Page 1

Ainda há espaço para o

amor à camisa

no futebol brasileiro? Júlio César,

a prova de que o amor à camisa pode resistir

Álvaro Reis

fala como a paixão nacional se transformou em negócio

Michael

fala de sua experiência nos clubes brasileiros e do exterior


Rodrigo Coca /Foto Arena /AE

02 - ISTOÉ - 30/05/2012


EDITORIAL

D

inheiro ou estabilidade e afeição? O que você escolheria? Quando falamos de futebol não podemos usar a mesma balança de outras profissões. Justamente por conta deste peso maior que damos à esse esporte que se originou a grande reportagem das próximas paginas. O futebol foi tratado, desde sua criação, como agente transformador. Seja por conta de seu efeito na vida de jovens atletas, seja por conta de sua influência em assuntos como mercado e marketing ou até mesmo pelo peso emocional que carrega ao fazer a bola rolar. Esta reportagem procurou traçar um panorama da atual situação do futebol, as transações e trocas de passes, a forma como os jogadores decidem seu futuro e o relacionamento que desenvolvem com o time e com a torcida. Os espectadores do show que acontece nos campos nacionais se questionam o porquê que a cada partida encontram novos jogadores. A resposta parece simples, mas a verdade é que o Brasil, há alguns anos, se tornou exportador de jovens talentos. A falta de estrutura dos clubes, as melhores ofertas internacionais e até mesmo as convocações para a seleção serem feitas em sua grande maioria para jogadores que atuam fora do país, levaram os nossos craques a atuarem em times internacionais. Temos grandes exemplos de pessoas que foram contrárias a essa corrente de exportação. Se olharmos para trás veremos dois grandes craques e ídolos nacionais, talvez os últimos, Marcos (Palmeiras) e Rogério Ceni (São Paulo). Ambos permanecem nos clubes que o revelaram há 20 anos. Muitos ainda possuem gratidão pelo time que os revelou, honram suas camisas e conseguiram boas oportunidades em seus clubes. Na atualidade temos Neymar (Santos), Ganso (Santos), Lucas (São Paulo), Julio César (Corinthians), os dois últimos declararam à esta reportagem que não pretendem deixar o time tão cedo e demonstraram grande afeição à camisa. Uma reportagem cuidadosa com as opiniões contrárias de jogadores atuantes, jornalistas esportivos, atletas que escolheram a carreira internacional, agentes de jogadores, comentaristas e até mesmo presidentes de torcidas organizadas. No país do futebol hoje talvez tenhamos perdido a essência passional que este esporte tinha. Mas o panorama pode indicar possíveis mudanças neste mercado.

EXPEDIENTE Editor Chefe: FÁBIO SILVESTRE CARDOSO Reportagem e Redação: Juliana Freitas Liliane Rodrigues Nicolas Otterloo Suellen Pinheiro Diagramação: Rafael Dos Anjos Pauta: Cris Almeida Realização: Anhembi Morumbi 03


ESPECIAL


Ainda há espaço para o

amor à camisa no futebol brasileiro?

Por que a paixão pelo clube deixou de ser algo natural e passou a ser alvo de discussões nos últimos anos?


ESPECIAL

País

do futebol

O que move os jogadores de hoje? Alguma vez existiu fidelidade à camisa ou o cenário passado era favorável à permanência? A maior parte dos envolvidos neste ‘trâmite’ afirma: o amor à camisa não influencia a decisão de um jogador Por Nicolas Otterloo

G

anhador da principal competição das categorias de base do futebol brasileiro, a Copa São Paulo, em 2010, um dos destaques da Seleção Brasileira no título do Sul Americano Sub-20 e integrado ao elenco principal do São Paulo Futebol Clube em 2011. Esse foi o início meteórico da carreira de Lucas Rodrigues Moura da Silva, que, por tudo isso, atraiu os olhares dos principais clubes europeus. Mas, diferentemente da maioria dos jovens jogadores do futebol brasileiro que, ao se depararem com os altíssimos valores das propostas dessas equipes, se deslumbram, o garoto de 19 anos recusou ofertas para tentar fazer história no time que o projetou. O outro lado da moeda é o também destaque das categorias de base do clube, Lucas Piazon, 17 anos, que não seguiu os passos do xará mais velho. Ao receber uma proposta do gigante Chelsea

06 - ISTOÉ - 30/05/2012


Alex Silva / Fonte: Agência Estado

Lucas, do São Paulo, disputa a bola durante partida com o São Caetano, válida pelo Campeonato Paulista 2011, realizada no estádio Anacleto Campanella, em São Caetano do Sul


ESPECIAL da Inglaterra, em 2011, não resistiu aos valores (assim como o clube) e se transferiu para o velho mundo mesmo não tendo atuado uma vez sequer pela equipe profissional do tricolor paulista. Atualmente, o primeiro é um dos principais jogadores em atividade no Brasil e constantemente visto nas convocações do técnico Mano Menezes para a Seleção Brasileira. Já Piazon não está no foco dos holofotes, já que nunca foi convocado para a Seleção Brasileira principal e não apareceu na lista de pré-convocados para as Olimpíadas. O atacante atua pela equipe de base do Chelsea. A permanência no Brasil de jogadores como Lucas Rodrigues e a precoce saída de Lucas Piazon, entre outras, trazem à tona duas discussões que pareciam extintas, a saber: existe espaço para o “amor à camisa” no futebol brasileiro ou o futebol virou negócio para aqueles que estão envolvidos com ele? E ainda, vale à pena deixar o futebol brasileiro tão cedo para viver “o sonho de atuar no futebol europeu” em vez de buscar identificar-se e tornar-se ídolo de uma torcida? Para o jornalista da ESPN, Paulo Vinicius Coelho, mais conhecido como PVC, o termo “amor à camisa” já é ultrapassado. “O que existe é respeito pela a empresa que você trabalha”. Mauro Beting, também jornalista, da Rede Bandeirantes, completa: “há um amor à camisa, mas também é fundamental entender, como em qualquer outra profissão, que a pessoa tem amor ao seu trabalho, não necessariamente ao seu emprego”. Histórias de jogadores que atuam por anos a fio em um único clube são cada vez mais raras nos dias de hoje. Isso porque o futebol vem se profissionalizando cada vez mais e a grande maioria dos jogadores tem agentes ou empresários que administram suas carreiras. Paulo Sérgio Silvestre do Nascimento, ex-jogador do Corinthians, atuou em um momento em que ainda havia 08 - ISTOÉ - 30/05/2012

Ernesto Rodrigues/Fonte: Agência Estado

Rogério Ceni, ídolo da torcida São Paulina. Há 21 anos no clube paulista, o goleiro declara amor ao time que o formou e pretende seguir carreira na diretoria da equipe

Ernesto Rodrigues / Fonte: Agência Estado

Jorge Henrique, um dos destaques da nova geração da equipe corinthiana


Miguel Schincariol / Fonte: Agência Estado

Caso Kléber: Excesso ou falta de profissionalismo? Por Suellen Pinheiro

romantismo no futebol, ou seja, os jogadores se orgulhavam de vestir a camisa das suas equipes. Ele também atribui essa identificação à legislação do futebol. Na sua época, o passe do atleta pertencia ao clube, diferentemente de hoje, quando o passe pode ser adquirido e dividido pelo clube, jogador e até mesmo empresários e empresas. Paulo Sérgio explica: “Hoje acabou essa questão do amor à camisa. Antigamente, o atleta tinha um vínculo maior com o clube, até porque o passe era do clube”. Ele foi formado pelas categorias de base e jogou por nove anos na equipe profissional do time do Parque São Jorge até 1993, e é considerado ídolo da torcida até hoje. Mauro Beting cita outro exemplo de jogador que parou há muito tempo e até hoje é idolatrado por uma torcida: havia exemplos de craque tipo o Nilton Santos, do Botafogo que, aliás, é um belo exemplo, jamais precisou beijar o distintivo do Botafogo. Ele assinava contrato em branco (o que também não é o ideal e ele mesmo admite hoje). Michael Anderson Pereira da Silva, que atuou pelo Palmeiras entre 2005 e 2008 e acaba de deixar a Portuguesa, acredita que hoje a identificação com o clube é marketing. “Na época do Marcos

Kleber Giacomance de Souza Freitas, revelado pelo São Paulo e negociado aos 19 anos com o Dínamo de Kiev da Ucrânia, ao retornar para o Brasil em 2008, atuando pelo Palmeiras, criou uma relação de amor com a torcida do clube. Campeão Paulista do mesmo ano, terminando um período de nove anos de jejum de títulos do clube paulista, beijou o escudo e jurou amor à camisa, mas por problemas financeiros do clube, não renovou o contrato para o ano seguinte. No fim do ano assinou um acordo de uma temporada com o Cruzeiro. Por seu faro de gol e principalmente pela garra demonstrada em cada lance, o atacante recebeu o apelido de “Gladiador”. No time mineiro, também conseguiu identificação com a torcida, mas teve o primeiro episódio de confusão, quando parte da torcida cruzeirense lhe cobrou explicações, por causa de uma visita à quadra de uma torcida organizada do Palmeiras, onde há fotos do jogador com a camisa da respectiva torcida. No final do ano de 2009, Luiz Gonzaga Belluzzo assumiu a presidência do Palmeiras, e como torcedor fanático, repatriou o jogador com a promessa de um grande time. Isso não aconteceu. Sem um time à altura do seu talento, Kleber recebeu uma ótima oferta do Flamengo e tentou forçar sua saída, vetada pelo técnico Luiz Felipe Scolari, que também é considerado ídolo pela torcida. Essa situação criou um clima ruim entre o jogador e o treinador. Após um episódio em que o jogador João Vitor foi agredido por integrantes da torcida do clube, que ao verem o jogador em um carro importado foram cobrar explicações sobre as péssimas atuações do time, Kleber se posicionou em defesa de João Vitor e tentou convencer os outros atletas a não entrarem em campo em um jogo válido pelo Campeonato Brasileiro. Foi a gota d’água para que Felipão notificasse a direção do clube de que só um deles permaneceria na equipe. E foi Felipão quem ficou. Indignada com a saída do atacante, membros das torcidas organizadas do clube passaram a protestar até em frente da casa do atleta. Nesse momento foi descoberta uma carteirinha da torcida organizada do maior rival da equipe alviverde com a foto e o nome de Kleber. Ele ficou até o fim de 2011 sem atuar e foi negociado com o Grêmio. Diferentemente dos atletas citados por Michael e Lucas, apesar de ter se identificado com a torcida e com o clube, com suas atitudes, Kleber acabou essa relação de amor que não durou muito tempo.

09


e do Rogério Ceni, que jogaram a vida toda em um clube, era diferente. Atualmente, o que acontece é o jogador dar um chute certo aqui no Brasil, fica uma temporada e se manda para fazer sua independência financeira”. Outro jogador que ao ser perguntado sobre amor à camisa cita Marcos e Rogério, goleiros e ídolos de São Paulo e Palmeiras, respectivamente, é Lucas, atacante do São Paulo. “Os dois foram criando uma história muito bonita. Eles não tinham essa ganância de jogar em um grande clube da Europa para ganhar milhões”. Mauro Naves aponta que “Existem aqueles que ainda se declaram, sou deste time, gosto deste time, nasci assim, mas por exemplo o Kléber pelo que eu sei, nasceu Corinthiano. Então, vai saber até onde vai esse amor pelo Palmeiras”. Naves critica os jogadores que utilizam essa questão como forma de negócio: “Eu odeio aqueles que ficam beijando o escudo por isso, porque beija hoje e seis meses depois está beijando outro e beijando outro, e é uma bobagem isso porque sabe-se que o business é o que conta”. O futebol brasileiro passa por uma fase diferente em que não há mais necessidade de deixar o país para ter um bom salário e conseguir a tão sonhada independência financeira, como explica o jorna-

Eu quero que as pessoas se lembrem de mim como um grande jogador. Por isso, eu quero conquistar (títulos) aqui no São Paulo antes de ir buscar alguma coisa lá fora”

Lucas Moura Meio

campo do

São Paulo FC

10 - ISTOÉ - 30/05/2012

lista do BandSports Fábio Piperno: “há alguns anos, com a economia do Brasil muito ruim e a da Europa muito melhor, era evidente que qualquer aceno de um time médio da Europa seria do ponto de vista financeiro muito vantajoso. Hoje já não é mais assim”. De acordo com essa linha de raciocínio, com a crise mundial afetando principalmente o continente europeu desde 2008, a economia brasileira ganhou força e os clubes passaram a ter condições de oferecer salários e condições de trabalho compatíveis aos oferecidos no exterior. “Há uma crise econômica mundial e não há mais

Alexandre Loureiro / Fonte: Vipcomm

ESPECIAL

João Neto/ Fonte: Vipcomm

Lucas, meio campo do São Paulo divide os holofotes com Neymar, considerados como os principais nomes do Futebol Brasileiro atualmente.


Na comemoração do gol, Vágner Love aproveita e declara seu amor ao Flamengo

um mercado tão intenso. O jogador brasileiro percebeu que pode ganhar por aqui tudo que ele poderia ganhar lá fora, com uma vantagem: ele está ao lado da família”, observa o experiente jornalista e escritor Orlando Duarte. Isso fez com que a chamada “janela de transferências” deste ano fosse a menos movimentada dos últimos tempos. Os clubes grandes do Brasil não perderam praticamente nenhum jogador importante para o exterior e ainda conseguiram se reforçar, repatriando jogadores que não estão mais no auge de suas carreiras, mas tem um nível técnico muito bom quando comparados à média dos jogadores que atuam no Brasil, como é o caso de Vágner Love,

que deixou definitivamente o CSKA da Rússia para se juntar a Ronaldinho Gaúcho no elenco do Flamengo. O lado financeiro é importante, mas nem sempre é tudo para o jogador, como no caso de Lucas: “Eu quero que as pessoas se lembrem de mim como um grande jogador. Por isso, eu quero conquistar (títulos) aqui no São Paulo antes de ir buscar alguma coisa lá fora”. Ele ainda afirma que no momento tem aquilo que precisa e não pensa em deixar o clube e o país com o objetivo de ganhar mais dinheiro: “tenho minha casa, meu carro, jogo futebol em um clube que eu gosto... não tenho tanta ganância de ganhar milhões, de jogar em um time lá fora”.

O Kléber pelo que eu sei nasceu Corinthiano. Então, vai saber até onde vai esse amor pelo Palmeiras.”

Mauro Naves

Repórter de campo da Rede Globo 11


Jogo entre Flamengo x Santos pelo campeonato brasileiro de 2011. Ronaldinho Gaúcho comemora gol ao lado do colega Thiago Neves.

Compare os gráficos Número de jogadores que chegam ao país é maior ano a ano. Exportação teve seu pico em 2008, mas no ano seguinte já caiu. Fonte: Jornal O Globo

12 - ISTOÉ - 30/05/2012


Evolução

ESPECIAL

do futebol nacional

A

Divulgação

J. F. Diorio/ Fonte: Agência Estado

pesar de o Brasil ser historicamente exportador de jogadores, com a volta do Ronaldo para o Corinthians, no final de 2008, grandes empresas investidoras passaram a se interessar cada vez mais em associar sua marca aos clubes de futebol, que, por sua vez, também passaram a criar departamentos de marketing com o objetivo de explorar a imagem dos seus atletas. Isso possibilitou que outros jogadores brasileiros renomados, como Deco, Fred, Luís Fabiano e Ronaldinho Gaúcho, retornassem ao futebol nacional, elevando a visibilidade do Campeonato Brasileiro. Mais do que isso, hoje, o jogador pensa duas vezes antes de sair do país. “Hoje o risco de alguma coisa ruim ocorrer no exterior é muito maior do que aqui”, afirma Fábio Piperno. Desde que iniciou o trabalho como treinador da Seleção Brasileira visando a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil, Mano Menezes passou a ver com bons olhos os jogadores que atuam por aqui. No entanto, além da vontade do treinador de convocar jogadores que atuam no País, isso é uma consequência do crescimento econômico, possibilitando aos clubes nacionais se estruturarem e segurarem os bons jogadores e aqueles que são formados em suas categorias de base, como enfatiza Piperno: “O Mano não está fazendo isso porque está prestigiando o futebol brasileiro. É o futebol brasileiro que, internamente, por incrível que pareça, está ficando um pouco mais organizado

Hoje o risco de alguma coisa ruim ocorrer no exterior é muito maior do que aqui” Fábio Piperno

Comentarista do BandSports

13


O futebol está carente de pessoas competentes, carente de profissionais” Álvaro Reis Agente FIFA

res. Se o atleta tem talento e uma ótima assistência do clube por trás dele, é meio caminho andado para uma carreira de sucesso”. Repórter esportivo com mais de 20 anos de experiência, Mauro

Luiz Pires/ Fonte: Vipcomm

em relação a sua forma de gestão”. Para manter estes jogadores, não basta o dinheiro. É necessário ter uma boa estrutura e profissionais capacitados para oferecer as melhores condições de trabalho para os atletas e, principalmente, para os jogadores das categorias de base. O agente de jogadores Álvaro Reis dá a dimensão da importância de dar boas condições de trabalho aos jogadores: “Um (bom) centro de treinamento é muito importante para as categorias de base e para o profissional, um campeão nasce daí”. Para Bruno Siqueira, jogador formado na base do Palmeiras e que atua hoje pela equipe B do Corinthians, o apoio fora de campo ajuda muito no início da carreira de um jogador: “Hoje em dia, a estrutura do clube é fundamental para a carreira dos jovens jogado-

Campeão do Sul Americano Sub-20 com a Seleção, Willian José é reserva do ídolo são paulino Luís Fabiano 14 - ISTOÉ - 30/05/2012

Naves já vê uma grande evolução nos clubes brasileiros: “Tem melhorado muito os centros de treinamentos no Brasil. Antes, a gente contava nos dedos os que eram bons. Hoje são vários”. Já não há mais deslumbramento por parte dos jogadores brasileiros quando conhecem as instalações de clubes europeus, o que incentiva a permanência dos mesmos no país. “...antes, quando um garoto fazia visita a um CT de clubes ingleses, espanhóis, italianos, voltava impressionado com a qualidade do campo, com a fisioterapia e a quantidade de equipamentos”. Ele ainda vai além, afirmando que a diferença entre Brasil e Europa não é mais tão grande: “antes, era um abismo enorme de salário, era um abismo enorme de estrutura, de gramado, de tipo e divulgação da competição. A infraestrutura que você tinha na Europa e que por aqui era amadora, aí claro, aquilo lá era sonho mesmo”, compara Naves. Outro fator importante para a evolução do futebol brasileiro é a capacitação das pessoas que trabalham fora das quatro linhas. Todavia, Álvaro Reis ainda não vê isso no futebol brasileiro: “O futebol está carente de pessoas competentes, carente de profissionais”. Fábio Piperno, em contrapartida, observa que já existem cursos para a formação destes profissionais e acredita que eles já estão dando resultado: “é uma demanda que vem sendo de certa forma suprida porque cada vez mais você encontra, por exemplo, curso de marketing esportivo. Isso é uma novidade. Há dez anos, não tinha nenhum; hoje, já existem vários por aí. Então, o Brasil está começando a formar uma geração de gerentes, uma geração de profissionais habituados, treinados e com técnica para poder trabalhar nessas áreas que cercam o futebol”, analisa o jornalista. Essa profissionalização e modernização do futebol brasileiro pode fazer com que os jovens não


ESPECIAL Lucas Webel / Fonte: Vipcomm

Apesar de jovem, Leandro Damião, atacante do Internacional, já figura constantemente nas convocações para a Seleção Brasileira

tenham tanta gana de ir para Europa tão cedo atrás de dinheiro, muitas vezes em ligas de nível técnico e visibilidade inferiores ao Campeonato Brasileiro (principalmente Leste-Europeu e Oriente Médio) e procurem buscar identificar-se com uma equipe do futebol nacional. Em 2008, Michael foi negociado pelo Palmeiras com o Dínamo de Kiev. Ele atuou na Rússia por dois anos e diz que, em 2007, na época em que jogava aqui, não pensava em sair, mas a proposta era financeiramente irrecusável. “Na lógica, não tinha como pensar (em não ir)”. De sua parte, Bruno Siqueira afirma ter tido propostas para sair do Brasil, mas preferiu ficar para completar os estudos, o que não é muito comum entre os jogadores de futebol. Se tivesse uma oportunidade nos dias atuais, não pensaria duas vezes: “o momento não era bom porque eu ainda era muito novo e estava terminando o colégio, mas hoje em dia se houvesse alguma proposta

eu iria sim”. A diferença está na mentalidade dos jovens de hoje, que, desde pequenos, se acostumam assistir aos campeonatos europeus e ter como ídolos jogadores que atuam nesses campeonatos, diferentemente de quando os astros eram aqueles que jogavam por aqui,

Nos anos 50, um garoto que surgia em Piracicaba, queria jogar no Palmeiras, Corinthians, São Paulo ou no Santos e hoje o garoto que nasce em São Paulo que jogar no Barcelona, Milan, Real Madrid ou Internazionale”

PVC - Jornalista da ESPN

como observa PVC: “Nos anos 1950, um garoto que surgia em Piracicaba, queria jogar no Palmeiras, Corinthians, São Paulo ou no Santos e hoje o garoto que nasce em São Paulo que jogar no Barcelona, Milan, Real Madrid ou Internazionale”. O melhor jogador brasileiro na atualidade joga no Santos. Mas Neymar é um caso à parte. Comparado a Messi e (talvez exageradamente) a Pelé, o jovem de 20 anos recusou propostas de Barcelona, Chelsea e Real Madrid para seguir jogando ao lado dos amigos, como Paulo Henrique Ganso e do goleiro Rafael, todos formados nas categorias de base do clube da baixada. Para manter o craque na Vila Belmiro, a diretoria santista não só procurou parcerias para oferecer um salário de nível europeu, mas, principalmente, planejou e propôs um gerenciamento da carreira do craque. Esse plano se baseia na exposição da sua imagem. Liderada por Ronaldo, a agência 9ine conseguiu criar uma “marca Ney15


Alaor Filho / Fonte: Agência Estado

mar”, em que diversos patrocinadores utilizam a imagem do camisa 11 santista como publicidade. Apesar da afinidade que tem com o clube e sua torcida, esse é, também, um dos grandes motivos para que Neymar fique no Brasil pelo menos até 2014 (Ele tem contrato com o Santos até a Copa do Mundo de 2014). Sua imagem, no Brasil, rende muito mais dinheiro do que renderia na Europa. Para Fábio Piperno, o que acontece com o Neymar hoje é compatível com o que ele tem de talento e de carisma pessoal: “Além de ser um jogador de futebol fora de série, sensacional, ele se mostrou um eficientíssimo garoto propaganda. Qual é a empresa hoje que não quer associar a marca dela ao Neymar? Ele é sinônimo de sucesso”. PVC confirma a estratégia utilizada para a permanência do jogador: “Eu considero um caso de administração da carreira. Ele conseguiu criar no futebol brasileiro um 16 - ISTOÉ - 30/05/2012

mecanismo para receber um salário europeu”. Outro clube a utilizar o mesmo mecanismo é o Vasco, com o zagueiro Dedé, mas com um salário de menor proporção quando comparado ao de Neymar. Até agora, estes são os dois casos mais claros em que as propostas salariais dos clubes europeus foram

Nem todo craque é um ídolo e nem todo ídolo é um craque. às vezes, o ídolo é um cara de raça, mas não é um craque” Mauro Beting Jornalista do BandSports e Lancenet

“cobridas” por clubes nacionais. Neymar pode acabar com a carência de ídolos nacionais brasileiros (mas ele é um só...). Essa lacuna deixada pela falta de ídolos se reflete nas arquibancadas, como indica Hélio Silva, fundador da primeira torcida organizada do São Paulo (TUSP) e integrante da Torcida Independente: “A gente ía de todo o jeito no estádio para ver nossos ídolos e hoje nós não temos mais esse ímpeto, essa vontade, de ir ao estádio porque nós não temos mais ídolos”. Ídolos nacionais são aqueles que conseguem também a admiração de torcedores de outros times e é isso que está acontecendo com Neymar. Apesar de estarmos nos referindo a um jogador de muito talento, Mauro Beting observa que é importante diferenciar ídolo e craque: “Nem todo craque é um ídolo e nem todo ídolo é um craque. às vezes, o ídolo é um cara de raça, mas não é um


ESPECIAL

Ronaldo, o ídolo absoluto entre os jogadores da nova geração.

craque”. Lucas não se vê como ídolo, mas acha que Neymar já pode ser considerado um, pelo menos para a torcida santista: “As pessoas falam que eu sou um ídolo mas eu não vejo assim, falta muito ainda. O Neymar, sim, já é um ídolo no Santos, apesar da pouco idade, ele já conquistou bastante pelo San-

tos, já tem vários títulos”. O último ídolo nacional foi Ronaldo “Fenômeno”, que, apesar de ter feito sua carreira praticamente inteira na Europa, sempre brilhou pela Seleção e cativou o público brasileiro com suas “voltas por cima” após lesões graves. Agora, Ronaldo é o gestor da carreira do

jogador que mais chances tem de tomar o seu posto. O “fico” de Neymar pode significar uma mudança no pensamento dos jogadores das gerações seguintes, fazendo com que tenhamos um campeonato cada vez mais forte e com condições de atrair capital externo para uma evolução geral do país. Maurício de Souza / Fonte: Agência Estado

Time santista é o que concentra os jovens mais talentosos do país, Ganso e Neymar. 17


PERFIL

Júlio César,

a prova de que o amor à camisa pode resistir

O Jogador Júlio César é considerado um expoente do futebol nacional. No corinthians desde a categoria de base, declara que só deixaria a camisa alvinegra se o clube não o quisesse mais. Por Juliana Freitas São Januário, 20 de julho de 2011, Botafogo x Corinthians. O goleiro corinthiano Júlio César de Souza Santos, 28 anos, sofre uma luxação na mão esquerda. A recuperação duraria um mês, tempo em que seria substituído pelo reserva Renan. Mesmo com a luxação, Júlio Cesar jogou a partida até o final, ajudando o time a conseguir uma importante vitória por 2x0. Ao deixar o campo, declarou aos jornalistas: “Aqui é Corinthians!”. O jogador que no início da carreira (em 1993, quando atuava pela Associação Atlética Guapira) sonhava atuar pela equipe da Juventus de Turim, da Itália, foi descoberto por olheiros do Corinthians aos 15 anos, em uma partida amistosa contra a equipe do Parque São Jorge. No período de 1999 a 2005, Júlio Cesar jogou nas categorias de base do Corinthians, conquistando dois títulos da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2004 e 2005. Goleiro desde o início da carreira, Júlio César tinha como ídolos, Ronaldo Giovaneli (goleiro do Corinthians na década de 1990) e Zetti (ex-Palmeiras, 18 - ISTOÉ - 30/05/2012

ex-São Paulo e ex-Santos). Atualmente, seus exemplos são Marcos (Palmeiras) e Rogério Ceni (São Paulo). “São exemplos de Amor à Camisa, de pessoas que fizeram sua carreira no clube que gostavam e que foram criados. São pessoas (em) que eu (me) espelho e quero trilhar os caminhos”, afirma o goleiro. Aos 20 anos, em maio de 2005, Júlio César passou a jogar no time principal do Corinthians. Mas se firmou como titular da equipe apenas em 2010. Em 2011, por conta da lesão anteriormente citada, seu posto foi ameaçado pelo goleiro Renan Soares Reuter, que vinha se destacando no Avaí Futebol Clube e, ao se transferir para o Corinthians, se tornou o seu reserva imediato. Apesar disso, Renan não aproveitou as oportunidades que teve e após quatro semanas de recuperação, Júlio retomou seu posto de titular e, no final do campeonato, se sagrou campeão brasileiro de 2011. Com a camisa do Corinthians o jogador conquistou sete títulos, como os da Série A dos Campeonatos Brasileiros de 2005 e 2011, da Série B do Campeonato Brasileiro de 2008, além do Troféu Mesa Redonda, como melhor goleiro do Campeonato Brasilei-

ro em 2010 e 2011. Em 2012, o jogador atravessa uma fase difícil. Duas falhas nas quartas de final do Campeonato Paulista (jogo único) contra a Ponte Preta, no Pacaembú, e a eliminação da equipe fizeram com que ele provasse a ira da torcida corinthiana. O técnico Tite atendeu às cobranças da imprensa e da torcida e barrou o goleiro, agora reserva de Cássio que conquistou a vaga da titular nos jogos seguintes. Isso fez com que surgissem rumores de que

O Corinthians é minha casa, eu fico mais tempo no Corinthians do que eu fico em casa.” Júlio César


foto: Guilherme Kastner

Eu nunca usei cor verde, eu nunca gostei de usar nada verde, porque é da cultura do clube” Júlio César

o atleta estaria insatisfeito na reserva e iria deixar a equipe do Parque São Jorge, mas tudo não passou de boatos. Júlio César continua na equipe, agora como reserva, mas disputando a posição de titular com Cássio. Apesar de muitas pessoas não acreditarem mais no amor à camisa, Júlio não é um destes. Sua relação afetiva com o clube em que atua é muito grande: “Eu jogo no Corinthians por amor à camisa, mas eu tenho meu salário, eu tenho as minhas coisas. Independente se o salário é 1 real ou 1 milhão, se você gosta do clube, você joga por amor. Mas eu jogo, principalmente, porque eu tenho prazer em jogar futebol e porque eu amo estar no Corinthians. Na verdade, quem menos entende quando o assunto de ‘Amor à Camisa’, é a torcida.” O amor pelo clube pode ser um dos fatores determinantes para a permanência em um time, mas é apenas um. A estrutura deste clube também tem grande um peso na decisão do atleta. Para o goleiro, a realidade oferecida pelo Corinthians é a garantia de sua permanência. “Aqui no Brasil você tem de tudo, hoje em dia as coisas estão muito boas aqui: os clubes pagam em

dia, pagam bem, estão se estruturando cada vez melhor. Então, atualmente o futebol brasileiro está se equiparando com o futebol europeu. Eu só sairia (do clube) se o Corinthians não me quisesse, por vontade própria eu não sairia.” Desde 1998, com a entrada em vigor a Lei Pelé, que facilita a negociação dos direitos federativos (passes) dos jogadores com os times, o mercado do futebol ganhou mais força. Essa nova realidade futebolística gerou grande especulação sobre a negociação de jogadores e a relação afetiva destes com os clubes. O goleiro afirma que, ao contrário do que a mídia publicou, nunca recebeu nenhuma proposta concreta de outros clubes. “Sempre fui 100% Corinthians, sem especulação nenhuma, principalmente de fora”. No entanto, Júlio Cesar afirma que a lei tem seus prós e contras: “Antes, você fazia um contrato com um clube, e o clube só te liberava quando ele quisesse. (Hoje) a gente não fica preso a um clube a vida inteira. Claro que hoje em dia tem muitos jogadores e clubes que são presos a empresários, eles é que comandam a vida do atleta, então, a gente vê brechas na lei que as vezes o pessoal (empresários) usa disso para o mal”.

“O amor pode resistir” Júlio César é o exemplo de jogador que muitos torcedores esperam ver surgir com cada vez mais frequência, pois deve ser visto como exemplo para as gerações futuras. Caso a maioria dos jogadores brasileiros tivesse o mesmo pensamento do goleiro, seria possível que o Campeonato Brasileiro fosse uma competição de nível técnico e exposição muito maior do que é hoje. Como o Brasil é o maior revelador de talentos para o futebol, tais atletas atuariam aqui e isso beneficiaria não só os torcedores, que poderiam vir a ter mais ídolos por perto (o que faria com que a média de público nos estádios e a renda obtida nas partidas fossem maiores, beneficiando também os clubes), mas, também, o país de modo geral, já que atrairia cada vez mais capital externo (ao explorar as imagens desses jogadores e a “marca” do campeonato, assim como acontece hoje nos campeonatos europeus) para ser investido no país, podendo melhorar, no limite, a qualidade de vida da população.

19


ENTREVISTA

Paixão

Arquivo pessoal

Nacional Álvaro Reis Cuidar da carreira do atleta, criar possibilidades para ele dentro da sua habilidade e mostrar para ele que o momento é importante pra fazer reservas e desfrutar no amanhã. Nosso trabalho é cuidar da vida desse atleta como se fosse de um filho”. Por Suellen Pinheiro Paixão nacional é a melhor definição do futebol para o povo brasileiro, no entanto, as transferências de atletas para outros clubes em busca de melhores contratos são muito frequentes. E se o amor por parte da maioria dos jogadores ficou pra trás, o que se vê atualmente é o business tomando conta dos campos de futebol. Na entrevista que segue, o empresário Álvaro Reis Serdeira, agente FIFA desde 1999 e representante dos jogadores Alê (XV de Piracicaba), Jean (Guangdong Sunray-CHI), Roger (Ponte Preta), Magrão (Sport), Fábio Santos (Corinthians), Fábio Simplício (Roma) e do treinador Nelsinho Baptista, fala à reportagem sobre como essa paixão se transformou em um grande negócio. ISTO É - Você aconselharia uma jovem promessa a ir muito cedo jogar na Europa? Por exemplo, o Lucas. AR - Não. O Lucas tem potencial de crescimento, deve solidificar a carreira no Brasil e depois buscar mercado no exterior; afinal, o futuro dele

20 - ISTOÉ - 30/05/2012

também tá ligado diretamente a isso. ISTO É - Jogadores medianos devem seguir a mesma estratégia de solidificar a carreira no Brasil? AR - Se ele não vai ter melhores chances de exposição com a camisa da seleção, deve pensar em se transferir para o exterior, porque é a chance de independência financeira. ISTO É -Mano Menezes, técnico da Seleção Brasileira vem convocando atletas que atuam no Brasil, fato que não ocorria com tanta frequência há alguns anos. Isso pode ajudar a manter os craques no país? AR - Sim, mas independente de onde atua o atleta, ele deve ser visto. A gente não pode deixar de assistir o Neymar se ele for jogar na Ucrânia – é um exemplo um “pouco grosso”, mas é realidade. ISTO É - O que é determinante na decisão de um jovem jogador em ir jogar no exterior: o dinheiro ou o sonho de disputar os maiores campeonatos do mundo? AR - Em qualquer ramo de atividade, a contrapartida é o re-

torno financeiro, mas a ‘Champions League’ queira ou não, é muito mais organizada do que a Libertadores da América, além do mais, os clubes de fora são punidos caso não paguem em dia. Isso faz com que o jogador vá até lá. ISTO É - Como você vê a supervalorização dos chamados “novos craques” do futebol mundial? AR - Eu não vejo como uma supervalorização, eu acho que a situação está ficando mais justa. ISTO É - O jogador deve se pagar, Neymar e Rogério Ceni, por exemplo, são jogadores que trazem de volta o dinheiro que o clube paga pra ele. Atleta que não se paga deve ser negociado. Você acha que ainda há espaço para o amor à camisa no futebol brasileiro? AR - Gostaria que existisse, mas o descrédito começa já nos clubes. Como amar essa camisa, se ela não te dá o suporte prometido. Como você pode ver um companheiro seu, da categoria júnior, ser abandonado no caminho e ver que o que te garantiu lá foi teu talento, ou você também teria ficado pra trás? O mercado está muito dinâmico e, felizmente ou


infelizmente, o dinheiro compra. Eu acho que essa relação de respeito, de consideração, tem de ser calçada em contrato e isso deve ser válido. ISTO É - Você acha que o nosso futebol está carente de ídolos? AR - Eu acho que o futebol tá carente de ídolos e de profissionais qualificados. ISTO É - Muito se fala em categorias de base, na atual situ-

ação muitos clubes estão quebrados e insistem em investir em medalhões, você acredita que com investimento nessas categorias, profissionais gabaritados e centro de treinamentos adequados os clubes conseguiriam resolver esses problemas? AR - Creio que sim, o maior exemplo disso tudo é o Barcelona, existem todas as categorias para todas as faixas etárias, além de formar atletas, Foto: Divulgação

eles formam cidadãos e profissionais. Você não vê o Messi envolvido em polêmicas, ele é um atleta treinado pra cuidar inclusive da imagem dele, isso é resultado do trabalho de profissionais qualificados. Mas, ainda tem clube de primeiro escalão no Rio de Janeiro que, ao ter dois períodos de treinamento, dispensam os atletas no intervalo por não terem condições de oferecerem alimentação, conforto e descanso aos atletas, então, eu acho que uma boa estrutura forma um campeão. ISTO É - Fazendo uma análise ao longo dos anos no futebol, qual a principal mudança que viu acontecer nas transferências dos jogadores para os clubes europeus? AR - A Lei Pelé foi a principal mudança, o jogador deixou de ser escravo, ele não é do clube, ele está no clube. ISTO É - Qual é o papel do empresário/agente para o jogador? AR - Cuidar da carreira do atleta, criar possibilidades para ele dentro da sua habilidade e mostrar para ele que o momento é importante pra fazer reservas e desfrutar no amanhã. Nosso trabalho é cuidar da vida desse atleta como se fosse de um filho.

Como o futebol, paixão nacional se transformou em um grande negócio

ISTO É - Como o jogador seleciona o profissional adequado para gerir sua carreira? AR - O ideal é procurar indicações. A FIFA permite que os contratos entre agente e o jogador sejam feitos de ano em ano, não existe renovação automática. Esse tipo de esclarecimento seria muito importante que os clubes dessem para os jogadores. Em vez de ir contra os empresários, ajudar os jogadores a escolherem bem seus empresários.

21


As etapas de uma

Divulgação

PERFIL

transferência O meia, que passou pelo Dínamo de Kiev (Ucrânia) conta a mudança da rotina e as barreiras enfrentadas após a decisão de deixar o futebol nacional Por Liliane Rodrigues Michael Anderson Pereira da Silva, 28 anos, conhecido apenas como Michael, iniciou a carreira de jogador de futebol nas categorias de base do São Caetano, mas se tornou conhecido nacionalmente quando chegou ao Palmeiras, em 2005. Na sua passagem pela equipe alviverde, o atleta se destacou atuando como lateral esquerdo, sendo cogitada até mesmo uma convocação para a Seleção Brasileira

em 2007: “Fui em um programa da Bandeirantes, da Renata (Fan) e todo mundo (estava) me elogiando bastante. Na época, o treinador da Seleção era o Dunga. Todo mundo da imprensa apostava na minha primeira convocação porque eu estava muito bem, muito bem mesmo no Palmeiras”. Michael atuou pela equipe alviverde até 2007, quando foi negociado com o Dínamo de Kiev, da Ucrânia. “Eu vim de uma família bem simples. Quando o jogador pensa em dar Marcia Feitosa/VIPPCOM

Michael, em sua breve passada pelo Flamengo 22 - ISTOÉ - 30/05/2012

uma casa pra mãe, para os pais, dar uma condição melhor, pesa um pouco quando chega uma proposta pra você ir pra fora, conseguir logo sua independência financeira. E eu não sou diferente”, justifica o jogador. “(Quando) eu sai do Palmeiras, era um jogador feliz, mas não reconhecido financeiramente”, completa. Mesmo sem ter jogado tantos anos no clube, ele afirma ter se identificado com a equipe do Palestra Itália: “Eu queria ter uma identificação maior com o Palmeiras. E tenho. Aonde eu vou, todo mundo fala, não é o Michael do Santos, nem o Michael que jogou no Flamengo. É o Michael que jogou no Palmeiras... Eu vou no shopping aqui e até hoje as pessoas me pedem autógrafo. Isso para o jogador é gratificante.” Ele exemplifica, ainda, o que no seu conceito é se identificar e gostar de um clube: “O Robinho foi uma vez e voltou para o Santos. Isso, sim, é gostar do time. Isso, sim, é ter uma identificação com o clube”. E ainda diz que tem gratidão pelo Palmeiras: “Eu sou grato ao Palmeiras e quando o pessoal me encontra na rua e fala “você tem que voltar pro Palmeiras que lá é sua casa”, eu fico contente, porque eu vejo que meu trabalho foi bem feito e reconhecido”. Essa identificação com o Palmeiras e sua torcida se deu, pois, o atleta atravessou no clube possivelmente a melhor fase de sua carreira. Quando perguntado se voltaria a atuar pela equipe, Michael afirma que sim, mas não em um futuro próximo: “Quem sabe para encerrar a carreira”. Ele esperava jogar na Itália, mas,


na época, recebeu três propostas. Além do Dínamo de Kiev, do Olympique de Marselha e do Mônaco, ambos da França. Escolheu o Dínamo por conta dos brasileiros que já estavam por lá: “Eu falei: a adaptação vai ser mais rápida. Porque o Kleber estava lá há três anos, o Correa há dois anos, o Rodrigo três. (Pensei:) Vai ser mais fácil”. Entretanto, os primeiros meses de acomodação não foram tão fáceis como ele esperava, mas o apoio dos colegas brasileiros ajudou, e muito: “O Rodrigo, que morava no mesmo prédio, me levava pro treino no começo, me dava as direções. Jantava com eles. E a princípio eu não tinha levado minha namorada nem minha irmã. Fiquei lá de três a quatro meses sozinho”. Apesar das dificuldades, conseguiu superá-las: “Eu pensava muito no que nós já tínhamos passado e falei: vou ter que fazer um sacrifício porque lá na frente, no futuro, vai fazer diferença. (Por isso) não me arrependo”. A língua era a barreira mais difícil de ser quebrada: “nos quatro primeiros meses, eu não sabia falar nada. Já no sexto ou sétimo mês, eu já entendia, pelo menos no campo. O treino cai na mesmice, sempre o mesmo treino, o básico; então, você vai gravando. Ia perguntando para o intérprete o que é isso, o que é aquilo, aí você vai pegando. Até pra ir em restaurante, a gente vai se virando. Brasileiro é muito comunicativo”, comenta. Além disso, o atleta mudou sua po-

Eu vim de uma família bem simples. Quando o jogador pensa em dar uma casa pra mãe, para os pais, dar uma condição melhor, pesa um pouco quando chega uma proposta pra você ir pra fora, conseguir logo sua independência financeira. E eu não sou diferente”

Michael

Divulgação

Segundo ele, o Palmeiras foi o clube que mais se identificou na carreira sição, abandonando a lateral esquerda e utilizando sua habilidade com a bola em pequenos espaços, obtida nos anos em que jogou futebol de salão, para atuar como meia-esquerda. Apesar das dificuldades, Michael passou dois anos na Ucrânia, mas, por não estar jogando regularmente, resolveu voltar ao futebol brasileiro: “Pelo fato de eu não estar jogando lá com muita frequência, tanto eu quanto o Pepe (empresário dele) decidirmos por voltar”. Quando retornou ao Brasil, no final de 2008, ficou cinco meses sem jogar por conta de problemas com documentação. Quando liberado para atuar, passou pelo Santos e Botafogo (sempre por empréstimo), único clube que se arrepende a ter assinado contrato, pois teve problemas com o técnico Estevam Soares, quando se recusou a ficar no banco de reservas em um jogo: “Esses sete, oito meses foram um desperdício. É o único clube que eu não volto a jogar”, afirma Michael. Depois desse episódio, o jogador acertou contrato com o Flamengo, mas teve de esperar três meses, treinando separado, até assinar efetivamente com o clube da Gávea. Novamente por não se firmar como titular, deixou o Flamengo e retornou

ao Dínamo. No início de 2012, fechou mais um empréstimo com a Portuguesa de Desportos, mas, novamente por conta de problemas com documentos, não pode ser inscrito nos campeonatos e acabou deixando o clube sem sequer atuar pela equipe. Para Michael, a falta de ídolos do futebol brasileiro se dá por conta dos empresários, que querem ganhar dinheiro com jogadores que estão fazendo sucesso por aqui e pelos jogadores que não consideram a ideia de permanecer no futebol brasileiro: “Muitas vezes o jogador joga aqui um tempo, tem sucesso, e vem um empresário falando que tem um time fora para ele, que não pensa duas vezes. Por isso hoje aqui, a carência de ídolos é muito grande.” Apesar disso, o cenário do futebol brasileiro está em transição. Diferentemente da época em que Michael deixou o país para tentar a sorte na Ucrânia, agora vemos muito menos jogadores deixando o futebol nacional, assim como os clubes brasileiros vem repatriando grandes atletas. Alguns deles já considerados ídolos por suas atuações na Seleção Brasileira, como é o caso de Ronaldinho Gaúcho e até pela Seleção Portuguesa, como Deco. 23


Istoé - Ainda há espaço para o amor à camisa?  

Projeto desenvolvido pelos alunos da Universidade Anhembi Morumbi - Juliana Freitas, Liliane Rodrigues, Nicolas Otterloo e Suellen Pinheiro

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you