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Feitiรงos e Sutiรฃs Sarah Mlynowski

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Orelha do Livro: Rachel é uma adolescente típica: faria de tudo para ser popular na escola, é apaixonada por um menino que nem sabe que ela existe, sente vergonha da mãe e gostaria de ver os pais casados novamente. Tudo na vida de Rachel é incrivelmente comum até ela descobrir um grande segredo de família sua mãe e sua irmã mais nova são bruxas de verdade. A novidade chega como uma bomba a casa da menina, que não vê a hora de testar os poderes de sua Irmã Miri para conseguir realizar todas as suas fantasias adolescentes. Contrariando os conselhos da mãe, Rachel conssegue convencer Miri a exercer sua magia e transformá-la em uma exímia dançarina. O feitiço dá certo e Rachel entra para o grupo de dança da escola, conquistando a amizade de boa parte das pessoas mais populares de seu colégio e a atenção de Raf, o objeto de desejo de todas as novas companheiras de Rachel — e dela também, é claro. Miri está totalmente decidida a não desobedecer a mãe e só utilizar seus dons de bruxa após terminar todas as suas lições sobre magia. Porém o casamento do pai com uma futura madrasta consegue irritá-la, e ela, influenciada pela irmã mais velha, decide acabar com a alegria dos pombinhos. O desafio das irmãs é conseguir destruir o amor do pai pela nova namorada, sem levantar as suspeitas da mãe. Rachel, claro, também tem outro interesse por trás disso: o Baile da Primavera, seu primeiro encontro com Raf, será no mesmo dia do casamento do pai! Será que Miri e Rachel conseguirão atrapalhar a vida dos noivos? Rachel conseguirá ir ao Baile da Primavera e se sair bem na apresentação de dança na escola sem ser descoberta pela mãe? Para saber essas respostas e rir das muitas trapalhadas e magias de Rachel e Miri comece a ler agora mesmo Feitiços e sutiãs.

Sarah Mlynowski nasceu em Montreal em 1977, é formada em literatura inglesa e escritora em tempo integral. Seu primeiro best seller, Milkrun, já vendeu 600 mil exemplares. A autora lançou também livros para adultos (Fishbowl As Seen on TV e Monkey Business), além de ter participado de coletâneas de contos. Feitiços e sutiãs foi publicado em diversos países e já ganhou uma continuação. Sapos e beijos na boca


Contra-capa: As coisas na escola não estão saindo como planejado por Rachel: sua melhor amiga a trocou pela turma descolada, sua irmã caçula tem peitos maiores que os seus e o pai está para se casar com uma mulher que ela detesta! Mas quando descobre que a irmãzinha herdou poderes mágicos da mãe, Rachel vislumbra um futuro de roupas fantásticas, namorados lindos e popularidade. Só que, como todo mundo sabe, cuidado com o que se deseja — pode ser que nem tudo saia como planejado...

"Este livro não é apenas mais uma leitura leve e animada para adolescentes. Mlynowski tem um verdadeiro dom para o diálogo, e mostra uma aguçada compreensão dos adolescentes ao brincar com as situações vividas na escola." Booklist ―Histericamente engraçado.‖ Kirkus Review

Para Aviva, minha irmãzinha. Ah, sim, ela vai ser minha irmãzinha para sempre, mesmo quanto tiver 72 anos e eu estiver com 79. (Ok., Aviva, 78,5.)

Um bilhão de obrigadas para: Laura Dail, minha extraordinária agente, que ama Rachel e Miri tanto quanto eu; Wendy Loggia, por sua fantástica orientação e inesgotável entusiasmo; Beverly Horowitz, Isabel Warren-Lynch, Tamar Schwartz, Gayley Carillo, Emily Jacobs, Jennifer Black e todo o pessoal da Delacorte Press que se matou de tanto trabalhar pelo meu livro; minha mãe, Elissa Ambrose, por ter colocado no texto muitas das piadas e a maior parte da pontuação; Lynda Curnyn, por sempre ter respondido aos meus e-mails do tipo Re: ESTA FALA ESTÁ ENGRAÇADA?/ Re: ISSO AQUI FAZ SENTIDO? em menos de meio segundo; Jess Braun, por ter lido tudo o que eu escrevi desde que eu tinha nove anos, e porque ela, em hipótese alguma, iria tentar fazer o teste para o desfile de moda; Robin Glube, portoda a sua ajuda; e, por seu amor e apoio, Bonnie, Ronit, Jessica D., Vickie, John, Papai e Louisa (minha madrasta que neste caso não é nenhuma bruxa), Todd, meu MNFNMD (Marido Num Futuro Não Muito Distante), por tornar todo dia mágico.


1. MELHOR DO QUE SANDÁLIAS DE RUBI

Nos meus 14 anos de vida, fiz vários pedidos... um namorado, a paz mundial, uma fenda que se preze entre os seios. Mas nenhum dos meus desejos foi realizado. Até hoje. Estou de pé junto ao meu armário no colégio, fechando o zíper do meu casaco preto acolchoado, quando então reparo nos tênis que estou usando. São aqueles tênis de grife, de camurça verde, que fiquei namorando na Bloomie's, na semana passada. Minha mãe disse que eu não podia tê-los porque custavam mais do que nossa tevê. E agora estão nos meus pés. — Mas, como...? — murmuro, piscando várias vezes de tão confusa que estava. Onde é que estavam aquelas botas pretas mais do que gastas que eu sempre calço? — Quer dizer... quando...? Será que eu, sem querer, troquei meus sapatos com os de alguém, depois da ginástica? Será que sou uma ladra? Impossível. A única vez em toda a minha vida que peguei uma coisa que não era minha foi quando, sem me dar conta, coloquei na boca o aparelho de dentes da Jewel. Meio porca, sim. Mas uma criminosa? Não. Meu coração começa a dar pulos. Que coisa esquisita! Como é que esses tênis vieram parar nos meus pés? Espere aí um segundinho! Quem sabe minha mãe não os comprou para me fazer uma surpresa? Não que ela costume fazer dessas coisas, mas nunca me comportei tão bem quanto ultimamente (depois de ser posta de castigo por uma razão absolutamente ridícula, e nem tente me perguntar o que foi) e ela é


ótima em recompensar boas ações. Acho que devo tê-los calçado esta manhã, sem nem notar. Inacreditável. Mas é que fui para a cama tarde à beça na noite passada, e sempre zoneio tudo quando estou cansada. Só que isso não explica por que até agora não tinha percebido que estava usando esses tênis. Olhei de novo para meus pés. Os tênis são verdeluminosos. Cintilantes, talvez. Estão praticamente gritando para eu reparar neles. Bem, paciência. Tênis novos! O acessório ideal para os meus belíssimos planos para depois da escola. Sorri como alguém que acaba de se livrar de seu aparelho ortodôntico. — Pode me emprestar seu celular? — perguntei a Tammy. Ela está ocupada, remexendo sua bolsa. O mínimo que posso fazer é agradecer a minha mãe, e quem sabe ela me dá um celular da próxima vez. — Tênis maneiro — diz Tammy, olhando para baixo. — Quando você tirou suas botas? — Não... não tirei. Estava com elas o dia inteiro. — Estava? Agora já não tenho certeza de nada novamente. Tammy faz um sinal de positivo com o polegar direito e passa o celular com a mão esquerda. Ela costuma fazer sinais com os dedos para transmitir seus pensamentos. Aprendeu a mergulhar com a família no ano passado, em Aruba, e agora se comunica com freqüência nessa mímica de debaixo d'água. Polegar para cima significa "Vamos sair da água", o que significa que ela quer se mandar depressa. Minha mãe atende ao primeiro toque. — Mãe, obrigada pelos tênis. Eles são perfeitos! Desculpa não ter reparado hoje de manhã. Pausa. Então uma estática abafada. — Você ainda está aí? — pergunto, juntando os calcanhares com uma batidinha. Quem diria que camurça verde era tão charmosa? — Não estou


escutando você. Soou um forte sussurro ao fundo e então um alto Psiuuuu! — Você precisa vir para casa — diz minha mãe. — O quê? Por quê? — pergunto. Meu estômago em queda livre. Mais uma pausa. Outro sussurro forte. — Tenho de conversar uma coisa com você — diz minha mãe. Sua voz parece meio estremecida. — Uma coisa muito importante. — Mas eu tenho uma coisa extremamente importante para fazer depois da aula! — Meu destino estava à minha espera na Pizzaria Stromboli! Era um completo e total desastre. — E quando falei com você uma hora atrás, você disse que eu podia ir! — As coisas mudaram — diz minha mãe. Palavras sumárias que arruinavam minha vida. — Quero que você volte para casa. Meu casaco já abotoado até embaixo começa a parecer um forno. — Não dá para a gente conversar sobre esse terremoto, seja lá o que for, mais tarde? Minha mãe solta um de seus suspiros de por-que-eu-devo-carregar-opeso-do-mundo-em-meus-ombros-fracos. — Rachel, chega. — OK... — suspiro de volta. Tenho o meu próprio suspiro e é igualmente de quem está sofrendo um martírio. Como pequena vingança, apertei o botão rosa de end antes que ela conseguisse dizer tchau. — Não vou poder ir — digo a Tammy, devolvendo o celular. Minhas bochechas pareciam cobertas de brotoejas. Por que não esperei chegar em casa para agradecer à minha mãe? Tammy ajeita seu rabo-de-cavalo castanho-claro e cerra o punho sobre o peito, seu sinal de "ar acabando", significando que ela lamentava muito por mim. Tammy é muito solidária, e também inteligente, alguém com quem a gente pode contar. Está sempre disponível quando preciso de alguém para


conversar e, o mais importante, quando eu, sem perceber, depois de devorar um bagle, estou com sementes de papoula entre meus dentes, ela imediata e discretamente me avisa, apontando para os próprios lábios. É uma grande amiga. Só que — certo, odeio favoritismos — eu gosto mais da Jewel. Mas como a Jewel tem me tratado... eu podia até estar andando por aí com uma faixa escrita "acabei de ser jogada fora" no meu peito inexistente. Suspiro. Nos últimos quatro meses, desde que se encheu de coragem, foi fazer o teste para o desfile de moda da JFK e foi aprovada, Juliana Sanchez (Jewel para abreviar, Bee-Bee para abreviar menos) metamoforseou-se de minha cúmplice e melhor amiga para sócia de carteirinha do clube fechado. Sim, ela entrou para a lista-A. A não ser por uns poucos minutos na aula de matemática, quase nunca converso com ela. Sinto sua falta. Ir para o Stromboli teria sido um passo em direção a salvar nosso status Bee-Bee. (Lamento pelo acrônimo meloso de Best Buds — Melhores Amigas —, mas Jewel e eu sempre nos tratamos assim.) Todo o pessoal legal vai estar lá. Ter sido convidada já foi uma tremenda sorte. Mick Lloyd convidou Jeffrey Stars, que convidou Aaron Jacobs, que convidou a Tammy, que me convidou. E a gente não pode ir lá sem ser convidada. Não pode. Ninguém ia descobrir que pizzaria/lanchonete/apartamento-com-pais-viajando que o pessoal da listaA escolheu, então ia ficar sem saber onde era para aparecer. Se ao menos eles escolhessem o mesmo lugar, sempre, como faz a turma do Friends. Mônica nunca apareceu numa lanchonete nova. O Não-Muito-Central Ferk, perguntando onde todo mundo estava. Mais abaixo, no corredor, vejo Raf Kosravi diante de seu armário, pegando seu casaco. Uma mecha de seu cabelo negro como a meia-noite cai nos olhos escuros dele, que combinam com os cabelos, e ele a afasta com as costas da mão. Coração. Batendo. Desordenadamente. Não. Por causa. Dos. Sapatos. Suspiro. For causa de minha mãe, vou perder uma preciosa chance em potencial de flertar com Raf, o garoto pelo qual estou apaixonada.


Também estou apaixonada pelo Mick Lloyd. Sim, sei que parece estranho gostar de dois garotos ao mesmo tempo, mas, já que nunca disse mais do que duas palavras a nenhum deles ("Boas férias!" para Raf e "Com licença" para Mick), não tenho de me preocupar com meu coração dividido. Mick Lloyd é aquele tipo bem americano, bonito, louro, que aparece em todos os programas de namoro na tevê. Sorriso aberto, covinhas nas bochechas, cabelos lindos. Raf é mais sexy-arrasador-misterioso. Ele não é muito alto, mais ou menos 1,70 metro (que é ainda muito mais alto do que eu, que tenho 1,55 metro — tomara que eu ainda esteja crescendo) e tem um corpo magro, em boa forma, como um campeão de tênis ou um nadador olímpico (não que eu já tenha alguma vez assistido a disputas profissionais de tênis ou de natação). Raf está também no desfile de moda com Jewel. Ah, o desfile de moda. Na verdade, é um show de dança com uma passarela e trajes de estilistas. Pelo menos, foi o que escutei. Como sou apenas uma caloura e o show é em abril, nunca assisti a nenhum. E já que um ex-estudante da JFK, que agora é um diretor, desses famosões, de Hollywood, foi quem lançou a idéia, dez anos atrás, para levantar dinheiro para o baile de formatura, é sempre uma coisa legal para quem participa. Como futebol ou beisebol. Há uma superposição dos garotos que jogam futebol e que estão também no desfile. Infelizmente, para efeito das chances do colégio no campeonato, o quarterback é melhor dançarino do que atleta. Mick não está no desfile, mas ele joga no time de beisebol júnior, o único time da nossa escola que não perde sempre. E — alerta de casa impressionante! — mora numa grande casa de pedras castanho-avermelhadas. Já que seus pais estão sempre fora da cidade, ele dá muitas festas fantásticas (não que já tenha ido a uma delas). Raf e Mick são ambos muito, muito lista-A. Mas não é por isso que gosto deles. Raf abotoa seu casaco e dá um tapinha nas costas de seus amigos. Suspiro. Sou tão mentirosa. É claro que é por isso que gosto deles. Eu nem mesmo os conheço, então por que outra razão ia gostar deles? São gatos, são legais — sexy e populares — e se um deles, seja qual for, estivesse


interessado em mim, finalmente ia dar um beijo de verdade, para poder contar vantagem à vontade. (Eu digo por aí que o meu primeiro beijo foi com um texano chamado Stu, que encontrei numa viagem. Mas é totalmente mentira. Havia por lá um garoto chamado Stu, do Texas, só que ele tinha sete anos.) Além disso, eu seria promovida instantaneamente da lista-B (B+, num dia em que calha de os meus cabelos estarem maravilhosos) para a lista-A. Eu quero demais ir para a lista-A. Sim, sei que estou sendo colossalmente patética e já vi filmes o bastante para saber que as pessoas populares sempre recebem os castigos merecidos. E ser da lista-A no colégio não garante que você será o máximo na universidade. Mas... como as loiras, a lista-A sempre parece mais divertida. Pergunto a você: é tão errado querer ser feliz? É tão errado querer que gostem da gente? É tão errado querer que minha vida seja como um anúncio de refrigerante, com muito riso, saltos e pessoas se cumprimentando com aquele high five, em que um bate na mão aberta do outro, lá no alto, os braços bem erguidos? Aaron, também conhecido como a conexão da Tammy para a lista-A, acena do outro lado do corredor. Tammy não acredita, mas Aaron tem uma quedinha qualquer por ela. Aaron não está há muito tempo na lista-A, mas ele e Mick fizeram a escola juntos e ele é amigo do melhor amigo do Mick, Jeffrey — então às vezes ele é convidado para pular alguns níveis de separação entre as listas. Tammy disse que, se Aaron gostasse dela, já a teria convidado para sair. Em vez disso, eles se tornaram amigos. Eles conversam na Internet toda noite. Tammy diz que não gosta do Aaron, mas eu não acredito. Ela fica dando risadinhas quando está com ele e os sinais que ela faz com as mãos ficam pirados. — Pronta? — pergunta Aaron, ajeitando seu cachecol como um elmo em torno de seu pescoço e cobrindo as orelhas. Ele parece um dos diabólicos homens das areias de Guerra nas estrelas que tentam matar Luke. Argh! Só mesmo uma garota esquisita para mencionar Guerra nas estrelas. Como eu posso pretender conquistar o status de legal sendo uma fracassada dessas?


Preciso começar a rir e a saltar. Quem sabe se eu erguer a mão, a Tammy me dá um high five? Não. O que a Tammy faz é um sinal de mergulhador querendo dizer OK, para Aaron, um sinal que, convenientemente, acontece de ser o sinal universal do OK, um O com o polegar e o dedo indicador. Isso sempre me intrigou. Onde está o K? E se a gente quisesse apenas dizer Oh!, como em Oh, Raf, por que você não me dá atenção? Ou, Oh!, pelo menos estou com sapatos novos e bem legais. — Até amanhã — diz para mim. Oh por que oh por que tenho de ir para casa? * Viro a esquina tomando a Rua Dez e corro o último pedaço até o prédio onde fica meu apartamento — odeio fazer isso com minhas solas virgens, mas não tem outro jeito. Os lóbulos das minhas orelhas estão congelando, virando blocos de gelo, e agora provavelmente o médico vai ter de amputá-las. Sério. É o que eles fazem com uma ulceração de frio. Podem me chamar de Van Gogh. Aperto o botão para chamar o elevador. Para passar o tempo — por que está demorando tanto? — faço uma lista mental. Possíveis tópicos extremamente importantes que minha mãe insiste em discutir justamente hoje 1. Talvez a agência de viagens dela, HoneySun (eles são especialistas em viagens de lua-de-mel, pisco os olhos, pisco os olhos), tenha falido. Talvez ela vá nos dizer que agora temos de começar a economizar dinheiro. Apertar os cintos, cozinhar mais, comer fora menos. Cancelar o serviço de chamada em espera do telefone. Devolver os sapatos novos. 2. Talvez Miri, minha irmã de 12 anos, tenha visto um bandido superprocurado estripar um homem e o promotor público quer que ela testemunhe, e depois vamos todos entrar para o programa de proteção às


testemunhas e nos mudarmos para Los Angeles. A Califórnia seria ótima. A não ser pelo fato de que todo mundo em Los Angeles usa silicone. Por que vou querer uma coisa estranha dessas no meu corpo? Usar aparelhos nos dentes já foi ruim demais — me faziam parecer um robô. (Se bem que eu sempre quis um robô. Especialmente um programado para dobrar as roupas que normalmente estão cobrindo o chão do meu quarto.) 3. Talvez minha mãe seja gay. A mãe de Tammy saiu do armário há quatro anos. Já que os pais biológicos de Tammy se casaram novamente, agora ela tem três mães — uma biológica e duas madrastas. Como se uma mãe não aborrecesse o suficiente. Nanani-na-não! Minha mãe não é gay. Eu a vejo piscar suas longas pestanas e ajeitar seu cabelo toda vez que esbarra com o Dave, um bombeiro gostosão de 27 anos que mora no segundo andar. 4. Talvez — ah, isso não! — minha mãe ou minha irmã estejam com uma doença terminal. Mas Miri está sempre com fome. Alguém sente fome quando está com uma doença terminal? Acho que não. Não que já tenha convivido com alguém tão doente assim. Nunca. Mas, num filme que vi na tevê há algumas semanas, dois garotos zombaram de um pobre menino com leucemia porque ele estava perdendo seu cabelo, e aquilo me irritou um bocado. Se eu souber algum dia de alguém que está morrendo, vou tratar a pessoa ainda melhor. Minha mãe anda parecendo bastante pálida, então, talvez — ai-meu-Deus! — ela esteja com câncer. Se bem que esse tom pálido na pele dela deve ser por causa dos seus hábitos alimentares ridiculamente não-saudáveis. Sinceramente, ela come marshmallows no café da manhã. E não é de uma marca boa — ela come aqueles coloridos, que vêm em saco. E para o almoço, ela sempre leva num saquinho um bagel nojento. E então nós comemos aquela droga de tofu no jantar. Ela se recusa a fazer carne. Até minha irmã é vegetariana agora, então são duas contra uma. É óbvio que não acho de verdade que alguém esteja doente, senão ia ficar histérica. E se alguém estivesse doente, eu já saberia. Reparo em tudo. Como nas pílulas anticoncepcionais da minha mãe. Tá, eu as achei num compartimento secreto lateral do seu estojo de maquiagem — e mais uma razão por que sei que ela não é gay. Não sei por que ela toma as pílulas; não sai com ninguém faz dois


anos. Tentei inscrevê-la num site de encontros na Internet, mas ela surtou quando me pegou apagando com um programinha de imagem as rugas dos olhos de sua foto, e me fez deletar a inscrição inteira.

Esta lista está se tornando meio caótica. Não admira que eu nunca faça listas. Sou péssima nisso. Elas limitam demais a gente, como malhas de ginastas. Miri adora. (Estou falando sobre listas, não malhas — nós odiamos as últimas, especialmente as de lã, que coçam.) Eu sou a desorganizada, o tipo de

garota

que

as-meias-ainda-estão-debaixo-da-cama-desde-a-semana-

passada, mas Miri digita e prega seus lembretes do tipo Coisas para fazer hoje! Lista de bagagem para a casa do Pai! Razões por que eu sou anal! (esta última é só brincadeira) no enorme quadro de avisos acima da sua mesa. O restante do seu quarto é coberto de diplomas de tae kwon do. Ela é faixa marrom, que é dois níveis abaixo do preto. Que maluquice é essa? Ela tem somente 1,37 metro de altura e consegue bater no meu pai. Tudo bem, certo, ela provavelmente não consegue bater no meu pai. Mas, definitivamente, pode bater em mim. Fui fazer uma aula, um dia, mas os pontapés, os giros e toda a atenção exigida foram exaustivos. Sem contar a impossível regra de não falar nada... Vejo a placa no elevador: ENGUIÇADO. Grunhido. Acho que as escadas vão ser o meu exercício do dia. Da semana, para dizer a verdade. Está certo, do mês. Vou bem depressa no primeiro lance de escada. Dou passadas largas para subir o segundo. No quarto, quase desmaio. Talvez devesse ter continuado no tae kwon do. Então, estaria em forma. Não sou uma dessas garotas que ficam obcecadas com a largura de suas coxas, mas é meio triste ser tão nova e perder o fôlego. Quem sabe haja alguma equipe de esporte no colégio em que eu possa entrar. Não. Puff, puff. Exercício. Puff, puff. É. Puff puff. Muito. Puff, puff. Difícil. Quando coloco a chave na fechadura da porta, estou ofegante.


Penduro meu casaco no armário da entrada. — Olá? — Estamos aqui — responde minha mãe do seu quarto. Limpo as solas dos meus novos e fantásticos tênis, acendo as luzes da cozinha e pego um copo d'água. Então, passo pelo meu quarto, pelo da minha irmã, pelo banheiro, e entro no quarto da nossa Guardiã. Ela e Miri estão sentadas, bem juntas, na cama, suas pernas escondidas debaixo de um acolchoado rosa-claro, suas costas contra a cabeceira. Ambas estão com suas habituais roupas de dormir: camisetas GG iguais. — Por que está fedendo a cigarro aqui? — Um cinzeiro abarrotado de tocos de cigarro está entre as protuberâncias que, supus eu, são os pés da minha mãe. O que está acontecendo? Ela não fuma há mais de um ano. — Uma pequena recaída — diz minha mãe, com uma expressão envergonhada. — Não vai acontecer de novo. Sente-se. Temos de conversar com você. Epa! Tento esquecer as guimbas repugnantes e me concentrar no assunto em questão. Deve ser realmente grave. Se tivéssemos ganhado na loteria, ela teria me recebido com um sorriso e champanhe. Bem, provavelmente não champanhe, uma vez que essa porcaria é um bocado cara. Mas, talvez chardonnay. De vez em quando, ela me deixa tomar uma pequena taça de vinho no jantar. Diz que seria preferível experimentar com ela do que numa festa sozinha. Não que eu já tenha ido numa festa sem adultos vigiando. (Mas, se alguém me convidar, topo. Você pode ligar para minha casa [nada de celular] ou mandar um e-mail para...) — Ah, Rachel — diz minha mãe. — Por onde vou começar? Miri está comendo sementes de girassol de um saquinho. Vê-la fazer isso é nojento. Ela chupa uma semente de cada vez, lambe os dedos, então enfia sua mão melada de unhas roídas (um hábito que pegou de minha mãe) de volta no saco. Uma semente úmida está pendurada num fio ondulado de seu cabelo castanho que vai até os ombros. Muito sexy.


— Quer? — oferece ela. Argh! — Você está usando sapatos dentro do apartamento? — pergunta mamãe, olhando por sobre a borda de sua cama. — Não. — Estou prestes a agradecer a ela de novo pelos tênis, mas a curiosidade sobre o que elas têm para me dizer é maior do que as boas maneiras. Então, desamarro-os e os coloco, bem um do lado do outro, no chão. Daí, deslizo, estilo beisebol (está vendo o quanto somos feitos um para o outro, querido Mick?), barriga primeiro, subindo na cama. — Espero que seja uma coisa importante de verdade. — Em vez de responder, minha mãe acende um cigarro. — Alô? Chega de cigarro — digo, mas ela tem a coragem de me ignorar, então me viro para Miri. — Por que você ainda está de pijama? Você não foi para a escola? Você não tem tae kwon do? — Ela consegue fugir da aula mesmo sem estar à beira da morte? — Eu fiquei em casa o dia todo — diz ela, expondo as sementes trituradas. — Eu e mamãe tivemos de conversar. — Não fale com a boca cheia — digo. Sendo uma ótima irmã, tento fazer críticas construtivas. Sempre. Ela fecha a boca, mastiga, então diz: — Então, não me pergunte nada na hora em que estou comendo. Minha mãe roça seus dedos pelas têmporas, quase botando fogo numa mecha de cabelo louro com a ponta do cigarro. — Garotas, por favor. Eu não vou agüentar brigas agora. Fiquei nervosa novamente. — Está tudo bem? O que está acontecendo? Um sorriso se espalhou pelo rosto de Miri. — Tudo está fantástico. — Ela dá uma olhada na ponta da cama, olhos sobre meus sapatos e ri. — Maravilhoso!


Minha mãe lança a Miri um olhar de aviso. — As aparências enganam, Miri. Eu estava falando sério, ainda agora. É mais difícil de entender minha família do que a mímica de debaixo d'água da Tammy. — Do que vocês estão falando? Se as coisas estão tão ótimas, por que eu tive de vir para cá? — Rachel — minha mãe deu um profundo suspiro. — Sua irmã é uma bruxa.


2. MINHA IRMÃ LEVA ESSA HISTÓRIA DE DIREITOS DOS ANIMAIS UM POUQUINHO LONGE DEMAIS

— Como é que é? — pergunto, chocada. Minha mãe repete. — Sua irmã é uma bruxa. — Ela não é tão má assim, mãe — digo, numa voz calma, tomando a defesa de Miri. — Não, você não entendeu. Uma bruxa-bruxa. Miri faz que sim com a cabeça. — Pense na Sabrina. Hermione. — Ela franze a testa, pensando. — Ou que nem naquele seriado de tevê dos anos 60... A feiticeira! Minha mãe franze as sobrancelhas. — Este realmente não foi o melhor exemplo de todos. Diga lá... o que se espera que uma garota adolescente faça depois de escutar sua mãe dizer uma loucura dessas? — Mãe, acho que você devia pensar em voltar para a sua terapia — é o que escapa da minha boca. Mas... que história é essa? Minha mãe morde seus lábios rachados. — Lembra do que aconteceu ontem? Com a lagosta morta? Está bem, vamos voltar atrás um pouco. Na noite passada, meu pai obrigou a Miri e a mim a jantar na casa dos seus futuros sogros, os Abramsons, de Ridgefield, Connecticut. Sim, sogros. Em 3 de abril, ele está se casando com MMNFNMD (Madrasta Monstro Num Futuro Não Muito Distante), quer dizer FMM (Futura Madrasta Monstro) pra


abreviar. Bem, na frente dela, chamamos a sujeita de Jennifer mesmo. Há também uma IMNFNMD (Irmã Minimonstro Num Futuro Não Muito Distante). Em outras palavras, FMM tem uma filha de cinco anos, Priscilla, que é um nome ridículo. Miri e eu a chamamos de Prissy, para abreviar. Os jantares da família Abramson não terminam nunca. Os adultos não estão nem aí; eles não têm dever de casa de biologia. E mais: eles tomam no mínimo três garrafas de vinho, então ficam acabados e, diferente da minha mãe, eles não nos dão nem uma taçazinha. E já que Prissy fica sentada perto de Miri e de mim, somos obrigadas a cortar a comida no prato dela e ouvir suas perguntas absurdas de cinco anos de idade e todos os seus resmungos sobre qualquer coisa que pipoque em sua cabeça. ("Hoje, na escola, a Srta. Kimmel deu picolés pra gente. A professora de vocês já deu picolés para os alunos dela? O meu estava rachado, e estava fazendo sol...") Bem, quando a empregada do Sr. e Sra. Abramson, a Senhorita (isso mesmo, eles chamam aquela empregada filipina de 40 anos, casada, de Senhorita — sem comentários!), colocou uma lagosta inteira no prato da minha irmã, com olhos e tudo, pensei que a Miri fosse jogá-la para o alto. Mas também fiquei chateada... O papai sabe que Miri é vegetariana. Por que não contou isso aos Abramsons? Na verdade, a FMM sabe disso também, e eles são pais dela, então ela é quem mais tinha culpa. Ora, a situação toda mostrou direitinho o total desrespeito que a FMM tem pela minha mãe e pela maneira como ela criou a Miri e a mim. Por outro lado, sim, a lagosta! Eu tinha comido lagosta somente uma vez, e foi um daqueles poucos momentos que chamo de os mais deliciosos da minha vida. Já que é muito difícil comer lagosta, minha boca salivou automaticamente quando vi a manteiga derretida e os quebradores-de-cascade-lagosta. Miri virou uma sombra estranha cor de limão verde. Seus olhinhos correram sobre a criatura que tinha sido preparada para seu prazer culinário. E foi quando as coisas ficaram de assustar.


A lagosta morta dela se mexeu. Isso mesmo. Mexeu. Como se tivesse voltado à vida. Você consegue imaginar "O cemitério Maldito"? As antenas começaram a tremer, os olhos cintilaram, as garras chocaram-se. O Sr. Meio-Quilo-Especial começou a rumar em direção ao copo d'água da minha irmã. Eu estava muito feliz, em meio ao processo de esguichar limão sobre a minha lagosta, quando percebi aquela ressurreição acontecendo no prato junto do meu. — Ahhhh! — gritei, estremecendo. — Ahhhh! — gritou FMM. — Oh, minha nossa! — exclamou Sra. Abramson AMNFNMD (Avó Monstro Num Futuro Não Muito Distante, ou apenas FAM). — Ela está viva! — gritou Prissy. Nós éramos a platéia de um filme de terror. A lagosta colidiu com o copo da Miri, derrubando-o e espalhando água no nosso lado da mesa. Meu pai saltou da sua cadeira, agarrou a criatura marítima, correu para a porta da frente e atirou-a no gramado. Algum Totó da vizinhança ia ganhar um apertão no nariz. Seguiu-se o caos total. Miri começou a chorar, Prissy começou a chorar, eu comecei a chorar e o Sr. Abramson cuspiu em seu guardanapo o que estava mastigando. — Senhorita! Senhorita!! — gritou a Sra. Abramson. A Senhorita, parecendo assustada, botou sua cabeça para dentro da sala de jantar. — Sim, Sra. Abramson? — Por que as lagostas não foram cozidas propriamente? A Senhorita ajeitou seu avental, confusa. — Mas, foram, Sra. Abramson.


— Não, não foram! Uma delas acabou de sair correndo pela mesa! Felizmente todas as lagostas, exceto a de Miri, permaneceram mortas, e depois

de

poucos

minutos

todos

reassumiram

seu

jeito

normal:

bebendo/sendo-chatos/resmungando. Com exceção de Miri. Ela passou o resto da noite de olhos arregalados, cravados em seu prato vazio. A Senhorita, mais do que depressa, trouxe uma salada de tomates, mas ela se recusou a comer. Mais tarde, em casa, Miri abriu a porta do banheiro enquanto eu estava fazendo xixi. Ela ainda tinha aquela expressão assustada no rosto. — Posso? Odeio quando ela faz isto. Por que ela tem de me seguir para todos os lugares? — O que deu em você? — perguntei, enrolando o papel higiênico na mão, como se fosse uma atadura. Ela se apoiou no suporte da toalha e mordiscou a pele no redor da unha do polegar. — Fui eu que fiz a lagosta viver de novo. Eu ri. — Muito engraçada. — Eu não estou brincando. — Os olhos dela se encheram de lágrimas. Oh-Oh-Epa! Senti os meus olhos também se derreterem. Não consigo evitar de chorar quando alguém chora. Como algumas pessoas têm vontade de vomitar quando vêem vômito. Sou bem assim com lágrimas, especialmente com a minha irmã menor. Uma coisa bonitinha quando a gente tem três anos, muito vexaminosa com 14. Dei umas piscadelas para interromper o gêiser lacrimal e tentei me concentrar em provar à Miri que ela estava sendo ridícula. — É que eu fiquei com tanta pena do bicho — sussurrou ela — deitado daquele jeito no meu prato. Então disse a ele, em meus pensamentos, para ele voltar para nós. E foi o que ele fez.


Eu ri novamente. — Você não pode fazer coisas voltarem a viver. — Mas eu fiz. E não é a primeira vez. Lembra do Goldie? — O Goldie mora numa pequena jarra de vidro em cima da geladeira, porque é o único lugar de nosso apartamento que Tigger, nosso gato, não pode alcançar. — Você conhece outro peixe dourado que viva há dez anos? — Não, mas a gente cuida bem dele — expliquei. Então veio a parte traiçoeira: tentar puxar minhas calcinhas sem que Miri tivesse chance de olhar meus cabelinhos lá nas partes baixas. Fico um bocado envergonhada de mostrar o meu corpo para minha irmã. Principalmente porque o dela é muito mais desenvolvido do que o meu. Por exemplo: mesmo sendo dois anos mais nova que eu, ela usa sutiã 40, alguns números maior do que o meu. No que ela esfregou os olhos ainda molhados, agarrei logo as minhas calcinhas. Sucesso! — Não — insistiu ela, ainda esfregando o rosto. — Ele está sempre morrendo e eu sempre o faço viver de novo. — Você tem estudado demais — disse, me esforçando para ficar calma. Desde que Robyn, a melhor amiga de Miri, mudou-se para Vancouver, ela não tem feito muito esforço para encontrar novos amigos. Tudo que ela faz é estudar, ir ao tae kwow do e passar o resto do tempo com minha mãe. Ah, e fazer listas. Tinha pena dela, mas explicar para minha irmã que ela não era o Messias não era minha responsabilidade. — Mãe! — gritei, da porta do banheiro. — Você pode por favor explicar para a Miri como funciona o universo? Eu achava que seria o fim desse papo de ressurreição. Obviamente, não foi. Minha mãe dá outro suspiro profundo, desta vez com um cigarro ainda entre os lábios. — Eu torcia para nunca ter esta discussão com você. Ela vira a cabeça para o lado e solta a fumaça em direção à janela. — Bruxaria é hereditária e


aparece durante a puberdade. Obviamente, minha mãe está maluca. Eu me pergunto se é hora de ligar para o hospício, mas decido que o melhor é rir dela. — E de quem ela herdou essa coisa de bruxa? Do papai? Ele é o Harry Potter disfarçado? — digo eu, na minha melhor voz condescendente. Ela balança sua cabeça, sem graça. — De mim. Eu sou uma bruxa também. Se eu não soubesse das coisas, ia começar a ficar preocupada se ela estaria ali fumando alguma coisa além de tabaco. Faço um carinho na cabeça dela. — Você deveria tirar uma soneca. — Rachel, sei que é difícil para você entender. Os poderes que Miri e eu possuímos são muito especiais. São passados pelo sangue, de mãe para filha. — Mãe, você sabe que é judia, certo? Acho que não existe nenhuma bruxa judia. — Ser judia não tem nada a ver com ser uma bruxa, Rachel. — Ela me joga outro suspiro do tipo eu-carrego-o-peso-do-mundo-nas-costas. — Sei que isso vai ser difícil para você, querida. É minha culpa por tê-la protegido da verdade por tanto tempo. Mas eu queria que você tivesse uma infância normal. Eu esperava que, se não praticasse os poderes, eles permaneceriam inativos. Infância normal? Ela acha mesmo que eu tive isso? Os olhos dela se encheram de lágrimas. Como eu, ela chora por qualquer coisinha. Deve ser hereditário. Como esta tal de bruxaria. — Nem sempre esses poderes são dádivas, Rachel — diz ela com voz trêmula. — Sempre torci para que vocês tivessem a sorte de escapar deles. Vocês não pareciam ter recebido nada parecido com a minha alta percepção na puberdade... — Puxa, obrigada, mãe. — ...que me assustava. Porque tudo o que eu queria para vocês era


uma vida normal. Mas agora, a Miri... — Ela cai em soluços. — Está tudo bem, mãe. Não se preocupe comigo — diz minha irmã, afagando a mão da minha mãe com movimentos circulares. — Essa coisa me deixou feliz. Finalmente entendi por que sempre me senti diferente. Tudo faz sentido. Tudo indica que minha mãe e minha irmã estão delirando. Corro para perto do telefone, na mesinha-de-cabe-ceira, caso tenha de chamar a ambulância para levar as duas para o hospício. Minha mãe limpa suas bochechas com a palma da sua mão e dá um sorriso para Miri. — Mas agora seus poderes despertaram. É minha responsabilidade explicar as mudanças que vão ocorrer em seu espírito. Vamos começar a treinar neste fim de semana. — A gente vai pra casa do papai amanhã. — Lembrou-lhe Miri, seus ombros arqueando de desapontamento. Mamãe dá uma alisadinha nos joelhos dela. — Então, a gente começa na segunda-feira. Peraí um segundinho. Isso é uma piada de primeiro de abril antecipado. Ou talvez eu esteja concorrendo sem saber num novo e desconhecido reality shovo — Ganhe um milhão de dólares se você conseguir fazer sua irmã mais velha de idiota. Elas já não estão cansadas de saber que eu odeio estes realities shows de tevê? Vivo de olho no teto, procurando por câmeras ocultas. Minha irmã estoura outro punhado de sementes de girassol na boca. — Viu? — diz Miri. — Eu sabia que fui eu que fiz a lagosta viver de novo. — É impressionante que você seja capaz de fazer isso sem precisar lançar um feitiço — diz minha mãe, balançando sua cabeça. E então, aproveitando a dica para embarcar numa nova estratosfera do ridículo, ela se curva sobre a mesinha-de-cabeceira e ergue com dificuldade


um pesado livro encadernado, que coloca sobre a colcha. O livro parece de tamanho normal; é de uma capa verde-terrosa, mas então noto que ele tem é no mínimo meio metro de grossura. Meu nariz se torce. O livro parece e cheira como se tivesse sido deixado debaixo d'água por algumas centenas de décadas. Minha mãe manuseia cuidadosamente suas finas páginas amareladas. — De acordo com a seção de magia no Manual de referência absoluta e autorizada de espantosos feitiços, poções estarrecedoras e história da bruxaria desde o início dos tempos, ressurreição é muito avançado. Esta versão fala de pétalas de rosas, resina de olíbano e... — Não me diga que você trouxe essa lixarada pra cá. — Há quanto tempo será que elas vinham ensaiando essa brincadeira comigo? Ela acha que sou ingênua? Não poderia ela aparecer com um nome menos ridículo? — É o livro de magia de Miri — diz minha mãe, dando um sorriso protetor para minha irmã. Os olhos de Miri ficam tão arregalados que parecem DVD. — É mesmo? — Toda bruxa tem um desses. Minha mãe me deu o meu quando meus primeiros poderes apareceram. Que minha avó se revire em seu túmulo. Não consigo acreditar que ela esteja envolvendo a sua falecida mãe nesta bobajada absurda! — E tia Sasha? Deixa eu adivinhar... ela também é uma bruxa? — Minha mãe e sua irmã tiveram uma briga séria anos atrás e a gente nunca mais a viu. Minha mãe me ignora. — O que é espantoso é que Miri nem precisou do livro. Eu não tinha toda essa vontade essencial na idade dela. — Vontade essencial? Que nem a Força? — Eu rio. Rá-rá-rá-rá-rá-rá! Está vendo isso, câmera? Você não está acabando nem um pouco com o meu


senso de humor! Epa! Essa foi outra alusão à Guerra nas estrelas e ainda pior porque ficou gravado. Eu me abaixo na esperança de escapar do primeiro plano da câmera. Para minha surpresa, minha mãe se mantém no clima sem vacilar. — É! É mesmo! — Ela se vira para Miri. — Querida, por mais que eu esteja impressionada com sua habilidade, você não deve fazer mágica em frente às não-bruxas. Expor-se às massas não leva a nada, só traz problemas. Eu fui reduzida às massas? É um nível muito mais baixo do que a listaB. — Desculpa! Não faço de novo — diz Miri, lambendo a palma da mão. — Pode acreditar em mim. É que eu nem sabia que tinha essa coisa. Vou ter de aprender meus limites. — Isso mesmo. Esse livro aí vai ensinar tudo a você. — Minha mãe folheia umas páginas e aperta os olhos diante dos tópicos. — Faz muito tempo... Estou sem prática. Mas calculo que nosso treino vai levar no mínimo um ano. Do que me lembro, a seção 1 descreve a história da feitiçaria. A seção 2 cobre a ética... Chega! Já é demais. Não vou ficar sentada lá enquanto minha mãe finge treinar sua aprendiz. — Tudo muito engraçado, me fazer de vítima de sua piadinha, mas eu estou indo encontrar meus amigos agora. — Salto da cama e piso forte em direção à porta. Então percebo que esqueci os meus tênis. E é quando as coisas começam a ficar arrepiantes. Meus sapatos levitam. Trinta centímetros, sessenta centímetros. Noventa centímetros. Ninguém os estava usando, tocando neles ou puxando-os. Nada! Meus tênis de camurça verde de grife novinhos atravessam o quarto voando até ficarem quase dois metros acima da cama, ocultando a luminária do teto, de porcelana branca. Os cadarços, que estavam pendendo frouxos, contorcem-se num triângulo. E então num quadrado.


E depois num pentágono! Um hexágono! Um heptágono! — AlIIIMMMMMMEEEUUUUDEEEUUSS! — grito, apoiando minhas costas na porta. Olho aterrorizada para a minha mãe. Seus olhos estão fechados com força, seus lábios estão franzidos, e ela está recitando alguma coisa à meia-voz. O que ela está fazendo? For que está fazendo esta sua carade-colocar-batom enquanto meus cordões se transformam em assustadores polígonos? Por que está tão frio aqui? O que está acontecendo? De repente, meus tênis despencam, fazendo um barulhão ao bater no assoalho. Oh. Oh, minha nossa. Aimeudeus. Os olhos de Miri estão arregalados, mas ela não está que nem eu, dura de terror. Os pêlos dos meus braços estão eriçados como espinhos de cactos. Minha mãe é uma bruxa. Minha mãe é uma bruxa. Minha mãe é uma bruxa. Minha mãe é uma bruxa. E minha irmãzinha vegetariana, socialmente inepta, é uma bruxa também.


3. NADA É O QUE MEU CORAÇÃO DESEJA

— Eu não estava querendo assustá-la desse jeito — diz minha mãe, parecendo envergonhada. — Minha mágica está um pouco enferrujada. Estava tentando fazer um coração. Meus intestinos começam a se contorcer e minha garganta fica tão obstruída quanto um canudo quebrado. Começo a me sentir enjoada, não consigo respirar normalmente e meus joelhos disparam a tremer. Como isso é possível? Ninguém fala. O único som é o da minha mãe tragando seu cigarro. Sento-me na ponta da cama dela, para o caso de minhas pernas pifarem. — Alguém diz alguma coisa. — Minha mãe estende o braço debaixo da colcha e puxa a carteira de cigarros, então acende um. Eu observo a fumaça deslizar até o teto. Miri espia a ponta da cama de novo. — Os tênis são realmente o máximo. Gostou deles, Rachel? Não posso acreditar que funcionou! Eram esses que você queria, certo? Minha mente dá branco. — O quê? — Os tênis. Quis deixar você de bom humor. Você sabe, para quando você descobrisse que eu sou uma bruxa e que você não é. Ela o quê? E eu estou ocupada demais tendo um ataque do coração para pensar em ficar de bom humor. — O que... é... você vai... você vai ficar com verrugas em todo o seu rosto? — é tudo o que consigo pensar.


As mãos de minha irmã deslizaram para o seu queixo. — É claro que não! — afirma mamãe, chateada. — Nada vai mudar. Nossos narizes não crescerão e nossos cabelos não vão virar palha preta. Isso tudo é mito. Os olhos de minha irmã se arregalam novamente e suas longas pestanas tocam a base de suas sobrancelhas. — Papai sabe? Minha mãe faz que não com a cabeça. — Nunca contei a ele. Decidi na universidade que não queria ser uma bruxa praticante. Quando conheci seu pai, sentia muita vergonha de ser uma pessoa diferente. — Ela cruza seus braços. — Decidi reprimir as partes de mim que ele não ia conseguir entender. — Uma base excelente para um casamento — digo. — Não admira que vocês se divorciaram. — Aimeudeus! Aimeudeus! Minha irmã é uma bruxa. Minha mãe é uma bruxa. Não acredito. Mas, é verdade. Aimeudeus! Espere um segundo. — O que significa você não querer ser uma bruxa praticante? — Eu decidi, e ainda creio que é o melhor, não usar mágica na minha vida. Eu me excomunguei da comunidade da bruxaria. De repente, o impacto desta conversa toda me atinge como se eu tivesse acabado de ser golpeada por um cabo de vassoura. — Mas... por que não? — Ela é maluca? Ela podia ter qualquer coisa que desejasse. Eu posso ter qualquer coisa que desejar. Rosto aprova de espinhas! Um tapete voador! Nenhum pêlo acima do meu lábio superior! — Mágica não é só sandálias de rubi e castelos — diz minha mãe, muito séria, como se estivesse lendo para mim um aviso de cuidado. — Há conseqüências para cada feitiço. E como eu disse, quis que vocês crescessem tendo uma infância normal.


É claro que eu não estou entendendo. Ao contrário, minha cabeça está de pernas pro ar. Sete dias de fim de semana! Escola? Coisa de antigamente. Tudo o que a gente tem de aprender será automaticamente transmitido via download para nossos cérebros! Mas... onde é que a gente ia conhecer garotos? — Como foi sua infância? — Miri pergunta a minha mãe, interrompendo minha feliz fantasia. Ela suspira e olha para a colcha. — Diferente. Difícil. Um dia, conto tudo a vocês, eu prometo. Uma máquina do tempo para ver como nossos pais eram no colégio! Assim, a gente pode debochar das roupas deles! O rosto de Miri contrai-se. — Então, eu não devo contar ao papai? Seu pai sabia? Nós nunca conhecemos os pais de minha mãe. Eles morreram antes de a gente nascer. — Ele sabia — diz minha mãe. — Minha mãe contou a ele. Mas ele não lidava bem com isso. — Ela mordisca a unha do seu polegar. — Você é quem vai ter de decidir se vai contar ao pai de vocês. A decisão é sua. Minha língua parece uma lixa. — Uma de vocês pode fazer um puf! e me arrumar um pouco de suco de fruta? — Essa coisa de ser bruxa vai tornar minha vida muito mais fácil. Minha mãe faz que não com a ponta acesa do cigarro para mim. — De jeito nenhum. Era disso mesmo que eu estava falando. Preguiça não é desculpa para mágica. Pode crer em mim — diz ela, com uma careta de cólicas no rosto. — Eu vejo as conseqüências e não recomendo a Miri usar mágica para fazer o seu dever de casa. E nem para se dar bem nas provas. Muito menos para conseguir roupas elegantes, nem brinquedos caros. Que brinquedos? Eu tenho sete anos, agora? Será que pedi a Barbie Corvette? Se bem que eu não ia me chatear se minha mãe ou irmã fizesse um puf!


e daí aparecesse um Corvette de verdade. Vermelho. Conversível. E uma carteira de motorista. — Que conseqüências? Qual é o grande problema? — Não precisamos conversar sobre tudo esta noite — diz minha mãe. — Mas será que estou sendo clara, garotas? Miri não tem permissão para usar seus feitiços para situações triviais. Estou muito confusa. — E para o quê a Miri pode usar seus poderes? Minha mãe apaga seu cigarro. — Toda bruxa deve decidir o que é certo para ela. Incluindo Miri. É por isso que a estou treinando; assim ela será capaz de tomar uma decisão bem embasada. Eu decidi não usar meus poderes. Algumas bruxas tiram vantagens deles para ganho pessoal. Outras os usam para iluminar a vida e mostrar às pessoas o caminho da bondade. Uma bruxa pode tentar fazer do mundo um lugar melhor colocando sugestões nas cabeças das pessoas para acabar com as várias guerras. O problema disso é que às vezes um encantamento cuja intenção

era

promover

o

bem

termina

por

provocar

conseqüências

desastrosas, sem a bruxa querer. Uma bruxa que conheci uma vez tentou terminar com uma onda de calor na África e acabou causando uma tempestade de gelo em Kansas. Depois que o treino de Miri estiver concluído, ela terá de decidir se quer ou não usufruir de seu dom. E se ela quiser, espero que tome um caminho altruísta. Com cuidado, é claro. — Mãe! — Faço tsc-tsc, balançando minha cabeça. — É justo ter só 12 anos e se sentir responsável pela paz mundial? Minha irmã ri serenamente. — Já entendi o que a mamãe está dizendo. Se eu decidir usar mágica, posso levar as pessoas a praticar boas ações na escola e essas coisas todas. Daí, se um valentão estiver a fim de bater numa criancinha, eu posso mentalmente sugerir a ele como ele se sentiria se fosse o contrário. E então talvez ele deixe de ser malvado.


Fico examinando a Miri desconfiada. Quer dizer que ela não vai fazer quase nada com isso. Ela é uma garota que termina todo o dever de casa até o dia marcado para entregar. A mágica vai ser um desperdício para ela. Que nem os seios dela. Ela nem sequer parece agitada — e eu estou rolando no chão como uma bola de basquete. Definitivamente, ela vai precisar de um pouco de orientação da irmã mais velha. — Alô? Miri, pode se ligar, por favor? Você tem poderes mágicos. Com seus pequenos ombros ela faz e daí? — Estou achando o máximo. Mas sempre suspeitei que alguma coisa era diferente em mim. Tipo, como o Tigger sempre me obedece e por que ninguém nunca me encontrava durante o esconde-esconde. Tigger sempre escuta a Miri. Ela diz: "Tigger, estou congelando. Você pode me trazer um cobertor?", e a gorda bola de pêlos enfia seus pequenos dentes pontudos na colcha roxa e vem trazendo, atravessando a sala. E eu? Nada. Posso tentar chamar: "Aqui Tigger, Tigger!", por séculos, e esse gato nem mesmo chega a piscar. Ele desaba em cima do meu livro de biologia, mesmo que eu fique agitando os braços e gritando que tenho prova no dia seguinte. Ele se importa? Ele sai de cima do livro? Não. Eu parto do princípio de que gatos não gostam de mim. Nunca me dei conta de que a Miri podia se comunicar com eles. E agora, pensando no assunto, eu nunca conseguia achá-la no esconde-esconde. Cobria meus olhos, contava de trás pra frente, de vinte até zero, então procurava nos lugares tradicionais: debaixo da cama, entre os casacos, no fundo dos armários, atrás do sofá. Nada de Miri. Nem mesmo meu pai conseguia encontrar essa menina. Meus amigos também não. Dave, o bombeiro, não conseguia. (Embora minha mãe talvez tivesse pedido para ele procurar pela Miri apenas para poder olhar se ele continuava gostoso.) — Onde você se escondia? — Na banheira. Mas eu sugeriria a você para não procurar lá e você não procurava. Tá vendo? Sempre fiquei cismada me perguntando no que eu era diferente, e agora sei. Seja como for, tive um pouco de tempo para me


acostumar com as novidades. Mamãe e eu passamos a noite inteira ontem conversando, e hoje também. Como é que é? — Você sabia disso desde ontem? Por que ninguém me disse nada? — Escutei as duas conversando, mas pensei que estivessem falando de poluição ou algo assim, não de algo importante. Minha mãe coloca seu braço nos ombros de Miri. — Eu queria ver como ela se sentia. E deixar claro que ela não tem permissão para usar nenhuma mágica até estar totalmente treinada. Ela disse que vai levar, no mínimo, um ano! Lendo minha mente (realmente lendo minha mente?), minha mãe me lança um olhar sério. — E não quero ninguém dizendo nada em contrário para ela. — Mas... você abracadabrou tênis novinhos para mim — lembro, na maior delicadeza. — Mas fiz isso quando você telefonou para perguntar se podia ir à pizzaria, e foi antes de eu conhecer as regras — admite Miri. — Não tinha certeza se ia funcionar de verdade. Mamãe disse que você ficou toda ansiosa quando a convidaram e eu achei que podia ajudar você a se exibir um pouco. Acho que foi por isso que não notei os tênis durante o dia inteiro. É que eles somente surgiram nos meus pés depois da aula de francês. — Miri não me contou o que tinha feito — explica minha mãe. — Então, quando você telefonou para me agradecer, eu não podia deixar que você andasse pela cidade com sapatos mágicos. E se eles desaparecessem e deixassem você descalça no restaurante, ou no caminho de casa? As calçadas estão geladas... — Então ela meneia a cabeça, olhando para Miri. — Eu sabia que nós precisávamos conversar. Miri pegou um pé do tênis e o apertou como se fosse uma laranja. — Parece bom. — Ainda assim — lembra mamãe pela centésima vez — nenhuma


mágica até você terminar o seu treinamento. Ela pode lembrar isso zilhões de vezes. Não existe a posssibilidade de eu ficar esperando 365 dias para testar a mágica de Miri! Era óbvio que eu não deixaria de ter uma conversinha particular com minha irmã. Meu estômago ronca. — Então fazer aparecer bolinhos da Confeitaria Magnólia está proibido, também? — São uma delícia! — Nada de Confeitaria Magnólia — disparou minha mãe, irritada. — Mas eles não fazem entregas em casa! Miri balança sua cabeça sem conseguir acreditar. Eu apertei meus olhos. — Se ela começar a sugerir que a gente troque de quartos, isso é totalmente desleal. Eu sou mais velha e tenho direito ao quarto maior. Minha mãe e Miri suspiram em harmonia. — Boa coisa é que Miri é a única que tem os poderes — decretou minha irritante mãe. * Agora são três da manhã e não estou conseguindo dormir. Fico virando a cabeça no travesseiro, tentando descobrir um lado frio, mas ambos os lados parecem cadeiras onde a gente acaba de se sentar. Ergo-me sobre os cotovelos e olho fixamente para o abajur de leitura em formato de pirâmide na minha mesinha-de-cabeceira. Abajur... acenda! Nada. Abajur acenda... faça-se luz! Eu até agitei meus dedos na direção dele. Abajur estúpido. Sei que essa história de bruxa parece piração, e eu não ia criticar ninguém por não acreditar em mim. Se os doidos em questão não fossem a


minha própria família, nem eu ia engolir essa. Mas... é a minha família. E quanto mais a novidade entra em mim, mais legal parece. Com a ajuda de Miri, posso ter astros de cinema nas minhas teclas de discagem rápida do telefone. Uma jacuzzi no meu closet. Um namorado. Ela faz zap!, e meu quarto está arrumado. (Quem precisa de um robô?) Pode me dar uma audição biônica. Faz puf! e aparece um monte de roupas novas. As possibilidades são infinitas. Infinitas! E não vou esperar um ano. Boa tentativa, mãe. Levei a Miri para ver a trilogia do Senhor dos Anéis comigo quatro vezes, uma atrás da outra, na minha fase Tolkien; claro que posso convencê-la a me preparar uma mágica ou duas. Por onde começar? Hum! Ver as duas saírem voando por aí no Halloween vai ser enervante. Mas esta é a coisa mais beijo-de-um-príncipe/ganhar-na-loteria/tão-impressionanteque-é-inacreditável que já aconteceu comigo. Ahhh! Deito e puxo os cobertores sobre minha cabeça. Então, pela primeira vez, uma sacação toma conta de mim. Não é a coisa mais impressionante que já aconteceu comigo. É a coisa mais impressionante que já aconteceu à... Miri. Bruxaria, uma habilidade normalmente passada de mãe para filha. Mas pularam meu lugar na fila. Como com os seios — a natureza decidiu que não era para mim. * Lá pelas quatro e meia, sem ter conseguido ainda dormir, decido que minha mãe também não pode. Aquele hálito horrível dela, típico de quem acabou de acordar, me atinge assim que cutuco seu ombro. Infelizmente, essa foi uma característica que eu herdei. Tenho certeza de que meu futuro marido vai adorar isso. — O que houve? — pergunta ela, sentando-se. Ainda está usando aquela camiseta surrada. Era de se pensar que uma bruxa poderia se arrumar,


só um pouquinho, sem trabalho. Fazer em si mesma uma maquiagem sem pagar maquiador e colocar unhas postiças. Pintar as raízes dos cabelos. Ela tem um círculo louro orbitando em suas raízes castanhas, como se fosse Saturno. Subo na cama e me arrasto para junto dela. — Você me deve uma explicação. Por que eu não posso ressucitar lagostas? Algumas bruxas conseguem fazer mágicas mais tarde? Ela acende seu abajur da cabeceira. — Normalmente, os poderes mágicos aparecem durante a puberdade, mas, em algumas bruxas, podem surgir quando elas têm seus primeiros filhos. — Ela aperta os olhos. — Não vá ter nenhuma idéia idiota por causa disso. — Mãe! — Apenas precaução. Afinal de contas, uma mulher que conheci traumatizou a si mesma e ao seu marido quando levitou seu bebê para fora do berço. Um balão de esperança se infla dentro de mim. — Então, uma coisa dessas ainda pode me acontecer? Ela confirma. — Pode. Fantástico! E então ela acrescenta: — Mas também pode não acontecer. Algumas filhas nunca se tornam bruxas. Meu balão estoura e despenca sem vida no chão. — Isso não é nada justo. Por que a Miri tem poderes e eu não? Ela nem mesmo terminou o primeiro Harry Potter, e era o menor deles. Eu Ii todos! — Querida, sei que você está achando que bruxaria é muito engraçada, cheia de brincadeiras, mas há uma série de responsabilidades. Pode ser que quando você esteja mais madura, mais responsável...


— O que eu tenho de fazer? — lamento. — Manter meu quarto limpo e fazer centenas de listas inúteis como Miri? — Não se trata de ações específicas. É mais um estado mental. — Ah — digo, sem saber direito se queria fazer beicinho ou chorar por causa da injustiça que estava sofrendo. — Miri sempre toma você como exemplo, e espero que você a ajude nessas mudanças que vão acontecer na vida dela e a oriente para a coisa certa. Ajudar Miri, guiar Miri, blablablá. Miri fica com tudo. Eu apoio meu rosto no travesseiro e olho para minha mãe. — Lembra na quarta série, quando todas as garotas da minha turma foram convidadas para dormir na casa da Krissy Backer, todas menos eu? — pergunto, ficando triste só de lembrar dessa coisa que havia acontecido anos antes. Então a indignação toma conta de mim. Minha aparência ridícula com aquele aparelho que tive de usar nos dentes? Totalmente desnecessário. Aquele corte de cabelo que fez até quem nunca me conheceu sentir pena de mim? Completamente evitável. Puxo minhas lágrimas de volta, com uma piscadela. Minha mãe entra em alerta comigo. — Sei muito bem o que você está pensando, querida. — Bem, por que você não fez nada? — deixo escapar. Você podia ter tornado a minha vida zilhões de vezes melhor se você tivesse usado um décimo de sua mágica! Minha mãe alisa meu cabelo. — Entendo que seja assim que você vê a coisa. Mas acredite em mim, mágica não é tudo o que parece ser. Quero que você e Miri possam conhecer a vida... com todas as alegrias e tristezas... e não um mundo artificial que criei para tornar vocês felizes. — Ela beija minha testa. — Eu amo você, Rachel. Mais do que você imagina. — Eu amo você também mãe — respondo, fungando. Após poucos minutos de abraço bruxa-e-filha, eu me endireitei na cama. — Miri usou mágica


para ter aqueles seios? Ela ri e balança sua cabeça. — Os meus cresceram cedo também. Você se parece com seu pai. Ele não cresceu nada até os 17 anos. A vida é tão injusta. — Então, acho que você não pode fazer uma mágica para eu me tornar uma bruxa? — Receio que não — diz minha mãe. — Se você estiver destinada a ser uma bruxa, vai ser. Eu me levanto e vou até a porta com um suspiro: — Bem... posso pelo menos ficar com os tênis? Minha mãe hesita, então ri. — Farei uma exceção apenas desta vez. Com aquela vitória nas mãos, arrasto meus pés descalços até a minha cama. Mas, em vez de dormir, passo as duas horas seguintes tentando levitar meu edredom. Sem sucesso.


4. VOA, MIRI, VOA!

São apenas quinze para as nove de uma manhã de sexta-feira e o dia já é um desastre. Primeiro, encurralei Miri na cozinha, pedindo a ela para fazer desaparecer num zapt-zupt! minhas horrendas olheiras. — Você ouviu uma palavra pelo menos do que a mamãe disse? Não! — Eu passei a noite em claro digerindo essa novidade de você ser bruxa. Um pouco das olheiras é sua culpa, então! Mas nãooooooooo. Segundo, ela pegou emprestados meus tênis novos sem me pedir e já que as minhas botinas pretas estavam sumidas desde a trocazinha que ela fez, tive de usar meus tênis de ginástica fedorentos. Se ela pegar meus tênis de novo sem minha permissão, faço a casa cair na cabeça dela, juro! Se bem que, sendo ela a única aqui com poderes mágicos, eu não conseguiria mesmo fazer isso. Terceiro, como eu ainda estou em êxtase por causa das notícias de ontem, tropecei entre o terceiro e o quarto andares e bati meu joelho no degrau de metal. O machucado não vai ficar nada bonito. Quarto, Tammy ficou falando sem parar sobre como foi fantástica a tal ida à pizzaria de ontem, na homeroom1, e assim eu não escutei nenhum dos avisos. (Estou cada vez melhor com essas listas. Será que agora eu ganho meus poderes?)

1

Homeroom: tempo de aula em que os alunos se encontram antes do início das atividades do dia para receber atendimento dos professores e ouvir anúncios e recados da escola. É um período de socialização e preparação para as aulas.


* — Foi demais mesmo, no Stramboli's. Eu adorei! — diz Tammy, pela octogésima sétima vez, enquanto destranca seu armário. O armário dela é bem perto do meu, porque nós estamos na mesma homeroom, para onde temos de ir antes da primeira aula, todo dia, responder à chamada. Além disso, os sobrenomes de nós duas começam com W. Eu sou Weinstein e ela é Wise. — Então, quem estava lá? — pergunto. — Todo mundo. Ela deve ter notado o ar desolado no meu rosto, porque bem depressa franziu seu nariz, o que o faz parecer grande (confesso que é um pouco grande sim, dos lados, embora eu sempre diga a ela que não), e acrescenta: — Quer dizer, não todo mundo. Não foi tão bom assim. Você não perdeu nada de mais. — Ela balança sua mão direita, que é seu sinal de mais ou menos. Não preciso de habilidades extrapsíquicas para saber que ela está tentando me consolar. — Jewell estava lá? — Hum... — Ela puxa seu fichário verde da prateleira do alto. — Estava. — E o Raf? E o Mick? Ela abaixa a cabeça. — Mick estava. Sentamos na mesma mesa. Ai. Um lápis superafiado espeta meu coração. — Ele teria sentado na mesma mesa que eu, se eu estivesse lá — gemo. — Eu nunca notei que ele era um garoto tão legal — diz ela, aumentando ainda mais a dor pela espetada no meu peito. — Enfiei meu cotovelo no suco de tomate e ele foi o primeiro a me arranjar um guardanapo.


Muito injusto. Deveria ter sido eu a manchar minha blusa. — Talvez eu consiga descobrir aonde eles vão esta noite — diz Tammy. — Sem chance — digo e suspiro profundamente. — Tenho de ir para a casa do meu pai. A parte mais desagradável de ter pais divorciados é passar fim de semana sim, outro não, em Long Island. Adoro meu pai, e bem que sinto vontade de ficar mais com ele, mas, fazer a mochila, tomar o trem e perder todos os programas de fim de semana são um desastre para a agenda social de uma garota de 14 anos. É claro, se tenho um evento importante – bar mitzvah, atividade na escola, comprar sapatos —, ganho permissão para ficar em Manhattan, mas daí Miri fica irritada por ser forçada a ir para Long Island sozinha. Minha irmã diz que a FMM fica pegando mais no pé dela quando eu não estou perto. ("Pare de roer suas unhas!", "Não ponha a mão na sua comida!" "Nada de praticar esse seu caratê aqui dentro de casa!"). Não duvido. FMM nunca perturba quando meu pai está vendo. Ela sempre joga de Médico e Monstro pra cima da gente. Quando ele está do lado, ela é superdoce e prestativa: "Você é tão criativa, Rachel!" Assim que ele vai para a outra sala, ela instantaneamente se torna diabólica: "Por que você é tão lerda?" Meu pai odeia quando nós deixamos de ir para lá no fim de semana dele. Mas, agora que ele tem FMM, não pode transferir as datas facilmente. Ela sempre consegue tirar alguma coisa da manga — jantares, entradas de teatro, viagens para o Caribe. Nós nunca fomos para o Caribe quando ele estava casado com a mamãe. Nós nunca fomos a uma praia em Jersey. Para ser justa, ele não era na época sócio em sua firma de advocacia e não tinha tanto dinheiro quanto hoje. Nós fomos de carro para a Flórida duas vezes, e fizemos algumas viagens para esquiar em Stowe, mas nunca saímos do país (a menos que se conte a Vitrina do Mundo, no Epcot Center). Aquelas viagens de carro eram compridas. A gente jogava Geografia, o jogo em que você cita uma cidade/ estado/país que começa com a letra final do último lugar citado.


— Vermont — começava comigo. — Texas — seguia meu pai. — Salem — falava minha mãe. E eu achava que era sua profissão de agente de viagens que lhe dava uma injusta vantagem nesse jogo. Mas todos os sinais estavam ali para quem quisesse ver. Eu só não falava em bruxaria. Talvez um dia meu pai nos leve para uma ilha. Miri e eu podíamos aprendera mergulhar e então eu ia poder me comunicar melhor com a Tammy. Hum! Talvez não. As bruxas são alérgicas à água? A bruxa malvada no Mágico de Oz dissolveu-se quando Dorothy jogou água nela. Será que Miri ia ter de parar de tomar banho, agora? Ótimo. Mais novidades à vista. Tammy me olha com pena. — É, é um bocado de sorte minha, meu pai e minhas mães morarem na cidade. — Ela está surpreendentemente bem adaptada à situação da mãe/madrastas. No Dia das Mães, chega a comprar três cartões. — Amanhã, todos estão vindo para o jantar do dia de São Valentim, o dia dos namorados. Dá para acreditar que eles ainda se dão bem? — É, você é sortuda! — Depois que meus pais se divorciaram, acho que nunca mais ficaram juntos na mesma sala. Não que eles briguem... eles são civilizados... eles apenas ficam sem jeito. Tenho a sensação de que, para eles, um estar próximo do outro é como ouvir unhas arranharem um quadro-negro. Eu acho que deveria ficar satisfeita por eles não brigarem. Eles nunca brigam. Meu pai simplesmente percebeu que não estava mais apaixonado por minha mãe. Eles se casaram jovens, um dia depois da formatura da escola, sem ele saber o que queria da vida. Por muitas semanas, depois de decidirem se divorciar, ele ficou morando no nosso apartamento, até ele resolver a parte financeira e encontrar um lugar para morar. E nem mesmo nesse período ouvi os dois discutindo. — Você vai passar o dia de São Valentim com seu pai? — pergunta


Tammy, interrompendo minha viagem pela Rota do Divórcio. — Mais oui. Infelizmente. Não é uma data nobre para mim. — Nenhuma mudança em vista no meu status de nunca-fui-beijada nesse feriado romântico. Tammy faz um carinho solidário em meus ombros enquanto vamos para a aula de matemática. — Vamos dar uma parada no banheiro — diz ela. — Tenho de perguntar uma coisa à Srta. Hayward antes da aula — minto eu, e continuo a andar antes que ela tenha uma chance de fazer objeções. Expllicação: estou me livrando da Tammy para o caso de a Jewel chegar na aula cedo e guardar um lugar para mim. Matemática é a única hora em que ela fica simpática comigo atualmente. Tá bem, tá bem, eu sou uma pessoa horrorosa. Mas, se não fosse pela matemática avançada, eu nunca ia me encontrar com a Jewel. E eu vejo a Tammy sempre porque nós praticamente temos as mesmas aulas. Chega de falar. Enquanto subo as escadas para o terceiro andar, tento me convencer a mudar meu comportamento traidor. Por que eu deveria ser mais simpática com a Jewel do que com a Tammy? Deixa pra lá! Jewel pode se sentar sozinha, dessa vez. Eu abri a porta da classe. Jewel está na fila de trás, seu felpudo estojo de lápis rosa na cadeira junto a ela, guardando meu lugar. Ela acena. Então, o que eu deveria fazer? Não ir falar com ela? Eu não conseguiria fazer uma grosseria dessas. — Oi, querida! — murmura ela quando eu deslizo para a cadeira de plástico ao lado dela. — Oi — digo eu, admirando seus cabelos encantadores, frisados e cor de mogno, perfeitamente fixados no alto de sua cabeça com dois pauzinhos de cabelo de prata. (Eu me sinto estúpida com palitinhos de restaurante japonês em meu cabelo, mas eles parecem ótimos na Jewel. Ela é alta o suficiente para


não ter de se preocupar com eles entrando no olho de ninguém.) Ela tentou me ensinar a sua técnica de frisar-arrumar ("penteie debaixo do chuveiro, coloque gel imediatamente após secar com uma toalha macia e seca, pressione e espalhe por dez minutos ou tudo está perdido"), mas é bem possível que eu nunca consiga que meu cabelo castanho enjoado rente-aosmeus-ombros fique direito. Meus cabelos não são nem lisos, nem crespos. Simplesmente ondulados. Minha cabeça é o oceano. E, no que eu sento, um cacho de cabelos solto se apruma para o teto. Jewel dá uma risadinha. Lambo meu dedo e esfrego o cacho, tentando encorajá-lo a ficar com seus amigos. — Lembra-se quando nós costumávamos esfregar balões em nossas cabeças para que os cabelos ficassem imóveis? — digo. Gosto de lembrar a Jewel sobre nosso passado em comum, na esperança de que ela se recorde que já fomos grandes amigas. — Hum-hum — diz ela, e abre a revista na mesa. Jewel e eu somos amigas desde o pré-escolar, quando usávamos pares iguais de sandálias de couro branca. Durante o recreio, descobrimos que podíamos ligar nossas tiras e fingir que estávamos disputando uma corrida de três pernas. Estou louca para contar a ela sobre Miri. Ela ia surtar. Eu estou surtando. E tudo o que posso fazer para me impedir de ficar em pé na cadeira e gritar com a força dos meus pulmões: "Minha irmã é uma bruxa!" Eu sei, sei que não é um segredo meu que eu possa contar. Se eu fosse uma bruxa, ia tagarelar isso para o mundo. Se bem que... então todos saberiam que eu poderia colocar feitiços neles. E qual ia ser a graça de fazer isso? Também estou louca para contar tudo à Jewel porque daí íamos ter uma coisa que ia nos ligar. Seria exatamente como nos velhos tempos, nós duas cochichando segredos. Sempre tivemos outros amigos, mas eu e ela éramos um time. De vez em quando, um time de três pernas. Talvez um dia a gente volte a ser um time. Não é que a gente tenha brigado, lembro a mim mesma,


no que ela vira uma página. Ela está ocupada de verdade com os seus amigos do desfile de moda. Localizo Tammy na parte da frente da sala, procurando por mim. Faço um sinal de olá, mas acontece que a cadeira junto da minha já está ocupada. Ela encontra um lugar duas fileiras adiante da nossa, junto da Janice Cooper. Janice dificilmente fala na aula e sempre parece muito séria quando está tomando notas. Tammy é amiga dela e se senta com ela no almoço. Ela usa seus cabelos castanhos lisos e compridos presos logo na testa, por um arco dourado, e isso todo santo dia. Ela é um pouco grotesca, mas tudo bem. — Qual você gosta mais? — Jewel cochicha, vinte minutos mais tarde, enquanto a Srta. Hayward está explicando a área da superfície de um polígono no quadro-negro. Ela desliza para mim uma grande pilha de páginas arrancadas de revistas ao longo de muitos meses. Vários feitios de modelos com-jeito-de-lista-A em vestidos de grife que quase deixavam a gente despida. Jewel não presta muita atenção na aula de matemática. Para quê, se sabe que posso explicar tudo para ela mais tarde? Eu sou muito boa em matemática. Quer dizer, boa de verdade. Geometria, trigonometria, álgebra, o que for. Números têm lógica pra mim. E fico toda excitada quando resolvo um problema. Sempre tiro a melhor nota da classe, e sei disso não porque pergunto aos meus colegas quanto tiraram, mas porque a Srta. Hayward sempre faz escândalo com isso. Não sei direito se ela faz isso para ser simpática ou apenas para me envergonhar. "E mais uma vez, surpresa, surpresa, a nota mais alta da classe vai para... a pequena Srta. Nofundo-da-sala, Rachel Weinstein." A Srta. Hayward não é uma das minhas maiores fãs. Principalmente porque fico a sua aula inteira passando bilhetes, em vez de ouvir o que ela tem a dizer. E ainda consigo as notas mais altas. Para que prestar atenção a ela? Tudo o que diz é plagiado diretamente do livro de matemática. Por outro lado, parece que ela não consegue esconder a pontinha de respeito que precisa ter por mim. Não consegue odiar sua aluna premiada. Quem mais ela enviaria para a competição de matemática estadual?


Ok, sim, eu fui para a competição estadual de matemática em novembro. E — alerta contra gente esquisita! — consegui ficar entre os cinco primeiros lugares. Terminei em segundo. E me aguardem na Competição Nacional! Meu pai quis saber por que eu não fiquei em primeiro lugar. Ele venceu uma competição de matemática no colégio e me deixa guardar o seu troféu de prata triangular no meu quarto da casa da minha mãe. Ele tem um imenso orgulho de sua teoria de que enquanto os filhos dos outros desperdiçavam tempo brincando com bonecas, eu me divertia brincando com a sua calculadora. O que é verdade. Só que eu estava brincando do que costumava chamar de Escritório da Barbie e a calculadora era apenas um equipamento para tornar a coisa mais séria. Já que meu pai nunca teve um filho, ele tenta me usar como uma substituição para suas atividades tradicionais de pai-filho. Funcionou em Guerra nas estrelas e nas calculadoras. Não muito com beisebol. — Você lança como uma garota! — gritava comigo no Central Park. — Eu sou uma garota! Talvez um dia Mick consiga me ensinar como se joga. Suspiro! Seja como for, odeio quando a Srta. Hayward chama a atenção de todo mundo para mim. É por isso que não participo na aula dela. Ninguém quer parecer um cdf. (A não ser... Doree Matson, uma chata do desfile de moda que infelizmente está na maioria de minhas aulas — não nesta, graças! — sempre senta na fila da frente e sempre está com sua mão levantada para o teto.) Então, em vez de prestar atenção, dou uma olhada nas opções de moda da Jewel. Aponto para um vestido no comprimento do joelho de um azul elétrico. — Este aqui! É um vestido de Izzy Simpson, que é minha favorita absoluta. Não que eu tenha alguma coisa criada por Izzy Simpson. Seus modelos são muito caros. A família de Jewel não é rica, mas sua mãe sempre compra as melhores roupas. Ela levanta uma grossa sobrancelha, perfeitamente arqueada.


— É? Talvez. — Para que é? — Baile da Primavera. Ela já está fazendo compras para o Baile da Primavera? Eu ainda nem sei quando ele vai ser, nem muito menos fui convidada por nenhum garoto. Todo ano a JFK promove quatro bailes: Baile do Outono, Eterno Inverno (acho que a direção do colégio gosta da rima, só se for!), Baile de Primavera e Baile de Formatura. Mas o de formatura é somente para os do último ano e, é claro, as calouras gostosas, do segundo e do penúltimo ano, com quem os garotos do último ano querem namorar. Estes bailes são ótimos. São demais mesmo. E ninguém vai neles sem um par. Mas não é uma regra da escola. A direção faz questão de declarar repetidamente que não é necessário ter um par, mas o mandamento nãoescrito é sem par, não apareça, e disso tenho a mais absoluta certeza. Baile do Outono: os testes para o desfile de moda tinham sido duas semanas antes. Assisti à trilogia Guerra nas estrelas com a Jewel (que ainda não tinha sido introduzida através dos portões dos muito-legais do colégio). Pipoca! Pintar as unhas! Festa de pijama! Eterno Inverno: Jewel foi convidada, ela tinha um par. Nova amiga Tammy estava com estreptococos. Eu, sozinha em casa, com MM. Baile da Primavera: Eu no baile. Estilo cinderela, eu, graciosamente, avanço para o interior do ginásio, com cabelo feito no cabeleireiro, balançando sobre meus ombros sem alças, cintilantes e singelos. Eu dançarei, rodopiarei, deslumbrarei. Eu terei um gato da lista-A em meus braços. Preferivelmente seu nome será Mick ou Raf. Eu vou ao Baile da Primavera. Não vou perder mais esse baile. Mão me importo nem com quem vou, mas desta vez alguém vai me convidar. Eu sei, eu sei. Eu é que devia convidar um garoto para ir comigo. Mas, e se eu convidar e ele disser não? Não estou sendo antifeminista. Apenas covarde. E você quer saber do que ainda tenho mais medo?


A parte da dança. Eu herdei a bruxaria? Ah, não. Herdei foi a total falta de ritmo da minha mãe. Jewel costumava passar horas comigo, tentando me mostrar como remexer minha bunda sem parecer que estou sendo eletrocutada. Nada funciona. Mas ninguém dança de verdade nesses bailes, não é? Só nas lentas, e nelas consigo me virar bem. É só balançar para um lado e para o outro. Bailes no colégio têm mais a ver com roupa, fofoca e amasso. Dançar é completamente secundário. — Eles já sabem a data? — Will me contou... Piscadela. Jewel está na base do primeiro nome com o presidente da escola? Para Tammy e eu, ele é William Kosravi, o simpático e inacessível sujeito do último ano e o presidente do corpo de estudantes. Ele é também o irmão mais velho de Raf, aliás, um dos amores de minha vida. — Vai ser em 3 de abril, na noite depois do desfile de moda. O sábado do início da primavera. Oh, não. Não, não, não. — É a noite do casamento do meu pai. Jewel parece desapontada — por um milésimo de segundo. Seus lábios fazem um Oh!. — Bem... é só um baile. E isso dito por uma garota que já está com um portfólio de opções de roupas. — Eu mostro as fotos para você depois — diz ela, como consolação. — A que horas é o baile? — Nove. Nunca conseguirei ir aos dois. O casamento começa às seis, mas a


tortura vai se estender no mínimo até a meia-noite. E é em Port Washington, Long Island, que é no mínimo a 35 minutos de trem daqui. A Srta. Hayward diz numa voz monótona, cantarolante: — Rachel, já sei que você não acha que prestar atenção na aula valha a pena, mas talvez possa parar de tagarelar, assim suas companheiras se beneficiariam um pouco com a minha explicação. Então ela dá uma piscadinha para mim. Está vendo? É um relacionamento de amor e ódio. Fico voando pelo resto da aula, mas desta vez só estou conseguindo pensar que, em outubro, antes da Jewel esquecer que nós duas somos as melhores amigas uma da outra, eu a convidei para o casamento (meu pai disse que eu podia convidar duas amigas) e ela disse que iria. Acho que ela se esqueceu disso, também. Assim que toca o sinal, junto os meus livros. — O que você vai fazer depois da escola? Vamos sair por aí? Jewel, cuidadosamente, guarda sua caneta, a calculadora rosa e a borracha em forma de coelhinho no estojo. — Não posso. Vou dar uma volta com a Liss. Liss é Melissa Davis, aquela que me substituiu, a garota ruiva e esnobe da lista-A. Seu nariz é tão revirado para cima, que não sei como enxerga para onde está indo. Sua mãe é coreógrafa de vídeos musicais, então — você tem mesmo de perguntar? — Liss, automaticamente, conseguiu ser aprovada para o desfile de moda. — Mas na próxima vez eu vou — promete Jewel, apertando meu braço. E então vai embora. E essa, senhoras e senhores, sou eu levando um chute na bunda de primeira. Um chute que seria mais retumbante caso eu tivesse dado a ela o cartão Você é minha amiga preferida em forma de abelhinha, desses que as melhores


amigas sem namorado trocam no dia de São Valentim, e que já estava com o nome dela escrito, guardado bem aqui, na minha mochila. Juro que isto não é tão patético quanto parece. Quando nós tínhamos nove anos, Jewel jogou a sandália dela para o alto e atingiu uma colméia. Eu e ela levamos cinco ferroadas, cada uma. Daí, passamos o dia chorando e nos consolando com sorvete. Tá bem, isto é patético. A Tammy, pelo menos, está esperando por mim lá na parte da frente da sala de aula. * Não acredito que vou perder o Baile da Primavera por causa do showde-horrores que vai ser o casamento do meu pai. Passei a viagem inteira de trem para Long Island me descabelando. O que talvez seja ligeiramente prematuro, considerando que ainda nem tenho um par — mas e se alguém me convidar? É completamente egoísta preferir um baile de colégio sem sal à celebração das núpcias do meu pai, mas... mas... FMM é tão chata e ela não ama meu pai tanto quanto minha mãe amava. — O Baile da Primavera é só uma festa boba. Esqueça. Miri está um pouco chateada porque fico atrapalhando sua leitura. Ela está enfiada numa enciclopédia com fedor-grotesco desde que nós entramos no trem. — Espere até você ser uma caloura no colégio. Daí, vai ver só — digo a ela. — E eu paro com essa minha obsessão se você me deixar dar uma olhada nessa revista que nem está lendo. Na capa brilhante está o rosto lindo de Robert Crowne, o novo cantor/compositor de 20 anos. Sua música "Sixteen Shades of Love" está na rádio 24/7. Miri revira os olhos.


— Preciso disfarçar o Manual de referência absoluta e autorizada de espantosos feitiços, poções estarrecedoras e história da bruxaria desde o início dos tempos. — Você vai dizer o nome inteiro toda vez? — Bocejo. — Me dá sono. — Como é que eu vou chamá-lo? — pergunta ela. — Autorizado e absoluto? — A-ao-quadrado! Assim soa legal. — Olho para a capa. — Afinal de contas, de onde vem este livro? É da Amazon.feitiço? — Nããooo — responde Miri. — Mamãe colocou um feitiço no dela para produzir um para a próxima geração. Mas gosto do novo nome. A-ao-auadrado. — Deixa eu dar uma olhada nele. — Eu estou lendo. — Miri dá um riso todo deliciado. — Está até atualizado para o jeito de falar de uma jovem feiticeira do século XXI. — Mas que ótimo. Não que isso me interesse a mínima! Não, né?... Passei todo o dia tentando acordar meus poderes mágicos, ou melhor, sempre quando meus pensamentos não estavam ocupados com minha obsessão pelo Baile da Primavera. Como quando eu desejei que a combinação do segredo do meu armário no colégio destrancasse sozinha. Pode acreditar, se tivesse funcionado, eu não estaria neste trem. E então, mais tarde, quando avistei o Raf na fila da cafeteria, colocando uma colherada de purê de batatas no prato, desejei que ele estacionasse aquele traseiro charmoso junto de mim. Ele se sentou perto da convencida da Melissa Davis. Ela já me roubou minha melhor amiga; ia roubar o Raf, também? — Então? — pergunto. — Como foi a escola? Botou algum feitiço nos seus professores? — Nããooo. Primeiro de tudo, não sei usar nenhuma dessas mágicas, e segundo, pela centésima vez, não vou fazer nenhuma mágica até terminar meu


treinamento. Blablablá. Se eu fosse ela, teria feito a querida amiga Liss se engasgar com seus palitinhos de aipo. — Que desperdício! Pode apostar que eu usaria meus poderes, se tivesse. — Talvez seja por isso que você não tem nenhum. Olhem só, a recémbruxa já se tornou uma estrela. — Como assim? Miri recosta-se no assento, segurando o bilhete. — Mamãe diz que algumas pessoas conseguem os poderes quando estão prontas para isso. Talvez você não esteja. — Com licença, Srta. Maturidade! — Eu puxo dela seu livro e a revista, que saltam das minhas mãos e caem no espaço entre os assentos. Ela revira os olhos. Será que Miri acha que agora ela é que é a irmã mais velha? Aposto que ela usou seus poderes para me forçar a fazer aquilo, só para provar minha imaturidade. * — Você está acordada? — pergunto a Miri. Meu pai tem dinheiro suficiente para construir uma piscina e uma sauna na sua casa nova, mas não o bastante para dar um quarto separado para mim, outro para Miri. FMM decorou o nosso quarto de amarelo. Ela achou engraçadinho. Eu me sinto como se estivesse mergulhando numa torta merengue de limão. — Não. Atiro o travesseiro em formato de girassol nela. — Se eu fosse uma bruxa, nunca dormiria. Ia fazer zap e ficar acordada o tempo inteiro, daí podia passar a noite voando.


Ela suspira. — Talvez eu faça um zap para pegar no sono, e assim posso parar de ficar olhando para o teto. — Ei, hoje é lua cheia. Você não quer pegar emprestada aquela vassoura-feticeira da FMM para um giro pela cidade? — dou uma risada. — Rá-rá! — Você voa? Vejo a silhueta da cabeça dela balançando no escuro. — Não. — Então, você já tentou? — pergunto, toda agitada por ter pego um furo dela. — Mamãe me disse que voar é um mito. — E você acredita nela? — Faço tsc-tsc. — Você pode ressucitar lagostas, se tornar invisível quando brinca de esconde-esconde, mas não pode voar? Ela se senta e seus olhos brilham no escuro. Não de uma forma estranha, mas porque está escuro aqui e ela sempre teve globos oculares muito brancos. Ela consegue fazer brincadeiras com seus olhos também, tais como cruzá-los ou fazer cada globo ocular olhar para um lado. Mamãe odeia quando ela faz isso e sempre a avisa que um dia ela vai ficar assim para sempre e será culpa dela. — Não sei como fiz aquela coisa da lagosta — confessa Miri. — E eu não me fiz ficar invisível. Eu projetei meus pensamentos em você. — Tá querendo dizer que eu tenho uma mente fraca? — Pode ser. — Cala a boca. Ela atira o travesseiro-girassol em mim de volta. — Eu não acho que você tenha uma mente fraca. Sinto estranhos formigamentos na minha espinha dorsal.


— Você me faz muitas sugestões? — Fantástico. Minha própria mãe e minha própria irmã vivem controlando meus pensamentos, sem que eu nem me toque disso. Como eu sei o que é que estou realmente pensando e o que elas estão me mandando pensar? E se a Miri estiver me dizendo o que é para pensar agora? — Eu não estou lhe dizendo o que você tem de pensar. — Aimeudeus! Você está lendo meus pensamentos! Pára com isso! — Eu não posso ler seus pensamentos, estúpida. Você está batendo a mão na testa. Paro no meio do gesto. Epa! — Estou de olho em você, jovenzinha. FMM chama Miri de jovenzinha. Miri uma vez a chamou de velhazinha de vingança, mas a coisa não acabou bem. — Não sei o que eu posso e o que não posso fazer — admite Miri. — Eu tenho de começar meu treinamento. E estudar os feitiços. E decidi não contar ao papai. Pelo menos por enquanto, até que meu treinamento esteja completo. Então não diga nada, tá? — Claro que não — digo, distraída. Fiquei me perguntando se poderia usar um daqueles feitiços para fazer a Liss rolar nua numa hera venenosa. — Os feitiços funcionam também se eu usar as palavrinhas mágicas? — Acho que não. Mamãe diz que não são os feitiços que funcionam. Eles precisam ser executados por uma bruxa. Muito injusto. As bruxas ganham tudo. Sandálias de rubi, conversar com gatos, voar em vassouras, seus próprios programas na tevê. Eu tenho uma idéia. — Fique de pé na cama. — Por quê? — Apenas faz isso, tá?


Ela chuta fora as cobertas e fica em pé na sua cama. — Agora pule para fora da cama — digo. — Por quê? — Apenas faz isso, tá? Ela balança seus braços para trás e pula. E aterrissa com um baque no chão. Talvez eu também tenha o poder da sugestão. Ou talvez eu seja apenas uma irmã mais velha cuja irmã menor atende a quase tudo que peço. Miri massageia seu tornozelo direito. — Ai! Pra que foi isso? — Queria ver se você podia voar. — Eu disse a você que não podia! Não sou como o Peter Pan. Ei. Espere um segundo. Sinto uma corrente de ar frio e, de repente, meu travesseiro está levantando minhas costas, como se eu estivesse numa cadeira de dentista. Agora ele está... está... saindo de debaixo de mim e flutuando no ar! Está me dando pancada no queixo! Na cabeça! Nos ombros! Os olhos de Miri estão fechados e os lábios estão fanzidos e ela está me atacando numa luta de travesseiro mágico. Eu tento agarrar os cantos de cima do travesseiro, mas eles escapolem da minha mão como um de sabonete molhado. — Pára com isso! — grito. Travesseirada! — Assim não vale! — Travesseirada! Agora o travesseiro de girassol entrou na briga também, batendo nas minhas pernas. Travesseirada, travesseirada. Ai! Ui! Alguém está batendo na nossa porta. — Sim? — digo, numa voz bastante educada. Travesseirada. Dou uma risada. Os olhos de Miri estão arregalados e os travesseiros caem sem vida no


meu colo. Ela não tem tempo para voltar para a cama e a porta se abre com ela ainda esparramada no tapete. FMM está usando seu roupão de banho de seda que mostra bem sua fenda entre os seios e uma máscara balança no seu pescoço. — Miri, eu gostaria muito que você voltasse para a cama. As outras pessoas da casa estão tentando dormir. — Desculpa. — Vocês estarão exaustas na hora de experimentar as roupas. Temos a prova de roupas número 738 amanhã de manhã, para nossos vestidos de damas de honra, que são horrosamente rosa-pó-de-arroz. FMM está piscando seus olhos furiosamente, como, se só de olhar para nós, ficassem cheios de lágrimas. Ela tem olhos lindos. Eles são grandes e calorosos, um caleidoscópio de azuis e verdes. O resto dela não é mau. Quer dizer, ela é bonita, sim, sem dúvida. Tem cabelo louro macio que bate nos seus ombros, pele cremosa perfeita e dentes alinhadinhos, bem brancos-Liquid Paper. Ela é elegante e sempre se veste com blusas e calças de bom corte. Mas os seus olhos é que são inacreditáveis. Aposto que é por isso que meu pai é apaixonado por ela. Como pode alguém com aqueles olhos ser tão horrível? Miri ri, debochada. — Claro, precisamos estar bem descansadas para ficarmos paradas feito manequins. Dou uma risada. FMM, não. — Já falou demais, jovenzinha. E eu preferia que você deixasse essas camisetas encardidas na casa da sua mãe e usasse os pijamas da Gap que comprei para vocês. Agora, por favor, vamos dormir. Ela sai e bate a porta com força. Ouvimos um resmungo nasal do quarto colado ao nosso: — Manhê, a porta me acordou.


Ficamos dando risadinhas por alguns minutos antes de tentar cair no sono. Eu espero voltar ao sonho em que fui eleita a garota mais popular do universo no baile do colégio. E foi quando um plano irrompeu no meu cérebro, como um grão de milho estoura e se transforma em pipoca. Miri acabou de fazer uma mágica. Portanto, ela está com vontade de quebrar as regras. Tudo o que tenho de fazer é dar a ela uma boa razão para fazer isso de novo. A felicidade do nosso pai = boa razão. Assim como eu, Miri deseja que nosso pai encontre sua verdadeira alma-gêmea e viva feliz para sempre. E a única forma de fazer isso acontecer é colocar um feitiço nele. Temos de agir agora. Se a gente esperar até o final do treinamento, vai ser tarde demais. Precisamos usar mágica para evitar que ele se case com a FMM. Sim! Sim elevado ã terceira potência! Sim x sim x sim! Bem, é claro... uma vez que meu objetivo fique esclarecido, não há razão para que ela não possa fazer também uma poçãozinha básica para algo menos importante... como me tornar a garota mais popular da JFK. Jewel vai ser minha Melhor Amiga novamente e alguém vai me convidar para o Baile da Primavera. Um ronco minúsculo escapa do nariz de Miri. Meu nariz começa a repuxar. Minha criatividade + mágica de Miri = o fim da FMM + lista-A para mim.


5. GLINDA, A BRUXA BOA DE LONG ISLAND

Hoje é o pior Dia de São Valentim que já vivi. — A FMM acha mesmo que esta coisa aqui é bonita, não é? — Miri se queixa. Ela está em pé, pernas abertas e pés bem separados, enquanto Judy, a costureira de meia-idade (ela tem, no mínimo, 25 anos), torce o hediondo tecido rosa-pastel ao redor do corpo superdesenvolvido de Miri. Nego com a cabeça. — É claro que não. Ela quer que a gente se pareça com guardanapos cor-de-rosa. Desse jeito, ela vai ser a única a estar bonita. E não tem a menor dúvida de que ela vai ficar maravilhosa. FMM gastou dez mil dólares no seu vestido de casamento. Eu a escutei anunciando isso toda orgulhosa para uma de suas amigas. Miri parece seriamente cheia de levar agulhadas. — Aposto que a Prissy não vai ter de usar isso. O vestido dela provavelmente é lindo. — Na verdade — diz Judy, pegando um alfinete da boca e fazendo a gente perceber que está ouvindo nossa conversa —, o vestido dela é uma versão em miniatura dos seus. Seus braços são tão musculosos, Miri. Você deve ser uma atleta. — Ela é faixa marrom em tae kwon do — anuncio eu, toda prosa. — Provavelmente, ela vai ser faixa preta daqui a um ano. — Mas, podia ser já amanhã, se quisesse. Espere um minutinho. Com a ajuda da Miri, até eu posso ser também uma faixa preta amanhã!! Miri se contorce. — Por que tem essas hastes no tecido?


— É suporte, para moldar o vestido na parte dos seios. — Como pode alguma coisa conseguir modelar esse vestido? Ele é tão feio. A campainha da porta toca e FMM e a mini-FMM entram. FMM normalmente pára para pegar seu café gelado no caminho, mas, como já estávamos atrasadas, FMM nos trouxe primeiro e então voltou para o Starbucks. (Eu estava tentando imaginar como usar o delineador líquido azul da FMM para fazer linhas curvas nas bordas das minhas pálpebras. A remoção exige muitas lavagens. Naturalmente, FMM esperou até a gente estar no carro e sair do alcance do ouvido de meu pai antes de gritar comigo por ter arruinado sua programação.) — Como estamos por aqui? — pergunta ela agora. E pergunta a Judy, não a nós. Ela não se importa se eu e Miri estamos bem. Já que ainda estou com meus jeans, acho graça. Uma Miri bastante mais chateada encara a FMM, a melhor chance que eu já tive para o plano Fazer FMM Desaparecer. — Eu pareço um nojo nesse vestido — diz Miri. Isso! FMM quase se engasga com seu café. — Como pode dizer uma coisas dessas? Como pode insultar a Judy desse jeito? Judy, peço desculpas. Pessoalmente, acho que era o tecido que Miri estava insultando, não a costureira, mas, ei! Porque aliviar uma situação de crise que está a meu favor? Prissy está sentada com as pernas cruzadas no chão, alisando a bainha do vestido de Miri. — É Lão bonito e rosa e rosa é bonito e minha amiga Nora tem um vestido rosa e um vestido roxo e... FMM faz um sinal para Prissy ficar quieta e então se volta para mim. — Deixe-me adivinhar... você também não está satisfeita. Realmente, estou com um raciocínio incrível, e consigo responder com


toda a diplomacia: — Fica difícil dizer antes de terminar. Miri me dá uma olhada-diabólica pelo espelho de tamanho natural. E melhor que ela não se vingue de mim sugerindo que eu caia de bunda no chão. — Mas — acrescento —, tenho a impressão de que não estou gostando tão loucamente assim do tecido. Ambas, Judy e FMM, engasgam. — O que quer dizer? — pergunta FMM. — É seda natural e renda. Só o tecido de cada vestido custa trezentos dólares. Trezentos dólares? Por esses guardanapos? — Dinheiro — diz Miri — que poderia ser mais bem utilizado na Somália para ajudar crianças famintas a se alimentarem. Ou para comprar um vestido Izzy Simpson. FMM a ignora e revira nas mãos uma amostra do tecido. — Rachel está certa. Você não pode julgar o vestido antes que esteja terminado. Vocês duas ficarão adoráveis. Vão parecer bonecas. Será que ela percebe que isso não ajuda em nada? — Eu tenho dezesseis bonecas — Prissy dispara a falar, e então começa a contar nos dedos. — Sandy e Mandy e Randy e Dany e Princess. — Quando ela esgota os dedos, pára de enumerar e fica quieta, pensando no seu dilema. — Fantástico — retruca Miri. — Meu sonho sempre foi parecer com a Barbie. Eu não ia dispensar isso assim tão fácil. A Barbie tem excelentes medidas. FMM toma um longo gole de seu café, então coloca-o na mesa. — Miri, como estão seus dedos? Miri fecha as mãos bem fechadas.


— Bem. FMM pega a mão direta de Miri e a força a abri-la. Então, dá outro de seus engasgos espantados. Com a respiração tão pesada assim, daria até para pensar que ela estivera num aparelho de ginástica, daqueles de subir degraus acelerado. — Mas, o que eu faço com você? Miri agita suas mãos. — As unhas são minhas e posso roê-las quanto quiser. Ela está ficando cada segundo mais irritada. É impressionante! Minha irmã não antipatiza com ninguém do jeito que antipatiza com a FMM. Antes de meu pai começar a namorar a FMM, nunca escutei Miri dizer nada parecido. FMM e Miri embarcam num encare-sem-desviar de um filme de ação de Hollywood, E ninguém ali pisca. Enquanto isso, Prissy finalmente parou de falar sozinha e agora está fazendo o que sempre faz quando acha que a mãe não está olhando: tirando meleca do nariz com muito empenho. É até engraçadinho assistir porque ela tem dedos pequenos. E a gente pode até se perguntar por que FMM não fica mais ligada nisso do que nas unhas de Miri. De repente, sinto de novo aquele calafrio, ultimamente tão familiar, olho de volta para Miri e noto que seus lábios estão daquele jeito enrrugado. Epa! Viro minha cabeça para a FMM no que vagarosamente seu café gelado se ergue da mesa ao lado dela. Nossa! Salto em direção ao copo de plástico e o puxo para baixo com segurança antes que alguém perceba. O encare-sem-desviar agora acaba, porque os olhos de todos estão sobre mim. Tomo um longo gole. — Que coisa deliciosa! —, digo, enquanto estreito meus olhos para minha irmã ruborizada. — Minha vez agora de experimentar o vestido, certo? — Então, antes que alguém possa responder, corro para o quarto de prova.


Crise abortada. E sem pensar nas bactérias da FMM, o café até que estava gostoso. Tiro meu jeans e me ajeito em meu guardanapo rosa tamanho gigante. Mesmo sendo tão medonho o vestido, a verdade é que descobri que acho interessante todo o processo do tecido-ao-vestido. Talvez eu possa aprender a costurar. Não ia ser fantástico? Eu poderia fazer qualquer roupa que quisesse, copiada dos modelos mais incríveis. As pessoas iriam achar que eu tinha gastado centenas — não, milhares — de dólares em minhas roupas. Agilmente, chutei para o lado meus sapatos, para evitar de pisar no tecido. Eu podia até fazer minhas próprias etiquetas — Rachel — e costurá-las dentro dos vestidos. Ou por fora, como todos os estilistas caros fazem. Rachel seria sinônimo de chique. A Vogue iria fotografar minhas criações e eu ficaria famosa no mundo inteiro. Jewel teria de pedir para ser incluída na minha biografia, que iria ao ar na tevê no horário nobre. Ai! Parece que acabo de pisar num alfinete. Ai, ai, ai! É de matar. Odeio qualquer coisa que fure a pele. Como é que quero me tornar uma costureira famosa mundialmente se odeio alfinetes? Talvez eu consiga que Miri prove os modelos de roupa para mim, já que a mágica dela está a ponto de se mostrar de vez ultimamente. Mas acho que aí ela vai querer dividir comigo a glória. Bem, nós podemos chamar a marca de Michel. Eu saí da cabine de prova, tomando cuidado para evitar mais alfinetadas. Miri me dá um sorriso acanhado, no que passo diante dela. Ela está definitivamente quase no ponto para o meu plano. — Braços para baixo — diz Judy quando paro em frente a ela. Eu obedeço como um espantalho. A verdade é, estou aliviada de poder contar, que minha imagem não parece tão medonha. O vestido me faz parecer a Glinda, de O mágico de Oz. Mas até que sou bonita. A não ser por uma pequena espinha acima da minha sobrancelha, minha pele é relativamente limpa. Meu nariz é pequeno. Minhas sobrancelhas fazem um arco bonito. Eu as ajeito no espelho. Meus olhos são bonitos, grandes. A coisa sem graça é que eles são de um castanho maçante. Meus dentes são bem-alinhados e brancos


e, apesar dos meus lábios também finos, tenho um sorriso bonito. — Não preciso usar suporte para você — comenta Judy, interrompendo minha análise crítica. — Não? — pergunto, notando que torço os lábios. É como vou ficar quando finalmente beijar alguém. Ou quando lançar um feitiço assim que meus poderes estiverem funcionando. — Por que não? FMM suspira. — Porque você não tem seios. Mas que droga! — Mas pode ser que eu já tenha seios na época do casamento. FMM ri. — Rachel, é daqui a sete semanas. — Estas coisas acontecem meio rápidas, você sabe. Um dia, você está sem nada e no outro dia, BUM!, você acorda com um sutiã tamanho 46. Pode fazer o que achar melhor, mas não fique chateada comigo se a gente tiver de jogar fora este vestido e começar de novo no último minuto, por causa do meu inevitável desenvolvimento. Ora, essas pessoas precisam ter alguma fé. FMM ergue os braços, rendendo-se. — Dê a ela a droga do suporte. — Posso ter também, mamãe? — Prissy pergunta. — Eu quero os suportes! — Sim, minha ervilhinha cheirosa, você pode ter o que quiser. Se ela ganhar seios antes de mim, vou usar os suportes para me enforcar. * A briga sobre as unhas começa quando a gente já está de volta ao carro. FMM diz a Miri:


— Quero que você experimente de novo esse esmalte especial, esse que tem gosto ruim. Eu estou sentada junto da FMM no assento da frente, Prissy está cantando para si mesma uma música pop com uma letra altamente inapropriada, lá atrás, e Miri está sentada atrás de mim, olhando distraída pela janela. — Não — responde ela. — Não funciona. — Se você parasse de roer, funcionava. Não sei como você consegue roer unhas pintadas. Essa foi bastante grossa. Bem, tenho de tentar alguma coisa, não tenho? Eu simplesmente coloco uma gota em meu dedo e lambo. E então novamente no dedo mindinho, no caso do tamanho afetar o gosto. — Se ela parasse de roer as unhas — explico com toda paciêcia — então não precisava o esmalte funcionar. — Ora, vamos lá, FMM, você é capaz de dizer alguma coisa ainda mais implicante. — Mas o problema não é só morder — digo, dando força a ela. — Ela arranca a pele dos dedos também. FMM arqueja. Miri dá um pontapé atrás do meu assento. — Você arranca a pele? Mas, eles não são contracheques velhos, sabia? São suas mãos preciosas! Isso tem de parar. Miri fica em silêncio por alguns segundos e, então, explode. — Por que você está fazendo esse caso todo? As unhas são minhas! Minhas! E posso fazer o que quiser com elas! Isso! FMM se endireita no seu assento e meneia seu dedo para Miri. — Não, você não pode. Nem sempre você sabe o que é melhor para você mesma. Considerando que Miri podia transformar FMM num sapo a qualquer momento, FMM, obviamente, não sabe o que é melhor para si mesma. — Você não pode dizer o que eu devo fazer — resmunga Miri. — Você


não é minha mãe. Ah! A infame fala teatral do você-não-é-a-minha-mãe. Bobagem, Miri. Transformá-la num sapo seria muito mais original. Quando chegamos em casa, Miri corre para nosso quarto e bate a porta. Devo dar a ela agora um tempo para se irritar sozinha. Para ela ficar irritada de verdade. Talvez precise de meia hora, ou mais. E então eu entro com a Parte Um do Plano. (Insira risada demoníaca. Eu daria uma risada dessas, mas já tentei e soou como uma rã com cólicas. Meu pai pode dar uma ótima, mas não é hora de pedir isso a ele e, de qualquer modo, ele está no trabalho, ainda que FMM odeie que ele vá ao trabalho quando nós estamos aqui. Ela odeia ter de fazer sala para nós, o dia todo, sem ele. Não que ela confessasse isso a ele. Ah, não! Ela prefere soltar fumaça em silêncio como se fosse nossa culpa.) Decido dar a Miri trinta minutos, no máximo, de tempo de fervura. Quem sabe, posso ver um pouco de tevê, enquanto isso. Eu me jogo no sofá da sala de estar e ligo a TV Floc. Floc. Floc. Nada, só comerciais, reality shows e reprises. Ei, talvez A Feiticeira esteja passando em algum canal. Vou poder passar à Miri algumas orientações. Não. Apenas Buffy, a caça-vampiros. Deixa para lá. Não quero dar a ela nenhuma idéia perigosa. O que fazer, o que fazer? Acho que bem que poderia começar meu dever de casa. Tenho um trabalho de inglês para segunda-feira. Tenho de analisar as técnicas da poesia de Yeats, tais como aliteração. Melancólico, monótono, maçante. Palavra, plano, planta. Sei que estou esperando faz somente seis minutos, mas, honestamente, acho que Miri já teve tempo mais do que suficiente sozinha. Entro no quarto e encontro ela deitada na cama, pernas em ângulo reto direto contra a parede, A² apoiado no seu colo. Sei que é uma maneira estranha de ler, mas nós duas fazemos assim há anos. Parece coisa de morcego, mas agora ela virou uma bruxa. — Não acredito que papai vai se casar com ela — lamenta Miri, no que deito ao lado dela. Perfeito. No ponto para a Parte Um. — Ele não tem que casar com ela — digo com minha voz casual.


Ela sorri. — Então quando vamos usar nossos vestidos de guardanapo rosa? Arrá! Aqui está minha chance. — Se o casamento for cancelado, nós nunca teremos de usar aquelas coisas. Nunca. A não ser no Halloween, se a gente quiser. Você pode até se fantasiar de Glinda, A Bruxa Boa do Norte. Ela levanta uma sobrancelha. — E por que o casamento seria cancelado? Quando eu tinha sete anos, pedia a minha mãe para deixar eu me vestir como Glinda para o Halloween, mas ela dizia que as roupas de Glinda já tinham sido todas vendidas e que eu deveria me fantasiar como uma princesafada. Na época, acreditei nela. Agora acho diferente. Ela estava com medo de que eu acabasse despertando minha mágica, só de desejar alguma coisa, se me vestisse como uma bruxa. Não posso acreditar que ela tentou sabotar meus poderes! Não posso acreditar num bocado de coisa que minha mãe fez. Ou que deixou de fazer. Ela é uma bruxa. Ela podia ter lançado feitiços para me fazer feliz. Como na época em que eu quis comprar ingressos para um show em Roseland, mas já tinham sido todos vendidos. Ela podia ter feito aparecerem mais dois. Além de passes para os bastidores! Ela podia ter evitado que eu, fosse quando fosse, ficasse magoada. Podia ter impedido que meu pai se divorciasse dela. Minha nuca fica dura de repente. Nunca esqueci aquela conversa matinal sobre experimentar o bem e o mal, mas... por que não tornar a vida uma pintura perfeita? — Porque — digo agora, dando um suspiro profundo — nós vamos jogar um feitiço no papai. — Se minha mãe quer ignorar os instrumentos que estão disponíveis para ela, o problema é dela. Não meu. E não de Miri, não se eu puder evitar. Miri levanta a outra sobrancelha. — Nós vamos?


Ela tem de entrar na jogada, não tem? — Bem, você faz um feitiço no papai. — Acredita que eu já tinha adivinhado que essa é que seria sua solução para o problema? — Claro. Você lê os pensamentos da gente, além de ser uma bruxa. — Não. A mamãe me avisou que você ia tentar fazer eu usar mágica. — Ela balança a cabeça. — Não, não posso fazer isso. Não posso usar feitiços para manipular o papai. Não está certo. Falhei. Tudo bem, nenhum motivo para pânico. Obviamente, uma boazinha como ela precisa de tempo para deixar a idéia infiltrar-se. Além do mais, posso contar que a FMM vai implicar cada vez mais com ela. * Nem tenho que esperar muito. Mais tarde, quando somos chamadas lá embaixo para o que achamos que fosse o jantar, FMM e Prissy estão sentadas, pernas perfeitamente cruzadas num sofá branco de camurça. Meu pai está sentado numa cadeira, usando uma camisa listrada medonha, vermelha e marrom. Ele sempre teve o pior dos gostos em roupas. Sempre nos pergunta como está, e sempre dizemos que está bem porque nenhuma de nós quer ser a primeira a dizer que ele tem péssimo gosto. — O que está acontecendo? — pergunto. Eles estão com um jeito estranho. Juro, se eles vão nos dizer que são bruxos também, eu desisto de vez, sério! — Miri — começa meu pai, coçando aquele pontozinho calvo e brilhante na parte de trás de sua cabeça —, por favor, sente-se. Meus olhos encontraram os de Miri e nós sentamos. Epa! Será que me ouviram conspirando? Será que Miri, sem perceber, pôs um feitiço na FMM?


Será que agora ela não está mais conseguindo falar, mas pode somente dar uns guinchinhos estridentes? — Estamos muito preocupados — diz meu pai, sua testa franzindo com preocupação sincera — com a saúde dos seus dedos. Miri fica vermelha brilhante. Dou risada. É uma operação contra unha roída. — Roer seus dedos — continua meu pai — pode ferir suas cutículas e provocar infecções. Sem mencionar todos os germes que você leva para sua boca porque estão nas suas mãos. Aposto que a FMM pesquisou na Internet tudo o que pôde, só para assustar o meu pai. A mulher não pára diante de nada para conseguir o que quer. Os olhos de Miri se enchem rapidamente até a borda de água, como privadas entupidas. — Eu quero ajudar você, querida. — Neste ponto, ele afaga a cabeça de minha irmã. — Nós pesquisamos tratamentos e Jennifer tem um plano excelente. — Ele aponta seu queixo em direção à mesa de centro, onde está uma caixa de band-aids. FMM percorre com suas unhas perfeitamente manicuradas seus cabelos louros penteados, então diz: — Vamos cobrir todas as suas unhas para você não poder mais mordêlas. Mas que coisa mais desconcertante. É perfeito! Deus, espero realmente que Miri não seja capaz de ler meus pensamentos. Miri abre sua boca, então a fecha. Acho que ela está pertubada demais para falar. Fica parecendo com Drew Barrymore em Chamas da vingança, e fico nervosa porque ela pode incendiara casa telepaticamente. Prissy balança para frente e para trás em seu lugar. — Miri, roer as unhas é nojento. — Ela exibe suas pequenas unhas


feitas à francesinha. — Você não quer unhas bonitas como as minhas? É demais. Cruel demais. Tenho de ajudar. — Pai, acho que estas medidas drásticas não são tão necessárias assim. — Não comece, Rachel — diz ele, me calando. — São, sim. Agora, Miri, dê a Jennifer suas mãos para ela cobrir seus dedos. FMM ri, um sorriso provocador de vitória. — E eu não quero ver você arrancando pele das unhas de novo. — Pai... — geme Miri. — Eu acho que não... — Mas eu acho que sim! — diz ele. — E quero que você comece a tomar vitaminas do complexo B para fortalecimento das unhas. — Já contei que o meu pai acha que vitaminas são a cura para tudo? — E eu sou seu pai. Eu posso falar que deve fazer. Minha nossa! FMM entregou tudo da Miri. FMM abre a caixa de band-aid e agarra a mão de Miri. — Podia ser pior — cochicho, cutucando as costas de Miri. — Pelo menos, são lisos, sem figurinhas. Ela podia ter escutado a Prissy e comprado aqueles com as Princesas da Disney. * Depois do jantar, Miri e eu estamos nos espreguiçando em frente da tevê, quando eu ponho num canal e descubro que Guerra nas estrelas, Episódio IV, o primeiro que fizeram, estava começando. — Pai! — gritei. — Vai passar Guerra nas estrelas na tevê! Vem ver! Pai! Guerra nas estrelasl — Impressionante — diz Miri. Meu pai desce correndo as escadas, todo animado. — É mesmo? Arranjem um lugar para mim, meninas. Ele se espreme entre nós no sofá. Desdobro um cobertor multicolorido e


cubro nossas pernas. Ele coloca um braço ao redor de cada uma de nós e nos encostamos nele. Quando as palavras azul-elétricas surgem na tela, nós recitamos em coro: "Há muito tempo atrás numa galáxia muito, muito distante..." Então, prendemos a respiração. Esperamos... Esperamos... Botamos a música no máximo, como sempre fazemos. FMM, seguida por Prissy, desce os degraus. — O que vocês estão fazendo? Por que todo esse barulho? Daniel, achei que íamos checar os cartões que marcam os lugares no casamento esta noite. — Não vai dar — diz meu pai, sem tirar os olhos da tela. — Guerra nas estrelas está começando. — Mas, temos o DVD. Não podemos dar uma olhada nos cartões primeiro e ver o DVD mais tarde? — Ver o DVD não é a mesma coisa que ver na tevê — explico. — Ela tem razão — diz meu pai. — Podemos ver os cartões amanhã. Venha assistir com a gente. — Ele dá umas pancadinhas no lugar junto a mim. FMM faz que não com a cabeça. — Nunca gostei desse filme — diz ela, e então desaparece pelas escadas. Como é que ele pode pensar em se casar com ela? Meu pai puxa Prissy e ela senta no seu colo. — Que filme é esse? — pergunta ela, saltitando. — Quem é essa aí? Por que ela está usando esse pãozinho na cabeça? Porque... — Psiu! — faz meu pai. — Perguntas só nos comerciais. Prissy tenta assistir por alguns minutos, mas começa a se aborrecer e então volta lá para cima. E ficamos somente nós três. Como sempre deveria ser.


* No segundo em que nosso pai nos colocou no trem de volta para a cidade, Miri começou a arrancar fora os band-aids. — Ela — arranca o do polegar — é a — arranca o do indicador — mulher — o do médio — mais miserável — arranca o do quarto dedo, não tenho a menor idéia de como este se chama — do — dedo mindinho — mundo inteiro! — Muito diabólica — concordo, satisfeita. — Pena que essa coisa deles vai ser agora de papel passado. Se houvesse alguma coisa que a gente pudesse fazer... — Lá, lá, lá... Miri olha fixamente para a frente. Então, concorda com a cabeça. — Tudo bem. Você está certa. A gente precisa se livrar dela. Não posso ficar usando band-aids nos meus dedos para o resto da minha vida. Isso! Parte Um em andamento! Dei nela um belo abraço de irmã. Ela é tão pequena. Não que eu seja grande. Talvez, depois que a gente salvar o papai, peça a ela que me faça mais alta, algo perto de 1,60 metro. Uma gigante! Eu tiro A² da bolsa dela e ela, na hora, começa a roer sua unha do polegar. Qual é? Será que ela acha que vou deixar o livro cair ou algo assim? Plop. Epa! Apanho o livro do chão sujo do trem. — Desculpa! — Rê! Rê! Rê! — Pode começar. Comece a procurar por um feitiço antiamor. — Coloco o livro entre os dedos recém-roídos dela, antes que alguma de nós consiga fazer mais estragos. Ela folheia as páginas. — Não sei se existe algum feitiço antiamor. Eu ainda nem terminei a primeira parte. — Não tem um índice aí? — Deve haver pelo menos um glossário. — Não.


Suspiro. — A gente está precisando é de um livro de magia em CD-Rom. Miri dá um tapa em minha cabeça. — Será que dá para a gente se concentrar aqui? A gente precisa que essa bruxa saia de nossas vidas. "Bruxa, é?" Não consigo evitar de soltar um risinho: — Você vai ter de prestar mais atenção nas palavras que usa. Não dá mais para usar bruxa como ofensa. Ela bate com a mão na boca. — Como eu posso ajudar? — pergunto. Juro que hoje nem vou chatear minha irmã para ela me fazer um feitiço da popularidade. Vou deixar ela se concentrar. — E só me deixar ler em paz. Eu deveria começar meu dever de casa de poesia. Mas, primeiro, vou ler sobre a nova turnê do Robert Crowne. Depois, a poesia. — Vou deixar você sossegada para não atrapalhar sua... — Qual é mesmo a palavra que estou procurando aqui? Ah, sim! — Mágica. — He! He! Morro de rir comigo mesma. Ela me dá um tapa no ombro. — O que nós vamos fazer é uma coisa bem legal, né? Nossos olhos se encontram: — Demais! — Muito demais — diz ela. Talvez ela possa mesmo ler meus pensamentos.


6. PROJETO POPULARIDADE + IRMÃ GANANCIOSA = MAIS TAREFAS

Assim que encontro um lugar na homeroom, começo, toda afobada, meu dever de casa de poesia. O outono se espalha em compridas folhas que amamos. Não tenho idéia do que isso significa. — Bom dia. — Tammy se mete na carteira vazia junto da minha. — Olá. Como foi seu fim de semana? — Tudo bem. Dei umas voltas com minhas mães. — Nada do Aaron? Eu digo o nome dele bem baixinho, para o caso de alguém estar de ouvido atento no que a gente está conversando. — Não. — As pontas dos lábios dela desabam, mas ela rapidamente as endireita. — Nenhum cartão. Nem me chamou para sair. Bem que eu telefonei para saber o que ele iria fazer, mas a mãe disse que ele estava na festa do Mick. Um zumbido nos meus ouvidos. Mick deu outra festa para a qual eu não fui convidada. E provavelmente foi a festa mais incrível de todas porque foi no fim de semana do dia de São Valentim. Luz baixa, música romântica, velas, chocolates... a lista-A inteira. É isso. Tenho de conseguir que a Miri comece a trabalhar logo no plano popularidade. E se eu chamasse por ela nos alto-falantes da escola? Não, ela odiaria. Provavelmente, vou perder mais uma festa esta noite. Provavelmente, vou perder uma até na hora do almoço. Vou me preocupar com isso mais tarde. Se eu terminar este trabalho de poesia antes da aula de matemática, posso ter um tempinho livre para


conversar com a Jewel. Não quero desperdiçar o almoço nisso e é óbvio demais para fazer na aula de biologia ou na de educação física. Odeio educação física. Tenho de usar meu uniforme de malha verde cor de vômito e uma blusa comprida demais também verde-vômito. Neste mês, nossos professores estão ensinando meditação e ioga. Eles acham que vão poder ensinar a gente a se concentrar. Agora, o que era mesmo que eu estava fazendo? Ah, certo. Poesia! * Encontro a Miri deitada de bruços sobre a mesa da cozinha. Muitas folhas de papel de impressora cobertas de rabiscos estão empilhadas junto a ela. Nossa mãe está ainda no trabalho. Há dois anos, desde que ela e sua amiga Bonnie começaram a HoneySun, ela não consegue vir para casa antes das seis e meia, no mínimo. Pelo menos, ela gosta do seu trabalho agora. O que ela mais gosta é de ser sua própria chefe. Posso entender muito bem. Também gostaria de não ter ninguém me dizendo o que fazer. Tenho de fazer o pedido a Miri. Hoje. Não suporto mais não ser popular. Mas, calma. Tenho de esperar a hora certa. Subo na mesa, assim posso ver o que ela está fazendo. — O que é isso? — O feitiço de antiamor não vai funcionar — diz ela, acabando com meu único sonho de felicidade. — Não vou conseguir. É avançado demais. — Não faça tentativas. Faça a coisa de vez — digo. — Não, é sério. Está vendo esses cinco cabos de vassouras junto desse feitiço? Eu vejo cinco ícones de cabos de vassouras em miniaturas. — Simmmmmm. — Isso significa que é avançado. Um cabo de vassoura é para os iniciantes. Acho que a primeira mágica que vou tentar na vida não deveria ser uma de cinco cabos de vassouras. E esta parece mais complicada ainda. Eu iria precisar de uma vela preta, uma pequena chaleira, sal do mar Morto e uma


coisa chamada Achillea millefolium. Oh, e um cacho do cabelo da pessoa. — Papai não tem cabelo nenhum para nos dar. — Caio na risada. — Ele é totalmente careca. — Aí está mais um problema. — Você consegue! — Essa aí é a mesma garota que notou que se pusermos um cabide por cima da tevê, podemos ter trinta e dois canais sem pagar pela assinatura a cabo. Tenho certeza de que ela pode criar um mísero feitiço antiamor. Miri faz que não com a cabeça. — Não quero começar com cinco cabos de vassouras. Quando fomos aprender a esquiar em Vermont, começamos na montanha pequena, não na avançada. E se não funcionar? — Então você pode transformar papai num coelho? Miri não ri. — Não tem graça. É muito avançado mesmo. E nem sei o que é Achillea milefolium, nem onde conseguir essa coisa. É uma comida? Um tempero? Um lagarto? E, ainda por cima, o feitiço antiamor é temporário. Dura somente umas poucas semanas. A maioria dos feitiços que mexe com a emoção das pessoas é temporária. Então, mais cedo ou mais tarde, ele escaparia do feitiço e marcaria de novo o casamento. — Você não pode ter certeza disso. Pode ser que o tempo de duração do feitiço seja maior — era tudo o que eu mais desejava, e assim disse isso alto. — E então, nessa altura, ele já vai ter percebido que no final das contas não amava mesmo ela. Que era só uma paixonite, não amor. Então, o que você vai fazer é tirar fora o que está fazendo ele não enxergar isso, e quando ele perceber a verdade, nunca mais vai voltar para ela. — Suspiro. Posso ver que a Miri não está engolindo meu raciocínio. — Mas, o que você está dizendo? Não me diga que o plano acabou. — Não, não, não! — Estou tentando encontrar uma alternativa. Ufa!


— Você é tão legal. E tão inteligente. Aposto que você podia dar um jeito, se realmente estivesse a fim. – Lá vai. O momento decisivo. A hora da bruxaria. E lanço nela meu olhar inocente de garotinha-de-olhos-grandes. – Aposto que já que você está estudando mesmo o A², conseguiria até achar um feitiço para descolar para mim um pouquinho de popularidade. Ela dá uma risada. — Boa tentativa! — Ahhhh! Por favor, por favor! Ache um feitiço da popularidade pra mim! Por favor! Por favor, por favor, por favor! Ela balança a sua cabeça. — Aqui não tem nenhum feitiço do tipo me-faça-popular-no-colégio. — Por que não? — Eu me lanço de costas, apoiando meus pés contra a parede de papel com estampas de maçã para ficar confortável. Acho que deveria tirar os meus sapatos. Epa! Manchas pretas saem? — O livro foi transcrito em 1304 — diz Miri, folheando as páginas. — Ainda não existia colégio naquela época. — Não tem que ser precisamente popularidade no colégio — digo, raciocinando. — Existe um feitiço para ganhar popularidade entre os camponeses? Você não poderia arrumar alguma coisa que fizesse com que os cavaleiros e os vigários me achassem legal? — Salto da mesa à procura de uma boa solução. — Você não disse que o livro estava modernizado? — As pegadas na parede levariam alguém a acreditar que eu posso andar paralela ao chão. Ei, que estranho seria isso, não? — A linguagem que foi modernizada. Não o conteúdo — diz Miri. — Você sabe mesmo o que é um vigário? — Você é que está fazendo a pesquisa. — Será que tenho de fazer tudo por aqui? Começo a tentar limpar aquelas pegadas delatoras na parede. — Bem, vou dar uma olhada, mas não prometo nada.


Isso! — Obrigada, obrigada, obrigada! — Eu lhe dou um grande beijo molhado no rosto e então continuo limpando. Você não acha que ela bem que podia se oferecer para fazer um zap e sumir com a mancha? O que me conduz a uma questão pertinente. Por que as bruxas têm vassouras? Será que elas não podem simplesmente mandar a sujeira desaparecer? * Duas horas depois Miri abre minha porta. — Achei. — Você não bate mais na porta da gente? — Você não quer que eu me livre da você-sabe-quem? Estou esticada no meu tapete rosa, fazendo meu dever de matemática. O tapete era laranja antes de o Tigger começar a trazer pulgas para casa sempre que a gente fica com a porta aberta tempo demais e ele consegue escapulir. No início, a gente não sabia que eram pulgas. E a gente sempre ficava se perguntando por que apareciam estas minúsculas mordidas ao redor dos tornozelos. A experiência toda foi muito vergonhosa. Seja como for, o dedetizador deixou minhas persianas abertas por descuido e o sol desbotou meu tapete. Agora, o meu quarto está uma bagunça. Tenho uma cômoda, uma colcha e uma escrivaninha laranja-clarinho e um lapete com cor de algodãodoce. Os vários pares de jeans e suéteres pendurados que pairam sobre cada peça da mobília não ajudam a decoração. Miri fecha a porta atrás dela. Ela aperta o dedo contra seus lábios, avisando para eu ficar quieta, já que mamãe está na cozinha fazendo espaguete e almôndegas de tofu. Miri senta-se perto de mim, com o livro no seu colo. — Já arranjou um jeito? — pergunto, em crescente excitação. — E já encontrou um feitiço para me tornar popular? — Esqueça esse feitiço, por enquanto, tá bem? Estou concentrada na tal


tarefa com nosso pai. E arranjei um jeito. Se a gente não pode colocar um feitiço antiamor no papai, temos de usar um outro para fazer ele perceber o quanto a FMM é horrível. Daí, ele vai mesmo deixar de gostar dela. Perfecto. — Que tipo de feitiço é esse? Ela dá de ombros. — Até agora, foi só isso que consegui. — Só? — Eu tinha meu dever de casa, e também de treinar tae know do — ela se defendeu, ofendida. — Além disso, não posso sempre só eu ter todas as idéias. Agora não é hora de a gente brigar. — Bem... o que a FMM pode fazer para o papai parar de gostar dela? E se ela roubasse um banco? — E eu teria de fazer um feitiço para arranjar uma pistola ou uma metralhadora, é isso? — Miri me dá um olhar tipo você-deixou-seu-cérebro-nocolégio. — Estou tentando fazer o mundo um lugar melhor, não mais perigoso. Talvez eu tenha exagerado. Fico roçando meus dedos na testa... — Deixa eu pensar. O que será que ele vê nela? — Ele está atraído pelo mal? — Caia na real, Miri. Ele está atraído pela aparência dela. Aqueles olhos, aquela pele, o sorriso... Miri bate palmas. — É isto! A gente pega ela com um feitiço da feiúra. — Mas papai é tão superficial assim? — Deve ser — responde Miri. — Do que mais ele poderia gostar nela? Ele está cego pela — ela finge engasgar — beleza dela, e não consegue enxergar o quanto ela é malvada. O feitiço vai fazer ele vê-la com novos olhos.


Ora, estamos fazendo isso pelo bem dele. O que vai acontecer quando ela ficar mais velha e o rosto dela se enrugar? Ele vai se divorciar? E se ele está se casando de novo, é porque ele ama a mulher pelo que ela é por dentro, certo? Uau. Isso é que é discurso. — Certo. — Então, vamos fazer assim — continua ela, muito animada. — Vi uma coisa aqui que deve funcionar. — Ela folheia o livro, freneticamente. — Olha aqui. É chamado de Máscara da Repulsa. Parece ótimo, hein? Vamos fazer a lista dos ingredientes de que precisamos. — Ela dá um salto, pronta para a ação. Ter poderes mágicos excitava a Miri? Ah, não. Mas, e fazer uma lista? Fique calmo, coração meu! — Miri, a gente não precisa fazer isso logo agora — digo me lembrando do meu dever de matemática. — Não vamos voltar no papai até no próximo fim de semana. Ela aperta seus olhos. — Você acha que vai ser fácil encontrar esses ingredientes? Eu não tenho nem idéia do que seja Taraxacum officinale. E nós temos de praticar, primeiro. Escratch. Escratch. Escratch. Escratch. Miau. — Seu queridinho está arranhando a porta para eu deixar ele entrar no quarto — digo. Espere um segundo! — Em quem você vai praticar? Ela pisca os olhos para mim. Ficou louca? — De jeito nenhum! Você não vai me usar como cobaia para um feitiçofique-horrorosa. Eu não posso entrar para a lista-A parecendo um ogro! Ela abre um pouco a porta e Tigger se arremessa para dentro, estatelando-se diretamente em cima do A². Uma luz se acende no meu cérebro e eu faço minha próxima jogada.


— Entendo que você esteja nervosa — digo, recuando. — Você podia transformar FMM numa árvore por engano. Então... porque não pratica fazendo outra mágica em mim? Como, por exemplo, talvez, um feitiço de popularidade. Ela agita seus braços como bandeiras brancas sinalizando a rendição. — Certo, tudo bem. Como você quiser. Vou achar para você um feitiço da popularidade. Mas, que fique registrado, você está sendo patética. Gol! — Sim, eu sou patética. Pateticamente feliz! — E — diz ela, sorrindo — você vai ficar me devendo um favor. Bem grande. Ah, a bruxa vira mercenária. Não é sempre o caso? — O que você quer? Ela tira uma lista impressa, do livro de magia. Aparentemente, estava já pronta, esperando pelo momento certo para ser revelado. — Nas próximas duas semanas, você: um, vai botar a mesa e lavar os pratos. — Minha mãe faz para nós um cronograma alternado para botar e tirar a mesa. Assim, cada uma de nós só tem de fazer uma dessas tarefas por dia. Eu me pergunto se nossa querida e boa mãe vai perceber se eu fizer as duas coisas. Provavelmente, não. — Dois — Miri observa —, você vai cuidar do lixo. — Cerco, certo, seja como quiser. — Ninguém vai poder dizer se eu estou separando direito o lixo para reciclagem. Posso cortar umas coisinhas da tarefa, sem ela me flagrar. — E tem de separar direito o lixo para reciclagem. Lanço nela um olhar diabólico (essencialmente apertando meu olho direito enquanto levanto minha sobrancelha esquerda) para evitar futuros feitiços de ler-a-mente. — Estou de olho em você. Ela me ignora.


— Terceiro, você tem de vir comigo para a passeata da paz em 20 de março na Praça Washington. — Mamãe não vai com você? — Eu prefero ir com você. Vai ser divertido — diz ela. — Duvido. — Odeio passeatas. Minha mãe já me arrastou para um monte delas. Tudo o que você tem a fazer é andar e congelar seu traseiro. — Tem certeza que não quer que eu leve você para fazer compras? Podemos ir na Bloomie's. E eu compro para você as calcinhas e sutiãs para todos-os-diasda-semana que você sempre quis. — É a única sedução que posso tentar em tais circunstâncias. — Passeata da paz. Sem negociação. Ok, continua valendo a pena! — Negócio fechado! Apertamos as mãos. Hip, hip, hurra! Eu serei popular! Faço uma rápida dança da vitória. — Não faça isso. Parece que você está se afogando. Humpf! — E você nunca vai poder contar à mamãe do nosso acordo — acrescenta ela. Ficou doida? — Claro que não. Ela iria nos transformar em rãs. Ou em gatos. — Cutuco Tigger com o pé. — Talvez ela tenha tido outra filha antes de mim. E ela fez uma mágica. Mamãe a transformou num gato. Um gato macho, só para fazer uma maldade. Tigger mia. — Por que mamãe a transformaria num gato macho, para depois castrálo? — Miri pergunta. — Garotas! — minha mãe grita da cozinha. — Hora de pôr a mesa! É segunda-feira e, no entanto... é a minha vez. Mas vale a pena. E toda


hora em que eu dividar disso, é só pensar que vou simplesmente achar meu nome no topo da lista-A. Tigger me segue para a cozinha e quase me faz tropeçar, enquanto tiro os pratos da prateleira. Humm! Quem sabe? E se eu não estivesse tão longe da verdade sobre o Tigger? E se ele fosse realmente humano e estivesse amaldiçoado por minha bisavó a passar a eternidade como um felino nãomuito-brilhante? Repugnante. Especialmente considerando quantas vezes o pervertido me viu trocar de roupa. Minha mãe lambe o molho de tomate de uma colher de pau, enquanto checa o pão de alho no forno e mexe o macarrão. Quando ela faz o jantar, parece um demônio tasmaniano. Ela é uma excelente multitarefas. E é a mesma coisa no trabalho. Já a vi digitar, ajeitar a máquina de fax emperrada, fazer café e reservar uma viagem para a Costa Rica no telefone, tudo ao mesmo tempo. E isso sem usar mágica. Imagine se usasse — seus clientes teriam férias felizes, ensolaradas, sem tempestades. Ela é maluca de não usar a feitiçaria. Que mal faria? Por que não? Por que não ser feliz? Por que não ter uma vida perfeita? Quando ela era casada com meu pai, cuidava-se melhor. Costumava fazer unhas e ir ao cabeleleiro. Agora, vive tão ocupada trabalhando que parece que decidiu que é preferível gastar toda a sua energia na nova agência — e conosco, é claro — do que com ela própria. Mas por que ela não deveria ter tudo isso? — Mãe — deixei escapar —, por que você não usa sua mágica para ter um cabelo lindo? — Por que tem manchas pretas por todas as paredes da minha cozinha? — ela pergunta também. — Tigger deve estar aprontando. Tigger mia, envolve seu corpo em minha perna e tenta me morder. Aposto como você bem que gostaria de ser gente ainda, para poder me dedurar, irmãzona (ou castigo diabólico de minha bisavó). — Tigger mau — resmunga minha mãe, brandindo a colher de pau para


ele. — Pode limpá-lo? Ele deve ter pisado na lama do vão da escada. E eu já lhe disse — fala, e agora me ameaça com a colher de pau. — Mágica não é brincadeira, Rachel. Eu nunca a usaria a menos que fosse absolutamente necessário. Qualquer um acharia que salvar o casamento dela com meu pai teria sido absolutamente necessário, ou não? Talvez seja algo menos importante no grande universo da bruxaria, mas ainda assim, ora... Pode acreditar que eu daria um jeito de mantê-lo conosco. (E faria ainda um puf! para arranjar para ele cabelo e roupas desta década.) Abro minha boca para lhe dizer que trapalhada que ela fez com nossas vidas, mas logo a fecho. Porque parece estupidez. Por que estou furiosa com ela se foi meu pai que foi embora? Por que ela podia tê-lo feito ficar e não fez? É culpa dele. Ele é que devia ter desistido de ir embora. Pego o Tigger e o levo para o banheiro. Ele começa a correr em círculos ao redor da pia no que eu abro a torneira. Gatos odeiam água, certo? Não o Tigger. Ele pula na privada se a gente a esquece aberta. Ele também sabe como enfiar seus dentes na ponta do papel higiênico e correr com ele, desenrolando tudo, ou fazer xixi pela sala de estar, cozinha e os três quartos da casa. Eu sei que fico sempre brincando que ele já foi humano e mulher, mas, e se fosse verdade? E se a mamãe tivesse planejado colocar um feitiço da prosperidade em nós, e tudo tivesse dado horrivelmente errado? Talvez mijar em todo nosso apartamento seja a vingança dela — atual ele. E se o até agora desconhecido feitiço da popularidade der errado? E se eu me tornar o companheiro castrado de Tigger? Tomo um fôlego profundo para me acalmar. É o que nós aprendemos hoje na aula de educação física — respirar fundo. Miri não vai fazer besteira. Inspiro. Não vai, não! Expiro. A ioga não está funcionando. Aposto que a técnica é somente para pessoas que moram em áreas rurais com muito ar fresco. Lavo as patas já limpas de Tigger (ainda bem que minha mãe não verificou como estavam) na pia, e o deixo no chão. Assim que suas patas


fincam no chão, ele ataca o papel higiê-nico, morde a extremidade e corre para fora. Gato estúpido. Espero que minha irmã mais nova seja mais esperta do que a mais velha.


7. DOIS GAROTOS SÃO MELHORES QUE UM

Uma semana depois, estou no meio de um sonho realmente fantástico no qual Mick e Raf estão me disputando no Baile da Primavera, num combate à Ia Matrix em câmara lenta com muitas voltas de 360° e piruetas, quando sinto uma cutucada no meu rosto. Abro um olho. Miri está debruçada sobre mim, com o dedo indicador sobre meu rosto. Fecho o olho. — Dá licença? — Estou tentando acordar você — cochicha ela. Não diga! Abro um olho e vejo que o relógio indica 5:07. 5:07! Será que ela bateu a cabeça num caldeirão? — Por que você está me acordando às cinco e sete da manhã? — Aqui, chupa isso aqui — diz ela, e mete alguma coisa na minha boca. Eu me sento, repentinamente energizada. — É a minha poção da popularidade? — Não. É uma bala de hortelã. Hum! — Se você não gosta de meu hálito matinal, não me acorde de manhã. Ou, neste caso, no meio da noite. — Você quer que eu faça o tal feitiço ou não? Hum, hortelã-pimenta. — Claro, tudo depende sempre de mim. Você achou alguma coisa? Ela nega com a cabeça.


— Acho que não vou ser capaz de fazer o feitiço da popularidade. — O quê? Você prometeu! — Chuto meu edredom e ponho meus pés para fora da borda da cama. Que droga de bruxa ela é? Não sabe fazer um feitiço antiamor e não sabe fazer o feitiço da popularidade. Ela não é capaz nem sequer de fazer um feitiço para cuidar das tarefas de casa, por que outra razão ia querer fazer aquele negócio comigo? Qual a vantagem de ser uma bruxa, se ela não pode fazer nenhuma brincadeira? — Não gosto nada que você me acorde no meio da noite por razão nenhuma a não ser a de me dar mais olheiras. Miri dá um passo para trás e faz beicinho. — Não é minha culpa. Existe um feitiço da popularidade. Algo parecido. E são só duas vassouras de dificuldade. Mas para funcionar eu teria de jogar canela seca no suprimento de água de todos os estudantes. Como é que eu ia conseguir fazer isso? — É, parece um bocado difícil! — admito, pulando para o chão. Miri se senta perto de mim. — Não seria nada legal se pegassem a gente jogando alguma coisa no reservatório de água de Manhattan. — Certo — suspiro, desapontada. — E agora? Nada? Meus sonhos acabaram? — É a melhor maneira de conseguir popularidade em massa. A outra é juntar cabelos ou pedaços de unha de todo mundo do colégio... — Mais difícil ainda... — O caso é que não me vejo correndo pelos corredores com tesouras para cabelo e unhas. A menos que eu abra um salão, como disfarce, na cafeteria, e ofereça cortes de cabelos e manicure de graça. Mas, imagina se as pessoas vão me deixar chegar perto delas com tesouras. Qualquer um que tivesse sido minha colega na escola, quando eu era menor, lembraria do dia em que Jewel e eu decidimos nos livrar de nossos cachinhos e eu virei barbeiro. Não foi bonito de se ver. — Deve haver outra maneira. — Achei um feitiço do amor. Não quer tentar esse?


Ei, pode ser uma boa idéia! — Me conta mais sobre esse feitiço. — São somente três vassouras. E só precisaria de um punhadinho de ingredientes. Pode dar certo! Ótimo! Se Mick e Raf se apaixonam por mim, não apenas um dos Amores da Minha Vida viraria meu namorado, mas eu entraria na lista-A de carona. Isso! — Quanto tempo pode durar? — Não tenho certeza. Uns meses, no máximo. — Talvez, na época de passar o feitiço, ele já esteja loucamente apaixonado por mim. Vai perceber que sou inteligente, engraçada, atraente e... — Convencida? Rá-Rá! — Na época em que o feitiço passar, pelo menos, eu já vou estar de vez na lista-A. — Era um belíssimo plano. Em vez de me tornar popular para arranjar um namorado, eu iria arranjar um namorado para me tornar popular. Eu salto na cama e grito. — Psiu — cochicha Miri, puxando meu tornozelo. — Mamãe mata nós duas se a acordarmos. Na noite passada ficamos acordadas até tarde trabalhando no meu treinamento. — Ah, é. Como foi? — Muito legal. Você sabe que bruxaria existe há 25 mil anos? Desde a época dos homens das cavernas, já havia bruxas. Ainda esta semana vamos conversar sobre como as bruxas se espalharam pela Mesopotâmia e depois pela Europa... Meus olhos começam a ficar pesados que nem tijolos, subo na cama e me deito... — Você está me dando sono novamente.


— Sinto muito. Ah, sim, a razão de eu ter acordado você foi para dizer que se você quiser que eu faça o feitiço do amor, tem de comprar iogurte e tomar emprestado alguma coisa do cara. Pode ser uma peça de roupa. Ah, só isso? — Como eu vou fazer isto? Ela dá de ombros e sobe para a cama. Eu me afasto para que ela possa deitar também no meu travesseiro. — Diga a ele que está com frio e peça emprestado o suéter dele — diz ela. Meiga e ingênua Miri. — Ai, ai, olá, Raf. Que friozinho hoje, não? Você se importava de tirar o seu suéter? — Ele acharia que sou maluca. Se bem que... se uma semana depois fosse estar mesmo apaixonado por mim, então talvez não tenha problema. Mas um lápis ia ser mais fácil. Algo asim, eu poderia roubar quando ele não estivesse olhando. — Pode ser um lápis? Ou uma agenda? Ela suspira. — Rachel. O que aconteceu quando você não tinha os ingredientes certos para fazer brownies de chocolate, e mesmo assim você os fez? Lembra que você usou bicarbonato de sódio em vez de farinha de trigo? E os brownies ficaram parecendo serragem? — Certo. — Mas alguém já experimentou comer serragem? Pelo que nós sabemos, é delicioso e tem o gosto de brownie. Ou não. — Acho que a gente não pode arriscar nessa primeira vez. — Seria chato se no fim o lápis é que se apaixonasse por você. Ou começasse a escrever em você. — Ela ri. Caio na risada também. — Ou quem sabe você me transforme num lápis? — Bem que eu gosto da sensação de um número dois apontado direitinho, contra a folha de um teste de matemática.


Cobrimos nossas cabeças com a colcha, para não açordar a nossa mãe. Nem eu acredito que convenci Miri a colocar um feitiço do amor em alguém. Ela deve estar bastante ansiosa para testar suas asinhas na mágica. As 7:02 acordei congelando, com a luz do sol atravessando minhas pálpebras. Abro um olho e vejo Miri acenando para minha janela, seus olhos fechados e os lábios franzidos. — O que você está fazendo? — pergunto. O lado esquerdo da minha persiana está levantado e o lado direito está suspenso meio na diagonal, ainda cobrindo a janela. — Fazendo mágica para abrir suas persianas. Mas fiz alguma besteira e uma parte está emperrada. Ela está mais ansiosa para usar mágica do que pensei Mas é melhor saber direitinho o que está fazendo antes de ser a minha vez de encarar sua varinha. * Na homeroom, mudei o plano levemente. Por que apenas um garoto se apaixonaria por mim, se posso ter dois? Se eu puder botar as mãos em roupas do Mick e do Raf, eles vão cair de joelhos de tanto amor por mim e, como no meu sonho, vão lutar por mim. Que romântico! Vou abrir meu armário e encontrar dois bilhetes de amor. Ambos vão querer me ajudar com meu casaco, e então vou deixar cada um deles tirar uma manga. Mick vai me carregar nos ombros para a aula, enquanto Raf leva meus livros. Quando o sinal toca, corro para o segundo andar para me aproximar dos garotos e analisar suas roupas, procurando alguma coisa para roubar. O armário do Raf é à direita da sala do Sr. Silver. Avisto o lindo do Raf quando ele fecha seu armário e vai para a aula. Ele está usando uma camisa de gola com botões, jeans, cinto e sapatos marrons. Mordisco meus lábios. Se ele estivesse usando um pulôver, talvez tirasse em alguma hora, mas uma camisa daquelas? Seria difícil. E eu não imagino nenhuma boa razão para ele tirar a calça ou o cinto. A não ser que ele tenha aula de educação física esta tarde. Isso, educação física! Posso entrar sorrateiramente na sala dos armários dos


garotos depois que eles mudarem de roupa e.... vou ser pega e toda a escola vai achar que sou uma pervertida. Se ao menos Miri pudesse me arranjar um daqueles mantos invisíveis do Harry Potter. Não, espera, já sei! Eu posso simplesmente pegar emprestadas as roupas de ginástica no seu armário, brilhante! Tudo o que preciso é pegá-lo abrindo o armário e fica espiando para descobrir qual é a combinação. Perdi o Raf depois do segundo e do terceiro períodos de aula, e então finalmente eu o peguei bem na hora, antes do almoço. Calouros e segundanistas almoçam das 11 as 11:45. Quer me dizer quem é que tem fome às onze horas? É ridículo. Por isso estou louca para chegar no penúltimo ano. Não porque vou conseguir minha carteira de motorista. Nem por causa do baile de fim de ano. Mas só porque mal posso esperar para almoçar ao meio-dia como qualquer pessoa normal. Seja como for, Janice, Annie Banks e Sherry Dolan estão reunidas junto do armário da Tammy. Elas se conhecem desde os primeiros anos da escola, quando formavam um quarteto. Agora somos Annie, Sherry, eu e Tammy, e a Janice é mais ou menos ela sozinha. — Não estou com nenhuma fome — diz Annie, dando uma olhada no saco com seu almoço. Annie é da homeroom, mas ela sempre se senta perto da porta, porque, supostamente, tem uma bexiga pequena demais e tem de ir ao banheiro no mínimo uma vez em cada aula. Ela também tem cabelos castanhos compridos e os maiores seios que eu já vi. Juro, devem ser pelo menos tamanho 48. Ali na hora, está usando uma blusa de gola rolê vermelha, os seios dela parecem duas bolas de praia. Se ao menos ela pudesse dividir a riqueza. Sherry está na nossa turma de inglês e é a melhor amiga de Annie. — Olá, meninasssh — diz ela, sempre mastigando um cacho de seu cabelo louro. — Tudo bem com vocesssh? Essa coisa dela de chiar o s é muito ssh... chata. E a mania de ficar chupando seus volumosos cachos ondulados me deixa maluca. Mas ela é muito legal e dá opiniões bastante decentes na aula. Então, tento deixar passar essas coisas.


Tenho de me concentrar no Raf. Tudo o que ele tem a fazer é chegar para lá um pouquinho e vou poder ver o seu armário. Vamos, Raf. Seus másculos ombros largos estão bloqueando minha visão! Ele puxa a porta, abrindo o armário, e então perdi a minha chance. Ele veste sua jaqueta, luvas e chapéu. Talvez deixe cair uma luva no caminho para o almoço e então, pronto, meu trabalho aqui está feito. Raf vez por outra almoça fora do colégio. E nunca com outras pessoas do desfile de moda. Ele também tem amigos que são jogadores de futebol e alguns caras do segundo ano que são de uma banda de música chamada Os Iluminados. Que amigos desencontrados. Tammy e eu almoçamos fora. Sempre comemos com Annie, Sherry e Janice na cafeteria, no lado direito do salão, quarta mesa ao fundo. Até que eu possa me sentar com a lista-A (mesa do fundo perto da janela), esta tripulação aqui vai ter de servir. Não que eu vá abandonar a Tammy. Eu me esforçaria ao máximo para que ela tivesse um lugar para se sentar bem à minha direita. Jewel, à minha esquerda, Tammy à minha direita, e Raf e Mick na minha frente. Um trapezóide de felicidade. Raf não deixa cair luva nenhuma. E então a ruiva-sempre-chata Melissa se intromete no caminho e cochicha alguma coisa para ele. Se ao menos eu tivesse audição super-humana. É pedir muito? Um mísero superpoder? Ele diz alguma coisa e Melissa aponta para mais abaixo no corredor, onde três outras garotas de desfile de moda da lista-A estão zorreando, exibindo bem suas unhas feitas na manicure. Na minha afobação para roubar roupas, deixei de detectar qual é a emergência que está ocorrendo na terra do desfile de moda. Na semana passada, a Torre Eiffel que o pessoal que estuda cenografia estava construindo partiu-se ao meio, e os membros do elenco ficaram um bocado nervosos. O tema é Cenários urbanos, o que significa que cada número vai representar uma cidade diferente. De acordo com a Jewel, a Torre Eiffel é para os calouros e segundanistas usarem no número de roupas formais. A música é "Come What May", do Moulin Rouge. Estou distraída de novo quando Mick atravessa o corredor. Ele está usando jeans e um suéter sem bainha. Eu o sigo para conseguir ver melhor. Ele se aproxima do seu armário, coloca seus dedos no segredo, gira o


mostrador devagar... sete... vinte e dois... dezoito... bingo! Sete, vinte e dois, dezoito! Sete, vinte e dois, dezoito. Sete, vinte e dois, dezoito. Sete, vinte e dois, dezoito. Por que eu não tenho um caderninho para anotar isto? Sete, vinte e dois, dezoito. Abro meu armário, tiro meu livro de geometria e escrevo a combinação na capa. Isso! — Rachel? — Tammy pergunta, colocando seu braço no meu. — Quando você terminar de caçar, quer vir almoçar? Que fiasco! Pega em flagrante. — Eu só estava ... Ela ri. — Sonhando acordada. Eu sei. Ele é muito gostoso. Mas eu estou com fome. Já que não posso contar nada para ela, confirmo com um movimento de cabeça e tramo secretamente meu próximo passo. Vou precisar de cinco minutos da aula seguinte, quando o corredor está vazio. Daí, corro para cá, pego emprestado chapéu do Mick ou sua camisa de ginástica verde-vômito, escondo-a no meu armário e então corro de volta para a sala. A escolha óbvia é a aula de inglês, já que estou na turma avançada e, assim, supostamente, devem achar que sei o que estou fazendo. Mas francês é uma chatice. * Mal posso manter meus olhos abertos. Uma das razões de a aula de francês ser tão chata é que não tenho amigos na turma. Tammy e Janice estão no curso avançado; Jewel e Sherry estão no espanhol. Annie está no regular também, mas ela está em outra turma. — Je parle, tu parles, il ou elle parle, nous parlons... — recita Doree Matson. Como sempre, ela está sentada na fila da frente e respondendo a


todas as perguntas. Quando ela finalmente termina a conjugação, decido que é agora ou nunca. — Excusez-moi, je dois aller à la tollette. Ouço alguns risos abafados da galera da fileira da frente. Eles são tão crianças. Só espero não ter pedido para fazer xixi no chão. Será que foi isso? Madame Diamon me deixa sair e pergunta se alguém gostaria de conjugar parler no tempo condicional. Doree levanta a mão. Enquanto saio da sala, me pergunto como é ensinar o dia inteiro uma língua que ninguém entende. E ter de escutar as pessoas falarem o tal idioma como se fossem idiotas. Olharem para você como se o que você diz não fizesse o menor sentido. Perguntarem se podem fazer xixi no chão. Eu jamais me tornaria professora de línguas. Em parte por que eu mal falo uma segunda língua. Mas principalmente porque acho que não sei ensinar. Não que eu tenha a menor idéia do que quero ser. Uma mulher de negócios? Uma cientista espacial? Não sei o que uma cientista espacial faz, mas bem que deve ser divertido! Dizer que você é uma cientista espacial. Suponha que um sujeito sexy diga, durante uma festa: "Ora, não precisa ser uma cientista para entender isso." Daí, eu me inclinaria um pouco para ele, permitindo que ele desse uma olhada naquela extraordinária fenda entre os meus seios (estou viajando tanto, que uma fenda cintilante fica muito plausível, se não provável). "Para falar a verdade", diria eu, "sou uma cientista espacial", e suspiros se seguiriam. Mon dieu! Devo me concentrar na minha missão secreta. Música de James Bond ao fundo. Realmente, devia ter vindo toda de preto, hoje, em vez de jeans, suéter laranja e sapatos verdes cintilantes. Não podia estar mais sem-disfarce. Do terceiro andar, desço acelerada as escadas. Primeira parada, meu armário. Vou precisar do meu livro de geometria. (Quando esse feitiço estiver


feito, vou pedir à Miri para melhorar minha memória. É melhor anotar isso para não esquecer.) Hum! É claro que eu devia ter gravado qual é o armário do Mick. São todos iguais. De metal e estreitos. Fecho meus olhos e tento me lembrar onde ele estava parado. O quarto à esquerda. Não, o quinto à esquerda. Sexto. Sem dúvida, o sexto. Isso ia ser muito mais fácil se eu fosse uma bruxa. Franziria meus lábios e faria o armário dele brilhar. Eu franzo meus lábios. Faça o armário certo brilhar! Nada brilha. Preciso me lembrar. Acho que estava certa na primeira vez. Quarto à esquerda. Dou uma olhada no corredor para ter certeza de que ninguém está vindo. Tudo limpo. Examino o outro lado. Também limpo. Olho no meu livro e vejo sete, vinte e dois, dezoito, então me posiciono em frente ao quarto armário à esquerda. Aqui vamos nós. Respiro fundo e viro o segredo para a direita. Sete. Esquerda, vinte e dois. Então um dezoito rápido. E... Necas. Viro para a direita. Sete. Esquerda, e mais uma volta inteira para dar sorte. Vinte e dois. E então um dezoito bem devagar. E... nada. Talvez seja o quinto armário e não o quarto. Se meu cérebro fosse como um videocassete digital, eu poderia voltar ao episódio anterior. Tento o quinto armário. E então o seguinte. E o seguinte. E a fileira inteira. Não funciona. Preciso me concentrar. Escorrego para o chão, apoio minha cabeça no armário atrás de mim e respiro como aprendemos na aula de educação física. Para dentro. Para fora. Para dentro. Para fora. Será que estou virando o segredo rápido demais? Será que estou com a combinação errada? Porque meu plano não está funcionando? Por que é tão difícil roubar uma peça de roupa? Quem sabe eu possa dizer ao Mick que estou fazendo um projeto sobre sapatos e que preciso dos dele? Ou talvez eu chegue bem atrás dele e corte um pedaço das costas do seu suéter. Não estava enfiado para dentro da calça. Ele vai achar que


prendeu na porta. Isso, é o que eu vou fazer. Vou tentar pegá-lo quando o sinal tocar. Mas agora estou cansada. Muito cansada. Culpa da Miri por ter me acorda do tão cedo. Talvez eu feche meus olhos por um segundo Eles estão muito pesados. Sim, isso me faz sentir bem. A próxima coisa que lembro é de estar recebendo batidinhas nos ombros. Abro meus olhos e dou de cara com o Sr. Earls, o vice-diretor da JFK. — Tirando uma soneca? — pergunta ele. Suas sobrancelhas são muito próximas, como o Bert em Vila Sésamo Eu já o tinha visto em reuniões e se esgueirando pelos cantos dos corredores antes, mas nunca tive o prazer de estar tão próxima dele como agora. — Apenas pensando na vida — digo. — Já vou voltar para a sala. Desculpe, senhor. — Nada de ficar pensando na vida pelos corredores no meu turno. E não acho que você estivesse pensando em coisa nenhuma. Acho que você estava tirando uma soneca. E faltando aula. — Ele escreve alguma coisa em seu caderninho e joga para mim. — Vai ficar de castigo hoje depois das aulas. Você vai poder pensar, então. Mas nada de cochilo. O quê? Castigo? Eu? Mas, eu nunca tinha ficado de castigo. Jamais. — Oh, por favor, senhor. Eu estava aqui somente há dois segundos. — Você quer castigo também para amanhã? É o que vai conseguir me questionando. Epa! Alguém está viajando no poder. Forçando as lágrimas a não saltarem dos olhos, fui para o meu francês. O Sr. Earl não imagina com quem ele está se metendo. Um dia eu terei poderes mágicos e então ele será transformado num gato. Um gato castrado. Isso mesmo, Sr. Earls, está entendendo? Um dia, as pessoas vão chamar senhor de Fluffy. Assim que volto para o meu lugar solitário no fundo da sala, sinto um peso nos meus pulmões, como quando acordo algumas manhãs e percebo que


Tigger está sentado no meu peito. A vida é tão injusta. Minha mãe tem poderes mágicos. Miri tem poderes mágicos e peitos. Meu pai tem FMM. Jewel é popular e tem uma nova melhor amiga. Tammy tem... Tammy tem Sherry, Janice e Annie. E eu não tenho nada. Nada. Nada... só esse castigo para


8. DE CASTIGO

Sou tão novata em castigo depois das aulas que nem sei para onde ir. Então, vou para a secretaria, no primeiro andar. — Com licença. — Eu me dirijo à secretária. Ela está de olhos cravados na tela do computador e parece que nem está me notando. — Onde é que a gente fica de castigo? — É como trabalho forçado na prisão? Eles acorrentam todos nós, os malfeitores, juntos e nos forçam a esfregar o ginásio? Pintar os corredores? Sala um-zero-quatro — diz ela, sem olhar para mim. — Perto do quadro de avisos. Estava esperando que ela gritasse: — Rachel Weinstein? Uma meiga caloura como você não pode ter feito nada para merecer uma punição dessas Não seja boba! Quem quer que tenha posto você de castigo será imediatamente rebaixado do seu cargo! Vá para casa e não preocupe seu doce coração com isso nem mais um minuto! Acho que estou sonhando. Ela não saberia quem eu sou a não ser que examinasse o mostruário de troféus fora da secretaria. Quando tirei o segundo lugar na competição de matemática, tive sentimentos confusos sobre minha colocação ser exposta numa vitrina. Por um lado, todo mundo que passar por lá verá meu nome gravado. Por outro, ganhar competições de matemática tem mais a ver com ganhar entradas para a convenção do Jornada nas Estrelas do que ser aceita num reinado das pessoas legais. Mas logo percebi que não fazia diferença. Meu nome nem ao menos é visível. O troféu foi colocado bem no fundo, atrás do troféu do clube de boliche. Isso mesmo, o clube de boliche. Eu achava que uma competição de matemática seria mais considerada do que uma competição de boliche, pelo menos no colégio, mas quem sou eu para achar qualquer coisa?


Bem, o caso é que a secretária não me conhece. Ela nem se toca que eu não seja o tipo de garota que fique de castigo. Mas nem posso condená-la. Também não sei o nome dela. — E... o que a gente faz lá no castigo? — pergunto. — Dever de casa. Sigo em direção à sala 104. Chatice. A única coisa que mantém meu ânimo é a possibilidade de um supergostoso rebelde legal se sentar perto de mim, na sala do castigo, como naquele filme dos anos 1980, O Clube dos Cinco. Daí, vou ser a Molly Ringwald, toda princesinha e serena, e ele será Judd Nelson, com aquela pose de não-tô-nem-aí. Ele vai estar usando jeans rasgados e vai ter um cigarro atrás da orelha. No início, a gente não conversa. Apenas se olha olho no olho. E então ele vai me dizer alguma coisa rebelde, como: "Você acha que nós podemos fumar aqui?" E aí eu digo: "Eu não fumo." E então, antes que passe uma hora, que é quanto dura o castigo, nós estamos apaixonados. Não tenho bem certeza como é que se chega da minha resposta quanto a fumar até o estarmos apaixonados, mas vou deixar para ele imaginar isso, já que a maior parte dos planos até aí fui eu quem fiz. Prendo a respiração e abro a porta. A não ser por um professor magricela que reconheço do departamento de ciências, as mesas e cadeiras estão vazias. Ele verifica sua lista. — Você é Rachel? Pelo menos alguém sabe o meu nome. Eu me sento no fundo da sala. — Sou! Fico de olho na porta da frente, esperando pelo meu rebelde. E continuo esperando. Cinco minutos depois, levanto minha mão. O professor magricela está rabiscando todo o trabalho de algum pobre aluno e não me nota. Aceno novamente. Gostaria de chamar o nome dele em voz alta, mas não quero ganhar outro castigo. Eu tusso. Alto. Ele olha, aborrecido.


— Sim? — Onde é que está todo mundo? — Só tem você. — Ele volta para os trabalhos dos seus alunos. Só eu? Hoje eu sou o pior estudante da JFK? A mais séria norma escolar que foi quebrada nas últimas 24 horas foi estar cochilando no corredor? Onde estão as drogas? As armas? A garotada que mata as aulas? O rebelde pego fumando no banheiro, que ainda tem a audácia de colocar um cigarro atrás de sua orelha? Aposto que o Sr. Professor de Ciências me odeia. Se tivesse de tomar conta do meu castigo, já estaria em casa de pijamas. Lá, lá, lá. Eu teria fechado a porta se soubesse que eu era a única que iria entrar na sala. Será que vou ganhar a reputação de garota-má se alguém me vir aqui? Vou ter de tingir meu cabelo de rosa e colocar um piercing na língua. Na tentativa de bajular o magricela, tiro meu trabalho de biologia da mochila. Nós temos um trabalho para sexta-feira. Vinte minutos mais tarde, soa um rumor de vozes atrás da porta. — Eles não vão conseguir achar ninguém — diz uma voz de garota. — Mas a gente não tem escolha — diz outra pessoa. Alguém que pareça... a Jewel? — Pregar estes cartazes é uma perda de tempo tão grande. Se estivesse só um pouquinho à frente, conseguiria ver quem era. Tento empurrar disfarçadamente minha carteira um centímetro ou dois à frente. Nada. Mais um centímetro. Mais outro. Mais dez! O Homem da Ciência me encara. Dou um sorriso. Avisto os cabelos ruivos e compridos de Melissa. Melissa e Jewel estão logo ali, fora da sala onde estou de castigo. — Pare de se queixar Bee-Bee — diz Jewel.


Jewell a está chamando de Bee-Bee? De sua Melhor Amiga? Sinto vontade de vomitar. — Se não foram bons o bastante para conseguirem entrar da primeira vez, não serão bons também para conseguir entrar agora — dispara Melissa, antipática. Do que elas estão falando? O clique-claque dos sapatos delas me diz que já vão passar pela minha porta e eu, bem rapidinho, arrasto minha cadeira para trás para que não me vejam. Preciso ler esse tal cartaz. Os trinta e cinco minutos restantes de castigo levaram no mínimo três horas. Finalmente, finalmente, os ponteiros do relógio acima da porta marcam 4:00. Liberdade! Agarro minha mochila e me jogo como um foguete da cadeira para o corredor vazio. Já longe, ouço murmúrios de vozes de estudantes com muito mais energia do que eu. Logo que vejo o cartaz, fico tonta, agitada como uma latinha de refrigerante que alguém balançou e abriu. Precisa-se de dançarina caloura substituta Testes sexta-feira depois da aula no café Cenários Urbanos Então essa era a emergência. Alguém saiu do desfile. Ou quebrou uma perna. Eles precisam de uma dançarina. Qualquer que seja a nova dançarina, receberá automaticamente o status de lista-A. Vai poder sair por aí com a Jewel. Vai poder sair por aí com o Raf. E, sem a menor dúvida, alguém vai convidá-la para o Baile da Primavera. Meu coração dispara dentro do meu peito. Eu quero estar neste desfile. Quero ganhar o status automático da lista-A. Quero sair por aí com Jewel e Raf. Quero ser tão legal que nem tenha jeito de ser ainda mais popular do que já vou ser. Vou fazer o teste. Bato palmas com alegria e faço a dança do urra (que se parece muito com a dança da vitória) em homenagem ao meu novo plano. Num meio rodopio, tropeço e caio para trás.


E daí se tenho seis pés esquerdos e o desfile é principalmente um show de dança? Conheço alguém com um remédio para tudo isso. Meto a cabeça para dentro do quarto de Miri.


9. UNI-DU-NI-TÊ, LIMO VERDE NA BANHEIRA VOU VER!

— Você já terminou? Ela me atira o estojo de lápis e me acerta na cabeça. Depois que começou essa história de artes marciais, sua pontaria melhorou um bocado. — Se você parasse de me perturbar a cada quatro segundos, eu já tinha terminado. Você consegue se sentar quieta na cama e esperar? — Miri, já passaram dois dias. O teste é amanhã. Fecho a porta atrás de mim para mamãe não ver a confusão que estamos fermentando aqui. E digo fermentando, literalmente. Entre os pés fedorentos de Miri tem uma tigela de plástico branca. Ela tem de fazer o tae kwon do descalça e eu não deixaria que ela perdesse tempo tomando banho até que termine o feitiço. — O que você está fazendo agora? — pergunto. — Misturando. — Ela está sentada no tapete verde-escuro, recostada na cama dela. As persianas estão fechadas. Uau! Ela ainda é mais paranóica que eu. Será que acha mesmo que a mulher de 60 anos e seus oito gatos, que moram bem em frente a nós, se importam com o que estamos fazendo? Engraçado, a "patrulha" da vizinhança ia tachá-la de bruxa antes de desconfiar de Miri. Dou uma olhada na ponta da tigela para ver como ela está indo. A mistura tem uma cor verde-alaranjado esquisita. — Você está usando a tigela de pipocas? Que porcaria — Isso aí era uma tigela de pipocas. Agora é um caldeirão.


— Acho que vou pegar umas batatas fritas para beliscar esta noite. E acho que você vai ter de comprar uma nova tigela de pipocas. — Compre você. Estou fazendo isto por você, caso tenha esquecido. — Ela aponta o livro de magia, — Preciso que você me ajude. O que é dezoito vinte quatro avos de uma xícara? — Três quartos — respondo automaticamente. — Perfeito. — Ela enche sua xícara de misturas com algum tipo de fruta triturada. — O livro de magia é como um teste de matemática pirado, com todas estas frações. Dou uma cheirada. Hummm! — Cheira feito laranja. — Isso mesmo. E uma xícara de pistache triturada e dois quartos de xícara de manteiga, que é a metade, certo? Eu confirmo. Tenho o gene da matemática enquanto ela tem o gene da magia. Não é justo. — E — acrescenta ela, despejando na xícara — pimenta malagueta moída. Hummm. Parece gostoso. Adoro pistaches. — Precisa de mais ajuda? — Chamo você quando estiver pronto. Vou atrás do meu dever de matemática. De repente, fiquei com disposição para isso. Quando estou tirando a mesa depois do jantar (é claro que estou tirando a mesa — ultimamente, estou sempre botando ou tirando a mesa. "Onde está Rachel? Ela deve estar na cozinha pondo ou tirando a mesa"), Miri aparece furtivamente atrás de mim. — Está feito — murmura ela, e me dá a tigela com aquela coisa, que agora é marrom esverdeada.


— Você acha que eu vou comer isso? Ela ri. Na verdade, soa mais como um cacarejo. Algo que observei recentemente como parte do repertório dela. — Só se você quiser uma grande indigestão. Humor de bruxa? — Então o que eu faço com isto? — É para tomar banho. — Ficou doida? Ela põe as mãos nos quadris. — É o feitiço da dança. Se você não quiser fazer, não faz e pronto. — Estou só brincando, Mir. — Eu me senti péssima por ter dado essa dura nela. — Obrigada. Gostei muito que você cozinhasse essa coisa para mim. — Não tem de quê. Vai experimentar? Dou uma risada. — Claro. O que tenho de fazer? Tomar banho numa banheira com isso? — É. — Você acha que mamãe não vai ficar curiosa de saber por que estou tomando banho de banheira pela primeira vez desde os seis anos? Nuvens de preocupação no rosto dela. — Boa lembrança. O que a gente deve fazer? Tenho um plano. Termino de colocar os pratos na lavadora de pratos, então bato na porta de mamãe. Ela está de baixo das cobertas, só o rosto para fora, lendo uma história de amor. Minha mãe adora ler histórias de amor. Acho que ela está esperando que o Príncipe Encantado apareça por um passe de mágica. E ela podia fazê-lo aparecer se quisesse. Um simples puf, e ele


apareceria. Alto, forte e uma covinha no queixo. Por que não, hein? Qual é o problema com ela? — Mãe — digo —, você pode me dar uma de suas pílulas? Pode ser qualquer uma. Minhas costas estão me matando. Ela apoia o livro na barriga e faz um sinal para eu me aproximar. Por um segundo penso que ela está meio desconfiada, mas então me pergunta: — Você levantou alguma coisa muito pesada? — Hum... foi. Minha mesa. E por que eu inventaria de levantar a minha mesa? Eu não presto para inventar mentiras convincentes. Ela suspira. — Rachel, costas são só uma na vida. — Obrigada pelo conselho, mãe — digo na minha voz mais sincera. Sob circunstâncias normais, eu iria debochar dela por ser tão boba. — Os comprimidos estão no meu armário de remédios. Ela volta para sua leitura. — Obrigada. E agora a maior representação/epifania de toda uma vida... mãos alisando as costas... olhos iluminando-se com uma idéia... eureca! — Peraí um instante. Você acha que tomar um banho de banheira ajudaria esses meus músculos tão doloridos das costas? — Boa idéia — diz ela, já perdida na praia com o príncipe charmoso e sem prestar mais atenção. Missão cumprida. Saio do quarto, tendo o cuidado de fechar a porta atrás de mim, e então corro para junto da Miri. — Tudo certo, Pode me passar essa coisa gosmenta. — Não é tão gosmenta assim — protesta ela, e me dá a tigela de pipoca. Abro a porta do banheiro e tento fechá-la as minhas costas. Ela enfia a mão.


— Dá licença? — digo. — Tenho de ficar aí com você. — Gosto de ter minha privacidade. Ela cruza os braços sobre o peito. — Sem eu dizer meu feitiço, você só vai estar tomando banho de salada de frutas. Deixo ela entrar. — Tranque a porta. E fique quieta. Se a mamãe vir que você está aqui, vai desconfiar na certa. — Cheiro em volta... — Argh! Cigarro. Ela fumou aqui dentro de novo. Como ela pode achar que consegue esconder isso da gente? É tão óbvio! Miri dá de ombros. Não sei por que, mas ela não se importa com cigarro tanto quanto eu. Nunca se importou Eu é que chorava na cama até dormir porque estava convencida de que minha mãe ia morrer de câncer de pulmão Fui eu que, com sete anos, encontrei uma carteira de cigarros que ela estava escondendo do meu pai, parti todos os cigarros no meio, joguei no vaso e puxei a descarga. Miri nunca se irrita com mamãe. Elas estão sempre no mesmo canal. Eu sou mais como meu pai. Acho que é por isso que nunca o irritei. Como posso irritar alguém que é como eu? — O que a gente tem de fazer? — pergunto. — Temos de encher a banheira de água, depois botamos a mistura, então eu recito o feitiço. Eu abro a água quente. Miri balança sua cabeça e fecha a torneira. — O livro de magia diz que a água tem de ser fria. Provavelmente, foi escrito antes de existir encanamento e reservatório de água quente. — Mas vou ter de entrar numa banheira de água congelada no meio do inverno? Miri dá de ombros. — É o feitiço.


Vou ficar doente, com certeza. — Vamos terminar logo essa coisa! Ela se senta na beirada do vaso sanitário tampado e abre seu livro de magia. Então, despeja a mistura na banheira cheia de água e agita tudo com as mãos. Passo para ela a escova de dentes. — Quer usar isso aqui como varinha de condão? Ela balança seu cabelo castanho. — Não. — E que tal um chapéu pontudo? Posso fazer um com a caixa de lenços de papel. — O que eu preciso — diz ela — é que você cale a boca para eu poder me concentrar e acessar a minha vontade essencial. — Ela fecha os olhos, franze os lábios e torce todo o rosto. Depois de alguns minutos de silêncio (ou pelo menos o máximo de silêncio que se pode conseguir em Nova York, com um fundo permanente de buzinas e alarmes de carro), sinto aquele já familiar calafrio, no que Miri cantarola: Do Paraíso à Terra, Da América para França, Deixe esta poção Fazer Rachel boa de dança!

Ela abre um olho e examina a água. — Você tá de brincadeira comigo. — Caio na risada. — Isso é o feitiço? — É o que está lá no livro. — É o pior feitiço que já ouvi! A rima é péssima! Sem chance de ganhar um Pulitzer, quem escreveu essa droga. E por que você não disse abracadabra? Ela rói sua unha do polegar. — Quer entrar logo nessa droga de banheira?


— E você já pode sair, agora? — Eu já vi você nua um milhão de vezes. Nós tomamos banho juntas desde bebês. — Primeiro, mamãe vai achar estranho se nós duas ficarmos aqui. Segundo, há algumas coisas que você pára de fazer quando está mais madura — digo desdenhosamente — Como roer as unhas, por exemplo. — Certo, vou sair, se você vai começar a se comportar como uma criancinha. — Quanto tempo tenho de ficar na banheira? — No mínimo meia hora — diz ela rispidamente, batendo a porta. Tranco a porta logo que ela sai e só então tiro a roupa. Decido começar devagar. Hesito antes de mergulhar meu dedão do pé direito. Ahh! Está mais fria que neve. Faço uma respiração profunda de ioga e mergulho todo meu pé. Ahhh! Tiro-o de volta e então o meto novamente. Ahhhh! Os trinta minutos contam a partir de agora ou quando eu já estiver imersa? Devagar, enfio os pés na água. E então minhas panturrilhas. E então meus joelhos, minhas coxas, meu traseiro, minha barriga, meus peitos inexistentes. Meus dentes estão batendo. Os lábios tremem. As unhas ficam azuis. Minha pele está formigando como se eu estivesse dormente, mas não sei dizer se é do feitiço ou da temperatura gelada. A água parece ter sido misturada com limo verde e quando esfrego minha pele parece que tem grãos de areia. Será que ainda tenho de mergulhar minha cabeça? Eu preciso da minha cabeça para ter ritmo. Quero poder balançar meu cabelo de um lado para outro. Então, é melhor afundar toda logo. Eu mergulho, mantendo os olhos firmente fechados. Cof! Cof! Cuspt! Cuspt! Epa! Aposto que era para fechar minha boca. Miri bate na porta. — Você está bem? Cof, cuspt! — O que acontece se eu engolir sem querer? Meu estômago faz a macarena?


— Vai ficar tudo bem. Já pode sair agora, se já mergulhou todo o seu corpo. — Achei que tinha que ficar na água por trinta minutos. — Eu menti. Você estava tão irritante! Rapidamente, me enxagüei, disparei da banheira e agarrrei uma toalha. Quando minha tremedeira diminui, esvazio a banheira, limpo-a e volto para meu quarto e para meus agasalhos. Então, faço um coque no meu cabelo e calço meus tênis de corrida. Ligo o rádio e me coloco em frente do espelho grande da porta do meu guarda-roupa. "Eu contra a música..." Quando eu tento um rebolado Harlem, meus ombros bamboleiam. Sem ritmo. Como sempre foram. Tento um meneio no corpo. Nada. Uma simples mexida na bunda Necas. Abraca-pô-que-droga! Disparo do meu quarto e vou para o de Miri. — O que deu errado? Por que não está funcionando? — Minha voz está alta e eu começo a ficar histérica. Tomei o banho, não foi? E ainda posso sentir restos de pistache lá onde o sol não brilha. O que mais eu devia ter feito? Que outras indignidades estarão à minha espera? A loucura precisa acabar. Miri afasta sua cadeira do computador e folheia o A². — Não sei... Talvez eu não tenha feito certo... — Não diga isso. O que vai acontecer comigo? E se você fez minhas pernas virarem cobras ou elásticos? — Calma — diz Miri. — Tem uma nota de pé de página aqui. XI. Deixa eu achar o XI... — Ela olha para mim. — Diz aqui que o feitiço pode demorar até metade de uma lua para pegar. — O que isso significa? Metade da lua? — Acho que são 12 horas. Não é tão mau. São oito horas agora. Quer dizer que o feitiço vai começar a funcionar até no máximo amanhã de manhã.


— Será que tem outras notas de pé de páginas que você esqueceu de ler? Tipo, dizendo que minha pele vai criar escamas? — Acho que não. Mas, adivinhe! — O quê? Ela se afasta da sua mesa de computador. — Acabei de receber outro e-mail da FMM, com as novidades do casamento. Este agora informa a lista das músicas. — Miri solta um grunhido. A FMM envia semanalmente novidades do casamento para todos os seus convidados. Sobre o fornecedor, as flores, previsão do tempo. Como se alguém se importasse com essa droga de casamento. É só para ajudar a entupir nossas caixas de correio. Dou uma olhada no meu e-mail, no meu computador. Eu nunca nem sequer abro os e-mails do casamento; vão todos direto para a lixeira. Jewel ainda não me respondeu ao último e-mail que enviei para ela, duas semanas atrás. Tammy está on-line, então fico trocando mensagens com ela por meia hora, depois decido simplesmente ligar para ela. — Tudo bem? — Tammy pergunta. E eu a imagino me fazendo o sinal do polegar para cima. — Tudo. — Bem que eu queria contar a ela. — O dever de casa de biologia me tomou um tempão. Eeepa! Esse, eu esqueci de terminar. Depois de falar no telefone, volto para a minha mesa e então, às dez e meia, decido ir para cama mais cedo hoje. Infelizmente, demoro um bocado para cair no sono porque estou muito excitada. No momento em que estou para cochilar, dou uma sacudidela no traseiro para ver se já estou com ritmo. Difícil dizer. As sete e meia da manhã seguinte, pulo da cama. Tomo um banho, me visto toda, ligo o rádio e volto para o meu lugar em frente ao espelho. — Quanto tempo este feitiço dura? — Para sempre. São só os feitiços de emoção que se gastam.


Se eu estou contra a música, a música que se cuide para não levar um chute no traseiro. "Eu contra a música..." De novo. Sinto estremecimentos nas minhas costas, como se centenas de formigas formassem uma fila dançando a conga sobre a minha coluna. Deve ser um sinal. Quais são as possibilidades de a mesma música estar sendo tocada agora de manhã? Então pela segunda vez eu tento um rebolado à la Harlem. E meus ombros se mexem. Quer dizer, se mexem de verdade. Então, tento ondular o corpo. E meu corpo se contorce de uma maneira que eu nunca tinha visto antes. E então, finalmente, balanço minha bunda. E, deixa lhe dizer, funciona. Vou até embaixo. Chego a tocar o traseiro no carpete rosa, subo, desço novamente. Ah. Meu. Deus. Aimeudeus. Meus braços estão voando, minha cabeça está se elevando, minha bunda está se mexendo e eu não pareço estar sendo eletrocutada. Eu pareço que sei o que estou fazendo. Abracatástico! — Miri! — grito. — Miri, vem aqui! Ela entra correndo no meu quarto. Eu faço a macarena e até isso parece bom. Ela bate palmas e pula. — Não posso acreditar! — Ela dá um grito esganiçado. — Você, de repente, consegue dançar! E eu fiz isso! — Garotas? — Minha mãe chama do seu café da manhã de marhsmallow na cozinha. — Está tudo bem por aí? — Tudo — respondo. — Use sua voz de dentro de casa! — digo a Miri. — Calma. Mas eu é que não consigo ficar calma. Porque eu estou bem. Tão bem. Tão bem que eu podia ser uma dançarina da coreografia de apoio num vídeo musical. Ei, eu podia ser a estrela de um vídeo musical.


10. ROCHELLE/RACKELLE/RUTH

Tammy continuou olhando para mim de modo estranho, como se eu estivesse usando meus jeans e meu top preto decotado pelo avesso. — O que foi? — perguntei no que adentrava o mundo civilizado com me moonwalk. — Por que você está saltitando para todo o lado? Tento conter o ritmo que flui pelo meu corpo, mas é difícil. Estou que nem um coelhinho cheio de pilha. — Eu não estou fazendo nada disso. — Está, sim. Você não parou um momento sentada o dia inteiro. — Pegamos dois lugares na lateral da sala, exatamente debaixo do mapa do mundo antigo que parece que vai cair e nos cobrir a qualquer momento. — Está tudo certo? — Tudo certo — respondo, arrastado. — Você quer passar lá em casa depois do colégio? — Não dá. Tenho um hmphsh. — Digo a última parte baixo e bem enrolado, e esfrego minha mão sobre meus lábios como se estivesse tirando um bigode de leite. — Você tem o quê? — pergunta ela. — Vou fazer o teste para o desfile de moda — confesso. A boca dela arria aberta num ângulo de 180 graus, mostrando todos seus dentes estreitos e compridos. Todo o corpo dela é estreito, comprido e ereto. A não ser pelo nariz, que é grande e um pouco torto. No mês passado, tentamos usar a maquiagem da minha mãe para sombrea-Io, mas ficou parecendo como se alguém tivesse dado um soco nela.


— Mas para quê? — pergunta ela. — Acontece que eu quero estar no desfile. — Como é que é? Você disse que o desfile era elitista e materialista e que tornava as mulheres objetos. — Eu nunca disse isso — menti. Mas, posso ter dito, sim. Mas isso foi quando eu não era capaz de dançar e tinha chance zero de entrar no show. Ela ergue uma sobrancelha. — Então por que você não fez o teste da última vez? É incrível como Tammy me conhece. Nós ficamos amigas no primeiro dia de aula aqui no JFK, quando ela me avisou que eu estava com um risco azul no meu rosto. Acho que minha caneta nova tinha vazado toda na minha mão e, sem eu perceber, eu tinha tocado meu lábio superior. Dá para acreditar? Uma caneta explosiva no primeiro dia do colégio, que resultaria numa charmosa Hitler de bigode. Antes da nossa aula seguinte, Tammy me levou ao banheiro e me ajudou a lavar e esfregar até que ficasse menos visível. Ou, pelo menos, levemente menos visível. — Decidi que preciso fazer mais exercícios — digo. — Para ficar saudável. Agora ela ergue ambas as sobrancelhas, simultaneamente. — Saudável? Desde quando? Você simplesmente deu fim num pacote tamanho-de-comer-durante-um-filme de M&M's depois de extinguir duas fatias de pizza de pimentão no almoço. Como é que é? Além de registrar tudo o que eu digo, ela grava também tudo o que eu como? — Está vendo? É por causa disso que preciso começar a fazer ginástica. Ela encolhe os ombros, estranhando. — Desde quando você sabe dançar? — Bem, eu sei, ora! — Desde hoje de manhã.


— Sortuda. Eu não danço nada. Mas vou assistir ao seu teste. Para dar apoio moral. Você sabe, Annie e Janice vão fazer o teste também. Sim, já sei. Elas têm conversado sobre isso e praticado a semana inteira. Eu fiquei tentando ser discreta, para que ninguém me pedisse para mostrar meus movimentos até que a mágica me deixasse pronta. A linha do busto de Annie não ajudava muito minha auto-estima. Dei uma olhadinha nela, sentada junto da porta. Não sei se ela dança bem, mas estou certa de que ela vai ser muito útil se houver um número de roupa de banho. Quando o sinal toca, corro para o banheiro pela última vez. Entrei naquele banheiro em todos os intervalos para confirmar que ainda podia remexer meu corpinho recém-incrementado. Então, verifico novamente (ainda estou dançando), afofo meu cabelo ondulado sem graça, dou uma olhada nas minhas roupas (estes que eu estou usando não são uns jeans quaisquer; são os jeans da Bundinha Perfeita), então ponho meu rimel preto para acentuar meus olhos castanhos (ah, se eu tivesse as pestanas super-humanas de minha irmã) e batom rosa. Meu coração parece como um ioiô enlouquecido. Pronto. Tammy está me esperando fora do banheiro. Agarro a mão dela. E se eu levar bomba? E se o feitiço apenas me fizer pensar que eu danço bem? E se eu fizer papel de idiota? — Rachel, você não está respirando — avisa Tammy no alto da escada. — Lembra-se do que você aprendeu na ginástica? Inspirar, expirar, inspirar, expirar. Respiro mais rapidamente e acabo tendo um ataque de soluços. — Respire fundo — diz ela, segurando minhas mãos no ar. — Quando eu mergulho, tenho sempre de me lembrar de respirar. Respire fuuuuundo. Respire fuuuuuundo. Senão, você pode entrar em pânico, desmaiar e ser pega por um tubarão. É esse o jeito dela de me dar força? Eu me penduro no braço da minha amiga e vagarosamente desço os três lance de escada até a cafeteria. Talvez, eu tenha sorte e, com exceção da Annie, não vai ter mais ninguém para


competir comigo. Errado. Uma fila de cinqüenta candidatas a dançarina serpenteia a parede da entrada da cafeteria. A fila está sendo monitorada pela cretina da Doree. Ela conta as primeiras cinco garotas da fila, coloca-as para dentro e então fecha a porta para que a gente não possa ver o que acontece na sala. Conheço a maioria das garotas ali e me pergunto com quem será a disputa para valer. Além da Annie, é claro. Eu me lembro do teste passado. Vim acompanhando a Jewel e fiquei do lado de fora, e ela estava tão nervosa que começou a tremer. Boa parte das garotas aqui, hoje, estava no primeiro teste também. A música começa lá dentro (bum, bum, bum), e não consigo me segurar; meus pés começam a bater no chão. Tammy me olha como se eu tivesse ficado maluca. A música pára, as cinco garotas saem e Doree acompanha mais cinco garotas para dentro. Poucos minutos depois, ela leva outras cinco. Janice se junta a nós. — Pronta? — pergunta ela, parecendo muito séria. Assim, não tem como eu visualizá-la deixando fluir e sentindo o ritmo. Eu digo sim com a cabeça. Respiro fundo. Tammy conversa com Janice e não comigo. É óbvio que ela percebe o quanto eu estou nervosa. Mais cinco garotas entram. Por que ninguém sai? O pessoal que entra morre lá dentro de tanta humilhação? Estou no próximo grupo. Mesmo que eu seja a melhor dançarina daqui, ainda posso não ser aceita. E se eu for muito baixa? E se eles simplesmente não gostarem de mim? E se meu físico não servir para desfile de moda? Algumas garotas atrás de mim estão cochichando sobre Laura Jenkins, a garota que desistiu. — Soube que ela andou muito mal nas provas e os pais dela a obrigaram a largar o show — comenta alguém. — Não estou surpresa — diz outra garota. — Ela já estava em aulas de reforço em todas as matérias.


Não me importo a mínima com a razão por que ela desistiu. Apenas estou contente que tenha desistido. A música pára. — Uma — conta Doree, dando um tapinha na cabeça de Janice. — Duas. Três. — Eu sou a terceira. — Quatro — Ela bate em Tammy. — Oh, eu não estou inscrita — diz Tammy. — Mas, posso assistir? Para dar um apoio moral? Doree solta seu desdenhoso Não! Quando atravesso as portas da cafeteria, vejo garotas que acabaram de fazer o teste saindo pela porta de trás. Sinto náuseas. Na parte da frente da sala, as mesas foram afastadas, e assim há um espaço para a gente fazer o teste. Os oito calouros do elenco (são nove ao todo, mas Doree faz o papel de anfitriã) estão espalhados, sentados sobre as mesas que ficaram, esperando para assistir à nossa apresentação. Jewel e Melissa estão juntas, num canto, rindo sobre alguma coisa numa revista, ocupadas demais para me perceberem, ali. Nunca me senti tão ridícula em toda a minha vida. É como aquele sonho que você está sentada na homeroom e percebe de repente que esqueceu de colocar suas calças. Há cinco X feitos de fita adesiva no chão da área aberta, separados uns dos outros por uns 15 centímetros. — Por favor, fique no terceiro X — me diz Doree, sem nem sequer me cumprimentar, como se não estivesse comigo em quase todas as minhas aulas. Nós nos enfileiramos, todas as cinco tremendo, como se estivéssemos prestes a implorar por nossas vidas em frente a um pelotão de fuzilamento. Não erga os olhos, digo a mim mesma. Não erga os olhos, não erga os olhos. Ergo os olhos. Raf está sobre uma das mesas de almoço, bem lá no fundo, deitado sobre sua sexy barriga, na certa fazendo seu dever de casa. Acho que vou vomitar. — Por favor, digam os seus nomes — pede Doree. — Janice Cooper — fala Janice, já que é a primeira da fila.


Sua voz prende no p e o pelotão de fuzilamento solta uma risadinha abafada. Pobre Janice. — Ivy Lions — diz a garota do meu lado. Ela está usando jeans e cintura alta, óculos e um xale amarrado. Sei, com toda a certeza, que essa não tem a menor chance de ser aprovada. Dois seniores do desfile de moda cochicham e riem, e eu posso sentir a humilhação de Ivy se irradiar de sua bochechas. Tenho vontade de chorar por ela. Não consigo me decidir se ela é corajosa ou apenas estúpida. — Rachel Weinstein — digo. Os olhos de Jewel pulam da revista, ao escutar o meu nome. Eu sorrio timidamente para ela. — Você não me disse que ia fazer o teste — murmura ela, com um certo pânico no olhar. Pela primeira vez, me ocorre que ela devia me ver como outra Ivy. Afinal de contas, ela já me viu dançando. — Surpresa — murmuro de volta. — Certo, garotas — diz London Zeal, uma das duas produtoras. Todo ano, dois seniores que estiveram no desfile anterior são escolhidos para fazer a produção. Eles são responsáveis pela escolha de dez calouros, dez segundanistas, dez juniores e os outros oito seniores que vão participar do desfile. Metade de garotos, metade de garotas. E apenas porque alguém consegue entrar num ano não quer dizer que vá entrar também no ano seguinte. Todos, sempre, têm de passar pelo teste. Normalmente, são os mesmos que conseguem participar, todos os anos, mas, no ano passado, uma das dançarinas segundanistas, Kate Small roubou o namorado da London, e pelas costas. Assim, advinhe quem foi cortada este ano? Mercedes Redding, co-produtora, está sentada com as pernas cruzadas numa esteira de ioga. Ela é a pessoa mais magra que eu já vi. Sinceramente, seu jeans deve ser tamanho zero. Claro que todos os garotos acham que ela é gostosa, mesmo tendo um corpo de menina de dez anos. Ou pelo menos achavam que ela era gostosa. Ela cortou seus longos cachos louros, deixandoos na altura do queixo e a reação não tem sido muito favorável. Mercedes é


uma grande dançarina, mas ela não fala muito. London, por outro lado, nunca cala a boca e dá para ouvi-la quando ela vem descendo o corredor, já a um quilômetro de distância. A voz dela é tão nasal que parece que ela está apertando o nariz enquanto conversa. Também dá para vê-la chegando a um quilômetro de distância. Ela se veste da cabeça até a unha de uma só cor. Hoje está usando roxo. Top roxo, saia roxa, meiasarrastão roxas, botas compridas roxas. Óculos de sol roxos. Ela também acentuou a borda de suas pálpebras com delineador roxo. Muito incrível. — Agora, meninas — diz ela —, vou mostrar a vocês uma seqüência de movimentos de um dos números de danças que vocês fariam, e vocês vão tentar acompanhar. Então, vamos convidar algumas de vocês, ou nenhuma, para voltar para a segunda rodada, que será em uma hora. O desfile vai ser daqui a menos de dois meses, então, não temos tempo para desperdiçar. O resto do elenco está trabalhando junto desde outubro. Quem quer que a gente escolha tem de ser melhor que bom. Tem de ser... Mágica? — ...surpreendente. Então, se vocês estiverem desperdiçando nosso tempo, melhor irem embora agora. Nós cinco ficamos congeladas em nossos lugares. London estala seus dedos e alguém começa a música. Eu consigo. Eu consigo. Estava dançando hoje de manhã, e consigo dançar agora também (bum, bum, bum). London se posiciona bem à minha frente. — Cinco, seis, sete, oito! Braço esquerdo para cima, braço direito para cima, movendo juntos, balançar bem no ritmo, curvar, chutar a bola para um lado, para o outro — Ela continua. E continua. Os movimentos ficam mais e mais complicados. Ela parece um mosquito preso numa pequena sala, ziguezagueando perfeitamente em sincronia com a música de parede a parede. Mas é para a gente se lembrar de tudo isso? Uma eternidade depois, ela pára, vira-se e nos dá um largo sorriso falso.


— É a vez de vocês. Olho de relance as demais competidoras. Parece que elas vão começar a chorar. — Certo, então. Vamos ver quem consegue acompanhar. — Ela se volta de costas para nós e canta — Cinco, seis, sete, oito! Braço esquerdo para cima, braço direito para cima, movendo juntos, balançar, no ritmo, curvar, chutar a bola para um lado, para o outro! Estou seguindo direitinho. Acompanhando cada movimento. As outras garotas não estão indo nada bem (Janice fica batendo os braços no ar), e todas estão colidindo uma nas outras como pára-choques de carros, mas eu estou ótima. Meus braços, pernas e bunda estão em sincronia e posso sentir a música. Não só eu estou acompanhando a London, como estou chutando mais alto, me agachando mais baixo e me balançando mais rápido. Estou pegando fogo. Pela primeira vez na vida, estou totalmente tomada pela música. Só o que eu sinto é a batida penetrar em mim e o movimento líquido do meu corpo. Quando a seqüência acaba, percebo que todos estão me olhando. Não somente London, Mercedes, Jewel e Raf, mas todo o elenco de calouros e todas as candidatas. Levanto os olhos para a Jewel. — Uau — murmura ela. London se agacha ao lado de Mercedes e cochicha. Então London se levanta e diz: — Rochelle, gostaríamos de ver você de novo na rodada das cinco horas. O resto de vocês pode ir. Rochelle? Sou eu. Isso! * Fico andando para cima e para baixo do corredor durante toda a hora seguinte. Wendy Wolcott, uma caloura com cabelos pretos e curtos, que


emolduram seu rosto, também está por ali. Estamos andando em direções opostas e nossos caminhos se cruzam em frente ao bebedouro do segundo andar. Não falamos uma com a outra, nem queremos nos aproximar muito de onde está acontecendo a competição. Às 4:55, volto para a cafeteria. Jewel se agarra em mim no segundo em que entro. Está com um imenso sorriso em seu rosto. — Desde quando você aprendeu a dançar assim? Sorrio de volta, principalmente porque é a primeira vez, em tempos, que ela se dispõe a falar comigo fora da aula de matemática. — Eu tenho praticado um pouco. — Não brinca. Você estava maravilhosa. Como uma superstar. Maravilhosa. — Obrigada. — Boa sorte — diz ela, me dando um tapinha nas costas. — Não que você precise de sorte. Num canto, Wendy está amarrando os cadarços do sapato. Annie entra. Eu aceno para ela. Fico me perguntando se ela tem de usar um sutiã com suporte extra, daqueles para praticar esportes, para dançar. Todos os garotos no desfile param o que estão fazendo e olham. Nós três enfileiradas. London pede ao elenco para se sentar. — Primeiro, queremos ver vocês dançarem num estilo livre. Segundo, andarem. Terceiro, interagirem com seu par para o número com traje formal. Andar? Eu tenho de andar? Eu não pedi a Miri um feitiço para andar. E se eu não sei andar direito? — Mercedes e eu tomamos todas as decisões sobre o elenco, mas deixamos os dançarinos calouros nos ajudarem já que são eles que vão dançar com vocês. Então primeiro, o estilo livre. Ela estala seus dedos e a música soa pela sala. (Como ela faz isto? A


sala está equipada com um sensor de som, que se ativa no estalo de dedos dela? Ela é uma bruxa também?) Eu começo a me remexer. Meus pés se movem, meus joelhos se movem, minha bunda se move, meus braços meu pescoço. Eu me sinto de borracha, e com vida, e não poderia me interromper nem mesmo querendo. Wendy e Annie dançam próximas a mim, mas não conseguem deixar de me espiar pelo canto dos olhos. Quando a música pára, todos aplaudem, olhando para mim. — Muito bom — diz London. — Agora, todas vocês, por favor, finjam que estão na passarela e caminhem na minha direção. — Ela recua e acena para nós, como se fosse um pai ensinando seus filhos a andarem de bicicleta. Calcanhar, ponta de pé, calcanhar, ponta de pé. Eu me lembro de ter lido isto numa revista de jovens. Espero que não vá precisar de rodinhas laterais para me segurar. — Muito bom. Agora, Rackelle e Anna, por favor sentem e vejam como Raf fica com a Wanda. Meu coração salta na minha boca. Raf! O que pode ter feito a Laura deixar o desfile, se o Raf era o seu par? Se fosse eu, nada nesse mundo ia me obrigar a isso. E daí se ela estava indo mal nas provas? E quem são Rackelle, Anna e Wanda? Oh, bem, somos nós. A London é popular demais para se lembrar de nossos nomes. Annie/Anna e eu nos sentamos. Tento conservar minhas costas eretas, como uma modelo, imaginando que tenho uma régua encostada nelas. Raf salta de cima da mesa e vai para junto de Wendy/Wanda. Ela é somente uns dois dedos mais baixa do que ele, e não quase um palmo inteiro, como eu. Meu coração fraqueja. Eles parecem adoráveis juntos. — Faça ela girar — instrui London. Ele dá uma girada nela. — Agora um mergulho — diz ela. Se ao menos eu pudesse franzir meus lábios ou torcer meu nariz e fazêla cair. Miri? Se você puder me ouvir, atire ela no chão como um par de meias sujas.


London cochicha alguma coisa com Mercedes, e Mercedes concorda. — Obrigada, Winnie. Foi excelente. Ruth, é você agora. Deve ser eu de novo. Fico em pé e tento caminhar de calcanhar-eponta-de-pé até o centro da sala. Calcanhar, ponta de pé, calcanhar, ponta de pé. Ou é ponta de pé, calcanhar? E o que então acontece? Eu tropeço. Dou um passo em falso e caio para a frente, apoiada nas minhas mãos. Todos engasgam. — Eu estou bem! — cantarolo, tentando manter minha voz clara e suave. Eu me forço a rir. — Nenhum problema. Devo ter tropeçado em alguma coisa. — Infelizmente percebo que tropecei em meus próprios cadarços desamarrados. Sapatos mágicos estúpidos. — Você está bem? — pergunta Raf, chegando ao meu lado. Nossos olhos se encontram. Sei que isso soa como algo saído dos romances da minha mãe, mas eu não consigo desviar os olhos. Os olhos dele parecem uma meianoite líquida e é como se eu estivesse mergulhando dentro deles. Ele me oferece sua mão e eu deixo ele me ajudar a levantar, seu toque é quente, como a lateral de uma chaleira assobiando. Aimeudeus. Eu estou tão apaixonada. Verdadeira é seriamente apaixonada desta vez. Quando recupero meu equilíbrio, ele me larga. Droga. Quem sabe eu deveria cair novamente? Ou não. Todos estão me olhando. Estão rezando justamente por isso — uma boba que vai tropeçar nos próprios pés durante o desfile. E talvez caia fora do palco mesmo. — Vamos ver um giro — pede London. Raf me dá a mão novamente e eu giro ao redor dele. Por favor, não me solte. — Agora um mergulho. Eu me deito para trás nos seus braços. Poderia ficar assim para sempre. Seus lábios estão somente a uns poucos centímetros de distância e ele cheira tão gostoso. Era só ele se curvar um pouco e me beijar. Ia sertão romântico... ou não. Meu primeiro beijo em frente a todo o elenco do desfile de moda?


— Obrigada, Randy. Só isso? Por que eu não consegui um excelente como Wendy? O desespero me tomou como uma onda num oceano. Não vou conseguir. Enquanto os garotos ficam boquiabertos com o equipamento de Annie, eu me pergunto por quantas semanas eu teria de pôr e limpar a mesa para Miri quebrar as pernas de Annie e Wendy. Brincadeira. Mais ou menos. Que coisa terrível para se fazer piada. Acho que foi por isso que a Miri recebeu poderes e eu não. Sou uma pessoa horrorosa. Devo ter um carma péssimo. Minha aura deve ser de um verde marrom nojento, só por tentar sabotar o casamento do meu pai. Annie não é uma má dançarina. Mas eu não acho que ela e Raf pareçam como um par feito um para o outro, nem nada parecido. Ela é alta demais. — Obrigada a todas por terem vindo — diz London depois que Annie acaba. — Os resultados serão anunciados na segunda-feira. Tentem não se atormentar no fim de semana. O quê? Na segunda? Eu tenho de esperar um fim de semana inteiro? Está vendo? Eu sabia que tinha um carma ruim.


11. PASSAR O PERÓXIDO DE BENZOÍLA

No trem para a casa do meu pai, Miri nem mesmo finge se importar com o teste. Só quer conversar sobre o feitiço contra FMM. — É só ele dar uma olhada nela e vai fugir correndo — diz ela, alegre. — E então, ela finalmente vai estar fora de nossas vidas. — Finalmente — repito. Mesmo que não possa imaginar muito bem como seria à vida com um pai solteiro — ele e a FMM começaram seis meses depois de ele estar separado da minha mãe. Aqueles seis meses sem ela foram muito melhores do que o tempo com ela. Nós éramos a prioridade. Ele morava na cidade num edifício chamado Putters Place. É um edifício popular para pais de Manhattan que deixam suas esposas. Nos domingos, eu via a metade das crianças da minha série com suas maletas no saguão. Talvez ele não se case. Talvez ele comece a sentir a nossa falta e volte para casa. O fundo dos meus olhos arde. Talvez eu devesse pensar em alguma coisa mais divertia. Como o desfile de moda. — Na segunda-feira vou saber se fui escolhida. Você acha que meu tropeção diminuiu minhas chances? — Hum-hum! — murmura Miri. É óbvio que ela não está prestando atenção, porque a resposta apropriada teria sido Não! É claro que não! Não seja estúpida! Ela tira seu novo caderno de feitiçaria da mochila (agora está fazendo lista dos feitiços tentados e anotando as suas observações num caderno de espiral azul-marinho que não perde de vista), e também um recipiente de vidro comprido e de boca larga cheio de catarro laranja-claro. — Temos de passar este creme na pele da FMM. — Como você conseguiu este recipiente de vidro? Parece que saiu da


aula de ciências. — Foi de lá mesmo. — Você o roubou do laboratório de ciências? E eu achando que você era uma bruxa boa, não uma bruxa má Ela cora. — Vou devolvê-lo na segunda-feira. — Claro que sim. — Balanço minha cabeça num exagero de desapontamento. — Foram só duas semanas e você já foi para o lado negro. Ela faz beicinho até que eu ponho para fora minha língua e a agito para cima e para baixo. Como de hábito, minha careta de idiota a faz rir. Ela cruza seus globos oculares como resposta. — Então, como vamos passar essa gororoba na pele da FMM? — pergunto. — Abraçando ela? — Eu faria isso, se não fosse parecer tão estranho. Ela ia desconfiar no ato de que alguma coisa estava errada. — Por que você não mistura no hidratante dela? Você sabe, aqueles tubos de duzentos dólares que ela encomenda da França, e esconde na prateleira de cima de seu banheiro? — Se eu misturar, ela vai ficar com brotoejas toda vez que usar o creme. — É isso o que vai acontecer? Então era mais fácil colocar hera venenosa no quarto dela. — Esta coisa é para deixar a FMM com o rosto mais feio entre os mais feios rostos do mundo. E acho que isso significa furúnculos ou mesmo icterícia. — Mas não vai fazer mal a ela, vai? Uma coisa é deixar a FMM temporariamente feia, mas eu me sentiria horrível se a gente causasse alguma dor física nela. (Estava só brincando sobre quebrar as pernas de Annie e Wendy. Mais ou menos.) — Não. E eu acrescentei raiz-forte, que faz qualquer feitiço virar


temporário. Então, deve durar somente alguns dias. Apenas o tempo suficiente para fazer papai sair dessa fascinação por ela e cancelar o casamento. — Miri olha para o recipiente de vidro. — Fique com os dedos cruzados. * Logo que saímos do trem, avistamos nosso pai. — Oi, papai — diz Miri, e joga seus braços em torno dele. Sinto uma coisa esquisita na minha garganta, como sempre acontece no primeiro momento em que o vejo. É uma droga mesmo ter pais divorciados. Sei que acham que eu devia ter um comportamento maduro em relação a isso (tenho sorte de ter dois pais que me adoram etc. etc...), mas, algumas vezes, não consigo evitar de ficar me lamentando. Não quero ser uma hipotenusa estendida entre dois pais divergentes. Não quero ver meu pai somente uma vez a cada duas semanas. Eu vejo meu professor de educação física mais vezes do que vejo meu pai. Isso é normal? Meu pai me abraça e minha garganta lentamente se descontrai. Ele pega nossas malas e nós o seguimos até carro, onde FMM e Prissy estão esperando. FMM acena para nós assim que nos avista. Prissy espreme seu rosto contra a janela de trás. FMM volta sua cabeça para nos ver quando entramos lá atrás, então nos dá um falso sorriso aberto. — Oi, meninas, como vão vocês? — Não há a menor chance de ela gostar destes fins de semanas. Por que gostaria? Quem morre de vontade de tomar conta de duas adolescentes? — Quero sentar no meio — Prissy diz, reclinando-se seu assento de criança. FMM olha para a frente de novo, admirando sua imagem no espelho do tapa-sol. — Como foram essas duas semanas para vocês? — Boas — respondo. Aposto que, amanhã, ela não vai estar se admirando tanto assim. E aposto também que tão logo meu pai se afaste um


pouco, ela não vai ser mais essa simpatia toda. — Ótimo — diz ela. — Muito bom. Como se ela se importasse como foram nossas semanas. Mas eu também sei jogar esse jogo: — Como foram essas duas semanas de vocês? — pergunto. Ela suspira. — Longas. Casamentos são muito difíceis de organizar, não são, querido? — Ela estica a mão e afaga o ponto calvo do meu pai. Se ela ficar mexendo, a calvice vai ficar maior ainda. — E nós teremos mais três casamentos para organizar, já que temos três filhas — acrescenta meu pai. É muito estranho que a Prissy viva com meu pai. Pelo menos, ela não chama ele de pai. Mas, será que é como ela vai chamar ele, depois do casamento? O pai dela mora em Los Angeles, então ela só o vê umas poucas vezes por ano. Por que será que ele e FMM se divorciaram? Seria legal se ele contasse o que aconteceu ao meu pai. Vou pedir a ele a lista das dez razões mais importantes, se a gente chegar a se conhecer. Meu pai estaciona em frente ao Happy Palace, o restaurante chinês da vizinhança, para pegar comida e levar para casa. — Querido, você pede uns pauzinhos para mim? — FMM, a exibida, pede, no que ele se ajeita para sair. E logo que ele sai do carro (certo, foi cinco minutos depois, mas ainda assim, ela é muito agressiva), FMM se vira para nós. — Miri, como estão seus dedos? Parou de roê-los? Miri se senta em suas mãos. — Vamos ter de botar os band-aids de novo? E eu não quero que você venha com atrevimentos, como da vez passada. Sua mãe pode permitir que você tenha um comportamento desses, mas isso não vai acontecer em minha casa. O rosto de Miri fica mais vermelho do que uma placa de pare. Eu torço


para ela transformar a FMM numa rã, mas nada acontece. Ela deve estar exercitando seu auto-controle. É uma das coisas que ensinam no tae kwon do. Ela seria o maior sucesso fazendo dieta. — E, Rachel, gostaria que você pudesse tentar manter seu quarto arrumado neste fim de semana. Eu não sou sua empregada. — Mamãe não gosta de bagunsha — acrescenta Prissy. FMM ri. — Não, não gosto. E tem vezes que seu quarto parece que foi ocupado por animais. Gostaria que Miri estivesse sentada junto de mim, para eu poder apertar sua mão. Bem forte. Meu pai volta com a comida. — Foi rápido, querido — comenta FMM, rindo docemente, todos os traços de maldades já sumidos de sua voz. Ele entrega a ela a comida e beija seu rosto. Como ele não enxerga nada por trás da sua revoltante fachada de bondade? — Galinha com limão, camarão a General Tso, carne a Szechuan e macarrão tostado com tofu para Miri — informa ele, enquanto sai com o carro para a rua. — Você pegou os pauzinhos para mim? — pergunta FMM. Ele bate sua mão na testa. — Opa! — Não faz mal. Fica para a próxima vez. Quando nós chegamos à nossa entrada de carros, ajudo meu pai com as malas. Miri se aproxima do seu alvo. — Você sujou sua bochecha. FMM limpa seu rosto com a parte de trás da luva. — Sujei? Onde? — Deixa que eu limpo — diz Miri e, antes que FMM possa reagir, Miri mergulha seu dedo enluvado no frasco atrás de suas costas e esfrega uma


gota da mistura na bochecha dela. — Obrigada — diz FMM. Miri sorri. — Oh, foi um prazer. Foi, mesmo! Gol. Eu me contenho em fazer o sinal de positivo para Miri e tiro minha mala do porta-malas. Arrá! Animais, hein? Ela vai ver só quem parece um animal. * Na manhã seguinte, em alguma hora absurda, somos acordadas por um grito de estourar os ouvidos. Miri e eu pulamos de nossa cama. Um segundo mais tarde, escutamos um outro grito, ainda mais pavoroso. — Acho que funcionou — murmuro. Abrimos nossa porta e colocamos nossas cabeças no corredor. FMM grita pela terceira vez. Bem devagar, vamos até o quarto do meu pai e batemos — Olá! — Eu chamo. Está tudo bem? — Então, cochicho no ouvido da minha irmã: — Seja sutil. Meu pai abre a porta, parecendo meio adormecido. — Garotas, alguma de vocês tem creme para espinha? Jennifer acordou com um probleminha no rosto. Eu acho que o peróxido de benzoíla não vai fazer milagre dessa vez, pai. — A gente pode ver? — pergunta minha não-sutil-irmã. — O que Miri quer dizer — emendo, dando uma cotovelada na barriga dela — é que como adolescentes freqüentemente somos afligidas por várias condições de pele lamentáveis. Então talvez a gente possa ajudar. Ou no mínimo mostrar solidariedade.


Isso parece ter lógica para meu pai. Então, ele concorda com a cabeça e chama: — Jennifer, venha mostrar para as garotas. — Eu não sou um monstro de circo — grita ela de seu banheiro particular. -Devo ter tido uma reação alérgica. General Tso, nunca mais, isso eu juro. — Talvez as garotas possam ajudar — diz meu pai. A porta do banheiro se abre devagar. Vejo um braço e então... um rosto coberto de uns aglomerados das boas e velhas espinhas. O que é isto? Onde estão os furúnculos? A brotoeja? Espinhas é o pior que uma bruxa pode provocar no rosto de outra pessoa? Ora, mas é raro o dia que passa e que eu não tenho uma espinha nova. Vou começar a me sentir insultada. — Alguma sugestão, garotas? — pergunta FMM. — Não — respondemos numa só voz. Tenho de fazer força para não rir. — Tenho certeza de que vão sumir logo. — Exatamente — diz meu pai. Ele puxa sua preciosa noiva para um abraço. — Sabe que são até bonitinhas? Fazem-me imaginar como você era na adolescência. FMM ri e afaga a área calva dele. Faço força para não vomitar. Miri e eu escapamos antes que eles se agarrem na nossa frente e fugimos para o nosso quarto. — Acne? — Murmuro zangada. — Não podia fazer nada melhor? Ela estremece. — Eu odeio espinhas. Aos doze anos, ela ainda não tinha tido uma experiência pessoal com espinhas, e no entanto já as vê como a pior desgraça do mundo.


— Bem, não é isso que vai fazer nosso pai se desapaixonar por ela! Ele não deixou de me amar quando eu tive aquelas espinhas grandes no meu nariz, no Natal passado, não foi? Ela estremece de novo. Aquelas espinhas (que eu chamo de Presente de Papai Noel — e a gente brinca que eu devo ter me comportado muito mal no ano passado) tinham apavorado tanto a Miri que ela começava a gaguejar toda vez que as via. Não sei como ela vai agüentar o segundo grau. — Talvez, se ele não ficasse tão fascinado pela beleza dela — lembra Miri —, conseguisse enxergar quem ela é de verdade. Eu não estou convencida. — Ei, você descobriu afinal o que era Taraxacum officinale era? — É claro. Está no feitiço. É um nome engraçado para dente-de-leão. — Estou indo para a farmácia — diz meu pai do outro lado da porta fechada. — Tenho de comprar algum remédio para espinha e vitamina A. Vai ser bom para a pele de Jennifer. Eu subo de volta na minha cama. O que ainda seria melhor para a pele dela é arrumar as malas e ir embora daqui. Será que a gente consegue fazer ela engolir isso numa pílula? Poucas horas depois, num horário normal para se acordar, passo por meu pai na escada. Meu estômago está rugindo de fome e meu pai está pronto para ir para o escritório. Não posso acreditar que ele vai trabalhar de novo no fim de semana. O que significa que Miri e eu vamos passar o dia com a Rainha das Espinhas. E então eu percebo. Uma espinha vermelha detestável, do tamanho de um punho fechado, em seu queixo. Faço-o parar no meio de um degrau. — Pai, você está com espinhas também. Nunca tinha visto meu pai com espinhas. Aliás, pais não são para ter espinhas. Assim como não devem chorar nem mostrar sinais de fraqueza. Nem deixar as filhas sozinhas com uma FMM malvada.


— É mesmo? — Ele toca seu queixo. — Estava me perguntando que coisa saltada era esta. Eu corro de volta para nosso quarto e fecho a porta. Miri está lendo o livro de feitiço protegido por um livro de ciências. — Está aparecendo nele também — cochicho ofegante. — O quê? — Papai está com uma espinha no queixo. Será que é coincidência? Ela me encara. E continua a me encarar. Então com uma mão trêmula, ela aponta para o meu nariz. — Está vvv... voltando. — gagueja. Não. Não, não, não. De jeito nenhum. — Não diga uma coisa dessas. Ela deixa cair seu livro e cobre seu rosto com suas mãos. — Eu ferrei com tudo. Não pode ser. Não agora! O Presente de Papai Noel durou duas semanas! Nem Raf, nem Mick vão me convidar para o Baile da Primavera se eu tiver uma bola enorme em meu nariz! Nunca! Empurro Miri da minha frente e vou me olhar no espelho mais próximo. — Não! — grito horrorizada. Voltou mesmo. Maior e pior do que antes. E eu achando que recaídas sempre eram menores do que as originais. E o que é que tem na minha testa? — Como é que pode acontecer uma coisa dessas? Eu gritei, rodopiando em torno de Miri. — Você colocou o feitiço em mim? Miri roía seu polegar. — Sei lá. Talvez essa coisa possa se espalhar. Talvez papai tenha tocado na FMM com a poção, que então passou para ele, e depois para você, quando ele beijou você para dar boa-noite. A mão dela voa para o queixo. — E se eu pegar também? Ela começa a rabiscar no seu caderno de observações feiticeiras.


Eu vou chorar. E se o feitiço se espalhar? Pelas minhas mãos, meu pescoço, minha barriga? Quem sabe do que esse feitiço é capaz? Meu corpo inteiro poderia se tornar uma enorme espinha inflamada. Agarro os ombros dela. — Você precisa consertar isso. E já. Seus olhos se encheram de lágrimas. — Mas, consertar como? — Bole um jeito! — Saio correndo do quarto e bato na porta do meu pai. Estou esperando encontrar ele e a FMM absolutamente histéricos, mas, em vez disso, estão deitados na cama, abraçados e, pior, rindo. — Eu também estou com espinhas — digo, o que por alguma razão inexplicável apenas fez eles rirem mais ainda. — Deixa eu ver — diz meu pai. Fico na frente deles e aponto para meu nariz. O rosto de FMM tinha piorado. A testa dela está coberta de pus. A acne do meu pai tinha se espalhado para a parte da cabeça onde ele estava calvo. — O creme de espinha está na caixa de remédios — oferece meu pai. Como se essa coisa fosse funcionar. — Não devíamos chamar o Harry? — sugere FMM. Harry é o amigo do meu pai que é médico. — Pode ser herpes zóster ou catapora. Ou sarampo. — Acho que essas doenças pegam no corpo todo e não apenas no rosto — observa meu pai. — Mas, pode ser bom chamá-lo. FMM aponta para sua testa empolada e dá uma gargalhada. De tanto dar gargalhadas, começam a rolar pela cama. Por que ele não está com nojo dela? Por que não percebe que pessoa horrorosa ela é? Aparentemente, assim como espinhas, o riso é contagioso. Eu saio antes que pegue isso, também, e corro de volta para o nosso quarto. Precisamos de algum tratamento. Rápido. Abro a porta e encontro Miri em meio a um pequeno ataque de pânico. Uma espinha tinha aparecido sobre a sobrancelha esquerda dela. Pego um


saco de papel da cozinha e digo a ela para respirar dentro para não desmaiar. Então, começo a ler o livro. Concentrando-me no fato óbvio de que sobrou para mim fazer isso. — Arrá! — exclamo, uma hora mais tarde, quando as bochechas de Miri ganham cor novamente. — Há duas soluções possíveis. A inversão do feitiço ou um novo feitiço para limpar a pele. — Inversão do feitiço — diz ela, dando uma volta por todo a extensão do quarto. — Não precisa colocar nada desconhecido na mistura. Senão, no mínimo a gente vai acabar transparente. — Ela tropeça nas calças que eu usei ontem e me dá um olhar murcho. Então, pendura minhas calças. — O único problema com a inversão do feitiço é que é de cinco vassouras. Se você não pode fazer um feitiço fácil, como vai se virar com um desses? O rosto dela brilha. — Posso chamar mamãe. — Ficou doida? Ela ficaria uma fera! — Ficaria furiosa com o nosso plano de deixar a FMM feia, e iria querer saber que outros feitiços Miri havia feito. Eu perderia meu ritmo, com certeza. — Deixe mamãe fora disso. — Então, vou fazer o feitiço de limpar a pele. — Ela deita na sua cama e coloca seus pés contra a parede. — Me dá aqui esse livro. Eu passo o livro, deito ao lado dela e atravesso meu grandes pés sobre seus pés minúsculos. Ela suspira. — Não conheço estes ingredientes. Precisamos de uma colher de chá do sal do mar, dois quartos de uma xícara de suco de limão e cinco quinzeavos de uma xícara de leite. O que é isso? — A terça parte de uma xícara — digo, delicadamente. Miri bate sua mão no livro em exasperação. — Por que esses feiticeiros antigos não podem dizer as coisas de um jeito mais fácil?


— Talvez tenham ferrado o texto na tradução. — Ou talvez seja o plano mestre do livro conseguir que eu ajude minha irmã. — Mas onde vamos encontrar sal do mar? Você acha que o papai nos levaria até à praia? IDÉIA! — Lembra que antes de as aulas começarem eu estava usando uma máscara de lama da FMM e fiquei uma fera porque tirou fora meu bronzeado? Miri diz que sim com a cabeça. — Aquela era uma máscara de lama do mar Morto. FMM tem toda uma coleção de produtos de beleza do mar Morto, incluindo sal. Estão no fundo do armário do banheiro ao lado do Vi.... Acho que não há nenhuma razão para contar a Miri sobre o Viagra do papai. Já fiquei maluca o bastante com isso por nós duas. — ...Atrás das vitaminas do papai. Eu pego o sal. E tem uns limões na tigela de cerâmica branca na cozinha. Miri balança a cabeça e começa a morder a pele do polegar. — Rachel, aqueles limões são falsos. Você não percebeu que já estão aqui há um ano? E que eles não têm cheiro? — Por que alguém coloca limões falsos num armário com porta de vidro? — Por que tem gavetas na cozinha que não abrem? Vai lá saber? Eles têm limonada na geladeira. Acho que isso vai servir. E eles devem ter leite em casa. A pele do polegar dela está sangrando. — Têm, sim, mas, já que a FMM tem intolerância à lactose, é tudo leite falso também. Você acha que faz diferença? — Dou um suspiro e franzo a testa. — Por favor, pare de mutilar seus dedos. Isso está me enervando. Ela olha para a mão.


— Eu nem percebi que estava fazendo isso. Atiro um lenço de papel para ela. — Você tem sorte da FMM estar preocupada demais para obrigar você a usar o band-aid. Certo, vamos colocar a Operação Pele Limpa em ação. A campainha toca e nós nos reunimos à família lá embaixo. — Não é sarampo e nem herpes-zóster — diz Harry, examinando nossos rostos. — Parece acne. Mas eu não tenho a menor idéia de como vocês conseguiram pegar isso. FMM tira a mão de Prissy do rosto, que agora também está coberta de espinhas. — Pare de coçar, querida. Você pode piorar essa coisa. Prissy parece a mais ridícula de todos, com a acne, mas acho que ela não está se importando nem um pouco. — São engraçadas — diz, cutucando suas espinhas. — Posso brincar de ligar os pontos com elas. Na escola, tem vezes que a gente brinca de ligar os pontos... Eu dessintonizo dela e vejo Harry escrever uma receita de um novo remédio chamado Xonerate. — Isto deve aliviar os sintomas até o meio da semana. Até o meio da semana? Este problema tem que virar passado amanhã. Não posso ir à escola assim. Trinta e cinco minutos mais tarde, enquanto meu pai e FMM vão a farmácia para comprar o remédio (FMM está usando um boné de beisebol e uns óculos grandes, como disfarce — não posso acreditar que ela tenha aceitado ir com meu pai, mas o mais provável é que não esteja querendo ficar nem um momento a mais do que o necessário comigo e com minha irmã), Miri limpa o recipiente de vidro com água fervente, como o livro de feitiços recomenda. Então, no banheiro — Miri junto à pia, eu na beira da banheira — ela mistura a limonada com leite sem lactose e sal do mar Morto.


Prissy bate na porta. — Posso entrar? — Estamos ocupadas! — Miri grita. — Volte mais tarde. Tem vezes que ela fala com Prissy do jeito que eu falo com ela. Ou do jeito que Jewel fala comigo, como se eu fosse uma pirralha. Fico me perguntando o que a Jewel fez hoje. Liguei para ela ontem, mas desliguei quando atendeu a secretária, e liguei para a Tammy então. — Por que não agora? — Prissy reclama. Porque você vai contar a sua mãe que estamos jogando feitiços diabólicos nela e aí ela vai nos mandar para um psiquiatra. — Vamos sair em um segundo — digo eu, me voltando para a porta. — Só espero que ela não ponha fogo na casa enquanto estamos aqui — falo para Miri. Ninguém toma conta de criança pior do que nós. — Pronto — disse Miri. — Agora fique quieta. Pele tão macia. De seda, puro enfeite, Rosto de anjo Tão branco como leite. Sinto um calafrio e então acho graça. — Honestamente, eu era capaz de escrever melhor essa droga. E se a bruxa for negra? Ou latina? Se o feitiço está atualizado para o século XXI, não deveria ser politicamente correto? Ela sacode a poção e então passa um pouco no rosto. — Funcionou? — Bem, depois de um segundo e meio... ainda não! — digo, aplicando-o em mim. Ela se olha no espelho. — Eu preciso que funcione agora.


— Bem, sem dúvida você não parece a mais linda garota do mundo — digo para ela. Prissy começa a chutar a porta. — Deixa eu entrar! Por favor! Destranco a porta e Prissy invade o banheiro. Minha nossa! Ela levou o conceito de juntar os pontos a um nível inteiramente novo, desenhando linhas pretas por todo o rosto. — O que você fez? — perguntei, sem conseguir acreditar. — Usei a maquiagem de mamãe. — Vou tirar isto fora. E depressa! Bem devagar e com cuidado, lavei o rosto dela com uma esponja, tentando não ter ânsias de vômito. Então, passei o remédio nela. Tocar nas espinhas de outra pessoa não é nada agradável. Acho que está no mesmo nível de trocar fralda de bebê ou limpar o vômito de alguém. — Obrigada — diz ela, muito meiguinha, e pisca seus grandes olhos azul-esverdeados para mim. Ela tem os mesmos olhos bonitos de FMM. Meu nojo se derrete. Ela não é tão má. É até boazinha, na verdade. Espero que ela não tenha o gene malvado da mãe. Lavo bem o pedaço de pano e, quando olho para ela de povo, seu dedinho já está enfiado no nariz. Não consigo evitar de rir. Ela ri também e limpa sua mão no meu punho. Rio mais ainda. — Acho que é melhor a gente pôr a mistura no creme Xonerate — sugere Miri, se arrumando. — Não estou nem aí se a FMM ficar parecendo uma almofada de alfinetes, mas o papai não pode sofrer por causa dela. Quando meu pai e FMM voltam, Miri afirma que precisa usar o remédio primeiro, agarra-o e vai para o banheiro para fazer a substituição das misturas. Domingo de manhã, todos os cinco rostos aparecem limpos.


— Eu definitivamente vou investir em Xonerate — meu pai declara no café da manhã. — É um remédio milagroso. E tenho certeza de que a vitamina A também não faz mal nenhum. — Sabe? — digo para Miri no trem indo para casa. — A gente podia ficar rica se vendesse essa sua poção de limpar a pele no colégio. — Nem pensar. E a gente precisa ver o que vai fazer agora. — Mas, sobre a poção, por que não? Tente enxergar o contexto maior. A gente poderia ficar milionária. Eu seria uma grande mulher de negócios. Para mim, é fácil me imaginar andando pela Quinta Avenida, gritando no meu celular, meus saltos-altos fazendo clique-claque sobre a calçada, cabelos voando ao vento enquanto subo no meu helicóptero particular na cobertura do meu escritório. Miri dá um tapa na minha cabeça. — Quer parar de sonhar acordada e se concentrar? — Mas qual é o problema? — É como vamos conseguir que nosso pai cancele o casamento. Nosso primeiro plano saiu pela culatra. E o papai nem sequer se importou com o jeito como ela ficou. Eu ri. — Ela ficou horrorosa! Miri mordisca o seu polegar e eu bato na sua mão, afastando-a da boca. — Eu sei — diz ela. — Mas ele na verdade parecia que a amava mais ainda. Como pode? — Bem, ele não estava na melhor das aparências também. — Paro um momento para pensar. — Não basta fazê-la ficar feia. A gente tem de ajudá-lo a ver a verdaira personalidade dela, o quanto ela é horrorosa por dentro Ela é tão delicada na frente dele, mas logo que ele sai de perto, ela se transforma. Miri concorda.


— Mas, o que a gente deve fazer? Gravar uma cena com ela, escondido, numa videocâmera, e depois mostrar para o papai? — Ora, peraí. Você é uma bruxa. Tem que inventar alguma coisa melhor. Senão, é melhor começar a se ver como dama de honra. E no vestido. Podre, bufante e rosa.


12. LOUCO, ÓTIMO OU APENAS UM BOM PLANO

Não posso olhar. Tenho de olhar. Não posso. Estou na homeroom, sentada em frente ao quadro de avisos de eventos. Pedi licença para sair assim que vi a London passando pela porta. Eu sabia que ela estava pregando o cartaz com os resultados. Pedi para ir ao banheiro e então disparei para o quadro de avisos que segurava meu futuro preso por percevejos. Estou com muito medo de abrir meus olhos. Se eu tivesse sido aceita, a Jewel não ia me ligar para me dar a notícia? Então, não entrei. Ou talvez ela não tivesse permissão para me contar. Talvez a London a tenha ameaçado. Quem sabe, disse a ela que a poria para fora do desfile se saísse falando quem era a escolhida para o desfile de moda. Talvez eu não tenha entrado! Meus pés começam a tamborilar numa batida de salsa imaginária. Eu me vejo como a estrela do Dirty Dancing III: Manhattan Nights. Ou talvez não. Talvez tenham escolhido a Wendy. Talvez Jewel tenha votado contra mim. Talvez, não é que ela esteja ocupada demais para mim, ela simplesmente não goste mais de mim. Não posso olhar. Tenho de olhar. Vou abrir apenas um olho, então, se eu não tiver entrado, evito que ambas minhas pupilas fiquem machucadas. Primeiro vejo as palavras dançarina substituta para o desfile de moda de calouro. E então eu vejo... Rachel Weinstein. Abro ambos os olhos para ter certeza que é o meu nome que está escrito, então começo a pular. Abracadavilhoso! Estou a ponto de dar saltinhos,


como astronautas na lua, e atravessar o corredor assim, quando vejo o sádico do Sr. Earl. Então, volto correndo para a sala antes que ele tenha a chance de me dar outro castigo. Não que ficar depois da aula seja tão ruim assim. Castigo + bisbilhotagem = desfile de moda. Eu já falei que eu adoro matemática? * Na hora que fomos para os nossos armários, a escola inteira já sabia. No caminho para a minha aula seguinte, Doree vem me dar um abraço: — Meus parabéns! — Ela guincha. — Que ótimo ter alguém na turma para conversar sobre o desfile! Muito bom mesmo! — Parabéns, Rachel — disse William Kosravi. O presidente do colégio acabou de falar comigo. Comigo. Ele sabe quem eu sou. Agora, posso chamá-lo só de Will também! De repente, todo mundo sabe quem eu sou. Pessoas que eu nunca tinha visto estão me dando parabéns. Isto é muito mais eficiente do que um torneio de matemática. Ou até de boliche. — Je suis très excitée de te voirdanser! — declara Madame Diamon quando passo no vão do corredor. — Enchantée — murmuro, passando diante dela e me afastando depressa. Tammy não consegue parar de sorrir. — Estou muito contente por você. — Ela faz o movimento do polegar para cima. — Quer comemorar depois das aulas? Podemos ir para uma pizzaria. — Ah, ótimo — digo. Nós viramos no vão da escada do segundo andar e, antes que perceba,


eu estou sendo sufocada por braços. — Parabéns! — gritam London e Mercedes. Duas das garotas mais populares da escola estão me abraçando. Inacreditável. — Os ensaios começam hoje, depois do colégio — avisa London, ignorando Tammy. Hoje ela está de azul-marinho. Jeans, suéter, boné dos Yankees, botas e rimel. — Pode se preparar para se matar de tanto trabalhar. Você tem um bocado de coisa para pegar, se quer ficar no nível dos outros. Estamos contando que você venha ensaiar, no próximo mês, todos os dias depois das aulas, menos às quartas-feiras. E estão pensando que eu vou achar isso ruim? Nem consigo imaginar uma maneira melhor de passar minhas tardes do que com Jewel e Raf. — O que a gente vai ensaiar hoje? — pergunto, tentando não parecer ansiosa. London tira sua prancheta. — Jewel se ofereceu para lhe ensinar a abertura durante o almoço. É extremamente importante que você saiba o que você está fazendo, porque são as garotas calouras que iniciam a dança, e isso dá o tom do show inteiro. Todos os ensaios do almoço são na sala de teatro. Ela se ofereceu para me ensinar? Mas é tão gentil. Que grande amiga. Está vendo? Ela ainda gosta de mim! — Depois das aulas, o elenco vai se encontrar na cafeteria para rever o primeiro número — continua London. — É um pot-pourri de músicas de Chicago. Eu sabia que havia uma boa razão para eu ter comprado para mamãe o DVD no aniversário dela. Além do aniversário dela, quero dizer. — E amanhã, depois da escola, é o ensaio dos calouros e secundanistas do Moulin Rouge. Raf Kosravi é seu pai. Eu sei! Ip-Ip-Hurra! Abradazam! Ele vai se apaixonar por mim e me convidar para o Baile da Primavera!


— E as garotas estarão vestindo Izzy Simpson. Sim! Sim! Sim! — Puxa, que ótimo — exclamo, me encolhendo toda. — A quarta-feira é nosso dia de folga. Mercedes e eu temos Pilates. Quinta é o ensaio de dança de todas as garotas calouras e segundanistas. É o "Miami" de Will Smith, eu estou coreografando e vai ficar ótima. Você vai vestir Juicy. Na sexta-feira, Mercedes vai trabalhar com todos no encerramento, que é com o elenco inteiro também. É uma versão de dança de "New York, New York", de Frank Sinistra. Todas usarão roupas Theory pretas. — Ela bate na prancheta debaixo do braço. — Bem, acho que é nesses números que você está. Puxa, quanta coisa! Vai ser dureza! Não que eu esteja me queixando. A London parece levar este desfile muito a sério. — Ah, espere! Tem também o número Vegas, dos calouros homens. A Melissa montou um tema de striptease que ficou fantástico, mas a administração ficou sabendo e disse que era inapropriado. Mas, você não vai perder nada porque ela vai refazer o número. Até mais tarde – conclui ela, sem a menor cerimônia, e então as duas escapolem. Por que Melissa está coreografando? E acho que não escutei a marca da roupa que vamos estar usando, mas e daí? Eu vestiria alguma coisa feita até pela Judy, se precisasse. Bem, talvez. — Uau — exclama Tammy. — Acho que nós não vamos à pizzaria depois das aulas hoje. — Acho que não vai dar — digo, prometendo que a gente vai dar essa saída assim que o show acabe. Tammy e eu começamos a andar. — Mas que maravilha, essa coisa das confeccionistas deixarem você ser o modelo das roupas delas! — comenta ela. — Muito maravilhoso mesmo — digo. — Acho que fazem isso para conseguir publicidade. E tem um boato de que vamos ter nossos cabelos e


maquiagem feitos de graça no dia do desfile — acrescento, meio culpada. — Sortuda — murmura ela. Certo, três quartos culpada. Quando chegamos à aula de matemática, Jewel acena do fundo. — Vejo você mais tarde — digo para Tammy. — Olá — diz Jewel. — Estou tão contente por você! Eu não consigo parar de rir. — Estava morrendo para falar com você no fim de semana. Morrendo. Mas a London me disse que eu tinha de guardar o segredo sob sete chaves. — Ela fez o movimento de fechar o zíper sobre a boca. Ela devia estar fazendo um movimento de trancar-fechadura, mas eu é que não vou corrigir minha amiga, agora. — Está emocionada? — Emocionada — repeti. — Então, até que horas vão os ensaios? — Ah, terminam cedo. E então nós vamos comer. Será possível que eu vou ser aceita no reservadíssimo encontro depois do colégio? O sinal toca, significando o início da aula. A Srta. Hayward bate a porta e começa a arrumar os livros. — Mas, você tem de me contar — diz Jewel, curvando-se sobre a sua mesa em minha direção. — Quando você aprendeu a dançar daquele jeito? — Acho que peguei o jeito de repente... — Ou será que foi tomando banho? Tanto faz. — Mas como? Eu só fiquei falando em você! Ninguém conseguia falar de outra coisa na casa do Mick. — Na casa de Mick? — Mick não está no desfile. Definitivamente ele não estava nos testes. — Na festa dele, na sexta-feira. Honestamente, todos estavam de boca aberta. Mercedes disse que estava satisfeita que Laura Jenkins tivesse saído, porque você é dez vezes melhor do que ela. Ela não consegue entender por que você não se candidatou aos testes em outubro. — Jewel balança seus cachos. — Nem eu.


A Srta. Hayward da uma pancada com sua regra contra a mesa. — Rachel, você acha que você e Juliana poderiam parar de falar só um pouco, para eu conseguir dar aula? Abro meu livro, o sorriso ainda no meu rosto. Nem mesmo a Hayward vai estragar este dia perfeito. * — Levei duas semanas para aprender esse giro de pé do final, e você conseguiu em dois segundos — comenta Jewel, no ensaio do desfile de moda. Estou no ensaio do desfile de moda! Raf, Jewel e London e trinta outros membros da lista-A estão aqui também e eu não estou sonhando. Pelo menos, acho que não. Eu queria me dar um beliscão para ter certeza, mas ia parecer muito esquisito. O elenco inteiro está na cafeteria e nós acabamos de repassar o número da abertura que Jewel me ensinou no almoço. — Obrigada — digo, com toda a seriedade do mundo. — É verdade — diz Stephanie Collins, Stephy para os mais chegados. Ela está em pé junto de mim e deve ser a única garota no colégio que é menor do que eu. Ela não tem nem 1,50 metro e tem cabelos louros macios, que usa repartidos em dois pequenos rabos-de-cavalo. Seu nariz, olhos e lábios são tão pequenos que parecem miniaturas. — Eu não quero ficar do seu lado. Você vai me fazer parecer péssima. Quem disse que garotas maneiras eram malvadas é louco. Eu não recebi outra coisa a não ser cumprimentos desde que cheguei aqui. — Vocês duas vão ao Snack Shoppe depois do ensaio? — Stephy nos pergunta. Jewel me manda uma piscadela. — É onde todo mundo está? Stephy checa de novo a mensagem do texto em seu celular rosa. — Hum-hum — confirma. — Rachel, você quer ir? — Jewel pergunta.


— Claro! — Se eu estou sonhando, nunca vou querer acordar. Estou me sentindo como Cinderela. E Raf é meu príncipe. É melhor que meu feitiço não acabe à meia-noite. Sigo Jewel e Melissa a um reservado nos fundos do Snack Shoppe. O reservado onde Sean Washington e Mick estão sentados. Sim, Mick. Tinha esquecido o Mick, desde que estou fazendo par com o Raf, mas ele ainda é muito gostoso e pode ser um ótimo candidato a namorado. Eu me sento na frente dele e tento não ficar olhando feito boba. Ele parece como se estivesse num catálogo Abercrombie & Pitch, mas com mais roupas. Sean é outro garoto super-gostoso. Ele tem uma pele morena, usa os cabelos cortados rente e tem o sorriso mais branco e brilhante que já vi. Ele está no desfile de modas, também, e dançando com a Jewel no número de roupas formais. — Olá, senhoritas dançarinas — diz Mick e põe uma batata na boca. — Olá — dizem Jewel e Stephy. Minha boca está seca demais para eu conseguir falar. Como se alguém conectasse a traseira de um aspirador de pó à minha língua. Jewel pede um chá gelado para o garçom. Então Melissa pede um chá gelado. Então eu peço um chá gelado. Como se eu precisasse de mais cafeína. O que queria tomar era água. E já! Minha boca é um deserto e estou com medo de que ela rache, se eu tentar abri-la. — O que você anda fazendo? — Jewel pergunta a Mick. — Só matando tempo. Festa doida aquela da sexta, hein? — Totalmente selvagem! — concorda Melissa. — Este fim de semana vai ter uma ainda mais doida — diz Mick. — Nat está na cidade. — Grande! — exclama Jewel. Não tenho nem idéia de quem é Nat (garota? garoto? gato?), mas concordo como se soubesse. — Rachel, você vai aparecer na festa neste fim de semana? Então,


mostre pra gente esses movimentos de que todo mundo está falando. Ele está falando comigo. Ele sabe meu nome. Ele me convidou para sua festa. Ele está falando comigo. Ele sabe meu nome. Ele me convidou para sua festa. Ele está falando comigo. Ele sabe meu nome. Ele me convidou para sua festa. Aimeudeus. — Alô? Rachel? — insiste ele. Mas que ótimo. Quatro segundos de papo e eu já ferrei tudo. Hora de ir embora. — Ela não fala — comenta Melissa. — Só dança. Bem, isso foi uma grossura. — Legal! — digo. E legal ainda é uma palavra legal para se dizer? Dizêla rouba alguma coisa de sua essência legal? Acho que devia ter usado doida, como ele? Ou chocante? Ou algo mais simples, um confiável bom? Mick sorri e mastiga outra batata frita. Ele tem uma espinhas lindas nos lábios. Elas me lembrara uvas suculentas e maduras. Talvez ele me deixasse me tornar sua fã e dar a ele comidinhas na boca? Só um pouco? O garçom traz a nossa bebida e eu tomo um grande gole. Eu preciso muito me acalmar. Ou preciso é ficar mais doida? Sinto um forte aperto em meus ombros e rodopio. Aimeudeus. É o Raf. Tocando em mim, me apertando. Mick está na minha frente, falando comigo com as suas lindas espinhas nos lábios, enquanto Raf, com suas mãos elétricas e olhos escuros de um azul profundo, está me tocando. Eu já disse que este é o melhor dia que já tive na vida?


É o melhor dia que eu já tive na vida — Olá, meu par — exclama ele. — Oi — eu guincho. Ele puxa uma cadeira da mesa perto de nós e se junta ao nosso grupo. — Pronta para amanhã? Como se isso fosse possível! — Prontíssima. Espero conseguir acompanhar vocês. — Não se preocupe, você estará bem. Que tal a gente se encontrar depois do almoço e ensaiar alguns movimentos? — Ótimo! — Aceito um pouco rapidamente demais. Mas, e daí? Eu tenho um encontro para o almoço. Um encontro no almoço! Sim! Por que não? Dançar junto não é como fazer carinho de pé um no outro? — Onde a gente pode se encontrar? Vou arrumar a música com a Mercedes. — No seu armário? — pergunto. — Certo. É... — Perto da sala do Sr. Silver... — Eu disse isso? E que razão eu teria para saber onde é o armário dele, a não ser que fosse uma maluca que o estivesse vigiando escondida? — Quer dizer, acho que é lá, não é?... — acrescento. Todos olhando espantados para mim. Mick está olhando espantando. Sean está olhando espantado. Melissa está olhando espantada. Jewel está olhando espantada. — Isso! — diz Raf. — É no mesmo corredor do seu, mais embaixo. Como é que é? Ele sabe onde meu armário fica? Como ele sabe onde meu armário fica? Ele nunca falou comigo. É possível que ele seja um maluco que está me vigiando escondido? Puxa, isso seria legal, não seria! Que máximo! Que loucura! Chocante! Bom! Raf empurra sua cadeira de volta no lugar. — Vejo você amanhã, Rachel.— E então ele salta para a mesa no fundo


onde alguns jogadores de futebol seniores estão sentados. Ele é tão incrível. Ele fica à vontade conversando com todo mundo. Eu engulo à força meu chá gelado. Minha preocupação é encher o meu corpo com líquido, para fazer peso, porque caso contrário posso sair voando. Eu já disse que este é o melhor dia que eu já tive? * Eu estou nos braços de Raf. Não, de verdade. E não estou sonhando. (Desta vez eu me belisco para ter certeza.) Estou totalmente acordada, na escola, e em seus braços. É hora do almoço, na terça-feira, e Raf e eu estamos na sala de teatro, ensaiando para o número com roupas formais. Basicamente a dança será assim: dez garotos vão para a passarela, dez garotas os seguem, então nós ficamos em frente aos pares. Eles nos rodopiam, nos fazem mergulhar, nós fazemos alguns movimentos sexy, voltamos para a passarela do palco e então cada casal percorre a passarela para trinta segundos de um dueto romântico. Mais tarde, nós voltamos ao palco para outro minuto de dança. O show vai acontecer no auditório do colégio, na mesma passarela que eles montam todos os anos. Infelizmente, não vamos poder ensaiar no auditório, a não ser durante a semana antes do desfile. A turma de teatro tem prioridade. É muito injusto. Eles têm uma sala de teatro para ensaiar. Eles reclamam que não é espaço suficiente para eles. Deve ser alguma brincadeira, porque estar numa peça do colégio não é, nem de perto e em lugar nenhum do mundo, tão legal quanto estar no desfile de moda, mas os professores acham que representar é mais educativo, então, o que se há de fazer? No momento, estamos ensaiando nosso dueto — basicamente Raf finge beijar meu braço estendido. Ah, sim, a gente está fingindo que está ficando. Não posso acreditar que os atores conseguem fingir que ficam todo santo dia. Acho que eu deveria me tornar uma atriz. Não na escola, é óbvio (não é legal), mas, mais tarde na vida. Talvez eu pudesse pedir a Mercedes para coreografar um beijo de verdade no nosso número. Tem por aí uma caixa de sugestões? — É o fim do nosso dueto — explica Raf. — Daí, a gente volta para o T


da passarela e é a vez da Melissa e do Gavin. — Acho que peguei a coisa — digo quando ele me rodopia numa pirueta. Gavin está na minha turma de inglês. Suas roupas são sempre pretas. Ele passa a aula fazendo desenhos nas margens dos romances que estamos estudando e sempre foi legal/incrível/fantástico/bom demais para que eu pudesse me aproximar dele. Até agora! Raf me rodopia uma vez mais e então terminamos. — Está se sentindo à vontade com os movimentos ou quer tentar de novo para ter certeza? Hummm. Pergunta difícil. — Eu acho que não faz mal ensaiar uma vez mais. * Durante o ensaio depois das aulas, Raf cochicha: — Você vai na casa do Mick neste fim de semana? Eu fungo antes de responder. Ele cheira tão delicioso. Como sabonete e garoto. Huuum! — Vou. E você? — Por favor, diga que você vai, por favor diga que você vai! — Vou. Mick dá festas muito boas. Estamos caminhando na falsa passarela (Mercedes a fez com uma fita) e nos posicionamos no degrau falso. Os braços dele estão envolvendo os meus ombros. Snif! Huuum. Talvez ele me peça para ir com ele. Sei que já fui convidada sozinha, mas, e daí? O que eu faço, somente apareça por lá? A que horas? Ninguém falou nada de hora. Posso perguntar à Jewel, mas não quero lembrar a ela que não sei nada sobre essa festa. Snife. Huuum. — Você está resfriada? — pergunta Ralf.


— Não, por quê? — Você está fungando. Que ótimo. Agora ele está preocupado que minha gripe pegue nele. Sou o sonho de todo garoto. Um par infectado. — Alergia — respondo. Preciso parar de fungar e me concentrar em seus outros atributos. Como seus lindos olhos tão cristalinos e escuros, seus grandes ombros musculosos, sua pele clara e macia... — Rachel? — chama Raf, me cutucando e me tirando do meu sonho.Agora era a hora em que a gente tem de ir para os bastidores. Certo. Eu devia pedir a Miri um feitiço antiamor. Nunca vou conseguir me concentrar no desfile.


13. SEMPRE TRANQUE A PORTA

Quando estendo os braços para puxar meu top, meu corpo inteiro dói. Dançar é um exercício de matar. Quem iria adivinhar? Deixando isso tudo de lado, com meu novo corpinho malhado, estou pronta para minha grande noite. Sim, senhoras e senhores, o dia chegou. Depois de uma semana de papo com o pessoal importante, eu, Rachel Weinstein, estou indo para uma festa da listaA. Passei a maior parte da semana em pânico — a que horas teria de estar lá? Deveria convidar a Tammy, para não ter de ir sozinha? — mas, então, hoje, durante a aula de matemática, a Jewel virou-se para mim e perguntou: — Ei, podemos ir à festa esta noite juntas? — Claro — respondi, como se não fosse nenhuma grande coisa. — A que horas a gente se encontra? — Nove? — disse ela, enrolando um cacho num dedo — No nosso lugar? Nosso lugar era na esquina da Nona com a Quinta, bem em frente à sorveteria da nossa vizinhança. Matamos um bocado de tempo, e acumulamos também um bocado de calorias, naquela esquina. Obrigada, meu Deus, por eu não ter convidado a Tammy Eu estava rezando a semana inteira para não ter de fazer isso. De fato, virei craque na arte de mudar de assunto toda vez que ela falava sobre o fim de semana. Por exemplo, na quarta-feira, soltei a interjeição: "Aimeudeus, já contei a você o que aconteceu no ensaio ontem?" e então ia direto para uma historinha qualquer sobre a London, como quando ela estava praticando um jeté e, acidentalmente, deu um pontapé na bunda da Doree.


Já sei que não estou sendo nada leal. Mas não posso contar a ela sobre a festa e então não convidá-la, poso? E eu não posso chamá-la para vir comigo porque é a primeira vez que eu sou convidada, e como eu vou saber qual é do Mick com os convidados? Ele não disse Venha para a minha festa e, por favor, traga uma amiga. E se o convite foi só para uma pessoa? E se Mick somente permitir trinta convidados e a Tammy for a trinta e um? Não é que nem Pizzaria Stromboli; é uma reunião particular. E se ele quisesse que Tammy viesse, ele próprio não a teria convidado? Mick a conhece. Ele deu para ela um guardanapo quando ela derramou suco de tomate em sua blusa. O caso é, se Tammy vier, vou ficar amarrada nela a noite inteira. E preciso poder rodar solta por todo canto. Imagino que o quarto da Miri é uma passarela e deslizo nela. — O que você acha agora? — Estou usando jeans e um top vermelho apertado, e uma blusa larga preta de reserva. Ela está deitada na cama, com os pés para cima, mergulhada no A². — Tão bom como a última, a sétima. — Não exagera. Eu só experimentei seis roupas. — Ah, sei lá. Parecem todas iguais. — Exatamente. E parecem todas iguais porque a blusa que eu queria usar esta noite, aquela branca apertada de decote em V cheira a sovaco porque alguém a usou depois do tae kwon do sem pedir emprestado. Ela faz caretas. — Desculpe. — Tudo bem. Já sei o que você pode fazer para compensar. Sabe? A outra razão dessas blusas parecerem todas iguais é que meu peito é chapado. — Eu me olho no espelho sobre a cômoda dela. — Não estou pedindo muito. Talvez meia-taça. Ou uma taça cheia. Duas, se você quiser me enlouquecer. A verdade é que duas pode dar na vista demais. Se você está no tamanho 36 na sexta-feira no mundo civilizado, não pode aparecer com um 44


na sexta à noite. As pessoas estranhariam. — Nada de feitiço para ganhar peitos, mas eu lavo a sua camisa. — Você não é nada engraçada. — Estou tentando descobrir um soro da verdade — diz Miri, franzindo a testa. — Eu acho que isso não vai me ajudar. Nenhum garoto pode ouvir a verdade. Se eu contasse ao Raf e ao Mick como eles são gostosos, eles iam ficar com os egos lá na alturas. — Não é para você, sua pirada! — diz ela. — É para a FMM. Eu me empoleiro na extremidade de sua cama. — Esse é o nosso novo plano? — Nosso novo plano? Você quer dizer meu novo plano. Você tem estado ocupada demais com essa sua dança para me ajudar. Eu tenho tido ensaios praticamente todo dia. Acho que tenho sido negligente com a minha irmã. — Desculpa, Mir. Amanhã vou ficar ajudando você — Jura? Seria ótimo. Estou precisando de uns ingredientes. Você pode me levar até onde eu possa comprá-los? — Amanhã sem falta. Não tenho ensaio até domingo — Está vendo? Sou uma boa irmã. — Então, me explique seu novo plano para mim. Visto o top preto sobre o vermelho e olho no espelho. Hummm! Acho que é melhor eu usar outra coisa. — Certo. — Ela faz um rodopio e apoia as costas na parede. — Ele não tem nem idéia de como ela é de verdade. Então, se a gente der a ela o soro da verdade, acho que pode funcionar. O vermelho. Não, o preto. Qual deles cai bem em mim? Acho que devia ir de vermelho. Miri está olhando para mim com expectativa. — Eu não sei, Miri. Diferente de você, não soa médium.


— Nem eu estou pedindo a você para virar nada parecido. Apenas estou pedindo para você prestar atenção em mim por dois segundos. Epa! Talvez eu seja a pior irmã que já se viu. Dou um tapinha no joelho dela. — Não precisa ficar irritada. Me conta o seu plano. Ela suspira. — Quando eu der para ela o soro da verdade, ela vai falar o que realmente pensa na frente do papai. Daí, ele vai ver a pessoa horrível que ela é e então vai brigar com ela. Gostou? Para alguém tão jovem, sem dúvida ela é muito inteligente. Mas esta noite eu devo parecer linda. O que você acha? Vermelho ou preto? * Escolhi o vermelho. E depois o preto e depois o vermelho novo, e então Miri atirou a caneta-marcador preta em mim, sem se tocar que estava aberta. A caneta fez uma imensa mancha bem no meio do meu top. Então, escolhi o preto. Depois, tentei passar uma linha preta na beirada dos meus cílios como a London faz e quase furei minhas pupilas. Apliquei blush nas maçãs do meu rosto, como os experts da beleza recomendam. Uma pincelada, duas pinceladas. Ai, ai! Estou parecendo uma palhaça. Lavo meu rosto e tento de novo. Uma pincelada, duas pinceladas. Ainda a mesma palhaça. E agora um delineador riscou o meu rosto. Eu lavo e passo novamente o delineador. E melhor para mim ir sem blush. — Estou indo para a festa! — grito para a mamãe e Miri. Vou encontrar Jewel às nove e tenho somente dois minutos para chegar lá. Está tão frio que posso ver minha respiração. Quando a gente era menor, eu e Jewel costumávamos usar tapa-orelhas iguais. Nos últimos cinco meses, toda vez que eu me lembrava da Jewel (como da vez que escrevemos uma peça e seu pai fez o vídeo, e quando costumávamos fazer picolés de suco de laranja no verão), ficava triste. Mas, não hoje. Hoje, ela vem me encontrar. Hoje, vamos sair juntas. A vida é boa.


Quando chego na esquina da Nona com a Quinta, dou uma olhada no meu relógio. Nove horas. Eu bem na hora. Passam dez minutos. Ela está sempre atrasada. Tipo vinte ou trinta minutos atrasada. Eu costumava combinar com ela uma hora falsa, uns vinte ou trinta minutos antes, para não ter de esperar. Tipo, dizia para ela que o filme começava às nove e dez, quando na verdade começava às nove e meia. Mas esqueci desta época. E agora estou aqui em pé feito uma idiota já há onze minutos. Os pequenos pêlos do meu lábio superior, que cheguei a pensarem depilar, se congelam e ficam duros feito agulhas. Acho que devia ter arrancado. Boa coisa eu não ter um namorado que queira me dar um beijo de olá. Se ao menos não estivesse frio demais para um sorvete. Vinte minutos mais tarde, vejo os cachos de Jewel balançando ao descera rua. — Oi, Bee-Bee! — diz ela, pegando minha mão. Como nos velhos tempos. Adoro essas casas de pedras castanho-avermelhadas. A mãe do meu pai, minha bubbe, morou numa casa dessas antes que meu pai a mandasse para um lar de idosos em Long Island. Ela dividia a casa com três outras inquilinas e morava no andar mais alto. A família de Mick tem duas e eu não estou falando sobre inquilinos. Eles têm duas casas de pedras avermelhadas inteiras. Quebraram a parede que as separava e agora ocupam a maior mansão que eu já vi. Quando Jewel empurra a porta destrancada, tento evitar que meu queixo caia até o chão. — Gente doida, né? — diz ela. Nós duas começamos a rir — Os casacos ficam ali. — Ela aponta com seu queixo para um armário. A casa cheira a cerveja e pizza. As luzes estão bem fracas e tem uma música ecoando do chão ao teto. Reconheço alguns segundanistas e calouros esparramados num sofá de couro bege. E... aquele é um sênior? Tem gente aqui do último ano! E não são aqueles tipos rejeitados pelo mundo, que não têm amigos de sua idade. Tem alguns caras aqui que parecem mesmo mais velhos. Puxa, será que o Mick é tão popular assim?


— Você conhece todo mundo aqui? — cochicho para Jewel. Estou procurando pelo Raf, mas não o vejo. Não posso acreditar que eu estou aqui. — Alguns deles — cochicha ela de volta. — São amigos de Nat. Ah. Infame Nat. Por que todos agem como se eu soubesse quem é Nat? Jewel parece perceber a perturbação no meu rosto, porque acrescenta: — A irmã do Mick. Ela está na Universidade da Pensilvânia, mas vem para cá de vez em quando nos finais de semana. Penduramos nossos casacos e então sigo Jewel para o segundo dos quatro andares. Jewel parece ter saído direto de um videoclipe. Está usando jeans de cintura tão baixa que sua calcinha está aparecendo. Como é que usar um fio-dental pode ser confortável? Jewel está também usando um top-tubo que deixa à mostra seu... — Jewel, quando você colocou esse piercing no umbigo? Ela olha para o seu umbigo. — No Natal. Gostou? Dois meses atrás? Não posso acreditar que eu ainda não soubesse disso. Quando Sean dá um tapinha nas costas dela, no caminho para a sala, eu me pergunto do que mais preciso para ficar em dia com ela. Uma multidão de pessoas está sentada no sofá de couro vermelho em formato de L. A música sai a toda dos alto-falantes empoleirados por toda a parede e parece que a banda está na sala conosco e não apenas na tela de TV do tamanho da parede. Quem sabe, talvez eles estejam mesmo aqui. Até onde eu posso concluir, a família do Mick tem dinheiro suficiente para pagar as passagens de toda uma banda. Mick pula de seu lugar. — Oi, linda — diz ele para Jewel, abraçando-a bem apertado e erguendo-a do chão. Ele a desce de volta, então vira-se para mim. — Oi, linda — diz ele, e me agarra também. "Oi, linda?" Eu amo ele! Talvez Miri, sem eu saber, tenha colocado um feitiço do amor nele, para


me fazer surpresa. Ou talvez, como acho que estou sentindo cheiro de bebida, o que aconteceu foi que ele mergulhou fundo no armário de bebidas do pai. Ele me coloca de volta no chão e se dirige a pastagens mais verdes. Quando olho ao redor da sala, percebo que Jewel já tomou o assento dele e eu agora não tenho idéia do que fazer. Quem sabe a Jewel me apresenta para a garota loura com quem ela está conversando e a gente possa entrar num papo interessante? Não, ela não parece ter nenhuma pressa em me pôr para dentro da conversa. Jewel? Huuum, Jewel? Ei? Há sacos de batatas fritas espalhados na mesa de centro de mármore. Pego o que eu acho que é uma batata frita comum e ponho na boca. Arg! Vinagre. Será que eu devo me sentar no chão? Sou a única aqui que está de pé. Esse tapete branco e vermelho felpudo e desgrenhado parece bastante confortável. Acho que vou pegar mais uma batata frita. Epa! Estou muito ocupada agora comendo. Quem precisa de pessoas para conversar ou um lugar para sentar? Vejo uma lata de refrigerante. Ah, eu posso beber também. Abro-a e tomo um longo gole. E então outro. E de novo. — Finalmente, aí está você! — reclama uma voz alta, eu procuro em volta e vejo Melissa valsando na sala. — Chega essa sua bundinha sexy pra lá — para Jewel ela diz e força um lugar para si. — Com quem você veio? Porque eu não pensei nisto? Eu podia simplesmente ter me espremido e sentado ao lado dela. — Com a Rachel — diz Jewel, enrolando um cacho. — Quem? — pergunta Melissa, um olhar de nada no rosto. Ora, qual é! Ela sabe quem eu sou. Olá! Estou em pé bem aqui em frente dela. Jewel olha ao redor da sala como se estivesse tentando lembrar onde ela havia me deixado. — Você a conhece. Rachel. Olha ela aí — diz ela, no que me encontra.


Melissa fixa seus olhos pequenos em mim. — Ah, sim. Ela. Como vai, superestrela? — Bem.— Eu estaria melhor se estivesse no seu lugar. Os olhos de Melissa me queimam e eu dou outro longo gole. — Que coisa lamentável aqueles testes! — comenta Melissa, revirando os olhos. — Não sei porque todos aqueles patéticos idiotas se dão ao trabalho de aparecer por lá. Eles não conseguiram dançar na primeira vez. Não sei por que acharam que podiam entrar na segunda tentativa. Jewel ri. Ela fica em pé e agita seus braços como uma galinha. — Quem eu sou? — Janice Cooper — digo, e então, rapidamente, fico envergonhada. Pego outro refrigerante. Melissa cai na risada. — Boa sacada — diz Jewel, então se afasta. Parece que está sobrando lugar no sofá, mesmo depois de ela ter aberto espaço para Melissa. — For que não se senta conosco? Eu sento. Física e metaforicamente. Trinta minutos depois, minha bexiga está prestes a explodir. Fico apavorada que meu lugar seja ocupado até eu voltar, ou que Melissa e Jewel desapareçam e eu tenha de procurá-las pela casa inteira, fingindo estar ocupada enquanto procuro por elas. — Tome conta do meu lugar — digo, tentando não parecer ansiosa. Notem que eu delicadamente não mencione aonde estava indo. Acima de tudo, decido, devo manter uma aura de mística e sofisticação. Eu me afasto à procura de um banheiro. Descubro um no terceiro andar deserto. Só um problema: a fechadura não fecha. Mas que ótimo. O que faço agora? Volto, encontro Jewel e peço a ela para tomar conta da porta? Não há tempo para isso. Minha bexiga não


aceitaria isto. Simplesmente, vou fazer tudo rápido. A porta está à minha direita, então eu posso mantê-la fechada com minha mão. Obviamente, logo que eu abaixo meu jeans, alguém vira a maçaneta da porta. Eu bato meu braço na porta para evitar que abra e grito. — Tem gente! Aporta fecha. Minha nossa. Espero de verdade que seja uma garota. — Desculpa — diz uma voz baixa de garoto. Uma voz que soa familiar. A voz de Raf. Eu nunca vou sair daqui. Raf está esperando do lado de fora da porta do banheiro. Como eu posso fazer xixi com Raf a menos de um metro de distância? Não posso. Não com um garoto de quem eu gosto podendo escutar o que estou fazendo. Mal consigo fazer xixi quando meu par está no mesmo andar que eu. Mas, talvez, se eu esperar um pouco, ele vá embora. Ou vai achar que eu estou... você sabe. Com problemas... femininos. Ou pior, problemas estomacais. Oh, droga! É melhor eu me apressar. Não quero que ele ache uma coisa dessas. Faça logo esse xixi. Agora. Vamos. Nada. Onde está o som do jato d'água? Como pode? Eu estava apertada há um segundo. O único som que ouço é a batida do meu relógio. Não, é o meu coração batendo. Estou em pânico. Mas não devia estar em pânico. Tenho de acabar com esse pânico. Inspire, expire. Inspire, expire. Já sei. Vou abrir a água. O barulho disfarça o som de jato. O único problema é que a pia fica a uma distância que não dá para alcançar, então tenho de me levantar para abrir a água. Vai ficar tudo bem, se o Raf não tentar abrir a porta quando eu estiver agachada. Não que ele fosse fazer isso. Um pensamento horrível me ocorre. E se neste silêncio cruciante, ele pensar que eu me afoguei e der um chute na porta para me salvar? Lá vou eu. Três, dois, um. Eu me jogo em direção à pia, abro a água e vôo de volta para a privada.


Ah. Espero que seja rápido. Claro que não é. É o mais longo xixi que eu já fiz. Provavelmente ele já foi embora. Estou aqui no mínimo há uma hora. Finalmente, fiz o xixi. Dou descarga, lavo minhas mãos, então abro a porta. Oh, não. Oh, sim. Raf está apoiado, muito à vontade, contra a parede, lindo em seu jeans baixo baggy e uma camisa surrada verde que parece um bocado macia. Totalmente lindo. Mais bonito do que o sol. Mais bonito do que o sol sob o fogo. Mais bonito do que o sol encharcado de gasolina, quando então pega fogo. Mais bonito do que... — O que aconteceu? — ele pergunta, dando-me um tapinha no ombro. — Eu estava me perguntando onde você tinha se escondido. Estava? E agora ele me encontrou. No banheiro. Mas que ótimo. — Eu estava aqui. Quer dizer, lá embaixo. Você sabe... — Eu bem queria ter uma capa da invisibilidade exatamente agora. — Eu só quero ir ao banheiro — diz ele. Mas, é claro que quer. Eu estive trancada aí por horas. — E então, talvez eu e você, bem, a gente possa botar o papo em dia... ou alguma coisa. — Certo — concordo, admirando a naturalidade que ele demonstra ter em relação às suas funções corporais Quer dizer, você tem de ter muita autoconfiança para vir direto e dizer: "Eu quero ir ao banheiro." Ele sorri e desaparece lá dentro. Ele quer botar o papo em dia! Isso! Só não sei o que pode estar atrasado no nosso papo, se a gente se vê a semana inteira. Alguma chance de botar o papo em dia ser um eufemismo para ficar? Ele vai me beijar? Finalmente, vou ter o meu primeiro beijo? Eu devo esperar? Não quero que ele pense que estou cercando o banheiro. O que ele deve estar fazendo agora? Pela primeira vez, entendo o estranho relacionamento de Miri com as unhas. Seria a hora ideal para começar a roer as minhas. Pelo menos, teria alguma coisa para fazer. Felizmente, sendo um garoto, Raf termina dois segundos mais tarde.


— Vamos procurar algum lugar para sentar — sugere ele enquanto nos dirigimos para as escadas. Ele sorri para mim e meu coração dá pulos. Ele tem um sorriso tão bonito. Por que eu nunca notei seu belo sorriso antes? Seus dentes são tão brancos e certinhos. Eu sei que já tinha notado seus ombros largos, seu sorriso satisfeito e seus belos olhos. Eu o sigo para dentro da sala de estar e olho em volta. Melissa e Jewel tinham sumido. Obrigada por me esperarem, garotas. Na verdade, a não ser por um segundanista já desmaiado de bêbado, a sala estava vazia. Escuto uma gargalhada coletiva lá no andar de baixo, o que era bom para mim. Um longo tempo sozinha com Raf. Ele me dá um refrigerante e reclina no sofá. — O que você está achando do desfile até agora? Meus joelhos estão somente a um centímetro de distância dos dele. — Muito divertido. — É? Por que você não fez os testes em outubro? — Por que você acha que eu não fiz? — Você teria sido aceita, se tivesse tentado. Será que isso é uma cantada? Nunca recebi nenhuma, mas, do que eu já aprendi dos filmes, pode ser algo do gênero. — Eu não tinha certeza se teria tempo para tudo. Um largo sorriso aparece em seu rosto, transformando seus, olhos em meias-luas. — Ocupada demais em ganhar competições? Ele sabe da competição de matemática? Há um buraco para nerds onde eu pudesse me enterrar? — Do que você está falando? — Eu vi um troféu no mostruário, com seu nome. — Ele inclina a cabeça. — Impressionante. Não tenho certeza se devo ficar envergonhada ou estufar o meu peito. Por um lado, ganhar competições significa que eu sou inteligente.


Por outro lado, é matemática. Talvez ele não tenha lido o troféu com atenção. Talvez ache que ganhei uma competição de chefe da torcida. Rá-Rá-Rá! — Rapidamente, qual é a raiz quadrada de 289? Lá se foi minha teoria. — Dezessete — respondo automaticamente. Ele toma outro gole de sua bebida. — E de 550? — Não é exata, mas é mais ou menos 23,4... — eu dou uma risada. Ele olha para o teto e finge calcular. —

É melhor

aceitar

a sua resposta.

Inteligente e talentosa.

Impressionante. Isso! Ele está impressionado! Eu impressionei o espécime macho mais belo do planeta! — Não exatamente. Só em matemática. Não consigo conjugar um verbo em francês nem que seja para salvar a minha vida. Madame Diamon sente vontade de me matar. Quem dá aula para você? — Sr. Parouche. — Quem são seus outros professores? — Henderson, Wolf. Uau. Todas são turmas adiantadas. Por que tem de ter mais de uma turma adiantada para cada matéria? Por que ele não poderia estar na minha classe? — Qual a sua preferida? Suas bochechas ficam rosadas. — Escrita criativa. Ele vai ficando vermelho brilhante como se soubesse que, no meu


devaneio, eu o imagino fazendo uma serenata para mim. Eu estou em minha janela e ele, certamente, na rua, em pé, junto à entrada da garagem de estacionamento mensal, lendo seus poemas. Aposto que ele rima melhor que o A². — Não precisa ficar com vergonha. É que parece engraçado. — É, acho que você tem razão. Mas é muito menos esquisito do que ganhar uma competição de matemática. — Um largo sorriso se abre em seu rosto. – Brincadeira. Então um grupo de mais velhos passa e Will pula sobre Raf. — Você dando em cima de uma garota? Que lindinho! Irmãos lutando. — Estava, até você resolver se sentar nas minhas costas — responde Raf por baixo do seu irmão, parecendo aborrecido, mas apreciando que seu irmão mais velho esteja dando atenção a ele. Will o prendeu numa chave-de-braço, desarrumou o cabelo dele e então me encarou. — Então você é o novo par dele, hein? — Sou. — Estou no sofá com Raf, o amor da minha vida, e Will, o presidente do Conselho Estudantil. Isto deve ser o céu. — É a nova namorada dele, também? Raf fica da cor do sofá. E tenho certeza de que minha cor combinava com a dele. Era para se pensar que um representante e de turma devesse ser um pouco mais maduro. Não que tivesse ficado chateada. Pode dizer de novo! Diga de novo! — Will, vou dar um soco na sua cara, depois — murmura Raf, debaixo do seu irmão. Will ri, desarruma o cabelo dele de novo e vai embora. — Irmãos! — resmunga Raf, balançando a cabeça. Eu tenho dois. Mitch está no terceiro ano na Universidade de Nova York. São um saco. E você?


— Só uma irmã. — Com sorte, a Prissy nunca vai ter esse título. E não quero que ele saiba nada sobre o tal casamento. Sem chance. Minha agenda está em aberto. Ou vai estar, se o feitiço da Miri funcionar. — Como ela é? — Ela é ... — Mágica? Concentrada? Faixa marrom? — Cheia de surpresas. Nós dois conversamos pelo resto da noite. Ou, pelo menos, acho que ficamos conversando. É difícil dizer o que acontece quando se está nas nuvens. A conversa parece girar em torno de colégio, amigos e televisão. Acaba que ele detesta reality shows tanto quanto eu. (Está vendo? Fomos feitos um para o outro.) Por volta da meia-noite, Raf dá uma olhada em seu relógio. — Tenho de ir pra casa cedo. Vou jogar hóquei às sete horas da manhã. Como você vai para casa? Ele é um gênio, um poeta, lindo, um dançarino fantástico e atleta? É possível? — Vou pegar um táxi com Jewel. Eu também devia ir para casa cedo. Não tenho de obedecer a nenhum toque de recolher, mas está entendido que tenho de estar em casa antes de meia-noite e meia. Ele brinca com os dedos. — Huum... estava aqui pensando... o que você vai fazer no resto do fim de semana? Você quer ir a um show amanhã à noite? Meu pai me deu umas entradas que ganhou e está sobrando uma. Você gosta do Robert Crowne? Aimeudeus. Aimeudeus. Ele está me convidando para sair com ele. Juro que meu coração acabou de explodir. Epa, peraí! Eu apenas esqueci de respirar. Preciso me concentrar. Inspirar, expirar. Expirar, inspirar. Ah, não! Estou embaralhando a ordem. — O... Ok! — gaguejo logo, antes que eu desmaie por falta de oxigênio.


Ele dá aquele adorável sorriso. — Que tal se eu telefonar para você amanhã, mais ou menos a uma hora, e daí a gente combina? Concordo com a cabeça, feliz demais para me arriscar a falar. Eu escrevo meu número para ele enquanto tento normalizar minha respiração, e depois desço para procurar à Jewel. Não consigo evitar que o sorriso se espalhe por todo o meu rosto. Ter um encontro parece maravilhoso. Como se minhas costas estivessem sendo coçadas, eu estivesse dando uma dentada num brownie e flutuando, tudo ao mesmo tempo. Aposto que a gente se sente melhor assim do que se tivesse poderes mágicos. Vejo o Mick erguendo uma garota e isso não me chateia nem um pouco. De agora em diante, todas as minhas energias estão focalizadas no Raf. Sinto muito, Mick. Eu tenho um encontro.


14. O PRIMEIRO QUASE ENCONTRO DA MINHA VIDA

É óbvio que o Raf mudou de idéia e resolveu chamar outra pessoa para ver o Robert Crowne. São uma e meia. Ele não ligou. — Podemos ir agora? — Miri se queixa. Ela já está com seu casaco e botas, esperando na porta. — Mais dez minutos — peço. — Você disse isso dez minutos atrás. Eu a ignoro e continuo andando para cima e para baixo na cozinha, fingindo estar ocupada. — Eu sei que você está fingindo que está ocupada. Eu me sento no chão de ladrilhos da cozinha. — Ele disse que ia me ligar. Ring! Salto em cima do fone, mas só o que eu ouço é o sinal de discar. — Alô? — Estranho. Miri está abaixada. Rindo. — Desculpe, não consegui resistir. — Hein? Foi você? — Foi — diz ela, sem segurar as risadas. Minha expressão esperançosa se transforma numa testa franzida de chateação. — Como? — Não sei direito. Acho que sugeri que você ouvisse o telefone tocar.


Não é engraçado? O telefone nem tocou de verdade. Eu aponto meu dedo para ela. — Não é nada engraçado. Não faz isso de novo. Por que ele não liga? — Ele é um garoto. Está atrasado. — O que você sabe sobre garotos? — Mais que você, se você está esperando que ele ligue na hora que marcou. Bem que ele podia se apressar. Estou morrendo de calor. Bem nesse instante, o telefone toca. Olho para ela, desconfiada. — É você? — Não, juro que não é. — Você o está obrigando a telefonar? — Não seja maluca. E por que tanta agitação, afinal de contas? Você disse que não era nem mesmo um encontro. Que ele tinha conseguido entradas grátis e não tinha mais ninguém para chamar. Agarro o telefone. Então, ele cai e eu o agarro de novo. — Alô? — É verdade, eu disse isso. E se ele conseguiu as entradas de graça, é mais convite de amigo do que um encontro? — Alô. A Rachel está, por favor? — É ele! É ele! É ele! — Sou eu. — Oi, Rachel, é Raf. Eu tento colocar alguma surpresa na minha voz. — Ah, oi, Raf. Tudo bem? — Bem. É só pra confirmar que está tudo certo com você para hoje à noite. — Sem dúvida. — Isso! Ele não está cancelando!


— Legal! É às oito. Onde você mora? Dou a ele meu endereço. — Ei, você mora bem no caminho. Posso dar uma passada aí para pegar você. Bem como num encontro. Um amigo não pega uma amiga. Um amigo marca com uma amiga em algum lugar. Como eu com a Jewel. — Claro, se não for dar trabalho. — Digo tchau e ponho o fone no aparelho. — Eu tenho um encontro! Algo parecido. Você acha que é um encontro? — Se ele for apresentado à mamãe, é um encontro, — Ele só vai ser apresentado à mamãe se ela estiver por aqui na hora — esclareço. É óbvio que eu não quero que ele conheça minha mãe. Isso não melhoraria em nada minhas chances de futuros quase-encontros. Miri me puxa para a porta. — Bem, podemos discutir isso na rua. Temos muitas compras para fazer. Você trouxe seu dinheiro do Hanukkih? — Jááááá era! Comprei sapatos, jeans, maquiagem... Mas eu tenho vinte dólares do resto da minha mesada. Miri pisca para mim. — Eu tenho duzentos dólares que economizei do meu aniversário e das férias. Como ela conseguiu economizar duzentos dólares? Ah, claro. Ela pede minhas coisas emprestadas em vez de comprar as dela. Logo que eu tranco a porta às minhas costas, eu pergunto: — Então, aonde vamos? Alguma loja mística secreta? Há um Beco Diagonal em Nova York, como em Harry Potter? E a gente tem de pegar a linha de metrô quatro-e-meio? — Você está pirada outra vez — resmunga Miri. — Nós vamos é ao supermercado. E temos de correr. Mamãe disse que vai ficar ocupada, dando conta de um monte de tarefas pequenas, mas que só vai demorar nisso umas poucas horas.


— O supermercado? É tão antiinspirador. Entramos no Empório dos alimentos e empurramos nosso carrinho por entre as fileiras de gôndolas. — A gente devia comprar para estocar também — raciocina Miri, pensando alto. — Assim, eu não teria de continuar roubando ingredientes da cozinha de mamãe. — O que tem na sua lista? — Amêndoas, maçãs, manjericão, camomila, cerejas, pimenta-chilena, alho, gengibre, mel, raiz-forte, limão, hortelã, mostarda, cebolas, sal, tomates e iogurte. Um pouco mais de comida e temos um bufê completo. — E talvez um pouco de mussarela. — Por quê? Para qual feitiço? Alguma coisa para nos fazer ficar mais altas? — começo a rir. — Entendeu? Porque ela estica, certo? — Quem sabe eu devesse virar uma comediante? — Rá-rá... — Ela se encosta contra a parede e quase bate num display de cereal colocado sob um morango gigante de papelão. Ora, que tempo é esse, de fruta seca no ceral? Será que viramos astronautas? Estamos preguiçosos para colher nossas próprias frutas? — Não — diz Miri, depois de recuperar o controle. — Eu estou com vontade de comer uma pizza. E mamãe pode desconfiar de por que viemos ao supermercado. Mas, se a gente fizer o jantar, nada de perguntas. Entendeu? — E desde quando a gente se oferecer para fazer o jantar não é suspeito? Ela me lança um olhar acusatório. — Se você se oferecesse para fazer o jantar, seria suspeito, mas não se eu me oferecer. — Você é tão inteligentezinha! — provoco, jogando uma barra de chocolate no carrinho. Nham!


— Não compre essa coisa! — pede Miri. — o fabricante faz as crianças sul-americanas trabalharem em péssimas condições. Quase devolvo a barra de chocolate. Mas, ora, uma barrazinha de chocolate vai fazer alguma diferença? Seja como for, aposto que a Miri tirou isso de alguma teoria conspiratória num site da Internet. — Vamos pegar uns sais de banho para mamãe — diz Miri. — Talvez ela goste. E talvez a gente precise deles. Eu pego o mel e as amêndoas. — Então, me diz, o que estas coisas fazem? Mel faz a gente ficar mais doce? Amêndoas fazem a gente ficar com olhos puxados? — Todas estas ervas, alimentos e temperos têm propriedades mágicas. Eles enviam vibrações para o cosmos quando combinados com minha vontade essencial e o feitiço. — Nem desconfio do que você está falando. — Você sabe que um determinado cheiro faz você se sentir de uma determinada maneira? Como o cheiro de Raf. Nham-nham! — Ok. — É a mesma coisa. O feitiço, os ingredientes e meu poder, tudo trabalha junto para fazer o que eu desejo acontecer. — Legal! — Eu empurro o carrinho pela fileira de comida congelada. — Mas por que fica tudo mais frio quando você faz mágica? — Não sei direito. Quem sabe a energia do quarto esteja sendo sugada para o feitiço? — Todas as pessoas são capazes de sentir a temperatura mudar? Ou será que somente outras bruxas? — pergunto eu, esperançosa. — Todo mundo. É por isso que a mamãe fala que é especialmente perigoso fazer feitiços em público.


— Ah. — Entramos na seção de carne e frango. Espere um segundo. — Você disse que a mágica funciona juntando os ingredientes e seus poderes. Mas você fez a lagosta se mexer sem uma única palavra. — Só que eu não tive nenhum controle sobre o que estava fazendo. Estes feitiços é que me dão controle do que eu estou pedindo para acontecer. Apresso Miri em direção à padaria, longe dos animais mortos, por precaução. — Então o que esses temperos fazem? — Bem, camomila é um calmante. Sal é um purificador. Alho é um protetor. — O que a gente vai usar para o feitiço da verdade? — É fácil. Só precisamos de água, amêndoas e um pouco de hortelã para ativar. E não tem nada daquelas frações malucas para me confundir. — A hortelã faz o quê? — Bem, hortelã ativa a poção, faz com que ela comece a funcionar. No corredor de vegetais, presto atenção nas cebolas. Cebolinhas selvagens, maias, vermelhas, vermelho-pérola, branco-pérola, amarelas, maui. — Algum tipo de cebola em especial? Ela me olha meio aflita. — Não sei. Que tal se a gente pegar uma normal? — O que é uma normal? Ela aponta para uma cebola bege. — Essa parece o tipo que mamãe usa. Lanço o saco de cebolas no carrinho como se estivesse jogando basquete. Cesta! — Ei, que ingredientes podemos acrescentar para eu ficar irresistível esta noite?


Miri balança sua cabeça, debruçada sobre o carrinho de compras. — Você não quer que ele goste de você pelo que você é, e não por causa de um feitiço qualquer? — Você é que fez ele me ligar. — Não, não fiz nada disso. Nunca, eu não faria isso Não seria certo. Não seria certo a não ser que eu concordasse em botar a mesa por um ano inteiro, pensei. Mas me seguro e não digo isso. Não queria que ela ficasse mortalmente ofendida e acidentalmente-de-propósito sabotasse meu encontro desta noite. — Além disso, você já é irresistível —, acrescenta ela, me fazendo sorrir. — Eu sou apenas uma iniciante nesse hocus-pocus, lembra? Por que arriscar o que você já tem? Ela empurra o carrinho em direção aos temperos. Jogo uma caixa de iogurtes no carrinho. — Eu já sei que Raf gosta de mim como sou. Ela me convidou para sair, não foi? No entanto, antes de eu entrar no desfile de moda, ele nunca tinha conversado comigo. Se a Miri não tivesse feito o Feitiço da dança, eu estaria vendo tevê esta noite com a Tammy. E daí? Quem sabe, vez por outra o amor precise de um pontapé para começar. Vocês sabem, um ativador, como um pouco de hortelã. * — Não posso acreditar que as minhas meninas fizeram jantar! — exclama minha mãe, engolindo outro pedaço de pizza. Ainda no supermercado, pegamos também uma massa pronta de pizza, alface e um belo pão. Não somos as melhores filhas que já existiram? — Acho que vou deixar vocês encarregadas da comida uma vez por semana. Quem sabe? Quanto isso tudo custou?


— Apenas quinze dólares — diz Miri. Só as coisas para a pizza custaram quatorze. O resto da conta chegou perto dos cinqüenta. Os nãoperecíveis estão escondidos no armário de Miri e as frutas estão escondidas por trás de outras coisas na geladeira. — Bem, você não tem de usar a sua mesada para pagar o jantar — Ela pega a carteira. — Aqui tem 20. Acho que é por isso que a Miri sempre tem dinheiro. Nossa mãe está enchendo os bolsos dela. Tenho de reconhecer uma coisa na minha irmã. Foi uma ótima idéia e a pizza está deliciosa. A não ser pelas sementes de girassol que ela colocou, achando por alguma razão que seriam uma boa cobertura. Fico o tempo todo catando-as e pondo-as no meu guardanapo. — Rachel, Tammy ligou. — É mesmo? — Estou morrendo de vontade de contar a ela sobre o meu encontro. Ela vai ficar maluca. Mas, contar essa história quer dizer que eu vou ter de abrir o jogo sobre a festa de Mick e como vou fazer isso sem ficar parecendo a Pior Amiga do Mundo? Bem, vou deixar isso para a segunda-feira. Eu telefonarei para a Jewel, então. — Meninas, deixem os pratos comigo. Rachel, vá se arrumar para o seu encontro. — Ela me dá uma piscadela esquisita. Que gozado! Quando ela pisca, o olho aberto não mexe nada. Os olhos da maioria das pessoas ficam mais abertos, mas não o da mamãe. Muito esquisito. Ela está um bocado entusiasmada com essa ocasião especial. Desde o momento que contei para ela sobre o encontro, ela fica o tempo todo me lançando piscadelas e dando tapinhas na minha cabeça. Podia ser pior. E se ela dissesse que eu não podia ir ou que eu era muito nova para sair com um garoto, ou alguma outra coisa dessas? Bem, preferi não assumir para ela que era um encontro. — Não é um encontro, mamãe, — Bem, ele vem me pegar, não vai ficar me esperando em algum lugar. Mas ele não chegou a usar a palavra encontro. Então, minha mãe não pode falar que é. — Desculpe, seu quase-encontro. — Ela me dá outra de suas piscadas


esquisitas. — E vou ser apresentada a esse seu quase-namorado? — Não se eu puder evitar. Sei que este é o meu primeiro quaseencontro, mas vamos tentar manter a coisa sem muita enrolação, tá? — Ou seja, nada de fotos? — pergunta Miri, mostrando a pizza em sua boca. — Rá-Rá! Só deixo a câmera de vídeo. — E então, por precaução, no caso de alguma das duas terem me levado a sério, esclareço: — Nenhuma câmera. — Ele está pagando as entradas? — pergunta mamãe. — Que diferença isso faz? Ela fisga um pedaço de queijo de seu prato com o garfo e põe na boca. — Se está pagando, então é mesmo um encontro. — De onde você vem, dos anos 1950? Os garotos não pagam mais nada pra gente, nem nos encontros. — Pagam sim — diz ela, teimosa. — Seria difícil eu denominar você como uma especialista em encontros, mamãe. Seja como for, as entradas são convites ou seja, ele não pagou por elas. O que vocês duas vão fazer esta noite? — pergunto, querendo mudar de assunto. Já estava para lá de nervosa sem aquele interrogatório. — Continuar com o treino de Miri — responde mamãe, garfando outro pedaço de pizza. — Já quase acabamos com a história da mágica. Os olhos de Miri se acendem como duas velas. — Então, podemos começar com a prática da magia? Mamãe nega com a cabeça rapidamente. — Não. Ainda não. A seguir, vamos estudar conseqüências e ética. Não se preocupe. Logo você vai começar a usar mágica de verdade. Miri quase engasga com um pedaço de pizza. Se mamãe soubesse. — Eu vou me aprontar — digo e empurro minha cadeira.


Minha mãe faz ruídos de beijos. — Você acha que ele vai beijar você no final do quase encontro? — Bem que você gostaria de saber — rebato, e corro para o chuveiro antes que elas vejam como minhas bochechas ficaram vermelhas. Se eu tivesse direito a um desejo, seria para ele me beijar. Não, deixa eu voltar atrás nisso. Se eu tivesse direito a um desejo, gostaria que ele me convidasse para o Baile da Primavera. Ligo a água quente e vou para baixo do chuveiro. É surpreendente. A gente tem muito mais prazer com uma chuveirada quando é de noite do que quando é a primeira coisa que se faz pela manhã, quando a gente ainda está meio dormindo e preferia continuar na cama. Hoje, acho que vou passar xampu duas vezes, exatamente como o frasco sugere. Sei que meus planos da noite estão provocando mucha excitação por aqui, pois ninguém da casa tem um encontro há já dois anos. Depois do divórcio, mamãe saiu com vários homens que conheceu por causa do trabalho (não que eu tenha conhecido algum deles — ela saía somente nos fins de semana em que nós estávamos na casa de papai, mas eu via seus nomes no identificador de chamadas, porém não gostou de verdade de nenhum deles. Finalmente, pararam de ligar. A verdade é, eu acho, que ela ainda sente alguma coisa pelo meu pai. Ela ainda guarda aquele moletom de algodão dele, aquele largão e confortável, cinza, com a gola puída e uma mancha de caneta azul na manga. O único que ele usava quando estava à vontade e vendo tevê conosco. Isso era antes de ele se tornar sócio do escritório e ficar trabalhando o tempo inteiro. Perguntei a minha mãe se ela sabia onde andava aquele moletom, mas ela disse que não. E então, um ano depois, numa vez que acordei às sete da manhã e não consegui mais dormir, fui para o quarto da minha mãe para pegar emprestado um romance e a vi dormindo abraçada nele. Não o estava usando. Somente... agarrada nele. Voltei para a minha cama e chorei até dormir. Estar apaixonada por


alguém, ter se casado com ele, ter tido duas filhas e então ser abandonada por ele, deve ser a coisa mais trágica que pode acontecer. Ele começou a namorar a FMM apenas seis meses depois de sair de casa, antes da conclusão do divórcio, mas às vezes me pergunto se ela não estava no lance um pouco antes do que ele quer admitir. Quer dizer, enquanto ele ainda morava com a gente. Talvez, por isso, ele "já não sentia a mesma coisa". Quem sabe? Eu podia até pensar que minha mãe odiasse ele, mas ela nunca me disse nada ruim de meu pai. Nunca. Ela apenas abraça o moletom dele. Eu espero que o lave de vez em quando. Seria mais higiênco. Mas isso não é da minha conta. Às 7:20, já estou toda embonecada. Estou usando meu segundo melhor jeans (droga eu ter usado o meu melhor ontem à noite) e uma camisa verde que, se Deus quiser, vai acentuar meus olhos. As 7:25, Raf toca o interfone lá embaixo. — Seu quase-namorado está aqui! — minha mãe grita da sala. — Quer parar de dizer isso? — grito de volta. Dois segundos mais tarde, ele toca a campainha e eu corro para abrir a porta antes que minha mãe o faça. Por azar, minha mãe e minha irmã aparecem instantaneamente atrás de mim, no vestíbulo. Como conseguiram ser tão rápidas? Será que fizeram um ploft! e apareceram aqui? Vou ter de ficar de olho nessas duas. Abro a porta. Raf sorri. Ele está tão lindo. Está usando jeans, o mesmo jeans de ontem, acho — eu queria agora subir e botar meu jeans de ontem também — e seu casaco preto de lã. Eu amo ele. Queria que a minha mãe estivesse com a máquina. Eu tiraria uma foto e penduraria na parede. — Oi, Rachel — cumprimenta ele. — Olá, Sra. Weinstein. Eu quase caio na risada com o som do Sra. Weinstein. Ninguém a chama assim.


— Por favor, me chame de Carol — diz mamãe. — Muito prazer. — E esta é minha irmã Miri — digo, apresentando-a. — Prazer — diz ele. Mas que ótimo! Todos estamos tendo muito prazer em conhecer uns aos outros. Agora, feitas todas essas apresentações entendiantes, talvez eu possa sair com meu quase-namorado. — Estou em casa meia-noite e pouco — digo, e antes que alguém mais possa falar, dou tchau e fecho a porta atrás de mim. Pego minha mãe piscando para mim e acho que Raf faz o mesmo. * Estou tentando, telepaticamente, dizer a ele para segurar minha mão, mas não está funcionando. Seus amigos da lista-A, Ron, Justin (ele é um dos segundanistas da banda Iluminados) e Doree (o que ela está fazendo aqui?) estão esperando por nós fora do Irving Plaza. — Olá, Rachel! — fala Doree, enfiando seu braço no meu. — Não é impressionante? Justin e eu começamos a sair juntos bem agora, na quartafeira — cochicha para mim. — Estou tão feliz que o Raf tenha convidado você. Agora, podemos sair, nós quatro. Só espero que Doree não levante a mão durante o concerto. Raf pega os convites e os entrega para o bilheteiro, que então marca todos nós com aquelas pulseiras somos-menores-de-idade-assim-não-vendabebida-pra-gente. Atravessamos a multidão e nos esprememos para chegar o mais próximo possível da frente do palco. Influência de Doree, obviamente. Na hora em que os membros da banda aparecem, estamos somente a pouco mais de um metro do palco. As luzes se apagam e a voz de Robert Crowne ressoa num berro: — Olá, Nova York! As luzes piscam e lá está Robert Crowne a menos de um metro de mim.


Aimeudeus. Nem posso acreditar que estou aqui. Num show já com lotação esgotada do Robert Crowne. E não tem jeito de estar sonhando agora — a música está alta demais. As luzes diminuem e um arco-íris de cores primárias irradia-se pelo salão. Raf começa a cantar, acompanhado pelos instrumentos. Justin toca uma guitarra imaginária e Doree, extasiada, ergue suas mãos para cima, balançando com a música. Eu não posso evitar. Começo a dançar. A música, a multidão, a companhia... o charmoso Robert Crowne com seus cabelos escuros no palco. Ele está usando calças de couro preta e uma camisa de manga comprida prateada (aposto que ele está morrendo de calor) e está se movimentando por todo o palco. Ele parece tão sexy quanto na tevê. Tudo parece perfeito. Quem diria que ter ritmo podia ser tão divertido! Passo as próximas duas melodias deixando meu corpo se conectar com a música. E então me lembro de Raf, e ergo os olhos, e ele está me observando e, de repente, estamos dançando juntos. Nem rodopios, nem mergulhos, nem nada parecido, mas apenas nos mexendo, bem agarrados e explodindo por dentro. — Você é uma dançarina maravilhosa! — grita ele vencendo o som da guitarra elétrica. — Obrigada! — grito de volta. — Escuta, eu estava pensando... Você quer ir ao Baile tia Primavera comigo? Bem na mosca! — Eu adoraria — digo e sorrio para ele. Ele sorri também. Agora, é um encontro. E não mais um quase-encontro. É 100% um encontro.


15. LEVANDO UMA DURA DA TAMMY

— Você estava na casa do seu pai nesse fim de semana? — Tammy pergunta. — Hum... não... — balbucio, fingindo estar preocupada com alguma coisa no meu armário. — Então, o que aconteceu com você? Liguei para você um zilhão de vezes. — Ela parece sinceramente confusa. O fato de ela nem mesmo considerar possível que eu tenha ficado fugindo dela me faz sentir como um pedaço de chiclete no meu sapato. (Alguém consegue explicar por que há tantos pedaços de chiclete no chão? Que razão alguém teria para cuspir seu chiclete na calçada? As pessoas são tão preguiçosas que não podem esperar até chegarem numa lata de lixo?) — Desculpa. Foi apenas um desses fins de semana em que acontece de tudo — respondo, desesperada, revirando os miolos para tentar inventar alguma desculpa. Quem sabe eu posso fingir que levo um escorregão? Ou deixo cair meu estojo no chão? Ah, uma idéia, afinal! — Eu tenho novidades de arrasar! Ela se recosta no seu armário e me dá um sinal de OK. — Ah, é? O quê? Operação Distrair Tammy bem-sucedida! Hummm. Agora, como conto a ela sobre as novidades sem dizer nada sobre o fim de semana? Não quero entrar numa discussão sobre a sexta-feira, já que eu deveria mesmo tê-la convidado. Então, vou direto para a parte de arrasar. Peço a ela para ir comigo ao banheiro das meninas. Não quero hiperventilar na frente de ninguém. Quando a porta bate atrás de nós, eu falo toda agitada: — Raf me convidou para o Baile da Primavera!


Já que Tammy está bem a par da minha obsessão por Raf/Mick, espero que ela dê um pulo de contentamente. Ou, no mínimo, que sorria. Em vez disso, ela balança a cabeça e olha para mim como se eu tivesse acabado de contar que minha mãe é uma marciana (que, realmente, não estaria tão longe da verdade, já que ela é uma bruxa, mas... Ora, sei lá!). — Ficou doida? — pergunta ela. — Você não pode ir no Baile da Primavera. — Por quê não? — Do que ela está falando? Eu abro a torneira d'água, molho meus dedos, e passo nos meus cabelos. — Alô! O casamento do seu pai é nessa mesma noite. Epa! Tinha esquecido esse pequeno empecilho. Mesmo assim, isso não é motivo para Tammy vir com três pedras na mão e acabar com a minha alegria. Talvez, ela esteja com inveja de alguém ter me convidado, e ela não ter com quem ri ao baile. No espelho, vejo o rosto preocupado dela, olhos arregalados, os dentes da frente mordendo de leve seu lábio superior, e eu percebo o quanto sou idiota. Tammy não está com ciúmes. Ela está apenas dizendo o óbvio. Afinal de contas, ela recebeu um convite para o casamento. Ela não sabe nada sobre o novo talento de Miri, nem do nosso plano secreto, então é claro que ela acha que vou ter de ir ao casamento. — Acho que quando o Raf me convidou fiquei tão alucinada que esqueci que era na mesma noite — é a minha explicação. — Eu sinto muito mesmo. — Ela dá umas pancadinhas solidárias no meu ombro. — Não fique desapontada. Tenho certeza de que ele vai convidar você para o próximo baile. — O rosto dela brilha. — Tive uma idéia. Por que você não pergunta a seu pai se você pode levar um convidado? Pobre Tammy, não sabe de nada. Em primeiro lugar, eu nunca faria o Raf suportar um casamento, isto é, um show de horrores. Uma coisa é a Tammy estar lá, como minha amiga, mas um garoto que estou tentando fazer gostar de mim? Sem chance. Segundo, e mais importante, não há a menor


possibilidade, nunca mesmo, de eu deixar o Raf me ver naquela monstruosidade rosa-flamingo. — Ora, é uma boa idéia — respondo. Como se fosse. O sinal toca e eu acrescento: — Está na hora de a gente ir para a romeroom. Estamos subindo as escadas quando vejo o Raf aparecer no corredor, ainda vestindo o casaco. Ele se endireita todo quando me vê, e me faz um sinal para eu esperar. Depois de botar suas coisas no armário e pegar seus livros, vem na nossa direção. — Olá, garotas. — Oi! — Tem vezes que minha falta de criatividade me mata. Por que fico parecendo um robô perto de garotos como o Raf? — Oi, Raf — diz Tammy, sorrindo. Ele sorri, e eu noto que ele tem uma covinha em sua bochecha esquerda. Tão lindo! É incrível eu descobrir sempre alguma coisa nova e espetacular nele cada vez que a gente se encontra. — Correndo para ganhar outra competição de matemática? — ele me pergunta. Ele está me provocando! Mas que graça, não? — Não vou desistir até tirar o primeiro lugar — respondo. Ele ri e tamborila a caneta no seu caderno. — É só me contar quem é o cretino que derrotou você e eu dou um jeito nele. — Toca o segundo sinal. — Vamos para a aula. Vejo você mais tarde, Rachel. Eu expiro. Vejo-o desaparecer no corredor (Que bunda adorável! Tipo superdiscreta!) e então Tammy e eu subimos os degraus, dois de cada vez. — Vocês dois ficam tão lindos juntos! — diz Tammy, entusiasmada. — Então, o que está rolando? Vocês estão, bem... namorando agora? — Acho que não. Só saímos juntos uma vez. É mais ou menos isso. E ele nem sequer me beijou. Depois do show, ele me levou em casa (Porque era um encontro? Porque ele não queria que eu


fosse seqüestrada/seguida? Porque ele estava morrendo para passar mais aqueles poucos e preciosos momentos sozinho comigo? Quem pode dizer?) e, quando chegamos na minha porta, pensei: é agora!, ele vai me beijar, ele vai vir direto e por que, 'oh', por que eu não botei na boca aquele pedaço de chiclete de hortelã que ficou no meu bolso a noite inteira? Será que o chiclete era para fazer o que tem de fazer, de lá de dentro do meu casaco? Então, ele se inclinou para mim e... deu umas palmadinhas no meu ombro. No meu ombro. Tem alguma coisa errada com meus lábios? Já sei que são muito pequenos — o Raf nem olhou para eles. Talvez o Baile da Primavera seja a grande noite. Está decidido, vou investir num novo delineador para os lábios. De qualquer maneira, acho que é hora de contar à Tammy sobre sábado à noite, que foi quando ele fez o convite. É só deixar de fora os detalhes que levaram a isso. — Eu tenho um bocado de coisa para contar a você. — Parece mesmo. Você quer fazer alguma coisa depois do colégio hoje? Que dia é hoje? Ah, sim, segunda-feira. Desde o meu surpreendente quase encontro com Raf, minha cabeça tem estado confusa. — Não posso. Lamento. Tenho o ensaio. — Ah, é — diz ela, e baixa o olhar para os seus sapatos. Eu me sinto uma cretina por ficar dispensando a Tammy toda hora. Ela sempre foi uma boa amiga. — Por que a gente não faz alguma coisa na quarta-feira? Ela dá um meio sorriso. — Ah, é? Você não tem ensaio? — Não. As quartas-feiras a gente tem folga. A London tem Pilates. Vai ser ótimo. Você vai lá pra casa. A gente vê um filme. Talvez eu convença mamãe a pedir comida chinesa. — Boa idéia! — diz ela e me dá o sinal de OK. Achamos dois lugares junto à parede esquerda da homeroom é eu conto a ela meu quase-encontro.


* — Você viu o que a Janice Cooper estava usando hoje? — pergunta Stephy depois das aulas, no ensaio. Doree cai na gargalhada. — Sim, calças de montaria. Como aquelas dos anos 60. Não estava engraçado? Ela está numa das minhas aulas. Juro que, todo dia, só de ficar esperando para ver com que roupa ela vai aparecer já espanta meu sono. As demais garotas do elenco começaram a rir. Estamos sentadas nos bancos da cafeteria, aproveitando um intervalo de dez minutos. Estivemos trabalhando no número de dança com todas as garotas para o encerramento. Meus músculos da bunda estão me matando de tanto balançar. Jewel e eu fizemos um dueto de arrasar no qual a gente desce a passarela juntas, fazendo ondas com o corpo. Adoro fazer ondas com o corpo. Eu me transformo nas ondas do corpo. — O cabelo dela é da década de 1980 também — acrescenta Melissa. — Eu acho que ela faz mesmo permanente. Sei muito bem que os comentários delas são horríveis, mas acho que não fazem por mal. Fofocar é uma maneira de aliviar a tensão. Seja como for, estou num humor bom demais para deixar qualquer coisa me aborrecer. Eu vou ao Baile da Primavera! Eu vou ao Baile da Primavera! Mais ou menos. Ainda tenho de dar um jeito nesse pequeno e aborrecido problema, o casamento do meu pai, sobre o qual Tammy, generosamente, me chamou a atenção. Remexo na minha mochila para procurar a barra de chocolate que trouxe do supermercado. Enquanto minhas colegas de dança continuam a falar mal de todas as garotas ausentes, abro a embalagem. — Alguém quer um pedaço? — pergunto e dou uma mordida. Todas me olham, olhos arregalados, queixos caídos, completamente aturdidas. Será que eu deveria ter oferecido a elas antes de dar minha mordida?


Ora, não é pra tanto. Posso partir um pedaço da outra ponta. — Você vai comer isso? — pergunta Melissa. Ora, qual é? Ela também? — Por quê? Por causa dessa coisa na América do Sul? Elas continuam a me olhar. — Em menos de um mês, vamos dançar em frente à escola toda — diz Melissa. — Você sabe quantas calorias tem nisso aí? — Duzentas e setenta e duas — diz Doree, suspirando. Puxa-saco! — Onze gramas de gordura — acrescenta Melissa. Stephy chega ainda mais junto de nós. — Trinta gramas de carboidratos. Estou a ponto de embrulhar o chocolate novamente e escondê-lo na minha mochila quando Jewel diz: — E daí? Se ela está com fome, deixem que coma. Obrigada, Jewel! Dou uma segunda (e bem menor) mordida. — É fácil para você falar, Jewel — argumenta Melissa — Não é todo mundo que nasceu com seu corpo e seu metabolismo. — Ela dá uma olhada em minhas coxas. Acho que perdi a fome. Enfio a barra de chocolate na minha mochila. London entra no salão, com passadas largas, e nós todas saltamos de cima dos bancos e voltamos para os lugares marcados, cinco calouros à direita, cinco segundanistas à esquerda. Hoje ela está toda de verde. Por que ela está autorizada a ditar moda e a Janice só recebe gozação? Pessoalmente, acho que Janice parece ótima com seu estilo moda retrô, e já a London me lembra um M&M. (Ou talvez meu cérebro esteja fixado em chocolate.) — Prontas para uma última passada, meninas? — pergunta London, e nós assentimos. Não que a gente tenha outra escolha. As perguntas de London


são sempre ordens disfarçadas. — Excelente — diz ela. — Estamos quase terminando. Vamos fechar tudo no sábado. Depois, no domingo, quero fazer um ensaio geral. Por que não nos encontramos neste sábado à tarde às duas? Uma hora chega. Epa! Levanto minha mão. — Você não tem de levantar sua mão, Rachel. Aqui não é uma aula. Não vou pôr você de castigo. Melissa ri e minhas bochechas ardem. Será possível que tenham descoberto que fiquei de castigo? É coisa de idiota ficar de castigo? E eu pensando que isso ia me dar um ar de rebelde. Ou talvez elas nem saibam de nada e eu estou criando uma crise do nada. Abaixo minha mão e me sinto levemente ridícula. — Não posso ensaiar neste fim de semana. Vou estar na casa do meu pai em Long Island. — Mas que gracinha — diz London. — Você ainda faz essa coisa de passar o fim de semana com o seu papai? Ainda? Nunca soube que fosse uma coisa que a gente deixava de fazer quando crescia. — É que... eu tenho de ir. London suspira. — Rachel, o desfile é daqui a três semanas. E você só está conosco há uma semana. Quando a aceitamos tão em cima assim, avisei você que teria de dedicar todo o seu tempo ao trabalho, e agora você está dando para trás na sua parte do combinado. Isso é justo, Rachel? Por que ela está falando comigo como se eu tivesse sete anos? Todos os olhos estão fixados em mim. Tenho a sensação de que talvez Laura Jenkins não tenha desistido do desfile, talvez ela tenha sido chutada para fora. Por favor me diga que a London não vai surtar, agora. Acho que eu poderia até começar a chorar se ela surtasse.


— E-eu... — Por que eu estou gaguejando? — Eu tenho de ir para Long Island. Não tem a menor possibilidade de Miri fazer o feitiço da verdade na FMM sem mim. E se deixo de ir neste final de semana para a casa do meu pai, vamos ter de esperar mais duas semanas. E isso vai ser apenas uma semana antes de casamento. E se o feitiço não funcionar? Ainda vamos ter tempo de inventar outra coisa? — E se, em vez de sábado, a gente se encontrar no domingo antes do ensaio geral? — proponho. — Posso pegar o trem bem cedo de volta para a cidade. E desse jeito, todas temos o sábado livre. Jewel e alguns dos segundanistas assentiram com um movimento de cabeça. — Eu preferia me encontrar no sábado — debocha Melissa. Eu preferiria que ela calasse a boca. London pensa um pouco na minha proposta. — Certo. Talvez eu passe o sábado conversando com as figurinistas. Alguém quer vir comigo? Doree, é claro, levanta a mão. * Manhã de quarta-feira, e estou entrando correndo na escola, atrasada como sempre, ainda com meu casaco, quando uma London toda marrom obstrui o meu caminho. — Hoje — late ela. — Depois das aulas. Ensaio de emergência da abertura. Tem algo me lembrando que eu tinha combinado alguma coisa para hoje, depois das aulas. Pizza? Comida chinesa? O que foi? — Eu já tinha combinado outra coisa. Não é o nosso dia de folga? London torce seu nariz, como se tivesse provado uma coisa e achasse o gosto muito ruim, como macarrão ao queijo com ketchup (Miri faz dessas


coisas. Será que precisa mesmo pôr ketchup em tudo?), então, põe as mãos nos quadris. — Eu não vou deixar que minha abertura fique uma bagunça. Minha abertura vai ser perfeita. Está entendendo? Perfeita. E meu Pilates está cancelado. Você também acha que a minha instrutora poderia ter esperado até depois do desfile para dar à luz, não acha? Tammy! Eu combinei um programa com a Tammy. — Mas... — Nada de mas, Rachel. Se você vai criar caso para ir em todos os ensaios, então vai sair do meu desfile. Criar caso em todos os ensaios? Mas, se vou sair da casa do meu pai mais cedo para poder estar no ensaio. Isso não conta nada? — Tudo bem. Ela assente com a cabeça. — Três horas em ponto. Logo que ela some da minha vista, corro para o meu armário. Tammy está fechando o dela. — Ei, Tammy — digo, já sem fôlego —, guarde um lugar para mim na aula, tá? Vou para lá em dois segundos — Não se preocupe. Eu espero por você. — Ela se recosta no armário. Adivinhe o que eu aluguei ontem? O DVD do Guerra nas Estrelas. Bom, né? E arranjei aquela pipoca de microondas que você adora. Do tipo com muita muita muita manteiga. Minha boca saliva. Então, penso na barra de chocolate, o que me faz pensar no desfile. — Tammy, sinto muito, mas a London está me obrigando a ir a um ensaio depois das aulas hoje. O sorriso dela murcha como uma planta que foi colocada no armário.


— De novo? Eu empilho os livros de que vou precisar no chão e bato a porta. — É. — Você não pode faltar? — Juro que tentei. — Tudo bem! — diz ela, e vai embora furiosa. O que houve? Não posso acreditar que ela tenha feito aquilo. Não é minha culpa. O que eu posso fazer? Não posso deixar de ir ao ensaio. Por que a Tammy tem de se comportar como a rainha de um drama? Pego meus livros e corro para a homeroom. Tammy está sentada perto da porta, ao lado de Annie, e não guardou lugar para mim. Hummpf! Eu estou quase pegando um lugar onde vou ficar sozinha quando a Doree gesticula me chamando, da fila da frente. Bem, obrigada, Doree. Preferiria mesmo me sentar com ela hoje. Pelo menos, não vai me botar culpa. — Ei, sexy — diz ela enquanto corta fotos de modelos de penteados de uma revista. — Então, é verdade? Raf convidou você para o Baile da Primavera? Isso, sim! Diversão, conversa de meninas. — Foi. Como você soube? — Justin me contou na noite passada no telefone! Não posso acreditar que você não me contou antes. Que tal se a gente fosse juntas? Podíamos alugar uma limusine. Você já comprou a roupa? Eu estou tentando decidir o que vou fazer com meu cabelo. Como vai ser a sua maquiagem? Sem dúvida, isso sim! — Eu não sei. E a sua? Sinto os olhos de Tammy em mim, mas não me viro. Ela que vá dividir a


sua pipoca com muita-muita-muita manteiga com a Annie.


16. FMM SEM QUERER JURA DIZER A VERDADE, TODA A VERDADE E NADA ALÉM DA VERDADE

— Então você vai embora domingo cedo? — pergunta Miri. É noite de sexta-feira e estamos deitadas, espremidas como duas sardinhas no quarto que a gente divide em Long Island. Miri quer conversar, mas eu estou exausta depois de uma semana infernal de ensaios. Tive ensaios todos os dias depois do almoço e depois das aulas. O único número do qual participo e que ainda tenho necessidade de trabalhar é a dança dos calouros. Embora Melissa ainda esteja fazendo a coreografia, estou um bocado ansiosa, porque é nesse que vou dançar de novo com o Raf. Sinto um pouco de culpa por deixar meu pai tão cedo no domingo mas, realmente, é a minha única opção. Se eu não fizer isto, vou ser chutada do desfile. Já estou aborrecida por estar perdendo a grande festa no apartamento de Sean Washington. Todo mundo vai estar lá. Todos, exceto eu. Pelo menos, desta vez, não vou perder a festa porque não fui convidada. — Por que você não sai cedo comigo? — proponho — Não — responde ela, apontando seus dedos recém-forrados de bandaid, para o teto, para que ela possa ficar olhando para eles desgostosa. — Preciso ver o que vai acontecer com o feitiço e ter certeza de que vai dar certo. Quer dizer, certo de verdade. A cena de hoje, quando nos pegaram no trem, foi idêntica à última. Mais uma vez, FMM deu uma de Médico e Monstro. No que papai, todo contente, nos levava para o carro, FMM estava um xarope de meiguice. Disse a eles que tinha de sair cedo no domingo e ela disse que era bom que eu estivesse participando das atividades escolares. Mas, no segundo em que ele fechou a


porta do carro para pegar comida chinesa (depois do seu exibido "Querido, não esqueça meus pauzinhos!"), ela virou feito chicote sua cabeça e cravou os olhos em mim. — Você esqueceu nosso compromisso marcado no domingo? Eu murchei, ali mesmo onde estava sentada. — Agora, vou ter de remarcar. Tudo bem. E, Miri, como estão seus dedos? Melhoraram? Miri cruzou seus braços e forçou suas mãos fechadas para debaixo das axilas. Não era exatamente sua posição mais favorável. — O casamento será em três semanas — lembrou-nos FMM, como se pudéssemos ter esquecido. — Lá vem seu pai. Aposto que ele esqueceu meus pauzinhos. O que eu não entendia é porque ela simplesmente não compra os tais pauzinhos. Ora, e daí? Não tem muita coisa nela que eu seja capaz de entender. Quer dizer, por que ela ainda quer se casar com o meu pai, afinal de contas? É óbvio que não gosta das filhas dele. Papai entrou no carro, colocou a comida no colo da FMM e deu partida. — Você se lembrou dos meus pauzinhos? — perguntou. Ele bateu a mão na testa. — Epa! Quer que a gente volte lá? — Ah, deixa, querido. Não vale a pena. Como pode a FMM ter duas caras? Ela é como aquele cereal! congelado que é doce de um lado, crocante do outro. — Mal posso esperar para acabar com ela com o feitiço da verdade — digo para a Miri, que está agora fazendo figuras de sombra com seus dedos de band-aid. Fecho meus olhos e me deito de bruços. — Logo ele vai ver que mulher horrorosa ela é, e vai ser o fim desse falso oh, querido! Então, quando vamos colocar nosso plano em ação? — Em uma hora mais ou menos.


Ping! Meus olhos se arregalam. — O quê? Mas eu estou caindo de sono. — Você não está dormindo ainda. Está conversando. — Eu estou quase dormindo. — O feitiço precisa ser feito à meia-noite — diz ela. Seus olhos estão brilhando no escuro. — Esse abracadabra é uma droga! — É o que o livro diz. Temos de fazer direito ou não vai funcionar amanhã, quando dermos ele pra FMM. Puxo as cobertas até minha cabeça. — Você precisa mesmo da minha ajuda? Você não disse que esse feitiço não tem frações complicadas? Alguma coisa pesada chuta meu pé. Acho que Miri acabou de atirar o travesseiro dela em mim. — Mesmo assim, preciso de você! — diz ela. — Você é a Testemunha Cósmica. Tudo bem, seja lá o que isso for. — Vou tirar uma soneca rápida — digo, na minha voz mais chateada, e deixo meus olhos pesados se fecharem. — Me acorde quando for a hora. A coisa seguinte que eu sinto é ela me sacudindo. — Está na hora. Gemido. — Não acredito que já passou uma hora. — Eu a observo abrir as persianas e levar o copo d'água que ela havia enchido antes para o peitoril da janela. Ela pega o recipiente emprestado do laboratório da escola, um punhado de folhas de hortelã e duas amêndoas de sua mochila, então começa a


esmagar as amêndoas num papel-toalha com uma colher. Isso feito, coloca todos os ingredientes no recipiente, então volta para a janela. — Pelo menos não está nublado aí fora. O feitiço não funciona se a gente não puder ver a lua. — Ela pigarreia e murmura: Que a honestidade seja clara à meia-noite. Deixe FMM... Miri bate sua mão na testa. — Eu quis dizer Jennifer. Não sei se posso usar um apelido. Vou ter de começar de novo. Dois gemidos. Ela coça a cabeça como se estivesse pensando. — Mas, já que a gente a chama FMM, acho que tenho de me referir a ela desse jeito mesmo. — Um dos band-aids se prende em seu cabelo e fica pendurado, como se uma mola tivesse se soltado de seu cérebro. — Mas, será que o feitiço vai ficar confuso se a gente não chamá-la de Jennifer? Em vez disso, por que eu não digo Ela Que Bebe o Feitiço? — Parece bom — resmungo. O que importa? Eu quero é voltar a dormir. Miri pigarreia de novo. — Já clareou, agora! Ela esfrega o rosto e enruga seus lábios, bem concentrada. Que a honestidade seja clara à meia-noite. Deixe que Ela Que Bebe o Feitiço mostre suas cores verdadeiras. Isto eu ordeno no que estou sob a luz da lua, Deixe que as palavras dela soem sinceras e certas.

Apesar de estar debaixo das cobertas, sinto aquele tremor de frio de sempre. Ela agita o vidro, tapa com uma rolha e o deixa no chão ao lado da sua cama. Mas, isso foi um feitiço? Não pode ter sido o feitiço


— Dessa vez, nem rimou — digo. — Não são todos os feitiços que têm de rimar. — Acho que gosto mais quando eles rimam. E esse ia ser fácil de rimar. Quem quer que o tenha escrito, fez isso na maior preguiça. Era só trocar o certas por certeiras. — O jeito para a poesia do Raf devia estar me contaminando. — Tá, mas e as palavras noite e lua! Queimo minha mufa, procurando uma rima, mas não adianta. — Ei, tenho de pensar em tudo por aqui? Ela volta para sua cama e afasta o cabelo do rosto. — Envie seus comentários para o departamento de reclamações. — Tem um departamento de reclamações? Onde fica? Numa caverna? — Eu estou brincando — diz ela. — Ah, boba! — Eu a fuzilo com os olhos. Ela faz a parte engraçada enquanto tudo o que me resta é ficar como Testemunha Cósmica. Que chatice. Onde está a justiça cósmica nisso? * — Meninas, acordem! Que barulho é este? Por que estão gritando dentro da minha cabeça? Abro meus olhos devagar e dou com FMM na minha frente. — Consegui marcar uma prova de emergência para experimentar roupas às oito horas. Oito horas? Isso significa que... levanto minha cabeça apenas o suficiente para ver o brilho vermelho dos números do relógio... 7:05. 7:05 de sábado? Ela tem de sumir. — É muito cedo — ouço, da cama de Miri. Ela deve estar se


escondendo, porque tudo o que consigo ver é uma maçaroca de cabelo castanho ondulado. Os cabelos da FMM estão arrumados e sedosos, e sua maquiagem está impecável. Provavelmente ela vai para a cama já totalmente maquiada. — É a única hora em que a Judy pode nos atender — explica ela. — E temos de agradecer a ela por isso. Agora, levantem-se. O ônibus sai às sete e meia. Ônibus quer dizer o Lexus comprado com o dinheiro do meu pai. Talvez Miri devesse transformá-la num motorista de ônibus de verdade. Como se ela já tivesse pensado algum dia em trabalhar para ter seu próprio dinheiro. Posso visualizar perfeitamente a FMM vestindo um colete de motorista amarelo fosforescente. — E eu apreciaria, Rachel, se você arrumasse o seu lado do quarto antes de sair — adverte ela, ao atravessar a porta, toda acelerada. Ela quer que eu me levante, tome o café-da-manhã e arrume o quarto? Em vinte e cinco minutos? — Você tem de cuidar dela agora mesmo — cochicho para Miri. — Dê um banho nela com essa coisa. Miri põe os chinelos e balança sua cabeça. — Ela tem que beber a mistura, lembra? Você não prestou atenção? O feitiço foi para Ela Que Bebe o Feitiço. — Então, precisamos botar no café dela — sugiro. — Quando a gente parar na cafeteria, você corre para dentro e derrama a poção na xícara dela. — Por que você não faz isto? — Porque eu faço tudo por aqui. Verdade. — Parece justo. Mas por que vou me oferecer para pegar café para ela? Ela sempre faz isso sozinha.


Ela ajeita o band-aid em seu dedo polegar. — Diga a ela que você também quer um café. Diga a ela que você deu para beber café agora. Tomo o banho mais rápido da minha vida — quantas gotas podem cair em três segundos? E, quando saio do banheiro, tanto a minha cama como a de Miri estão arrumadas, e perfeitas. Não sei se ela fez isto manualmente ou magicamente, mas, seja como for, eu aprovo. Dois pedaços de torrada e vinte minutos mais tarde, estamos prontas para sair. Logo que nos ajeitamos no carro, FMM declara: — Vamos fazer uma rápida parada na cafeteria. Ela parece surpresa quando digo a ela que também quero café e me ofereço para pegar o dela. Ela dá de ombros e me entrega vinte dólares. Está pagando pela própria ruína! Adoro isso; é tão cruel. — Eu quero um macchiato gelado com cobertura de caramelo, com leite de soja e metade de um adoçante artificial — pede ela. — Eu também! — grita Prissy do banco de trás. — Posso tomar também? — Não, querida — diz FMM. — Café vai atrapalhar seu crescimento. Olho para o meu peito. Todos os tipos de crescimento? Não posso me dar ao luxo de correr esse risco. Peço dois dos cafés que FMM me mandou trazer para ela a uma mulher bem baixinha com uma mecha branca como a de um gambá em seu cabelo negro. Tanto faz pegar o mesmo café que FMM pediu, mesmo não tendo a menor idéia do que seja. — Qual o tamanho? — pergunta a Mulher Gambá. Ri-Ri! Ela perguntou pelo tamanho? penso, olhando obcecada para meu peito. — Pequenos. — Infelizmente. — Altos? Talvez ela não tenha me escutado.


— Não — retruco. — Pequenos. — Um copo alto é pequeno. — E a coisa mais ridícula que já ouvi. — Além disso, se ela sabe que pequeno é alto, por que ainda pergunta? Ela suspira. — Você quer o café ou não? — Sim, por favor. O mundo do café é mais complicado do que pensei. Eu pago e ela me manda esperar na ponta do balcão. Depois de eu observar os pedidos de um zilhão de outras pessoas "Café com leite desnatado!," "Cappuccino! Frappuccino!", meus dois cafés ficam finalmente prontos. Bem escondido, tiro o recipiente da minha bolsa e derramo uma pequena quantidade de poção no copo de FMM, então coloco o recipiente de volta na minha bolsa. Depois acrescento adoçante artificial nos dois copos. De volta ao carro, quando estou a ponto de dar o copo para ela, fico paralisada por culpa da minha própria falta de cuidado. Nossos dois cafés parecem exatamente iguais. Em qual deles coloquei a poção? Miri observa minha hesitação e baixa a cabeça entre as mãos, desesperada. Se eu sair tagarelando a verdade por toda a cidade, vai acabar dando algum problema. Preciso pensar. Tento me lembrar com qual mão estava segurando cada café... O dela estava na esquerda. Sem dúvida. Dou para ela o da esquerda. Ai, ai... Acho que cometi um engano. Ela, imediatamente, dá um gole. — Parece que eles colocaram hortelã. Isso! Dei o café certo a ela! Quando paramos no estacionamento da costureira, pergunto à Miri: — Quanto tempo vai levar para funcionar? Ela dá de ombros.


Eu continuo. — E como a gente desfaz o feitiço? Ela dá de ombros novamente. Então, ri. — Eu trouxe todas as coisas que a gente pode precisar para fazer o antídoto, se der algum problema – cochicha ela. Problema? Nós podemos ter problemas? Você não disse nada sobre isso. * — Obrigada por nos receber assim tão de surpresa — diz FMM para Judy. — Rachel pede desculpas. Miri, você primeiro. Você sempre é a mais difícil. Odeio ela. Para manter minha boca ocupada o bastante para evitar de responder a ela, tomo outro gole do meu delicioso café. Miri fica já emburrada assim que entra no quarto para mudar a roupa. Talvez eu devesse acidentalmente derramar o café em nossos vestidos muitofeios, assim não teríamos de usá-los. Prissy está de joelhos, brincando com retalhos de vestidos já prontos no chão, com uma mão, e a outra enfiada em seu nariz. FMM está olhando de um jeito estranho para o teto. Logo Miri, vestida em seu guardanapo de pano completamente rosa, entra de volta, batendo os pés, no quarto principal. — Uau, Miri! — exclama FMM. — Você está encantadora. Parece uma princesa. Eu quase deixo cair meu café. Miri parece em estado de choque. — Quando eu era da sua idade — acrescenta FMM, piscando sem parar —, sempre quis ter um vestido como esse. Vocês vão ficar maravilhosas nos retratos. — Ela suspira. — Rachel, não sei como você pode ter esquecido a prova. Achei que estariam aguardando ansiosas para ver como ficou o vestido. Eu estava. Eu me divirto muito quando passamos algum tempo juntas, só nós,


mulheres. Do que ela está falando? Judy olha para ela. — A senhorita está bem, Srta. Abramson? FMM confirma num movimento lento de cabeça. — Estou muito feliz. Tenho muita sorte, sabe? De ter encontrado o amor pela segunda vez. — Você é sortuda, mamãezinha — cantarola Prissy. — E eu vou ser uma princesa. A gente deve ter dado o feitiço errado a ela. O feitiço da bola de queijo boba e derretida. Miri e eu trocamos olhares nervosos através do espelho, esperando que ela fale novamente. Mas ela só abre a boca cinco minutos depois, quando eu já estou com o meu vestido. — Você está tão bonita também — declarada, e solta um suspiro. Ficou doida! Eu não estou bonita. Mas me pareço um pouco com Glinda, a Bruxa Boa. Aperto bem meus olhos e, silenciosamente, cantarolo: "Faça a FMM derramar seu café neste vestido, faça a FMM derramar seu café neste vestido..." Talvez, se eu agir como uma bruxa, isso vá despertar meus poderes. Talvez eu engane as Parcas, e as faça pensar que eu deveria virar uma bruxa já que estou vestida que nem uma! FMM atira seu copo, já vazio, na lixeira. Acho que não funcionou. Enquanto FMM ajuda Prissy a trocar seu vestido, cochicho para Miri: — Acho que você estragou as coisas de novo e fez ela começar a delirar. Miri parece aterrorizada. — Eu sei. Tem alguma coisa estranha. O que nós podemos fazer agora?


Quando elas saem do quarto de troca de roupa, FMM está brincando com os cabelos de Prissy. — Gosto muito de você, querida. Sabe o quanto? Mais do que as estrelas no céu. Mais que um trilhão de bilhões de estrelas! Ela está falando feito bebê agora? Não tem dúvida, alguém deu um fora daqueles! — Será que demos a ela a poção da bondade? — digo à Miri. Só pode ser! Deve ter sido a poção da bondade. Pelo meno é o que eu fico achando até que a FMM liga para meu pai pelo celular, na hora em que a gente já está voltando para o carro. — Já terminamos na costureira e estamos voltando para casa... Onde você está? No escritório?... Não, não estou nada contente que você esteja no escritório. Suas filhas vieram visitá-lo e elas querem ver você. Rachel tem de voltar cedo no domingo, e essa é outra razão para você vir logo para casa. Você pode ir ao escritório na segunda-feira. E seria ótimo se você pudesse preparar um brunch para nós. Então, ela desliga. O que foi aquilo? Miri chuta as costas do meu assento no carro. Não posso acreditar que a FMM tenha chamado a atenção do meu pai. Nunca a vi falar assim com ele. Nunca. Eu me viro e troco um olhar com a Miri. Será que o feitiço tinha começado a funcionar? Meu pai, finalmente, vai conhecer a horrível mulher que ela é? Chegamos em casa e já encontramos meu pai na cozinha, curvado sobre uma frigideira no fogão. Ele nunca cozinhou em toda a sua vida. Sempre achei que ele nem mesmo sabia como era uma frigideira, nem se importasse onde poderia encontrar algo do gênero. — Como estão minhas meninas favoritas? — pergunta ele. — Bem — nós respondemos ao mesmo tempo. Prissy dança pelo chão da cozinha com suas meias.


— Eu pareço uma princesa com meu vestido, não é, mamãezinha? No casamento, vou usar batom e sombra verde e... — O que você está fazendo? — interrompo, colocando meu braço ao redor da cintura do meu pai. Ele quebra um ovo. — Ovos com salmão defumado. FMM beija-o na bochecha. — E para a Miri? E para a Miri? Como é que é? Miri e eu ficamos paralisadas junto à mesa da cozinha. — Ela pode comer a mesma coisa — diz meu pai. — Não é carne. FMM suspira. — Querido, será que você consegue ter alguma consideração pelas outras pessoas? Você sabe que ela não come peixe. Às vezes você é tão egoísta. Você tem essa tendência a se concentrar apenas no que você quer, não no que pode fazer os outros felizes. Como ontem, quando eu lhe pedi para trazer pauzinhos e você nem mesmo se deu ao trabalho de se lembrar. Nós todos seríamos mais felizes se você tivesse consideração pelos sentimentos das outras pessoas. E por suas preferências alimentares. Hein?... Será que fui transportada para um universo alternativo? Será que o corpo da FMM foi tomado por uma alma alienígena? Estou chocada. Meu pai, Miri e até Prissy estão chocados. Se nossos queixos caíssem, se quebrariam naquele chão perfeitamente limpo. Acho que ninguém jamais chamou meu pai de egoísta. No tempo todo em que ele foi casado com minha mãe, nunca a vi chamar a atenção dele. O rosto dele se contorce numa expressão que nunca vi antes. Sua boca fica toda torcida e curva. Ele vai queimar um fusível. Vai ter um ataque. Vai dar um grito mais alto do que o mais ensurdecedor show de rock dos últimos tempos.


Ele abre a boca. Ele fecha a boca. Ele abre a boca novamente. Chegou a hora, como naqueles filmes de ficção científica com ótimos efeitos especiais. — Desculpe — diz ele. — Não percebi que estava sendo egoísta. Vou tentar ter mais consideração pelos outros. — Ele divide os ovos e serve os pratos. — Miri, o que eu posso fazer para você? Que tal umas panquecas? Aimeudeus. Miri olha para mim e depois para meu pai. — Obrigada — responde ela lentamente. Nosso feitiço deve estar funcionando. FMM está dizendo o que realmente pensa. Num segundo, ela vai começar a brigar conosco. A não ser meu pai, que ainda está cozinhando, estamos todos sentados na mesa da cozinha. Agora ia ser ótimo, Querida Monstra. Vamos lá, entre em ação. Comece a implicar conosco. Ela sorri para mim. Hora de tomar o controle em nossas mãos. Literalmente. Cutuco Miri por debaixo da mesa e faço sinal para que ela comece a roer suas unhas. Ela faz um sinal, concordando. Então, arranca fora o band-aid de todos os dedos e os ataca na maior, como se não comesse há semanas. Ela mordisca, ela mastiga ruidosamente, ela arranca, ela rasga. É uma festa. FMM acaricia a cabeça dela. — Miri, percebo que estou lutando uma batalha perdida com seus dedos. Assim sendo, vou parar de pertubá-Ia. Mas quero que você saiba que estou tentando fazer com que você pare porque sei como é difícil acabar com esse hábito. Eu também roía minhas unhas e prejudiquei seriamente meus dentes, sem falar nas pontas na pele por debaixo dos dedos. Também ficava doente toda hora, porque os germes que havia em meus dedos penetravam no meu organismo. O truque do band-aid funcionou comigo, e eu esperava que pudesse funcionar com você. Mas acho que eu estava enganada.


Miri pára de roer as unhas e olha para mim pedindo por ajuda. Mas eu estou tão confusa quanto ela. Por que FMM não está sendo cruel? For que ela não está disparando aquelas agressões, que parecem a cortada da bola de vôlei, sobre a rede? Temos de tentar alguma coisa mais. O que mais poderia perturbá-la? Examino a sala com cuidado e paro na camisa de listras amarelas que meu pai está vestindo. Ele está agora fazendo as panquecas, e não mudou de roupa desde que voltou do escritório. Está usando um dos mais medonhos artigos de seu vestuário. — Camisa interessante, pai — comento. — Você não gosta dela, Miri? — Ah, adoro — diz ela. É isso! Aponto para a atrocidade amarela. — Jennifer, o que você acha dela? — Não gosto nem um pouco — admite ela. Isso! Meu pai olha para sua camisa, surpreso. Ela contrai os ombros. — Faz você parecer uma banana! Prissy ri. — Uma banana! Você parece uma banana! Tento disfarçar um sorriso, tapando a boca com a mão. Foi demais. O que ele vai dizer agora? Será que vai continuar parado ali, sendo insultado? A cozinha está tão silenciosa que consigo ouvir o crepitar das panquecas. — Verdade? — diz ele, finalmente. — Mas você nunca disse nada. Falando nisso, Miri, você quer bananas em suas panquecas? — Hum... claro! — responde ela. Prissy se remexe em sua cadeira.


— Posso comer também bananas com os meus ovos? — Não, querida, bananas não combinam com ovos — observa FMM e então volta-se para o meu pai. — Eu sei, e já devia ter falado nisso. Às vezes, seu gosto para roupas não é dos melhores. Ele vai explodir. Ele vai largar a banana que está cozinhando para Miri e vai explodir. Ele balança a cabeça e... ri. — Jurava que você gostava desta camisa. É só por isso que continuo a usá-la. Por que ele está rindo? Ela simplesmente insultou o guarda-roupa inteiro dele! Ele devia ficar ofendido. Ela põe um pouco de sal nos ovos. — Bem, não gosto. Sinto muito. Ele se vira do fogão. — E há outras roupas no meu guarda-roupa de que você não goste? — Seguramente. — Ela mastiga devagar, parecendo fazer um inventário mental de todas as roupas dele. – O suéter verde fosforescente? Eu não o usaria em público se fosse você. — Bem que gostaria que você me dissesse sempre essas coisas. Confio em você para ser o meu espelho para o mundo lá de fora. — Ora, podemos checar todo o seu guarda-roupa depois do brunch. Vamos reunir tudo o que não cai bem em você e doar para um asilo. — Obrigada, Jen. Vou gostar disso. E então ele se curva sobre a mesa e a beija. Sim, ele a beija. Mas, não foi isso que a gente planejou. Quando ele finalmente se afasta, FMM sugere: — Por que não fazemos um desfile de moda com suas coisas, igual ao desfile de Rachel? Rachel, você pode mostrar a seu pai como se anda na passarela? Plano abortado! Plano abortado! Por que estão eles planejando


atividades familiares embaraçosas e horrendas em vez de gritar e berrar? — Quando é o desfile, Rachel? — pergunta meu pai. — Sinto muito. Esqueci a data. — Sexta-feira, na noite antes do Baile... Quer dizer, do casamento de vocês. — Epa! Percebi a tempo. — Querido — diz FMM. — Você já sabia disso. Foi por isso que marcamos o jantar de ensaio para quinta-feira à noite. Estou louca para vê-la no desfile, Rachel — continua ela. Seus olhos estão piscando furiosamente e ela remexe na orelha, como se não pudesse acreditar no que está ouvindo de sua própria boca. — E estou muito orgulhosa de você. Miri deixa cair uma garfada de panqueca de banana. — E estou orgulhosa de você também, Miri. Juro. O fato de você ter se dedicado a treinar tae kwon do demonstra um excelente equilíbrio e determinação. Você é um modelo maravilhoso para Priscilla. Vocês duas. A não ser o desleixo de Rachel. Sei que acham que sou dura com vocês duas — continua FMM —, mas é apenas porque me preocupo com vocês e quero que aprendam a ser ótima pessoas. Os olhos de meu pai começam a ficar marejados, ele está tão feliz! Eu estou a ponto de jogar meus ovos fora do prato. — Hãã... obrigada. Hum... Miri, posso falar com você por um segundo? Ela pula de sua cadeira. — Claro. Já acabei mesmo. Arrasto-a escada acima pelo cotovelo e fecho a porta. — O que você fez? Este não é o feitiço da honestidade. É o feitiço do vou vomitar. — Juro que segui as instruções direito — diz ela, balançando a cabeça, desanimada.— Não sei o que está acontecendo. — Só pode ser um feitiço trocado. Essa aí não é a FMM sendo honesta. Ela não acha que a gente seja modelo coisa nenhuma. Ela odeia a gente! —


Eu estreito meus olhos. — E nós a odiamos. Essa coisa está fazendo papai gostar dela mais ainda! Você tem de fazer um antídoto. Você tem de reverter esse feitiço! — Não posso reverter se não sei que feitiço é esse. — O rosto dela ficou sombrio. — Só tem um jeito de a gente descobrir. — Então, ela diz, bem devagar: — Uma de nós tem de beber a mistura. — Não olhe para mim. Não vou tomar outra poção. E se ela neutralizar o feitiço da dança? Tenho um compromisso amanhã. Você é que vai ter que tomar essa droga. Ela concorda, morde seu dedo, refletindo, então se afasta. — Está bem, eu tomo. Tiro o recipiente da minha bolsa e ela engole o resto da poção. — Acho que vou vomitar — diz ela. — Tem gosto de lixo. Ouço risinhos vindos do quarto do meu pai e de FMM. — Este suéter é tão feio! — grita FMM. — É tão feio que não serve nem para dar. Vamos ter de queimá-lo. Rachel, Miri, venham, fiquem aqui com a gente! — chama ela. Vai ser mais engraçado ainda com vocês aqui! O que está errado com ela? — Num minuto! — grito de volta. Aparentemente, o desfile de modas de depois do brunch já começou. Deito na minha cama, ponho meus calcanhares contra a parede e fico olhando para Miri. Ela está sentada no meio do quarto, piscando sem parar. — Está funcionando? — pergunto. — Sei lá! — Que tal começar perguntando algumas coisas. Como num teste de detector de mentiras. Seu nome é Miri? Ela vira seus olhos. — É. — Como você está se sentindo hoje?


— Eu estou chateada com você porque você vai embora amanhã cedo. — E no que as palavras saem de seus lábios, ela tapa a boca. — Epa! — O quê? — Você estou chateada comigo? Ela confirma. — Não posso acreditar que disse isso. — Você não pode ficar chateada comigo. — Por que não? Você está me abandonando para ficar com seus amigos. É o nosso tempo de ficar juntas. Acho que você está sendo egoísta. Ontem eu tive de jogar paciência na cama para conseguir ficar acordada até a meia-noite. — O rosto dela estava muito triste. — Por que você não esperou, acordada, comigo? E então você me fez sentir culpada por acordar você. Minhas bochechas estavam ardendo. — Mir, eu estava exausta. Desculpe. — Tem mais! Sei que você está com ciúmes dessa coisa toda de bruxa e isso me faz sentir mal. Não sei por que tenho o dom e você, não, mas não é minha culpa. E estou assustada. Assustada de verdade. Estou com medo de provocar, sem querer, um desastre de carro, ou começar uma guerra. E eu não gosto de fazer feitiços por minha própria conta. Eu inventei essa história de precisar de uma Testemunha Cósmica. — Ela começa a piscar sem parar. — Para falar a verdade, estou morrendo de medo desse tal poder. Miri... com medo? Saio da cama com um salto mortal para trás e deito minha cabeça no colo dela, colando minha orelha no seu joelho. — Vou tentar ser mais atenciosa, está bem? Mas eu tenho mesmo de ir embora amanhã cedo. Não tenho outro jeito. Se eu não estiver nesse ensaio, vou ser expulsa. E você não quer que isso aconteça. Quer? Ela faz que não, balançando a cabeça e agita as mãos no ar, como se estivesse tentando chamar atenção de alguém. — Toda essa história do show é estúpida. Sei que é assim que o


pessoal do último ano consegue dinheiro para o baile de formatura, mas acho tudo só uma desculpa para um elitismo detestável. Ela dá um tapinha na boca de novo, abafando um grito. — Desculpa! — Acho que o feitiço está funcionando, né? Ela concorda, a boca ainda tapada. — Meninas? — chama FMM do corredor. — Vocês vêm para cá? Cubro o livro de feitiços com os pés e Miri esfrega seus olhos. FMM abre a porta sem bater. — Queria que vocês passassem mais tempo comigo, meninas. Sei que vocês acham que sou insuportável, mas eu só me irrito quando acho que vocês estão fazendo alguma coisa errada. Queria que vocês gostassem de mim. Ora, vamos ser uma família. Eu vou será mãe de vocês e... — Nós já temos uma mãe — interrompe Miri. Epa! Duas pessoas que falam a verdade não pode dar em boa coisa. FMM assente com a cabeça. — Eu sei disso. Sua pobre mãe. Eu sinto um peso na consciência quando penso nela. — Ela lambe os lábios, como se toda essa honestidade os estivesse deixando secos. — Tem vezes em que eu me preocupo se seu pai um dia vai deixar de gostar de mim e me deixar. Ele é tão maravilhoso. Tão inteligente, generoso, amoroso e cheio de energia. Sou louca por ele e isso me apavora. Pode ser que eu fique tratando vocês com tanta dureza porque quero manter uma distância emocional no caso de ele me deixar. É demais. Não quero escutar as inseguranças e os medos mais profundos da FMM. Ainda mais quando estou tentando fazer com que esses medos se tornem realidade. Miri concorda. — É o que a gente espera que...


— ...nunca aconteça — corto eu, antes que ela nos deixe de castigo pelo resto da vida. FMM sai do quarto. — Bem, venham ficar conosco quando terminarem. — Ficou doida? — cochicho para Miri. — Não consegui me segurar. Se demorasse mais, eu ia saltar de pé e anunciar em voz alta que sou uma bruxa. — Ela me dá um sorriso acanhado. — Acho que o feitiço funciona mesmo. — Bem, você bebeu um bocado da mistura. O que isso significa então? Que a FMM gosta de nós? Será que ela acha que realmente somos modelos de pessoa? Será que ela sempre agiu diferente do que é na verdade? E ela espera que a gente se torne uma família? Eu não vou nessa. Nem estou aí para ela! Ela não é boa o bastante para o meu pai. Mas uma coisa que ela disse está me perturbando, como uma etiqueta deixada no avesso da minha calcinha, arranhando meu traseiro. Foi sobre ter medo de meu pai parar de gostar dela. É por isso que eu nunca brigo com ele? E por que não digo que suas roupas são feias? Será que também tenho medo que ele pare de me amar? Como ele fez com a mamãe? Essa sinceridade toda magoa meu coração. — Antídoto — falo. — Para vocês duas. Agora. Ela começa a misturar.


17. PLANO C

— Oi, Bee-Bee! — exclama Jewel, beliscando minha cintura. — Como foi seu fim de semana? — Bom. E o seu? Meu fim de semana não foi nada bom. O que é que vou fazer? Meu pai nunca vai deixar de gostar da FMM se nossos planos continuarem dando errado. — Doideira! A gente foi pra a casa do Sean na sexta-feira. Gemido. — Foi legal? — Quem sabe um cano estourou e o apartamento teve de ser evacuado? — Fantástico! — interrompe Melissa. — Que pena você não ter podido aparecer. Espero que precisar vir para cá hoje não esteja sendo muito inconveniente. — Ela está deitada de costas na mesa da cafeteria, seu queixo apontado para o teto como se estivesse se bronzeando. Como é que é? Mas que jeito é esse de falar? A London aparece vinte minutos atrasada, vestida toda de vermelhoframboesa. Calças de malha vermelhas, top vermelho, sapatos vermelhos de corrida. Parece até que está toda sangrando. Passamos as duas horas seguintes ensaiando. E, eu tenho de dizer, sou ótima. — Não tem jeito de eu conseguir fazer aquele movimento — reclama Jewel, com as mãos nas cadeiras. — O rodopio no final? — pergunto, bamboleando vagarosamente até


ela. — Deixa que eu mostro para você. Melissa se mete entre nós. — Eu posso mostrar a ela — diz ela, arreganhando os dentes num sorriso. Por que parece que ela quer arrancar minha cabeça com uma dentada? Jewel era minha amiga primeiro. Essa guria tem é muita cara-de-pau. — Ei! Qual é o problema? Ela aponta o dedo para o meu rosto. — Você! Epa! Isso está ficando meio esquisito para mim. Ela não vai brigar comigo, vai? Não tenho idéia do que fazer numa luta; esse é o departamento da Miri. E ela é muito mais alta do que eu, então tenho certeza que levaria uma surra. Os outros dançarinos estão olhando. — Liss, você tem de se acalmar — avisa Jewel. Melissa olha para a gente como se estivesse a ponto de gritar na nossa cara, mas o que ela faz é sair da cafeteria. Jewel dá de ombros, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo: — Vou trazê-la de volta. Ela sai atrás da Melissa. O que foi aquilo? — Eu fiz alguma coisa? — pergunto para as outras garotas. Doree balança a cabeça. — Não! Ela é metida a prima-dona. É melhor você ignorar a Melissa. — Mas o que foi que eu fiz? — Ela convidou o Raf para o Baile da Primavera e não gostou nada de escutar que ele já tinha convidado você. — A Melissa gosta do Raf? — pergunto. Isso era novidade.


— Gosta — responde Stephy. Ela está sentada no chão, se alongando. — Eu não sabia disso até sexta-feira. Foi quando ela deu o ataque. Ela chegou a vomitar no banheiro. — Ouvi dizer que ela deve ser bulímica — afirma Doree. — Ela é tão ridícula — acrescenta London, então acena para a gente se aproximar. — Quando Laura saiu, Melissa pediu a Mercedes para ser o par do Raf no número de roupa formal. Ela não suporta o Gavin. Reclama que ele é um esquisitão gótico e que pisa nos pés dela. — Ela abaixa sua voz. — Mas Mercedes é que não a suporta e disse não — Ela olha ao redor da sala. — Por que não fazemos um intervalo para o almoço? Todos devem estar de volta em trinta minutos. Stephy, Doree e eu vamos para nossos armários. — Então é por isso que Melissa é tão grosseira comigo, né? — concluo. — Por causa do Raf. — Meu cabelo está um lixo — diz Stephy, repartindo o cabelo em novos rabos-de-cavalo. — Do que vocês estão falando? Ah, sim. Liss. Acho que ela fica com mais raiva porque Jewel é agora sua melhor amiga. Elas não se desgrudavam. — Minha melhor amiga — agora? Jewel e eu fomos ao Bee-Bees, as melhores amigas uma da outra, por dez anos e nem sabíamos que a Melissa existia. Mas, para estas garotas, eu é que não existia antes de entrar para o desfile. Elas devem achar que fui transferida para a JFK em fevereiro. Pensei numa coisa agora... — Se Mercedes e London não gostam da Melissa, por que ela está coreografando o número dos calouros? — Por causa da mãe dela. London achou que se dessse uma força para ela, podia conseguir entrar num vídeo. — Impossível, com aquelas coxas — comenta Stephy — Que coxas? — London não tem coxas. Essas garotas são malucas? — É, são bem grandes — concorda Doree. — Um calouro que as viu em carne e osso em Hamptons no último verão disse que parecem queijo cottage.


— Só porque a Melissa era a melhor dançarina do elenco, isso não significa que ela saiba como coreografar todo um número de dança — declara Stephy. Ela põe um elástico em seu rabo-de-cavalo. — Então, o que vocês querem de almoço? Salada Caesar mista ou de baixa caloria? Eu ia sugerir hambúrgueres, mas elas provavelmente elas iriam desmaiar se eu chegasse sequer a pronunciar a palavra. Calorias! Carboidratos! Gramas de gordura! Mas, antes de eu poder até mesmo pensar em almoço, preciso esclarecer uma coisa. — O que você quer dizer com "era a melhor dançarina"? No passado. O que aconteceu? Stephy ri. — Você apareceu. Sou conhecida como a melhor dançarina do elenco? Imagine se isso entra como legenda no meu livro do ano! A melhor dançarina. Impressionante. Muito, muito mais legal que ser gênio em matemática. Embora, os dois títulos juntos me façam parecer muito prendada. Perfeito para colocar no meu currículo, quando for me candidatar a uma universidade. Estou começando a sentir pena de Liss. Afinal, roubei seu namorado, sua melhor amiga, o título e provavelmente uma vaga em alguma das melhores universidades do país. Minha solidariedade por ela diminui depois do almoço, quando sinto seus dardos venenosos virtuais lançados contra minha cabeça. Se Melissa fosse uma bruxa, eu viraria um gato, com certeza. Não, menos. Titica de gato. O olhar dela fica mais ameaçador quando o resto do elenco, especialmente Raf, aparece. — Ei — diz ele, depois de me dar um rápido beijo na bochecha. — Senti sua falta na casa de Sean. Ele me beijou! Ele me beijou! — Eu fui para a casa de meu pai.


Ele atira seu casaco na mesa e desenrola do pescoço se cachecol de lã. — Você vai para lá de quinze dias em quinze dias? — É. — Bom que o desfile vai ser num fim de semana em que você vai estar por aqui, certo? — É — respondo rápido. Nada mais importante acontece nesse fim de semana. De jeito nenhum, nada. Especialmente nenhum casamento do meu pai. Suspiro. Eu tenho de cuidar disso. * Quando finalmente chego em casa, às sete da noite descubro que o elevador está quebrado. De novo. Eu me arrasto escada acima e, mesmo exausta, estou até muito menos sem fôlego do que há poucas semanas. Abro a porta e dou de cara com minha mãe, mãos nas cadeiras, me encarando. — Parada, minha jovem. Epa! O apartamento cheira a cigarro, sinal de que estou encrencada. Fomos descobertas, só pode ser. Saídas a força do armário de vassouras. Ela deve ter andado arrumando o quarto da Miri e viu a lista de feitiços dela. — A-acho que-que antes de você dizer qualquer coisa, devia saber que... — Rachel, estou esperando há horas por você. Você tem de me avisar por onde anda. — As cinzas do cigarro dela caem no chão. Muito educado. — Já estava imaginando você estirada em alguma plataforma do metrô, ferida. Até liguei para a Tammy, procurando por você. Legal! Não fomos descobertas. Isso mostra o quanto eu sou cismada. — Desculpa, mãe. Vou tentar me lembrar de telefonar. Tammy deve ter ficado surpresa. Nós mal nos falamos desde que eu tive de cancelar nosso


programa depois das aulas. Não que a gente esteja ignorando uma a outra — a gente diz oi e tchau —, mas nas salas de aula estamos nos sentando com outras colegas. Mamãe se agacha para limpar a cinza que caiu no chão, e então abana seu dedo para mim. — Não, você vai me telefonar sempre, ou não vai participar desse desfile. Quase me engasgo. Ia ser demais entrar no desfile e não poder participar. — Se você me comprasse um celular, então você poderia me telefonar. — Não há razão para uma menina de quatorze anos de idade ter um telefone celular. Mas se você quer tanto assim ter um, comece a economizar. — Mas, tem sim uma razão, se você quer saber onde eu estou — respondo, tirando meu casaco. — Aposto que papai compraria um celular para mim. Ela me dá as costas e marcha para a cozinha. — Então, peça a ele. Vamos conversar sobre outra coisa. — Acho melhor mesmo eu pedir a ele — falo, indo atrás dela. Ela me dá uma mexida numa panela borbulhando em cima do fogão. — Miri me disse que você vai com ela à passeata da paz neste sábado. Muito atencioso da sua parte. Pode me passar o azeite? Passeata da paz? Ah, é! Eu me iço sobre o balcão branco para conseguir alcançar o armário. Dou o frasco para minha mãe. Então, me sento de volta e fico balançando meus pés. Tinha esquecido do acordo com minha irmã. E pensar que a Miri estava chateada por eu tê-la deixado hoje, quando eu havia aceitado generosamente levá-la para a passeata da paz. A céu aberto. No frio. Uma coisa bem de irmã, essa que vou fazer. A não ser que eu tenha ensaio para o desfile nessa mesma hora. Epa!


— A que horas eu tenho de ir para esta passeata da paz com Miri? — pergunto, levemente em pânico. Minha mãe dá de ombros. — Vai ser à tarde. Vou ao escritório enquanto vocês estiverem lá. Estamos atolados com programação de lua-de-mel para o verão. Lamento estar trabalhando até tarde, mas a boa notícia é que estamos fazendo grandes negócios. Já contei que eu fui citada como uma das melhores agentes de viagem pela New York Magazine! — Que legal, mãe — falo, um pouco distraída. Sábado de manhã é o ensaio do número dos calouros, o que Melissa está coreografando. E sábado à noitinha é o ensaio de todas as meninas. Então, não tem problema ir à passeata da paz à tarde, mas não há tempo disponível para um namorado como Raf. Espero que ele esteja na casa do Mick na sexta-feira. Parece que os pais do Mick vão estar fora da cidade. De novo. E eu vou ver muito o Raf nas próximas três semanas, já que temos ensaios de dança programados para todos os dias depois das aulas e nos intervalos do almoço. Tanto nos sábados quanto nos domingos. Não tem como ir para Long Island nas próximas duas semanas. Miri vai ter um ataque. Na próxima semana nós temos as provas dos vestidos! E eu estou louca para ver meu vestido Izzy Simpson! E para ter meu cabelo e minha maquiagem feitos no Salão Bella, no Soho. Acho que estão esperando que todas as garotas com altas pretensões da JFK agendem um horário em função do baile da escola. A direção da JFK vai nos dar a metade do dia para a gente se preparar para o show. Nunca fiz maquiagem. Pode ser que eu não molhe mais meu rosto até o Baile da Primavera. Falando nisso, o que vou usar no Baile da Primavera? E como vou pagar pelo vestido? Não posso pedir para minha mãe comprar uma roupa, se ela não sabe que estou indo ao baile. Será que posso conseguir emprestado o vestido Izzy Simpson? Mal posso esperar para usá-lo no palco, com todo o colégio me olhando! — Alô? Rachel? — minha mãe me chama enquanto remexe a massa. — Tenho a impressão de que você saiu de órbita. Está tudo bem?


— O quê? Ela alcança o escorredor e leva a panela para a pia. — Animada para o grande dia? E como. Meus quinze minutos de fama. — Vai ser demais! Você vai me ver, não vai? — Esqueci de perguntar se ela quer uma outra entrada. Todo mundo que participa tem direito a seis lugares reservados bem na frente. Prometi três para o meu pai (embora eu espere que FMM e Prissy já tenham virado passado) e tem uma para minha mãe, uma para Miri e, acho, uma para a Tammy se a gente chegar a fazer as pazes. Minha mãe deixa cair o escorredor e o macarrão se espalha por toda a pia. — Se eu vou? No casamento do seu pai? Não, querida, acho que é melhor ficar fora dessa. Ela cata o macarrão. Seus dedos estão trêmulos. Minhas bochechas estão queimando e não é do fogão. — Achei que você estivesse falando do desfile de moda. Ela pressiona sua mão sobre o estômago e ri. Seus olhos se estreitam tanto que viram fendas. — Ah, mas é claro que vou ao seu desfile. Quanto é a entrada? — Dez dólares cada — respondo, olhando para minhas mãos. São as mãos do meu pai. Dedos longos, cutículas mínimas, polegares gordos, — Todo o dinheiro vai para o Baile de Formatura do pessoal do último ano. Mas você tem ótimos lugares garantidos. Estranho que ela não vá ao casamento. Quer dizer, se é que vai haver casamento. Como pode alguém morar com um homem por 15 anos, ter filhos com ele e não ser convidada para o dia mais importante da vida dele? O segundo dia mais importante, quando se conta com o dia em que ele se casou com você.


— Vamos estar lá — diz minha mãe, ombros relaxados agora que não estamos mais conversando sobre o casamento. Também não estou de jeito nenhum morrendo de vontade de discutir esse assunto com ela, mas, se meu ex-marido estivesse se casando, eu gostaria de saber todos os detalhes sórdidos. A menos que os detalhes sórdidos magoem. Lembro bem quando meu pai apareceu com as novidades. Era uma sexta-feira à noite de agosto. Jewel e eu tínhamos passado a tarde no Central Park, tentando conseguir um bronzeado para o rapidamente-chegando primeiro dia no colégio (o mesmo bronzeado que eu, mais tarde, acidentalmente, esfoliei com a máscara de lama do mar Morto). Miri e eu pegamos o trem das seis horas para Port Washington e, quando eles nos pegaram, fomos para o Al Dente, um restaurante italiano fantástico. Eu não percebi a coisa rolando até a metade da minha salada Caesar, FMM (nós a batizamos logo depois, naquela noite) estava usando um diamante reluzente do tamanho de uma maçã. Quase engasguei com a anchova. Não sou muito fã disso mesmo nos meus melhores dias. Olhei de repente para aquele anel, horrorizada: — Isso aí é... Meu pai apertou o ombro nu de FMM (ela estava usando um top branco de seda tomara-que-caia e calças pretas) e anunciou: — Jennifer e eu decidimos nos casar. Eu quase pus para fora as torradas, em cima da toalha de mesa de linho. Os olhos de Miri se encheram de lágrimas. Meu pai achou que fossem lágrimas de felicidade e disse: — Veja como as meninas ficaram animadas! E então sua taça de vinho tinto derramou no top da FMM, o que, para nossa felicidade, acabou com a grande cena deles.


Huum... Pensando bem agora, o acidente do vinho deve ter sido um trabalho do subconsciente de Miri, já que ninguém havia sequer tocado na taça dele. Meu pai culpou o pés mancos da mesa. Grande lance, Miri! Quando chegamos em casa na segunda-feira, encontramos minha mãe lavando os pratos do fim de semana. No que Miri abriu a boca, tentei telepaticamente avisá-la "Não diga nada! Não fale!", mas não adiantou. Ela disse: — Papai vai se casar — e a expressão feliz-de-ver-você-em-casa desapareceu do rosto da mamãe. Suas bochechas incharam como se ela estivesse soprando uma bolha, ela baixou o prato que estava segurando e, vagarosamente, desmoronou-se no chão da cozinha. A água da pia continuou a cair — Desculpa — murmurou Miri, chocada com o efeito de suas palavras. Então, minha irmã começou a chorar. Eu não sabia se era da dor que ela já estava sentindo ou da dor que ela tinha acabado de provocar. E então eu é que comecei a chorar. Sentei junto da minha mãe e enterrei minha cabeça no colo dela. Senti os dedos dela percorrendo meu cabelo. Eu não queria olhar, não queria saber se ela estava chorando também. Não conseguia suportar aquilo. Como ele pôde fazer uma coisa dessas? Como ele pôde nos deixar e casar com outra pessoa? Como ela pôde deixar isso acontecer? Então, minha irmã sentou-se no chão e me disse que tudo ia ficar bem. E as duas ficaram fazendo carinho no meu cabelo até eu me acalmar. A não ser para mencionar poucos detalhes obrigatórios (lamento mãe, mas não vou passar o fim de semana com você. É o fim de semana do você sabe-o-quê), eu não estava pretendendo conversar novamente sobre o casamento. — Pode pegar dois pratos? — pergunta ela agora. Outra conversa sobre casamento cautelosamente evitada. Agora, tudo o que temos a fazer é evitar o próprio casamento. * Passei o dia seguinte inteiro no colégio tentando bolar um Plano C.


Quando chego em casa, depois de um exaustivo dia de aulas e dos ensaios para o desfile na hora do almoço e no final da tarde, minha mãe está lendo um romance e Miri está resmungando e contando em coreano atrás da porta fechada. — Hanal — Resmunga. — Tul! — Resmunga. Set... Entro rápido e a encontro desferindo rápidos chutei no seu reflexo do espelho. — Temos agora menos de três semanas. — Estou em pânico. Praticamente hiperventilando. — Por que você está gastando tempo com outras coisas? Temos de bolar um plano. — Eu tenho outras responsabilidades, além do casamento — diz ela. — Tae kwon do. Dever de casa! Net! — Ela dá chutes e também mais um resmungo, antes de se sentar na sua escrivaninha. — Que nem você, certo? Quem é que tem tempo para responsabilidades durante uma crise dessas? E no entanto, agora que estou pensando no assunto, tenho um exame de meio de ano de matemática na quarta-feira. E tenho de terminar de ler o Huckleberry Finn até a próxima quarta-feira. O que normalmente não seria um problema porque consigo ler um livro numa semana. Vou começar com cinqüenta páginas esta noite. Mas, tenho também um exame de meio de ano de francês na próxima quinta-feira e... Pare! Penso organizando minhas prioridades! — O que nós vamos fazer? — Já usamos tudo! — diz Miri. E é quando vejo uma coisa que eu nunca, jamais pensei que veria, nem em um bilhão de anos. — O que é isso? — gritei. — O quê? — Isso! — Aponto para os dedos dela, envolvidos em band-aids. E sem reclamações. — Você perdeu a cabeça? Ela fica vermelho-vivo e baixa os olhos para o seu caderno.


— Eu não quero acabar com as pontas das minhas unhas. Sei que essa não é a única razão. Que pena que ela tenha tomado o antídoto do feitiço da verdade e não esteja mais sendo sincera. — Você está amolecendo? Com ela? Não tentamos tudo ainda. Mágica não tem limite! — Bem, eu não sei mais o que fazer — diz ela, piscando seus longos cílios repetidamente. Isso é porque ela não está se esforçando nada. Onde está o A²? Vejo-o no chão, junto da cama dela, debaixo de um Tigger adormecido. No chão! É assim que você trata um autêntico livro de feitiços? Eu o viro de lado para que a bola de pêlo escorregue fora e o coloco na mesa. — Olhe para o livro. Está bem aqui na sua cara. — Preciso pensar. Espere um segundo... bem na sua cara. Meu coração se acelera. — Nós esquecemos o óbvio. Ela abre o livro meio que bruscamente. — O que é o óbvio? — Precisamos fazer com que ele deixe de amá-la. — Já tentamos isso — diz ela bem devagar, como se eu estivesse na pré-escola e ela estivesse me ensinando o alfabeto. — Tudo que a gente tenta só faz ele gostar mais ainda dela. — Tudo, não — disse eu, repentinamente mole e tonta, como se estivesse flutuando num mar de hélio. — E se ele se apaixonar por outra pessoa? Miri folheia as páginas. — Mas, por quem? Ele não conhece mais ninguém. — Conhece, sim! — Levanto minhas sobrancelhas e dou a ela meu melhor olhar se toca! — Nossa mãe? — diz Miri, entendendo afinal.


— Sim, nossa mãe. A gente pode fazer ele se apaixonar por mamãe. Ficamos ambas em silêncio, saboreando a delícia dessa possibilidade como se tivéssemos sorvete de chocolate derretendo em nossas bocas. Depois de alguns momentos, ela olha para mim, com a agitação arrepiando suas bochechas. — Eu... mas... os feitiços da emoção não são permanentes — diz ela, sua voz entrecortada. — Principalmente feitiços de amor. — Não faz mal — cochicho. — Mas até lá, o casamento já vai ter sido cancelado. Miri balança sua cabeça devagar. — E a mamãe? Ela vai se magoar novamente. — Você não vê? A coisa não vai desaparecer. Se ele se apaixonou por ela uma vez, pode acontecer novamente. Só precisa um empurrão na direção certa. Uma cutucada para ajudá-lo a perceber que cometeu o maior engano de sua vida quando a deixou. É perfeito! Não apenas salvaremos papai de casar com a FMM, mas também o conseguiremos de volta para mamãe. Matamos dois coelhos com uma cacajadada. — Papai e mamãe juntos novamente — murmura Miri, pensativa. — Ela ainda está apaixonada por ele — digo. Meu coração está batendo rápido e forte, como se eu tivesse acabado de subir cem lances de escada. Miri concorda. — Eu sei. Ela ainda guarda aquele moletom velho dele. Você sabe, aquele cinza surrado? Aquele que ele... — O moletom! Perfeito! Podemos usá-lo para o feitiço! Vamos pegá-lo. — Ela está lendo — diz Miri, pulando de sua cadeira e andando pelo quarto. — Olha só o que vamos fazer. Vou distrair a mamãe enquanto ela estiver fazendo o jantar. Posso perguntar a ela sobre os julgamentos de bruxas. Ela adora conversar sobre isso. Você sabe que a gente pode rastrear nossas ancestrais até Salem? Não é incrível? Mamãe diz que ainda temos


parentes por lá e estou morrendo de vontade de encontrá-las. Eu nem sabia que tinha parentes em Massachusetts. Perguntei a ela onde tia Sasha mora, mas ela ainda não quer falar nesse... Eu dou uma pancadinha na lateral da minha cabeça. — Concentre-se Miri, concentre-se. Podemos fazer uma viagem até lá no ano que vem. Agora, temos de trabalhar na Operação Roubar o Moletom Desbotado do Papai. Ela salta de um pé para o outro. — Desculpa. Tem razão. Você entra escondida no quarto e procura o moletom. Então, depois do jantar, eu faço o feitiço. Vamos torcer para ter todos os ingredientes aqui em casa. Então, a gente devolve o moletom para debaixo do travesseiro da mamãe antes de ela ir dormir. — Ela não dorme agarrada nele? Você não acha que pode notar? — Então, é melhor a gente cortar um pedaço da manga, e só usar isso. — Ela folheia o livro até encontrar o feitiço do amor apropriado. — Deixe eu dar uma olhada nos outros ingredientes. Às oito, minha mãe finalmente sai da cama e vai para a cozinha, decidindo que é hora de fazer o nosso jantar. Talvez eu devesse vestir um uniforme de espião. Mas, o que os espiões usam hoje em dia? Talvez eu devesse parar de me preocupar com roupas e ir atrás do moletom idiota antes que ela termine tudo na cozinha. A porta do quarto dela está aberta e entro bem na ponta dos pés. Hummm! Agora, se eu fosse um moletom que estivesse sendo mantido escondido pela ex-mulher, onde eu estaria? Debaixo da cama? Fico de joelhos e ergo a barra da colcha. Não, mas bem que ela podia dar uma varrida aqui embaixo. Talvez ela o guarde junto com seus moletons. Camuflado. Para que gente não perceba. Abro a cômoda e procuro nas gavetas. Uma prateleira. Nada. Duas. Nada. Três. Nada. Onde está?


Procuro no guarda-roupa. Nenhum moletom do papai, mas uma grande quantidade de bolsas, sapatos e camisetas de shows velhas. Será que lhe faria algum mal se comprasse roupas novas? O microondas apita. Epa! Meu tempo está acabanso. Onde está? Ataco a gaveta de sutiãs e calcinhas. Ela bem que precisava de um banho de loja, nesse departamento. Toda a lingerie dela é bege. Não admira que não tenha um namorado. Ela precisa investir em alguma coisa nova agora que papai foi exposto aos não-mencionáveis da FMM, porque eu as vi secando, lá pela casa, e são cor-de-rosa e com babado. Pelo menos agora eu já sei o que dar para mamãe no aniversário dela. Será que é meio pervertido dar calcinhas e sutiãs para a própria mãe? Procurei em todos os lugares. Desapareceu. Impossível. Revira a cômoda novamente. E depois o guarda-roupa. Deve estar debaixo de uma dessas bolsas. Por que ela tem tantas bolsas? E sandálias plataforma? Alguém ainda usa sandálias plataforma? Onde está o estúpido moletom? — Rachel? Ferrou. Mamãe. Em pé na porta. Perguntando-se por que estou metida em seu guarda-roupa. Porque estou em seu guarda-roupa? Eu tento parecer sem culpas, torcendo meu rabo-de-cavalo em torno de meu punho. — Sim, mãe? — O que você está fazendo aí? — Eu-eu-eu.....— Preciso pensar rápido. Por que eu nunca consigo pensar rápido quando digo para mim mesma que preciso pensar rápido? — Procurando sapatos. Isso mesmo. Preciso de muitos sapatos para o desfile de moda. Você sabe, um par diferente para cada número. Então, pensei que você pudesse ter algum aí para me emprestar. — Tomara que eu já não tenha contado a ela que as figurinistas então nos emprestando sapatos de salto alto. Ela parece confusa. — Mas meu tamanho é maior do que o seu. Certo.


— Eu sei, mas alguns desses sapatos são tão velhos que achava que você os tinha comprado quando usava um tamanho menor. Ela dá de ombros. — Tudo bem. Mas o jantar está na mesa. Essa foi quase. Quase, mas sem cigarros. Nem moletom Poucos minutos diante de um prato com um nojento tofu com manteiga de amendoim minha mãe baixa seu garfo. — O que há com você? — pergunta ela. — Pare de fazer caretas. Não pode estar tão ruim. E uma receita nova, e é saudável. Primeiro, é muito ruim sim. Os pedaços de tofu estão balançando no meu prato como gelatina, mas não é por isso que estou fazendo caretas. Estou tentando explicar para a Miri que nós estamos com sérias dificuldades para localizar o moletom. — Eu não estava fazendo caretas por causa da comida. Estava pensando que eu não consegui encontrar os sapatos que eu queria. Não sei onde estão. Acho que você deve ter jogado ele... — Epa! — Quer dizer, eles, jogado eles fora — corrijo. — Que sapatos? — pergunta minha mãe. — Ah...você sabe. Os prateados. — Prateados? Despistamento já! — Mãe, hum... esta receita está deliciosa. Ela sorri contente. — Está vendo? Você tem de experimentar novos sabores. Pode ter certeza de que vou fazer esse prato de novo. Fantááástico. Quando finalmente terminamos, Miri e eu tiramos a mesa e lavamos os pratos juntas (tecnicamente falando, é a vez dela, finalmente, mas ela arrumou


a mesa para mim, enquanto eu estava remexendo no armário) e minha mãe foi para o quarto. — Não encontrei o moletom — cochicho. — Cheguei mesmo a verificar na lavanderia, apesar de meu ceticismo me dizer que ela jamais o tenha lavado. A cabeça de Miri balança de um lado para o outro. — Que coisa triste! — É mesmo. Mas é por essa razão que estamos fazendo tudo isso. Ele tem que se apaixonar loucamente por ela de novo, e aí ela vai ser feliz. — Despejo o resto do tofu na lixeira. Já vai tarde! — Certo. Mas, o que a gente vai fazer se o feitiço desaparecer? — Já disse a você, quando ele estiver fora das garras da FMM, vai ficar para sempre apaixonado pela mamãe. — Os olhos castanhos de Miri se arregalam, duvidando, então decido contar aquilo de que sempre suspeitei, mas nunca quis admitir. Nem para mim mesma. — Acho que foi a MadrastaMonstra que causou a separação deles. — Do que você está falando? — pergunta Miri, enxaguando um prato. — Ora, pense só. Ele diz que a conheceu seis meses depois de ter deixado a mamãe. Mas não pode tê-la conhecido antes? Miri empalidece. — Você quer dizer que ele traiu a mamãe? — Nós duas ficamos imóveis, ouvindo a água correr. E então Miri arranca os band-aids dos dedos. — Ela tem de sumir da vida da gente. Se não encontrarmos o moletom, temos de descobrir alguma outra coisa que seja dele. Não pode ser um presente que ele tenha dado. Tem de ser alguma coisa que tenha sido dele mesmo. Você não tem nada do gênero? — O troféu de matemática dele? — Acho que ela ia perceber se a gente enfiasse um estatueta de metal debaixo do travesseiro dela — observa Miri.


Se ela não parecesse tão desesperada — provavelmente por causa do que contei sobre a quase-futura ou talvez caso do papai — eu poderia até rir. — Então o que vamos fazer? — pergunto, enchendo a bandeja de pão com sabão para deixá-la de molho. — Esperamos até o próximo fim de semana? Ela suspira. — Acho que sim. Só que aí vai ter apenas uma semana para ele cancelar o casamento. O que você acha? Eu assopro uma bolha de sabão em sua cabeça. — É, a gente não tem outro jeito. E aí foi que parou nossa magia sem limites.


18. POR QUE JOGO NÃO VALE A PENA

— De novo! — London grita para nós. É terça-feira e eu estou suando em bicas no ensaio com todo o elenco, praticando a abertura, depois das aulas. Já que as garotas calouras são as primeiras a entrar em cena, a London nos faz repetir nossa parte vinte vezes. A música começa de novo e repetimos os movimentos. Na verdade, não é tão difícil assim. Todas nós cinco vamos ficar espalhadas pelo palco e, quando o pot-pourri de Chicago começa, cinco holofotes se acenderão sobre nós como se fôssemos cantoras de boates. Então, fazemos uma dança coreografada de vinte segundos e o resto do elenco entra. — Você não está sincronizada! — grita London. Ela inicia a música novamente. Sinto como se eu fosse um CD arranhado que fica tocando a mesma faixa. Depois que finalmente conseguimos fazer direito, Jewel e eu vamos ao Soho caçar uma roupa para meu Baile da Primavera, e eu encontro um vestido verde-escuro perfeito. — Fica ótimo em você — comenta Jewel, me rodeando na cabine de prova. — Devia usar o cabelo para cima. Jewel sempre gostou de meu cabelo para cima. Na nossa dança na escola primária, no dia de São Valentim, ela me ajudou a fazer um penteado estilo francês, com o cabelo enrolado para o alto. E num Halloween, ela passou um hora me fazendo dois coques perfeitos à Ia Princesa Léia, ou pãezinhos na cabeça, como Prissy os chama. — Deixa eu ver como ficaria — diz ela, tirando os pauzinhos chineses do cabelo dela. Seus cachos se espalham sobre seus ombros e, sem pensar, eu pego um, puxo, e ele se desenrosca, depois enrola de novo, e ela ri.


Ela torce meu cabelo até que fique para cima, perfeito, na cabeça e, estrategicamente, solta duas mechas longas na minha testa. — Depois, a gente dá um jeito nele com meu ferro de frisar. Nós rimos uma para outra num espelho de tamanho natural. — Obrigada, Jewel. Vou ficar perfeita. Graças a Deus que Miri me emprestou seus últimos oitenta dólares para eu comprar um vestido, e eu prometi, prometi, prometi lhe pagar com a minha mesada. Um dia. Depois das compras, Jewel e eu fomos para a casa dela estudar matemática. — Rachel, querida, que surpresa! — A Sra. Sanchez exclama quando Jewel pergunta a ela se eu posso ficar para jantar — Sentimos saudades de você — acrescenta ela, e eu quase a abraço. Senti saudades dela também. * É hora do almoço, quarta-feira, e eu corro para a sala de teatro, onde os dançarinos calouros estão reunidos. Abro a porta e dou de cara com o Raf, sozinho e sempre sexy, deitado no tapete, a cabeça apoiada num livro do colégio. — Oi — digo, e me estatelo ao lado dele. Isso! Um tempo a sós com o Raf! Quem sabe ele aproveita essa chance e me beija! Ou me convida para sair sábado à noite. Nosso quase-encontro foi há duas semanas. Será que ele não quer sair de novo antes do Baile da Primavera? Ele gosta de mim ou não? Será que ele só me convidou para o Baile da Primavera porque eu sou uma ótima dançarina? Esta coisa toda de namorar/quase-namorar está se tornando uma dúvida cruel. Aimeudeus, e eu estou me tornando uma Prissy! — Oi — responde ele. — Tudo bem? — Ele corre seus dedos pelos cabelos escuros e eu me pergunto como deve ser esse toque. Acetinado? Macio? Talvez como caxemira? Não que eu goste de usar caxemira. Ou saiba


como é tocá-Ia. Será que eu seria sequer capaz de perceber a diferença entre caxemira e algodão num teste tipo Pepsi ou Coca-Cola? Eu me imagino com os olhos vendados, mãos à frente, palmas acariciando os dois tecidos. — Meus pais querem que eu vá para Nova Orleans com eles no recesso da primavera — Raf anuncia, estilhaçando minha fantasia. Ah, não. Ele está desistindo do Baile da Primavera! Ele vai viajar, o casamento do meu pai será cancelado e, depois de tanta armação, vou estar em casa no dia 3 de abril vendo Guerra nas estrelas. De novo. — Hã? — Meus irmãos não querem ir, mas eu disse a meus pais que topo, se eles pegarem o avião no domingo, depois do baile. Que gracinha! Não apenas ainda quer ir ao Baile de Primavera comigo, mas também é um bom filho. Ele parece chocolate misturado com algodãodoce e misturando a refrigerante. Se eu não estivesse tão apaixonada, ia pegar uma cárie. Jewel entra na sala, e sorri quando nos vê juntos. — Oi, periquitos! Bee-bee, como você foi na prova de matemática? — Bem — respondo, tentando parecer indiferente. Definitivamente, eu arrasei. Terminei em vinte minutos e passei o resto da aula estudando para o teste de francês da próxima semana, escrevendo em meu caderno Je m'ennuie. — E você? — Muito bem — diz ela, ainda rindo. — Obrigada por ter estudado comigo. Calculo que ela tenha se dado bem. Durante o teste, estava escrevendo furiosamente, enrolando os cachos no seu polegar como ela faz sempre que está concentrada. E não estava comendo a parte de trás de sua borracha, que é o que ela faz quando está nervosa. Será que a Tammy se deu bem? Eu perguntaria a ela. Se a gente estivesse se falando.


O resto dos calouros foi entrando. Finalmente, Melissa irrompe na sala, trazendo duas cadeiras de plástico. — Todo mundo, atenção. A direção idiota da JFK não aprovou minha coreografia de striptease, mas disseram que eu podia usar um tema ousado. Então, vamos utilizar cadeiras na dança para dar um realce ao número. Cadeiras? Do que ela está falando? Eu não quero dançar com móveis. — Oito de nós — continua ela, deixando de lado nossos pares de plástico no centro da sala —, Jewel, Sean, Raf, Doree, Stephy, Jon, Nick e eu, seremos os dançarinos principais. Vamos ser jogadores da mesa de pôquer na passarela. Rachel e Gavin, vocês dois estarão vestidos como carteadores de cassino e ficarão nas laterais do palco e fora da passarela. Quelle surprise. Pelo menos ela não vai nos esconder atrás da cortina. * Almoço de folga! Almoço de folga! É sexta-feira e é o primeiro almoço da semana durante o qual não terei ensaio de dança! É a minha primeira chance de verdade de me sentar na mesa da lista-A. Procuro por Jewel na cafeteria. Onde ela está? Também não vejo a Doree. Nem Stephy. Onde eles estão? Não vejo o Raf, mas ele normalmente almoça fora. Pensando bem, não o vi o dia inteiro. Será que as pessoas saíram todas para almoçar sem me chamar? Sinto vontade de vomitar e não comi nada ainda então, sei que não é de comida estragada. Talvez, apesar de tudo, não gostem de mim. Comprei queijo-quente e fritas das senhoras que vendem o almoço e procurei por alguém, qualquer pessoa, para sentar junto dela. Avistei a Tammy em minha mesa antiga, a quarta de trás, comendo com Janice, Annie e Sherry. Oh, bem! Levo minha bandeja para a mesa delas e me sento junto à Tammy. — Oi, garotas. — Dou uma mordida em meu sanduíche para fazer o fato de eu me sentar aqui parecer menos estranho. Tammy aperta os olhos contra mim.


— Desculpe? Eu conheço você? — Você quer que eu me sente em algum outro lugar? — Cuspo no prato, incluindo todos os restos crocantes. Ela me encara por um longo segundo e então estica as mãos para baixo, seu jeito-mergulhador de dizer para eu relaxar. — Estou brincando. E que nunca mais vi você. É claro que você pode se sentar conosco. Epa! Acho que reagi meio exagerada! Sherry está me lançando um estranho sorriso de olho arregalado, lá do outro lado da mesa. Ela afasta uma mecha encharcada de sua boca. — Oi, Rachel. Lindo esssse ssseu suéter. Meu suéter? Estou usando o verde que comprei na Macy's e usei um milhão de vezes. Ela está me gozando? Annie também está rindo para mim, de um jeito meio estranho, e me remexo no meu assento. O que está errado com todo mundo? Janice me olha, seu rosto muito sério. — Como está o desfile de moda? — pergunta ela. Ela está usando um macacão jeans desbotado. — A gente mal pode esperar para aplaudir você. Ah. O desfile de moda. Eu sou uma celebridade voltando para a cidade natal. Dou ao grupo meu sorriso mais benevolente. — Muito trabalho — respondo. — Como é a London Zeal? — Annie pergunta, inclinando-se para mais junto de mim, espremendo seus seios enormes um contra o outro e dando aos garotos da mesa próxima algo para ver. — Sempre agitando! — respondo, revirando no ar minha mão. — É verdade que você irá ao Baile da Primavera com o Raf? — pergunta Sherry. — Humm! — resmungo, então percebo a perplexidade no rosto da


Tammy. — Acho que sim. Ia ter outro compromisso nessa noite, mas foi cancelado. Os olhos de Tammy se arregalam. — O quê? O casamento já era? Eu dou a ela o meu melhor olhar isso-é-difícil-para-mim-podemosconversar-mais-tarde? Ela assente, de cabeça, olhos ainda arregalados. Quando o sinal toca e o grupo se dispersa, Tammy dá um tapinha nas minhas costas. — O que aconteceu? — Eu não devia conversar sobre isso — digo, suavemente, erguendo minhas pernas para o banco e apertando-a contra o peito. É provável que dê má sorte discutir sobre o casamento cancelado antes de ele ser realmente cancelado, não é? Algo como deixar o noivo ver a noiva antes da cerimônia. De forma invertida. — Juro, eu entendo você. Ninguém conhece melhor política familiar do que eu. Mas, se você precisa conversar estou cem por cento com você. Eu me lembro muito bem de como me senti péssima quando minha mãe se casou com minha madrasta. Meu coração se derrete. Tammy é tão solidária. E a tenho tratado mal desde que fui aceita no desfile de moda. Eu deveria ter pedido para a Miri abracadabrar para ela a poção da felicidade. Ela ri timidamente. — Isso significa que posso falar com Aaron que vou ao baile com ele? Disse a ele que não poderia por causa do casamento. Aimeudeus! — O quê? Ele convidou você para o Baile da Primavera? Ela tira o elástico do seu cabelo, afofa as mechas castanho-claras e as deixa caírem nos ombros. Gosto quando ela usa o cabelo solto. Faz o rosto dela ficar mais suave.


— É, finalmente ele me convidou. — Por que você não me contou? — Ele me convidou na semana passada e nós não temos conversado. — Seus olhos escuros se apagam. — Olha, sinto muito não ter sido mais compreensiva sobre sua agenda de trabalho. Sei que é difícil e eu deveria dar mais força numa coisa dessas que é tão importante para você. Ela é tão legal. Se houvesse um prêmio para a melhor amiga do mundo, ela deveria ganhar. Está se desculpando por eu não ter reservado tempo suficiente para ela. E disse não para o Aaron, mesmo morrendo de vontade, tanto quanto eu, para ir ao baile. Ela ia mesmo ficar pendurada em mim nessa droga desse casamento do meu pai. Honestamente, ela merece uma medalha. Acho que tenho de fazer a Miri abracadabrar uma para ela, também. — Obrigada, Tammy — digo, cheia de gratidão. Então acrescento: — E eu deveria arranjar mais tempo para as minhas amigas. — Com isso, nos damos os braços e vamos para os nossos armários. Nas escadas, colidimos com uma apressada London toda de branco. Ela brande seu punho para mim e grita: — Onde você estava? — E isso com toda a força dos seus pulmões. Ihh! Eu recuo, assustada. — Onde eu estava quando? — Alô! No almoço? Tivemos uma reunião hoje. Eu me livrei da minha aula para poder me encontrar com todos os calouros e os segundanistas, para ver o formal. Do que ela está falando? — Achei que a gente fosse ensaiar a dança formal no domingo. — Eu mudei de idéia ontem à noite. Daí, liguei para a Melissa e ela disse que chamaria todas vocês. Ela me disse que falou com você. Que bruxa! E digo isso com um sentido totalmente negativo. Melissa não me disse nada a respeito do ensaio, de propósito, para que eu me desse mal.


Ou talvez ela não queira me ver dançando com Raf. Ela me dá vontade de vomitar. Talvez a bulímia dela seja contagiosa. — Lamento — digo. — Mas Melissa não me disse nada. — Dane-se. Agora, é tarde. Mas é melhor para você não faltar a nenhum outro ensaio ou cai fora do desfile. E não estou nem aí para o quanto você é boa dançando — resmunga ela antes de se afastar batendo os pés. Eu me apoio na parede, bastante chocada. — Não se preocupe com isso — Tammy me consola, dando um tapinha nas minhas costas —, eles não podem tirar você agora. O desfile vai ser daqui a duas semans. E você é muito boa. Ela tenta me animar no caminho para os armários, mas estou muito ocupada fumegando para prestar atenção. Odeio essa Melissa. Se ao menos a bruxa fosse eu em vez da Miri. Botaria um feitiço nela, com certeza. Eu a transformaria num camundongo. Não, muito gracioso. Uma ratazana. Ou uma rã. Ou num atum que eu poderia amassar e dar para o Tigger comer. — O que você vai fazer esta noite? — pergunta Tammy, ao destrancar a fechadura do armário. Será que eu deveria convidar a Tammy para vir comigo à casa do Mick? Ele está dando outra festa. Provavelmente, eu deveria sim. Mas aí teria de ficar com ela, e eu preferiria passar a noite namorando o Raf a, sinto muito, ficar de babá da Tammy. Abro meu armário e tiro meus livros. — Não sei ainda. Geralmente, fico pregada depois do ensaio. O mais provável é eu desabar na cama. — Entendo. Se você quiser sair me ligue. Eu poderia pelo menos dar uma passada na sua casa. Nós não precisamos fazer nada muito diferente. — Por que a gente não espera para ver como vai ser o dia? Ei, peraí um segundo. — Dou a ela uma das entradas para o desfile. — Não sei se você quer se sentar junto com a minha família, mas consegui seis lugares incríveis. — Obrigada! — diz ela e me faz o sinal de Ok.


Cobrei minha família pelas entradas, não tinha jeito a London foi muito clara dizendo que a gente pagaria por elas. E não sou feita de dinheiro. Mas estou em dívida com a Tammy. * Depois da escola, eu me dirijo à cafeteria para o ensaio com todas as garotas e passo em linha reta por Melissa. Ela está na sua posição de fingir estar se bronzeando. Só que dessa vez está até usando óculos de sol. Nós estamos num lugar fechado. Não tem sol aqui. Eu me debruço sobre ela. Se houvesse algum sol por aqui, eu o estaria bloqueando. — Muito obrigada por não me chamar para o ensaio do almoço. Ela ergue suas pestanas e pisca. — Ah, eu não avisei você? É claro que seus olhos são azuis. Por que os meus olhos não são azuis? É tão injusto. Ela tem cabelo vermelho e olhos azuis. — Não, não avisou. Eu faltei e a London me deu uma bronca. — Isso é péssimo. — Ela tira os óculos escuros. Sinto vontade de vomitar. Mas, quem sabe essa intensa emoção seja o suficiente para acordar meus já tão atrasados poderes. Fecho meus olhos, franzo meus lábios e me concentro. Na próxima vez em que essa garota Estiver indo para uma aula Que ela leve um empurrão... não... um chute Isso... um chute... Que a faça cair de... Jewel belisca minha cintura antes que eu possa terminar o pensamento. Ei, ficou muito bom. Se essa coisa de bruxa não funcionar, ainda posso me tornar uma poetisa. Estou sentada com Jewel, Melissa, Doree e Stephy no sofá da sala da


casa de Mick, e Melissa está debochando das pessoas que não tiveram a sorte de serem convidadas — Ah, cale a boca — diz Jewel, revirando os olhos. — Não é todo mundo que pode ser tão fabulosa como você, Melissa. — Tão fabulosa quanto nós — diz Stephy, rindo. É o que eu sou. Fabulosa. Parte do grupo fabuloso. Sou fabulosa e estou péssima. Péssima porque Raf não está aqui. Estou usando meu jeans lindo e um top lindo prateado de decote em V que peguei emprestado da Jewel. E passei vinte minutos fazendo a minha maquiagem para os olhos. Então, chego aqui e dou de cara com o Will, que me diz que Raf está doente em casa, com febre. Bem que eu devia levar canja de galinha para ele. Pode ser de pacotinho? Melissa chuta a mesa de centro de mármore. — Vocês viram o que a Janice Cooper estava usando hoje? Stephen faz graça. — Sim! Um macacão. Será que ela virou uma fazendeira? E é então que a pior coisa do mundo acontece. Antes de sair de casa, deixei com Miri duas instruções. Um, se Raf telefonar, diga que eu estarei na casa de Mick e que o vejo por lá. Dois, se Tammy telefonar, diga a ela que eu estava exausta e fui dormir. Então aqui estou eu, com as pernas cruzadas junto de Jewel no sofá, quando Jeffrey Stars entra na sala. Seguido por Aaron Jacobs. Seguido por... Tammy. O que ela está fazendo aqui? O queixo dela cai quando me vê. E então ela apenas me olha fixamente. — Oi — engasgo. Quero me afundar nas almofadas do sofá. Quero desaparecer. Queria realmente ter o manto da invisibilidade. Talvez ela não tenha ligado para minha casa. Talvez eu possa ainda dizer a ela que telefonei e


que sua mãe disse que ela estava aqui. — Acabei de falar com a sua irmã – anuncia ela. Seus dentes de cima rangendo contra os de baixo. — Achei que você estivesse dormindo. — É? — disse, e afundei mais ainda no sofá. Tinha jogado roleta-russa e perdi. Ela se volta para Aaron. — Quero ir para casa. — Aaron coloca seu braço em torno dela e, sem olhar para trás, os dois saem. Acho que eu devia ir atrás dela. Mas o que eu poderia dizer? Ah, não queria ficar feito babá de você. Eu queria ficar com Raf? Com Jewel? As garotas junto de mim logo caem na gargalhada. — O que foi aquilo? — Melissa ri. — Eles estão namorando? — Doree pergunta. — Narigão e Pelota? — diz Melissa, e então ri. Fico de boca aberta. — Por que os está chamando assim? — pergunto. Doree ri. — Porque ontem ele estava com a maior espinha que eu já vi. E ela tem mesmo um narigão. Mas eu não devia dizer uma coisa dessas... — Ela comenta para as outras. — ... Rachel era amiga deles. Doree, Melissa e Stephy riem alto. Eu olho para o tapete. Era amiga deles. Mas agora eu a traí. Pela companhia fabulosa aqui do meu lado. Jewel me bate nas costas e me dá um meio-sorriso. Fiquei me perguntando se há alguns meses Doree não estava falando mal de mim, e logo se emendou: Ah, mas eu não devia dizer isto. Jewel era amiga dela. E Jewel está sentada aqui, olhos fixos no tapete. *


Eu estou tomando um café-da-manhã rápido antes do ensaio de domingo, quando Miri entra na cozinha só de camiseta e calcinhas. — Você vai estar de volta a uma hora, certo? — Pode deixar, Mir, vou estar de volta a uma hora. Para a passeata. Eu não esqueci. Um sorriso ilumina seu rosto. — Fantástico! Estou tão nervosa. Vou ficar até lá praticando com minha mãe e depois treinando meu pontapé em rodopio. — Ela fica de cócoras e põe os punhos nos quadris, na posição de ataque. — Ainda não acertei com ele. É mais fraco que meu pontapé-rápido. Deve ser porque... — Você já tem todas as coisas de que a gente vai precisar para o feitiço do amor do papai no próximo fim de semana? — Se eu quisesse uma aula de tae kwon do, me inscrevia na academia. E eu começo a me perguntar o que exatamente acontece durante estas misteriosas sessões de prática de feitiçaria. Se eu já não tivesse, ah, milhões de coisas ocupando meus miolos, até perguntaria. — Quase — responde ela, tirando uma lista do bolso da blusa. — Preciso de um pouco de iogurte. Aquele que nós compramos passou da data da validade. Ah, já contei que a Tammy ligou na noite passada? Eu disse a ela que você estava dormindo, como você pediu. Ela deixou um recado para você. O cereal desce na minha garganta como se fosse uma maçaroca dura. — O que ela disse? — Que Jeffrey convidou Aaron para uma festa e Aaron a convidou. Eles queriam que você fosse com eles. E se você acordasse era para ligar para o celular dela. Tammy definitivamente ganhou o prêmio de ótima amiga. E eu fiquei com o chute na bunda. O dia piora. Melissa está encarregada do ensaio, o que torna tudo particularmente penoso, e Raf está em casa doente.


Pelo menos eu tenho Jewel. — Melissa, quanto tempo vamos ficar aqui? – pergunto. Ela pára a música e coloca suas mãos nos quadris. — Por quê? Você tem alguma coisa mais importante a fazer? Tenho certeza de que a London gostaria de saber do que se trata. Não posso acreditar que ela esteja me ameaçando. Nós combinamos de ficar aqui até o meio-dia e já passou mais de meia hora. — Ah, deixa pra lá! Vou sair em dez minutos, seja como for. — Tem certeza de que quer ficar? Tudo bem, para mim, se você for embora. A London me pediu para contar a ela se você aprontasse qualquer coisa. Por que ela ainda precisa de mim aqui? Não tenho de fazer mais nada, só ficar parada e parecer interessada. Estou quase para dizer a ela que tenho de sair, quando o Raf surge na porta. Melissa gesticula para todos ficarem em suas posições. — Ei, como você está? — fala ela, entusiasmada. — Tudo bem — diz ele. — Ainda estou meio fraco. Então, vou só olhar em vez de dançar. — Raf parece pálido, como se alguém tivesse esfregado giz no rosto dele. Um ah! corre pela sala. Melissa massageia as costas dele. Sem chance de eu sair agora, já que ela está tentando agarrar meu quase-namorado. — Eu já volto — digo baixinho. Não que alguém fosse me ouvir lá do canto da sala onde fui escondida. Ligo para minha irmã do telefone público no banheiro. — Onde você está? Eu já queria estar indo pra passeata — reclama ela, no telefone. — Estou tão nervosa. Coloquei uma malha de ginástica por debaixo do jeans para não sentir frio.


Eu dou um suspiro profundo. — Mir, eu sinto muito, de verdade, mas não tem jeito de eu sair daqui agora. — Ah... — Silêncio. — Mas você prometeu. — Eu sei, mas eu não posso sair agora. Melissa está sendo horrorosa comigo e o show é daqui a duas semanas. — Mas a passeata da paz é hoje. — Miri, não posso. Peça a mamãe para levar você. A próxima coisa que escuto é o sinal de discagem. Ela... Minha irmã pequena desligou o telefone na minha cara? Ela nunca havia desligado o telefone na minha cara. Eu deslizo de volta para o meu lugar na Sibéria. — Mas que bom ver que você veio se juntar a nós novamente — grita Melissa, apesar da música, então põe sua mão na testa de Raf. — Você não parece tão quente — fala ela, com ternura. Que semana miserável. Minha irmã e Tammy me odeiam e minha rival está dando em cima do meu quase-namorado. Alguma coisa boa ainda pode acontecer? Meu corpo começa a formigar. Eu ergo os olhos. Raf está olhando para mim. Eu lhe dou o meu melhor sorriso não-sou-linda? e ele me dá uma piscada. Minha pele fica quente como se eu estivesse sendo beijada pelo sol. Tudo isso vai valer a pena daqui a duas semanas. Quando vou estar no Baile da Primavera com o Raf. Quando não vou precisar mais do sol para me sentir sendo beijada. E vai valer mesmo a pena. Não vai?


19. A ARMADILHA DO PAI ENCANTADO

A semana seguinte se passa numa confusão de ensaios, provas de meio de ano e trabalhos. Segunda-feira: ensaio no almoço, ensaio depois das aulas. Ida ao Soho e experimentar o vestido de Izzy Simpson. Iuipiii!! Volta para casa, com Miri ainda me dando o maior gelo, depois do furo da passeata da paz. Fico atrás dela por todo o apartamento, meu rabo entre as pernas, até que ela finalmente amansa e me perdoa. Só então me dou conta de que esqueci totalmente o Huck Finn. Planejo uma leitura de cem páginas. Caio no sono depois de apenas cinco. Terça-feira: ensaio no almoço, ensaio depois da aula. Volta ao Soho para a segunda prova da estilista. Indo para casa depois dos ensaios, me convenço da impossibilidade de ler um livro inteiro numa única noite. Faço uma coisa que tinha jurado jamais fazer. Arranjo um resumo do livro Quarta-feira: ensaio no almoço. Aula de inglês. Estranhamente, em vez de me ferrar com a Srta. Martel por ter lido apenas um resumo, dou sorte e caem na prova justamente as perguntas que sou capaz de responder. Vou ficar parecendo um gênio em Huck Finn. Ao que parece, a Srta. Martel faz as mesmas perguntas todos os anos e os vendedores de resumos do colégio já descobriram isso. Eu a chamaria de preguiçosa, mas seria o roto falando do esfarrapado. (Esses ditados são sempre engraçados, quando a gente pensa neles ao pé da letra. Em que situação um roto e um esfarrapado teriam a infeliz idéia de se juntar para um criticar o outro?) Ensaio novamente depois das aulas. Volta ao Soho para a terceira prova com a estilista. Pés começam a doer. Quinta-feira: envergonhada por Hayward quando ela exibe minha prova sem nenhum erro para a turma toda. Jewel consegue um A e fica toda alvoroçada com isso. Nenhuma idéia da nota de Tammy, já que não somos


mais amigas. Ensaio no almoço. Prova de meio de ano de francês. Ensaio depois das aulas. Soho. Pés começam a inchar. Sexta-feira: ensaio no almoço. Ensaio depois das aulas. Ida ao Soho para a prova final. Sinto os pés como se pegassem fogo toda vez que desce alguma pressão sobre eles. Chego em casa a tempo de ser questionada por minha irmã sobre as razões de não ir com ela a Long Island. Lembrada pela irmã que FMM estará a ponto de ser internada num hospício com casamento tão próximo e que 29 boletins com novidades sobre o casamento foram enviados para convidados na semana passada. (As caixas de e-mail foram duas vezes entupidas por pesados JPEGs.) Miri insiste pedindo que eu vá. Noto os lábios franzidos da irmã, sinto frio de repente e aviso para irmã que se ela azarar o desfile, seja o que fizer, vai se ver comigo! Lábios se endireitam, quarto se aquece. Rever o plano para roubar alguma coisa do pai, despachar irmã. Não verei papai neste fim de semana, mas final feliz está a caminho. Sábado: o dia todo em ensaio. Pés com dores fortes. Talvez tenha de amputar. * Na hora que eu desabo dentro de casa depois de mais um dia inteiro de ensaio, no domingo, me senti a própria mulher das cavernas, mal suportando ficar em pé. — Você conseguiu alguma coisa do papai? — eu pergunto, enfiando minha cabeça pela porta do quarto de Miri. Tomara que sim! O casamento ia acontecer em seis dias. Seis dias! Ela está escrevendo na sua mesa e não ergue os olhos para mim. — Hum. — O que foi que você pegou? — Uma meia — diz ela, e ainda não me olha. Sei que está chateada comigo porque eu a abandonei neste fim de semana, mas não há nada que eu possa fazer. São oito e meia da noite de domingo e ela chegou em casa ainda


mais cedo do que eu. Por que ela está sendo tão chata? Alô, Miri, olhe para mim! Eu me jogo na cama e ponho meus pés contra a parede. — Uma meia suja ou meia limpa? — Limpa. — Bom isso. Porque já cheirei as meias sujas do papai e duvido que mamãe fosse conseguir dormir com uma delas embaixo do travesseiro. — Essa característica dos meus pais eu não herdei. Pés fedorentos. Pelo menos, acho que não. Dobro minha perna em direção ao meu nariz. Cheira bem. — Do que mais você precisa? Ela continua escrevendo. — Não se preocupe, já cuidei de tudo. — Você arranjou todos os ingredientes? — Arranjei. Está tudo feito. E o feitiço. E as frações. A meia está debaixo do travesseiro da mamãe. Oh. Bem. — Tudo certo então. Você é eficiente. Ela continua a escrever, me ignorando totalmente. Por quanto tempo pode uma pessoa guardar ressentimento? Segunda à noite, estamos no meio de outro jantar revoltantemente vegetariano (bifes de espinafre ensopados, cogumelos, repolho e um outro vegetal bege inidentificável) quando alguém toca o interfone lá de baixo. — Vocês estão esperando alguém? — pergunta mamãe, abaixando seu garfo. Nós duas dizemos que não. Raf vindo declarar seu amor? Eu salto para o interfone. — Quem é? — É papai!


Papai? Aimeudeus. Papai! Funcionou! Ele está aqui. — Suba! — eu grito no interfone. Sei que gritar perturba a pessoa que está ouvindo, mas estou excitada demais para pensar direito. Minha mãe dá um longo gole em sua água. — É seu pai? — É sim, ora — falo, tentando agir calma e natural, o que é um bocado difícil. Miri pula da mesa e começa a arrumar a cozinha. — Por que ele está aqui? — pergunta minha mãe, e então ajeita seu cabelo. Aposto agora que ela está desejando que tivesse dado mais atenção àquelas raízes brancas, hein? — Vocês estão com algum problema, garotas? Está acontecendo alguma coisa que eu deveria saber? — Não — Miri e eu falamos ao mesmo tempo. Toc! Toc! Eu salto para a porta. — Oi, papai! — cantarolo, e então tento não engasgar ao vê-lo. Sua camisa não está para dentro da calça, os poucos fios de cabelos que ainda existem em sua cabeça estão em pé e apontando cada qual para um lado, e ele tem enormes olheiras debaixo de seus olhos. — Oi, Rachel. Eu... uh... encontrei um livro que Miri deixou em casa. Achei que ela estivesse precisando dele. — Ele empurra o livro para mim. — Posso entrar? — Claro. — Dou um passo para o lado para deixá-lo entrar. Minha mãe, ainda remexendo em seu cabelo, vem se juntar a nós, no vestíbulo. — Olá, Daniel. Bom ver você. Está tudo bem? Quando a vê, os olhos dele se acendem como dois faróis — Oi — diz ele carinhosamente. Não acredito. Ele está olhando para ela como se fosse Romeu e ela a Julieta. Ele está apaixonado por ela de novo! Aleluia! A flecha do cupido


acertou o alvo! — Miri esqueceu um livro e eu achei que poderia precisar dele. — Ele se apressa para explicar. — Sim, foi isso mesmo. Olhe aqui! — Eu ergo o livro de capa dura como se fosse um troféu. É meu livro de ciências do ano passado, mas e daí? — Pai, você quer um chá? Mamãe já ia mesmo fazer. Minha mãe me observa como se eu tivesse enlouquecido. — Ia? É melhor ela não estragar essa chance. — Por que vocês dois não sentam e conversam, enquanto eu ponho a água para ferver? — sugiro. Eu encho e tampo a nossa chaleira branca. Meu pai aceita o convite e se senta próximo a Miri em sua antiga cadeira na mesa. Minha mãe está com aquele olhar abobalhado de acabei-de-acordar. Mesmo assim, se senta diante dele. Eu removo um respingo de bife de espinafre que ficou no balcão de fórmica e tiro os pratos do jantar. — Veja como elas estão prestativas — diz papai para mamãe. — Como conseguiu isso com elas? Ela remexe o cabelo entre seus dedos. — Miri sempre foi assim, mas ultimamente a Rachel está parecendo totalmente mudada. Nunca esteve em tão boa forma. O desfile está fazendo maravilhas com ela. Chegou até a subir as escadas ontem sem reclamar. Não é verdade. Eu reclamei, apenas não foi em voz alta. Meu pai ri. — Esta é a mesma garota que eu tive de carregar em meus ombros na Caminhada Contra o Diabetes? Os dois riem. Normalmente, eu ficaria enfurecida com ele por estar falando disso (eu fiquei cansada e me aborreci apenas com dez minutos de caminhada, então o forcei a me carregar pelo restante do caminho), mas não desta vez. A chaleira assovia e eu coloco as xícaras diante deles, dizendo: — Eu tenho um monte de dever para fazer, então vou estar no meu


quarto se precisarem. — Eu também — acrescenta Miri depressa, e nós duas saímos da cozinha, e vamos comemorando por todo o caminho até os nossos quartos. Lá pelas onze, estou na cama e ainda posso escutar as vozes deles. Ela, feminina e rindo; ele feliz e relaxado. Miri abre minha porta e entra pé ante pé. — Ele ainda está aqui — cochicha ela, sorrindo. A gargalhada da cozinha flutua pelas paredes. — Eu sei. Acabei de dar boa-noite a eles. Ver os dois juntos, sentados na mesa da cozinha como costumavam fazer antigamente, me fez sentir uma onda de felicidade aconchegante. Como quando está frio lá fora mas estou sentada na minha colcha macia, enrolada num cobertor de lã, encarando um fogo que arde sem parar. * Na manhã seguinte, minha mãe está bebericando seu café com um meio sorriso em seu rosto. — A que horas papai foi embora? — pergunta Miri, comendo seu mingau de aveia como se estivesse em jejum há semanas. Eu pego uma tigela de cereais. — Por volta de uma hora — diz ela. — Foi bom vê-lo. E estranho também. Nunca mais conversamos... Você sabe conversar... faz muito tempo. Mas não entendo o que veio fazer aqui. Ele brigou com Jennifer? Miri e eu ficamos muito interessadas em nossos cereais. Minha mãe voltou a bebericar seu café. FMM deve ter ficado uma fera por ele ter chegado em casa às duas da manhã. Talvez, nem tenha voltado para casa. Talvez o casamento já tenha sido cancelado. — O que ele disse? — perguntei. Que ele está apaixonado por você? Que já deu um chute/está para dar um chute na FMM, e está voltando para


morar conosco? — Nós só conversamos. Sobre vocês duas. Sobre a vida. E como ela.... surpreende a gente. Isso! Fantástico! Ipi-Hurra elevado a um bilhão! Abra-cadabra fantástica! Bem-vindo de volta papai! E, Baile da Primavera, aqui vou eu. * Boas coisas acontecem em trinca. Primeiro, com a ajuda de meu novo melhor amigo, A², me dei bem em alcançar o Cálice Sagrado das crianças divorciadas e consegui que meus pais ficassem juntos. Segundo, Raf foi uma gracinha o dia inteiro. Ele chegou de repente no meu armário para dizer alô não uma vez, mas duas, e sentou-se próximo a mim durante o ensaio do almoço. — Justin perguntou se a gente quer rachar uma limusine para irmos todos juntos à festa no sábado — diz ele. É demais aparecer numa festa numa carruagem com meu príncipe encantado, não é? Terceiro, depois da escola, pegamos nossas roupas na figurinista. Na butique Izzy Simpson, recebi um lindo vestido vermelho de seda que bate na altura do joelho e uma adorável sandalinha de salto alto de madeira de seis centímetros, com laços vermelhos. E pelo jeito não vou ter o menor problema para sair dançando com eles. A roupa de Jewel é parecida, mas seu vestido é verde e vai até o chão. É um pouco longo para o meu gosto (gosto de minhas panturrilhas), mas ela está contente. Ah, vou ficar tão linda! Quem será que vai me trazer flores? Depois do número de encerramento, nós todos ficamos no palco e o MC (Will Kosravi) chama nossos nomes em ordem alfabética. Daí, desfilamos pela passarela para receber nossas flores. Vou ter de lembrar a minha mãe para comprar as flores. A única chateação do meu grande dia era Tammy. Ela me ignorou


totalmente. Ela me ignorou quando cheguei tarde na aula e mesmo quando passei pelo armário dela. Eu tentei me desculpar. — Tammy — disse eu, bloqueando-a no corredor. — Podemos conversar? — Não — murmurou ela, e fugiu correndo. E o gesto que ela fez para mim com as mãos é grosseiro demais para ser comentado. Inacreditável. É melhor ela não estar planejando usar o ingresso para o desfile. Se é para me tratar assim, ela que gaste dez dólares e sente lá atrás. * Chego em casa depois do ensaio esperando escutar as novidades do cancelamento do casamento. — Nada — Miri me avisa. Ela está deitada na cama, pernas para cima, lendo. Mas o Baile da Primavera vai ser daqui a quatro dias! Eu me jogo ao lado dela. — Será que não é melhor a gente ligar para ele? — Não, Rachel — aconselha Miri, balançando a cabeça. — Neste momento, ele deve estar um bocado confuso, mas vai acabar agindo direito. Ele não se casará com uma mulher se estiver apaixonado por outra, especialmente quando esta outra é a mãe das filhas dele. Ele vai telefonar pra gente amanhã, tenho certeza. — Melhor mesmo. Deve levar pelo menos alguns dias para cancelar direito um casamento. Eles têm uma centena de convidados. Alguém vai ter de ligar para eles dizendo que não devem ir. — Talvez ela passe um e-mail para todos eles. Seria um perfeito fina para aquele chatíssimo despejo de novidades sobre o casamento. Ou quem sabe vão fazer o anúncio no jantar do ensaio de casamento, e então podem falar com todos de uma só vez.


Resmungo. Eu é que não quero ir a Long Island, na quinta-feira, para o ensaio do quase-defunto-casamento. O ensaio final do desfile é depois da aula, até as seis, o que significa que terei de correr um bocado da escola para o trem para chegar em Long Island às sete e meia. Não. Meu pai não vai fazer isso conosco. Amanhã ele deve telefonar para nós, anunciando o cancelamento. É o que ele tem de fazer. Quando chego em casa às oito da noite, na quarta-feira, estou encharcada da chuva e muito nervosa. O elenco inteiro tinha ensaiado todos os números, as danças estavam perfeitas, a equipe do palco tinha terminado os cenários e uma limusine havia sido reservada para o Baile da Primavera. A arrancada inicial do fim de semana para o início da primavera tinha sido perfeita, com exceção de um insignificante problema: o estúpido casamento ainda não havia sido cancelado. Ignoro o conselho de Miri e ligo para o número do meu pai. FMM atende no primeiro toque, a voz dela meio trêmula. — Alô? — Alô, FM... Jennifer, meu pai está? — Rachel? Não, ele não está. Ele foi caminhar. — Na chuva? Ela ri, mas parece forçada. — Levou um guarda-chuva. Não sei por que ele foi fazer isso, sinceramente. Ele tem agido estranho esta semana. Isso! Estranho! E sai para uma caminhada do tipo tenho-de-reavaliarminha-vida! — Tudo bem. Só queria dizer oi. — Então, você vai estar aqui às sete e meia amanhã? — Vou. — Está tudo pronto para o desfile de sexta-feira?


— Está. — Depois do desfile, você e Miri querem voltar para cá? E o jeito de nos arrumarmos juntas para o grande dia. — Hum, por que a gente não decide isso depois? — Bem, como quiser. Eu falo com seu pai para ele ligar quando chegar. — Ela hesita. — Se não for muito tarde. Ele liga. Mas só à meia-noite e meia. (Precisou fazer uma maratona — isso!) Eu já estava no meio do sonho do Baile da Primavera quando ouço o telefone tocar. Minha mãe atende. — Oi, Daniel — ouço-a falar. — Está tudo bem? Você não parece bem. Você está no celular? — Sua voz abaixa para um volume enervantemente baixo, então sou obrigada a sair da cama, ir furtivamente para o corredor e pressioa meu ouvido contra a porta dela. — Não posso ajudar você a tomar essa decisão... Você fez sua cama e agora tem de deitar nela... Foi há tanto tempo... Meus sentimentos mudaram... Oh não oh não oh não! E então: — É claro que eu ainda penso muito em você... Oh sim oh sim oh sim! Caio no sono, com a porta como meu travesseiro, um sorriso satisfeito no rosto. * Não posso acreditar que eu ainda tenho de participar dessa hipocrisia de ensaio de jantar. Somando o desfile e o casamento, estou ensaiada pelo resto da vida. O ensaio do vestido do desfile foi perfeito. Os cenários são lindos. Os cenógrafos conseguiram consertar a Torre Eiffel para o número de traje formal, importaram areia de verdade para o número "Miami", que é com todas as garotas, e fizeram pinturas retratando enormes máquinas caça-níqueis para a dança

dos

calouros

inspirada

em Vegas.

A

realização

deles

mais

impressionante, foi a linha de horizonte virtual de Manhattan para o


fechamento, com o contorno de um mini-Empire State Building que muda de cor a cada trinta segundos. O auditório está arrumado com filas e filas de cadeiras e a passarela de seis metros, ressuscita do depósito. O ensaio começa conosco, as cinco garotas calouras, em cima do palco. Passamos direto os dez números até as reveraneias com que agradecemos os aplausos da platéias. Estou fingindo receber minhas flores quando o nome de London Zeal é chamado. Depois que ela faz seu falso aceno para a platéia, o elenco inteiro dá vivas e aplaude. Toda vestida de preto (está bem, vou ser justa aqui: nós todos estaremos de preto para o número Nova York), ela está rindo de orelha a orelha. — Em meus quatro anos de trabalho em desfiles da JFK — diz ela —, este, de longe, foi o melhor de todos. Aplaudimos ainda mais forte. Tenho de admitir, que, mesmo tendo dado um duro danado, foi definitivamente uma experiência fantástica.

Eu

provavelmente estaria saboreando o triunfo com mais prazer se toda essa história miserável do casamento não estivesse acabando comigo. — Agora, todos façam o sono da beleza esta noite — conclui ela, — e eu verei as garotas a uma da tarde, amanhã, no Salão Bella! Nós nos dirigimos às áreas dos armários do ginásio, que são espremidas entre o auditório e a cafeteria, e é aqui que estaremos mudando de figurino, entre os números, amanhã. Estou a ponto de correr para o trem quando o Raf me chama. — Oi — digo, nervosa demais para olhar nos olhos dele. — Aonde você está indo? — pergunta ele, abotoando sua jaqueta. — Ah, huuum... eu tenho de conversar com meu pai sobre uma coisa. — Não tem problema. Vejo você amanhã. Vai ser um caos; então, se a gente não tiver chance de conversar, pego você às oito e meia no sábado. Fico com vontade de vomitar. O que é que vou fazer se meu pai for um fracote e não cancelar o casamento? E vai ser daqui a dois dias. O que é que eu vou dizer ao Raf? Ah, sinto muito, meu pai está se casando esta noite, eu


esqueci de contar, não foi? Será que a limusine pode dar uma paradinha em Port Washington, assim dou uma corridinha entre as fileiras de bancos e depois fujo de volta aqui para o carro? O que fazer, o que fazer, o que fazer? Falto ao casamento do meu pai e fico de castigo pelo resto da minha vida? Será que um pai que não vive com você pode fazer isso? Digo ao Raf que estou doente e de cama, e perco a melhor noite de minha vida? — O baile vai ser naquele assoalho bom para dançar — diz ele, então se despede e sai. Será que é só o que eu sou para ele? Uma parceira de dança? Ou ele finalmente vai me tascar um beijo? Como é que vou mudar de status, nessa de quase-namorada para namorada, se preciso ir para Long Island? * Aqui estou eu. No salão privado do Al Dente. Estou comendo a mesma salada Caesar que quase vomitei quando FMM e meu pai anunciaram que iam se casar, e estou prestes a vomitar de novo. Eu deveria ter pedido salada sem anchovas dessa vez. E não é só isso. Depois de um bocado de encheção por aqui, temos de ir para o salão de banquete do hotel, The Garden, e ensaiar andar até o altar. Ora bolas. Será que eles acham mesmo que a gente precisa de ensaio para isso? Todos aqui sabem andar. Miri roeu a maior parte da pele de seus dedos, que estão manchando de sangue a toalha de mesa branca. Argh! Se eu não estivesse tão nervosa, faria ela saber o quanto está sendo desprezível. Acabou. Não, não o casamento. Minha vida. Tem vinte pessoas aqui, incluindo os sócios do meu pai; meu tio Tommy e sua segunda esposa, Rebecca; meus primos; o irmão e a irmã de Jennifer e seus respectivos cônjuges e crianças (ainda bem que a Prissy está tagarelando com eles); os pais de Jennifer e minha avó, a Bubbe. Ela é a única pessoa que parece ainda mais irritada do que eu e Miri,


nesta mesa. Ela está sentada no canto, franzindo as sobrancelhas, constantemente perguntando ao maítre se o aquecimento está ligado. Ela não é a mais bem-humorada das mulheres. A não ser pela minha avó, todo mundo que tem idade para isso está meio embriagado. Especialmente meu pai. Todos os demais estavam secando rapidamente garrafas de chardonnay, mas meu pai pediu vodca com gelo. E muitas. É a primeira vez que eu o vejo beber alguma coisa que não seja vinho no jantar. — Acho que perdemos a parada — cochicha Miri. — Ele não vai acabar com o casamento aqui. Pode ser que não queira ferir os sentimentos dela. Pode ser que ele se transforme num alcoólatra no mês que vem, tentando afogar sua mágoa, e então o feitiço vai acabar e ele vai amar a FMM novamente, para todo o sempre. Ela é horrorosa e agora vai virar nossa parente, e nós não temos outro jeito, temos de nos acostumar com a idéia. Eu suspiro e dou outra garfada na minha salada. Não posso acreditar. Qual é a vantagem de ter uma irmã que é uma bruxa se a gente não consegue se livrar de uma nojenta madrasta-monstra? — Talvez a gente devesse colocar um feitiço na mamãe, para ela interromper o casamento. Você sabe, naquela hora em que perguntam se alguém tem algo contra, então ela se levantava e falava... Miri ri. — E que tal se eu lançar feitiços em todo mundo convidado para o casamento? Daí, todos eles se levantam ao mesmo tempo e dizem que têm algo contra. Eu fico rindo. — Essa foi engraçada. — Então é isso? A gente desiste? — pergunta ela. Meu coração afunda que nem o Titanic. Tudo acabado? Minha potencial felicidade estava tão próxima e agora está atolada no


fundo do mar. Não tem jeito de içá-la de volta para a superfície? Tem de haver alguma coisa que a gente não lembrou... alguma coisa em que a gente não tenha pensado ainda... Nada. Não consigo bolar nada. Você sabe quanto são dois números positivos multiplicados por zero? [Plano brilhante + plano brilhante] x zero = um grande e redondo zero. — Desisto. Vou ter de dizer ao Raf que estou doente... Vou ensaiar uma tosse. Ou quem sabe digo a ele que peguei meningite. Ou que estou morrendo por causa de um coração partido. Isso certamente é bem perto da verdade. Ou talvez eu diga a que peguei aquela doença, seja o que for, que o deixou ele de cama na semana passada, só para ele se sentir culpado, tão culpado que vai pedir à Melissa para tomar meu lugar na limusine — e nos braços dele. Suspiro. FMM bate em seu copo para chamar a atenção de todos. — Obrigado a todos por virem — fala ela, levantando-se. — Quero aproveitar a oportunidade para dizer o quanto eu amo todos vocês. E o quanto me sinto abençoada de ter encontrado Daniel e de ter me apaixonado por ele. Ele é gentil, generoso, amoroso, carinhoso e brilhante, e eu me sinto honrada que ele me tenha escolhido para ser sua esposa. Os convidados aplaudem educadamente. Meu pai se levanta. — Eu amo você também, Carol. Todos ficam paralisados. Carol? O que ele acabou de dizer foi Carol? Não Jennifer, mas Carol? Sim! Sim! Sim! Sim elevado a um trilhão! O rosto de FMM perde a cor. Como uma camisa laranja lavada na lavanderia com alvejante. A consciência do que tinha acabado de dizer golpeou os olhos de meu pai. — Eu quis dizer... eu quis dizer... eu acho... — Ele se senta. Aimeudeus.


São lágrimas em seus olhos? — Eu sinto muito, Jen — geme ele. — Ainda amo a Carol. Não posso casar com você. A seguir, caos total. Meu pai está chorando, Prissy está chorando, a Sra. Abramson está chorando e até minha avó está chorando (o que é estranho, considerando que ela nunca gostou da FMM). E FMM tem a aparência de quem acaba de se engasgar com uma lagosta inteira. O Sr. Abramson salta à frente e tenta socar o meu pai no nariz, mas, em vez de acertar nele, quando meu pai se abaixa, atinge um garçom. Um prato de alguém com penne arrabbiata derrama-se no conjunto amarelo da Sra. Abramson. Miri e eu ficamos absolutamente imóveis, apertando uma a mão da outra debaixo da mesa. O casamento já era. Eu devia estar gritando de alegria, mas estou com medo demais de me mexer. Não posso evitar de ficar olhando as lágrimas abundantes que caem dos olhos de FMM e respingam na toalha de mesa. Se isso é o que eu queria, por que sinto essa vontade de vomitar? Eu empurro meu prato para longe de mim. Devem ser essas anchovas.


20. ISTO NÃO É A PIADA DE PRIMEIRO DE ABRIL

Voltooooou! São só seis e meia da manhã, mas estou bem acordada, recordando o desastre da noite passada. O trem silencioso nos levando, eu e Miri, para casa. O meu estômago embrulhado. Minha mãe nos perguntando como foi o jantar, nossos evasivos dar de ombros indicando que foi bem. (Sim, tudo ótimo!) — Chega de feitiços — disse Miri antes de desaparecermos, cada uma em seu quarto. Eu tossi e me revirei a noite inteira, me perguntando por que meu pai não veio direto embora com a gente, se havia chamado os convidados para comunicar a eles que o casamento estava cancelado e se a FMM tinha entrado em desespero — estava tão preocupada com tudo que meus olhos quase saltaram fora, de tão inchados por causa da falta de sono. Se pelo menos olhos inchados fossem meu único problema do rosto. A espinha que sinto crescendo em meu nariz é muito, muito pior do que as olheiras debaixo dos meus olhos. As olheiras podem ser disfarçadas com maquiagem. Um segundo nariz não pode ser mascarado. Eu vôo (bem, não é voar, exatamente; não sou eu aqui quem tem poderes) da minha cama para o espelho. Meu nariz é uma grande espinha vermelha. O presente de Papai Noel voltou! Muito azar que nenhum dos números desta noite seja no Pólo Norte. Não posso acreditar que hoje, e logo hoje!, meu nariz está da cor de um hidrante de incêndio. Exatamente no dia em que eu estarei no palco diante de todo o colégio, em frente a centenas de pessoas. O que eu vou fazer? Não posso ficar com esta espinha no rosto durante o desfile! Ninguém será capaz de prestar atenção no espetáculo — vão ficar fixados na minha imensa espinha. Não, retiro o que disse. Ninguém será capaz de ver o espetáculo porque minha espinha bloqueará a visão de todo mundo.


Eureca! Uma idéia! Bato duas vezes na porta de Miri e então abro e vou na ponta dos pés até a cama dela. A boca de Miri está aberta, seu cabelo está espalhado pelo travesseiro e ela parece mesmo muito novinha e meiga. Eu quase não posso me permitir perturbá-la. Quase. E dou uma batidinha em seus ombros. Várias. Ela abre o seu olho direito. — O que foi? — Olhe — digo eu, desesperada. Ela abre o outro olho e faz caretas. — Como você pode me acordar com essa coisa horrível? — Não brinque. Preciso que você faça o feitiço de limpeza de pele. Ela dá vira de bruços. — Eu não quero mais fazer nenhuma mágica. — Já sei que você disse isto ontem, mas, por favor? Pooooor favor? Não me diga que ela vai virar certinha agora. Não com este bulbo vermelho brilhante em meu nariz. — É muito cedo — queixa-se ela. — Não me faça esfregar esta espinhona em você. Ela grita e se puxa as cobertas por sobre a sua cabeça. — Meu rosto está carregado e eu não tenho medo de atirar — ameaço, caricaturalmente. — Está bem, mas não me toque. Saia de perto da cama. Dou cinco passos para trás e ela abaixa as cobertas até os seus ombros, mostrando um sorriso debochado. Então, olha para o rádio relógio e resmunga: — São só seis e meia!


— Eu sei. Mas é o grande dia. Ela esfrega seus olhos. — Vou procurar meu livro. Boa coisa a gente ter comprado suco de limão e aqueles sais para mamãe. * São duas e meia e eu estou linda. Sem espinhas e linda. Talvez linda seja um leve exagero, mas estou muito bonita. De verdade. Mais do que já estive em minha vida toda. Sophie (uma cabeleleira muito alta, de ombros largos, com um falso cabelo vermelho brilhante e um rosto cheio de maquiagem, e que pode muito bem ter sido um homem antes de ele/ela se tornar um esteticista) passou trinta minutos fazendo cachos em meus cabelos. Então, me sentei debaixo de uma lâmpada quente por mais vinte minutos, rindo com Doree, enquanto o cabelo dela ia sendo apertado num coque. Melissa ia ganhando tranças em seus longos cabelos ruivos. Os cabelos de Jewel estão ficando lisos. Stephy encrespou ainda mais seus cachos e agora tem uma mecha de cabelo curta até o seu queixo e parece um pouco como a Sininho Bell. E bem quando eu começo a me preocupar se meus lóbulos das orelhas estão derretendo, Sophie me tira lá debaixo e usa uma dúzia de papelotes, ferros de frisar e outros dispositivos sem nome para tornar cada mecha de meu cabelo um perfeito anel encaracolado. Eu não sou mais uma cabeça de oceano. Eu estou mais para uma... sedutora sereia. Então Natalie (que parece uma irmã/irmão gêmeo de Sophie) arranca minhas sobrancelhas, e passa quarenta minutos aplicando maquiagem. Tenho maçãs de rosto (quem diria?)! Minha pele está impecavelmente macia, meus olhos castanhos parecem imensos, à la Bambi (ele/ela usou tanto rimel que minhas pestanas estão quase tocando o meu nariz), e meus lábios parecem exuberantes, vermelhos e beijáveis. Como uma ameixa deliciosa. Pode ser que Raf não seja capaz de esperar até o Baile da Primavera — creio que ele vai pular em cima e colar na minha boca já durante o número do Moulin Rouge, só para experimentar.


Não posso evitar de me olhar em muitos espelhos. Claro que, quando fico muito próxima do meu reflexo, posso ver os vários centímetros de fundações, e fica um pouco palhaçada. Mas de longe? Maravilhosa. — Vocês estão um encanto! — diz London, desfilando pela sala num robe de banho de algodão branco e rolinhos brancos de papelão. Ela e Mercedes estão fazendo tratamento de corpo inteiro, incluindo manicures, pedicures e massagens, cortesia do salão. São mais ou menos seis, duas horas antes da porta do desfile de moda se abrir, e nós cinco chamamos um táxi. O motorista não quer todas nós apertadas dentro do carro dele, mas nós pedimos, protestamos e tentamos chamar a atenção dele para a nossa beleza, e ele acaba nos dizendo para entrar logo. Jewel entra primeiro, depois eu, Doree, e Stephy se ajeita em nossos colos. Fazendo beicinho e com uma semelhança admirável com Pippi Longstocking, Melissa parece desanimada ao entrar no banco da frente.

— Escola JPK — pede ela. — E dirija com cuidado, porque nossos cabelos estão feitos. — Vai ser de arrasar — diz Doree. — Nós vamos arrasar. — Nem posso acreditar que o desfile é hoje! — exclama Stephy. Estou esperando que ela comece a espalhar a poeirinha de fada a qualquer instante. Não posso acreditar que estou aqui. No táxi com quatro garotas da listaA, mais linda do que nunca. — Eu estou tão nervosa — ri Jewel. — Acho que vou vomitar. — O motorista aperta os freios para evitar atropelar um pedestre e Jewel reclama. — E esse motorista não está ajudando. — Vamos, gente! — Doree ri sem controle algum. — Podem ficar a toda! Vai ser a melhor noite do ano. Rachel, você precisa sorrir. Foram comprados mil ingressos. Mil pessoas estarão nos vendol Eu dou a ela um meio sorriso. Eu deveria me sentir eufórica. E tudo o que eu sempre quis. Por que eu não estou animada?


O motorista aperta os freios e meus joelhos batem na divisória. Não é hora de provocar um acidente. Meu estômago dá uma cambalhota e sobe para minha garganta. Chegou a hora. — Chegamos! É agora! — grita Doree, e nós nos apertamos umas nas outras. Entramos no colégio pela porta do auditório e encontramos o resto do elenco perambulando pela cafeteria. Raf está sentado com Sean Washington e Will comendo pizza. Ele assobia quando me vê. Isso deveria me animar. Ele deveria me animar. Ele é lindo, inteligente, sexy, carinhoso e gosta de mim. Talvez. Sinto uma pontada na boca do meu estômago. O que está errado comigo? Deveria ser um dos melhores dias da minha vida. Por que estou assim, tão desanimada e cínica? — Ei, Raf — fala Will, mexendo no cabelo do irmão no que eu me aproximo deles. — Sua convidada para o Baile da Primavera é muito gostosa. — Tire essas suas mãos gordurosas e sujas de pimentão de meu cabelo — diz Raf, dando um tapa nele. — Ou eu vou falar com mamãe para atirar tomates em você, quando estiver dando uma de MC. Ela está na fila da frente, graças a você. Quem estará nos meus lugares reservados? Duvido que a FMM apareça esta noite. Ou a Prissy. Depois do ensaio do inferno, meu pai não deve vir também. Eu nem sei onde ele está. Ou onde passou a noite. Talvez tenha ido para o Putter's Place. Acho que Tammy não vai usar a entrada que dei para ela. Mas, que legal. Vou ter quatro lugares vazios na minha seção. Pelo menos, mamãe e Miri vão estar lá para me aplaudir. Sigo as outras garotas para a área dos armários para trocarmos de roupa. Já posso ouvir o sussurro das pessoas no auditório, pais chegando cedo, amigos conversando agitados ao verem seus amigos. Uma das amigas de London está montando guarda na porta de trás do auditório, para ter a certeza de que ninguém vai entrar escondido no corredor e na área dos armários para nos ver antes do desfile. Apesar das roupas da figurinista e dos cabelos recém-lavados e


perfumados, a sala dos armários parece cheirar a chulé. — É isso aí — exclama Jewel, entrando no seu vestido tomara-que-caia rosa metálico. Estou usando um vestido idêntico, mas em vermelho metálico. Fecho o zíper do vestido dela e digo a ela que está maravilhosa. Os vestidos nos fazem parecer como se estivéssemos mais numa nave do que cantando num clube de jazz da década de 1920, mas seja lá o que Deus quiser. Ponho minha meia-calça cor da pele, então caminho nos meus sapatos, que combinam com a roupa, também vermelhos metálicos, e peço a Jewel para fechar o meu zíper — Obrigada — digo e dou uma rodada. — Como estou? Ela começa dos meus pés e vagarosamente vai levantando os olhos. — Maravilhosa. — Mas então seu olhar se fixa no meu rosto, e então ela faz uma careta. — Uh, oh, — diz ela. — Uh, oh? O que é uh, oh? — Acho que você precisa de mais base ou você está tendo uma reação alérgica à maquiagem. — Você está brincando? — Eu tenho base — oferece Doree, já com sua roupa amarelo metálica. Corro para o banheiro ali do lado para ver no espelho do que elas estão falando. Oh, não. Voooooooooooltou. Como é possível que o presente de Papai Noel esteja aqui de novo, se eu acabei de usar o feitiço da limpeza, bem nesta manhã? — Sinto muito — ouço lá de fora. — Você não pode ir lá. Você não é uma das dançarinas. — Preciso falar com minha irmã — protesta uma voz. Miri? O que ela está fazendo aqui atrás? Ela não devia entrar nos bastidores. Mas, de supetão, eu a vejo já dentro do banheiro, embasbacada comigo no espelho. Seu rosto está pálido, seu lábio superior tremendo.


— Tenho de conversar com você — diz ela. — Tenho de conversar com você agora. — Está na cara que sim — e aponto para a coisa hedionda no meu nariz. — O que está acontecendo? Ela olha ao redor furtivamente e, apesar de estarmos sozinhas ali na pia, ela acena para segui-la para um dos reservados. Eu fecho a porta atrás de nós. — O que está acontecendo? — Eu pergunto junto ao vaso. Ela começa a falar descontroladamente. — Você soube de papai? — Ela rói sua unha. — Não fique braba comigo. Não foi minha culpa. O céu da minha boca vira um deserto árido e eu me sinto atordoada, mas não tenho nenhuma vontade de me sentar no vaso com a minha roupa vermelha metálica. — Do que você está falando? Ela mastiga ruidosamente seu dedo. Depois de cuspir uma migalha de unha no vaso, ela jorra toda a história. — Papai apareceu quando estávamos prontas para ir ao desfile. Ele disse que queria ir com a gente como se fôssemos de novo uma família. E então começou a pedir perdão para mamãe e para que ela voltasse para ele. Ficou dizendo que estava totalmente apaixonado por ela que nem podia enxergar direito. Contou que cancelou o casamento e que queria se mudar para lá para casa. Eu estava no meu quarto, mudando de roupa, e ouvi a coisa toda. Então mamãe disse que ela precisava pensar, que ela estava com dor de cabeça, e foi ao banheiro tomar uma aspirina. E foi então que aconteceu. Acho que fiz alguma bagunça embaixo do armário do banheiro esta manhã com os sais marinhos e eu acho que ela deve ter calculado que alguma coisa tinha acontecido. — Miri estremece. — Hum... não sei se ajudou eu ter deixado o meu caderno de observações sobre feitiços no chão. — Miri — grito. — Vou matar você.


— Eu sei, eu sei, mas eu estava cansada e com pressa. — Lágrimas inundam suas bochechas. — Primeiro, ela viu o feitiço da limpeza de pele. E depois deve ter visto o feitiço do amor, porque entrou uma fera no meu quarto. Ela fez um gesto para a cozinha e perguntou: "Isso é coisa sua?" Eu tive de contar a ela a verdade, entende? E não por causa de nenhum feitiço da verdade, mas porque simplesmente eu tinha de fazer isso! Ela arrancou um pedaço da folha do caderno de anotações, lambeu-o e rasgou em um milhão de pedaços, então abriu a janela e jogou tudo fora, recitando um feitiço. Depois ela se virou para mim e disse: "Acabei de anular todos os feitiços que você fez." E então gritou comigo e me disse que eu era uma irresponsável e me perguntou se você estava nisso também. Eu tive de contar a ela. Então, ela voltou para a cozinha. Papai estava pálido e parecendo confuso, andando de um lado para o outro. E agora estamos todos aqui. Em nossos lugares. Mamãe está envergonhada e papai parece uma droga, se sentindo superconstrangido ao lado dela. Estou com vontade de vomitar. — Então isto significa o que eu acho que significa? Ela aponta para o meu nariz. — Nenhum dos feitiços que eu lancei funciona mais. Nem o feitiço da pele limpa, nem o feitiço do papai-apaixonado-por-mamãe, nem o feitiço do pontapé alto com rodopio e nem o... — O que é pontapé alto com rodopio? — Ah, não importa. Mas eu sinto muito mesmo. O que você vai fazer? Espere um segundo. Ela disse nenhum dos feitiços? — E o feitiço da dança? — grito. — Desapareceu — disse ela, com voz tristonha. Aimeudeus! Eu não consigo respirar. Este reservado encolheu de repente? Acho que estou morrendo de calor. Olho para o meu relógio: sete e cinqüenta. — Tenho de encontrar a London. — murmuro. Destranco a porta e corro para a sala dos armários. — Alguém viu London? — grito.


Ninguém presta atenção em mim. Todas estão gritando e usando os últimos minutos para praticar os movimentos. Eu não posso entrar no palco. London vai ter de entender. Disparo pelo corredor. Ela está em pé na porta do auditório revendo suas anotações na prancheta. — Pronta? — pergunta ela quando me vê. — Sinto muito, London, mas não vou conseguir. Estou doente. Sinto muito. Você vai ter que fazer sem mim. Os olhos dela se estreitam e ela brande o punho na minha cara. — Eu não me importo nem se você estiver morrendo, Rachel. Morrendo! Você vai entrar. — Ela olha para o seu relógio. — Agora. Sem chance. — Eu não posso. — Você tem de entrar. Ela crava suas unhas em meu abraço e me arrasta de volta à área dos armários. — Todas as garotas calouras, no palco! Vamos! A cortina abre com vocês. — Mas, mas... — Cala a boca, Rachel. Você não vai ferrar comigo agora, entendeu? Você está com pânico de palco. Eu tive isso no meu primeiro ano também. Isso passa logo que as luzes se acendem. Você vai ficar bem. Você sabe todos os movimentos. Dou um profundo suspiro. É verdade. Sei os movimentos. Aprendi a dançar. Posso me lembrar como fazê-los. Eu olho para os meus sapatos vermelhos. Talvez seja como em O mágico de Oz. Talvez a mágica tenha estado sempre dentro de mim. Eu só tinha que perceber isso. Sim! Eu consigo. A mágica está em mim! Com o coração martelando, sigo London e as outras garotas até os


bastidores. Cinco de nós tomam suas posições no cenário Chicago, escuro como breu. Escuto o barulho da multidão, mil pessoas na platéia. Eu consigo. — Boa sorte, garotas! — murmura Doree. E então o musical começa. A multidão grita de novo, a cortina sobe, as luzes brilham. É hora do show.


21. VOU TER DE PASSAR A ESTUDAR EM CASA

A música começa. — Vamos, garotas! — Parece tudo bem! — Simmmmm! O holofote está brilhando em meus olhos e não consigo enxergar para além da extremidade do palco. Eu posso dançar. Eu posso. Eu me lembro dos movimentos. Levanto minha perna da forma que eu acho que deve ser, a forma como as garotas estão fazendo, e eu estou bem. Sim! Estou bem. Mais ou menos. Elas estão cerca de meio segundo na minha frente. Oh, não. Estou fora do ritmo. Por que não consigo acompanhá-las? É como se eu fosse a garota do coro que está cantando um pouco mais alto e estridente do que as outras. Mas quando estou prestes a entrar em pânico, nosso segmento de cinco segundos termina, o resto do elenco entra e não há mais problema. Ufa!! Parece que ninguém notou que eu estava fora do ritmo. Pelo menos, acho que não, já que ninguém disse nada. Até aqui tudo bem. A próxima dança em que eu estou é o número dos calouros de Vegas, a única que Melissa coreografou. Depois de me trocar para um conjunto de saia rosa, vou para minha posição siberiana, e faço uma pequena prece para Melissa, agradecendo a ela por ter me colocado aqui atrás — longe, bem longe aqui atrás, de todo mundo. Não tenho de fazer nenhum movimento complicado;


só preciso fingir dar as cartas, o que consigo executar sem parecer muito idiota. Então, em vez de toda preocupação, tomo um momento para examinar o público. Mesmo com a pouca luz, não é difícil encontrar os assentos reservados para mim, já que são bem em frente e, mais chamativo ainda, é a única fila com três cadeiras vazias. Nos lugares ocupados estão sentadas as três pessoas mais pouco à vontade que eu já vi. Minha mãe está na ponta, uma expressão de ferocidade lívida em seu rosto, seus braços tristemente cruzados defronte do seu peito. Do outro lado está meu pai, que não consegue parar quieto e parece estar contando os segundos para escapar dali a toda. Afundada entre eles, murcha, parecendo uma fatia de carne vencida dentro de um sanduíche, está Miri. Tento telepaticamente dizer a ela para não se preocupar. Vou conseguir. Eu sou Dorothy e a mágica está em mim. Claro, certo, como se uma coisa dessas fosse funcionar. Troco para a roupa do número Miami com todas as garotas — figurino de short de tecido aveludado, sandálias e um top curtíssimo. (Obrigada, meu Deus, por não ter sido uma das garotas escolhidas para usar um top de biquíni) Quando Will anuncia o número com todas as garotas calouras e segundanistas, está cheio de fumaça na frente do palco! Eu vou conseguir! Dez de nós ficam na posição. Vamos lá, Dorothy, vamos! A música começa. Cinco, seis, sete, oito, braço esquerdo para cima, braço direito para cima, gire, corte, abaixe-se, chute para um lado... pise...pise... o quê? Oh. Era para alternar os lados do chute. Eu esqueci de alternar. Oh não oh não oh não. Estou com a perna errada. Todos estão chutando com a perna direita e eu estou chutando com a minha esquerda. O que eu estou fazendo? Estou totalmente fora de sincronia. Hora do balanço Harlem. Eu sei bem o balanço Harlem. Então por que os meus ombros não conseguem escutar o meu cérebro? Parem de balançar, ombros! Hora de remexer a bunda... Minha bunda não está remexendo.


Tenho certeza de que pareço mais estar sendo eletrocutada. Luzes coloridas brilhantes estão dançando ao meu redor, e agora eu nem mesmo sei o que eu tenho de fazer. Estou girando e chutando totalmente errado, e a platéia está começando a dar risadinhas. Sim, risadinhas. Que grossura. Comigo. Porque estou ferrando de verdade com tudo. Os olhos de Jewel se arregalam quando ela percebe que estou no lado errado do palco e não estou atravessando com ela na passarela, como era para fazer. Ela aponta seu queixo na direção do T, tentando me dar uma pista. Oh, não. Eu não quero descer a passarela. No que agito o meu corpo, o olhar de todo mundo se fixa em mim. Nenhum problema aqui. Argh. Não tem jeito de eu fazer a ondulação de corpo nestas condições, mas, do jeito que dá, sigo Jewel, descendo a plataforma. E tenho escolha? Então, aqui estamos, cada qual numa extremidade da passarela, fazendo o corpo ondular. Só que... eu não consigo fazer esse movimento. Meu corpo simplesmente não está ondulando. Está tendo espasmos. Alguém da fila da frente está estremecendo ao me ver. Com minha sorte, deve ser a mãe do Raf. Tão cedo ela não vai me convidar para jantar na casa dela. — Qual é o problema com você? — London diz entre dentes quando, finalmente, a tortura acaba e voltamos ao camarim. — Eu disse a você que não estou me sentindo bem — respondi. — Tome um comprimido qualquer e acabe com isso! Agora se troque para a dança formal! Eu evito os olhares das outras garotas e ponho meu lindo vestido Izzy. Não pode ser pior do que foi até aqui. Seja como for, a dança formal é lenta, e dança lenta é só balanço. Todo mundo consegue balançar, certo? Epa! Percebo que há um outro problema tão logo piso no corredor de entrada no palco. Estes saltos de madeira são altos demais. Agora que meu ritmo, digamos, não está perfeito, estremeço só de pensar no que esses saltos agulha vão fazer com o meu balanço. Estou quase caindo de cara no chão quando sinto um braço forte em torno de minha cintura. Raf.


— Você está linda — diz ele, radiante. É óbvio que ele não assistiu à dança com todas as garotas. Devia estar mudando de roupa no camarim e ainda não escutou nada sobre minha atuação desastrosa. Oh, não. Esqueci a espinha no meu nariz. Ele está olhando direto para a espinha. Eu sou uma anomalia hedionda, catastrófica. — Pronta para arrasar? — pergunta ele. Estou mais preocupada em arrasar nossa performance nessa passarela. — Ah — digo, protegendo meu nariz com minha mão. Eu já estava balançando o corpo nos bastidores. Claro que vou conseguir. Essa dança é lenta. Lenta e romântica. Vou conseguir, sim. É só não tropeçar nos meus próprios pés, e vou conseguir. Quando a música do Moulin Rouge começa, vinte de nós estão na posição marcada. Então, os dez garotos entram na passarela e nós os seguimos. Eu me balanço, mas faço isto no meu lugar em frente de Raf. Ai, ai, ai! Consegui! Ele me gira e então nós executamos nossos movimentos sexy. Bem, ele faz os movimentos sexy e eu tento parecer sexy, mas garanto que estou totalmente sem graça e, portanto, longe de parecer sexy. Isso é confirmado quando Raf cochicha: — Relaxe — durante nosso mergulho. Seus lábios estão somente a uma polegada do meu rosto. E então ele pergunta: — Você está bem? Não é o momento romântico que eu estive esperando a minha vida inteira. Confirmo com a cabeça e tento ficar concentrada. Como parte da dança já passou, dou um longo suspiro de alívio. Ah, sim! Agora tudo o que eu tenho a fazer é sair da passarela e voltar para o palco. Um casal por vez, caminhamos para o palco em duas filas. Somos os últimos da fila, Jewel e Sean bem na nossa frente. E então é que acontece. Eu piso na parte de trás do vestido de Jewel. Bem que disse a ela que o vestido era comprido demais.


Ela cai bem rápido. E então, como dominós, vão Melissa, Doree, Stephy e toda a fila de garotas à minha frente. Uma das segundanistas pousa na Torre Eiffel e a decapita. Os cenógrafos gritam horrorizados nos bastidores. Todo o público engasga. Atordoada, Stephy olha ao redor, esfregando seu cotovelo machucado. O coque de Doree está desfeito, uma maçaroca, Melissa esfrega a parte de trás de sua cabeça. Aimeudeus. Aimeudeus. Aimeudeus. A música continua a tocar, mas ninguém se mexe. Todos estão me encarando. Finalmente, a música pára e nós nos arrastamos silenciosamente para fora do palco. Raf nem mesmo olha para mim. É óbvio que ele nunca mais vai falar comigo. Eu acabei com o desfile. Logo que conseguimos fugir do palco, Melissa, Jewel, Doree e Stephy me rodeiam como tubarões. Escuto Will fazendo piadas de MC sobre termos posto a França de joelhos. — Que droga é essa que aconteceu lá no palco? — Melissa. — Você ferrou com tudo. Tem uma bola de golfe na minha garganta. — Desculpa. Jewel apenas balança sua cabeça. — Não vou entrar para o encerramento — digo. — Assim, não provoco mais nenhum desastre. — Nada disso — diz Doree, agitando ambas as mãos. — Precisamos de você no encerramento. O segmento calouro dura somente vinte segundos e vai parecer ridículo sem todos nós. Mas use seu tênis em vez dos saltos agulha, ou vai estragar esse número também. — Idiota — debocha Melissa. — Que lambança, hem? Infelizmente, assim como o meu talento, meu tênis especial havia desaparecido. Então,


mesmo achando que estou fazendo besteira, mudo para minha roupa toda preta e calço as botas pretas surradas. * Estou sentada no vaso sanitário, em total silêncio, me acabando de chorar, no mesmo banheiro em que eu e Miri estivemos horas antes. Nunca mais vou sair daqui de dentro. Nunca. Bem, pelo menos enquanto todo mundo não tiver saído do prédio. Melissa estava certa quando me chamou de imbecil. E que outras besteiras sou capaz de fazer? Fiquei pensando. Como pode qualquer coisa ser pior do que decapitar a torre e todo mundo rir de mim? Mas ia piorar sim. Depois de ter vestido minhas calças pretas e a camiseta sem manga, tomei minha posição. Mas, na hora em que era para o elenco inteiro estar em sincronia, eu me movimentei pelo palco de modo totalmente errado. Dei a guinada na hora errada. Virei na hora errada. Fiz uma trapalhada total. Mas, espere. Essa ainda não foi a parte mais horrível. Já que os agradecimentos eram logo depois do número final, tive de esperar no palco (com todos os calouros e segundanistas me lançando olhares venenosos) enquanto Will chamava o nome de cada dançarino por ordem alfabética. Ele chamou todo o elenco e, é claro, o público aplaudiu, gritou e correu para o palco para dar aos seus filhos as flores. E então ele anunciou: — Rachel Weinstein! Ninguém aplaudiu. Ou talvez alguém tenha aplaudido, mas eu não escutei por causa das gargalhadas. Caminhei até a frente da passarela como tinha de fazer, e não havia ninguém lá, me esperando para me dar flores. Nem mesmo meus pais, embora eu na verdade não pudesse censurá-los. É provável que estivessem com outros problemas em suas cabeças. E então, antes que eu pudesse correr do palco, totalmente humilhada, Will anunciou, "London Zeal", o último nome do show, e ela encaminhou-se pomposamente pela passarela, acenando para o público como uma rainha e segurando os buquês. Foi quando tropecei nos meus próprios pés, caí em cima da London,


esparramando a mim, a ela e a todas suas flores pelo palco. E ouvi um chocante crec. — Minha perna! Seu desastre ambulante! Era o grito dela, não o meu. Ela gritou de novo e então bateu na minha cabeça com uma rosa. Eu me desculpei profusamente antes de escapar dali como uma presidiária fugitiva. Fiquei no reservado do banheiro por quarenta minutos, tendo de escutar os piores desaforos que chegavam a mim através da porta — ninguém sabia que eu estava ali e falaram à vontade de mim. Não que eu esperasse alguma piedade depois de tudo o que eu fiz. Melissa me chamou de fracassada, Doree disse que nunca mais falaria comigo e, quando escutei Stephy dizer que London fora levada embora numa ambulância, perdi a noção de tudo. Puxei várias vezes a descarga para ninguém me escutar chorando. Ninguém entrou no banheiro nos últimos dez minutos, mas eu ainda não estou preparada para sair. Vou me transferir para outro colégio, e já. Se bem que as notícias do desastre podem se espalhar para todos os colégios, daqui e dos estados mais próximos, e aí ou vou ter de estudar em casa ou convencer minha mãe a se mudar para Iowa. Embora, neste momento, o mais provável é que ela esteja me odiando, e queira mesmo é me mandar para um internato. Não preciso nem dizer que não estou nada ansiosa para ir para casa. Se houvesse algum outro lugar para onde eu pudesse ir. Não posso nem sequer fugir para a casa do meu pai, já que arruinei a vida dele. E a vida da FMM, também. A Prissy vai ter de fazer terapia por muitos anos. Tammy me odeia. Duvido que o Raf vá querer conversar comigo de novo, muito menos me levar para o Baile da Primavera. Não vou mais ser da lista-A. Vou ser rebaixada para sempre para a listaD. De Desastrada. Alguém entra no banheiro e abre a porta da cabine ao lado da minha. Tento parar de chorar. Reconheço os sapatos pontudos por debaixo da cabine. São os sapatos da Jewel.


— Jewel — murmuro. Jewel foi minha melhor amiga por muito tempo. Ela vai saber o que eu devo fazer. Não vai me abandonar nessa hora de necessidade. — Rachel? — Ela dá descarga e abre a porta. — Tem mais alguém aí fora? — cochicho. — Só eu. Eu saio e, mais uma vez, irrompo em lágrimas. Estou que nem um bebedouro de água quebrado. Ela está passando os dedos no seu cabelo ainda alisado, que no entanto está começando a encrespar nas pontas. — Hum... não chore. Tudo ficará bem. Tenho vontade que ela faça um carinho nas minhas costas, ou qualquer coisa assim, mas ela continua brincando com seus cabelos. Então, tenho uma idéia. Não quero ir para casa. Quando eu brigava com minha mãe, ia dormir na casa de Jewel. — Será que eu podia dormir na sua casa esta noite? Hoje foi o pior dia que eu já tive. Ela dá um passo para trás. — Esta noite? Pra falar a verdade, vou para a casa da Mercedes esta noite. Para a festa do elenco, sabe? Talvez uma outra vez. Eu olho nos olhos dela. — Mas eu preciso de você agora. Ela vai saindo do banheiro. — Eu não posso — diz ela, com um pouco de tristeza na voz. A porta estremece quando ela a fecha. E assim, Jewel me descartou. De novo. Não sei o que vou fazer da vida. Então, me aproximo do espelho e me olho. Uma festa do elenco. Que legal.


Parei de chorar, mas minha maquiagem está uma meleca, minha espinha está enorme e meu cabelo está todo desarranjado. O oceano foi agitado por uma forte tempestade. Caí da posição de superestrela para a de leprosa social em menos de quatro horas. Perdi minha melhor amiga, de novo, e também meu quase-namorado. Dou um suspiro profundo e deixo meu refúgio. Minha mãe e irmã estão me esperando, recostadas na parede do corredor. Tento ler a expressão do rosto da minha mãe. Ela não parece feliz. Que legal. Tudo o que eu preciso. Berros na minha cara. Ela coloca seu braço em torno de meu ombro e me abraça. Eu começo a chorar de novo. * Quando chegamos em casa, tudo o que eu quero é rastejar até as minhas cobertas e nunca mais sair de debaixo delas, mas minha mãe diz uma coisa ameaçadora: — Venham para a cozinha. Quero conversar com vocês duas. Miri e eu nos sentamos e ficamos em silêncio enquanto minha mãe faz e serve para ela própria uma xícara de chá. Ela se senta na mesa e meneia sua cabeça. — O que vocês duas fizeram foi cruel. Cruel para seu pai, cruel para Jennifer... — Mas ela não servia para ele — interrompo. Ela me silencia com a mão. — Sei que vocês duas não gostam dela, mas não são vocês que decidem com quem seu pai casa. Só que não foram cruéis somente com eles, mas também comigo. Vocês têm alguma idéia da mágoa que me causaram? — A gente estava tentando ajudar você — diz Miri, fungando. — Me ajudar? Você achou que me fazer pensar que seu pai estava apaixonado por mim novamente poderia me ajudar? — Ela balança a cabeça e


toma um gole do chá em sua caneca I Love NY. — Levei dois anos para conseguir superar a separação. Quando ele foi embora, fiquei péssima. Chorava todas as noites até dormir. — Eu não sabia disso — fala Miri, comovida, seus olhos se enchendo de lágrimas. Assim como os meus. — Estava tentando me fazer de forte diante de vocês, meninas. Eu era doida por ele, e então, de repente, ele anunciou que não sentia mais o mesmo por mim. Eu nem sequer tentei conquistá-lo de volta. Pensei: para quê? Você não pode fazer que alguém sinta alguma coisa que não quer sentir. Então, me esforcei para tocar a minha vida sozinha para frente. Para cuidar da minha carreira e criar vocês duas sem ele. E logo eu descobri que era capaz de pegar no sono à noite sem chorar. Lentamente, acabei desistindo dele. Acabei com a esperança de ficar junto dele. Desistiu do moletom, eu me dei conta, então. Ela ri tristemente. — Comecei a ver como nosso casamento tinha realmente sido. Essa história de ele trabalhar até tarde, todas as noites, em vez de ficar comigo... ou com vocês. E o jeito dele, de sempre se colocar em primeiro lugar. Minha infelicidade virou irritação, mas isso também logo foi diminuindo. Percebi que ele não era o único culpado. Quando nos casamos, nunca disse a ele como me sentia. Eu costumava ficar tão quieta e dócil. Talvez se eu tivesse sido mais forte... se eu tivesse conversado mais com ele... — Ela balança sua cabeça. — Teria, poderia, deveria — entona ela, como se estivesse fazendo um feitiço. — Eu mudei, e ele também. Eu me tornei mais forte, mais confiante. E ele mudou também. Não está mais tão egocêntrico. Miri revira os olhos e minha mãe ri. — Está bem, talvez ele ainda tenha que mudar um bocado a mais do que eu, mas está tentando. — O rosto dela fica sério. — Parte de mim vai amálo para sempre... mas não daquela forma. Essa desapareceu. — Ela aponta um dedo acusador para nós. — Mas vocês duas! Justamente quando eu estava começando a me sentir feliz de novo, realmente feliz, ele reaparece na minha vida, dizendo me amar de novo. E então eu descubro que tudo é falso... Daí, toda a dor voltou e fiquei muito magoada.


— Nós achamos que você queria que ele amasse você — digo eu, com minha garganta apertada. — Se eu desse valor a um relacionamento baseado em amor falso, amor que era uma ilusão, vocês não acham que eu já teria lançado, eu mesma, um feitiço do amor? Epa! Miri e eu nos abaixamos em nossas cadeiras. — Eu sou uma bruxa, lembra? — continua ela. — Quando seu pai me abandonou, eu podia ter lançado um feitiço para fazê-lo ficar. Mas não fiz nada disso. Porque esse não é o amor que eu quero. — E então ela se põe de pé e coloca a caneca na pia. Minhas bochechas queimam de vergonha. Depois da loucura que passei no palco, era para achar que eu já estaria acostumada a uma sensação dessas agora, mas não estou. Egocêntrica. Essa sou eu, certo. Miri herdou a bruxaria de minha mãe e eu peguei o egocentrismo do meu pai. Existe alguma lista-E? Podem me pôr nela. E de estúpida. E de envergonhada. Eu usei todo mundo — mamãe, papai, Miri e até mesmo a FMM — para conseguir o que eu queria. Mas, o que eu achava que queria não tinha valor. Falsos amigos. Falso amor. Porque o amor que não é espontâneo não é amor nenhum. Pela primeira vez, mesmo que suas unhas sejam um desastre e as raízes de seus cabelos uma confusão total, e embora ela não tenha um namorado, gostaria de ser mais como minha mãe. Sábia. Poderosa. — Desculpe, mãe. Desculpe, Miri -. Meus olhos se enchem de lágrimas. De novo. — Como vou dar um jeito nisto? Miri dá de ombros. — Papai foi para casa desculpar-se com a FMM, mas duvido que ela vá querer ele de volta. Também não faço idéia de como consertar isso tudo.


Coloco a cabeça em minhas mãos e minha mãe afaga com seus dedos o meu cabelo despenteado. — Não sei se isso é uma coisa do tipo em que se pode dar jeito — diz ela. E sei que ela não está falando de meu cabelo.


22. BALANÇA ISSO AÍ!

Em vez de dormir, eu tramo. E bebo café instantâneo. Muito café instantâneo. Não é Macchiato caramelado gelado, mas resolve o problema. Acordo Miri as sete. — Olha só o que a gente pode fazer. Vou pegar o trem das 8:22 min, para Port Washington para convencer a FMM a aceitar o papai de volta. Até lá, vou telefonar para os cento e oito amigos e parentes daquela lista de e-mail para dizer a eles que o casamento vai acontecer, afinal. Vamos supor que a maioria deles seja casal, o que dá cinqüenta e quatro telefonemas de quarenta segundos cada. Isso deve levar trinta e seis minutos. Nesse meio tempo, você toma uma chuveirada e chama o pessoal do serviço contratado para o casamento, começando às nove. Dei para você três minutos para ligar e conversar com as dezesseis pessoas mais importantes. Você vai levar com tudo isso uns quarenta e oito minutos. Diga a eles que o casamento está de pé. Se algum deles bancar o difícil, você me liga lá na casa do papai e aí dou uma dura neles, entendeu tudo? Ela pula para fora da cama, parecendo aliviada e atônita. — Uau! Seu cérebro é como uma máquina de calcular. Então, você vai dar um jeito nessa confusão? — Vou tentar — respondo, embora ainda não tenha idéia do que irei fazer. Hummmm! Talvez a matemática seja o meu superpoder. Talvez eu faça a FMM resolver uma fileira de equações até que, de cansaço, perdoe a gente. Não. Ia ser mais eficaz se eu ameaçasse começar a roer minhas unhas. É claro que ainda tenho de encontrar meu pai, e ninguém parece ter a menor


pista de onde ele está. Talvez tudo isso não seja uma idéia tão boa assim. — Rachel — fala minha mãe, mostrando sua cabeça no vão da porta. Ela está usando seu modelo habitual para jogar charme irresistível nos homens: camiseta, short de dormir verde com listas e meias grossas brancas. — Posso falar com vocês por um segundo? Nós concordamos com um gesto de cabeça, e ela se senta na mesa de Miri. — Você sabe que não acredito que a gente deva usar mágica para brincar com as emoções das pessoas. Acredito que a todos deveria ser permitido sentir emoções verdadeiras. Sim, mamãe, nós sabemos, nós sabemos. Eu olho para meu relógio. — Mas eu acho que a FMM... — Ela pigarreia. — Quero dizer, Jennifer, está, muito provavelmente, sofrendo uma espécie de trauma emocional, neste momento, e eu me sinto parcialmente culpada. Afinal de contas, os poderes vêm de mim. E, Miri, eu deveria perceber que apesar da sua maturidade, você é apenas uma criança e é claro que você ia querer explorar seus poderes e brincar com eles. — Ela me dá um vidro de spray. — Quero que você use isto aqui em sua futura madrasta. Hum? — Você quer que eu a limpe? Ela balança sua cabeça. — Na noite passada, fiz um feitiço para você... e executei uma pequena mágica na banda que vai tocar no casamento, no pessoal do bufê e em todos os convidados que receberam a notícia do cancelamento. Miri aplaude. — Meu trabalho ficou muito mais fácil! — Sim, mas isso não significa que eu aprovo o uso da mágica para futuros problemas — continua minha mãe, sacudindo o dedo para Miri. — De fato, espero que essa experiência tenha ensinado a você que toda mágica tem sua conseqüência. — Ela fecha os olhos por um segundo, parecendo concentrada. Eu me pergunto em que ela está pensando. — Neste caso —,


continua ela, abrindo os olhos —, podemos fazer uma exceção. Afinal de contas, a mágica nos conduziu a esta confusão. — E essa coisa vai ajeitar tudo? — pergunto, apontando para o spray. — Não é complicado — explica minha mãe. — Tudo o que você tem de fazer é borrifar isso no peito da Jennifer. É uma poção de reversão do coração. Isso! Miri e eu atiramos nossos braços em torno de seus delicados ombros. — Você é a melhor mãe do mundo! — digo para ela. — Eu sei — responde ela, rindo. Cinqüenta e quatro telefonemas, muitas explicações apressadas e uma viagem de trem mais tarde, chego na casa de Long Island. Toco a campainha e fico numa posição de fugir em disparada. Está congelando. Por que está tão frio hoje? Já estamos quase em abril! Ouço passos, a porta abre, estou pronta para borrifar o spray... Meu pai e FMM estão de mãos dadas. Oh. Bem. — Oi — digo, na falta de algo melhor. — Oi, querida — cumprimenta meu pai. — Nós fizemos as pazes. Estou vendo. FMM, ainda em seu roupão de banho curtinho, está rindo intensamente. Eu os sigo pela sala de estar e fecho a porta atrás de mim. — Quando você chegou aqui? — pergunto a meu pai. — Depois do show. Passei toda a noite suplicando perdão a Jennifer por ter feito o que fiz. Avisto o que parece ser pelo menos dez dúzias de rosas em vasos na mesa da sala de jantar. Claro que essa montanha de flores não atrapalhou muito os objetivos do meu pai. FMM afaga o ponto calvo do meu pai. — O discurso no jantar de ensaio foi causado por uma insanidade


temporária. — Eu deveria ter dado uma festa de solteiro para descarregar a loucura do meu sistema — ele brinca. Ela lança um olhar de aviso ao meu pai. — Não venha com idéias, Daniel. Seus dias de solteiro acabaram. E melhor você se comportar sem nenhum tropeço para o resto de sua vida porque vai estar em condicional permanente. Ele a beija na bochecha e ela fica vermelha. Então, FMM se volta para mim. — Rachel, não me diga que você trouxe lama lá de fora. Ninguém lhe ensinou a tirar os sapatos antes de entrar na casa dos outros? Humm. Se eu borrifar esta poção nessa fenda entre os seios que ela faz questão de deixar à mostra, seu coração seria revertido novamente? "Seja boa", eu me lembro, resistindo à vontade de atacar. FMM suspira. — Temos de reprogramar o casamento. Na quinta à noite, liguei cancelando tudo. — Não! — exclamo, batendo o vidro de spray na mesa. — Não faça isso. Miri está telefonando para todo mundo, neste momento, para avisar que está tudo de pé. Eu hum... Eu sabia que vocês ficariam juntos de novo.... Ééé... Simplesmente, sabia... e hum... acho que vou... hum... — eu ergo meu vidro vaporizador — ...limpar os pés. FMM olha para meu pai e sorri. Só espero que seja por causa do casamento e não por eu ir limpar os pés. No momento seguinte, eles se agarram. É meio escandaloso, é verdade. Dá para eu ver a língua. Então, fujo para a cozinha e ligo para casa para ter certeza de que todas as coisas estão funcionando direito. Miri garante que tudo estará remarcado para hoje à noite. É claro. Minha mãe faz feitiços como ninguém.


Para ser simpática, vou preparar um banho para a Prissy (alguém precisa começar a se mexer por aqui!) e, enquanto a banheira está enchendo, dou um profundo suspiro e um telefonema. A secretária de Tammy atende na primeira chamada. — Oi, sou eu — falo. — Sei que você, provavelmente, está me odiando por tudo o que eu fiz. E tem toda a razão. Fui uma péssima amiga e quero pedir muitas desculpas. Sinto muito pelo que aconteceu na casa de Mick, por deixar você de lado, por trocar você pela Jewel e por tudo o mais. Você tem sido uma amiga maravilhosa, uma amiga de verdade, e eu não dei o valor que você merecia. Até agora. Seja como for, o casamento vai acontecer de novo e eu estou aqui na casa de meu pai. Você não tem de me ligar de volta. Sei que está ocupada se aprontando para a festa de hoje à noite. Espero que você e Aaron se divirtam um bocado. — Desligo, torcendo para que um dia ela me perdoe. Hora de aprontar Prissy. ("Eu adoro banhos porque eles são quentes e gostosos e eu tenho um travesseiro de banho e ele tem um cheiro gostoso e você gosta de banhos, Rachel?") É o mínimo que eu posso fazer. Miri chega na casa de meu pai duas horas mais tarde ("Você estava certa! Os telefonemas que eu dei levaram exatamente dezesseis minutos! Por que eu não posso ter um superpoder maravilhoso como a matemática?), e então colocamos nossas pútridas roupas rosas, que estavam, infelizmente, prontas e esperando por nós em nossos armários. — Vocês podem me ajudar? — FMM nos chama, do seu quarto. Prissy e Miri pulam para a cama dela. Meu pai está no banheiro, barbeando-se. FMM está se olhando no espelho, de costas para nós. O zíper das costas de seu elegante vestido — cinturado em cima e amplo na barra — bege, enfeitado de contas e sem alças, está aberto. Seus cabelos loiros estão num coque perfeito na nuca de seu pescoço. — Sinto muito por não ter ido ao desfile ontem, Rachel — diz ela. — Eu estava querendo muito ir, mas... eu não pude... — Sua voz desaparece. No


espelho, suas bochechas brilham e seus lábios tremem. — Eu entendo — digo, e fecho o zíper do vestido dela. E percebo que eu finalmente estou pronta. Pronta para deixar FMM tornar-se Jennifer.

A cerimônia é simples e bonita. A não ser por Prissy enfiando o dedo no nariz, Miri trabalhando eficientemente nos seus dedos e eu com um nariz parecendo rena de Papai Noel, a cerimônia toda é perfeita. Depois de voltar pela ala central, disparo para o banheiro. Para mais café instantâneo. Quando giro a fechadura da porta, vejo um cabelo e um nariz familiares. Tammy, num vestido azul longo de cetim, está lavando suas mãos. Minha garganta se aperta e eu não consigo dizer nada. Corro até a pia e lhe dou um tremendo abraço. — Eu não posso acreditar que você esteja aqui — murmuro. Ela se pendura em mim, de volta. — É claro que estou aqui. É o casamento do seu pai. — Mas eu fui horrível. — E, foi mesmo. Mas me lembrei de quando a minha mãe estava se casando. É duro pra gente. Eu agi como uma maluca também. Cortei todo o meu cabelo e me escondi dentro do armário. — Ela dá de ombros. — Quer dizer... sei como a gente se sente. — Você é fantástica. — Eu nunca me afastarei de Tammy novamente. Ela é uma verdadeira amiga. Espere um segundo. — E o Baile da Primavera? Você estava tão feliz pelo Aaron ter lhe convidado. — Não posso acreditar que você perdeu o baile por minha causa. — Na verdade — diz ela, corando — ele está aqui. Como a Jewel não estaria aqui, e já que eu sabia que você podia convidar dois amigos, então o convidei. — Ela ri. — Epa! Eu não devia ter feito isso? Você convidou o Raf também?


Eu sorrio, embora ouvir o nome dele me fizesse sentir uma pontada no coração. — Não, depois do desastre da noite passada, pode acreditar em mim, o Raf não quer nada comigo. Especialmente se for para ser visto dançando comigo. — Ou me levando para um baile. Pelo menos, não estou em casa vendo Guerra nas estrelas de novo. — Tem certeza que está tudo bem por Aaron estar aqui? Fiz o sinal de Ok dos mergulhadores e nossos braços se uniram, voltamos para o salão da recepção, onde um conjunto estava tocando algumas dessas músicas melosas de festa de casamento. Miri e Prissy estão dançando no meio da sala, assim como a maioria dos convidados. — Vem pra cá! — gritam quando me vêem. Estão doidas? Eu nunca vou dançar novamente. — Vamos nos sacudir — diz Tammy e faz um sinal chamando Aaron. Ele parece realmente uma gracinha em seu terno cinza. — Acho que não vai dar certo — murmuro. E então meu pai e Jennifer juntam-se à multidão e, de repente, todos balançam e se mexem juntos — e eu acabo não tendo escolha, não é? Sem um pingo de ritmo e parecendo como se estivesse sob um treinamento de choque, me junto aos meus amigos e família na pista de dança. E é demais!


23. NÃO É UM SAPATINHO DE VIDRO MAS DÁ PRO GASTO

— Olá!? — gritamos para dentro do apartamento. É manhã de domingo e estamos de volta em casa. Meu pai e Jennifer nos levaram até o trem e então pegaram um avião para o Havaí para a lua-demel. Prissy foi para casa de seus avós. Espero que eles agüentem... Toda aquela tagarelice pode ser demais para um casal mais velho. — Oi, garotas — minha mãe diz da cozinha. — Estou aqui fazendo aquele tofu com manteiga de amendoim de que vocês gostaram tanto. Ela arruma aquela nojeira numa caçarola enquanto a gente se enfia em nossas cadeiras. — Então? — pergunta ela, levantando uma sobrancelha. — Como foi? — Bom — responde Miri. — É — confirmo. — Foi bom mesmo. Ela ri. — Certo. — Então ela coça a nuca e ri. — Rachel, teve um visitante muito infeliz procurando você ontem à noite. O quê? — Hein? Mas quem foi? — Raf. Ele estava usando um terno e jurou que tinha marcado com você de apanhá-la para um baile. Quando eu disse que não sabia do que ele estava falando, Tigger tentou atacá-lo. Eu disse a ele que você estava no casamento de seu pai.


Não acredito. Nem por um único milésimo de segundo esperei que ele aparecesse. Ou que quisesse ser visto comigo em público. — O que... aconteceu? — perguntou quase sem voz. — O que você acha que aconteceu? Ele foi embora. Não seria eu a ir ao baile com ele. Pulo do meu lugar e corro até o telefone do meu quarto. Eu disco o número dele (que eu sei de cor, embora nunca tivesse tido coragem de ligar para ele). Toca uma, duas. Três vezes. Atende, Raf! — Alô? — fala uma voz profunda. — Raf? Eu sinto muito. Estou me sentindo uma idiota. Não há nada, senão um pesado silêncio do outro lado. Oh, não. Oh, não. — Eu achei que você não iria querer sair comigo depois... — Rachel? É você? Não é Raf. É Will. As humilhações continuam. — Desculpa — murmuro. Estúpida, estúpida, estúpida. — Hum... Raf está aí? — Não — responde Will.— Está em Nova Orleans com meus pais. — Ah, é. — Eu tinha esquecido. Estico o fio do telefone e me pergunto que tal enroscá-lo em meu pescoço. — Por que você prometeu ao meu irmão ir ao baile com ele se sabia que o casamento do seu pai seria na mesma noite? Não foi legal. Ele estava louco para ir ao baile com você. Ele gostava de verdade de você. Não pude deixar de perceber que ele colocou a frase no passado. — Eu sinto muito — repito. De novo, silêncio. Acho que não tem nada mais sobre o que conversar. — Tchau — eu digo.


— Até mais. Não acredito que estraguei tudo tanto assim. Mesmo depois de ter me comportado como uma louca, ele ainda gostava de mim e eu estraguei tudo mesmo. Cravei um alfinete direto no balão de minha potencial felicidade. Um alfinete, não — ataquei um pobre balão com uma serra elétrica. Desabo pesadamente na minha cama e fico gemendo de cara enfiada no meu travesseiro. Minha mãe bate na porta aberta. — Sim? — digo debaixo do travesseiro. Nunca mais vou levantar o rosto para respirar. Dane-se seu eu me sufocar. — Vocês já fizeram as pazes? — pergunta ela. Lá, lá, lá. Ela acha que minha vida é tão simples! — Ainda não. — Tudo bem. Quando isso acontecer, devolva a luva dele. Deve ter caído do bolso dele quando o Tigger atacou. O jantar vai estar pronto em dez minutos. — E cantarolando, ela volta para a cozinha. Luva? Ponho-me sentada com um pulo. Uma luva de lã cinza está sobre a minha colcha. Uma luva de lã cinza que pertence a Raf. Eu encaro a luva. A luva me encara de volta. Tá, eu sei que acertamos que os feitiços do amor estão proibidos. Mas, peraí. Essa luva não é uma luva normal. É um sinal. Por que outra razão teria Tigger atacado o Raf e feito com que ele deixasse cair a luva? Um último feitiçozinho não vai machucar ninguém. O que mamãe disse? Quando a mágica bota a gente em encrencas, podemos fazer exceções, certo?


— Ei, Miri...

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Feitiços e sutiãs Vol 1  

Sarah Mylanowski

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