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CASAS E PAVILHÕES | Editorial

PAVILHÃO E AUTONOMIA

por fernando diez e martín di peco

GRAUS DE LIBERDADE

4

O pavilhão é um caso pouco frequente na prática profissional, porém

e variações de alturas internas para gerar maior complexidade espacial

um caso de estudo da tradição disciplinar. Talvez, pela falta de um

na “Residência MDT”. A casa “Bacopari” do UNA retoma o tema das

programa específico, seja pouco visitado agora, mas por essa mesma

transparências e reflexos para fazer com que os jardins entrem

razão é um tema que podemos considerar atemporal. Talvez, devido

visualmente em todos os interiores. Na casa “Carassale”, do BAK,

a essa inutilidade é que ao mesmo tempo torna-se útil para tantos

dois prismas de concreto aparente entrecruzam-se entrelaçando

possíveis usos. Essa indiferença à função o faz terreno fértil para certa

espacialidades e, ao mesmo tempo, incorporam a vegetação existente.

experimentação. Apresenta a oportunidade para um ensaio de

As casas de Pezo von Ellrichshausen podem ser chamadas pavilhões

arquitetura que se faz mais evidente por sua relativa autonomia do

parcialmente por sua pureza volumétrica. Uma pureza ou simplicidade

lugar, como se pudesse se mover ou se desmontar. Existiram os de

que eles mesmos se encarregam de desmentir por meio de seus

enormes dimensões e, ainda assim, eram relativamente provisórios,

desenhos axonométricos que revelam os interiores complexos detrás

como o Pavilhão Argentino na Exposição Universal de Paris, de 1889,

dessas superfícies despojadas. Seus desenhos e maquetes podem

que esteve, por muitos anos, instalado na Praça San Martín

parecer metafísicos ao estar deslocados de seu entorno, porém,

funcionando como Museu de Belas Artes, para então agonizar nos

como o afirma Pallasmaa em seu artigo introdutório, também revelam

depósitos municipais, onde, acredita-se agora, as suas partes estejam

a anatomia da vivência desses lugares, delimitados por grossas

irrecuperáveis. [1] Existem os pequenos, como construções em um

paredes carregadas de função. Seus materiais de projeto são os

parque que, com sua arquitetura, pretendem sublinhar o caráter

sólidos platônicos, as proporções matemáticas, as repetições

natural de seu entorno. Estabelecendo esse vínculo de autonomia,

ligeiramente assimétricas, que organizam o espaço (geralmente

porém ao mesmo tempo de contraste, que do pequeno templo grego

em claustros) e os percursos (geralmente em espiral, quando são

resulta ser um lugar preferido da arquitetura.

verticais) que resultam em uma maneira de estar suspensa do tempo.

Possuem funções pouco definidas de antemão, pois servem para

A casa Solo, na Espanha, eleva-se solitária sobre o bosque das

muitas coisas. Às vezes de apenas um cômodo, como praticamente

imediações de Teruel, para flutuar entre as montanhas. Sobre um

é o “Pavilhão Francês” em Versalhes, objeto de jardim, lugar onde

embasamento de acesso se apoia o volume principal composto por

tomar o chá ou dormir a sesta que Luis XV fez com que fosse

uma galeria perimetral, os cômodos que formam um anel intermediário

construído para si, [2] é sucedido pelo outro ainda menor, o “Pavilhão

e um pátio central com piscina descoberta. A casa Arco, apesar de que

Fresco”, [3] erguido em um lado do jardim, revelando o desejo de fugir

se configure como um volume único, tem sua parte inferior quase

dos grandes edifícios cortesãos.

completamente opaca e sua parte superior quase totalmente

Talvez o pavilhão palaciano moderno mais notável seja o “Palácio

transparente. Se bem a primeira é em grande medida de concreto e a

da Alvorada” em Brasília (1958). A tensão entre o doméstico e

segunda principalmente de aço, o recobrimento e a pintura preta as

o monumental distende-se nas curvas da colunata de Niemeyer.

unificam e as fazem aparecer misteriosamente como uma mesma coisa.

Isolado em uma paisagem que lhe serve de marco necessário,

A casa Cien (Cem), localizada a essa quantidade de metros sobre o nível

autônomo e unitário, casa e monumento, condensa todos os atributos

do mar, combina em planta peças quadradas de modo assimétrico.

do tipo em um complexo programa que explora detidamente

Isso resulta em um embasamento estendido na horizontal e uma torre

Guilherme de Almeida.

que se extruda na vertical. O remate é sempre uma abertura do telhado,

Em outros casos paradigmáticos anteriores, o programa da casa

em composição com os vãos da fachada. A mesma figura que recorta a

também tomava a forma de um pavilhão. O emblema moderno da casa/

parede e permite a expansão para as laterais é a que perfura o ambiente

pavilhão é a Casa “Farnsworth” (1951) de Mies van der Rohe, um

para cima. A casa Gago despega-se de seu contexto pela variação dos

invólucro de cristal entre dois planos brancos ao compasso das colunas

tamanhos dos vãos e sua irregular posição relativa. Sua escala é, então,

passantes, com uma planta de 140 metros quadrados, sugestiva, porém

interna, resultante da comparação de elementos próprios e não de

pouco prática. Phillip Johnson já havia adiantado-se com sua “Glass

referências externas ou simbólicas. As janelas não são identificáveis

House” (1949). Ou o protótipo da “Casa Dominó” (1915) de Le Corbusier,

como tais, são mais precisamente quadrados dispersos na fachada que

que seria o núcleo duro de suas ideias sobre planta livre, telhados

perfuram o volume. A porta de entrada está dissimulada com o mesmo

planos e janelas alongadas. Também pode ser citada a muito menos

e único revestimento de tábuas de madeira dispostas horizontalmente,

asséptica Casa Eames (1949) de Charles e Ray Eames. Muitos dos temas

para a fazer desaparecer.

que estes cânones do pavilhão doméstico formulam são retomados ou

Os pavilhões transportáveis compartilham a condição de

reinterpretados atualmente por arquitetos e escritórios como Márcio

deslocamento metafísico ao estar desancorados do terreno, liberados

Kogan, Jacobsen e UNA, no Brasil, e BAK na Argentina.

dos condicionamentos da implantação. São objetos construídos

Os espaços da casa “Toblerone” de mk27 desdobram-se entre lajes sem

para serem eventualmente replicados indiferenciadamente. Podem

vigas, envolvidos em vidro no setor inferior público e em madeira no

funcionar como unidades mínimas de habitação pré-fabricadas em

setor superior privado. Paulo e Bernardo Jacobsen introduzem desníveis

oficinas, transportáveis e postas tipicamente em lugares solitários

summa+133


e em paisagens abertas, desconectados da infraestrutura urbana e

inclusive degradáveis, construir com matéria viva e ensaiar formas

dos serviços da cidade. Graças a suas reduzidas dimensões, e como se

inesperadas.

fossem produtos industriais, podem ser transportados até outros

“Echoviren”, do escritório Smith-Allen está construído com blocos

destinos, não necessariamente definitivos.

impressos em 3D de duração limitada. Sua irrupção branca, plástica,

As duas “Cabanas no Rio” de Aires Mateus, apesar de sua fabricação

artificial irá perdendo contraste com o bosque de Califórnia onde se

em oficina, parecem, no entanto, pertencer desde sempre a esse cais

instala até se degradar e esvanecer. “Cabeça nas nuvens”, do Studio

onde se localizam. O escritório espanhol Abaton desenvolveu um

KCA, corrige o curso de nosso consumo de água. Está feito com a

módulo de habitação para duas pessoas que pode ser levado pela

quantidade de garrafas que são jogadas no lixo em um dia na cidade

estrada acoplado a qualquer caminhão, e não precisa de energia de

de Nova Iorque. Sua advertência é, no entanto, poética e

rede para funcionar. O MAPA, a união do MAAM e do Studio Paralelo,

comemorativa: uma nuvem de água e plástico oferece uma festa no

projetou também um módulo mínimo (“Mini-mod”) que, além disso,

parque. Na “Catedral de água” do GUN Arquitectos, em Santiago

oferece ao usuário a possibilidade de personalizar os acabamentos

do Chile, a organização do ciclo do líquido transparente é quase uma

de seu refúgio móvel.

experiência religiosa. Uns tecidos pendurados acumulam, gotejam e

Os pavilhões com programas intencionalmente não-específicos dão

formam poças refletoras em todo o piso; umidificam o ambiente e

lugar à possibilidade de um final ao mandato de “a forma segue a

espelham o solo, desenvolvendo um evento sensorial e espacial.

função”. [4] A ausência de um estrito programa de necessidades dá lugar

“Hygroskin”, projeto de Achim Mendes na Universidade de Stuttgart,

ao aparecimento de usos difusos e de outras estratégias definidoras da

reage ante a umidade ambiente abrindo ou fechando seus poros.

forma. Em alguns casos estarão mais relacionadas com operações

A quantidade de luz que ingressa em seu interior através de seus

propositivas e composições subjetivas; e, em outros casos, com

vãos com forma de pétalas dependerá das condições mutantes da

questões relativas à localização, ao clima, aos materiais disponíveis.

atmosfera. Seu revestimento de madeira contrai-se ou dilata-se sem

“Gerar continuidade de telhados”, “obter uma boa acústica”, “conseguir

nenhum sensor, simplesmente por sua própria composição material.

os melhores visuais” ou “não desperdiçar material”, habilitam uma

O programa e a tipologia do pavilhão oferecem, então, diversos

interdependência dinâmica entre função e forma antes que o domínio

graus de liberdade para experimentar temas próprios da arquitetura

de uma sobre a outra; ou como diria Aldo Rossi: “...entre as funções e as

desmarcando-se dos condicionantes mais frequentes da disciplina:

formas (se) tentam estabelecer relações mais complexas que as lineares

o contexto e os materiais do lugar, o programa de necessidades, a

de causa e efeito que são desmentidas pela realidade”. [5]

estabilidade estrutural e permanência construtiva, para mencionar

Em um parque-cemitério alemão, a continuidade de uma série de

alguns. Ao mesmo tempo, ao se dissiparem essas explicações ou

telhados arquetípicos modelados propiciam o encontro e o resguardo

motivações mais frequentes, os pavilhões devem fabricar seus

dos que estão de luto: o “Café Fried” (Paz) de Amunt conjuga abóbadas

próprios problemas, inventar seu tema arquitetônico.

alongadas, telhados inclinados e as duas águas em concreto armado.

Entre as muitas questões que estes pavilhões formulam, alguns

No sul da Espanha, a acústica e a circulação do ar sugerem curvas e

definem sua materialidade independentemente do contexto; outros

contracurvas de concreto, vidro e madeira para educar e congregar:

sugerem funções para territórios programaticamente incompletos;

o “Pavilhão sem programa” de Jesús Torres recebe, assim, os atores

outros inventam uma paisagem através de sua presença plástica

sociais da região mediterrânea e os convida para a interação entre eles

no local; outros desvinculam seus ocupantes do tempo mundano;

e com seu território. As orientações e as visuais do delta argentino

e outros projetam sua data de caducidade e de validade. Todas são

implantam um prisma branco horizontal, cuja dimensão está dada pela

ferramentas próprias de uma arquitetura aberta à pesquisa projetual.

modulação de seus componentes industrializados: a planta do “Centro de informação temporário” no Porto do Lago, de Esteban/Gaffuri/

NOTAS

Torrado, serve ao mesmo tempo como oficina de obra e showroom,

[1] O edifício, principalmente de ferro e vidro, foi desmontado em 1932.

amarrada ante o espelho d’água. O levantamento meticuloso e a estrita

Obra do arquiteto francês Albert Ballú, tinha uma altura de 30 metros

organização do material tornam abstrato o aparecimento de uma

e uma superfície de mil e seiscentos metros quadrados.

casa-refúgio em um bosque uruguaio: o uso da “Casa de Blocos”

[2] Ange-Jaques Gabriel constrói-o em 1760 como um apêndice do jardim,

na La Pedrera, do escritório Gualano, é resolvida à maneira de uma

expansão natural do Trianón.

equação matemática com incógnitas como “fogo”, “acesso” ou “estar”.

[3] Também de Gabriel, 1761

Os pavilhões temporários permitem se liberar do peso da permanência

[4] SULLIVAN, Louis H. “The Tall Office Building Artistically Considered”.

para se permitir o luxo da caducidade. A arquitetura desses pavilhões

Lippincott’s Magazine, março de 1896, pp. 403-409.

é efêmera, ocasional. É uma arquitetura que “acontece”, com edifícios

[5] ROSSI, Aldo. La arquitectura de la ciudad. Barcelona: Gustavo Gili,

que “fazem coisas”, que inclusive se movem. Essa prontidão ou

5ª edição ampliada, 1981. Capítulo 1, item 4: “Crítica al funcionalismo

finitude de seu uso permite-lhes experimentar com materiais leves ou

ingenuo”, p. 81 (original: L´Architettura della città, 1966).

summa+133

5


6

10

20

summa+133

Implantação

fotos: nelson kon

0


CASAS | Brasil

ARQUITETURA EM BARRA STUDIO MK27 | CASA TOBLERONE


O conceito fundamental da Casa Toblerone pode

corbusiano Domino, espécie de manifesto sobre

árvores que perfuram a laje do térreo.

ser descrito em uma única imagem: um térreo

a estrutura livre.

A madeira estabelece um diálogo com outros

livre com grandes portas de vidro deslizantes

O formato do terreno permitiu uma implantação

materiais brutos, como o concreto, e é usada

e que sustenta uma caixa de madeira delimitada

longitudinal da casa com permeabilidade

como filtro solar para os quartos. Cada pedaço

por lajes de concreto. O térreo comporta o

espacial entre as duas principais áreas externas,

de madeira desse brise-soleil tem formato

programa coletivo, com sala, serviços e cozinha.

como um pavilhão solto no jardim. A aparente

triangular e foi afixado em portas-camarão,

No segundo andar ficam três quartos, a sala de

simplicidade arquitetônica acaba por revelar

podendo ser abertos conforme a necessidade

estudos e o home theater.

espaços complexos. A varanda, que prolonga

dos usuários. No térreo, a ventilação cruzada

A simplicidade conceitual e programática

a sala, torna-se um espaço central de

permite um excelente conforto térmico.

da casa se une a uma simplicidade estrutural:

convivência, comportando uma lareira externa.

A simplicidade da Casa Toblerone perpassa a

uma grelha de 14 pilares, organizados em duas

O escritório, integrado à sala, é delimitado por

organização da planta, as soluções para o

linhas, sustenta a construção. Todos os pilares

uma estante, solta de qualquer outro elemento.

conforto ambiental e para a implantação no

são aparentes, com formato redondo. Quando

Este escritório conecta-se com o pátio dos

terreno. Nos detalhes da própria simplicidade,

os caixilhos do térreo estão abertos, a sala se

fundos, que tem belas jabuticabeiras. No

ou mesmo no uso cotidiano da casa pelos

torna um piso livre, totalmente aberto para os

segundo piso, o quarto e o banheiro da suíte

moradores, pequenas surpresas completam

jardins – uma casa sobre pilotis. A concepção

principal abrem-se para uma laje – a cobertura

a arquitetura.

arquitetônica simples lembra o sistema

da varanda – e tem vista para as copas das

memorial dos autores

fotos: nelson kon

CASAS | Brasil


1. Sala de estar 2. Sala de jantar 3. Escrit贸rio 4. Cozinha 5. Semicoberto 6. Jardim 7. Quarto principal 8. Camarim 9. Quarto 10. Sala de estudo 11. Sala de TV

8

9

7

9

10

11

Primeiro andar C

3 4

A

5

1

A

2

B

B

6

C 0 1

3

5

Planta t茅rreo

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9


fotos: nelson kon 0

10

1

2

3

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Corte longitudinal B/B


Corte longitudinal A/A

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11


fotos: nelson kon

Obra: Casa Toblerone Arquitetos: Marcio Kogan + Diana Radomysler Colaboradores: Carolina Castroviejo, Mariana Simas e Oswaldo Pessano Localização: São Paulo - Brasil Área do terreno: 1.453 m2 Área construída: 590 m2 Anos: 2008-2011

Corte transversal

0

1

2

3

www.marciokogan.com.br

summa+133

13


CASAS | Brasil

Diagrama primeiro andar

fotos: nelson kon

Diagrama planta tĂŠrreo


PAVILHÕES | Efêmeros

BIÓTICOS ESTELARES

por guillermina abeledo e martín di peco

ARQUITETURA VIVA

“O pavilhão é um lampejo luminoso na constelação de tipologias

que se movem. São amigos de programas livres, espontâneos, festivos:

arquitetônicas”

reuniões, exposições e festas.

(Samantha Hardingham: Playville).

Desligados de compromissos de durabilidade, podem ser concebidos com materiais levíssimos, fugazes, degradáveis. Têm algo de etéreo e de transitório. Apenas se bastam. Seu espírito é reversível. O frágil é

82

As ciências gostam de nomear seus objetos e de classificá-los em

sua fortaleza. Sua constante é a sua mudança.

famílias. A botânica tem cormófitos e talófitos, a zoologia distingue

A arquitetura pode se transformar e reagir a estímulos externos como

entre protozoários e metazoários e a astronomia utiliza o alfabeto

as plantas e os animais? Às vezes sim. Esses pavilhões são orgânicos

grego para ordenar suas estrelas. A arquitetura organiza seus edifícios

porque se compõem de matéria viva, em sua maior parte de água.

em múltiplas tipologias funcionais, construtivas, formais, estruturais.

São mutantes, caducifólios. Abrem-se para o ambiente úmido e se

Se os tipos edilícios fossem estrelas de uma galáxia, os pavilhões

fecham para a secura. Conduzem a água e reproduzem seu ciclo

temporários seriam fogos de artifício. Alguns deles também poderiam

de vida. Projetam sua decomposição para se fundir com a natureza.

ser estudados pelas ciências naturais!

Não buscam a eternidade, existem fugazmente. Estão feitos de tempo?

Os pavilhões efêmeros surgem abruptamente a partir de sua

“Echoviren” está concebido para que cada pessoa o faça como o bosque

pequenez com sua luz instantânea. Sua fugacidade permite-lhes

onde se implanta, ir desaparecendo lentamente. Sua irrupção branca,

explorar a novidade, ensaiar deslumbrando. São território fértil para

plástica, artificial irá perdendo contraste com seu entorno até se

a experimentação e para a vanguarda a partir do festivo. Lançam,

degradar e esvanecer. “Cabeça nas nuvens” corrige o curso de nosso

da celebração, a criação de lugares e ocasiões. Desde o escultórico

consumo de água: está feito com a quantidade de garrafas d’água que

e a instalação temporal à possibilidade da experiência lúdica.

se joga fora em um dia na cidade de Nova Iorque. Está aí para fazer com

A Real Academia Espanhola explica a palavra e podemos imaginar

que tomemos consciência de nossos próprios desperdícios, porém de

uma barraca de circo: “Pavilhão. s.m. Tenda de campanha em forma

uma maneira bela e comemorativa: uma nuvem de água e de plástico

de cone, sustentada interiormente por um mastro grosso enfiado no

oferece uma festa no parque. A “Catedral de água” organiza o ciclo do

solo e fixado ao terreno ao redor da base com cordas e estacas”.

líquido transparente, inodoro e insípido, quase como uma experiência

No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o imaginário circense

religiosa. Uns tecidos suspensos acumulam, gotejam e formam poças

do termo pode ser vislumbrado, pois se afirma ser Pavilhão: uma

refletoras no piso todo; umedecem o ambiente e espelham o solo,

“construção temporária de materiais leves, geralmente tábuas e lona,

inaugurando um evento sensorial e espacial. “Hygroskin” reage ante a

de fácil transporte; barraca; tenda.”

umidade ambiente abrindo ou fechando seus poros. A quantidade de luz

Pelo seu lado, a etimologia francesa (“do fr. ant. Paveillon”) transporta

que ingressa no seu interior através de seus vãos com forma de pétalas

a outros mundos através da sonoridade do vocábulo separado

dependerá das condições mutantes da atmosfera. Seu revestimento de

de seu significado. Alguém em Paris diz “paveillon” e soa como

madeira se contrai ou dilata sem nenhum sensor, simplesmente por sua

“papillon”, borboleta em português. Um organismo pequeno, leve,

própria composição material. Holisticamente ecológica.

novo, de espírito livre, de vida efêmera e de colorido deslumbrante.

A alta tecnologia deu toda a volta e agora o mais “high” é o “não-tech”:

A estes pavilhões, pequenas criaturas, estão permitidas extravagâncias

sem distinção entre natureza e artifício, sem dispositivo tecnológico

formais quando chamar a atenção é parte de suas necessidades.

que faça de intermediário e faça funcionar a obra de maneira

Atrair é seu impulso. É suficiente para eles mostrar-se para salientar

sustentável; a obra mesma por sua composição material reage,

um lugar com sua presença chamativa, evocativa de significados e

modifica-se, interage, envelhece e se descompõe.

associações. Revelam, assinalam, enquadram, declamam.

Ainda que, com séculos de acumulação de conhecimento em

Fomentam delicadeza na intervenção do contexto; e o caracterizam

arquitetura, o organismo mais simples é mais adiantado e complexo

com sua forte atitude e fina presença. Não causam dano, não marcam

no que diz respeito à sua capacidade de adaptação ao meio ambiente.

nem deixam pegadas. Estão no umbral da arquitetura. São armados

Os novos artefatos culturais da arquitetura são organismos habitáveis.

com o mínimo indispensável. Alguns não têm portas nem janelas,

Hoje temos natureza de laboratório. Hoje podemos morar dentro de

outros não têm paredes, e os mais ousados prescindem de cobertura.

entes vivos. Como jogar esse jogo? “…a atuação do homem deve ser

E o que acontece em seus interiores? Seus espaços são únicos, não

uma natureza em si mesma capaz de possuir diversos graus de

fragmentados. São breves, quase não implicam percurso. Mais

artificialidade tanto em sua gestação quanto em seu funcionamento”

precisamente, pedem que nos sentemos a contemplar como são eles

(Vicente Guallart: GEO LOGICS).

summa+133


foto: lesley chang foto: guy wenborne, yap constructo 2011 (gentileza de constructo)

foto: gentileza smith | allen

foto: Šicd universidad de stuttgart


ACHIM MENGES, ARQ. E O ICD DA UNIVERSIDADE DE STUTTGART HYGROSKIN, PAVILHÃO METEORO SENSÍVEL

Projeto: Achim Menges, Steffen Reichert, Boyan Mihaylov Investigação científica, desenvolvimento, fabricação robótica e montagem: Prof. Achim Menges, Oliver David Krieg, Steffen Reichert, Nicola Burggraf, Zachary Christian, David Correa, Katja Rinderspacher, Tobias Schwinn com Yordan Domuzov, Tobias Finkh, Gergana Hadzhimladenova, Michael Herrick, Vanessa Mayer, Henning Otte, Ivaylo Perianov, Sara Petrova, Philipp Siedler, Xenia Tiefensee, Sascha Vallon, Leyla Yunis Localização: Stuttgart, Alemanha (itinerante) Área aproximada: 20 m² Anos: 2011-2013

84

O projeto HygroSkin explora um novo modelo

aproveitar a capacidade de formação

de arquitetura responsiva ao clima. Enquanto a

espontânea de superfícies cônicas da madeira

maioria das tentativas prévias dependia

através do seu comportamento elástico.

fundamentalmente de sofisticados sensores

Esse fenômeno é empregado em combinação

e dispositivos implantados sobre materiais

com processos de fabricação robóticos para

inertes, este projeto utiliza a capacidade de

gerar vinte e oito componentes diferenciados,

resposta do próprio material de construção.

com mil e cem aberturas sensíveis à umidade.

Os câmbios morfológicos da madeira em relação

Cada componente consiste em uma pele cônica

à umidade são utilizados para gerar uma pele

de capa dupla, unidas posteriormente para

que abre e fecha de acordo com as mudanças

produzir um painel sanduíche por pressão a

do clima, sucedendo de forma autônoma, sem

vácuo. Apesar de essa pele modular ser elástica

www.icd.uni-stuttgart.de/?p=9869

exigir nenhum tipo de controle mecânico ou

e fina, gera um conjunto final capaz de suportar

www.achimmenges.net/?p=5612

eletrônico adicional. Aqui, a estrutura interna

cargas leves através de uma meticulosa análise

do material propriamente é a máquina.

e fabricação dos encastres de união.

O pavilhão imita o comportamento higroscópico

As mudanças climáticas – que formam parte

dos cones de abeto (pinhas), que estão fechados

de nossa vida cotidiana, mas que geralmente

quando estão úmidos e se abrem quando vão

escapam da nossa percepção consciente –

secando.

desencadeiam o movimento silencioso da pele

Uma investigação de mais de seis anos produziu

de madeira, gerando experiências ambientais

os resultados suficientes para fabricar um

e espaciais variadas.

revestimento de madeira de bordo com

O projeto HygroSkin foi encarregado pelo FRAC

espessuras e combinações de veios que se

Centre Orleans para sua coleção permanente,

curva rápida e intensamente ante mudanças de

sendo mostrando pela primeira vez na exposição

umidade relativa ambiente, numa categoria

“ArchiLab 2013 - Naturalizing Architecture”.

de 30% a 90%. Dessa maneira, consegue

do memorial dos autores

summa+133

fotos: ©icd universidad de stuttgart

PAVILHÕES | Efêmeros


297.0

PAVILHÕES | Efêmeros

422.0

Corte

422.0

A

A

572.0

Planta Comportamento de acordo com a umidade relativa ambiente

C06 C09 C01 C10 C05

C11

C02 C04 C12 C13 C26 C19 C07 C18 C12 C06 C25

C13 C08 C03

C02

C07

C14

C01 C15

C15 C28 C08 C21 C16 C09 C04 C22

C03

C24

C25

C11 C27 C14

C24 C23 C16

C10 C20 C17

C17 C28 C18

C05

C23 C22 C19

C27

C20

C21

Cones de abeto (pinhas) que inspiraram o conceito

86

summa+133

Detalhe dos 28 componentes

Guardado para transportar

C26

Desmontagem dos componentes

fotos: ©icd universidad de stuttgart

Axonométrica


fotos: gentileza smith | allen

PAVILHÕES | Efêmeros

SMITH | ALLEN ECHOVIREN

Ideia e construção: Stephanie Smith e Bryan Allen Cliente: Projeto 387 Localização: Gualala, Califórnia, Estados Unidos Área: 9 m2 Ano: 2013 www.smithallenstudio.com

Como resultado da convocatória “Projeto 387”,

funcionando constantemente durante dois

o escritório Smith Allen criou uma instalação

meses, ou um total de 10.800 horas de trabalho.

arquitetônica que é um artefato “responsivo”,

A estrutura foi montada através de uma conexão

um objeto impresso em 3D: Echoviren. O projeto

de ajuste dos painéis à pressão, fusionando

funde a arquitetura com a arte e a tecnologia

os componentes individuais em uma peça

para explorar a dialética entre o homem, a

monolítica. Desde a preparação do terreno até

máquina e a natureza.

a última peça ser embutida, foram necessários

Echoviren é uma caixa branca translúcida,

apenas quatro dias de trabalho no local.

contrastante e artificial à primeira vista, contra

Os blocos estão totalmente impressos em

a paleta natural de vermelhos e verdes do

bioplástico “PLA”, plástico a base de

bosque.

componentes vegetais, que vão se decompor

Caminhando ao redor e dentro da estrutura,

naturalmente num prazo de 30 a 50 anos.

o espectador é imediatamente atraído pela

Nesse processo, o pavilhão irá se convertendo

justaposição, assim como a estranha

em hábitat para as aves, logo para insetos e

semelhança entre os recursos naturais e os

musgos.

não naturais: o grande óculo a céu aberto de

Uma inesperada aparição no bosque, Echoviren

superfície porosa que emoldura a paisagem

é um espaço para a contemplação da paisagem,

da costa circundante.

dos recursos naturais, e da nossa relação com

Essa moldura artificial leva o espectador através

eles. Está centrado na essência dos bosques

de uma perspectiva forçada do plano do bosque

não como um sistema natural, e sim como

até o artefato-instalação.

um palimpsesto. Na experiência híbrida da

Echoviren foi fabricado, impresso e montado

peça, destacam-se as iterações acumuladas

sobre o terreno pelos mesmos designers,

de um local, ocultas dentro de paisagens

através do uso de tecnologias de arquitetura

contemporâneas.

paramétrica e uma bateria de impressoras

Echoviren expõe um ecossistema de dinâmica

3D “caseiras”. O pavilhão está feito com

natural e artificial: a interação do homem

mais de 500 partes impressas individualmente.

e da natureza moldada pela tecnologia.

Para isso foram usadas sete impressoras 3D

memorial dos autores

Vista

Módulos impressos Planta

88

summa+133

Corte


fotos: lesley chang

PAVILHÕES | Efêmeros

STUDIOKCA CABEÇA NAS NUVENS

90

Arquitetos: Jason Klimoski, Lesley Chang Localização: Governors Island, Nueva York, Estados Unidos Área: 74 m2 Ano: 2013

Cabeça nas Nuvens é a proposta vencedora

Uma série de “almofadas estruturais” de

da convocatória 2012-2013 para o pavilhão da

tambores de quatro litros formam o exterior,

“Cidade dos Sonhos”, competição organizada

enquanto que garrafas de meio litro e três

pelo Instituto Americano de Arquitetos de

quartos de litro cheias de diferentes quantidades

www.studiokca.com

Nova Iorque, a Associação de Engenheiros

de água, com distintos tonalizantes orgânicos de

Estruturais de Nova Iorque, e a organização

cor azul, dão forma ao interior. Areia, água e

artística Figment. O pavilhão serve como o

uma moldura de alumínio curvo proporcionam

principal lugar de reunião para a exposição

integridade estrutural e criam uma pequena

de verão “Figment 2013”, em Governors Island,

zona para estar e sonhar. Ao longo de vários

Nova Iorque.

meses, STUDIOKCA arrecadou garrafas usadas

O concurso solicitou a arquitetos e designers

de organizações, empresas, escolas e

imaginar “a cidade dos sonhos” e propor um

particulares em toda a cidade de Nova Iorque

pavilhão temporário que possa ser construído

e sua periferia. Mais de 200 voluntários

em oficina e ensamblado na ilha para dar

ajudaram a construir e armar um pavilhão com

abrigo a umas cinquenta pessoas. O pavilhão

as garrafas reutilizadas. O projeto foi financiado,

summa+133

de STUDIOKCA é uma estrutura com forma de

em parte, por uma campanha de crowdfunding,

nuvem que procura criar um espaço onde os

mediante “Kickstarter”.

sonhadores que habitam a “cidade dos sonhos”

Cabeça nas Nuvens erige-se como uma mostra

possam sonhar, um lugar para por sua cabeça

visual e física dos mais de 60 milhões de garrafas

(e seu corpo) nas nuvens.

plásticas descartadas nos Estados Unidos a

Feito de 53.780 garrafas recicladas – o

cada dia; mas também como uma mensagem

equivalente à quantidade de garrafas que são

de esperança para técnicas de construção

jogadas em Nova Iorque em uma hora –,

ecologicamente mais viáveis e um modo de

Cabeça nas Nuvens é um espaço onde os

vida mais sustentável, algo que sabemos que

visitantes podem entrar e contemplar a luz

não é um sonho que está muito distante.

e a cor filtradas através da “nuvem”.

do memorial dos autores


PAVILHÕES | Efêmeros

DEFORMAÇÕES GRAVITACIONAIS

Corte DEFORMAÇÕES POR VENTO

fotos: studiokca

Análise de carga

Dimensionamento dos anéis estruturais

92

VISTA LESTE

VISTA NORTE

PLANTA

AXONOMÉTRICA

summa+133


GUN ARQUITECTOS YAP _ CONSTRUCTO 2011/2012: CATEDRAL DE ÁGUA

Projeto: Jorge Godoy, Lene Nettelbeck, arqs. Arquitetos colaboradores: Alexis Machado, Francisco Calvo, José Manuel Morales Cliente: CONSTRUCTO Localização: Matucana 100, Estación Central, Santiago, Chile Área: 700 m2 Anos: 2011-2012 www.gunarq.com www.constructo.cl

94

summa+133

A Catedral de Água é uma extensa e horizontal

a partir deste princípio de capilaridade, é

nave urbana de uso público, exposta

produzida a filtração gradual das gotas,

discretamente para deixar entrever atmosferas

que escorrem ao longo de suas arestas

enigmáticas e penumbrosas por meio de

retardando os tempos de concentração e caída.

suas linhas topográficas de teto e piso. Como

Esse princípio de retardo é o que se traduz

estalactites e estalagmites numa caverna, que

na possibilidade de definição programática ou

penduram ou se erguem, uma série de colunas,

uso da água ao gotear. Expressa formalmente

plataformas, arcos, cortinas, abóbadas e grutas

o manejo da duração, materializando uma

qualificam espacial e atmosfericamente o

maneira em que a água pode ser particularizada

projeto.

a estados capazes de produzir efeitos

A partir da integração da água dentro de

extensivos sobre um campo.

suas lógicas espaciais e materiais, o projeto

Como uma abstração e transposição geométrica

exacerba consistentemente a gota de água

da estalactite, desenvolve-se um componente

como matéria atmosférica primordial. Para isso,

espacial tridimensional. Um prisma de três fases

os componentes da topografia de teto estão

com base equilátera que varia em altura e área.

constituídos como prismas de tela, colocados

Esses elementos proliferam em um sistema de

em posição invertida e cheios parcialmente

grade, que forma curvas de diversas longitudes

com um substrato granuloso. São alimentados

e intensidades. Esse componente capaz de

por uma rede hidráulica que irriga de maneira

variar permite produzir diversos espaços,

dosificada e constante. Estes elementos,

texturas, padrões e interações com uma

ao serem carregados com pequenas

dinâmica ambiental baseada num princípio de

quantidades de água, experimentam um

abundância material.

fenômeno de absorção e posterior liberação;

do memorial dos autores

fotos: diego teran, yap constructo 2011 (gentileza da constructo)

PAVILHÕES | Efêmeros


fotos: guy wenborne, yap constructo 2011 (gentileza da constructo)

PAVILHÕES | Efêmeros

REDE DE ÁGUA SISTEMA RECIRCULADOR DE ÁGUA

SISTEMA DE CABOS

MÓDULOS

SALGUEIRO CHORÃO CAVERNAS CORTINA DE ÁGUA ARANHA DE LUZES

COMPONENTES DE GOTEJAMENTO

COMPONENTES CONTÊINERES

COMPONENTES SECOS

GRANDES ESTALACTITES COMO COLUNAS

VASOS RESERVAS DE ÁGUA

ILHAS

ÁREA DE JOGOS

SOLOS DE ÁGUA PEDRAS

PLATAFORMAS

Isometrias

Mapa de sombras

ESTALAGMITES, TOPOGRAFIA

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1.0

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0.29

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0.41

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Cortes – Vistas

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0.73 0.79

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0.41

0.41

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0.62

0.59

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0.56

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0.62

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0.36

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Possibilidades de geometrias

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FRAGMENTOS | Insinuações

ARQUITETURAS QUE FAZEM CIDADE*

foto: ruth verde zein

POR RUTH VERDE ZEIN

Edifícios dos anos 1950-70 no “Centro Internacional” e arredores, Bogotá (2013).

“Não há espaço urbano em si mesmo: o espaço se define por sua forma e borda, por seus limites arquitetônicos. Os espaços públicos excepcionais não existem sozinhos: surgiram com e a partir da arquitetura. Nos espaços verdadeiramente significativos, nos quais se faz a cidade, a arquitetura é um elemento indissociável: a arquitetura pensada a partir da cidade e a cidade feita com arquitetura. Somente nesse sentido justo e preciso pode-se asseverar que a arquitetura faz a cidade, e a faz de maneira específica – e não como uma declaração geral de princípios”. La Ciudad: Hábitat de diversidad y complejidad, Rogelio Salmona A arquitetura me interessa em si mesma. Isso não significa reivindicar uma autonomia excludente nem um isolamento solipsista em relação às demais artes e ofícios e, muito menos, à realidade social e econômica. Embora admita ser uma

154

summa+133

escolha pessoal, acredito tratar-se de assunto nem menor nem desimportante. E apreciaria poder colaborar, mesmo modestamente, para a atualização, redefinição e consolidação desse campo disciplinar, o da arquitetura. Que precisa ser em si antes de dar-se à necessária multidisciplinaridade, sob pena de alienar-se e nada contribuir de específico para o conjunto dos saberes e ações coletivas que transformam e permanentemente reconstroem o mundo. A arquitetura, enquanto campo disciplinar, deriva de seu ofício, seu saber fazer, que é tão antigo quanto a sociedade, que historicamente passa a ser chamada de humana quando redefine seu habitat natural em outra coisa, mistura de vontades, desejos e possibilidades. Esse campo reúne um saber rico, complexo e contraditório, sempre em mutação, semelhante a um amálgama não purificado onde se percebem distintos laivos e veios sobrepostos, entrelaçados e, às vezes, indissoluvelmente

fundidos. Esse conjunto não é necessariamente coeso nem unitário e, sim, apenas a reunião oportuna de incontáveis memórias, práticas e costumes, advindos de um sem número de culturas, radicadas em uma imensa variedade de geografias. E se estabelece também pela destilação dos saberes acumulados em coisas – obras, lugares, detalhes – que ganham vida própria, despregam-se de seus criadores e acontecem no mundo, deixando, assim, de ser privilégio exclusivo dos que os pensaram. As coisas da arquitetura, quanto melhores forem, mais poderão ser lidas em claves que as extrapolam, que vão além de seu uso precípuo; mais poderão ser admitidas como exemplos e paradigmas, cabedal de estudo do que queremos fazer melhor aprendendo como bem se fez, para ir além. E o que seria a cidade? Seria outra coisa, ou apenas um degrau acima da arquitetura, sua manifestação em escala mais ampla? Será a


* A partir de 2014, será outorgado o “Prêmio Latino-americano de Arquitetura Rogelio Salmona: Espaços Abertos/Espaços Coletivos” para “arquiteturas pensadas a partir da cidade”. www.fundacionrogeliosalmona.org Fazem parte do comitê deliberativo do prêmio Silvia Arango (Colombia e países andinos), Fernando Diez (Argentina e Cone Sul), Ruth Verde Zein (Brasil) e Louise Noelle (México, América Central e Caribe).

cidade, simplesmente, o conjunto dessas arquiteturas, mais os vazios de permeio? Talvez sim, ao menos enquanto sua forma física. Nesse sentido, as cidades são a acumulação por justaposição de arquiteturas, sua somatória geométrica, inclusive o que falta, sua combinação mais o que já tem de recheio, por baixo e por cima, seus acessórios básicos, fluxos de utilidades, canais de águas, cabos de energias, faixas de deslocamentos de gentes e bens. Uma somatória que é mais que as partes, paradoxalmente semelhante a um fractal, onde cada mínima parte é também um todo, tão complexo quanto o conjunto das partes. A cidade são cidades, seus desenhos variam – porque também variam a topografia, o clima, os antecedentes imediatos e longínquos dos grupos humanos que a constroem e habitam, corporificando suas vontades simbólicas e lutando contra suas constrições econômicas, em infinitas combinações. Que, entretanto, repetem padrões e modos reconhecíveis, parecidos e similares; senão por outras razões, porque os seres humanos têm dimensão finita e definida, os materiais de que são feitas as coisas impõem suas limitações e o tempo desgasta tudo, revelando sob as formas peculiares, as ideias que as conformaram – que não envelhecem e reaparecem, nunca iguais, nunca totalmente diferentes. Mas se assim for, o que quereria dizer meu querido amigo Rogelio Salmona na oportuna citação acima destacada? Estamos ambos em contradição? Ou pensamos parecido, e falamos de pontos de vista distintos? Chama-me a atenção o fato de Salmona não falar de cidade, mas de espaço urbano. Ecos de sua formação dual e eclética, colombiana e parisiense, arquitetônica e sociológica, entre Le Corbusier e Alvar Aalto, entre a vontade de criar espaços significativos e as muitas limitações da realidade sul-americana da segunda metade do século 20, subordinada a um capitalismo dependente, mas ciosa da sua

identidade, que persegue porfiadamente como se fosse necessário um esforço maior para revelar sua natureza – quando talvez não precisasse ser desvelada, mas construída. E talvez apenas precise ser aceita pelo que ela já é, e não pelo que outros dizem que deveria ser. Também me chama a atenção a distinção entre os espaços urbanos e os espaços públicos, e a constatação de Salmona que não são a mesma coisa, já que apenas alguns destes – raros – seriam “realmente significativos”. Estranha-me a declaração peremptória dessa raridade e a atribuição, apenas a ela, de uma significação real. Por isso, interpreto suas palavras não como um absoluto, mas como um gesto de seleção e recorte, a partir de crenças forjadas pela vivência, que delineiam normas e definem parâmetros de qualidade. E me parece que o fulcro de seu critério de recorte ainda é a antiga miragem de todos os arquitetos projetistas: a intenção. Fará cidade a arquitetura que a quiser fazer, e que ademais, a consiga. Pois não basta querer: a arquitetura só é capaz de se realizar na sua plenitude de qualidade – que inclui sua boa relação com o espaço aberto e coletivo – quando nasce amparada pela acumulação do saber, próprio e alheio, aprendido e decantado. Ajuda dispor também de um pouco de (ou muito) talento – que, ao contrário da imponderabilidade do gênio, é algo mensurável, que pode ser cultivado e crescer, mas apenas quando é porfiadamente buscado. Para Salmona – se é que a minha interpretação de suas palavras vale algo – a intenção de fazer arquiteturas afinadas com uma vontade de qualificar o espaço urbano e público da cidade é mais do que um aspecto importante: é aquilo que, na arquitetura, efetivamente valida seu papel como definidora de cidade. Mas, de fato, a cidade se fará de qualquer jeito: com boas e más arquiteturas, com bons e péssimos espaços públicos. Então, não é da cidade em si, dessas que aí estão, de que fala Salmona, mas da

cidade que ele vislumbrava no horizonte das utopias, que ele abraçava. Entretanto, me parece ser inútil (ou ao menos, pouco realista) apostar que algum dia entraremos todos de acordo e produziremos o mundo/a cidade perfeita: ao menos, não no tempo da minha vida e na dos meus filhos e netos; talvez nunca. O mundo perfeito pode nem estar nas coisas e nas cidades, e talvez pertença apenas ao domínio das abstrações imateriais... Enquanto isso, vamos vivendo na cidade real; e porque lhe tenho carinho – mesmo sendo feia, bruta, suja e malvada –, não quero pensar que é preciso repensá-la toda de novo, agora, sim, de um jeito certo (que não há) para que ela, cidade, chegue a ser seu melhor. Vejo e sinto que a cidade ainda é, como talvez sempre tenha sido, um conjunto amorfo de coisas desinteressantes, distópicas e feias, muito discretamente pontuado por alguns momentos excepcionais – e quem pensar que alguma vez houve outrora ou há alhures cidades quase-perfeitas, apenas se ilude. Mas gostaria de pensar que talvez a cidade pudesse mudar. Não com planos mirabolantes e planejamentos verbosos, nem descartando tudo o que não teve, desde o início, um gênio bom fundante; mas confiando que o bom exemplo do bom projeto de arquitetura também possa ajudar a transformar e contaminar outras vontades que a melhorem. Na cidade melhor, talvez faça mais falta, em vez dos arquitetos iluminados, os profissionais atentos, capazes de aproveitar mesmo as pequenas oportunidades como alavancas para levantar o mundo. E para que sejam bem sucedidos, sua base instrumental só poderá ser aquela do saber fazer disciplinar da arquitetura, concertado e temperado pelo conhecimento projetual, temperado por uma visão histórica, teórica e crítica, destilado da acumulação de outras boas experiências – que se leem, questionam, comparam e redirecionam, na tentativa de sempre e outra vez fazer melhor. E essa prática não tem fim: tem apenas horizonte.

summa+133

155


Summa133 por parcial