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EDIÇÃO #69 NOV/DEZ 2013 R$ 25,00

artit.com

ENTREVISTA O fotógrafo carioca Andre Arruda já trabalhou em jornais importantes, como o Jornal do Brasil e O Globo.

BIOGRAFIA Considered one of Europe's greatest modern artists. He painted unsettling portraits with peculiar focus on the texture of their flesh.

AS ILUSTRAÇÕES VÍVIDAS E DINÂMICAS DO PAULISTA WILL MURAI JÁ CONQUISTARAM GIGANTES COMO A BLIZZARD, UBISOFT E MARVEL COMICS.


UMÁRIO SUMÁRIO

CARTA AOS LEITORES Eduardo Saron

BIOGRAFIA Lucian Freud Considered one of Europe's greatest modern artists. He painted unsettling portraits with peculiar focus on the texture of their flesh.

CAPA

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ENTREVISTA

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Will Murai As ilustrações vívidas e dinâmicas do paulista Will Murai já conquistaram gigantes como a Blizzard, Ubisoft e Marvel Comics.

Entrevista Andre Arruda O fotógrafo carioca Andre Arruda já trabalhou em jornais importantes, como o Jornal do Brasil e O Globo. Cid Costa Neto

POLÍTICA

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Conhecer para atuar A importância de estudos e pesquisas na formulação de políticas públicas para a cultura. Ana Letícia Fialho e Ilana Seltzer Goldstein

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George Kornis As especificações do mercado de artes visuais no Brasil do século XXI. Isaura Botelhow

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INSPIRAÇÃO

Arte , cultura e seus demônios Uma análise contemporânea sobre as manifestações culturais e suas representações. Ana Angélica Albano

CONVIDADO

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Quando o todo era mais do que a soma das partes Álbuns, singles e os rumos da música gravada contemporânea Marcia Tosta Dias

SOCIAL

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Cinema para quem precisa O cinema como via de inclusão social nas comunidades do Rio de Janeiro pós UPPs Francisco Alambert

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O direito ao teatro Teatro de direito e direito ao teatro. Dois lados de uma mesma moeda? Sérgio de Carvalho

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Música, dança e artes visuais Aspectos do trabalho artístico em discussão em tempos de lei do patrocínio Liliana Rolfsen Petrilli Segnini

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lucian freud


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BIOGRAFIA | ART IT

Lucian Freud is considered one of Europe's greatest modern artists. He painted unsettling portraits and nudes in drab rooms, with peculiar focus on the texture of their flesh. Freud was the grandson of Sigmund Freud. He moved to Britain from Germany with his family in 1933 to escape persecution as a Jew. He spent most of his working life in London's Paddington, saying that its sleaziness appealed to him.

"THE QUEEN REFUSED TO COMMENT" Freud's early works, like Girl With A White Dog, were very controlled and formal. Over time his style changed and his later painting were mainly nudes, using coarse, layered dabs of paint to create skin texture. The figures in Freud's paintings often look distant and depressed. However he had a close relationship with his subjects and claimed his pictures are "to do with hope and memory and sensuality". One of his best known paintings, Benefits Supervisor Sleeping, was reportedly bought by Russian billionaire Roman Abramovich for $33m at auction. This was a record at the time for a living British artist. Freud provoked public outcry with a portrait of Her Majesty Queen Elizabeth II. Many people said the painting made her look old and unhappy. The Queen refused to comment.

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"HOPE AND MEMORY AND SENSUALITY AND INTENSITY"

ART IT | BIOGRAFIA

WHO IS LUCIEN

Freud was born in Berlin in December 1922, and came to England with his family in 1933. He studied briefly at the Central School of Art in London and, to more effect, at Cedric Morris’s East Anglian School of Painting and Drawing in Dedham. Following this, he served as a merchant seaman in an Atlantic convoy in 1941. His first solo exhibition, in 1944 at the Lefevre Gallery, featured the now celebrated The Painter’s Room 1944. In the summer of 1946, he went to Paris before going on to Greece for several months. Since then he has lived and worked in London. Freud’s subjects are often the people in his life; friends, family, fellow painters, lovers, children. As he has said ‘The subject matter is autobiographical, it’s all to do with hope and memory and sensuality and involvement really’. Paintings in the exhibition will range from Girl with Roses 1948 to Garden, Notting Hill Gate 1997, and highlights include the marvellous series of portraits of his mother, portraits of fellow painters John Minton, Michael Andrews and Frank Auerbach, and other major works including Large Interior W11 (after Watteau) 1981-3. Sharp pictures of his youth will contrast with the works of his maturity, paintings filled with life and liveliness, each in its way a celebration. ‘I paint people’, Freud has said, ‘not because of what they are like, not exactly in spite of what they are like, but how they happen to be’.

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BIOGRAFIA | ART IT

LUCIEN BIOGRAPHY British painter and draughtsman. Freud spent most of his career in Paddington, London, an innercity area whose seediness is reflected in Freud's often sombre and moody interiors and cityscapes. In the 1940s he was principally interested in drawing, especially the face. He experimented with Surrealism. He was also loosely associated with Neo-Romanticism. He established his own artistic identity, however, in meticulously executed realist works, imbued with a pervasive mood of alienation. Two important paintings of 1951 established the themes and preoccupations that dominated the rest of Freud's career: Interior in Paddington (Liverpool, Walker A.G.) and Girl with a White Dog (London, Tate). Both paintings demonstrate an eagerness to establish a highly charged situation, in which the artist is free to

explore formal and optical problems rather than expressive or interpretative ones. By the late 1950s brushmarks became spatial as he began to describe the face and body in terms of shape and structure, and often in female nudes the brushstrokes help to suggest shape. Throughout his career Freud's palette remained distinctly muted. A close relationship with sitters was often important for Freud. His mother sat for an extensive series in the early 1970s after she was widowed, and his daughters Bella and Esther modelled nude, together and individually. Although the human form dominated his output, Freud also executed cityscapes, viewed from his studio window, and obsessively detailed nature studies. The 1980s and early 1990s were marked by increasingly ambitious compositions in terms of both scale and complexity.

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ART IT | CAPA

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CAPA | ART IT

Will Murai

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Olá! Meu nome é Will Murai, nasci em 1985 na cidade de Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Quando criança já passava horas desenhando e me lembro de como ficava super feliz quando meu pai trazia montanhas de papwéis pra mim. Eu queria muito ter me formado em Artes Plásticas, mas como essa era uma idéia muito ousada pra minha vida naquela época, decidi fazer Design Gráfico.

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Logo que me formei, trabalhei como designer em uma agência de publicidade pequena em Mogi das Cruzes. Após 2 meses desisti porque - além do trabalho ser bem chato - eu recebi uma proposta para trabalhar como colorista de quadrinhos. Comecei em alguns títulos pequenos e undergrounds, até que surgiu uma oportunidade de fazer alguns testes para a Marvel Comics. Para a Marvel, trabalhei em títulos como “Marvel Nemesis: The Imperfects” e “Incredible HULK”. Depois trabalhei durante um bom tempo com a Dinamite Entertainment fazendo cores para a “Red Sonja”. Foi uma experiência muito legal, pois me ensinou muito sobre ambientação com cores, e como traduzir um roteiro escrito em linguagem visual. Não demorou muito e logo senti a necessidade de criar minhas próprias peças e não somente colorir o trabalho de outros artistas. Comecei a trabalhar exclusivamente como ilustrador mais ou menos na época em que conheci o Camiseteria, nos seus primórdios em 2005. Recentemente trabalhei com desenvolvimento de games dentro do estúdio da Ubisoft no Brasil. Participei de dois projetos, sendo que um deles foi liderando o time de arte na produção do jogo Michael Jackson Experience para DS e PSP. Hoje eu faço parte da premiada equipe de infografia do iG e paralelamente estou trabalhando para a Wizards of the Coast fazendo ilustrações para o Magic: The Gathering.

"SENTI A NECESSIDADE DE CRIAR MINHAS PRÓPRIAS PEÇAS"

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CAPA | ART IT

Antes de trabalhar com quadrinhos, você já curtia alguns?

 Claro! Sempre li quadrinhos. Adoro o Homem Aranha do Terry Dodson, Spawn, BattleChasers do Joe Mad, que foi uma grande influência no meu trabalho, Hellboy do grande Mignola e a lista vai longe... Quais seus artistas favoritos? Vou tentar ser o mais sucinto possível e citar também alguns ilustradores: tem os renascentidas Leonardo DaVinci e Michelangelo, os impressionistas Claude Monet e Edgar Degas. Dos ilustradores do meio do século, eu adoro o trabalho do Norman Rockwell,Joseph Christian Leyendecker e Gil Elvgren. Dos contemporâneos, James Jean; os brasileiroJoão Ruas e Tiago Hoisel, e o fantástico Jim Murray. Poderia falar muito mais, mas acho que tá bom!

imagens. Depois passo pro digital e começo o processo de pintura, que não tem muito mistério: é polimento e atenção nos detalhes. Você vem de uma família japonesa tradicional. Como a cultura oriental influenciou o seu trabalho e a sua vida? Por ser da terceira geração de descendentes japoneses, não tive uma criação extremamente

tradicional. Quer dizer, não falo japonês, nem comemos ramen todos os dias. Porém uma das características da cultura japonesa sempre presente na minha educação foi a disciplina. Meu pai sempre dizia “Se escolher fazer alguma coisa, faça-a bem”. Isso influenciou muito na maneira como eu encaro meu trabalho e qualquer outro compromisso, tanto profissional como pessoal.

Como é o seu processo de criação? O processo que eu venho desenvolvendo ao longo da minha carreira é bem organizado. Eu gosto muito da liberdade de criação, na piração e tals. Mas quando estou envolvido com projetos e comissões que têm prazos e objetivos, é sempre bom prestar atenção nos processos. Começo sempre pesquisando sobre o tema. Procuro por referências em livros,filmes, internet e coleto o máximo de estímulos visuais e conceituais que eu puder. Faço um moodboard e começo a desenhar sob influência dessas

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ART IT | CAPA

Como foi a migração do desenho tradicional, em papel, para o computador? Acho que a primeira experiência com computação gráfica foi com a galera de um curso de quadrinhos que eu fazia. Eles já usavam o photoshop pra colorir os desenhos arte-finalizados que eram scaneados e coloridos digitalmente no photoshop. Fiquei fascinado e logo meu pai comprou um scanner e um PC pra mim. Me familiarizei com o programa usando-o como a maioria dos coloristas americanos usavam: mouse, LassoTool e Gradient Tool dando um visual bem plástico e “liso”. Frequentando fóruns de

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computação gráfica e pesquisando na internet, descobri que alguns ilustradores orientais usavam os softwares de uma maneira totalmente diferente. Eles usavam as ferramentas digitais para simular as técnicas tradicionais como aquarela e óleo. Só com a Brush tool e a tablet eles conseguiam um resultado muito mais rico e vivo com texturas e pinceladas evidentes, quase impressionista. Resolvi pesquisar mais sobre essa técnica e deu no que deu! Você atualmente trabalha com quais equipamentos e softwares? Eu só tenho usado o software Photoshop que é completo e lida muito bem com arquivos

pesados. Meus eqsuipamentos são: um Imac 27’ quadcore e alguns HDs Lacie pra armazenamento extra. Como periféricos, eu tenho uma Wacom Cintiq 21UX e uma Wacom Intuos 4 que alterno dependendo do trabalho. Também uso um Time capsule e o Dropbox pra versionamento e backup e por último, mas não menos importante, um nobreak APC 1500. A gente nunca lembra de dar atenção pra esse tipo de equipamento, mas eles definitivamente “salvam vidas”! Fora o lado visual dos seus trabalhos, você participa de outras etapas do processo de criação. Recentemente você recebeu um prêmio internacional (Malofiej)


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com infográfico mostrando o "frio na barriga". Dizem que você recorreu a um fluxo de criação antigo, também utilizado pelo Norman Rockwell. Como foi o processo e como é Will Murai antes da fase de ilustração? Participar de projetos é uma coisa que eu gosto muito. Analisar o cenário e pensar em como usar meu trabalho pra agregar valor ao produto é também uma parte do meu papel como ilustrador. Neste caso, a gente tinha uma matéria especial pro dia dos namorados que falava das reações fisiológicas que acontecem no corpo quando estamos apaixonados. Logo imaginei que a gente deveria

seguir com um produto que informasse de uma maneira mais divertida e menos científica. Usei como referência o trabalho do mestres dos mestres, Norman Rockwell, que sabia representar como ninguém emoções e situações sob uma ótica inocente e com um toque de humor. Porém, para este projeto seria necessário não só ilustrar como ele, mas pensar em como entregar essa informação ao usuário. Pra isso, foram envolvidos outros profissionais, como o Daniel Biazzotto que tomou conta da fotografia, enquanto o Cassio Bittencourt e a Heloísa Ferreira interpretavam a cena. Depois o Raphael Ferraz trabalhou no design, o Rodrigo Guedes fez

a parte de motion graphics e o Bruno Godoy programou. Teve também o grande Chico Mitre da banda Tokyo Savannah que narrou simulando um locutor de rádio da década de 60. A edicão de som foi feita pelo Master San Bass. O desafio foi tentar transferir essa sensação que as ilustrações do Rockwell nos passam em um infográfico animado e nativo da internet. Foi muito gratificante não só pelo prêmio, mas pela oportunidade que eu tive de trabalhar num projeto legal, com uma equipe empolgada e altamente capacitada!

"SE ESCOLHER FAZER ALGUMA COISA, FAÇA-A BEM"

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ANDRE ARRUDA 14


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ENTREVISTA | ART IT

Carioca, formado em comunicação social, com habilitação em jornalismo audiovisual, o fotógrafo andre arruda já trabalhou em jornais importantes, como o jornal do brasil e o globo. Atualmente trabalha na área publicitária e editorial, mas sem deixar de lado o trabalho autoral, onde tem liberdade de expressar sua criatividade em ensaios como o fortia femina e no livro 100 coisas que cem pessoas não vivem sem. Suas fontes de inspiração são as mais váriadas.

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omo foi o seu primeiro contato com a fotografia e como foi a decisão de se profissionalizar? Meu pai tinha uma TLR BeautyFlex, imitação japonesa da Rolley, e fiz algumas fotos com ela quando criança. Cheguei inclusive a tentar fazer uma estória em quadrinhos com avioes da II guerra, modelos de montar Revell, que é claro, não ficaram técnicamente boas. Me lembro até hoje da imensa sensação de dificuldade daquela tarefa. Um dia a câmera pifou e não tinha conserto. Como a família não tinha recursos, ficou-se sem equipamento mesmo. Depois, somente na faculdade tive contato com fotografia, numa aula de fotojornalismo. Nos foi mostrada uma série de fotos de HCB e aquela imagética foi como se eu tivesse aprendido uma língua nova instantaneamente. No curso de jornalismo comecei a

me interar da fotografia e pouco tempo depois resolvi ser fotógrafo. Mal sabia da fria em que estava me metendo. Como surgiu a oportunidade no meio editorial? Antes tive um experiência amarguíssima. Fui em um determinado jornal levando meu humilde portifolio, basicamente um ensaio sobre Copacabana. Depois de dias tentando, consigo uma hora para conversar com o editor. Chego lá, quem me atende é um coordenador, que abre a pasta, folheia as fotos com o desdém de um delegado de polícia, e ainda vira pro lado, falando com outra pessoa: “O teu vascão ontem, hein?” Joga a pasta na mesa e diz secamente: “Serve não”. Volto pra casa com a pasta “pesando uns 100 kg” e com uma decepção knock down. Uns dois anos depois, já na lida do jornalismo, encontrei o

sujeito do “serve não” numa cobertura qualquer e o pessoal foi almoçar e ele não tinha grana: acabei pagando o almoço dele. O ensaio que não serviu ganhou um prêmio na Funarte, outro da UFF e foi publicado em quatro páginas na Revista de Domingo, do JB, o principal encarte do Rio naquele tempo. Mas voltando: Um amigo trabalhava no extinto Jornal do Brasil e disse que tinha vaga lá. Marquei uma hora com o editor, o caladíssimo Rogério Reis, que viu o portfolio “inútil” e me admitiu. Depois de um ano tentando entrar lá, consegui. Ainda tive a sorte de estar no fim da era de ouro do fotojornalismo, que no JB era capitaneado pelos editores Rogério Reis e Flavio Rodrigues, um período intenso e de muita cobrança, de salários baixos mas de muita criatividade, onde a editoria de fotografia era composta por um time de feras. Impossível não ter

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saudade daquela época, onde nem se sonhava com a internet. Fiquei lá de 92 a 98 e em outro jornal de 98 a 2000, mas nunca me senti o repórter per se, sempre gostei de features, de fotografia mais "pensada". Qual a importância de um trabalho autoral para quem trabalha apenas comercialmente? É fundamental, absolutamente. Eu creio – na maioria dos casos o trabalho comercial deve financiar o trabalho autoral, pois este irá nortear a carreira do fotógrafo. O fotógrafo deve estar atento para não se tornar mais uma peça dentro do mercado. Como é a concepção do trabalho autoral e como funciona o seu processo de criação? No momento tenho dois trabalhos de minha inteira concepção, "Fortia Femina" e um livro chamado "100 Coisas que cem pessoas não vivem sem". O “Fortia” é um ensaio sobre mulheres adeptas da musculação, em preto e branco, de viés livre de publicação ou lucro. São imagens que não residem num limbo preferencial: ou se ama ou se odeia. Até agora não vendi uma única cópia para coleção. O “100” nasceu da idéia de fazer um livro de retratos, mas não queria um tomo que fosse um compilação de fotos de gente, isso o medium visual está repleto e sinceramente acho repetitivo e um tanto tedioso. Como toquei baixo muitos anos, tive bandas e escrevi muitas letras, creio que títulos/temas são tão importantes quanto a obra. Nome é destino. Comecei a brincar com a idéia

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de número, de rima, de ritmo, de pessoas e que o conceito de uma pergunta instigaria o leitor. Depois de muita elocubração, veio o título, cujo paradoxal conceito é “arqueologia instantânea”, conhecer um pouco as pessoas pelos seus objetos. E desde agosto de 2005 venho fazendo o “100”, um desafio logístico muito pesado. E bancado integralmente por mim. "Fortia Femina" nasceu antes, em 2003, 2004. Zapeando, paro em uma transmissão de um campeonato Mr. Olimpia, creio, e vi mulheres na competição. Até então não sabia que uma mulher poderia ter um corpo com aquelas proporções e me encantou como o relevo e o volume dos corpos "respondiam" à luz, e como a feminilidade poderia chegar a um extremo tão intenso. Então comecei a pensar numa série de fotos de nu, sem grandes compromissos, mas que fosse distinta do que havia visto até então. Um ensaio, um trabalho, deve ser adequado às condições de quem o elabora. Adotei o fundo branco para o "Fortia" pela

facilidade do suporte (papel branco, pano branco, parede branca existe em qualquer lugar) e pela leveza que o branco fornece ao conteúdo, que talvez seja uma herança do meu tempo de garoto, quando pensava em ser desenhista, cartunista. Sou fanático pelas ilustrações a bico de pena e gravuras de Da Vinci, Vesalius e Henry Gray sobre a anatomia do corpo humano; descobri que me influenciaram bom tempo depois de estar fazendo o Fortia Femina. O "100" também é em fundo branco, retrato e objeto, mas em conjunto com outra inspiração agregada, que são os catálogos de produtos, tão comuns em jornais. Como vivemos em uma época "catalogal", onde somos reduzidos perfis e frases definidoras, o "100 Coisas que cem pessoas não vivem sem" é um comentário pretenso sobre este nosso tempo. Zeitgeist. Você busca inspiração em outras mídias, como quadrinhos, música e cinema. Porque considera isso tão importante? Não apenas nas citadas, mas pintura e escultura me são

MAIS DO QUE NUNCA FOTOGRAFIA ESTÁ DIFÍCIL COMO NEGÓCIO RENTÁVEL. SOMENTE QUEM TIVER TALENTO, SENSO DE OPORTUNIDADE E PRINCIPALMENTE UM MANIFESTO SINCERO DE IDÉIAS PERANTE O MUNDO PODERÁ TER SUCESSO.


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vitais. Todo o tipo de manifestação me atrai. Na literatura ‘O Estrangeiro’, de Camus, teve um profundo impacto quando li. Outro fantástico observador é William Gibson, autor do termo cyberspace em “Neuromancer” e de “Reconhecimento de padrões” um livro importante para qualquer pessoa que trabalhe com imagens; que aliás tem uma tradução eficiente em português brasileiro. Toquei baixo por uns oito anos e até hoje tenho o instrumento, embora quase não toque. A música desempenha um papel fundamental na minha vida, tanto ou mais quanto o cinema; meus mais antigos amigos vêm da música. Não vejo, por exemplo, chance de ter uma namorada que tenha um gosto musical muito diferente do meu. Música é alma. Ouço de Slayer à Cole Porter, passando por bossa nova, industrial, alguns eletrônicos, rock, heavy metal e muita black music dos 50, 60 e

70. Refuto qualquer discurso que relativise a cultura e a educação e que enalteça o mero empirismo de processos na formação. Aproveito da máxima socrática: “quanto mais sei, mais sei que nada sei.” Quando vou editar um trabalho meu, sempre procuro se há algo bom. Inicialmente, acho tudo medíocre, apressado e raso. Sempre pode ser melhor... Além das questões gráficas, o ensaio Fortia Femina lida com um tabu da estética feminina. Como foi a recepção desse trabalho? Amor ou Repulsa. Já me disseram que Fortia Femina está à frente do tempo dele. Não sei e não procuro me preocupar com isto. Hoje a estética da mulher muscular é um fator presente na sociedade, uma tendência desde os anos 80, quando explodiram as academias de ginástica e as “aulas de jazz”, que misturavam dança com exercício

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físico pesado. Fausto Fawcett, um excelente pensador pop, até cita na letra de “Facada Leite Moça” a frase “coxas de quem faz jazz”, no fim dos 80. Cabe ao autor suscitar e abrir questões. E isso não vem de graça, sempre se paga um preço. Existe um projeto para publicar o Fortia Femina? O livro em tese está pronto, como fotos já tratadas e prontas para edição, mas falta uma editora com coragem para abraçar o projeto. Durante o Nu Photo Conference você realizou um ensaio ao vivo para uma platéia de 300 pessoas. Como foi essa experiência? Já tinha feito algo parecido? Com uma platéia tão grande foi a primeira vez. Gostei muito da experiência, embora tenha achado, com o benefício da distância, que a apresentação foi um tanto exagerada em alguns aspectos. Foi um desafio redobrado porque aconteceu diferente do planejado. A minha proposta inicial seria verdadeira sessão do Fortia Femina mas a modelo, uma atleta, desistiu. Então propus que fossem duas modelos e parti do zero. Gostei muito de uma imagem resultante daquela sessão. Durante a sua palestra você citou a importância de usar o fotômetro de mão. Com o digital, muitos fotógrafos da nova geração dispensam o seu uso. Porque você acha que isso acontece?

O fotômetro é um símbolo. Quis ressaltar a importância da técnica, da pesquisa e do estudo constante. Não existe fotografia “fácil” e quem está começando não deve crer em soluções simplórias, como se a fotografia fosse uma série de “macetes” que resolvem qualquer situação. Todos os fotógrafos de cinema, cuja fotografia é exponencialmente mais complexa que a still, usam fotômetro, mesmo os fotógrafos com 30, 40 anos de experiência. É saber interpretar, usar a luz e não ser refém dela. Não creio que o fotografo deva se ater a fórmulas e resoluções fixas; quanto mais conhecimento, melhor; é quase pueril falar isso, mas há quem acredite que a fotografia é simples, quase intuitiva e o Photoshop resolverá tudo depois. O que interessa mesmo é a luz (saber iluminar) e a direção. A câmera, desde que seja manual, minimamente boa e gere arquivos RAW, resolve a maioria dos casos. A grande diferença entre uma câmera Pro e a amadora é que a Pro tem resistência e robustez. Tenho uma objetiva 70-200 2.8 que deve ter uns 10 anos e funciona muito bem, apesar de algumas “cicatrizes”, arranhões na lente e marcas de uso. Quais fotógrafos cujo trabalho você admira e qual a relevância deles na sua produção? Vários me influenciaram e influenciam. Seria injusto nomear alguns, então fico com o meu trio sagrado, Cartier-Bresson, Avedon e Helmut Newton.

E Sebastião Salgado, claro, por ser o maior fotógrafo vivo e por sua visão e sobretudo planejamento. Até o momento acredito que nenhum fotógrafo tem ou terá uma obra como a dele. É mais complicado ou mais fácil fotografar celebridades? Eu fotografo famosos como se fossem anônimos e anônimos como celebridades. Em geral a fotografia, para a maioria das “celebridades”, é uma atividade aborrecida e que elas querem se livrar o mais rápido possível. Mulheres respondem muito bem a locação, com homens creio que uma certa tensão desenvolve melhor. A mulher tem que ser seduzida o tempo inteiro. Quem você gostaria de fotografar e ainda não teve oportunidade? Scarlett Johansson, atriz; Yelena Isinbayeva, atleta e Angela Gossow, cantora da banda de heavy metal Arch Enemy. Aqui, Roberto Carlos, o cantor. O que você diz para quem quer seguir a carreira de fotógrafo ou está começando? Persista. Mais do que nunca fotografia está difícil como negócio rentável. Somente quem tiver talento, senso de oportunidade e principalmente um manifesto sincero de idéias perante o mundo poderá ter sucesso. E procure fazer vídeo também. O futuro caminha inexorável para a imagem em movimento.

por Cid C. Neto 18


Art IT  

Revista de arte e cultura para a disciplina de Computação Gráfica Editorial. Parceria entre Gabriela Lapadula e Stéphanie Köhler.