem prévio aviso, um setor na parte superior da fachada principal, em frente a uma pequena pracinha, começa a se mover. Uma grande “gaveta” emerge, deslizando a partir do o interior do volume, e projeta um cômodo inteiro em direção ao exterior, a céu aberto. Camada sobre camada, signo sobre signo, acumula-se informação que desafia a tectonicidade da obra e é pouco menos que inevitável percebê-la como um artefato subitamente aumentado de tamanho em meio à textura urbana tradicional do bairro. 5] e 6] MVRDV: unidade habitação WoZoCo, Amsterdam, Holanda, 1994-1997. <www.mvrdv.nl/>.

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FRAGMENTOS  | Projetos

UM AUTÊNTICO CAMPUS O projeto de Machado & Silvetti para o novo campus da Universidade Germano-Vietnamita (VGU), em Bình Duong (Vietnam), propõe uma multiplicidade de situações urbanas.

O plano diretor, produto de um concurso internacional realizado em 2013, sugere uma organização espacial flexível e pode ser construído em etapas. Compreende uma área de 50,5 ha e 327.000 m2 cobertos. Machado & Silvetti receberam também o encargo dos edifícios a construir. Uma vez concluído, abrigará aproximadamente 12 mil estudantes que poderão participar de diversos programas de estudo enfocados em ciência e tecnologia avançada. “O objetivo é promover um projeto denso e compacto que tenha como resultado um campus com uma presença formal muito forte, um campus que funcione como um povoado acadêmico ou uma ‘cidadela acadêmica,’ ocupando e definindo um distrito urbano...” Pode ser transformado e usado em uma variedade de situações. É denso e compacto: não utiliza a totalidade da parcela disponível já que deixa um fragmento para desfrutar como espaço natural ou para seu futuro crescimento. A estrutura geral apresenta várias escalas e tipos de caminhos e passeios e, somados a uma diversidade de edifícios, conformam âmbitos únicos com qualidades espaciais específicas. O térreo, inspirado nos jardins do Vietnam, formula um parque contínuo livre e que é possível ser percorrido em todas as direções com locais destinados a atividades comunitárias. A proposta de vegetação consiste em um sistema de acessos e pátios no qual os espaços verdes promovem a aprendizagem ao ar livre e a interação social. A estrutura da paisagem está disposta conforme quatro tipos:

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perímetro verde e azul, área central, pátios e campo de sonhos. Em cada um deles, a relação com a natureza varia, desde lugares de sombra e proteção solar até amplas reservas naturais. Um percurso pedestre coberto rodeia um extenso espaço comum repleto de vegetação no centro do conjunto e se expande como uma rede por todo o lugar. Os edifícios residenciais e acadêmicos mantêm semelhanças formais, porém variam em tamanho e cor. A biblioteca, a sala de leitura e os edifícios cerimoniais diferem uns dos outros e se consolidam no conjunto. Apresentam um campus que busca ficar na memória coletiva da comunidade como um oásis de aprendizagem, fácil de recordar e único, onde o conhecimento se dá nas condições

mais apropriadas e agradáveis, e que todos desfrutarão a partir de seus anos formativos em adiante. do memorial dos autores

Localização: Bình Duong, Vietnam Site: www.machado-silvetti.com Equipe de projeto: Projeto geral: Machado and Silvetti Associates, Boston, MA, Estados Unidos Arquiteto local no Vietnam: Hoang Giang Construction Consultant, Ho Chi Minh City, Vietnam Arquitetura paisagística: Grant Associates, Singapore and Bath, Reino Unido Engenharia: ARUP North America (Boston) & ARUP Vietnam

Conceitos chave

1. Densidade

2. Térreo livre e cobertura contínua

3. O centro do campus

O programa do campus é condensado para conseguir uma densidade semiurbana. Isso libera porções da área para reservas naturais e programas especiais.

O térreo é extremamente poroso, proporcionando o movimento sem obstáculos. Uma grande cobertura sobre a local protege as pessoas da chuva e do sol.

Áreas acadêmicas, residenciais e de lazer rodeiam o Centro do Campus, o qual se converte em uma área comum onde todos se reúnem, aprendem, jogam e participam da vida universitária.

1


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1] O Campo de Sonhos 2] Percurso coberto no centro

do campus 3] Comércios e edifícios residenciais 4] Centro do campus

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Relações formais urbanas 5

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Linhas de estrutura urbana

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N

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Sequência de acesso norte

N

Axonometria geral

Planta de coberturas Quarteirões residenciais

N

1. Praça da administração /  2. Pátio de acesso /  3. Áreas comuns /   4. Praça residencial /  5. Parque de ciências e exposições /  6. Aldeia acadêmica /   7. Pátio acadêmico /  8. Campo de jogos

O plano diretor do campus de VGU é um conjunto das distintas camadas aqui apresentadas. O espaço público livre e poroso encontra-se abaixo de uma grande áreas coberta situada em uma altura de 4 m, sobre a qual a massa dos edifícios está localizada.

Setor administrativo e acadêmico

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fragmentos  | Notícias

REFÚGIOS SINGULARES

foto: cortesía de gustavo penna

Em Krumbach, uma pequena comunidade na Áustria, aconteceu o BUS:STOP Krumbach, um projeto para construir pontos de ônibus desenhados por arquitetos de várias partes do mundo. Alexander Brodsky (Rússia), Rintala Eggertsson Architects (Noruega), Architecten de Vylder Vinck Taillieu (Bélgica), Ensamble Studio, Antón García-Abril, Débora Mesa (Espanha), Smiljan Radic (Chile), Amateur Architecture Studio, Wang Shu, Ly Wenyu (China) e Sou Fujimoto (Japão) foram os arquitetos que fizeram parte deste projeto, acompanhados por colegas locais. Foram realizadas também duas exibições para contar a história do projeto em VAI (Vorarlberger Architektur Institut), Dornbirn e em Architekturzentrum Wien, Viena (Áustria). O refúgio projetado pelo arquiteto chileno Smiljan Radic é uma pequena caixa transparente.

www.kulturkrumbach.at

GRANDE PRAÇA COBERTA O arquiteto brasileiro Gustavo Penna (GPA&A) desenvolveu o projeto vencedor da licitação pública para o novo Centro Administrativo de Belo Horizonte (Brasil). A proposta consiste num edifício transparente, com linhas horizontais, que tenta preservar a fachada da antiga estação de ônibus. Também projeta uma grande praça coberta para integrar quem passeia pela cidade. O edifício comportará até 10 mil pessoas e pretende favorecer o transporte público ao integrar-se com os sistemas de metrô e ônibus e as ciclovias.

www.gustavopenna.com.br

foto: ©iaac (instituto de arquitetura avançada de catalunha), ece tankal, efilena baseta, ramin shambayati

foto: © 2014 adolf bereuter

CINEMA E CIDADE Arqfilmfest, o festival de cinema e arquitetura de Santiago do Chile (Chile), lançou “A cidade é...”, terceira competição internacional de curtas metragens e longas metragens centrados na arquitetura, no ambiente urbano e na cidade. Acontecerá em outubro de 2015 e serão exibidos os trabalhos selecionados dentro das categorias: ficção, documental, experimental e registo de arquitetura para curtas metragens e documental para longas metragens. A recepção das obras começou dia 20 de julho de 2014 e terminará dia 30 de março de 2015.

www.arqfilmfest.cl

foto: cortesía de arqfilmfest

GEOMETRIAS TRADUZIDAS Translated Geometries (Geometrias Traduzidas) é um projeto do IaaC (Instituto de Arquitetura Avançada de Catalunha, Espanha). A equipe de investigação integrada por Ramin Shambayati, Efilena Baseta, Ece Tankal propõe, neste desenrolar, “uma arquitetura de transição. Uma série de transições entre as forças (materiais), fases, pessoas, espaços e funções”. Trabalharam com polímeros com memória de forma (SMP), um material que pode mudar de fase com um estímulo externo e controlado ao ser exposto ao calor, com o objetivo de aplicá-lo a um protótipo arquitetônico sensível. A partir de um desenho de tesselação triangular, geraram uma geometria que tem a capacidade de deformar-se ou de expandir-se numa determinada forma desejada a partir das forças aplicadas.

www.iaac.net

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PONTE TRANSPARENTE

foto: © atelier peter zumthor & partner

Los Angeles County Museum of Art (LACMA) tem um novo projeto para a sua coleção permanente. Peter Zumthor, responsável pelo projeto, propõe um novo olhar sobre o sentido e a função de um museu enciclopédico e a relação da arquitetura com o lugar. Segundo a proposta, uma estrutura transparente e repleta de curvas atravessa o bulevar Whilshire, em Los Angeles.

www.lacma.org

foto: marcelo scandaroli

CIDADE SEM RASTO

VENCEDOR PRÊMIO ROGELIO SALMONA 2014 A Fundação Rogelio Salmona (Bogotá, Colômbia) apresentou o vencedor da Primeira Edição do Prêmio Latino-americano de Arquitetura, Rogelio Salmona: espaços abertos/espaços coletivos. O prêmio reconhece aquelas obras que põem em valor a arquitetura como conformadora do espaço público, dos lugares de identificação dos cidadãos. O vencedor, eleito entre 21 obras de quatro regiões da América Latina, foi o Edifício Projeto Viver, em São Paulo, de FGMF Arquitetos (Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz). O júri também outorgou três Menções Honrosas às obras: Campus Urbano Universidade Diego Portales, em Santiago do Chile (Chile), dos arquitetos Mathías Klotz, Ricardo Abuauad; Conjunto Parque dos Desejos em Medellín (Colômbia) do arquiteto Juan Felipe Uribe de Bedout; e o Centro Cultural Palácio da Moeda e Praça da Constituição, em Santiago do Chile (Chile), de Undurraga Devés Arquitectos (Arquitecto Cristián Undurraga Saavedra).

www.fundacionrogeliosalmona.org

“Burning Man” (Homem ardente) é um evento anual de sete dias que acontece no deserto de Black Rock, Nevada (Estados Unidos) em que centenas de artistas criam suas instalações psicodélicas, luminosas e interativas que, ao fim do festival, são queimadas. Este ano aconteceu na última semana de agosto. A organização Burning Man constrói, para cada edição, “Black Rock City” (BRC), uma cidade temporal que é logo desmontada, destacando seu interesse pela arte “leave no trace” (sem deixar rasto). O nome do festival deve-se ao fato de que no ritual de sábado, pela noite, queima-se uma escultura de madeira gigante em forma de homem. Além disso, constrói-se um enorme templo de madeira onde os participantes deixam fotografias e notas em comemoração aos seres queridos falecidos. No último dia, o templo é queimado em completo silêncio, que contrasta com o acontecimento da queima do homem, uma grande festa. O espírito de comunidade, arte, expressão e autossuficiência é um dos princípios deste evento que, ano após ano, convoca ao redor de 60 mil pessoas que empreendem a viagem ao deserto para participar no festival.

www.burningman.com IX BIAU EM ROSÁRIO foto: ignacio santos agote

Na cidade de Rosário (Argentina), aconteceu, de 13 a 17 de outubro, a IX Bienal Ibero-americana de Arquitetura e Urbanismo (BIAU). O seu programa incluiu a apresentação dos trabalhos selecionados nas distintas seções da convocatória, uma série de conferências magistrais, apresentações especializadas e mesas de debate. Dentro de numerosas apresentações, a obras, publicações, investigações e vídeos foram premiados. Também se entregou o Prêmio Ibero-americano, que supõe um reconhecimento aos arquitetos, entidades ou coletivos que tenham desempenhado um trabalho exemplar no campo da arquitetura e urbanismo do ponto de vista estético, funcional, social, técnico, econômico ou ambiental. Neste caso, o vencedor foi o arquiteto venezuelano Fruto Vivas.

www.ixbiaurosario2014.org

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FRAGMENTOS  | Leituras

EJITAAAALIANO…* POR FERNANDO MARTÍNEZ NESPRAL

CONTRIBUTI ITALIANI ALL'ARCHITETTURA ARGENTINA PROGETTI E OPERE TRA IL XIX EL IL XX SECOLO

APORTES ITALIANOS A LA ARQUITECTURA ARGENTINA PROYECTOS Y OBRAS EN LOS SIGLOS XIX Y XX Stefania Tuzi e Mario Sabugo (compiladores) Editorial: Tipografia del Genio Civile Roma, 2013 20,50 cm x 20,50 cm, 198 páginas (em espanhol e italiano)

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Sei que não é “politicamente correto”, mas desde que tive em minhas mãos o livro compilado por Stefania Tuzi e Mario Sabugo, não posso tirar da minha mente a lembrança daquele brilhante sketch que Eddie Pequenino e Alberto Olmedo realizavam nos idos dos anos 80, no qual o primeiro representava um “empreiteiro” italiano que, acompanhado por um “laboratore” cordobês – encarnado por Olmedo –, dedicava-se semana após semana aos mais variados ofícios. O sketch focava-se nos preconceitos, pois o “italiano” Pequenino mostra-se como um falastrão prepotente cuja verborragia vazia deve ser “traduzida” pelo “cordobês” Olmedo, que logo esclarecia com o típico sotaque de “la docta” que a inexplicável linguagem do “empreiteiro” deve-se a que este “ejitaaaaliano” (é italiano). Paralelamente, o operário, ainda que lacônico e eficiente, termina sendo menosprezado por seu chefe, que o define como “el cabecita que complicano tutto”. Independentemente das críticas mútuas, ambos os personagens careceriam de graça sem o outro e em todo momento mostram-nos a profunda imbricação entre italianos e argentinos que caracteriza nossa sociedade. É que o humor trabalha sobre os estereótipos e, portanto, um “correto” esquecimento das rispidezes deste caso também deveria se aplicar às piadas de galegos, ao Manolito de Quino, ao humor “russo” de Marcos Zucker ou, para os mais memoriosos, ao do “turco” Alí Salem de Baraja. Porém, com esse esquecimento estaríamos esquecendo-nos também de nós mesmos, pois todos eles, Pequenino incluído, eram argentinos que, como o texto que hoje comentamos, falavam-nos de nossa própria idiossincrasia multicultural. O livro compilado por Tuzi e Sabugo tem, pois, a rara virtude de recordar-nos algo que na realidade já sabemos, mas que como todas as coisas que por sua transcendência temos internalizadas, faz-nos quase sempre invisível, como a água que rodeia o peixe sem que a veja. E é que a partir de Blanqui e Tamburini a Tedeschi ou Testa, passando por Meano, Colombo e Palanti, não é possível compreender nossa arquitetura sem seu componente italiano. Gosto da palavra “componente”, e me interessa destacá-la, pois acredito que deveria ser usada

na crítica arquitetônica substituindo mais de uma vez a “influência”, e o caso que nos ocupa é um exemplo paradigmático. A “influência” é a ação de um agente externo, enquanto que um “componente” é parte integral e íntima de algo. Certamente, assim como um pudim não está “influenciado” pelos ovos ou pelo leite, nossa cultura e, consequentemente, nossa arquitetura não estão influenciadas senão integradas pelo italiano. Desfilam pelo livro uma vintena de artigos de autores provenientes dos Apeninos e dos Andes, como definiu D’Amicis, que versam sobre arquitetos e arquiteturas tão diversos como os já mencionados e cuja obra se estende desde o período colonial até o presente, sobre tipologias como o cortiço e sobre o patrimônio arquitetônico ítalo-argentino. Pelo amplo e completo converter-se-á, sem dúvida, em referência obrigatória para aqueles que desejem se informar ou aprofundar em uma temática tão ampla como presente em nosso meio. Por outro lado, o livro, editado em Roma em 2013, é o reflexo da cooperação entre a FADU/ UBA através do Instituto de Arte Americano, que é dirigido por Sabugo, e da Faculdade de Arquitetura da Universidade da Sapienza, através de seu Departamento de História, Design e Restauração de Arquitetura, dirigido por Francesco Fiore, e conta com todos os textos completos em espanhol e italiano mais os respectivos abstracts em inglês, com os quais se converte em um atrativo produto editorial capaz de ser difundido nos mais diversos âmbitos. Para concluir, quero recordar que, como foi dito mil e uma vezes, os argentinos “somos italianos que falamos espanhol” e este livro lembra-nos, como diz o título do artigo de Tuzi, que “a arquitetura argentina fala italiano”. Nota do tradutor: * Ejitaliaaano: transcrição literal de “é italiano” conforme se é falado com sotaque da Província de Córdoba, Argentina. Fernando Martínez Nespral é Dr. Arq. pela Faculdade de Arquitetura, Design e Urbanismo da Universidade de Buenos Aires. É membro do Instituto de Arte Americano e Pesquisas Estéticas Mario J. Buschiazzo.


FRAGMENTOS  | Cadernos de viagem

LA BOCA DO RIACHUELO EM PAPEL TEXTO E DESENHO POR IGNACIO ROS DE OLANO

E foi por este rio de sonolência e de barro que as proas vieram a fundar-me a pátria? (…) Prenderam uns ranchos trêmulos na costa, dormiram estranhados. Dizem que no Riachuelo, (…) Jorge Luis Borges, “Fundação mítica de Buenos Aires”

Foi Dom Pedro de Mendoza que, na vizinhança deste fio de água sobre a planície bonaerense, entre seus solos alagadiços e espessos matagais, desembarca e funda a primeira cidade de Santa Maria de los Buenos Aires em 1536, em algum lugar das proximidades, entre La Boca e Parque Lezama, a qual logo após abandona em 1541. Quatro décadas depois, Juan de Garay implanta a nova fundação da cidade (1580), sendo a boca do Riachuelo seu porto natural até a construção de Porto Madero (1880-1897). O porto, a atividade comercial e industrial, a construção de estradas e o traçado ferroviário dão impulso ao processo de crescimento de La Boca, anexada ao processo de urbanização metropolitana nas últimas décadas do século XIX, sustentada em um alto crescimento populacional e um alto adensamento territorial. O estabelecimento de mercadores e navegantes, logo após imigrantes e trabalhadores, conformam um bairro marinheiro e proletário; chegados de Gênova e de toda a Itália, às vezes bascos e galegos, também croatas e gregos, inclusive árabes e turcos, formam nutridas

coletividades, em sua maioria de origem mediterrânea. Autêntico bairro “portenho”, o caráter de sua paisagem urbana está determinado por seus cais e ancoradouros, arsenais de reparação de barcos, carpintarias navais, barracas e depósitos de mercadorias, saladeiros, curtumes e precárias indústrias que se estendem nas margens do Riachuelo junto a moradias de operários. Formam uma frente contínua construída ao longo da costa, como um mosaico de diferentes edificações que se agregam ao cenário original. A partir do século XIX, quando La Boca ainda é um povoado de campo aberto de escassas casas esparramadas desde o Riachuelo, aproveitam-se os terrenos baixos da vizinhança, elevando suas casas como palafitas, sobre postes de madeira, por causa das frequentes inundações, produto do Sudestada (vento proveniente do sudeste). Predominam as casas, de variadas alturas e afastamentos, de estrutura leve de madeira, com fechamentos laterais de tábuas horizontais exteriormente recobertas de chapas de zinco acanaladas, erguidas sobre estacas de madeira e com escadas exteriores do mesmo material. Um alto porcentual dessas casas são inquilinatos, chamados “conventillos” (cortiços), habitadas por várias famílias. Cada uma delas ocupa um quarto, compartilhando espaços de uso comum como pátios, serviços sanitários, cozinhas e lavanderias. La Boca, organizada em relação com o movimento do porto do Riachuelo, a partir

de meados do século XX experimenta um processo de esvaziamento ao qual se soma um processo de degradação agravado com a desativação do porto e com o progressivo fechamento de grande parte das indústrias da zona. Marcas de uma arqueologia industrial de tecnologia obsoleta; depósitos e galpões desertos geram uma estranha quietude de fábricas abandonadas, de pontes suspensas e enferrujadas entre margens indefinidas, dezenas de barcos afundados e uma grande contaminação por resíduos e sedimentos depositados no leito do rio, que provocam mal-estar e nostalgia de um futuro frustrado. Nas últimas décadas, sucessivas estratégias de recuperação ambiental e urbana da ribeira do Riachuelo e controle das inundações propõem o saneamento de seu leito; o resgate de seus valores paisagísticos na aplicação de programas de manutenção e valorização do patrimônio edilício, recuperando a característica portuária do Riachuelo, junto a programas de fomento da residência, e radicação de atividades comerciais, culturais e produtivas que recobrem sua notável identidade na configuração da nova paisagem. Desenho desde a beira rio da Vuelta de Rocha, uma composição condensada de instituições e monumentos, marcas de sua história, onde teatros, museus, galerias de arte, junto a cafés, bares, e clubes de tango, compartilham este “pitoresco” espaço urbano sobre a pequena embocadura, antigo ancoradouro do porto da Boca do Riachuelo.

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foto: ruth verde zein

FRAGMENTOS  | Insinuações

Museu dos outros POR RUTH VERDE ZEIN

Tout le monde a une seule vie qui passe, Mais tout le monde ne s’en souvient pas, (…) Tout le monde est une drôle de personne, Et tout le monde a une âme emmêlée, Tout le monde a de l’enfance qui résonne, Au fond d’une heure oubliée, Au fond d’une heure oubliée [Carla Bruni]

Filho póstumo e falhado da era Miterrand, aquele local estava destinado inicialmente a um centro de conferências e seminários; mudou-se o milênio e, pouca surpresa, virou museu. Ainda assim, manteve o caráter de lugar de encontros internacionais entre a civilização parisiense e o la bàs. Nesse terreno excepcional, um pouco além da sombra da Torre Eiffel, o edifício do museu organizou-se como pavilhão extenso, imenso péniche. Como um barco fundeado acima de um paliteiro de apoios, parece quase pronto para sair navegando pelo Sena que o faceia a norte. Mas está impedido de se mover por estar aportado em uns dedos-docas, que se ancoram na porção mais a oeste do lote curvo para abrigar as atividades internas, cotidianas e eruditas, de quem está no museu não por diversão, mas a trabalho. Uma primeira linha envidraçada define o alinhamento, solução já conhecida, mas ainda útil para se abrigar do frio vento boreal e do ruído e poeira da avenida marginal. Entra-se escamoteando-se, em percursos forçosamente curvilíneos, que sugerem a caminhada em mata cerrada, simulacro de aventuras nas terras ignotas, percorrendo caminhos que passam por baixo e chegam ao acesso por trás. Para visitálo, deve-se entrar e prosseguir por caminhos sinuosos, agora definidos por rampas que, embora longas, não se vislumbram nem se celebram de fora. O caminho engole, compassa e revoluteia de maneira intestina e, finalmente, despeja os visitantes na porção mediana do longo objeto-museu-pavilhão-exposição. Com esse truque, apesar de se entrar pela ponta, o circuito de visitação pode ser feito pelo centro, em círculo, ou laço, ou em forma de oito, ou de infinito: o ponto final da visita, se feita comme il faut, coincide com o inicial. Museus, os há cada vez mais no mundo. De assuntos raros, divertidos, estranhos, irrisórios,

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O Musée du quai Branly de Jean Nouvel, visto da Torre Eiffel.

surpreendentes e variados. Sem querer parecer ser demasiado ignara, pergunto-me se há tanto público assim para tantos museus. Deve haver, pois os museus não acabam mais de proliferar-se, multiplicar-se pelos quatro cantos e cinco continentes do planeta. Ou seis, se contarmos a Antártida – mas este, até onde pude averiguar, ainda está virgem de museus. Certamente, ainda apenas por pouco tempo. Outro museu: mais um. Para abrigar um conjunto de excepcional valor, reunido nos tempos em que o país que o sedia era um dos donos do mundo, e seus enviados, a ponta de lança cultural de um império comercial planetário. Coleções que resultaram de inúmeras viagens de muitos pioneiros, movidos pela ânsia insaciável do exótico e por uma ambiciosa intenção enciclopédica, que via a Terra como seu domínio e entendia ser sua obrigação catalogar tudo o que há. E depois, cuidadosamente guardar esse tout le monde em salas, caixas e gavetinhas fechadas e resfriadas, retiradas da correnteza da vida, suspensas no tempo. Principalmente para deleite dos sábios; mas também para exibição de poderio dos donos. Finalmente, quando talvez já não tenha como sustentar-se economicamente sem as prebendas do estado paternalista, abrem-se para apreciação do vulgo. Que agora pode, civilizada e abrigadamente, dar-se ao pausado desfrute de tantas excentricidades e esquisitices, belas e misteriosas. Sem precisar, por assim dizer, sair de casa. Curiosamente, trata-se de um museu sem nome. Ou cujo nome é aquele de um atracadouro urbano, em uma cidade do norte, nome que não coincide, nem tem a ver, nem revela coisa alguma sobre o conteúdo do museu. Os nomes dos museus quase sempre contam a que estes

vêm: museus de artes, museus de objetos, museus de coleções de trecos e cacarecos, museus de sítios arqueológicos, museus de história natural ou política etc. & tal. Enfim, museus são tantos que não podem evitar terem nomes adjetivados por natureza. Mas não neste caso. Era de se esperar que ali, em Paris, um museu novo – ou melhor, um novo edifício para um museu velho – tivesse que, por força, dizer a que veio. Se não por outro motivo, para atrair a atenção para si, em meio à balburdia de atrações inesquecíveis ali ao seu pé, e por toda parte ao seu redor. Evidentemente, seus organizadores confiaram no fato de que, seja o que conste na sua coleção, um novo museu se tornará um atrativo em si mesmo: os turistas virão em qualquer caso, independentemente do que contenha. Mas, quantos saberão, antes de visitá-lo – e agora se pode fazer isso tanto de fato, ou virtualmente – o que contém um museu cujo nome é apenas aquele de seu endereço – Quai Branly? O edifício em si mesmo dá poucas dicas, embora o pan de verre de seu primeiro muro transparente também sirva de panneau d’affichage, anunciando exposições e eventos. Na portada da visita virtual – que tende a ser a porta de entrada de um museu, mesmo quando se pretende em seguida visitá-lo fisicamente – tampouco fica evidente de que trata esse museu. A dica sutil comparece apenas no subtítulo, em letrinhas pequenas: là où dialoguent les cultures – acolá onde as culturas dialogam. Mas, pelo jeito, nem todas, nem com todas. O mapa ao canto da página de entrada esclarece que se tratam das culturas da África, América, Ásia e Oceania; mapa que se repete no começo do percurso quando já se adentrou o pavilhão, após subir a rampa. Continentes que de novo


excluem a Antártida, aqui por razões razoáveis – já que ainda (ou por enquanto) o continente gelado não exibe culturas próprias, nem as de cultivo, nem as sociais. Ainda assim, é notável perceber que falta um continente nessa conta: a Europa prima pela sua ausência. Ou, ao contrário, pela sua presença absoluta, já que está invisível apenas porque se coloca como centro de um mapa circular onde tudo o mais gira ao seu redor e dança sob sua batuta. Nestes tempos de “politicamente correto”, talvez o museu não tenha nome porque possivelmente se envergonhe, ou ao menos não queira se jactar, de ser de fato o museu das culturas dos outros. Ou seja, de nós, os que estamos là bas. E contadas por eles (não, evidentemente, por nós). De seu conteúdo, pouco saberia dizer de mais profundo. Como leiga, me parece estar bem organizado enquanto exposição. Permite um passeio brevíssimo em um “rio” central, que resume uma grande narrativa iluminista e grandiosa. Ou, para quem dispõe de mais tempo, pode ser visto em loop infinito, numa espécie de Grand Tour que passeia pragmaticamente pela geografia e evita o abismo positivista do tempo: singularmente, em parte alguma, ouve-se a voz do “primitivo”. Tudo é equalizado em um só tempo, talvez em sinal de respeito, ainda que tardio, pela pluralidade simultânea da criatividade humana. Mas as boas intenções das supostas nivelações de valor se traem no uso e abuso, nos textos do e sobre o museu, da palavra “aborígene” – ab origine, do começo. Exceto se o começo não for no passado, mas ocorra todos os dias e sempre (coisa que nosso ocidente “progressista” custa em entender e, mais ainda, em aceitar) trata-se, no fundo, do conceito de “primitivo”, travestido de forma a ser mais palatável. Mas eu não visito museus só para ver seu conteúdo. Frequentemente os visito apenas por seus edifícios. Se o conteúdo é interessante, tanto melhor; caso contrário, não me importo demais, pois já ganhei o que vim buscar. Confesso minha parcialidade, meu viés e, quem sabe, meu preconceito: dão-me prazer, primeiramente, as arquiteturas e as cidades onde se inserem. Não é bom nem ruim, é apenas uma forma bizarra de ver o mundo. Neste caso,

para que este museu, sem nome próprio qualificativo – provisoriamente aqui denominado “Museu dos Outros” – exista fisicamente, o edifício se projetou pelas mãos do arquiteto Pritzker 2008 Jean Nouvel (dele e de sua enorme equipe). O partido parece simples, quase banal, esquemático: pavilhão isolado e extenso, ancorado numa base que o ampara e situa em seu contexto. Compactam-se as variadas atividades cotidianas e não expostas do museu sob o convencionalismo de discretos e contextuais edifícios-doca, que se ancoram no trecho de quadra consolidada existente. Nestes, quase o único toque de distinção é o muro-cortina-jardim, que repete um mote já bem conhecido na obra de Nouvel e em outras referências, antigas, modernas e contemporâneas. Bem postos e ancorados os edifícios de base fazem, como devem, fundo e contraponto para que brilhe em tons de negro (como prefere seu autor, em quase todas suas obras) o pavilhão elevado sobre pilotis. No pavilhão das exposições, caixa preta de dupla altura, vazada, sombreada e elevada, o funcionalismo preside a organização dos fluxos de percurso, a variedade de situações é estimulada pela penumbra que vela e revela, pelos envoltórios que limitam e filtram, pela disposição dos objetos das coleções. De novo o tempo se interrompe, e assim é possível ver cada objeto detidamente, elaborar trajetórias mais ou menos rápidas, perder-se em labirintos que se formam apenas porque a superabundância de coisas acaba por confundir até o mais avisado visitante. Assim são os museus, e esse de maneira alguma é exceção. Mas a relativa simplicidade dos percursos e da volumetria do pavilhão pouco revela sobre a enorme complexidade construtiva da sua obra. A estrutura e a construção envolveram desafios complexos de cálculo e realização, exigindo uma performance excepcional de cada um dos materiais, detalhes e juntas especiais que são fundamentais para a correta montagem do conjunto. A estrutura brinca e subverte o bom e velho esquema Dom-ino ao deslocar as colunas pra lá e pra cá, de maneira geometricamente randômica; que, quais bailarinas embriagadas, confundem e atravessaram o ritmo regular das

passadas, ou no caso, dos vãos. Assim, sem que fique evidente, nem tudo o que ali está e que “parece” pilar, de fato apoia o que está acima: para compensar o desequilíbrio dos balanços variados, das caixas apensas ao norte, das falhas e quebras do perímetro ao sul, alguns deles atirantam. Nas idas e vindas, a triangulação da estrutura do pavilhão consegue definir seus limites em extensa curva, a meu ver um tanto deselegante, que se embarriga e se fratura em algum ponto, sem que se saiba exatamente porque o faz – e que, talvez, se fragmenta apenas para acrescentar algo ao silêncio da forma que nada pretende dizer. Na minha imaginação, essa curva meio tosca parecia o traço de uma criança inteligente, que leva certo jeito para o desenho, embora ainda sem prática de lidar com as curvas, mas que nelas insiste porque, talvez, gostaria de ser Niemeyer um dia quando crescer. Outra viagem da minha imaginação brota da apreciação do aparente monolitismo pulcro dessa caixa tão ao gosto das arquiteturas das primeiras décadas do novo milênio, mas cujas entranhas revelam um desafio inaudito para os engenheiros e construtores: ecos do high tech dos anos 1970, esse filho bastardo do brutalismo dos anos 1960. Mas parece que hoje essa vontade de músculos precisa restar semioculta, e busca não ser desvelada, exceto pelos olhos de quem vê o que vê. Obs.: visitei este museu em 2013 com minha filha Noemi, jornalista interessada em museus. Segundo ela, “o que mais me recordo desse museu não é a arquitetura, mas o que sempre me chama atenção em todos os museus: as maneiras de interação entre o conteúdo exposto e os visitantes. Por isso lembro-me do chão colorido, dos painéis com objetos, dos áudios e vídeos, dos nichos para sentar, dos textos e mapas de apoio, da sensação de estar em cada região de onde os objetos foram tirados, de pensar na época e circunstância de quando isso aconteceu. Enfim, lembro-me de estudantes, de casais, de famílias, de histórias, de culturas, de povos, alguns conhecidos e outros desconhecidos”. Achei que seu depoimento podia servir de contraponto ao meu excessivo viés arquitetoso...

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FRAGMENTOS  | Disquisições

A LUZ E A SOMBRA POR RAFAEL E. J. IGLESIA

Junichiro Tanizaki, grande autor japonês, escreveu O elogio da sombra [1], um texto no qual exalta os prazeres do habitar na casa tradicional japonesa. Para sua própria casa, conta-nos os problemas com os equipamentos, porque o “sistema dos objetos” contemporâneo – como Baudrillard gosta de dizer [2] – vai de encontro ao aconchegante e suave âmbito da casa japonesa. Para equipar um lugar, configuração espacial destinada a certa função, é necessário um espaço “arquitetônico” e um equipamento móvel que se integrem em um sistema habitacional. Daí as dificuldades do escritor para configurar um espaço habitável à maneira tradicional japonesa, equipado com artefatos ocidentais contemporâneos. O que fazer com o telefone? Onde colocar esse traste informe para a cultura oriental? Escreve Junichirö: “… Meu amigo, o dono do Jarakuen, que sabe muito de arquitetura, horroriza-se com os ventiladores”. O que dizer, então, das máquinas de lavar roupas, das geladeiras, dos fogões, que não são prescindíveis, como as cadeiras ocidentais. Exatamente, como Edward Hall, Amos Rapoport e Claude Levi-Strauss contaram-nos, a cultura se expressa nos âmbitos do viver e os produz. De modo que o mal-estar do escritor evidencia um encontro de culturas que aflora na silenciosa

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discordância entre artefatos e âmbitos. Uma amostra da crise da identidade cultural. Principalmente em um país que se destaca na produção e no design de artefatos domésticos. A ausência de cadeiras, a ocasionalidade das esteiras, as sutis e variáveis divisões dos shoˇji, e tantos outros aspectos da moradia japonesa não são o mesmo que as rígidas divisões espaciais, as claras diferenças funcionais dos lares do cotidiano ocidental. Junichirö queixa-se: “os que me deram maior dor de cabeça foram os aparatos de aquecimento (…) não há um só cuja forma possa se encaixar em uma casa japonesa”. O banheiro e os retretes também lhe causaram problemas. A nostalgia guia seu pincel (imagino as pinceladas da linda escrita japonesa) quando escreve que em algum monastério de Quioto “nos retretes, construídos à maneira de antigamente, semiescuras e, no entanto, de uma limpeza meticulosa, experimento intensamente a extraordinária qualidade da arquitetura japonesa”. Retretes que Junichirö considera “verdadeiramente concebido para a paz do espírito”. Ali, é possível contemplar a beleza do jardim e, conta-nos, desfrutar do prazer que a fisiologia brinda enquanto se olha para o céu. “Certa matiz de penumbra, uma absoluta limpeza e um silêncio tal, que o zumbido de um mosquito pudesse machucar

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o ouvido, são também indispensáveis (…) não parece disparatado pretender que é na construção de onde a arquitetura japonesa atingiu o apogeu do refinamento”. Refinamento que implica o prazer de escutar o som da chuva. Os ocidentais, especula, “deliberadamente decidiram que o lugar era sujo e nem sequer deveria ser mencionado em público”. Admite que os vasos sanitários ocidentais são mais higiênicos e mais fáceis de limpar, porém “já não possuem a menor relação com o refinamento ou o sentido da natureza”. A excessiva luz nos retretes ocidentais também incomodou o escritor, amante da suave luz das lanternas de papel. Considera a forte iluminação habitual desnecessária e hostil. Como é que o design pode se expressar na identidade cultural? Como a identidade cultural pode se expressar na forma das coisas? Em sua tese de doutorado, Ricardo Blanco elucubrou ideias sobre o design e a identidade cultural em busca do mesmo que Tanizaki: sentindo saudades de produtos industriais “mais adequados para nosso espírito nacional”. Obviamente, a cultura manifesta-se nas práticas sociais, na linguagem, nos gestos, nos valores


2 3 1] Capa do livro O elogio da sombra,de Junichirö Tanizaki. Madri: Siruela, 1994.   2] Hotel Imperial, F. LL. Wright,Tóquio, Japão, 1922.  3] O uso das divisões shoˇji na tradicional casa japonesa.

morais e tantas coisas que são a matéria prima com a qual se amalgama uma sociedade. Tanizaki encontra esse espírito nacional na sombra, na penumbra. Prefere o fosco ao brilhante. Outra coisa é o gosto ocidental por tudo o que reluz: brilhos e centelhas diamantinas que deleitam as pessoas. Gosto que o ensaísta inglês Aldous Huxley, sob o efeito de alucinógenos, relacionou com a imagem de um espaço sobrenatural: as “antípodas”. Imagem utópica de um mundo melhor e maravilhoso. Imagem que, na música de The Beatles e no filme “O submarino amarelo”, [3] estava magistralmente apresentada em “Lucy in the sky with diamonds”. E não somente ali, mas na reivindicada Las Vegas do pós-moderno Robert Venturi. A paisagem eletrográfica criticada por Tomás Maldonado. Tanizaki, em nome da cultura japonesa, abomina estes resplendores e seus deslumbramentos. Abomina os brilhos, principalmente todos os brilhantes instrumentos médicos. Lembra seus temores na cadeira do dentista, rodeado e ameaçado por reluzentes artefatos.

A penumbra das casas tradicionais japonesas embeleza as coisas, até o ouro reluz melhor na escuridão, “o uso que era feito do ouro laminado não é um luxo”, o ouro com sua centelha discreta revelava a profundidade da penumbra. Nas casas tradicionais nipônicas, o ouro supera a prata “porque ilumina a penumbra interior sem perder nada de seu brilho”. Resplendores, fulgores, iluminação ad nauseam empobrecem o gozo dos espaços de cafeterias, pizzarias e restaurantes iluminados a giorno com tubos fluorescentes. Basta comparar a penumbra dos velhos teatros kabuki (hoje também invadidos por luzes elétricas) com os espetáculos de rock onde enlouquecidos raios luminosos deslumbram e atordoam para evocar as antípodas de Huxley, também presentes em Las Vegas – mesmo que os roqueiros e os empedernidos jogadores experimentem sem o saber. Ruas luminosas de ouro transparente eram as da Cidade de Deus que São João vislumbrou no final dos tempos. No ocidente, as luzes coloridas foram utilizadas com sapiência nas catedrais góticas, porém as igrejas,

castelos e bibliotecas rococós abrumaram desaforadamente com sedutoras cores e luzes. E mais sutilmente, porém espetacularmente, o Pavilhão Alemão de 1929, em Barcelona, projeto genial de Mies van der Rohe, exorbitava em reflexos e brilhos dos mármores, dos vidros e do revestimento de chapa de aço inoxidável polido que envolvia as colunas de aço. A sombra que Tanizaki anseia, e que surpreendentemente reconheceu no Hotel Imperial que Wright projetou em Tóquio, acompanhava os artefatos tradicionais envolvendo-os de penumbra, porém dificilmente possa acompanhar os modernos artefatos ocidentais, importados, estrangeiros, nos leves e sossegados espaços da tradição japonesa.

NOTAS [1] TANIZAKI, Junichirö. El elogio de la sombra. Madri: Siruela, 1994. As citações textuais são deste livro. [2] BAUDRILLARD, Jean. El sistema de los objetos. México: Siglo XXI, 1969. [3] 1968, Diretor George Dunning, diretor de arte Heinz Edelmann.

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FRAGMENTOS  | Revelações

AS IGREJAS-TENDAS DOS MASSA LYNCH POR JUAN LÁZARA & MARIO SABUGO 4 1] Igreja de Jesus de Nazareth, Nueva Pompeya, CABA, Argentina. 2] Catedral de Zárate e Campana, Província de Buenos Aires, Argentina. 3] Paróquia de Nossa Senhora da Divina Providência, Nueva Pompeya, CABA, Argentina. 4] Retrato de os arquitectos gêmeos Benjamín e Patricio Massa Lynch. 1

Em meados da década de 1950, dois irmão gêmeos, ambos arquitetos, Benjamín Massa Lynch e Patricio Massa Lynch, seguiram o legado deixado por seu pai e colega, Carlos Ciriaco Massa, e continuaram construindo igrejas em diferentes localidades da Argentina. [1] Carlos Ciriaco Massa foi provavelmente o arquiteto com mais igrejas em sua trajetória dentro da arquitetura religiosa argentina e, paradoxalmente, uma das figuras que menos interesse despertou na historiografia da disciplina. [2] Após o prematuro afastamento de seu pai, os Massa Lynch herdaram a profissão, a clientela, os pedidos eclesiásticos e o hábito de projetar sucessivas versões de um modelo arquitetônico. Enquanto Carlos Ciriaco havia ensaiado uma espécie de neorromânico sintético ao longo de aproximadamente 70 projetos de igrejas, Benjamín e Patricio projetaram seus templos sob um padrão muito diferente: o das tendências renovadoras que pouco depois encontraram um adequado contexto doutrinário no Concilio Vaticano II. Por aquele momento, as plantas centralizadas substituíram as plantas alongadas e em forma de basílica, e as formas curvas tiveram revanche sobre as formas retas. Os telhados a duas águas deram passagem a esquemas parabólicos e outras geometrias inéditas, enquanto que as grossas paredes de ar medieval cederam seu lugar para lâminas esbeltas e flexíveis frequentemente continuadas nas coberturas. Sob o patrocínio da obra de Félix Candela e outras ilustres como a capela de Ronchamp (Le Corbusier, 1954) e a igreja na Autopista del Sol (Giuseppe Michelucci, 1961), multiplicaram-se as cascas, fossem parabólicas ou esféricas, não menos que os cones e as pirâmides. Inumeráveis ensaios específicos sucederam-se na escala colossal da Catedral do Rio de Janeiro (Edgar Oliviera da Fonseca, 1964-1976) e a Basílica de Guadalupe no D.F. mexicano (Pedro Ramírez Vázquez, 1974-1976), na escala média da Catedral de Avellaneda (Eduardo Galeazzi e outros, 1979-1984) e São Caetano de Belgrano (Rodolfo Berbery, 1965-1968) e na escala intimista e experimental de Claudio Caveri em Trujui (1958), Moreno (1971) e Ingeniero Maschwitz (2002).

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O impulso durou décadas, como o templo de Nossa Senhora de Loreto, de Oscar Burelli, ainda o demonstrou em 1993, na esquina de Coronel Diaz e French, na antiga parcela da Penitenciária da Cidade de Buenos Aires. [3] Independentemente das considerações litúrgicas, funcionais e tecnológicas, este triunfo das plantas centralizadas e das coberturas geometricamente complexas implicava uma recomposição simbólica, que abandonava a ideia hierárquica e tradicional do templo como nave, embora a interpretação de seus significados não fosse tão imediata. Fernando Aliata estudou com especial atenção o projeto enviado por Javier Sánchez Gómez e Justo Solsona para o concurso da Biblioteca Nacional, de 1962, supondo que este projeto aludia à imagem mítica da montanha, que previamente já teria inspirado os mesmos projetistas ao conceber as igrejas em Laprida e Venado Tuerto. [4] Se bem que neste contexto simbólico não seja prudente exagerar as diferenças, a este respeito também é plausível invocar a imagem da caverna e ainda mais a imagem da tenda, tão bíblica como qualquer uma e em busca da qual estas arquiteturas teriam deixado de lado o modelo do Templo de Salomão para recuperar as conotações nômades e efêmeras da Tenda de Moisés. [5] Dentro destes alinhamentos gerais, a obra dos Massa Lynch desenvolveu-se seguindo três esquemas. O primeiro esquema é a igreja-tenda em leque conforme a igreja de Jesús de Nazareth na Avenida La Plata 2258 (Buenos Aires, 1961) e a Catedral de Zárate e Campana (1966), ambas edificadas em substituição de edifícios prévios mais modestos e de tipo basilical. O segundo esquema, a pequena igreja-tenda quadrada, exercitaram-no em dois pequenos templos da Província de San Luis: a paróquia de Santa Rosa de Lima no povoado de Buena Esperanza e a capela de São João Batista na zona rural de Fortín, ambas terminadas em 1967. As duas são de planta quadrada, sem revestimento e de ar casablanquista. O terceiro esquema é a igreja-tenda parabólica, como se vê na paróquia de Nossa Senhora da Divina Providência, da congregação de Don Orione, na Rua Traful 3535 (bairro de Nueva Pompeya, Buenos Aires).

Enquanto Carlos Ciriaco Massa preparou a transição do medievalismo para o racionalismo, seus filhos gêmeos, os Massa Lynch, transitaram o caminho das igrejas esbeltas, curvilíneas e pós-conciliares avant la lettre. Suas obras constituem uma parte pertinente e significativa de uma história da arquitetura religiosa argentina que ainda está por ser escrita. Notas [1] Benjamín (1927-2014) e Patricio Massa Lynch

(1927-1986) foram filhos de Carlos Ciriaco Massa (1897-1980) e de Clemencia Lynch Frías. [2] O verbete “Carlos C. Massa” no Diccionario de Arquitectura en la Argentina (dir. LIERNUR, Jorge F. e ALIATA, Fernando, Clarín Arquitectura. Buenos Aires, 2004) reproduz, sem acrescentar uma vírgula, a ficha de La arquitectura del liberalismo en la Argentina (ORTIZ, Federico et al. Buenos Aires: Sudamericana, 1968). Vide também LÁZARA, Juan. “Las iglesias clonadas de Carlos C. Massa”, Summa+ 104; LÁZARA, Juan. Las iglesias encastilladas de Buenos Aires. Carlos C. Massa y la impronta ideológica del cardenal Santiago Copello en la arquitectura religiosa argentina (1932-1959), tese de mestrado (Mahcadu - Fadu- UBA), 2013. [3] PLAZAOLA, Juan. El arte sacro actual. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1965. [4] ALIATA, Fernando. “Simbolismo y modernidad. Un análisis del proyecto para el concurso da Biblioteca Nacional de Sánchez Gómez y Solsona”, em ALIATA, Fernando. Estrategias proyectuales. Los géneros del proyecto moderno. Buenos Aires: Sociedad Central de Arquitetos, 2013. [5] Éxodo 33, 7-9: “Moisés tomou a tenda e a ergueu fora do acampamento e a chamou Tenda da Reunião. Todos os do povoado que tinham alguma coisa que consultar saiam do acampamento para acudir à Tenda da Reunião. E quando Moisés saia para ir à Tenda, todas as pessoas se levantavam e cada qual permanecia em pé na porta de seu pavilhão, seguindo com seus olhos Moisés, até que ele entrasse nela. No momento que entrava, descendia a coluna de nuvem, e permanecia fixa na porta, e o Senhor falava com Moisés”.


FRAGMENTOS  | Texturas

ARQUITETURA NEUTRA POR ROBERTO FERNÁNDEZ

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1] Projeto para a Case Study House n° 6, “Omega House”, 1945, Richard Neutra. 2] Case Study House n°20, “Bailey House”, 1948, Pacific Palisades, EEUU, Richard Neutra. 3] Projeto para a Case Study House n° 13, “Alpha House”, 1946, Richard Neutra.

Aluno preferido de Adolf Loos, assistente do escritório de Erich Mendelsohn, admirador incondicional de Louis Sullivan – em cujo funeral conheceu Frank Lloyd Wright, com quem imediatamente trabalharia –; a trajetória do vienense Richard Neutra (1892-1970) chegou a o converter em referência substantiva nos anos 50 entre nós. Radicado definitivamente nos Estados Unidos a partir dos seus 30 anos, fez várias viagens pela América do Sul, que também registram sua certamente conturbada presença em Buenos Aires em uma data singular da história local – 17 de outubro de 1945 – e, após visitas várias, por exemplo a Punta del Este, onde conheceu Antonio Bonet e suas obras pós-corbusieranas, e também Eladio Dieste, com sua aura de audaz embora ao mesmo tempo artesanal estruturalista. A Embaixada dos Estados Unidos em Karachi – que Neutra iria construir em 1956, dentro do ecumênico programa para erigir embaixadas a cargo de europeus exilados, como BreuerHaia, Sert- Bagdá, Saarinen- Londres ou Gropius- Atenas – inclui abóbadas cerâmicas à catalã, provavelmente refluxo do tradicional efeito de influências do centro para as periferias e com certeza consequência das visitas do austríaco ao Uruguai. A primeira parte de sua estadia californiana foi bastante dura e mais precisamente teórica, com poucos encargos profissionais. Focado, como seu mestre Loos (ou o checo Sigfried Giedion), na suposta vanguarda produtiva mais que na estética dos Estados Unidos, em 1927 armou/produziu um livrinho que foi publicado em Stuttgart: Wie baut Amerika? Nele reproduzia o interesse pela inovação produtiva, então protagonizada pela indústria do automóvel, assim como alguns projetos teóricos influenciados por essas novas possibilidades técnicas como a “Casa One+Two” (1926) ou a “Ring School” do ano anterior: uma leve construção metálica circular ao redor de um pátio, carregada das transparências de seus

materiais hiperleves e dobradiços como o alumínio ou o plástico. Nessa época e ao longo da segunda metade dos anos 20, trabalhou quase solitariamente em um projeto teórico e utópico de urbanização residencial – “Rush City Reformed” – que recolhia a tradição do urbanismo de siedlung com viés da Bauhaus que Ludwig Hilberseimer havia construído. Neutra incorporava-lhe a marca do sociologismo empírico norte-americano e o interesse por analisar o programático mutável, como o crescimento e ulterior diminuição da moradia de uma família tipo, além de um precoce interesse pela suburbanidade. Essa ideia de subúrbio techno – que imantaria toda uma tradição de racionalistas forjados pelas ideias do vienense, desde Ralph Rapson a Craig Ellwood, Raphael Soriano e até Paul Rudolph – aproximou-o do projeto das “Case Study Houses” e até lhe deu a esquiva capa do semanário Time: no dia 15 de agosto de 1949, apareceu na capa seu rosto de bronzeado californiano, de branca madeixa flutuante e o preciso rótulo de seu perfil profissional com o título What Will the Neighbors Think? Pergunta que antecipava o reconhecimento político-jornalístico profético de Neutra. Seria ele quem pensaria – para as emergentes camadas médias do boom pós-guerra – a colonização tecnológica dos subúrbios mediante a mobilidade do carro e a parafernália de gadgets que as antigas empresas armamentistas (como General Eletric) agora ofereceriam para as paisagens do confort doméstico em sua necessária reconversão produtiva. À sua maneira, Neutra aproveitou os anos da Segunda Guerra para fazer experimentos com todos os materiais não estratégicos, como madeira de pinho, cerâmicos ou vítreos, ensaios projetuais que logo lhe seriam úteis para voltar aos metais e aos plásticos. O projeto CSH (Case Study House), do editor da revista Art&Architecture, John Entenza, implicou

o desenvolvimento, entre 1945 e 1966, de 36 residências – algumas não construídas – das que Neutra realizou as CSH6 (“Omega House”) e CSH13 (“Alpha House”) nos primeiros dois anos da experiência como uma espécie de pesquisa teórica. As casas estavam em um mesmo lote muito grande para duas famílias amigas e, em suas memórias, Neutra vincula-as com os não muito conhecidos quadros de um russo amigo de Wassily Kandinsky chamado Jawlensky, cuja peculiaridade era pintar uma e outra vez, com pequenas diferenças, um mesmo rosto. Em 1948, Neutra finalmente constrói uma das CSH, a 20, chamada “Bailey House”, em Pacific Palisades, não longe de outra CSH, em particular, da casa dos Eames, amigos e companheiros de estrada. O impacto de Neutra foi forte na América Latina e não somente no Sul, visitado várias vezes (assim como sua embaixada no Paquistão, talvez elabore motivos de Bonet, a quase falha Casa Oks deste também suporia referências a Neutra), senão também no México – com concomitâncias nas obras domésticas de Augusto Álvarez e Juan Sordo Madaleno –, no Brasil – com ressonâncias em obras de Oswaldo Bratke, o Libeskind polonêspaulistano – e até em Vilanova, e na Venezuela, onde constrói a Casa González Gorrondona, em Caracas, em 1963. Se a obra madura de Neutra é um canto à opulência suburbana – hoje seria um absoluto das arquiteturas de bairros fechados –, seus escritos também marcaram um espírito de modernidade crítica, como o texto de 1954 Survival Through Design (traduzido por Nueva Visión em Buenos Aires, em 1973, como Realismo Biológico. Un nuevo renacimiento humanístico da Arquitectura). Ali aparece a questão da paisagem e suas transformações regressivas e se insinua com força o tema da crise ecológica, nada menos que meio século antes de seu protagonismo atual, em mostra cabal de uma ideologia crítica, nada neutra.

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FRAGMENTOS  | Post Scriptum

Peter Hall PERCORRE BUENOS AIRES TEXTO POR MARCELO CORTI

Somente em um momento Peter Hall perdeu sua serenidade; foi quando o carro atravessou sob a Ponte Alsina pela 27 de Febrero e se deparou com a emaranhada volumetria de El Pueblito de Pompeya que cortava o caminho como uma qasbah (N. do E.) do Sul. O velho mestre exclamou algo entre o assombro e a incredulidade, para recobrar sua compostura alguns segundos mais tarde. Definitivamente, “nunca manejamos áreas urbanas do tamanho de Buenos Aires, nem do México DF ou de São Paulo. Londres tinha somente cinco milhões de habitantes quando Ebenezer Howard escreveu Garden Cities of Tomorrow. É como um monstro metropolitano que sempre se expande e se expande para a periferia. Parece como se você tivesse que correr para seguir o passo!”. Antes e depois de El Pueblito, Buenos Aires foi legível aos olhos do mais erudito e pragmático (“bom herdeiro dos filósofos britânicos”, diria Borges) dos urbanistas do século XX. Uma cidade com muitas pessoas vivendo na pobreza, ainda “um caso abordável para o tipo de urbanismo visionário que foi inventado na Europa há 110 anos”. Acredita que um regresso às origens sociais do urbanismo fosse imprescindível; lembrou-nos que Howard pensou suas cidades-jardim como uma nova forma física da urbanização, mas também como uma nova forma de desenvolvimento social, de empreendimentos cooperativos construídos pela população que as habitaria e conectados a um sistema maior ao que chamou a Cidade Social. “Planejava o aumento da renda para desenvolver uma espécie de Estado de Bem-estar local”. Claro está: estes modelos são possíveis somente em países igualitários. Aos suecos lhes resultou fácil implementá-los em meados do século XX, quando eram a sociedade mais igualitária que jamais havia existido. Esse era o modelo puro de Howard, porém, depois, os desenvolvedores comerciais construiriam uma perversão da ideia original: assentamentos aburguesados de commuters, bairros-dormitório.

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A gestão do Bairro Monteagudo, construída por uma organização militante de desempregados, pareceu-lhe uma versão contemporânea daquelas razoáveis utopias cooperativas. No outro extremo da cidade, o Bairro Parque Saavedra foi o mais parecido com a forma física das cidades-jardim que pudemos lhe mostrar. Aproveitamos para lhe dizer que essa relação entre ruas, praças, casas e pátios era uma síntese do genoma urbano de Buenos Aires. Apreciou a olho nu as diferenças entre o urbanismo de grandes pavilhões tal como o pensou no Bairro Grafa, em Los Perales ou no Simón Bolivar, em comparação com a Piedrabuena ou Lugano I e II. “Deveríamos ter densidades variáveis que forneçam o estilo de vida que as pessoas querem, reconhecendo as diferentes necessidades e as distintas idades. Os filhos vão embora da casa e buscam morar em alta densidade, especialmente próximo do centro das cidades, porque gostam desse estilo de vida, a interação. Por sua vez, quando formam famílias, quando têm 30 anos ou mais, vão se mudar de novo para um lugar de baixa densidade onde encontram melhores condições para criar seus próprios filhos. E quando ficam sozinhos de novo em casa, é provável que voltem para a cidade porque valorizam os serviços urbanos que o centro oferece”. Não existe um padrão fixo de vida, portanto não deveria existir somente uma forma de morar na cidade. “Estocolmo e Friburgo construíram comunidades de densidades mistas durante os últimos dez anos. São condomínios de quatro ou cinco andares que convivem com casas unifamiliares e alguns edifícios de apartamentos ao redor de espaços verdes, jardins e grandes hortas comunitárias. Ao visitar estes lugares encontra-se um mundo maravilhoso, particularmente para as crianças. Funcionam extremamente bem. Não existe um modelo universal e acredito que podemos aprender muito dos melhores casos”. Da varanda da Fundação PROA, o Riachuelo e as pontes referem difusas analogias com o Thames

Gateway, no leste de Londres. Após o fechamento do porto, foi necessário reciclar enormes áreas de solo para criar novos postos de trabalho, para substituir os trabalhos que tinham sido perdidos. Essa recuperação foi a base da infraestrutura dos Jogos Olímpicos de 2012, que esta ocasião veio difundir. A cidade do futuro, citou-se a si mesmo (entre chá e croissants), é a de hoje. Trata-se de entender quais são as tendências e seu peso relativo, pois frequentemente são contraditórios. Aspirava a uma cidade metropolitana com diversidade de alternativas de densidade e acesso democrático a uma rede de mobilidade. “Acredito que sempre existem maneiras e meios para alentar que os pobres e os ricos morem em proximidade; mesmo que não compartilhem o mesmo edifício, pode-se, por exemplo, tentar que seus filhos frequentem a mesma escola, mesmo que isso também se complique cada vez mais com o crescimento da educação privada em muitos países. Vai ser muito difícil alcançar estes ideais, mas não é impossível absolutamente e temos que encontrar o caminho para os realizar”. Como todo sábio, Peter Hall havia aprendido algo novo em Buenos Aires e nessa aprendizagem havia nos ensinado a conhecer melhor o que lhe mostramos. Seus ideais urbanos eram os que Howard atribuía para as cidades jardim: liberdade e cooperação. (N. do E.): alcazaba, em árabe, cidadela ou recinto fortificado de caráter urbano Reconhecido internacionalmente por suas pesquisas e sua grande influência na prática do planejamento urbano, Peter Hall (1932-2014) foi presidente da Town and Country Planning Association e professor Bartlett de Planejamento e Regeneração no University College de Londres. Entre seus muitos livros, destaca-se o Cidades do amanhã: uma história do planejamento e do projeto urbanos no século XX (Oxford, 1988). O passeio do qual falamos foi realizado em abril de 2011.


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